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Dossiê

Este artigo pretende


ser uma contribuição
ENTRE O
para a teoria e a clínica
psicanalítica que se ope-
ra em torno dos pais,
FASCÍNIO E O
dos bebês e de profis-
sionais. Tratamos do HORROR: UM
processo da idealização,
acerca da figura da
mãe, tal como manifes- ESTRANHAMENTO
to na fala de enfermei-
ras. Diante deste, apon-
tamos os perigos de
N A C L Í N I C A MÃE
sua manutenção, bem
como a urgência em
trabalhá-lo.
E BEBÊ
Mãe pré-edipiana;
idealização; UTI
neonatal; tratamento
L é a M a r i a M a r tins Oales
BETWEEN FASCINATION
AND HORROR IN THE
CLINIC WITH MOTHER
AND BABY
This article intends
to be a contribution for "Minha mãe me dava muito... Me dava para
the theory and the todos os vizinhos, mas eu sempre voltava
psychoanalyst clinic that
happens around the para casa. Eu precisava tanto dela que lhe
mothers and fathers, the
roubei um vestido, para ficar sentindo seu
babies and the
professionals. We treat cheiro. Até que um dia ela me deu para uma
the process of
idealization about the mulher que morava muito longe de casa, e eu
mother's figure, as well não soube mais voltar. Agora, como saberei o
as the expression of the
nurses' speach. In que é ser mãe, só no cheiro?"
concern of that we
show the dangerous of
M ô n i c a , 28 anos
this maintenance and
urgency in work it out.
Pré-GEdipic mother;
idealization; ICU UM ESTRANHAMENTO
neonatal; treatment

presente ensaio é uma tentativa de


contribuir para a discussão, tanto teórica quanto

• Psicanalista, mestre em Psicologia Social pela PUC-SP,


professora da Universidade Federal do Pará, coordenadora do
Projeto Integrado Ensino, Pesquisa e Extensão Mulher e
Procriação. Diretora do ACOLHER - Instituto de Pesquisa,
Formação e Atendimento Multidisplinar, de Cunho Preventivo,
Aplicado à Saúde Integral da Mãe, do Pai e do Bebê.
clínica, e m t o r n o de q u e s t õ e s q u e o a t e n d i m e n t o à m ã e e ao
b e b ê t e m i m p o s t o aos p s i c a n a l i s t a s .
P o d e m o s d i z e r q u e a m ã e e a c r i a n ç a , p a r a a psicanálise,
são figuras q u e n ã o se e n c e r r a m n u m a representação real. Deve-
se levar e m c o n s i d e r a ç ã o o fato de que são p e r s o n a g e n s funda-
m e n t a i s da m i t o l o g i a , da religião, da literatura. Além disso,
m ã e e criança, nessa c o n d i ç ã o de p o t ê n c i a mítica, estão presen-
tes n o s v a l o r e s c o n t e m p o r â n e o s , i n t e r f e r i n d o , c o m v i g o r , n a
m a n e i r a de o l h a r , d e escutar, de falar, s e m esquecer, a i n d a , o
m i s t o de fascinação e h o r r o r que essas figuras suscitam e m n ó s .
N u m a escuta m a i s a t e n t a n a clínica, n o s d a m o s c o n t a d o
q u a n t o essa m ã e e essa criança, e n q u a n t o s í m b o l o s e m b l e m á t i -
cos, a n i m a m nossos p r o p ó s i t o s de estar j u n t o a elas, para delas
c u i d a r , salvar, a m p a r a r , a c o l h e r etc. É u m a m a n e i r a , e n t r e ou-
tras, de m a n t e r acesa a c h a m a desses fantasmas e m n ó s mesmos,
p o i s a fantasia n o s presenteia c o m a ilusão de q u e a p r o x i m i -
d a d e c o m esses significantes p r o d u z a m á g i c a sensação de sua
presença e m n ó s .
H o u v e u m t e m p o em que o u n i v e r s o infantil n o s i m p r e s -
sionava, t ã o insistente era a idéia de algo p a r a d i s í a c o . O traba-
l h o n u m a pré-escola d u r a n t e três a n o s p o s s i b i l i t o u - n o s levantar
o v é u e, c o m i s t o , d e s c o r t i n a r aquilo que vislumbrávamos
c o m o o "paraíso infantil".
A dissertação de m e s t r a d o A negação do mal. As idéias de
infância no imaginário adulto: um processo de idealização foi
a desconstrução, a duras penas, de u m processo ilusório. Foi
a s s i m q u e , p r o c u r a n d o e n c o n t r a r essa " i n f â n c i a " n o s e s p a ç o s
i n f a n t i s , a c a b a m o s p o r descobri-la c o m o u m a p r o d u ç ã o imagi-
nária, e p o r t a n t o narcísica, dos adultos. Dessa feita, nesses espa-
ços, c o m o Alice n o País das Maravilhas, caímos n u m b u r a c o e,
q u a n d o d e s p e r t a m o s , já d e v a n e á v a m o s n a q u i l o q u e era a saga
d o s a d u l t o s , o u seja, o i n v e s t i m e n t o , d e s e s p e r a d o , e m fazer
r e t o r n a r n o s s a c r i a n ç a i m a g i n á r i a - feliz, i n o c e n t e , a u t ê n t i c a ,
inteligente, m i l i t a n t e da liberdade, sem m a l d a d e e assexuada.
A r m a m o s , p a r a isso, u m c e n á r i o , ao m o d e l o de u m " é d e n " , à
a l t u r a de p o d e r a b r i g a r a e n c e n a ç ã o desse a c o n t e c e r , p a r a q u e
n ó s , c o m o voyeurs a p a i x o n a d o s , assistíssemos m a r a v i l h a d o s à
reaparição - c o m o u m a assombração - daquilo que "juramos"
( c h o r a m o s ) ter p e r d i d o .
N u m instante de lucidez, admitimos o que fazíamos: elegíamos
essa criança c o m o representante, mais fiel, de t u d o que lamentáva-
mos ter perdido c o m o amadurecimento. Visionariamente lhes atri-
buíamos a função de nos libertar da cruel realidade da finitude, da
incompletude, d o esquecimento da origem, da incerteza d o amanhã.
É interessante n o t a r que u m a das razões s e n t i m e n t a i s alegadas
pelos a d u l t o s p a r a " t r a b a l h a r " c o m crianças é a esperança de ficar
m a i s p e r t o desse p a r a í s o e, a s s i m , se c o n t a g i a r c o m a alegria, a
autenticidade e o conforto do descompromisso.
N a dissertação de m e s t r a d o , ao p e r g u n t a r às m u l h e r e s educado-
ras s o b r e o q u e viria a ser a i n f â n c i a , p e n s o q u e elas r e s p o n d i a m
c o n f o r m e o que as m o v i a : o desejo de ser m ã e de u m filho imagi-
n á r i o . Falavam, assim, d o bebê d o t e m p o da u n i d a d e a b s o l u t a , da
c o m p l e t u d e , da fusionalidade c o m o Nebenmensch^. P o r é m ali, em
suas respostas, já a n u n c i a v a m e se ofereciam ao t r a b a l h o de s u p o r t e
d o g r a n d e O u t r o . O n d e só u m a s u p e r o u t r a e n q u a n t o "Suficiente-
m e n t e b o a " p o d e r i a s u s t e n t a r o a d v i r de u m sujeito.

A FASCINAÇÃO: A MÃE ORIGINÁRIA DA


PSICANÁLISE

N o artigo sobre a f e m i n i l i d a d e , F r e u d (1933[1932]) d i s t i n g u i u


d u a s figuras de m ã e , d e n o m i n a d a s p o r ele de c a m a d a s identificató-
rias: "A p r é - e d i p i a n a , s o b r e a q u a l se a p o i a a v i n c u l a ç ã o afetuosa
c o m a mãe e esta é t o m a d a c o m o m o d e l o , e a c a m a d a subseqüente,
a d v i n d a d o C o m p l e x o de É d i p o , que p r o c u r a e l i m i n a r a m ã e e
t o m a r - l h e o lugar j u n t o ao p a i " (p.133).
Pode-se dizer que a m ã e mitológica da psicanálise é a m ã e pré-
edipiana, d o t e m p o da fartura, da a b u n d â n c i a . D o possuir t u d o e de
p o d e r dar t u d o . D e preencher e ser p r e e n c h i d o . T e m p o da felicidade
absoluta e infinita. T e m p o da fantasia de u n i d a d e c o m o o u t r o .
M a t h e l i n (1998)^, e m seu ú l t i m o l i v r o s o b r e a c l í n i c a psica-
n a l í t i c a c o m b e b ê s p r e m a t u r o s , r e p o r t a - s e a esse t e m p o m í t i c o :
" D e s d e a a u r o r a d o s t e m p o s , o o l h a r d o s h o m e n s , s o b r e esse m o -
m e n t o d e sua h i s t ó r i a , está m a r c a d o de e n t e r n e c i m e n t o . O m i t o
c u l t i v a d o h á m i l h a r e s d e a n o s p e l a r e l i g i ã o , p e l a l i t e r a t u r a , pela
p o e s i a evoca a felicidade perfeita. Para a h u m a n i d a d e i n t e i r a é o
m i t o d o p a r a í s o p e r d i d o . É a n o s t a l g i a d o t o d o , o s o n h o d e se
f u n d i r c o m o O u t r o a o p o n t o de fazer s e n ã o u m c o m ele, d e o
p r e e n c h e r e de ser p r e e n c h i d o " ( p . 1 5 ) .
T e m p o e m que, apesar da a m b i v a l ê n c i a c o n s t i t u t i v a e p r ó p r i a
d o regime de d u a l i d a d e , reinaria u m a singular h a r m o n i a , u m a
perfeita s i n c r o n i a n a o p o s i ç ã o atividade-passividade, t e m p o p r ó p r i o
da lógica desse p e r í o d o .
C a d a u m a das p e r s o n a g e n s d a t r a m a m ã e e b e b ê c o m b i n a m ,
n u m a c o r d o t á c i t o , fazer c o m o o u t r o , o u p o r m e i o de u m o u -
t r o , t u d o a q u i l o q u e é o u foi feito c o n s i g o m e s m a . D e s s e t e m -
p o d e l i g a ç ã o exclusiva e a f e t u o s a c o m a m ã e , d i z F r e u d : " A re-
lação d a a t i v i d a d e c o m a p a s s i v i d a d e é e s p e c i a l m e n t e i n t e r e s s a n t e .
Pode-se f a c i l m e n t e o b s e r v a r q u e e m t o d o c a m p o d e e x p e r i ê n c i a
m e n t a l , n ã o s i m p l e s m e n t e n o d a s e x u a l i d a d e , q u a n d o u m a crian-
ça recebe u m a i m p r e s s ã o p a s s i v a , ela t e n d e a p r o d u z i r u m a rea-
ção ativa. Tenta fazer ela própria o que acabou de ser feito a ela"
3
(1931, p.244) .
Afirma-se q u e a fase p r é - e d i p i a n a é a fase de relação exclusiva
c o m a m ã e , u m a vez q u e o p a i figura c o m o o i n t r u s o , p r e s e n t e ,
d e s d e s e m p r e , n o desejo da m ã e , m a s n e g l i g e n c i a d o n o desejo d o
filho: " N ã o d e v e m o s , p o r é m , d e s p r e z a r o fato de q u e o q u e nisso
e n c o n t r a expressão é o lado ativo da feminilidade e que a preferên-
cia da m e n i n a p o r bonecas p r o v a v e l m e n t e c o n s t i t u i p r o v a da exclu-
sividade de sua ligação à mãe, c o m negligência c o m p l e t a d o objeto
p a t e r n o " ( 1 9 3 1 , p.245).
Nela, a t r a m a a m o r o s a obedece à lógica fálica, exigente e insa-
ciável: " O a m o r infantil é i l i m i t a d o ; exige a posse exclusiva, n ã o se
c o n t e n t a c o m m e n o s d o q u e t u d o " ( 1 9 3 1 , p.239).
Poderíamos finalizar a f i r m a n d o que a M ã e O r i g i n á r i a , m i t o l ó -
gica, da psicanálise, c o m o q u a l q u e r m i t o , só p o d e r i a ser u m a figu-
ra t o d o - p o d e r o s a e infalível, p o i s capaz de s u p o r t a r e s u s t e n t a r n o
o l h a r , n a v o z e n o s b r a ç o s as d e m a n d a s e d e s m a n d o s de "sua ma-
jestade, o b e b ê " , exigente, exclusivista e insaciável.

O LABOR: O C A M I N H O PSÍQUICO PARA


ASCENDER À POSIÇÃO MATERNA

S e g u n d o a hipótese clássica da psicanálise, tal c o m o c o n s t r u í d a


p o r Freud, n o texto sobre a f e m i n i l i d a d e , desejar ser m ã e e desejar
ter u m filho c o n s t i t u e m - s e e m t e m p o s d i f e r e n t e s . T a i s desejos, é
b o m n ã o esquecer, são i n c o n s c i e n t e s e carregam consigo os d r a m a s
da fantasmática infantil.
O s t e x t o s f r e u d i a n o s p a r e c e m i n d i c a r q u e é n a fase pré-edi-
p i a n a , fase de ligação exclusiva c o m a m ã e , a n t e r i o r à castração, e
q u a n d o "as exigências de a m o r de u m a criança são i l i m i t a d a s ; exi-
gem exclusividade, e n ã o t o l e r a m p a r t i l h a " (1933[1932], p.123), que
a m e n i n a f o r m u l a r i a o desejo de ser m ã e , f r u t o d o p r o c e s s o de
identificação c o m a M ã e O r i g i n á r i a . Freud gostava de ressaltar que
tal v i n c u l a ç ã o a i n d a seria de o r d e m p r o f u n d a m e n t e afetuosa. Assim
é que, e x e r c e n d o sua p o s i ç ã o ativa, a criança faria c o m o b r i n q u e -
do - indiretamente - tudo aquilo
q u e s u a m ã e fez o u faz c o m e l a .
Dessa maneira, identificando-se à
m ã e , exercendo-se tal c o m o ela, esta-
ria a criança f o r m u l a n d o o desejo de
ser m ã e , tal c o m o sua m ã e .
"A fase d a ligação afetuosa pré-
e d i p i a n a , c o n t u d o , é decisiva p a r a o
f u t u r o de u m a m u l h e r : d u r a n t e essa
fase são feitos os p r e p a r a t i v o s para a
a q u i s i ç ã o das características c o m q u e
mais tarde exercerá seu papel n a fun-
ção sexual e realizará suas inestimáveis
tarefas sociais" (1933(1932], p.133).
E n t r e essas, p r e s u m i m o s ser a
m a t e r n i d a d e u m a de suas realizações.
E n t r e t a n t o , esclarece Freud, nesse
m o m e n t o , a m e n i n a a i n d a n ã o esta-
ria e x p r e s s a n d o o desejo de ter u m
filho: " N ã o n o s p a s s o u d e s p e r c e b i d o
o fato d e q u e a m e s m a desejou u m
b e b ê , a n t e r i o r m e n t e , n a fase fálica
n ã o p e r t u r b a d a : este era, n a t u r a l m e n -
te, o s i g n i f i c a d o de ela b r i n c a r c o m
b o n e c a s . . T o d a v i a esse b r i n q u e d o n ã o
era, de fato, expressão de sua femini-
lidade: serviu c o m o identificação
c o m sua m ã e , c o m a i n t e n ç ã o de
s u b s t i t u i r a a t i v i d a d e pela passivida-
de. Ela estava d e s e m p e n h a n d o o pa-
p e l de sua m ã e , e a b o n e c a era ela
p r ó p r i a , a m e n i n a : a g o r a ela p o d i a
fazer c o m o b e b ê t u d o o q u e sua
m ã e c o s t u m a v a fazer c o m ela. N ã o é
s e n ã o c o m o s u r g i m e n t o d o desejo
d e ter u m p ê n i s q u e a b o n e c a - b e b ê
se t o r n a u m b e b ê o b t i d o de seu p a i
e, d e a c o r d o c o m i s s o , o o b j e t i v o
d o mais i n t e n s o desejo f e m i n i n o "
(1933(1932], p.128).
Logo, seria d u r a n t e o C o m p l e x o
de É d i p o que a m e n i n a c o n s t r u i r i a a
f a n t a s i a d e r e a l i z a ç ã o d o desejo d e
ter u m filho. Vejamos c o m o ! A figu-
ra da M ã e passaria a f u n c i o n a r , d e p o i s da descoberta da diferença
a n a t ô m i c a entre os sexos, n a c o n d i ç ã o daquela a q u e m falta alguma
coisa e de q u e m a m e n i n a h e r d o u esse m a l e de q u e m , p o r t a n t o ,
c o n v i r i a se afastar.
M e r g u l h a n d o n o u n i v e r s o d a falta, a m e n i n a se p o r i a e m
b u s c a d a q u i l o q u e " p r e e n c h e " a falta n o desejo da m ã e . Dar-se-ia,
então, o e n c o n t r o fundante da nova o r d e m - da cultura - que
interferirá s o b r e m a n e i r a , d a q u i p o r d i a n t e , n a o r d e m d o desejo da
m u l h e r . É nessa n o v a o r g a n i z a ç ã o , s o b os efeitos d a c a s t r a ç ã o e
n u m a atmosfera de p r o f u n d a hostilidade c o m a mãe, que a m e n i n a
f o r m u l a r i a a fantasia de ter u m filho c o m o pai, sem a i n d a se dar
c o n t a d o perigo d o i n c e s t o q u e a r o n d a . Para ela, esse pai seria o
ú n i c o c a p a z de r e p o r " a q u i l o " q u e lhe falta ( p o r m e i o de u m fi-
l h o ) , u m a vez q u e já havia r e p o s t o p a r a sua m ã e - a m a i o r rival.
P a r a F r e u d , a p r o b l e m á t i c a a q u i seria da a p r o p r i a ç ã o e da c o m -
p e n s a ç ã o , t r a d u z i d a pela e q u a ç ã o s i m b ó l i c a p ê n i s (falta) = filho.
N a a m p l i a ç ã o dessa tese, nossa e x p e r i ê n c i a clínica sugere
ser p e r t i n e n t e a d m i t i r q u e u m f i l h o v e m , n a m a i o r i a das vezes,
t a m p o n a r u m a falta e a c e l e r a r o p r o c e s s o d e l u t o . E n t r e t a n t o ,
n ã o só o v a z i o d a f a l t a e s t r u t u r a l , p r o d u z i d o p e l a c a s t r a ç ã o ,
l e v a r i a u m a m u l h e r a desejar t e r e até m e s m o v i r a t e r u m fi-
l h o , m a s o u t r o s v a z i o s , d e i x a d o s pelas p e r d a s a o l o n g o d a v i d a ,
tais c o m o : a b o r t o s ( e s p o n t â n e o s e p r o v o c a d o s ) ; m o r t e s de filhos
( i n t r a - u t e r i n o , r e c é m - n a s c i d o , c r i a n ç a ) , d e p a i , d e m ã e , d e ir-
mãos, amigos; perdas profissionais; perdas orgânicas (infertilida-
de), etc. E a i n d a , d e p e n d e n d o d o s e n t i d o desse v a z i o , esse f i l h o
p o d e r i a vir e m b a l a d o em m a r é de idealizações, m a s c a r a n d o ou
c o m p e n s a n d o a s o l i d ã o , a p o b r e z a , a a u s ê n c i a de p l a n o s , perse-
g u i n d o a i l u s ã o d a c o m p l e t u d e e, às v e z e s , até m e s m o , c o m o
amuleto, para dar sorte à vida.
D u r a n t e m u i t o t e m p o , na psicanálise, a equivalência simbólica
(pênis = filho), e n q u a n t o reparação da castração para a menina, gozou
de certa p o s i ç ã o de suficiência para dar c o n t a de " t o d a s " as razões
que levariam u m a m u l h e r a desejar ter u m filho. N ã o resta d ú v i d a
d o q u a n t o os estudos sobre a problemática psíquica da procriação n o
universo f e m i n i n o privilegiaram, sobremaneira, esse enfoque: d o filho
placebo, daquele que vem aliviar a d o r pela falta de algo.
C o n t u d o , o q u e se t e n t a a r g u m e n t a r , p o r ora, é q u e o desejo
de ser m ã e p a r e c e n ã o se c o n f u n d i r c o m o desejo de ter u m fi-
l h o . Talvez seja p o r essa razão que se p o d e ser m ã e sem, necessaria-
m e n t e , precisar ter u m filho. O u e n t ã o que, d i a n t e de u m filho, a
m u l h e r sinta-se m u i t o mais absorvida pela função m a t e r n a , d o que
p r o p r i a m e n t e e n e b r i a d a pela c o n t e m p l a ç ã o de sua falta. É, p o r t a n -
t o , nesse u n i v e r s o , das r a z õ e s e d o s c o n f l i t o s q u e l e v a r i a m u m a
m u l h e r a desejar a s c e n d e r à p o s i ç ã o
de m ã e , q u e se a c r e d i t a ter u m l o n -
go c a m i n h o a percorrer.
Q u a n d o F r e u d , nesse a r t i g o d e
1933[1932], e x p õ e suas teses s o b r e o
c a m i n h o p a r a a f e m i n i l i d a d e , decla-
ra, e c o m b a s t a n t e surpresa, a desco-
b e r t a d a i m p o r t â n c i a (em t e r m o s de
e s t r u t u r a ç ã o p s í q u i c a e sexual, de
d u r a ç ã o de t e m p o e sobrevivência
de fixações) d a relação c o m a m ã e -
d o s p r i m e i r o s t e m p o s d e vida - t a n -
t o p a r a o m e n i n o , q u a n t o , d e for-
m a i n i m a g i n á v e l , p a r a a m u l h e r . Pe-
r í o d o , p o r t a n t o , c o m o já a s s i n a l a -
m o s , de c o n s t r u ç ã o d o desejo de ser
m ã e . D i z i a ele: " S a b í a m o s , n a t u r a l -
m e n t e , q u e h o u v e r a u m estágio pre-
l i m i n a r de v i n c u l a ç ã o c o m as m ã e s ,
m a s n ã o s a b í a m o s q u e p u d e s s e ser
tão rico e tão d u r a d o u r o , e que pu-
desse d e i x a r a t r á s d e si t a n t a s o p o r -
t u n i d a d e s para fixações e disposi-
ções... E m s u m a , fica-nos a i m p r e s -
são de q u e n ã o c o n s e g u i m o s e n t e n -
der as m u l h e r e s , a m e n o s q u e valori-
z e m o s essa fase d e s u a v i n c u l a ç ã o
pré-edipiana à m ã e " (p.120).

N o e n t a n t o , essa fase n u n c a foi


u m m a r d e r o s a s , c o m o p a r e c e se
i m p o r n o m i t o . Freud adverte, várias
vezes, sobre os t e m o r e s q u e a criança
n u t r i r i a p o r sua m ã e , p o r e x e m p l o :
d e ser d e v o r a d a , e n v e n e n a d a , e n f i m ,
de ser a s s a s s i n a d a . O s desafetos n ã o
p a r a r i a m p o r aí, u m a vez que a crian-
ça cumularia, durante esse tempo, t o d o
u m rosário de queixas e acusações con-
tra sua m ã e p o r lhe ter s i d o escassa,
t r a i d o r a , s e d u t o r a e c a s t r a d o r a : "...te-
m o r de ser morta (devorada?) pela mãe.
É plausível p r e s u m i r q u e esse t e m o r
c o r r e s p o n d e a u m a hostilidade que se
desenvolve na criança, em relação à
m ã e , e m c o n s e q ü ê n c i a das m ú l t i p l a s m a r de h o s t i l i d a d e q u e teria r e s t a d o
restrições i m p o s t a s p o r esta n o decor- de sua relação c o m mãe? " O afastar-
rer d o t r e i n a m e n t o e d o c u i d a d o cor- se d a m ã e , n a m e n i n a , é u m p a s s o
poral, e que o m e c a n i s m o de projeção q u e se a c o m p a n h a de h o s t i l i d a d e ; a
é favorecido pela idade precoce da or- vinculação à mãe termina em ódio.
ganização psíquica da criança" (Freud, U m ó d i o dessa espécie p o d e t o r n a r -
1931, p.234). se m u i t o i n f l u e n t e e d u r a r a v i d a
Dessa m a n e i r a , n ã o p o d e n d o se t o d a " (1933[1932], p.122).
afastar d a m ã e , d e q u e m sua s o b r e - Freud l e m b r a q u e a m a t e r n i d a d e
vivência dependia, não p o d e n d o exige d a m u l h e r passar e m revista a
t a m b é m sobreviver psiquicamente relação c o m sua m ã e , q u e r dizer, fa-
d i a n t e de t a n t a h o s t i l i d a d e - por- zer u m v e r d a d e i r o a c e r t o d e c o n t a s
q u e g e r a d o r a d e u m a g a l o p a n t e pa- r e v i s i t a n d o seu p r o c e s s o identificató-
ranóia, em decorrência da precarie- r i o a p a r t i r d o seu l u g a r d e f i l h a .
dade d o aparelho - a saída, para o S e n d o assim, d o lugar de filha da
p s i q u i s m o i n f a n t i l , seria sem d ú v i d a m ã e , faria ela - a m u l h e r - a c o n s -
o recalcamento. t r u ç ã o e a p r o j e ç ã o d a m ã e q u e gos-
"Esta idéia de u m a perfeita sim- t a r i a d e vir a ser.
biose mãe-bebê, i m a g e m de p l e n i t u d e "Sob a influência da transforma-
e de alegria i n f i n i t a , seria ela o fru- ção d a m u l h e r e m m ã e , p o d e ser re-
to de u m après-coup o u o reflexo d a vivida u m a identificação c o m sua
realidade?", pergunta Mathelin em p r ó p r i a m ã e , c o n t r a a qual ela v i n h a
seu t r a b a l h o (1998, p.15). T e n d e m o s , b a t a l h a n d o até a é p o c a d o c a s a m e n -
realmente, a acreditar, c o m o Freud, t o , e i s t o é c a p a z d e a t r a i r p a r a si
que t o d a essa hostilidade, m e s m o que toda a libido disponível" (1933
i n t e n s a m e n t e vivida pela criança de [1932], p.132).
m a n e i r a afetiva, s u b m e r g e r i a à a ç ã o M. Bydlowski (1995) , a partir 4

d o e s q u e c i m e n t o e m favor d a sobre- da clínica com mulheres d u r a n t e a


vivência psíquica da criança. " T u d o gravidez o u c o m p r o b l e m a s de infer-
n a esfera dessa p r i m e i r a ligação c o m tilidade, p r o p õ e que galgar a posi-
a m ã e m e parecia tão difícil de apre- ção m a t e r n a é c o m o q u e o p e r a r u m a
ender nas análises - tão esmaecido cadência entre a Sombra Materna
pelo t e m p o e tão obscuro e quase ( m ã e i d e a l i z a d a ) e a D í v i d a d a Vida
i m p o s s í v e l d e r e v i v i f i c a r - , q u e era ( m ã e r e a l , c a s t r a d a ) . P a r a ela, d u a s
c o m o se h o u v e s s e s u c u m b i d o a u m a condições tornam-se imprescindíveis:
repressão especialmente inexorável" a n e c e s s i d a d e de ter u m a S o m b r a
( 1 9 3 1 , p . 2 3 4 ) . E q u e só v i r i a a ser Materna, por u m lado, justificaria
re-significada n u m t e m p o p o s t e r i o r e tanto a imposição do recalcamento
n u m t e r r e n o fértil, o u seja, n o É d i - q u e i n c i d i u s o b r e os d e s a f e t o s p r é -
p o , fase, p o r excelência, de p r o f u n d a e d i p i a n o s , assim c o m o , de o u t r o
hostilidade. l a d o , s u s t e n t a r i a a i m p o r t â n c i a , para
C o m o seria e n t ã o p a r a a m u - a mulher, em m a n t e r resguardada,
l h e r , já n a v i d a a d u l t a , a s c e n d e r à d e f o r m a i m a g i n á r i a , a figura ideali-
posição materna, mergulhada n u m zada d a M ã e O r i g i n á r i a , o r i u n d a dos
t e m p o s iniciais da vida, aquela dos e desacertos aí i m p l i c a d o s e exigidos
primeiros cuidados, fonte da vida e da - , d e u m l a d o , e, d e o u t r o , a p r o -
t e r n u r a . C o n d i ç õ e s q u e lhe facilitari- d u ç ã o i m a g i n á r i a , m i t o l ó g i c a , ideali-
am, sobremaneira, atender à exigência zada em t o r n o da figura da M ã e ,
de u m a inexorável reconciliação c o m parece r e i n a r u m p r o f u n d o estranha-
sua mãe, a fim de que pudesse realizar, m e n t o entre o fascínio e o h o r r o r .
a c o n t e n t o , o desejo da m a t e r n i d a d e . Se, a t e n t o s , e s c u t a r m o s o c o n s -
A outra condição circularia em t r a n g i m e n t o , o d e s c o n f o r t o , as ex-
t o r n o de u m a dívida. S e g u n d o a au- pressões de intolerância dos profissio-
tora, "a vida n ã o é u m p r e s e n t e gra- nais ( c o m os q u a i s d i v i d i m o s o ser-
t u i t o , m a s carrega e m si a exigência v i ç o e m U T I s n e o n a t a i s ) d i a n t e das
de t r a n s m i t i r essa q u e lhe foi d a d a " mães q u e d e s m o r o n a m , que c h o r a m ,
(p.165). C o m o r e c o n h e c i m e n t o dessa q u e b r i g a m , q u e n ã o o b e d e c e m às
dívida, q u e p o d e r i a ser paga o u n ã o n o r m a s , explícitas e implícitas, q u a n -
c o m a p r o c r i a ç ã o , a m u l h e r precisa- d o v ã o visitar, n o s h o r á r i o s estabele-
ria a d m i t i r , p o r i d e n t i f i c a ç ã o , q u e c i d o s , seus b e b ê s , n a s c i d o s p r e m a t u -
h a v e r i a algo de sua m ã e e m si mes- ros. C o n f i r m a m o s o que Mathelin,
m a , o u seja, o D o m de d a r a v i d a . n u m t r a b a l h o de q u i n z e a n o s c o m o
Processo q u e t a m b é m implicaria acei- psicanalista em u m a UTI neonatal,
tar essa m ã e c o m o c a s t r a d a e frágil, v e m c o n s t a t a n d o : "As mães q u e frus-
e m c o n d i ç õ e s d e fazer r e n ú n c i a s e t r a m esses ideais são as m ã e s a n o r -
aceitar perdas. Assim, p o r gratidão, mais, são elas que a m e a ç a m a h a r m o -
a filha pagaria c o m u m a vida a q u i l o n i a d a m a t e r n i d a d e , essas q u e s ã o
q u e l h e foi c o n c e d i d o , pela m ã e , a m b i v a l e n t e s " (1998, p.18).
apenas c o m o u m a possibilidade. M a r i s a , a p ó s t e r p e r d i d o es-
Nessa t r a m a seria imprescindível p o n t a n e a m e n t e d o i s bebês, está c o m
considerar que, e n q u a n t o dívida, a c i n c o meses de gravidez q u a n d o
devedora - filha - deveria t a n t o m o r r e de c â n c e r a sua m ã e , que
reconhecê-la, q u a n t o desejar saldá-la. a n t e r i o r m e n t e já a a m a l d i ç o a r a p o r
E n q u a n t o credora, a mãe deveria tam- tê-la a b a n d o n a d o p a r a casar-se. So-
bém reconhecer que emprestou o freu, d u r a n t e t o d a a gravidez, u m
D o m e, n a carência, se d i s p o n i b i l i z a r m e d o d e s c o m u n a l de perder, p o r
a aceitar o p a g a m e n t o , a u t o r i z a n d o c a s t i g o , esse b e b ê . A o v i s i t a r s u a
sua filha à procriação. filha n a U T I , d i a n t e da i n c u b a d o r a ,
c h o r a v a c o p i o s a m e n t e de e m o ç ã o ,
de alegria p o r sua filha estar viva
e estar s o b r e v i v e n d o .
O HORROR: ENTRE D i z i a a e n f e r m e i r a à psicóloga:
"Essa m ã e c h o r a m u i t o , n ã o faz
DESEJAR E REALIZAR b e m p a r a o b e b ê . E n q u a n t o estiver
assim, é b o m n ã o entrar". "Essa m ã e
E n t r e a r e a l i d a d e de ser m ã e - é m u i t o estressada, é b o m que n ã o
e n q u a n t o experiência c o r p o r a l e psí- v e n h a m a i s a q u i , isso vai p r e j u d i c a r
q u i c a , de p r a z e r , s o f r i m e n t o , acertos o bebê."
M ô n i c a , o u t r a p a r t u r i e n t e , havia esbravejado c o n t r a essa enfer-
m e i r a , q u a n d o , a o chegar à U T I , s o u b e q u e h a v i a m d a d o m a m a d a
p a r a seu b e b ê p e l a s o n d a , m e s m o ela e s t a n d o n a m a t e r n i d a d e e
tendo pedido, insistentemente, que a chamassem.
Essas m u l h e r e s - m ã e s , c o m o seria de esperar, n ã o s u p o r t a m os
desatinos d o inconsciente e t r a n s b o r d a m , sem n e n h u m p u d o r , o
s o f r i m e n t o cruel da inexorável a m b i v a l ê n c i a dessa "presença simul-
t â n e a , n a relação c o m o m e s m o o b j e t o , de t e n d ê n c i a s , de a t i t u d e s
e de s e n t i m e n t o s o p o s t o s , p o r excelência o a m o r e o ó d i o "
( L a p l a n c h e & P o n t a l i s , 1 9 8 3 , p . 4 9 ) . D i a n t e d o h o r r o r das c e n a s
q u e são " o b r i g a d a s " a assistir, sem o p ç ã o , falam desse s e n t i m e n t o
q u e resvala e n t r e q u e r e r q u e seu b e b ê sobreviva a q u a l q u e r p r e ç o ,
de n ã o querer se afastar dali u m s e g u n d o , o u e n t ã o , de querer que
a q u e l a s i t u a ç ã o t e r m i n e d e a l g u m a f o r m a ( m e s m o q u e seja e m
m o r t e ) , d e n ã o s u p o r t a r estar ali, de n ã o q u e r e r vir n u n c a m a i s .
M ã e : Não vejo a hora de isso tudo terminar. Não entendo
por que eu não posso montar uma UTI na minha casa.
Tia: Deus o livre e guarde de acontecer alguma coisa, não dá
tempo de o socorro chegar, e aí, já viu, morre um outro.
M ã e : Doutora, a senhora sabe quanto esse menino já me cus-
tou? Um Corsa completo.
C o n t u d o , c o m o n o s relatos m í t i c o s , nas p e r s o n a g e n s literárias,
n a s expressões d e e n c a n t a m e n t o d o s avós, p a r e n t e s e a m i g o s , nas
falas i d e a l i z a d a s d e m é d i c o s e e n f e r m e i r o s e, t a m b é m , nas teorias
psicológicas acerca d a f u n ç ã o m a t e r n a , t o d o s , e m c a n t o u n í s s o n o ,
c o m o n u m a l a d a i n h a e n ã o s u p o r t a n d o essa m ã e d e s m i l i n g ü i d a ,
p a r e c e m i m p l o r a r seu a f a s t a m e n t o e i n v o c a r a M ã e b o n d o s a , meiga
e abnegada; rogar sua presença p o d e r o s a e exuberante; tecer as fan-
tasias s o b r e o b e b ê i m a g i n á r i o e s a u d á v e l . "Se n ó s t o m a m o s , p o r
e x e m p l o , o t r a b a l h o r e a l i z a d o e m m a t e r n i d a d e o u e m serviço de
pediatria para recém-nascido, constatamos o q u a n t o t u d o é posto
p a r a f u n c i o n a r a fim de q u e a i m a g e m d a d o ç u r a e d o a m o r ma-
t e r n a l seja p r e s e r v a d a a t o d o p r e ç o " ( M a t h e l i n , 1998, p.18).
Parece que esses adultos, exigentes da mãe todo-poderosa, amorosa,
a m a n t e de seu bebê, n ã o s u p o r t a m a ameaça de r e l e m b r a r que, u m
dia, estiveram n o lugar desse bebê que a mãe negou e, até m e s m o , de
se ver n o lugar da mãe que o rejeitou. Defendem-se, p o r assim dizer,
d o r e t o r n o daquilo que, faz alguns anos, lhes foi b a n i d o da lembran-
ça. " C o m o se u m a angústia impensável estivesse ligada à perda desta re-
lação arcaica da criança c o m sua mãe" (Thomas-Quilichini, 1998, p.15).
Depois de u m a c o n v e r s a c o m F á t i m a , m ã e de t r i g ê m e o s ( u m
deles n a s c e u m o r t o ) , e sua tia p o r t u g u e s a , s o b r e a d i f i c u l d a d e de
desempenhar a função materna, com todos os conflitos e sofrimen-
tos q u e esta faz emergir, c o m o se isso n ã o fosse b a s t a n t e e, a i n d a ,
ter q u e d a r c o n t a das c o b r a n ç a s d o s m é d i c o s , p a r e n t e s etc. p a r a
r e p r e s e n t a r a s u p e r m ã e , feliz e a b n e g a d a , e n f i m , dizia a tia:
" E n t ã o , d o u t o r a , era c o m o se eu pudesse falar assim: n ã o , n ã o
m e v e n h a fazer l e m b r a r disso! D i g a , a f i r m e s e m p r e , m e devolva a
ilusão de acreditar q u e a ú n i c a m ã e q u e tive e a ú n i c a q u e fui é a
m ã e f o n t e d o a m o r e d a v i d a , q u e n u n c a d e s a m o u sua cria, q u e
n u n c a desejou sua m o r t e . C a s o c o n t r á r i o , q u e farei c o m as feridas
q u e v o l t a r ã o a p u r g a r , os r e s s e n t i m e n t o s que emergirão, c o m o con-
v i v e r c o m essas l e m b r a n ç a s h o s t i s e d i l a c e r a n t e s ? S i m , d o u t o r a ,
p o r q u e u m dia t o d o o m u n d o foi n e g a d o e t a m b é m r e n e g o u . Até
C r i s t o , n ã o foi m e s m o ? "
Parece que os profissionais, ao assumirem a função de guardiões
da saúde d o bebê, protegem, n ã o só a este, mas t a m b é m a si mesmos,
das lembranças dessa mãe devoradora, escassa, sedutora, repressora, que
fora recalcada e lançada nos confins da escuridão d o esquecimento.
P r o t e g e n d o seus bebês, p r o t e g e m a si m e s m a s desses invasores
que, c o m o vírus da ambivalência, a m e a ç a m c o n t a m i n a r o a m b i e n t e
ascético, l í m p i d o , em q u e reluz s o m e n t e o desejo de vida e em que
se d e s i n f e t a o desejo d e m o r t e , a t o d o m o m e n t o , p o r c o n s t a n t e s
esterilizações a m b i e n t a i s . A m b i e n t e este, r e s g u a r d a d o d e t o d a s as
p o d r i d õ e s h u m a n a s . E n q u a n t o isso os f a n t a s m a s d o s t e m p o s pré-
e d i p i a n o s , s u b m e r s o s n u m r e c a l c a m e n t o v i g o r o s o , p r e s s i o n a m , cla-
m a m pelo seu r e t o r n o e, c o m o que e n l o u q u e c i d o s , vingam-se nessas
mães, dilaceradas p o r u m a fragilidade narcísica e x t r e m a .

A IDEALIZAÇÃO

É interessante n o t a r que o m e s m o m e c a n i s m o de enalteci-


m e n t o q u e v i m o s manifestar-se n o i m a g i n á r i o d o s a d u l t o s educa-
dores e m relação à infância, n o t r a b a l h o q u e levou à nossa disser-
tação de m e s t r a d o , parece se d a r c o m relação à figura da M ã e , en-
q u a n t o i d e a l . E a i n t r a n s i g ê n c i a d i a n t e d a m ã e real, e seu l a d o
i n s u p o r t á v e l , p a r e c e ficar m a i s e x p o s t a . A f i n a l , o c o n f l i t o se dá
entre adultos.
A idealização, s e g u n d o a psicanálise, é u m p r o c e s s o p s í q u i c o ,
m a r c a d o pelo n a r c i s i s m o , e m q u e as qualidades boas d o objeto são
s u p e r v a l o r i z a d a s , e as q u e d e s a g r a d a m são n e g a d a s . Nesse j o g o de
e x t r e m o s , o d e s p r a z e r o s o , o desconfortável, o e s t r a n h o a c a b a m p o r
s u c u m b i r a u m p o d e r o s o r e c a l c a m e n t o , p a s s a n d o a existir, substan-
c i a l m e n t e , n a c o n d i ç ã o de fantasmas a m e a ç a d o r e s .
P e r g u n t a r í a m o s , p o r t a n t o : a serviço de q u e e m nossa engrena-
g e m p s í q u i c a estaria a idealização? D i r í a m o s q u e estaria a serviço
d o r e c a l c a m e n t o e f u n c i o n a n d o c o m o defesa.
P o n d e r a r í a m o s a i n d a que a p o d e r o s a crença n a m ã e a m o r o s a e
perfeita, vigorosa c o m o é nos t e m p o s atuais, parece justificar a
i d e a l i z a ç ã o c o m o u m m e c a n i s m o d e d e f e s a c o n t r a as p u l s õ e s
d e s t r u t i v a s , tal c o m o o c o n c e b e u M e l a n i e K l e i n . Defesa c o n t r a o
r e t o r n o das r e m i n i s c ê n c i a s d o t e m p o p r é - e d i p i a n o , d o s m e d o s pri-
m i t i v o s de ser d e v o r a d a , a b a n d o n a d a etc.
P e n s a m o s , dessa m a n e i r a , ter e n c o n t r a d o a justificativa p a r a o
c u l t i v o d a i d e a l i z a ç ã o acerca dessa m ã e p r é - e d í p i c a e, a o m e s m o
t e m p o , p a r a a r a z ã o da m a n u t e n ç ã o , n o s dias a t u a i s , d o m i t o de
o r i g e m , d o p a r a í s o p e r d i d o e da M ã e e n q u a n t o figura m i t o l ó g i c a ,
f o n t e d a v i d a , q u e t u d o sabe e a t u d o p o d e satisfazer, e n f i m , d o
m i t o pessoal, n o q u e diz r e s p e i t o a cada sujeito.
A f i r m a m os a n t r o p ó l o g o s e os h i s t o r i a d o r e s q u e os m i t o s são
u m a l i n g u a g e m , e m f o r m a de relato, utilizada para t r a d u z i r m a n e i -
ras de c o n c e b e r a o r i g e m d o m u n d o e d o s h o m e n s . M u i t o se dis-
c u t e s o b r e a m a n u t e n ç ã o dessa f o r m a m í t i c a de t r a d u z i r o desco-
nhecido na c o n t e m p o r a n e i d a d e .
A p o i a d o s nessa f o r m u l a ç ã o é q u e t r a b a l h a m o s c o m a h i p ó t e s e
de u m a e q u i v a l ê n c i a e n t r e o m i t o e a i d e a l i z a ç ã o . A i d e a l i z a ç ã o ,
seria e n t ã o a t r a d u ç ã o c o n t e m p o r â n e a de u m t e m p o m í t i c o , de u m
m u n d o desconhecido, pois, m e s m o que existido, é vivido c o m o
p e r d i d o , p o r sua c o n d i ç ã o de e s q u e c i m e n t o , depois da ação d o
recalcamento.
S e n d o assim, n a a n g ú s t i a d i a n t e d o d e s c o n h e c i d o , n o embara-
ço e m relação ao d e s c o n c e r t a n t e e s q u e c i m e n t o desse t e m p o , dessa
Mãe, dessa infância, parece produzir-se, n o p s i q u i s m o h u m a n o , u m a
atmosfera de fascinação p e l o q u e foi p e r d i d o e q u e a c a b o u p o r se
t o r n a r i n t e n s a m e n t e desejado e, p o r isso m e s m o , revivido, fantasi-
ado, delirado, alucinado, n u m a forma deliciosamente prazerosa.
E n t r e t a n t o , s a b e m o s q u e t a n t a euforia insiste em esconder, em
n e g a r o m e d o , o h o r r o r n ã o só d o d e s c o n h e c i d o , m a s d e t u d o
q u e n o s causa desprazer, s o f r i m e n t o , e que, p o r t a n t o , a b o m i n a m o s .

OS RISCOS: MORADA DOS PERIGOS

V i s l u m b r a m o s a u r g ê n c i a e m t r a b a l h a r c o m as idealizações n a
clínica precoce p o r q u e a c r e d i t a m o s q u e elas carregam u m barril de
p ó l v o r a , p r e s t e s a e s t o u r a r . S o b a a p a r e n t e c a l m a r i a n o m a r das
idealizações sobrevive a t o r m e n t a da a m b i v a l ê n c i a , i n d i c a n d o peri-
go à vista.
Até o n d e n o s foi possível t r a b a l h a r , p u d e m o s i d e n t i f i c a r três
ordens de perigo:
a) A v a l o r i z a ç ã o d o a m o r fusional: a m ã e m o r t í f e r a
A " b o a m ã e " seria aquela q u e , s o b q u a l q u e r t e n t a ç ã o e dissa-
b o r , a i n d a assim, c o n t i n u a r i a a m a n d o p r i v i l e g i a d a m e n t e seu filho.
Seria a m ã e dos i n v e s t i m e n t o s e m demasia, a " m ã e fartante" ( c o m o
n o m e i a Jerusalinsky), o u a " m ã e psicotizante" ( c o m o a psicanálise já
n o s e v i d e n c i o u pela clínica da psicose), q u e , p a r a o b e m da s a ú d e
psíquica e orgânica dos dois - m ã e e bebê -, sabemos, precisaria ser
i n t e r d i t a d a de a l g u m a m a n e i r a .
Segundo Mathelin, "Jacques Lacan nos lembra que é desse desejo
aí que as mães terão de testemunhar para escapar da loucura de serem
mães totalmente satisfeitas e preenchedoras de suas crianças. E m vez de
felicidade a dois, é u m a loucura a dois que estará de fato em questão,
a criança tornando-se inexoravelmente o objeto de sua mãe, destruída
p o r ele, ao m e s m o t e m p o que d e s t r u í d o p o r ela" (1998, p.16).
É nessa l i n h a de p e n s a m e n t o que v i s l u m b r a m o s essa psicana-
lista, d e p o i s de u m l o n g o c u r s o de t r a b a l h o nessa clínica precoce,
p r o p o r u m a ética p a r a n o r t e a r nossas i n t e r v e n ç õ e s , q u a n d o diz:
" N ã o se a t a c a i m p u n e m e n t e o m i t o e m r e l a ç ã o à m ã e , o
mito do amor absoluto. C o n t u d o ninguém ignora que o amor
p a s s i o n a l , a n i m a l , carrega e m si u m a p r o m e s s a de m o r t e . D e m a s i -
a d o fusional, ele está m a i s p r ó x i m o d a m o r t e q u e d a vida. Pensar
q u e existiria u m a m o r m a t e r n o sem v i o l ê n c i a , sem ó d i o , sem a m -
b i v a l ê n c i a seria t ã o radical q u a n t o negar a existência d o i n c o n s c i -
e n t e " (1998, p . 2 8 ) .
A p s i c a n á l i s e n o s p r e s e n t e i a , p o r m e i o d e seu p r o c e s s o
terapêutico, com a possibilidade da simbolização. Desta forma,
a c r e d i t a m o s q u e , a b r i n d o u m espaço a c o l h e d o r p a r a o i m a g i n á r i o
manifestar-se, estaremos c o n t r i b u i n d o para que t a n t o a criança,
q u a n t o os pais e a i n d a os profissionais p o s s a m pela l i n g u a g e m ex-
p r i m i r suas lembranças, seus s e n t i m e n t o s , suas dores e, dessa manei-
ra, a p r o p r i a r - s e de suas h i s t ó r i a s ,
b) A desvalorização d a m ã e real
Nesse jogo, em que os extremos se d i g l a d i a m , t u d o a q u i l o que
estiver r e p r e s e n t a n d o o d e s p r a z e r e o d i f e r e n t e passaria a existir -
c o m o já h a v í a m o s a s s i n a l a d o - s u b s t a n c i a l m e n t e , n a c o n d i ç ã o de
fantasmas d o mal que pressionariam pelo retorno.
Para n ã o os deixar emergir, u m a das táticas da defesa é desva-
lorizá-los. Assim, a m ã e real, esta q u e estamos c h a m a n d o de desmi-
l i n g ü i d a , é a b o m i n a d a , r i d i c u l a r i z a d a , d e s a f i a d a n a q u i l o q u e se
m o s t r a i n c o m p e t e n t e , o u seja, n o d e s e m p e n h o d a f u n ç ã o m a t e r n a .
D i z i a a e n f e r m e i r a e m t o m de desafio:
" H o j e é tu que vais c o m e ç a r a ter t r a b a l h o , hoje é tu que vais
l i m p a r o c o c ô dela e t r o c a r a fralda. M e u s dias d e m ã e d a Vera
estão c o n t a d o s , e os teus de m a d r a s t a estão se a c a b a n d o . A p r o v e i -
t e m b e m os dias de m a d r a s t a , pois t o d o s os bebês q u e p a s s a m p o r
a q u i , e e n q u a n t o estiverem a q u i , são m e u s filhos, e eu sou a m ã e ,
e vocês são as m a d r a s t a s " .
É p o r isso q u e a l e r t a m o s p a r a o p e r i g o de se m a n t e r as rela-
ções (pais e bebê, profissionais e mãe) sob o d o m í n i o das idealiza-
ções, p o i s estas, se n ã o t r a b a l h a d a s , e à s o l t a n o p s i q u i s m o , tor-
n a m os laços f r o u x o s e frágeis, e, p a r a d o x a l m e n t e , r í g i d o s , p o r se
t o r n a r e m i n c a p a z e s de s u p o r t a r as decepções.
L e m b r e m o s q u e , p o r diversas vezes, F r e u d a t r i b u i u à n a t u r e z a
d o a m o r p r é - e d i p i a n o , exigente e exclusivista, u m a das razões pelas
quais a relação entre a filha e a m ã e s u c u m b i r i a "à hostilidade acu-
m u l a d a " . " U m a p o d e r o s a t e n d ê n c i a à agressividade está s e m p r e pre-
sente ao l a d o de u m a m o r i n t e n s o , e, q u a n t o mais p r o f u n d a m e n t e
u m a criança a m a seu objeto, m a i s sensível se t o r n a aos d e s a p o n t a -
m e n t o s e frustrações p r o v e n i e n t e s desse objeto; e, n o final, o a m o r
deve s u c u m b i r à h o s t i l i d a d e a c u m u l a d a " (1933[1932], p.123)
c) O r e t o r n o d o r e c a l c a d o
Temos o c o n h e c i m e n t o de que, p r ó p r i o das leis psíquicas, os ma-
teriais submersos pressionam para voltar à superfície. A clínica psica-
nalítica tem mostrado c o m o o psiquismo da mulher durante a gravidez
e n o p u e r p é r i o , pela fragilidade e m q u e se e n c o n t r a , é u m c a m p o
fértil para a ambivalência manifestar-se em toda sua potência-*.
M . Bydlowski, m e r g u l h a n d o n a pesquisa s o b r e a n a t u r e z a das
a l t e r a ç õ e s p s í q u i c a s q u e a c o m e t e m as m u l h e r e s n a g r a v i d e z e n o
pós-parto, diz que:
" P o d e m o s explicar, assim, p o r q u e a p r o b l e m á t i c a das m u l h e r e s
n o r m a i s (grávidas e p u é r p e r a s ) foi c o n s i d e r a d a c o m o patológica. A
i n t e n s i d a d e c o m que ressurgem certos fantasmas regressivos e o flu-
xo das r e m e m o r a ç õ e s infantis, expressas sobre u m m o d o nostálgico,
c o n t r a s t a m c o m a ausência de u m discurso racional sobre a realida-
de d o feto. Este fluxo regressivo e r e m e m o r a t i v o de representações
t e s t e m u n h a a t r a n s p a r ê n c i a p s í q u i c a característica desse p e r í o d o da
v i d a " ( 1 9 9 5 , p.96).
C o m o e n t ã o esperar q u e nessa m u l h e r (ou em q u e m q u e r q u e
esteja f u n c i o n a n d o n a p o s i ç ã o d e m ã e ) p r e p o n d e r e a M ã e p r é -
edipiana: todo-poderosa, que t u d o p o d e dar, p o r q u e t u d o possui,
capaz de p r e e n c h e r e satisfazer todas as d e m a n d a s de seu bebê e de
se s e n t i r t o t a l m e n t e p r e e n c h i d a p o r ele. A r e a l i d a d e clínica parece
mostrar-nos o q u a n t o e c o m o a mulher, diante da maternidade, é
c o n s t i t u í d a m u i t o m a i s de u m a f r a g i l i d a d e i m p i e d o s a , d o q u e de
u m a fortaleza i m p e r i o s a .
E n q u a n t o psicanalistas, a c r e d i t a m o s ser f u n d a m e n t a l q u e essa
m u l h e r (ou q u a l q u e r pessoa q u e esteja c u i d a n d o d o bebê) possa se
p o s i c i o n a r , d e tal f o r m a q u e faça e m e r g i r o s u j e i t o d o d e s e j o .
Vejamos o q u e diz Lacan (1953-4):
" E n t ã o , o q u e q u e r d i z e r o o l h o q u e e s t á aí? Q u e r dizer
que, na relação d o i m a g i n á r i o e d o real, e na c o n s t i t u i ç ã o do
m u n d o tal c o m o ela r e s u l t a d i s s o , t u d o d e p e n d e d a s i t u a ç ã o d o
s u j e i t o . E a s i t u a ç ã o d o sujeito - vocês d e v e m sabê-lo d e s d e q u e
l h e s r e p i t o - é e s s e n c i a l m e n t e c a r a c t e r i z a d a p e l o seu l u g a r no
m u n d o simbólico, ou, em outros termos, n o m u n d o da palavra"
( p . 9 7 ) . " . . . p o r c a u s a d a m á p o s i ç ã o d o o l h o , o ego n ã o aparece
p u r a e s i m p l e s m e n t e " (p.106).
S t e r n (1997) prevê q u e a m u l h e r , d i a n t e da real c o n d i ç ã o d a
m a t e r n i d a d e , p r e c i s a de u m a r e d e d e s u s t e n t a ç ã o , e m q u e p o s s a
apoiar-se e possa d e s e m p e n h a r seu papel m a t e r n a l , p o r u m p e r í o d o
inicial. Rede essa tecida, s e g u n d o ele, pelo a p o i o d o pai, d o s avós,
das b a b á s , etc.
A c r e s c e n t a m o s t a m b é m , nessa rede de a p o i o , o t r a b a l h o d o s
psicanalistas, q u a n d o , na posição transferenciai, dispõem-se a escutar
h o m e n s e m u l h e r e s que, p o r suas h i s t ó r i a s c o t i d i a n a s , r e m e m o r a m
os fantasmas infantis c o m t o d a s as agruras e c o m t o d o s os deleites
que eles carregam, especialmente diante da estonteante experiência de
ser pai e de ser mãe. •

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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NOTAS

^ T e r m o u s a d o p o r F r e u d p a r a referir-se ao l u g a r d a q u e l e q u e se o c u p a
d o b e b ê . S e g u n d o T h o m a s - Q u i l i c h i n i (1998), tal c o m o "o Nebenmensch, o
O u t r o , esse t e r m o l a c a n i a n o p e r m i t e d e s i g n a r , s o b u m t e r m o ú n i c o , se
b e m q u e de m o d o a n a c r ô n i c o a q u i , a q u i l o q u e F r e u d s i t u a , p o r m e i o de
t e r m o s b a s t a n t e v a r i á v e i s , acerca da f u n ç ã o d a q u e l e q u e se o c u p a do
l a c t e n t e " (p.76).

" . . . u m O u t r o q u e n ã o é u m s e m e l h a n t e , q u e J. Lacan escreveu c o m u m A


m a i ú s c u l o , u m ' g r a n d e A' ... Lugar em que a psicanálise situa, além do par-
ceiro i m a g i n á r i o , a q u i l o que, a n t e r i o r e e x t e r i o r ao sujeito, n ã o o b s t a n t e o
d e t e r m i n a " ( C h e m a m a , 1995, p.156).

"Mãe suficientemente boa" ou "Mãe dedicada c o m u m " foram designações


usadas p o r W i n n i c o t t para referir-se a essa posição especial que o ser h u m a -
n o (mãe, ou q u e m q u e r q u e c u i d e d o bebê) precisa d e s e m p e n h a r , para que
u m a criança possa se c o n s t i t u i r .

V e m o s que, de u m a f o r m a o u de o u t r a , a t r a j e t ó r i a da p s i c a n á l i s e , n o que
t a n g e à e s t r u t u r a ç ã o p s í q u i c a d o sujeito n o s p r i m ó r d i o s de sua e x i s t ê n c i a ,
vem selar a p o s i ç ã o d e t e r m i n a n t e da Mãe (ou seu s u b s t i t u t o ) , e n q u a n t o re-
presentante simbólico.

^ A t r a d u ç ã o d o francês dos parágrafos u t i l i z a d o s , d o livro de M a t h e l i n , ao


l o n g o d o a r t i g o , é nossa.

^ O grifo é n o s s o , p o i s o b j e t i v a m o s c h a m a r a a t e n ç ã o para a significância


dessa lógica, i n s t a l a d a nas relações q u e se estabelecem em t o r n o da mãe e
do bebê.

^ A t r a d u ç ã o d o francês é nossa.

Sobre esse a s s u n t o , c o n s u l t a r Sales (1999).

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