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Era uma vez um desamor

À escala global, é mais do que notável o desencanto pela política e o declínio do


suporte aos regimes democráticos pelos cidadãos nos tempos de hoje. Quando
comparados os índices de apoio à democracia no início do século XX, é visível a
desafeição, traduzida na abstenção eleitoral e no baixo número de cidadãos que
suportam a democracia como o regime ideal de organização política, incluindo os
países nórdicos (veja-se, por exemplo, os países como a Dinamarca, Suécia, Holanda
Finlândia, Inglaterra, Canadá, EUA, etc.)

A literatura sobre os regimes democráticos e o comportamento eleitoral apresenta-


nos um conjunto de variáveis explicativas para este fenómeno. Entre estas, está a
democracia em si, como uma axiologia que transcende a organização política dos
cidadãos na cidade, remetendo, ao mesmo tempo, a um leque de benefícios para os
civitas, cujo paradigma mais conhecido é o welfare state. Aqui a democracia é
percepcionada pelos cidadãos como um método mais viável e, por isso, desejável,
para a garantia e concretização de um menu de direitos sociais, políticos, económicos
e culturais. Para essa variável, alguns autores advogam que a incapacidade dos
Estados manterem, ou até mesmo concretizarem tais desígnios, promove um contínuo
desvalor popular pelo regime democrático.

Outros, advogam que parte deste problema assenta no facto de os principais players
dos regimes democráticos, isto é, os partidos políticos, denotarem uma incapacidade
de se adaptar às novas dinâmicas e reivindicações de cidadania no século XXI, numa
era cada vez mais informacional, com cidadãos mais instruídos (e por consequência,
mais sofisticados politicamente), com a predominância do imperativo dos direitos
materialistas e pós-materialistas, num mundo mais global. Nesta, os partidos
deixaram de constituir um canal privilegiado de representação política dos
constituintes, continuando aqueles a manter o seu formato “onto-institucional” dos
finais do século XIX.

Uma outra variável, na sequência da anterior, denuncia a cartelização da política, em


que os partidos políticos se mostram incapazes de responder às demandas da
cidadania e, ao mesmo tempo, reagem com dinâmicas corporativistas, tornando a
política um exclusivo ofício de carreiristas dos aparelhos partidários, limitando o
espaço de participação e competição política a outras formas de organização social e
política (sociedade civil, movimentos sociais, cidadãos independentes).

O paradigma do militante de craveira está em declínio, os partidos políticos precisam


de se reinventar para as novas exigências da cidadania. É por isso que o número de
militantes como critério de eficácia político-partidária da participação e da
representação política é contraproducente. Sobretudo, quando mal nos deixámos
encantar pelas potencialidades virtuosas deste amor.

Por: Gildo José (17-09-2015)

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