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Novas Palavras 2

ENSINO MÉDIO

COMPONENTE CURRICULAR

LÍNGUA PORTUGUESA

Emília Amaral

Doutora em Educação (área de Educação, Conhecimento, Linguagem e Arte)


pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.

Mestre em Letras (área de Teoria Literária) pelo Instituto de Estudos da


Linguagem da Universidade Estadual de Campinas.

Professora do Ensino Médio e do Ensino Superior.

Consultora nas áreas de literatura, leitura e produção de textos há mais de 30


anos.

Mauro Ferreira do Patrocínio

Especialização em Metodologia do Ensino pela Faculdade de Educação da


Universidade Estadual de Campinas.

Professor do Ensino Fundamental, Ensino Médio e de cursos pré-vestibulares


durante 22 anos.

Dedica-se à realização de palestras para professores e estudantes


universitários e à criação de obras didáticas.

Ricardo Silva Leite

Mestre em Letras (área de Teoria Literária) pelo Instituto de Estudos da


Linguagem da Universidade Estadual de Campinas.

Licenciado em Letras (Português/Francês) pela Faculdade de Filosofia,


Ciências e Letras "Oswaldo Cruz".

Professor do Ensino Fundamental, do Ensino Médio e de cursos pré-


vestibulares há mais de 30 anos.

Severino Antônio Moreira Barbosa


Doutor em Educação (área de Filosofia e História da Educação) pela
Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.

Professor do Ensino Médio e do Ensino Superior há 40 anos e autor de vários


livros.

3ª edição

São Paulo - 2016

FTD

MANUAL DO PROFESSOR

FTD

Copyright © Emília Amaral, Mauro Ferreira do Patrocínio, Ricardo Silva Leite,


Severino Antônio Moreira Barbosa, 2016

Diretor editorial Lauri Cericato

Gerente editorial Flávia Renata P. A. Fugita

Editora Angela C. D. C. M. Marques

Editoras assistentes Ana Paula Figueiredo, Irene Catarina Nigro, Maria Aiko
Nishijima, Nathalia de Oliveira Matsumoto, Roberta Vaiano

Assessoria Suelen Rocha M. Marques

Gerente de produção editorial Mariana Milani

Coordenador de produção editorial Marcelo Henrique Ferreira Fontes

Coordenadora de arte Daniela Máximo

Projeto gráfico Juliana Oliveira

Projeto de capa Bruno Attili

Foto de capa Falcão/Olho do Falcão

1Modelos da capa: Andrei Lopes, Angélica Souza, Beatriz Raielle, Bruna


Soares, Bruno Guedes, Caio Freitas, Denis Wiltemburg, Eloá Souza, Jardo
Gomes, Karina Farias, Karoline Vicente, Letícia Silva, Lilith Moreira, Maria
Eduarda Ferreira, Rafael Souza, Tarik Abdo, Thaís Souza
Edição de arte Sonia Alencar e Suzana Massini

Diagramação Essencial design, Bruna Nunes, Débora Jóia, José Aparecido


Amorim, Salvador Consales, Wlamir Miasiro

Tratamento de imagens Ana Isabela Pithan Maraschin

Coordenadora de ilustrações e cartografia Marcia Berne

Ilustrações André Ducci, Felipe Nunes, Marcos Guilherme

Coordenadora de preparação e revisão Lilian Semenichin

Supervisora de preparação e revisão Viviam Moreira

Revisão Amanda di Santis, Carina de Luca, Célia Regina Camargo, Juliana


Rochetto, Marcella Arruda, Veridiana Maenaka

Coordenador de iconografia e licenciamento de textos Expedito Arantes

Supervisora de licenciamento de textos Elaine Bueno

Iconografia Elizete Moura Santos, Enio Lopes, Gabriela Araújo, Márcia


Trindade

Diretor de operações e produção gráfica Reginaldo Soares Damasceno

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Novas palavras 2º ano / Emília Amaral...[et al.]. - 3ª ed. - São Paulo : FTD,
2016. - (Coleção novas palavras)

Outros autores: Mauro Ferreira do Patrocínio, Ricardo Silva Leite, Severino


Antônio Moreira Barbosa

Componente curricular: Língua portuguesa

ISBN 978-85-96-00368-1 (aluno)

ISBN 978-85-96-00369-8 (professor)

1. Português (Ensino médio) I. Amaral, Emília. II. Patrocínio, Mauro Ferreira do.
III. Leite, Ricardo Silva. IV. Barbosa, Severino Antônio Moreira. V. Série.

16-03484

CDD-469.07
Índices para catálogo sistemático:

1. Português : Ensino médio 469.07

Reprodução proibida: Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro


de 1998.

Todos os direitos reservados à EDITORA FTD S.A.

Rua Rui Barbosa, 156 - Bela Vista - São Paulo-SP

CEP 01326-010 - Tel. (0-XX-11) 3598-6000

Caixa Postal 65149 - CEP da Caixa Postal 01390-970

www.ftd.com.br

E-mail: central.atendimento@ftd.com.br

Em respeito ao meio ambiente, as folhas deste livro foram produzidas com


fibras obtidas de árvores de florestas plantadas, com origem certificada.

Impresso no Parque Gráfico da Editora FTD S.A.

CNPJ 61.186.490/0016-33

Avenida Antonio Bardella, 300

Guarulhos-SP - CEP 07220-020

Tel. (11) 3545-8600 e Fax (11) 2412-5375

Apresentação

Caro aluno,

Neste livro, você será continuamente convidado a refletir sobre as habilidades


fundamentais associadas ao desenvolvimento da linguagem: falar, ler e
escrever.

Juntos, tomaremos contato com uma grande variedade de textos, de diferentes


gêneros, para nos inspirarmos na criação e no aprimoramento de nossa própria
produção; vamos ler, reler e avaliar com nossos interlocutores - o(a)
professor(a), os colegas, os amigos... - os textos lidos e produzidos, os
conceitos aprendidos e incorporados. Assim, texto a texto, aula a aula, iremos
nos aperfeiçoando como seres capazes de linguagem e como participantes
ativos do nosso mundo.

A leitura e a escrita são, sem dúvida, um modo privilegiado de interferirmos na


realidade, de interagirmos com os outros; no entanto, será importante também
refletirmos a respeito da linguagem falada, conhecê-la melhor, ter consciência
de que a fala e a escrita se complementam, não se opõem, e de que ela, a fala,
constitui uma modalidade de expressão com características específicas e
regras próprias.

Em Literatura, nosso estudo estará sempre associado às artes plásticas e


privilegiará os gêneros literários fundamentais: poesia lírica e épica, crônica,
conto, romance, teatro etc. Vamos comparar a produção de autores clássicos
com a de escritores e poetas contemporâneos, sobretudo quando tratamos das
grandes escolas literárias, cujos autores e textos alimentam nosso imaginário,
ampliam nossos horizontes e aprofundam nossas formas de ver o mundo e a
nós mesmos.

Em Gramática, as reflexões sobre as diferentes maneiras de falar e de


escrever se desenvolverão com o estudo das estruturas que estabelecem a
organização e o sentido dos textos que constituem o nosso "mundo da leitura":
charges, tirinhas, piadas, anúncios publicitários, letras de música, textos
jornalísticos, poemas...

Nas aulas de Literatura, de Gramática e de Leitura e produção de textos,


desafios serão propostos e conteúdos específicos serão desenvolvidos, porém
próximos entre si, pois falaremos de como se estrutura e como funciona a
linguagem e dos caminhos que ela percorre na diversidade de suas
possibilidades expressivas e comunicativas. Afinal, ela é o principal recurso de
que dispomos para sermos de fato quem somos.

Este é o objetivo maior deste livro: que você, ao transformá-lo em seu parceiro
de aprendizagens, tenha um posicionamento ativo: leia, goste, não goste; ache
fácil, ache difícil; mas sempre releia, repense, reformule, persista, pois assim é
que gradativamente conquistará novas habilidades de usos da linguagem, que
certamente contribuirão para seu sucesso escolar, profissional e humano.

Vamos começar?
Os autores

SUMÁRIO

Literatura

Capítulo 1 - As grandes escolas literárias, p. 10

Primeira leitura

Mãos dadas, de Carlos Drummond de Andrade, p. 11

E mais..., p. 11

A história da literatura, p. 12

Leitura de imagem

Tentação na montanha, de Duccio di Buoninsegna, p. 13

Pietà, de Pietro Perugino, p. 14

Deposição da cruz, de Caravaggio, p. 15

Pietà, de Vicente do Rego Monteiro, p. 16

As grandes escolas literárias, p. 17

Leitura

Auto da Lusitânia (fragmento), de Gil Vicente, p. 18

Leitura

No dia de quarta-feira de cinzas (fragmento), de Gregório de Matos, p. 19

Leitura

O cortiço (fragmento), de Aluísio Azevedo, p. 21

Resumindo o que você estudou, p. 22

Atividades, p. 23

Capítulo 2 - Camões e o Renascimento, p. 30

Primeira leitura

Sonetos, de Luís de Camões, p. 31


O Renascimento, p. 33

O dolce stil nuovo, p. 33

Medida velha (versos redondilhos), p. 34

Medida nova (versos decassílabos), p. 34

Leitura

Comigo me desavim, de Francisco de Sá de Miranda, p. 34

Dispersão (fragmento), de Mário de Sá-Carneiro, p. 35

Luís Vaz de Camões, p. 36

Leitura

Soneto, de Luís Vaz de Camões, p. 37

E mais..., p. 38

A épica camoniana - Os Lusíadas, p. 38

Leitura

Proposição e Epílogo (fragmentos de Os Lusíadas), de Luís Vaz de Camões, p.


40

Paráfrases, p. 40

Leitura

Canto IV (fragmento), de Luís Vaz de Camões, p. 42

O Velho do Restelo (fragmento de Os Lusíadas), p. 43

Leitura

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta, de José Saramago, p. 45

Resumindo o que você estudou, p. 46

Atividades, p. 46

Capítulo 3 - Literatura colonial brasileira, p. 49

Primeira leitura

Sermão do bom ladrão (fragmento), de Antônio Vieira, p. 50


E mais..., p. 52

A produção literária colonial, p. 52

O Quinhentismo, p. 53

Leitura

Carta (fragmento), de Pero Vaz de Caminha, p. 54

Carta de Pero Vaz, de Murilo Mendes, p. 54

O Barroco, p. 55

Leitura

À cidade da Bahia, de Gregório de Matos, p. 57

Leitura

Boca do inferno (fragmento), de Ana Miranda, p. 59

O Neoclassicismo, p. 60

Leitura

Aleijadinho, de Fernando Paixão, p. 62

E mais..., p. 62

Leitura

Lira XXXIV (fragmento) e Lira LXXXI, de Tomás Antônio Gongaza, p. 64

Resumindo o que você estudou, p. 65

Atividades, p. 66

Capítulo 4 - A poesia romântica, p. 71

Primeira leitura

Canção do exílio, de Gonçalves Dias, p. 72

E mais..., p. 74

O Romantismo, p. 74

Leitura

Do grotesco e do sublime (fragmento do prefácio), de Victor Hugo, p. 75


Características do Romantismo, p. 76

Leitura

Grande cascata da Tijuca, de Araújo Porto-Alegre, p. 77

Mata reduzida a carvão, de Félix-Émile Taunay, p. 77

Leitura

Leito de folhas verdes, de Gonçalves Dias, p. 78

Leitura

Meu sonho, de Álvares de Azevedo, p. 81

E mais..., p. 81

Leitura

O navio negreiro (fragmento), de Castro Alves, p. 82

Resumindo o que você estudou, p. 84

Atividades, p. 85

Capítulo 5 - O romance romântico, p. 89

Primeira leitura

Iracema e Senhora (fragmentos), de José de Alencar; Luizinha (fragmento), de


Manuel Antônio Almeida, p. 90

A prosa romântica, p. 93

Leitura

Pedilúvio sentimental (fragmento), de Joaquim Manuel de Macedo, p. 95

O nascimento do herói (fragmento), de Manuel Antônio de Almeida, p. 96

E mais..., p. 97

Leitura

Seixas (fragmento), de José de Alencar, p. 98

E mais..., p. 100
Resumindo o que você estudou, p. 100

Atividades, p. 100

Capítulo 6 - O Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo, p. 104

Primeira leitura

O enterro de Atala, de Anne-Louis Girodet, p. 105

Enterro em Ornans, de Gustave Courbet, p. 105

Leitura

Mais luz!, de Antero de Quental, p. 107

A geração materialista, p. 108

O suporte intelectual da Geração Materialista ou Geração de 70, p.108

O surgimento das Escolas Realistas, p. 109

E mais..., p. 110

O Realismo-Naturalismo em Portugal, p. 111

Leitura

O crime do padre Amaro [...] (fragmento), de Machado de Assis, p. 112

O crime do padre Amaro (fragmento), de Eça de Queirós, p. 113

O Realismo e o Naturalismo no Brasil, p. 114

Leitura

Vagão de terceira classe, de Honoré Daumier, p. 116

Leitura

O cortiço (fragmento), de Aluísio Azevedo, p. 117

Leitura

O mulato (fragmentos), de Aluísio Azevedo 119

Leitura

O cortiço (fragmentos), de Aluísio Azevedo, p. 121

E mais..., p. 123
Leitura

O Ateneu (fragmento 1), de Raul Pompeia, p. 124

O Ateneu (fragmento 2), de Raul Pompeia, p. 125

As Escolas Realistas e o Parnasianismo, p. 126

Leitura

Nel mezzo del camin..., de Olavo Bilac, p. 126

A estética parnasiana, p. 129

A arte acadêmica, p. 129

Leitura de imagem

Pigmalião e Galateia, de Jean-Léon Gérôme, p. 130

Arte e Literatura, de William-Adolphe Bouguereau, p. 130

O violeiro, de Almeida Júnior, p. 131

Moema, de Victor Meirelles, p. 131

Paz e Concórdia, de Pedro Américo, p. 131

E mais..., p. 132

Resumindo o que você estudou, p. 132

Atividades, p. 133

Capítulo 7 - O Realismo psicológico de Machado de Assis, p. 135

Primeira leitura

Olhos de Ressaca, de Machado de Assis, p. 136

O penteado, de Machado de Assis, p. 137

O Realismo machadiano, p. 140

Estudo dos principais romances machadianos, p. 141

Leitura

Virgília?, de Machado de Assis, p. 142

Leitura
Quincas Borba (fragmento), de Machado de Assis, p. 145

Os contos de Machado de Assis, p. 147

E mais..., p. 147

Os recursos estilísticos, p. 148

E mais..., p. 149

Resumindo o que você estudou, p. 149

Atividades, p. 150

CRÉDITO: Felipe Nunes

Gramática

Capítulo 1 - Pronome, p. 154

Introdução, p. 155

Pronome, p. 155

Conceito e classificação geral, p. 155

Estudo dos pronomes (1ª parte), p. 156

Pronomes pessoais, p. 156

Pronomes possessivos, p. 163

Resumindo o que você estudou, p. 164

Atividades, p. 165

Estudo dos pronomes (2ª parte), p. 168

Pronomes demonstrativos, p. 168

Pronomes indefinidos, p. 171

Pronomes relativos, p. 173

Pronomes interrogativos, p. 177

Resumindo o que você estudou, p. 177

Atividades, p. 178
Da teoria à prática, p. 180

Ponto de partida, p. 180

Agora é sua vez, p. 180

E mais..., p. 183

Capítulo 2 - Verbo, p. 185

Introdução, p. 186

Verbo, p. 187

Conceito, p. 187

Estudo do verbo (1ª parte), p. 187

As conjugações verbais, p. 188

As flexões do verbo, p. 188

Os tempos verbais na composição dos modos, p. 191

Resumindo o que você estudou, p. 199

Atividades, p. 199

Estudo do verbo (2ª parte), p. 202

Classificações dos verbos, p. 202

A flexão de "voz verbal", p. 204

Aspecto verbal - as diferentes durações do tempo, p. 207

Correlações entre tempos verbais, p. 208

Conjugação de alguns verbos, p. 209

Resumindo o que você estudou, p. 211

Atividades, p. 212

Da teoria à prática, p. 214

Ponto de partida, p. 214

Agora é sua vez, p. 214

E mais..., p. 216
Capítulo 3 - Palavras invariáveis, p. 217

Introdução, p. 218

Estudo das palavras invariáveis (1ª parte), p. 218

Advérbio, p. 218

Resumindo o que você estudou, p. 222

Atividades, p. 223

Estudo das palavras invariáveis (2ª parte), p. 225

Preposição, p. 225

Conjunção, p. 227

Interjeição, p. 229

Resumindo o que você estudou, p. 230

Atividades, p. 230

Da teoria à prática, p. 233

Ponto de partida, p. 233

Agora é sua vez, p. 233

Capítulo 4 - A sintaxe - conceitos gerais Sujeito e predicado, p. 236

Introdução, p. 237

A sintaxe - conceitos gerais, p. 237

A organização dos enunciados: seleção, ordenação e combinação das


palavras, p. 237

Análise sintática, p. 238

Sujeito e predicado, p. 240

Estudo do sujeito (1ª parte), p. 241

A relação morfossintática "sujeito-substantivo", p. 241

Características do sujeito, p. 243

Resumindo o que você estudou, p. 245


Atividades, p. 245

Estudo do sujeito (2ª parte), p. 246

As classificações do sujeito, p. 246

Oração sem sujeito, p. 248

Resumindo o que você estudou, p. 249

Atividades, p. 250

Da teoria à prática, p. 252

Ponto de partida, p. 252

Agora é sua vez, p. 253

E mais..., p. 255

CRÉDITO: Ilustrações: Felipe Nunes

Capítulo 5 - Os verbos no predicado Termos associados ao verbo, p. 256

Introdução, p. 257

Tipos de verbo no predicado, p. 257

Verbo de ligação, p. 257

Verbo significativo, p. 259

Resumindo o que você estudou, p. 260

Atividades, p. 261

Termos associados ao verbo (1ª parte), p. 262

Objeto direto e objeto indireto, p. 262

Resumindo o que você estudou, p. 265

Atividades, p. 265

Termos associados ao verbo (2ª parte), p. 267

Agente da passiva, p. 267

Adjunto adverbial, p. 270


Resumindo o que você estudou, p. 271

Atividades, p. 271

Da teoria à prática, p. 273

Ponto de partida, p. 273

Agora é sua vez, p. 274

CRÉDITO: Felipe Nunes

Capítulo 6 - Termos associados a nomes Vocativo, p. 276

Introdução, p. 277

Termos associados a nomes (1ª parte), p. 277

Adjunto adnominal, p. 277

Predicativo, p. 279

Resumindo o que você estudou, p. 282

Atividades, p. 282

Termos associados a nomes (2ª parte), p. 284

Complemento nominal, p. 284

Aposto, p. 286

Vocativo, p. 287

Relação morfossintática do vocativo, p. 287

Resumindo o que você estudou, p. 288

Atividades, p. 288

Da teoria à prática, p. 290

Ponto de partida, p. 290

Agora é sua vez, p. 290

Leitura e produção de textos

Capítulo 1 - Resumo e resenha, p. 294

Primeira leitura
A noiva cadáver, resenha de H. P. A., aluno do Ensino Médio, p. 295

Em tom de conversa, p. 296

Releitura, p. 296

Resumo e resenha, p. 297

E mais..., p. 297

Resenha de crônicas, p. 297

Leitura

Viajantes e apaixonados em transe, de Milton Hatoum, p. 297

O que será que será?, de Danuza Leão, p. 298

Atividades: Produção, p. 299

Leitura

Relato subjetivo, de S. G. S., aluna do Ensino Médio, p. 300

Em tom de conversa, p. 300

Atividades: Produção, p. 301

Critérios de avaliação e reelaboração, p. 301

Resumindo o que você estudou, p. 301

Atividade, p. 301

Capítulo 2 - Diário pessoal, p. 302

Primeira leitura

Sábado, 18 de fevereiro (fragmento de Minha vida de menina), de Helena


Morley, p. 303

Releitura, p. 303

Diário pessoal, p. 304

O predomínio da narração, p. 304

Atividade, p. 304

A presença de elementos descritivos, p. 304


Atividades, p. 304

A presença de elementos dissertativo-argumentativos, p. 305

Atividade, p. 305

Em tom de conversa, p. 305

E mais..., p. 306

Atividades: Produção, p. 307

Critérios de avaliação e reelaboração, p. 308

Resumindo o que você estudou, p. 309

Atividade: Produção, p. 309

Capítulo 3 - Relatório, p. 310

Primeira leitura

Relatório ao Governo do Estado de Alagoas, de Graciliano Ramos, p. 311

Em tom de conversa, p. 312

Os recursos expressivos do relatório, p. 313

A relação texto-contexto, p. 313

Leitura

Relatório sobre estudo do meio na cidade litorânea de Iguape, T., L., R., alunos
do Ensino Médio, p. 314

Em tom de conversa, p. 315

E mais..., p. 315

Atividades: Leitura e produção, p. 315

Critérios de avaliação e reelaboração, p. 317

Resumindo o que você estudou, p. 317

Atividades: Leitura e produção, p. 318

Capítulo 4 - Do relato à narrativa ficcional, p. 321


Primeira leitura

A volta do Messias, de Fernando Bonassi, p. 322

Em tom de conversa, p. 322

Releitura, p. 322

O relato: objetivo e ponto de vista, p. 323

E mais..., p. 323

Os elementos fundamentais da narrativa ficcional, p. 323

Atividade: Produção, p. 325

Caracterização dos personagens, p. 325

Atividades: Produção, p. 326

Os personagens falam, p. 326

Atividades: Leitura e produção, p. 329

Critérios de avaliação e reelaboração, p. 329

Resumindo o que você estudou, p. 330

Atividades: Leitura e produção, p. 330

Capítulo 5 - Enredo linear, p. 331

Primeira leitura

Fábulas italianas (fragmento), de Italo Calvino, p. 332

Enredo, p. 332

O enredo linear, p. 332

Leitura

Uma vida ao lado, de Marina Colasanti, p. 333

Em tom de conversa, p. 333

Atividades, p. 334

Atividades: Leitura e produção, p. 336

E mais..., p. 338
Critérios de avaliação e reelaboração, p. 338

Resumindo o que você estudou, p. 339

Atividades: Leitura e produção, p. 339

Capítulo 6 - Enredo não linear e tipos de narrador, p. 340

Primeira leitura

Tantas mulheres, de Dalton Trevisan, p. 341

Em tom de conversa, p. 342

Releitura, p. 342

O conto, p. 343

Atividades, p. 343

O enredo não linear, p. 343

Principais tipos de narrador, p. 343

Atividades, p. 344

O uso do pretérito mais-que-perfeito e a verossimilhança da narrativa, p.


344

Atividades, p. 344

O efeito lírico e a condensação da linguagem, p. 345

Atividades: Leitura e produção, p. 345

Atividades: Leitura e produção, p. 346

E mais..., p. 347

Critérios de avaliação e reelaboração, p. 348

Resumindo o que você estudou, p. 348

Atividades: Leitura e produção, p. 348

Referências e lista de siglas, p. 350

CRÉDITO: Felipe Nunes

9
LITERATURA

CAPÍTULO 1 | As grandes escolas literárias

CAPÍTULO 2 | Camões e o Renascimento

CAPÍTULO 3 | Literatura colonial brasileira

CAPÍTULO 4 | A poesia romântica

CAPÍTULO 5 | O romance romântico

CAPÍTULO 6 | O Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo

CAPÍTULO 7 | O Realismo psicológico de Machado de Assis

CRÉDITO: Felipe Nunes

10

capítulo 1 - As grandes escolas literárias

Este capítulo é um painel das grandes escolas literárias em língua portuguesa.


Lembrando desde já que a sucessão dos movimentos não constitui um
processo evolutivo no sentido de aperfeiçoamento, esse quadro pretende dar
uma visão geral da história da literatura. Você poderá consultá-lo sempre, à
medida que estude os textos, os autores e os estilos de cada época,
apresentados ao longo do curso.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Livros

· CALCANHOTTO, Adriana (Org.). Antologia ilustrada da poesia brasileira:


para crianças de qualquer idade. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

· GULLAR, Ferreira. O prazer do poema: uma antologia pessoal. Rio de


Janeiro: Edições de Janeiro, 2014.

· MORICONI, Italo (Org.). Os cem melhores contos brasileiros do século.


Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

· MORICONI, Italo (Org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século.


Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

Sites
· DOMÍNIO PÚBLICO. Disponível em: http://tub.im/8m4sua. Acesso em: 27 abr.
2016.

· JORNAL DE POESIA. Disponível em: http://tub.im/5uw3cw. Acesso em: 27


abr. 2016.

· LITERATURA DIGITAL. Disponível em: http://tub.im/jt3w7u. Acesso em: 27


abr. 2016.

11

Atenção Professor(a), a atividade da seção "E mais...", desta página, requer


preparação antecipada. Fim da observação.

PRIMEIRA LEITURA

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.

Também não cantarei o mundo futuro.

Estou preso à vida e olho meus companheiros.

Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.

Entre eles, considero a enorme realidade.

O presente é tão grande, não nos afastemos.

Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,

não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,

não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,

não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,

a vida presente.

MÃOS DADAS - In: Sentimento do Mundo, de Carlos Drummond de Andrade,


Companhia das Letras, São Paulo; Carlos Drummond de Andrade © Graña
Drummond www.carlosdrummond.com.br

Em tom de conversa
Exponha para os colegas suas impressões sobre o poema e discuta com eles
as seguintes questões:

1. Muitas vezes a literatura é instrumento de evasão, de fuga da realidade.


Como o eu lírico se posiciona em relação à poesia escapista? É possível dizer
que ele formula um projeto de poesia?

Resposta: Ele recusa a poesia escapista de todas as formas. Em seu projeto


não cabe a fuga no tempo- tanto para o passado (o "mundo caduco") como
para o futuro - ou no espaço (para "as ilhas", para a "paisagem vista da
janela"); não cabem a entrega aos sentimentos (a mulher, os "suspiros ao
anoitecer"), a evasão para o sonho (os "entorpecentes", o rapto por "serafins"),
a alienação no desejo da morte ("cartas de suicida"). Essas recusas configuram
um projeto pelo uso dos verbos no futuro do presente.

2. Qual é o tema mais frequente da poesia lírica em todos os tempos? Como o


eu lírico se manifesta em relação a esse tema?

Resposta: O tema é o amor. O eu lírico também o recusa, ao afirmar que não


será "o cantor de uma mulher", "de uma história (de amor)" e que não dirá
"suspiros ao anoitecer" (a interpretação de "história" e de "suspiros ao
anoitecer" como parte da temática amorosa é possível, mas não única).

3. O livro Sentimento do mundo foi publicado em 1940. Que acontecimento


importante dominava os noticiários e o pensamento das pessoas naquela
época? Que relação você estabelece entre os títulos do livro e do poema e
esse acontecimento histórico?

Resposta: O acontecimento é a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), iniciada


no ano anterior. Espera-se que os alunos relacionem o título do livro
(Sentimento do mundo) com a perplexidade diante da situação mundial; esse
sentimento, necessariamente dominado pela preocupação e pelo pessimismo,
explica a recusa dos temas considerados escapistas pelo eu lírico e a fixação
do presente como matéria da poesia. A angústia do presente, por outro lado,
não permite o isolamento; a necessidade da solidariedade motiva o convite,
título do poema: "[vamos de] mãos dadas".

E MAIS...
Pesquisa e apresentação

No primeiro ano você leu alguns textos de Carlos Drummond de Andrade, em


prosa e em verso. Ele é considerado pela crítica como um dos maiores poetas
brasileiros. E essa aprovação dos especialistas é compartilhada com os leitores
comuns: apesar de seus poemas nem sempre serem fáceis, ele se tornou um
autor muito popular e muito citado.

Organize com seus colegas de grupo uma pesquisa de poemas de Drummond.

Procedimentos

· Utilize a internet, antologias e livros do autor e copie os poemas de que você


mais gostar.

· Leve os textos para a reunião do grupo. Juntos, leiam os poemas e


selecionem três ou quatro de que mais gostarem.

· Preparem a apresentação desses textos, que pode ser, conforme a


orientação do(a) professor(a):

· uma sessão de leitura e declamação, compartilhada com os outros grupos.


Utilizem recursos que tornem a apresentação mais viva e mais expressiva,
como acompanhamento musical, caracterização dos leitores com trajes
sugestivos, alternância de vozes no mesmo poema etc.;

· um painel de poemas, também compartilhado com outros grupos, em local


de grande visibilidade na escola. Os poemas, copiados em cartazes coloridos e
ilustrados, podem ter pequenos comentários.

Exemplos de sites que você pode visitar:

http://tub.im/yvh7us

http://tub.im/vj577n

12

Comentário

O poema de Drummond serve de epígrafe para nossas reflexões sobre as


escolas literárias.
O poeta deseja que sua poesia seja profundamente comprometida com seu
tempo. O presente é sua matéria: os problemas, os anseios, as dúvidas, as
esperanças do ser humano contemporâneo.

De algum modo, esse é o projeto de todo autor: falar sobre sua época -
exprimir o seu tempo. Até mesmo a obra evasiva, que foge para um passado
remoto, exprime, pela negação ou pela recusa, uma atitude em relação ao
mundo contemporâneo do autor. Os autores românticos do século XIX, por
exemplo, frequentemente situavam seus personagens na época medieval,
misteriosa e distante, repleta de aventuras. Pode-se interpretar essa tendência
de fuga como uma recusa dos valores excessivamente pragmáticos da era
burguesa, como expressão da nostalgia de valores morais abandonados pela
sociedade moderna. Do mesmo modo, uma obra cuja ação é ambientada no
futuro pode ser expressão da esperança ou, contrariamente, dos temores em
relação aos desdobramentos e às consequências do tempo presente.

A HISTÓRIA DA LITERATURA

Como todas as outras artes, a literatura reflete as relações do ser humano com
o mundo e com seus semelhantes. À medida que essas relações se
transformam historicamente, a literatura também se transforma. Ela é o registro
mais sensível das peculiaridades de cada época: dos modos de encarar a vida,
de problematizar a existência, de questionar a realidade, de exprimir os
sentimentos coletivos...

Por isso, as obras de determinado período histórico, ainda que se diferenciem


umas das outras, possuem certas características comuns que as identificam.
Essas características dizem respeito tanto à mentalidade predominante na
época quanto às formas, às convenções e às técnicas expressivas utilizadas
pelos autores.

Chamamos de escolas (períodos, movimentos) literárias ou estilos de época


os grandes conjuntos em que costumamos segmentar a história da literatura.
Essa divisão tem uma função sobretudo didática, ajudando-nos a compreender
as transformações da arte literária ao longo do tempo.

Cabem aqui algumas observações muito importantes:


· A literatura e a arte não evoluem, no sentido de aprimorar-se, aperfeiçoar-se,
progredir. A arte moderna não é melhor que a arte romântica, nem a arte
renascentista mais perfeita que a arte medieval.

· Nem todo estilo de época constitui um movimento organizado. Muitas vezes


os próprios autores não têm consciência de compartilhar o estilo em que serão
incluídos pela posteridade.

· As características que definem um estilo de época são predominantes, mas


não são únicas. Há obras que não se encaixam na descrição geral de sua
época ou que até mesmo são opostas a ela. Essa singularidade não desabona
essas obras. Pelo contrário, com frequência constitui sua grande qualidade.

· As observações anteriores não invalidam o estudo das escolas literárias.


Muitas vezes é o conhecimento das características predominantes em uma
época que nos permite dimensionar a originalidade de um autor ou de uma
obra. Em arte, a ruptura é mais importante que a obediência.

· As obras literárias compartilham com as outras artes as características


marcantes de sua época.

13

Leitura de imagem

As pinturas reproduzidas a seguir são de quatro estilos de época, cobrindo um


período de mais de seiscentos anos na história da pintura.

Observe a pintura Tentação na montanha (1308-1311), de Duccio di


Buoninsegna.

PINTURA 1

LEGENDA: Painel narrativo: o observador deve passear o olhar pela pintura.


Tema religioso: episódio do Novo Testamento.

CRÉDITO: Duccio di Buoninsegna. c. 1308-11. Afresco. Museo dell'Opera del


Duomo, Siena. Foto: Francis G. Mayer/Corbis/Latinstock

· Características da pintura medieval

A Representação de um tema que deve ser "lido", interpretado: A tentação - o


Bem x o Mal.
B Figuras hieráticas, simbólicas.

C Desproporções: o pintor desconhece as regras da perspectiva, que serão


desenvolvidas no Classicismo. O tamanho de cada figura não é determinado
por sua relação espacial com o conjunto, mas por sua posição na hierarquia
dos valores representados.

· Características que já prenunciam a pintura renascentista

1 Certa profundidade espacial.

2 e 3 Contrastes de luz e cor, gradação de tonalidades.

4 Volumes mais acentuados.

5 As figuras humanas tornam-se menos hieráticas, ganham certo movimento e


graça.

Duccio di Buoninsegna (1250?-1319)

Fundador da escola de Siena, Duccio di Buoninsegna é considerado um dos


artistas italianos mais notáveis da Idade Média. Seu estilo desenvolveu-se a
partir da tradição bizantina, mas evoluiu para uma representação um pouco
mais realista, marcada pelas linhas suaves das figuras humanas,
principalmente dos rostos, e pelo maior refinamento das cores. A Maestà
(1308-1311), um retábulo de madeira composto de diversas pinturas
individuais, é considerada a sua obra-prima.

Vocabulário:

retábulo: estrutura ornamental, feita de madeira ou de mármore, que fica na


parte posterior do altar de uma igreja.

Fim do vocabulário.

PARA VER NA REDE

Para conhecer outras obras de Duccio di Buoninsegna, visite o site:


http://tub.im/gqyvdk (acesso em: 27 abr. 2016).

14

Agora observe as duas pinturas a seguir, que representam um tema


semelhante: os amigos e parentes de Cristo velam seu corpo (Pietà) e realizam
seu sepultamento (Deposição da cruz). A primeira é renascentista (clássica);
a segunda, barroca.

PINTURA 2

LEGENDA: Na Pietà (1494-1495), de Pietro Perugino, apesar do tema da


morte, o sentimento é contido pela imobilidade e pelo silêncio respeitoso. As
colunas do templo, que circundam a cena, refletem a dignidade hierática e
solene das figuras.

CRÉDITO: Pietro Perugino. Pietà. 1494-95. Óleo sobre painel, 168 × 176 cm.
Galleria degli Uffizi, Florença

Características clássicas

CRÉDITO: Editoria de arte

· Clareza: nitidez das formas e contornos, visibilidade absoluta.

· Equilíbrio: simetria (a cada elemento da esquerda corresponde um da direita -


observe os retângulos verdes).

· Predomínio das linhas verticais e horizontais (linhas verdes).

· Perspectiva explícita, convergindo para um ponto de fuga situado nas figuras


de Cristo e Maria (linhas vermelhas).

· Forma fechada: todos os elementos convergem para o eixo central da pintura.

· Figuras estáticas e solenes, em repouso e contemplação.

CRÉDITO: Pietro Perugino. c. 1497-1500. Afresco, 40 × 31 cm. Collegio del


Cambio, Perugia

Pietro di Cristoforo Vanucci (1450-1523)

Conhecido como Pietro Perugino, em referência à sua cidade natal, Perugia,


foi discípulo de Piero della Francesca, com quem aprendeu perspectiva, e foi
professor do pintor Rafael. Entre suas obras mais conhecidas estão A
adoração dos magos, A entrega das chaves a São Pedro (Capela Sistina) e
O casamento da Virgem.

15

PINTURA 3
LEGENDA: Em Deposição da cruz (1602-1604), de Caravaggio, a solenidade
é quebrada pela expressão da dor, que explode nos gestos dramáticos e
incontidos dos personagens.

CRÉDITO: Caravaggio. 1602-1604. Óleo sobre tela, 300 × 203 cm. Museu do
Vaticano, Cidade do Vaticano

Características barrocas

· Fortes contrastes entre claro e escuro.

· As formas perdem o contorno (partes das figuras são vultos na escuridão) e


ganham volume.

· Desequilíbrio: assimetria.

· Predomínio das linhas inclinadas.

· A perspectiva não é nítida.

· Forma aberta (a pedra do túmulo, colocada transversalmente, ultrapassa os


limites da moldura; o homem que segura as pernas de Cristo olha para o
espectador da pintura).

· Figuras em movimento, dramaticidade.

CRÉDITO: Ottavio Maria Leoni. c. 1621. Pastel. Biblioteca Marucelliana,


Florença

Michelangelo Merisi (1571-1610)

Conhecido como Caravaggio, em referência à cidade em que nasceu, foi o


primeiro grande artista barroco e influenciou profundamente essa escola de
pintura. Suas obras são dotadas de grande realismo e causaram muita
polêmica em sua época. Mesmo na representação de temas bíblicos,
Caravaggio utilizava mendigos e prostitutas como modelos. Os efeitos realistas
e dramáticos são acentuados pelo forte contraste entre os tons escuros,
sobretudo no fundo das cenas, e claros, com a intensa iluminação de detalhes
das figuras. O pintor teve vida turbulenta e morreu muito jovem, em
circunstâncias desconhecidas.

PARA VER NA REDE

Para conhecer outras obras de Pietro Perugino e Caravaggio, visite os sites:


· http://tub.im/vihhfu (acesso em: 27 abr. 2016);

· http://tub.im/cqcdvp (acesso em: 27 abr. 2016).

16

Observe agora esta pintura modernista, do século XX. Ela representa a mesma
cena ou motivo tradicional da deposição de Cristo, ou seja, da retirada do corpo
de Cristo da cruz em que foi martirizado.

PINTURA 4

LEGENDA: Pietà (1924), de Vicente do Rego Monteiro.

CRÉDITO: Vicente do Rego Monteiro. 1924. Óleo sobre tela, 80 × 90 cm.


Coleção Gilberto Chateaubriand - MAM RJ

Características modernistas

· Figuras esquemáticas; abstração em formas geométricas; o conjunto


formando um bloco como uma escultura (influência da arte marajoara); a
posição das cabeças enfileiradas; as gotas de sangue e as patelas estilizadas.

· Simbolismo: contraste entre olhos fechados (os vivos) e abertos (o Cristo


morto).

· Pouca profundidade espacial: as figuras são "chapadas" no primeiro plano.

· Pintura quase monocromática (pequena variação de cores e tons,


predominância de tons terrosos).

CRÉDITO: ARQUIVO/ESTADÃO

Vicente do Rego Monteiro (1899-1970)

Pintor, escultor e poeta pernambucano, participou da Semana de Arte Moderna


com a exposição de oito obras. Sua pintura, frequentemente de temática
religiosa, combina influências do Cubismo e das artes indigenistas, sobretudo
da cerâmica marajoara, e primitivistas. "Minha pintura não poderia existir antes
do Cubismo, que me legou as noções de construção, luz e forma" (citado por
Walmir Ayala em Vicente, inventor. Rio de Janeiro: Record, 1980. p. 62).

PARA VER NA REDE


Para conhecer outras obras de Vicente do Rego Monteiro, visite o site:
http://tub.im/mge8fh (acesso em: 27 abr. 2016).

Em tom de conversa

Exponha suas observações sobre as pinturas e discuta com os colegas as


seguintes questões.

1. As quatro pinturas estão dispostas em ordem cronológica, da mais antiga


para a mais recente. Como você as reordenaria, considerando o realismo no
modo de representação das cenas e figuras? Justifique.

Resposta: Espera-se que os alunos agrupem as pinturas de Buoninsegna e


Rego Monteiro como as menos realistas e as de Perugino e Caravaggio como
as mais realistas. Na progressão da menos para a mais realista, a ordem entre
as duas primeiras seria Rego Monteiro e Buoninsegna. A justificação deve ser
sustentada nas descrições, levando-se em conta o simbolismo das figuras (que
determina o tamanho relativo de cada uma na pintura medieval), a ausência de
profundidade (figuras mais "chapadas" na medieval e na modernista), o
esquematismo e a abstração em formas geométricas (na modernista) em
oposição à maior profundidade, obtida pela perspectiva linear (Perugino) e pela
perspectiva aérea (contraste entre claro e escuro, em Caravaggio). O maior
realismo de Caravaggio em relação a Perugino pode ser relacionado tanto ao
claro-escuro quanto à oposição entre o movimento e a dramaticidade das
figuras da primeira e o hieratismo ou a solenidade - um quase "congelamento"
ou pose - das figuras da segunda.

2. Releia as observações sobre estilos de época, feitas na página 12. Qual


dessas observações pode ser exemplificada pelo reagrupamento e pela
ordenação das pinturas que você e seus colegas propuseram? Explique.

Resposta: O reagrupamento e a ordenação exemplificam a primeira


observação, ou seja, que não há evolução (progresso, aperfeiçoamento,
aumento de qualidade) na história das artes. Se houve um aperfeiçoamento do
realismo na representação, na passagem da arte medieval para a
renascentista, e desta para a barroca, isso não significa ganhos de qualidade
artística. Se fosse assim, a arte moderna representaria um retrocesso, uma
involução e uma perda de qualidade, pois a pintura de Rego Monteiro é menos
realista que as obras renascentista e barroca. Cada época e cada artista usam
seus meios expressivos, e a qualidade deve ser avaliada, em cada caso, pela
capacidade de representar ou expressar os valores humanos pretendidos.

17

As grandes escolas literárias

A história da literatura portuguesa divide-se em três grandes períodos:

· Era Medieval: do final do século XII ao final do século XV;

· Era Clássica: do século XVI ao século XVIII;

· Era Romântica: do século XIX até hoje.

A literatura brasileira possui apenas os dois últimos, mais especificamente


denominados:

· Era Colonial;

· Era Nacional.

LEGENDA: Iluminura do códice Manesse, que reúne canções de amor


medievais, 1340.

CRÉDITO: 1340. Iluminura. Biblioteca da Universidade de Heidelberg

Era Medieval

A Era Medieval da literatura portuguesa estende-se por mais de três séculos,


do final do século XII ao final do século XV.

Costuma-se dividi-la em dois períodos: Trovadorismo e Humanismo.

Trovadorismo (do final do século XII ao século XIV)

É o período literário que reúne basicamente os poemas feitos pelos trovadores


para serem cantados em feiras, festas e nos castelos durante os últimos
séculos da Idade Média. É contemporâneo às lutas pela independência e ao
surgimento do Estado português.

As obras refletem a mentalidade religiosa (teocentrismo) e feudal. Leia este


trecho.

Sedia-m'eu na ermida de San Simion


e cercaron-mi-as ondas que grandes son.

Eu estandend'o meu amigo! E verrá?

Estando na ermida, ant'o altar,

cercaron-mi-as ondas grandes do mar.

Eu estandend'o meu amigo! E verrá?

E cercaron-mi-as ondas que grandes son:

non ei i barqueiro nen sei remar.

Eu estandend'o meu amigo! E verrá?

E cercaron-mi-as ondas do alto mar:

non ei i barqueiro ni remador.

Eu estandend'o meu amigo! E verrá?

[...]

Estava eu na ermida de São Simeão

e cercaram-me as ondas tão grandes.

Eu esperando o meu amigo! E ele virá?

Estando na ermida ante o altar

Cercaram-me as ondas grandes do mar.

Eu esperando o meu amigo! E ele virá?

E cercaram-me as ondas tão grandes:

Lá não tenho barqueiro nem remador.

Eu esperando o meu amigo! E ele virá?

E cercaram-me as ondas do alto-mar:

Lá não tenho barqueiro nem sei remar.

Eu esperando o meu amigo! E ele virá?

[...]
MENDINHO. In: MONGELLI, Lênia Márcia (Org.). Fremosos cantares:
antologia da lírica medieval galego-portuguesa. São Paulo: WMF Martins
Fontes, 2009. p. 134.

Observe que a língua que se falava na época ainda era o galego-português,


que daria origem, mais tarde, ao português moderno.

No fragmento, uma jovem está em uma ermida (pequena igreja) à beira-mar e


se sente envolvida pelas ondas. O tumulto das ondas sugere a inquietação da
alma: a moça preocupa-se com a demora do namorado (amigo) e sente-se
naufragar na dúvida e no sofrimento.

Humanismo (século XV)

É o período de transição entre o pensamento teocentrista e as ideias


antropocêntricas do Renascimento. Corresponde à época da expansão
marítima e ao início do mercantilismo europeu.

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LEITURA

Você já conhece a cena do teatro de Gil Vicente, autor do período humanista,


de que foi retirado o fragmento abaixo.

Ninguém Como hás nome, cavaleiro?

Todo o Mundo Eu hei nome Todo o Mundo,

e meu tempo todo inteiro

sempre é buscar dinheiro,

e sempre nisto me fundo.

VICENTE, Gil. Auto da Lusitânia. In: SPINA, Segismundo. Obras-primas do


teatro vicentino. São Paulo: Difel: Edusp, 1970. p. 317.

Em tom de conversa

Discuta com seus colegas a seguinte questão sobre o poema: Qual é a


característica histórica dos séculos XV e XVI que motiva as críticas do autor ao
comportamento de "Todo o Mundo"?
Resposta: Os séculos XV e XVI são a época do mercantilismo. O autor critica a
avidez das pessoas pelo dinheiro e pelo lucro.

Era Clássica | Era Colonial

A segunda era da literatura portuguesa estende-se do século XVI ao XVIII e


compreende três escolas: Renascimento, Barroco e Neoclassicismo.

Renascimento (século XVI)

O Renascimento é um dos mais importantes movimentos culturais e artísticos


da história moderna. Originário da Itália, procura reviver os ideais da civilização
greco-latina: equilíbrio, sobriedade, naturalidade, perfeição.

Orientada por uma visão de mundo antropocêntrica, a literatura renascentista


procura exprimir os valores absolutos e eternos por meio da Razão.

No canto VI de Os Lusíadas, poema épico que narra a viagem de Vasco da


Gama, lemos a seguinte estrofe, em que Baco se queixa da ousadia dos
portugueses, temeroso de que eles se tornem deuses do mar e do céu.

Vistes que, com grandíssima ousadia,

Foram já cometer o Céu supremo;

Vistes aquela insana fantasia

De tentarem o mar com vela e remo;

Vistes, e ainda vemos cada dia,

Soberbas e insolências tais, que temo

Que do Mar e do Céu, em poucos anos,

Venham Deuses a ser, e nós, humanos.

CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Porto: Porto Editora, 1978. p. 224.

O ciúme de Baco exemplifica a valorização do homem no Renascimento - o


antropocentrismo.

19

Quinhentismo brasileiro (século XVI)


Enquanto ocorria o Renascimento na Europa, no Brasil apenas se iniciava o
longo processo de transplante cultural. As poucas manifestações literárias da
nova terra estão ligadas à catequese jesuítica, refletindo uma visão teocêntrica
davida e seguindo atradição medieval. Apalavra "Quinhentismo", por referir-se
apenas aos anos quinhentos, tem um sentido genérico, talvez mais apropriado
para denominar o conjunto dessas primeiras manifestações.

Diabo Ai de mim, desventurado!

(Acolhe-se Satanás)

Anjo Ó traidor, aqui jarás

de pés e mãos amarrado,

pois que perturbas a paz

deste puebro sossegado!

Diabo Ó anjo, deixa-me já,

Que tremo desta senhora!

Anjo Contanto que te vás fora

e nunca mais tornes cá.

Diabo Ora seja na má hora!

ANCHIETA, José de. Poesias. São Paulo: Comissão do IV Centenário, 1954.


p. 391.

Esse fragmento pertence a um auto (peça teatral) representado no Espírito


Santo, quando a Vila de Vitória recebeu uma relíquia das Onze Mil Virgens.
Observe a semelhança com os autos de Gil Vicente.

Barroco (século XVII a meados do século XVIII)

O Barroco corresponde ao período da Contrarreforma (movimento da Igreja


Católica em reação à Reforma protestante). Os valores do antropocentrismo
entram em crise e em conflito com os valores religiosos. O equilíbrio clássico é
substituído por uma angustiada expressão da pequenez humana diante de
Deus.
Leia, a seguir, uma estrofe do poema "No dia de quarta-feira de cinzas" de
Gregório de Matos.

LEITURA

Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,

Te lembra hoje Deus por sua Igreja;

De pó te faz espelho em que se veja

A vil matéria, de que quis formar-te.

MATOS, Gregório de. Obra poética. 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1992. v. 1.
p. 78.

Em tom de conversa

Exponha sua opinião sobre a seguinte questão e discuta-a com seus colegas:
Qual é o tema tipicamente barroco dessa estrofe de Gregório de Matos?

Resposta: O tema da estrofe é o ensinamento da Igreja Católica de que o


corpo, mortal e impuro, deve ser desprezado como "vil matéria". Professor(a),
explicar que o tema do soneto é a liturgia da Quarta-feira de Cinzas, em que o
sacerdote faz o sinal da cruz na testa do penitente, " pronunciando o versículo:
"Memento, homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris ("Lembra-te, homem,
de que és pó e ao pó retornarás").

20

Neoclassicismo (segunda metade do século XVIII)

Reagindo aos exageros do Barroco, os autores neoclássicos pretendem


restaurar o equilíbrio e o otimismo. Predomina nesse período a poesia pastoril
e bucólica, como representação ideal da vida simples e natural.

Logo, entretanto, a arte neoclássicavai adquirindo tons emocionais e


pessimistas que prenunciam o Romantismo (Pré-Romantismo).

Leia, a seguir, o poema de Bocage e observe como a natureza serve de


cenário para os sentimentos.

Olha, Marília, as flautas dos pastores

Que bem que soam, como estão cadentes!


Olha o Tejo a sorrir-se! Olha, não sentes

Os Zéfiros brincar por entre flores?

Vê como ali beijando-se os Amores

Incitam nossos ósculos ardentes!

Ei-las de planta em planta as inocentes,

As vagas borboletas de mil cores.

Naquele arbusto o rouxinol suspira,

Ora nas folhas a abelhinha para,

Ora nos ares sussurrando gira:

Que alegre campo! Que manhã tão clara!

Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,

Mais tristeza que a morte me causara.

BOCAGE, Manuel Maria Barbosa du. Os amores: poemas escolhidos. Seleção


Álvaro Cardoso Gomes. São Paulo: Círculo do Livro, [19--]. p. 24.

Era Romântica / Era Nacional

À Era Romântica da literatura portuguesa corresponde a Era Nacional da


literatura brasileira. Em ambas sucedem-se seis escolas: Romantismo,
Realismo/Naturalismo/Parnasianismo, Simbolismo, Modernismo e, na
atualidade, o que se convencionou chamar de literatura Pós-Moderna ou
Contemporânea.

Romantismo (primeira metade do século XIX)

É a escola literária que representa a mentalidade burguesa, predominante a


partir do final do século XVIII. A literatura torna-se extremamente subjetiva e
exageradamente emocional.

Quando em meu peito rebentar-se a fibra,

Que o espírito enlaça à dor vivente,

Não derramem por mim nenhuma lágrima

Em pálpebra demente.
E nem desfolhem na matéria impura

A flor do vale que adormece ao vento:

Não quero que uma nota de alegria

Se cale por meu triste passamento.

AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. In: SILVA, Domingos Carvalho et
al. Grandes poetas românticos do Brasil. 5ª ed. São Paulo: Discubra, 1978.
t. I. p. 252.

Álvares de Azevedo, autor dessas estrofes, é representante do


Ultrarromantismo brasileiro. Observe o tom emocional e a expressão da
autopiedade do eu lírico.

21

Escolas realistas - Realismo, Naturalismo, Parnasianismo (segunda


metade do século XIX)

Reagindo contra os exageros da subjetividade e do emocionalismo romântico,


surgem, na segunda metade do século, tendências literárias que pretendem
representar a realidade com o máximo de objetividade. A escola naturalista, por
exemplo, pretendia utilizar efetivamente os métodos das ciências naturais e
experimentais. Os poetas parnasianos, além de se dedicarem ao realismo
descritivo, realizaram um verdadeiro culto à perfeição formal.

LEITURA

João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro
que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos
refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara
nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em
pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro,
como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.

Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda


com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava
resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda,
em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de
palha. A comida arranjava-lhe, mediante quatrocentos réis por dia, uma
quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego
residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça
de mão e fazia fretes na cidade.

Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem


afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de
fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso,
tinha de parte quase que o necessário para a alforria. Um dia, porém, o seu
homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas
forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. In: LEVIN, Orna M. (Org.). Ficção completa em


dois volumes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005. v. 2. p. 441.

Em tom de conversa

Nesse trecho, Aluísio Azevedo apresenta os personagens principais do


romance O cortiço. Discuta com seus colegas a linguagem utilizada pelo autor,
sobretudo a seleção dos vocábulos (adjetivos, substantivos e verbos) e o efeito
de sentido que essa escolha provoca nas impressões do leitor.

Atenção Professor(a), os alunos devem fazer um rápido levantamento do


léxico, por exemplo - adjetivos: suja, obscura, crioula, trintona, amigada;
substantivos: labutação, ardor; verbos: enriquecer, economizar; expressões:
nos refolhos, delírio de enriquecer, mais duras privações, seu homem,
estrompado como uma besta- e observar que a linguagem se refere aos
personagens sem qualquer idealização ou mesmo amenização das
características. O efeito é o rebaixamento do personagem João Romão a um
nível bastante grosseiro de sujeira, privações, excesso de trabalho, ganância,
avareza, e a quase animalização dos outros dois, Bertoleza e o marido. Fim da
observação.

Simbolismo (final do século XIX)

Com a lâmpada do Sonho desce aflito

E sobe aos mundos mais imponderáveis,

Vai abafando as queixas implacáveis,


Da alma o profundo e soluçado grito.

CRUZ E SOUSA. Poesia completa. Florianópolis: Fundação Catarinense de


Cultura, 1981. p. 146.

Essa é a primeira estrofe de um soneto intitulado "O cavador do infinito". O


poeta empreende a "escavação da alma", iluminando a descida com "a
lâmpada do Sonho" - os símbolos oníricos (dos sonhos).

Assim como o Realismo foi uma reação ao subjetivismo romântico, o


Simbolismo reage contra os excessos da pretensa objetividade realista.
Influenciados pela psicanálise de Freud e porfilosofias espiritualistas, os
autores buscam captar a realidade por meio da intuição. Interessa-lhes
principalmente representar as camadas mais profundas do ser humano. Por
isso cultivam uma linguagem extremamente musical, mas imprecisa, sugestiva,
que frequentemente nos remete para o mundo onírico.

22

Modernismo (século XX)

O século XX inaugura uma "revolução permanente" nas artes e na literatura,


sintonizando-as com um novo ritmo de vida. A velocidade, a tecnologia, a
euforia e o desencanto do ser humano com transformações inusitadas em
todos os setores da existência deflagram novos conceitos e novos
procedimentos artísticos. Eles vêm se renovando desde as chamadas
"vanguardas" do início do século.

A paródia, a quebra da linearidade da linguagem, os cortes e flashes


cinematográficos, a valorização da cultura popular e do inconsciente
constituem algumas das principais características da pluralidade de estilos que
se reúnem no Modernismo.

O capoeira

- Qué apanhá sordado?

- O quê?

- Qué apanhá?

Pernas e cabeças na calçada.


O CAPOEIRA - In: Pau Brasil, de Oswald de Andrade, Editora Globo, São
Paulo, © Oswald de Andrade.

Observe que no poema a ideia de luta é apenas sugerida por um diálogo


relâmpago, tipicamente popular, criado em linguagem sintética, telegráfica,
metonímica. Exemplo de linguagem literária como montagem de cenas, numa
tentativa de apreender a simultaneidade.

A literatura contemporânea

A partir da década de 1970, as artes e a literatura passaram por


transformações cada vez mais aceleradas, refletindo as mudanças políticas
internacionais e nacionais, a irrupção da indústria cultural de massa, a
revolução eletrônica e digital. Os movimentos são muitos e contraditórios, e
nenhum ganhou relevância sobre os outros a ponto de tornar-se denominação
da época. Mesmo o Pós-Modernismo, que nos anos 1980 parecia dominar o
cenário artístico internacional, ficou longe de se tornar unanimidade. Os termos
arte contemporânea ou literatura contemporânea são necessariamente
provisórios, pois o adjetivo "contemporâneo" refere-se atudo o que é atual em
qualquer época. Passado o nosso tempo, a arte que se faz hoje não poderá ser
chamada de contemporânea. A grande riqueza de manifestações artísticas e
literárias de hoje, portanto, aguarda a criação de um nome que possa sugerir
essa extrema variedade.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

· A história da literatura agrupa os autores e obras em escolas (períodos,


movimentos) literárias ou estilos de época.

· Os grandes movimentos artísticos englobam manifestações de diferentes


artes, e é possível perceber semelhanças entre elas e a literatura.

· Conhecer a história literária e as características das escolas é um modo de


organizar os conhecimentos de literatura e dimensionar a originalidade de um
autor ou de uma obra. Portanto, é um modo de criar repertório de leitura.

· As características que permitem a inclusão de uma obra singular em uma


escola literária não são critérios para o julgamento da qualidade artística e
literária. Em arte, a diferença, a ruptura, a originalidade são mais importantes
que a conformidade.

· A descrição das escolas literárias realizada neste capítulo deve ser


considerada um guia para consulta ao longo dos estudos literários de todo o 2º
ano.

23

Atividades

Escreva no caderno

1. (PUCCamp-SP) Considere a foto abaixo.

LEGENDA: Catedral de Notre-Dame, construída em Paris entre 1163 e 1250.

CRÉDITO: Corel Stock Photo

As catedrais medievais em estilo gótico têm como característica:

a) apresentarem, em sua construção, uma estrutura monumental apoiada em


paredes largas, de pedra, com poucas aberturas, alguns arcos e grossos
pilares.

b) ilustrarem aquele que foi o primeiro dos estilos arquitetônicos que marcaram
a arte medieval, baseado na ideia da verticalidade e da grandiosidade divina.

c) representarem o tipo de igreja ostentatória implantado pelos papas, na Alta


Idade Média, em regiões da Europa onde persistiam cultos pagãos.

d) servirem de refúgio para a população contra ataques inesperados de árabes


e hereges, razão pela qual eram chamadas de "fortalezas de Deus".

e) refletirem o florescimento da vida urbana e portarem elementos que


sugeriam leveza, como os vitrais, muitas vezes presenteados por corporações
de ofício.

Resposta: Alternativa e.

24

Leia o poema e responda às questões de 2 a 5.

Esparsa
D'esperança em esperança

pouco a pouco me levou

grand'engano ou confiança,

que me tão longe leixou.

Se m'isto tomara outrora,

cuidara de ver-lhe fim;

mas qu'hei-de cuidar já'gora,

sem esperança e sem mim?

RIBEIRO, Bernardim. In: RESENDE, Garcia de. Antologia do Cancioneiro


geral. Sel., org., intr. e notas por Maria Ema Tarracha Ferreira. Lisboa:
Ulisseia, 1994. p. 142. (Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses.)

CRÉDITO: Rogério Borges

Bernardim Ribeiro

Nada se sabe da biografia desse poeta. É autor de cinco éclogas (composições


dialogadas de temática pastoril).

Sua obra mais conhecida é a novela sentimental, em prosa, denominada


Menina e moça. O Cancioneiro geral (coleção de poemas do século XV
publicada no século XVI) reúne 12 poemas seus.

Vocabulário:

leixar: deixar;

se m'isto tomara outrora: se tivesse tomado consciência disto outrora;

cuidara de ver-lhe fim: procuraria ver-lhe o fim (ver o fim disso);

qu'hei-de cuidar: que hei de fazer.

Fim do vocabulário.

2. Faça a escansão do primeiro verso do poema. Em relação à métrica, como


são chamados os versos utilizados por Bernardim Ribeiro?

Resposta: D'es/pe/ran/ça em/ es/pe/ran/ça - Versos redondilhas maiores (7


sílabas).
3. Utilizando letras, faça o esquema de rimas do poema.

ABABCDCD

4. Retome os quatro primeiros versos do poema e coloque-os na ordem


sintática direta. Depois responda:

Resposta: Grand'engano ou confiança, que me tão longe leixou, me levou


pouco a pouco d'esperança em esperança.

Caso esses versos fossem escritos nessa nova ordem, a leitura também seria
atraente e melodiosa? Por quê?

Resposta pessoal. Professor(a), peça aos alunos que façam a leitura oral das
duas estruturas comparando as mudanças sonoras de cada uma.

5. A poesia do Humanismo é marcada pela requintada elaboração formal -


recursos sonoros e rítmicos expressivos, jogos de palavras sofisticados,
imagens sutis, engenhosa construção conceitual.

a) Observe as repetições de palavras nos quatro primeiros versos do poema.


Explique o efeito expressivo dessas repetições, relacionando-as à palavra
"longe", do quarto verso.

Resposta: As repetições ("esperança em esperança", "pouco a pouco")


produzem um efeito amplificador, cumulativo e progressivo, que culmina na
expressão "me tão longe leixou".

b) Comente o último verso, relacionando-o à palavra "longe" e aos versos


anteriores.

Resposta: A interrogação traduz a perplexidade do eu lírico, que, tendo se


enganado por tanto tempo, só agora toma consciência de que tudo está
perdido: não existe mais esperança e ele não pode mais contar nem consigo
mesmo ("sem mim").

6. (PUC-PR) Identifique nos versos finais do poema "O assinalado", de Cruz e


Sousa, os elementos que caracterizam a poesia simbolista do autor. Depois
assinale a alternativa correta.

Tu és o Poeta, o grande Assinalado

que povoas o mundo despovoado,


de belezas eternas, pouco a pouco.

Na Natureza prodigiosa e rica

Toda a audácia dos nervos justifica

Os teus espasmos imortais de louco!

a) A poesia é criação de belezas eternas.

b) A poesia é a linguagem que provoca a loucura do poeta.

c) O poeta se distingue dos mortais comuns porque é louco.

d) A natureza oculta a loucura do poeta.

e) O poeta é "assinalado" porque contribui para povoar o mundo.

Resposta: Alternativa a.

25

As quatro reproduções a seguir representam a mesma cena religiosa, inspirada


em uma passagem do Evangelho. Depois de tê-las observado atentamente,
responda às questões 7 e 8.

PINTURA 1

LEGENDA: A última ceia (1520-1525), de Andrea del Sarto.

CRÉDITO: Andrea del Sarto. 1520-1525. Afresco, 871 × 525 cm. Convento San
Salvi, Florença

PINTURA 2

LEGENDA: A última ceia (1498), de Leonardo Da Vinci.

CRÉDITO: Leonardo da Vinci. 1498. Afresco, 4,6 × 8,8 m. Convento Santa


Maria delle Grazie, Milão

26

PINTURA 3

LEGENDA: A última ceia (c. 1308-1311), de Duccio di Buoninsegna.

CRÉDITO: Duccio di Buoninsegna. c. 1308-11. Têmpera e ouro sobre madeira,


53 × 50 cm. Museo dell'Opera de Duomo, Siena
PINTURA 4

LEGENDA: A última ceia (1594), de Tintoretto.

CRÉDITO: Tintoretto, 1594. Óleo sobre tela. 3,65 × 5,68 m. San Giorgio
Maggiore, Veneza

27

7. Relacione cada uma das características abaixo às pinturas, indicando o seu


número.

a) Busca da fidelidade na representação do cenário e das figuras humanas.

Resposta: Pinturas 1, 2 e 4.

b) Representação esquemática, deformada e simbólica da realidade.

Resposta: Pintura 3.

c) Deformação da perspectiva.

Resposta: Pintura 3.

d) Perspectiva rigorosa; senso de proporção; tridimensionalidade; a distância


do detalhe determina seu tamanho e sua nitidez.

Resposta: Pinturas 1, 2 e 4.

e) Figuras rígidas e solenes para representar o sagrado.

Resposta: Pintura 3.

f) Rigor da composição, da organização espacial e da simetria.

Resposta: Pinturas 1 e 2.

g) Ausência de simetria, tensão dramática dos contrastes, do claro-escuro;


saturação da imagem, movimento, agitação.

Resposta: Pintura 4.

8. Lembrando as características do Renascimento e de acordo com as


observações feitas no exercício anterior, indique as figuras correspondentes à:

a) pintura renascentista maneirista.

Resposta: Pintura 4.
b) pintura medieval.

Resposta: Pintura 3.

c) pintura renascentista clássica.

Resposta: Pinturas 1 e 2.

Leia o poema e responda às questões 9 e 10.

Este inferno de amar

Este inferno de amar - como eu amo! -

Quem mo pôs aqui n'alma... quem foi?

Esta chama que alenta e consome,

Que é a vida - e que a vida destrói -

Como é que se veio a atear,

Quando - ai quando se há de apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,

A outra vida que dantes vivi

Era um sonho talvez... - foi um sonho -

Em que paz tão serena a dormi!

Oh! que doce era aquele sonhar...

Quem me veio, ai de mim! despertar?

Só me lembra que um dia formoso

Eu passei... dava o Sol tanta luz!

E os meus olhos, que vagos giravam,

Em seus olhos ardentes os pus.

Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;

Mas nessa hora a viver comecei...

GARRETT, Almeida. Este inferno de amar. In: MOISÉS, Massaud. A literatura


portuguesa através dos textos. 14ª ed. São Paulo: Cultrix, 1985. p. 219.
Vocabulário:

Maneirismo: entendido às vezes como antirrenascimento, o Maneirismo,


surgido na Itália após 1520, é a fase de transição entre o Renascimento e o
Barroco. Certas obras, em razão de características como o jogo intenso de
claro-escuro, o alongamento e a contorção das figuras e a dramaticidade das
cenas, podem facilmente ser tomadas por obras barrocas.

Fim do vocabulário.

Almeida Garrett (1799-1854)

Introdutor do Romantismo em Portugal, foi uma das figuras públicas mais


notáveis e atuantes de sua época. Além de participar ativamente na política
(revolucionário liberal, deputado em várias legislaturas, ministro de Estado),
João Batista da Silva Leitão de Almeida Garrett foi um grande agitador cultural.
Dedicou-se ao jornalismo, à crítica e à história literária, à poesia, à prosa de
ficção e ao teatro.

Em sua vasta obra destacam-se: Viagens na minha terra (prosa), Folhas


caídas (poesia) e Frei Luís de Sousa (teatro).

28

9. O poema exprime a confusão dos sentimentos do amante.

a) Comente, a esse respeito, o título do poema.

Resposta: O título já exprime as contradições do sentimento, que são o tema


do poema: o amor, condição da felicidade, é causa de sofrimentos, é um
verdadeiro inferno para o sujeito lírico.

b) Localize na primeira estrofe dois oximoros (paradoxos) que exprimem a


confusão dos sentimentos.

Resposta: "Esta chama que alenta e consome," e "Que é a vida - e que a vida
destrói -".

10. O sujeito lírico evoca o tempo em que o amor era apenas um sonho. Os
olhos de uma mulher despertaram-no, tornando o sonho realidade.

a) Qual é a diferença entre o sonho e a realidade do amor?


Resposta: O sonho era doce e nele havia a paz; a realidade é o sofrimento, o
"inferno".

b) Apesar dessa diferença, o poema termina com uma defesa do amor.


Explique.

Resposta: Apesar dos sofrimentos que causa, o amor é a condição da vida; o


sujeito lírico afirma que só começou a viver quando o amor o despertou.

11. (Enem/MEC)

Soneto

Já da morte o palor me cobre o rosto,

Nos lábios meus o alento desfalece,

Surda agonia o coração fenece,

E devora meu ser mortal desgosto!

Do leito embalde no macio encosto

Tento o sono reter!... já esmorece

O corpo exausto que o repouso esquece...

Eis o estado em que a mágoa me tem posto!

O adeus, o teu adeus, minha saudade,

Fazem que insano do viver me prive

E tenha os olhos meus na escuridade.

Dá-me a esperança com que o ser mantive!

Volve ao amante os olhos por piedade,

Olhos por quem viveu quem já não vive!

AZEVEDO, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000.

O núcleo temático do soneto citado é típico da segunda geração romântica,


porém configura um lirismo que o projeta para além desse momento específico.
O fundamento desse lirismo é:

a) a angústia alimentada pela constatação da irreversibilidade da morte.


b) a melancolia que frustra a possibilidade de reação diante da perda.

c) o descontrole das emoções provocado pela autopiedade.

d) o desejo de morrer como alívio para a desilusão amorosa.

e) o gosto pela escuridão como solução para o sofrimento.

Resposta: Alternativa b.

12. (UFRJ)

HAPPY END

O meu amor e eu

nascemos um para o outro

agora só falta quem nos apresente.

Cacaso

29

O texto "Happy end" - cujo título ("final feliz") faz uso de um lugar-comum dos
filmes de amorconstrói-se na relação entre desejo e realidade, e pode ser
considerado uma paródia de certo imaginário romântico.

Justifique a afirmativa, levando em conta elementos textuais.

Resposta: No imaginário romântico há sempre um conflito entre o desejo e a


realidade, adversa à sua realização. O amor e a felicidade são idealizados e
ocorreriam na perfeita e impossível identidade dos amantes. O poema parodia
essa idealização, pois o título é irônico: o final feliz é negado pelo fato de os
amantes nem mesmo ainda se conhecerem.

13. (ITA-SP) O poema abaixo é de José Paulo Paes:

Bucólica

O camponês sem terra

Detém a charrua

E pensa em colheitas

Que nunca serão suas.

In: Um por todos: poesia reunida. São Paulo: Brasiliense, 1986.


O texto apresenta:

a) uma oposição campo/cidade, de filiação árcade-romântica.

b) um bucolismo típico da tradição árcade, indicado pelo título.

c) uma representação tipicamente romântica do homem do campo.

d) um contraste entre o arcadismo do título e o realismo social dos versos.

e) uma total ruptura com a representação realista do homem do campo.

Resposta: Alternativa d.

14. (Mack-SP)

A Musa de collant faz ginástica vamp.

Inteiramente pública, áspera, ofegante,

os olhos flamejantes, a boca free-lancer.

Arde barroca e fere o sol, concomitante.

Felipe Fortuna (poeta brasileiro da atualidade)

Assinale a alternativa correta sobre o texto.

a) Constrói um ideal de Musa a partir de referências que se opõem às do


discurso poético clássico.

b) Explicita um juízo de valor negativo com relação à mulher, reforçado pelo


uso de estrangeirismos (collant, vamp, free-lancer).

c) Critica, pelos adjetivos utilizados (pública, áspera, ofegante, entre outros), a


atitude antifeminina da mulher moderna.

d) Refere-se exclusivamente à mulher que se prostitui, como comprova o uso


da expressão "boca free-lancer" (verso 3).

e) Denuncia, com a metáfora "fere o sol" (verso 4), a atitude agressiva e hostil
das mulheres que frequentam academias.

Resposta: Alternativa a.

15. (PUC-RS)

Minhas mãos ainda estão molhadas


do azul das ondas entreabertas

e a cor que escorre dos meus dedos

colore as areias desertas

A estrofe acima revela um dos tópicos dominantes na poesia de Cecília


Meireles, que é a percepção _____ do mundo.

a) sentimental.

b) racional.

c) emotiva.

d) sensorial.

e) onírica.

Resposta: Alternativa d.

16. (PUC-RS)

Quando nasci, um anjo torto

desses que vivem na sombra

disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens

que correm atrás de mulheres.

A tarde talvez fosse azul,

não houvesse tantos desejos.

Um dos traços da poesia de Carlos Drummond de Andrade, como demonstram


os versos acima, é a _____ entre as estrofes, o que nos oferece uma ideia de
fragmentação da realidade.

a) disponibilidade.

b) carência.

c) descontinuidade.

d) indagação.

e) dissolução.
Resposta: Alternativa c.

30

capítulo 2 - Camões e o Renascimento

Neste capítulo você vai estudar as principais características do Renascimento e


o principal autor desse período, Camões, um dos maiores poetas das
literaturas em língua portuguesa.

LEGENDA: Filme de Ridley Scott. 1492 A Conquista do Paraiso. 1992.


Espanha e França.

CRÉDITO: Fotografia de RDA/Rue des Archives/Latinstock

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Livros

· CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM, 2008. Edição
comentada.

· NESTI, Fido. Os Lusíadas em quadrinhos. São Paulo: Peirópolis, 2006.

· SONETOS de Camões. 5ª ed. São Paulo: Ateliê, 2011.

Vídeos

· 1492, A CONQUISTA do paraíso. Dirigido por: Ridley Scott. França/Espanha,


1992.

· QUEM ÉS TU, Luís Vaz?. Produção: RTP2. Portugal, 2002. (Especial


Grandes Escritores Portugueses.) Disponível em: tub.im/sp4v85. Acesso em:
27 abr. 2016.

Sites

· BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL. Obras de Camões. 2016.


Disponível em: http://tub.im/esk32n. Acesso em: 27 abr. 2016.

· INSTITUTO CAMÕES. [2015?]. Disponível em: http://tub.im/2g4qdo. Acesso


em: 27 abr. 2016. (Na aba Conhecer, selecione Biblioteca Digital Camões ou
Bases Temáticas/Literatura portuguesa).

· OBRAS DE ALTO RENASCIMENTO. 2014. Disponível em:


http://tub.im/e23byw. Acesso em: 27 abr. 2016.
31

Atenção Professor(a), a atividade da seção "E mais...", da página 38, requer


preparação antecipada. Fim da observação.

PRIMEIRA LEITURA

TEXTO 1

Soneto

Amor é um fogo que arde sem se ver,

é ferida que dói, e não se sente;

é um contentamento descontente,

é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;

é um andar solitário entre a gente;

é nunca contentar-se de contente;

é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;

é servir a quem vence, o vencedor;

é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor

nos corações humanos amizade,

se tão contrário a si é o mesmo Amor?

CAMÕES, Luís de. Rimas. Texto estabelecido, revisto e prefaciado por Álvaro
J. da Costa Pimpão. Coimbra: Atlântida, 1973. p. 110.

TEXTO 2

Soneto

Tanto de meu estado me acho incerto,

que, em vivo ardor, tremendo estou de frio;

sem causa, juntamente choro e rio,


o mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto;

da alma um fogo me sai, da vista um rio;

agora espero, agora desconfio,

agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando,

num'hora acho mil anos, e é de jeito

que em mil anos não posso achar um'hora.

Se me pergunta alguém porque assi ando,

respondo que não sei; porém suspeito

que só porque vos vi, minha Senhora.

CAMÕES, Luís de. Lírica completa. Prefácio e notas de Maria de Lurdes


Saraiva. Coimbra: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, 1980. p. 40, v. II -
Sonetos.

CRÉDITO: Ignaz Fertig. Séc. XIX. Litografia. Biblioteca Nacional de Portugal,


Lisboa

Luís Vaz de Camões (1524?-1580)

A biografia do maior vulto da literatura portuguesa é envolta em lendas: a perda


do olho direito na batalha de Ceuta (Marrocos), a vida boêmia, as brigas, a
prisão e o desterro na Índia e em Macau, a paixão por uma chinesa
(Dinamene), o retorno, o naufrágio, o final da vida na miséria - nada foi jamais
reconstituído por falta de documentação.

FIQUE SABENDO

Versos 10 e 11: jogo sobre a palavra hora que, no verso 10, significa unidade
de tempo e, no verso 11, oportunidade favorável. (Nota de Maria de Lurdes
Saraiva, op. cit. p. 40.)

Vocabulário:
soneto: composição poética de quatorze versos, distribuídos em quatro
estrofes - dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (três
versos). Esse modelo foi fixado pelo poeta humanista italiano Francesco
Petrarca.

Fim do vocabulário.

Em tom de conversa

A palavra soneto, em sua origem, é o diminutivo de "som". Essa observação


nos remete para a importância da estrutura sonora e rítmica nessa composição
poética. Ler bem um soneto não é apenas entendê-lo. É também senti-lo -
sentir sua musicalidade e seu ritmo.

32

1. Releia os poemas, em silêncio e em voz alta, experimentando diferentes


modos de acentuar sua sonoridade.

2. Ouça a leitura de um colega. Compare-a com a sua. Em seguida, participe


da conversa sobre o texto, que será organizada pelo(a) professor(a).

3. Exponha para os colegas suas impressões sobre os sonetos. De qual você


mais gostou? Por quê? Qual deles você considera mais difícil?

Respostas pessoais.

4. Camões é um poeta muito citado. Qual trecho (verso ou estrofe) você


memorizaria para citar em alguma ocasião oportuna? Por quê?

Respostas pessoais.

5. Tente traduzir em uma frase a ideia mais geral sobre o amor desenvolvida
no soneto. Ouça as frases de seus colegas e discuta com eles para que,
juntos, escolham a que consideram a melhor. Um bom ponto de partida:

· O que o eu lírico pensa sobre o amor.

· Ele sabe definir esse sentimento?

Resposta: Frases possíveis: O amor é contraditório, incompreensível e


inexprimível em palavras. / O amor é um sentimento ambíguo, que ilumina e
queima, mas se esquiva a qualquer definição. / Sente-se intensamente o amor,
mas não se consegue traduzi-lo em palavras.
O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

[...] o poeta atenua os impulsos do seu "eu", quer dizer, de sua vida subjetiva
particular, em favor de uma visão impessoal ou objetiva e universal, que
pressupõe absolutos de beleza, de bem e de verdade. Por isso, interessa-lhe
mais a Mulher que a mulher (ou esta como reflexo daquela), mais o Amor que o
amor (ou este como reflexo daquele) e assim por diante.

MOISÉS, Massaud. A Literatura Portuguesa através dos textos. 7ª ed. São


Paulo: Cultrix, 1976, p. 78.

Releitura

Escreva no caderno

1. Para responder às perguntas a seguir, leia o comentário de Massaud Moisés


no boxe de cima.

a) Considerando o tema do primeiro soneto, explique por que o substantivo


amor foi grafado com inicial maiúscula.

Resposta: O tema do soneto é a busca de uma definição do amor, e não a


expressão de um sentimento individual ou o relato de um caso particular de
amor. A letra maiúscula é um modo de sublinhar que o eu lírico fala do amor
como ideia, como conceito universal.

b) Conforme a explicação dada no item anterior, como deveria ser grafado o


mesmo substantivo no segundo soneto, se o poeta o tivesse utilizado? Por
quê?

Resposta: No segundo soneto o substantivo amor deveria ser grafado com


letra minúscula, pois ele se referiria a um sentimento ou um caso particular de
amor, despertado pela visão de uma mulher.

2. Leia a definição de oximoro no quadro acima e responda às questões.

a) Explique por que "um fogo que arde sem se ver" é um oximoro.

Resposta: Porque o substantivo fogo, fenômeno natural, é o desprendimento


de calor e de luz na combustão de um corpo. Ora, o que desprende luz é
visível por definição. Portanto, a segunda parte da metáfora, "sem se ver"
(invisível) contradiz a primeira, "fogo". O primeiro soneto já se inicia com um
oximoro e apresenta uma lista de outros ao longo do poema.

b) Na sua opinião, qual é o oximoro mais expressivo no soneto?

Resposta pessoal.

c) De todas as definições dadas pelo eu lírico, qual é a mais ampla, que


resume todas as outras? Justifique sua resposta.

Resposta: A mais ampla é "tão contrário a si é o mesmo Amor". As outras


definições são exemplos de contradições entre o que se espera do amor e os
seus efeitos. No último verso, o eu lírico define o amor como contraditório em si
mesmo, ou seja, como essencialmente contraditório: o amor é o contrário do
amor.

3. Retorne ao soneto 2 e responda.

a) O verso "que em vivo ardor, tremendo estou de frio" constitui oximoro?


Justifique sua resposta.

Resposta: Espera-se que os alunos respondam negativamente. O ardor (calor)


e o frio são duas sensações que podem ocorrer ao mesmo tempo, em estado
de febre. A palavra calafrio nomeia precisamente essa dupla sensação.
Professor(a), explicar que calafrio é composto de cale (de calere: estar quente)
+ frige (de frigere: sentir frio). Portanto, embora opostas, antitéticas, uma
sensação não nega a outra, criando um paradoxo. Comente outras antíteses
do soneto 2, mostrando que elas exprimem a incerteza, a confusão do eu lírico,
mas não constituem oximoros.

b) O significado da metáfora fogo, no 6º verso, é igual ao do primeiro soneto?

Resposta: Não; no primeiro soneto, fogo é metáfora do Amor, da ideia do


amor; no segundo, é metáfora das sensações e reações do eu lírico.

c) Escolha as duas antíteses que você considera mais expressivas do estado


emocional do eu lírico.

Resposta pessoal. Antíteses: ardor/frio; choro/rio; mundo todo/nada; fogo/rio;


espero/desconfio; desvario/acerto; terra/céu.
Atenção Professor(a), verifique se os alunos compreendem o sentido
metafórico de rio e o significado do verbo desvariar (fazer desatinos, alucinar).
Fim da observação.

d) Escolha uma palavra do segundo soneto que resuma o conjunto das


reações do eu lírico à visão da mulher amada. Dê alguns sinônimos dessa
palavra.

Resposta: A palavra que melhor resume o conjunto das reações do sujeito


lírico é o substantivo abstrato desconcerto. Sinônimos: perturbação,
transtorno, desatino, desordem.

4. Você estudará neste capítulo que uma das características do Renascimento


é o predomínio da razão sobre a emoção, ou melhor, a racionalização da
emoção. Qual dos dois sonetos é um melhor exemplo dessa característica?
Justifique sua resposta.

Resposta: O melhor exemplo é o primeiro soneto. Nele o eu lírico procura


compreender e definir o amor e suas contradições. Não há um eu explícito que
confessa seus sentimentos (eu amo, eu sofro...); estes ficam encobertos por
uma linguagem aparentemente objetiva e assertiva: "amor é". Já o segundo eu
lírico, presente desde o primeiro verso (meu estado) confessa sua confusão
emocional, provocada pela simples visão da mulher amada.

Vocabulário:

oximoro: figura de linguagem que justapõe dois termos que se contradizem.


Pode-se afirmar que o oximoro "representa uma intensificação especial da
antítese" (Wolfgang Kayser). Exemplo: "Mas que [o amor] seja infinito enquanto
dure" (Vinicius de Moraes). Nesse verso, a expressão "enquanto dure"
contradiz a outra, "seja infinito", pois o que é infinito não acaba, não tem prazo
de duração;

antítese: figura de linguagem que se caracteriza pelo emprego de palavras ou


expressões de significados opostos.

Fim do vocabulário.

33

Comentário
A leitura dos dois sonetos nos dá uma pequena amostra da maestria de
Camões. Ideias aparentemente banais, como as contradições do amor e a
confusão dos sentimentos de quem ama, são expostas numa impressionante
torrente de imagens - metáforas, antíteses, oximoros. Embora algumas já
fossem lugares-comuns em sua época (como a metáfora do fogo ou o
hiperbólico rio de lágrimas), elas ganham vida na perfeita construtura do texto:
as imagens se sucedem e se acumulam até o final da terceira estrofe, para, na
quarta, ponto culminante, fechar-se o poema com o maior e mais categórico
dos paradoxos (primeiro soneto) ou com a causa do grande desconcerto
confessado pelo eu lírico (segundo soneto).

Atravessando os séculos, sempre viva e renovada, essa poesia influenciou


poetas de todas as épocas, e influencia até hoje, em Portugal, no Brasil e nos
países africanos que falam a língua portuguesa.

Por isso é tão importante ler a poesia de Camões.

O RENASCIMENTO

Os ideais clássicos renascentistas, cultivados na Itália desde o século XIV,


tornaram-se novidade em Portugal a partir da terceira década do século XVI,
divulgados pelo poeta Francisco de Sá de Miranda.

Características do Classicismo

A principal tendência do Renascimento na literatura e nas artes é o


Classicismo, que se define pelas seguintes características:

· imitação dos autores gregos e latinos, tomados como modelos de perfeição


estética;

· obediência a regras, estabelecidas com base na leitura de textos teóricos


clássicos, como os de Aristóteles (filósofo grego) e de Horácio (poeta latino), e
na análise de obras clássicas;

· busca da perfeição formal das obras;

· diferenciação clara e independência dos gêneros;

· racionalismo; equilíbrio entre razão e emoção, entre razão e imaginação;

· impessoalidade;
· identificação com os valores ideais do Bem e da Verdade e o ideal da Beleza.

O Renascimento português é multiforme, como ocorreu, aliás, em todos os


países. As características do Classicismo (veja acima) conviveram com a
influência da última época medieval, às vezes nos mesmos autores e até nas
mesmas obras. No entanto, muito cedo há uma evolução para o Maneirismo,
em que se podem sentir os prenúncios do Barroco: a expressão poética de
conflitos interiores, cada vez mais tensa, torna precário o equilíbrio clássico
entre razão e emoção.

FIQUE SABENDO

Entendido às vezes como antirrenascimento, o Maneirismo, surgido na Itália


após 1520, é a fase de transição entre o Renascimento e o Barroco. Certas
obras, em razão de características como o jogo intenso de claro-escuro, o
alongamento e a contorção das figuras e a dramaticidade das cenas podem
facilmente ser tomadas por obras barrocas.

O dolce stil nuovo

Essa expressão foi utilizada por Dante Alighieri (1265-1321), em referência à


nova lírica amorosa cultivada por ele e um grupo de poetas florentinos. Nessa
nova poesia, a mulher é idealizada como um ser puro, angelical; o amor, de
concepção platônica, provoca a elevação espiritual e moral no ser humano. O
estilo (stil) deve ser doce (dolce), suave, sem ornamentos, e de delicada
musicalidade.

Essas ideias, mescladas ao petrarquismo - de Francesco Petrarca (1304-


1374), poeta e humanista italiano -, exerceram grande influência sobre os
renascentistas portugueses. Sá de Miranda divulgou a métrica preferida dos
poetas italianos, a chamada medida nova (versos decassílabos), em
substituição à medida velha (versos redondilhos). Cumpre dizer, entretanto,
que a medida velha nunca deixou de ser cultivada, ao lado da medida nova,
pelos autores renascentistas.

34

Medida velha (versos redondilhos)

Os versos redondilhos apresentam-se em duas extensões:


· redondilha menor (cinco sílabas)

Ri / bei / ras / do / mar,

que / ten / des / mu / dan / ças,

as / mi / nhas / lem / bran / ças

dei / xai- / as / pa / ssar.

SOUSA, Francisco de. In: SPlNA, Segismundo. Era Medieval. São Paulo:
Difel, 1966. p. 137. (Presença da Literatura Portuguesa, v. 1).

· redondilha maior (sete sílabas)

Se / nho / ra, / par / tem / tão / tris / tes

meus / o / lhos / por / vós, / meu / bem,

que / nun / ca / tão / tris / tes / vis / tes

ou / tros / ne / nhuns / por / nin / guém.

CASTELO-BRANCO, João Ruiz de. In: SPlNA, Segismundo. Era Medieval.


São Paulo: Difel, 1966. p. 12. (Presença da Literatura Portuguesa, v. 1).

Medida nova (versos decassílabos)

Os versos decassílabos clássicos podem ser:

· heroicos - com acento obrigatório (cesura) na sexta e décima sílabas.

A / mor / é um / fo / go / que ar / de / sem / se / ver (Soneto)


6 10

· sáficos - com acento na quarta, oitava e décima sílabas.

E / não / do / can / to, / mas / de / ver / que / ve / nho (Os Lusíadas)


4 8 10

LEITURA

TEXTO 1

Comigo me desavim,

sou posto em todo perigo;

não posso viver comigo


nem posso fugir de mim.

Com dor, da gente fugia,

antes que esta assi crescesse;

agora já fugiria

de mim, se de mim pudesse.

Que meio espero ou que fim

de vão trabalho que sigo,

pois que trago a mim comigo,

tamanho imigo de mim?

MIRANDA, Francisco de Sá de. In: _____. Poesia e teatro. Seleção de Silvério


Augusto Benedito. Lisboa: Verbo, 2006. p. 57. (Coleção Biblioteca Ulisseia de
Autores Portugueses).

CRÉDITO: Biblioteca Nacional de Portugal, Lisboa

Francisco de Sá de Miranda (1481?-1558)

Sá de Miranda já era poeta quando fez uma longa viagem pela Itália, berço do
Renascimento. Depois de seu retorno, em 1527, além de divulgar os novos
ideais estéticos, foi um dos primeiros a utilizar as formas poéticas clássicas. A
constante busca da perfeição torna sua poesia muito elíptica e bastante difícil.
Além da produção poética, escreveu duas peças de teatro.

35

TEXTO 2

Dispersão (fragmento)

Perdi-me dentro de mim

Porque eu era labirinto,

E hoje, quando me sinto,

É com saudades de mim.

Passei pela minha vida

Um astro doido a sonhar.


Na ânsia de ultrapassar,

Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,

Não tenho amanhã nem hoje:

O tempo que aos outros foge

Cai sobre mim feito ontem.

[...]

Como se chora um amante,

Assim me choro a mim mesmo:

Eu fui amante inconstante

Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro

Nem as linhas que projeto:

Se me olho a um espelho, erro -

Não me acho no que projeto.

Regresso dentro de mim

Mas nada me fala, nada!

Tenho a alma amortalhada,

Sequinha, dentro de mim.

[...]

SÁ-CARNEIRO, Mário de. In: _____. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 1995. p. 61.

CRÉDITO: Coleção Particular

Mário de Sá-Carneiro (1890-1916)

Poeta, contista e ficcionista da primeira geração modernista portuguesa. Aos


22 anos abandona a faculdade de Direito, em Coimbra, e muda-se para Paris,
onde participa da agitação literária das vanguardas. Em 1915, lança, com
Fernando Pessoa, a revista Orpheu, dando início ao Modernismo português.
Crises sentimentais e financeiras levam-no ao suicídio, em 29 de abril de 1916.
Principais obras: Dispersão, Indícios de ouro (poesia), A confissão de Lúcio
(novela), Amizade (teatro).

Releitura

Escreva no caderno

1. Na antologia de que foi copiado, o poema de Sá de Miranda está em uma


seção intitulada "Trovas à maneira antiga". Considerando o que você estudou
no tópico "O dolce stil nuovo" (p. 33), como se justifica a inclusão do poema
nessa seção do livro?

Resposta: O dolce stil nuovofoi uma novidade introduzida por Sá de Miranda na


literatura portuguesa, e nesse novo estilo dá-se preferência ao verso
decassílabo. Ora, os versos desse poema são redondilhos maiores (7 sílabas),
seguindo a tradição anterior ao Renascimento (maneira antiga). (Pode-se
solicitar aos alunos que façam a escansão de alguns versos dos dois poemas,
verificando que o poeta moderno também compôs versos redondilhos.)

2. A maioria dos poemas líricos que estudamos até agora falam do amor. O
conflito, embora se desenvolvesse no interior do sujeito lírico, relacionava-se
sempre com o mundo exterior (isto é, com o outro, com a pessoa amada).

a) Considerando o conflito, qual é a semelhança entre os poemas de Sá de


Miranda e Mário de Sá-Carneiro? Explique.

Resposta: Nos dois poemas, o sujeito lírico exprime um conflito interior, uma
desavença consigo mesmo. No primeiro, o sujeito está preso em si, devendo
viver consigo, sendo seu próprio inimigo; no segundo, o sujeito está perdido no
labirinto de seus sentimentos e, incapaz de encontrar-se ou de reconhecer-se,
sente saudades do que era porque temia que sua dor aumentasse.

b) O sujeito lírico do texto 1 afirma que fugia das pessoas. A solidão era capaz
de aplacar a sua dor? Por quê?

Resposta: Não. Porque a causa de sua dor estava nele mesmo, não nos
outros. Portanto, mesmo na solidão, permanecia a presença incômoda de um
outro, que era ele mesmo e do qual era impossível fugir.
Comentário

Como já foi observado, a tradição medieval não foi totalmente abandonada


durante o Renascimento. Mesmo Sá de Miranda, o principal propagador da
moda clássica renascentista em Portugal, utilizou frequentemente os versos
redondilhos medievais, como no poema que acabamos de ler.

Por sua temática, porém, a trova ilustra perfeitamente o espírito da nova época.
O Antropocentrismo é a autoafirmação do ser humano em sua relação com o
mundo. Voltado para si mesmo, ele torna-se individualista e quebra a harmonia
dessa relação. Os conflitos entre o eu e o mundo são interiorizados e chegam a
tal intensidade que o indivíduo se sente, contraditoriamente, dividido: "não
posso viver comigo".

Vocabulário:

Antropocentrismo: concepção horizontal da vida, em que o ser humano


(ánthropos) é o centro e a medida do Universo. A vida e o Universo explicam-
se pelos valores humanos. Opõe-se ao Teocentrismo;

Teocentrismo: concepção vertical da vida, em que Deus (Théos) é o centro de


todas as coisas. A vida na Terra é apenas um exílio que prepara para a vida
após a morte, quando o ser humano poderá ser salvo ou condenado;

indivíduo: palavra introduzida na língua portuguesa justamente no século XVI,


oriunda do latim individˇuus (indivisível).

Fim do vocabulário.

36

O individualismo iniciado no século XVI terá uma longa evolução. O


Romantismo do século XIX parecia ser a sua expressão mais intensa. Mas no
século XX o ser humano não é menos individualista, nem é menor a sua
ruptura com o mundo e consigo mesmo, como vimos no poema "Dispersão".

O poema de Mário de Sá-Carneiro atesta a atualidade do poema de Sá de


Miranda.

Luís Vaz de Camões


Luís Vaz de Camões é o maior poeta renascentista português. Tornou-se
referência obrigatória para as épocas posteriores e sua influência continua a
ser exercida, com a mesma intensidade, nos dias atuais.

Das obras de Camões, estudaremos a lírica e a épica, deixando de lado sua


obra dramática (três autos), que não tem a mesma grandeza e importância.

A lírica camoniana

A poesia lírica de Camões foi reunida no livro Rimas, organizado e publicado


15 anos após a morte do autor (edições de 1595 e de 1598). A recolha
póstuma de seus versos torna a questão da autoria um problema talvez
insolúvel: muitos poemas tidos como de Camões são apócrifos, isto é, de falsa
ou duvidosa atribuição autoral.

Camões escreveu na medida velha (versos redondilhos) e na medida nova


(versos decassílabos). Nesta, os poemas mais famosos e admirados são os
sonetos.

A medida velha

Em suas redondilhas, Camões dá continuidade à poesia medieval. Com ele, a


tradição poética eleva-se a um nível nunca alcançado pelos autores do
Cancioneiro geral, de Garcia de Resende.

E vi que todos os danos

se causavam das mudanças

e as mudanças dos anos;

onde vi quantos enganos

faz o tempo às esperanças.

Ali vi o maior bem

quão pouco espaço que dura,

o mal quão depressa vem,

e quão triste estado tem

quem se fia da ventura.


CAMÕES, Luís Vaz de. Rimas. Texto estabelecido, revisto e prefaciado por
Álvaro J. da Costa Pimpão. Coimbra: Atlântida, 1973. p. 105.

A medida nova

A poesia composta na medida nova constitui o ponto mais alto não apenas da
lírica camoniana, mas de todo o Renascimento português. Camões não seguiu
apenas uma moda. A nova métrica, as formas fixas, como a do soneto, os
temas, a imitação (sobretudo de Petrarca), enfim, todos os preceitos e todos os
lugares-comuns da lírica renascentista são apenas instrumentos expressivos
de uma vivência profunda e intensa.

O culto da razão não elimina a emoção. A reflexão sobre os dramas pessoais


vividos pelo autor eleva a emoção a um nível superior. A partir de sua vivência,
Camões busca o sentido da vida. A partir do particular, o universal.

Sua poesia não evita as contradições da época. Pelo contrário, dá a elas uma
expressão tensa e dramática. Aos ideais buscados pelo homem renascentista
contrapõe a dura realidade humana: ao Bem, nossa fragilidade; à Beleza,
nossas imperfeições; ao Amor, nossa infelicidade; à Mulher idealizada, a
mulher real... Da contraposição tensa entre o ideal e a realidade resulta uma
visão trágica e pessimista da vida, que prenuncia o Barroco.

Seus temas prediletos são o amor, a mutabilidade e o desconcerto do mundo.

37

LEITURA

Soneto

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

muda-se o ser, muda-se a confiança;

todo o mundo é composto de mudança,

tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,

diferentes em tudo da esperança;

do mal ficam as mágoas na lembrança,


e do bem (se algum houve), as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,

que já coberto foi de neve fria,

e, em mim, converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,

outra mudança faz, de mor espanto,

que não se muda já como soía.

CAMÕES, Luís Vaz de. Rimas. Texto estabelecido, revisto e prefaciado por
Álvaro J. da Costa Pimpão. Coimbra: Atlântida, 1973. p. 162.

Vocabulário:

soer (último verso: soía): verbo pouco utilizado atualmente em português,


significa costumar, ser comum, ser frequente.

Fim do vocabulário.

Releitura

Escreva no caderno

1. Divida o soneto em duas partes, indicando as estrofes que pertencem a cada


uma delas.

a) Primeira parte: postulado (afirmação geral e categórica).

Resposta: As duas primeiras estrofes (quartetos).

b) Segunda parte: afirmação particular (exceção à afirmação geral).

Resposta: As duas últimas estrofes (tercetos).

2. Que verso da primeira estrofe resume o postulado geral feito pelo sujeito
poético?

Resposta: "todo o mundo é composto de mudança"

3. Releia a segunda estrofe e explique por que, para o sujeito lírico, as


novidades são sempre negativas.
Resposta: Para ele, as mudanças são sempre para pior. O Mal se acaba, deixa
sua marca na lembrança e não é substituído necessariamente pelo Bem. O
Bem deixa a saudade, que é também um sofrimento.

4. Releia a terceira estrofe.

a) Explique a metáfora "verde manto" e a metonímia "neve fria".

Resposta: São imagens de estações do ano. "Verde manto" é metáfora da


primavera, que sucede ao inverno, representado pela metonímia "neve fria".

b) É comum a associação das estações do ano aos nossos estados de espírito.


A qual estação podemos associar o substantivo "choro"? E a expressão "doce
canto"?

Resposta: "Choro" deve ser associado ao inverno, pois é considerada a


estação mais triste; "doce canto" deve ser associado à primavera, considerada
a estação do amor e da alegria.

5. Observe o esquema.

neve fria → verde manto

doce canto → choro

Com base nas respostas anteriores, explique por que a conjunção aditiva e que
inicia o 11º verso possui uma conotação adversativa e pode ser entendida
como um mas.

Resposta: Na natureza, o inverno, estação da tristeza, transforma-se na


primavera, estação da alegria. Com os sentimentos do sujeito lírico acontece o
oposto: é a alegria ("doce canto" - primavera) que se converte em tristeza
("choro" - inverno). Assim o etem um valor adversativo: na natureza é assim,
mas, em mim, é o contrário.

Vocabulário:

postulado: o que se admite como ponto de partida de uma argumentação; fato


ou afirmação aceita sem que haja necessidade de demonstração anterior.

Fim do vocabulário.

PARA NÃO ESQUECER


Metonímia - Emprego de uma palavra por outra, com base numa relação de
dependência ou contiguidade de sentidos (a parte pelo todo, o efeito pela
causa, o continente pelo conteúdo, o autor pela obra etc.).

Metáfora - Emprego de uma palavra ou expressão com um sentido diferente


do usual, com base em uma comparação subentendida entre dois elementos.

38

6. O tema da última estrofe é o desconcerto do mundo. Releia-a e responda.

a) Qual é o sujeito do verbo fazer, no 13º verso?

Resposta: É o tempo, mesmo sujeito das orações da estrofe anterior.

b) Com base no postulado sobre a mutabilidade do mundo, apresentado nas


primeiras estrofes, explique por que o sujeito lírico considera espantosa a
mudança ocorrida atualmente em sua vida.

Resposta: A mudança atual é espantosa porque ela nega o postulado de que,


pela ação do tempo, todas as coisas se transformam sempre em seu contrário.
A novidade agora é que, para o sujeito lírico, o próprio tempo mudou, deixando
de mudar as coisas como costumava fazer.

c) Relacionando a última estrofe ao 11º verso - "e, em mim, converte em choro


o doce canto." -, explique o pessimismo do sujeito lírico na conclusão do
poema.

Resposta: No 11º verso, o sujeito lírico afirma que, nele, o doce canto converte-
se em choro. Como o tempo cessou de mudar as coisas em seu contrário, ele
não pode mais esperar o retorno da alegria, ficando condenado ao choro
perpétuo e à infelicidade.

Comentário

Este soneto desenvolve o tema da mutabilidade e desconcerto do mundo, o


mesmo que você já encontrou na redondilha citada na página 36 ("E vi que
todos os danos").

Em Camões a idealização platônica não suprime a realidade imperfeita do


mundo e dos homens. A tensão entre o ideal desejado e as contingências a
que devemos nos submeter gera uma visão extremamente pessimista da vida:
o mundo está em constante transformação, mas não necessariamente em
direção ao Bem e à perfeição. Pelo contrário, parece estar sempre em grande
desconcerto (desordem, desarmonia).

E MAIS...

Leitura de poemas

Junte-se a um colega a fim de preparar a apresentação de um soneto de


Camões para a classe.

· Escolham um ou dois sonetos (há uma edição digital dos sonetos disponível
no site Domínio Público: http://tub.im/4h8ad6. Acesso em: 31 mar. 2016).

· Escrevam um pequeno comentário, indicando o tema do soneto.

· Ensaiem a leitura expressiva, marcando bem o ritmo e modulando a voz.

· Para a apresentação, podem preparar slides com os sonetos e os


comentários, ilustrando-os com reproduções de obras de arte renascentistas
(na internet, há muitos sites com boas reproduções).

A épica camoniana - Os Lusíadas

As primeiras décadas do século XVI foram o tempo mais brilhante da história


literária de Portugal. Camões escreveu o grande poema épico que celebra esse
período - Os Lusíadas -, uma das principais obras literárias do Renascimento
europeu.

Não deixa de ser irônico que a obra destinada a imortalizar os feitos do povo
português e a exaltar a maior glória da nação tenha sido publicada em 1572,
apenas oito anos antes de Portugal perder sua independência, passando ao
domínio espanhol.

Camões segue os modelos clássicos de Homero (autor da Ilíada e da


Odisseia) e, sobretudo, de Virgílio (autor da Eneida). Mas, como epopeia
renascentista, seu poema reflete perfeitamente os ideais, a mentalidade e as
contradições do século XVI.

Vocabulário:

epopeia: poema narrativo de estrutura clássica que exalta as ações, os feitos


memoráveis, grandiosos de um herói em prol do interesse nacional.
Fim do vocabulário.

Características formais

· Métrica: versos decassílabos heroicos (8816 versos).

· Estrofação: estrofes em oitava-rima (oito versos - 1102 estrofes).

· Rima: seguem sempre o esquema ABABABCC.

· Cantos: o poema divide-se em dez cantos, de extensão irregular.

39

Características temáticas

· Assunto: a história de Portugal e os grandes feitos de seu povo.

· Núcleo da narração: a viagem empreendida em 1497 por Vasco da Gama,


descobrindo o caminho marítimo para as Índias.

· Herói: diferentemente de seus modelos clássicos, Os Lusíadas celebram um


herói coletivo. Vasco da Gama é o símbolo e o porta-voz do verdadeiro herói
do poema, o povo português.

Características estruturais

O poema, como seus modelos clássicos, desdobra-se em três partes:

I. Introdução (estrofes 1 a 18 do Canto I)

A introdução subdivide-se em três partes:

a) Proposição (estrofes 1 a 3): o poeta anuncia o tema de seu canto épico - os


grandes feitos dos heróis portugueses.

b) Invocação (estrofes 4 e 5): os épicos gregos e latinos pediam inspiração às


Musas. Camões invoca as Tágides (ninfas do Tejo - o termo Tágide foi criado
pelo humanista André de Resende, 1500-1573).

c) Dedicatória (estrofes 6 a 18): o poema é dedicado a D. Sebastião, rei de


Portugal na época da publicação do poema.

II. Narração (da estrofe 19 do Canto I à 144 do Canto X)

Camões segue o preceito clássico, iniciando a narração in medias res


(expressão latina que significa "no meio dos acontecimentos"): na estrofe 19 do
Canto I, os navegantes já estão no oceano Índico, próximos a Moçambique. Os
deuses reúnem-se em concílio no Olimpo e, apesar da oposição de Baco,
aprovam a viagem de Vasco da Gama, com os votos favoráveis de Júpiter,
Vênus e Marte. Em Moçambique e no trajeto até Melinde, os portugueses
sofrem várias traições dos mouros, todas inspiradas por Baco. Vênus, a deusa
do amor, socorre seus protegidos.

No final do Canto II, o rei de Melinde pede a Vasco da Gama que lhe conte a
História de Portugal; os Cantos III e IV são dedicados a essa narração. No
Canto V, ainda pela voz de Gama, a primeira parte da viagem é relatada.

Já o Canto VI narra, novamente pela voz épica, a viagem entre Melinde e


Calicute, repleta de incidentes provocados por Baco. Entre o Canto VII e o
início do IX, descrevem-se a estadia na Índia, as negociações com as
autoridades locais e as traições (sempre promovidas por Baco).

Na viagem de regresso, exposta nos Cantos IX e X, Vênus prepara um prêmio


aos navegantes: a recepção por Tétis e pelas outras ninfas na Ilha dos Amores.
Na estrofe 144 do Canto X, os navios chegam a Portugal.

III. Epílogo (estrofes 145 a 156 do Canto X)

No epílogo, Camões abandona o tom heroico do poema, passando a lamentar


a situação a que chegara Portugal após o período mais grandioso de sua
história.

CRÉDITO: Os Lusíadas. Luís de Camões. Portugal, 1572. Biblioteca Nacional,


Rio de Janeiro

Estrutura de Os Lusíadas

I. Introdução:

a. Proposição;

b. Invocação;

c. Dedicatória;

II . Narração;

III . Epílogo.

40
LEITURA

Leia duas estrofes de Os Lusíadas, valendo-se da transcrição em ordem direta


(ao lado do poema), do vocabulário e das paráfrases.

Proposição (estrofe 3 do Canto I)

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Netuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.

Cessem [de ser cantadas] do sábio Grego e do [sábio]

Troiano as grandes navegações que fizeram;

Cale-se a fama das vitórias de Alexandro e de Trajano

que tiveram;

que (= porque) eu canto o peito ilustre Lusitano,

a quem Netuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

que (= porque) outro valor mais alto se alevanta.

Epílogo (estrofe 145 do Canto X)

No mais, Musa, no mais, que a Lira tenho

Destemperada e a voz enrouquecida,

E não do canto, mas de ver que venho

Cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho


Não no dá a pátria, não, que está metida

No gosto da cobiça e na rudeza

D'ũa austera, apagada e vil tristeza.

Não mais (= não posso cantar mais), Musa, não mais,

que (= porque) tenho a Lira destemperada e a voz

enrouquecida,

e não [por causa] do canto, mas de ver que venho

cantar a gente surda e endurecida.

O favor com que mais se acende o engenho

não o dá a pátria, não, que está metida

no gosto da cobiça e na rudeza

duma tristeza austera, apagada e vil.

CAMÕES, Luís Vaz de. Os Lusíadas. Ed. de Emanuel Paulo Ramos. Porto:
Porto Editora, 1978. p. 69 e 351.

Vocabulário:

sábio Grego: Ulisses (Odisseu), herói da Odisseia, de Homero. Sábio Grego é


uma antonomásia (figura de linguagem que consiste em substituir o nome por
uma característica que identifique a pessoa referida);

Troiano: Eneias, herói da Eneida, de Virgílio (também antonomásia);

Alexandro: Alexandre Magno;

Trajano: imperador romano de origem espanhola;

Netuno: deus do mar;

Marte: deus da guerra;

Musa: nome dado às nove filhas de Zeus que habitavam o monte Hélicon e
presidiam as artes liberais. O poema refere-se a uma delas: Calíope, musa da
epopeia e da eloquência;

Musa antiga: poesia antiga (metonímia);


destemperado: desafinado;

favor: aplauso;

acender: inflamar;

austero: sombrio.

Fim do vocabulário.

Paráfrases

Proposição (estrofe 3 do Canto I)

Deixem de ser cantadas as grandes navegações realizadas pelos heróis das


antigas epopeias, Ulisses (grego) e Eneias (latino); cale-se o louvor às vitórias
que Alexandre (rei da Macedônia) e Trajano (imperador romano) tiveram;
porque eu tenho um assunto superior: eu canto a famosa bravura lusitana, que
venceu o mar e as guerras. Cessem todas as grandes façanhas cantadas pelas
epopeias antigas, porque se levanta um valor superior a elas.

Epílogo (estrofe 145 do Canto X)

Não posso cantar mais, Musa, não posso, porque tenho a lira desafinada e a
voz enrouquecida, e não por causa do longo canto, mas por perceber que
estou cantando a uma gente surda e indiferente. A pátria não me dá o aplauso,
com que mais se inflama a inspiração, porque ela está mergulhada no gosto da
cobiça e no mau humor de uma tristeza austera, desanimada e vil.

41

Releitura

Escreva no caderno

1. Na terceira estrofe da Proposição, a voz épica compara o assunto do poema


com o das narrativas e epopeias antigas. Por que, segundo o poema, os heróis
lusitanos são superiores aos heróis antigos?

Resposta: Porque os heróis portugueses realizaram a maior aventura marítima


até então. Foram maiores tanto na navegação (Netuno) como na guerra
(Marte), conquistando terras longínquas e fundando um grande império.
2. Antes de responder às perguntas a seguir, releia as características de Os
Lusíadas.

a) Qual é a diferença de tom da voz épica entre as duas estrofes?

Resposta: Na primeira, a voz épica tem um tom exaltado, vibrante, glorificando


os heróis e seus feitos, como é próprio de um poema heroico. Na segunda, o
tom é de desânimo e tristeza.

b) Qual é a expressão usada pelo poeta na estrofe 3 do Canto I que indica o


verdadeiro herói do poema? Explique.

Resposta: É a expressão "peito ilustre Lusitano". O poeta propõe-se a cantar a


bravura (peito) do povo lusitano, herói coletivo do poema.

Principais episódios

Ao longo do poema, alguns episódios se destacam, tanto por sua extensão


como pelo tom lírico que Camões imprime à narrativa. Estes são alguns dos
momentos mais belos de Os Lusíadas:

· "Inês de Castro" (no Canto III): conta a história da amante de D. Pedro I (rei
português dos meados do século XIV), assassinada em 1355. A história dos
amores de Pedro e Inês tornou-se tema recorrente na literatura portuguesa (foi
tratado por Fernão Lopes, Garcia de Resende, Antônio Ferreira, Camões, entre
outros).

· "O Velho do Restelo" (no Canto IV): quando as naus vão zarpar, um velho
maltrapilho, de aspecto impressionante, faz um discurso contra a aventura
marítima, predizendo futuros resultados desastrosos e a decadência da pátria.

· "O gigante Adamastor" (no Canto V, exatamente no meio da epopeia): o


gigante Adamastor, que, segundo o mito, foi transformado em rochedo como
castigo por seu amor pela ninfa Tétis, é identificado com o cabo das
Tormentas, no sul da África. Episódio de grande força lírica e impregnado de
sentidos simbólicos.

· "A Ilha dos Amores" (nos Cantos IX e X): no final da viagem, os navegantes
são recebidos por Tétis na Ilha dos Amores.

Os Lusíadas
I. Introdução (estrofes 1 a 18)

· Proposição: o poeta anuncia o tema de seu Canto - os grandes feitos dos


heróis lusitanos

· Invocação: às Tágides (ninfas do Tejo)

· Dedicatória: ao rei D. Sebastião

II. Narração (da estrofe 19 do Canto I à 144 do Canto X) Canto I

· Concílio dos deuses

· No meio da viagem: oceano Índico

· Acidentes atribuídos a Baco/intervenções salvadoras de Vênus

· Chegada a Mombaça

Canto II

· Traição do rei de Mombaça

· Intervenção de Vênus

· Profecia de Júpiter

Em Melinde:

· O rei de Melinde pede a Vasco da Gama que lhe conte a História de Portugal

Canto III

Início do discurso de Vasco da Gama

· História dos reis de Portugal: do conde D. Henrique a D. Fernando

· "Batalha do Salado" (episódio)

· "Inês de Castro" (episódio)

Canto IV

· História dos reis de Portugal: de D. João I a D. Manuel

- "Batalha de Aljubarrota" (episódio)

· Conquista de Ceuta

· Sonho profético de D. Manuel


· Preparativos da viagem (Belém)

· "O Velho do Restelo" (episódio)

42

CRÉDITO: Allmaps

Canto V

· Partida de Lisboa

· Incidentes da viagem (costa ocidental da África)

· Cabo das Tormentas:

· "O gigante Adamastor" (episódio)

· Em Melinde

Canto VI

· Partida de Melinde

· 2º Concílio dos deuses

· Histórias a bordo:

· "Os Doze de Inglaterra" (episódio)

· Tempestade marítima

Canto VII

· Chegada a Calicute

· Descrição da Índia

· Visita do Catual

Canto VIII

· Diálogo entre o Catual e Paulo da Gama: as bandeiras

· Baco instiga os indianos contra os portugueses

· Prisão de Vasco da Gama

· Resgate

Canto IX
· Viagem de regresso:

· "A Ilha dos Amores" (episódio)

Canto X

· ("A Ilha dos Amores" - continuação)

· O banquete das ninfas

· Profecia de uma ninfa: os futuros feitos dos portugueses

· Tétis mostra a Vasco da Gama a "Máquina do Mundo"

· Regresso a Portugal

III. Epílogo (final do Canto X)

· Lamentações e exortações do poeta

LEITURA

O Canto IV faz parte da longa narração de Vasco da Gama ao rei de Melinde.


No final desse canto, depois de já ter narrado toda a história de Portugal, o
comandante conta como foi a preparação da viagem e a partida de Lisboa.

Uma multidão de curiosos e de parentes dos navegantes aglomerou-se na


praia de Belém para se despedir dos viajantes.

43

Em tão longo caminho e duvidoso

Por perdidos as gentes nos julgavam;

As mulheres c'um choro piedoso,

Os homens com suspiros que arrancavam;

Mães, esposas, irmãs, que o temeroso

Amor mais desconfia, acrescentavam

A desesperação, e frio medo

De já nos não tornar a ver tão cedo.

Qual vai dizendo: - 'Ó filho, a quem eu tinha

Só para refrigério, e doce amparo


Desta cansada já velhice minha,

Que em choro acabará, penoso e amaro,

Por que me deixas, mísera e mesquinha?

Por que de mim te vais, ó filho caro,

A fazer o funéreo enterramento,

Onde sejas de peixes mantimento?"

(Estrofes 89 e 90)

Em meio a essas manifestações de desespero, destaca-se, então, um velho,


que vivia na praia do Restelo, e pronuncia um discurso de condenação ao
empreendimento marítimo.

Com a ajuda do(a) professor(a) e dos colegas, leia o discurso do Velho do


Restelo.

A maior dificuldade durante a leitura de Os Lusíadas talvez seja a sintaxe -


períodos longos em ordem indireta, com frequência constituindo hipérbatos.
Observe que, ao lado de cada estrofe, apresentamos a versão do texto em
ordem direta, para auxiliá-lo(a) na compreensão. Entre colchetes encontram-se
traduções de palavras e expressões que caíram em desuso.

PARA NÃO ESQUECER

Ordem direta é a ordem mais usual dos termos nas orações ou das orações
nos períodos. Na língua portuguesa, a ordem direta é esta: sujeito - verbo -
complemento(s). Se essa ordem for alterada, a oração estará na ordem
indireta.

FIQUE SABENDO

Hipérbato consiste na transposição ou inversão da ordem dos termos de uma


oração, tendo como consequência a separação dos elementos de um mesmo
grupo sintático. Exemplo:

Em tão longo caminho e duvidoso / Por perdidos as gentes nos julgavam


(hipérbato)
As gentes nos julgavam por perdidos / Em caminho tão longo e duvidoso
(ordem direta)

O Velho do Restelo

94

Mas um velho d'aspeito venerando,

Que ficava nas praias, entre a gente,

Postos em nós os olhos, meneando

Três vezes a cabeça, descontente,

A voz pesada um pouco alevantando,

Que nós no mar ouvimos claramente,

C'um saber só d'experiências feito,

Tais palavras tirou do experto peito:

Mas um velho despeito [de aspecto] venerando, que ficava entre a gente nas
praias, os olhos postos em nós, meneando, descontente, três vezes a cabeça,
alevantando um pouco a voz pesada, que nós ouvimos claramente no mar,
com um saber feito só de experiências, tirou tais palavras do peito experto
[experiente]:

95

- Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

Ó fraudulento gosto, que se atiça

C'uma aura popular, que honra se chama!

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

Que mortes, que perigos, que tormentas,

Que crueldades neles experimentas!

- Ó glória de mandar! Ó cobiça vã [feita] desta vaidade, a quem chamamos


Fama! Ó gosto fraudulento, que se atiça [estimula] com uma aura [prestígio]
popular, que se chama honra! Que tamanho castigo e que justiça fazes no
[impões ao] peito vão [coração vaidoso] que te ama muito! Que mortes, que
perigos, que tormentas, que crueldades experimentas neles [nos corações
vaidosos]!

44

96

- Dura inquietação d'alma e da vida,

Fonte de desamparos e adultérios,

Sagaz consumidora conhecida

De fazendas, de reinos e de impérios!

Chamam-te ilustre, chamam-te subida,

Sendo dina de infames vitupérios;

Chamam-te Fama e Glória soberana,

Nomes com quem se o povo néscio engana!

- Dura inquietação da alma e da vida, fonte de desamparos e adultérios,


conhecida consumidora sagaz de fazendas [riquezas], de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida [nobre, grandiosa], sendo dina [digna] de
vitupérios infames; chamam-te Fama e Glória soberana, nomes com quem [os
quais] se engana o povo néscio!

97

- A que novos desastres determinas

De levar estes reinos e esta gente?

Que perigos, que mortes lhe destinas

Debaixo dalgum nome preminente?

Que promessas de reinos, e de minas

D'ouro, que lhe farás tão facilmente?

Que famas lhe prometerás? que histórias?

Que triunfos, que palmas, que vitórias?


[...]

- A que desastres novos determinas [decides] de levar estes reinos e esta


gente? Que perigos, que mortes lhe destinas debaixo de algum nome
preminente [com palavra difícil, elevada]? Que promessas de reinos, e de
minas de ouro, que lhe farás tão facilmente? Que famas lhe prometerás? que
histórias? que triunfos, que palmas, que vitórias?

102

- Oh! Maldito o primeiro que no mundo

Nas ondas velas pôs em seco lenho,

Dino da eterna pena do profundo,

Se é justa a justa lei, que sigo e tenho!

Nunca juízo algum alto e profundo,

Nem cítara sonora, ou vivo engenho,

Te dê por isso fama nem memória,

Mas contigo se acabe o nome e glória.

- Oh! Maldito [seja] o primeiro que no mundo pôs nas ondas velas em lenho
seco [i. e., fez o primeiro barco a vela], [seja] dino [digno] da pena eterna do
[inferno] profundo, se a lei justa que sigo e tenho é [realmente] justa! [Que]
nunca algum juízo [opinião] alto e profundo, nem cítara sonora, ou engenho
[talento] vivo, te dê fama nem memória por isso [pela invenção do barco a
vela], mas [que] o nome e glória se acabe contigo [i. e.; sejas esquecido].

(Os Lusíadas. Canto IV)

Releitura

Escreva no caderno

1. Na estrofe 94, o narrador (Vasco da Gama) apresenta o personagem do


episódio. Destaque e explique duas características desse personagem.

Respostas possíveis: "aspeito venerando" - o personagem era digno de


veneração por ser bastante velho; "ficava nas praias" - pode-se entender que
ele era muito pobre e morava nas praias, como, atualmente, os moradores de
rua; "saber só d'experiências feito" e "experto peito" - o ancião é um sábio, mas
sua sabedoria não é feita de estudos e sim de vivências, de experiência, de
conhecimento do mundo.

2. Na estrofe 95, o Velho do Restelo inicia uma longa apóstrofe. Considere os


versos:

Que castigo tamanho e que justiça

Fazes no peito vão que muito te ama!

a) A quem ou a que se dirige o velho, utilizando a 2·ª pessoa do discurso (tu


fazes)?

Resposta: O velho dirige-se a uma ideia abstrata, que ele nomeia como glória
de mandar, vã cobiça, vaidade ou Fama.

b) A quem pertence o peito vão (coração vaidoso) que muito te ama, ou seja,
que ama o interlocutor abstrato do Velho do Restelo? Explique.

Resposta: O peito, ou coração, pertence ao navegante, ou seja, aos


aventureiros que partem para as Índias, comandados por Vasco da Gama.
Professor(a), leve os alunos a compreender que, ao dirigir-se à "glória de
mandar", à "vã cobiça", à vaidade, o velho está na verdade dirigindo-se aos
que possuem ou amam esses defeitos, ou seja, com esse deslocamento ele
está acusando os navegadores de cobiçosos e vaidosos.

3. A partir do final da estrofe 95, o Velho do Restelo enumera as


consequências funestas - que ele chama de castigo e justiça - do
empreendimento marítimo. Quais são elas?

Resposta: Mortes, perigos, tormentas, crueldades (estrofe 95); inquietação


d'alma e da vida, desamparo (dos familiares que ficaram em Portugal),
adultérios (das esposas abandonadas), destruição de riquezas (fazendas) de
reinos e de impérios (estrofe 96); desastres (e novamente perigos e mortes -
estrofe 97).

4. A quem o Velho do Restelo amaldiçoa na estrofe 102?

Resposta: Ele amaldiçoa o inventor do barco a vela, desejando-lhe as penas do


inferno e o esquecimento dele pela posteridade.
Vocabulário:

apóstrofe: consiste em uma exclamação com a qual o emissor interrompe o


discurso para dirigir-se a alguém - real ou fictício - ou a algo - concreto ou
abstrato.

Fim do vocabulário.

45

Em tom de conversa

Discuta com seus colegas a seguinte questão:

· Ao criar o discurso do Velho do Restelo, Camões estaria expondo seu próprio


pensamento em relação ao grande empreendimento marítimo realizado
naquela época pelos portugueses?

· Com que argumentos você defende seu ponto de vista a respeito?

Para formular seus argumentos, releia as estrofes 3, do Canto I, e 145, do


Canto X, na página 40.

Resposta: Espera-se que os alunos concluam que dificilmente o modo de


pensar do Velho do Restelo seria o de Camões. Afinal, ele escreveu um
grandioso e trabalhoso poema para exaltar o empreendimento marítimo como
um todo e, em especial, a viagem de Vasco da Gama. No entanto, é possível
argumentar que, mesmo aprovando e louvando a viagem, Camões poderia ter
críticas aos comportamentos e às motivações de muitos membros da nobreza
e dos empresários da viagem - sobretudo a cobiça. Por outro lado, no epílogo
(estrofe 145 do Canto X), a voz épica (ou seja, Camões) reafirma a crítica do
Velho do Restelo e acusa a pátria de perder-se na cobiça.

Atenção Professor(a), informar os alunos de que, na época em que Camões


compôs o poema, várias décadas após a viagem de Gama, o império
português já estava em decadência, e portanto, o discurso do Velho já seria um
modo de anunciar "profeticamente" o desânimo e a condenação do epílogo.
Fim da observação.

LEITURA

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta


Aqui, na Terra, a fome continua,

A miséria, o luto, e outra vez a fome.

Acendemos cigarros em fogos de napalme

E dizemos amor sem saber o que seja.

Mas fizemos de ti a prova da riqueza,

E também da pobreza, e da fome outra vez.

E pusemos em ti, sei lá bem que desejo

De mais alto que nós, e melhor e mais puro.

No jornal, de olhos tensos, soletramos

As vertigens do espaço e maravilhas:

Oceanos salgados que circundam

Ilhas mortas de sede, onde não chove.

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa

Onde come, brincando, só a fome,

Só a fome, astronauta, só a fome,

E são brinquedos as bombas de napalme.

Fala do Velho do Restelo ao Astronauta by José Saramago. Copyright © José


Saramago 1966, used by permission of The Wylie Agency (UK) Limited.

CRÉDITO: Auad/Alamy/Latinstock

José Saramago (1922-2010)

Romancista, teatrólogo, poeta e tradutor português, foi o primeiro autor de


língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura, em 1998. Recebeu
também, em 1995, o Prêmio Camões, a mais importante distinção concedida a
um escritor em língua portuguesa.

Suas obras são publicadas também no Brasil, onde é muito lido. Livros mais
conhecidos: Levantado do chão, Memorial do convento, O ano da morte de
Ricardo Reis, A jangada de pedra. Ensaio sobre a cegueira foi filmado em
2008 (produção do Brasil, Japão e Canadá; direção de Fernando Meirelles).
Releitura

Escreva no caderno

1. Considerando o que você sabe sobre o episódio do Velho do Restelo,


explique o paralelo que o poema de Saramago estabelece entre a viagem
marítima do século XVI e as viagens dos astronautas do século XX,
motivadoras das falas do personagem nos dois textos.

Resposta possível: No poema de Camões, o Velho comparece à partida das


naus de Vasco da Gama e faz um discurso contra a aventura marítima. Essa
viagem de descobertas é comparável às primeiras viagens dos astronautas, na
segunda metade do século XX. Assim, Saramago põe na boca desse
personagem "experiente" uma nova condenação, agora à aventura espacial,
caríssima, que se realiza a despeito da fome em que vive grande parte dos
seres humanos.

2. Estabeleça as diferenças entre a epopeia de Camões e o poema de


Saramago, considerando:

a) a métrica.

Resposta: A epopeia Os Lusíadas é constituída de versos decassílabos; no


poema de Saramago predominam os versos decassílabos, mas os da segunda
estrofe são de doze sílabas.

b) a estrofação.

Resposta: Em Os Lusíadas, todas as estrofes possuem oito versos; no poema


de Saramago, o tamanho das estrofes varia de dois a seis versos.

c) a rima.

Resposta: A epopeia possui um esquema de rimas invariável: ABABABCC; o


poema de Saramago é constituído de versos brancos (sem rimas) ou de rimas
imperfeitas (seja / desejo).

46

Comentário

Você leu e interpretou algumas estrofes do Velho do Restelo e certamente


percebeu que a leitura de Os Lusíadas é bastante trabalhosa. Mas terá
percebido também como ela é compensadora, pela beleza do poema e pela
percepção da atualidade de seus temas? Essa atualidade foi evidenciada pela
comparação com a "Fala do Velho do Restelo ao Astronauta", de José
Saramago. Esse poema exemplifica também a permanente influência de
Camões sobre os autores de nossa literatura até hoje.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Neste capítulo, estudamos o Renascimento e Camões, um dos autores mais


importantes da literatura em língua portuguesa.

· O Renascimento foi um movimento cultural amplo, que se iniciou na Itália no


século XIV e se difundiu em Portugal no século XVI.

· No Renascimento há várias tendências. A mais conhecida é o Classicismo,


caracterizado pela imitação dos autores gregos e latinos, pelo ideal de
perfeição formal, pela formulação de regras e pela busca de um equilíbrio entre
razão e emoção. No Maneirismo já se quebra esse pretendido equilíbrio e se
prenuncia a escola seguinte, o Barroco.

· Interpretamos um poema do iniciador do Renascimento em Portugal,


Francisco Sá de Miranda. Sua atualidade evidenciou-se na comparação com
um poema de Mário de Sá-Carneiro, poeta do Modernismo.

· O principal autor renascentista português é Luís Vaz de Camões, também


considerado um dos maiores poetas da literatura em língua portuguesa.

· Além de obras dramáticas, de menor importância, Camões escreveu:

· poesia lírica - reunida no livro Rimas -, composta em medida velha (versos


redondilhos, de 5 e de 7 sílabas) e em medida nova (versos decassílabos).

· poesia épica - o poema épico Os Lusíadas, que exalta os grandes feitos do


povo português e narra a viagem de Vasco da Gama às Índias, é escrito em
versos decassílabos predominantemente heroicos (acentos na 6ª e 10ª
sílabas), reunidos em estrofes em oitava-rima (8 versos). Os principais
episódios do poema, que possui 10 cantos, são a história trágica de Inês de
Castro, o discurso do Velho do Restelo no momento da partida, o diálogo entre
Vasco da Gama e o gigante Adamastor na passagem pelo Cabo das
Tormentas, e a estadia dos navegantes na Ilha dos Amores como prêmio pelo
sucesso da viagem.

Atividades

Escreva no caderno

1. (Enem/MEC) Oximoro (ou paradoxo) é uma construção textual que agrupa


significados que se excluem mutuamente. Para Garfield, a frase de saudação
de Jon (tirinha abaixo) expressa o maior de todos os oximoros.

FONTE: DAVIS, Jim. Folha de S.Paulo, 31 jul. 2000.

CRÉDITO: © 2000 Paws, Inc. All Rights Reserved/Dist. Universal Uclick

Nas alternativas a seguir, estão transcritos versos retirados do poema "O


operário em construção". Pode-se afirmar que ocorre um oximoro em:

47

a) "Era ele que erguia casas Onde antes só havia chão."

b) "... a casa que ele fazia Sendo a sua liberdade Era a sua escravidão."

c) "Naquela casa vazia Que ele mesmo levantara Um mundo novo nascia De
que sequer suspeitava."

d) "... o operário faz a coisa E a coisa faz o operário."

e) "Ele, um humilde operário Um operário que sabia Exercer a profissão."

MORAES, Vinicius de. Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras,
1992.

Resposta: Alternativa b.

Antes de responder às questões de 2 a 4, leia a cantiga e observe a sua


musicalidade e a graça de seus trocadilhos.

Cantiga

A este mote alheio:

Menina dos olhos verdes,

por que me não vedes?

Voltas
Eles verdes são,

e têm por usança

na cor, esperança

e nas obras, não.

Vossa condição

não é d'olhos verdes,

porque me não vedes.

[...]

Haviam de ser,

por que possa vê-los,

que uns olhos tão belos

não se hão de esconder;

mas fazeis-me crer

que já não são verdes,

porque me não vedes.

Verdes não o são

no que alcanço deles;

verdes são aqueles

que esperança dão.

Se na condição

está serem verdes

por que me não vedes?

CAMÕES, Luís Vaz de. Rimas. Texto estabelecido, revisto e prefaciado por
Álvaro J. da Costa Pimpão. Coimbra: Atlântida, 1973. p. 17-18.

2. Faça a escansão dos versos do mote e dos dois primeiros das voltas.
Classifique-os quanto à métrica.
Resposta: Mote: Me / ni / na / dos / o / lhos / ver / des, - redondilha maior
(heptassílabo); por / que / me / não / ve / des? - redondilha menor
(pentassílabo); E / les / ver / des / são, / e / têm / por / u / san / ça, -
redondilhas menores (pentassílabos).

3. Nos versos "Vossa condição / não é d'olhos verdes" há um trocadilho, pois a


palavra "verdes" pode ser lida com dois significados diferentes. Explique o
trocadilho.

Resposta: A palavra verdes pode ser entendida como adjetivo, explicitando a


cor, e como o verbo ver, no infinitivo flexionado, 2ª pessoa do plural: Vossa
condição não é de verdes os olhos. Pelo segundo sentido, a menina não vê os
olhos apaixonados do eu lírico, como ele explica no último verso: "por que me
não vedes?".

4. Tradicionalmente, as cores possuem significados simbólicos. Por exemplo, a


cor preta pode representar tristeza e luto; a amarela, desespero, medo; a azul,
em certos contextos, representa o sonho, a felicidade; noutros, a tristeza.

a) O valor simbólico da cor verde nos versos de Camões é o mesmo que o de


hoje? Qual é o valor simbólico?

Resposta: Sim; esperança.

b) Que versos explicitam esse sentido simbólico?

Resposta: "na cor, esperança"; "verdes são aqueles / que esperança dão."

Leia o poema para responder às questões 5 e 6.

Olhos verdes

Eles verdes são:

e têm por usança

na cor, esperança

e nas obras, não.

Camões, Rimas.

São uns olhos verdes, verdes,

Uns olhos de verde-mar,


Quando o tempo vai bonança;

Uns olhos cor de esperança,

Uns olhos por que morri;

Que ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,

Iguais na forma e na cor,

Têm luz mais branda e mais forte,

Diz uma - vida, outra - morte;

Uma - loucura, outra - amor.

Mas ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

[...]

Dizei vós, ó meus amigos,

Se vos perguntam por mi,

Que eu vivo só da lembrança

De uns olhos cor de esperança,

De uns olhos verdes que vi!

Que ai de mi!

Nem já sei qual fiquei sendo

Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!

Deixou-se de amor finar!

Viu uns olhos verdes, verdes,


Uns olhos da cor do mar:

Eram verdes sem esp'rança,

Davam amor sem amar!

Dizei-o vós, meus amigos,

Que ai de mi!

Não pertenço mais à vida

Depois que os vi!

DIAS, Gonçalves. In: Grandes poetas românticos do Brasil. 5ª ed. São


Paulo: Discubra, 1978. t. 1. p. 135.

Vocabulário:

intertexto: texto preexistente a outro texto, ao qual este se reporta e recorre


em sua elaboração.

Fim do vocabulário.

48

5. Gonçalves Dias indicou o intertexto de seu poema, colocando uma estrofe


de Camões como epígrafe.

a) O poeta romântico seguiu o renascentista na escolha da métrica? Explique e


comprove sua resposta, fazendo a escansão do primeiro verso.

Resposta: Não seguiu. Camões utilizou versos redondilhos menores (5


sílabas); Gonçalves Dias, redondilhos maiores (7 sílabas): "São / uns / o / lhos /
ver / des, / ver / des".

b) Em ambos os poemas, a figura da amada é representada,


metonimicamente, por seus olhos verdes. Que efeito de sentido produz a
duplicação do adjetivo verde no primeiro verso do poema de Gonçalves Dias?

Resposta: A duplicação produz um efeito de intensificação da cor (verdes,


verdes = muito verdes, verdíssimos).

PARA NÃO ESQUECER


Sinédoque - é um tipo particular de metonímia, em que a palavra que indica o
todo de um ser é substituída por outra que indica apenas uma parte dele. No
poema, os olhos representam a parte e a amada, o todo.

6. No poema de Camões, o eu lírico se queixa da contradição entre a


simbologia da cor dos olhos e o comportamento da menina ("na cor, esperança
/ e nas obras, não"). Identifique, no poema de Gonçalves Dias, um exemplo de
contradição dos olhos, na interpretação do eu lírico. Explique o exemplo.

Resposta: O(A) aluno(a) pode apontar a segunda estrofe, em que o eu lírico


compara os olhos a duas esmeraldas que, embora idênticas, produzem efeitos
e significados contraditórios: luz mais branda/mais forte; vida/morte;
loucura/amor. Pode também apontar a última estrofe, em que, como no poema
de Camões, a ausência de esperança contradiz a simbologia da cor verde. Os
olhos provocavam o amor ("davam amor"), mas não amavam ("sem amar).

Leia o soneto de Camões para responder às questões 7 e 8.

Soneto

Alma minha gentil, que te partiste

tão cedo desta vida descontente,

repousa lá no Céu eternamente,

e viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,

memória desta vida se consente,

não te esqueças daquele amor ardente

que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te

alguma cousa a dor que me ficou

da mágoa, sem remédio, de perder-te,

roga a Deus, que teus anos encurtou,

que tão cedo de cá me leve a ver-te,


quão cedo de meus olhos te levou.

CAMÕES, Luís Vaz de. Rimas. Texto estabelecido, revisto e prefaciado por
Álvaro J. da Costa Pimpão. Coimbra: Atlântida, 1973. p. 119.

7. Esse texto é um exemplo da concepção neoplatônica do amor na obra lírica


de Camões.

a) A utilização de dois advérbios antitéticos estabelece uma oposição essencial


para o entendimento do poema. Localize esses advérbios e explique a
oposição que eles estabelecem.

Resposta: Advérbios: cá e lá. Estabelecem a oposição entre a vida terrena (cá)


e a vida após a morte, no Céu (lá).

b) A qual elemento dessa oposição corresponde o lugar da felicidade e da


realização do Amor, idealizado como o Bem supremo?

Resposta: Corresponde ao lá, isto é, ao Céu, onde a amada agora vive,


eternamente.

c) Destaque da primeira estrofe dois adjetivos que traduzem uma visão


negativa em relação ao outro elemento da oposição. Explique.

Resposta: Descontente e triste. O primeiro traduz os sentimentos da amada


em relação à vida terrena; o segundo, o sentimento do amante, vivo, mas
impedido de realizar o amor.

8. Para Platão, o ser humano é um ser decaído, mas que anseia por retornar
ao mundo ideal e perfeito que ele um dia conheceu. Os neoplatônicos
identificam esse mundo ideal ao Céu cristão. Releia as duas últimas estrofes
do soneto e explique como o sujeito lírico exprime esse anseio por atingir a
plena realização da felicidade e do amor.

Resposta: Ele pede à amada que interceda diante de Deus para que também
morra e suas almas possam realizar, no Céu, o amor que foi impossível na
Terra.

9. (Fuvest-SP)

Já vai andando a récua dos homens de Arganil, acompanham-nos até fora da


vila as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, Ó doce e amado esposo, e
outra protestando, Ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo
desta cansada já velhice minha, não se acabavam as lamentações, tanto que
os montes de mais perto respondiam, quase movidos de alta piedade [...].

SARAMAGO, J. Memorial do convento.

Em muitas passagens do trecho transcrito, o narrador cita textualmente


palavras de um episódio de Os Lusíadas, visando a criticar o mesmo aspecto
da vida de Portugal que Camões, nesse episódio, já criticava. O episódio
camoniano citado e o aspecto criticado são, respectivamente,

a) O Velho do Restelo; a posição subalterna da mulher na sociedade tradicional


portuguesa.

b) Aljubarrota; a sangria populacional provocada pelos empreendimentos


coloniais portugueses.

c) Aljubarrota; o abandono dos idosos decorrente dos empreendimentos


bélicos, marítimos e santuários.

d) O Velho do Restelo; o sofrimento popular decorrente dos empreendimentos


dos nobres.

e) Inês de Castro; o sofrimento feminino causado pelas perseguições da


Inquisição.

Resposta: Alternativa d.

Resposta: Comentário: As mulheres se desesperam ao ver maridos e filhos


sendo levados para a construção do convento. A partir da expressão "Ó filho",
Saramago reproduz, literalmente, os versos de Camões já citados aqui, na p.
43.

49

capítulo 3 - Literatura colonial brasileira

Embora seja ainda apenas uma extensão da literatura portuguesa, a literatura


que se fez no Brasil, durante três séculos, está intimamente ligada à vida, aos
costumes e aos problemas da colônia. Neste capítulo você estudará as
manifestações literárias do século XVI, os ecos do Barroco, dos séculos XVII e
XVIII, e o Neoclassicismo, das décadas finais do século XVIII, além dos
principais autores desses períodos.

CRÉDITO: João Prudente/Pulsar

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Livros

· CAMINHA, Pero Vaz de. Carta ao Rei D. Manuel: versão moderna de Rubem
Braga. Rio de Janeiro: BestBolso, 2015.

· MIRANDA, Ana. Boca do Inferno. Rio de Janeiro: Companhia das Letras,


1989.

· MIRANDA, Ana. Desmundo. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2003.

50

Atenção Professor(a), a atividade da seção "E mais...", das páginas 52 e 62,


requer preparação antecipada. Fim da observação.

PRIMEIRA LEITURA

Sermão do bom ladrão

Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo mar Eritreu a conquistar a


Índia; e como fosse trazido à sua presença um pirata, que por ali andava
roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau
ofício; porém ele que não era medroso nem lerdo, respondeu assim: "Basta,
Senhor, que eu porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós porque roubais
em uma armada, sois imperador?". Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar
muito é grandeza: o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com
muito, os Alexandres.

[...]

Suponho, finalmente, que os ladrões de que falo não são aqueles miseráveis, a
quem a pobreza e vileza de sua fortuna condenou a este gênero de vida,
porque a mesma miséria ou escusa ou alivia o seu pecado, como diz Salomão:
Non grandis est culpa, cum quis juratus juerit: juratur enim ut esurientem
impleat animam*. (Prov., VI, 30.) O ladrão que furta para comer, não vai nem
leva ao Inferno: os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são os ladrões
de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do
mesmo predicamento distingue muito bem S. Basílio Magno: Non est
intelligendum jures esse solum bursarum incisores, vellatrocinantes in balneis,
sed et qui duces legionum statuti, vel qui commisso sibi regimine civitatum, aut
gentium, hoc quidem jurtim tollunt, hoc vera vi, et publice exigunt. Não são só
ladrões, diz o Santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar,
para lhes colher a roupa; os ladrões que mais própria e dignamente merecem
este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou
o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com
manha, já com força, roubam e despojam os povos. Os outros ladrões roubam
um homem, estes roubam cidades e reinos: os outros furtam debaixo do seu
risco, estes sem temor, nem perigo: os outros, se furtam, são enforcados, estes
furtam e enforcam. Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros
homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a
enforcar uns ladrões, e começou a bradar: "Lá vão os ladrões grandes enforcar
os pequenos". Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras
nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas. Quantas vezes
se viu em Roma ir a enforcar um ladrão por ter furtado um carneiro, e no
mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador por ter roubado uma
província! E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões
triunfantes? De um chamado Seronato disse com discreta contraposição
Sidônio Apolinar: Non cessat simul furta, vel punire, vel facere. Seronato está
sempre ocupado em duas coisas: em castigar furtos, e em os fazer. Isto não
era zelo de justiça, senão inveja. Queria tirar os ladrões do mundo, para roubar
ele só.

* Observe que todas as citações latinas são imediatamente traduzidas por


Vieira.

VIEIRA, Antônio. Sermão do bom ladrão. São Paulo: Princípio, 1993. p. 21-
22.

Vocabulário:

Alexandre: refere-se a Alexandre, o Grande (356- 323 a.C.), rei da Macedônia.


Grande conquistador, fundou um império que se estendia da Grécia ao Egito e
à Ásia Menor;
S. Basílio Magno: (329-379) - escritor e orador sacro da Igreja oriental;

Diógenes: (séc. II a.C.) - filósofo estoico (estoicismo é uma doutrina filosófica


que se caracteriza pela rigidez moral e prega a extirpação das paixões e a
resignação diante do destino);

vara: antiga insígnia representando o poder dos juízes e vereadores; aqui, por
extensão, os próprios juízes;

Sidônio Apolinar: (430-487) - escritor, senador, prefeito de Roma e bispo de


Clermont -Ferrand (cidade francesa) e santo católico. Suas cartas são
importantes para a reconstituição da história do final do Império Romano.

Fim do vocabulário.

51

Antônio Vieira (1608-1697)

Antônio Vieira nasceu em Lisboa, mas já em 1614 mudava-se com a família


para a Bahia. Estreou no púlpito um ano antes de sua ordenação sacerdotal.
Passou grande parte de sua vida no Brasil, mas morou também em Lisboa
como Pregador Real. Foi incumbido de missões secretas na França e na
Holanda. No Maranhão, chefiou a missão jesuítica e sua ação foi decisiva para
a promulgação da Lei da Liberdade dos Índios, de 1655. A um homem tão
brilhante e politicamente eficiente não poderiam faltar perseguições: preso pela
Inquisição, permaneceu recluso entre 1665 e 1668. Partiu então para Roma,
onde ficou durante seis anos, conseguindo afinal que o papa Clemente X o
isentasse da Inquisição. Os últimos 16 anos de sua vida passou-os na Bahia,
organizando suas obras para publicação. Morreu em Salvador, em 18 de julho
de 1697.

CRÉDITO: Antonio Jose Nunes Junio. 1868. Óleo sobre tela, 146 × 118 cm.
Coleção Biblioteca Nacional de Portugal

Em tom de conversa

Discuta com os colegas e com o(a) professor(a) as questões propostas a


seguir.
Sendo parte de um sermão, esses fragmentos apresentam uma estrutura
argumentativa: uma afirmação central e argumentos com que o pregador
procura convencer os ouvintes. A afirmação central foi expressa na forma de
um paradoxo.

a) Releia o primeiro parágrafo e localize a frase que formula o paradoxo.

Resposta: "O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza: o roubar com
pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres."

b) Comente o paradoxo. Ele traduz o pensamento do autor sobre o roubo?

Atenção Professor(a), conduza a discussão para que o(a) aluno(a) perceba


que, ao exprimir-se por paradoxo, o autor está sendo irônico. Não é o
pensamento do autor que é paradoxal, absurdo, mas a própria realidade social
a que ele se refere. Fim da observação.

Vocabulário:

paradoxo: é o raciocínio que aparenta coerência, mas que esconde


contradições, ou, ao contrário, uma contradição aparente que esconde uma
verdade; absurdo, contrassenso. A figura de linguagem denominada oximoro
justapõe termos que se contradizem, produzindo um paradoxo.

Fim do vocabulário.

Releitura

Escreva no caderno

1. Consulte um dicionário e encontre o significado das seguintes palavras


usadas no texto de Vieira:

a) vileza.

b) fortuna.

c) escusar.

d) predicamento.

e) manha.

Resposta: a) Atributo do que é vil (sem valor, miserável); miséria, pobreza,


origem plebeia (não nobre); b) sorte, destino, fado; c) perdoar, desculpar,
justificar, isentar; d) categoria, conjunto que tem características comuns; e)
astúcia, esperteza, habilidade de enganar, malícia.

Atenção Professor(a), comente com os(as) alunos(as) que a consulta ao


dicionário não é a única forma de descobrir significados; os sentidos podem ser
inferidos no próprio texto. Fim da observação.

2. Pense nas diferenças de significado entre as seguintes frases:

· Eles não são só ladrões.

· Não só eles são ladrões.

a) A qual delas corresponde a frase do sermão "Não são só ladrões, diz o


Santo, os que cortam bolsas, ou espreitam os que se vão banhar, para lhes
colher a roupa [...]"? Para responder, releia todo o trecho em que ela aparece.

Corresponde à segunda frase. Professor(a), observar que a posição da palavra


só nos levaria a relacioná-Ia com o sentido da primeira frase, mas o contexto
nos revela o sentido da segunda: Não só eles são ladrões... também o são
aqueles a quem os reis encomendam exércitos e legiões [...].

b) Reescreva a frase de Vieira, deslocando a palavra só, de modo que não


haja ambiguidade.

Resposta: Não são ladrões, diz o Santo, só os que cortam bolsas [...].

3. Para Vieira, a culpa pelo crime de roubo deve ser considerada de modo
absoluto ou deve ser relativizada? Explique.

Resposta: Deve ser relativizada. Há para ele dois tipos de ladrões: os


miseráveis, desculpados pela própria miséria, que os constrangeu ao crime, e
os de maior calibre, os poderosos, ligados aos governos, cujo crime é maior e
afeta um grande número de vítimas, e para os quais não pode haver perdão.

4. Identifique no texto um jogo de palavras em que o autor, ironicamente,


mostra a diferença com que a sociedade trata os dois tipos de ladrões.

Resposta: "[...] os outros, se furtam, são enforcados, estes furtam e enforcam."

5. Explique a ironia com que Vieira comenta os atos de Seronato.


Resposta: Vieira diz que Seronato era rigoroso na condenação de ladrões, não
porque estivesse preocupado com o rigor da justiça, mas porque, condenando-
os à morte, eliminava seus concorrentes no ofício de ladrão.

52

Comentário

Talvez o que mais impressione o leitor desse texto seja a coragem do


pregador, ou seu poder moral, ao falar em tais termos contra a corrupção dos
governantes e poderosos, numa igreja de Lisboa e em plena monarquia
absolutista.

Outras características, no entanto, devem chamar nossa atenção: a beleza e a


força expressiva do texto. Padre Antônio Vieira dominou as plateias de seu
tempo, inclusive a exigente nobreza da corte, utilizando magistralmente todos
os recursos da retórica e da teatralidade da linguagem barroca: a estrutura e o
ritmo sinuosos da frase, a argumentação engenhosa, o raciocínio e as imagens
surpreendentes, o paradoxo, a ironia, os jogos de palavras...

E MAIS...

Debate

O texto que você acabou de ler é o registro de um sermão pronunciado numa


igreja - Capela da Misericórdia de Lisboa - há mais de 350 anos.

O(A) professor(a) estabelecerá as regras e organizará um debate sobre os


seguintes temas:

· Atualidade do texto.

· O tema do "Sermão do bom ladrão" ainda é atual? Por quê?

· A argumentação do autor seria válida para o Brasil do século XXI? Que fatos
noticiados ultimamente pela imprensa podem justificar a opinião do grupo?

· "[...] a mesma miséria ou escusa ou alivia o seu pecado"

· O roubo motivado por necessidade (fome, miséria, exclusão social) é


justificável?

· O roubo e a corrupção dos ladrões de "maior calibre" (políticos, empresários)


justificam o roubo dos ladrões de "menor calibre"?
· "Ditosa Grécia, que tinha tal pregador!"

· As denúncias da imprensa e de outras instituições são eficazes no combate à


corrupção? O cidadão comum tem algum papel no combate à corrupção? Se
tem, que ações ele pode desenvolver?

Preparação

Cada grupo deverá:

· preparar os argumentos para defender a posição, afirmativa ou negativa, em


relação às questões propostas sobre o tema;

· escolher um debatedor, que representará os colegas e receberá a assistência


deles durante a discussão.

A PRODUÇÃO LITERÁRIA COLONIAL

Durante os três séculos em que o Brasil foi colônia de Portugal, a produção


literária evoluiu vagarosamente, assim como toda a organização social,
cultural, econômica e política que se constituía. Numa ampla perspectiva,
podemos dizer que ela se inicia como "literatura sobre o Brasil", na visão e na
voz do colonizador. A partir dos meados do segundo século, muito lentamente,
brotam as primeiras manifestações nativistas, que pouco distinguem nossas
letras dos modelos barrocos e neoclássicos europeus. Apenas a partir do final
do século XVIII, já às vésperas da independência política, começam a se
manifestar as primeiras reivindicações de originalidade.

Neste capítulo, estudaremos os três grandes momentos da literatura colonial:

· o Quinhentismo (século XVI);

· o Barroco (século XVII a meados do XVIII);

· o Neoclassicismo (segunda metade do séculoXVIII).

53

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

A terra, conhecida por ilhas culturais (Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, São
Paulo), é inicialmente apenas objeto de literatura: vista de fora, com os olhos
dos viajantes que dela descrevem as grandezas e diversidades. Depois, pouco
a pouco, ocorre o processo de enraizamento. À descrição diarista do
estrangeiro sucede a tentativa poética do colono, o qual, ao mesmo tempo em
que ainda toma do país de origem as estruturas literárias, emprega a matéria
local, temática e lexical, como pincelada exótica ou substitui a exaltação épica
da pátria europeia pela prosopopeia do novo continente.

Até 1808, contudo, o Brasil vive em singulares condições de isolamento


cultural, alimentado artificialmente através do cordão umbilical que o liga a
Portugal, separado de todo convívio com os povos vizinhos cujo contato
poderia sugerir pruridos separatistas e ideais nacionalistas. Dentro dessa linha,
Lisboa, do mesmo modo que fecha os portos brasileiros a toda espécie de livre
intercâmbio, proíbe inflexivelmente à colônia todo direito de associação e veta
uma imprensa autônoma, hipotética suscitadora de uma opinião pública
animada por interesses localistas [...].

Embora condicionado pelo novo ambiente e projetado para o futuro, o colono


arrasta consigo todo o seu passado: tanto isso é verdade que no Brasil a
literatura nasce adulta, barroca. Um barroco diferente, que haure sua linfa
particular do novo ambiente, mas canalizado por toda a sabedoria literária
destilada durante séculos de cultura portuguesa.

PICCHIO, Luciana Stegagno. História da literatura brasileira. Rio de Janeiro:


Nova Aguilar, 1997. p. 29 e 30.

Vocabulário:

prosopopeia: personificação;

prurido: desejo, tentação;

haurir: extrair, colher;

linfa: água (no sentido de fonte, alimento).

Fim do vocabulário.

O Quinhentismo

As manifestações literárias do Quinhentismo fazem parte da literatura de


viagens do Renascimento português, originada pelas descobertas oceânicas a
partir do século XV.
Incluem-se nessas manifestações a literatura informativa dos viajantes e a
literatura catequética do padre José de Anchieta.

Literatura informativa

As obras que constituem a literatura informativa são importantes fontes


documentais para o estudo do primeiro século da colonização e serviram
muitas vezes de sugestão temática para autores do Romantismo e do
Modernismo.

· Documentos, cartas e relatórios de navegantes, de administradores e de


missionários e autoridades eclesiásticas, como: A Carta, de Pero Vaz de
Caminha (1500); o Diário de navegação, de Pero Lopes de Sousa, escrivão
da frota de Martim Afonso de Sousa (1530); ou as cartas e os relatórios dos
missionários jesuítas.

· Obras que se ocupam da descrição da nova terra e de seus habitantes,


traduzindo sempre a perplexidade diante da natureza tropical e dos costumes
exóticos dos índios. Entre elas: o Tratado da terra do Brasil e a História da
Província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, ambas do
humanista português Pero de Magalhães Gândavo (1576), e os Tratados da
terra e da gente do Brasil, do padre Fernão Cardim (c. 1580).

Literatura catequética - Pe. José de Anchieta

A chamada literatura informativa dos viajantes não possui um caráter


propriamente literário. Por isso a obra de José de Anchieta diferencia-se do
conjunto dos escritos do século XVI, pois, além de cartas e relatórios de valor
documental e histórico, o jesuíta também escreveu poesia e teatro.

A literatura de Anchieta foi condicionada por sua finalidade catequética, sua


função pedagógica e didática. Não se deve, portanto, procurar na obra de
Anchieta as características da literatura clássica renascentista. Ela se insere na
tradição medieval, expressando, em versos redondilhos (medida velha), uma
concepção teocêntrica do mundo. Seu teatro é alegórico, à maneira dos autos
de Gil Vicente.

54

LE ITURA
Muitos autores dos séculos XIX e XX buscaram sugestões para suas obras nos
cronistas do século XVI. Os autores modernistas, sobretudo, fizeram uma
releitura das obras dos viajantes, frequentemente com intenções satíricas.
Murilo Mendes, em sua obra História do Brasil (1932), foi um deles.

TEXTO 1

Carta (fragmento)

Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até
outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista,
será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa.

[...]

Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa
alguma de metal ou ferro; nem o vimos. Porém a terra em si é de muito bons
ares, assim frios e temperados como os de Entre-Doiro e Minho, porque neste
tempo de agora os achávamos como os de lá.

As águas são muitas, infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a


aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.

Porém o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta
gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve
lançar.

CAMINHA, Pero Vaz de. A Carta. In: RONCARI, Luiz. Literatura brasileira:
dos primeiros cronistas aos últimos românticos. São Paulo: Edusp, 2002. p. 40.

TEXTO 2

Carta de Pero Vaz

A terra é mui graciosa,

Tão fértil eu nunca vi.

A gente vai passear,

No chão espeta um caniço,

No dia seguinte nasce

Bengala de castão de oiro.


Tem goiabas, melancias.

Banana que nem chuchu.

Quanto aos bichos, tem-nos muitos.

De plumagens mui vistosas.

Tem macaco até demais.

Diamantes tem à vontade,

Esmeralda é para os trouxas.

Reforçai, Senhor, a arca.

Cruzados não faltarão,

Vossa perna encanareis,

Salvo o devido respeito.

Ficarei muito saudoso

Se for embora d'aqui.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,


1994. p. 145. © Maria da Saudade Cortesão Mendes.

CRÉDITO: Acervo Iconographia

Murilo Mendes (1901-1975)

Poeta da segunda geração modernista brasileira. Os poemas de História do


Brasil (1932) subvertem, de modo irônico, a história oficial do país. Os poemas
iniciais do livro são paródias dos textos escritos por cronistas do século XVI.

Vocabulário:

castão: remate superior de uma bengala;

cruzado: antiga moeda portuguesa;

vossa perna encanareis: engordareis. O rei "estava mal das pernas", isto é,
sem dinheiro, "quebrado". As riquezas do Brasil poderiam tirá-Io dessa
situação.

Fim do vocabulário.
55

Releitura

Escreva no caderno

1. O adjetivo graciosa possui vários sentidos: bonita, jovial; que tem graça,
encanto, delicadeza; engraçada, divertida; que tem generosidade, liberalidade;
que concede graças, favores. Com que sentido esse adjetivo é empregado por
Pero Vaz de Caminha?

Resposta: No sentido de generosa, que concede graças, ou seja, que produz


muito por sua fertilidade.

2. Como Murilo Mendes satiriza a famosa expressão de Caminha "dar-se-á


nela tudo"?

Resposta: Ele a traduz satiricamente, por meio do exagero, dizendo que a terra
é tão fértil que de um caniço espetado no chão nasce uma bengala com castão
de ouro.

3. Parodiando a linguagem de Caminha, Murilo utiliza formas arcaicas como o


advérbio mui (contração de muito) antes dos adjetivos, o pronome enclítico em
tem-nos e o tratamento na segunda pessoa do plural, vós. Entretanto, a essa
linguagem solene e arcaica ele mistura expressões coloquiais e modernas,
impróprias numa carta dirigida a um rei. Dê alguns exemplos.

Resposta: "A gente", "que nem chuchu" (= em grande quantidade), "trouxas".

4. Que recomendação Caminha faz ao rei em sua carta?

Resposta: Recomenda que a maior preocupação do rei seja com a salvação


das almas dos indígenas.

5. E que recomendação o personagem Pero Vaz, do poema de Murilo Mendes,


faz ao rei?

Resposta: Recomenda que ele reforce a arca para receber os lucros da


exploração da nova terra. As riquezas dessa terra salvarão as finanças do reino
(encanarão as pernas do rei, sugerindo, portanto, que a economia "ia mal das
pernas").

NAVEGAR É PRECISO
· A música "A Carta de Pero Vaz de Caminha", de Arnaud Rodrigues, gravada
em 1978 (disco Redescobrimento), é considerada o primeiro reggae
brasileiro. Você pode encontrá-la na internet e ouvir.

· A Carta de Pero Vaz de Caminha nunca sai da Torre do Tombo, em Lisboa,


onde está guardada. Mas, em 2000, ela foi trazida ao Brasil para a exposição
comemorativa dos 500 anos do Descobrimento. Procure na internet os vídeos
da TV Senado realizados para aquela ocasião.

O Barroco

O Barroco, já prenunciado no Maneirismo renascentista, é a expressão artística


das contradições que convulsionaram a vida europeia a partir do século XVI:
por um lado, as mudanças de valores morais, de estilo de vida e de ordenação
social, consequências da vitória do capitalismo mercantil e da fundação das
colônias ultramarinas; por outro lado, os conflitos religiosos, cuja expressão
maior foram a Reforma protestante e a Contrarreforma católica.

Contrastando com o Classicismo renascentista, a arte barroca é pessimista,


instável, contraditória e dramática como foi a sua época.

Vocabulário:

Reforma: movimento religioso do século XVI que deu origem ao


Protestantismo. Iniciada na Alemanha por Martinho Lutero na segunda década,
espalhou-se logo por vários países da Europa e desenvolveu-se em três
principais correntes: a luterana (Alemanha), a calvinista (Suíça e França) e a
anglicana (Inglaterra);

Contrarreforma: movimento de reforma empreendido pela Igreja Católica, em


reação à Reforma protestante. Visava a corrigir os abusos que denegriam a
Igreja e a firmar as posições doutrinárias do Catolicismo. Os ideais
contrarreformistas foram estabelecidos pelo Concílio de Trento (1545-1563) e
difundidos principalmente pela Companhia de Jesus (jesuítas).

Fim do vocabulário.

Características do Barroco
A irregularidade, em contraposição à simetria e à regularidade do Classicismo,
é a marca do novo estilo, que expressa o pessimismo, o conflito, o
desequilíbrio entre a razão e a emoção.

Literariamente, seus grandes recursos estilísticos são a metáfora, revelando a


tendência do Barroco à alusão e à descrição indireta; a antítese e o paradoxo,
exprimindo a coexistência angustiada de ideias e sentimentos opostos e
contraditórios; a hipérbole, expressando a perplexidade diante do mundo e da
vida; e o hipérbato, refletindo, na inversão da frase, as contorções da alma.

São duas as tendências básicas do Barroco: o cultismo e o conceptismo.


Embora constituam estilos diferentes, podem coexistir num mesmo autor ou até
numa mesma obra. Há casos em que a distinção entre eles é muito difícil, se
não impossível.

· Cultismo ou culteranismo (costuma ser chamado também de gongorismo,


às vezes depreciativamente, em referência ao poeta espanhol D. Luis de
Góngora, seu maiorrepresentante): consiste no exagero da dimensão sensorial
(sonoridade e imagens) da obra literária. O autorcultista recorre
exageradamente a metáforas, sinestesias de toda ordem, aliterações,
hipérbatos, antíteses, trocadilhos, enfim, a um descritivismo rebuscado, tão rico
quanto tortuoso.

56

· Conceptismo: consiste na hipertrofia da dimensão conceitual da obra


literária. Utilizando-se mais da razão que dos sentidos, o autor conceptista cria
raciocínios engenhosos, num refinado jogo intelectual de paradoxos e sutilezas
lógicas. Enquanto o cultismo é essencialmente descritivo, o conceptismo é
analítico. Considera-se o espanhol D. Francisco de Quevedo - o mais
representativo e influente autor desse estilo.

O Barroco brasileiro

No Brasil, a escola barroca é frequentemente chamada de Escola Baiana. Isso


se deve ao fato de o centro de irradiação cultural e de produção literária do
século XVII ter sido Salvador, capital da Colônia.
Na Bahia, encontramos dois autores da maior importância na história de nossa
literatura: o padre Antônio Vieira, fortemente ligado à vida da Colônia, e o poeta
Gregório de Matos.

PARA NÃO ESQUECER

Metáfora - Consiste no emprego de uma palavra ou expressão com um sentido


diferente do usual, com base em uma comparação subentendida entre dois
elementos.

Antítese - Caracteriza-se pelo emprego de palavras ou expressões de


significados opostos.

Hipérbole - Consiste na ênfase expressiva dada pelo exagero do significado.

Hipérbato - Consiste na transposição ou inversão da ordem dos termos de


uma oração, tendo como consequência a separação dos elementos de um
mesmo grupo sintático.

Padre Antônio Vieira

Orador sacro, pertencente às duas literaturas, portuguesa e brasileira, suas


principais obras são os Sermões (perto de 200, organizados em 16 volumes) e
as Cartas (cerca de 500, organizadas em três volumes).

Embora utilizasse muitas vezes os procedimentos estilísticos do cultismo,


Vieira é um autor conceptista.

Tem sido considerado, durante estes três séculos, um gênio da língua.


Impressiona sua capacidade de obter efeitos extraordinários, sem lançar mão
de exageros sintáticos ou de rebuscamentos metafóricos. Seu discurso é
extremamente "engenhoso" (no sentido seiscentista: muito inventivo e original),
sem, contudo, ser pedante e obscuro.

Principais sermões de Vieira

· "Sermão pelo bom sucesso dasArmas de Portugal contra as


deHolanda"(1640). Retrata o cerco à cidade de Salvador pelos holandeses.
Vieira, com apenas 32 anos, prega o quetalvez seja o seu mais ousado e
impressionante sermão, diante de uma população amedrontada, na Igreja de
Nossa Senhora da Ajuda. E o pregador, em vez de se dirigir à plateia, fala ao
próprio Deus, exigindo dele a proteção para o seu povo: "Acordai, Senhor, por
que dormis?" (Salmo 43).

· "Sermão do mandato" (1650). Sobre o amor místico de Cristo, é um de seus


mais belos e perfeitos sermões.

· "Sermão de Santo Antônio aos peixes" (1654). Pronunciado no Maranhão, no


auge da luta dos jesuítas contra a escravização dos indígenas pelos
colonizadores. Vieira demonstra sua veia satírica, representando os vícios dos
colonos nos comportamentos das diversas espécies de peixes.

· "Sermão da Sexagésima" (1655). Quando Vieira estava no Maranhão, fez


uma breve viagem a Portugal, onde obteve a Lei da Liberdade dos Índios e
pronunciou, na Capela Real, esse que é considerado o seu mais importante
sermão: uma crítica monumental ao estilo Barroco, sobretudo ao cultismo.
(Sexagésima era, no calendário da Igreja Católica, o segundo domingo antes
do primeiro da Quaresma, ou seja, aproximadamente 60 dias antes da
Páscoa.)

57

Gregório de Matos

Considerado por muitos historiadores o iniciador da literatura brasileira, é o


principal poeta de todo o período colonial, juntamente com o neoclássico
Tomás Antônio Gonzaga. Sua volumosa obra foi conservada em cópias
manuscritas do século XVIII. Compreende-se, portanto, que a sua autoria seja
controversa, uma vez que muitos poemas lhe foram indevidamente atribuídos.

Influenciado tanto pelo cultismo de Góngora quanto pelo conceptismo de


Quevedo, ficou conhecido na história da literatura como o Boca do Inferno,
por causa de suas sátiras e de sua poesia erótica. Contudo, sua obra é múltipla
e surpreendente. Seu espírito profundamente barroco pode ser percebido na
paradoxal diversidade dos temas que desenvolveu:

· poesia sacra (temática religiosa);

· poesia lírico-amorosa;

· poesia satírica;
· poesia burlesca, cujo tom brincalhão frequentemente se torna obsceno.

LEITURA

À cidade da Bahia

Soneto

Pondo os olhos primeiramente na sua cidade, conhece que os mercadores são


o primeiro móvel da ruína em que arde, pelas mercadorias inúteis e enganosas.

Triste Bahia! Oh quão dessemelhante

Estás, e estou do nosso antigo estado!

Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,

Rica te vi eu já, tu a mi abundante.

A ti trocou-te a máquina mercante,

Que em tua larga barra tem entrado,

A mim foi-me trocando, e tem trocado,

Tanto negócio e tanto negociante.

Deste em dar tanto açúcar excelente

Pelas drogas inúteis, que abelhuda

Simples aceitas do sagaz Brichote.

Oh se quisera Deus, que de repente

Um dia amanheceras tão sisuda

Que fora de algodão o teu capote!

MATOS, Gregório de. Obra poética. Edição James Amado. 3ª ed. Rio de
Janeiro: Record, 1992. v. 1. p. 333.

Vocabulário:

Bahia: cidade de Salvador;

estado: situação, condição de vida;

empenhado: endividado;

trocar: nos dois sentidos: comerciar e mudar;


máquina mercante: as naus do comércio;

deste em dar: principiaste, começaste a dar;

simples: droga, remédio;

brichote: estrangeiro (pejorativo);

sisuda: ajuizada;

capote: capa larga e longa.

Fim do vocabulário.

CRÉDITO: Laudelino Freire. 1913. Desenho. Biblioteca Nacional, Rio de


Janeiro

Gregório de Matos Guerra (1636-1695)

Como filho de senhor de engenho, Gregório de Matos pôde estudar em


Portugal, para onde se mudou aos 14 anos de idade. Lá passou 32 anos,
prósperos e tranquilos. Retornou ao Brasil em 1682, nomeado para funções na
burocracia eclesiástica da Sé da Bahia. Durou pouco no cargo, do qual foi
destituído em 1683. Iniciou-se, então, a última fase de sua vida. O casamento
com Maria dos Povos, a quem dedicou belíssimos sonetos, não impediu a
decadência, social e profissional, do Dr. Gregório. Ficou famoso por suas
andanças e pândegas pelos engenhos do Recôncavo. Mais famosas ainda
eram suas sátiras. Talvez por causa delas, foi deportado para Angola, em
1694. Pôde retornar ao Brasil no ano seguinte, para o Recife, onde morreu aos
59 anos de idade.

58

Em tom de conversa

Sendo uma obra conceptista, esse soneto desenvolve o pensamento de modo


engenhoso, num refinado jogo intelectual de paradoxos e sutilezas lógicas que
exige, para a compreensão, um maior esforço do leitor. Um bom modo de
facilitar o entendimento, em casos como esse, é parafrasear o texto.

Com o auxílio de seu(sua) professor(a), ajude seus colegas a redigir uma


paráfrase do poema. Veja um exemplo da terceira estrofe.
Tu te puseste a trocar o açúcar excelente por drogas inúteis, que, por seres
curiosa e fútil, aceitas do estrangeiro esperto, como se elas fossem bons
remédios.

Procedimentos

1. Discutam a primeira estrofe, procurando compreender o pensamento que


nela se desenvolve, solucionando dúvidas de vocabulário e recompondo a
ordem direta das frases.

2. Após chegarem a uma compreensão da estrofe, produzam coletivamente a


paráfrase, sob a orientação do(a) professor(a).

3. Repitam os procedimentos para as outras estrofes.

4. Ao final, comparem os textos - soneto e paráfrase - e avaliem se esta


manteve a construção engenhosa e a expressividade do poema.

Resposta: Sugestão de resposta: 1ª estrofe: Triste Bahia! Oh como tu e eu


estamos diferentes em relação à nossa antiga situação de vida! Eu já te vi rica,
tu já me viste abastado (endinheirado). Mas agora te vejo pobre e tu me vês
endividado. - 2ª estrofe: Tua situação foi mudada por causa do intenso
comércio realizado pelos navios que entram no teu porto. A minha situação foi
mudada, e continua mudando, pelos muitos negócios e negociantes com que
me envolvi. - 4ª estrofe: Oh quisera Deus que um dia, de repente,
amanhecesses tão ajuizada, que usasses um simples capote de algodão (em
lugar das roupas ricas com que desperdiças tuas riquezas). Professor(a), leve
os alunos a perceber que a paráfrase auxilia a compreensão dos sentidos do
texto, mas empobrece a construção engenhosa.

Releitura

Escreva no caderno

No soneto, a cidade, personificada, é objeto das recriminações do poeta, como


frequentemente ocorre nos poemas satíricos do autor.

1. Nas duas primeiras estrofes, ele faz um paralelo entre a sua vida e a da
cidade, descrevendo as transformações que ambas sofreram.

a) Qual era a antiga situação da cidade e de sua vida?


Resposta: Antigamente a cidade era rica, e ele, possuidor de muitos bens.

b) E a situação atual?

Resposta: O poeta vê a cidade empobrecida e se diz "empenhado", isto é,


endividado ou com seus bens penhorados para pagamento de dívidas.

2. A antítese é uma das figuras de linguagem mais utilizadas pela literatura


barroca.

a) Liste as antíteses utilizadas por Gregório de Matos e indique a que tempo


(passado ou presente) cada palavra se refere.

Resposta: Pobre (presente) e rica (passado); vejo (presente) e vi (passado);


empenhado (presente) e abundante (passado).

b) O que revela o uso intenso da antítese no poema?

Resposta: No poema, o uso intenso da antítese revela as mudanças, ou


"dessemelhanças de estado", sofridas pelo poeta e pela cidade.

3. A vida do poeta foi mudada pelos maus negócios e por negociantes mais
espertos que ele. A que ele atribui as mudanças de condições da cidade?

Resposta: Para ele, a culpa do empobrecimento da cidade deve ser atribuída à


"máquina mercante", ou seja, às naus que aportavam na cidade para
comerciar, e, por extensão, ao próprio comércio internacional do açúcar.

4. Releia a terceira estrofe e responda: segundo o poeta, por que a Bahia, na


época a maior exportadora mundial de açúcar, tinha tanto prejuízo no comércio
internacional?

Resposta: Segundo ele, a Bahia trocava o excelente açúcar que produzia por
"drogas" inúteis. Em outras palavras, o capital estrangeiro que recebia pela
exportação do açúcar era utilizado na importação de futilidades e artigos de
luxo.

5. Na última estrofe, ele formula um desejo, exprimindo-se por meio da


metáfora do "capote de algodão". Explique o desejo do poeta e a importância
da metáfora na composição do poema.

Resposta: O poeta deseja que a Bahia seja "sisuda", isto é, que ela tenha siso,
juízo, e abandone o estilo de vida luxuoso e de gastos inúteis que vinha
levando. O "capote de algodão" representa a roupa do povo, barata (de
algodão) e despretensiosa, e simboliza a vida simples.

59

Comentário

O soneto de Gregório de Matos pode ser incluído na tendência conceptista do


Barroco. Observe sua estrutura:

· Nos dois quartetos, o poeta compara as transformações de sua vida com as


da vida da cidade. O paralelismo dos versos e das construções sintáticas, os
jogos de palavras e as antíteses intensificam a expressividade da comparação.

· Nos tercetos, o poeta ocupa-se apenas da cidade. No primeiro, formula uma


explicação para o atual estado em que ela se encontra. No segundo, indica
uma solução, exprimindo o desejo de que ela passe a ter um estilo de vida
mais simples.

A estruturação conceptista do poema não impede, entretanto, os recursos


expressivos próprios do cultismo, como o uso intensivo de aliterações.

Veja a seguir uma reconstituição da cidade de Salvador da época de Gregório


de Matos em um romance do século XX.

PARA NÃO ESQUECER

Aliteração - Repetição de fonemas visando a um efeito expressivo eufônico


(positivo) ou cacofônico (negativo). Exemplo: Estás, e estou do nosso antigo
estado! (Os fonemas linguodentais /t/ e /d/ repercutem, como numa batida
insistente, ao longo dos dois quartetos.)

LEITURA

Em 1989, a escritora Ana Miranda lançou o romance Boca do inferno, que fez
grande sucesso. A obra reconstitui ficcionalmente a Bahia do século XVII e as
desavenças políticas entre o governador-geral, Antônio de Sousa Meneses, e a
família do padre Antônio Vieira. O poeta Gregório de Matos, personagem do
romance, toma partido contra o tirânico governador, satirizando-o em vários
poemas. No trecho a seguir, ele observa o burburinho da cidade.

Boca do inferno (fragmento)


As pessoas que caminhavam pela praça naquele momento eram, na maioria,
negros escravos ou mestiços trabalhadores. Muitos iam para as igrejas. Os
sinos chamavam, repicando.

Da janela, Gregório de Matos acompanhou com os olhos a passagem do


governador entre pessoas de diversos mundos e reinos distintos. Reinóis, que
chamavam de maganos, fugidos de seus pais ou degredados de seus reinos
por terem cometido crimes, pobres que não tinham o que comer em sua terra,
ambiciosos, aventureiros, ingênuos, desonestos, desesperançados, saltavam
sem cessar no cais da colônia. Alguns chegavam em extrema miséria,
descalços, rotos, despidos, e pouco tempo depois retornavam, ricos, com
casas alugadas, dinheiro e navios. Mesmo os que não tinham eira nem beira,
nem engenho, nem amiga, vestiam seda, punham polvilhos. [...] Eram esses os
cristãos que vinham, na maior parte, e esses os que caminhavam por ali,
tirando o chapéu e curvando-se à passagem do governador. Eram também
persas, magores, armênios, gregos, infiéis e outros gentios. Mermidônios,
judeus e assírios, turcos e moabitos. A todos, a cidade dava entrada.

[...]

MIRANDA, Ana. Boca do inferno. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p.
14.

Vocabulário:

reinol: natural do reino, ou seja, de Portugal;

magano: velhaco, trapaceiro, negociante de animais ou escravos;

polvilho: pó utilizado para branquear os cabelos;

gentio: pagão, idólatra, estrangeiro.

Fim do vocabulário.

60

Ana Miranda com frequência incorpora, em suas descrições, trechos da poesia


de Gregório de Matos. Veja um exemplo.

Pode haver maior portento,

nem milagre encarecido,


como de ver um mazombo

destes cá do meu pavio,

que sem ter eira nem beira,

engenho, o juro sabido,

tem amiga, e joga largo,

veste sedas, põe polvilhos?

MATOS, Gregório de. Obra poética. Edição James Amado. 3ª ed. Rio de
Janeiro: Record, 1992. v. 1. p. 52.

Releitura

Escreva no caderno

1. Que característica da cidade de Salvador, no século XVII, é ressaltada tanto


no soneto de Gregório de Matos, "À cidade da Bahia", quanto nessa descrição
de Ana Miranda?

Resposta: Salvador aparece nos dois textos como um grande porto de


comércio internacional, movimentado por comerciantes vindos de todas as
partes do mundo - a "máquina mercante" de que fala Gregório de Matos.

2. Encontre no texto de Ana Miranda uma passagem que possa ilustrar a vida
de luxo e desperdício dos habitantes de Salvador, também descrita por
Gregório em seu soneto.

Resposta: "Mesmo os que não tinham eira nem beira, nem engenho, nem
amiga, vestiam seda, punham polvilhos."

O Neoclassicismo

Na segunda metade do século XVIII, inicia-se uma forte reação contra o


Barroco e ao panorama ideológico que ele representava.

A arte setecentista cultiva a graciosidade e a leveza, utilizando linhas


suavemente curvas e tons esbatidos. Na pintura, as cenas são sempre
estilizadas em ambientes campestres, onde pastoras e pastores, ninfas e
sátiros representam a superficialidade e a alegria maliciosa dos salões
aristocráticos.
Na literatura podemos observar as seguintes tendências:

· Arcadismo - Em sentido amplo, é a produção poética ligada às arcádias; em


sentido mais específico, refere-se ao ideal de simplicidade e de naturalidade
que se buscou nos temas bucólicos e pastoris convencionais, pela imitação de
poetas latinos e renascentistas.

· Neoclassicismo - Em sentido amplo, o termo é usado em referência ao


conjunto da produção artística da segunda metade do século XVIII. Em sentido
estrito, refere-se a uma tendência artística das últimas décadas do século XVIII
e primeiras do XIX. A arte neoclássica caracteriza-se pelo retorno ao equilíbrio
clássico e pela imitação dos autores greco-Iatinos e renascentistas. Valoriza a
perfeição formal, cultua a grandiosidade, repudia a decoração supérflua e
desenvolve temas mitológicos e históricos.

· Pré-Romantismo- Concomitantemente ao florescimento do Neoclassicismo,


o progressivo desgaste dos valores aristocráticos leva muitos artistas e
escritores a abandonarem as convenções classicizantes, imprimindo em suas
obras certas características que prenunciam o Romantismo do século XIX,
como o emocionalismo e o pessimismo.

Vocabulário:

Arcádia: desde a fundação da Arcádia de Roma (1690), as agremiações


literárias (academias) passaram a receber esse nome: Arcádia Lusitana e Nova
Arcádia (Portugal), Arcádia Ultramarina (Brasil).

Fim do vocabulário.

61

Principais convenções da poesia arcádica

1. Personagens mitológicos utilizados alegoricamente.

2. Bucolismo e pastoralismo: a vida campestre idealizada e estilizada; o


sujeito lírico sempre caracterizado como um pastor; a mulher amada, como
uma pastora.
3. Ambientação no locus amoenus ("lugar ameno"): idealização da natureza,
estilizada em cenário perfeito e aprazível (o prado, as flores, os pássaros, a
brisa, o riacho murmurante etc.).

4. Tema do fugere urbem ("fugir da cidade"): a cidade é vista como o lugar do


sofrimento e da corrupção dos homens.

5. Elogio da aurea mediocritas ("mediania de ouro"): expressão de Horácio


(poeta da Roma antiga) para dizer que uma situação de equilíbrio deve ser
preferível a qualquer extremo.

6. Carpe diem ("colha o dia"), tema clássico greco-Iatino: recomendação para


que se aproveite o momento presente. Na poesia lírico-amorosa, o amante
procura convencer a amada de que devem viver plenamente o amor, antes que
venham a velhice e a morte.

O Neoclassicismo brasileiro

O Neoclassicismo é chamado também de Escola Mineira pelos historiadores da


literatura, pois ele se desenvolveu sobretudo na cidade de Vila Rica, capital da
província de Minas Gerais, e no Rio de Janeiro. Foi contemporâneo à chamada
Inconfidência Mineira, movimento político de que participaram vários autores.

Principais autores neoclássicos brasileiros

· Cláudio Manuel da Costa - Obras poéticas (poesia lírica, 1768) e Vila Rica
(poema épico, 1773).

· Tomás Antônio Gonzaga - Marília de Dirceu (liras - poesia lírica) e Cartas


chilenas (poesia satírica).

· Basílio da Gama - O Uraguai (poema épico, 1769).

· Frei José de Santa Rita Durão - Caramuru (poema épico, 1781).

O Barroco mineiro

Você já deve ter ouvido muitas vezes a expressão "Barroco mineiro". E se você
sabe que esse barroco está ligado ao ciclo do ouro, do século XVIII, pode estar
um pouco confuso: afinal, esse período é barroco ou neoclássico? A resposta a
essa pergunta exemplifica muito bem a observação de que, quando estudamos
História da Arte, não podemos confiar ingenuamente nas periodizações e
classificações. Elas são muito úteis, mas construídas apenas com finalidades
didáticas, para dar uma organização racional e compreensível ao conjunto das
produções artísticas. Com essa finalidade, exigem grandes abstrações,
generalizações e simplificações.

A Escola Mineira (literatura neoclássica, em sentido amplo) convive com as


artes plásticas e a arquitetura do chamado Barroco mineiro.

Trata-se de um barroco tardio, eclético (mistura dos estilos Barroco, Rococó e,


por vezes, Neoclássico), adaptado aos materiais disponíveis, como o
itacolomito e a pedra-sabão, e resultante de novas técnicas desenvolvidas
pelos artesãos.

Os principais artistas do Barroco mineiro foram, na pintura, Manuel da Costa


Ataíde e, na escultura e arquitetura, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Vocabulário:

Rococó: estilo tipicamente francês, na decoração, arquitetura e pintura,


desenvolvido principalmente no reinado de Luís XV (1715-1774). É a última
fase do Barroco, em transição para o Neoclassicismo. Caracteriza-se pelo
grande apelo sensual e pelos excessos decorativos, exprimindo o gosto frívolo
das cortes. Como o Arcadismo, utiliza frequentemente os temas pastoris e
bucólicos, numa representação requintada e artificial da simplicidade.

Fim do vocabulário.

62

LEITURA

Aleijadinho

Na pausa do cinzel e das ferramentas

declinas perguntas à pedra.

Teus profetas elegem o ar

conhecem o volteio dos dias

pisam

o pergaminho das parábolas.


Doze vezes a pedra humanizada

respira

o silêncio das colinas.

Tuas mãos em descanso emocionam

o tempo fixado.

PAIXÃO, Fernando. 25 azulejos. São Paulo: Iluminuras, 1984. p. 17.

Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho (1730?-1814)

Considerado o artista mais importante do chamado Barroco mineiro. Por falta


de documentação, sua biografia é muito imprecisa. Sabe-se que era mulato,
filho de um famoso mestre de obras e de uma escrava. Ainda muito jovem foi
acometido por uma doença que causava deformação em seu corpo (não se
conhece a natureza dessa doença, talvez a sífilis, o reumatismo ou mesmo a
hanseníase) que lhe valeu o apelido de Aleijadinho. As principais obras
atribuídas a ele encontram-se nas cidades de Ouro Preto, Congonhas do
Campo, Sabará e São João del Rei.

E MAIS...

Interpretação de texto e de imagens

O poema de Fernando Paixão, que você acaba de ler, foi publicado no final do
século XX.

Reúna-se com seu grupo para realizar esta atividade, de acordo com o roteiro
a seguir:

1. Pesquisa

Utilizando a internet e enciclopédias, procurem dados que os auxiliem a


responder a estas perguntas:

a) Quais foram as principais artes a que se dedicou Aleijadinho? O poema de


Fernando Paixão faz referências a essas artes?

Resposta: Aleijadinho dedicou-se à arquitetura e à escultura. O poema faz


referências à escultura: "pausa do cinzel e das ferramentas"; "perguntas à
pedra"; "a pedra humanizada".
b) A que obra o poeta se refere nos versos "Doze vezes a pedra humanizada /
respira / o silêncio das colinas."?

Resposta: O poeta refere-se à obra Os Doze Profetas, um conjunto de doze


esculturas em pedra-sabão localizadas no adro do santuário do Bom Jesus de
Matosinhos, em Congonhas do Campo (MG). É uma das obras mais
importantes do escultor.

c) Que características dessa obra de Aleijadinho são sugeridas pelos versos


"Teus profetas elegem o ar", "o pergaminho das parábolas" e "o silêncio das
colinas"?

Resposta: · "Teus profetas elegem o ar": as esculturas estão colocadas sobre


os muros da escadaria que conduz ao adro da igreja. Os observadores as
veem de baixo, projetadas contra o céu. Dois profetas (Abdias e Habacuque)
apontam o céu, em gesto dramático; Jonas tem a cabeça voltada para o alto.
· "o pergaminho das parábolas": cada profeta do conjunto de esculturas porta
um pergaminho com uma citação bíblica, em latim, que o identifica.
· "o silêncio das colinas": referência à topografia da cidade de Congonhas do
Campo; o santuário do Bom Jesus de Matosinhos localiza-se em uma colina
(Morro do Maranhão).

2. Comentário

Utilizando as informações obtidas e as respostas dadas às perguntas, redijam


um comentário sobre o poema de Fernando Paixão.

3. Apresentação

Ao apresentar o comentário para a classe, utilizem recursos visuais (slides ou


cartazes) para exibir imagens ilustrativas das referências do poema às
esculturas de Aleijadinho. O representante escolhido pelo grupo deve ensaiar a
apresentação para realizá-la sem se prender à leitura do comentário.

4. Painel

Em cooperação com os outros grupos, montem um painel, no mural da sala ou


de outro local da escola, com os textos dos comentários e as imagens.

63
Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810)

Embora português de nascimento, Tomás Antônio Gonzaga viveu no Brasil


parte de sua infância. De volta a Portugal, formou-se em Coimbra, mas a partir
de 1782 passou a exercer, em Vila Rica (MG), o cargo de ouvidor. Aos 40 anos
de idade, Gonzaga apaixonou-se por uma adolescente de 17 - Maria Doroteia
Joaquina de Seixas. Afamília da moça opunha-se ao namoro. Quando o poeta
já vencia a resistência dos familiares dela, foi preso (1789) e enviado para a
Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro, acusado de participar da Inconfidência
Mineira. Os últimos dezessete anos de sua vida passou-os no degredo em
Moçambique, casado com a filha de um comerciante de escravos. Gonzaga
nunca se casou com Maria Doroteia, mas esse namoro tornou-se o primeiro
mito amoroso de nossa literatura e inspirou uma de nossas mais belas obras
líricas.

Marília de Dirceu

As liras de Tomás Antônio Gonzaga popularizaram-se com o título de Marília


de Dirceu e constituem a obra poética mais importante do século XVIII e uma
das mais expressivas do Neoclassicismo em língua portuguesa.

Duas tendências coexistem nas liras de Gonzaga:

· a contenção e o equilíbrio neoclássicos, com a utilização de todos os lugares-


comuns do Arcadismo: um pastor, uma pastora, o campo, a serenidade da
paisagem primaveril etc.;

· o emocionalismo pré-romântico, na expressão pungente da crise amorosa e,


posteriormente à prisão, da crise existencial do poeta.

O sujeito lírico é o pastor Dirceu, que confessa seu amor pela pastora Marília.
Contudo, é evidente que no casal de pastores se projeta o drama amoroso
vivido por Gonzaga e Maria Doroteia. A todo momento a emoção rompe o véu
da estilização arcádica, brotando, dessa tensão, uma poesia de alta qualidade:

Eu tenho um coração maior que o mundo,

tu, formosa Marília, bem o sabes;

um coração, e basta,
onde tu mesma cabes.

A obra divide-se em duas partes (há uma terceira, cuja autenticidade é


contestada por alguns críticos):

· 1ª parte: contém os poemas escritos na época anterior à prisão de Gonzaga.


Nela, predominam as composições convencionais: o pastor Dirceu celebra a
beleza de Marília em pequenas odes anacreônticas. Em alguns poemas,
entretanto, as convenções mal disfarçam a confissão amorosa do autor: a
ansiedade de um quarentão apaixonado por uma adolescente; a necessidade
de mostrar que não é um qualquer e que merece sua amada; os projetos de
uma sossegada vida futura, rodeado de filhos e bem cuidado por sua mulher;

· 2ª parte: escrita na prisão da Ilha das Cobras. Os poemas exprimem a solidão


de Dirceu, saudoso de Marília. Nesta segunda parte, encontramos a melhor
poesia de Gonzaga. As convenções ainda estão presentes, mas o tom
confessional e o pessimismo prenunciam o emocionalismo romântico.

Vocabulário:

ode anacreôntica: pequeno poema lírico que imita os temas e o tom das
composições do poeta grego Anacreonte (segunda metade do século VI a.C.).
Caracteriza-se pela singeleza e naturalidade afetada, pela graça e pela
ingenuidade engenhosa, disfarçando elegantemente temas sensuais.

Fim do vocabulário.

64

LEITURA

Lira XXXIV (fragmento)

Minha bela Marília, tudo passa;

a sorte deste mundo é mal segura;

se vem depois dos males a ventura,

vem depois dos prazeres a desgraça.

Estão os mesmos deuses

sujeitos ao poder do ímpio fado:


Apolo já fugiu do céu brilhante,

já foi pastor de gado.

[...]

Com os anos, Marília, o gosto falta,

e se entorpece o corpo já cansado;

triste, o velho cordeiro está deitado,

e o leve filho sempre alegre salta.

A mesma formosura

é dote que só goza a mocidade:

rugam-se as faces, o cabelo alveja,

mal chega a longa idade.

Que havemos de esperar, Marília bela?

que vão passando os florescentes dias?

As glórias que vêm tarde, já vêm frias,

e pode, enfim, mudar-se a nossa estrela.

Ah! não, minha Marília,

aproveite-se o tempo, antes que faça

o estrago de roubar ao corpo as forças,

e ao semblante a graça.

GONZAGA, Tomás Antônio. In: GRÜNEWALD, José Lino. Os poetas da


Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 70.

Lira LXXXI

Nesta triste masmorra,

de um semivivo corpo sepultura,

inda, Marília, adoro

a tua formosura.
Amor na minha ideia te retrata;

busca, extremoso, que eu assim resista

à dor imensa, que me cerca e mata.

Quando em meu mal pondero,

então mais vivamente te diviso:

vejo o teu rosto e escuto

a tua voz e riso.

Movo ligeiro para o vulto os passos:

eu beijo a tíbia luz em vez de face,

e aperto sobre o peito em vão os braços.

Conheço a ilusão minha;

a violência da mágoa não suporto;

foge-me a vista e caio,

não sei se vivo ou morto.

Enternece-se Amor de estrago tanto;

reclina-me no peito, e com mão terna

me limpa os olhos do salgado pranto.

Depois que represento

por largo espaço a imagem de um defunto,

movo os membros, suspiro,

e onde estou pergunto.

Conheço então que Amor me tem consigo;

ergo a cabeça, que inda mal sustento,

e com doente voz assim lhe digo:

- Se queres ser piedoso,

procura o sítio em que Marília mora,


pinta-lhe o meu estrago,

e vê, Amor, se chora.

Se a lágrima verter a dor a arrasta,

uma delas me traze sobre as penas,

e para alívio meu só isto basta.

GONZAGA, Tomás Antônio. In: GRÜNEWALD, José Lino. Os poetas da


Inconfidência. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1989. p. 39.

Vocabulário:

Apolo: deus do Sol (na mitologia, Apolo, por ter conspirado contra Zeus, foi
exilado nas encostas do monte Ida, onde apascentou, durante um ano, o gado
do rei Laomedonte; num outro episódio, Zeus condenou-o a ser pastor das
ovelhas do rei Admeto);

estrela: destino;

ponderar: refletir;

divisar: distinguir, enxergar;

tíbio: fraco;

penas: o amor era representado como um menino alado (Cupido).

Fim do vocabulário.

65

Releitura

Escreva no caderno

As questões de 1 a 3 são relativas à "Lira XXXIV".

1. Que semelhança existe entre o tema da primeira estrofe da lira e o do soneto


de Camões que você interpretou na página 37, do capítulo 2?

Resposta: Assim como o soneto de Camões, a primeira estrofe da lira


desenvolve o tema da passagem do tempo e das mudanças que ocorrem na
vida. Em Camões, as mudanças são simbolizadas pelas estações do ano: o
inverno, representando o sofrimento; a primavera, a felicidade. Na lira, os
males e a ventura (ou a desgraça e os prazeres) alternam-se constantemente.

2. Que tema convencional do Arcadismo Gonzaga desenvolve a partir do sexto


verso da última estrofe? Transcreva o verso que traduz o nome latino desse
tema.

Resposta: Gonzaga desenvolve o tema do carpe diem. Verso: "aproveite-se o


tempo, antes que faça".

3. Voltando à comparação entre a lira de Gonzaga e o soneto de Camões, qual


deles é mais pessimista? Por quê? As questões de 4 a 7 referem-se à "Lira
LXXXI".

Resposta: O soneto de Camões é mais pessimista, pois o eu lírico termina


dizendo que o choro não se transformará mais em doce canto, ou seja, o
tempo fixou-se na infelicidade. Já o eu lírico do poema de Gonzaga, embora
reconheça a inevitabilidade da velhice, não se encerra no lamento mas se
propõe a aproveitar bem o tempo da felicidade.

4. Por que o autor grafa a palavra amor com inicial maiúscula?

Resposta: A inicial maiúscula indica a personificação do amor; o Amor é uma


entidade mitológica, o Cupido.

5. Com que artifício o Amor procura dar forças a Dirceu, para que resista à dor
da ausência de Marília?

Resposta: O Amor faz Dirceu ter uma alucinação e ver a imagem de Marília.

6. Qual é a reação de Dirceu ao tomar consciência da ilusão?

Resposta: Não suportando a "violência da mágoa", Dirceu desmaia ("foge-me a


vista e caio").

7. O que Dirceu pede ao Amor, como único meio de aliviar seu sofrimento?

Resposta: Dirceu pede ao Amor uma lágrima de Marília, como prova de que ela
o ama e sofre por ele.

8. A obra Marília de Dirceu divide-se em duas partes. A qual delas pertence


cada um dos poemas? Justifique.
Resposta: O primeiro pertence à primeira parte. Nele o poeta prende-se mais
às convenções neoclássicas do que no segundo. Pelo conteúdo, percebe-se
que foi escrito anteriormente à prisão do autor, quando ainda cortejava Maria
Doroteia. O segundo pertence à segunda parte. Dirceu está na prisão. Embora
ainda utilize algumas convenções neoclássicas (o nome Marília, a referência a
Cupido), predominam o tom confessional, o pessimismo, a expressão de
emoções fortes, como a solidão, o desespero, o delírio, a saudade.

Comentário

As convenções neoclássicas ainda estão presentes nos poemas: o


pastoralismo, o bucolismo e a personificação alegórica do amor. Entretanto, a
confissão dos problemas pessoais do autor, mal disfarçada sob o tema do
carpe diem, na "Lira XXXIV", irrompe com toda força dos sentimentos na "Lira
LXXXI". A convenção pastoril resta apenas como uma vaga sugestão, por meio
do nome da pastora "Marília", diante do pessimismo e da autopiedade,
expressos em versos como:

Nesta triste masmorra,

de um semivivo corpo sepultura

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Este capítulo foi dedicado ao estudo da produção literária do período colonial


brasileiro.

· O Quinhentismo deve ser considerado como parte da literatura de viagens


do Renascimento português. É mais apropriado falar de uma "literatura sobre o
Brasil" que de "literatura brasileira".

Principais manifestações literárias:

· a literatura informativa - cartas, relatórios, diários de navegação, tratados e


relatos históricos sobre a nova terra;

· a literatura catequética do padre José de Anchieta - peças de teatro e


poemas - ligada à tradição medieval (medida velha, teatro vicentino, concepção
teocêntrica do mundo).
· O Barroco é um estilo literário que reflete um momento conturbado da
história europeia e os ideais da Contrarreforma. As características do Barroco
opõem-se às do Classicismo renascentista: pessimismo; desequilíbrio entre
razão e emoção; jogo de contrastes, como expressão da dualidade e da
contradição; linguagem rebuscada e contorcida, repleta de figuras de
linguagem.

Duas tendências no Barroco literário:

· o cultismo - hipertrofia da dimensão sensorial do texto, pelo jogo formal e


pelo uso excessivo de figuras de linguagem;

· o conceptismo - intensa elaboração da dimensão conceitual do texto, do


pensamento engenhoso e sutil.

66

Principais autores:

· Pe. Antônio Vieira - orador sacro luso-brasileiro, de estilo conceptista.

· Gregório de Matos - autor de volumosa produção poética, que revela o


espírito barroco já na escolha de temas conflitantes: poesia religiosa (sacra),
poesia lírico-amorosa, poesia satírica. Em razão de suas sátiras e de sua
poesia erótico-pornográfica, o poeta é conhecido pelo apelido de Boca do
Inferno.

· No Neoclassicismo, da segunda metade do século XVIII, há uma


revalorização das características da arte clássica (Classicismo greco-Iatino e
renascentista), como reação aos exageros do Barroco. Os termos
Neoclassicismo e Arcadismo são utilizados frequentemente para denominar,
de modo abrangente, o conjunto das tendências da época. Em sentido
específico, no entanto, devemos distinguir essas denominações, entendendo:

· por Arcadismo a poesia convencional das "arcádias" (academias):


pastoralismo, bucolismo;

· por Neoclassicismo o movimento artístico surgido na Europa nas últimas


décadas do século XVIII (busca do equilíbrio clássico e da perfeição formal,
repúdio aos elementos decorativos, exploração de temas históricos e
mitológicos).
Na passagem para o século XIX, o Neoclassicismo evolui para o Pré-
Romantismo.

A poesia neoclássica brasileira desenvolveu-se sobretudo na região aurífera de


Minas Gerais e na nova capital da Colônia (Rio de Janeiro). Vários autores
envolveram-se no movimento político denominado Inconfidência Mineira.

Concomitantemente ao Neoclassicismo literário, desenvolveu-se um barroco


tardio na arquitetura e nas artes plásticas, conhecido como Barroco mineiro.
Seus principais representantes são, na escultura e na arquitetura, Antônio
Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e, na pintura, Manuel da Costa Ataíde. Tomás
Antônio Gonzaga, autor de Marília de Dirceu, é o principal poeta lírico. Os
poemas da segunda parte dessa obra são pré-românticos.

Atividades

Escreva no caderno

Para resolver esta questão do Enem, releia o poema de Murilo Mendes, na


página 54.

1. (Enem/MEC) Arcaísmos e termos coloquiais misturam-se nesse poema,


criando um efeito de contraste, como ocorre em:

a) A terra é mui graciosa / Tem macaco até demais

b) Salvo o devido respeito / Reforçai, Senhor, a arca

c) A gente vai passear / Ficarei muito saudoso

d) De plumagens mui vistosas / Bengala de castão de oiro

e) No chão espeta um caniço / Diamantes tem à vontade

Resposta: Alternativa a.

2. (Enem/MEC)

A feição deles é serem pardos, maneira d'avermelhados, de bons rostos e bons


narizes, benfeitos. Andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estimam
nenhuma cousa cobrir, nem mostrar suas vergonhas. E estão acerca disso com
tanta inocência como têm em mostrar o rosto.
CAMINHA, P. V. A Carta. Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br.
Acesso em: 12 ago. 2009.

67

Ao se estabelecer uma relação entre a obra de Eckhout e o trecho do texto de


Caminha, conclui-se que:

a) ambos se identificam pelas características estéticas marcantes, como


tristeza e melancolia, do movimento romântico das artes plásticas.

b) o artista, na pintura, foi fiel ao seu objeto, representando-o de maneira


realista, ao passo que o texto é apenas fantasioso.

c) a pintura e o texto têm uma característica em comum, que é representar o


habitante das terras que sofreriam processo colonizador.

d) o texto e a pintura são baseados no contraste entre a cultura europeia e a


cultura indígena.

e) há forte direcionamento religioso no texto e na pintura, uma vez que o índio


representado é objeto da catequização jesuítica.

Resposta: Alternativa c.

LEGENDA: Índio Tapuia, pintura de Albert Eckhout, 1641.

CRÉDITO: Albert Eckhout. 1641. Óleo sobre tela, 272 × 161 cm. Museu
Nacional da Dinamarca, Copenhague

Antes de responder às questões de 3 a 5, observe, a seguir, no fragmento de


um sermão do Pe. Antônio Vieira e nas pinturas dos espanhóis Juan de Valdés
Leal e Francisco de Zurbarán, a mentalidade medieval reafirmada na pregação
da Contrarreforma. A vida eterna só será conquistada por quem desprezar a
vida terrena - por quem souber morrer antes de morrer.

A morte

[...]

De quantos quebrantamentos, de quantas moléstias, de quantas sem-razões


se livra quem está já morto? O epitáfio que eu pusera a um morto destes, é
aquele verso de Davi: Inter mortuos liber. (Sl, 87,6.)
Entre os mortos livre. Livre dos cuidados do mundo, porque já está fora do
mundo. Livre de emulações e invejas, porque a ninguém faz oposição. Livre de
esperanças e temores, porque nenhuma coisa deseja. Livre de contingências e
mudanças, porque se isentou da jurisdição da fortuna. Livre dos homens, que é
a mais dificultosa liberdade, porque se descativou de si mesmo.

Livre, finalmente, de todos os pesares, moléstias e inquietações da vida,


porque já é morto.

A todos os mortos se canta piamente por costume: Requiescant in pace. Mas


esta paz e este descanso só o logram seguramente os que morreram antes de
morrer. [...]

VIEIRA, Antônio. A arte de morrer: os sermões de Quarta-Feira de Cinza de


Antônio Vieira. Organização de Alcir Pécora. São Paulo: Nova Alexandria,
1994. p. 98.

A obra do pintor sevilhano Valdés Leal (1622-1690) exemplifica o extremo a


que chegou a mentalidade contrarreformista. Esta pintura forma com uma outra
(Finis Gloriae Mundi) um conjunto intitulado Hieróglifos do fim da vida. O
título desta, em latim In Ictu Oculi, significa "num piscar de olhos".

68

LEGENDA: In Ictu Oculi (1672), de Juan de Valdés Leal.

CRÉDITO: Juan de Valdés Leal. 1672. Óleo sobre tela, 220 × 216 cm. Hospital
de la Santa Caridad, Sevilha

Nas pinturas do espanhol Francisco de Zurbarán (1598-1664), percebemos a


intensidade mística característica da Contrarreforma. O realismo da imagem e
o céu escuro e tempestuoso acentuam a dramaticidade da cena e o tema da
meditação: a vida e a morte.

LEGENDA: São Francisco em êxtase (c. 1660), de Francisco de Zurbarán.

CRÉDITO: Francisco de Zurbarán. c. 1660. Óleo sobre tela, 65 × 53 cm. Alta


Pinacoteca, Munique

LEGENDA: São Francisco meditando (c. 1632), de Francisco de Zurbarán.


CRÉDITO: Francisco de Zurbarán. c. 1632. Óleo sobre tela, 114 × 78 cm. Alta
Pinacoteca, Munique

69

3. Observe atentamente a pintura de Valdés.

a) Descreva os detalhes que chamam a sua atenção.

Resposta pessoal.

b) Faça uma interpretação dos significados alegóricos desses detalhes e


considere o título da pintura, In Ictu Oculi - "Num piscar de olhos".

Resposta possível: A figura central, o esqueleto apagando uma vela com os


dedos, tem um significado claro: a morte extinguindo a vida, inesperadamente
e sem aviso, "num piscar de olhos" (observe que a vela, que representa o
tempo, ainda é longa). A profusão de objetos espalhados confusamente pelo
chão representa os valores da vida terrena: os tecidos, as joias, a coroa, a
espada representam a classe social, a riqueza e o poder; os livros, a cultura; o
globo terrestre, pisado pela morte, a ideia de que ninguém, independentemente
de nacionalidade, raça ou classe social, pode escapar a ela.

4. Que relação há entre a pintura de Valdés e a seguinte frase de Vieira?

Mas esta paz e este descanso só o logram seguramente os que morreram


antes de morrer.

Resposta: Na pintura de Valdés, fica clara a mensagem contrarreformista de


que os bens terrenos são pura vaidade e perdem todo o valor no momento da
morte. Para Vieira, esses bens não só não têm valor, como impedem a
felicidade na outra vida. Por isso, segundo ele, devemos "morrer antes", ou
seja, abandonar os valores terrenos antes de sermos surpreendidos pela
morte.

5. Que relação podemos estabelecer entre as pinturas de Zurbarán e o texto de


Vieira?

Resposta possível: Os quadros representam São Francisco em hábito religioso


e retirado do mundo, em lugares ermos. A vida religiosa requer a renúncia da
vida mundana ("fora do mundo"), da convivência humana ("livre dos homens").
Na pintura São Francisco em êxtase, o olhar do santo está perdido na
distância, como se contemplasse a outra vida, em contraste com a caveira,
cujas cavidades oculares estão voltadas para a terra. Na pintura São
Francisco meditando, as pedras e a bilha de água representam a pobreza, a
libertação dos cuidados e das contingências da vida ("jurisdição da fortuna",
"pesares, moléstias e inquietações").

Para responder às questões de 6 a 8, leia um fragmento do sermão mais


conhecido de Vieira.

O pregar há de ser como quem semeia, e não como quem ladrilha ou azuleja.
Ordenado, mas como as estrelas: Stellae manentes in ordine suo. Todas as
estrelas estão por sua ordem; mas é ordem que faz influência, não é ordem
que faça lavor. Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas, como os pregadores
fazem o sermão em xadrez de palavras. Se de uma parte está branco, da outra
há de estar negro; se de uma parte está dia, da outra há de estar noite; se de
uma parte dizem luz, da outra hão de dizer sombra; se de uma parte dizem
desceu, da outra hão de dizer subiu. Basta que não havemos de ver num
sermão duas palavras em paz? Todas hão de estar sempre em fronteira com o
seu contrário?

Aprendamos do céu o estilo da disposição, e também o das palavras. Como


hão de ser as palavras? Como as estrelas. As estrelas são muito distintas e
muito claras. Assim há de ser o estilo da pregação: muito distinto e muito claro.
E nem por isso temais que pareça o estilo baixo: as estrelas são muito distintas
e muito claras e altíssimas [...].

Sim, Padre. Porém esse estilo de pregar não é pregar culto.

Mas fosse! Este desventurado estilo que hoje se usa, os que o querem honrar,
chamam-lhe culto; os que o condenam, chamam-lhe escuro, mas ainda lhe
fazem muita honra. O estilo culto não é escuro; é negro, e negro boçal, e muito
cerrado. É possível que somos portugueses, e havemos de ouvir um pregador
em português, e não havemos de entender o que diz?

VIEIRA, Antônio. Sermões. Rio de Janeiro: Agir, 1980. p. 103-106.

6. Para Vieira, como deve ser a linguagem do sermão: ornamentada ou


eficiente? Explique.
Resposta: Deve ser eficiente. Ele condena a ornamentação; a ordem
complicada das palavras. A linguagem deve ser compreensível (distinta) e
clara.

7. Releia o primeiro parágrafo do fragmento. Com as imagens do "xadrez de


palavras", do "ladrilhar" e do "azulejar", Vieira condena o abuso de certa figura
de linguagem, que não deixa as "palavras em paz", cada uma estando "sempre
em fronteira com o seu contrário". Que figura de linguagem é essa? Dê um
exemplo retirado desse mesmo parágrafo.

Resposta: Ele condena o abuso das antíteses nos sermões. Exemplos: branco
e negro, dia e noite, luz e sombra, descer e subir.

8. No final do fragmento, Vieira nomeia o estilo que condena.

a) Qual é esse estilo?

Resposta: É o cultismo.

b) Qual é o grande defeito desse estilo, segundo o último parágrafo?

Resposta: Além da falta de conteúdo, seu grande defeito é a obscuridade, a


falta de clareza.

Leia este soneto para responder às questões de 9 a 12.

A Jesus Cristo Nosso Senhor

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,

Da vossa alta clemência me despido;

Porque, quanto mais tenho delinquido,

Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto um pecado,

A abrandar-vos sobeja um só gemido;

Que a mesma culpa, que vos há ofendido,

Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada

Glória tal e prazer tão repentino


Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,

Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

MATOS, Gregório de. Obra poética 3ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1992, p. 69.

Vocabulário:

despido (despeço): forma regular de despedir-se: apartar-se, afastar-se;


renunciar;

delinquir: cometer delito; pecar;

empenhar: forçar, obrigar, compelir;

sobejar: ser por demais; ser mais que suficiente;

cobrada: recobrada, recuperada.

Fim do vocabulário.

70

Esse soneto de contrição é um dos mais conhecidos poemas de Gregório de


Matos e segue o modelo conceptista de Quevedo. Nas questões a seguir,
procuraremos acompanhar os meandros do raciocínio engenhoso de um
pecador que advoga sua causa, procurando convencer a Deus de que merece
o seu perdão.

9. Que justificativa utiliza o pecador para não desistir da piedade divina,


embora tenha pecado tanto?

Resposta: O pecador diz que não desiste da clemência divina porque quanto
mais ele peca mais Deus fica obrigado a perdoá-lo.

10. Traduza em outras palavras o argumento apresentado nos versos 5 e 6.

Resposta: Um pecado é bastante para provocar a ira divina, mas, em


compensação, a mínima demonstração de arrependimento, como um simples
gemido, é mais que suficiente para acalmá-la.

11. Que explicação paradoxal o sujeito lírico dá nos versos 7 e 8?


Resposta: Ele diz que a ofensa a Deus já é, por si mesma, um agrado para
conseguir o perdão.

12. O pecador exibe, nos tercetos, suas qualidades de advogado, procurando


provar os argumentos paradoxais utilizados nos quartetos. Para isso, ele cita,
em seu favor, as palavras do próprio Cristo, a quem procura convencer.

a) Qual é a afirmação de Cristo utilizada por ele?

Resposta: É a afirmação de que uma ovelha perdida (o pecador) dá grande


glória ao pastor (a Deus) quando é recuperada.

b) Qual é o argumento final do pecador?

Resposta: Deus deve perdoá-lo, se não quiser ter prejuízo em sua glória.

Leia o soneto a seguir e responda às questões de 13 a 15.

Soneto

Destes penhascos fez a natureza

o berço, em que nasci: oh quem cuidara,

Que entre penhas tão duras se criara

Uma alma terna, um peito sem dureza!

Amor, que vence os tigres, por empresa

Tomou logo render-me; ele declara

Contra o meu coração guerra tão rara,

Que não me foi bastante a fortaleza.

Por mais que eu mesmo conhecesse o dano,

A que dava ocasião minha brandura,

Nunca pude fugir ao cego engano:

Vós, que ostentais a condição mais dura,

Temei, penhas, temei; que Amor tirano,

onde há mais resistência, mais se apura.


COSTA, Cláudio Manuel da. In: RONCARI, Luiz. Literatura brasileira: dos
primeiros cronistas aos últimos românticos. São Paulo: Edusp, 2002. p. 251.

13. Qual é a causa da perplexidade do sujeito lírico, expressa na primeira


estrofe?

Resposta: A causa de sua perplexidade é a constatação da diferença entre a


ternura de sua alma e a dureza da paisagem de pedra, onde ele se criou.

14. Cláudio Manuel da Costa utilizou os elementos convencionais da paisagem


neoclássica (locus amoenus)? Justifique sua resposta.

Resposta: Não. Os elementos que compõem a paisagem neoclássica são


suaves, idealizados e artificiais, como um jardim; os elementos utilizados pelo
poeta são duros, grosseiros e realistas - a paisagem rochosa de Minas Gerais.

15. Utilizando uma convenção literária neoclássica, o poeta personifica o Amor.

a) Qual foi a decisão tomada pelo Amor em relação ao sujeito lírico?

Resposta: O Amor decidiu dominá-lo.

b) Segundo a última estrofe, a dureza da pedra seria defesa suficiente contra o


Amor? Por quê?

Resposta: Não. Porque o Amor se torna mais forte em quem mais resiste a ele.

16. (UFSCar-SP) Leia os seguintes fragmentos de Marília de Dirceu, de


Tomás Antônio Gonzaga.

TEXTO 1

Verás em cima de espaçosa mesa

Altos volumes de enredados feitos;

Ver-me-ás folhear os grandes livros,

E decidir os pleitos.

TEXTO 2

Os Pastores, que habitam este monte,

Respeitam o poder do meu cajado;

Com tal destreza toco a sanfoninha,


Que inveja me tem o próprio Alceste.

Responda.

a) Em qual dos fragmentos o sujeito lírico é caracterizado de acordo com a


convenção arcádica?

Resposta: O sujeito lírico é caracterizado de acordo com a convenção arcádica


no texto 2.

b) Explique.

Resposta: No texto 1, o sujeito lírico é caracterizado como um advogado


trabalhando nos processos jurídicos. No texto 2, utilizando as convenções do
bucolismo pastoril, ele é um pastor, cujos amigos o respeitam por sua força e o
invejam por seu talento musical quando toca a sanfoninha.

Vocabulário:

penha: rocha;

render-se: sujeitar-se, dominar, vencer;

apurar-se: esmerar-se, esforçar-se, aplicar-se.

Fim do vocabulário.

71

capítulo 4 - A poesia romântica

Neste capítulo você estudará as características do Romantismo e a poesia dos


três principais autores, representantes das três gerações: o forte apelo
nacionalista de Gonçalves Dias; o pessimismo e extremo emocionalismo de
Álvares de Azevedo; o engajamento de Castro Alves nas grandes questões
nacionais em debate na época.

LEGENDA: Johann Moritz Rugendas. Paisagem na selva tropical brasileira.


1830. Óleo sobre tela, 62 × 49,5 cm. Fundação Prussiana de Palácios e
Jardins, Berlim-Brandemburgo

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Livros

· DIAS, Gonçalves. Antologia poética. Rio de Janeiro: Agir, 1969.


· IVO, Ledo (Org.). Melhores poemas de Castro Alves. São Paulo: Global,
2000.

· SECCHIN, Antônio Carlos (Org.). Roteiro da poesia brasileira: Romantismo.


São Paulo: Global, 2007.

Vídeos

· CARLOTA Joaquina, princesa do Brasil. Direção: Carla Camurati. Brasil,


1995.

· CASTRO Alves: retrato falado do poeta. Direção: Silvio Tendler. Brasil, 1999.

Site

· ENCICLOPÉDIA ITAÚ CULTURAL DE ARTE E CULTURA BRASILEIRAS.


São Paulo, 2016. Disponível em: http://tub.im/58mt8n. Acesso em: 27 abr.
2016.

72

Atenção Professor(a), a atividade da seção "E mais...", da página 81, requer


preparação antecipada. Fim da observação.

PRIMEIRA LEITURA

Canção do exílio

Kennst du das Land, wo die Zitronen blühn,

Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn?

Kennst du es wohl?

- Dahin, dahin!

Möcht' ich... ziehn.*

(Goethe)

*Conheces o país onde florescem as laranjeiras, Ardem na escura fronde os


frutos de ouro? Conhecê-lo? Para lá, para lá quisera eu ir.

BANDEIRA, Manuel. Poesia e vida de Gonçalves Dias. São Paulo: Editora


das Américas, 1962. p. 25.

Minha terra tem palmeiras,


Onde canta o Sabiá;

As aves, que aqui gorjeiam,

Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,

Nossas várzeas têm mais flores,

Nossos bosques têm mais vida,

Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,

Que tais não encontro eu cá;

Em cismar - sozinho, à noite -

Mais prazer encontro eu lá;

Minha terra tem palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute os primores

Que não encontro por cá;

Sem qu'inda aviste as palmeiras,

Onde canta o Sabiá.

DIAS, Gonçalves. In: RONCARI, Luiz. Literatura Brasileira: dos primeiros


cronistas aos últimos românticos. São Paulo: Edusp, 2002. p. 320.

CRÉDITO: S. C. L. Darodes. Século XIX. Gravura. Fundação Biblioteca


Nacional, Rio de Janeiro
Antônio Gonçalves Dias (1823-1864)

Nascido do Maranhão, era filho de um comerciante português e de uma cafuza


(mestiça de negro com índio). Essa origem mestiça foi a causa da grande
frustração de sua vida: a família da jovem Ana Amélia não aceitou seu pedido
de casamento e, aparentemente, o poeta nunca se recuperou dessa recusa.
Seus principais poemas amorosos têm origem nesse episódio.

Estudou em Coimbra, onde produziu os poemas de seu primeiro livro,


publicado em 1846. O sucesso foi imediato, e Gonçalves Dias gozou em vida a
fama de maior poeta brasileiro.

A tuberculose levou-o mais uma vez à Europa, em busca de cura.


Desenganado, voltou ao Brasil, em 1864, mas morreu no naufrágio do navio
Ville de Boulogne, já na costa do Maranhão.

73

Em tom de conversa

A "Canção do exílio", desde sua publicação, em 1846, tornou-se um dos


poemas mais populares de nossa literatura. Contribuíram para isso o ritmo e a
musicalidade do texto, que facilitam a memorização, e o tema do amor à pátria,
expresso com uma simplicidade comovente, de grande apelo popular.

1. Leia ao lado a definição de ufanismo e discuta com seus colegas as


questões seguintes.

a) Que diferença se pode estabelecer entre patriotismo e ufanismo?

Resposta: Espera-se que os alunos concluam que o patriotismo é um


sentimento positivo, que se manifesta em atitudes construtivas e abnegadas, e
não exclui o senso crítico (ou será falso patriotismo). O ufanismo, embora
possa ser considerado uma forma de patriotismo, é um sentimento ingênuo,
parcial, que impede a visão crítica necessária à superação dos problemas do
país.

b) Em sua opinião, o sentimento expresso pelo eu lírico da "Canção do exílio"


deve ser classificado como patriotismo ou como ufanismo? Por quê?
Resposta: O amor à pátria manifesta-se no poema pela afirmação de que a
natureza é mais bela e mais rica no Brasil que na terra do exílio e, por
extensão, mais que em todos os outros países. Trata-se, portanto, de
sentimento ufanista. Deve-se, entretanto, observar que esse ufanismo é
expressão da saudade, que tende a exagerar e a idealizar as qualidades das
coisas distantes.

2. Por força de sua popularidade, a "Canção do exílio" tornou-se emblema do


amor à pátria. Um dos símbolos oficiais do Brasil reconhece esse fato, citando
parcialmente uma estrofe do poema. Procure lembrar, com seus colegas, qual
é a estrofe citada e qual o símbolo nacional que faz a citação.

Resposta: Parte da segunda estrofe é citada no "Hino Nacional Brasileiro":


"[Teus risonhos, lindos campos] têm mais flores, / Nossos bosques têm mais
vida, / Nossa vida [no teu seio] mais amores".

Vocabulário:

ufanismo: orgulho exagerado pelas riquezas e belezas naturais do país;


patriotismo excessivo. Substantivo criado em alusão ao livro Por que me
ufano de meu país (1900), de Afonso Celso.

Fim do vocabulário.

Símbolos nacionais

· Bandeira Nacional

· Hino Nacional

· Armas Nacionais

· Selo Nacional

Releitura

Escreva no caderno

1. No poema de Gonçalves Dias, a distância e a saudade provocam a distorção


da imagem da terra natal, cuja natureza é minuciosamente comparada com a
da terra do exílio.

a) A oposição e a distância são marcadas por dois advérbios. Quais são eles?
A que lugar cada um se refere?
Resposta: Os advérbios são cá (no 3º verso, aqui) e lá. O primeiro refere-se à
terra do exílio; o segundo, à terra natal.

b) Esses advérbios têm grande destaque no poema. Que recursos o autor


utilizou para destacá-los?

Resposta: A repetição (lá: quatro vezes; cá: duas vezes, além do sinônimo
aqui, do 3º verso) e o posicionamento em final de verso, rimando entre si e
com o substantivo Sabiá.

c) Entre os diversos elementos da natureza, dois se destacam e se tornam


símbolos da pátria distante. Quais são eles?

Resposta: O Sabiá e a palmeira.

2. Os críticos literários atribuem a extraordinária beleza da canção à


simplicidade dos recursos expressivos utilizados. Analisemos alguns deles:

a) Métrica.

· Faça a escansão dos dois primeiros versos. Identifique as sílabas tônicas.

Resposta: Mi / nha / te / rra / tem / pal / mei / ras; On / de / can / ta o / Sa / bi /


á.

· Os versos redondilhos dão ao poema um ritmo bem marcado e de gosto


popular. Procure lembrar uma quadrinha popular ou infantil que tenha a mesma
métrica e o mesmo ritmo dos versos da "Canção do exílio". Faça a escansão
de um verso.

Resposta: Exemplo: Ba / ta / ti / nha / quan / do / na / sce (observar que o


verso tem o mesmo ritmo binário da "Canção do exílio").

b) Rimas: alternância de versos rimados (versos ímpares) com versos brancos


(versos pares). Quais são as três palavras que se repetem em posição de rima,
ao longo de quase todo o poema?

Resposta: São as palavras Sabiá, cá e lá.

c) Paralelismo: um terço da canção compõe-se de versos repetidos.

· Identifique os versos repetidos. Dois deles funcionam como um refrão. Quais


são?
Resposta: "Minha terra tem palmeiras, / Onde canta o Sabiá"

· Em seguida, leia o poema, pulando todas as repetições. Em sua opinião, o


poema manteve sua força expressiva nessa leitura? Justifique sua resposta.

Resposta: Espera-se que a resposta do(a) aluno(a) seja negativa. Com a


supressão dos versos repetidos, o poema perde grande parte da ênfase dada à
comparação entre os elementos da natureza brasileira e estrangeira. As
dimensões melódica e rítmica do poema também são prejudicadas.

Vocabulário:

paralelismo: repetição integral ou modificada de versos, ou de estruturas


sintáticas, ao longo de um texto.

Fim do vocabulário.

74

Comentário

Criar uma expressão poética nacional era uma das maiores preocupações dos
primeiros autores românticos brasileiros. Como veremos neste capítulo, essa
preocupação ganhariaforma sobretudo no indianismo e na utilização da "cor
local", isto é, da caracterização de um ambiente tipicamente brasileiro por meio
da descrição da natureza.

Segundo Manuel Bandeira, a "Canção do exílio" foi o primeiro grande momento


de inspiração do poeta Gonçalves Dias: "Ainda que não tivesse escrito mais
nada, ficaria, por ela, o seu nome gravado para sempre no coração e na
memória da sua gente". De fato, é um dos poemas mais conhecidos
popularmente no Brasil. É incontável o número de paródias e de apropriações
temáticas desse poema feitas por poetas dos séculos XIX e XX, sobretudo
pelos poetas do Modernismo.

E MAIS...

Atenção Professor(a), é importante que os alunos percebam o caráter


emblemático da "Canção do exílio", explorando a intertextualidade que vem
mantendo com obras de autores como Casimiro de Abreu, Juó Bananére,
Oswald de Andrade, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Mario
Quintana, Ferreira Gullar, José Paulo Paes, Cacaso, Affonso Romano de
Sant'Anna, Chico Buarque, Tom Jobim, Taiguara, e tantos outros. Fim da
observação.

Pesquisa

A "Canção do exílio" inspirou numerosos poemas e músicas, desde a sua


criação até os dias de hoje. Algumas dessas obras são releituras no mesmo
tom dos versos de Gonçalves Dias, outras são paródias bem-humoradas e
críticas.

Pesquise em livros e na internet para encontrar algumas dessas recriações.


Escolha a que achar mais interessante para ler em classe. Procure saber
também em que época foi escrita e em que contexto, para explicar aos colegas
suas diferenças e semelhanças com relação ao poema original.

NAVEGAR É PRECISO

A canção "Sabiá", de Chico Buarque e Tom Jobim, venceu o Festival


Internacional da Canção de 1968. A letra dessa música recria, de maneira
crítica, o tema da "Canção do exílio", de Gonçalves Dias: "Vou deitar à sombra
de uma palmeira que já não há".

Procure, na internet, versões interpretadas pelos grupos MPB4 e Quarteto em


Cy e pelo próprio Jobim.

O ROMANTISMO

No capítulo anteriorvimos que muitos autores abandonaram parcialmente as


convenções do Arcadismo e imprimiram em suas obras um tom mais pessoal e
emocional. Essa tendência pré-romântica mostra que o Romantismo não surgiu
repentinamente, no início do século XIX. Suas origens estão ligadas às
grandes transformações políticas, sociais e ideológicas ocorridas na Europa ao
longo do século XVIII.

O Classicismo, em sentido amplo, era a arte do mundo aristocrático; o


Romantismo, lentamente gestado no século XVIII e amadurecido no século
XIX, foi a primeira manifestação artística do mundo burguês.

Acontecimentos marcantes
· Revolução Gloriosa (Inglaterra, 1688-1689) e instituição da Declaração de
Direitos (Bill of Rights, 1689), que limitava os poderes do rei, submetendo-os
ao Parlamento.

· Revolução Industrial (Inglaterra, a partir de 1750), que se alastraria pela


Europa ao longo do século XIX. A substituição da produção artesanal pela
industrial teve como consequência, além daformação de uma nova classe - o
proletariado -, a radical mudança do estilo de vida nos núcleos urbanos.

· Revolução Francesa (1789-1799), que representa atomada do poder político


pela burguesia. Os ideais revolucionários de liberdade espalharam-se pela
Europa e pelas Américas, inspirando outros movimentos.

75

LEITURA

Victor Hugo é um dos maiores autores do Romantismo francês. O texto a


seguir é um fragmento do prefácio escrito para a edição de Cromwell, drama
publicado em 1827. Leia-o atentamente e responda às questões.

Digamo-lo, pois, ousadamente. Chegou o tempo disso, e seria estranho que


nesta época, a liberdade, como a luz, penetrasse por toda a parte, exceto no
que há de mais nativamente livre no mundo, nas coisas do pensamento.
Destruamos as teorias, as poéticas e os sistemas. Derrubemos este velho
gesso que mascara a fachada da arte! Não há regras nem modelos; ou antes,
não há outras regras senão as leis gerais da natureza que plainam sobre toda
a arte, e as leis especiais que, para cada composição, resultam das condições
de existência próprias para cada assunto. Umas são eternas, interiores, e
permanecem; as outras, variáveis, exteriores, e não servem senão uma vez. As
primeiras são o madeiramento que sustenta a casa; as segundas, os andaimes
que servem para construí-la e que se refazem para cada edifício. [...] O gênio,
que adivinha antes de aprender, extrai, para cada obra, as primeiras da ordem
geral das coisas, as segundas do conjunto isolado do assunto que trata. Não à
maneira do químico que acende seu fogareiro, sopra seu fogo, esquenta seu
cadinho, analisa e destrói; mas à maneira da abelha, que voa com suas asas
de ouro, pousa sobre cada flor, e tira o mel, sem que o cálice nada perca de
seu brilho, a corola nada de seu perfume.
O poeta, insistamos neste ponto, não deve, pois, pedir conselho senão à
natureza, à verdade, e à inspiração, que é também uma verdade e uma
natureza. Diz Lope de Vega*:

* Lope de Vega (1562-1635) - dramaturgo barroco espanhol. Tradução dos


versos de Lope de Vega: "Quando tenho de escrever uma comédia / Tranco os
preceitos (as regras) com seis chaves".

Cuando he de escribir una comedia,

Encierro los preceptos con seis llaves.

HUGO, Victor. Do grotesco e do sublime: tradução do prefácio de Cromwell.


Trad. Celia Berretini. São Paulo: Perspectiva, [19--]. p. 56-57.

Releitura

Escreva no caderno

1. Considerando a relação entre o Romantismo e a história europeia dos


séculos XVIII e XIX, explique a frase "[...] seria estranho que nesta época, a
liberdade, como a luz, penetrasse por toda a parte, exceto no que há de mais
nativamente livre no mundo, nas coisas do pensamento".

Resposta: Com as revoluções do século XVIII, a burguesia substituiu a


aristocracia no poder político e tornou-se a classe hegemônica. O liberalismo
burguês passou a ser a ideologia dominante, penetrando em todos os setores
da vida social e política. Victor Hugo afirma que seria contraditório se as
"coisas do pensamento" - a literatura - não fossem também penetradas pelo
ideal burguês de liberdade. O Romantismo seria a realização desse ideal.

2. Quais são as duas características do Classicismo contra as quais um autor


romântico deve se insurgir?

Resposta: As duas características são a obediência às regras e a imitação dos


modelos clássicos.

3. Mesmo assim, Victor Hugo reconhece dois tipos de leis que devem presidir a
criação artística.

a) Quais são essas leis?


Resposta: São as leis gerais da natureza e as leis especiais para cada
composição.

b) A que se referem, no texto, os pronomes indefinidos umas/outras e os


numerais ordinais primeiras/segundas?

Resposta: Umas e primeiras referem-se às leis gerais da natureza. Outras e


segundas, às leis especiais para cada composição.

76

Características do Romantismo

A afirmação de Victor Hugo de que, em sua época, a liberdade, como a luz,


penetrava portoda a parte, traduz a crença do século XIX nas doutrinas liberais
da burguesia: o liberalismo econômico (livre concorrência entre os indivíduos,
sem a intervenção do Estado) e o liberalismo político (oportunidades iguais
para todos, independentemente da classe social; garantia dos direitos do
indivíduo em relação ao Estado). Refletindo essas doutrinas, o Romantismo
proclama a liberdade de criação e de expressão: "Não há regras nem
modelos", diz Victor Hugo.

Vejamos as principais características e tendências do Romantismo:

· Subjetivismo, emocionalismo, confessionalismo - Os autores clássicos


procuram refletir sobre os sentimentos (generalização, idealização,
racionalização) ou exprimi-los indiretamente, recorrendo às alegorias
mitológicas; os românticos, ao contrário, buscam a expressão direta das
emoções. Camões diz "Amor é..."; os românticos, "eu amo...". Rompendo o
decoro clássico, pretendem que a poesia seja a confissão sincera de estados
de alma do poeta.

· Pessimismo - O individualismo e o egocentrismo adquirem traços doentios


de inadaptação. O spleen (melancolia) do poeta inglês Lord Byron fez escola
em todas as literaturas, sobretudo na segunda geração romântica.

· Escapismo - O tédio de viver, também chamado de "mal do século", conduz


às diversas formas de fuga da realidade - no tempo e no espaço, no culto da
imaginação (fantasia, sonho, delírio) e mesmo no desejo da morte.
Mas o Romantismo não se limitou a essas características negativas e
escapistas. Há também posições afirmativas e mesmo engajadas nas grandes
questões sociais e políticas do século XIX:

· Nacionalismo, historicismo, indianismo - Exaltação dos valores e dos


heróis nacionais.

· Valorização da cultura popular - o folclore - Além das pesquisas e do


trabalho de registro das narrativas orais e das canções populares, os autores
buscam nessas fontes inspiração para suas próprias obras.

· Crítica social - Muitos autores românticos assumem uma posição combativa,


denunciando as injustiças sociais. Esse engajamento ocorre principalmente na
última fase do Romantismo.

As gerações românticas

No Brasil, o Romantismo foi a escola literária do Império e reflete, de modo


direto ou indireto, as expectativas, os projetos, as contradições e os conflitos
que envolveram as elites brasileiras nos processos de consolidação da
independência e de construção do novo país. Isso explica certas características
marcantes que, embora influenciadas pelo Romantismo europeu, aqui
ganharam feição especial.

Os historiadores apontam uma nítida evolução representada por três gerações


de autores, cada uma marcada pela predominância de certos traços e temas.

Primeira geração

Os primeiros autores românticos ainda conservam características clássicas,


sobretudo no que se refere às regras da criação literária. Os temas que
marcam essa fase estão ligados ao nacionalismo: o romance histórico e o
medievalismo.

No Brasil, cujo Romantismo se iniciou apenas na década de 1830, ou seja,


pouco mais de uma década após a proclamação da independência, o
nacionalismo é efetivamente o tema predominante e se expressa sobretudo
pela descrição da natureza (cor local) e pelo indianismo.

Apenas na década de 1840 surgiria o primeiro grande poeta do nosso


Romantismo: Antônio Gonçalves Dias.
Vocabulário:

cor local: conjunto de traços característicos que evocam um lugar. Na


literatura romântica, a preocupação com a cor local leva à descrição minuciosa,
idealizada e frequentemente empolgada da natureza brasileira, em reação a
convenções clássicas, como o locus amoenus (veja p. 61), que evocava a
natureza europeia;

indianismo: tendência literária tipicamente romântica que idealiza a figura do


indígena como elemento formador do povo brasileiro. O indianismo pode ser
entendido como um sucedâneo do medievalismo romântico europeu: na falta
de uma Idade Média, os autores inventaram, no indígena e em sua cultura, as
origens heroicas e míticas da nação. Assim, muitas vezes, esse "homem
natural" é caracterizado como um verdadeiro cavaleiro medieval, forte,
destemido, íntegro e, sobretudo, nobre nas atitudes e nos sentimentos.

Fim do vocabulário.

77

LEITURA

Observe as paisagens brasileiras pintadas no início do Romantismo no Brasil.

LEGENDA: Grande cascata da Tijuca (1833), de Araújo Porto-Alegre.

CRÉDITO: Manuel de Araújo Porto-Alegre. 1833. Óleo sobre tela, 65 × 81,2


cm. Coleção particular

CRÉDITO: Ferdinand Krumholz. 1848. Óleo sobre tela, 128,5 × 98 cm. Museu
Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro

Manuel José de Araújo Porto-Alegre (1806-1879)

Um dos iniciadores do Romantismo brasileiro, era pintor, arquiteto, poeta e


jornalista.

LEGENDA: Mata reduzida a carvão (1843), de Félix-Émile Taunay.

CRÉDITO: Félix Taunay. 1843. Óleo sobre tela, 134 × 195 cm. Museu Nacional
de Belas Artes, Rio de Janeiro

CRÉDITO: Nicolas-Antoine Taunay. 1811. Óleo sobre tela, 44,5 × 36,5 cm.
Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
Félix-Émile Taunay (1795-1881)

Pintor e poeta francês, veio para o Brasil com seu pai, membro da Missão
Artística Francesa. Foi professor e diretor da Academia Imperial de Belas Artes.
Era pai do escritor Alfredo d'Escragnolle Taunay, autor do romance Inocência.

78

Em tom de conversa

1. Descreva com seus colegas as duas pinturas, ressaltando a disposição dos


elementos na composição de cada uma.

Resposta: Pintura de Araújo Porto-Alegre: A composição é feita em vários


blocos retangulares, sendo o maior o retângulo branco, central, da cachoeira.
Predominam os tons escuros e alaranjados, que circundam e ressaltam o
branco da cascata e lhe conferem uma grande luminosidade. Proveniente do
céu, na parte superior, a luz se difunde na diagonal da tela, da direita para a
esquerda, conduzindo o olhar pelos reflexos de vermelho e laranja até os
grandes blocos de pedra. Na base da tela, diluídas na sombra da contraluz, há
algumas pequenas figuras humanas. Pintura de Taunay: A tela é nitidamente
dividida em duas partes - à esquerda, a floresta "reduzida a carvão"; à direita, a
floresta luxuriante, em variados tons de verde. Os tons ocre da árvore central,
no primeiro plano, fazem a transição entre os dois lados da pintura, num
processo "narrativo", como se anunciassem o que pode vir a acontecer com a
vegetação do lado direito. Observe-se também o processo narrativo que se
estabelece na relação entre a árvore isolada na parte esquerda e a fumaça,
que tem praticamente o mesmo formato, representando simbolicamente o
espectro das árvores destruídas. Na base da tela, no centro e à direita, há
diminutas figuras humanas e algumas cascatas.

2. Comente a relação entre as figuras humanas e a paisagem nas duas


pinturas. Que efeitos essa relação provoca no observador?

Resposta: As figuras humanas, nas duas pinturas, são diminutas e


praticamente se perdem na paisagem. Essa pequenez acentua a impressão de
grandiosidade dos elementos da natureza - as rochas, as cascatas, as árvores
no primeiro e a floresta no segundo.
Atenção Professor(a), comente com os alunos que, na pintura de Porto-Alegre,
as figuras humanas, provavelmente naturalistas em estudos de campo, estão
imersas na sombra, na parte inferior esquerda, ou seja, estão praticamente
"apagadas" no conjunto da paisagem. Na pintura de Taunay, por sua vez, as
figuras humanas reduzidas acrescentam um comentário irônico à tela, pois,
sem dúvida, esses seres tão pequenos são os causadores da destruição. Fim
da observação.

3. Explique em que sentido a pintura de Félix-Émile Taunay ultrapassa as


motivações nacionalistas dos autores da primeira geração romântica.

Resposta: A tela não se limita a idealizar a exuberante natureza tropical, de


modo ufanista, mas apresenta uma visão crítica sobre a ação do ser humano,
que, por meio da técnica da coivara (derrubada e queima da mata para a
agricultura), destrói as florestas. Pode-se falar de uma temática ecológica avant
la lettre (à frente do seu tempo). A pintura possui uma clareza quase didática
na apresentação desse tema.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Pode-se até mesmo dizer que a mensagem dada pela tela [Mata reduzida a
carvão, de Félix-Émile Taunay,] adquire, de certa maneira, tons "ecológicos".
O Catálogo da Exposição de 1843, em que ela aparece pela primeira vez,
alerta sobre os perigos dessa técnica na natureza: "A desaparição dos mais
belos exemplares do reino vegetal nos arredores da cidade ameaça a esta,
segundo cálculos irrefragáveis, com diminuição das águas-vivas e elevação do
grau médio de calor, dois males reciprocamente ativos".

DIAS, Elaine. Arte e academia entre política e natureza (1816 a 1857). In:
BARCINSKI, Fabiana Werneck (Org.). Sobre a arte brasileira: da Pré-história
aos anos 1960. São Paulo: WMF Martins Fontes: Sesc-SP, 2014. p. 170.

Vocabulário:

irrefragável: irrecusável, incontestável.

Fim do vocabulário.

Gonçalves Dias
O maranhense Antônio Gonçalves Dias não foi superado pelos poetas das
gerações seguintes e, ainda hoje, é considerado um dos maiores poetas de
nossa literatura. Seu primeiro livro (Primeiros cantos, 1846) realiza, em nível
superior, as propostas temáticas da primeira geração: o nacionalismo, o
indianismo, a cor local.

Os estudiosos destacam a versatilidade de versificação do poeta e a


sonoridade e variedade de ritmos de sua poesia.

O indianismo de Gonçalves Dias estabelece as características básicas dessa


tendência literária. O índio é o "homem natural", o "bom selvagem", não
corrompido pela civilização, vivendo em perfeita harmonia com a natureza, e,
ao mesmo tempo, uma encarnação do ideal cavalheiresco do Romantismo
medievalista europeu. Espírito nobre, seus valores são sobretudo a honra, a
honestidade, a franqueza, a lealdade. Às forças morais da coragem e do senso
do dever alia-se uma força física imbatível.

Principais obras de Gonçalves Dias

· Poemas indianistas: "O canto do Piaga", "I-Juca Pirama", "Marabá", "Leito de


folhas verdes" e "Canção do tamoio".

· Poema épico: "Os timbiras", sua obra mais ambiciosa, permaneceu inacabada
(o autor publicou apenas os quatro primeiros cantos; os outros, se foram
escritos, perderam-se).

· Poesia lírica: "Seus olhos", "Olhos verdes", "Ainda uma vez, Adeus!", "Como!
és tu?" e "Se se morre de amor" contam-se entre as mais belas realizações do
Romantismo em língua portuguesa.

NAVEGAR É PRECISO

A Missão Artística Francesa

Em 1816, um grupo de artistas e artífices franceses instalou-se no Brasil para


fundar a primeira Academia Real de Arte. O pintor Félix-Émile Taunay
acompanhou seu pai, Nicolas Taunay, membro da missão e, mais tarde, o
substituiu na Academia. Araújo Porto-Alegre foi aluno da Academia. A
presença e a ação pedagógica desses artistas deu grande impulso às artes
plásticas no Brasil.
Faça uma pesquisa na internet para conhecer os principais artistas da Missão
Francesa e suas principais obras.

· Missão Artística Francesa. Disponível em: http://tub.im/uxd3go. Acesso em:


27 abr. 2016.

· Debret - Biblioteca Nacional. Disponível em: http://tub.im/wmzv8o. Acesso


em: 27 abr. 2016.

· Documentário sobre Debret. Disponível em: http://tub.im/yusyz2. Acesso


em: 27 abr. 2016.

LEITURA

O poema "Leito de folhas verdes", publicado em Últimos cantos, em 1849, é


considerado um dos melhores poemas indianistas de Gonçalves Dias. Em sua
leitura, observe a delicadeza dos sentimentos amorosos da moça indígena, que
espera inutilmente o namorado Jatir para o encontro amoroso. Depois
responda às questões.

79

Leito de folhas verdes

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo

À voz do meu amor moves teus passos?

Da noite a viração, movendo as folhas,

Já nos cimos do bosque rumoreja.

Eu sob a copa da mangueira altiva

Nosso leito gentil cobri zelosa

Com mimoso tapiz de folhas brandas,

Onde o frouxo luar brinca entre flores.

Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,

Já solta o bogari mais doce aroma!

Como prece de amor, como estas preces,

No silêncio da noite o bosque exala.


Brilha a lua no céu, brilham estrelas,

Correm perfumes no correr da brisa,

A cujo influxo mágico respira-se

Um quebranto de amor, melhor que a vida!

A flor que desabrocha ao romper d'alva

Um só giro do sol, não mais, vegeta:

Eu sou aquela flor que espero ainda

Doce raio do sol que me dê vida.

Sejam vales ou montes, lago ou terra,

Onde quer que tu vás, ou dia ou noite,

Vai seguindo após ti meu pensamento;

Outro amor nunca tive: és meu, sou tua!

Meus olhos outros olhos nunca viram,

Não sentiram meus lábios outros lábios,

Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas

A arazoia na cinta me apertaram.

Do tamarindo a flor jaz entreaberta,

Já solta o bogari mais doce aroma;

Também meu coração, como estas flores,

Melhor perfume ao pé da noite exala!

Não me escutas, Jatir! nem tardo acodes

À voz do meu amor, que em vão te chama!

Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil

A brisa da manhã sacuda as folhas!

DIAS, Gonçalves. Últimos cantos. In: GRANDES poetas românticos do Brasil.


5ª ed. Prefácio e notas biográficas de Antônio Soares Amora. São Paulo:
Discubra - Distribuidora Cultural Brasileira Ltda., 1978. t. I. p. 126.
Vocabulário:

viração: vento brando e fresco que, à tarde, sopra do mar para a terra;

tapiz: tapete;

exalar: soltar perfume;

quebranto: desfalecimento, fraqueza, provocado, segundo a crendice popular,


pelo olhar de certas pessoas;

um só giro do sol: um só dia;

arazoia: saiote, feito de penas, usado por mulheres indígenas.

Fim do vocabulário.

Releitura

Escreva no caderno

1. O poema exprime a expectativa e a decepção da jovem indígena, evoluindo


em três momentos nitidamente demarcados. Releia-o e divida-o em três
segmentos consecutivos, conforme o esquema a seguir. Que estrofes formam
cada segmento?

1° segmento: Preparativos para o encontro, ao anoitecer.

Resposta: 1º segmento: estrofes de 1 a 3.

2° segmento: A longa espera, no correr da noite.

Resposta: 2º segmento: estrofes de 4 a 7.

3° segmento: A decepção, ao amanhecer.

Resposta: 3º segmento: estrofes 8 e 9.

2. No Romantismo a paisagem não é apenas um cenário convencional, como


no Arcadismo.

a) Qual é a função expressiva da natureza no poema de Gonçalves Dias?

Resposta: A natureza exprime as variações dos sentimentos da jovem


indígena. Essa forma indireta dá um tom delicado e sutil à expressão dos fortes
sentimentos de expectativa e de decepção amorosa.
b) Quais são os elementos da natureza que participam da preparação do
encontro amoroso, no primeiro segmento do poema?

Resposta: A viração, o luar, as folhas verdes com que se fez o leito do amor e,
sobretudo, as flores, que exalam o aroma como prece de amor.

c) Na longa espera, durante toda a noite, "respira-se um quebranto de amor",


ao "influxo mágico" dos "perfumes no correr da brisa". A que se compara a
moça nessa longa espera? A que se refere a imagem "doce raio do sol" da
quinta estrofe?

Resposta: Ela se compara à flor que, desabrochando de manhã, vive apenas


um dia, mas que espera ainda o sol para desabrochar. A imagem refere-se ao
namorado Jatir, que ela espera.

d) Ao amanhecer, a flor do tamarindo jaz entreaberta; foram inúteis os


perfumes das flores e do coração da amante, pois Jatir não compareceu ao
encontro amoroso. Qual é o pedido da moça para que a natureza participe de
sua desilusão?

Resposta: Ela pede que a brisa da manhã desmanche o leito de folhas


inutilmente preparado para o amor.

80

Segunda geração

Chamada de Ultrarromantismo, caracteriza-se pelo exagero do subjetivismo e


do emocionalismo: o tédio, a melancolia (spleen), o devaneio, o sonho, o
desejo da morte - um mal-estar profundo, que reflete a impossibilidade de viver
dignamente em um mundo corrompido pelos valores burgueses. Essa atitude
pessimista generalizada - muitas vezes piegas; outras, francamente cínica - foi
considerada o mal do século pelo ultrarromântico francês Alfred de Musset,
cuja obra, com a do poeta inglês Lord Byron, exerceu grande influência sobre
os autores dessa geração, também chamada de "geração byroniana".

No Brasil, os principais autores foram três jovens poetas que morreram muito
prematuramente: Junqueira Freire, Casimiro de Abreu e Álvares de Azevedo.

PARA LER NA REDE


"I-Juca Pirama"

Publicado em 1851 no livro Últimos cantos, esse é o mais famoso e o mais


importante poema indianista de Gonçalves Dias. Composto em dez pequenos
cantos, nele o autor obtém o máximo de seus recursos expressivos, sobretudo
pela força das imagens e pela riqueza e variedade dos ritmos. A concepção
épico-dramática do poema nos oferece todos os elementos do indianismo:
lutas, coragem, defesa da honra, merecimentos pelo valor pessoal, enfim, o
heroísmo cavalheiresco revivido no selvagem idealizado. "I-Juca Pirama",
segundo o autor, significa "o que há de ser morto, e que é digno de ser morto".

O poema, em versão pdf, pode ser baixado de diversos sites da internet:

· http://tub.im/y5jsrv (acesso em: 27 abr. 2016);

· http://tub.im/s4qept (acesso em: 27 abr. 2016).

Álvares de Azevedo

Manuel Antônio Álvares de Azevedo produziu a literatura mais consistente do


Ultrarromantismo, embora tenha tido, como seus colegas de geração, uma vida
muito curta.

Obras de Álvares de Azevedo

Toda a sua obra, escrita entre 1848 e 1852, foi publicada postumamente.

· Poesia: Lira dos vinte anos, Poema do frade, Conde Lopo, Livro de Fra
Gonticário.

· Contos: Noite na taverna.

· Teatro: Macário.

Lira dos vinte anos

A principal obra de Álvares de Azevedo reflete em seu título uma característica


comum atoda a geração ultrarromântica: ajuventude e a imaturidade do autor.
Ele mesmo afirma no prefácio: "São os primeiros cantos de um pobre poeta.
Desculpai-os. As primeiras vozes do sabiá não têm a doçura dos seus cânticos
de amor".

O livro divide-se em três partes. Na primeira e na terceira encontramos o


sentimentalismo típico do Ultrarromantismo: misturam-se os temas do amor e
da morte; a frustração amorosa é sublimada no sonho e na fantasia; o amor
oscila entre a idealização de uma virgem pura, etérea, e uma ardente
sensualidade. A segunda parte contrapõe-se às outras duas, substituindo o
escapismo visionário pelo realismo irônico - " o poeta acorda na terra",
conforme suas próprias palavras no prefácio. A poesia ocupa-se agora das
pequenas coisas da vida cotidiana: o quarto, o leito, o charuto..., exprimindo o
tédio e a melancolia (spleen) tipicamente byronianos. Alguns poemas são
paródias da poesia ultrarromântica.

CRÉDITO: Alfred Martinet. Séc. XIX. Gravura. Fundação Biblioteca Nacional,


Rio de Janeiro

Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852)

Poeta paulistano, passou a infância no Rio de Janeiro, mas retornou para São
Paulo para fazer o curso de Direito. Vitimado pela tuberculose e por um tumor
na fossa ilíaca, causado por uma queda de cavalo, faleceu aos 21 anos de
idade.

81

LEITURA

Meu sonho

Eu

Cavaleiro das armas escuras,

Onde vais pelas trevas impuras

Com a espada sanguenta na mão?

Por que brilham teus olhos ardentes

E gemidos nos lábios frementes

Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?

Do corcel te debruças no dorso...

E galopas do vale através...

Oh! da estrada acordando as poeiras


Não escutas gritar as caveiras

E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,

Cavaleiro das armas escuras,

Macilento qual morto na tumba?...

Tu escutas... Na longa montanha

Um tropel teu galope acompanha?

E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? - que mistério,

Quem te força da morte no império

Pela noite assombrada a vagar?

O fantasma

Sou o sonho de tua esperança,

Tua febre que nunca descansa,

O delírio que te há de matar!...

AZEVEDO, Álvares de. Lira dos vinte anos. Rio de Janeiro: Garnier, 1994. p.
153.

Releitura

Escreva no caderno

1. Frequentemente o individualismo romântico torna-se um egocentrismo


doentio, que provoca a recusa e a fuga da realidade. Em qual dimensão da
vivência do sujeito lírico ocorre o diálogo com o misterioso cavaleiro?

Resposta: Ocorre na dimensão do sonho, da fantasia ou do delírio.

2. O que a figura do cavaleiro representa?

Resposta: Representa a morte, motivada pelos sonhos de esperança e pelos


delírios do sujeito lírico.
3. No Romantismo, a descrição da natureza tem função expressiva, ecoando
os estados de espírito do sujeito lírico: a noite, os ventos, a tempestade
refletem as angústias, o desespero, o medo, o terror; o luar emoldura a
melancolia, a saudade, os suspiros amorosos; os lugares ermos, as
montanhas, os vales, os desertos são os ambientes da solidão e da
desesperança.

a) Faça uma lista das expressões que descrevem o ambiente fantasmagórico


do poema.

Resposta: "trevas impuras", "galopas do vale através", "da estrada acordando


as poeiras", "gritar as caveiras", "morder-te o fantasma nos pés?", "longa
montanha", "noite assombrada" etc.

b) Que sentimentos esse ambiente reflete?

Resposta: Reflete os sentimentos pessimistas do sujeito lírico: solidão,


remorso, desespero de viver, fatalismo.

4. Como você estudou, o livro Lira dos vinte anos divide-se em três partes.
Identifique, por hipótese, a parte do livro a que o poema deve pertencer.
Fundamente sua hipótese.

Resposta: Hipótese: deve pertencer à primeira ou à terceira parte


(efetivamente, pertence à terceira parte). Características do poema que
fundamentam a hipótese: o tom sombrio, o pessimismo, o fantasma, os temas
do sonho, do delírio, da desesperança, da morte.

E MAIS...

Leitura

Álvares de Azevedo escreveu um livro de contos macabros, Noite na taverna.


Reunidos em uma taverna, cinco amigos narram suas estranhas aventuras
amorosas. Cada conto constitui uma dessas narrações; o primeiro e o último
podem se considerados como uma espécie de moldura que situa os outros
num mesmo contexto narrativo-ficcional.

Combine a leitura com seu grupo, distribuindo entre os membros os sete


contos que compõem a obra. Preparem, posteriormente, uma apresentação
para a turma, desenvolvendo os seguintes tópicos:
· estrutura do livro - o espaço, o tempo, os narradores (primeiro conto);

· resumo do enredo, o narrador, os personagens (do segundo ao quinto conto);

· resumo do enredo (o desenlace surpreendente), o narrador, o espaço, o


tempo (sexto e sétimo contos).

A obra está disponível em pdf em alguns acervos na internet, como a Biblioteca


Virtual do Estudante Brasileiro, a Fundação Biblioteca Nacional e o portal
Domínio Público, do MEC.

82

Terceira geração

É caracterizada principalmente pelo envolvimento dos autores nas questões


sociais e políticas da época. Esses temas serão também uma das marcas do
Realismo e do Naturalismo da segunda metade do século XIX. Mas,
diferentemente dessas escolas, a terceira geração romântica manteve o
sentimentalismo e o tom emocional exaltado, por vezes grandiloquente,
característicos do Romantismo. A obra do francês Victor Hugo foi a que maior
influência exerceu sobre os autores dessa geração.

No Brasil, os poetas das décadas de 1860 e 1870 engajam sua poesia nas
polêmicas campanhas da época: a campanha republicana e, sobretudo, a
campanha abolicionista. O grande tema dessa geração é a liberdade. A águia e
o condor são os símbolos de seus ideais - o alto voo da imaginação a serviço
da liberdade. Por isso ela é chamada "condoreirismo". O tom exaltado e
retórico de sua poesia é próprio para a leitura em público, para emocionar e
convencer.

Castro Alves

Autor de uma das obras mais importantes do nosso Romantismo, tornou-se


também um dos mais populares e dos mais queridos poetas do Brasil.

Três temas básicos - a natureza, o amor e a problemática social - dominam o


conjunto de sua produção:

· O gosto pelos passeios a cavalo e pelas caçadas nas matas reflete-se na


poesia descritiva da natureza.
· As aventuras amorosas, algumas imaginárias, outras verdadeiras - como com
Idalina, sua primeira amante, ou com Eugênia Câmara, atriz portuguesa,
grande paixão do poeta -, inspiraram o lirismo de fortes tons eróticos.

· A participação na campanha abolicionista forneceu ao poeta o principal tema


de sua obra e o transformou no "poeta dos escravos". Seus poemas
detemática social são caracterizados pela exaltação e pelo tom retórico,
destinados à leitura em voz alta para emocionar e convencer as plateias.
Destacam-se, nessa temática, os poemas "O navio negreiro" e "Vozes
d'África".

Principais obras de Castro Alves

· Espumas flutuantes (única obra publicada emvida, 1870); Gonzaga ou a


revolução de Minas (drama histórico, 1875); Os escravos; Cachoeira de
Paulo Afonso (poemeto narrativo).

CRÉDITO: Séc. XIX. Gravura. Coleção particular

Antônio de Castro Alves (1847-1871)

Teve vida tão efêmera quanto intensa e brilhante. Nasceu na Bahia e estudou
Direito em Recife e São Paulo. Já era famoso quando, aos 22 anos (1869),
precisou amputar um pé, em consequência de um acidente de caça. Em 1871
voltou à Bahia, onde morreu, vitimado pela tuberculose.

LEITURA

O navio negreiro (fragmento)

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se é loucura... se é verdade

Tanto horror perante os céus?!

Ó mar, por que não apagas

Co'a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?...

Astros! noite! tempestades!


Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!

Quem são estes desgraçados

Que não se encontram em vós,

Mais que o rir calmo da turba

Que excita a fúria do algoz?

Quem são? Se a estrela se cala,

Se a vaga à pressa resvala

Como um cúmplice fugaz,

Perante a noite confusa...

Dize-o tu, severa Musa,

Musa libérrima, audaz!...

São os filhos do deserto,

Onde a terra esposa a luz.

Onde vive em campo aberto

A tribo dos homens nus...

São os guerreiros ousados

Que com os tigres mosqueados

Combatem na solidão.

Ontem simples, fortes, bravos...

Hoje míseros escravos

Sem luz, sem ar, sem razão...

83

São mulheres desgraçadas,

Como Agar o foi também.

Que sedentas, alquebradas,


De longe... bem longe vêm...

Trazendo, com tíbios passos,

Filhos e algemas nos braços,

N'alma - lágrimas e fel...

Como Agar sofrendo tanto,

Que nem o leite de pranto

Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,

Das palmeiras no país,

Nasceram - crianças lindas,

Viveram - moças gentis...

Passa um dia a caravana

Quando a virgem na cabana

Cisma da noite nos véus...

... Adeus, ó choça do monte,

... Adeus, palmeiras da fonte!...

... Adeus, amores... adeus!...

Depois, o areal extenso...

Depois, o oceano de pó.

Depois no horizonte imenso

Desertos... desertos só...

E a fome, o cansaço, a sede...

Ai! quanto infeliz que cede,

E cai, p'ra não mais s'erguer!...

Vaga um lugar na cadeia,

Mas o chacal sobre a areia


Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa.

A guerra, a caça ao leão,

O sono dormido à toa

Sob as tendas d'amplidão!

Hoje... o porão negro, fundo,

Infecto, apertado, imundo,

Tendo a peste por jaguar...

E o sono sempre cortado

Pelo arranco de um finado,

E o baque de um corpo ao mar...

Ontem plena liberdade,

A vontade por poder...

Hoje... cum'lo de maldade,

Nem são livres p'ra morrer...

Prende-os a mesma corrente

- Férrea, lúgubre serpente -

Nas roscas da escravidão.

E assim zombando da morte,

Dança a lúgubre corte

Ao som do açoite... Irrisão!...

Senhor Deus dos desgraçados!

Dizei-me vós, Senhor Deus!

Se eu deliro... ou se é verdade

Tanto horror perante os céus?!...

Ó mar, por que não apagas


Co'a esponja de tuas vagas

De teu manto este borrão?

Astros! noite! tempestades!

Rolai das imensidades!

Varrei os mares, tufão!...

[...]

ALVES, Castro. O navio negreiro. In: GRANDES poetas românticos do Brasil.


5ª ed. Prefácio e notas biográficas de Antônio Soares Amora. São Paulo:
Discubra - Distribuidora Cultural Brasileira Ltda., 1978. t. II. p. 362.

LEGENDA: Negros no fundo do porão (1835), de Johann Moritz Rugendas.

FONTE: Johann Moritz Rugendas. 1835. Gravura. Biblioteca Municipal Mário


de Andrade, São Paulo

CRÉDITO: Album/Latinstock

Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

Pintor, desenhista e gravador alemão, fez duas viagens ao Brasil. Na primeira,


permaneceu de 1821 a 1825, tendo participado da Expedição Langsdorff, como
desenhista documentarista. O registro de paisagens, fauna e flora, assim como
de tipos humanos e costumes brasileiros serviu de material para o livro Voyage
pittoresque dans le Brésil (Viagem pitoresca através do Brasil).

84

Releitura

Escreva no caderno

1. Que elementos desse poema podem justificar o nome de poeta condoreiro


que é dado a Castro Alves? Explique.

Resposta: O condor, para os poetas da terceira geração, era símbolo do voo


alto e livre. Esse nome, condoreiro, pode ser justificado pela temática - a
indignação diante do sofrimento dos escravos, a defesa da liberdade - e o tom
de exaltação, de discurso feito para uma grande plateia. Tudo nele concorre
para a obtenção do efeito de exaltação: a pontuação excessiva - exclamações,
interrogações, reticências -, reforça a dicção dramática.

2. Alguns recursos retóricos, típicos da poesia de Castro Alves, podem ser


observados no fragmento. Localize e transcreva um exemplo de cada uma
destas figuras de linguagem ou recursos retóricos: apóstrofe - metáfora -
interrogação - amplificação - antítese - comparação.

Resposta: Apóstrofe: Toda a primeira estrofe é feita de apóstrofes: a Deus, ao


mar, aos astros, às noites, às tempestades. Metáfora: "por que não apagas /
Co'a esponja de tuas vagas / De teu manto este borrão?"; ou: "leite de pranto";
"oceano de pó"; "tendas d'amplidão". Interrogação: "Quem são estes
desgraçados [...]?". Amplificação: "Sem luz, sem ar, sem razão...". Antítese:
"Ontem simples, fortes, bravos... / Hoje míseros escravos"; "Ontem a Serra
Leoa. / [...] / Hoje... o porão negro, fundo"; "Ontem plena liberdade, / [...] /
Hoje... cum'lo de maldade, / Nem são livres pr'a morrer...". Comparação: "São
mulheres desgraçadas, / Como Agar o foi também.".

3. Escolha no fragmento do poema um trecho que poderia servir de legenda


para a gravura de Rugendas.

Resposta: Exemplos: "Quem são esses desgraçados"; "Ontem simples, fortes,


bravos... / Hoje míseros escravos / Sem luz, sem ar, sem razão..."; "Hoje... o
porão negro, fundo, / Infecto, apertado, imundo, / Tendo a peste por jaguar...";
"Dizei-me vós, Senhor Deus! / Se eu deliro... ou se é verdade / Tanto horror
perante os céus?!...".

4. (Unifesp-SP) Considere as seguintes afirmações [sobre o fragmento]:

I. O texto é um exemplo de poesia carregada de dramaticidade, própria de um


poeta-condor, que mostra conhecer bem as lições do "mestre" Victor Hugo.

II. Trata-se de um poema típico da terceira fase romântica, voltado para


auditórios numerosos, em que se destacam a preocupação social e o tom
hiperbólico.

III. É possível reconhecer nesse fragmento de um longo poema de teor


abolicionista o gosto romântico por uma poesia de recursos sonoros.

Está correto o que se afirma em:


a) I, apenas.

b) II, apenas.

c) III, apenas.

d) I e II, apenas.

e) I, II e III.

Resposta: Alternativa e.

5. (Unifesp-SP) Considerando as últimas estrofes do fragmento:

a) o poeta se vale do recurso do paralelismo de construção apenas na


antepenúltima estrofe.

b) o eu poemático aborda o problema da escravidão segundo um jogo de


intensas oposições.

c) os animais evocados - leão, jaguar e serpente - têm, respectivamente,


sentidos denotativo, denotativo e metafórico.

d) o tom geral assumido pelo poeta revela um misto de emoção, vigor e


resignação diante da escravidão.

e) os versos são constituídos alternadamente por sete e oito sílabas poéticas.

Resposta: Alternativa b.

Vocabulário:

amplificação: consiste no desdobramento de uma palavra ou de uma ideia,


desenvolvendo todos os seus aspectos. As técnicas mais utilizadas para a
amplificação são a enumeração (quando os elementos não se organizam
hierarquicamente) e a gradação (quando os elementos se organizam numa
ordem crescente ou decrescente);

comparação ou símile: é a relação de semelhança que se estabelece entre


dois termos de sentidos diferentes por meio de uma conjunção.

Fim do vocabulário.

Retome os conceitos de metáfora e apóstrofe no capítulo 2 deste volume; e o


conceito de antítese no capítulo 3.
NAVEGAR É PRECISO

Procure na internet a leitura do poema "O navio negreiro" na voz do grande


ator brasileiro Paulo Autran (1922-2007).

Caetano Veloso (1942-), em seu álbum Livro (Universal, 1997, faixa 9),
musicou um trecho do poema, com participação de Maria Bethânia (1946-), e
Carlinhos Brown (1962-). Você também poderá encontrá-lo na internet.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

As origens do Romantismo estão ligadas às transformações econômicas,


políticas, sociais e ideológicas, ocorridas ao longo do século XVIII, que levaram
a burguesia ao poder. Refletindo os ideais do liberalismo, a nova escola recusa
a imitação dos modelos clássicos e proclama a liberdade de criação. O
individualismo burguês exprime-se, nas artes e na literatura, pelo subjetivismo
e pelo emocionalismo exacerbados.

No Brasil, o Romantismo iniciou-se na segunda década após a independência


e vigorou até as vésperas da República. Sua história está intimamente ligada
às transformações políticas e sociais desse período.

85

A poesia romântica

A evolução da poesia romântica foi marcada pela sucessão de três gerações


de poetas.

· Primeira geração: dedicada aostemas nacionalistas- indianismo, corlocal.


Principal autor: Gonçalves Dias.

· Segunda geração: por causa dos excessos do subjetivismo e do


emocionalismo, é chamada de geração ultrarromântica. O pessimismo, o
escapismo, o culto da morte seriam os sintomas do "mal do século" (doença do
século), expressão comumente utilizada para descrever as características
dessa geração. Principais autores: Junqueira Freire, Casimiro de Abreu e
Álvares de Azevedo.

· Terceira geração: seu principal tema é a liberdade. Engajada na discussão


de ideias sociais e políticas, participou intensamente das grandes campanhas
de sua época, a republicana e a abolicionista. Em razão do tom exaltado e
retórico que utiliza, é chamada de "geração condoreira" - o condor simboliza o
alto voo da imaginação a serviço da liberdade. Principal autor: Castro Alves.

Atividades

Escreva no caderno

1. A pintura de Friedrich representa uma paisagem noturna e lúgubre. Observe-


a.

LEGENDA: Casal contemplando a lua (1822), de Caspar David Friedrich.

FONTE: Caspar David Friedrich. 1822. Óleo sobre tela. Galeria Nacional,
Berlim

CRÉDITO: Caspar David Friedrich. c. 1810-1820. Óleo sobre tela, 67 × 52,4


cm. Hamburger Kunsthalle, Hamburgo

Caspar David Friedrich (1774-1840)

É um dos principais pintores românticos alemães. A inquietação religiosa e as


tragédias familiares (ainda criança perdeu a mãe e duas irmãs adolescentes;
seu irmão Christoffer afogou-se quando patinava no mar Báltico congelado)
transparecem insistentemente em suas paisagens. Seus últimos anos foram
atormentados por um delírio de perseguição que o afastou de seus amigos.

a) Qual das três gerações românticas poderia ter sua descrição ilustrada por
essa pintura?

Resposta: A segunda geração, ultrarromântica.

b) "O pintor não deve pintar apenas o que vê diante de si, mas também o que
vê dentro de si." (Caspar David Friedrich). Comente a pintura com base nessa
frase do pintor.

Resposta pessoal. Comentários possíveis: A pintura traduz um estado de


espírito pessimista e melancólico. O ambiente noturno e ermo, as sombras, o
luar representam a solidão, o ensimesmamento, a reflexão. A árvore velha e
fantasmagórica pode simbolizar a decadência e a morte; a lua pode significar o
anseio pelo impossível, pelo inatingível, o escapismo por meio do sonho.
2. (Enem/MEC) No trecho abaixo, o narrador, ao descrever o personagem,
critica sutilmente um outro estilo de época: o Romantismo.

Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos; era talvez a
mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais voluntariosa. Não
digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do tempo,
porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e fecha os
olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe maculasse o rosto
nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía das mãos da
natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a outro
indivíduo, para os fins secretos da criação.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro:


Jackson, 1957.

86

A frase do texto em que se percebe a crítica do narrador ao romantismo está


transcrita na alternativa:

a) "[...] o autor sobredoura a realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas


[...]"

b) "[...] era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça [...]"

c) "Era bonita, fresca, saía das mãos da natureza, cheia daquele feitiço,
precário e eterno, [...]"

d) "Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis anos [...]"

e) "[...] o indivíduo passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação".

Resposta: Alternativa a.

Leia os textos a seguir para responder às questões de 3 a 5. No poema "O


canto do piaga", o feiticeiro de uma tribo relata aos guerreiros um sonho
premonitório. O texto 1 é a terceira e última parte desse poema. O texto 2 tem
como base informações da Funai (Fundação Nacional do Índio).

TEXTO 1

O canto do piaga

[...]
Pelas ondas do mar sem limites

Basta selva, sem folhas, i vem;

Hartos troncos, robustos, gigantes;

Vossas matas tais monstros contêm.

Traz embira dos cimos pendente

- Brenha espessa de vário cipó -

Dessas brenhas contêm vossas matas,

Tais e quais, mas com folhas; e só!

Negro monstro os sustenta por baixo,

Brancas asas abrindo ao tufão,

Como um bando de cândidas garças,

Que nos ares pairando - lá vão.

Oh! quem foi das entranhas das águas,

O marinho arcabouço arrancar?

Nossas terras demanda, fareja...

Esse monstro... - o que vem cá buscar?

Não sabeis o que o monstro procura?

Não sabeis a que vem, o que quer?

Vem matar vossos bravos guerreiros,

Vem roubar-vos a filha, a mulher!

Vem trazer-vos crueza, impiedade -

Dons cruéis do cruel Anhangá;

Vem quebrar-vos a maça valente,

Profanar Manitôs, Maracás.

Vem trazer-vos algemas pesadas,

Com que a tribo Tupi vai gemer;


Hão de os velhos servirem de escravos,

Mesmo o Piaga inda escravo há de ser!

Fugireis procurando um asilo,

Triste asilo por ínvio sertão;

Anhangá de prazer há de rir-se,

Vendo os vossos quão poucos serão.

Vossos Deuses, ó Piaga, conjura,

Susta as iras do fero Anhangá.

Manitôs já fugiram da Taba,

Ó desgraça! ó ruína! ó Tupá!

DIAS, Gonçalves. Primeiros cantos. In: GRANDES poetas românticos do Brasil.


Prefácio e notas biográficas de Antônio Soares Amora. São Paulo: Discubra -
Distribuidora Cultural Brasileira Ltda., 1978. t. I. p. 49.

Vocabulário:

piaga: ou pajé; "era ao mesmo tempo o sacerdote e o médico, o áugure e


cantor dos indígenas do Brasil" (nota de Gonçalves Dias, Grandes poetas
românticos do Brasil, p. 393);

Anhangá: gênio do mal;

maça: clava; pau pesado e mais grosso em uma das extremidades, que se
usava como arma;

Manitôs: gênios tutelares ou demônios entre os índios da América do Norte.


Gonçalves Dias explica em nota ao poema: "O seu desaparecimento augurava
grandes calamidades às tribos de que eles houvessem desertado" (op. cit., p.
393);

maracá: chocalho, instrumento musical usado em cerimônias religiosas e


guerreiras;

ínvio: intransitável.

Fim do vocabulário.
TEXTO 2

O deslocamento da população

[...]

Quando se observa o mapa da distribuição das populações indígenas no


território brasileiro de hoje, podem-se ver claramente os reflexos do movimento
de expansão político-econômica ocorrido historicamente.

Os povos que habitavam a costa leste, na maioria falantes de línguas do


Tronco Tupi,

87

foram dizimados, dominados ou refugiaram-se nas terras interioranas para


evitar o contato.

Hoje, somente os Fulni-ô (de Pernambuco), os Maxakali (de Minas Gerais) e os


Xokleng (de Santa Catarina) conservam suas línguas. Curiosamente, suas
línguas não são Tupi, mas pertencentes a três famílias diferentes ligadas ao
Tronco Macro-Jê.

Os Guarani, que vivem em diversos estados do Sul e Sudeste brasileiro e que


também conservam a sua língua, migraram do Oeste em direção ao litoral em
anos relativamente recentes.

As demais sociedades indígenas que vivem no Nordeste e Sudeste do país


perderam suas línguas e só falam o português, mantendo apenas, em alguns
casos, palavras esparsas, utilizadas em rituais e outras expressões culturais.

A maior parte das sociedades indígenas que conseguiram preservar suas


línguas vive, atualmente, no Norte, Centro-Oeste e Sul do Brasil. Nas outras
regiões, elas foram sendo expulsas à medida que a urbanização avançava.

POVOS indígenas no Brasil. Ensino superior indígena. Disponível em:


https://ensinosuperiorindigena.wordpress.com/index/povos-indigenas-no-brasil.
Acesso em: 18 abr. 2016.

LEGENDA: Indígenas Fulni-ô, da aldeia Águas Belas, PE, 2007.

CRÉDITO: Helio Nobre/IDETI


3. O que o piaga descreve nas três primeiras estrofes do poema? Interprete as
imagens que ele emprega nessa descrição.

Resposta: O piaga descreve um monstro que chega pelas ondas do mar. Esse
monstro sustenta uma selva de troncos e cipós, semelhantes aos das matas,
mas tendo asas brancas, como um bando de garças, no lugar das folhas. O
monstro é a imagem do casco de um navio; os troncos representam os
mastros; os cipós, o cordame; e as asas brancas, as velas. Essas imagens
constituem uma alegoria da chegada dos navios portugueses ao Brasil.

4. "Os povos que habitavam a costa leste, na maioria falantes de línguas do


Tronco Tupi, foram dizimados, dominados ou refugiaram-se nas terras
interioranas para evitar o contato." Escolha, para cada trecho destacado
nesse fragmento do texto da Funai, um verso do poema que possa ser
considerado a "premonição" do fato histórico.

Resposta: Escolhas possíveis: para foram dizimados: "Vem matar vossos


bravos guerreiros,", "Vendo os vossos quão poucos serão."; para dominados:
"Vem quebrar-vos a maça valente,", "Vem trazer-vos algemas pesadas,", "Hão
de os velhos servirem de escravos,"; para refugiaram-se nas terras
interioranas: "Fugireis procurando um asilo, / Triste asilo por ínvio sertão;".

5. Pode-se dizer que, em "O canto do piaga", o indígena é idealizado como em


outras obras românticas, inclusive a do próprio Gonçalves Dias?

Resposta: No Romantismo, os indígenas são idealizados como grandes


guerreiros que, vivendo em harmonia com a natureza, possuem uma grande
inteireza moral e uma força física imbatível. Com a profecia dramática do piaga,
Gonçalves Dias faz uma denúncia do holocausto que ocorreu ao longo da
colonização portuguesa. O indígena, portanto, está mais próximo da realidade,
é visto como um povo mais fraco e mesmo impotente diante do colonizador
branco. A resposta, ainda assim, pode ser afirmativa, se considerar que o
contato com a civilização teria quebrado aquela harmonia com a natureza, fator
da força física e moral do indígena na idealização romântica.

6. (Enem/MEC) O trecho a seguir é parte do poema "Mocidade e morte", do


poeta romântico Castro Alves:

Oh! eu quero viver, beber perfumes


Na flor silvestre, que embalsama os ares;

Ver minh'alma adejar pelo infinito,

Qual branca vela n'amplidão dos mares.

No seio da mulher há tanto aroma...

Nos seus beijos de fogo há tanta vida...

- Árabe errante, vou dormir à tarde

À sombra fresca da palmeira erguida.

Mas uma voz responde-me sombria:

Terás o sono sob a lájea fria.

ALVES, Castro. Os melhores poemas de Castro Alves. Seleção de Lêdo Ivo.


São Paulo: Global, 1983.

Esse poema, como o próprio título sugere, aborda o inconformismo do poeta


com a antevisão da morte prematura, ainda na juventude.

A imagem da morte aparece na palavra

a) embalsama.

b) infinito.

c) amplidão.

d) dormir.

e) sono.

Resposta: Alternativa e.

7. (Enem/MEC)

O canto do guerreiro

Aqui na floresta

Dos ventos batida,

Façanhas de bravos

Não geram escravos,


Que estimem a vida

Sem guerra e lidar.

- Ouvi-me, Guerreiros,

- Ouvi meu cantar.

88

II

Valente na guerra,

Quem há, como eu sou?

Quem vibra o tacape

Com mais valentia?

Quem golpes daria

Fatais, como eu dou?

- Guerreiros, ouvi-me;

- Quem há, como eu sou?

[...]

(Gonçalves Dias)

Macunaíma (Epílogo)

Acabou-se a história e morreu a vitória.

Não havia mais ninguém lá. Dera tangolomângolo na tribo Tapanhumas e os


filhos dela se acabaram de um em um. Não havia mais ninguém lá. Aqueles
lugares, aqueles campos, furos puxadouros arrastadouros meios-barrancos,
aqueles matos misteriosos, tudo era solidão do deserto... Um silêncio imenso
dormia à beira do rio Uraricoera. Nenhum conhecido sobre a terra não sabia
nem falar da tribo nem contar aqueles casos tão pançudos. Quem podia saber
do Herói?

(Mário de Andrade)

A leitura comparativa dos dois textos anteriores indica que


a) ambos têm como tema a figura do indígena brasileiro apresentada de forma
realista e heroica, como símbolo máximo do nacionalismo romântico.

b) a abordagem da temática adotada no texto escrito em versos é


discriminatória em relação aos povos indígenas do Brasil.

c) as perguntas "- Quem há, como eu sou?" (1º texto) e "Quem podia saber do
Herói?" (2º texto) expressam diferentes visões da realidade indígena brasileira.

d) o texto romântico, assim como o modernista, abordam o extermínio dos


povos indígenas como resultado do processo de colonização no Brasil.

e) os versos em primeira pessoa revelam que os indígenas podiam expressar-


se poeticamente, mas foram silenciados pela colonização, como demonstra a
presença do narrador, no segundo texto.

Resposta: Alternativa c.

8. (Enem/MEC)

TEXTO 1

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! não seja já;

Eu quero ouvir na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

Meu Deus, eu sinto e bem vês que eu morro

Respirando esse ar;

Faz que eu viva, Senhor! dá-me de novo

Os gozos do meu lar!

Dá-me os sítios gentis onde eu brincava

Lá na quadra infantil;

Dá que eu veja uma vez o céu da pátria,

O céu de meu Brasil!

Se eu tenho de morrer na flor dos anos,

Meu Deus! Não seja já!


Eu quero ouvir cantar na laranjeira, à tarde,

Cantar o sabiá!

ABREU, C. Poetas românticos brasileiros. São Paulo: Scipione, 1993.

TEXTO 2

A ideologia romântica, argamassada ao longo do século XVIII e primeira


metade do século XIX, introduziu-se em 1836. Durante quatro decênios,
imperaram o "eu", a anarquia, o liberalismo, o sentimentalismo, o nacionalismo,
através da poesia, do romance, do teatro e do jornalismo (que fazia sua
aparição nessa época).

MOISÉS, M. A literatura brasileira através dos textos. São Paulo: Cultrix,


1971 (fragmento).

De acordo com as considerações de Massaud Moisés no texto 2, o texto 1


centra-se

a) no imperativo do "eu", reforçando a ideia de que estar longe do Brasil é uma


forma de estar bem, já que o país sufoca o eu lírico.

b) no nacionalismo, reforçado pela distância da pátria e pelo saudosismo em


relação à paisagem agradável onde o eu lírico vivera a infância.

c) na liberdade formal, que se manifesta na opção por versos sem métrica


rigorosa e temática voltada para o nacionalismo.

d) no fazer anárquico, entendida a poesia como negação do passado e da vida,


seja pelas opções formais, seja pelos temas.

e) no sentimentalismo, por meio do qual se reforça a alegria presente em


oposição à infância, marcada pela tristeza.

Resposta: Alternativa b.

89

capítulo 5 - O romance romântico

Neste capítulo você continuará estudando o Romantismo brasileiro, focalizando


exclusivamente a produção literária em prosa, ou, mais especificamente, o
romance. Você perceberá que o conjunto dessa produção faz parte de um
verdadeiro projeto de representação simbólico-literária da realidade da nova
nação. Esse projeto é sobretudo perceptível na obra do principal autor
romântico, José de Alencar.

CRÉDITO: 1852-1854. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Livros

· ALENCAR, José de. Iracema: lenda do Ceará. Várias editoras.

· GOETHE, Johann Wolfgang von. Os sofrimentos do jovem Werther. Porto


Alegre: L&PM, 2004.

Vídeos

· INOCÊNCIA. Dirigido por Walter Lima Jr. Brasil, 1983.

· IRACEMA: a construção da heroína indígena. Dirigido por Paulo Franchetti.


Brasil, 2005.

· O GUARANI. Dirigido por Norma Bengell. Brasil, 2009.

Site

· PORTAL DOMÍNIO PÚBLICO. Obras de José de Alencar. [20--] Disponível


em: http://tub.im/m9bgpd. Acesso em: 28 abr. 2016.

90

Atenção Professor(a), as atividades da seção "E mais...", das páginas 97 e


100, requerem preparação antecipada. Fim da observação.

PRIMEIRA LEITURA

TEXTO 1

Iracema: lenda do Ceará

Além, muito além daquela serra, que ainda azula no horizonte, nasceu
Iracema.

Iracema, a virgem dos lábios de mel, que tinha os cabelos mais negros que a
asa da graúna, e mais longos que seu talhe de palmeira.
O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no
bosque como seu hálito perfumado.

Mais rápida que a ema selvagem, a morena virgem corria o sertão e as matas
do Ipu, onde campeava sua guerreira tribo, da grande nação tabajara. O pé
grácil e nu, mal roçando, alisava apenas a verde pelúcia que vestia a terra com
as primeiras águas.

[...]

ALENCAR, José de. Iracema: lenda do Ceará. M. Cavalcanti Proença (edição


crítica). Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Edusp, 1979.
p. 12.

CRÉDITO: André Ducci

TEXTO 2

Senhora

Há anos raiou no céu fluminense uma nova estrela.

Desde o momento de sua ascensão ninguém lhe disputou o cetro; foi


proclamada a rainha dos salões.

Tornou-se a deusa dos bailes; a musa dos poetas e o ídolo dos noivos em
disponibilidade.

Era rica e formosa.

Duas opulências, que se realçavam como a flor em vaso de alabastro; dois


esplendores que se refletem, como o raio de sol no prisma do diamante.

Quem não se recorda de Aurélia Camargo, que atravessou o firmamento da


corte como brilhante meteoro, e apagou-se de repente no meio do
deslumbramento que produzira seu fulgor?

Tinha ela dezoito anos quando apareceu a primeira vez na sociedade. Não a
conheciam; e logo buscaram todos com avidez informações acerca da grande
novidade do dia.

Dizia-se muita coisa que não repetirei agora, pois a seu tempo saberemos a
verdade, sem os comentários malévolos de que usam vesti-la os noveleiros.
Aurélia era órfã; e tinha em sua companhia uma velha parenta, viúva, D.
Firmina Mascarenhas, que sempre a acompanhava na sociedade.

Mas essa parenta não passava de mãe de encomenda, para condescender


com os escrúpulos da sociedade brasileira, que naquele tempo não tinha
admitido ainda certa emancipação feminina.

Guardando com a viúva as deferências devidas à idade, a moça não declinava


um instante do firme propósito de governar sua casa e dirigir suas ações como
entendesse.

Constava também que Aurélia tinha tutor; mas essa entidade desconhecida, a
julgar pelo caráter da pupila, não devia exercer maior influência em sua
vontade do que a velha parenta.

A convicção geral era que o futuro da moça dependia exclusivamente de suas


inclinações ou de seu capricho e por isso todas as adorações se iam prostrar
aos próprios pés do ídolo.

Assaltada por uma turba de pretendentes que a disputavam com o prêmio da


vitória, Aurélia, com sagacidade admirável em sua idade, avaliou da situação
difícil em que se achava, e dos perigos que a ameaçavam.

Daí provinha talvez a expressão cheia de desdém e um certo ar provocador,


que eriçavam a sua beleza aliás tão correta e cinzelada para a meiga e serena
expansão d'alma.

[...]

ALENCAR, José de. Senhora. Edição crítica de José Carlos Garbuglio. Rio de
Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1979. p. 5.

91

TEXTO 3

Luizinha

Em uma das últimas vezes que foram à casa de D. Maria, esta, assim que os
viu entrar, dirigiu-se ao compadre e disse-lhe muito contente:

- Ora, afinal venci a minha campanha... veio ontem para o meu poder a
menina... O tal velhaco do compadre de meu irmão não levou a sua avante.
- Muitos parabéns, muitos parabéns! respondeu o compadre. Leonardo deu
pouca atenção a isso; há muito tempo que ouvia falar da tal sobrinha; sentou-
se a um canto, e começou a bocejar como de costume.

Depois de mais algumas palavras trocadas entre os dous, D. Maria chamou por
sua sobrinha, e esta apareceu. Leonardo lançou-lhe os olhos, e a custo
conteve o riso. Era a sobrinha de D. Maria já muito desenvolvida, porém que,
tendo perdido as graças de menina, ainda não tinha adquirido a beleza de
moça: era alta, magra, pálida; andava com o queixo enterrado no peito, trazia
as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e
compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como andava
mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande porção lhe caía
sobre a testa e olhos, como uma viseira. Trajava nesse dia um vestido de chita
roxa muito comprido, quase sem roda, e de cintura muito curta; tinha ao
pescoço um lenço encarnado de Alcobaça.

Por mais que o compadre a questionasse, apenas murmurou algumas frases


ininteligíveis com voz rouca e sumida. Mal a deixaram livre, desapareceu sem
olhar para ninguém. Vendo-a ir-se, Leonardo tornou a rir-se interiormente.

Quando se retiraram, riu-se ele pelo caminho à sua vontade. O padrinho


indagou a causa da sua hilaridade; respondeu-lhe que não se podia lembrar da
menina sem rir-se.

- Então lembras-te dela muito a miúdo, porque muito a miúdo te ris.

Leonardo viu que esta observação era verdadeira.

Durante alguns dias umas poucas de vezes falou na sobrinha da D. Maria; e


apenas o padrinho lhe anunciou que teriam de fazer a visita do costume, sem
saber por que, pulou de contente, e, ao contrário dos outros dias, foi o primeiro
a vestir-se e dar-se por pronto.

Saíram e encaminharam-se para o seu destino.

[...]

ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Edição


crítica de Cecília de Lara. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1978.
p. 82.
CRÉDITO: André Ducci

Observação: os asteriscos indicam que o significado é dado pelo próprio José


de Alencar, em nota à primeira edição de Iracema.

Vocabulário:

Iracema: *em guarani significa lábios de mel - de ira, mel e tembe - lábios.
Tembe na composição altera-se em ceme. Alencar costuma traduzir os nomes
indígenas por apostos: "Iracema, a virgem dos lábios de mel", "tabajaras,
senhores das aldeias", "potiguara, comedor de camarão", "Tu és Moacir, o
nascido de meu sofrimento";

graúna: *pássaro conhecido de cor negra luzidia;

jati: *pequena abelha que fabrica delicioso mel;

Ipu: *certa qualidade de terra muito fértil, que forma grandes coroas ou ilhas no
meio dos tabuleiros e sertões, e é de preferência procurada para a cultura;

campear: estar ou viver no campo; correr pelos campos;

Alcobaça: cidade portuguesa, famosa por seu convento de estilo gótico e pelo
artesanato, principalmente pelos lenços.

Fim do vocabulário.

92

Em tom de conversa

1. O texto 1 reproduz os primeiros parágrafos do segundo capítulo do romance


Iracema, de José de Alencar. Releia o texto em voz alta e comente as
impressões causadas pelo tom da linguagem do narrador, relacionando-o ao
subtítulo do livro, "Lenda do Ceará".

Resposta: Espera-se que os alunos se refiram ao tom solene da linguagem,


dado pelo ritmo bem marcado das frases e pelas imagens (leve os alunos a
perceberem as repetições - "além, muito além" - e os paralelismos sintáticos
dos parágrafos 2 e 3 - "mais negros que [...] mais longos que"; "não era doce
como [...] nem recendia [...] como"). A solenidade do tom é uma característica
das lendas de heróis e das epopeias. Faça os alunos observarem que o
primeiro parágrafo lembra o modo vago e misterioso de se localizarem os
acontecimentos nos contos maravilhosos populares (exemplos: "Era uma vez,
num país distante..."; "Num país distante, longe, muito longe daqui..." - cf.
JOLLES, André. Formas simples. São Paulo: Cultrix, 1976. p. 202).

2. Comente com seus colegas as características românticas mais evidentes no


texto 1.

Resposta: Espera-se que os alunos reconheçam o nacionalismo (a intenção de


criar mitos literários das origens do povo brasileiro, representado aqui no povo
cearense, pelo intercurso das etnias formadoras, o indígena e o branco), a
idealização do indígena, um ser forte, belo e puro, vivendo em perfeita
harmonia com a natureza (toda a descrição de Iracema se faz por
comparações com elementos da natureza, da qual ela faz parte e é a
representante mais perfeita), a preocupação com a cor local e a idealização da
natureza tropical.

3. Que semelhanças e diferenças você percebe entre o texto 1 e o texto 2?

Resposta: As possíveis semelhanças são a solenidade do tom narrativo e a


idealização da mulher, bela e perfeita, por meio de imagens (comparações e
metáforas). Já as possíveis diferenças são: predomínio das comparações
(texto 1) e das metáforas (texto 2); tempo remoto (texto 1) e passado próximo
(texto 2: "Há anos [...]"; "Quem não se recorda [...]?"); ambiente natural, matas
(texto 1) e ambiente urbano, a corte (texto 2).

4. O texto 3 também apresenta uma figura feminina. Que diferenças se


percebem entre a descrição de Luizinha e as descrições de Iracema e Aurélia?

Resposta: Espera-se que os alunos percebam a ausência de idealização na


descrição de Luizinha. Trata-se agora de uma adolescente, ainda bastante
desajeitada, muito tímida, vestida com simplicidade. Órfã como Aurélia, não
possui sua altivez e domínio. Aurélia possui uma corte de pretendentes e
desdenha deles; Luizinha provoca o riso de Leonardo. Até os nomes refletem a
diferença entre a idealização e o realismo: Iracema é um nome simbólico,
adequado a uma personagem lendária; Aurélia Camargo é apresentada
solenemente com nome e sobrenome; para Luizinha reservou-se um diminutivo
familiar.

Releitura
Escreva no caderno

Nos três textos o narrador faz a apresentação direta das personagens


femininas.

1. Nos textos de Alencar, o uso intenso de símiles (comparações) e metáforas


nas descrições faz que as personagens já surjam idealizadas desde essa
primeira apresentação. Releia os textos e faça o que se pede.

a) Qual figura de linguagem predomina no texto 1? Dê dois exemplos.

Resposta: Predomina o símile, ou comparação. Os exemplos são escolhas


pessoais.

Atenção Professor(a), na correção, observar que a única metáfora utilizada na


descrição de Iracema é o aposto "virgem dos lábios de mel", que traduz o
significado do nome: ira - mel e tembe (cema) - lábios, segundo explicação de
Alencar nas notas à primeira edição. Fim da observação.

b) Qual é a primeira metáfora utilizada pelo narrador na apresentação de


Aurélia Camargo? Copie a frase, passando-a para a ordem sintática direta.

Resposta: Há anos raiou uma nova estrela no céu fluminense.

c) A primeira metáfora da descrição de Aurélia desdobra-se, nos dois


parágrafos seguintes, em novas metáforas. Quais são esses desdobramentos?

Resposta: "momento de sua ascensão"; "ninguém lhe disputou o cetro"; "rainha


dos salões"; "deusa dos bailes"; "musa dos poetas"; "ídolo dos noivos em
disponibilidade".

d) Observando os desdobramentos, interprete o significado metafórico da


expressão "céu fluminense" e encontre, no parágrafo 6, uma metáfora que
confirme sua interpretação.

Resposta: "Céu fluminense" desdobra-se em salões, bailes, poetas, noivos em


disponibilidade. Portanto é metáfora da alta sociedade (céu) do Rio de Janeiro
(fluminense). Poderíamos "traduzir" a frase do seguinte modo: Há anos uma
nova personalidade surgiu na alta sociedade fluminense. A metáfora do
parágrafo 6 é "atravessou o firmamento da corte".
2. No último parágrafo do fragmento de Senhora, o narrador assim descreve
Aurélia: "Daí provinha talvez a expressão cheia de desdém e um certo ar
provocador, que eriçavam a sua beleza [...]".

Se você utilizasse esse trecho para descrever Luizinha, por quais palavras ou
expressões substituiria as que estão destacadas?

Resposta: Substituições possíveis: cheia de temor (cheia de timidez); ar tímido


(ar temeroso, amedrontado); aumentavam sua desgraciosidade (sua feiura, sua
deselegância).

FIQUE SABENDO

Modos de apresentação de personagem

Há basicamente dois modos de apresentação dos personagens em uma


narrativa:

· apresentação direta - o narrador descreve o personagem, explicitando suas


características físicas e psicológicas;

· apresentação indireta - o narrador não descreve o personagem. As


características devem ser interpretadas com base em índices presentes nas
falas, nos pensamentos, nas reações e nos comportamentos.

Retome no capítulo 2 o conceito de metáfora e no capítulo 4 o conceito de


símile (ou comparação).

93

Comentário

Os três livros foram escritos num intervalo de pouco mais de duas décadas,
durante o Segundo Reinado. Em Iracema, de 1865, temos a recorrência da
temática indianista, já estudada na poesia da primeira geração; aqui, a mulher
é idealizada como símbolo lendário de uma das origens do povo brasileiro. Em
Senhora, de 1875, a mulher, bela e fatal, é idealizada como um ser superior,
que precisa usar a arrogância para vencer o jogo de interesses e os
preconceitos característicos da alta sociedade da corte. Já em Memórias de
um sargento de milícias (entre 1852 e 1853), o autor mergulha nos costumes
das camadas populares da cidade, e nos apresenta uma menina desajeitada e
tímida, em tudo oposta à heroína do romance de Alencar.

Não se pode aplicar à prosa a mesma divisão em três gerações que se fez no
estudo da poesia romântica. Mas, pelas descrições das personagens feitas nos
fragmentos desses três livros, podemos já vislumbrar a variedade dos temas e
dos enfoques da prosa romântica brasileira.

A PROSA ROMÂNTICA

O romance europeu desenvolveu-se ao longo do século XVIII e tornou-se a


principal forma narrativa a partir do Romantismo.

No Brasil, a prosa de ficção praticamente inexistiu durante o período colonial.


Os prosadores românticos, a partir da década de 1840, viram-se imbuídos do
mesmo espírito nacionalista que os poetas, mas acrescido da missão de criar
as bases de uma tradição. Essa consciência de missão é sobretudo
perceptível, como veremos, na obra do principal romancista romântico
brasileiro, José de Alencar.

Assim, não é de estranhar que o desenvolvimento da poesia romântica tenha


precedido o da prosa de ficção. Quando esta fazia suas primeiras tentativas
mais consistentes, na década de 1840, aquela já tinha o seu primeiro grande
autor - Gonçalves Dias.

Primeiros romances brasileiros

· O filho do pescador (1843), de Teixeira e Sousa.

· A Moreninha (1844), de Joaquim Manuel de Macedo.

Se considerarmos as deficiências do meio cultural, a inexistência de


precursores e o início tão tardio, não podemos negar que a literatura romântica
avançou a passos largos na criação de uma tradição ficcional brasileira. Já nas
décadas de 1850 e 1860, verifica-se o florescimento da prosa de ficção, que se
torna uma verdadeira mania, visto o afã com que eram acompanhados os
romances de folhetim. Autores como Teixeira e Sousa, Joaquim Manuel de
Macedo, Manuel Antônio de Almeida, Bernardo Guimarães e, principalmente,
José de Alencar povoaram a imaginação e os sonhos dos brasileiros,
exercendo uma função semelhante à das atuais novelas de televisão.
Quanto aos temas, os prosadores românticos, engajados desde o princípio no
projeto de criar uma literatura nacional, procuraram cobrir diversos aspectos da
vida brasileira, idealizando-os quase sempre: a vida da corte, a análise
psicológica e comportamental, os ambientes típicos regionais, o indígena (o
mesmo indígena mitificado na poesia), a natureza tropical (com o mesmo
ufanismo que vimos na poesia nacionalista), o escravo, aspectos e episódios
da história do Brasil...

Todos esses temas são sempre, mais ou menos intensamente, envolvidos por
histórias de amor. O Romantismo criou uma galeria de casais apaixonados,
que se tornaram verdadeiros mitos literários referidos até hoje, tanto na cultura
erudita quanto na popular.

Vocabulário:

romance de folhetim: longa narrativa de caráter popular, cujos capítulos eram


publicados semanalmente nos jornais. Para manter o interesse do leitor e
garantir a venda das edições seguintes, lançava-se mão de técnicas especiais
de narrar, como a interrupção do capítulo em momentos decisivos da ação.

Fim do vocabulário.

94

Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882)

Apesar da grande aceitação que teve entre os leitores contemporâneos, a obra


de Macedo foi, posteriormente, alvo de crítica severa por causa de seu
condicionamento ao gosto popular, ao sentimentalismo dos personagens e das
histórias, e, sobretudo, por não ter evoluído tecnicamente, repetindo sempre os
mesmos esquemas que lhe garantiram o sucesso da obra inicial. A repetição
da receita já se pode observar no título do segundo livro do autor: a A
Moreninha seguiu-se, em 1845, O moço loiro.

Parte da crítica, entretanto, aponta Macedo como um bom cronista do Rio de


Janeiro do Segundo Reinado, capaz de descrever a vida social e familiar com
fino senso de observação. Seu estilo despretensioso e ligeiro é impregnado de
um humor leve e sutil.
CRÉDITO: J. Mill. Séc. XIX. Litografia. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de
Janeiro

Manuel Antônio de Almeida (1831-1861)

Considerado uma "voz de exceção" em nosso Romantismo, pela originalidade


da obra que criou, Manuel Antônio de Almeida publicou Memórias de um
sargento de milícias entre 1852 e 1853, em forma de folhetim, no suplemento
"A Pacotilha", do Jornal do Comércio, sob o pseudônimo de "Um Brasileiro".

Essa obra contrasta com os romances românticos por várias razões. Primeiro,
por ter como protagonista um herói malandro, ou um "anti-herói", na opinião de
alguns críticos. Suas virtudes compensam seus defeitos. Situa-se, portanto,
fora das categorias maniqueístas (o bem x o mal; heróis x vilões) com as quais
geralmente são criados os personagens do Romantismo.

Além de se distanciarem do maniqueísmo romântico, os personagens de


Manuel Antônio de Almeida distanciam-se também do modelo europeizado
característico desse estilo literário em nosso país, mesmo quando inseridos
num projeto nacionalista, como o de José de Alencar.

Segundo, pelo tipo especial de nacionalismo que a caracteriza, ao documentar


traços específicos da sociedade brasileira do tempo do rei D. João VI (1808-
1821), com os costumes, os comportamentos e os tipos sociais de um estrato
médio da sociedade, até então ignorado pela literatura.

Terceiro, pelo tom de crônica que dá leveza e aproxima da fala a sua


linguagem direta, coloquial e irônica. O despojamento, a precisão, a
coloquialidade, as marcas de oralidade e o constante tom de crônica de jornal
constituem algumas características que afastam a linguagem de Memórias de
um sargento de milícias do idealismo às vezes açucarado do estilo romântico.
Em vez dele, a obra combina constantemente ironia e espírito crítico, bom
humor e registro jocoso de costumes populares, incluindo o linguajar da época.
Nesse sentido, podemos inseri-la no quadro da construção de uma literatura
brasileira moderna, já que o Modernismo pregaria, 70 anos depois, a
aproximação entre a literatura e a vida, por vários modos, inclusive pela
incorporação da linguagem popular, coloquial, do dia a dia.

CRÉDITO: Acervo Iconographia


95

LEITURA

Nesta passagem do romance A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo,


Carolina cuida de Paula, sua ama, aplicando-lhe um pedilúvio (escalda-pés). A
cena é espreitada por Augusto, que admira como a menina resiste,
heroicamente, à dor causada pela água fervente.

TEXTO 1

Pedilúvio sentimental

[...]

Três pessoas havia nesse quarto: Paula, deitada e abatida sob o peso de sua
sofrível mona, era um objeto triste e talvez ridículo, se não padecesse; a
segunda era uma escrava que acabava de depor, junto do leito, a bacia em que
Paula deveria tomar o pedilúvio recomendado, objeto indiferente; a terceira era
uma menina de quinze anos, que desprezava a sala, em que borbulhava o
prazer, pelo quarto em que padecia uma pobre mulher; este objeto era nobre...

D. Carolina e a escrava tinham as costas voltadas para a porta e por isso não
viam Augusto: Paula olhava, mas não via, ou antes não sabia o que via.

[...]

O sensível estudante viu as mãozinhas tão delicadas da piedosa menina já


roxas, e adivinhou que ela estava engolindo suas dores para não gemer; por
isso não pôde suster-se e, adiantando-se, disse:

- Perdoe, minha senhora.

- Oh!... o senhor estava aí?

- E tenho testemunhado tudo!

A menina abaixou os olhos, confusa, e apontando para a doente, disse:

- Ela me deu de mamar...

- Mas nem por isso deve a senhora condenar suas lindas mãos a serem
queimadas, quando algum dos muitos escravos que a cercam poderia
encarregar-se do trabalho em que a vi tão piedosamente ocupada.
- Nenhum o fará com jeito.

- Experimente.

- Mas a quem encarregarei?

- A mim, minha senhora.

- O senhor falava de meus escravos...

- Pois nem para escravo eu presto?

- Senhor!...

- Veja se eu sei dar um pedilúvio!

- E nisto o estudante abaixou-se e tomou os pés de Paula, enquanto D.


Carolina, junto dele, o olhava com ternura.

Quando Augusto julgou que era tempo de terminar, a jovenzinha recebeu os


pés de sua ama e os envolveu na toalha que tinha nos braços.

- Agora deixemo-la descansar, disse o moço.

- Ela corre algum risco?... perguntou a menina.

- Afirmo que acordará amanhã perfeitamente boa.

- Obrigada!

- Quer dar-me a honra de acompanhá-la até à sala? disse Augusto, oferecendo


a sua mão direita à bela Moreninha.

Ela não respondeu, mas olhou-o com gratidão, e aceitando o braço do


mancebo, deixou o quarto de Paula.

MACEDO, Joaquim Manuel de. A Moreninha. Edição digital em PDF da


Biblioteca Nacional. p. 57. Disponível em:
http://objdigital.bn.br/Acervo_Digital/livros_eletronicos/a_moreninha.pdf. Acesso
em: 21 abr. 2016.

Vocabulário:

mona: pileque, bebedeira.

Fim do vocabulário.

96
Neste fragmento de Memórias de um sargento de milícias, o assunto é
também um namoro.

TEXTO 2

O nascimento do herói

[...]

Sua história tem pouca coisa de notável. Fora Leonardo algibebe em Lisboa,
sua pátria; aborrecera-se porém do negócio, e viera ao Brasil. Aqui chegando,
não se sabe por proteção de quem, alcançou o emprego de que o vemos
empossado*, e que exercia, como dissemos, desde tempos remotos. Mas viera
com ele no mesmo navio, não sei fazer o que, uma certa Maria da hortaliça,
quitandeira das praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitota. O Leonardo,
fazendo-lhe justiça, não era nesse tempo de sua mocidade mal-apessoado, e
sobretudo era maganão. Ao sair do Tejo, estando a Maria encostada à borda
do navio, o Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com o
ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A Maria,
como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como envergonhada do gracejo, e
deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas costas da mão
esquerda. Era isto uma declaração em forma, segundo os usos da terra:
levaram o resto do dia de namoro cerrado; ao anoitecer passou-se a mesma
cena de pisadela e beliscão, com a diferença de serem desta vez um pouco
mais fortes; e no dia seguinte estavam os dois amantes tão extremosos e
familiares, que pareciam sê-lo de muitos anos.

* Leonardo conseguira o emprego de meirinho, oficial de justiça.

Quando saltaram em terra começou a Maria a sentir certos enojos: foram os


dois morar juntos: e daí a um mês manifestaram-se claramente os efeitos da
pisadela e do beliscão; sete meses depois teve a Maria um filho, formidável
menino de quase três palmos de comprido, gordo e vermelho, cabeludo,
esperneador e chorão; o qual, logo depois que nasceu, mamou duas horas
seguidas sem largar o peito. E este nascimento é certamente de tudo o que
temos dito o que mais nos interessa, porque o menino de quem falamos é o
herói desta história.

[...]
ALMEIDA, Manuel Antônio de. Memórias de um sargento de milícias. Edição
crítica de Cecília de Lara. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1973.
p. 6.

Vocabulário:

algibebe: mascate; vendedor ambulante de roupas;

saloio: camponês dos arredores de Lisboa;

maganão: malandro, maroto, trocista, brincalhão;

usos da terra: o substantivo terra refere-se a Portugal: costumes de Portugal;

enojo: enjoo.

Fim do vocabulário.

Releitura

Escreva no caderno

1. Compare os modos de apresentação dos personagens nos dois textos e


explique quais são as grandes diferenças observadas.

Resposta: Espera-se que os alunos observem a diferença do tom na


apresentação dos personagens (a solenidade da linguagem do narrador do
texto 1 e o tom descontraído e ligeiro do narrador do texto 2); a idealização dos
personagens no texto 1 (a delicadeza e a bondade de Carolina; o cavalheirismo
respeitoso de Augusto; o tratamento que utilizam um para o outro: Senhora,
Senhor) e a descrição realista e irônica, ressaltando traços caricaturais, no
texto 2.

2. As duas obras em questão apresentam quadros de costumes - A


Moreninha, situando a ação nos meados do século, durante o Segundo
Reinado, e Memórias de um sargento de milícias na segunda década, época
de D. João VI.

a) Quais são as diferenças entre o namoro de Augusto e Carolina e o de


Leonardo e Maria?

Resposta: Em A Moreninha, o namoro é cercado de convenções e interdições


(observe-se, ao final da cena, o respeitoso pedido de Augusto para
acompanhar Carolina até a sala); nas Memórias, é livre: ao descerem do
navio, Maria já estava grávida de Leonardo. A linguagem amorosa também é
muito diferente: cerimoniosa, para marcar a distância respeitosa entre os
namorados, em A Moreninha; franca, gestual e até agressiva nas Memórias.

b) Uma vez que os dois livros foram escritos na mesma época, com o intervalo
de menos de dez anos, quais seriam as razões dessas diferenças?

Resposta: Os alunos poderão apontar o fato de que, embora escritos na


mesma época, retratam tempos diferentes: nas Memórias, a história passa-se
no tempo de D. João VI, portanto entre 1808 e 1821; em A Moreninha, na
época do Segundo Reinado, mais de vinte anos depois. No entanto, a principal
razão é que os livros apresentam quadros de costumes de classes sociais
diferentes: as Memórias focalizam as camadas populares; A Moreninha, a
classe média alta.

97

Em tom de conversa

Discuta com seus colegas as seguintes questões:

1. A Moreninha foi uma das obras mais lidas no século XIX e sua popularidade
continuou no século seguinte. Foi adaptada para o cinema em 1915 (filme
mudo) e em 1970, e para telenovelas em 1965 e 1975. Considerando as
características do enredo e o trecho que você leu, como se pode explicar o
grande sucesso desse romance, sobretudo entre o público feminino do século
XIX? Por que suas adaptações para a televisão, nas décadas de 1960 e 1970,
foram destinadas ao horário das sete e das seis?

Resposta: Espera-se que os alunos levantem a hipótese de que o romance de


Macedo atendia ao gosto médio de leitores menos exigentes, sobretudo das
leitoras da época. Esse público buscava um entretenimento leve, em histórias
emocionantes que refletissem seus ideais de vida, seus sonhos e anseios. O
mesmo ocorre com o mundo cor-de-rosa das atuais novelas de televisão. O
horário das seis e o das sete são geralmente destinados a um público mais
jovem e feminino, na suposição de que ele se vê refletido nos personagens,
nos seus pequenos dramas de vida e nos seus casos amorosos.
2. No fragmento de Memórias de um sargento de milícias, o narrador afirma
que a "declaração em forma" entre os namorados ocorrera "segundo os usos
da terra". Ao descer do navio, Maria já apresentava os primeiros sintomas da
gravidez. Descontando os exageros - da idealização ou da sátira - dos textos,
qual dos dois tipos de "paquera" está mais próximo dos costumes de nosso
tempo? Exponha e explique sua opinião.

Resposta pessoal. Professor(a), o tema pode motivar uma boa discussão sobre
questões candentes como a liberdade sexual, a sexualidade responsável e a
gravidez indesejada.

NAVEGAR É PRECISO

Em 1966, a escola de samba Portela foi campeã do Carnaval carioca com o


enredo "Memórias de um sargento de milícias". O samba-enredo foi composto
por Paulinho daViola.

Era o tempo do rei

Quando aqui chegou

Um modesto casal

Feliz pelo recente amor

Leonardo, tornando-se meirinho

Deu a Maria Hortaliça um novo lar

Um pouco de conforto e de carinho

Dessa união, nasceu um lindo varão

Que recebeu o mesmo nome do seu pai

Personagem central da história

Que contamos neste carnaval

[...]

VIOLA, Paulinho da. Memórias de um sargento de milícias. Intérprete: Martinho


da Vila. In: MARTINHO DA VILA. Memórias de um sargento de milícias.
[S.l.]: RCA Victor, 1971. 1 disco sonoro. Faixa 11.

E MAIS...
Apresentação

Sob a orientação do(a) professor(a), participe de um dos quatro grupos de


leitura:

Grupo 1 - A Moreninha;

Grupo 2 - Memórias de um sargento de milícias;

Grupo 3 - Iracema: lenda do Ceará;

Grupo 4 - Lucíola.

Após a leitura, cada grupo deve preparar uma apresentação sobre a obra
abordando os seguintes tópicos:

· Temática principal.

· Tempo: época focalizada pela obra.

· Importância do espaço (físico e social).

· Personagens: protagonistas, antagonistas e secundários.

· Enredo: resumo, especificando o(s) conflito(s) principal(is), o ponto


culminante, a solução ou desenlace.

José de Alencar

Se, na década de 1840, coube a Joaquim Manuel de Macedo o papel de


pioneiro, nas décadas seguintes foi José de Alencar quem fixou e ampliou os
modelos do romance romântico brasileiro, diversificando seus temas e dando-
lhe uma qualidade literária superior.

Observando o conjunto de sua produção literária, temos a impressão de que


Alencar obedece a um sentimento de dever patriótico, como se cumprisse a
missão cívica de compor, num grande painel romanesco, o retrato da nova
nação. No prefácio "Bênção paterna" ao romance Sonhos d'ouro (1872), ele
faz um balanço de sua obra, procurando mostrar que ela abrange todas as
fases da vida brasileira.

Tradicionalmente, a crítica estabelece uma classificação para os romances de


José de Alencar, que pode ser vista na página seguinte:

98
1. Romances indianistas - dão continuidade à idealização do indígena,
iniciada na poesia. Exemplos: O guarani e Iracema.

2. Romances regionalistas - procuram apresentar as características mais


típicas das diversas regiões culturais do país. Exemplos: O gaúcho e O
sertanejo.

3. Romances históricos - seguindo os modelos do romance romântico


europeu, Alencar também busca temas para sua ficção em episódios de nossa
história colonial. Exemplo: As minas de prata.

4. Romances urbanos - ambientam-se na época do autor e retratam os


costumes da sociedade carioca do Segundo Reinado. Exemplos: Lucíola e
Senhora.

Obras de José de Alencar

Sua obra completa reúne vinte romances de desigual qualidade, entre os quais
duas obras-primas, Iracema e Senhora; seis peças de teatro; crônicas e
artigos de jornal; polêmicas literárias e políticas; discursos; pareceres jurídicos
e uma pequena autobiografia (Como e por que sou romancista).

LEITURA

Seixas

A um canto do aposento notava-se um sortimento de guarda-chuvas e


bengalas, algumas de muito preço. Parte destas naturalmente provinha de
mimos, como outras curiosidades artísticas, em bronze e jaspe, atiradas para
baixo da mesa, e cujo valor excedia de certo ao custo de toda a mobília da
casa.

Um observador reconheceria nesse disparate a prova material de completa


divergência entre a vida exterior e a vida doméstica da pessoa que ocupava
esta parte da casa.

Se o edifício e os móveis estacionários e de uso particular denotavam


escassez de meios, senão extrema pobreza, a roupa e os objetos de
representação anunciavam um trato de sociedade, como só tinham cavalheiros
dos mais ricos e francos da corte.
Esta feição característica do aposento repetia-se em seu morador, o Seixas,
derreado neste momento no sofá da sala, a ler uma das folhas diárias,
estendidas sobre os joelhos erguidos, que assim lhe servem de cômoda
estante.

É um moço que ainda não chegou aos trinta anos. Tem uma fisionomia tão
nobre quanto sedutora; belos traços, tez finíssima, cuja alvura realça a macia
barba castanha. Os olhos rasgados e luminosos às vezes coalham-se em um
enlevo de ternura, mas natural e estreme de afetação, que há de torná-los
irresistíveis, quando o amor os acende. A boca vestida por um bigode elegante
mostra o seu molde gracioso, sem contudo perder a expressão grave e sóbria,
que deve ter o órgão da palavra viril.

[...]

Apareceu à porta da escada uma pessoa, que deitou a cabeça a espiar,


dizendo:

- Mano, já acordou?

- Entra, Mariquinhas, respondeu o moço, do sofá.

CRÉDITO: Sebastião Augusto Sisson. Séc. XIX. Gravura. Fundação Biblioteca


Nacional, Rio de Janeiro

José Martiniano de Alencar (1829-1877)

José Martiniano de Alencar nasceu em Mecejana, no Ceará. Formado em


Direito em São Paulo, dividiu suas atividades entre a advocacia, o jornalismo e
a política, tendo sido deputado pela Província do Ceará e ministro da Justiça.
Candidato ao cargo de senador, foi o primeiro colocado numa lista sêxtupla, da
qual o Imperador deveria selecionar dois nomes. Não sendo escolhido,
desgostou-se da política e retirou-se da vida pública.

Como escritor, foi o principal prosador do Romantismo brasileiro, destacando-


se sobretudo pela fecundidade de sua imaginação.

99
A moça aproximou-se do sofá, reclinou-se para o irmão, que sem mudar de
posição cingiu-lhe o colo com o braço esquerdo atraindo-a a jeito de pousar-lhe
um beijo na face.

- Quer o seu café? perguntou Mariquinhas.

- Traze, menina.

Momentos depois voltou a moça com a xícara de café. Enquanto o irmão,


soerguendo o busto, sorvia aos goles a aromática bebida dos poetas sibaritas,
ela ia à alcova buscar um charuto de marca Pérola, e acendia um fósforo.

Todos estes pormenores praticava-os como quem tinha perfeito conhecimento


dos hábitos do irmão, e sabia por experiência que regalia não era o charuto
para fumar-se logo pela manhã, e depois do café.

Aceitava o indolente estes serviços como um sultão os receberia de sua almeia


favorita; de tão acostumado que estava, já não os agradecia, convencido de
que para a moça era uma fineza consentir que lhos prestasse.

ALENCAR, José de. Senhora. Edição crítica de José Carlos Garbuglio. Rio de
Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1979. p. 25.

Vocabulário:

jaspe: pedra preciosa, variedade opaca de quartzo;

estreme: puro, não contaminado;

sibarita: que ou quem é dado aos prazeres físicos, à voluptuosidade e à


indolência, a exemplo dos antigos habitantes da cidade de Síbaris, na Magna
Grécia;

almeia: dançarina oriental; [figurado] diz-se da dançarina que se requebra com


indolência agradável.

Fim do vocabulário.

Em tom de conversa

1. Segundo Antonio Candido, "Alencar tem um golpe de vista infalível para o


detalhe expressivo" (leia o boxe "O que dizem os especialistas"). Faça um
levantamento dos detalhes observados pelo narrador na descrição do quarto
de Fernando Seixas e discuta com seus colegas o significado metonímico
desses detalhes.

Resposta: Detalhes significativos: a enumeração de objetos caros (guarda-


chuvas, bengalas, curiosidades artísticas em bronze e jaspe); o contraste entre
esses objetos e o valor da mobília da casa; a desarrumação (os objetos estão
atirados para baixo da mesa). Com essa descrição, o autor pretende mostrar a
duplicidade (o "disparate") do personagem, a "divergência entre a vida exterior
e a vida doméstica", ou seja, entre o estilo de vida esnobe que ele exibe na
sociedade e sua situação real, só observável na pobreza e desarrumação do
quarto.

2. Releia a apresentação da personagem Aurélia na página 90 ("Primeira


leitura", texto 2). Discuta com seus colegas as principais diferenças entre as
duas personagens - Aurélia e Mariquinhas.

Resposta: Espera-se que os alunos observem desde as diferenças mais


evidentes, como as sugeridas pelos nomes (o nome latino, sofisticado de
Aurélia e o apelido popular e doméstico do diminutivo Mariquinhas), a riqueza,
o requinte e a simplicidade etc., até as que exigem interpretação mais acurada,
como a altivez e a independência de Aurélia em relação aos homens, e a
quase anulação, submissão e subserviência de Mariquinhas.

3. Você já pode prever que Aurélia e Seixas formarão o casal em conflito ao


longo do romance. Com base no título do livro e na apresentação dos dois
personagens que você leu nos fragmentos do livro, discuta com seus colegas
como poderá ser esse conflito.

Resposta: A discussão poderá tomar diversos rumos e servirá para motivar a


leitura do livro. As hipóteses, com base nos índices das descrições lidas,
poderão girar em torno da quebra da altivez de Aurélia e de sua submissão a
Seixas, ou, ao contrário, da submissão deste, um dos "noivos em
disponibilidade", aos caprichos de Aurélia. Uma hipótese relevante é a de que,
por se tratar de uma obra romântica, esses conflitos, ao final, se resolvam na
harmonia do amor. Professor(a), aproveite o ensejo de todas essas discussões
para sugerir a leitura do livro.

PARA NÃO ESQUECER


Metonímia - É o emprego de uma palavra por outra, com base numa relação
de dependência ou contiguidade de sentidos (a parte pelo todo, o efeito pela
causa, o continente pelo conteúdo, o autor pela obra etc.). Assim, pela
expressão significado metonímico, queremos referir a intenção do autor de
representar as características da personalidade de Seixas por meio dos
detalhes descritivos do quarto.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Alencar tem um golpe de vista infalível para o detalhe expressivo, desde o


charuto aceso e a mão que apanha a cauda, até os frutos de um prato ou os
gestos comerciais do corretor. Em Sonhos d'Ouro, toda a acanhada modéstia
de Dona Joaquina se contém numa inesquecível manteigueira azul, cujo
conteúdo, nunca renovado, vai-se esvaindo até os lambiscos das bordas.

Mas é na atenção com a moda feminina que podemos avaliar todo o senso de
detalhes exteriores, que iluminam a personalidade ou os lances da vida. Balzac
foi porventura o inventor da moda no romance, o primeiro a perceber a sua
íntima associação com o próprio ritmo da vida social e a caracterização
psicológica. Alencar não denota a influência marcada do mestre francês
apenas na criação de mulheres cujo porte espiritual domina os homens, ou na
mistura do romanesco e da realidade. Denota-a principalmente na intuição da
vestimenta feminina, que aborda como elemento de revelação da vida interior
[...]. Em Senhora, um peignoir de veludo verde marca o âmbito máximo da
tensão entre os dois esposos.

CANDIDO, Antonio. Formação da literatura brasileira: momentos decisivos.


Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1975. v. 2. p. 234.

100

E MAIS...

Roteiro de leitura coletiva

Prepare-se para participar de uma leitura coletiva. Sob a orientação do(a)


professor(a), os temas serão distribuídos entre os grupos de leitura.

Etapas:

1. Leitura individual do romance, fazendo anotações para a discussão do tema.


2. Discussão do tema atribuído ao grupo e preparo da apresentação das
conclusões em seminário.

3. Seminário - apresentação dos grupos e discussões.

4. A critério do(a) professor(a), produção de um trabalho escrito.

· Tema 1 - Organização do romance Senhora - significado dos títulos das


quatro partes, ordenação temporal, resumo do enredo.

· Tema 2 - Personagens de Senhora - personagens centrais: caracterização e


complexidade (contradições); personagens secundários: caracterização e
tipificação; antagonismos: personagens centrais x sociedade.

· Tema 3 - Aspectos realistas da obra - definição da temática; elementos de


crítica social; relação entre valores morais e valores mercadológicos.

· Tema 4 - Aspectos românticos da obra - idealização; análise da solução do


enredo (quarta parte: "Resgate").

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Na literatura brasileira, a prosa de ficção só tem início no Romantismo. Assim,


A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, publicado em 1844, é
considerado o primeiro romance não só dessa escola literária como também de
nossa literatura.

Compreende-se, então, que os prosadores românticos tenham assumido sua


produção literária com uma missão: preencher os vazios da representação
simbólica da identidade nacional. José de Alencar foi quem levou mais longe e
com maior qualidade estética esse "projeto". Seus romances indianistas,
regionalistas, históricos e urbanos exerceram grande influência em sua época e
são ainda referência obrigatória em nossa tradição.

Uma obra destaca-se no conjunto de nossa prosa romântica: as Memórias de


um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. O autor fugiu aos
padrões e chavões românticos, focalizando as classes populares e criando um
herói malandro que se tornou um modelo em nossa literatura.

Atividades

Escreva no caderno
Leia o texto e consulte o glossário à página 102 para responder às questões de
1 a 7.

Iracema: lenda do Ceará

Nasceu o dia e expirou.

Já brilha na cabana de Araquém o fogo, companheiro da noite. Correm lentas e


silenciosas no azul do céu, as estrelas, filhas da Lua, que esperam a volta da
mãe ausente.

Martim se embala docemente; e como a alva rede que vai e vem, sua vontade
oscila de um a outro pensamento. Lá o espera a virgem loura dos castos
afetos; aqui lhe sorri a virgem morena dos ardentes amores.

Iracema recosta-se langue ao punho da rede; seus olhos negros e fúlgidos,


ternos olhos de sabiá, buscam o estrangeiro e lhe entram n'alma. O cristão
sorri; a virgem palpita; como o saí, fascinado pela serpente, vai declinando o
lascivo talhe, que se debruça enfim sobre o peito do guerreiro.

101

Já o estrangeiro a preme ao seio; e o lábio ávido busca o lábio que o espera,


para celebrar nesse ádito d'alma, o himeneu do amor.

No recanto escuro o velho Pajé, imerso em funda contemplação e alheio às


coisas deste mundo, soltou um gemido doloroso. Pressentira o coração o que
não viram os olhos? Ou foi algum funesto presságio para a raça de seus filhos,
que assim ecoou n'alma de Araquém?

Ninguém o soube.

O cristão repeliu do seio a virgem indiana. Ele não deixará o rasto da desgraça
na cabana hospedeira. Cerra os olhos para não ver; e enche sua alma com o
nome e a veneração de seu Deus:

- Cristo!... Cristo!...

Volta a serenidade ao seio do guerreiro branco, mas todas as vezes que seu
olhar pousa sobre a virgem tabajara, ele sente correr-lhe pelas veias uma onda
de ardente chama. Assim quando a criança imprudente revolve o brasido de
intenso fogo, saltam as faúlhas inflamadas que lhe queimam as faces.
Fecha os olhos o cristão, mas na sombra de seu pensamento surge a imagem
da virgem, talvez mais bela. Embalde chama o sono às pálpebras fatigadas;
abrem-se, malgrado seu.

Desce-lhe do céu ao atribulado pensamento uma inspiração:

- Virgem formosa do sertão, esta é a última noite que teu hóspede dorme na
cabana de Araquém, onde nunca viera, para teu bem e seu. Faze que seu
sono seja alegre e feliz.

- Manda; Iracema te obedece. Que pode ela para tua alegria?

O cristão falou submisso, para que não o ouvisse o velho Pajé:

- A virgem de Tupã guarda os sonhos da jurema que são doces e saborosos!

Um triste sorriso pungiu os lábios de Iracema:

- O estrangeiro vai viver para sempre à cintura da virgem branca; nunca mais
seus olhos verão a filha de Araquém, e ele já quer que o sono feche suas
pálpebras, e que o sonho o leve à terra de seus irmãos!

- O sono é o descanso do guerreiro, disse Martim; e o sonho a alegria d'alma.


O estrangeiro não quer levar consigo a tristeza da terra hospedeira, nem deixá-
la no coração de Iracema!

A virgem ficou imóvel.

- Vai, e torna com o vinho de Tupã.

Quando Iracema foi de volta, já o Pajé não estava na cabana; tirou a virgem do
seio o vaso que ali trazia oculto sob a carioba de algodão entretecida de penas.
Martim lho arrebatou das mãos, e libou as gotas do verde e amargo licor.

Agora podia viver com Iracema, e colher em seus lábios o beijo, que ali viçava
entre sorrisos, como o fruto na corola da flor. Podia amá-la, e sugar desse
amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.

O gozo era vida, pois o sentia mais forte e intenso; o mal era sonho e ilusão,
que da virgem não possuía senão a imagem.

Iracema afastara-se opressa e suspirosa.


Abriram-se os braços do guerreiro adormecido e seus lábios; o nome da virgem
ressoou docemente.

A juruti, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as
asas, e voa a conchegar-se ao tépido ninho. Assim a virgem do sertão aninhou-
se nos braços do guerreiro.

Quando veio a manhã, ainda achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que
dormiu no seio do formoso cacto. Em seu lindo semblante acendia o pejo vivos
rubores; e como entre os arrebóis da manhã cintila o primeiro raio do sol, em
suas faces incendidas rutilava o primeiro sorriso da esposa, aurora de fruído
amor.

A jandaia fugira ao romper d'alva e para não tornar mais à cabana.

Vendo Martim a virgem unida ao seu coração, cuidou que o sonho continuava;
cerrou os olhos para torná-los a abrir.

A pocema dos guerreiros, troando pelo vale, o arrancou ao doce engano: sentiu
que já não sonhava, mas vivia. Sua mão cruel abafou no lábio da virgem o
beijo que ali se espanejava.

- Os beijos de Iracema são doces no sonho; o guerreiro branco encheu deles


sua alma. Na vida, os lábios da virgem de Tupã amargam e doem como o
espinho da jurema.

A filha de Araquém escondeu no coração a sua ventura. Ficou tímida e


inquieta, como a ave que pressente a borrasca no horizonte. Afastou-se rápida,
e partiu.

As águas do rio banharam o corpo casto da recente esposa.

Tupã já não tinha sua virgem na terra dos tabajaras.

ALENCAR, José de. Iracema: lenda do Ceará. Edição crítica de M. Cavalcanti


Proença. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; São Paulo: Edusp,
1979. p. 12.

102

Vocabulário:

langue: lânguida, sensual;


saí: "lindo pássaro, do qual há várias espécies, sendo a mais graciosa a do
saixê, tanto pela plumagem como pelo canto" (nota do autor);

talhe: tronco, torso;

ádito: câmara secreta, lugar recôndito;

himeneu: casamento, festa de núpcias;

virgem tabajara; virgem de Tupã: Iracema era uma espécie de sacerdotisa, a


virgem sagrada de sua tribo;

sonhos da jurema: "com as folhas e outros ingredientes [da jurema]


preparavam os selvagens uma bebida, que tinha o efeito do haxixe, de produzir
sonhos tão vivos e intensos, que a pessoa sentia com delícias e como se
fossem realidade as alucinações agradáveis da fantasia excitada pelo
narcótico. A fabricação desse licor era um segredo, explorado pelos pajés, em
proveito de sua influência" (nota do autor);

à cintura da virgem: "os indígenas chamavam a amante possuída aguaçaba;


de aba - homem, cua - cintura, çaba - coisa própria; a mulher que o homem
cinge ou traz à cintura. Fica, pois, claro o pensamento de Iracema" (nota do
autor);

carioba: camisa de algodão;

libar: beber;

jandaia: periquito ou maritaca amarela, de dorso verde e asas azuladas;

pocema: grito de guerra, grande alarido.

Fim do vocabulário.

1. Como na "Canção do exílio", de Gonçalves Dias, encontramos no terceiro


parágrafo do texto a oposição entre os advérbios aqui e lá. Como se
diferenciam as situações vividas pelo personagem Martim e o sujeito lírico da
"Canção do exílio"?

Resposta: O sujeito lírico da canção exprime suas saudades do Brasil por estar
"exilado" do país; Martim tem saudades de Portugal por estar no Brasil, mas
sente-se dividido entre o amor que deixou na terra natal e o amor que
encontrou na terra do exílio.
2. Ainda no mesmo parágrafo, a oposição completa-se pela caracterização de
dois ideais românticos de mulher. Em que se assemelham e em que se
diferenciam esses estereótipos?

Resposta: Eles correspondem à mulher europeia e à mulher americana. Ambas


são virgens, mas a primeira é loura e casta, ao passo que a segunda é morena,
de "ardentes amores".

3. A preocupação com a cor local constitui uma das principais manifestações


do nacionalismo romântico. Em Iracema, a linguagem poética é um verdadeiro
canto de exaltação à paisagem tropical. Mesmo a caracterização dos
personagens se faz sempre por meio de analogias que idealizam uma perfeita
harmonia entre o homem e a natureza. Transcreva do texto três analogias
entre o comportamento ou as características dos personagens e os elementos
da natureza tropical.

Resposta: Alguns exemplos: "ternos olhos de sabiá"; "como o saí, fascinado


pela serpente, vai declinando o lascivo talhe"; "o beijo, que ali viçava entre
sorrisos, como o fruto na corola da flor"; "A juruti, que divaga pela floresta, ouve
o terno arrulho do companheiro; bate as asas, e voa a conchegar-se ao tépido
ninho. Assim a virgem do sertão aninhou-se nos braços do guerreiro"; "ainda
achou Iracema ali debruçada, qual borboleta que dormiu no seio do formoso
cacto"; "Na vida, os lábios da virgem de Tupã amargam e doem como o
espinho da jurema".

4. Ao narrar o beijo de Iracema e Martim, o narrador pergunta se Araquém teria


tido algum "presságio para a raça de seus filhos". Explique que presságio seria
esse.

Resposta: O pajé poderia estar antevendo o futuro dos índios, dominados,


aculturados ou mesmo exterminados pela ação colonizadora dos europeus.

5. Iracema segue as convenções românticas das novelas de psicologia


amorosa: os amantes são postos à prova e devem lutar contra os interditos que
se colocam à sua união.

a) Releia os parágrafos de 8 a 11 e explique o conflito vivido por Martim.


Resposta: Martim vive o conflito entre a realização do impulso amoroso e a
conservação de sua honra. Ele deseja Iracema ardentemente, mas sua
condição de hóspede de Araquém o obriga a respeitá-la.

b) Por que Iracema não pode unir-se a Martim?

Resposta: Ela é a "virgem de Tupã", guardiã do segredo da jurema; sua


condição de virgem era sagrada. Além disso, Martim é aliado dos pitiguaras e,
portanto, inimigo dos tabajaras. Unindo-se a ele, ela trairia duplamente o seu
povo.

6. Para fugir ao seu dilema, Martim pede que ela lhe dê os "sonhos da jurema".
Explique a decepção de Iracema.

Resposta: Ela também o ama e deseja. Enciumada, pensa que Martim quer
transportar-se em sonho a Portugal, onde está a virgem branca.

7. A jandaia era a companheira inseparável de Iracema. Explique o significado


simbólico de sua fuga, considerando o contexto em que ela ocorre.

Resposta: A fuga da jandaia representa a ruptura da harmonia entre Iracema e


a natureza, pois a virgem de Tupã traiu sua função sagrada ao entregar-se a
Martim.

Leia o texto a seguir para responder às questões 8 e 9. Trata-se de um


fragmento de um dos capítulos iniciais de O guarani, de José de Alencar. Peri,
o herói do romance, empreende a caçada de uma onça, apenas para satisfazer
a curiosidade de sua amada Cecília, que nunca vira de perto esse animal ainda
vivo.

Caçada

[...]

O tigre tinha-se voltado ameaçador e terrível, aguçando os dentes uns nos


outros, rugindo de fúria e vingança: de dois saltos aproximou-se novamente.

Era uma luta de morte a que ia se travar; o índio o sabia, e esperou


tranquilamente, como da primeira vez; a inquietação que sentira um momento
de que a presa lhe escapasse, desaparecera: estava satisfeito.
Assim, estes dois selvagens das matas do Brasil, cada um com as suas armas,
cada um com a consciência de sua força e de sua coragem, consideravam-se
mutuamente como vítimas que iam ser imoladas.

O tigre desta vez não se demorou; apenas se achou a coisa de quinze passos
do inimigo, retraiu-se com uma força de elasticidade extraordinária e atirou-se
como um estilhaço de rocha, cortada pelo raio.

Foi cair sobre o índio, apoiado nas largas patas de detrás, com o corpo direito,
as garras estendidas para degolar a sua vítima, e os dentes prontos a cortar-
lhe a jugular.

A velocidade deste salto monstruoso foi tal que, no mesmo instante em que
viram brilhar entre as folhas os reflexos negros de sua pele azevichada, já a
fera tocava o chão com as patas.

Mas tinha em frente um inimigo digno dela, pela força e agilidade.

103

Como a princípio, o índio havia dobrado um pouco os joelhos, e segurava na


esquerda a longa forquilha, sua única defesa; os olhos sempre fixos
magnetizavam o animal. No momento em que o tigre se lançava, curvou-se
ainda mais, e fugindo com o corpo apresentou o gancho. A fera, caindo com a
força do peso e a ligeireza do pulo, sentiu o forcado cerrar-lhe o colo, e vacilou.

Então, o selvagem distendeu-se com a flexibilidade da cascavel ao lançar o


bote: fincando os pés e as costas no tronco, arremessou-se e foi cair sobre o
ventre da onça, que, subjugada, prostrada de costas, com a cabeça presa ao
chão pelo gancho, debatia-se contra o seu vencedor, procurando debalde
alcançá-lo com as garras.

Esta luta durou minutos; o índio, com os pés apoiados fortemente nas pernas
da onça, e o corpo inclinado sobre a forquilha, mantinha assim imóvel a fera,
que há pouco corria a mata não encontrando obstáculos à sua passagem.

Quando o animal, quase asfixiado pela estrangulação, já não fazia senão uma
fraca resistência, o selvagem, segurando sempre a forquilha, meteu a mão
debaixo da túnica e tirou uma corda de ticum que tinha enrolada à cintura em
muitas voltas.
Nas pontas desta corda havia dois laços que ele abriu com os dentes e passou
nas patas dianteiras ligando-as fortemente uma à outra; depois fez o mesmo às
pernas, e acabou por amarrar as duas mandíbulas, de modo que a onça não
pudesse abrir a boca.

ALENCAR, José de. O guarani. Porto Alegre: L&PM, 2011. p. 28. Edição
digital.

8. Compare as atitudes da onça e do selvagem enquanto se preparam para a


luta.

Resposta: As atitudes são opostas. O narrador estabelece um contraste entre a


excitação feroz da onça, sua terrível e impaciente disposição para o ataque, e a
tranquilidade do índio, cujo único temor era que a presa lhe escapasse.

9. Releia o terceiro parágrafo do texto. Com base nele e no desfecho da luta


travada entre Peri e a onça, explique a idealização do índio realizada por
Alencar e pelos indianistas românticos.

Resposta: No terceiro parágrafo o índio e a onça são igualados como


manifestações da natureza selvagem. Mas ele não age apenas por instinto; à
sua força, coragem e agilidade soma-se a inteligência humana. Por isso ele
sobrepuja a natureza e se torna uma espécie de invencível super-homem.

10. Ao criticar a idealização romântica do índio brasileiro, Monteiro Lobato toma


Peri como exemplo:

Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava


Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a
ombro com altos tipos civilizados, a todos sobreleva em beleza d'alma e corpo.

Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real,


feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de
arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.

LOBATO, Monteiro. Urupês. In: _____. Urupês. São Paulo: Brasiliense, 1985.
p. 145.

Você concorda com a crítica de Lobato? Justifique sua resposta.


Resposta pessoal. Espera-se que o aluno perceba que, se de um lado é
correta a crítica à idealização romântica do índio, a descrição do "selvagem
real" por Lobato é preconceituosa. Essa descrição está longe de ser científica,
etnológica, por estar vincada por um padrão estético de beleza europeu e por
desconsiderar a ação destruidora do homem branco no processo de
aculturação imposto ao índio ao longo da história.

11. (Enem/MEC)

"Ele era o inimigo do rei", nas palavras de seu biógrafo, Lira Neto. Ou, ainda,
"um romancista que colecionava desafetos, azucrinava D. Pedro II e acabou
inventando o Brasil". Assim era José de Alencar (1829- 1877), o conhecido
autor de O guarani e Iracema, tido como o pai do romance no Brasil. Além de
criar clássicos da literatura brasileira com temas nativistas, indianistas e
históricos, ele foi também folhetinista, diretor de jornal, autor de peças de
teatro, advogado, deputado federal e até ministro da Justiça. Para ajudar na
descoberta das múltiplas facetas desse personagem do século XIX, parte de
seu acervo inédito será digitalizada.

História Viva, n. 99, 2011.

Com base no texto, que trata do papel do escritor José de Alencar e da futura
digitalização de sua obra, depreende-se que:

a) a digitalização dos textos é importante para que os leitores possam


compreender seus romances.

b) o conhecido autor de O guarani e Iracema foi importante porque deixou


uma vasta obra literária com temática atemporal.

c) a divulgação das obras de José de Alencar, por meio da digitalização,


demonstra sua importância para a história do Brasil Imperial.

d) a digitalização dos textos de José de Alencar terá importante papel na


preservação da memória linguística e da identidade nacional.

e) o grande romancista José de Alencar é importante porque se destacou por


sua temática indianista.

Resposta: Alternativa d.
104

capítulo 6 - O Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo

Neste capítulo, vamos nos dedicar às Escolas Realistas da segunda metade do


século XIX, comparando-as com o Romantismo, mostrando as diferenças e
semelhanças entre elas, apontando seu surgimento na Europa, sua passagem
por Portugal e, enfim, o que representaram para a ainda jovem literatura
brasileira de então.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

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· CASTRO, Rui. Bilac vê estrelas. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

· SANTOS, Joel Rufino dos. Claros sussurros de celestes ventos. Rio de


Janeiro: Bertrand Brasil, 2012.

Vídeo

· O REALISMO - movimento literário artístico no Brasil. Produção: Vou lhe


dizer. Videoclipe de rap (3min5s). Disponível em: http://tub.im/v5tfk4. Acesso
em: 21 abr. 2016.

Música

· ROSA, Noel; BARBOSA, Orestes. Positivismo. Intérprete: Noel Rosa. In:


_____. Noel pela primeira vez. São Paulo: Galeão Novodisc, 2002. 14 CDs.
Vol. 7. Faixa 12. Disponível em: http://tub.im/ebs5in. Acesso em: 21 abr. 2016.

105

Atenção Professor(a), a atividade da seção "É mais...", da página 110, requer


preparação antecipada. Fim da observação.

PRIMEIRA LEITURA

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

Você vai realizar um exercício de leitura comparativa de obras pictóricas


bastante representativas do estilo que acabou de estudar - o Romantismo - e
do estilo que será abordado neste capítulo - o Realismo. Relembre o que
aprendeu sobre o Romantismo, a fim de conseguir antecipar conclusões sobre
o Realismo, considerando que ambos se relacionam por meio de oposição.

PINTURA 1

LEGENDA: O enterro de Atala (1808), de Anne-Louis Girodet.

CRÉDITO: Anne-Louis Girodet. 1808. Óleo sobre tela, 210 × 267 cm. Museu do
Louvre, Paris

PINTURA 2

LEGENDA: Enterro em Ornans (1850), de Gustave Courbet.

CRÉDITO: Gustave Courbet. 1850. Óleo sobre tela, 314 × 663 cm. Museu
d'Orsay, Paris

106

Em tom de conversa

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

Observe detalhadamente as reproduções das telas e comente com seus


colegas:

1. Qual delas lhe parece mais expressiva? Por quê?

Resposta pessoal.

2. Embora sejam bastante diferentes, as pinturas apresentam uma temática


semelhante. Qual é essa temática?

Resposta: A temática da morte, do sepultamento.

3. Compare os títulos de ambas as pinturas e relacione-os aos elementos nelas


retratados. Em que aspecto eles se diferenciam?

Resposta: Enquanto o título da pintura 1 se refere a um enterro em especial (O


enterro de Atala), o título da pintura 2 indetermina de quem é o enterro,
mencionando apenas o lugar onde ele ocorre (Enterro em Ornans), o que o
torna, assim, mais corriqueiro.

4. Uma das pinturas é romântica e a outra realista. Em sua opinião, qual delas
é romântica? Dê uma justificativa para a sua resposta.
Resposta: A primeira pintura é romântica, pois apresenta Atala, a heroína
morta, de maneira individualizada, centralizada e repleta de dramaticidade.

5. E quanto à pintura realista, quais são os elementos contrastantes com os


verificados na pintura romântica?

Resposta: A cena da pintura 2 é representada como um acontecimento que faz


parte da vida cotidiana e coletiva, pois vários personagens exemplificam o
comparecimento, no enterro, de uma comunidade, com suas diversas classes e
funções sociais.

Releitura

Escreva no caderno

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

1. A pintura 1 foi elaborada com base em uma cena do romance Atala, do


escritor romântico Chateaubriand, enquanto a pintura 2, segundo palavras do
próprio autor, representa ironicamente o enterro do Romantismo.

a) Relacionando tema e forma, explique por que podemos considerar a pintura


1 um exemplo de idealização romântica.

Resposta: Ao dar à cena da amada morta um tom solene, que se aproxima do


sublime, a pintura exemplifica a idealização romântica do amor, em geral
marcada pela impossibilidade de realização concreta.

b) A pintura 2 caracteriza-se por um tipo de representação que podemos


chamar de verista. Entre os elementos indicados a seguir, identifique aquele
que não contribui para construir esse "efeito de realidade".

· Tema extraído da realidade.

· Cenário da pintura: cidade natal de Courbet (Ornans).

· Intenção documental.

· Presença de personagens verídicos, que posaram como modelos.

· Ausência de representação das diversas classes sociais.

Resposta: Ausência de representação das diversas classes sociais.


c) Em sua opinião, o verismo da pintura torna-a feia, vulgar? Por quê?

Resposta pessoal.

Verismo - [...] 1. teoria segundo a qual a rígida representação da verdade e da


realidade é essencial à arte e à literatura, as quais devem, portanto, incluir
também o feio e o vulgar; 2. o uso do dia a dia em obras artísticas.

HOUAISS, Antônio. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa.


Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 1 CD-ROM.

2. A pintura 1 apresenta um cenário sombrio, uma caverna fechada e escura,


que contrasta com uma luz intensa, mas distante, dirigindo o olhar do
observador para o personagem morto. A presença marcante de contrastes e
oposições, como escuro/claro, interior/exterior, morte/vida acentua qual
característica a seguir, tipicamente romântica?

a) Exotismo.

b) Emocionalismo.

c) Nacionalismo.

Resposta: Alternativa b.

107

LEITURA

Em companhia de seus colegas, leia e releia o soneto "Mais luz!", de Antero de


Quental, relacionando-o com as pinturas estudadas e aprofundando as suas
descobertas sobre o Realismo.

Mais luz!

Amem a noite os magros crapulosos,

E os que sonham com virgens impossíveis,

E os que se inclinam, mudos e impassíveis,

À borda dos abismos silenciosos...

Tu, Lua, com teus raios vaporosos,

Cobre-os, tapa-os e torna-os insensíveis,


Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis

Como aos longos cuidados dolorosos!

Eu amarei a santa madrugada,

E o meio-dia, em vida refervendo,

E a tarde rumorosa e repousada.

Viva e trabalhe em plena luz: depois,

Seja-me dado ainda ver, morrendo,

O claro Sol, amigo dos heróis!

QUENTAL, Antero de. In: MOISÉS, Massaud. A literatura portuguesa através


dos textos. São Paulo: Cultrix, 1998. p. 351-352.

Vocabulário:

crapuloso: libertino, devasso;

inextinguível: que não pode desaparecer, que não pode esgotar-se, acabar.

Fim do vocabulário.

Releitura

Escreva no caderno

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

1. Na pintura de Courbet, há uma luminosidade que vem do céu, parecendo


anunciar a chegada da luz do sol, em oposição às "trevas românticas". Que
passagens do poema podem ser relacionadas com essa luminosidade?
Explique.

Resposta: Tanto o título quanto os dois tercetos do poema fazem a apologia à


luz do sol, do dia, que simboliza o racionalismo defendido pelos realistas, em
oposição ao emocionalismo romântico, simbolizado pela noite.

2. No poema há figuras de linguagem e outros procedimentos retóricos que lhe


garantem beleza e expressividade. Seguindo o modelo apresentado, explique o
efeito que produzem os recursos indicados nos itens a seguir. Exemplo:
· Antítese

"Amem a noite os magros crapulosos,"

"Eu amarei a santa madrugada,"

Efeito expressivo: realçar o contraste entre o Romantismo e o Realismo, em


defesa do segundo contra o primeiro.

Resposta: "Tu, Lua, com teus raios vaporosos, / Cobre-os, tapa-os e torna-os
insensíveis, / Tanto aos vícios cruéis e inextinguíveis / Como aos longos
cuidados dolorosos!" Efeito expressivo: a personificação da Lua permite que se
torne interlocutora do eu lírico.

a) Prosopopeia ou personificação.

b) Função conativa da linguagem (expressa ordem, pedido, conselho).

Resposta pessoal.

Atenção Professor(a), os alunos poderão citar como exemplo a segunda


estrofe. Efeito expressivo: ao pedir à Lua que proteja os poetas românticos de
seus vícios e sofrimentos, o eu lírico os trata de modo irônico, pois torna a Lua
- uma das principais confidentes dos românticos - aliada dos interesses dos
realistas. Fim da observação.

108

Antero de Quental (1842-1891)

Nasceu nos Açores (Ponta Delgada). Estudou Direito em Coimbra, onde cedo
se tornou o líder dos estudantes que constituiriam a chamada Geração
Materialista ou Geração de 70, que implantou o Realismo em Portugal. Em
1865, com Teófilo Braga e outros escritores, deflagrou a Questão Coimbrã e
publicou Odes modernas, considerada a principal obra da poesia realista
portuguesa. Mais tarde, ligou-se a membros avançados do Movimento
Proletário Internacional e procurou incansavelmente instaurar o pensamento
socialista em seu país, decepcionando-se a cada tentativa. A última delas foi
em 1890, quando se filiou à liga patriótica do Norte, na ocasião do Ultimatum
inglês. Com mais esse malogro, e já doente, entregou-se a um pessimismo
doentio que o levou ao suicídio.
LEGENDA: Antero de Quental

CRÉDITO: Columbano Bordalo Pinheiro. 1889. Óleo sobre tela. Museu


Nacional de Arte Contemporânea - Museu do Chiado, Lisboa

Comentário

As pinturas e o texto que você interpretou evidenciam alguns contrastes


significativos entre a visão realista e a visão romântica da realidade. Para os
românticos, o heroísmo, a dramaticidade e o escapismo são reações de
pessoas originais, complexas e profundas à superficialidade prosaica da vida
cotidiana. Para os realistas, essas mesmas características revelam
temperamentos fracos, vidas excessivamente idealistas.

O Romantismo e o Realismo são grandes correntes estético-literárias que se


desenvolveram ao longo do século XIX. Enquanto o Romantismo ocorreu
durante a primeira metade desse século, o Realismo surgiu na segunda, como
vimos, em oposição ao Romantismo.

Vamos estudar o Realismo e sua vertente denominada Naturalismo,


começando nosso trabalho com a apresentação da Geração Materialista.

A GERAÇÃO MATERIA LISTA

Desenvolvida entre 1870 e 1900, a chamada Geração Materialista é formada


por um grupo de intelectuais que domina todos os campos do saber,
desencadeando um forte movimento científico e filosófico, de cunho
marcadamente racionalista.

A influência dessa geração domina o cenário intelectual da segunda metade do


século XIX. Suas descobertas centralizam-se nos avanços das ciências
biológicas e físico-químicas, as quais passam a constituir os grandes
parâmetros de explicação da realidade e do comportamento humano.

Nesse contexto, as ciências sociais, que assumem uma posição de liderança,


utilizam métodos e princípios provenientes das ciências naturais.

O suporte intelectual da Geração Materialista ou Geração de 70

· O positivismo de Auguste Comte (Sistema de filosofia positiva, 1850)


Só devem ser considerados relevantes os fatos positivos, ou seja, aqueles
passíveis de análise científica.

· O determinismo histórico e geográfico de Hippolyte Adolphe Taine

O comportamento humano, a ser representado pela obra de arte, é


determinado por três fatores: meio, raça e momento histórico.

· O evolucionismo de Charles Darwin (A origem das espécies, 1859)

No processo de evolução das espécies, há uma seleção natural que leva os


mais aptos a terem maior chance de sobreviver.

109

· O socialismo utópico de Pierre-Joseph Proudhon e o socialismo


científico de Karl Marx e Friedrich Engels

Na luta de classes, o poder burguês tende a ser superado pela revolução


proletária.

· A negação do Cristianismo de Ernest Renan

A crença nas explicações científicas sobre a origem do Universo substitui as


crenças religiosas, sobretudo em relação ao Cristianismo.

O SURGIMENTO DAS ESCOLAS REALISTAS

As Escolas Realistas constituem as tendências estéticas que correspondem às


novas ideias. Elas compreendem três estilos essencialmente antirromânticos e
antiburgueses: o Realismo, o Naturalismo e o Parnasianismo. Embora
apresentem traços específicos, que os diferenciam, esses estilos aproximam-
se por constituírem uma reação contra o Romantismo, cujas formas estavam
desgastadas.

A França, que concentrou as grandes revoluções europeias do século XIX, foi


também o palco onde surgiram as Escolas Realistas, anunciadas desde a fase
final do Romantismo, marcadas por uma postura de intervenção crítica, de
caráter social.

O processo de passagem do Romantismo ao Realismo tem como fio condutor


as "narrativas de costumes burgueses", realizadas por romancistas do porte de
Honoré de Balzac (1799-1850), criador de A comédia humana, e Stendhal,
pseudônimo literário de Henri Beyle (1783-1842), que escreveu, entre outros
trabalhos, O vermelho e o negro e A cartuxa de Parma.

Em sentido estrito, Romantismo e Realismo são, como vimos, as grandes


correntes estético-literárias que se desenvolveram ao longo do século XIX.

LEGENDA: Música no Jardim das Tulherias (1862), de Édouard Manet.

CRÉDITO: Édouard Manet. 1862. Óleo sobre tela, 76,2 × 118,1 cm. Galeria
Nacional, Londres

FIQUE SABENDO

A Europa na segunda metade do século XIX

Na segunda metade do século XIX, a Europa apresenta como principal


característica sociopolítica e econômica a consolidação do poder burguês,
tanto em termos ideológicos (o liberalismo político) quanto em termos
produtivos (o liberalismo econômico).

Esse quadro significa, na prática, a aceleração vertiginosa do sistema


capitalista, fundamentalmente decorrente do avanço industrial, impulsionado
pelo desenvolvimento da ciência. Destacam-se as descobertas que garantiram
o expressivo aumento da velocidade das comunicações: máquinas a vapor
imprimem novos ritmos ao sistema de locomoção; novas formas de impressão
tornam mais ágeis a circulação de livros e jornais.

Esboçam-se assim os alicerces da sociedade moderna: a mecanização do


mundo e da vida, intensificada pela aceleração das disputas internacionais em
torno dos mercados consumidores.

Contrariando antigos ideais revolucionários, o domínio burguês marginaliza a


maior parte da população, o que exacerba tensões sociais e políticas,
representadas sobretudo pelo surgimento do proletariado urbano como nova
classe que se organiza contra os abusos do modelo burguês-capitalista.

A década de 1860 é marcada por movimentos reivindicativos contra o excesso


de trabalho e a precariedade de salários. As manifestações se alastram por
toda a Europa, culminando com a Comuna de Paris, de 1871, uma sangrenta
tentativa de a classe proletária tomar o poder político.
110

Você já sabe que o Romantismo se caracteriza fundamentalmente pela ideia


de liberdade, entendida como libertação da subjetividade, dos sentimentos, da
imaginação criadora, da fantasia, e, consequentemente, de libertação das
regras clássicas que condicionavam a criação literária.

Já o Realismo baseia-se nas ideias de racionalidade e objetividade, propondo


retratar fielmente a vida contemporânea (a sociedade burguesa e seus
valores), para desnudá-la, criticá-la, transformá-la.

As propostas realistas exigem um tipo de representação fotográfica da


realidade, que se dá por meio de descrições detalhistas, baseadas em
impressões sensíveis. Por isso, a nova escola domina, sobretudo, as artes
plásticas - pintura e escultura - e a literatura.

Veja os principais representantes das Escolas Realistas:

· Nas artes plásticas, destaca-se a pintura de Gustave Courbet e de Edouard


Manet.

· Na literatura, escandalizam o público a prosa de Champfleury, Gustave


Flaubert, Jules e Edmond de Goncourt, Guy de Maupassant e Émile Zola; e a
poesia de Théophile Gautier, Charles Baudelaire, Leconte de Lisle e Théodore
de Banville.

O surgimento das Escolas Realistas na Europa

CRÉDITO: Capa do livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Séc. XIX

· Realismo (1857) - publicação de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, obra


que tematiza o adultério feminino e questiona os males do casamento, visto
como instituição burguesa. Sua publicação provoca uma sucessão de
escândalos que culmina com um processo judicial contra o autor.

· Naturalismo (1880) - publicação de O romance experimental, de Émile


Zola, obra em que o autor defende a aproximação entre o método do escritor e
o método do cientista, trazendo o rigor e a experimentação da ciência
positivista e determinista para o campo da literatura.
· Parnasianismo (1866, 1871, 1876) - publicação de três antologias poéticas
denominadas Le Parnasse contemporain com poemas representativos do
estilo parnasiano, que se desenvolveu especialmente no campo da poesia e
pregava um ideal de perfeição formal e estilística.

E MAIS...

Discussão

Leia atentamente os conceitos genéricos de Romantismo e Realismo


apresentados a seguir.

Romantismo versus Realismo

Os termos Realismo e Romantismo são usados, na literatura e nas artes em


geral, com dois sentidos.

Em sentido amplo, podemos considerar o Romantismo (ênfase na fantasia) e o


Realismo (ênfase no mundo real) como as duas tendências básicas do fazer
estético que sempre coexistem numa obra, já que a tensão entre fantasia e
realidade caracteriza esse fazer. No entanto, uma das tendências
invariavelmente predomina sobre a outra, de acordo com o momento histórico-
cultural e literário em que a obra foi produzida.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

A designação de Realismo, dada a esse movimento, é inadequada, pois o


realismo ocorre em todos os tempos como um dos polos da criação literária,
sendo a tendência para reproduzir nas obras os traços observados no mundo
real - seja nas coisas, seja nas pessoas e nos sentimentos. Outro polo é a
fantasia, isto é, a tendência para inventar um mundo novo, diferente e muitas
vezes oposto ao mundo real.

CANDIDO, Antonio; CASTELLO, J. Aderaldo. Presença da literatura


brasileira: do Romantismo ao Simbolismo. São Paulo: Difel, 1978. p. 94.

111

Com base nessa leitura, discuta com seus colegas:

1. Com qual dos dois polos da criação literária e artística você sente maior
afinidade? Por quais razões? Exemplifique sua resposta com músicas, filmes,
revistas em quadrinhos, programas de TV ou outros tipos de manifestação
cultural de que goste.

Resposta pessoal.

2. Você acha que as posições romântica e realista diante da vida são


necessariamente excludentes ou, como na arte, podem ser complementares,
desde que se mobilize o conceito de predominância? Justifique.

Resposta pessoal.

O Realismo-Naturalismo em Portugal

A Questão Coimbrã (1865) e as Conferências do Cassino Lisbonense (1871)


são os principais eventos que desencadearam o Realismo-Naturalismo em
Portugal.

A Questão Coimbrã foi uma polêmica que se estabeleceu entre os românticos,


que defendiam o status quo literário, e os jovens revolucionários de Coimbra,
entre os quais se destacam Antero de Quental, Teófilo Braga e Eça de Queirós.

Em 1871, as Conferências do Cassino Lisbonense consolidam o projeto


literário, filosófico e político proposto pelos jovens coimbrãos de 1870, que
queriam modernizar o país, ligando-o aos objetivos e projetos da Geração
Materialista.

Nesse contexto, a poesia e a prosa convertem-se em armas de ação, em


formas de engajar o escritor na luta social de seu tempo, em modos
privilegiados de tentar superar o provincianismo da mentalidade portuguesa.

A preocupação com a reforma da sociedade portuguesa, por meio da


concepção da literatura como um "espelho" que deveria refletir as contradições
sociais, sintetiza a inserção do Realismo naturalista no país. Trata-se, enfim, do
retrato, da análise e da crítica das principais instituições sociais representativas
da sociedade burguesa, com a finalidade de demonstrar que essa classe
estava fracassada como regime político-social, e se encontrava, por isso, em
declínio.

Enquanto a escolha do casamento, visto como estrutura básica do sistema


burguês, torna-se um dos temas preferenciais do Realismo, a insistência no
adultério feminino manifesta alguns elementos típicos do Naturalismo,
presentes no movimento. Trata-se da visão determinista segundo a qual a
mulher reduz-se à condição de fêmea, submissa aos instintos e às influências
ambientais.

Além da família em decomposição, outros pilares da ordem social então


vigentes, tais como o clero e a aristocracia, são escolhidos como alvos e
dissecados em seus vícios e hipocrisias.

Eça de Queirós (1845-1900)

Nascido em Póvoa do Varzim, Eça de Queirós formou-se em Direito pela


Universidade de Coimbra. Participou ativamente do processo de criação do
Realismo português. Além de suas obras pragmáticas sobre o novo estilo,
como Prosas bárbaras (1905), fez parte do grupo O Cenáculo (1869) e foi um
dos membros responsáveis pelas Conferências do Cassino Lisbonense (1871).
Em Leiria, onde se preparou para a carreira diplomática, escreveu O crime do
padre Amaro, obra que inaugura oficialmente o Realismo-Naturalismo em
Portugal.

Principais obras de Eça de Queirós

Considerado um dos maiores prosadores em língua portuguesa, Eça de


Queirós é o criador de uma vasta obra que pode ser dividida em três fases:

112

· Primeira fase: literatura impregnada de romantismo social, com forte


influência de Victor Hugo.

Obras: O mistério da estrada de Sintra (1871 - espécie de romance policial


realizado em parceria com Ramalho Ortigão); As farpas (colaborações num
jornal satírico dirigido por Ramalho Ortigão, e mais tarde reunidas no título
Uma campanha alegre - 1890-1891); Prosas bárbaras (1905).

· Segunda fase: adesão ao Naturalismo, preservando a densidade artística do


escritor, na precisão com que cria retratos da sociedade portuguesa e também
na originalidade, fluência e vigor narrativo.

Obras: os famosos "romances de tese", de "inquérito da vida portuguesa", por


meio do combate às suas principais instituições: a Igreja - O crime do padre
Amaro (1875); a burguesia - O primo Basílio (1878); e a aristocracia - Os
Maias (1888).

· Terceira fase: meditação filosófica e esperançosa em valores humanos e


espirituais. Plena maturidade artística.

Obras: A ilustre casa de Ramires (1900); Correspondência de Fradique


Mendes (1900); e A cidade e as serras (1901).

LEITURA

Leia atentamente a opinião de Machado de Assis, o principal representante do


Realismo brasileiro, sobre O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós (texto
1). Em seguida, leia um trecho desse romance (texto 2) e responda às
questões propostas.

TEXTO 1

[...] O crime do padre Amaro revelou desde logo as tendências literárias do


Sr. Eça de Queirós e a escola a que abertamente se filiava. O Sr. Eça de
Queirós é um fiel e aspérrimo discípulo do realismo propagado pelo autor do
L'Assommoir. Se fora simples copista, o dever da crítica era deixá-lo, sem
defesa, nas mãos do entusiasmo cego, que acabaria por matá-lo; mas é
homem de talento, transpôs ainda há pouco as portas da oficina literária; e eu,
que lhe não nego a minha admiração, tomo a peito dizer-lhe francamente o que
penso [...].

Ora bem, compreende-se a ruidosa aceitação d'O crime do padre Amaro. [...]
Víamos aparecer na nossa língua um realista sem rebuço, sem atenuações,
sem melindres, resoluto a vibrar o camartelo no mármore da outra escola, que
aos olhos do Sr. Eça de Queirós parecia uma simples ruína, uma tradição
acabada. Não se conhecia no nosso idioma aquela reprodução fotográfica e
servil das coisas mínimas e ignóbeis. Pela primeira vez, aparecia um livro [...]
em que o escuso e o torpe eram tratados com um carinho minucioso e
relacionados com uma exação de inventário. [...] Porque a nova poética é isto,
e só chegará à perfeição no dia em que nos disser o número exato dos fios de
que se compõe um lenço de cambraia ou um esfregão de cozinha. [...]
ASSIS, Machado de. In: _____. Obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar,
1962. v. 3. p. 903-904.

Vocabulário:

L'Assommoir: A taverna, romance naturalista de Émile Zola;

camartelo: instrumento semelhante ao martelo; qualquer instrumento ou objeto


usado para quebrar, demolir, bater repetidamente;

escuso: suspeito, ilícito;

torpe: que contraria ou fere os bons costumes, a decência, a moral;

exação: exigência.

Fim do vocabulário.

113

TEXTO 2

O crime do padre Amaro (fragmento)

[...] Ela concordou logo - como em tudo que saía dos seus lábios. Desde a
primeira manhã, na casa do tio Esguelhas, ela abandonara-se-lhe
absolutamente, toda inteira, corpo, alma, vontade e sentimento: não havia na
sua pele um cabelinho, não corria no seu cérebro uma ideia, a mais pequenina,
que não pertencesse ao senhor pároco. Aquela possessão de todo o seu ser
não a invadira gradualmente; fora completa, no momento em que os seus
fortes braços se tinham fechado sobre ela. Parecia que os beijos dele lhe
tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma dependência inerte da
sua pessoa. E não lho ocultava: gozava em se humilhar, oferecer-se sempre,
sentir-se toda dele, toda escrava; queria que ele pensasse por ela e vivesse
por ela; descarregara-se-lhe nele, com satisfação, daquele fardo da
responsabilidade que sempre lhe pesara na vida; os seus juízos agora vinham-
lhe formados do cérebro do pároco, tão naturalmente como se saísse do
coração dele o sangue que lhe corria nas veias. [...] Vivia com os olhos nele,
numa obediência de animal: tinha só a curvar-se quando ele falava, e quando
vinha o momento de desapertar o vestido.
Amaro gozava prodigiosamente esta dominação; ela desforrava-o de todo um
passado de dependências - a casa do tio, o seminário, a sala branca do senhor
Conde de Ribamar... A sua existência de padre era uma curvatura humilde que
lhe fatigava a alma; vivia da obediência ao senhor bispo, à câmara eclesiástica,
aos cânones, à Regra que nem lhe permitia ter uma vontade própria nas suas
relações com o sacristão. E agora, enfim, tinha ali aos seus pés aquele corpo,
aquela alma, aquele ser vivo sobre quem reinava com despotismo. Se passava
os seus dias, por profissão, louvando, adorando e incensando Deus - era ele
também agora o Deus de uma criatura que o temia e lhe dava uma devoção
pontual. Para ela ao menos, era belo, superior aos condes e aos duques, tão
digno da mitra como os mais sábios. [...]

QUEIRÓS, Eça de. In: _____. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1986. p. 443-444.

LEGENDA: Capa do DVD do filme O crime do padre Amaro, direção de


Carlos Carrera, 2002.

CRÉDITO: Filme de Carlos Carrera, O crime do Padre Amaro.


México/Espanha/Argentina/França, 2002

Releitura

Escreva no caderno

1. No texto 1, Machado de Assis comenta o romance O crime do padre


Amaro, criticando severamente a filiação de Eça de Queirós ao Naturalismo de
Émile Zola, autor do romance L'Assommoir.

a) Explique o que este trecho do texto 1 indica sobre a posição de Machado de


Assis a respeito da adesão de Eça de Queirós ao Naturalismo.

Resposta: O fragmento indica que, embora considere Eça de Queirós um


grande escritor, Machado de Assis discorda de sua filiação ao Naturalismo,
como mostra a passagem "entusiasmo cego, que acabaria por matá-lo".

Se fora simples copista, o dever da crítica era deixá-lo, sem defesa, nas mãos
do entusiasmo cego, que acabaria por matá-lo; mas é homem de talento,
transpôs ainda há pouco as portas da oficina literária; e eu, que lhe não nego a
minha admiração, tomo a peito dizer-lhe francamente o que penso [...].
114

b) A que característica do Naturalismo a frase a seguir se refere?

Resposta: A frase refere-se à exploração demasiada da submissão dos


personagens dos romances naturalistas aos instintos, isto é, à sua
animalização.

Pela primeira vez, aparecia um livro [...] em que o escuso e o torpe eram
tratados com um carinho minucioso e relacionados com uma exação de
inventário.

2. Releia este trecho do texto 1.

Víamos aparecer na nossa língua um realista sem rebuço, sem atenuações,


sem melindres, resoluto a vibrar o camartelo no mármore da outra escola, que
aos olhos do Sr. Eça de Queirós parecia uma simples ruína, uma tradição
acabada.

a) A que estilo literário Machado de Assis se refere, por meio da expressão


"outra escola"?

Resposta: Machado de Assis se refere ao Romantismo.

b) Identifique o trecho da passagem que revela o tom irônico de Machado de


Assis ao tratar:

· a crueza com que o Naturalismo pretende "dissecar o real".

Resposta: "[...] um realista sem rebuço, sem atenuações, sem melindres".

· a violência com que Eça de Queirós pretende demolir a tradição romântica.

Resposta: "[...] resoluto a vibrar o camartelo no mármore da outra escola, que


aos olhos do Sr. Eça de Queirós parecia uma simples ruína, uma tradição
acabada".

c) Transcreva outro trecho do texto de Machado de Assis em que o autor


ironiza o Naturalismo.

Resposta: "Porque a nova poética é isto, e só chegará à perfeição no dia em


que nos disser o número exato dos fios de que se compõe um lenço de
cambraia ou um esfregão de cozinha."
3. Releia o fragmento de O crime do padre Amaro (texto 2) e transcreva a
primeira passagem que revela ao leitor a motivação sensual do domínio que
Amaro exerce sobre a personagem Amélia.

Resposta: "Aquela possessão de todo o seu ser não a invadira gradualmente;


fora completa, no momento em que os seus fortes braços se tinham fechado
sobre ela. Parecia que os beijos dele lhe tinham sorvido, esgotado a alma: [...]".

4. Por que a descrição de Amélia exemplifica o caráter minucioso com que,


segundo Machado de Assis, Eça de Queirós faz a "reprodução fotográfica e
servil das coisas mínimas e ignóbeis"? Exemplifique.

Resposta: A descrição de Amélia exemplifica esse caráter por ser realizada de


maneira determinista, mostrando reiteradamente a tendência naturalista de
redução da mulher à condição de fêmea, escravizada pelos instintos, como se
percebe em "Vivia com os olhos nele, numa obediência de animal: tinha só a
curvar-se quando ele falava, e quando vinha o momento de desapertar o
vestido".

5. Na sua opinião, a descrição de Amaro confirma ou contradiz a opinião que


Machado de Assis expressa na questão anterior? Utilize uma passagem do
texto 2 para exemplificar sua resposta.

Resposta: A descrição de Amaro confirma a opinião de Machado de Assis, pois


mostra que um personagem gosta de dominar o outro, desforrando-se, dessa
forma, de seu passado de dependências. Exemplo: "E agora, enfim, tinha ali
aos seus pés aquele corpo, aquela alma, aquele ser vivo sobre quem reinava
com despotismo".

NAVEGAR É PRECISO

Há filmes e minisséries produzidos com base nos famosos "romances de tese"


de Eça de Queirós: O primo Basílio, O crime do padre Amaro e Os Maias.

Pesquise na internet as versões dessas obras. Algumas foram realizadas com


muito rigor e qualidade.

Pesquise também as versões em pdf de A cidade e as serras e


Correspondência de Fradique Mendes.

O Realismo e o Naturalismo no Brasil


Em 1881, iniciam-se oficialmente o Realismo e o Naturalismo na literatura
brasileira, com a publicação de dois romances fundamentais: Memórias
póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis (marco do surgimento do
Realismo), e O mulato, de Aluísio Azevedo (marco do surgimento do
Naturalismo).

Trata-se de obras modelares no panorama de nossa literatura, pois, apesar de


serem muito diferentes, apresentam um traço comum: o triunfo da observação
da realidade. Por meio delas, o romance brasileiro ultrapassa a função de
entretenimento para assumir mais explicitamente a vocação de desvendar as
contradições sociais do país.

FIQUE SABENDO

Por volta de 1870, um conjunto de fatos intensifica o movimento de luta contra


as tradições monárquicas e oligárquicas que já existiam no Brasil, graças à
extinção do tráfico de escravos, em 1850. Tal fato acelera a decadência da
economia açucareira e desloca o eixo de prestígio para o Sul: o tráfico negreiro
é proibido; aumenta a mão de obra imigrante; desenvolve-se a indústria
cafeeira no interior de São Paulo; constroem-se ferrovias; funda-se o Partido
Republicano, interessado em substituir o trabalho escravo pelo trabalho livre.

Esse contexto, que vai de 1870 a 1890, favorece a entrada no país do


pensamento europeu, centrado na filosofia positivista e no evolucionismo.

A proclamação da República (1889) frustrou as ambições políticas das classes


médias urbanas e seus pares, pois os representantes das oligarquias de São
Paulo e Minas Gerais passam a controlar o Estado brasileiro, por meio de uma
aliança conhecida como política do café com leite.

Esse fato mostra que, embora a época estudada seja de avanço


socioeconômico e cultural, os conflitos básicos do país não se resolvem: por
um lado o Brasil acolhe ideias liberais, republicanas, "modernas", mas, por
outro, convive com uma estrutura oligárquica, agrária, coronelista e
latifundiária.

115

Aluísio Azevedo (1857-1913)


Nascido em São Luís do Maranhão, em 14 de abril de 1857, o romancista
Aluísio Azevedo foi o principal representante do Naturalismo no Brasil.

Na juventude, fazia caricaturas, pinturas e poesias para jornais e revistas no


Rio de Janeiro. Seu primeiro romance publicado foi Uma lágrima de mulher,
em 1880.

Escritor profícuo, que queria profissionalizar-se na área, publicou inúmeros


romances, entre os quais sobressaem O mulato (1881), que provocou
escândalo na época de seu lançamento; Casa de pensão (1884), que o
consagrou; e O cortiço (1890), considerado sua obra mais importante.

Aluísio não escondia seu inconformismo com a sociedade brasileira e suas


regras, o que transparece em outros títulos: A condessa Vésper (1882),
Girândola de amores (1882), Filomena Borges (1884), O Coruja (1890), O
homem (1887), O Esqueleto (1890), A Mortalha de Alzira (1894), O livro de
uma sogra (1895) e contos, como "Demônios" (1895).

Fundador da cadeira número quatro da Academia Brasileira de Letras, durante


grande parte de sua vida Aluísio de Azevedo viveu do que ganhava como
escritor, mas, ao entrar para a vida diplomática, abandonou a produção
literária.

Faleceu em Buenos Aires, Argentina, no dia 21 de janeiro de 1913.

O mulato

Obra muito bem recebida pela crítica e pelo público, já que, em plena
campanha abolicionista, tratava do preconceito racial, além de inaugurar a
narrativa propriamente naturalista no Brasil.

No entanto, conserva elementos românticos, que atravessam a trama amorosa


entre o protagonista Raimundo, filho bastardo de um imigrante português e ex-
traficante de escravos, e a prima Ana Rosa, filha de Manuel Pescada, tio de
Raimundo.

O cortiço

Não há dúvida de que O cortiço supera os outros trabalhos do escritor, por


vários motivos. Trata-se de uma obra que fixa, com precisão documental e
vivacidade descritiva, o cotidiano dos personagens coletivos de um Rio de
Janeiro em crescimento, marcado pela pobreza e pelas aglomerações urbanas,
nas quais trabalho e lazer se confundem, tanto quanto mulatos, negros e
imigrantes.

Nesse excelente exemplar da presença do Naturalismo em nossa literatura,


podemos perceber generalizações que se afastam do sumarismo, percepções
sobre o país que se sobrepõem a teorias prontas, preconcebidas, e um
enfoque ideológico, de clara denúncia social, que se equilibra com a qualidade
literária, sem que a obra se torne panfletária e propagandística.

João Romão, o protagonista, é uma versão carioca do self-made man, o


capitalista típico. O autor focaliza a ascensão do personagem, cuja brutalidade
se impõe em sua trajetória em direção ao alto da pirâmide social, desnudando
para o leitor como se dá tal processo, por meio da ênfase em detalhes sórdidos
e cruéis.

Tais detalhes estão ligados à exploração dos pobres, como as lavadeiras, os


trabalhadores da pedreira de João Romão, os fregueses que dependem de seu
armazém de secos e molhados, os inquilinos que moram em sua estalagem.
Esses personagens, de acordo com a visão determinista dominante no
romance, fundem-se num ambiente coletivo, sendo dominados pelas leis da
natureza. Entre eles, podemos destacar Bertoleza, a escrava negra e
concubina de João Romão, a quem o comerciante explora na condução dos
negócios até o momento em que a enxota, a fim de casar-se com Zulmira, a
filha de Miranda, o comendador do sobrado vizinho, que consegue o título de
barão.

116

LEITURA

Aprecie detalhadamente a tela reproduzida e depois discuta com seus colegas.

LEGENDA: Vagão de terceira classe (1863-1865), de Honoré Daumier.

CRÉDITO: Honoré Daumier. 1863-65. Óleo sobre tela, 65 × 90 cm. Museu


Metropolitano, Nova York

Em tom de conversa
1. Que tipo de impacto ela causa? Por quê? Tente perceber as semelhanças
que possui com Enterro em Ornans, de Gustave Courbet, que você
interpretou no início do capítulo.

Resposta pessoal.

2. Qual é o tema da pintura? Enumere os elementos nela presentes que


justifiquem sua resposta.

Resposta pessoal.

3. Você já sabe que os autores do Realismo pretendem mostrar os seres


humanos como são: sem heroísmos e sem transposição para tempos
idealizados, como faziam os românticos. Em sua opinião, essa característica
empobrece o valor estético da pintura? Justifique.

Resposta pessoal.

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

Releitura

Escreva no caderno

Note que a pintura compõe-se de dois planos, formados por personagens que
se contrapõem socialmente: os de "terceira classe", ou seja, os trabalhadores,
e aqueles que representam a classe média.

a) Em que medida a disposição dos personagens no espaço da obra revela a


intenção de denúncia social que caracteriza o Realismo?

Resposta: Essa intenção é revelada pelo fato de a pintura focalizar os


personagens populares, colocando-os no primeiro plano, de frente para o
observador, enquanto aqueles que representam a classe média encontram-se
no segundo plano, à esquerda, de costas, formando um círculo que os separa
dos demais.

b) Aprimore sua resposta à questão anterior, descrevendo como os


personagens que se contrapõem socialmente aparecem na pintura.

Resposta: Enquanto os personagens do primeiro plano estão malvestidos,


cansados, silenciosos e de olhos baixos, os do segundo plano apresentam-se
de modo oposto: ostentam elegância (vestem-se com formalidade, de preto e
tons sóbrios, os homens usam cartolas) e conversam.

117

LEITURA

Leia o trecho a seguir de O cortiço, de Aluísio Azevedo, e responda às


questões propostas.

O cortiço

O Miranda mandou logo levantar o muro.

Nada! aquele demônio era capaz de invadir-lhe a casa até a sala de visitas!

E os quartos do cortiço pararam enfim de encontro ao muro do negociante,


formando com a continuação da casa deste um grande quadrilongo, espécie de
pátio de quartel, onde podia formar um batalhão.

Noventa e cinco casinhas comportou a imensa estalagem.

Prontas, João Romão mandou levantar na frente, nas vinte braças que
separavam a venda do sobrado do Miranda, um grosso muro de dez palmos de
altura, coroado de cacos de vidro e fundos de garrafa, e com um grande portão
no centro, onde se dependurou uma lanterna de vidraças vermelhas, por cima
de uma tabuleta amarela, em que se lia o seguinte escrito a tinta encarnada e
sem ortografia:

"Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras".

As casinhas eram alugadas por mês e as tinas por dia; tudo pago adiantado. O
preço de cada tina, metendo a água, quinhentos réis; sabão à parte. As
moradoras do cortiço tinham preferência e não pagavam nada para lavar. [...]

E aquilo se foi constituindo numa grande lavanderia, agitada e barulhenta, com


as suas cercas de varas, as suas hortaliças verdejantes e os seus jardinzinhos
de três e quatro palmos, que apareciam como manchas alegres por entre a
negrura das limosas tinas transbordantes e o revérbero das claras barracas de
algodão cru, armadas sobre os lustrosos bancos de lavar. E os gotejantes
jiraus, cobertos de roupa molhada, cintilavam ao sol, que nem lagos de metal
branco.
E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa,
começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma
geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e
multiplicar-se como larvas no esterco.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. In: LEVIN, Orna Messer (Org.). Aluísio


Azevedo: ficção completa em dois volumes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
2005. v. 2. p. 451-452.

Vocabulário:

cortiço: habitação coletiva das classes pobres;

revérbero: luz, ou efeito de luz refletida, reflexo;

jirau: estrado de varas sobre forquilhas cravadas no chão;

fumegante: que fumega (lança fumaça);

esfervilhar: remexer-se muito, revolver-se com rapidez, fervilhar.

Fim do vocabulário.

LEGENDA: Estalagem do Rio de Janeiro, c. 1905.

CRÉDITO: Augusto Malta. Coleção particular

118

Releitura

Escreva no caderno

1. No fragmento, o leitor acompanha detalhadamente o surgimento de um


cortiço. Trata-se de um relato objetivo ou subjetivo? Por quê? Relacione sua
resposta com o foco narrativo do texto.

Resposta: O relato é objetivo, pois se trata de um narrador em 3ª pessoa, que


não participa do fato narrado, mantendo uma postura racional e objetiva em
relação a ele.

2. O fragmento incorpora o modo pelo qual os personagens se expressam,


como se vê em "Nada! aquele demônio era capaz de invadir-lhe a casa até a
sala de visitas!".
a) Reconheça o tipo de discurso empregado nessa passagem e utilize a
informação para concluir: o narrador é observador ou onisciente? Por quê?

Resposta: Trata-se do discurso indireto livre. Por meio dele, a voz do narrador
incorpora a do personagem e revela seus pensamentos e sentimentos, o que
nos permite concluir que o narrador é onisciente.

b) Nesse trecho, o narrador mostra o ponto de vista de qual personagem? Em


que tom? Justifique.

Resposta: Trata-se do personagem Miranda, cuja cólera se justifica pelo fato


de ver seu sobrado ser invadido pelo cortiço de João Romão. O tom é
coloquial, informal.

3. Leia o seguinte trecho e aponte o que é pedido nos itens a seguir.

[...] um grosso muro de dez palmos de altura, coroado de cacos de vidro e


fundos de garrafa, e com um grande portão no centro, onde se dependurou
uma lanterna de vidraças vermelhas, por cima de uma tabuleta amarela, em
que se lia o seguinte escrito a tinta encarnada e sem ortografia:

"Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras".

a) Uma característica do Realismo.

Resposta: A descrição detalhista e fotográfica.

b) Uma característica de João Romão e discuta se ela o aproxima ou o


distancia do narrador, justificando sua resposta.

Resposta: O desconhecimento da linguagem escrita. Essa característica o


distancia do narrador, como se percebe pelo fato de ele transcrever
corretamente o "escrito a tinta encarnada e sem ortografia" de João Romão:
"Estalagem de São Romão. Alugam-se casinhas e tinas para lavadeiras".

4. Uma característica naturalista do fragmento é a tentativa de explicar


biologicamente o processo de surgimento do cortiço, por meio de palavras e
expressões que aproximam o cortiço do mundo animal. Que parágrafo melhor
ilustra essa afirmação?

Resposta: O último parágrafo: "E naquela terra encharcada e fumegante,


naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a
crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar
espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar-se como larvas no
esterco.".

5. Identifique no parágrafo indicado na resposta da questão anterior:

a) os verbos que indicam tratar-se de uma proliferação promíscua, bestial de


pessoas;

Resposta: Os verbos são minhocar, esfervilhar, crescer, brotar, multiplicar-


se.

b) os substantivos e adjetivos que nomeiam e caracterizam esse ambiente;

Resposta: Os substantivos e adjetivos são "terra encharcada e fumegante";


"umidade quente e lodosa"; lameiro; larvas; esterco; geração [...] espontânea.

c) as reiterações, que enfatizam as características do cortiço, dando ritmo e


vitalidade à descrição. Exemplo: "E naquela terra encharcada e fumegante,
naquela umidade quente e lodosa".

· começou a minhocar

Resposta: começou a esfervilhar, a crescer; brotar espontânea

· um mundo

Resposta: uma coisa viva, uma geração; ali mesmo, daquele lameiro

6. A fusão entre os seres e o ambiente a que pertencem, os primeiros sendo


vistos como produtos do segundo, é outro traço naturalista fortemente presente
no trecho. Que comparação pode ser utilizada para justificar tanto a
animalização do ser humano quanto a sua redução às condições ambientais?

Resposta: A comparação é "[...] um mundo, uma coisa viva, uma geração, que
parecia [...] multiplicar-se como larvas no esterco.".

Leitura comparativa

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

Apoiado(a) no quadro da página a seguir, que aponta as principais diferenças


entre o Realismo e o Naturalismo, compare a pintura e o texto estudados,
indicando qual lhe parece ser predominantemente realista e qual lhe parece ser
predominantemente naturalista. Escreva um pequeno texto dissertativo, no qual
você possa defender a sua opinião com os melhores argumentos que
encontrar.

Em seguida, leia seu texto para os colegas e ouça os deles. Após trocarem
opiniões, aprimore sua percepção sobre o tema focalizado e, se necessário,
reescreva seu argumento.

119

Realismo Naturalismo

Investigação da sociedade e dos Investigação da sociedade e dos


caracteres individuais feita "de dentro caracteres individuais "de fora para
para fora", isto é, por uma análise dentro"; tendência à simplificação dos
psicológica capaz de abranger toda a personagens, vistos como joguetes,
sua complexidade, utilizando, entre títeres dos fatores biológicos e
outros recursos, a ironia, que sugere e ambientais que determinam suas ações,
aponta em vez de afirmar. pensamentos e sentimentos.

Ênfase nas relações entre o ser


Ênfase na descrição das coletividades,
humano e a sociedade burguesa,
dos tipos humanos que encarnam os
atacando suas instituições e seus
vícios, as taras, as patologias e as
fundamentos ideológicos: o
anormalidades reveladoras do
casamento, o clero, a escravização ao
parentesco entre o humano e o animal;
trabalho como meio de "vencer na
no ser humano descendo à condição
vida"; as contradições entre ricos e
animalesca em sua situação de mero
pobres, vistas pela ótica dos
produto das circunstâncias externas,
"vencidos" (marginais, operários,
como a hereditariedade e o meio
prostitutas etc.) e não dos
ambiente.
"vencedores" etc.

Tratamento imparcial e objetivo dos Tratamento dos temas com base em


temas, que garante ao leitor um uma visão determinista que conduz e
espaço de interpretação, de direciona as conclusões do leitor e
elaboração de suas conclusões a empobrece literariamente os textos.
respeito das obras.

Comentário

A pintura de Honoré Daumier, grande pintor e caricaturista do Realismo, e o


trecho de um romance fundamental da prosa naturalista brasileira, O cortiço,
de Aluísio Azevedo, constituem exemplos modelares de ambos os estilos.
Embora apresentem diferenças, eles se aproximam em sua postura
antimonárquica, anticlerical, antiburguesa e sobretudo antirromântica.

O Realismo e o Naturalismo são profundamente engajados no compromisso


com a grande reviravolta política, social, econômica e cultural que dá o tom
dessa época: a denúncia da falência dos ideais burgueses e da exploração do
proletariado.

Considerado nosso mais bem-acabado romance naturalista, vimos que O


cortiço baseia-se na rivalidade entre João Romão - comerciante português que
representa a ganância, a vontade de vencer na vida a qualquer custo - e o
comendador Miranda - burguês bem-sucedido, cuja posição João Romão
admira e inveja simultaneamente.

A força do livro vem da magistral caracterização dos tipos e espaços sociais,


que se sobrepõem às individualidades. Focalizando a convivência entre
exploradores e explorados, no Rio de Janeiro popular e urbano da segunda
metade do século XIX, percebemos o quanto Aluísio Azevedo usou sua
experiência com o teatro e sobretudo seu talento como desenhista e pintor
para, como ele mesmo descreve, desenhar mentalmente seus romances e
depois redigi-los.

LEITURA

Leia algumas descrições de personagens da obra O mulato, de Aluísio


Azevedo.

TEXTO 1

Ao abrir o livro, Ana Rosa soltou logo uma vergonhosa exclamação: dera com
um desenho, em que o autor da obra, com a fria sem-cerimônia da ciência,
expunha aos seus leitores uma mulher no momento de dar à luz o filho. [...]
Observou-o com profunda atenção, enquanto dentro dela se travava a batalha
dos

120

desejos. Todo o seu ser se lhe revolucionou; o sangue gritava-lhe, reclamando


o pão do amor; seu organismo inteiro protestava contra a ociosidade. E ela
então sentiu bem nítida a responsabilidade dos seus deveres de mulher
perante a natureza, compreendeu o seu destino de ternura e de sacrifícios,
percebeu que viera ao mundo para ser mãe; concluiu que a própria vida lhe
impunha, como lei indefectível, a missão sagrada de procriar muitos filhos,
sãos, bonitos, alimentados com seu leite, que seria bom e abundante [...].

AZEVEDO, Aluísio. O mulato. In: LEVIN, Orna Messer (Org.). Aluísio


Azevedo: ficção completa em dois volumes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
2005. v. 1. p. 345-346.

Vocabulário:

indefectível: que não falha, infalível, certo.

Fim do vocabulário.

LEGENDA: Maternidade (século XIX), pintura de Eugène Carrière.

CRÉDITO: Eugène Carrière. Séc. XIX. Óleo sobre tela, 61 × 46 cm. Museu
d'Orsay, Paris

TEXTO 2

[Raimundo] seria um tipo acabado de brasileiro, se não foram os grandes olhos


azuis que puxara do pai. Cabelos muito pretos, lustrosos e crespos; tez morena
e amulatada, mas fina; dentes claros que reluziam sob a negrura do bigode;
estatura alta e elegante; pescoço largo, nariz direito e fronte espaçosa. A parte
mais característica de sua fisionomia eram os olhos - grandes, ramalhudos,
cheios de sombras azuis; pestanas eriçadas e negras, pálpebras de um roxo
vagaroso e úmido; as sobrancelhas, muito desenhadas no rosto, como a
nanquim, faziam sobressair a frescura da epiderme, que, no lugar da barba
raspada, lembrava os tons suaves e transparentes de uma aquarela sobre
papel de arroz.
Tinha os gestos bem-educados, sóbrios, despidos de pretensão, falava em voz
baixa, distintamente, sem armar ao efeito; vestia-se com seriedade e bom
gosto; amava as artes, as ciências, a literatura e, um pouco menos, a política.

AZEVEDO, Aluísio. O mulato. In: LEVIN, Orna Messer (Org.). Aluísio


Azevedo: ficção completa em dois volumes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
2005. v. 1. p. 451-452,

Vocabulário:

tez: epiderme do rosto, cútis, pele;

ramalhudo: olho que tem grandes pestanas;

eriçado: arrepiado, ouriçado.

Fim do vocabulário.

CRÉDITO: Aluisio Azevedo. O mulato. 1ª ed. São Paulo: L&PM, 1998.

121

Releitura

Escreva no caderno

1. No texto 1, dedicado a Ana Rosa, prima de Raimundo (o mulato) que se


apaixona por ele, defrontamo-nos com uma "imagem" de mulher tipicamente
naturalista. Transcreva as passagens do fragmento que melhor ilustrem essa
afirmação, mostrando:

a) a submissão da personagem aos instintos.

Resposta: "[...] enquanto dentro dela se travava a batalha dos desejos. Todo o
seu ser se lhe revolucionou; o sangue gritava-lhe, reclamando o pão do amor;
seu organismo protestava contra a ociosidade."

b) as conclusões a que chega, quanto ao seu destino de mulher.

Resposta: "E ela então sentiu bem nítida a responsabilidade dos seus deveres
de mulher perante a natureza, compreendeu o seu destino de ternura e de
sacrifícios, percebeu que viera ao mundo para ser mãe [...]."
2. Que expressão do texto 1 nos faz compreender o caráter determinista, isto é,
de irrevogável determinação pela força da natureza, da concepção naturalista
sobre a mulher?

Resposta: "[...] concluiu que a própria vida lhe impunha, como lei indefectível, a
missão sagrada de procriar muitos filhos [...]."

3. No texto 2, dedicado a descrever Raimundo, temos uma descrição que se


aproxima do idealismo romântico.

a) Que características do personagem permitem-nos vê-lo como objeto de


idealização? Por quê?

Resposta: Os olhos azuis, os cabelos muito pretos e brilhantes, a tez fina, os


dentes claros, a estatura alta e elegante, o nariz direito, a fronte espaçosa, as
sobrancelhas muito desenhadas no rosto, a frescura da epiderme, os gestos
sóbrios, a fala em voz baixa, o vestir-se com bom gosto, o amor pelas artes,
ciência, literatura etc. Trata-se de um personagem idealizado, porque
corresponde a um estereótipo de beleza, educação e virtude.

b) Identifique a única passagem do fragmento que se refere ao fato de


Raimundo ser mulato.

Resposta: "[...] tez morena e amulatada [...]."

c) Como essa característica é relativizada ao longo da mesma passagem?

Resposta: Essa característica é relativizada por meio da conjunção mas, que


parece corrigir a afirmação anterior, destacando a finura da tez de Raimundo.

LEITURA

Leia agora algumas descrições de personagens da obra O cortiço, de Aluísio


Azevedo.

TEXTO 1

Maldita preta dos diabos! Era ela o único defeito, o senão, de um homem tão
importante e tão digno!

Agora, não se passava um domingo sem que o amigo de Bertoleza fosse jantar
à casa do Miranda. Iam juntos ao teatro. João Romão dava o braço à Zulmira,
e, procurando galanteá-la e mais ao resto da família, desfazia-se em obséquios
brutais e dispendiosos, com uma franqueza exagerada que não olhava gastos.
Se tinham de tomar alguma coisa, ele fazia vir logo três, quatro garrafas ao
mesmo tempo, pedindo sempre o triplo do necessário e acumulando compras
inúteis de doces, flores e tudo o que aparecia. Nos leilões das festas de arraial
era tão feroz a sua febre de obsequiar a gente do Miranda, que nunca voltava
para casa sem um homem atrás, carregado com os mimos que o vendeiro
arrematava.

AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Nobel, 2009. p. 199.

CRÉDITO: Editora Garnier

TEXTO 2

E Bertoleza bem que compreendia tudo isso e bem que estranhava a


transformação do amigo. Ele ultimamente mal se chegava para ela e, quando o
fazia, era com tal repugnância, que antes não o fizesse. A desgraçada muita
vez sentia-lhe cheiro de outras mulheres, perfumes de cocotes estrangeiras, e
chorava em segredo, sem ânimo de reclamar os seus direitos.

122

Na sua obscura condição de animal de trabalho, já não era amor o que a


mísera desejava, era somente confiança no amparo da sua velhice, quando de
todo lhe faltassem as forças para ganhar a vida. E contentava-se em suspirar
no meio de grandes silêncios durante o serviço de todo o dia, covarde e
resignada, como seus pais que a deixaram nascer e crescer no cativeiro.
Escondia-se de todos, mesmo da gentalha do frege e da estalagem,
envergonhada de si própria, amaldiçoando-se por ser quem era, triste de sentir-
se a mancha negra, a indecorosa nódoa daquela prosperidade brilhante e
clara.

E, no entanto, adorava o amigo; tinha por ele o fanatismo irracional das


caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravizam, dessas que morrem
de ciúmes, mas que também são capazes de matar-se para poupar ao seu
ídolo a vergonha do seu amor. O que custava aquele homem consentir que ela,
uma vez por outra, se chegasse para junto dele? Todo o dono, nos momentos
de bom humor, afaga o seu cão...
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. São Paulo: Nobel, 2009. p. 199.

Releitura

Escreva no caderno

1. Os textos 1 e 2 aproximam-se do desfecho de O cortiço, quando João


Romão já "refinou" a própria aparência, além de ampliar e modernizar a sua
estalagem. Entre outras reformas, nela construiu um sobrado para uso pessoal,
"mais alto e mais vistoso" que o do Miranda, com quem agora quer se aliar, a
fim de adquirir um título de nobreza e consolidar sua ascensão. No entanto, há
um empecilho a ser suprimido: Bertoleza.

a) O texto 1 começa mostrando o ponto de vista de João Romão a respeito de


Bertoleza e o modo como o narrador o caracteriza, agora que sua ascensão
consolidou-se. Comente o período inicial e aponte a razão pela qual podemos
considerá-lo irônico.

Resposta: O período é irônico porque a expressão "Maldita preta dos diabos!",


dita ou pensada enfaticamente por João Romão, não permite uma leitura
"séria" dos atributos conferidos pelo narrador ao personagem: "um homem tão
importante e tão digno".

b) No segundo parágrafo do texto 1, há passagens que denunciam a farsa do


suposto refinamento de João Romão, em sua convivência com a noiva Zulmira
e a família dela. Identifique as palavras ou expressões que realçam a grosseria
do personagem nessas passagens.

Resposta: "João Romão [...] desfazia-se em obséquios brutais e


dispendiosos, com uma franqueza exagerada que não olhava gastos. [...]
Nos leilões das festas de arraial era tão feroz a sua febre de obsequiar a
gente do Miranda, que nunca voltava para casa sem um homem atrás,
carregado com os mimos que o vendeiro arrematava".

2. O texto 2 é dedicado ao ponto de vista de Bertoleza diante da transformação


de João Romão. Observe que o narrador analisa os sentimentos e
pensamentos da personagem por meio de duas vertentes: uma de caráter
naturalista, marcada pelo determinismo biológico, e outra de caráter social, que
remete a características específicas da História do Brasil.
a) Explique por que as duas passagens a seguir concernem à vertente
naturalista, justificando sua escolha.

· "Na sua obscura condição de animal de trabalho [...]"

Resposta: O trecho exemplifica a redução do humano à condição animalesca,


própria do Naturalismo.

· "E, no entanto, adorava o amigo; tinha por ele o fanatismo irracional das
caboclas do Amazonas pelo branco a que se escravizam, dessas que morrem
de ciúmes, mas que também são capazes de matar-se para poupar ao seu
ídolo a vergonha do seu amor."

Resposta: O trecho exemplifica a submissão sexual da mulher ao homem,


nesse caso acentuada pela teoria da superioridade da raça ariana em relação
às raças mestiças.

b) Em "E contentava-se em suspirar no meio de grandes silêncios durante o


serviço de todo o dia, covarde e resignada, como seus pais que a deixaram
nascer e crescer no cativeiro", que característica da personagem pode ser
explicada socialmente, tendo em vista a História do Brasil?

Resposta: A característica é a condição de escrava da personagem.

c) Comente por que podemos considerar irônica a antítese apresentada a


seguir, tendo em vista a temática desenvolvida no livro.

Resposta: A antítese é irônica porque as imagens "mancha negra" e


"indecorosa nódoa", utilizadas para expressar o sentimento de Bertoleza de ser
um objeto e não um sujeito, na verdade caracterizam a suposta "prosperidade
brilhante e clara" de João Romão.

[...] triste de sentir-se a mancha negra, a indecorosa nódoa daquela


prosperidade brilhante e clara.

123

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

E MAIS...

Discussão
Com base nos fragmentos lidos, discuta com seus colegas:

1. Como os naturalistas veem a mulher e como justificam essa visão?

Atenção Professor(a), discuta com os alunos a tendência naturalista de


animalizar a mulher, reduzindo-a à condição de fêmea, destinada à procriação,
e de atribuir às leis da natureza essa concepção. Fim da observação.

2. Nos trechos de O mulato, qual dos personagens é caracterizado de forma


mais verossímil, na sua opinião?

Resposta pessoal.

3. Considerando os trechos de O cortiço, discuta a opinião do crítico literário


Antonio Candido sobre a atualidade dos temas tratados.

Resposta pessoal.

[...] O cortiço de Botafogo, estendendo-se rumo à pedreira [...], é uma


habitação coletiva que penetrou em todas as imaginações e sempre tirou o seu
prestígio do fato de parecer uma imagem poderosa e direta da realidade. Mas
em outro nível, não será também antinaturalisticamente uma alegoria do Brasil,
com sua mistura de raças, o choque entre elas, a natureza fascinadora e difícil,
o capitalista estrangeiro postado na entrada, vigiando, extorquindo, mandando,
desprezando e participando?

Talvez a força do livro venha em parte da contaminação do plano real e do


plano alegórico [...].

CANDIDO, Antonio. O discurso e a cidade. São Paulo: Duas Cidades, 1993.


p. 137.

4. Em sua opinião, é possível afirmar que existem traços do escravismo no


Brasil contemporâneo?

Resposta pessoal.

NAVEGAR É PRECISO

Assista com seus colegas ao curta-metragem Couro de gato, de 1960, dirigido


por Joaquim Pedro de Andrade e que faz parte do longa Cinco vezes favela,
do Centro Popular de Cultura/UNE (1963). Nesse curta, às vésperas do
Carnaval, garotos de uma favela roubam gatos para fabricantes de tamborim.
Síntese de ficção e documentário, o filme narra o amor de um menino por um
angorá e sua dor por ter de vender o gato. É possível encontrá-lo na internet.

Discuta com seus colegas a representação do cortiço estudada em O cortiço,


de Aluísio Azevedo, e a apresentada neste filme, procurando explicar por quais
razões ele é considerado um "poema visual".

Outros autores e obras naturalistas

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

Além de Aluísio Azevedo, mas com menor importância literária, há outros


autores e obras representativos do estilo naturalista em nossa ficção, como
Júlio Ribeiro (A carne), Inglês de Sousa (O coronel Sangrado) e Adolfo
Caminha (A normalista e O bom crioulo). Raul Pompeia, como veremos, é
um caso à parte, pois assimila e ao mesmo tempo transcende a tradição
naturalista.

Raul Pompeia (1863-1895)

Advogado, jornalista e artista de múltiplos talentos, Raul Pompeia, autor do


romance memorialista O Ateneu (1888), é considerado o único escritor de seu
tempo que seguiu alguns dos caminhos abertos pelo Realismo psicológico de
Machado de Assis, além de conjugá-los com procedimentos naturalistas,
impressionistas, expressionistas e simbolistas.

O Ateneu

A dimensão autobiográfica de O Ateneu está ligada a um episódio traumático


vivido por Raul Pompeia. Aos 10 anos tornou-se aluno de um famoso internato
carioca, o Colégio Abílio, dirigido pelo Barão de Macaúbas, personalidade
famosa na época por sua severidade e prepotência.

LEGENDA: Ilustração de Raul Pompeia para a obra O Ateneu.

CRÉDITO: Séc. XIX. Coleção particular

124

Chamado pelo autor de "crônica de saudades", O Ateneu ultrapassa essa


dimensão autobiográfica, graças à qualidade literária da obra. Ela apresenta
como mola propulsora do enredo a memória de Sérgio, o narrador-
personagem, que relata, em tom caricatural e não raro próximo do Naturalismo,
os episódios emocionalmente mais marcantes, ocorridos ao longo dos dois
anos em que foi aluno do colégio.

Dessa forma, O Ateneu tematiza as atrocidades cometidas nos bastidores de


uma instituição educativa considerada modelar e frequentada pela "fina flor" da
sociedade brasileira. Uma das faces da obra consiste em denunciar o regime
autoritário e hipócrita instituído pelo diretor, que se transfigura literariamente
em Aristarco, o "homem-sanduíche da educação brasileira".

A outra face centraliza-se em Sérgio, o adulto que narra em 1ª pessoa sua


própria história, desvendando as raízes de seu sentimento de solidão, de
inadaptação, de incomunicabilidade com os seres humanos. Nela predomina a
interiorização, a percepção psicológica fina, manifestada por procedimentos
impressionistas, expressionistas e anunciadores do Simbolismo.

FIQUE SABENDO

Impressionismo, Expressionismo, Simbolismo - Movimentos artísticos


europeus, nascidos nas artes plásticas, no final do século XIX, que são
considerados fundadores da modernidade artística.

Enquanto o Impressionismo consiste em realçar "não as coisas, mas a


impressão que elas causam" (Claude Monet) na interioridade do artista, o
Expressionismo enfoca o grotesco, o bizarro, o estranho de que os objetos se
revestem, deformados pela visão do criador. Já o Simbolismo caracteriza-se
por uma visão simbólica, subjetiva e mística do mundo.

LEITURA

Leia atentamente dois fragmentos de O Ateneu, notando a diversidade e a


qualidade dos recursos expressivos presentes no romance.

O Ateneu (fragmento 1)

Os olhos riam destilando uma lágrima de desejo; as narinas ofegavam;


adejavam trêmulas por intervalos, com a vivacidade espasmódica do amor das
aves; os lábios, animados de convulsões tetânicas, balbuciavam desafios,
prometendo submissão de cadela e a doçura dos sonhos orientais. Dominada
então pela oferta abusiva, de repente abatia-se à derradeira humilhação, para
atrair de baixo, como as vertigens. Ali estava, por terra, a prostituição da vestal,
o himeneu da donzela, a deturpação da inocente, três servilismos reclamando
um dono; apetite, apetite para esta orgia rara sem convivas!

POMPEIA, Raul. O Ateneu. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 67.

Vocabulário:

adejar: agitar; mover;

espasmódico: que se manifesta por espasmos (contrações súbitas e


involuntárias dos músculos; convulsões);

tetânico: da natureza do tétano; tirânico;

vestal: sacerdotisa de Vesta, deusa do fogo dos romanos; no trecho, por


extensão, significa mulher casta ou virgem;

himeneu: casamento, matrimônio;

conviva: convidado de banquete, festa etc.

Fim do vocabulário.

Releitura

Escreva no caderno

Nesta cena de volúpia, a descrição dos olhos, das narinas e dos lábios de uma
mulher, que se entrega ao desejo sexual, possui fortes traços naturalistas.

a) Exemplifique-os.

Resposta: "Os olhos riam, destilando uma lágrima de desejo; as narinas


ofegavam; adejavam trêmulas por intervalos [...]; os lábios, animados de
convulsões tetânicas, balbuciavam desafios, prometendo submissão de cadela
e a doçura dos sonhos orientais."

b) Explique em que consiste o Naturalismo da descrição.

Resposta: O Naturalismo da descrição está na ênfase dada à entrega da


personagem ao mundo dos sentidos, deixando-se possuir por ele.
c) As expressões "prostituição da vestal", "himeneu da donzela" e "deturpação
da inocente" referem-se a que contradição presente na personagem assim
caracterizada?

Resposta: A contradição está no fato de a virgindade da personagem, sugerida


por "vestal", "donzela" e "inocente", destoar de sua entrega ao desejo,
percebida por meio de termos como "prostituição", "por terra [...] o himeneu" e
"deturpação".

125

O Ateneu (fragmento 2)

O sol vinha também à capela e colava de fora a fronte às vidraças, brando


ainda do despertar recente, fresco da toillete da aurora, com medo de entrar,
corado de vergonha de não rezar, pobre astro ateu. Pelas janelas, abertas,
esgalhavam-se para dentro frondosas ramas de jasmineiro, como uma invasão
de floresta; e os jasmins de véspera, cansados, debulhavam-se em conchinhas
de nácar pelo soalho, mortos, expirando no ambiente a alma livre do aroma.

[...] A neblina de melancolia, baixada sobre o colégio da altura da cordilheira,


repercussão da tristeza verde das matas, pesava-me aos ombros como a loba
de um seminarista, como o voto de um frade; eu passeava na circunscrição do
recreio como num claustro, olhando as paredes, brancas como túmulos
caiados, limitando as preocupações do espírito à minha humilhação diante de
Deus, sem olhar para cima, na modéstia curvada dos brutos - anulando-me a
mim mesmo na angústia do pensamento religioso, como no saco de pano
bicudo, preto do farricoco.

O céu, que a imaginação buscara dantes como os cânticos buscam os


zimbórios, caía agora sobre mim como um solidéu de bronze.

Triste e feliz.

POMPEIA, Raul. O Ateneu. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1976. p. 72.

Vocabulário:

esgalhar-se: desgalhar-se, perder os galhos;

frondoso: copado, cerrado, espesso;


rama: conjunto dos ramos de uma planta; ramada; ramagem;

debulhar-se: desatar-se, desfazer-se;

nácar: substância branca, brilhante, com reflexos coloridos, que se encontra no


interior das conchas;

loba: batina;

farricoco: encapuzado que acompanhava as procissões de penitência,


tocando trombeta de vez em quando;

zimbório: cúpula de igrejas;

solidéu: pequeno barrete, em forma de calota, com que bispos e alguns


padres cobrem a cabeça.

Fim do vocabulário.

Releitura

Escreva no caderno

1. Transcreva um exemplo de personificação de seres inanimados, a que se


atribuem sentimentos humanos, presente no fragmento.

Resposta pessoal. Sugestão: "O sol vinha também à capela e colava de fora a
fronte às vidraças, brando ainda do despertar recente, fresco da toillete da
aurora, com medo de entrar, corado de vergonha de não rezar, pobre astro
ateu".

2. Releia este trecho:

[...] A neblina da melancolia, baixada sobre o colégio da altura da cordilheira,


repercussão da tristeza verde das matas, pesava-me aos ombros [...].

a) O que se percebe sobre o estado de espírito do narrador-personagem?

Resposta: Percebe-se que ele está melancólico e triste.

b) Que recurso o narrador-personagem utiliza para expressar os seus


sentimentos, nesse trecho em particular e ao longo de todo o texto?

Resposta: O narrador-personagem atribui aos elementos da paisagem os seus


sentimentos.
c) Chama-se Impressionismo a tendência de subjetivizar o objeto,
descrevendo-o com base nas impressões que causam ao observador. Que
estilo literário já estudado utiliza o mesmo recurso?

Resposta: O Romantismo.

d) Por que razão podemos afirmar que se trata de um recurso antirrealista?

Resposta: Pela intensa subjetividade que o caracteriza.

3. Outro recurso estilístico utilizado para contribuir com a riqueza expressiva do


texto é a comparação. Encontre no fragmento exemplos de comparações que
envolvam os elementos indicados, típicos do estilo simbolista.

a) Religiosidade.

Resposta: "como a loba de um seminarista"; "como o voto de um frade"; "como


num claustro"; "como no saco de pano bicudo, preto do farricoco".

b) Morte.

Resposta: "como túmulos caiados".

c) Musicalidade.

Resposta: "como os cânticos buscam os zimbórios".

126

AS ESCOLAS REA LISTAS E O PARNASIANISMO

Assim como o Realismo e o Naturalismo, o Parnasianismo faz parte das


Escolas Realistas, que surgiram na França com o objetivo de superar o velho
modelo romântico, desgastado em seu culto à emoção, ao subjetivismo e à
tendência de privilegiar a fantasia criadora, no processo de criação artística.

Tais preferências não condiziam mais com a evolução cientificista e tecnicista


que caracterizou a segunda metade do século XIX. Em sintonia com os novos
valores dessa época, as Escolas Realistas elegeram critérios opostos para o
fazer artístico: a racionalidade, a objetividade, a precisão arquitetônica.

Em consequência, a valorização da inspiração foi substituída pela valorização


da ideia de criação literária como trabalho, essencialmente marcado pelo
cuidado com a linguagem, a preocupação com a forma, a lapidação e o
refinamento do texto.

Para percebermos as características específicas dos movimentos literários


denominados Escolas Realistas, podemos afirmar que o Realismo e o
Naturalismo voltaram-se para a crítica social, a contestação dos valores
burgueses enquanto o Parnasianismo fechou-se, desligou-se da vida, por meio
de uma proposta esteticista e regressiva, voltada para as referências da poesia
clássica (greco-romana).

Atenção Professor(a), a atividade da seção "E mais..." da página 132 requer


preparação antecipada. Fim da observação.

LEITURA

Nel mezzo del camin...

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada

E triste, e triste e fatigado eu vinha,

Tinhas a alma de sonhos povoada,

E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada

Da vida: longos anos, presa à minha

A tua mão, a vista deslumbrada

Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida

Nem o pranto os teus olhos umedece,

Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,

Vendo o teu vulto que desaparece

Na extrema curva do caminho extremo.

BILAC, Olavo. In: _____. Poesias. Belo Horizonte: Itatiaia, 1985. p. 92.

CRÉDITO: Revista Careta. 1910. Coleção particular


Olavo Bilac (1865-1918)

Olavo Bilac nasceu no Rio de Janeiro, onde também faleceu. Estudou Medicina
e Direito, mas não concluiu nenhum dos dois cursos. Trabalhou como
jornalista, funcionário público e inspetor escolar, dedicando-se amplamente ao
ensino: traduziu e escreveu versos infantis, foi autor de livros didáticos,
organizou antologias escolares, fez campanhas pela instrução primária, pela
cultura física, pelo serviço militar obrigatório e outras de caráter nacionalista.
Autor da letra do "Hino à Bandeira", a vida toda escreveu, em prosa e verso,
para a imprensa, tendo sido um dos cronistas mais expressivos e polêmicos de
seu tempo.

127

Releitura

Escreva no caderno

O poema "Nel mezzo del camin..." retoma um trecho significativo do verso


inicial de A divina comédia, obra-prima da literatura italiana clássica, de
autoria de Dante Alighieri, que se inicia com a seguinte estrofe: "Nel mezzo del
camin di nostra vita / mi ritrovai per una selva oscura, / chè la diritta via era
smarrita". Leia uma tradução desta estrofe para o português: "A meio caminhar
de nossa vida / fui me encontrar em uma selva escura: / estava a reta minha
via perdida" (ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. São Paulo: Editora 34,
1999. p. 25).

1. A referência a Dante traz para o contexto do poema a primeira estrofe de A


divina comédia. Nessa estrofe de abertura, a obra de Dante se refere a um
momento da vida em que o ser humano "se perde", ou seja, se desvia do "reto"
procedimento.

a) De acordo com a primeira estrofe do poema de Olavo Bilac, que fato


deflagra esse momento de perdição?

Resposta: Um encontro amoroso.

b) Leia atentamente as outras estrofes e identifique a que fase cada uma se


refere.
Resposta: Segunda estrofe: fase da convivência; terceira estrofe: fase da
separação; quarta estrofe: fase da solidão do sujeito poético.

c) Tendo em vista a resposta ao item anterior, explique por que no poema o


encontro amoroso é identificado com o momento da vida em que se dá o
desvio do "reto" procedimento.

Resposta: Essa identificação ocorre em virtude do triste desfecho do encontro


amoroso: a volta à solidão.

2. O estilo parnasiano, ao qual pertence o poema, tem como principal


característica a busca da perfeição formal, de acordo com as regras clássicas
da criação poética. Além da referência explícita ao texto de Dante, que outro
elemento formal do poema comprova sua procedência parnasiana? Justifique.

Resposta: O fato de se tratar de um soneto, ou seja, uma forma poética fixa,


com métrica e rimas regulares. Os versos são decassílabos e as rimas,
alternadas.

3. Ainda de acordo com o Parnasianismo, o poema apresenta uma construção


sintática refinada, visando à máxima precisão e objetividade. A primeira estrofe,
por exemplo, organiza-se a partir das formas verbais cheguei e chegaste.

a) A quem se referem tais verbos?

Resposta: Os verbos referem-se, respectivamente, ao eu lírico e à sua amada.

b) Podemos afirmar que os enunciados construídos a partir desses verbos


apresentam paralelismo, pois enfocam simetricamente ora o eu lírico, ora sua
amada, repetindo-se por meio de hipérbatos ou inversões sintáticas.
Exemplifique essa afirmação.

Resposta: Os enunciados "vinhas fatigada e triste" e "tinhas a alma de sonhos


povoada", referentes à amada, repetem-se nos enunciados referentes ao eu
lírico, por meio das seguintes inversões: "e triste e fatigado eu vinha", "e a alma
de sonhos povoada eu tinha".

c) Em termos de construção sintática, a primeira estrofe apresenta apenas um


enunciado em ordem direta, já que os demais se caracterizam pela presença
de hipérbatos. Identifique esse enunciado.
Resposta: Trata-se do primeiro enunciado ("vinhas fatigada e triste" - verbo +
complemento).

4. A construção que você acabou de analisar na questão 3 exemplifica o


refinamento sintático do poema. Na primeira estrofe, são utilizados o
paralelismo e o hipérbato para mostrar, de modo simétrico, preciso e objetivo, o
encontro dos amantes.

a) Que versos da terceira estrofe, dedicada à separação dos amantes,


reforçam tanto o racionalismo quanto a contenção emocional que caracterizam
o poema? A quem eles se referem?

Resposta: Os versos são "Nem o pranto os teus olhos umedece, / Nem te


comove a dor da despedida". Eles se referem à mulher amada pelo eu lírico.

Retome nos capítulos 2 e 4 deste volume, respectivamente, as explicações


sobre hipérbato e paralelismo.

128

b) A quarta estrofe mostra a reação do eu lírico diante da separação. Destaque


duas palavras dessa estrofe que possam exemplificar os sentimentos do eu
lírico, explicando o contexto em que aparecem.

Resposta: As palavras são solitário e tremo. Elas aparecem para explicar o


que o eu lírico sente quando vê o vulto da amada desaparecer.

c) O último verso expressa a intensidade do sentimento amoroso, sem,


entretanto, trair a contenção emocional, o racionalismo, a busca de equilíbrio,
presentes em todo o poema. Como se consegue realizar esse desafio?

Resposta: Consegue-se realizar o desafio por meio da repetição de um mesmo


adjetivo - "Na extrema curva do caminho extremo" -, que inicia e termina o
verso, intensificando o sentido tanto do substantivo "curva'', ao qual se
antepõe, quanto de seu oposto, o substantivo "caminho'', ao qual esse adjetivo
se pospõe. Assim, "curva'' (metáfora do sentimento amoroso) e "caminho''
(metáfora da vida) equilibram-se em sua intensidade, como em todo o poema,
por meio de paralelismo e hipérbato.

d) Que grande poeta da literatura portuguesa fala do amor de maneira clara,


objetiva e racional, podendo ser considerado influenciador de Olavo Bilac?
Resposta: Luís Vaz de Camões.

Leitura comparativa

O poema "Amore co amore si paga", escrito por Juó Bananére (pseudônimo de


Alexandre Ribeiro Marcondes Machado), apresenta uma relação de
intertextualidade com "Nel mezzo del camin...". Leia-o com atenção e
compare-o com o texto estudado.

Intertextualidade - Diálogo entre textos; criação de um texto a partir de outro;


processo de elaboração de um texto literário por meio da absorção e da
transformação de outros textos.

Amore co amore si paga

Pra Migna Anamurada

Xinguê, xigaste! Vigna afatigada i triste

I triste i afatigado io vigna;

Tu tigna a arma povolada di sogno,

I a arma povolada di sogno io tigna.

Ti amê, m'amasti! Bunitigno io éra

I tu tambê era bunitigna;

Tu tigna una garigna di féra

E io di féra tigna una garigna.

Una veiz ti begiê a linda mó,

I a migna tambê vucê begió.

Vucê mi apisô nu pé, e io non pisé no da signora.

Moltos abbraccio mi deu vucê,

Moltos abbraccio io tambê ti dê.

U fóra vucê mi deu, e io tambê ti dê u fóra.

BANANÉRE, Juó. La divina increnca. São Paulo: Folco Masucci, 1966. p. 17.

FIQUE SABENDO
Escrita entre 1307 e 1321, em italiano, A divina comédia é a obra-prima de
Dante Alighieri, grande poeta florentino do século XIV. Trata-se de um poema
épico, que narra uma odisseia pelo Inferno, Purgatório e Paraíso, utilizando-se
de detalhes rítmicos e visuais de intensa expressividade artística. Dante, o
protagonista da história, atravessa o Inferno e o Purgatório guiado pelo poeta
romano Virgílio, ao passo que chega ao Paraíso conduzido por Beatriz, sua
musa na maioria das obras que escreveu.

LEGENDA: O abismo do Inferno (c. 1480), ilustração de Sandro Botticelli.


Desenho sobre pergaminho.

CRÉDITO: Biblioteca Apostólica Vaticana, Roma

Elementos a serem comparados: "Nel mezzo del camin..." e "Amore co amore


si paga".

a) A diferença de tom.

Resposta: Enquanto o primeiro texto apresenta um tom sério, melancólico, o


tom do segundo texto é humorístico, jocoso, leva ao riso.

b) A diferença de linguagem.

Resposta: A linguagem do primeiro texto, incluindo a citação do verso em


italiano, pertence à variante de prestígio, é formal e sofisticada; a linguagem do
segundo texto caracteriza-se por uma mistura da fala popular dos dois idiomas,
o português e o italiano, reproduzindo uma variante presente em certos bairros
de São Paulo à época.

c) A relação que essas diferenças estabelecem entre os textos.

Resposta: O segundo texto é paródia do primeiro.

Atenção Professor(a), se necessário, explique que paródia é uma obra que


imita satiricamente o tema e/ou a linguagem de uma outra obra. Fim da
observação.

129

Comentário

Eleito, em 1907, num concurso realizado pela revista Fon-Fon, "o príncipe dos
poetas brasileiros", Olavo Bilac foi o mais popular de nossos poetas
parnasianos, vindo a se tornar um dos principais alvos da crítica dos jovens
artistas que implantaram o Modernismo no Brasil, nas duas primeiras décadas
do século XX. Por meio da leitura de "Nel mezzo del camin...", você conheceu
algumas das características principais do Parnasianismo, estilo poético
praticamente inexistente em Portugal e que se tornou bastante expressivo no
Brasil.

NAVEGAR É PRECISO

Reúna-se com seu grupo e procure na internet outros poemas de Juó


Bananére, publicados em La divina increnca. Leia e encene os textos que
considerar mais interessantes, comparando-os com aqueles que os inspiraram.
Descubra, assim, a importância desse escritor de estilo paródico e discuta-a
com a classe.

A estética parnasiana

A estética parnasiana - que se desenvolveu exclusivamente na poesia - tem


como características a valorização do ideal da arte pela arte, a priorização da
forma em detrimento do conteúdo, a supervalorização dos procedimentos
expressivos em detrimento da significação, do mundo da arte em detrimento da
realidade exterior.

Impressionados com o ideal parnasiano de busca de perfeição técnica da obra


de arte, os escritores modernistas herdaram desse estilo a ideia de que
literatura é, em primeiro lugar, trabalho com a linguagem.

Entretanto, a excessiva ênfase formalista do Parnasianismo fez os


representantes do movimento desprezarem o tema e supervalorizarem a
técnica, distanciando o sujeito criador do objeto criado, num exemplo de
esteticismo alienante sem precedentes em toda a história da literatura.

Essa extrema concentração na forma da prática literária parnasiana levou-a a


se afastar da vida, a se refugiar no mundo clássico, cujos critérios artísticos
adotou, e consequentemente a se tornar academicista, elitista, fechada em si
mesma.

Características do Parnasianismo

· Formas poéticas fixas e regulares, como o soneto.


· Purismo e preciosismo vocabular e linguístico.

· Tendência descritivista, buscando a objetividade.

· Erotismo.

· Referências à mitologia greco-latina.

· Esteticismo.

· Rigor técnico.

A arte acadêmica

No século XIX, paralelamente às grandes correntes artísticas que


revolucionavam as artes plásticas na Europa - Romantismo, Realismo,
Simbolismo, Impressionismo -, predominava uma arte oficial e conservadora,
chancelada pelas Academias. Na França, as exposições bienais (Salons),
organizadas pela Real Academia Francesa, premiavam os artistas acadêmicos
e promoviam seu sucesso público.

LEGENDA: O Parnaso (1630-1631), de Nicolas Poussin.

CRÉDITO: Nicolas Poussin. c. 1630. Óleo sobre tela, 145 × 197 cm. Museu do
Prado, Madri

130

Leitura de imagem

Observe duas pinturas exemplares do academicismo francês oitocentista e veja


como suas características se assemelham às da poesia parnasiana.

Motivos mitológicos: Pigmalião, um escultor da ilha de Chipre, apaixonou-se


por uma de suas obras, a estátua Galateia. Afrodite atendeu a seu pedido e
deu vida à estátua. Pigmalião e Galateia casaram-se e tiveram um filho, Pafos.

LEGENDA: Pigmalião e Galateia (c. 1890), de Jean-Léon Gérôme.

CRÉDITO: Jean-Léon Gérôme. c. 1890. Óleo sobre tela, 81 × 63 cm. Coleção


particular. Foto: Christie's Images/Corbis/Latinstock

Gosto pela alegoria: figuras representando ideias abstratas - a mulher sentada


é a Literatura; a de pé é a Arte.

Referências à cultura clássica greco-romana.


LEGENDA: Arte e Literatura (1867), de William-Adolphe Bouguereau.

CRÉDITO: William-Adolphe Bouguereau. 1867. Óleo sobre tela, 200 × 108 cm.
Arnot Art Museum-Elmira, Nova York

· Perfeição técnica.

· Perfeição de acabamento.

· Realismo fotográfico.

· Predomínio do desenho sobre a cor.

· Perfeição anatômica.

Culto do nu. Erotismo disfarçado sob o motivo convencional.

Temas universais: a Arte e a Literatura, o Amor.

Pose e gestos convencionais. Austeridade e grandiosidade.

Arte pela arte

O tema de Pigmalião é significativo: o artista apaixonado por sua própria arte.

Arte pela arte

O tema da segunda obra é a própria arte.

131

LEGENDA: O violeiro (1899), de Almeida Júnior.

CRÉDITO: Almeida Júnior. 1899. Óleo sobre tela, 145 × 97 cm. Pinacoteca do
Estado de São Paulo, São Paulo

No Brasil, os artistas não se ativeram aos temas convencionais da pintura


acadêmica europeia. Cenas históricas, a paisagem brasileira, as pessoas
simples, do campo e da cidade, e o indígena são motivos frequentes de artistas
como Almeida Júnior, Victor Meirelles e Pedro Américo.

LEGENDA: Moema (1903), de Victor Meirelles.

CRÉDITO: Víctor Meirelles. 1903. Óleo sobre tela, 129 × 199 cm. Museu de
Arte de São Paulo, São Paulo

LEGENDA: Paz e Concórdia (1895), de Pedro Américo.


CRÉDITO: Pedro Américo. 1895. Óleo sobre tela, 300 × 431 cm. Museu de
Arte de São Paulo, São Paulo

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Atenção Professor(a), vale mostrar aos alunos como este fragmento de poema
testemunha o legado do Parnasianismo ao Modernismo, movimento em que
Carlos Drummond de Andrade se insere, sobretudo no que diz respeito à
importância atribuída pelo poeta ao trabalho com a linguagem. Professor(a),
ver em Conversa com o professor, nas Orientações específicas do capítulo
6, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

E MAIS...

Discussão e pesquisa

Estudamos o Realismo e o Naturalismo, movimentos estéticos que, somados


ao Parnasianismo, constituem as chamadas Escolas Realistas. Vimos que,
apesar de pertencerem ao mesmo contexto histórico e de apresentarem
notáveis semelhanças, esses movimentos também apresentam diferenças.

Um aspecto em que a poesia parnasiana opõe-se diametralmente às demais


Escolas Realistas é o fato de que cultiva a "arte pela arte", enquanto as obras
realistas e naturalistas comprometem-se com a tentativa de transformar a
sociedade.

Tendo em vista essas observações, discuta com seus colegas as questões a


seguir.

1. O debate que opõe a arte engajada nas lutas sociais à arte voltada para si
própria é atual ou foi superado? Por quê? Encontre exemplos concretos de
manifestações artísticas contemporâneas que justifiquem sua resposta.

2. Em sua opinião, qual das concepções de arte envolvidas neste debate é


mais interessante? Escolha aquela com a qual você se identifica e defenda-a
com os melhores argumentos que encontrar.

3. Você acha que essas concepções sobre o fazer artístico são


necessariamente conflitantes ou podem complementar-se? Justifique.
4. Relacione o trecho do poema de Carlos Drummond de Andrade apresentado
a seguir ao que você aprendeu sobre o Parnasianismo.

[...]

Penetra surdamente no reino das palavras.

Lá estão os poemas que esperam ser escritos.

Estão paralisados, mas não há desespero,

há calma e frescura na superfície intata.

Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.

Tem paciência, se obscuros. Calma, se te

provocam.

Espera que cada um se realize e consume

com seu poder de palavra

e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo.

Não colhas no chão o poema que se perdeu.

Não adules o poema. Aceita-o

como ele aceitará sua forma definitiva e

concentrada

no espaço.

[...]

ANDRADE, Carlos Drummond de. Procura da poesia. In: _____. Carlos


Drummond de Andrade: poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1988.
p. 96-97.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU


Neste capítulo, você estudou as três Escolas Realistas que se desenvolveram
na segunda metade do século XIX - o Realismo, o Naturalismo e o
Parnasianismo -, percebendo suas semelhanças e diferenças.

O Realismo e o Naturalismo utilizaram os valores em voga na época


(racionalismo, objetivismo, verismo) em prol de uma arte engajada, que
desnudasse e demolisse as desigualdades sociais provocadas pelo domínio
burguês, cujos avanços, industrial e científico, foram vertiginosos.

O Naturalismo distinguiu-se do Realismo pelo seu caráter cientificista


extremado, em que o ser humano perde o livre-arbítrio e se torna produto de
pressões genéticas e ambientais.

O Parnasianismo, por sua vez, a expressão poética dessa fase, ampliou de tal
modo sua preocupação com a perfeição formal que se afastou da vida
contemporânea, voltando-se para temas mitológicos, para a ideia de arte como
expressão de beleza, com base nos padrões clássicos.

Se, por um lado, a ideia de "arte pela arte" parnasiana é considerada escapista,
por outro ensina a lição antirromântica, que será bem aproveitada pelos
modernistas do século XX, de que a literatura não é confissão de sentimentos
pessoais, mas, antes de tudo, árduo trabalho com a linguagem.

133

Olavo Bilac, o "príncipe dos poetas brasileiros", foi a figura mais conhecida do
academicismo que caracterizou a "literatura oficial" daquele momento.

Já Aluísio Azevedo e Raul Pompeia, o primeiro naturalista e o segundo


eclético, isto é, articulador de vários estilos, representam, com Machado de
Assis (que estudaremos no próximo capítulo), um Brasil entre o avanço e o
retrocesso. Numa ponta, as ideias avançadas do liberalismo europeu (extinção
do tráfico negreiro, início da industrialização, Proclamação da República). Na
outra, a velha mentalidade oligárquica, agrária, representada por formas brutais
de pobreza, desigualdade, discriminação.

Atividades

Escreva no caderno
1. (Unicamp-SP) Leia o seguinte comentário a respeito de O cortiço, de Aluísio
Azevedo:

Com efeito, o que há n'O cortiço são formas primitivas de amealhamento *, a


partir de muito pouco ou quase nada, exigindo uma espécie de rigoroso
ascetismo inicial e a aceitação de modalidades diretas e brutais de exploração,
incluindo o furto [...] como forma de ganho e a transformação da mulher
escrava em companheira-máquina. [...] Aluísio foi, salvo erro meu, o primeiro
dos nossos romancistas a descrever minuciosamente o mecanismo de
formação da riqueza individual. [...] N'O cortiço [o dinheiro] se torna
implicitamente objeto central da narrativa, cujo ritmo acaba se ajustando ao
ritmo da sua acumulação, tomada pela primeira vez no Brasil como eixo da
composição ficcional.

CANDIDO, Antonio. De cortiço a cortiço. In: _____. O discurso e a cidade.


São Paulo: Duas Cidades, 1993. p. 129-133.

* amealhar - acumular (riqueza), juntar (dinheiro) aos poucos.

a) Explique a que se referem o rigoroso ascetismo inicial do personagem em


questão e as modalidades diretas e brutais de exploração que ele emprega.

Resposta: O ascetismo rigoroso - esforço austero - a que se refere o autor


caracteriza a personalidade e a forma de vida a que se submete João Romão
para ascender socialmente. Suportando todo tipo de privação, pensava
somente em enriquecer a qualquer custo. Para isso, não se importava em
roubar, mentir ou explorar os outros, obrigando os trabalhadores a consumirem
na sua venda ou aproveitando-se da gratidão de Bertoleza enquanto esta lhe
era conveniente.

b) Identifique a "mulher escrava" e o modo como se dá sua transformação "em


companheira-máquina".

Resposta: Bertoleza entrega a João Romão as poupanças para pagar sua


alforria, trabalha para ele como uma escrava e vive como amante dele. Quando
já não é mais conveniente aos planos de João Romão (que deseja um
casamento de conveniência com a filha de Miranda), passa a ser desprezada,
transformando-se assim em "companheira-máquina", "mulher-objeto".
Finalmente, ao descobrir que a carta de alforria era falsa e que João Romão
tencionava entregá-la à polícia, opta pelo suicídio.

2. (Enem/MEC)

Abatidos pelo fadinho harmonioso e nostálgico dos desterrados, iam todos, até
mesmo os brasileiros, se concentrando e caindo em tristeza; mas, de repente,
o cavaquinho de Porfiro, acompanhado pelo violão do Firmo, romperam
vibrantemente com um chorado baiano. Nada mais que os primeiros acordes
da música crioula para que o sangue de toda aquela gente despertasse logo,
como se alguém lhe fustigasse o corpo com urtigas bravas. E seguiram-se
outras notas, e outras, cada vez mais ardentes e mais delirantes. Já não eram
dois instrumentos que soavam, eram lúbricos gemidos e suspiros soltos em
torrente, a correrem serpenteando, como cobras numa floresta incendiada;
eram ais convulsos, chorados em frenesi de amor: música feita de beijos e
soluços gostosos; carícia de fera, carícia de doer, fazendo estalar de gozo.

AZEVEDO, A. O cortiço. São Paulo: Ática, 1983 (fragmento).

No romance O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo, os personagens são


observados como elementos coletivos caracterizados por condicionantes de
origem social, sexo e etnia. Na passagem transcrita, o confronto entre
brasileiros e portugueses revela prevalência do elemento brasileiro, pois:

a) destaca o nome de personagens brasileiros e omite o de personagens


portugueses.

b) exalta a força do cenário natural brasileiro e considera o do português


inexpressivo.

c) mostra o poder envolvente da música brasileira, que cala o fado português.

d) destaca o sentimentalismo brasileiro, contrário à tristeza dos portugueses.

e) atribui aos brasileiros uma habilidade maior com instrumentos musicais.

Resposta: Alternativa c.

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3. Leia atentamente o texto a seguir e responda às questões propostas.

Invejo o ourives quando escrevo:


Imito o amor

Com que ele, em ouro, o alto-relevo

Faz de uma flor.

BILAC, Olavo. Profissão de fé. In: MOISÉS, Massaud. História da literatura


brasileira: Realismo e Simbolismo. São Paulo: Cultrix. p. 154, v. II.

a) A estrofe desenvolve uma comparação que nos permite perceber a extrema


importância da forma para a poesia parnasiana. De que comparação se trata?

Resposta: Trata-se da comparação entre o trabalho poético e o do ourives ou


joalheiro.

b) Que passagem da estrofe pode ser relacionada com a precisão, a minúcia, a


preocupação com os detalhes, típicas desse estilo? A passagem é "Com que
ele, em ouro, o alto-relevo / Faz de uma flor".

Resposta: A passagem é "Com que ele, em ouro, o alto-relevo / Faz de uma


flor".

4. (UFPE) O Arcadismo (no século XVIII) e o Parnasianismo (em fins do século


XIX) apresentam, em sua caracterização, pontos em comum. Identifique quais
são eles.

a) bucolismo e busca da simplicidade de expressão.

b) amor galante e temas pastoris.

c) ausência de subjetividade e presença da temática e da mitologia greco-


latina.

d) preferência pelas formas poéticas fixas, como o soneto, e pelas rimas ricas.

e) a arte pela arte e o retorno à natureza.

Resposta: Alternativa c.

Retome no capítulo 3 deste volume as explicações sobre Arcadismo.

5. (UFRGS-RS) Leia as afirmações abaixo sobre o romance O Ateneu, de Raul


Pompeia.

I. Sérgio, em seu relato memorialista, revela a outra face da fachada moralista


e virtuosa que circundava o Ateneu, a face em que se incluem a corrupção, o
interesse econômico, a bajulação, as intrigas e a homossexualidade entre os
adolescentes.

II. A narrativa, ainda que feita na primeira pessoa, evita o comentário subjetivo
e as impressões individuais, uma vez que o narrador adota uma postura
rigorosa, condizente com o cientificismo da época.

III. Através da figura do Dr. Aristarco, diretor do colégio, com sua retórica
pomposa e vazia, Raul Pompeia critica o sistema educacional da época e a
hipocrisia da sociedade.

Quais estão corretas?

a) Apenas I.

b) Apenas II.

c) Apenas I e III.

d) Apenas II e III.

e) I, II e III.

Resposta: Alternativa c.

6. (Enem/MEC)

A pátria

Ama, com fé e orgulho, a terra em que

nasceste!

Criança! não verás nenhum país como este!

Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!

A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,

É um seio de mãe a transbordar carinhos.

Vê que vida há no chão! vê que vida há nos

ninhos,

Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!

Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!


Vê que grande extensão de matas, onde impera,

Fecunda e luminosa, a eterna primavera!

Boa terra! jamais negou a quem trabalha

O pão que mata a fome, o teto que agasalha...

Quem com o seu suor a fecunda e umedece,

Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!

Criança! não verás país nenhum como este:

Imita na grandeza a terra em que nasceste!

BILAC, O. Poesias infantis. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1929.

Publicado em 1904, o poema "A pátria" harmoniza-se com um projeto


ideológico em construção na Primeira República. O discurso poético de Olavo
Bilac ecoa esse projeto, na medida em que

a) a paisagem natural ganha contornos surreais, como o projeto brasileiro de


grandeza.

b) a prosperidade individual, como a exuberância da terra, independe de


políticas de governo.

c) os valores afetivos atribuídos à família devem ser aplicados também aos


ícones nacionais.

d) a capacidade produtiva da terra garante ao país a riqueza que se verifica


naquele momento.

e) a valorização do trabalhador passa a integrar o conceito de bem-estar social


experimentado.

Resposta: Alternativa b.

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capítulo 7 - O Realismo psicológico de Machado de Assis

Estudar Machado de Assis é fundamental para a formação literária e humana


de qualquer jovem, qualquer pessoa em busca de conhecimento. Neste
capítulo, nosso alvo é contemplar essa necessidade da maneira mais ampla e
ao mesmo tempo mais detalhada. Ou seja, vamos fazer uma travessia por um
universo único de sofisticação, inteligência e sensibilidade da literatura
brasileira.

CRÉDITO: José Ferraz de Almeida Júnior. 1892. Óleo sobre tela, 95 × 141 cm.
Acervo Pinacoteca do Estado de São Paulo.

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Livros

· ABDALA JÚNIOR, Benjamin; MOTA, Lourenço Dantas (Org.). Personae:


grandes personagens da literatura brasileira. São Paulo: Senac, 2001.

· BAGNO, Marcos. Machado de Assis para principiantes. São Paulo: Ática,


1998.

Minissérie

CAPITU. Direção: Luiz Fernando Carvalho. Produção: TV Globo, 2008. 5


capítulos. 2 DVDs.

Filme

MEMÓRIAS póstumas de Brás Cubas. Direção: André Klotzel. Produção:


Cinematográfica Superfilmes, 2000.

136

Atenção Professor(a), as atividades da seção "E mais...", das páginas 147 e


149, requerem preparação antecipada. Fim da observação.

PRIMEIRA LEITURA

Leia dois capítulos de Dom Casmurro, de Machado de Assis.

TEXTO 1

Capítulo XXXII

Olhos de ressaca

1 Tudo era matéria às curiosidades de Capitu. Caso houve, porém, no qual não
sei se aprendeu ou ensinou, ou se fez ambas as cousas, como eu. É o que
contarei no outro capítulo. Neste direi somente que, passados alguns dias do
ajuste com o agregado, fui ver a minha amiga; eram dez horas da manhã. D.
Fortunata, que estava no quintal, nem esperou que eu lhe perguntasse pela
filha.

2 - Está na sala penteando o cabelo, disse-me; vá devagarzinho para lhe


pregar um susto.

3 Fui devagar, mas ou o pé ou o espelho traiu-me. Este pode ser que não
fosse; era um espelhinho de pataca (perdoai a barateza), comprado a um
mascate italiano, moldura tosca, argolinha de latão, pendente da parede, entre
as duas janelas. Se não foi ele, foi o pé. Um ou outro, a verdade é que, apenas
entrei na sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares, e só lhe ouvi esta
pergunta:

4 - Há alguma cousa?

5 - Não há nada, respondi; vim ver você antes que o Padre Cabral chegue para
a lição. Como passou a noite?

6 - Eu bem. José Dias ainda não falou?

7 - Parece que não.

8 - Mas então quando fala?

9 - Disse-me que hoje ou amanhã pretende tocar no assunto; não vai logo de
pancada, falará assim por alto e por longe, um toque. Depois, entrará em
matéria. Quer primeiro ver se mamãe tem a resolução feita...

10 - Que tem, tem, interrompeu Capitu. E se não fosse preciso alguém para
vencer já, e de todo, não se lhe falaria. Eu já nem sei se José Dias poderá
influir tanto; acho que fará tudo, se sentir que você realmente não quer ser
padre, mas poderá alcançar?... Ele é atendido; se, porém... É um inferno isto!
Você teime com ele, Bentinho.

11 - Teimo; hoje mesmo ele há de falar.

12 - Você jura?

13 - Juro. Deixe ver os olhos, Capitu.

14 Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, "olhos de cigana
oblíqua e dissimulada". Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada
sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e
examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei
extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da
contemplação creio que lhe deu outra ideia do meu intento; imaginou que era
um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos,
constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos,
crescidos e sombrios, com tal expressão que...

15 Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para


dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de
dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos
de ressaca? Vá, de ressaca.

Vocabulário:

pataca: moeda antiga de prata;

oblíquo: malicioso; dissimulado, ardiloso; sinuoso.

Fim do vocabulário.

137

É o que me dá ideia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso
e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da
praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes
vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros; mas
tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava
e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me. Quantos minutos
gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo
infinito e breve. A eternidade tem as suas pêndulas; nem por não acabar nunca
deixa de querer saber a duração das felicidades e dos suplícios. Há de dobrar
o gozo aos bem-aventurados do céu conhecer a soma dos tormentos que já
terão padecido no inferno os seus inimigos; assim também a quantidade das
delícias que terão gozado no céu os seus desafetos aumentará as dores aos
condenados do inferno. Este outro suplício escapou ao divino Dante; mas eu
não estou aqui para emendar poetas. Estou para contar que, ao cabo de um
tempo não marcado, agarrei-me definitivamente aos cabelos de Capitu, mas
então com as mãos, e disse-lhe, - para dizer alguma cousa, - que era capaz de
os pentear, se quisesse.
16 - Você?

17 - Eu mesmo.

18 - Vai embaraçar-me o cabelo todo, isso sim.

19 - Se embaraçar, você desembaraça depois.

20 - Vamos ver.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Novo Século, 2001. p. 57-
59.

Vocabulário:

cavo: fundo, profundo;

pêndula: relógio de pêndulo;

Dante Alighieri: maior poeta clássico italiano do século XIV. Autor de A divina
comédia.

Fim do vocabulário.

TEXTO 2

Capítulo XXXIII

O penteado

Capitu deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos


cabelos, colhi-os todos e entrei a alisá-los com o pente, desde a testa até as
últimas pontas, que lhe desciam à cintura. Em pé não dava jeito: não
esquecestes que ela era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da
mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse.

- Senta aqui, é melhor.

Sentou-se. "Vamos ver o grande cabeleireiro", disse-me rindo. Continuei a


alisar os cabelos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções iguais, para
compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como podem
supor os cabeleireiros de ofício, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo
tacto aqueles fios grossos, que eram parte dela. O trabalho era atrapalhado, às
vezes por desazo, outras de propósito para desfazer o feito e refazê-lo. Os
dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espáduas vestidas de chita, e a
sensação era um deleite.

Vocabulário:

desazo: falta de zelo; descuido, desleixo;

espádua: a omoplata e as partes moles que a revestem; espalda.

Fim do vocabulário.

138

Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse


intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora,
porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me
apresentaram depois; mas, desejei penteá-los por todos os séculos dos
séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número
inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que
nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na
jovem cabeça de uma ninfa... Uma ninfa! Todo eu estou mitológico. Ainda há
pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Tétis; risquei
Tétis, risquemos ninfa; digamos somente uma criatura amada, palavra que
envolve todas as potências cristãs e pagãs. Enfim, acabei as duas tranças.
Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste
pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço,
retoquei a obra, alargando aqui, achatando ali, até que exclamei:

- Pronto!

- Estará bom?

- Veja no espelho.

Em vez de ir ao espelho, que pensais que fez Capitu? Não vos esqueçais que
estava sentada, de costas para mim. Capitu derreou a cabeça, a tal ponto que
me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la; o espaldar da cadeira era
baixo. Inclinei-me depois sobre ela, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de
uma na linha da boca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar
tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta
razão a moveu.
- Levanta, Capitu!

Não quis, não levantou a cabeça, e ficamos assim a olhar um para o outro, até
que ela abrochou os lábios, eu desci os meus, e...

Grande foi a sensação do beijo; Capitu ergueu-se, rápida, eu recuei até à


parede com uma espécie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando eles
me clarearam, vi que Capitu tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada;
ainda que quisesse, faltava-me língua. Preso, atordoado, não achava gesto
nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil
palavras cálidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze anos, leitor precoce.
Com dezessete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na
diferença dos sexos.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. São Paulo: Novo Século, 2001. p. 59-
60.

Vocabulário:

Aurora: deusa da mitologia greco-romana, anunciadora do Sol;

ninfa: divindade que, segundo a mitologia grega, habitava os rios, os bosques,


os campos e os montes; em sentido figurado, mulher jovem e formosa;

Tétis: uma das divindades primordiais das teogonias helênicas, que personifica
a fecundidade feminina do mar;

enxovalhado: sujo, manchado, amarrotado;

derrear: vergar, curvar, inclinar;

espaldar: parte da cadeira onde a pessoa apoia as costas; respaldo, espalda;

abrochar: unir, apertar, franzir;

mofar: zombar, debochar, troçar;

Des Grieux: personagem da novela História do Cavaleiro Des Grieux e de


Manon Lescaut, de Abade Prévost, 1731. Grieux era um jovem
desinteressado do amor até conhecer uma jovem cortesã (que dá título à
novela), apaixonar-se por ela e transformar-se em um libertino. Conclui-se,
assim, que, no trecho lido, Bentinho quis dizer, para justificar sua inocência,
que até um devasso como Des Grieux já fora uma vez inocente.
Fim do vocabulário.

139

Releitura

Escreva no caderno

1. Dom Casmurro é o título do romance e o apelido do narrador-personagem,


que se chama Bento, ou Bentinho. Nesses dois capítulos, ele relata o início de
seu envolvimento amoroso com a vizinha e amiga Capitu. Na ocasião,
estudava num seminário, preparando-se para ser padre, o que torna o romance
proibido.

a) Tendo em vista os dois textos, que momento pode ser interpretado como o
clímax da narrativa?

Resposta: O momento do beijo entre Bentinho e Capitu, no final do capítulo


XXXIII.

b) Que frase do primeiro parágrafo do texto 1 indica a presença de suspense?


Nessa frase, o que fica em dúvida, ou seja, o que causa suspense?

Resposta: Trata-se da frase "É o que contarei no outro capítulo". Ela deixa
dúvida e curiosidade no leitor, que quer saber se Capitu ensina ou aprende
com Bentinho. Essa dúvida será dirimida no texto 2, quando Capitu provoca o
beijo entre eles.

2. A dúvida a que se refere o item b da questão anterior é desmentida ou


confirmada com a leitura do texto? Exemplifique.

Resposta: A leitura do texto desmente a dúvida, pois nele há indícios que


demonstram que Capitu foi a autora da iniciativa. Exemplos: "Capitu derreou a
cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e ampará-la [...]";
"Não quis, não levantou a cabeça, [...] até que ela abrochou os lábios [...]".

3. Bentinho, o menino de 15 anos, é o autor dessa dúvida; no entanto, quem


conta a história é Dom Casmurro, o velho teimoso e ensimesmado em que
Bentinho se transformou.

a) Destaque um trecho do texto 2 que se refere ao ponto de vista de Bentinho e


logo em seguida ao de Dom Casmurro.
Resposta: Ponto de vista de Bentinho: "Preso, atordoado, não achava gesto
nem ímpeto que me descolasse da parede e me atirasse a ela com mil
palavras cálidas e mimosas...". Ponto de vista de Dom Casmurro: "Não
mofes dos meus quinze anos, leitor precoce. Com dezessete, Des Grieux (e
mais era Des Grieux) não pensava ainda na diferença dos sexos."

b) Qual é a diferença essencial entre os dois pontos de vista, considerando os


estilos em jogo nos fragmentos: o Romantismo e o Realismo? Como esses
estilos são tratados ao longo da narrativa?

Resposta: Enquanto o ponto de vista de Bentinho é romântico, o de Dom


Casmurro é realista. Ao longo da narrativa, o Realismo de Dom Casmurro
sistematicamente ironiza o Romantismo de Bentinho.

4. Os textos machadianos são marcados por interpolações (comentários que


aparecem no texto, geralmente entre parênteses), muitas vezes em tom
irônico, sarcástico.

a) Identifique uma interpolação presente no parágrafo 3 do texto 1 e comente:


por que podemos chamá-la de irônica? Em seguida, transcreva elementos do
trecho que comprovem sua resposta.

Resposta: Trata-se da expressão "perdoai a barateza". Ela é irônica porque


denuncia ao leitor, pedindo-lhe desculpas, a condição social humilde de Capitu.
Os elementos do trecho que comprovam essa resposta referem-se à modéstia
do espelho: "espelhinho de pataca", "moldura tosca", "argolinha de latão" etc.

b) Outro elemento típico do estilo machadiano presente nessa interpolação é a


conversa com o leitor. Identifique o modo verbal que possibilita percebê-la.

Resposta: A conversa com o leitor é percebida por meio do verbo no modo


imperativo, na 2ª pessoa do plural (vós): "perdoai".

5. Considerando que a linguagem de Machado é sutil e ambígua, de múltiplos


sentidos, identifique no parágrafo 3 do texto 1 a frase que sugere que na
verdade Capitu espera por Bentinho, e/ou que a chegada dele causa a ela
grande comoção.

Resposta: A passagem é: "Um ou outro, a verdade é que, apenas entrei na


sala, pente, cabelos, toda ela voou pelos ares [...]".
6. Ainda no texto 1, Bentinho e Capitu conversam sobre José Dias, o agregado
da família de Bentinho, que promete ao rapaz convencer a mãe dele, D. Glória,
a desistir de torná-lo padre.

a) Qual dos dois interlocutores insiste mais na necessidade de José Dias


realizar o que prometera? Dê dois argumentos que justifiquem sua resposta.

Resposta: Capitu; é ela quem "puxa" a conversa, insiste nela e faz Bentinho
prometer que fará José Dias conversar com D. Glória.

b) Que frase de Bentinho remete o leitor ao título do capítulo, "Olhos de


ressaca"? O que essa frase indica a respeito dos sentimentos de Bentinho?

Resposta: A frase é: "Deixe ver os olhos, Capitu". Essa frase indica que a
atenção de Bentinho se concentra nos olhos de Capitu.

7. Qual é a semelhança entre a metáfora de José Dias a respeito dos olhos de


Capitu (no parágrafo 14) e a comparação criada por Bentinho ao referir-se a
eles (parágrafo 15)? Justifique.

Resposta: A metáfora de José Dias e a comparação de Bentinho destacam a


malícia dos olhos de Capitu, pois, além de serem de "cigana oblíqua e
dissimulada", eles atraem perigosamente, "como a vaga que se retira da praia,
nos dias de ressaca".

8. O parágrafo 15 do texto 1 é uma longa digressão que substitui o andamento


do enredo por comentários do narrador, constituindo um elemento estilístico
fundamental do texto machadiano. Outros elementos presentes nesse
fragmento digressivo são a metalinguagem e a citação de fontes literárias.
Exemplifique-as com elementos do parágrafo.

Resposta: Metalinguagem: "Retórica dos namorados, dá-me uma comparação


exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu." Citação:
"Este outro suplício escapou ao divino Dante [...]".

9. O elemento central do estilo machadiano presente em todo o trecho da


questão anterior é a ironia. Que estilo literário é ironizado? Por quê?

Resposta: O estilo literário ironizado é o Romantismo, como se percebe pela


expressão "retórica dos namorados".
FIQUE SABENDO

Metalinguagem

Linguagem que tem seu foco no próprio código linguístico, ou seja, tem como
referente a própria linguagem.

140

Machado de Assis (1839-1908)

Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Morro do Livramento, Rio de


Janeiro, e faleceu, também no Rio, aos 69 anos. Filho de um pintor e de uma
lavadeira, ambos muito pobres, ficou órfão muito cedo.

Mulato, tímido, gago e epilético, fez carreira como funcionário público e escritor.
Autodidata, conquistou vasta cultura literária e, embora escrevesse críticas
teatrais e literárias, crônicas, artigos políticos, contos e peças de teatro, a
princípio ganhou nome como poeta.

Aos 30 anos, casou-se com Carolina Xavier de Novais e desde então fez
carreira burocrática, na qual ascendeu e permaneceu até a morte. Foi um dos
fundadores e presidente da Academia Brasileira de Letras; ao longo de mais de
50 anos de vida literária, colaborou em inúmeros jornais e revistas.

LEGENDA: Machado de Assis.

CRÉDITO: 1893. Coleção particular

Principais obras de Machado de Assis

· Poesia (em que desenvolveu o estilo parnasiano): Crisálidas (1864); Falenas


(1869); Americanas (1875); Poesias completas (1901).

· Romance

· Fase romântica: Ressurreição (1872); A mão e a luva (1874); Helena


(1876); Iaiá Garcia (1878).

· Fase realista: Memórias póstumas de Brás Cubas (1881); Quincas Borba


(1891); Dom Casmurro (1899); Esaú e Jacó (1904); Memorial de Aires
(1908).
· Conto: Contos fluminenses (1869); Histórias da meia-noite (1873); Papéis
avulsos (1882); Histórias sem data (1884); Várias histórias (1896); Páginas
recolhidas (1899); Relíquias da casa velha (1906).

· Teatro: Desencantos (1863); Quase ministro (1866); Os deuses de casaca


(1870); Tu, só tu, puro amor (1896).

O REALISMO MACHADIANO

É unânime o reconhecimento de Machado de Assis como um dos maiores


escritores brasileiros de todos os tempos. Além de inaugurar em nosso país um
realismo psicológico sem precedentes nem continuadores, anunciou a
modernidade literária, por meio de obras que até hoje se mantêm novas e
desafiadoras.

Essas obras instigam, provocam e estimulam tanto o leitor comum quanto a


crítica literária, seja pela riqueza de seus procedimentos expressivos, seja pela
densidade de sua temática.

As principais características do estilo machadiano são a combinação irônica


entre riso e melancolia; a criação de enredos não lineares, com a matéria
narrada atravessada por digressões de vários tipos; os diálogos com o leitor e
a tradição literária nacional e internacional; a ironia sarcástica, fina e corrosiva;
o humor sóbrio e desencantado; a penetração nos recônditos mais profundos
da alma humana universal e intemporal.

Escritor múltiplo, inventivo e desconcertante, Machado de Assis exercitou todos


os gêneros literários (poesia, conto, romance, teatro), produziu crônicas
jornalísticas e ensaios teóricos, dialogou criticamente com o Romantismo e
também com as doutrinas positivistas e deterministas, sempre numa
perspectiva adiantada em relação a sua época.

A visão metafísica relativista de todos os valores - e por isso considerada


pessimista -, a linguagem repleta de ambivalências e de ambiguidades e a
compreensão aguda das contradições sociais do país constituem outras
marcas do escritor, cuja produção mais amadurecida passaremos a analisar.

141
Além de Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom
Casmurro, pertencentes à chamada fase realista de Machado de Assis, outros
romances, como Esaú e Jacó e Memorial de Aires, completam a galeria de
obras representativas da maturidade literária do escritor.

Principais características literárias de Machado de Assis

· Antecipação da modernidade literária.

· Enredo não linear.

· Presença constante de digressões.

· Metalinguagem.

· Diálogos com o leitor e com as tradições literárias.

· Análise psicológica/psicanalítica dos personagens.

· Humor sutil e permanente.

· Ironia fina e corrosiva.

· Visão metafísica relativista dos valores humanos (pessimismo).

NAVEGAR É PRECISO

· Procure releituras e adaptações da obra machadiana na internet. Além de


exemplos da grande mídia, busque também trabalhos escolares,
representações teatrais, leitura dramática de trechos, aulas - enfim, toda sorte
de comentários críticos, interpretações etc.

· Mostre para os colegas a releitura que tenha, especialmente, chamado a sua


atenção, permitindo à classe discuti-la criticamente.

Estudo dos principais romances machadianos

Memórias póstumas de Brás Cubas

Supostamente escrito por um narrador-personagem que resolve contar a sua


vida "de além-túmulo", o romance Memórias póstumas de Brás Cubas
apresenta foco narrativo em 1ª pessoa, o que faz com que a palavra do
protagonista o monopolize.

Além disso, trata-se de um relato aparentemente caracterizado pela isenção e


pela imparcialidade, pois quem o realiza se autodenomina um "defunto autor",
isto é, alguém que já não tem necessidade de mentir, pois deixou o mundo e
todas as suas ilusões.

Entretanto, por meio dessa "armadilha", o escritor dialoga criticamente com o


Realismo, seja criando uma situação narrativa fantástica, seja questionando o
mito da isenção e da imparcialidade, na medida em que se trata de um
narrador não confiável.

A principal característica da travessia de Brás Cubas, que pode sintetizar a


história narrada ao longo do livro, é o fracasso, como veremos sobre os
principais acontecimentos de sua vida.

A narração desses acontecimentos e de outros que compõem o livro realiza-se,


como já foi dito, a partir do ponto de vista não confiável de Brás Cubas.
Egocêntrico, prepotente, voluntarioso, insensível, volúvel, inconsequente e
exibicionista, ele sistematicamente comenta os fatos relatados, distorcendo-os
de forma a converter em superioridades os aspectos negativos de sua
personalidade.

Ao mesmo tempo, Brás Cubas constitui uma espécie de símbolo da classe


dominante brasileira de então, em seu descompasso entre ter uma mentalidade
escravocrata e latifundiária e adotar um comportamento ideológico liberal,
"moderno" e "civilizado", recém-importado da Europa.

LEGENDA: Capa do DVD do filme Memórias póstumas de Brás Cubas,


direção de André Klotzel, 2000.

CRÉDITO: Filme de André Klotzel. Memórias póstumas de Brás Cubas. Brasil,


2000

142

Enfim, Machado de Assis, em Memórias póstumas de Brás Cubas, ao


travestir-se em um defunto autor, substituiu o realismo fotográfico de sua época
por um realismo radiográfico, ou seja, que disseca o que está além das
aparências, dada a densidade psicológica do romance, que, como outras obras
do autor, antecipa elementos que seriam abordados por Sigmund Freud ao
formular a teoria psicanalítica.

Elementos do enredo
Nascido em berço de ouro, Brás foi um menino malvado e mimado; na
juventude, envolveu-se com Marcela, uma cortesã que o amou "durante quinze
meses e onze contos de réis". Para impedi-lo de dissipar a fortuna dafamília, o
pai o mandou cursar Direito em Coimbra, de ondevoltou "um fiel compêndio de
trivialidade e presunção". Ao retornar, quis casar-se com Virgília e tornar-se
deputado, em outro negócio arranjado pelo pai, mas perdeu a noiva e o cargo
para Lobo Neves. Mais tarde, pretendendo ser ministro, conseguiu o amor
adúltero de Virgília e o cargo de deputado. Nhá Loló, outra possibilidade de
casamento, arranjada pela irmã, morreu vitimada por uma epidemia; Quincas
Borba, um colega de infância que se dizia filósofo, ensinou-lhe o Humanitismo
e depois enlouqueceu. Por fim, Brás dedicou-se a um último projeto, a
invenção de um emplastro contra a hipocondria, que curaria miraculosamente
os males da humanidade. Ao sair de casa para patenteá-lo, contraiu
pneumonia e faleceu.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

[...] Quando o romancista assumiu, naquele livro capital, o foco narrativo, na


verdade passou ao defunto autor Machado-Brás Cubas delegação para exibir,
com o despejo dos que já nada mais temem, as peças de cinismo e indiferença
com que via montada a história dos homens. A revolução dessa obra [...] foi
uma revolução ideológica e formal: aprofundando o desprezo às idealizações
românticas e ferindo no cerne o mito do narrador-onisciente, que tudo vê e tudo
julga, deixou emergir a consciência nua do indivíduo, fraco e incoerente. O que
restou foram as memórias de um homem igual a tantos outros, o cauto e
desfrutador Brás Cubas. [...]

BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix,


2006. p. 197.

LEITURA

Capítulo XXVII

Virgília?

Virgília? Mas então era a mesma senhora que alguns anos depois?... A
mesma; era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus
últimos dias, e que antes, muito antes, teve larga parte nas minhas mais
íntimas sensações. Naquele tempo contava apenas uns quinze ou dezesseis
anos; era talvez a mais atrevida criatura da nossa raça, e, com certeza, a mais
voluntariosa. Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as
mocinhas do tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a
realidade e fecha os olhos às sardas e espinhas; mas também não digo que lhe
maculasse o rosto nenhuma sarda ou espinha, não. Era bonita, fresca, saía
das mãos da natureza, cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo
passa a outro indivíduo, para os fins secretos da criação. Era isto Virgília, e era
clara, muito clara, faceira, ignorante, pueril, cheia de uns ímpetos misteriosos;
muita preguiça e alguma devoção, - devoção, ou talvez medo; creio que medo.

Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa que devia
influir mais tarde na minha vida; era aquilo com dezesseis anos. Tu que me lês,
se ainda fores viva, quando estas páginas vierem à luz, - tu que me lês, Virgília
amada, não reparas na diferença entre a linguagem de hoje e a que primeiro
empreguei quando te vi? Crê que era tão sincero então como agora; a morte
não me tornou rabugento, nem injusto.

143

- Mas, dirás tu, como é que podes assim discernir a verdade daquele tempo, e
exprimi-la depois de tantos anos?

Ah! indiscreta! ah! ignorantona! Mas é isso mesmo que nos faz senhores da
Terra, é esse poder de restaurar o passado, para tocar a instabilidade das
nossas impressões e a vaidade dos nossos afetos. Deixa lá dizer Pascal que o
homem é um caniço pensante. Não; é uma errata pensante, isso sim. Cada
estação da vida é uma edição, que corrige a anterior, e que será corrigida
também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: _____. Machado
de Assis: obra completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1962. p. 547, v. 1.

LEGENDA: O primeiro beijo (1943), gravura de Portinari para Memórias


póstumas de Brás Cubas.

CRÉDITO: Cândido Portinari. 1943. Água-forte sobre papel. Coleção Castro


Maya. Museu de Arte Moderna, São Paulo. Reprodução autorizada por João
Cândido Portinari
Releitura

Escreva no caderno

1. Neste capítulo, Brás Cubas descreve Virgília, a mulher com quem quis se
casar e de quem se tornou amante.

Resposta: [...] era justamente a senhora, que em 1869 devia assistir aos meus
últimos dias [...]"; "[...] a morte não me tornou rabugento, nem injusto."

Identifique dois trechos que exemplificam a situação fantástica com que o


romance é construído: o ponto de vista de um defunto autor.

2. Leia esta passagem do texto:

Não digo que já lhe coubesse a primazia da beleza, entre as mocinhas do


tempo, porque isto não é romance, em que o autor sobredoura a realidade e
fecha os olhos às sardas e espinhas [...]

O que revela a metalinguagem empregada nesse trecho?

Resposta: A metalinguagem revela uma crítica irônica ao Romantismo.

3. Em "Aí tem o leitor, em poucas linhas, o retrato físico e moral da pessoa que
devia influir mais tarde na minha vida", que recurso bastante frequente do estilo
machadiano pode ser reconhecido?

Resposta: A conversa com o leitor.

4. Quanto à descrição feita pelo narrador de Virgília adolescente, responda:

a) Quais são as principais características físicas da personagem? Utilize um


trecho do texto para justificar sua resposta.

Resposta: Ela era bonita e sensual, como se percebe pelo trecho: "Era bonita,
fresca [...] cheia daquele feitiço, precário e eterno, que o indivíduo passa a
outro indivíduo, para os fins secretos da criação".

b) Que adjetivos indicam as características psicológicas de Virgília?

Resposta: "Atrevida", "voluntariosa", "faceira", "ignorante", "pueril".

5. Note que o narrador comenta ironicamente com Virgília o modo como a


descreveu, como se estivesse conversando com ela.
a) Em sua opinião, esse tom de conversa entre narrador e personagem é
desconcertante para o leitor? Justifique.

Resposta: Sim, pois o narrador, que já está morto, transforma a personagem


em leitora do romance, misturando elementos de ficção e elementos de
realidade, o que vai de encontro às expectativas do leitor.

b) Identifique o tema desse comentário e explique o ponto de vista do narrador


a respeito dele.

Resposta: O tema é a diferença entre a linguagem do passado e a do presente;


o ponto de vista é que ambas são sinceras.

144

6. Segundo o narrador, o poder de restaurar o passado nos faz senhores da


Terra.

a) De acordo com o texto, o que acontece quando exercemos esse poder?

Resposta: O que acontece é que adquirimos consciência da "instabilidade das


nossas impressões" e da "vaidade dos nossos afetos".

b) Identifique as palavras desse capítulo que acentuam uma característica da


obra de Machado de Assis: o ponto de vista negativo sobre o ser humano.

Resposta: As palavras instabilidade e vaidade, referentes aos seres


humanos, mostram a negatividade que caracteriza a obra de Machado de
Assis.

7. O capítulo termina com uma digressão filosófica que reafirma a ironia


pessimista do narrador sobre a espécie humana. Explique o procedimento pelo
qual essa digressão é construída.

Resposta: O narrador constrói a digressão por meio da comparação entre as


etapas da vida humana e as da edição de livros.

Quincas Borba

Quincas Borba é um romance cujo título alude ao autor da filosofia do


Humanitismo, Quincas Borba, o filósofo maluco que conhecemos em
Memórias póstumas de Brás Cubas.
Em Memórias póstumas, Quincas Borba, que fora colega de infância de Brás
Cubas, faz a ele uma visita, durante a qual lhe rouba um relógio e desaparece.
Tempos depois retorna rico graças a uma herança.

Em Quincas Borba, o personagem reaparece à beira da morte e


completamente tomado pela demência, que se expressa por meio de uma
violenta "mania de grandeza", ironizada ao longo de todo o romance por meio
da figura de Rubião, o protagonista, que, como veremos, se converte em
discípulo de Quincas Borba.

Elementos do enredo

A história é contada em 3ª pessoa e centraliza-se em Rubião, um professor


mineiro, pobre e simplório, que no início do romance trabalha como enfermeiro
de Quincas Borba, o qual o converte em discípulo.

Com a morte do "filósofo", Rubião herda sua fortuna, sua doutrina filosófica e
seu cão, cujo nome ironicamente também é Quincas Borba.

O enredo de Quincas Borba traz acontecimentos reveladores da ingenuidade


de Rubião, que se muda para o Rio de Janeiro a fim de gozar a herança
deixada por Quincas Borba. Lá experimenta a vida na Corte e dissipa todo o
dinheiro, que é usurpado por aproveitadores. Ao longo desse processo, vai
sendo tomado pela mesma demência - a "mania de grandeza" - de Quincas
Borba. Rubião imita Napoleão III, herói de quem tem um busto em casa.

Quando retorna à cidade natal, Barbacena, sem dinheiro, faminto e passando


frio, uma comadre de Rubião o recolhe. Ele morre nesse lugar, ironicamente
acompanhado do cão e da memória dos dizeres de Quincas Borba - "Ao
vencedor, as batatas" -, que só agora julga compreender de fato.

LEGENDA: Ilustração de Poty para Quincas Borba, de Machado de Assis,


1988.

CRÉDITO: Poty

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

O tema central de Quincas Borba é a transformação do homem em objeto do


homem, a coisificação. O capitalista Cristiano Palha usa a esposa Sofia para
usurpar a fortuna de Rubião, que, no entanto, enlouquece de amor. A ruína de
Rubião (econômica, moral e física) prova a ideia de que "ser fraco é ser
culpado". Esse princípio fora aplicado por Charles Darwin ao descrever a
seleção natural das espécies. Em Quincas Borba, Machado de Assis faz uma
paródia desse processo, mostrando que na sociedade a luta é tão voraz quanto
na natureza.

TEIXEIRA, Ivan. Apresentação de Machado de Assis. São Paulo: Martins


Fontes, 1987. p. 110.

145

LEITURA

Leia um fragmento do capítulo V do romance Quincas Borba e responda às


questões.

Quincas Borba, que não deixara de andar, parou alguns instantes.

- Queres ser meu discípulo?

- Quero.

- Bem, irás entendendo aos poucos a minha filosofia; no dia em que a houveres
penetrado inteiramente, ah! nesse dia terás o maior prazer da vida, porque não
há vinho que embriague como a verdade. Crê-me, o Humanitismo é o remate
das cousas; e eu, que o formulei, sou o maior homem do mundo. Olha, vês
como o meu bom Quincas Borba está olhando para mim? Não é ele, é
Humanitas...

- Mas que Humanitas é esse?

- Humanitas é o princípio. Há nas cousas todas certa substância recôndita e


idêntica, um princípio único, universal, eterno, comum, indivisível e indestrutível
[...]. Pois essa substância ou verdade, esse princípio indestrutível é que é
Humanitas. Assim lhe chamo, porque resume o universo, e o universo é o
homem. Vais entendendo?

- Pouco; mas, ainda assim, como é que a morte de sua avó...

- Não há morte. O encontro de duas expansões, ou a expansão de duas


formas, pode determinar a supressão de uma delas; mas, rigorosamente, não
há morte, há vida, porque a supressão de uma é a condição da sobrevivência
da outra, e a destruição não atinge o princípio universal e comum. Daí o caráter
conservador e benéfico da guerra. Supõe tu um campo de batatas e duas tribos
famintas. As batatas apenas chegam para alimentar uma das tribos, que assim
adquire forças para transpor a montanha e ir à outra vertente, onde há batatas
em abundância; mas, se as duas tribos dividirem em paz as batatas do campo,
não chegam a nutrir-se perfeitamente e morrem de inanição. A paz, nesse
caso, é a destruição; a guerra é a conservação. Uma das tribos extermina a
outra e recolhe os despojos. Daí a alegria da vitória, os hinos, aclamações,
recompensas públicas e todos os demais efeitos das ações bélicas. Se a
guerra não fosse isso, tais demonstrações não chegariam a dar-se, pelo motivo
real de que o homem só comemora e ama o que lhe é aprazível ou vantajoso,
e pelo motivo racional de que nenhuma pessoa canoniza uma ação que
virtualmente a destrói. Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as
batatas.

ASSIS, Machado de. Quincas Borba. In: _____. Machado de Assis: obra
completa. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1962. v. 1. p. 646.

Releitura

Escreva no caderno

Nesse trecho da obra, Quincas Borba, pouco tempo antes de morrer e já


tomado pela loucura, convida Rubião para ser seu "discípulo" e lhe transmite
alguns rudimentos do Humanitismo: a "doutrina filosófica" por meio da qual
Machado de Assis ironiza o raciocínio evolucionista, positivista e determinista
de sua época.

1. Em sua opinião, o que há de enganoso na argumentação de Quincas Borba


em prol do caráter conservador e benéfico da guerra?

Resposta pessoal. Sugestão: A defesa da tese de Quincas Borba deixa de lado


as criaturas, cuja existência se reduz à necessidade de justificar os conflitos.

2. O que há em comum entre as afirmações e argumentações de Quincas


Borba e o cientificismo da segunda metade do século XIX, presente, por
exemplo, na construção de certos personagens naturalistas?
Resposta: O elemento comum é a tendência mecanicista de utilizar a vida
humana para demonstrar teses que pretendem explicá-la de forma redutora.

3. Relendo o trecho, e considerando o caráter irônico de que se reveste a


presença do Humanitismo na obra, comente o que lhe parece irônico na frase:
"ao vencedor, as batatas".

Resposta pessoal.

Atenção Professor(a), seria interessante uma discussão com a classe sobre a


ironia diante da figura do vencedor, a quem "batatas" não parece constituir uma
recompensa condigna. Fim da observação.

146

Dom Casmurro

Elementos do enredo

Narrado em 1ª pessoa por um narrador-personagem que se autointitula Dom


Casmurro e que conta a vida de Bentinho, o apelido que tinha quando jovem,
esse romance foi lido por muito tempo como mais um exemplo de adultério
feminino explorado pelo realismo naturalista.

Nele se conta a paixão de Bentinho, um menino representante das elites


nacionais, por sua vizinha Capitu, de condição socioeconômica inferior.

Graças à interferência de José Dias, agregado da família de Bentinho, o


personagem sai do seminário, forma-se em Direito, estreita sua amizade com
Escobar, ex-colega de seminário, e se casa com Capitu, cuja amiga Sancha se
casa com Escobar.

O conflito central do romance explicita-se quando Escobar morre num acidente.


Julgando estranha a forma pela qual Capitu contempla o cadáver e lembrando-
se da referência de José Dias aos seus "olhos de cigana oblíqua e
dissimulada", Bentinho entrega-se ao ciúme a ponto de planejar a morte da
esposa e do filho, Ezequiel, que julga cada vez mais parecido com Escobar.

O casal se separa, Capitu e Ezequiel morrem anos depois, e Bentinho, cada


vez mais fechado em si mesmo e atormentado pelas dúvidas, passa a ser
chamado de Dom Casmurro.
FIQUE SABENDO

O enigma de Dom Casmurro

Em Dom Casmurro, quanto mais os tormentos do narrador-personagem


Bentinho transparecem ao leitor, mais a dúvida em relação ao adultério e,
consequentemente, à culpa de Capitu é levantada. Essa dúvida aventa a
possibilidade de não ter havido a traição e, portanto, de a responsabilidade
pela separação caber a Bentinho, que nunca se sentiu seguro diante da
desenvoltura e da vivacidade de Capitu, nem diante da inteligência e da
simpatia de Escobar.

Em 1960, uma estudiosa estadunidense propôs uma releitura do romance que


aponta Bentinho, e não Capitu, como o problema central a ser desvendado.
Desde então, Dom Casmurro vem sendo lido e relido, com novas chaves que
cada vez mais comprovam o caráter enigmático da obra. Entre tais chaves,
destaca-se aquela que comentamos a propósito de Memórias póstumas de
Brás Cubas: a não confiabilidade do narrador, cuja personalidade ciumenta,
invejosa, cruel e prepotente transforma o livro num verdadeiro processo de
acusação contra a esposa.

Assim, em Dom Casmurro, Machado de Assis aborda um tema familiar típico


dos romances de sua época, como O primo Basílio, de Eça de Queirós, e
Madame Bovary, de Gustave Flaubert. Entretanto, ao mesmo tempo, dá a
esse tema um tratamento tão novo e diferenciado que torna o romance
incompreensível para seus contemporâneos. Essas e outras ambiguidades
desafiam os leitores e a crítica a cada nova leitura, que aprofunda e questiona
as anteriores, sem esgotar, entretanto, as possibilidades interpretativas da obra
- romance modelar do mestre Machado de Assis.

Em tom de conversa

O texto "O penteado", da página 137, é bastante significativo para


compreender as ambiguidades que caracterizam a personagem Capitu, uma
das mais misteriosas da literatura brasileira. Agora, leia e discuta com seus
colegas o seguinte ponto de vista da atriz Fernanda Montenegro a respeito
dela.

LEGENDA: Fernanda Montenegro.


CRÉDITO: Hélvio Romero/Conteúdo Estadão

Ouso falar sobre Capitu como atriz. Como se estivesse analisando um texto de
dramaturgia, juntamente com um elenco, ao redor de uma mesa. Não estou
aqui me arvorando em crítica literária. E como mulher de palco digo que, se eu
tivesse tido na minha vida a oportunidade de tentar interpretar Capitu, partiria
do ponto de vista de sua clara, profunda e inconfundível brasilidade.

Não estou circunscrevendo Capitu à nossa aldeia. Ela é universal como


literatura e como perfil de mulher. Indo além do que já ousei e me arrisquei
nestes parágrafos, intuo que, embora Brasil seja nome masculino, nosso país,
por nossa complexidade oblíqua, energética, misteriosa, pela nossa história
contada sempre de uma forma tão dissimulada e pelo fascínio tão decantado
de nossos trópicos, é, no fundo, uma nação Capitu.

MONTENEGRO, Fernanda apud SCHPREJER, Alberto (Org.). Quem é


Capitu? Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2008. p. 14-15.

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 7, comentários sobre esta seção. Fim da observação.

147

Os contos de Machado de Assis

A despeito da grandeza de seus romances da fase realista, muitos críticos


consideram os contos machadianos o melhor do que ele escreveu. Leia o boxe
a seguir para conhecer as razões desse parecer.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

Embora qualquer de seus melhores romances - Memórias póstumas de Brás


Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro - seja superior a tudo o que em seu
tempo se escreveu e à imensa maioria dos livros que depois se publicaram,
possa e deva perdurar em nossa literatura como modelo em seu gênero, foi
incontestavelmente como contista que Machado de Assis fez as suas obras-
primas. [...] em Papéis avulsos, Histórias sem data, Páginas recolhidas,
Várias histórias e Relíquias da casa velha [...] quase tudo é de primeira
ordem, e a maior parte é de páginas perfeitas. "O alienista", "O empréstimo",
"O espelho", "Verba testamentária", "A igreja do diabo", "Último capítulo",
"Cantiga de esponsais", "Singular ocorrência", "Fulano", "Galeria póstuma",
"Anedota pecuniária", "Noite de almirante", "O caso da vara", "Eterno!", "Missa
do galo", "Um erradio", "Ideias de canário", "Papéis velhos", "A cartomante",
"Uns braços", "Um homem célebre", "A causa secreta", "O enfermeiro", "O
diplomático", "Conto de escola", "Marcha fúnebre", "Um capitão de voluntários",
"Suje-se gordo!", "Umas férias", "Evolução", "Anedota do Cabriolet", "Só!", "O
escrivão Coimbra", "Um quarto de século", "Valério", "A mágoa do infeliz
Cosme", "Sem olhos", "Um almoço", "O programa" - e talvez alguns tenham
sido esquecidos - representam, não só a culminância da obra de Machado de
Assis, como um conjunto cuja harmonia foi raramente atingida.

Harmonia que resulta, já da coerência e da constância dos pontos de vista de


Machado de Assis em relação ao homem e à vida, já da límpida simplicidade
da sua narrativa, já e sobretudo da adequação da sua linguagem e do seu
estilo às suas ideias. Há uma singular unidade na obra toda - contos, romances
e crônicas [...] - desse homem que escreveu tanto e durante tanto tempo,
sempre fiel a si mesmo, à sua descrença no destino e na natureza humana, à
sua crença na arte. A escolha dos temas como a das palavras parece ter nele
obedecido sempre o mesmo desejo de buscar as nuanças, de fixar as
sutilezas, de descobrir secretas relações. A tendência que o fazia notar um
movimento recôndito da alma de uma personagem era, em essência, a mesma
que o levava a colar a um substantivo um adjetivo inesperado, mas que lhe
conferia maior significação.

PEREIRA, Lúcia Miguel. História da literatura brasileira: prosa de ficção (de


1870 a 1920). Rio de Janeiro: José Olympio: MEC, INL, 1973. p. 100-101.

LEGENDA: A Estação, 15 de maio de 1884. Vários contos de Machado de


Assis foram publicados no suplemento literário dessa revista feminina.

CRÉDITO: A Estação. 1884. Coleção particular

E MAIS...

Apresentação

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas do capítulo 7, comentários sobre esta seção. Fim da observação.
Leia e releia o conto "Uns braços", verdadeira obra-prima da contística
machadiana, e faça um estudo do texto para apresentá-lo aos colegas e ao (à)
professor(a). O conto pode ser baixado no site Domínio Público
(http://tub.im/ymmfu8. Acesso em: 12 maio 2016). Utilize como roteiro as
questões propostas a seguir.

1. O narrador do conto é onisciente, isto é, domina o universo mental dos


personagens, sabendo a respeito deles mais do que eles mesmos podem
compreender. Ao mesmo tempo, fornece a nós, leitores, indícios, pistas sobre a
história que vai contar: trata-se de uma história de amor e sedução.

148

a) Em qual parágrafo percebemos a paixão de Inácio por D. Severina?

Resposta: No sétimo parágrafo.

b) Que relação há entre esse parágrafo e o título do conto?

Resposta: Nesse parágrafo, ficamos sabendo que o título do conto refere-se


aos braços de D. Severina, para os quais Inácio olha apaixonadamente.

c) Como você explicaria a atenção que Inácio dedica aos braços de D.


Severina?

Resposta: Inácio não ousa mirar D. Severina nos olhos: acostuma-se então a
espreitá-la à mesa de olhos baixos. Assim, só consegue ver seus braços. Além
disso, não era comum as mulheres trazerem os braços nus. Daí chamarem
tanto a atenção do rapaz.

2. Na sua opinião, é verdadeira a afirmação de que D. Severina é culpada da


paixão de Inácio? Por quê?

Resposta pessoal. Professor(a), espera-se que os alunos percebam que não.


D. Severina é simples, sem adornos, nem bonita nem feia, "antes grossa que
fina", seus braços andam nus não por faceirice, mas por falta de vestidos de
manga comprida.

3. Chama-se interpolação um comentário à margem do texto, geralmente


colocado entre parênteses. No conto, um exemplo de interpolação é a
expressão "capciosa natureza!", com a qual o narrador se refere a D. Severina.
Na sua opinião, o que há de irônico nessa interpolação?

Resposta: Essa interpolação é irônica porque se refere à malícia de D.


Severina ao lidar com a própria consciência, fingindo algo que não sentia para
se eximir de denunciar o rapaz ao marido.

4. Ao longo do desenvolvimento do enredo, vamos percebendo indícios de que


D. Severina ao mesmo tempo rejeita e compartilha o desejo de que é objeto.

a) Com que atitudes ela revela essa relação ambígua?

Resposta: D. Severina revela essa reação ambígua ora sendo áspera, ora
sendo meiga com Inácio; ora esquivando-lhe os olhos, ora demorando-os nele.

b) Dentre as atitudes contraditórias de D. Severina, predominam as de


proximidade ou de afastamento? Justifique.

Resposta: Predominam as atitudes de proximidade, que assumem um modo


maternal de expressão.

5. O clímax ou ponto culminante da história acontece num "imenso domingo


universal".

a) Que passagem do parágrafo 27 indica que nesse conto há uma


rememoração do passado no presente?

Resposta: A passagem é "nunca ele esqueceu esse domingo".

b) Como você interpreta a expressão "um imenso domingo universal", tendo


em vista os acontecimentos que se desencadeiam?

Resposta: Domingo universal pode significar um tempo "fora do tempo", um


feriado, um momento absoluto em que um sonho de um rapaz se transforma
em realidade.

6. Para qual dos protagonistas o encontro foi real e para qual foi imaginário?
Por quê?

Resposta: O encontro foi imaginário para Inácio, porque ele beijou D. Severina
em sonho. Para ela, no entanto, foi um encontro real, já que beijou de fato o
rapaz enquanto ele dormia.
7. Na sua opinião, por que se trata de um texto realista, e não romântico,
considerando que explora a temática amorosa, tão preciosa ao Romantismo?

Resposta: Percebem-se as características realistas do conto no modo pelo qual


a temática amorosa é apresentada: a análise psicológica dos protagonistas,
destituída de maniqueísmos, o clímax e o desfecho verossímeis (sem
revelações surpreendentes, lances trágicos ou happy endings) etc.

Os recursos estilísticos

Vamos ler fragmentos de textos de Machado de Assis e neles reconhecer os


principais procedimentos estilísticos utilizados pelo escritor. Dessa forma,
poderemos perceber aspectos não apenas modernos, mas que podemos
considerar contemporâneos de sua escritura, entendendo as razões pelas
quais ela se mantém viva e atuante em pleno século XXI.

1
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que
fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre
é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a
sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o
maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro
anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e
este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda,
andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam
e caem...

Metalinguagem irônica e digressiva.


Humor corrosivo, demolidor das ilusões românticas.
Conversa provocativa com o leitor, fazendo parecer sem importância o que é
fundamental e vice-versa.
Comparação insólita, que ironiza o leitor acostumado com o folhetim romântico
e dá pistas de leitura do romance.

Memórias póstumas de Brás Cubas


149

2
Aqui é que eu quisera ter dado a este livro o método de tantos outros, - velhos
todos, - em que a matéria do capítulo era posta no sumário: "De como
aconteceu isto assim, e mais assim". Aí está Bernardim Ribeiro; aí estão outros
livros gloriosos. Das línguas estranhas, sem querer subir a Cervantes nem a
Rabelais, bastavam-me Fielding e Smollet, muitos capítulos dos quais só pelo
sumário estão lidos. Pegai em Tom Jones, livro IV, cap. I, lede este título:
Contendo cinco folhas de papel. É claro, é simples, não engana a ninguém; são
cinco folhas, mais nada, quem não quer não lê, e quem quer lê, para os últimos
é que o autor conclui obsequiosamente: "E agora, sem mais prefácio, vamos
ao seguinte capítulo".

Digressão metalinguística.
Citação irônica de fontes literárias.
Conversa com o leitor, questionando o processo de criação literária.
Microcapítulo metalinguístico.

Quincas Borba

3
A peça era um dramalhão, cosido a facadas, ouriçado de imprecações e
remorsos; mas Fortunato ouviu-a com singular interesse. Nos lances dolorosos,
a atenção dele redobrava, os olhos iam avidamente de um personagem a
outro, a tal ponto que o estudante suspeitou haver na peça reminiscências
pessoais do vizinho. No fim do drama, veio uma farsa; mas Fortunato não
esperou por ela e saiu; Garcia saiu atrás dele. Fortunato foi pelo Beco do
Cotovelo, Rua de S. José, até o Largo da Carioca. Ia devagar, cabisbaixo,
parando às vezes, para dar uma bengalada em algum cão que dormia; o cão
ficava ganindo e ele ia andando.
Imagens irônicas, inesperadas.
Caracterização substantiva e refinada de um tipo sádico.

"A causa secreta"

E MAIS...

Documentário

Reúna-se com seus colegas e procure conhecer detalhes da vida de Machado


de Assis. Como - sendo mulato, pobre, órfão - se transformou num dos maiores
escritores brasileiros de todos os tempos?

Use a internet e outros recursos para recuperar a travessia desse escritor,


reunindo o material coletado num documentário que seja mostrado em classe e
divulgado em um site de hospedagem de vídeos, após avaliação da classe.

Um excelente exemplo de documentário, para servir como ponto de partida do


trabalho, é Machado de Assis, um mestre na periferia, que você pode
encontrar na internet.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Neste capítulo, estudamos Machado de Assis, um dos maiores escritores


brasileiros de todos os tempos, que cultivou prosa de ficção (romance, conto),
poesia, teatro, crítica, polêmica, crônica etc.

Criador de um Realismo psicológico sem precedentes nem continuadores, que


antecipa a modernidade literária, seu estilo é marcado sobretudo por: enredo
não linear, presença constante de digressões metalinguísticas, diálogos com o
leitor e com as tradições literárias, humor sutil e permanente e análise
psicológica/ psicanalítica dos personagens, por meio de ironia fina e corrosiva.

A visão machadiana sobre o ser humano é chamada de pessimista por


relativizar sistematicamente todos os valores instituídos, entre os quais se
destacam o Romantismo e as ideias positivistas e deterministas vigentes na
época.

150

Atividades

Escreva no caderno
1. (UnB-DF)

O emplasto

Um dia de manhã, estando a passear na chácara, 3pendurou-se-me uma ideia


no trapézio que eu tinha no cérebro.

Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais 1arrojadas


cambalhotas. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto,
estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou
devoro-te.

Essa ideia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um


emplasto anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica
humanidade.

Na petição de privilégio que então redigi, chamei a atenção do governo para


esse resultado, verdadeiramente cristão. Todavia, não neguei aos amigos as
vantagens pecuniárias que deviam resultar da distribuição de um produto de
tamanhos e tão profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da
vida, posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de ver
impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e, enfim, nas caixinhas
do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas. Para que negá-lo? Eu
tinha a paixão do arruído, do cartaz, do foguete de lágrimas. Talvez os
modestos me arguam esse defeito; fio, porém, que esse talento me hão de
reconhecer os hábeis. Assim, a minha ideia trazia duas faces, como as
medalhas, uma virada para o público, outra para mim. De um lado, filantropia e
lucro; de outro, 2sede de nomeada. Digamos: - amor da glória.

Um tio meu, cônego de prebenda inteira, costumava dizer que o amor da glória
temporal era a perdição das almas, que só devem cobiçar a glória eterna. Ao
que retorquia outro tio, oficial de um dos antigos terços de infantaria, que o
amor da glória era a coisa mais verdadeiramente humana que há no homem e,
consequentemente, a sua mais genuína feição.

Decida o leitor entre o militar e o cônego; eu volto ao emplasto.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: Obra completa.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 514-515, v. I (com adaptações).
Com relação ao texto acima, à obra Memórias póstumas de Brás Cubas e a
aspectos por eles suscitados, julgue os itens subsequentes.

a) O compromisso do narrador com a verdade dos fatos, honestidade


decorrente da vida além-túmulo, e o seu interesse pela ciência e pela filosofia
aproximam a narrativa de Memórias póstumas de Brás Cubas da forma de
narrar do Naturalismo, ou seja, da descrição objetiva da realidade.

Resposta: incorreto

b) As "arrojadas cambalhotas" (ref. 1) da ideia inventiva de Brás Cubas


relacionam-se à forma como Machado de Assis compôs esse romance, no qual
o narrador intercala a narrativa de suas memórias com divagações acerca de
temas diversos, o que produz constante vaivém na condução do enredo.

Resposta: correto

c) A narrativa das diferentes faces de uma mesma ideia expressa a


singularidade do realismo machadiano, que ultrapassa as convenções realistas
- focadas em desvelar as razões econômicas das causas humanitárias - e
alcança dimensão mais profunda: a de desnudar o cinismo com que filantropia
e lucro são reduzidos a caprichos do defunto autor em sua "sede de nomeada"
(ref. 2).

Resposta: correto

d) A partir de Memórias póstumas de Brás Cubas, o conjunto da obra


machadiana divide-se em duas fases: a primeira é constituída por obras em
que o foco narrativo é em terceira pessoa e o tema revela interesse pela sorte
dos pobres, como em Helena, por exemplo; a segunda é formada de obras
construídas a partir da perspectiva do narrador-personagem associado à classe
dominante local, a exemplo de Dom Casmurro.

Resposta: correto

151

e) No trecho "pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro"


(ref. 3), a combinação dos pronomes "se" e "me" exemplifica a variante padrão
da língua portuguesa à época do texto. No que se refere ao português
contemporâneo, uma estrutura equivalente que manteria a ênfase no sujeito da
oração e a correção gramatical seria a seguinte: uma ideia pendurou-se no
trapézio que eu tinha em meu cérebro.

Resposta: correto

2. (UFRN) A passagem transcrita abaixo faz parte do capítulo IX ("Transição"),


de Memórias póstumas de Brás Cubas:

E vejam agora com que destreza, com que arte faço eu a maior transição deste
livro. Vejam: o meu delírio começou em presença de Virgília; Virgília foi meu
grão pecado da juventude; não há juventude sem meninice; meninice supõe
nascimento; e eis aqui como chegamos nós, sem esforço, ao dia 20 de outubro
de 1805, em que nasci. Viram? Nenhuma juntura aparente, nada que divirta a
atenção pausada do leitor: nada.

ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Ática,
2000.

Este fragmento ilustra bem o estilo narrativo da obra, que é marcada pela:

a) liberdade técnica com que se encadeiam os eventos da história.

b) rigidez da técnica narrativa, indispensável à Escola Realista.

c) fidelidade à ordem cronológica linear dos acontecimentos.

d) negação da cientificidade narrativa típica da Escola Romântica.

Resposta: Alternativa a.

3. (UPF-RS) Acerca de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de


Assis, não se pode afirmar:

a) O protagonista e narrador do romance é um personagem que vive de


aparências, sempre rondando a periferia do poder.

b) Por meio da construção do personagem Brás Cubas acontece uma inversão


da trajetória típica dos heróis do mundo burguês.

c) A irreverência e desrespeito a tudo e a todos que se observam na técnica de


narrar são uma representação da desfaçatez da classe dominante.
d) No enredo desenha-se uma relação de favor entre proprietários e seus
dependentes, imitando claramente o tipo de relacionamento de classe que
estruturava a sociedade brasileira do período em que se passa a história.

e) Aborda a complexidade dos indivíduos, retratada com idealização romântica,


como se observa na análise que Brás Cubas faz dos sentimentos que Marcela
alimentava por ele.

Resposta: Alternativa e.

4. (Enem/MEC)

Capítulo III

Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava


açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata,
ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o
amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de
figuras que aqui está na sala: um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de
escolher, escolheria a bandeja, - primor de argentaria, execução fina e
acabada. O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem
resistência que Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe
dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e não queria
línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a
necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom
pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da província, nem o pode
deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros
serviços.

ASSIS, M. Quincas Borba. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar,
1993. v. 1 (fragmento).

152

Quincas Borba situa-se entre as obras-primas do autor e da literatura


brasileira. No fragmento apresentado, a peculiaridade do texto que garante a
universalização de sua abordagem reside:

a) no conflito entre o passado pobre e o presente rico, que simboliza o triunfo


da aparência sobre a essência.
b) no sentimento de nostalgia do passado devido à substituição da mão de
obra escrava pela dos imigrantes.

c) na referência a Fausto e Mefistófeles, que representam o desejo de


eternização de Rubião.

d) na admiração dos metais por parte de Rubião, que metaforicamente


representam a durabilidade dos bens produzidos pelo trabalho.

e) na resistência de Rubião aos criados estrangeiros, que reproduz o


sentimento de xenofobia.

Resposta: Alternativa a.

5. (Enem/MEC)

Quincas Borba mal podia encobrir a satisfação do triunfo. Tinha uma asa de
frango no prato, e trincava-a com filosófica serenidade. Eu fiz-lhe ainda
algumas objeções, mas tão frouxas, que ele não gastou muito tempo em
destruí-las.

- Para entender bem o meu sistema, concluiu ele, importa não esquecer nunca
o princípio universal, repartido e resumido em cada homem. Olha: a guerra,
que parece uma calamidade, é uma operação conveniente, como se
disséssemos o estalar dos dedos de Humanitas; a fome (e ele chupava
filosoficamente a asa de frango), a fome é uma prova a que a Humanitas
submete a própria víscera. Mas eu não quero outro documento da sublimidade
do meu sistema, senão este mesmo frango. Nutriu-se de milho, que foi
plantado por um africano, suponhamos, importado de Angola. Nasceu esse
africano, cresceu, foi vendido; um navio o trouxe, um navio construído de
madeira cortada no mato por dez ou doze homens, levado por velas, que oito
ou dez homens teceram, sem contar a cordoalha e outras partes do aparelho
náutico. Assim, este frango, que eu almocei agora mesmo, é o resultado de
uma multidão de esforços e lutas, executadas com o único fim de dar mate ao
meu apetite.

ASSIS, M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro: Civilização


Brasiliense, 1975.
A filosofia de Quincas Borba - a Humanitas - contém princípios que, conforme a
explanação da personagem, consideram a cooperação entre as pessoas uma
forma de:

a) lutar pelo bem da coletividade.

b) atender a interesses pessoais.

c) erradicar a desigualdade social.

d) minimizar as diferenças individuais.

e) estabelecer vínculos sociais profundos.

Resposta: Alternativa b.

6. (Unicamp-SP) Os trechos abaixo foram extraídos de Dom Casmurro, de


Machado de Assis.

Eu, leitor amigo, aceito a teoria do meu velho Marcolini, não só pela
verossimilhança, que é muita vez toda a verdade, mas porque a minha vida se
casa bem à definição. Cantei um duo terníssimo, depois um trio, depois um
quatuor...

Nada se emenda bem nos livros confusos, mas tudo se pode meter nos livros
omissos. Eu, quando leio algum desta outra casta, não me aflijo nunca. O que
faço, em chegando ao fim, é cerrar os olhos e evocar todas as cousas que não
achei nele. Quantas ideias finas me acodem então! Que de reflexões
profundas! Os rios, as montanhas, as igrejas que não vi nas folhas lidas, todos
me aparecem agora com as suas águas, as suas árvores, os seus altares, e os
generais sacam das espadas que tinham ficado na bainha, e os clarins soltam
as notas que dormiam no metal, e tudo marcha com uma alma imprevista.

É que tudo se acha fora de um livro falho, leitor amigo. Assim preencho as
lacunas alheias; assim podes também preencher as minhas.

ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. Cotia: Ateliê Editorial, 2008. p. 213.

a) Como a narrativa de Bento Santiago pode ser relacionada com a afirmação


de que a verossimilhança é "muita vez toda a verdade"?

Resposta: Segundo Bento Santiago, a verossimilhança, harmonia entre


elementos fantasiosos que garantem a coerência da narrativa, é vista, muitas
vezes, como verdade inquestionável. Isso significa que o ponto de vista de
quem escreve pode ser tomado como verdadeiro, sem levar em conta a
subjetividade do narrador, como ocorre com Bento Santiago, que, convencido
da traição de Capitu, induz o leitor a aceitar a sua tese.

b) Considerando essa relação, explicite o desafio que o segundo trecho propõe


ao leitor.

Resposta: No segundo trecho, o narrador desafia o leitor a descobrir nas


entrelinhas da narrativa as verdadeiras intenções dos personagens ou a
ambiguidade das suas ações, de maneira a completar tudo aquilo que não foi
dito.

153

GRAMÁTICA

CAPÍTULO 1 | Pronome

CAPÍTULO 2 | Verbo

CAPÍTULO 3 | Palavras invariáveis

CAPÍTULO 4 | A sintaxe - conceitos gerais · Sujeito e predicado

CAPÍTULO 5 | Os verbos no predicado · Termos associados ao verbo

CAPÍTULO 6 | Termos associados a nomes · Vocativo

CRÉDITO: Felipe Nunes

154

capítulo 1 - Pronome

Classes gramaticais

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Artigos

· BIZZOCCHI, Aldo. O nome de quem? Revista Língua Portuguesa, ed. 116,


jun. 2015. Disponível em: http://tub.im/kasqhh. Acesso em: 3 mar. 2016.

· BIZZOCCHI, Aldo. O pronome milenar. Revista Língua Portuguesa, ed. 116,


jun. 2015. Disponível em: http://tub.im/26bgre. Acesso em: 3 mar. 2016.
Ensaio

· MORENO, Cláudio. Retos e oblíquos. In: _____. O prazer das palavras.


Porto Alegre: L&PM, 2007.

155

Atenção Professor(a), a atividade da seção "E mais..." da página 183 requer


preparação antecipada. Fim da observação.

INTRODUÇÃO

No volume 1 desta coleção, vimos que classe gramatical (ou classe


morfológica) é o conjunto formado por todas as palavras que têm a mesma
finalidade (dar nomes, atribuir características etc.). Vimos também que as
palavras da língua portuguesa se distribuem em dez classes gramaticais.

O substantivo, o adjetivo, o artigo e o numeral já foram estudados no


volume 1. A partir deste capítulo, vamos dar continuidade ao estudo das
classes gramaticais, tratando inicialmente do pronome.

PARA NÃO ESQUECER

Classes gramaticais

· substantivo

· adjetivo

· artigo

· numeral

· pronome

· verbo

· advérbio

· preposição

· conjunção

· interjeição

PRONOME

Conceito e classificação geral


Compare estas duas formas de construção de uma mesma frase:

QUADRO 1

O homem supõe que é superior à natureza, por isso o homem destrói a


natureza, sem pensar que a natureza é essencial para a vida do homem.

QUADRO 2

O homem supõe que é superior à natureza, por isso ele a destrói, sem pensar
que ela é essencial para a sua vida.

LEGENDA: O maior desastre ambiental do Brasil: Bento Rodrigues, distrito de


Mariana (MG), destruído por lama tóxica após rompimento de uma barragem
de rejeitos de mineração, em novembro de 2015.

CRÉDITO: Christophe Simon/AFP Photo/Getty Images

Na frase do quadro 1, dois substantivos aparecem desnecessariamente


repetidos. Já no quadro 2 , os substantivos repetidos de 1 foram substituídos
pelas palavras destacadas. Assim:

· ele - substitui o nome "[o] homem".

· a e ela - substituem o nome "[a] natureza".

· sua

substitui "[d]o homem"

determina/limita o sentido de "vida" (sua vida = vida do homem)

Essas quatro palavras - ele, a, ela e sua - funcionam como pronomes.

Agora observe, no enunciado a seguir, o papel textual da palavra destacada:

· Tirar notas altas nas provas, sem assistir às aulas e sem estudar em casa?!
Ah... É muito difícil! Só quem é meio "gênio" consegue isso.
Palavra que, funcionando como pronome, substitui toda a frase "Tirar notas
altas nas provas, sem assistir às aulas e sem estudar em casa".

156
Atenção Professor(a), sob a designação de pronomes reúne-se um grupo de
palavras bastante heterogêneo quanto às características sintáticas e
semânticas, razão pela qual é impraticável, em um curso escolar, discutir todos
os seus aspectos. Caso haja interesse em aprofundar o estudo, sugere-se
recorrer às obras Gramática descritiva do português, de Mário A. Perini
(Editora Ática) e Gramática de usos do português, de Maria Helena de
Moura Neves (Editora Unesp). Fim da observação.

Os exemplos da página anterior possibilitam conceituar assim essa classe


gramatical:

Pronome é a palavra que:

· Substitui um nome (substantivo).

· Acompanha um nome, determinando/limitando o sentido dele.

· Substitui segmentos textuais: parte(s) de frase, frase(s) inteira(s) ou


conjunto(s) de frases.

Os pronomes constituem uma das classes morfológicas mais importantes do


idioma, tanto na perspectiva de seu emprego funcional nos atos de
comunicação quanto na perspectiva do estudo didático dos diferentes
subgrupos de palavras que integram essa classe.

As palavras que fazem parte da classe dos pronomes apresentam, como


veremos, diferentes empregos: algumas têm a função principal de fazer
referência ao emissor e ao receptor e, assim, estabelecer entre eles certos
vínculos do ato de comunicação; outras são empregadas pelo emissor para
fazer referência a pessoas, coisas, ideias etc. citadas por ele; outras, ainda,
exprimem ideia de posse, e assim por diante.

As múltiplas funções dos pronomes possibilitam subdividi-los em seis grupos,


cada um deles constituído por um conjunto de palavras de características e
empregos semelhantes. Veja o quadro:

Classificação geral dos pronomes

· Pronomes pessoais

· Pronomes possessivos
· Pronomes demonstrativos

· Pronomes indefinidos

· Pronomes relativos

· Pronomes interrogativos

Atenção Professor(a), como já ficou esclarecido no volume 1, as relações


morfossintáticas serão tratadas nos capítulos de 4 a 6, que são destinados ao
estudo da sintaxe da oração. Fim da observação.

Vamos estudar, inicialmente, os pronomes pessoais e os possessivos;


depois, na segunda parte deste capítulo, trataremos dos outros quatro grupos.

PARA QUE SABER?

Os pronomes exercem um importante papel na estruturação das frases e, em


consequência, na estruturação dos textos. Conhecer-lhes as características e
possibilidades de usos ajudará você a:

· Utilizá-los de forma adequada à modalidade culta do idioma, ao escrever ou


falar empregando essa variedade linguística.

· Compreender melhor o que lê (os pronomes são essenciais para a articulação


entre as partes do texto, isto é, para a coesão textual).

· Produzir enunciados bem construídos quanto à estrutura gramatical, coesão e


clareza.

ESTUDO DOS PRONOMES (1ª PARTE)

Pronomes pessoais

Um discurso - ato linguístico de comunicação - realiza-se por meio de relações


que se estabelecem entre um emissor, um receptor e o assunto (alguém ou
alguma coisa a que o emissor se refere). Esses três componentes denominam-
se, pela ordem: 1ª pessoa, 2ª pessoa e 3ª pessoa do discurso.

Leia, como exemplo, este diálogo entre o garotinho Calvin e Susie, colega de
escola dele.

FONTE: WATTERSON, Bill. Os dez anos de Calvin e Haroldo. São Paulo:


Best News, 1996.
CRÉDITO: © 1989 Watterson/Dist. by Universal Uclick

157

Vamos identificar, no primeiro quadrinho, as três pessoas do discurso.

"Oi, Susie! Você escreveu o seu trabalho?"

· Emissor: Calvin → 1ª pessoa

· Receptor: Susie → 2ª pessoa

· Assunto: o trabalho → 3ª pessoa

"É, eu levei a tarde toda nele. E você?"

· Emissor: Susie → 1ª pessoa

· Receptor: Calvin → 2ª pessoa

· Assunto: o trabalho → 3ª pessoa

Agora observe, nas duas falas, estes pronomes empregados pelos dois
interlocutores:

· Na fala de Calvin:

você → representa Susie (2ª pessoa).

· Na fala de Susie:

eu → representa a própria Susie (1ª pessoa).

[n]ele → representa "o trabalho" (3ª pessoa).

você → representa Calvin (2ª pessoa).

Os pronomes você, eu e ele são exemplos de pronomes pessoais.

Pronomes pessoais são pronomes que, num ato de comunicação,


representam as três pessoas do discurso.

As três pessoas do discurso podem ocorrer no singular ou no plural e,


dependendo do enunciado, elas são representadas por diferentes formas de
pronomes pessoais. Veja o quadro:

1ª pessoa do singular eu, me, mim, comigo

do plural nós, nos, conosco


tu, te, ti, contigo
2ª pessoa do singular
você, o/a, se, si, consigo, lhe

vós, vos, convosco


do plural
vocês, os/as, se, si, consigo, lhes

3ª pessoa do singular ele/ela, o/a, se, si, consigo, lhe

do plural eles/elas, os/as, se, si, consigo, lhes

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas, o item "O sistema pronominal", na seção "Complementação
teórica". Fim da observação.

Note, no quadro acima, que cada grupo é constituído por diferentes formas de
um mesmo pronome pessoal. O emprego de uma ou de outra forma de um
determinado pronome depende, como veremos mais à frente, da estrutura da
frase em que ele é utilizado.

Complementos teóricos

1. As formas "tu" e "você" são equivalentes, ou seja, designam a 2ª pessoa


(pessoa com quem se fala), mas exigem que, na variedade culta do idioma, o
verbo a elas associado se flexione de formas diferentes. Compare:

· Tu falaste com ela ontem?


verbo na 2ª pessoa do singular
· Você falou com ela ontem?
verbo na 3ª pessoa do singular

Na variedade coloquial-popular, no entanto, essa diferenciação na forma verbal


desaparece, porque a maioria dos falantes que usa a forma tu emprega o
verbo na 3ª pessoa. Compare mais estes exemplos:

· Sei que tu pesquisaste bem esse assunto. → variedade culta

· Sei que tu pesquisou bem esse assunto. → variedade coloquial-popular

· Sei que você pesquisou bem esse assunto. → variedades culta e coloquial-
popular
2. A forma vós, de raríssimo uso, restringe-se atualmente a situações de
comunicação solenes e muito formais, como em textos religiosos, por exemplo.

158

O emprego da expressão "a gente" como pronome pessoal

A expressão "a gente", há muitos (muitos!) anos vem sendo usada como
pronome pessoal. Ela, no entanto, pelo menos "oficialmente" ainda não integra
a classe dos pronomes, embora seja empregada cotidianamente por todos os
brasileiros. A respeito desse uso, leia este texto:

As línguas mudam com o tempo e as mudanças ocorrem paulatinamente sem


os usuários perceberem. Uma mudança "dramática" na língua portuguesa [...] é
o uso da expressão "a gente" como pronome. [...]

Ana Maria Zilles, numa pesquisa de vulto sobre o tema [...] comenta que o
substantivo "a gente" em português adquiriu no curso de seu desenvolvimento
a função gramatical de pronome. Ana Maria informa que existe um paralelo
com o pronome "você", que se originou da forma de tratamento "vossa mercê",
utilizada inicialmente para se dirigir ao rei, mais tarde usada por entre a
nobreza na corte e mais recentemente pela burguesia portuguesa e brasileira.

No seu desenvolvimento histórico, "vossa mercê" sofreu várias reduções


fonológicas: vossamecê, vosmicê, você. A diferença entre os dois pronomes é
que "você" se originou da elite, ao passo que "a gente" tem origem na fala
popular. "A gente" ocorre hoje em dia na fala de todas as classes sociais e de
diferentes graus de instrução, principalmente em textos informais e, nos últimos
anos, em textos semiformais.

O uso de "a gente" ainda não tem prestígio oficial, sendo considerado pouco
apropriado em textos formais [...].

Na fala, no entanto, impera. Ouve-se "a gente" em sermões (especialmente os


improvisados, não escritos), reuniões de condomínio, encontros entre pais e
mestres, comícios e interações entre professores e alunos em sala de aula,
conversas ou bate-papos virtuais.
Em vez de excluir (como o uso excessivo do pronome "nós" pode fazer), "a
gente" é democrático, pois inclui as pessoas presentes na conversa, nivela
diferenças sociais e aproxima os participantes no discurso. [...]

SCHMITZ, John Robert. Coisa da gente. Revista Língua Portuguesa. São


Paulo: Segmento. n. 11, p. 44-45, set. 2006.

Subdivisão dos pronomes pessoais: retos e oblíquos sujeito

Uma palavra, quando participa da estrutura de uma oração, além de integrar


uma determinada classe gramatical (substantivo, adjetivo, pronome etc.),
exerce também outra função, chamada de função sintática. A função sintática
de uma palavra depende das associações que ela estabelece com as demais
palavras com as quais se combina para formar a oração.

Os pronomes pessoais, dependendo de como são empregados nas orações,


podem exercer a função sintática de sujeito ou de complemento. Essa dupla
possibilidade de função leva a uma subdivisão desses pronomes em
pronomes pessoais retos e pronomes pessoais oblíquos. Assim:

Se o pronome pessoal exerce a função de sujeito ⇒ pronome pessoal reto.

Se o pronome pessoal exerce a função de complemento ⇒ pronome pessoal


oblíquo.

Veja nestes exemplos:

· Nós tivemos só uma oportunidade de conversar com ele.


pronome reto (porque é o sujeito)
pronome oblíquo (não é o sujeito; é complemento)

· Ele deixou muito claro que jamais desconfiaria de nós.


pronome reto (porque é o sujeito)
pronome oblíquo (não é o sujeito; é complemento)

FIQUE SABENDO

1. Oração - qualquer frase ou parte de frase construída em torno de um verbo.

2. Sujeito* - termo (palavra ou expressão) com o qual o verbo estabelece


relação de concordância. Exs.:
*Atenção Professor(a), a respeito do conceito de sujeito aqui antecipado, ver
em Conversa com o professor, nas Orientações específicas, o item "O
conceito sintático de sujeito" na seção "Complementação teórica". Fim da
observação.

· Dois aviões cruzaram o céu.

· Caiu um temporal.

3. Complemento - termo que, na oração, completa o sentido de um verbo ou


de um nome. Exs.:

· Dois aviões cruzaram o céu.

· Eles confiam em nós.

Nota: Os conceitos de sujeito e complemento serão detidamente estudados


em análise sintática (capítulos de 4 a 6).

159

Note, pelos exemplos, que a classificação de uma forma pronominal como


pronome reto ou pronome oblíquo não é fixa; ela depende da função
sintática que o pronome exerce no enunciado.

O quadro a seguir apresenta, para consulta, as diferentes formas de pronomes


pessoais e as funções - sujeito ou complemento - que elas podem exercer.

Pronome pessoal oblíquo


(função de complemento)

Pronome pessoal
Grupo 1 (não precedidos de Grupo 2 (precedidos
reto (função de
preposição) de preposição)
sujeito)

Singular eu me mim, comigo

tu te ti, contigo
você você, se, o/a, lhe você, si, consigo

ele/ela se, o/a, lhe si, ele/ela, consigo

Plural nós nos nós, conosco


vós vos vós, convosco
vocês vocês, se, os/as, lhes vocês, si, consigo

eles/elas se, os/as, lhes si, eles/elas, consigo

Atenção Professor(a), se julgar necessário, comentar que: 1) tradicionalmente,


chamam-se oblíquos átonos os pronomes do grupo 1 e oblíquos tônicos os
do grupo 2 - embora a classificação átono/tônico não se aplique a palavras de
mais de uma sílaba (ele, você etc.); 2) na função de predicativo, também se
empregam os pronomes retos. Ex.: O culpado pela confusão foi ele. Fim da
observação.

Complemento teórico

Existem determinadas palavras e expressões chamadas de pronomes de


tratamento que equivalem a pronomes pessoais e são empregadas quando o
falante se dirige a alguém de maneira respeitosa e formal, ou quando, também
formalmente, faz referência a essa pessoa. Exemplos:

· Vossa Majestade (V. M.) - para reis/rainhas e imperadores/imperatrizes.

· VossaAlteza (V. A.) - para príncipes/princesas.

· Vossa Excelência (V. Exª) - para altas autoridades.

Principais empregos dos pronomes pessoais

Algumas das formas dos pronomes pessoais têm usos diferentes na variedade
culta e na variedade coloquial-popular do idioma. Vamos conhecer as principais
diferenças entre esses usos.

a. Empregos das formas eu e mim, tu e ti

Consultando o quadro geral dos pronomes acima, podemos observar o


seguinte em relação a essas quatro formas:

eu e tu

Só aparecem na coluna de pronome pessoal reto; ou seja, exercem a função


de sujeito.

mim e ti
Só aparecem na coluna de pronome pessoal oblíquo; ou seja, funcionam
como complemento.

Esses empregos diferenciados, no entanto, só têm ocorrência regular na


variedade culta da língua; na variedade coloquial-popular às vezes há
diferenças. Observe as indicações de uso nos exemplos de 1 a 4.

1. Fernanda ainda trouxe a moto nova para mim. → variedade culta e


variedade coloquial-popular
sujeito do verbo trouxe
complemento do verbo trouxe

160

2. a) Fernanda ainda trouxe a moto nova para eu vender. → variedade culta


sujeito do verbo trouxe
sujeito do verbo vender

b) Fernanda ainda trouxe a moto nova para mim vender. → variedade


coloquial-popular
sujeito do verbo trouxe
sujeito do verbo vender

Observe que, nessa última frase, a forma oblíqua mim está desempenhando o
papel de sujeito de vender. Empregar o pronome oblíquo na função de sujeito é
válido na variedade coloquial-popular; a variedade culta, no entanto, não
admite esse emprego.

3. Para mim, vender a moto nova será muito fácil. → variedade culta e
variedade coloquial-popular

Nesse exemplo, o pronome mim não é sujeito de vender. O que ocorre é que
essa frase está invertida; sua ordem normal seria esta:

· Vender a moto será muito fácil para mim.

4. a) Algumas discussões acontecem, de vez em quando, entre mim e


ti/você/ele/ela. → variedade culta
sujeito do verbo acontecem
formas oblíquas que não estão funcionando como sujeito
b) Algumas discussões acontecem, de vez em quando, entre eu e
tu/ti/você/ele/ela. → variedade coloquial-popular
sujeito do verbo acontecem
Nesse exemplo, as formas eu e tu estão fora de sua função específica (a de
sujeito). Essa construção é comum na variedade coloquial-popular e também
na variedade culta informal, mas não ocorre na língua culta formal.

b. Empregos das formas ele(s)/ela(s) e o(s)/a(s)

No quadro geral dos pronomes pessoais da página anterior, podemos observar


o seguinte a respeito dessas formas:

ele(s), ela(s)

Como pronomes oblíquos, fazem parte do grupo 2, ou seja, são formas


sempre precedidas de preposição.

o(s), a(s)

São formas do grupo 1 e, portanto, na variedade culta, nunca aparecem


precedidas de preposição.

Compare, nos exemplos a seguir, as semelhanças e diferenças no emprego


dessas formas na variedade culta e na variedade coloquial-popular.

preposição
· Você nunca concordou com elas quando fazia parte do grupo. → variedade
culta e variedade coloquial-popular
Precedidas de preposição, as formas ele(s)/ela(s) não apresentam diferença
de uso entre a variedade culta e a coloquial-popular.

· Ontem de manhã, convidei-as para a festa de Natal em nossa casa. →


variedade culta
As formas a(s)/o(s) são típicas da variedade culta; raramente ocorrem na
língua popular.

· Ontem de manhã, convidei elas para a festa de Natal em nossa casa. →


variedade coloquial-popular
Esse emprego é típico da variedade coloquial-popular; ocorre também na
língua culta menos formal (principalmente na fala), mas nunca na língua culta
formal.
161

c. Uniformidade de tratamento

Na variedade culta da língua, para indicar, mais de uma vez, uma determinada
pessoa gramatical, é necessário manter a uniformidade gramatical, ou seja,
devem-se empregar de maneira uniforme os pronomes referentes a essa
pessoa. Assim, por exemplo:

tu → te → ti → contigo

você → o/a → lhe → se → si → consigo

Observe, nestes enunciados, a ocorrência da uniformidade de tratamento:

· Se te encontrarmos lá na festa, falaremos novamente contigo.


tratamento uniforme: tu

· Há muitos anos, você é minha amiga, por isso sempre a apoiarei.


tratamento uniforme: você

Diferentemente do que acontece na variedade culta, na língua coloquial - e


também na língua culta menos formal - os falantes usualmente misturam as
formas de tratamento. Veja neste exemplo:

· Você é minha amiga, por isso sempre te apoiarei.


você
tratamento não uniforme
tu

d. Formas reflexivas e reflexivas recíprocas

Algumas formas de pronomes oblíquos podem se associar a determinados


verbos que exprimem ideia de ação, com a finalidade de indicar ação reflexiva
(a ação volta para seu próprio agente) ou ação reflexiva recíproca (a ação é
trocada entre dois ou mais agentes).

Os pronomes oblíquos que, nos enunciados, exercem essa função são


classificados, conforme o caso, como pronomes reflexivos ou pronomes
reflexivos recíprocos.

Observe estes exemplos:


· Felipe é egoísta; quertudo para si .
pronome reflexivo (si = ele mesmo)

· Ela leva consigo uma foto dos filhos.


pronome reflexivo (consigo = com ela mesma)

· O técnico e o juiz do jogo se cumprimentaram friamente.


pronome reflexivo recíproco (se = um ao outro)

Os pronomes pessoais e a coesão textual

Nos atos de comunicação, os pronomes pessoais funcionam como elementos


linguísticos que fazem referência às pessoas do discurso. Essas referências
podem ser de dois tipos:

a. Referência aos interlocutores

Atenção Professor(a), essa função dos pronomes é chamada função exofórica


ou dêitica. Fim da observação.

Esse papel é exercido pelas formas de pronomes pessoais que identificam


quem fala/escreve (1ª pessoa) e quem ouve/lê (2ª pessoa).

Veja estes exemplos:

· É importante ficar claro que eu não participarei da reunião sem ser convidado.
Faz referência ao emissor (quem fala/escreve).

· Naquele tempo, tu vivias muito apegado a teus irrealizáveis sonhos de


adolescente.
Faz referência ao destinatário (quem ouve/lê).

162

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas, o item "Coesão e coerência" na seção "Complementação teórica".
Fim da observação.

b. Referência a elementos do próprio texto

Existem formas de pronomes pessoais - as de 3ª pessoa - que fazem


referência a elementos textuais (nomes de pessoas, coisas, fatos, ideias etc.)
já citados dentro do próprio texto ou que nele serão citados mais à frente. Essa
característica dos pronomes pessoais de 3ª pessoa possibilita estabelecer dois
tipos de coesão textual: coesão por anáfora e coesão por catáfora.

PARA NÃO ESQUECER

Coesão textual

Você estudou, no ano anterior, que coesão textual é a articulação que se


estabelece entre os componentes de um enunciado ou de um conjunto de
enunciados, ligando-os de forma a criar a estrutura do texto e possibilitar seu
andamento, isto é, sua continuidade.

1. Coesão por anáfora

Atenção Professor(a), [Anáfora, do grego anaphorá - "ação de repetir".] Fim da


observação.

Nesse tipo de coesão, o pronome faz referência a algum elemento citado


anteriormente no texto. Veja um exemplo:

LEGENDA: Sou fascinado pela beleza da milenar cidade espanhola de Toledo.


Nunca a visitei, por isso ela faz parte dos meus sonhos de turista.

CRÉDITO: Sean Pavone/Alamy/Latinstock

Note que, nesse enunciado, o leitor precisa recuar na leitura, ou seja, precisa
voltar ao que já havia lido, para associar aos pronomes a e ela o referente
"milenar cidade espanhola de Toledo". A esse tipo de referência textual damos
o nome de coesão por anáfora, ou coesão anafórica.

2. Coesão por catáfora

Atenção Professor(a), [Catáfora, do grego kataphorá - "ação de lançar de cima


para baixo".] Fim da observação.

Na coesão por catáfora, o pronome aponta para a frente, para adiante, ou seja,
ele se refere a um elemento que ainda vai aparecer no texto. Veja este
exemplo:

Este ano elas vieram impiedosas: arrasaram cidades, destruíram casas e


rodovias, tiraram vidas, mataram sonhos.

Foram as chuvas mais intensas dos últimos dez anos.


Observe que, nesse exemplo, não há, antes da forma elas, nenhum referente
desse pronome; a forma pronominal está apontando para adiante no texto,
sinalizando ao leitor que ele precisa dar prosseguimento à leitura até encontrar
o termo "as chuvas" e estabelecer, assim, a relação de sentido. A esse tipo de
referência textual dá-se o nome de coesão por catáfora ou coesão
catafórica.

Os dois exemplos analisados exemplificam a importância dos pronomes


pessoais para a criação das relações de coesão textual, mas é claro que, da
mesma forma que esses pronomes podem contribuir para a boa estruturação
textual, eles também podem, se usados inadequadamente, prejudicar a clareza
do texto e confundir a compreensão do leitor ou ouvinte. Veja este exemplo:

Em sua conversa com o pai, o rapaz fez questão de lembrar que o vizinho já o
havia insultado várias vezes. → Quem foi insultado?

163

Pronomes possessivos

Leia, na tira humorística abaixo, o diálogo entre Hagar e Helga, esposa dele:

FONTE: BROWNE, Chris. Hagar. Folha de S. Paulo, 7 set. 1996.

CRÉDITO: © 1996 King Features Syndicate/IPress

Nesse diálogo:

· nossas - refere-se a "necessidades básicas", indicando que se trata de


coisas pertencentes tanto a quem fala (Helga) quanto a quem ouve (Hagar).

· suas - refere-se a "necessidades básicas", indicando algo pertencente a


quem ouve (Helga).

· minhas - refere-se às "necessidades básicas" do próprio falante (Hagar).

Essas palavras - nossas, suas e minhas - são exemplos de pronomes


possessivos.

Pronomes possessivos são os pronomes que se referem a substantivos, para


indicar uma ideia de posse em relação às três pessoas do discurso (1ª, 2ª, 3ª).

O quadro a seguir apresenta a relação entre os pronomes pessoais e as


formas de pronomes possessivos associadas a cada um deles.
Pronomes pessoais Pronomes possessivos

Singular eu (1ª pessoa) meu/meus, minha/minhas

tu (2ª pessoa) teu/teus, tua/tuas


você (2ª pessoa) seu/seus, sua/suas

ele/ela (3ª pessoa) seu/seus, sua/suas

Plural nós (1ª pessoa) nosso/nossos, nossa/nossas

vós (2ª pessoa) vosso/vossos, vossa/vossas


vocês (2ª pessoa) seu/seus, sua/suas

eles/elas (3ª pessoa) seu/seus, sua/suas

Agora veja este cartum:

LEGENDA: O possessivo nossa associa-se à primeira pessoa do plural: nós.


Mas... a cena representada nesse cartum subentende uma irônica pergunta: a
quem se refere esse "nós", ou seja, a quem realmente pertence a floresta?

CRÉDITO: Amarildo - www.amarildo.com.br

164

Principais empregos dos pronomes possessivos

a. Os possessivos seu, sua, seus e suas e o duplo sentido

Quando falamos (ou escrevemos), podemos tratar nosso ouvinte (ou leitor) por
tu ou por você. O quadro da página anterior mostra que ao pronome tu
associam-se os possessivos teu, tua, teus e tuas e ao pronome você
associam-se seu, sua, seus e suas. Assim, por exemplo:

· Tu não estás preocupado com teu futuro.

· Você não está preocupado com seu futuro.

No entanto, os possessivos seu, sua, seus e suas também são usados em


relação à 3ª pessoa do discurso. Esse fato pode provocar ambiguidade em
certos enunciados. Veja, por exemplo:

· Márcia, eu disse claramente a Paulo que aceito sua proposta.


proposta de quem: de Márcia ou de Paulo?
Para eliminar o duplo sentido, pode-se usar, nesse caso:

· Márcia, eu disse claramente a Paulo que aceito tua proposta.


proposta de Márcia

ou

· Márcia, eu disse claramente a Paulo que aceito a proposta dele.


proposta de Paulo

b. Pronomes oblíquos com valor de possessivos

Em determinados contextos, os possessivos podem ser substituídos por


pronomes oblíquos de sentido equivalente.

Veja essa equivalência nos pronomes destacados nas frases de cada par:

· O sono atrapalhava o meu raciocínio.


pronome possessivo
⇒ O sono atrapalhava-me o raciocínio.
pronome oblíquo com valor de possessivo

· Dói o seu coração pensar na ex-namorada?


pronome possessivo
⇒ Dói-lhe o coração pensar na ex-namorada?
pronome oblíquo com valor de possessivo

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Pronome

É a palavra que, em um enunciado, é empregada para:

a) substituir um substantivo (nome), uma expressão, uma parte de uma frase,


uma frase inteira (ou mesmo um segmento textual ainda maior).

Exs.: Convidamos Fernando para a festa, mas ele não veio.

Convidamos suas três melhores amigas para a festa, mas elas não vieram.

Preciso conferir os valores e refazer as contas, mas deixarei isso para


amanhã.

b) substituir um substantivo e, ao mesmo tempo, delimitar a significação de


outro ao qual se associa.
Ex.: Mariana, tu sabes que sempre confiei em tuas palavras.
tuas palavras = palavras de Mariana

165

· Subdivisão dos pronomes

1. Pessoais

2. Possessivos

3. Demonstrativos

4. Indefinidos

5. Relativos

6. Interrogativos

Estudo dos pronomes (1ª parte)

1. Pronomes pessoais - são formas pronominais que representam as três


pessoas do discurso.

Exs.: Eu me decepcionei contigo, porque tu traíste a confiança que depositei


em ti.

· eu, me → pronomes pessoais que representam a 1ª pessoa do discurso (o


falante).

· contigo, tu, ti → pronomes pessoais que representam a 2ª pessoa do discurso


(o ouvinte).

Você e Isabel precisam conversar, pois ela quer lhe explicar o que aconteceu.

· você, lhe → pronomes pessoais que representam a 2ª pessoa do discurso.

· ela → pronome pessoal que representa a 3ª pessoa do discurso (a respeito


de quem se fala).

Subdivisão dos pronomes pessoais:

a) Pronomes pessoais retos - funcionam como sujeito da oração.

b) Pronomes pessoais oblíquos - não funcionam como sujeito, e sim como


complemento.
Ex.: Eles certamente desconfiariam de nós.
pronome pessoal reto
pronome pessoal oblíquo

2. Pronomes possessivos - são pronomes que indicam que algo cabe ou


pertence a uma das três pessoas do discurso.

Exs.: Certamente teu desempenho no exame superou as minhas expectativas.

· teu → indica que o "desempenho" é do ouvinte (2ª pessoa do discurso).

· minhas → indica que as "expectativas" são do falante (1ª pessoa do


discurso).

Atividades

Escreva no caderno

1. Os pronomes, por sua função de substituir outros elementos textuais


(nomes, expressões, enunciados etc.), constituem uma classe de palavras
fundamental para o estabelecimento das relações de coesão textual e,
consequentemente, de sentido de um texto. Isso significa que, para
compreender um texto, é necessário, entre outras coisas, identificar
adequadamente as relações de referência estabelecidas pelos pronomes.
Considerando tal característica das palavras dessa classe gramatical, leia esta
tirinha humorística:

FONTE: DAVIS, Jim. Folha de S.Paulo, 7 jan. 2007.

CRÉDITO: © 1991 Paws, Inc. All Rights Reserved/ Dist. Universal Uclick

Chama-se referente o elemento textual (palavra, expressão, frase etc.) ao qual


o pronome se refere.

a) O referente do pronome oblíquo do segundo quadrinho é o mesmo para Jon


e para Garfield?

Resposta: Não. Para Jon, o referente de lo é "rato" (Vá pegar o rato.); para
Garfield, é "biscoito" (Vá pegar o biscoito.).

b) Antes de ler e observar o terceiro quadrinho, que substantivo o leitor toma


como referente do pronome lo? Com base em que informação do mundo real
ele é induzido a pensar assim?
Resposta: Tal como Jon, o leitor toma como referente do lo o substantivo
"rato"; uma vez que o conhecimento pragmático do leitor lhe diz que os gatos
geralmente costumam pegar ratos, e não biscoitos.

166

2. Na crônica "Cordialidade familionário", o escritor Contardo Calligaris analisa


o comportamento pretensamente cordial de determinadas pessoas que
frequentam restaurantes. Leia dois fragmentos desse texto:

Atenção Professor(a), se julgar oportuno, comentar com os alunos que


Contardo Calligaris (1948-), nascido na Itália, é um psicanalista que também
atua como colunista no jornal Folha de S.Paulo desde o fim da década de
1990. É autor de livros que tratam de assuntos culturais e contemporâneos, tais
como O conto do amor, A adolescência, Cartas a um jovem terapeuta,
dentre outros. Fim da observação.

I. [...] por que diabos, nesse restaurante paulista, sigo achando que uma parte
dos meus vizinhos são vulgares a ponto de me causar mal-estar? [...] Meu mal-
estar tem a ver com a maneira amigável como eles tratam os garçons. Na
verdade, quanto mais eles parecem cordiais, mais eu acho eles vulgares.

II. Já foi notado várias vezes que a cordialidade nacional é uma pantomima*
comunitária que quer esconder a crueldade das diferenças sociais. Uma
maneira de amenizar a contradição social para deixá-la por mais tempo
irresoluta.**

Atenção Professor(a), * mentira ardilosa; logro. Fim da observação.

Atenção Professor(a), ** sem solução. Fim da observação.

CALLIGARIS, Contardo. Folha de S.Paulo, 8 jun. 1999. Ilustrada. Disponível


em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq08079929.htm. Acesso em: 2
mar. 2016.

Relativamente a algumas formas de pronomes pessoais presentes nesses


trechos, responda aos itens a e b:

a) No trecho I, o pronome eles é empregado três vezes. Nessas três


ocorrências, o referente desse pronome é o mesmo? Justifique.
Resposta: Sim. Nas três ocorrências a forma eles retoma o termo "uma parte
dos meus vizinhos".

b) Comparando os trechos I e II, observa-se que o cronista, no que diz respeito


às formas pronominais, não teve a preocupação de manter o mesmo nível de
linguagem: ora emprega a variedade coloquial-popular, ora a variedade culta.

· Transcreva os dois fragmentos que, se comparados, comprovam essa


afirmação.

Resposta: "mais eu acho eles vulgares" (variedade coloquial-popular) e


"amenizar a contradição social para deixá-la por mais tempo" (variedade culta).

· Como seria redigido, na língua coloquial, o fragmento em que o cronista


empregou a norma culta?

Resposta: "amenizar a contradição social para deixar ela por mais tempo".

· Como seria redigido, na norma culta, o fragmento em que ele optou pela
variedade coloquial?

Resposta: "mais eu os acho vulgares" (ou: mais eu acho-os vulgares).

3. (Enem/MEC) Leia esta tira humorística.

FONTE: VERISSIMO, Luis Fernando. As cobras: se Deus existe que eu seja


atingido por um raio. Porto Alegre: L&PM, 1997.

CRÉDITO: © by Luis Fernando Verissimo

O humor da tira decorre da reação de uma das cobras com relação ao uso de
pronome pessoal reto, em vez de pronome oblíquo. De acordo com a norma-
padrão da língua, esse uso é inadequado, pois:

a) contraria o uso previsto para o registro oral da língua.

b) contraria a marcação das funções sintáticas de sujeito e objeto.

c) gera inadequação na concordância com o verbo.

d) gera ambiguidade na leitura do texto.

e) apresenta dupla marcação de sujeito.

Resposta: Alternativa b.
167

4. O trecho a seguir foi extraído do artigo "Justiça às formigas", publicado em


uma revista.

[...] Algumas árvores, como a do pequi, típica do cerrado, atraem as formigas


por conta do néctar das flores. Ali eles exercem o papel de defensores, ao
atacar outros insetos nada benéficos, como as lagartas. [...]

JUSTIÇA às formigas. Globo Rural, São Paulo: Globo, n. 288, p. 16, out. 2009.

Considerando o sentido geral do trecho, é correto afirmar, relativamente ao


pronome destacado, que:

a) O pronome estabelece uma relação de coesão por catáfora, uma vez que
tem como referente um nome posterior: defensores.

b) Estabelece uma relação de coesão catafórica, pois tem como referente um


nome posterior: insetos.

c) Deveria ser empregado na forma elas, já que se refere ao nome anterior


flores, estabelecendo com essa palavra uma relação de coesão por anáfora.

d) Funciona como um anafórico, pois se refere ao termo anterior formigas e,


no caso, pode ser empregado no masculino, pois formigas é hipônimo da
palavra masculina insetos.

e) Na preparação do texto, houve um pequeno erro de digitação, pois o


pronome estabelece coesão anafórica com formigas, o que exigiria a forma
feminina elas.

Resposta: Alternativa e.

5. Leia o texto:

Eles são 200 mil brasileiros. A maioria tem mais de quatro anos de idade.
Todos têm menos de 19. Nenhum mora em casa. Nenhum mora na rua. Estão
escondidos em orfanatos espalhados por todo o país. Ninguém os conhece
porque não incomodam. Não fazem rebelião nem suplicam esmolas. São
personagens invisíveis de uma história jamais contada.

Os órfãos brasileiros são órfãos de pais vivos. Homens e mulheres que


maltratam os filhos porque também já foram maltratados. Pela miséria, pelo
desemprego e pela doença. Deixam seus meninos com a promessa de voltar,
mas nunca retornam. Cerca de 40% das famílias jamais apareceu na
instituição.

MAGNO, Ana Beatriz; MONTENEGRO, Érica. Os órfãos do Brasil. Correio


Braziliense, Brasília, 9 jan. 2002. Suplemento especial.

Considere os pronomes pessoais destacados no primeiro parágrafo e responda


aos itens de a a c.

a) As duas formas estabelecem coesão catafórica, isto é, elas têm como


referente um elemento textual que vai aparecer mais à frente no texto.
Transcreva esse referente.

Resposta: O referente dos pronomes "eles/os" é a expressão "os órfãos


brasileiros" (no início do segundo parágrafo).

b) Que tipo de reação as autoras do texto procuram criar no leitor com a


antecipação dos pronomes?

Resposta: Esse recurso (empregar o pronome pessoal como elemento


catafórico) é eficiente para criar maior expectativa e aguçar a curiosidade do
leitor em relação ao que se vai dizer, prendendo assim sua atenção. Isso ajuda
a motivá-lo a prosseguir na leitura, para localizar, mais à frente, o referente do
pronome.

c) Por que, embora o referente das formas destacadas seja o mesmo, as


autoras precisaram empregar duas formas pronominais distintas para
estabelecer a relação de referência?

Resposta: Porque as funções sintáticas são diferentes. No primeiro caso, o


pronome funciona como sujeito, por isso empregou-se a forma reta "eles"; no
segundo, o pronome funciona como complemento do verbo "conhecer", por
isso foi necessário empregar a forma oblíqua "os".

6. Leia este pequeno texto:

O grande diário
Seu autor é o coronel Ernest Loftus. Ele começou a escrevê-lo em 4 de maio
de 1896, com a idade de 12 anos [...]. Terminou-o aos 103 anos, em 7 de julho
de 1987, dia de sua morte.

O GRANDE diário. Isto É, São Paulo: Editora Três, n. 1225, p. 70.

A respeito de alguns aspectos da organização textual desse trecho, assinale a


afirmação incorreta.

a) No título, a mudança de posicionamento do adjetivo alteraria o valor


semântico dessa palavra.

b) Em suas duas ocorrências, o oblíquo "o" estabelece coesão anafórica com


um mesmo referente.

Resposta: ["o" e "lo" → retomam "o grande diário".]

c) A substituição do segmento "a escrevê-lo" por "a ser escrito" mudaria o


referente do pronome "ele", além de exigir alterações na redação do trecho.

d) A substituição de "morte" por "publicação" alteraria o referente do


possessivo "sua".

e) Os possessivos "seu" e "sua" têm um mesmo referente.

Resposta: Alternativa e.

168

ESTUDO DOS PRONOMES (2ª PARTE)

Na primeira parte deste capítulo, vimos que os pronomes, dependendo do


papel que exercem nos enunciados, subdividem-se em seis grupos:

· pessoais

· possessivos

· demonstrativos

· indefinidos

· relativos

· interrogativos
Também na primeira parte deste capítulo, estudamos os pronomes pessoais
e os possessivos. Vamos agora conhecer as características e empregos dos
outros quatro grupos.

Pronomes demonstrativos

Leia esta tira humorística:

FONTE: WALKER, Mort. Recruta Zero. O Globo, Rio de Janeiro, 16 abr. 2009.

CRÉDITO: Recruta Zero

No primeiro quadrinho, o falante usa "este livro" para indicar o livro que está
perto dele próprio; no último quadrinho, o outro falante usa "isso" para
localizar, no espaço, um objeto que não está perto dele, e sim perto de seu
interlocutor.

Agora observe os destaques neste trecho de diálogo entre dois colegas de


escola:

- Serginho, tá sabendo que a prova de Química foi adiada?


- Uau! Ainda bem, Lu! Quem te disse isso?

Nesse caso, a palavra isso foi empregada para retomar e, ao mesmo tempo,
substituir elementos textuais que fazem parte da própria fala de um dos
interlocutores.

Considere mais esta frase:

Do alto da ponte, o velhinho olha com tristeza as águas agora poluídas do belo
rio de sua infância. Naquela época, o Tietê atravessava São Paulo limpo e
cheio de vida.

Nesse trecho, ao empregar a palavra "[n]aquela", o emissor localiza no tempo


passado a época a que ele se refere.

LEGENDA: Rio Tietê (SP), em 1930.

CRÉDITO: Clóvis Ferreira/Estadão Conteúdo

LEGENDA: Rio Tietê (SP), em 2015.

CRÉDITO: Marcelo D. Santis/Estadão Conteúdo

169
As palavras analisadas nos textos da página anterior - este, isso e aquela -
são exemplos de pronomes demonstrativos.

Pronomes demonstrativos são pronomes que têm por função:

· Situar a posição de um ser no espaço, relativamente ao emissor (1ª pessoa


do discurso).

· Posicionar, no próprio discurso, elementos textuais já referidos ou que serão


referidos mais adiante.

· Situar, no tempo, um fato ou uma informação.

Dependendo das características do elemento a ser indicado, o demonstrativo


assume uma determinada forma. Veja o quadro:

Formas variáveis Formas invariáveis

este, esta, estes, estas isto

esse, essa, esses, essas isso

aquele, aquela, aqueles, aquelas aquilo

Empregos dos pronomes demonstrativos

Vimos, na definição acima, que os demonstrativos podem ser empregados para


fazer três tipos de indicações:

· no espaço físico

· no próprio texto

· no tempo

Vamos, então, especificar, nos itens de a a c, como as diferentes formas de


demonstrativos exprimem essas indicações.

a. Este(s), esta(s), isto

· No espaço - Indicam o que está próximo de quem fala/escreve.

Ex.: Esta cicatriz que tenho na perna é dos tempos em que eu jogava futebol.

· No texto - Referem-se, geralmente, a algo que ainda irá ser dito/escrito.

Ex.: Ela se despediu com estas palavras: a vida é longa; a gente se vê por aí.
Observação: É comum, mesmo nalíngua culta, asubstituição de "este/esta" por
"esse/essa" para indicar elementos textuais que ainda serão referidos no texto.
Ex.: Ouça esse conselho: sonhe alto e conquiste seus objetivos.

· No tempo - Indicam tempo atual/presente (em relação ao momento da


fala/escrita).

Ex.: Finalmente este dia chegou! Hoje vou conhecer o maravilhoso rio
Araguaia.

b. Esse(s), essa(s), isso

· No espaço - Indicam o que está próximo de quem ouve/lê.

Ex.: Por favor, posso dar uma olhada nessa revista que está com você?

· No texto - Referem-se, geralmente, a algo que já foi dito/escrito.

Ex.: Dinheiro e fama. Nada mais que isso parece dar sentido à vida dele.

Observação: É comum, mesmo na língua culta, o emprego de "este/esta", em


vez de "esse/essa", para indicar elementos textuais já referidos. Ex.: A
educação precisa melhorar; esta deve ser uma meta do governo.

· No tempo - Marcam um tempo (anterior ou posterior) próximo em relação ao


momento da fala/escrita.

Exs.: Choveu muito nesse fim de semana, mas a segunda-feira está linda.

As aulas estão terminando; nessas férias vou fazer um curso de agricultura


orgânica.

170

c. Aquele(s), aquela(s), aquilo

· No espaço - Indicam o que está longe de quem fala/escreve e também de


quem ouve/lê.

Ex.: Está vendo aquela casa branca lá no alto da serra? É lá que eu moro.

· No texto - Indicam um elemento textual referido anteriormente a outro.

Exs.: César e Raul são irmãos. Aquele é ator; este é músico.

César e Raul são irmãos. Este é músico; aquele é ator.


Note, pelos exemplos, que, para retomar dois elementos já citados, usa-se
"aquele/aquela/aquilo" para o referido em primeiro lugar e "este/esta/isto" para
o referido em segundo lugar. Veja outro exemplo:

A batata e o tomate são dois importantes alimentos; embora popularmente


conhecidos como legumes, na verdade, aquela é um tubérculo e este é um
fruto.

· aquela → batata (citada em primeiro lugar)

· este → tomate (citado em segundo lugar)

· No tempo - Indicam tempo distante, bem anterior ou posterior ao momento da


fala/escrita.

Ex.: Meu avô não teve oportunidade de estudar; naquela época, não havia
escolas onde ele morava.

Outros pronomes demonstrativos

Além dos demonstrativos já estudados, existem outras palavras que,


dependendo do enunciado em que ocorrem, também podem exercer esse
papel. Veja o quadro:

· o(s), a(s)

· tal/tais

· mesmo(s)/mesma(s)

· próprio(s)/própria(s)

· semelhante(s)

Alguns exemplos:

· Ela gastou rapidamente tudo o que ganhou; não faça você semelhante
besteira.
= aquilo
= esta

· Os próprios funcionários afirmam que a empresa lhes propôs tal acordo.


= eles mesmos
= este
Os demonstrativos e a coesão textual

Vimos, na primeira parte deste capítulo, que os pronomes pessoais são


importantes elementos de coesão, pois contribuem para a articulação das
partes do texto e, consequentemente, para a organização de sua estrutura.

Os pronomes demonstrativos também são fundamentais para a coesão


textual, uma vez que um de seus papéis, como também já vimos, é justamente
fazer referência a elementos do próprio texto.

Quando os demonstrativos são empregados para indicar elementos do texto, a


referência pode ocorrer por retomada (anáfora) ou por antecipação (catáfora).
Assim, esses pronomes subdividem-se em dois grupos:

Demonstrativos anafóricos

Referem-se a elementos textuais (pessoa, coisa, ideia, fato etc.) citados, no


texto, antes do demonstrativo.

Demonstrativos catafóricos

Referem-se a elementos textuais posicionados depois do próprio


demonstrativo.

171

Veja, nos enunciados a seguir, alguns exemplos de demonstrativos anafóricos


e catafóricos:

· "Seu" Gilberto foi nosso professor de História no Ensino Médio. Esse, sim, era
um mestre!
demonstrativo anafórico

· A ciência e a religião conviviam conflituosamente nele. Esta lhe dava


serenidade; aquela o angustiava.
demonstrativo anafórico
demonstrativo anafórico

· Muitas vezes lhe ocorria esta ideia: largar tudo e ir viver numa praia deserta
do litoral brasileiro.
demonstrativo catafórico
· Nunca mais, depois que começamos a trabalhar, fizemos viagens como
aquelas de nossa juventude.
demonstrativo catafórico

Pronomes indefinidos

Leia o diálogo entre os dois personagens deste cartum.

FONTE: Duke. Disponível em: http://dukechargista.com.br/cartum/. Acesso em:


3 jun. 2016.

CRÉDITO: Duke

Nas falas dos personagens ocorrem expressões nas quais os substantivos


ganham sentido vago, genérico. Observe:

· No segundo quadrinho: "algumas horas" - não é possível saber com exatidão


quantas horas faltam para o meteoro chocar-se com a Terra.

· No terceiro quadrinho: "toda vida" - a expressão não permite identificar,


especificar de que vida se trata; a palavra "toda" associada ao substantivo
"vida" atribui a ele um sentido amplo, indefinido.

· No quarto quadrinho: "qualquer ocasião" - a palavra "qualquer" torna


indefinido (geral) o sentido da palavra "ocasião".

Nas três expressões analisadas, as palavras "algumas", "toda" e "qualquer" são


exemplos de pronomes indefinidos.

Pronome indefinido é um tipo de pronome que se emprega para fazer uma


referência vaga , geral e indeterminada à 3ª pessoa do discurso (pessoa, coisa
ou ideia a respeito de quem/que se fala).

172

Às vezes o papel de tornar genérica a referência à 3ª pessoa é desempenhado


não por uma única palavra, e sim por um conjunto de palavras, que se
denomina, então, locução pronominal indefinida. Veja dois exemplos neste
enunciado:

Tudo aquilo que o homem ignora não existe para ele. Por isso o universo de
cada um se resume ao tamanho do seu saber.

Frase atribuída a Albert Einstein.


O quadro a seguir apresenta, para consulta, os pronomes indefinidos e
algumas locuções pronominais indefinidas.

Variáveis Invariáveis Locuções pronominais

algum(uns), alguma(s) alguém cada um

nenhum(uns), nenhuma(s) ninguém qualquer um

todo(s), toda(s) tudo todo aquele que

outro(s), outra(s) outrem um ou outro

muito(s), muita(s) nada quem quer que

pouco(s), pouca(s) cada

certo(s), certa(s) algo

vário(s), vária(s) mais

qualquer, quaisquer demais

bastante(s) menos

um(uns), uma(s)

Principais empregos dos pronomes indefinidos

Algumas palavras que funcionam como pronomes indefinidos apresentam


variação de sentido e, às vezes, de classe gramatical, dependendo de como
são empregadas nos enunciados. Veja, a seguir, os casos mais importantes:

a. Algum(uns), alguma(s)

· Posicionados antes do substantivo ⇒ têm valor afirmativo.

Ex.: Meu sonho é, algum dia, fazer uma longa viagem pelo maravilhoso rio
Amazonas.

· Posicionados depois do substantivo ⇒ têm valor negativo.

Ex.: Dificuldade alguma nos impediria de terminar aquele projeto.

b. Certo(s), certa(s)

· Posicionados antes do substantivo ⇒ funcionam como pronomes indefinidos.

· Posicionados depois do substantivo ⇒ funcionam como adjetivos.


Ex.: Existem certas coisas que só devem ser ditas no momento certo.
pronome indefinido
adjetivo

c. Todo(s), toda(s)

· No plural ⇒ exprimem ideia de totalidade.

Exs.: Parece mágica: todos os ipês da serra florescem ao mesmo tempo.

No verão, as praias todas ficam tomadas pelos turistas.

· No singular e sem artigo ⇒ significam qualquer/cada um(a)

Ex.: "Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal."

(Declaração Universal dos Direitos Humanos)

173

· No singular e seguido de artigo

· No singular e depois do substantivo

são adjetivos e significam inteiro(a).

Ex.: Toda a comunidade participa da festa. =


a comunidade inteira

A comunidade toda participa da festa.


a comunidade inteira

Pronomes relativos

Considere as duas orações abaixo, a respeito de uma importante pintora


brasileira e de seu trabalho mais conhecido.

1. Muitos conhecem a obra de Tarsila do Amaral.

2. Tarsila do Amaral pintou o Abaporu.

LEGENDA: Abaporu (1928), de Tarsila do Amaral.

CRÉDITO: Tarsila do Amaral. 1928. Óleo sobre tela, 85 cm × 72 cm. Coleção


particular. © Tarsila do Amaral Empreendimentos

Note que a oração 2 repete o nome (substantivo) Tarsila do Amaral, já citado


na oração 1 .
Vimos que é possível evitar a repetição de um nome substituindo-o por um
pronome. Se, no caso dessas orações, quisermos fazer a substituição e
manter separadas as orações, usaremos um pronome pessoal. Assim:

· Muitos conhecem a obra de Tarsila do Amaral. Ela pintou o Abaporu.


pronome pessoal

Se, no entanto, quisermos reunir as duas orações em uma única frase,


empregaremos outro tipo de pronome. Veja:

· Muitos conhecem a obra de Tarsila do Amaral, que pintou o Abaporu.


1ª oração
2ª oração
uma única frase

Nessa frase, o substantivo Tarsila do Amaral aparece explicitamente apenas


na primeira oração; na segunda ele passou a ser representado pela palavra
que. Essa palavra é, nessa frase, um pronome relativo.

Pronome relativo é o pronome que retoma um substantivo (ou outro pronome)


já citado numa oração, substituindo-o no início da oração seguinte.

NAVEGAR É PRECISO

A palavra abaporu, de origem tupi, significa "homem que come gente"


(antropófago). O escritor Oswald de Andrade tomou o quadro como ponto de
partida para a criação do Movimento Antropofágico, cuja proposta era deglutir,
"devorar" aspectos da cultura estrangeira para fundi-los a uma nova cultura
moderna brasileira. Para conhecer um pouco mais a respeito da obra e da
artista, visite o site http://tub.im/ri4rmq e navegue pelos menus "obras" e
"biografia".

174

Veja, no quadro, as palavras que podem funcionar como pronomes relativos.

Pronomes relativos

Invariáveis Variáveis

que o/a qual; os/as quais


quem cujo(s), cuja(s)

onde, aonde quanto(s), quanta(s)

Agora veja mais um exemplo em que o pronome relativo passa a estabelecer a


articulação entre duas orações inicialmente isoladas entre si:

· É necessário compreender os colegas.


· Convivemos diariamente com os colegas.
⇒ É necessário compreender os colegas, com os quais convivemos
diariamente.

Principais características e empregos dos pronomes relativos

a. O duplo papel dos relativos

Os pronomes relativos caracterizam-se pelo duplo papel que, simultaneamente,


desempenham na estrutura dos enunciados:

· substituem um termo antecedente;

· iniciam sempre uma nova oração.

Veja estes exemplos:

pronome relativo
· Muitos imigrantes sonhavam com o regresso ao país onde haviam nascido.
1ª oração
2ª oração

pronome relativo
· Meu amigo, que sempre faz turismo no exterior, pouco conhece do próprio
Brasil.
2ª oração
1 ª oração

Note que, nesse exemplo, a segunda oração se encaixa entre duas partes da
primeira.

b. A presença/ausência de preposição antes dos relativos


Em certos enunciados, dependendo da estrutura da oração em que aparece o
pronome relativo, pode ser que, antes dele, seja necessário introduzir uma
preposição (de, em, contra, sobre, a etc.). Veja estes exemplos:

pronome relativo
· O irmão mais velho foi a única pessoa em quem ele sempre confiou
plenamente.
Preposição exigida pelo verbo confiar (confiarem algo/alguém).

pronome relativo
· A única coisa com a qual tínhamos preocupação eram os recursos para
finalizar a obra.
Preposição exigida pelo substantivo preocupação (ter preocupaçãocom
algo/alguém).

175

A presença da preposição precedendo o pronome relativo é, no entanto, uma


característica exclusiva da variedade culta formal; na variedade coloquial-
popular, os falantes nunca a empregam na construção dos enunciados.
Compare:

· Nesta rua ficava a casa que morei vários anos.


variedade coloquial-popular
Não aparece a preposição exigida pelo verbo morar.

· Nesta rua ficava a casa em que morei vários anos.


variedade culta
Preposição exigida pelo verbo morar (morar em algum lugar).

Também na língua coloquial-popular, é comum o deslocamento da preposição


mais para frente na oração e imediatamente seguida de um pronome pessoal
que "repete" o antecedente do relativo. Compare o exemplo anterior com este:

· Nesta rua ficava a casa que morei nela vários anos.


variedade coloquial-popular
preposição
pronome pessoal [refere-se a "casa"]

c. Os pronomes relativos que e quem


A forma que é o relativo de uso mais amplo e pode ter, como antecedente,
palavras que nomeiam pessoas ou coisas. Veja estes exemplos:

· Conheço o aluno que ganhou o prêmio de Ciências.

· Os romanos criaram edificações que até hoje impressionam.

LEGENDA: Aqueduto romano construído na França há mais de dois mil anos.

CRÉDITO: Eye Ubiquitous/Rex Features/Keystone

O relativo quem é usado exclusivamente para retomar antecedentes que


designam pessoas (ou seres personificados). Exemplos:

· O funcionário a quem entreguei o documento não foi aquele.


pessoa

· O jaguar, a quem os povos andinos temiam, era considerado um deus.


ser personificado

d. Os pronomes relativos cujo(s), cuja(s)

Esses relativos são empregados entre dois substantivos, estabelecendo entre


eles uma ideia de posse. Veja neste exemplo:

· O Iguaçu é um rio cujas cataratas dão um espetáculo de impressionante


beleza.

[Observe: rio cujas cataratas = cataratas do rio.]

LEGENDA: Cataratas do rio Iguaçu, no Paraná, uma das mais impressionantes


maravilhas naturais do planeta.

CRÉDITO: Luciana Whitaker/Pulsar

176

e. Os pronomes relativos onde, aonde

Essas duas formas, que na variedade culta formal da língua só podem ser
empregadas para indicar lugar, têm empregos diferentes. Assim:

onde → indica "lugar em que"

aonde → indica "lugar a que"

Veja estes exemplos:


· A polícia isolou a região onde havia garimpos clandestinos e extração ilegal
de madeira.
em que

[Nesse exemplo, em vez de onde, também poderíamos usar em que ou na


qual.]

· A cidade aonde você irá nas próximas férias fica no litoral de Alagoas?

[Nesse exemplo, em vez de aonde, também poderíamos usar a que ou à


qual.]

Os pronomes relativos e a coesão

Vimos, no item a da seção anterior, que os pronomes relativos têm um duplo


papel nos enunciados: eles iniciam uma nova oração e introduzem, nessa nova
oração, um elemento textual que retomam (recuperam) da oração anterior.

Considere, por exemplo, estes versos iniciais do poema "Eros e Psiquê":

Conta a lenda que dormia

Uma princesa encantada

A quem só despertaria

Um infante que viria

De além do muro da estrada.

PESSOA, Fernando. Eros e Psiquê. In: _____. Obra poética. Rio de Janeiro:
Nova Aguilar, 1986. p. 115.

LEGENDA: O rapto de Psiquê (1895), de William-Adolphe Bouguereau (1825-


1905).

CRÉDITO: William-Adolphe Bouguereau. 1895. Óleo sobre tela, 209 cm × 120


cm. Coleção particular.

Vocabulário:

infante: príncipe.

Fim do vocabulário.
Atenção Professor(a), se julgar oportuno, esclarecer aos alunos que Psiquê e
Eros são personagens da mitologia grega. Psiquê era uma jovem lindíssima,
filha de um rei, pela qual Eros, o deus do amor, se apaixonou. Fim da
observação.

Observe que, no terceiro verso, o emprego do relativo quem orienta o leitor a


recuar na leitura até o verso anterior e associar a esse relativo o termo "uma
princesa encantada". Por sua vez, o relativo que conduz a atenção do leitor até
o termo anterior "um infante". Essas duas relações de coesão contribuem para
organizar a estrutura textual dos versos e criar a progressão de sentido
pretendida pelo autor. Assim:

Um infante viria de além do muro da estrada e despertaria uma princesa


encantada.

Esse exemplo permite concluir que a função dos pronomes relativos - retomar
e repor elementos numa sequência de frases - é essencial para a estruturação
textual, uma vez que, contribuindo para a coesão, esses pronomes,
adequadamente empregados, possibilitam a progressão (sequencialidade) do
texto e a organização do sentido dele.

177

Pronomes interrogativos

Pronomes interrogativos são determinadas formas pronominais empregadas


em perguntas diretas ou indiretas. Observe estes exemplos:

· Quantos alunos participam efetivamente do projeto? ⇒ interrogativa direta

· Diga-me quantos alunos participam do projeto. ⇒ interrogativa indireta

Note que as perguntas diretas são iniciadas pela palavra interrogativa e


terminadas por ponto de interrogação; as indiretas apresentam a palavra
interrogativa posicionada internamente e terminam por ponto-final.

São poucas as palavras que podem exercer o papel de pronome interrogativo.


Veja:

· que

· quem
· qual/quais

· quanto(s)/quanta(s)

Veja outros exemplos:

· Que pensa você a respeito do futuro da humanidade? ⇒ interrogativa direta

· Gostaria que me dissesse o que pensa a respeito do futuro da humanidade.


⇒ interrogativa indireta

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Estudo dos pronomes (2ª parte)

1. Pronomes demonstrativos - indicam para o leitor/ouvinte:

· a localização de algo ou de alguém no espaço físico ou no tempo.

Exs.: Este livro que está comigo é mais interessante que esse que está com
você.

Ela nasceu em 1971; naquele ano, seus pais se mudaram para o Brasil.

· o posicionamento de elementos textuais que já foram citados ou que serão


citados no discurso.

Ex.: Letícia não foi aprovada no exame, mas isso não a desanimou de estudar.

2. Pronomes indefinidos - referem-se à 3ª pessoa do discurso de modo vago,


geral, indeterminado.

Ex.: De alguma forma, alguém deverá arcar com todas as despesas da festa.

3. Pronomes relativos - referem-se a um elemento textual (substantivo ou


pronome) já citado em uma oração, retomando-o e introduzindo-o no início da
oração seguinte da mesma frase.

Ex.: O livro que li relata uma história real cujo desfecho é inacreditável.

4. Pronomes interrogativos - são as palavras que, quem, qual/quais,


quanto(s), quanta(s), usadas em frases interrogativas (diretas ou indiretas).

Exs.: Quem teria coragem de enfrentar aquela fera?

Diga-me quantas vezes precisarei voltar aqui.

178
Atividades

Escreva no caderno

1. (UPE-PE) Leia o texto:

FONTE: Disponível em: http://biaquario/wordpress.com/2010/04/01/hello-word.

CRÉDITO: Em vestibular da UPE-PE, 2009

Quantas pessoas em sua casa não economizam porque pensam que o que
eles gastam não é suficiente para acabar com a água do mundo? Agora
multiplique pelo número de casas da sua rua, seu bairro, sua cidade, seu país,
do mundo todo, pensando da mesma maneira.

Acerca de alguns recursos linguísticos utilizados no texto, analise as


proposições a seguir.

I. O enunciado "Quer levar a culpa por isso?" se configura como uma pergunta
dirigida a qualquer leitor do texto.

II. No enunciado "Quer levar a culpa por isso?", o pronome "aponta" para a
imagem que está retratada no texto.

III. No texto que é apresentado abaixo da imagem, os pronomes possessivos


em "sua rua, seu bairro, sua cidade, seu país" fazem referência ao termo
"pessoas", no trecho: "Quantas pessoas em sua casa [...]".

Resposta: sua/seu → referências do leitor

IV. O segmento "do mundo todo" é semanticamente equivalente a "de todo o


mundo".

Estão corretas:

a) I e III, apenas.

b) II e III, apenas.

c) I, II e IV, apenas.

d) III e IV, apenas.

e) I, II, III e IV.

Resposta: Alternativa c.
2. Leia este fragmento de texto:

Durante muito tempo a nacionalidade viveu da mescla de três raças que os


poetas xingaram de tristes: as três raças tristes.

A primeira as caravelas descobridoras encontraram aqui comendo gente e


desdenhosa de "mostrar suas vergonhas". A segunda veio nas caravelas. Logo
os machos sacudidos desta se enamoraram das moças "bem gentis" daquela,
que tinham cabelos "mui pretos, compridos pelas espádoas".

E nasceram os primeiros mamalucos.

MACHADO, Antônio de Alcântara. Artigo de fundo. In: _____. Brás, Bexiga e


Barra Funda. São Paulo: Klick, 1997. p. 19.

Vocabulário:

mamaluco/mameluco: filho de mãe indígena e pai branco (ou vice-versa).

Fim do vocabulário.

Atenção Professor(a), Antônio de Alcântara Machado (1901-1935) nasceu em


São Paulo. Formou-se em Direito, mas optou pelo jornalismo como profissão.
Seu mais famoso livro é Brás, Bexiga e Barra Funda, uma reunião de onze
contos que têm como cenário os bairros da cidade de São Paulo. A
característica mais marcante de suas obras é a linguagem coloquial-popular
que ele empregava em seus textos. Fim da observação.

Nesse texto ocorrem dois pronomes demonstrativos que contribuem para as


relações de coesão.

a) Identifique-os e indique a que elementos textuais eles fazem referência.

Resposta: No segundo parágrafo: (d)esta - refere-se à "segunda (raça)", ou


seja, aos portugueses; (d)aquela - refere-se à "primeira (raça)", ou seja, aos
indígenas.

b) Os dois demonstrativos funcionam, nesse texto, como anafóricos ou como


catafóricos? Justifique.

Resposta: Ambos funcionam como anafóricos, uma vez que se referem a


elementos textuais já citados no texto. Seriam catafóricos se fossem
empregados para se referir a elementos que, no texto, aparecessem depois
deles.

PARA LER NA REDE

Se você quiser ler, na íntegra, a obra Brás, Bexiga e Barra Funda, acesse o
seguinte link: http://tub.im/dsyqrp. Acesso em: 18 fev. 2016.

179

3. O trecho a seguir é o início de uma crônica do escritor Moacyr Scliar. Leia-o.

Para ele, o fim do ano era sempre uma época dura, difícil de suportar. Sofria
daquele tipo de tristeza mórbida que acomete algumas pessoas nos festejos
de Natal e de Ano-Novo. No seu caso havia uma razão óbvia para isso: aos 70
anos, solteirão, sem parentes, sem amigos, não tinha com quem celebrar,
ninguém o convidava para festa alguma. O jeito era tomar um porre, e era o
que fazia, mas o resultado era melancólico: além da solidão, tinha de suportar
a ressaca. [...]

SCLIAR, Moacyr. Mensagem de Natal. Folha de S.Paulo, São Paulo, 24 dez.


2007.

Atenção Professor(a), Moacyr Scliar (1937-2011), gaúcho de Porto Alegre


(RS), era médico de formação e desenvolveu a carreira de escritor em paralelo
ao exercício da medicina. Contista, romancista e ensaísta, conquistou grande
popularidade, principalmente com suas crônicas publicadas em importantes
jornais brasileiros. Fim da observação.

NAVEGAR É PRECISO

Para conhecer um pouco sobre a vida do escritor gaúcho Moacyr Scliar, que,
além de contista, romancista e ensaísta, era também médico, visite o site
http://tub.im/8cb2mq. Acesso em: 28 maio 2016.

Relativamente aos valores semânticos e aos mecanismos de referência e


coesão estabelecidos pelos pronomes nesse trecho, assinale a afirmação
incorreta.

a) "ele", empregado no início da crônica, não tem um referente explícito, o que


generaliza (torna mais vaga) a caracterização do personagem.
b) Em "daquele tipo de tristeza" o demonstrativo evidencia que o cronista se
refere a um tipo de tristeza que já é do conhecimento de mundo do leitor.

c) "isso" é um anafórico que retoma a ideia expressa em ser acometido pela


"tristeza mórbida [...] nos festejos de Natal e Ano-Novo".

d) Nas expressões "algumas pessoas" e "festa alguma" o indefinido tem, nos


dois casos, valor de negação.

Resposta: [só em "festa alguma"]

e) Em "e era o que fazia", o o funciona como demonstrativo anafórico e tem


como referente a expressão "tomar um porre".

Resposta: ["era o que fazia" = era isso que fazia, isso = tomar um porre]

Resposta: Alternativa d.

4. As frases a seguir apresentam estruturas gramaticais em que ocorrem


pronomes empregados conforme a variedade coloquial-popular da língua.
Reescreva-as fazendo a adequação à variedade culta formal.

a) Existem assuntos que eu prefiro não dar opinião a respeito deles.

Resposta: Existem assuntos a respeito dos quais eu prefiro não dar opiniões.

b) Durante a negociação para renovar o contrato, o jovem goleiro não aceitou a


proposta da diretoria, onde ele resolveu transferir-se para outro clube.

Resposta: Sugestões: 1. [...] proposta da diretoria, por isso ele resolveu [...]; 2.
[...] proposta da diretoria, motivo pelo qual ele resolveu [...] [Há outras
possibilidades.]

c) Estão sob investigação duas entidades sociais que foram transferidos para
elas recursos públicos destinados às vítimas da tragédia que atingiu a cidade.

Resposta: [...] duas entidades sociais para as quais foram transferidos


recursos [...]

d) Foi publicado, há alguns anos, um preocupante relatório que, no futuro,


poderão acontecer graves conflitos sociais causados pelas alterações
climáticas.
Resposta: [...] um preocupante relatório, segundo o qual, no futuro, poderão
[...]

5. Considere estas duas frases:

1. O empreendimento faliu.

2. A realização de nossos sonhos dependia do sucesso do


empreendimento.

Indique a alternativa em que elas estão adequadamente reunidas em um só


período, sem alteração de sentido.

a) O empreendimento que o sucesso dependia da realização de nossos sonhos


faliu.

b) A realização de nossos sonhos dependia do empreendimento cujo sucesso


faliu.

c) O sucesso do empreendimento de que a realização dependia faliu nossos


sonhos.

d) O empreendimento cujo sucesso dependia da realização de nossos sonhos


faliu.

e) O empreendimento de cujo sucesso dependia a realização de nossos


sonhos faliu.

Resposta: Alternativa e.

180

DA TEORIA À PRÁTICA

Ponto de partida

Muitas piadas se apoiam em interessantes jogos linguísticos para criar o efeito


de humor. Leia, por exemplo, esta historinha:

Duas pessoas conversando:

- Não deixe sua cadela entrar na minha casa de novo. Ela está cheia de
pulgas.

- Diana, não entre nessa casa de novo. Ela está cheia de pulgas.
POSSENTI, Sírio. Os humores da língua: análises linguísticas de piadas.
Campinas: Mercado de Letras, 1998. p. 130.

O humor dessa piada explora a dupla relação de referência estabelecida pelo


pronome ela.

Vale notar, de início, que, do ponto de vista puramente gramatical, nada


garante que, na fala da primeira pessoa, o ela esteja se referindo a "cadela".
Isso porque o falante emprega dois substantivos: "cadela" (feminino e singular)
e "casa" (feminino e singular); gramaticalmente, o ela, por também ser feminino
e singular, pode retomar qualquer um desses dois nomes.

No entanto, qualquer pessoa, baseada em seu conhecimento pragmático*


(experiência, conhecimento de mundo), sabe que geralmente quem tem pulgas
são os cães, e não as casas. Assim, qualquer falante - incluindo o tutor da
Diana - facilmente interpretaria "ela está cheia de pulgas" como "a cadela está
cheia de pulgas", e não como "a casa está cheia de pulgas".

*Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas, o item "Pragmática" na seção "Complementação teórica". Fim da
observação.

O tutor da Diana, portanto, fingiu não entender a frase. Ele se ofendeu com a
acusação de que sua cadela era pulguenta e aproveitou a brecha linguística - a
dupla referência do ela - para devolver a ofensa. Subentendida na fala dele
está a seguinte mensagem: "Nem me passou pela cabeça interpretar a palavra
ela como minha cadela, porque a Diana não tem pulgas; se alguma coisa aqui
é pulguenta, obviamente só pode ser sua casa".

Bem, a Diana pode até ter algumas pulguinhas, mas, sem dúvida, o tutor dela
mostrou que é um hábil usuário do idioma. Você concorda?

Agora é sua vez

Escreva no caderno

1. Na tirinha a seguir, os dois personagens estão contemplando a imensidão do


Universo e admirando a beleza de uma noite estrelada.

FONTE: VERISSIMO, Luis Fernando. As cobras: se Deus existe que eu seja


atingido por um raio. Porto Alegre: L&PM, 1997.
CRÉDITO: © by Luis Fernando Verissimo

Em relação a esse breve - e surpreendente - diálogo, responda:

a) O que o primeiro falante quis dizer com nós?

Resposta: Os personagens contemplam, em uma noite estrelada, a beleza e a


imensidão do Universo. No segundo quadro, o falante faz uma reflexão
filosófica: ele usa o pronome nós em sentido genérico, significando "os
habitantes da Terra", ou seja, todos os seres vivos (inclusive ele e seu
interlocutor). Sua fala deve, então, ser entendida como "Todos nós, que
habitamos a Terra, somos insignificantes diante da imensidão/grandiosidade do
Universo".

b) O que o outro personagem dá a entender ao trocar nós por vocês?

Resposta: Ele dá a entender que ele não faz parte do conjunto designado pelo
pronome nós, ou seja, que ele não se julga insignificante diante da grandeza
do Universo.

181

2. Leia o texto:

Águas: abundância e escassez

12 de abril de 1961. O Major Yuri A. Gagarin dá a volta completa em torno da


Terra em 1 hora e 40 minutos. "A Terra é azul!".

A mensagem remete-nos à preeminência da água. Ela recobre 3/4 da


superfície do nosso planeta e constitui também 3/4 do nosso organismo. Entre
todos os elementos que compõem o Universo, a água é talvez aquele que
melhor simboliza a essência do homem, desempenhando um papel
fundamental no nosso equilíbrio. [...]

ÁGUAS [...]. ComCiência, 10 set. 2000. Disponível em:


http://www.comciencia.br/reportagens/aguas/aguas02.htm. Acesso em: 17 fev.
2016.

O autor faz uso de determinadas formas pronominais como recurso para


despertar no leitor uma reação de maior interesse e comprometimento
relativamente à problemática analisada. Explique de que recurso se trata e
identifique as palavras por meio das quais ele se evidencia no texto.

Resposta: O autor emprega a 1ª pessoa do plural. Dessa forma, ele procura


mostrar que o assunto diz respeito a todos, inclusive ao autor e ao leitor, uma
vez que todos são afetados/envolvidos por ele. As formas pronominais são:
"remete-nos", "nosso planeta", "nosso organismo" e "nosso equilíbrio".

3. Suponha que, de um diálogo entre um rapaz e uma amiga dele, tenha sido
extraído este trecho de fala:

Gabriela, ontem lá no shopping, vi uma foto sua.

Para os dois interlocutores, essa frase não apresentaria problema de sentido,


uma vez que, por fazer parte do diálogo, estaria contextualizada. No entanto,
outra pessoa que ouvisse apenas essa parte da conversa poderia interpretá-la
de três maneiras diferentes.

Atenção Professor(a), as respostas apresentadas são sugestões. Fim da


observação.

Iniciando pela palavra Você, crie diferentes continuações para a frase, a fim de
ficar claro, em cada uma, que o possessivo sua evidencia que Gabriela é:

a) modelo fotográfico.

Resposta: Você está linda no pôster, um arraso! Todo cara que passava ficava
babando!

b) fotógrafa.

Resposta: Você está cada dia melhor, hein?! Já pode se tornar fotógrafa
profissional.

c) proprietária/colecionadora de fotos.

Resposta: Você é louca de emprestar para a exposição aquela foto raríssima!

4. Transcreve-se a seguir um texto humorístico que circulou na internet.

Quando o primeiro-ministro inglês Winston Churchill* fez 80 anos, um repórter


de aproximadamente 30 anos foi entrevistá-lo. Ao final da entrevista, o repórter
disse:
Atenção Professor(a), * Winston Churchill - primeiro-ministro britânico que,
durante a Segunda Guerra Mundial, governou a Grã-Bretanha. Foi um dos
responsáveis pela vitória dos exércitos aliados sobre Hitler. Fim da observação.

- Sir Winston, espero entrevistá-lo novamente nos seus 90 anos.

Resposta de Churchill:

- Por que não? Você me parece bastante saudável.

Autoria desconhecida.

Se a fala do repórter fosse "Sir Winston, espero entrevistá-lo novamente aos 90


anos", o efeito de humor gerado pela resposta de Churchill seria atenuado ou
intensificado? Justifique.

Resposta: Seria intensificado, pois "aos 90 anos" teria duplo sentido (90 anos
de Churchill ou do repórter?). Isso possibilitaria que Churchill, intencionalmente,
interpretasse esse trecho como "aos seus (do repórter) 90 anos". Assim,
Churchill estaria subentendendo que o repórter viveria mais uns 60 anos e
insinuando, em tom de brincadeira, que ele próprio, Churchill, que já tinha 80
anos, também viveria mais 60, ou seja, até os 140.

5. Observe este cartum:

CRÉDITO: Claudios. Antologia brasileira do humor. Porto Alegre: L&PM, 1976.


v. 1. p. 128.

Relativamente à fala do condenado, responda aos itens a e b.

a) Explique, no contexto do cartum, como a fala do personagem cria o efeito de


humor.

Resposta: "Corta essa" apresenta uma superposição de sentidos: pode ser


uma gíria, significando "deixe isso pra lá", "não faça isso"; pode também ser
interpretado como um pedido que o condenado faz ao carrasco para que este
lhe corte a cabeça. Obviamente, o condenado emprega "corta essa" no
primeiro sentido referido, mas, por escolher uma forma infeliz de fazer o pedido
ao carrasco, pode ser interpretado de maneira diferente e ter sua cabeça
cortada.
b) Se o carrasco fosse um bom conhecedor do emprego dos pronomes
demonstrativos e resolvesse atender ao pedido do condenado, este seria
executado ou não?

Resposta: Não. Ele só seria executado se dissesse "Corta esta", pois nesse
caso, "esta" indicaria a cabeça dele (corta esta cabeça). Como ele diz "Corta
essa!", o carrasco, se conhecesse os diferentes usos de essa e esta,
entenderia que o condenado lhe pede que pare com o que está fazendo, ou
seja, interrompa a execução.

182

6. (Unicamp-SP) Os textos abaixo integram uma matéria de divulgação


científica sobre o tamanho das criaturas marinhas, ilustrada com fotos dos
animais mencionados.

TEXTO 1

Eles nascem com milímetros e alcançam metros de comprimento, nadam das


praias rasas às águas abissais. Em fotos únicas, produzidas em tanques
especiais, conheça as medidas dos animais do fundo do mar.

CRÉDITO: Doug Perr/Nature PL/Diomedia

TEXTO 2

Escala milimétrica

Enquanto este cavalo-marinho pode chegar a 30 cm, os filhotes medem poucos


milímetros ao nascer. Eles surgem depois que a fêmea deposita óvulos em
uma bolsa na barriga do macho, que é responsável pela fertilização.

"Escalas marinhas", em Superinteressante, São Paulo, jun. 2012, p. 72-73.

LEGENDA: 10 cm

CRÉDITO: Juan Carlos Muñoz/Age Fotostock/Easypix

a) Pode-se afirmar que a compreensão do texto 2 depende da imagem que o


acompanha. Destaque do texto a expressão responsável por essa dependência
e explique por que seu funcionamento causa esse efeito.

Resposta: Trata-se da expressão "este cavalo-marinho". O demonstrativo este


tem, no caso, a função de apontar, mostrar um elemento que integra a
matéria jornalística, mas está fora do texto verbal: a imagem do cavalo-
marinho. Por conta desse papel (função dêitica) do demonstrativo é que a
compreensão plena do texto depende dessa correlação entre ele e a imagem.

b) No que diz respeito à organização textual, que diferença se pode apontar


entre os dois textos, quanto ao modo como o pronome eles se relaciona com
os termos a que se refere?

Resposta: No texto 1, o pronome eles funciona como catafórico, pois aponta


para uma expressão que vai ser citada mais à frente - "animais do fundo do
mar" - antecipando assim a presença dela no texto. No texto2, o mesmo
pronome retoma um elemento já citado - "os filhotes" - estabelecendo uma
relação de referência anafórica.

7. Em um bar de uma cidadezinha, o proprietário afixou uma placa semelhante


à reproduzida abaixo. Leia-a e responda aos itens de a e c.

CRÉDITO: Marcos Guilherme

a) A mensagem, nesse contexto, deve ser interpretada como uma afirmação


crítica ("séria") ou humorística? Justifique.

Resposta: O sentido é nitidamente humorístico. O proprietário, aproveitando o


fato de que, popularmente, caçadores e pescadores são considerados
mentirosos, faz uma brincadeira com os caçadores e pescadores que
frequentam o bar.

b) Que palavra é responsável pela criação do sentido pretendido pelo autor da


frase? Explique.

Resposta: Outros (pronome indefinido). Essa palavra, ao ser associada a


mentirosos, deixa implícito que, entre os que mentem, incluem-se os
caçadores e os pescadores.

c) Se a palavra referida no item b fosse eliminada, o que a frase da placa


possibilitaria entender a respeito dos pescadores e dos caçadores? Explique.

Resposta: A frase deixaria implícito que os caçadores e pescadores não são


mentirosos; ela estaria afirmando que ali se reuniriam três "tipos" de pessoas:
os caçadores, os pescadores e os mentirosos.
183

8. Leia estes dois enunciados.

Naquela ocasião, o maestro ironizou o talento musical da filha da famosa atriz,


que, anos mais tarde, viria a ser mulher dele.

Passarei as férias na casa de praia de minha amiga, cujo aluguel está cotado
em mil reais por semana.

a) Esclareça os dois sentidos que podem ser atribuídos a cada um deles e


explique, do ponto de vista da estrutura do enunciado, por que ocorre a
ambiguidade.

Resposta: Em 1, pode-se entender que a filha da atriz ou a própria atriz viria a


ser mulher do maestro. A ambiguidade é causada pelo relativo que, que pode
retomar a expressão "filha da famosa atriz" (núcleo: filha) ou a expressão "a
famosa atriz". Em 2, pode-se supor que a casa ou a amiga tem o aluguel
cotado em mil reais por semana. O relativo cujo pode ter como referente a
expressão "casa de praia de minha amiga" (núcleo: casa) ou a expressão
"minha amiga".

b) Reveja, no quadro acima, o conceito de tolerância pragmática, já


apresentado no volume 1, e responda: em qual dos dois enunciados nossa
tolerância pragmática permite-nos facilmente desfazer a ambiguidade? Por
quê?

Resposta: Em 2. Pelo nosso conhecimento de mundo, sabemos que pessoas


não são alugadas, mas casas sim. Assim, descartamos a interpretação "minha
amiga é alugada" e ficamos com "a casa de minha amiga é alugada". No
enunciado 1, não é possível desfazer a ambiguidade porque os dois sentidos
são possíveis.

PARA NÃO ESQUECER

Tolerância pragmática
Nossa capacidade de compreender adequadamente um enunciado não se
apoia apenas em seus elementos linguísticos (palavras, expressões, frases) e
na organização deles; apoia-se também, em parte, em fatores extralinguísticos
(a situação de comunicação, quem é nosso interlocutor, nossa experiência de
mundo etc.).

Quando a combinação de elementos linguísticos e extralinguísticos produz, no


enunciado, um sentido absurdo ou que não combina com a situação de
comunicação, nós o "descartamos", pois concluímos, com certa facilidade, que
tal sentido não foi o pretendido pelo enunciador. A essa nossa capacidade
linguística damos o nome de tolerância pragmática.

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas, os subsídios/sugestões relativos(as) a esta atividade e também
uma proposta de atividade alternativa. Fim da observação.

E MAIS ...

"Ninguém conhecia ele" × "Ninguém o conhecia"

Na seção teórica "Principais empregos dos pronomes pessoais", vimos que, na


função de complemento do verbo, as formas pronominais o(s)/a(s) e
ele(s)/ela(s) ocorrem em variedades linguísticas diferentes.

Mas será que, na língua falada, essas diferenças de uso realmente existem?

Para tentar responder a essa pergunta, vamos desenvolver uma atividade de


pesquisa.

1ª parte - Leitura inicial

Veja o que diz o linguista Marcos Bagno:

[...] Os pronomes o/a, de construções como "eu o vi" e "eu a conheço", estão
praticamente extintos no português falado no Brasil [...]. Esses pronomes
nunca aparecem na fala das crianças brasileiras nem na dos adultos brasileiros
não alfabetizados e têm baixa ocorrência na fala dos indivíduos cultos, o que
demonstra que são exclusivos da língua ensinada na escola, sobretudo da
língua escrita, não fazendo parte, então, do repertório da língua materna dos
brasileiros. Nossas crianças usam sem problema me e te - "Ela me bateu", "Eu
vou te pegar" -, mas o/a jamais, que são substituídos por ele/ela: "Eu vou pegar
ele", "Eu vi ela". As formas lo e la - pegá-lo, vê-la -, então, nem pensar. Se as
crianças não usam é porque não ouvem os adultos usar, e se os adultos não
usam é porque não precisam desses pronomes. E mesmo na língua dos
adultos escolarizados, esses pronomes só aparecem como um recurso
estilístico, em situações de uso mais formais, quando o falante quer deixar
claro que domina as regras impostas pela gramática escolar. [...]

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. São Paulo:


Loyola, 1999. p. 24-25.

184

2ª parte - Atividade de pesquisa

1. Objetivo

Analisar, na língua falada, a ocorrência das formas o(s)/a(s), lo(s)/la(s) e das


formas ele(s)/ ela(s) na função de complemento verbal.

2. Orientações para a realização da atividade

a) A turma será dividida em grupos para gravar e selecionar trechos de textos


em que as formas o(s)/a(s), lo(s)/la(s) e ele(s)/ela(s) atendam ao objetivo da
pesquisa.

b) O(A) professor(a) apresentará os critérios de acordo com os quais a coleta


dos dados deverá ser feita.

3. Tabulação dos dados

Realizadas as gravações, cada grupo deverá identificar, em cada uma delas,


os casos que interessem à pesquisa, transcrever os trechos, reproduzir a
tabela abaixo em uma folha sulfite e, a partir das transcrições, preenchê-la com
os dados coletados.

Em desacordo
De acordo com
com a norma
a norma culta
culta

Nível de ensino Total de


(escolaridade) dos ocorrências Quantidade % Quantidade %
informantes analisadas
Fundamental Resposta: 15*

Médio Resposta: 15*

Superior Resposta: 15*

Total Resposta: 45*

Atenção Professor(a), * Conforme sugestão em Conversa com o professor,


nas Orientações específicas, itens 1.a e 1.b das "Sugestões/orientações para
a coleta dos dados (gravação das falas)". Fim da observação.

4. Apresentação dos resultados e discussão coletiva

a) Em data a ser definida, os grupos entregarão ao(à) professor(a) as


transcrições dos trechos selecionados. Oralmente, responderão aos demais
colegas os dois itens da pergunta a seguir, apresentando, quando for o caso, o
fragmento em que a ocorrência foi registrada:

Foi documentado algum caso em que, por conta das características


socioculturais do falante e da situação de comunicação:

· o emprego de ele/a, em lugar de o/a, ficou inadequado? Por quê?

· o emprego de o/a soou meio "artificial", pedante? Por quê?

b) Com a orientação do(a) professor(a), será preparada, então, uma tabela


geral dos dados. A turma poderá analisar coletivamente se, nos limites da
pesquisa, esses dados confirmam o que diz o professor Marcos Bagno no texto
da primeira parte desta atividade.

5. Atividade complementar

A critério do(a) professor(a), poderá ser desenvolvida uma atividade


complementar baseada na tabela geral dos resultados da pesquisa.

185

capítulo 2 - Verbo

Classes gramaticais

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Artigos
· BIZZOCCHI, Aldo. Passado subjuntivo. Revista Língua Portuguesa, maio
2012. Disponível em: http://tub.im/2o26ud. Acesso em: 10 mar. 2016.

· POSSENTI, Sírio. Gerundismo. In: _____. Língua na mídia. São Paulo:


Parábola, 2009.

Crônicas

· CALLIGARIS, Contardo. Amores silenciosos. Folha de São Paulo, São


Paulo, 26 jun. 2008. Disponível em: http://tub.im/qsepw4. Acesso em: 10 mar.
2016.

· PASSOS, Clarissa. Sabe o português? Divulgueconteudo.com, [20-?].


Disponível em: http://tub.im/uvwt2a. Acesso em: 10 mar. 2016.

· RIBEIRO, João Ubaldo. O verbo for. Jornal Grande Bahia, Feira de Santana,
12 jun. 2013. Disponível em: http://tub.im/4nsanz. Acesso em: 10 mar. 2016.

· SCLIAR, Moacyr. Um verbo para começar o ano. Academia Brasileira de


Letras, [2007?]. Disponível em: http://tub.im/x9mkk6. Acesso em: 10 mar.
2016.

186

Atenção Professor(a), a atividade da seção "E mais...", da página 216, requer


preparação antecipada. Fim da observação.

INTRODUÇÃO

Leia atentamente o conteúdo deste quadro.

40 anos, as mulheres islandesas em greve e se a, e das crianças por um dia. O


momento a forma como as mulheres no país e a Islândia na vanguarda da luta
pela igualdade.

O movimento também espaço para que, cinco anos depois, em 1980, Vigdis
Finnbogadottir, uma mãe solteira divorciada, a Presidência do país, a primeira
mulher presidente da Europa e a primeira mulher no mundo a
democraticamente como chefe de Estado.

LEGENDA: Manifestação de mulheres islandesas por igualdade de direitos em


1975.

CRÉDITO: Olafur K. Magnusson


Certamente você estranhou um pouco esse "texto" e não conseguiu
compreendê-lo muito bem. Isso aconteceu porque algumas palavras
indispensáveis para o sentido geral dele foram propositadamente omitidas.

Leia abaixo esse mesmo trecho, agora acrescido das palavras que haviam sido
excluídas.

Há 40 anos, as mulheres islandesas entraram em greve e se recusaram a


trabalhar, cozinhar e cuidar das crianças por um dia. O momento mudou a
forma como as mulheres eram vistas no país e ajudou a colocar a Islândia na
vanguarda da luta pela igualdade.

O movimento também abriu espaço para que, cinco anos depois, em 1980,
Vigdis Finnbogadottir, uma mãe solteira divorciada, conquistasse a
Presidência do país, tornando-se a primeira mulher presidente da Europa e a
primeira mulher no mundo a ser eleita democraticamente como chefe de
Estado.

[...]

BREWER, Kirstie. A greve geral de mulheres que tornou a Islândia o país "mais
feminista do mundo". G1, 2 nov. 2015. Disponível em:
http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/11/a-greve-geral-de-mulheres-que-
tornou-islandia-o-pais-mais-feminista-do-mundo.html. Acesso em: 10 mar.
2016.

Como você pôde perceber, as palavras destacadas são fundamentais para dar
sentido ao texto e possibilitar a compreensão adequada de seu conteúdo.
Essas palavras fazem parte da mais importante classe gramatical do idioma: o
verbo.

É essa classe gramatical que estudaremos neste capítulo.

PARA QUE SABER?

O verbo é a palavra mais importante da língua porque funciona, quase sempre,


como elemento nuclear dos atos de comunicação. Em torno do verbo se
agregam outras palavras para constituir a estrutura dos enunciados.

É claro que, desde que aprendemos a falar, usamos os verbos com


naturalidade (como também as demais palavras), mas dispor de um domínio
mais amplo sobre as características, formas e possibilidades de uso dos
verbos é indispensável a quem, em situações específicas de fala ou escrita,
precisa utilizar a variedade culta formal da língua.

187

VERBO

Conceito

Considere as palavras destacadas nestes enunciados:

1. O ser humano conquistará outros planetas?


Palavra que exprime uma ação e a localiza no tempo futuro.

2. Nosso planeta está cada vez mais quente.


Palavra que exprime um estado (modo de estar) localizado no tempo presente.

3. Durante este verão choveu pouquíssimo.


Palavra que exprime um fenômeno da natureza ocorrido num tempo passado.

As palavras conquistará, está e choveu são exemplos de verbos.

Verbo é a palavra que, por si só, exprime um fato (em geral, uma ação, um
estado ou um fenômeno) e que pode variar sua forma para situar esse fato no
tempo.

LEGENDA: Astronauta realiza caminhada espacial durante a construção da


Estação Espacial Internacional, em 2002.

CRÉDITO: NASA/SPL/Latinstock

Complemento teórico

Quando dizemos que os verbos exprimem ação, estado ou fenômeno,


estamos fazendo uma simplificação didática, pois existem verbos que
exprimem outros tipos de "fatos", diferentes desses três. Verbos como sofrer,
sentir e saber, por exemplo, não exprimem "ação", no sentido exato dessa
palavra.

ESTUDO DO VERBO (1ª PARTE)

Nesta primeira parte do capítulo, trataremos dos seguintes aspectos das


palavras que integram a classe dos verbos:
· Conjugações verbais

· Flexões do verbo

· Tempos verbais na composição dos modos

· Principais empregos dos tempos simples

Depois, na segunda parte do capítulo, estudaremos outras características e


empregos das palavras dessa classe gramatical.

188

As conjugações verbais

A língua portuguesa tem aproximadamente 11 mil verbos, que podem ser


subdivididos, de acordo com suas terminações, em três grandes grupos,
chamados conjugações.

Veja o quadro:

Conjugação Terminação Exemplos

1ª -ar falar, divulgar

2ª -er saber, perceber

3ª -ir sair, dividir

Observação: Os poucos verbos terminados em -or (pôr, compor, sobrepor


etc.) são considerados de 2ª conjugação, pois têm origem no antigo verbo
poer.

As flexões do verbo

Os verbos são palavras variáveis que se flexionam em:

· pessoa: 1ª, 2ª e 3ª.

· número: singular e plural.

· tempo: presente, passado, futuro.

· modo: indicativo, subjuntivo, imperativo.

· voz: ativa, passiva, reflexiva.


Vamos conhecer, a seguir, os principais aspectos relativos às flexões de
pessoa, número, tempo e modo. A flexão de voz será estudada na segunda
parte deste capítulo.

FIQUE SABENDO

Flexão são variações que podem ocorrer na forma de uma palavra e que
desempenham determinadas funções gramaticais. [...]

O português é uma língua rica em flexões. [...] Um verbo típico como escrever
tem quase uma centena de formas: escrevo, escreve, escrevemos,
escreveríeis, escrevendo, escrito etc. E o número fica maior se contarmos
como flexão formas como tem escrito, está escrito e vai escrever, isto é, as
perífrases verbais. [...]

TRASK, R. L. Dicionário de linguagem e linguística. Trad. e adap. Rodolfo


Ilari. São Paulo: Contexto, 2004. p. 113.

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas, o item "Paradigmas de usos das formas verbais" na seção
"Complementação teórica". Fim da observação.

Pessoa e número

Um ato de comunicação envolve três elementos: as pessoas do discurso, que


são representadas pelas pessoas gramaticais: 1ª, 2ª e 3ª. Associado ao
conceito de pessoa gramatical está o conceito de número (singular e plural),
que expressa a quantidade de seres referente a cada uma das três pessoas.

As relações entre as três pessoas gramaticais e os dois números resultam em


seis combinações: três para o singular; três para o plural. O quadro abaixo
apresenta essas combinações e um exemplo de forma verbal de cada caso.

Números

Pessoa gramatical Singular Plural

1ª pessoa Eu beijo Nós beijamos

Tu beijas Vós beijais


2ª pessoa
Você beija Vocês beijam
3ª pessoa Ele/ela beija Eles/elas beijam

Note, pelos exemplos desse quadro, que as formas você/ vocês indicam a 2ª
pessoa do discurso - quem ouve/lê - e exigem a forma verbal na 3ª pessoa:
você beija; vocês beijam.

LEGENDA: O beijo, obra do pintor austríaco Gustav Klimt.

CRÉDITO: Gustav Klimt. 1918. Óleo sobre tela, 180 × 189 cm. Museu
Kunsthistorisches, Viena

NAVEGAR É PRECISO

Gustav Klimt (1862-1918) foi um pintor austríaco da art nouveau (arte nova),
estilo artístico muito apreciado no final do século XIX e início do XX.

Para conhecer mais obras desse artista, visite os sites https://tub.im/gsxtkf e


http://tub.im/kt8dbj (acessos em: 10 mar. 2016) e discuta com seus colegas
sobre as características das pinturas encontradas nessas visitas virtuais.

189

As formas verbais relativas ao pronome vós são de uso raríssimo no português


brasileiro; ocorrem apenas em situações de comunicação extremamente
formais, cerimoniosas e solenes. Veja um exemplo nesta tirinha.

FONTE: LAERTE. Piratas do Tietê. Folha de S.Paulo, São Paulo, p. E16, 28


ago. 2010.

CRÉDITO: Laerte

Bem... Essa conversa do casal real é toda cerimoniosa, mas o subentendido na


última fala da rainha nem tanto, não é mesmo?

Tempo verbal

Se tomarmos como ponto de referência o momento em que falamos (ou


escrevemos), podemos subdividir o transcorrer do tempo em três partes e
localizar nelas as ocorrências expressas pelos fatos verbais. Assim:

Tempo anterior ao momento Momento da Tempo posterior ao momento


da fala/escrita fala/escrita da fala/escrita

passado presente futuro


Essa divisão geral do tempo dá origem aos três tempos verbais básicos:
passado (ou pretérito), presente e futuro. Veja, por exemplo, os tempos
expressos pelas formas verbais na sugestiva troca de mensagens entre os dois
personagens deste cartum:

CRÉDITO: Amarildo

· chegarei
Fato posterior ao momento da escrita → futuro.

· sei
Fato simultâneo ao momento da escrita → presente.

· estou aguardando
Fato simultâneo ao momento da escrita → presente.

O presente não tem subdivisões, mas o pretérito admite três segmentações


de tempos; o futuro, por sua vez, admite duas segmentações.

190

Veja, nestes quadros, a composição geral dos tempos verbais:

Presente

[Não tem subdivisões.]

Pretérito

Pretérito perfeito

Pretérito imperfeito

Pretérito mais-que-perfeito

Futuro

Futuro do presente

Futuro do pretérito

Esses tempos serão exemplificados em todas as suas formas nas duas


próximas páginas na seção Os tempos verbais na composição dos modos
(página 191).
Modo verbal

Modo é a flexão verbal que possibilita ao falante revelar sua própria atitude em
relação ao fato expresso pelo verbo. São três os modos verbais:

Modo indicativo

Fazem parte desse modo as formas verbais que exprimem atitudes de certeza
do falante.

Ex.: Viajaremos para Recife.

Modo subjuntivo

Constituído pelas formas verbais que exprimem atitudes de hipótese,


suposição, dúvida etc.

Ex.: Se você estiver aqui, poderá nos ajudar nos trabalhos.

Modo imperativo

Fazem parte desse modo as formas que exprimem ordem, pedido, conselho,
convite etc.

Ex.: Por favor, feche a porta da sala.

Cada um desses três modos é constituído, como veremos logo à frente, por um
conjunto específico de tempos verbais.

Formas nominais

Um verbo, além de apresentar as inúmeras formas que constituem os seus


diferentes tempos, dispõe também de três formas particulares, denominadas
formas nominais. São elas: infinitivo, gerúndio e particípio.

Veja o quadro:

· Caracteriza-se pela terminação -r.


· Exprime o fato verbal em si, sem demarcar, no tempo, seu início e
Infinitivo
seu fim.
Ex.: Comer e coçar é só começar.

Gerúndio · Caracteriza-se pela terminação -ndo.


· Exprime o fato verbal em desenvolvimento, isto é, enquanto ele
ocorre ao longo do tempo.
Ex.: O helicóptero passou a tarde toda sobrevoando a área do
incêndio.

· Caracteriza-se pela terminação -ado (na 1ª conjugação) e -ido (na 2ª


e 3ª conjugações).
Particípio
· Exprime o resultado, a conclusão plena do processo verbal.
Ex.: À noite, o fogo havia avançado muito e destruído a mata.

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas, o item "O conceito de 'gerundismo'" na seção "Complementação
teórica". Fim da observação.

LEGENDA: apontar ⇒ infinitivo - matar ⇒ infinitivo

CRÉDITO: CENIPA. Disponível em: http://www.cenipa.aer.mil.br. Acesso em: 2


jun. 2016.

191

Complemento teórico

De onde vem a denominação "formas nominais"?

O infinitivo, o gerúndio e o particípio são chamados de formas nominais


porque, em certos casos, não desempenham o papel de formas verbais, e sim
de nomes (substantivos e adjetivos). Compare as formas destacadas em cada
par de frases a seguir:

· Você vai sofrer com nossa ausência? ⇐⇒ Esse seu falso sofrer não nos
comove.
infinitivo funcionando como forma verbal
infinitivo funcionando como substantivo (forma nominal)

· A águavai ficar fervendo meia hora. ⇐⇒ Usamos água fervendo para lavar
os frascos.
gerúndio funcionando como forma verbal
gerúndio funcionando como adjetivo (forma nominal)

· O vilarejo ficou isolado pelas chuvas. ⇐⇒ Ele vive num sítio isolado, longe
da cidade.
particípio funcionando como forma verbal
particípio funcionando como adjetivo (forma nominal)

Os tempos verbais na composição dos modos

As formas verbais, dependendo do tempo do qual fazem parte, subdividem-se


em formas simples (constituídas por uma única palavra) e compostas
(constituídas por mais de uma palavra).

Veja neste exemplo:

Atenção Professor(a), quanto às formas compostas por três verbos, ver


sugestão de comentário na seção "Classificações dos verbos" na segunda
parte deste capítulo (página 202). Fim da observação.

· Eu sei que, se não houvesse chovido, você não teria faltado à reunião. forma
composta
forma simples
forma composta

Os tempos verbais constituídos por esses dois tipos de formas recebem as


denominações de tempo simples ou tempo composto.

Vamos sistematizar, a seguir, a composição geral dos três modos verbais -


indicativo, subjuntivo e imperativo - e conhecer os principais empregos de
suas formas simples na indicação dos diferentes sentidos de tempo.

Composição do modo indicativo

O modo indicativo, como já vimos, é constituído por um conjunto de formas


verbais empregadas pelo falante para evidenciar sua atitude de certeza em
relação ao fato expresso pelo verbo. O quadro a seguir apresenta, para
consulta, os seis tempos simples e os quatro compostos que integram esse
modo verbal.

Tempos verbais do indicativo Exemplos

Presente Eu falo

Pretérito imperfeito Eu falava

Pretérito perfeito simples Eu falei


Pretérito perfeito composto Eu tenho falado

Pretérito mais-que-perfeito simples Eu falara

Pretérito mais-que-perfeito composto Eu tinha falado

Futuro do presente simples Eu falarei

Futuro do presente composto Eu terei falado

Futuro do pretérito simples Eu falaria

Futuro do pretérito composto Eu teria falado

FIQUE SABENDO

Os quadros com os tempos verbais apresentados nesta seção constituem


material teórico de consulta. Não se preocupe, portanto, em memorizá-los de
forma sistemática.

192

Conjugação dos tempos simples do modo indicativo

Os quadros a seguir apresentam, como exemplo, a conjugação do verbo viajar


nos seis tempos simples que compõem o modo indicativo.

Presente

Eu viajo

Tu viajas

Ele/você viaja

Nós viajamos

Vós viajais

Eles/vocês viajam

Pretérito perfeito

Eu viajei

Tu viajaste

Ele/você viajou

Nós viajamos
Vós viajastes

Eles/vocês viajaram

Pretérito imperfeito

Eu viajava

Tu viajavas

Ele/você viajava

Nós viajávamos

Vós viajáveis

Eles/vocês viajavam

Pretérito mais-que-perfeito

Eu viajara

Tu viajaras

Ele/você viajara

Nós viajáramos

Vós viajáreis

Eles/vocês viajaram

Futuro do presente

Eu viajarei

Tu viajarás

Ele/você viajará

Nós viajaremos

Vós viajareis

Eles/vocês viajarão

Futuro do pretérito

Eu viajaria

Tu viajarias
Ele/você viajaria

Nós viajaríamos

Vós viajaríeis

Eles/vocês viajariam

Principais empregos dos tempos simples do indicativo

Empregos do tempo presente

As formas do presente do indicativo exprimem fatos que ocorrem no mesmo


momento em que o falante os observa ou faz referência a eles.

Veja este exemplo:

· São cinco horas da manhã, lá fora já passam os barulhentos ônibus urbanos.

O presente do indicativo pode também ser usado para:

1. Exprimir fatos de ocorrência costumeira, habitual.

Ex.: Em janeiro, sempre chove à tarde; o rio enche e inunda a avenida.

2. Exprimir fatos atemporais, isto é, sem começo nem fim.

Ex.: Nosso planeta viaja solitário pela imensidão da Via Láctea.

3. Fazer referência a fatos passados ou futuros, mostrando-os como se


estivessem acontecendo no momento da fala/escrita.

Exemplos:

· Em 1988, o Congresso Nacional promulga a nova Constituição.


Forma do presente com sentido de passado (promulga = promulgou).

· Daqui a um mês, volto para minha querida cidade natal.


Forma do presente com sentido de futuro (volto = voltarei).

LEGENDA: Ulysses Guimarães apresenta a Constituição Brasileira promulgada


em 1988.

CRÉDITO: Arquivo Agência Brasil

193

Complementos teóricos
1. O tempo presente, quando empregado com sentido de passado, denomina-
se presente histórico. Veja outro exemplo desse uso:

· Em 1532, os portugueses fundam São Vicente, a primeira cidade brasileira.

2. O emprego do presente com sentido de futuro é um recurso que possibilita


ao falante assegurar que o fato expresso pelo verbo vai realmente acontecer.

Ex.: Não se preocupe; na semana que vem eu pago o que lhe devo.

3. A noção de tempo presente pode ser expressa também por determinadas


estruturas constituídas de duas ou mais formas verbais.

Ex.: A falta de chuvas está prejudicando as plantações de milho em todo o


estado.

Empregos dos tempos pretéritos

Pretérito perfeito

Pretérito é sinônimo de "passado", e perfeito significa, no nome do tempo,


"terminado, concluído". Esse tempo é, portanto, usualmente empregado para
exprimir fatos que começaram e já chegaram ao seu final, ou seja, estão
perfeitamente (inteiramente) concluídos.

Observe este exemplo:

[...] Tudo quieto; o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, reluzente na


semiescuridão. Engoliu um mosquito; baixou a cabeçorra; tragou um
cascudinho, mergulhou de novo [...]

LIMA, Jorge de. Calunga. 4ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1997. p.
125.

Como vimos no item anterior, o sentido de tempo passado (pretérito) pode ser
expresso por formas do presente. Essa substituição, usual em narrativas
históricas e manchetes jornalísticas, constitui um eficiente recurso para tornar
mais vivos os fatos, mostrando-os como se estivessem acontecendo no
momento da fala/escrita.

Veja as formas destacadas neste exemplo:

· Em 1º de setembro de 1939, o exército alemão invade a Polônia e tem início


a Segunda Guerra Mundial.
Pretérito imperfeito

Pretérito é sinônimo de "passado", e imperfeito significa "não concluído, que


não chegou ao final". Empregam-se as formas desse tempo principalmente
para:

1. Exprimir fatos que começaram, mas não chegaram ao seu final.

Ex.: O ônibus atravessava a avenida, quando foi atingido pelo carro.

2. Exprimir fatos de ocorrência habitual/contínua no passado.

Ex.: Quando era jovem, ele trabalhava como vendedor em uma loja de móveis.

Pretérito mais-que-perfeito

No nome desse tempo, a expressão "mais-que-perfeito" tem sentido de "mais


que terminada, mais que concluída". Suas formas verbais são empregadas
para:

1. Fazer referência a um fato já ocorrido, anterior a outro também passado.

Ex.: Entregou para a mãe o presente que comprara na última viagem.


fato anterior a "entregou"

Note, nesse exemplo, que comprar é um fato mais "antigo", "mais concluído"
que entregar.

194

As formas simples do pretérito mais-que-perfeito são pouco usadas na língua


portuguesa atual; na maioria absoluta das vezes, empregam-se as formas
compostas. Compare os exemplos:

· Quando começou o temporal, eu já chegara da escola.


forma simples [pouco usada]

· Quando começou o temporal, eu já tinha chegado da escola.


forma composta

2. Exprimir desejos. Veja o exemplo:

Quem dera

Pudesse todo homem compreender, oh, mãe, quem dera


Ser o verão o apogeu da primavera.

GIL, Gilberto. Super-homem, a canção. In: _____. Realce. [Rio de Janeiro]:


Wea/Elektra, 1979.

Empregos dos tempos futuros

Futuro do presente

As formas desse tempo são empregadas para:

1. Indicar fatos de ocorrência posterior ao momento da fala.

Ex.: "Olho por olho e o mundo acabará cego." (Mahatma Gandhi)

2. Exprimir dúvida relativamente a um fato futuro.

Ex.: Conseguirão os humanos habitar outros planetas?

3. Substituir formas do imperativo.

Ex.: Não matarás. (= Não mates.)

LEGENDA: Gandhi - (na fotografia, com o microfone) ativista político indiano e


adepto do princípio da não violência, inspirou outros líderes pacifistas, como
Martin Luther King e Nelson Mandela.

CRÉDITO: Dinodia Photo/Alamy/Latinstock

Futuro do pretérito

Esse tempo é empregado principalmente para:

1. Indicar que a ocorrência de um fato depende da ocorrência de outro.

Ex.: Eles voltariam de avião, se o tempo estivesse bom.

2. Exprimir, de forma polida, educada, um desejo ou um pedido.

Ex.: O documento ainda não está pronto; você poderia pegá-lo amanhã?

3. Fazer referência a fatos hipotéticos ou duvidosos.

Ex.: Segundo os jornais, um clube italiano faria uma proposta milionária pelo
jovem atacante.

Composição do modo subjuntivo


O modo subjuntivo, como já vimos, é constituído por tempos verbais cujas
formas exprimem suposição, dúvida, hipótese etc. em relação ao fato expresso
pelo verbo.

O quadro a seguir apresenta, para consulta, os três tempos simples e os três


tempos compostos que constituem esse modo verbal.

Tempos verbais do subjuntivo Exemplos

Presente Que eu fale

Pretérito imperfeito Se eu falasse

Pretérito perfeito composto Que eu tenha falado

Pretérito mais-que-perfeito composto Se eu tivesse falado

Futuro simples Quando eu falar

Futuro composto Quando eu tiver falado

195

Conjugação dos tempos simples do modo subjuntivo

Os quadros a seguir apresentam, como exemplo, o verbo conhecer, conjugado


nos três tempos simples do subjuntivo.

Presente

Que eu conheça

Que tu conheças

Que ele/você conheça

Que nós conheçamos

Que vós conheçais

Que eles/vocês conheçam

Pretérito imperfeito

Se eu conhecesse

Se tu conhecesses

Se ele/você conhecesse
Se nós conhecêssemos

Se vós conhecêsseis

Se eles/vocês conhecessem

Futuro

Quando eu conhecer

Quando tu conheceres

Quando ele/você conhecer

Quando nós conhecermos

Quando vós conhecerdes

Quando eles/vocês conhecerem

Principais empregos dos tempos simples do subjuntivo

Empregos do tempo presente

As formas do presente do subjuntivo são mais comumente empregadas:

1. Em frases que exprimem hipótese, suposição, desejo etc.

Veja estes exemplos:

· Talvez você mude de opinião, volte aqui e ajude a terminar o trabalho.

FONTE: VERISSIMO, Luis Fernando. As cobras. São Paulo: L&PM, 1997.

CRÉDITO: © by Luis Fernando Verissimo

2. Em associação com determinadas formas de outros tempos verbais também


presentes no enunciado.

Exemplos:

· É muito perigoso que ele viaje sozinho para aquela região tão remota.

· Ninguém admitirá que vocês dividam a culpa pelo erro que ele cometeu.

Empregos do tempo futuro

As formas do futuro do subjuntivo são empregadas para indicar a ocorrência


de fatos hipotéticos no futuro e, geralmente, ocorrem em orações que
exprimem determinadas circunstâncias, tais como tempo e condição.
Veja estes exemplos:

· Só voltaremos para casa quando fizermos todo o trabalho.


oração que exprime tempo

· Se eles souberem a verdade, ficarão muito decepcionados com você.


oração que exprime condição

196

Empregos do pretérito imperfeito

As formas do pretérito imperfeito do subjuntivo são principalmente


empregadas em correlação com formas do pretérito imperfeito do indicativo e
do futuro do pretérito do indicativo para exprimir circunstâncias como causa,
concessão e condição.

Veja estes exemplos:

· Como estivesse constantemente adoentado, sempre evitava fazer viagens


longas.
pretérito imperfeito do subjuntivo exprimindo causa
pretérito imperfeito do indicativo

· Embora fizessem parte de uma família rica e muito tradicional, viviam de


forma modesta.
pretérito imperfeito do subjuntivo exprimindo concessão
pretérito imperfeito do indicativo

FONTE: THAVES, Bob. Frank & Ernest. Correio Popular, Campinas, 21 ago.
1994.

CRÉDITO: 2014 United Media/Ipress

· quisesse: pretérito imperfeito do subjuntivo exprimindo condição.

· teria: futuro do pretérito do indicativo.

Composição do modo imperativo

Leia este cartaz:

CRÉDITO: Ziraldo
Observe, nesse texto, a finalidade com que foram empregadas as formas
verbais proteja, participe e liga:

· proteja ⇒ faz uma recomendação ao leitor.

· participe ⇒ convida o leitor a fazer algo.

· [se] liga ⇒ faz outra recomendação ao leitor.

Essas três formas integram o modo imperativo.

As diferentes formas desse modo verbal, que, além de recomendação e


convite, exprimem também ordem, conselho, pedido, alerta etc., podem ocorrer
em frases afirmativas ou negativas, constituindo, assim, dois grupos:

· Imperativo afirmativo

· Imperativo negativo

Veja, na próxima página, mais alguns exemplos de formas do imperativo.

197

Imperativo Exemplos

· Crê em tuas capacidades, planeja teu futuro e prepara-te para


conquistá-lo.
Afirmativo
· Creia em suas capacidades, planeje seu futuro e prepare-se para
conquistá-lo.

· Não creias que tu vencerás sozinho; não sejas soberbo, nem


desprezes apoios.
Negativo
· Não creia que você vencerá sozinho; não seja soberbo, nem
despreze apoios.

O imperativo afirmativo e o negativo têm cinco formas verbais cada um;


algumas dessas formas originam-se do presente do indicativo, outras, do
presente do subjuntivo, conforme veremos a seguir.

Formação do imperativo

Imperativo afirmativo
Esse imperativo é constituído por duas formas provenientes do presente do
indicativo e por três provenientes do presente do subjuntivo. Veja os
quadros:

tu e vós

Formas derivadas de suas correspondentes no presente do indicativo, sem o


s final que essas formas sempre apresentam.

você, nós e vocês

Formas derivadas de suas correspondentes no presente do subjuntivo, sem


nenhuma alteração.

Observando com atenção o sentido das setas entre os quadros a seguir, veja,
como exemplo, a formação do imperativo afirmativo do verbo viajar.

Presente do indicativo Imperativo afirmativo Presente do subjuntivo

eu viajo ***** que eu viaje

tu viajas -s viaja (tu) que tu viajes

ele/você viaja viaje (você) = que ele/você viaje

nós viajamos viajemos (nós) = que nós viajemos

vós viajais -s viajai (vós) que vós viajeis

eles/vocês viajam viajem (vocês) = que eles/vocês viajem

Complementos teóricos

1. Esse esquema de formação do imperativo afirmativo só não é válido para as


pessoas tu e vós do verbo ser. Esse verbo tem, no imperativo afirmativo, as
seguintes formas:

· sê tu (e não "é tu")

· seja você

· sejamos nós

· sede vós (e não "soi vós")


· sejam vocês

2. Uma ordem, um pedido, um conselho etc. só se aplicam diretamente ao


interlocutor (pessoa com quem se fala); por isso, no imperativo, não existe a 1ª
pessoa do singular. Pelo mesmo motivo, as formas verbais referentes às 3 as
pessoas (ele/eles) são utilizadas para tratar por você/vocês a(s) pessoa(s)
com quem se fala.

3. Admitem duas formas na 2ª pessoa do singular do imperativo afirmativo os


verbos dizer (dize tu/diz tu), fazer (faze tu/faz tu) e trazer (traze tu/traz tu) e os
verbos terminados em -uzir (exemplo: conduzir - conduze tu/conduz tu).

198

Imperativo negativo

As cinco formas que constituem esse imperativo originam-se, sem nenhuma


alteração, de suas formas correspondentes do presente do subjuntivo. Veja
este exemplo:

Presente do subjuntivo Imperativo negativo

que eu viaje *****

que tu viajes = não viajes (tu)

que ele/você viaje = não viaje (você)

que nós viajemos = não viajemos (nós)

que vós viajeis = não viajeis (vós)

que eles/vocês viajem = não viajem (vocês)

Empregos das formas do imperativo

As formas do imperativo, como vimos, são empregadas para exprimir ordens,


orientações, conselhos, pedidos, convites, recomendações etc.

Veja mais dois exemplos nesta tirinha:

FONTE: BROWNE, Dik. Hagar. Folha de S.Paulo, São Paulo, 8 jul. 1996.

CRÉDITO: © 1996 King Features Syndicate /Ipress


Nesse diálogo, Helga está aconselhando sua jovem filha Hony. Com o
imperativo negativo "nunca esqueça", ela faz uma recomendação à filha; com
o imperativo afirmativo jogue, mostra que a jovem deve fazer essa exigência
ao futuro marido.

Agora leia este cartum:

FONTE: Disponível em: http://www.juniao.com.br. Acesso em: 3 jun. 2016.

CRÉDITO: Junião

As formas do imperativo ocorrem com frequência em textos instrucionais


(receitas culinárias, regras de jogo, placas de aviso, manuais de instalação de
eletrodomésticos etc.) e em anúncios publicitários. No cartum ao lado, o
imperativo compre exprime uma sugestão (ou seria uma "ordem"?); por sua
vez, resista é uma forma do imperativo que a mulher emprega para fazer um
pedido, um apelo ao marido.

199

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Verbo - palavra que exprime um fato (geralmente, uma ação, estado ou


fenômeno) e que, por meio de flexões (variações de forma) pode localizar esse
fato no tempo.

Estudo do verbo (1ª parte)

1. Flexões do verbo

Pessoa

Número

singular

plural

Tempo
presente

pretérito

futuro

Modo

indicativo

subjuntivo

imperativo

Voz

ativa

passiva

reflexiva

2. Modos verbais e seus tempos simples

Modo Tempos simples e exemplos (verbo "cantar")

Presente - Eu canto, tu cantas, ele canta etc.


Pretérito perfeito - Eu cantei, tu cantaste, ele cantou etc.
Pretérito imperfeito - Eu cantava, tu cantavas, ele cantava etc.
Indicativo
Pretérito mais-que-perfeito - Eu cantara, tu cantaras, ele cantara etc.
Futuro do presente - Eu cantarei, tu cantarás, ele cantará etc.
Futuro do pretérito - Eu cantaria, tu cantarias, ele cantaria etc.

Presente - Que eu cante, que tu cantes, que ele cante etc.


Pretérito imperfeito - Se eu cantasse, se tu cantasses, se ele
Subjuntivo cantasse etc.
Futuro - Quando eu cantar, quando tu cantares, quando ele cantar
etc.

Afirmativo - Canta (tu), cante (você), cantemos (nós) etc.


Imperativo Negativo - Não cantes (tu), não cante (você), não cantemos (nós)
etc.

3. Formação do imperativo
· Imperativo afirmativo

· tu e vós - vêm do presente do indicativo, sem o s final.

· você, nós, vocês - vêm, sem alteração, do presente do subjuntivo.

Ex.: fala (tu), fale (você), falemos (nós), falai (vós), falem (vocês)

· Imperativo negativo - Suas cinco formas são as mesmas do presente do


subjuntivo.

Ex.: não fales (tu), não fale (você), não falemos (nós), não faleis (vós), não
falem (vocês)

Atividades

Escreva no caderno

1. O trecho de texto a seguir faz referência a uma possível chegada dos


espanhóis ao Brasil, em janeiro de 1500.

A praia estava deserta. Não havia ninguém ao longo da enseada e nem nas
matas que a cercavam. A areia, porém, se encontrava repleta de pegadas, num
claro sinal de que a terra era habitada. Tal evidência não impediu que os
marujos recém-desembarcados gravassem seus nomes e o de seus navios nas
árvores e nas rochas costeiras e, a seguir, imprimissem o dia, o mês e o ano
de seu desembarque, tomando conta daquele território em nome da Coroa de
Castela.

Era 26 de janeiro de 1500 [...].

BUENO, Eduardo. Náufragos, traficantes e degredados. Rio de Janeiro:


Objetiva, 1998. p. 11.

Imagine que você seja um dos marujos referidos no texto e, fazendo todas as
adaptações necessárias, reescreva-o como se você estivesse vendo e vivendo
neste momento os fatos relatados.

Resposta: As palavras sublinhadas passam a: está, há, cercam, encontra, é,


impede, nós, gravemos, nossos, nossos, imprimamos, nosso, deste, é/são.

Atenção Professor(a), convém comentar que, nesse tipo de narrativa, o


presente é chamado de presente histórico e é um recurso comumente
empregado para tornar mais vivos, mais atuais fatos ocorridos no passado. Fim
da observação.

200

2. (Enem/MEC) Leia este texto:

FONTE: Disponível em: www.behance.net. Acesso em: 21 fev. 2013


(adaptado).

CRÉDITO: Disponível em: www.behance.net

A rapidez é destacada como uma das qualidades do serviço anunciado,


funcionando como estratégia de persuasão em relação ao consumidor do
mercado gráfico. O recurso da linguagem verbal que contribui para esse
destaque é o emprego:

a) do termo "fácil" no início do anúncio, com foco no processo.

b) de adjetivos que valorizam a nitidez da impressão.

c) das formas verbais no futuro e no pretérito, em sequência.

d) da expressão intensificadora "menos do que" associada à qualidade.

e) da elocução "do mundo" associada a "melhor", que quantifica a ação.

Resposta: Alternativa c.

3. (UERN) Leia este trecho de texto:

[...]

Agora imagine que, tal como nós, outras criaturas inteligentes em algum canto
da galáxia descobriram a ciência. Só que o fizeram, digamos, 1 milhão de anos
antes de nós, o que em termos cósmicos não é nada.

Essas criaturas teriam se transformado completamente ao se hibridizar com


máquinas. Seriam, talvez, apenas informação, existindo em campos
energéticos no espaço.

Teriam o poder de criar vida, escolhendo suas propriedades. Poderiam, por


exemplo, ter nos criado, ou a alguns de nossos antepassados, como parte de
um experimento. Poderiam, por exemplo, estar nos observando, como nós
observamos animais no zoológico ou no laboratório. Essas entidades
imateriais, mas existentes, seriam nossos criadores. Seriam eles deuses,
mesmo se não sobrenaturais?

GLEISER, Marcelo. Astroteologia: breve introdução. São Paulo: Folha de


S.Paulo, 25 nov. 2012. Ciência. Disponível em:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/marcelogleiser/1190348-astroteologia-
breve-introducao.shtml. Adaptado.

A compreensão dos mecanismos gramaticais presentes em um texto é


primordial para uma (re)construção pertinente do sentido sugerido pelo seu
autor. Dentre as categorias gramaticais que mais contribuem na revelação de
informação implícita estão os mecanismos de atribuição de tempo e modo
verbais. A predominância de uso do tempo futuro do pretérito nos dois
últimos parágrafos do texto revela, sobre o conteúdo apresentado em tal
trecho, o(a):

a) valor atemporal do que é afirmado.

b) indicação de certeza dos fatos exibidos.

c) valor hipotético das informações apresentadas.

d) ideia de temporalidade futura dos eventos descritos.

Resposta: Alternativa c.

201

Atenção Professor(a), se julgar oportuno, comentar com os alunos que as


obras do gaúcho Erico Verissimo (1905-1975) tratam do ambiente de algumas
cidades do Rio Grande do Sul, do qual o escritor elabora um panorama
histórico e poético, com uma prosa límpida, tendendo ao Impressionismo.
Dentre outras obras desse autor, além de O tempo e o vento, destacam-se
Clarissa, Olhai os lírios do campo, Incidente em Antares. Fim da
observação.

4. Leia este trecho de romance:

Rodrigo lembrou do discurso que pronunciara o ano passado, na qualidade de


paraninfo das meninas que terminavam o curso. Fizera o elogio da virtude, da
religião, da pureza. Nas vossas mãos, meninas de hoje e mães de amanhã,
está o destino do Brasil. Os homens que dareis ao mundo, os homens cujo
caráter haveis de moldar (como era horrenda a segunda pessoa do plural!),
governarão este país, serão os construtores de nosso futuro. Sede, pois,
castas. Sede, pois, virgens. Sede, pois, puras! Hipocrisia? Talvez. [...]

VERISSIMO, Erico. O arquipélago. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.


p. 68. (O tempo e o vento, 3).

a) O trecho "como era horrenda a segunda pessoa do plural!" reproduz um


pensamento de Rodrigo, que, ao discursar, empregou uma forma de
tratamento que ele próprio considerou "horrorosa". Por que, então, ele a teria
utilizado?

Resposta: Rodrigo se viu forçado a adequar a linguagem de seu discurso à


situação de comunicação: uma solenidade de formatura, que usualmente se
desenvolve em tom pomposo e formal. O tratamento vós é tradicionalmente
empregado em situações desse tipo.

b) Como ficaria o discurso de Rodrigo, caso ele quisesse evitar a 2ª· pessoa do
plural?

Resposta: Nas suas mãos, meninas de hoje e mães de amanhã, está o destino
do Brasil. Os homens que darão ao mundo, os homens cujo caráter hão de
moldar [...] governarão este país [...]. Sejam, pois, castas. Sejam, pois, virgens.
Sejam, pois, puras!

c) Em que tempo verbal estão as formas "pronunciara" e "fizera"? Como se


justifica, nesse contexto, o emprego desse tempo?

Resposta: Pretérito mais-que-perfeito do indicativo. No caso, as formas


pronunciara e fizera indicam fatos anteriores ao expresso por lembrou, que é
do pretérito perfeito. Pronunciara e fizera indicam, então, fatos mais antigos
que o expresso por lembrou.

5. Considere este enunciado:

_____ teus planos, _____ em ti mesmo novas forças e _____-te para os


tempos difíceis que virão.

Os pronomes teus, ti e te, como sabemos, são da 2ª· pessoa do singular, o


que, nessa frase, indica que o emissor trata seu interlocutor por tu. Se a
pessoa que fala optasse pela variedade culta formal para dar um conselho ao
ouvinte, ela deveria empregar as formas de imperativo da alternativa:

a) reveja - descubra - prepare

b) revê - descubra - prepara

c) reveja - descobre - prepare

d) revê - descobre - prepara

e) revê - descubra - prepare

Resposta: [Tu revês (eliminando o "s") → revê; tu descobres (eliminado o "s")


→ descobre; tu preparas (eliminado o "s") → prepara.]

Resposta: Alternativa d.

6. Leia estes versos do poeta barroco Gregório de Matos:

Eu sou, Senhor, ovelha desgarrada;

Cobrai-a e não queirais, pastor divino,

Perder na vossa ovelha a vossa glória.

MATOS, Gregório de. Poesias selecionadas. São Paulo: FTD, 1993. p. 18.

Atenção Professor(a), se julgar oportuno, comentar que Gregório de Matos,


principal poeta do período colonial, passou a ser considerado tardiamente o
iniciador da literatura brasileira. Seus poemas permaneceram inéditos até
meados do século XIX. Atualmente, os estudos sobre ele se avolumaram, e
aguarda-se ainda que pesquisas mais rigorosas separem os poemas realmente
de sua autoria dos que lhe foram atribuídos, erroneamente, pelos copistas. Fim
da observação.

O poeta dirige-se a Deus, usando um tratamento gramatical que denota


distanciamento reverente, respeitoso.

a) Que pessoa gramatical o poeta emprega? Transcreva as palavras que se


apresentam nessa pessoa.

Resposta: 2ª pessoa do plural (cobrai, [imperativo afirmativo], não queirais


[imperativo negativo], vossa/vossa).
b) Se o poeta se dirigisse a Deus empregando o tratamento tu, que alterações
deveria fazer nesses versos?

Resposta: cobra (tu cobras, sem o "s"), [não] queiras, tua/tua.

c) E se ele empregasse o tratamento você?

Resposta: cobre [da 3ª pessoa do singular do presente do subjuntivo], queira,


sua/sua.

202

7. Em um muro foi escrita com tinta spray a seguinte frase:

CRÉDITO: Photodisc/Getty Images

Relativamente aos recursos gramaticais e expressivos dessa mensagem,


assinale a afirmação incorreta:

a) Passando o tratamento para a 2ª pessoa do singular, a nova redação da


frase passaria a ser assim: "Curte a vida curta".

Resposta: Tu curtes [pres. indic.] → curte (tu) [imperativo].

b) A mudança para a 2ª pessoa do singular prejudicaria o efeito expressivo da


homonímia presente na frase original.

Resposta: [curta/curta → homônimas.]

c) Uma vírgula depois de vida mudaria a classe gramatical da palavra curta


em sua segunda ocorrência.

Resposta: [É adjetivo; passaria a ser verbo.]

d) Alterando a ordenação dos termos da frase original para "Curta a curta


vida", a palavra curta, em sua segunda ocorrência, não mudaria de classe
gramatical.

Resposta: [Continuaria sendo adjetivo.]

e) Tal como está redigida a frase, o jogo semântico nela presente possibilita
interpretar a palavra curta, em qualquer uma de suas duas ocorrências, como
uma forma verbal do imperativo afirmativo.

Resposta: [1ª ocorrência: forma do imperativo (3ª pessoa do singular); 2ª


ocorrência: adjetivo.]
Resposta: Alternativa e.

ESTUDO DO V ERBO (2ª PARTE)

Na primeira parte deste capítulo, estudamos alguns aspectos e características


do verbo. Vimos que, dependendo de sua terminação no infinitivo (-ar, -er ou
-ir), ele integra a 1ª, a 2ª ou a 3ª conjugação. Analisamos também algumas
flexões verbais - pessoa, número, tempo e modo -; vimos os conjuntos de
tempos que integram cada um dos três modos - indicativo, subjuntivo e
imperativo - e os diferentes empregos que podem ter as formas simples desses
tempos verbais.

Para concluir o estudo dessa classe gramatical, vamos agora tratar dos
seguintes itens:

· Classificações dos verbos

· A flexão de voz verbal

· Aspecto verbal

· Correlações entre tempos verbais

· Conjugação de alguns verbos

Classificações dos verbos

Um verbo pode ser classificado quanto ao seu papel na estruturação formal


das frases e quanto às possibilidades de flexão de suas inúmeras formas.

Tipos de verbo na locução verbal

Nas frases, os verbos podem se apresentar sozinhos ou combinados entre si,


formando estruturas compostas, que se denominam locuções verbais. Os
verbos formadores de uma locução desempenham diferentes papéis
gramaticais, classificando-se, por isso, em dois tipos: verbo auxiliar e verbo
principal . Veja o exemplo da página seguinte.

203

· As mudanças climáticas irão alterar drasticamente o futuro da vida em nosso


planeta.

Atenção Professor(a), [locução verbal.] Fim da observação.


irão

Verbo auxiliar - exprime certeza de ocorrência do fato expresso por alterar e


indica o tempo (futuro) e a pessoa gramatical (3ª do plural).

alterar

Verbo principal - exprime o fato verbal em si; a informação principal


transmitida pela frase.

LEGENDA: Leito de um rio durante seca na Amazônia e uma advertência


irônica e assustadora.

CRÉDITO: Greenpeace Brasil

Então:

Verbo auxiliar é aquele que se junta a um verbo principal para formar as


estruturas verbais compostas e exprimir determinadas informações, como o
modo, o tempo verbal e a pessoa gramatical.

Verbo principal é aquele que, exprimindo seu significado próprio, contém a


informação nuclear da frase. Pode apresentar-se sozinho ou combinado com
verbo(s) auxiliar(es).

Outro exemplo:

· Essas notícias já haviam sido publicadas na internet inúmeras vezes.


Atenção Professor(a), [tempo composto.] Fim da observação.
v. auxiliar
v. principal
v. auxiliar

Atenção Professor(a), se julgar necessário, aproveitar os exemplos para


diferenciar locução verbal (verbo auxiliar + gerúndio ou infinitivo) de tempo
composto (tipo particular de locução verbal formada por "verbo auxiliar +
particípio" ou "verbo auxiliar + verbo auxiliar + particípio"). Fim da observação.

Tipos de verbo quanto à flexão


Se considerarmos as flexões (variações de forma) que os verbos podem
apresentar quando são conjugados, podemos subdividi-los em quatro tipos,
conforme mostra este quadro:

Tipos de
Características e exemplos
verbo

Ao ser conjugado, não sofre alteração no radical.


Regular
Ex.: viver → eu vivo, eles viviam, se todos vivessem

Ao ser conjugado, apresenta alteração no radical em algumas de


Irregular suas formas.
Ex.: fazer → eu faço, ele fará, se você fizesse

Não tem determinadas formas em alguns de seus tempos.


Defectivo
Exs.: falir (não existe "eu falo"); demolir (não existe "eu demulo")

Apresenta duas formas de mesmo valor (geralmente dois


Abundante* particípios).
Exs.: aceitar (aceitado/aceito), eleger (elegido/eleito)

*Atenção Professor(a), a respeito dos verbos abundantes, ver em Conversa


com o professor, nas Orientações específicas, o item "Tendência de uso
dos particípios duplos" na seção "Complementação teórica". Fim da
observação.

Regularização de verbos irregulares

Você certamente já ouviu crianças pequenas falando frases como estas:

Eu fazi um desenho.

Eu sabo desenhar.

As crianças, quando estão aprendendo a falar, frequentemente usam formas


de verbos irregulares como se fossem regulares. É comum, por exemplo, elas
dizerem "eu fazi" (em lugar de "eu fiz"), "eu sabo" (em lugar de "eu sei"), "ele
fazeu" (em lugar de "ele fez"), "eu trazo" (em lugar de "eu trago"). E por que as
crianças falam assim?

204
Observe as comparações entre estas formas verbais:

· beber (verbo regular) → eu bebi


· comer (verbo regular) → eu comi
⇒ formas regulares

· fazer (verbo irregular) → eu fazi ⇒ forma regularizada

Ou seja, as crianças "inventam" as formas por meio de analogias, isto é, de


comparações com formas de verbos regulares que elas já conhecem.

A regularização de formas irregulares também é comum na linguagem dos


adultos; não é raro as pessoas dizerem "se ele trazer" (em lugar de "se ele
trouxer"), "se você pôr" (em lugar de "se você puser"), "ele manteu" (em lugar
de "ele manteve") e outras semelhantes.

Veja um exemplo nesta tirinha:

LEGENDA: No primeiro quadrinho, a mulher emprega a forma regularizada


"Outra vez que você trazer...", em lugar da forma irregular "Outra vez que você
trouxer...".

FONTE: Disponível em: http://www2.uol.com.br/glauco/geraldinho.shtml.


Acesso em: 3 jun. 2016.

CRÉDITO: Glauco. Geraldinho.

As formas regularizadas ("se você trazer", "quando ele pôr", "se você fazesse"
etc.) são válidas em situações informais de comunicação, mas não cabem em
situações em que se faça necessário empregar a variedade culta formal da
língua.

A flexão de "voz verbal"

No início deste capítulo, vimos que são cinco as flexões do verbo:

· pessoa - 1ª, 2ª e 3ª

· número - singular e plural

· tempo - presente, passado e futuro

· modo - indicativo, subjuntivo e imperativo

· voz - ativa, passiva e reflexiva


Em seções anteriores, já estudamos as quatro primeiras flexões. Vamos agora
tratar da classificação, das características e dos empregos das vozes verbais.

Observando as indicações nos quadros e as diferenças nas formas verbais


destacadas, compare estas duas frases:

1. O temporal afundou os velhos barcos.


Este termo indica ao mesmo tempo:
· o sujeito (elemento com o qual o verbo concorda);
· o agente, isto é, aquele que pratica a ação expressa pelo verbo afundar.

2. Os velhos barcos foram afundados pelo temporal.


Este termo indica ao mesmo tempo:
· o sujeito (elemento com o qual o verbo concorda);
· o paciente, isto é, aquele que recebe a ação expressa pelo verbo afundar.

Note que, na frase 1 , o verbo se apresenta numa determinada forma para


indicar quem praticou a ação; na frase 2, ele se apresenta em outra forma
(outra flexão) para indicar quem recebeu a ação verbal. A essa variação da
forma do verbo damos o nome de voz verbal.

PARA NÃO ESQUECER

Sujeito é o termo (palavra ou expressão) com o qual o verbo estabelece


relação de concordância.

Veja estes exemplos:

· O jogo acontecerá à noite.


[sing.]
[sing.]

· Os jogos acontecerão à noite.


[plural]
[plural]

· Ainda não chegaram as férias?


[plural]
[plural]

205
Voz verbal é a flexão que, nos verbos de ação, estabelece uma relação entre
o fato verbal e o sujeito, indicando se este pratica ou recebe a ação expressa
pelo verbo.

A voz verbal relaciona-se, portanto, ao comportamento do sujeito e pode ser,


basicamente, de dois tipos: ativa ou passiva. Veja este quadro:

Atenção Professor(a), se julgar oportuno, cabe comentar que o conceito de voz


verbal diz respeito a verbos de ação; no entanto, ele se aplica também a
determinados verbos referentes a fatos que, a rigor, não exprimem "ações", no
sentido exato dessa palavra. Exs.: "No início da noite, a lua cheia aparecia no
céu." → voz ativa; "Um leve tremor de terra foi sentido em várias cidades da
região." → voz passiva. Fim da observação.

Voz
Comportamento do sujeito Exemplos
verbal

O temporal afundou os velhos barcos.


ativa agente (faz a ação verbal)
sujeito agente

Os velhos barcos foram afundados pelo


paciente (recebe a ação
passiva temporal.
verbal)
sujeito paciente

Além da voz ativa e da voz passiva, existe uma terceira voz verbal, chamada
reflexiva, a qual, por meio de um pronome oblíquo (me, nos, se etc.) associado
ao verbo, indica que o sujeito pratica e também recebe a ação verbal.

Veja este exemplo de uma frase na voz reflexiva:

· Do alto da ponte, os meninos atiravam-se nas águas escuras do rio.


sujeito agente e paciente (pratica e recebe a ação verbal)

Atenção Professor(a), se julgar oportuno/necessário, cabe comentar: 1. Nesse


tipo frase, o se denomina-se pronome reflexivo; 2. Quando a voz reflexiva
indica que a ação é "trocada" entre os componentes do sujeito, denomina-se
reflexiva recíproca (Ex.: Depois do jogo, o juiz e o técnico cumprimentaram-
se friamente.). Fim da observação.
Tipos de voz passiva

Dependendo da estrutura verbal presente na frase, a voz passiva subdivide-se


em analítica e sintética (ou pronominal).

a. Voz passiva analítica

Estrutura verbal

verbo auxiliar (ser/estar/ficar) + particípio do verbo principal (ação)

Veja este exemplo:

· As pesquisas eleitorais serão divulgadas diariamente pelos meios de


comunicação.
sujeito paciente
verbo auxiliar
ação (verbo principal no particípio)

b. Voz passiva sintética (ou pronominal)

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas, o item "A construção verbo + se" na seção "Complementação
teórica". Fim da observação.

Estrutura verbal

verbo indicador de ação (concordando com o sujeito) + se (pronome


apassivador)

Observe este exemplo:

· Alugam-se, no novo centro comercial, escritórios de alto padrão.


ação
sujeito paciente
pronome apassivador

206

Em relação à voz passiva pronominal, é importante observar que existe uma


equivalência entre esse tipo de passiva e a passiva analítica. Assim:

voz passiva pronominal


voz passiva analítica
· Não se divulgaram tais notícias. ⇐⇒ Tais notícias não foram divulgadas.
v. no plural
suj. no plural
suj. no plural
v. no plural

Compare essas duas construções e observe que, nos dois casos, o verbo foi
empregado no plural para concordar com o sujeito, que é o mesmo nas duas
frases.

Complemento teórico

Na voz passiva pronominal, a concordância entre o verbo [+se] e o sujeito só


acontece nos enunciados da variedade culta formal da língua; na variedade
culta informal e na coloquial, o verbo é comumente usado no singular, mesmo
que o sujeito seja plural.

CRÉDITO: Luzia Ferreira/Folhapress

Observe esse uso na foto ao lado e compare também os exemplos abaixo.

Atenção Professor(a), consultar em Conversa com o professor, nas


Orientações específicas, o item "Voz passiva analítica e passiva pronominal"
na seção "Complementação teórica". Fim da observação.

Variedade culta formal Variedade coloquial

Aqui se realizam muitas festas. Aqui se realiza muitas festas.

Plastificam-se documentos. Plastifica-se documentos.

Na revisão, eliminaram-se alguns erros. Na revisão, eliminou-se alguns erros.

Transposição da voz ativa para a passiva analítica

A passagem da voz ativa para a voz passiva analítica, embora provoque


alterações na estrutura formal da frase, não modifica o sentido geral da
informação. Compare:

voz ativa
voz passiva analítica
O tempo destruiu os belos casarões. ⇐⇒ Os belos casarões foram destruídos
pelo tempo.

Quem pratica a ação de "destruir"?

· Na voz ativa: o tempo.

· Na voz passiva: o tempo.

Quem recebe a ação de "destruir"?

· Na voz ativa: os belos casarões.

· Na voz passiva: os belos casarões.

Note que o sentido geral das duas construções é o mesmo porque, em ambas,
o termo "o tempo" exprime o agente da ação e, também nas duas, o termo "os
belos casarões" indica o paciente da ação.

LEGENDA: Casarões em ruínas na região central de São Paulo. Foto de 2011.

CRÉDITO: Joel Silva/Folhapress

207

Complemento teórico

Toda frase admite voz passiva?

Não. Para que uma frase tenha voz passiva é necessário haver, na voz ativa,
um elemento que funcione como paciente/destinatário da ação verbal praticada
pelo sujeito. Compare os exemplos a e b.

a) Voz ativa: Os rios do Pantanal inundam muitas fazendas.


sujeito agente
paciente da ação verbal

Essa frase, como apresenta um paciente da ação, admite voz passiva. Assim:

· Muitas fazendas são inundadas pelos rios do Pantanal.

b) Voz ativa: Os rios do Pantanal fluem muito lentamente.


sujeito agente
não é o paciente da ação
Essa frase não apresenta um paciente da ação verbal, por isso não admite voz
passiva.

Para que servem, na prática do idioma, as vozes verbais?

Vimos, na página anterior, que a transposição de uma frase da voz ativa para a
voz passiva analítica (ou vice-versa) não muda o "sentido geral" da informação.
Então qual seria a utilidade prática desse mecanismo no idioma?

Suponha que tenha ocorrido um acidente envolvendo um caminhão sem freios


e o muro de uma escola e que o resultado da batida tenha sido a derrubada do
muro. Para relatar esse acontecimento, um falante poderá escolher como
sujeito da frase o caminhão ou o muro, dependendo de qual desses
elementos ele queira realçar ou enfatizar, ou seja, dar mais destaque. Assim:

1. Para realçar o elemento o caminhão, que foi o agente da ação de derrubar,


o falante construirá a frase na voz ativa:

· Um caminhão sem freios derrubou o muro da escola.


realce para o sujeito agente

2. Se o falante preferir realçar o elemento o muro, que foi o paciente da ação


de derrubar, ele construirá a frase na voz passiva:

· O muro da escola foi derrubado por um caminhão sem freios.


realce para o sujeito paciente

Esses exemplos mostram que, embora a voz ativa e a voz passiva


transmitam a mesma "informação geral", não é indiferente usar uma ou outra
forma para construir a frase. Assim, temos:

A voz ativa realça o sujeito quando ele é o agente da ação.

A voz passiva realça o sujeito quando ele é o paciente da ação.

Aspecto verbal - as diferentes durações do tempo

Vimos, na primeira parte deste capítulo, a composição dos modos indicativo,


subjuntivo e imperativo e os principais valores temporais que as formas verbais
de seus diferentes tempos podem exprimir.
Outra característica do verbo relacionada à ideia de tempo é o aspecto verbal,
que consiste num conjunto de subdivisões da estrutura temporal destinadas a
exprimir as diferentes durações de um fato verbal .

Atenção Professor(a), os conceitos teóricos relativos ao aspecto verbal são


amplos e, muitos deles, complexos. Considerando a faixa etária dos alunos aos
quais se destina este livro, apresentaremos apenas uma breve noção do
assunto. Caso o(a) professor(a) tenha interesse em se aprofundar no tema,
sugerimos consultar a obra Nova gramática do português brasileiro, de
Ataliba T. de Castilho, da Editora Contexto. Fim da observação.

208

O aspecto verbal pode ser expresso por uma única forma verbal ou por uma
combinação de formas verbais e apresenta diferentes classificações,
dependendo do momento inicial, do momento final e da duração do fato no
tempo.

Os principais aspectos verbais são:

· Perfectivo - o fato é visto como concluso; completo.

Ex.: No finalzinho da tarde, caiu sobre toda a cidade um temporal assustador.

· Contínuo - o processo prolonga-se no tempo.

Ex.: A falta de boas chuvas está prejudicando muito os agricultores da região.

FIQUE SABENDO

A palavra aspecto formou-se a partir da raiz latina spek /spec, que significa
"olhar com atenção, observar". Essa raiz ocorre também em várias outras
palavras, como, por exemplo, espectador e espectro.

O aspecto verbal está, portanto, relacionado à ideia de "observar", no tempo,


o desenvolvimento e/ ou os limites do fato verbal e constitui um recurso de que
a língua dispõe para exprimir com mais refinamento de sentido, com maior
exatidão, certas possibilidades de ocorrência de um fato no tempo.

Veja, nas falas dos personagens desta tirinha, outros exemplos de aspecto
contínuo:

FONTE: THAVES, Bob. Frank & Ernest.


CRÉDITO: © 2005 Thaves / Dist. by Universal Uclick for UFS

· Habitual - o evento é caracterizado como rotineiro.

Exs.: Para assistir aos jogos sem pagar ingresso, os meninos pulavam o muro
do estádio.

Quando ela era jovem, vivia passeando pelo mundo sem preocupações com o
futuro.

· Incoativo - o processo está em seu início.

Ex.: A prefeitura começou a reformar algumas salas da biblioteca municipal.

· Conclusivo - o fato é observado em sua fase final.

Ex.: Meus amigos acabaram de voltar da praia onde passaram o feriadão.

Correlações entre tempos verbais

Na estrutura dos enunciados, os verbos em geral estabelecem entre si certas


correlações, a fim de se ajustarem adequadamente às variadas possibilidades
de uso e de combinação dos diferentes tempos dos três modos verbais.

Observe, por exemplo, este enunciado:

· Se o nosso time ganhasse o campeonato brasileiro, faríamos uma grande


festa.
imperfeito do subjuntivo
futuro do pretérito do indicativo
correlação

Nesse exemplo, a forma ganhasse exprime uma hipótese e exige o emprego


da forma faríamos para exprimir um acontecimento possível, mas
condicionado à ocorrência do fato expresso em ganhasse.

A esse tipo de articulação temporal entre duas (ou mais) formas verbais damos
o nome de correlação temporal.

209

Note como a correlação ficaria inadequada se, no exemplo anterior, em lugar


de faríamos, usássemos, por exemplo, faremos:
· Se o nosso time ganhasse o campeonato brasileiro, faremos uma grande
festa.
correlação inadequada

A forma faremos (que indica futuro) estabeleceria correlação adequada com a


forma ganhar, que exprime uma hipótese também futura. Assim:

· Se o nosso time ganhar o campeonato brasileiro, faremos uma grande festa.


futuro do subjuntivo
futuro do presente do indicativo
correlação adequada

Nas narrativas, principalmente nas literárias, é comum que o autor, buscando


criar um determinado efeito expressivo, não estabeleça entre certas formas
verbais a correlação que usualmente ocorre entre elas.

Leia, por exemplo, este trecho e observe as formas realçadas:

Afinal conseguiram chegar. Mas, ah! quando a pobre Magdá, toda trêmula e
exausta de forças já no tope da pedreira, defrontou com o pavoroso abismo
que se precipitava debaixo de seus pés, soltou um grito rápido, fechou os
olhos, e teria caído para trás, se o Conselheiro não lhe acode tão a tempo.

- Magdá, minha filha! Então! então!

[...]

AZEVEDO, Aluísio. O homem. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1970. p. 94.

Note que as formas teria (futuro do pretérito) e acode (presente do indicativo)


não estabelecem uma correlação temporal usual, comum. O emprego de uma
forma como teria implica, na continuidade, o emprego do imperfeito do
subjuntivo: acudisse. O narrador, no entanto, desmonta a correlação usual,
buscando obter um efeito narrativo: realçar a ação de acudir e mostrá-la como
um fato que ocorre no presente, ou seja, no momento da leitura. Com esse
recurso linguístico, ele procura levar o leitor a se sentir presenciando a cena,
como se fosse um espectador "ao vivo" da ação praticada pelo personagem.

Conjugação de alguns verbos


Os verbos apresentados a seguir são alguns dos que podem oferecer
dificuldades quanto à conjugação de determinados tempos. Ao consultar a
listagem, leve em consideração o seguinte:

· São apresentados os tempos mais importantes e/ou problemáticos dos modos


indicativo e subjuntivo.

· Os verbos listados podem servir de modelo para outros (alguns dos quais são
apresentados, em cada caso, abaixo dos respectivos quadros).

· O sinal # indica que a forma verbal relativa àquela pessoa gramatical não
existe (tratando-se de um verbo defectivo, isto é, que não possui determinadas
formas).

· A listagem deve ser utilizada como material de consulta; não se preocupe,


portanto, em memorizá-la.

1. Haver

Indicativo

· Presente: hei, hás, há, havemos, haveis, hão.

· Pretérito perfeito: houve, houveste, houve, houvemos, houvestes, houveram.

Subjuntivo

· Presente: (que eu) haja, hajas, haja, hajamos, hajais, hajam.

· Futuro: (quando eu) houver, houveres, houver, houvermos, houverdes,


houverem.

210

2. Pôr

Indicativo

· Presente: ponho, pões, põe, pomos, pondes, põem.

· Pretérito perfeito: pus, puseste, pôs, pusemos, pusestes, puseram.

Subjuntivo

· Futuro: (quando eu) puser, puseres, puser, pusermos, puserdes, puserem.


Todos os derivados de pôr seguem sua conjugação: repor, compor, supor,
dispor, expor etc.

· Ex.: Se a fábrica repuser os estoques, poderá vender mais.

3. Reaver

Esse verbo é conjugado da mesma maneira que haver, mas só apresenta as


formas em que o verbo haver tem a letra v.

Indicativo

· Presente: (eu) #, (tu) #, (ele) #, reavemos, reaveis, (eles) #.

· Pretérito perfeito: reouve, reouveste, reouve, reouvemos, reouvestes,


reouveram.

[E não: eu "reavi", tu "reaveste", ele "reaveu", nós "reavemos", vós "reavestes",


eles "reaveram".]

Subjuntivo

· Presente: não tem nenhuma das seis formas. São incorretas, portanto,
formas como: que eu "reaveja", que tu "reavejas" etc.

· Futuro: (quando eu) reouver, reouveres, reouver, reouvermos, reouverdes,


reouverem.

[E não: quando eu "reaver", quando tu "reaveres" etc.]

· Pretérito imperfeito: (se eu) reouvesse, reouvesses, reouvesse,


reouvéssemos, reouvésseis, reouvessem.

[E não: se eu "reavesse", se tu "reavesses" etc.]

4. Requerer

Indicativo

· Presente: requeiro, requeres, requer, requeremos, requereis, requerem.

· Pretérito perfeito: requeri, requereste, requereu, requeremos, requerestes,


requereram.

[E não: eu "requis", tu "requiseste", ele "requis" etc.]

Subjuntivo
· Presente: (que eu) requeira, requeiras, requeira, requeiramos, requeirais,
requeiram.

· Pretérito imperfeito: (se eu) requeresse, requeresses, requeresse,


requerêssemos, requerêsseis, requeressem.

[E não: se eu "requisesse", se tu "requisesses" etc.]

5. Ter

Indicativo

· Presente: tenho, tens, tem, temos, tendes, têm.

· Pretérito perfeito: tive, tiveste, teve, tivemos, tivestes, tiveram.

Subjuntivo

· Futuro: (quando eu) tiver, tiveres, tiver, tivermos, tiverdes, tiverem.

· Pretérito imperfeito: (se eu) tivesse, tivesses, tivesse, tivéssemos, tivésseis,


tivessem.

Todos os derivados de ter seguem sua conjugação: manter, conter, deter,


reter, entreter etc.

· Ex.: Se você mantiver o ritmo, terminará logo o trabalho.

6. Ver

Indicativo

· Presente: vejo, vês, vê, vemos, vedes, veem.

· Pretérito perfeito: vi, viste, viu, vimos, vistes, viram.

Subjuntivo

· Futuro: (quando eu) vir, vires, vir, virmos, virdes, virem.

[E não: quando eu "ver", quando tu "veres", quando ele "ver", quando nós
"vermos" etc.]

· Pretérito imperfeito: (se eu) visse, visses, visse, víssemos, vísseis, vissem.

Todos os derivados de ver seguem sua conjugação: rever, prever, antever


etc.
· Exs.: Quando você revir o manual, certamente entenderá o funcionamento da
máquina.

Se eles previssem o problema, teriam avisado a todos.

211

7. Vir

Indicativo

· Presente: venho, vens, vem, vimos, vindes, vêm.

· Pretérito perfeito: vim, vieste, veio, viemos, viestes, vieram.

Subjuntivo

· Futuro: (quando eu) vier, vieres, vier, viermos, vierdes, vierem.

[E não: quando eu "vir", quando tu "vires", quando ele "vir", quando nós
"virmos" etc.].

· Pretérito imperfeito: (se eu) viesse, viesses, viesse, viéssemos, viésseis,


viessem.

Todos os derivados de vir seguem sua conjugação: intervir, convir, provir


etc.

· Exs.: Se você não interviesse, eles acabariam discutindo e brigando.

Enviaremos os documentos para ele quando isso nos convier.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Estudo do verbo (2ª parte)

1. Classificações dos verbos

· Quanto ao papel na locução verbal

- Verbo principal - exprime, por sua significação, a informação principal,


nuclear da frase.

Ex.: Ele reclamou muito, por isso foi expulso pelo árbitro.

- Verbo auxiliar - junta-se ao principal para exprimir o tempo, o modo, a


pessoa gramatical etc.

Ex.: Ele foi expulso pelo árbitro porque já havia reclamado várias vezes.
· Quanto à flexão

- Regular - ao ser conjugado, não altera o radical.

Exs.: vender, cantar.

- Irregular - ao ser conjugado, sofre alteração (em geral, no radical).

Ex.: dizer [radical: diz-] → disse, diga, dirão etc.

- Defectivo - não tem determinadas formas verbais.

Exs.: falir (não existe [eu] "falo"), abolir (não existe [eu] "abulo").

- Abundante - tem dois particípios.

Exs.: eleger - elegido e eleito; pagar - pagado e pago.

2. Vozes verbais

· Ativa - sujeito agente: Ex.: Dezenas de pássaros dormem na velha


mangueira.

· Passiva - sujeito paciente: Ex.: As ruas do vilarejo foram tomadas pelos


turistas.

· Reflexiva - sujeito agente e paciente: Ex.: A garota se penteava diante do


espelho.

3. Aspecto verbal

Característica das formas verbais que exprime as diferentes durações de um


fato e os diferentes "momentos" em que ele pode ser observado no tempo.

Ex.: A internet mudou nossas vidas.

[mudou → aspecto perfectivo - exprime um fato totalmente concluído.]

4. Correlações temporais

Ajuste entre formas dos diferentes verbos presentes na frase para exprimir
adequadamente as relações de sentido de tempo entre eles.

Exs.: Se estivermos de férias, iremos à festa. [estivermos → iremos]

Se estivéssemos de férias, iríamos à festa. [estivéssemos → iríamos]

212
Atividades

Escreva no caderno

1. Leia este trecho do romance O tempo e o vento, de Erico Verissimo:

Às oito horas os índios que trabalhavam nas plantações e na estância


reuniram-se como de costume na frente da igreja e Pe. Alonzo fez-lhes uma
pequena preleção. Disse-lhes que, se colhessem muito trigo, teriam muita
farinha; se tivessem muita farinha dariam serviço ao moinho; se o moinho
trabalhasse, os padeiros poderiam fazer muito pão; e se todos tivessem muito
pão, ficariam bem alimentados; e se ficassem bem alimentados, Deus se
sentiria feliz.

VERISSIMO, Erico. O continente. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. p.


53. (O tempo e o vento, 1).

Relativamente ao emprego e valores semânticos das formas verbais nesse


texto, assinale a afirmação incorreta:

a) O pretérito imperfeito trabalhavam exprime, nesse contexto, um fato de


ocorrência rotineira.

b) As formas reuniram e fez, embora sejam de um mesmo tempo verbal


(pretérito perfeito), localizam os dois fatos em diferentes momentos do
passado.

Resposta: [Reuniram é anterior a fez.]

c) O raciocínio argumentativo de padre Alonzo baseia-se em pares de formas


verbais que se correlacionam assim: a primeira forma é do pretérito imperfeito
do subjuntivo e a segunda é do futuro do pretérito do indicativo.

d) Na argumentação de padre Alonzo, as formas de futuro do pretérito


exprimem fatos cuja ocorrência depende da ocorrência dos fatos expressos
pelas formas do imperfeito do subjuntivo.

e) A fala do padre é reproduzida pelo narrador em discurso indireto ("Disse-


lhes que..."); caso ele optasse pelo discurso direto ("Disse-lhes: - Se..."), não
haveria alteração nas formas verbais seguintes.

Resposta: [Disse-lhes: - Se colherem... terão; se tiverem... darão etc.]


Resposta: Alternativa e.

2. Leia este texto e responda aos itens a e b.

A Amazônia, antes conhecida como um paraíso tropical, começou, a partir dos


anos 1980, a ser famosa também por uma qualidade oposta: o inferno que
seria produzido por suas queimadas. Estimava-se que o carbono das árvores
da sua grande floresta representava algo como 20% de todo o carbono
existente no ar do planeta em forma de gás. E que a queima dessas árvores
[...] causaria, em função do grande papel do carbono no chamado efeito estufa,
um aquecimento da atmosfera de tal ordem que provocaria perturbações
gigantescas no clima global.

RETRATO do Brasil. Belo Horizonte: Manifesto, 2006. p. 441.

a) No texto, as consequências da queima das árvores da floresta amazônica


são apresentadas como fatos, ou seja, acontecimentos reais ou como
hipóteses? Identifique as formas verbais que justifiquem sua resposta.

Resposta: Os fatos são apresentados como suposições, hipóteses, expressas


por formas verbais do futuro do pretérito: seria, causaria e provocaria.

b) Se, na segunda frase, a forma "Estimava-se" for substituída por "Estima-se",


que forma o outro verbo da frase assumirá? Justifique.

Resposta: Como a forma estima exprimiria uma suposição/hipótese no tempo


presente, o outro verbo assumiria a forma represente, que, sendo do presente
do subjuntivo, também exprimiria uma hipótese/suposição no tempo
presente/atual.

3. A respeito do resultado de uma partida de futebol entre o Náutico, de Recife,


e o Botafogo, do Rio de Janeiro, dois jornais esportivos dessas duas cidades
publicaram estas manchetes:

A. Náutico goleia o Botafogo no Maracanã.

B. Botafogo é goleado pelo Náutico no Maracanã.

Considerando a organização textual das duas frases, as intenções discursivas


de seus redatores e o público leitor a que elas se destinaram, assinale a
afirmação incorreta:
a) Embora utilizem estruturas frasais diferentes, a informação básica que
ambas veiculam é a mesma.

213

b) O redator da frase A julgou conveniente empregar a voz ativa; o da frase B


preferiu a voz passiva.

c) Como a manchete A põe em evidência o time de Recife, é mais provável


que ela tenha sido publicada no jornal dessa cidade, na qual, certamente, o
público leitor se interessa mais pelo Náutico do que pelo Botafogo.

d) A manchete B põe em evidência o Botafogo, por isso ela foi, mais


provavelmente, utilizada pelo jornal que circula no Rio de Janeiro, onde o time
carioca tem mais torcedores que o pernambucano.

e) As duas manchetes veiculam a mesma informação geral, portanto não é


possível inferir qual delas tenha, mais provavelmente, circulado no jornal de
Recife ou no do Rio de Janeiro.

Resposta: Alternativa e.

4. Considere a frase da foto abaixo e assinale a afirmação incorreta quanto à


análise gramatical ou linguística proposta a respeito dela:

LEGENDA: Artesã tecendo renda de bilro. Florianópolis, 2010.

CRÉDITO: Fotomontagem a paritr de Cris Berger e Rubens Chaves/Pulsar

a) Se a frase for transposta para a passiva analítica, fica evidente que, na


perspectiva da gramática normativa, ela apresenta erro de concordância:
"Rendas de bilro é vendida".

b) Na variedade culta formal da língua, vender deveria ser flexionado no plural,


para concordar com sujeito passivo rendas de bilro (plural).

c) Na frase não se estabelece a concordância do verbo com o sujeito paciente,


mas esse fato gramatical é irrelevante no contexto em que ela está empregada.

d) Esse tipo de frase, embora apresente estrutura de voz passiva, não é usado
pelos falantes para evidenciar o sujeito passivo, e sim para indeterminar o
agente. Assim, o sentido pretendido, nesse caso, é: "Alguém vende rendas de
bilro".
e) A frase, segundo a gramática normativa, apresenta um problema de
concordância, mas, por exemplificar uma tendência de uso na língua atual,
pode ser empregada em qualquer situação de comunicação formal ou informal.

Resposta: Alternativa e.

5. Como vimos na exposição teórica, chama-se aspecto verbal o conjunto de


subdivisões da estrutura temporal destinadas a especificar as diferentes
durações de um fato expresso por um verbo. Relativamente a essa
característica das formas verbais, observe os destaques neste trecho de texto.

Certo dia a terra fofa magicamente se partiu, as sementinhas começaram a


brotar e os dois pés de feijão foram crescendo rapidamente. O garotinho
regava-os todo dia e, quando a mãe chegava do trabalho, ele contava,
maravilhado, o que tinha acontecido em sua "plantação".

Avalie como C (certa) ou E (errada) cada uma das afirmações:

I. partiu e tinha acontecido indicam aspecto perfectivo, uma vez que exprimem
fatos inteiramente concluídos.

Resposta: C

II. começaram a brotar indica aspecto incoativo, isto é, exprime um processo


que está em seu início.

Resposta: C

III. foram crescendo indica aspecto contínuo, ou seja, exprime um fato que se
prolonga no tempo.

Resposta: C

IV. regava, chegava e contava indicam aspecto habitual, já que exprimem fatos
de ocorrência repetitiva, rotineira.

Resposta: C

6. Considerando a informação relativa ao verbo de cada item, flexione-o, nas


respectivas frases, de acordo com a variedade culta formal.

a) Refazer conjuga-se como fazer. - Quando eles [refazer] as contas, acharão


o erro.
Resposta: refizerem

b) Prever conjuga-se como ver. - Todos esperavam que os economistas


[prever] a crise econômica.

Resposta: previssem

c) Intervir conjuga-se como vir. - Se ele [intervir] na discussão, nós nos


retiraremos da sala.

Resposta: intervier

d) Conter conjuga-se como ter. - Os acionistas exigiram que a empresa


[conter] os gastos excessivos.

Resposta: contivesse/contenha

e) Reaver conjuga-se como haver, mas apenas nas formas em que esse verbo
apresenta a letra v. - Até agora eles ainda não [reaver] o dinheiro, mas,
futuramente, se o [reaver], quitarão todas as dívidas.

Resposta: reouveram (tal como "houveram"); reouverem (tal como "houverem")

214

DA TEORIA À PRÁTICA

Ponto de partida

Há muitos anos, uma indústria têxtil desenvolveu uma campanha publicitária


para o lançamento de um novo tecido, chamado tergal. A estratégia da
campanha consistiu em apresentar o tergal como um tecido revolucionário, pois
era leve, resistente e não amassava. O título do anúncio dizia apenas:

TERGALIZE-SE

O objetivo da campanha publicitária era, evidentemente, persuadir o leitor a


comprar o tecido.

Vejamos, então, como esse título contribuía para esse objetivo.

O verbo tergalize-se foi empregado no imperativo. As formas desse modo


verbal são muito frequentes nos textos publicitários, e seu emprego tem por
finalidade influir no comportamento do leitor, sugerindo ou recomendando que
ele compre o que está sendo anunciado.
O interessante, no caso desse anúncio, é que o imperativo escolhido não é o
de um verbo comumente empregado nessas situações, como "use",
"experimente", "compre", "conheça", e sim o imperativo de um verbo
surpreendentemente incomum: tergalizar-se. Trata-se de um neologismo, uma
palavra nova, inventada a partir do próprio nome do tecido.

Como você sabe, os neologismos são criações linguísticas geralmente


associadas à ideia de "novidade". O emprego do neologismo tergalizar-se
buscava, sem dúvida, insinuar a ideia de modernidade, inovação, vanguarda,
conceitos que os criadores do anúncio esperavam que o leitor, de maneira
inconsciente, associasse ao produto em lançamento.

Observe ainda que o verbo foi empregado com o pronome se, que exprime a
ideia de ação reflexiva, ou seja, uma atitude a ser tomada pelo destinatário da
mensagem e da qual ele próprio seria o beneficiário: tergalize-se equivale,
então, a atualize-se, renove-se, modernize-se, fique na moda (usando uma
roupa feita com tergal, evidentemente...).

Como você sabe, a linguagem dos bons textos publicitários é inteligente,


criativa e sutil e, por isso mesmo, muito poderosa. O leitor que é competente
para "ler" as propagandas e perceber suas estratégias tem, sem dúvida,
condições de analisar com mais senso crítico a intensa carga de apelos
consumistas a que se vê diariamente submetido pelos meios de comunicação.

Por isso, convém ficar bem atento(a) às propagandas que você vê por aí!

Agora é sua vez

Escreva no caderno

1. Leia o trecho a seguir e observe as palavras em destaque:

Aqui, se o horizonte enrubesce um pouco, os

besouros pensam que estão no incêndio.

Quando o rio está começando um peixe,

Ele me coisa

Ele me rã

Ele me árvore.
De tarde um velho tocará sua flauta para inverter

os ocasos.

BARROS, Manoel de. Mundo pequeno - I. In: _____. Poesia completa. São
Paulo: Leya, 2010. p. 315.

Se fossem tomadas isoladamente, as palavras destacadas - coisa, rã e árvore


- seriam classificadas como substantivos; o eu lírico, no entanto, emprega-as
como formas verbais. Comente o efeito expressivo criado no texto pela
inusitada mudança de classe gramatical dessas palavras.

Resposta: Sugestão de resposta: O eu lírico emprega os substantivos como


formas verbais para sugerir que tais seres têm a capacidade de transformá-lo,
de modificá-lo, tornando-o uma "coisa" e integrando-o à natureza, como se ele
fosse parte dela. O rio, quando "está começando um peixe", aproxima o eu
lírico do estado animal de "rã" e da condição vegetal de "árvore".

Atenção Professor(a), sugere-se considerar válidas outras respostas, desde


que coerentes e bem justificadas. Fim da observação.

215

2. Leia esta "definição":

Louco - sujeito que cisma que é Napoleão, desde os tempos de Napoleão, que
foi o único verdadeiro; vai dizer que não fui?

ELIACHAR, Leon. O homem ao quadrado. São Paulo: Círculo do Livro,


[1985?]. p. 53.

Explique a finalidade desse texto e aponte o principal recurso linguístico


empregado pelo autor para atingir seu objetivo. Justifique.

Resposta: O texto tem a finalidade de divertir o leitor. O autor cria o efeito de


humor empregando, no final, o verbo ser na 1ª pessoa do singular: fui (em vez
de foi, como era de se esperar, no caso). Essa mudança da pessoa gramatical
dá a entender que ele se considera o verdadeiro Napoleão, ficando
subentendido que ele próprio se encaixa na definição de "louco" que está
apresentando.
3. Em uma crônica, o jornalista português João Pereira Coutinho rememora o
ambiente religioso em que se desenvolviam, quando ele era criança, as
celebrações da Semana Santa.

E [na Sexta-Feira Santa], às três da tarde, um minuto de silêncio. Na rádio. Na


televisão. Em casa. No mundo. Tudo parava. Jesus morria na Cruz, dizia-se. O
tempo do verbo era tudo: "morria", não "morreu". Era presente, não passado.
Era notícia, não história. [...]

COUTINHO, João Pereira. Lisboa amanhece. Folha de S.Paulo, São Paulo,


14 abr. 2009. p. 10.

Apoiando-se no sentido de tempo expresso pelas formas verbais morria e


morreu, explique a diferença que o cronista estabelece entre notícia e
história.

Resposta: Segundo o cronista, o sentido de tempo presente expresso por


morria presentificava o fato, indicando um acontecimento daquele exato
momento, ou seja, tratava-se de uma notícia, um fato a respeito do qual as
pessoas tomavam conhecimento no mesmo instante em que ele ocorria. Esse
sentido de tempo enfatizava a tragédia, a dor pela morte de Cristo. Por sua
vez, o passado morreu indica um fato já acontecido, superado e que, por já ser
do conhecimento das pessoas, faz parte da história e causa menos espanto,
surpresa e consternação.

4. No poema "Infância", Carlos Drummond de Andrade relembra o tempo em


que era criança e vivia com a família na fazenda. Leia a primeira estrofe desse
poema:

Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.


[...]

ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova


Aguilar, 1988. p. 5.

a) Nos cinco primeiros versos, as formas verbais são do pretérito imperfeito.


Que aspecto relativo ao tempo essas formas exprimem no contexto do poema
e que característica da vida na fazenda elas procuram sugerir?

Resposta: O pretérito imperfeito sugere, no caso, ações continuadas e/ou


repetitivas ao longo do tempo. Esse emprego cria, no poema, uma atmosfera
de monotonia, de marasmo na rotina da vida familiar do eu lírico.

b) Comente o efeito de sentido criado pelo emprego do presente do indicativo


no último verso.

Resposta: A forma acaba (do presente) sugere um fato que, na perspectiva do


eu lírico, é contínuo até o momento presente, ou seja, a história de Robinson
Crusoé se prolonga indefinidamente no tempo; não tem fim.

5. Leia este trecho de conto:

Mal meu tio saiu, e Maria Irma aparecia. Veio vindo, com o ondular de pombo e
o deslizar de bailarina, porque o dorso alto dos seus pezinhos é uma das dez
mil belezas de Maria Irma.

ROSA, João Guimarães. Minha gente. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova


Fronteira, 2006.

Nesse fragmento, o narrador-personagem está se referindo a uma prima dele,


pela qual ele cultivava uma paixão secreta.

a) Explique a falta de correlação temporal entre as formas verbais da primeira


frase.

Resposta: A forma saiu (pretérito perfeito) exigiria, caso a correlação fosse


obedecida, a forma apareceu (também do pretérito perfeito). A forma aparecia
(pretérito imperfeito) só estaria adequadamente correlacionada à anterior caso
esta fosse saía.

b) Considerando o sentimento que o narrador-personagem nutria pela prima,


comente a opção dele pela forma aparecia.
Resposta: A forma aparecia, nesse contexto, expressa não um fato
pontual/momentâneo, e sim um fato em processo, que se prolonga no tempo.
Tem-se a impressão de que o narrador-personagem vê Maria Irma entrando
em cena em "câmera lenta" e ele, embevecido/apaixonado, fica admirando
toda a sensualidade (ondular de pombo e o deslizar de bailarina) da jovem.

c) A forma veio vindo reforça ou atenua o efeito de sentido criado por


aparecia? Por quê?

Resposta: A expressão veio vindo reforça o efeito de sentido de aparecia,


porque também expressa, pela presença do gerúndio vindo, um fato em
desenvolvimento e, assim, contribui para descrever o movimento suave do
caminhar de Maria Irma.

216

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, na seção "E


mais..." das Orientações específicas, os subsídios/sugestões referentes a
esta atividade. Fim da observação.

E MAIS...

Regularização de formas verbais irregulares

Neste capítulo, vimos que se classifica como irregular todo verbo que, ao ser
conjugado, sofre alteração em seu radical. Depois, também neste capítulo, foi
apresentada, para consulta, uma listagem com alguns dos verbos irregulares
mais usuais.

Vamos, agora, desenvolver uma atividade para analisar uma característica


interessante dos verbos irregulares que se evidencia principalmente na língua
falada: a regularização de formas verbais irregulares.

Atividade de pesquisa

1. Objetivo

Atenção Professor(a), se necessário, retomar com a turma a seção teórica


"Regularização de verbos irregulares", neste capítulo, na página 203. Fim da
observação.
Comparar, na língua falada, a frequência de emprego de formas verbais
regularizadas em oposição às respectivas formas irregulares.

2. Orientações para a realização da atividade

a) A turma será dividida em grupos de trabalho, que deverão realizar "testes"


com 12 informantes (4 falantes de cada nível de escolaridade).

b) O(A) professor(a) apresentará um conjunto de frases que constituirão a base


da pesquisa e que deverão ser anotadas por todos os grupos.

Atenção Professor(a), consultar o item 2 das Orientações específicas. Fim da


observação.

c) O(A) professor(a) definirá também os critérios para a coleta dos dados com
os informantes.

Atenção Professor(a), consultar o item 3 das Orientações específicas. Fim da


observação.

3. Tabulação dos resultados

Com base nas respostas apresentadas pelos informantes, cada grupo deverá
reproduzir, em uma folha de papel sulfite, a tabela a seguir:

Respostas com a Respostas com a


forma regularizada forma irregular

Nível de
Número de
escolaridade dos Quantidade % Quantidade %
informantes
informantes

Fundamental Resposta: 4

Médio Resposta: 4

Superior Resposta: 4

Total Resposta: 12

4. Apresentação dos resultados e consolidação dos dados

a) Em data a ser definida, cada grupo entregará ao(à) professor(a) o resultado


do trabalho (tabela preenchida).
b) Com base nas tabelas dos grupos, será preparada, em classe e sob a
coordenação do(a) professor(a), uma tabela geral, para consolidar os dados
obtidos.

5. Análise da tabela geral

Por meio da tabela geral, será desenvolvida, coletivamente, uma breve


discussão a respeito dos resultados da pesquisa.

217

capítulo 3 - Palavras invariáveis

Classes gramaticais

AMPLIE SEUS CONHECIMENTOS

Livro

· BOMFIM, Eneida. Advérbios. São Paulo: Ática, 1988. (Princípios).

Artigos

· BIZZOCCHI, Aldo. Como é mesmo que se usa "mesmo"? Revista Língua


Portuguesa, [2015?]. Blog Aldo Bizzocchi. Disponível em: http://tub.im/oewffk.
Acesso em: 18 mar. 2016.

· VIANA, Chico. Acréscimos indevidos. Revista Língua Portuguesa, [2015?].


Blog Na ponta do lápis. Disponível em: http://tub.im/6n9pq5. Acesso em: 18
mar. 2016.

218

INTRODUÇÃO

Na língua portuguesa existem palavras que não admitem alteração em sua


forma. Tais palavras, denominadas invariáveis, constituem quatro grupos:

1. Advérbio

2. Preposição

3. Conjunção

4. Interjeição
Neste capítulo, vamos estudar as características e empregos das palavras que
integram essas quatro classes.

PARA NÃO ESQUECER

Já estudamos as seis classes de palavras variáveis, ou seja, as classes


formadas por palavras que podem alterar a forma para indicar, por exemplo,
gênero (gato/gata), número (fácil/fáceis), tempo (ando/andei) etc.

Relembre-as:

· substantivo

· numeral

· adjetivo

· pronome

· artigo

· verbo

ESTUDO DAS PALAVRAS INVARIÁVEIS (1ª PARTE)

O estudo das palavras invariáveis será subdividido em duas partes:


inicialmente trataremos do advérbio; depois, na segunda parte do capítulo,
vamos estudar a preposição, a conjunção e a interjeição.

Advérbio

Atenção Professor(a), os advérbios constituem uma classe gramatical


heterogênea e complexa, o que torna impraticável, em um curso escolar,
discutir todos os seus aspectos. Para um estudo mais aprofundado dessa
classe, sugere-se recorrer às obras Gramática de usos do português, de
Maria Helena de Moura Neves (Editora da Unesp) e Gramática descritiva do
português, de Mário A. Perini (Editora Ática). Fim da observação.

Conceito

O pesquisador francês Louis Pasteur (1822-1895), por suas notáveis


descobertas das causas das doenças contagiosas e das formas de preveni-las,
é considerado um dos maiores cientistas da humanidade. Saiba um pouco a
respeito dele:
Pasteur certamente redescobriu coisas que alguns cientistas anteriores a ele
haviam descoberto. Mas foi mais longe: confirmou velhos fatos sobre micróbios
e desvendou outros novos, percebendo também a conexão entre eles.
Realizou aquela viagem visionária pelo conhecimento: não dos micróbios
apenas como seres fascinantes, mas como a raiz de muitos processos de vida
no mundo. [...]

Vendo como os micróbios vivem e morrem, Pasteur deu seu inspirado passo
ao perceber que aí estava a chave para se entender as doenças. Ele acabou
por se transformar no profeta cuja visão empurrou os cientistas da época para
uma percepção revolucionária do nascimento, da decadência e da morte da
matéria.

Armados com esse conhecimento, foram capazes de desvendar os segredos


das doenças. Os médicos deixaram de ser apenas aqueles que ajudavam as
pessoas a suportar e a talvez sobreviver à doença para se transformar
naqueles que curavam e preveniam males que haviam castigado a
humanidade por milhares de anos.

BIRCH, Beverley. Louis Pasteur. São Paulo: Globo, 1993. (Personagens que
mudaram o mundo: os grandes cientistas). p. 7-8.

LEGENDA: Louis Pasteur - pesquisador cujas descobertas mudaram a


medicina e a forma de tratar as doenças.

CRÉDITO: A. Edelfeldt. 1885. Óleo sobre tela. Coleção particular

219

Agora compare estes dois enunciados, observando a palavra em destaque:

a) Pasteur redescobriu coisas que alguns cientistas anteriores a ele haviam


descoberto.

b) "Pasteur certamente redescobriu coisas que alguns cientistas anteriores a


ele haviam descoberto."

Em b, a palavra "certamente" associa-se a "redescobriu", exprimindo uma ideia


de convicção, de afirmação quanto à ocorrência do fato verbal. Dizemos, por
isso, que "certamente" é um advérbio.
Compare este outro par de enunciados:

a) Os médicos deixaram de ser apenas aqueles que ajudavam as pessoas a


suportar e a sobreviver à doença.

b) "Os médicos deixaram de ser apenas aqueles que ajudavam as pessoas a


suportar e a talvez sobreviver à doença [...]"

Nesse caso, a palavra "talvez" associa-se à forma verbal "sobreviver",


exprimindo uma ideia de possibilidade, de dúvida. A palavra destacada em b é
um advérbio.

Compare mais uma vez:

a) As pesquisas de Pasteur contribuíram para o nascimento da microbiologia.

b) As pesquisas de Pasteur contribuíram muito para o nascimento da


microbiologia.

Em b, a palavra "muito" intensifica a forma verbal "contribuíram", modificando,


em parte, o sentido dela: "contribuir" é diferente de "contribuir muito". A palavra
"muito" funciona, em b, como advérbio.

Esses três exemplos possibilitam conceituar assim as palavras que integram


essa classe gramatical:

Advérbio é uma palavra invariável que se relaciona ao verbo para indicar


diferentes circunstâncias (de tempo, de modo, de intensidade, de lugar etc.)
relativas ao fato verbal.

Veja outros exemplos:

· Pasteur sempre foi meticuloso; não se descuidava de suas pesquisas e


refazia cuidadosamente todos os experimentos que realizava.

sempre: advérbio de tempo

não: advérbio de negação

cuidadosamente: advérbio de modo

Complementos teóricos

1. Locução adverbial
É toda expressão (conjunto de duas ou mais palavras) que funciona como
advérbio.

Ex.: Nos dias de hoje, seria impossível viver sem as descobertas de Pasteur.
locução adverbial (de tempo)
locução adverbial (de modo)

2. Os advérbios de intensidade têm uma característica particular: além de


intensificar o verbo, eles podem também intensificar o sentido de adjetivos e de
outros advérbios. Veja estes exemplos:

· A pasteurização é extremamente importante na conservação de certos


alimentos.
advérbio
adjetivo

· Pasteur contribuiu muito decisivamente para importantes avanços na área


médica.
advérbio
advérbio

220

3. Existem alguns advérbios que podem modificar uma frase inteira. Veja este
exemplo:

· Certamente poucos conhecem a importância de Pasteur para suas vidas.


O advérbio, referindo-se à frase toda, exprime um posicionamento do
emissor: a sua convicção de que o fato expresso pelo enunciado é válido,
verdadeiro.

4. Os advérbios são palavras invariáveis; no entanto, na variedade coloquial e


na culta informal, é comum o emprego do sufixo -inho para intensificar o
sentido de determinados advérbios. Veja estes exemplos:

· Acordou cedinho, pegou a mochila com o material e saiu rapidinho pro


colégio.

Classificação do advérbio
Os advérbios e as locuções adverbiais são classificados de acordo com seu
valor semântico, ou seja, de acordo com a circunstância que expressam.

O quadro abaixo apresenta, para consulta, as classificações e algumas


palavras e locuções que desempenham o papel de advérbio.

Classificação Advérbios e locuções

sim, realmente, com certeza, sem dúvida etc.


Afirmação
Ex.: A chuva realmente atrapalhou o trabalho dos operários.

talvez, possivelmente, acaso, porventura etc.


Dúvida
Ex.: Este ano, talvez nosso time seja campeão novamente.

muito, demais, pouco, tão, menos, em excesso etc.


Intensidade
Ex.: Nós estudamos muito o projeto da nova casa.

lá, aqui, acima, longe, perto, por fora etc.


Lugar
Ex.: O velho armazém ficava em frente à praça principal.

bem, mal, assim, devagar, às pressas, pacientemente etc.


Modo
Ex.: Ela reagia com calma às provocações dos colegas.

não, de modo algum, de forma nenhuma etc.


Negação
Ex.: De maneira alguma eu entraria em conflito com eles.

agora, hoje, sempre, logo, de manhã, às vezes etc.


Tempo
Ex.: Durante a tarde, os alunos não participam das atividades.

Complemento teórico

O que são dêiticos?

A palavra dêitico vem do grego dêixis, que significa "mostrar, apontar por meio
de elementos linguísticos". Os dêiticos são palavras de algumas classes
gramaticais que possibilitam ao falante indicar, por meio da linguagem,
tempos, lugares e indivíduos específicos. Funcionam como dêiticos:

1. Os pronomes pessoais:

· de 1ª pessoa: eu/nós;

· de 2ª pessoa: tu/você/vós/vocês;

· de 3ª pessoa: ele/eles indicando um elemento presente no ato de fala.


Ex.: Ele ali, o Zequinha, será o guia de nossa caminhada pela mata.

2. Os demonstrativos (este, aquele, estas...) indicando diferentes distâncias


em relação ao falante.

3. Os advérbios de lugar (aqui, ali, lá...) indicando diferentes posições


espaciais em relação ao falante.

4. Os advérbios de tempo (ontem, hoje, agora...) indicando diferentes tempos


em relação ao momento do ato de comunicação.

221

Distinção entre advérbio e adjetivo

Atenção Professor(a), ver em Conversa com o professor, nas Orientações


específicas, o item "A conversão adjetivo/advérbio" na seção
"Complementação teórica". Fim da observação.

Considere este enunciado e observe a palavra destacada:

Ao final do jogo, o experiente goleiro saiu irritado de campo.

irritado
é um adjetivo?
ou
é um advérbio de modo?

Para fazer essa diferenciação, é necessário considerar as características


básicas desses dois tipos de palavras. Compare os dois quadros:

Adjetivo

· Associa-se a substantivo.

· É variável (pode ser masculino/feminino e singular/plural).

Advérbio

· Associa-se ao verbo.

· É invariável (não admite masculino/ feminino, nem singular/plural).

Assim, para determinar a classe gramatical de irritado na frase proposta, basta


observar que, se trocarmos "o experiente goleiro" por "a experiente goleira", a
palavra em estudo vai variar. Observe:
Ao final do jogo, a experiente goleira saiu irritada de campo.

Como houve a mudança (irritado → irritada), fica claro que essa palavra é
variável e associa-se ao substantivo, funcionando, portanto, como adjetivo.

Considere agora este outro caso:

Ao final do jogo, o experiente goleiro reclamou alto com o juiz.

E agora? A palavra alto é adjetivo ou advérbio?

Note que, se fizermos a mesma troca da frase anterior, a palavra em estudo


não varia:

Ao final do jogo, a experiente goleira reclamou alto com o juiz.

Isso mostra que alto é, nesse enunciado, um advérbio.

Veja mais um caso, neste pequeno texto:

Deitada no gramado do quintal, a garotinha admirava, curiosa, a enorme


nuvem branca que flutuava maci... no céu azul de setembro.

E agora: macio ou macia? Ou será que cabem as duas formas? Pense no


assunto...

Atenção Professor(a), espera-se que os alunos concluam que seria válido


empregar tanto "macia" (adjetivo concordando com "nuvem": ... nuvem que
flutuava e era/estava macia) como "macio" (advérbio indicando o modo de
"flutuar" e equivalendo a "maciamente" ou "de modo macio"). Fim da
observação.

Palavras e locuções denotativas

Existem, no idioma, certas palavras e expressões que, embora se assemelhem


a advérbios, não se incluem nessa classe gramatical. Trata-se das palavras e
locuções denotativas, que são classificadas pelo sentido que exprimem. Veja
as mais comuns:

· Inclusão: também, inclusive, até.

· Exclusão: apenas, só, unicamente.

· Realce: é que, lá, cá.

· Retificação: aliás, ou melhor, isto é.


· Explanação: isto é, por exemplo.

· Designação: eis.

222

Agora leia esta tirinha:

FONTE: GONSALES, Fernando. Níquel Náusea. Folha de S.Paulo, 1995.

CRÉDITO: Fernando Gonsales

Você percebeu, no segundo quadro, a sutileza do sentido criado pela palavra


denotativa "até"?

CRÉDITO: Arquivo pessoal

Fernando Gonsales (1961-)

É um criativo quadrinista brasileiro. Formado em veterinária e biologia, uma


das características de suas tiras é a maneira como trata, de forma curiosa, de
questões ligadas aos animais e à ciência. Não à toa, seu personagem mais
famoso é Níquel Náusea, um ratinho que foi inspirado no personagem Mickey
Mouse, de Walt Disney. Fernando Gonsales já recebeu inúmeros prêmios por
seus trabalhos e tem suas tiras publicadas em diversos jornais brasileiros.

RESUMINDO O QUE VOCÊ ESTUDOU

Estudo das palavras invariáveis (1ª parte)

Palavras invariáveis são aquelas que não admitem flexão (variação de forma).
As palavras que apresentam essa característica constituem quatro classes:
advérbio, preposição, conjunção e interjeição.

Advérbio

Palavra invariável que se associa ao verbo, acrescentando ao seu sentido


determinadas circunstâncias (tempo, modo, lugar etc.).

Classificação geral dos advérbios e exemplos

afirmação

sim

certamente
dúvida

talvez

porventura

intensidade

pouco

demais

lugar

aqui

longe

modo

assim

depressa

negação

não

tempo

hoje

sempre

Locução adverbial

Expressão equivalente a um advérbio.

Ex.: Depois das aulas, ele voltava sem muita pressa para a loja do pai.
tempo
modo
lugar

Observação: Os advérbios de intensidade, além de intensificar o verbo, podem


também intensificar o adjetivo (Ex.: A prova foi bem fácil.) ou outro advérbio
(Ex.: A festa acabou muito tarde.).

223
Atividades

Escreva no caderno

1. (Enem/MEC) Leia o texto.

O sedutor médio

Vamos juntar

Nossas rendas e

expectativas de vida

querida,

o que me dizes?

Ter 2, 3 filhos

e ser meio felizes?

VERISSIMO, L. F. Poesia numa hora dessas?! Rio de Janeiro: Objetiva,


2002.

No poema "O sedutor médio", é possível reconhecer a presença de posições


críticas:

a) nos três primeiros versos, em que "juntar expectativas de vida" significa que,
juntos, os cônjuges poderiam viver mais, o que faz do casamento uma
convenção benéfica.

b) na mensagem veiculada pelo poema, em que os valores da sociedade são


ironizados, o que é acentuado pelo uso do adjetivo "médio" no título e do
advérbio "meio" no verso final.

c) no verso "e ser meio felizes?", em que "meio" é sinônimo de metade, ou


seja, no casamento, apenas um dos cônjuges se sentiria realizado.

d) nos dois primeiros versos, em que "juntar rendas" indica que o sujeito
poético passa por dificuldades financeiras e almeja os rendimentos da mulher.

e) no título, em que o adjetivo "médio" qualifica o sujeito poético como


desinteressante ao sexo oposto e inábil em termos de conquistas amorosas.

Resposta: Alternativa b.
2. Leia estes versos do poema "Infância", de Carlos Drummond de Andrade.

Infância

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala - e nunca se esqueceu

chamava para o café. [...]

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

DRUMMOND DE ANDRADE, Carlos. Infância. In: _____. Alguma Poesia. São


Paulo: Companhia das Letras, 2013. Carlos Drummond de Andrade © Graña
Drummond. www.carlosdrummond.com.br

CRÉDITO: Superstock/Glowimages

Considere os elementos textuais destacados no poema e responda aos itens


de a a d.

a) Os advérbios mais (verso 6) e mais (último verso) exprimem a mesma


circunstância, ou seja, têm a mesma classificação? Justifique.

Resposta: Não. No verso 6, mais associa-se ao verbo acaba e exprime tempo;


no último verso, associa-se ao adjetivo bonita e exprime intensidade.

224
b) Sozinho (verso 4) funciona como adjetivo ou como advérbio de modo?
Justifique sua resposta baseando-se na possível flexão (variação de forma)
dessa palavra.

Resposta: Sozinho concorda, no masculino, com o gênero do eu lírico


masculino; se o eu lírico fosse uma mulher, a concordância seria: Eu sozinha
menina.... Trata-se, portanto, de um adjetivo, e não de um advérbio, que é
uma palavra invariável.

c) A que verbo associa-se a locução adverbial no meio-dia branco de luz


(verso 7) e que circunstância ela exprime no texto?

Resposta: No meio-dia branco de luz associa-se ao verbo chamava e


exprime circunstância de tempo.

d) Considere as palavras longes (verso 8) e longe (verso 10) e aponte a


diferença de classe gramatical e de sentido entre elas.

Resposta: Longes: substantivo (palavra substantivada); significa, nesse


contexto, "tempos antigos, que fazem parte de um passado distante"; longe:
advérbio de lugar; significa "distanciado no espaço físico", "separado por uma
grande distância".

3. (Insper-SP) Leia este trecho de uma entrevista do cantor e compositor


Djavan.

Folha de S.Paulo: Em "Pecado", canção de "Rua dos Amores", você canta


"Mesmo que o amor avance/perde-se em nuance/quase um Chile
inteiro/quando você fala, fala, fala". O que é o Chile neste caso?

Djavan: Usei o Chile como advérbio de quantidade. São ousadias, não tenho
satisfação a dar a ninguém. O Chile é aquela coisa comprida. É uma metáfora
interessante. É preciso que você tenha alma para senti-la ou não. As pessoas
da mídia têm que parar de achar que isso me atinge.

Folha de S.Paulo, 11 abr. 2014.

Nessa entrevista, ao elucidar o sentido dos versos de sua canção, o músico


Djavan refere-se ao advérbio. Do ponto de vista morfológico, essa explicação:
a) está adequada, pois, no contexto em que foi empregado, o termo "Chile"
modifica o sentido do verbo "falar", acrescentando-lhe uma circunstância.

b) contém uma imprecisão, pois, no contexto da canção, ao vir acompanhado


pelo artigo indefinido "um", o vocábulo "Chile" assume a função de substantivo.

c) é pertinente, pois a função dos advérbios e das palavras denotativas é


conferir subjetividade ao texto, como ocorre na construção de figuras de
linguagem como a metáfora.

d) apresenta falhas, pois, levando em conta o contexto da canção, a palavra


representa um adjetivo que caracteriza a relação amorosa mencionada nos
versos.

e) é inadequada, pois, no contexto da canção, equivale a um numeral, classe


gramatical que expressa quantidade.

Resposta: Alternativa b.

4. Os advérbios geralmente se associam ao verbo, acrescentando ao seu


sentido determinadas circunstâncias. Existem, no entanto, advérbios que
podem modificar um adjetivo ou outro advérbio, ou mesmo o conteúdo de todo
o enunciado. Considerando tais possibilidades, compare os três enunciados e
responda aos itens de a a d.

1. Evidentemente a Terra não é curva.

2. A Terra não é evidentemente curva.

3. A Terra não é, evidentemente, curva.

a) Dois desses enunciados têm o mesmo sentido. Quais são eles?

Resposta: 1 e 3.

b) Sem alteração de sentido, que advérbio poderia substituir o advérbio


destacado nos dois enunciados que você identificou no item a? E no outro, que
advérbio poderia ser usado?

Resposta: Em 1 e 3: "obviamente", "indiscutivelmente", "certamente". Em 2:


"nitidamente", "visivelmente", "perceptivelmente". (Em 1 e 3, o advérbio refere-
se a "A Terra não é curva"; em 2, refere-se apenas ao adjetivo "curva".)

c) Em que caso(s) o advérbio exprime uma crença (ou opinião) do emissor?


Resposta: Nas frases 1 e 3.

d) Que enunciado(s) faz(em) uma afirmação que não condiz com a realidade?
Explique.

Resposta: 1 e 3. A afirmação "Evidentemente/obviamente a Terra não é curva"


não condiz com a realidade, porque, como se sabe, a Terra é curva. Em 2, a
afirmação condiz com a realidade: a Terra é curva, embora essa característica
do planeta não seja facilmente observável.

225

5. Considere, no enunciado abaixo, as palavras em destaque e identifique a


afirmação incorreta:

Fernanda é, indiscutivelmente, vaidosa e consumista; imagine então o que


ela não faria para ter um vestido assim, diferente, bonito e tão caro.

a) "Indiscutivelmente" é um advérbio que exprime um julgamento (uma


avaliação) do falante em relação ao que ele mesmo está afirmando.

b) "tão" é um advérbio que intensifica o sentido de um adjetivo.

Resposta: [Intensifica o adjetivo "caro".]

c) Nesse contexto, a palavra "não" está esvaziada de seu sentido negativo, já


que o falante propõe que seu interlocutor imagine justamente o que Fernanda
faria para ter o vestido.

d) Nesse contexto, "assim", por estar associado a um nome - "vestido" -,


funciona como um qualificador desse nome, e não como um advérbio de modo.

e) Nesse enunciado, "assim" exprime a mesma circunstância que em "Ela age


assim porque é muito vaidosa e consumista".

Resposta: [Vestido assim = vestido igual a esse; age assim = age desse
modo/dessa maneira.]

Resposta: Alternativa e.

ESTUDO DAS PALAVRAS INVARIÁVEIS (2ª PARTE)

Em continuidade ao estudo das palavras invariáveis, vamos tratar agora das


outras três classes que, juntamente com os advérbios, constituem as classes
cujas palavras não admitem variação de forma. São elas: preposição,
conjunção e interjeição.

Preposição

Conceito

Considere o conteúdo do quadro:

A sonda Curiosity partiu Marte 2011.

É claro que aí está faltando alguma coisa, não é mesmo? Então veja:

A sonda Curiosity partiu para Marte em 2011.

As palavras para e em contribuem para a estruturação da frase, estabelecendo


certas relações de sentido entre outras palavras. Assim:

· partiu para Marte


Palavra que relaciona "partiu" e "Marte", exprimindo, por meio dessa relação,
uma ideia de lugar.

· partiu em 2011
Palavra que relaciona "partiu" e "2011", exprimindo, por meio dessa relação,
uma ideia de tempo.

As duas palavras analisadas - para e em - são exemplos de preposição.

LEGENDA: Selfie da sonda Curiosity - jipe-robô criado pela NASA - em solo


marciano.

CRÉDITO: JPL-Caltech/MSSS/NASA

226

Agora observe o destaque neste outro enunciado:

· A humanidade acredita em seu próprio futuro?


A preposição em não cria uma relação de sentido; ela estabelece uma relação
de dependência entre dois elementos textuais, ou seja, o elemento "seu próprio
futuro", por meio do vínculo criado pela palavra em, complementa o sentido do
verbo "acredita".

Os exemplos analisados possibilitam conceituar essa classe gramatical:


Preposição é uma palavra invariável que relaciona duas outras palavras,
estabelecendo entre elas determinadas relações de sentido e/ou de
dependência.

Os dois quadros a seguir apresentam, para consulta, as preposições mais


comuns.

Atenção Professor(a), no quadro de cima estão todas as preposições


essenciais (palavras que funcionam exclusivamente como preposição) e, no
de baixo, algumas acidentais (palavras que eventualmente exercem o papel
de preposição). Se julgar necessário, comentar essa subdivisão. Fim da
observação.

a, ante, após, até, com, contra, de, desde, em, entre, para, perante, por [per],
sem, sob, sobre, trás

conforme, como, durante, exceto, fora, mediante, segundo, senão, salvo

A preposição, ao relacionar duas palavras, estabelece entre elas um vínculo


tal que uma delas funciona como palavra principal (mais importante) e a
outra, como secundária. Veja:

· Comprei de um colecionador um livro antigo sobre lendas brasileiras.


palavra principal
palavra secundária
palavra principal
palavra secundária

O QUE DIZEM OS LINGUISTAS

Algumas classes de palavras são amplas e aceitam facilmente novos


membros: elas são chamadas classes abertas. Outras são pequenas e só
aceitam novos membros com muita dificuldade: são classes fechadas.

Em português, o substantivo, o verbo e o adjetivo são classes abertas, ao


passo que o pronome e a preposição são classes fechadas. [...]

TRASK, R. L. Dicionário de linguagem e linguística. Trad. e adap. Rodolfo


Ilari. São Paulo: Contexto, 2004. p. 226.

Relações semânticas das preposições


Isoladamente, as preposições são vazias de sentido; não têm significado
algum. Nos enunciados, no entanto, elas são fundamentais para expressar
uma ampla variedade de relações semânticas.

Os quadros a seguir apresentam, para consulta, as preposições mais comuns,


as relações de sentido que mais usualmente elas estabelecem e alguns
exemplos.

· Distância - Nossa escola ficava a mais de cinco quilômetros de onde


morávamos.

· Lugar - Naquela noite, muitos desabrigados tiveram de dormir ao relento.

· Modo - Passavam na rua algumas pessoas conversando a meia-voz.

· Tempo - Um conhecido ditado popular diz que à noite todos os gatos são
pardos.

227

COM

· Causa - Com a forte chuva, os dois lados da avenida ficaram inundados.

· Companhia - Os exploradores desceram com um guia o perigoso rio.

· Instrumento - Com uma pequena chave de fenda, foi muito fácil abrir a porta.

· Modo - O porteiro respondeu à pergunta do rapaz com desconfiança.

· Oposição - O jovem judoca brasileiro lutará com adversários bem mais


experientes.

DE

· Assunto - Em nossas longas conversas, ele muito raramente falava da


família.

· Causa - Durante a prolongada seca, muitos animais morreram de fome.

· Especificação - Roupas de passeio é o que ela mais gosta de comprar.

· Lugar - Ficou até à meia-noite esperando o ônibus que viria de Belo


Horizonte.
· Posse - Íamos pescar com o velho carro de meu irmão quase toda semana.

EM

· Lugar - Por que antigamente muitas igrejas eram construídas no alto dos
morros?

· Modo - Sentadas sob a árvore, as crianças ouviam em silêncio o que o velho


dizia.

· Tempo - Segundo a previsão, a nova estrada para o litoral estará pronta em


dez meses.

PARA

· Finalidade - O clube foi cuidadosamente preparado para a festa da formatura.

· Lugar - Seu sonho sempre foi mudar-se para uma pequena cidade à beira-
mar.

· Tempo - O despachante disse que, para a semana, a documentação do carro


estará pronta.

POR

· Causa - Marcelo, por ser o menorzinho da turma, sempre tinha que jogar no
gol.

· Lugar - O maravilhoso rio São Francisco passa por inúmeras cidades.

· Substituição - Edu ficou furioso quando eu lhe disse que ele havia comprado
gato por lebre.

· Tempo - Por mais de duas horas, ele tentou inutilmente consertar a velha
bicicleta.

SOBRE

· Assunto - Amanhã haverá em nossa escola uma palestra sobre alimentos


transgênicos.

· Lugar - De tão cansada, ela acabava dormindo sobre os livros durante as


aulas.

Conjunção
Conceito

Suponha que um repórter de TV desse as seguintes informações a respeito da


preparação da seleção brasileira para um determinado jogo:

· A seleção foi para o campo de treinamento.

· Os jogadores não participaram de nenhuma atividade.

· A chuva e um vento forte frustraram os planos do técnico.

228

Cada uma dessas informações constitui uma oração (frase com verbo). É bem
provável, no entanto, que o repórter, em vez de usar três orações
separadamente, reunisse-as em uma única frase. Assim:

A seleção foi para o campo de treinamento, mas os jogadores não participaram


de nenhuma atividade, porque a chuva e um vento forte frustraram os planos
do técnico.

Observe, nessa frase, a função das palavras destacadas:

A seleção foi para o campo de treinamento, mas os jogadores não participaram


de nenhuma atividade, porque a chuva e um vento forte frustraram os planos
do técnico.
palavra que liga as orações 1 e 2
palavra que liga as orações 2 e 3

As palavras mas e porque são conjunções.

Considere agora a palavra destacada nesta oração:

sujeito
· A chuva e um vento forte frustraram os planos do técnico.
palavras de mesma função (núcleos do sujeito)

Note que, nesse caso, a palavra e não liga orações, e sim duas palavras de
mesma função. A palavra e também é conjunção.

Então:

Conjunção é a palavra invariável que liga:

· duas orações;
· duas palavras de mesma função em uma oração.

FIQUE SABENDO

O estudo das conjunções está diretamente relacionado ao das orações. A


classificação de uma determinada conjunção só pode ser feita levando-se em
conta a classificação das orações por ela ligadas. Por isso, essa classe
gramatical será retomada detalhadamente no estudo das orações (volume 3).

Complementos teóricos

1. As conjunções, por estabelecerem uma conexão, um vínculo entre duas


palavras de mesma função ou entre duas orações, são chamadas também de
conectivos ou nexos conjuntivos.

2. Em muitos casos, a conjunção que liga duas orações é constituída por mais
de uma palavra. Nesse caso, a expressão denomina-se locução conjuntiva.

oração 1
oração 2
Exs.: As chuvas foram boas este ano, no entanto a produtividade não
entusiasmou os agricultores.
locução conjuntiva

oração 1
oração 2
Todas as árvores da avenida ficam floridas logo que começa a primavera.
locução conjuntiva

229

Interjeição

Conceito

Leia esta tira humorística:

FONTE: BROWNE, Dik. Melhor de Hagar, o Horrível. Porto Alegre: L&PM


Editores, 1996.

CRÉDITO: BROWNE, Dik. Melhor de Hagar, o horrível. Porto Alegre, L&PM


Editoras, 1996
No segundo quadro dessa tirinha, Hagar não empregou uma frase logicamente
organizada para expressar sua surpresa e alegria. Ele poderia ter se
expressado assim: "Estou muito feliz com isso que você está me dizendo."; no
entanto, ele sintetizou na palavra oba! tudo o que sentia naquele momento.
Essa palavra é um exemplo de interjeição.

Interjeição é uma palavra (ou expressão) que, de forma intensa e instantânea,


exprime determinados sentimentos, emoções ou reações psicológicas do
falante.

São inúmeras as reações emotivas que podem ser expressas por meio de
interjeições e locuções interjetivas (expressões