Você está na página 1de 542

JOSÉ LUÍS BRANDÃO

HISTÓRIA DE

RO
FRANCISCO OLIVEIRA
(COORDS.)

IMPRENSA DA
UNIVERSIDADE
DE COIMBRA
COIMBRA

MA
UNIVERSITY
PRESS

ANTIGA
VOLUME II
IMPÉRIO E
ROMANIDADE
HISPÂNICA
O volume abarca um amplo espetro temporal que vai desde Augusto ao

fim do Império Romano do Ocidente, numa sequência cronologicamen-

te organizada de dinastias, estadistas, crises e momentos de transição,

a culminar na deposição do último imperador e nas vãs tentativas de re-

conquista por parte de Justiniano. Estão presentes elementos culturais e

valores identitários que deram forma à Europa, no que toca ao legado his-

tórico, instituições, valores, e também uma galeria de “homens ilustres”.

Além da chamada história política, sobressaem outros aspetos que

informam as sociedades e a cidade, distribuídos por rubricas, como

manifestações de cultura, em que se enquadra a literatura, elementos

lúdicos, exércitos e economia. Uma parte do volume trata especifica-

mente a “Romanidade Hispânica” o legado do Império que nos diz mais

respeito, incluindo temas que vão desde os substratos linguísticos pré-

-romanos aos efeitos da romanização no povoamento rural e urbano,

nas vias de comunicação e na circulação de bens.


E N S I N O
EDIÇÃO
Imprensa da Universidade de Coimbra
Email: imprensa@uc.pt
URL: http//www.uc.pt/imprensa_uc
Vendas online: http://livrariadaimprensa.uc.pt

COMISSÃO CIENTÍFICA
Aires do Couto (U. Católica Portuguesa)
Isabel Moreno (U. de Salamanca)
João Nunes Torrão (Universidade de Aveiro)
Marc Mayer (U. de Barcelona)
Paulo Estudante (U. de Coimbra)
Pedro de Carvalho (U. de Coimbra)
Sandra Bianchet (U. F. de Minas Gerais)
Virgínia Pereira (U. do Minho)

COORDENAÇÃO EDITORIAL
Im pren sa da U n iv ersid a de de C o i m b r a

CONCEÇÃO GRÁFICA
Imprensa da Universidade de Coimbra

INFOGRAFIA
Mickael Silva

EXECUÇÃO GRÁFICA
KDP

REVISÃO
Ália Rodrigues e Débora Santos

ISBN
978-989-26-1781-7

ISBN DIGITAL
978-989-26-1782-4

DOI
https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4

PUBLICAÇÃO INTEGRADA NO PROJETO


Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and the Shaping of Identity(ies).
(PTDC/LLT-OUT/28431/2017)

© JANEIRO 2020, I mprensa da U niversidade de C oimbra

BRANDÃO, José Luís, e outro


História de Roma antiga / José Luís Brandão,
Francisco Oliveira. – v.. - (Ensino)
2º v.: Império romano do ocidente e romanidade
hispânica. - p. -
ISBN 978-989-26-1781-7 (ed. impressa) ;
ISBN 978-989-26-1782-4 (ed. eletrónica)
I – OLIVEIRA, Francisco
CDU 94(37)
(Página deixada propositadamente em branco)
Sumário

Introdução (J. L. Brandão – F. Oliveira)........................................................... 7

Parte i. De Augusto ao fim do império do ocidente...................................... 11


1. O Principado de Augusto (J. L. Brandão – D. Leão) . ........................... 13
2. Sociedade e cultura na época de Augusto (F. Oliveira)......................... 47
3. Os Júlio-Cláudios (F. Joly – F. Faversani)............................................... 79
4. Galba, Otão e Vitélio:
a crise e experiências de 68-69 (J. L. Brandão)...................................... 97
5. Os Flávios (N. S. Rodrigues)................................................................ 111
6. Literatura e poder em Roma no séc. I D.C. (P. S. Ferreira).................. 143
7. Os Antoninos: o apogeu e o fim da pax romana (D. V. Gaia)............... 175
8. Os jogos de gladiadores (R. S. Garraffoni).......................................... 217
9. Os Severos (A. T. Gonçalves)................................................................ 233
10. A anarquia do século iii (C. A. Teixeira)............................................ 248
11. O exército romano:
da matriz hoplita à ameaça bárbara (J. G. Monteiro)......................... 283
12. Diocleciano e Constantino (A. de Man).......................................... 311
13. A economia no período imperial (P. P. Funari – C. U. Carlan)............ 325
14. A emergência de um império romano cristão:
de Constantino a Teodósio (P. B. Dias)............................................ 339
15. Vida e morte do Império do Ocidente (C. V. Mantas)....................... 363
16. Reconquistas de Justiniano no Ocidente (L. V. Baptista)................. 395
17. A música no período imperial:
a iconografia de Aquiles Mousikos (F. V. Cerqueira).......................... 407

Parte ii. Romanidade hispânica..................................................................... 433


1. Diversidade linguística da Hispânia pré-romana (A. Guerra).............. 435
2. Povoamento rural na Lusitania (A. Carneiro)..................................... 453
3. Urbanismo e arquitetura na Lusitania imperial (V. Mantas)................ 471
4. As vias de comunicação terrestres,
fluviais e marítimas da Hispânia Romana (V. Mantas)........................ 493
5. Circulação de cerâmica romana na Hispânia (R. Morais).................... 511
(Página deixada propositadamente em branco)
Introdução

O presente volume surge na sequência da História de Roma Antiga. Vol. I.


Das origens à morte de César (2015), por nós coordenado, e do já publicado
Vol. III, O sangue de Bizâncio, coordenado por João Gouveia Monteiro (2017).
A continuidade em relação ao Vol. I é visível também na equipa, mas a diver-
sidade de épocas e de temas levou ao acrescento de novos colaboradores,
incluindo mais brasileiros. Os capítulos são assinados pelos autores, de acordo
com a sua especialização e/ou com a investigação desenvolvida no âmbito da
respetiva participação em diversos projetos do Centro de Estudos Clássicos e
Humanísticos e de outras unidades de investigação.
O volume divide-se em duas grandes partes. A primeira, mais cronológica,
abarca um amplo espetro “De Augusto ao fim do Império do Ocidente”, numa
sequência de dinastias, imperadores, crises e momentos de transição até desaguar
na queda do Império do Ocidente e reconquistas de Justiniano.
Apesar da prevalência de capítulos de tratamento mais cronológico, de
acordo com a sucessão de imperadores e respetivas políticas, procurámos inte-
grar outros de organização sistemática, de forma a introduzir temas transversais.
Num volume pensado como um manual de História Antiga, pretende-se com
estes capítulos sistemáticos, integrados no estudo do progresso histórico, for-
necer ao aluno-leitor momentos estáticos de reflexão e consolidação.
Com esse fito, depois do tratamento do império de Augusto, é apresen-
tada uma síntese sobre as transformações da sociedade e da cultura na
época; após a exposição sobre a dinastia dos Flávios, inclui-se um capítulo
sobre a relação da literatura com o poder ao longo do séc. I; abordados os
Antoninos e as propensões lúdicas de Cómodo, integramos um estudo sobre
os jogos e gladiadores; analisada a crise do séc. III, perante o papel dos
exércitos e das transformações que vão sofrendo, pareceu-nos adequado in-
troduzir um capítulo sobre o exército; depois de Diocleciano e Constantino
e das reformas monetárias que levaram a cabo, surge uma contribuição sobre
a economia; e, no final desta parte, após os conflitos que levaram à deposi-
ção do último imperador e as reconquistas de Justiniano, inclui-se um
estudo da música com base na iconografia. Trata-se, pois, não de capítulos
estanques, mas de estudos que retomam por vezes os mesmos temas aborda-
dos segundo outras perspectivas.
A segunda parte, menor – “Romanidade Hispânica”–, centra-se na região
do Império que nos dirá mais respeito e que torna mais “nosso” e especial este
livro de história do Império Romano. Trata-se de temas que vão desde os subs-
tratos linguísticos pré-romanos aos efeitos da romanização no povoamento
rural e urbano, nas vias de comunicação e na circulação de bens, com base em
estudos sobre cerâmica. Muitos outros se poderiam incluir. Mas o objetivo foi
deixar alguns exemplos das origens da unidade e diversidade Ibérica a que
Portugal pertence e que se estenderá mais tarde para a América Latina.
Estão presentes os elementos culturais e valores identitários do Império
Romano que deram forma à Europa, no que toca ao legado histórico, a insti-
tuições políticas, a valores e a pessoas. Antes de mais, há uma galeria de “homens
ilustres”, para usar um terminologia da tradição biográfica romana. Há nomes
que se destacam e que, em contraste com capítulos mais genéricos ou dedicados
a dinastias, aparecem individualizados pelo seu relevo e pela marca que deixa-
ram: Augusto, Constantino, Diocleciano, Teodósio, personagens que por
diversas obras induziram mudança na forma de conceber o Império – as insti-
tuições políticas, religiosas e jurídicas que nos legaram. Depois há os outros
aspetos que informam as sociedades e a cidade, como as manifestações de
cultura, em que se enquadra a literatura, mas também os elementos lúdicos, os
exércitos, e a economia.
Tornam-se marcantes na primeira parte os momentos de crise e transfor-
mação a que é dado o relevo que pareceu adequado por trazerem redefinições
ao projeto de Augusto. Desde logo a passagem da República ao Império, mas
também a crise de 68-69 dC., que sobreveio depois do suicídio de Nero, mo-
mento em que os imperadores se sucedem em Roma, porque, como diz Tácito,
se revelou então um arcano do Império: o imperador podia ser criado em
outros locais que não em Roma. Mais tarde, a crise do século III, na sequên-
cia da morte de Alexandre, o último dos Severos: uma espécie de obscura
anarquia militar em que é difícil distinguir imperadores e usurpadores.
Assinalam-se as transformações que levaram à imposição do cristianismo,
dando vénia à história de uma das bases identitárias da Europa, desde a liber-
dade de culto, concedida por Constantino, até ao estatuto de religião oficial
do Império, obra de Teodósio. Finalmente, são tratadas as vicissitudes que
levaram ao fim do Império do Ocidente, bem como as “tentativas” vãs de
Justiniano para o restabelecer.
A organização deste volume tornou-se um dos fatores de agregação que
levaram ao projeto em curso Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and
the Shaping of Identity(ies) (PTDC/LLT-OUT/28431/2017), pelo que acaba
por ser uma sua causa e um seu resultado, e dos primeiros. Por um lado, há
um grupo consistente de colaboradores do volume que integra a equipa do
referido projeto. Por outro, as fontes biográficas foram (ainda que não exclu-
sivamente) bastante usadas nos textos, como Plutarco, Suetónio e a História
Augusta. Por fim, pareceu adequado centrar-se a análise em aspetos relacionados

8
com a biografia, género adequado à história do império, no qual o ciclo anual
dos cônsules já não tinha a importância que assumiam agora a pessoa e o ca-
rácter do imperador. Esta metodologia parece fundamentar-se em Tácito
quando diz que, num Império pacificado e não expansionista, falta a matéria
nobre da antiga historiografia (como guerras infindáveis, expugnações de cida-
des, destituição de reis, lutas sociais), o que leva os historiadores a lançarem
mão de assuntos menores, aqueles que, por tradição1, eram considerados mais
objeto da biografia.
O referido projeto veio, pois, dar coesão ao presente volume, pela proximi-
dade das fontes, das temáticas e de algumas metodologias, e sobretudo pela
organização final, onde se pôs claramente como critério a definição da identi-
dade imperial e da identidade regional da Hispânia.

José Luís Brandão & Francisco Oliveira

1
Exposta em Plutarco (Alex. 1), precisamente quando trata de estabelecer a diferença entre
História e Biografia.

9
(Página deixada propositadamente em branco)
PARTE I

DE AUGUSTO AO FIM DO IMPÉRIO DO OCIDENTE


(Página deixada propositadamente em branco)
1. O Principado de Augusto

José Luís Brandão


Universidade de Coimbra
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
ORCID: 0000-0002-3383-2474
iosephus@fl.uc.pt

Delfim F. Leão
Universidade de Coimbra
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
ORCID: 0000-0002-8107-9165
leo@fl.uc.pt

Sumário: A ascensão de Octávio e a consolidação do poder pessoal depois


das lutas do triunvirato. A criação do Principado e a institucionalização
dos poderes do princeps no que toca à Urbe e ao governo das províncias.
A cidade e o mundo: o papel de Agripa, Tibério, Druso, Gaio e Lúcio
Césares. A administração: o relacionamento de Augusto com os grupos
sociais e com as instituições do Estado romano, Roma e províncias.
Aspetos ideológicos e propagandísticos do Principado e seus valores: a
passagem do modelo republicano ao estabelecimento do poder dinásti-
co – a família no centro, a pax Augusta e a religião oficial1.

1. A ascensão de Octávio

1.1. O herdeiro de César

Gaio Octávio nascera a 23 de setembro de 63 a.C. (ano do tumultuoso con-


sulado de Cícero) numa família equestre, de homines noui, da antiga aristocracia

1
Trabalho realizado no âmbito do Projeto Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and
the Shaping of Identity(ies) (PTDC/LLT-OUT/28431/2017).

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_1
de Velitras2. Era filho de Gaio Octávio, pretor em 61 a.C., e de Átia, sobrinha
de César3. Perdeu o pai aos 4 anos, pelo que foi educado pela família da mãe.
Teve a sua primeira aparição pública aos 12 anos, quando proferiu o elogio fú-
nebre da avó Júlia, irmã de César, um ato tanto político como de pietas,
paralelo ao que César tinha efetuado para com Júlia, esposa de Mário. É provável
que só tenha contactado diretamente com o tio avô pelos 15 ou 16 anos 4;
acompanhou­César no triunfo de 46 a.C.; foi ter com ele à Hispânia em 455,
embora se manifestasse já então a sua natureza enfermiça; nesse ano foi enviado
para Apolónia, na costa da Macedónia, para completar os estudos e treino mili-
tar, na companhia de Agripa e Mecenas6. Octávio encontrava­‑se ali quando
soube da morte de César e, ao regressar a Itália, ficou a conhecer o testamento
do dictator, que o adotara e tornara seu principal herdeiro. Octávio mudou então
o nome, de acordo com o costume, para Gaio Júlio César7 e apressou-se a recla-
mar a herança, que envolvia legados materiais e imateriais, como amizades, fator
importante na política romana.
Depois da morte de César, Marco António, enquanto cônsul, tinha tomado
conta da situação: chegou a uma solução de compromisso que implicava não con-
siderar César um tirano (para evitar a anulação dos seus atos), mas também não
perseguir os cesaricidas. Na prática, autorizado pelo senado a executar os planos do
ditador, António aproveitava para fortalecer o seu poder, procurando passar para o
seu controlo a Gália Cisalpina e a Comata, através de um plebiscito. O tal compro-
misso era ainda ameaçado pelo propósito de Octávio de vingar o pai adotivo.
A princípio António parecia cooperar; o confronto deu-se quando este não quis, ou
talvez não pudesse8, entregar-lhe a herança que o testamento determinava. A pro-
paganda de Octávio encarregou-se de tornar António no vilão junto dos soldados

2
Segundo relata Suet. Aug. 1-4. Como fontes da vida de Augusto, temos sobretudo a biografia
completa de Suetónio (Suet. Aug.). Da autoria de Nicolau de Damasco, cortesão de Herodes o Grande,
sobrevive uma parte da Vida de Augusto (Nic.Dam. Vit.Caes.), mas deve ser lida com reserva, porque se
baseia na autobiografia perdida do princeps, naturalmente tendenciosa. Outros autores trataram o mesmo
período, como Apiano (App. B.C.), Díon Cássio (D.C.), Veleio Patérculo (Vell.) e Plutarco (Plu. Ant.).
3
Com a qual Gaio Octávio tinha casado em segundas núpcias. Este já tinha uma filha, conhecida
como Octávia Maior, de um anterior casamento com Ancária. Átia era filha de Átio Balbo, parente
de Pompeio, e de Júlia, irmã de César.
4
Em 47 foi nomeado prefeito da cidade durante a celebração das Feriae Latinae, cargo muito
antigo que se tinha tornado então puramente honorífico, sem o peso que veio a ter durante o Império.
5
Nicolau de Damasco (Vit.Caes. 7-8) diz que o jovem tinha influência na intercessão junto de César.
6
Há mesmo indícios de que terá sido indicado para o cargo de magister equitum (App. BC 3.9;
D.C. 43.51.7-8), embora tal seja objeto de discussão. Vide Southern 1998 20.
7
Mas não acrescentou Octavianus, como era hábito nestas mudanças de nome por adoção (Cf.
C. Cipião Emiliano, filho natural de L. Emílio Paulo), embora alguns autores antigos o designassem
por este nome, para salientar a sua origem pouco nobre; e também muitos historiadores modernos,
seguindo a tradição anglo-saxónica, para o distinguirem de Júlio César.
8
Havia despesas avultadas em curso e não era rigorosa a divisão entre propriedade de César e
pública: vide Southern 1999 33.

14
de César: e quando António, decidido a tomar conta da Gália Cisalpina9, se dirige
a Brundísio, para receber as legiões da Macedónia, duas destas passam-se para
Octávio. Paralelamente, este ia mantendo vivo o nome de César e a sua divindade,
usando o símbolo de um cometa, e preparando o caminho para se apresentar, mais
tarde, como Diui Filius. Na luta de influências que se segue, Octávio reúne um
exército a expensas próprias e, com o patrocínio de Cícero10, alia-se ao senado con-
tra António, que cercara o cesaricida Décimo Bruto em Mútina11. Apesar de não
ter idade para obter magistraturas, Octávio é investido como propretor, cargo que
lhe garantia o imperium para poder comandar o exército, e passa a ter assento no
senado. Na segunda batalha deste conflito, António é vencido, e Octávio torna-se
dispensável para o senado, uma vez que este conflito acabou. A Oriente, Cássio
fortificava-se na Síria, e Bruto toma conta ilegalmente da Macedónia, mas em bre-
ve o senado lhe atribui também a Grécia e Ilíria, tal como ratificou o comando de
Cássio e um acordo deles com Sexto Pompeio para controlo dos mares.
Octávio precisava de outra estratégia para aumentar o seu poder. Tendo
ficado vago o consulado 12, o jovem reclama-o e, em vez de colaborar com
Décimo Bruto e perseguir António, que se juntara a Lépido na Gália Transalpina,
avança sobre Roma com 8 legiões. Foi eleito cônsul13, com Quinto Pédio, no
mês sextilis de 43, mês que, por isso, levaria mais tarde o nome de Augusto.
Pôde assim recompensar os soldados, ratificar a sua adoção14, julgar e condenar
os assassinos de César e seus cúmplices, na ausência destes, e revogar a lei que
declarava António e Lépido como inimigos públicos. Entretanto, António tinha
conseguido o apoio de Asínio Polião e Munácio Planco.

1.2. O triunvirato

Estava aberto o caminho para o entendimento. Deixando o colega em


Roma, Octávio avança contra Décimo Bruto, que, abandonado pelos

9
Onde estava Décimo Bruto, governador por decisão de César, e que se recusava a entregar
o comando a António.
10
Cícero estaria convencido de que poderia usar o jovem em proveito próprio ou do senado.
Mas Octávio tinha consciência disso.
11
Mais tarde, logo no início das Res Gestae, lembrará esta ação, como a libertação da República
da tirania de uma fação.
12
Nesta guerra morrem os dois cônsules: Pansa, por ferimentos na batalha de Forum Gallorum,
junto de Mútina, a 15 de abril de 43 a.C.; e Hírcio, na batalha de Mútina, a 21 de abril. Surgem
rumores infundados sobre a culpa de Octávio naquelas mortes (Suet. Aug. 11).
13
O pretor urbano nomeou dois homens com poderes consulares temporários para presidir às
eleições (D.C. 46.45.3). O normal seria a nomeação de um interrex, mas tal implicaria que todos
os magistrados patrícios resignassem, e alguns estavam ausentes de Roma. Vide Southern 1998 49.
14
Na verdade, a adoção através de testamento era rara e colocava problemas, ao ponto de
Octávio a procurar ratificar por uma lex curiata. Vide Southern 1998 34-35, 51.

15
soldados, é assassinado por gauleses, ao que parece por ordem de António 15.
Octávio encontra-se, então, com este e com Lépido perto de Bonónia, numa
ilha no meio de um rio, segundo consta. Dali nasce o chamado 2º triunvi-
rato, oficialmente designado por tresuiri rei publicae constituendae, (‘três
homens para a consolidação do Estado’)16, com poderes de cônsules e gover-
nos provinciais exercidos através de legados, por cinco anos: António ficava
com as duas Gálias, Cisalpina e Transalpina; Lépido com a Narbonense e a
Hispânia; e Octávio com a Sicília, Sardenha e África. O último ficaria assim
com o controlo do fornecimento de cereais a Roma, mas também com o
problema de enfrentar Sexto Pompeio. Coube-lhe de momento a tarefa do
estabelecimento de veteranos em 18 cidades de Itália, medida difícil de
executar e impopular. Fazem-se também alianças matrimoniais: a Octávio é
prometida Clódia, filha do anterior casamento da esposa de António, Fúlvia,
enlace que ele descarta depois; e Lépido torna-se noivo da filha de António.
Um efeito imediato foram as cruentas proscrições, que visavam prevenir
ataques dos opositores das classes senatorial e equestre 17. Além do objetivo
principal da eliminação dos inimigos de cada um dos triúnviros, as proscri-
ções forneciam-lhes recursos resultantes das confiscações e venda das
propriedades dos proscritos. A vítima mais ilustre foi Cícero, que pronun-
ciara recentemente as Filípicas contra António e lhe executara o padrasto
sem julgamento na repressão da conjura de Catilina, em 63 a.C..
As magistraturas tradicionais mantinham-se. Mas trataram de garantir que
os cônsules, e outros magistrados, para os cinco anos seguintes lhes eram favo-
ráveis, antes de partirem para o Oriente a enfrentar Bruto e Cássio. A bandeira
de César, agora divinizado, é determinante para motivar os soldados e justificar
o ataque como um ato de pietas do filho e do triunvirato18. Enfrentam Bruto e
Cássio em Filipos em outubro de 42 a.C., em duas batalhas; e vencem graças a
António: na primeira houve um empate (António capturou o acampamento de
Cássio, e Bruto o de Octávio19); Cássio, derrotado, suicidou-se, julgando que
Bruto também tinha sido derrotado. Este será vencido dias mais tarde, acaban-
do também por se suicidar. César estava vingado e a resistência republicana
aniquilada, com exceção de Sexto Pompeio. Este é um dos marcos mais impor-
tantes para o fim da República.

15
App. BC 3.98.
16
Oficialmente aprovado pela Lex Titia em novembro de 43 a.C..
17
Como se lê no texto das proscrições, que Apiano transcreve (App. BC 4.8-9). Os números
variam entre 300 senadores e 200 equites (App. BC 4.5) e 130 senadores (Liv. Epit. 120). Alguns
escaparam (D.C. 47.9). Vide Southern 1998 57-60.
18
Sobre a deificação de César, vide Southern 1998 61-63.
19
Octávio estava com uma das suas crises e, por sorte, não foi aprisionado no acampamento.
Nas suas memórias dirá que foi um sonho que o salvou: Plu. Ant. 22; App. BC 4.110; D.C. 47.41;
Suet. Aug. 13.1.

16
António fica no Oriente a pacificar a região e a arranjar recursos para pagar
aos soldados20. Ao tentar resolver a questão premente do estabelecimento dos
veteranos, Octávio não contentou nem estes nem os agricultores expropriados,
ao mesmo tempo que a esposa de António (Fúlvia) e o irmão deste (Lúcio, que
era cônsul em 41) lhe colocavam obstáculos (com ou sem a conivência de
António) por a distribuição de terras ser feita sem intervenção dele. Esta situa-
ção culmina na dura guerra de Perúsia, de que resultou o incêndio da cidade.
Já nesta guerra se manifestou o talento militar de Marco Agripa21.
Com a morte de Lúcio, pouco depois, e de Caleno, que governava a Gália
em nome de António, Octávio passa a dominar o Ocidente e envia Lépido para
África, enquanto António, sentindo perder influência, se alia a Sexto Pompeio22
e a Domício Aenobarbo, e ataca Brundísio, que lhe fechava as portas. Mas, por
pressão dos soldados, acabaram por celebrar o acordo de Brundísio23, em 40
a.C.. Como resultado, Octávio ficou com o Ocidente, incluindo Ilíria e Dalmácia,
e António com o Oriente. Este, tendo enviuvado recentemente, casa com
Octávia, irmã de Octávio24.
Mas S. Pompeio, descontente, corta o fornecimento de cereais a Roma,
causando duras revoltas contra os triúnviros no fórum, problema resolvido no
acordo de Miseno (39 a.C.), entre Sexto, Octávio e António, que alargava a
zona de influência de Sexto à Sardenha e Córsega, com a promessa, nunca
cumprida, do Peloponeso25. Mas Pompeio rapidamente retoma o embargo, ao
mesmo tempo que recrudesce também a tensão entre Octávio e António. Octávio
é derrotado por Sexto na batalha naval de Cumas e perde o que restava da
frota numa tempestade. Na vida pessoal as coisas corriam melhor: é nesta al-
tura que Octávio se casa com Lívia26.
Em 37, dá-se o encontro de Tarento entre Octávio e António e a celebra-
ção de um novo pacto: este fornece 120 navios com as tripulações em troca de
20 000 homens, que nunca receberá, para a campanha contra os Partos. Além
disso, o triunvirato, que tinha expirado no final de 38 a.C., é alargado por mais
cinco anos (até ao final de 33, ou mesmo 32). Sexto Pompeio, depois de alguns

20
Mas há um novo arranjo dos comandos do Ocidente em prejuízo de Lépido, suspeito de
negociações secretas com Pompeio: António retém a Gália Cisalpina e absorve também a Narbonense
de Lépido. A Hispânia passa de Lépido para Octávio, e a África passa para Lépido.
21
Surgem rumores infundados de sacrifício de 300 nobres: cf. Suet. Aug. 15; D.C. 48.14.4.
Vide Pelling 2008 14-17.
22
Que acolhera Júlia, mãe de António, depois da batalha de Perúsia, e a conduzira ao filho.
Nas negociações, António foi representado por Asínio Polião, Octávio por Mecenas. Nerva
23

manteve-se neutral.
24
Sexto Pompeio é confirmado na Sicília e Aenobarbo é enviado para a Bitínia.
25
Sexto é incluído no senado e na agenda dos cônsules para 33.
Contribuía para o conflito o afastamento de Escribónia, sobrinha de Escribónio Libão, sogro
26

de Pompeio. Com ela se casara Octávio em 40.

17
êxitos contra Octávio, é definitivamente vencido por Agripa na batalha naval
de Náuloco (36 a.C.) e é assassinado pouco depois, talvez por ordem de António,
após tentar vender os seus serviços aos Partos.
Durante a rendição de Messina, Lépido tentara apoderar-se da Sicília, mas
foi traído pelos soldados, que se passaram para Octávio. Lépido foi destituído
dos poderes de triúnviro, mantendo, porém, o cargo de Pontífice Máximo até
à morte, em 12 a.C.. Esta guerra termina com a recompensa dos soldados (que
já se amotinavam), captura e recondução aos donos dos escravos fugitivos que
militavam no exército de Sexto Pompeio e crucifixão dos que não foram recla-
mados. A vitória sobre Pompeio acabou com a pirataria (Aug. Anc. 25),
restabeleceu o comércio e reforçou a posição de Octávio, que é recebido como
herói e cumulado de honras27.
António, com um desastroso ataque à Pártia, em 36, falha a empresa que
o tornaria inigualável no panorama militar. Em contrapartida, Octávio, que
terá começado a usar o praenomen de imperator logo depois do acordo de
Brundísio (40 a.C.)28, regressa vitorioso de uma campanha na Ilíria depois de
resgatar os estandartes que Aulo Gabínio tinha perdido na campanha de 48-47
e é honrado com um triunfo, que decide adiar. Depois dedica-se à restauração
da cidade. Pelo contrário, António está longe do centro de poder, e a sua liga-
ção a Cleópatra (iniciada em 41 a.C. e vista como sujeição a uma rainha
bárbara), o repúdio da esposa romana Octávia e a celebração de um triunfo no
Egito pela conquista da Arménia são circunstâncias empoladas pela propagan-
da do novo César, acentuando o contraste com o êxito e evergetismo deste29.
Com a expiração do prazo do triunvirato, a situação de Octávio tornava-se
incerta e os campos extremam-se 30. A leitura do testamento de António 31,
considerado desonroso para um romano, permitiu levar a opinião pública a

27
Octávio teria recebido, entre outras honras, a sacrossantidade dos tribunos e o direito de
usar a coroa de louros (D.C. 49.15), e Agripa, o estratega da vitória, foi honrado com a corona
classica ou naualis (Vell. 2.81.3). Discute-se se Octávio recebeu nesta altura a tribunicia potestas
para a vida (como sugere App. BC 5.132), ou se esta lhe foi ao menos oferecida, mas é pouco
provável, uma vez que ele próprio só contará os anos do poder tribunício a partir de 23 a.C..
Vide Southern 1998 85-86.
28
O título aparece pela primeira vez em cunhagens de 38 a.C.. Vide Southern 1998 79.
29
Houve um investimento de Octávio e seus generais no embelezamento da cidade, com o
restauro de monumentos; sobretudo Agripa (edil em 33), que tratou do abastecimento de água e
melhoramento dos esgotos. Vide Southern 1998 90-93; Goldsworthy 2014 171-180.
30
Discute-se se terminava em 33, em 32, ou se se mantinha. Como os cônsules de 32,
Gaio Sósio e Domício Aenobarbo eram apoiantes de António, há uma medição de forças. Os
ataques (para nós incertos) de Sósio foram vetados pelo tribuno Nónio Balbo. Octávio, ao
entrar no senado, senta-se entre os cônsules, alardeando o poder, e os cônsules, intimidados,
vão ter com António. Octávio permitiu a quem quisesse juntar-se a António, que o fizesse:
c. de 300 senadores.
31
O testamento terá sido revelado a Octávio por Títio e Planco, desertores de António, e
incluía, entre outros pormenores, o desejo de ser enterrado em Alexandria.

18
aceitar uma declaração de guerra contra Cleópatra, mitigando o odioso de
outra guerra civil com aparência formal de um conflito externo32.
A Batalha de Áccio teve lugar a 2 de setembro de 31 a.C., sendo marcada
pela desorganização no lado de António e Cleópatra. Na confusão, Cleópatra
logra romper o bloqueio imposto pela frota de Agripa e escapa para o Egito,
no que é seguida por António, que deixa o resto da frota e o exército nas mãos
de Octávio. Um ano depois caía Alexandria, e António e Cleópatra optam pelo
suicídio. Octávio concede-lhes honras fúnebres, mas executa Cesárion, supos-
to filho de César, e Antilo, filho de António 33. No Egito, transformado em
novo celeiro de Roma, ficaram três legiões e tropas auxiliares sob o comando
do prefeito Cornélio Galo, de origem equestre, que depois haveria de cair em
desgraça. E em Roma, fecharam-se as portas do templo de Jano, por decreto
do senado, significando a paz no império.

2. Consolidação do poder de um governante único

2.1. De triúnviro a princeps

Os atos de Octávio no Oriente são ratificados em Roma34. São-lhe conce-


didas imensas honras (cf. D.C. 51.19-20): como dois triunfos (Áccio e
Alexandria), a confirmação do título de imperator, que já usava por herança de
César35, o direito de criar patrícios, aparentemente a extensão do direito tribu-
nício de auxilium (sem ser tribuno) para além dos limites da cidade, o direito
de julgar casos de apelo, o “voto de Minerva” (poder de perdoar) em julgamen-
tos públicos. Ao regressar a Roma em agosto de 29, é recebido com pompa em
Itália, e celebra (de 13 a 15) o adiado triunfo da Dalmácia, seguido daqueles
dois últimos36. Dedica, nessa altura, o templo do Divus Iulius e a Cúria Júlia.

32
Ao mesmo tempo promove um juramento de toda a Itália a si próprio, como chefe desta
“cruzada”, dispensando os clientes de António de o fazerem. Por isso, dirá mais tarde que obteve o
poder supremo por consenso universal (per consensum universorum potitus rerum omnium) (Aug. Anc. 34)
33
A filha de António e Cleópatra, Cleópatra Selene, foi dada em casamento ao rei Juba da
Mauritânia. Os restantes filhos de António foram criados por Octávia.
34
É confirmado o poder de reis clientes. Herodes vê o seu poder reforçado como recompensa
pelo seu apoio. É concedido a Éfeso e a Niceia erigirem templos ao Divus Iulius e a Roma. Os
não cidadãos romanos de Pérgamo e Nicomédia podem erigir templos a Roma e a Augusto. Vide
Southern 1998 105-107; Goldsworthy 2014 208-210.
35
As cunhagens já atestam o uso deste praenomen em 38 a.C., mas talvez já o utilizasse desde
o pacto de Brundísio, em 40 a.C.. Vide Southern 1998 79, 107.
36
No triunfo de Alexandria, desfilaram com troféus os gémeos Alexandre Hélios e Cleópatra
Selene, juntamente com uma efígie da mãe e uma pintura desta, preparando-se para o suicídio
com uma serpente. Octávio parece ter só participado no terceiro, acompanhado, à esquerda, do

19
Além disso, era preciso restabelecer a administração de Roma e de Itália, orga-
nizar as províncias e licenciar os veteranos do exército. Leva então a cabo um
vasto programa de estabelecimento de veteranos em Itália e nas províncias,
através de um processo que ele próprio financiou de fundação de colónias (ou
atribuição do estatuto de colónias a comunidades provinciais)37.
Uma vez que se encontrava sozinho no poder, e terminada a validade
dos poderes de triúnviro, Octávio via-se na necessidade de justificar e con-
solidar do ponto de vista legal o seu imperium. Por outro lado, passada a
guerra civil, parecia conveniente retomar as formas tradicionais do poder.
A propaganda, patente em cunhagens, fala da restituição da res publica, o
que implicava o compromisso de Octávio se comportar dentro dos limites
dos poderes atribuídos pela lei aos magistrados republicanos 38. Para se dis-
tanciar do triunvirato, anula os atos dos triúnviros, significando que não
haveria retorno a tais horrores. Partilha o sexto consulado, de 28 a.C., com
Agripa 39, no qual acumularam também poderes de censores desgarrados da
magistratura, levando a cabo um recenseamento da população 40 e uma lec-
tio do senado, para reduzir a dimensão deste órgão 41. Nesse processo, Octávio
torna-se princeps senatus 42, ganhando assim a primazia no uso da palavra.
Começa um programa de restauro das instituições — escolhe um pretor
urbano, retoma o funcionamento dos tribunais permanentes, renova cultos
religiosos —, mas também de restauração dos edifícios 43. Terá por essa al-
tura adotado o título de princeps (‘o primeiro’), oriundo da tradição
republicana 44, que veio a consagrar o novo regime como ‘Principado’.

enteado, Tibério, e, à direita, do sobrinho, M. Cláudio Marcelo. Das honras oferecidas a que
lhe agradou mais, segundo Díon Cássio (51.20.4), foi o encerramento do templo de Jano e a
tomada do augurium salutis, então caído em desuso. Vide Jones 1970 44; Southern 1998 107-108;
Goldsworthy 2014 211-212.
37
Vide Jones 1970 44; Southern 1998 108-109.
38
Por exemplo, um aureus cunhado em 28 a.C. na província da Ásia apresenta no anverso Augusto
coroado de louro, com a inscrição IMP CAESAR DIVI F COS VI ‘Imperador César, filho do Deus,
cônsul pela sexta vez’; e no anverso a figura de Augusto envergando a toga e sentado na cadeira curul,
envolvido pela inscrição: leges et iura PR restituit ‘restituiu as leis e os direitos ao povo romano’. British
Museum, 1995,0401.1. http://www.britishmuseum.org/research/collection_online/collection_object_
details/collection_image_gallery.aspx?partid=1&assetid=22107001&objectid=1480000. Vide este e
outros exemplos em Moatti 2018 255-257.
39
Retomaram a prática, abandonada durante o triunvirato, do governo em meses alternados.
40
Registaram-se 4 063 000 cidadãos com as respetivas propriedades. Vide questão da demografia
no capítulo seguinte, 2: Oliveira § 4.
41
Alguns senadores renunciaram voluntariamente, outros foram removidos.
42
Cf. D.C. 53.1.3. Esta distinção talvez já viesse de 29.
43
Vide Jones 1970 45; Goldsworthy 2014 222-224.
44
Não confundível com o princeps senatus, mas abreviatura de princeps ciuitatis (‘o primeiro da
cidade’), título que tinha sido aplicado a outros e não implicava poderes concretos, mas se baseava
unicamente na auctoritas. Vide Jones 1970 85.

20
2.2. A res publica restituta e a definição dos poderes de Augusto em 27 a.C

Um momento que acaba por se tornar determinante na definição do poder


é a sessão do senado dos idos (13) de janeiro de 27 a.C., na qual Octávio,
cônsul pela sétima vez (e com Agripa como colega), profere um discurso em
que restaura (ou finge restaurar) a forma tradicional de governo45. Nas Res
Gestae ou Monumentum Ancyranum (Anc. 34), afirmará que no seu sétimo
consulado passou a res publica do seu poder para o do senado e do povo roma-
no46. Mas parece ter sido mais um ato teatral concertado. Suetónio (Aug. 28.1),
realista, fala apenas da intenção, depois duas vezes abandonada, de restaurar a
República47. Com efeito, na sessão seguinte (dia 16), o senado ratificou o co-
mando extraordinário e pediu­‑lhe que aceitasse a proteção e defesa do Estado;
e ele disse que não aceitaria todas as províncias, pelo que se deu uma partilha
(D.C. 53.12). O senado ficaria com as pacificadas48 e ele com as províncias não
completamente pacificadas ou ameaçadas por um perigo exterior ou de recen-
te aquisição, isto é, por aquelas que contavam com a presença regular de um
exército: Gália, Hispânia (com exceção da Bética), Síria, Cilícia e Egito. Na
verdade, os senadores ficavam quase desarmados, como comenta Díon Cássio
(53.12.3). A proteção implicava a manutenção dos poderes militares extraor-
dinários (o imperium) de Augusto, um comando de dez anos, com direito a
nomear legados (de categoria consular ou pretória), de fazer guerra e celebrar
tratados. O tipo de imperium que ele detinha a partir de 27 tem sido objeto de
discussão (se i. consulare, i. proconsulare ou i. proconsulare maius), mas parece
sobretudo basear-se na influência pessoal, uma vez que a sua autoridade se
estenderia às restantes províncias.
Além disso, concederam-lhe naquelas sessões do senado novas honras, entre
as quais se contava o título de Augustus — termo de difícil definição, de âmbito
religioso, conectado com augúrio e com auctoritas49 —, como reconhecimento

45
Uma versão ficcional do discurso é-nos apresentada por D.C. 53.2-12.
46
Veleio (2.89.3), contemporâneo e leal a Augusto, é ainda mais assertivo: diz que a República
foi restaurada.
47
Com um comentário que, embora ambíguo, parece sugerir que tal atitude foi tão boa como
a decisão final: ‘é duvidoso se foi melhor o resultado ou a intenção’ (dubium euentu meliore an
uoluntate).
48
Governadas por um cônsul ou pretor. À frente da África e da Ásia estava um cônsul; e um
pretor (com a designação de procônsul) ficava responsável pelas seguintes: Bética, Sicília, Sardenha
e Córsega, Ilíria, Macedónia, Acaia, Creta e Cirena, Bitínia e Ponto.
49
A proposta terá partido de Munácio Planco (Vell. 2.91). O termo estava associado à fundação
de Roma, a qual segundo os Anais de Énio, se processou com um Augusto Augúrio: cf. Suet. Aug. 7.2.
A interpretação deste termo, de carácter estritamente religioso, continua a levantar dificuldades, mas
aplicava­‑se até aí unicamente a Júpiter, pelo que elevava o seu portador acima da simples condição
humana. Rocha Pereira 2009 230 n.8 salienta que o sentido originário do termo é ‘consagrado’,
‘sublime’ e está etimologicamente ligado a augeo e augur. A propaganda parece querer fazer passar
a imagem de um refundador. Na altura da proposta do nome de Augusto, alguns sugeriam o nome

21
por ter restaurado a República. Além de coroarem os umbrais da casa de louro,
ofereceram-lhe significativamente a corona ciuica, atribuída a quem tinha salvo a
vida de cidadãos. Foi colocado na Cúria Júlia um “escudo das virtudes” como
testemunho do seu valor (uirtus), clemência (clementia), justiça (iustitia) e devo-
ção (pietas). Houve também a preocupação de voltar às práticas tradicionais: o
número dos magistrados anuais, que atingira números exorbitantes, volta ao
habitual (do tempo de Sula): os questores reduzem de 40 para 20; e os pretores
de 16 para 850. Ele próprio dirá (Anc. 34) que se encontrava à frente dos demais
em capacidade de influência (auctoritas), isto é, por um prestígio derivado dos
méritos morais e políticos, sublinhando embora que não detinha maior poder
efetivo (potestas) que os colegas de magistratura51. Assim, este ato de 27 não re-
presentava uma verdadeira restauração da res publica, não um retorno ao passado
sem mais, mas antes um compromisso entre Augusto e o senado, entre tradições
republicanas, bastante enraizadas na educação da aristocracia, e a influência do
imperador que contava com a lealdade das tropas e o consenso dos cidadãos de
Itália e das províncias52. Suetónio cita um documento oficial, a partir do qual
define Augusto como o “autor” de um “novo regime” (nouus status) (Aug. 28.2):

“Assim me seja permitido consolidar o Estado são e salvo nos seus fundamentos e daí
recolher o fruto que almejo, de ser proclamado autor do melhor regime (optimus status)
e de levar comigo, ao morrer, a esperança de que permanecerão no seu lugar os alicerces
do estado que eu tiver lançado”. Ele mesmo se encarregou a si próprio do voto, esfor-
çando-se de todos os modos por que ninguém ficasse insatisfeito com o novo regime.

Ao classificar Augusto como auctor53, o biógrafo sublinha que se trata de uma


ordem nova, baseada na auctoritas, neste caso congruente com o que Augusto afirma
no referido passo das Res Gestae, de que está acima de todos em autoridade e não
em poder. Há, no entanto, focos de tensão entre a hegemonia dos antigos generais

de Rómulo, como segundo fundador (Suet. Aug. 7.2). Uma continuidade de Rómulo a Augusto, a
culminar na batalha de Áccio, está representada no escudo de Eneias, na Eneida (Livro 8). Suetónio,
Apiano e Díon Cássio atestam que, no seu primeiro consulado, apareceram no céu abutres (6 ou
12), como outrora a Rómulo, certamente uma encenação dos partidários. Cf. Suet. Aug. 95; App.
BC 3.94; D.C. 46.46.2-3. Vide Southern 1998 50 e n.6, 214­‑215.
50
Cf. Vell. 2.89. Veleio engana-se ao dizer que foram acrescentados 2 pretores, o que só
aconteceu em 23 a.C..
51
Vide Jones 1970 46-49, 78-81; Southern 1998 101-114; Goldsworthy 2014 230-238.
52
Vide Jones 1970 82-83; Roldán Hervás 1995 261­‑262. A sigla SPQR (senatus populusque
Romanus), usada a partir de 19-18 a.C., em cunhagens e textos epigráficos (particularmente onde se
refere atribuição de honras à família imperial), torna-se a expressão da legitimidade do imperador,
baseada no consenso do senado e do povo romano, pelo que, na opinião de Moatti 2018 259-269,
a sigla será uma invenção do próprio Augusto, para salientar a legalidade da ação do princeps depois
da restituição da res publica.
53
E uma possível alusão etimológica ao cognomen de Augustus que lhe foi votado em 27 a.C.
Vide Wardle 2014 220.

22
e as prerrogativas do princeps. É por esta altura que se coloca o problema de Licínio
Crasso, neto do aliado de César, que vem reclamar juntamente com o triunfo a
honra dos spolia opima (‘espólios ricos’), por ter morto ele próprio um comandante
adversário. Augusto nega-lhe esta honra, argumentando que tal feito se realizou sob
os seus próprios auspícios e não sob os de Crasso54. A disputa torna patente a he-
gemonia de Augusto. Similar questão estaria na origem, em 27 ou 26, da obscura
transgressão de Cornélio Galo, poeta e prefeito do Egito, que termina com o suicí-
dio deste, provavelmente por ter usurpado honras indevidas55. Desta época (26-25)
são as expedições na Arábia (executada por Élio Galo, sucessor de Cornélio no Egito),
na Etiópia (comandada por Gaio Petrónio, sucessor de Élio), bem como a expedição
contra os Ástures e os Cântabros, na Hispânia, em que intervém Augusto56.

2.3. Definição de poderes de 23 a.C. e (con)sequências

Em 23, Augusto cai gravemente doente e, convencido de que ia morrer,


chega a entregar o sinete a Agripa e os relatórios da administração ao colega de
consulado, Pisão. Com este ato mostra que não pretende nomear um sucessor,
embora parecesse claro que o sobrinho Marcelo (edil em 23 e genro do princeps)
estava na melhor posição57. Nesta altura colocam os autores modernos também
a conspiração de Fânio Cepião e de Varrão Murena, embora possa ser ligeira-
mente posterior 58. Estas circunstâncias poderão estar na origem do segundo
momento de instituição do poder, em 23 a.C.. Então, Augusto abdicou do
consulado, que tinha assumido ano após ano59, mas não ficou desprovido de
poderes, nem na cidade nem nas províncias.

54
Cf. D.C. 51.23.2-27. Descrição dos argumentos técnicos e das razões pessoais e políticas da
recusa em Goldsworthy 2014 226-229.
55
Cf. D.C. 53.23.5-7.
56
Em 25 a.C. é estabelecida a colónia de veteranos de Emérita Augusta. Vide Jones 1970 48-
50; Southern 1998 115-117; Goldsworthy 2014 252-253.
57
Cf. D.C. 53.30.1-2. Depois de recuperar, Augusto propõe-se ler o testamento no senado
para mostrar que não nomeara sucessor: D.C. 53.31.1.
58
Cf. D.C. 54.3.2-8. Na sequência da condenação de M. Primo que, enquanto procônsul da
Macedónia, fez ilegalmente guerra na Trácia (em Ódrisas). Alegou ter agido por ordem de Augusto
(ou de Marcelo), mas foi desmentido por este. Tal seria problemático, tratando-se de uma província
senatorial. O cônsul designado para 23 com Augusto, Terêncio Varrão Murena, ou, mais provavelmente
o irmão deste, Lúcio Varrão Murena, defendeu Primo em vão, mas de forma agressiva para com Augusto.
Na sequência do acontecimento, houve a obscura conspiração de Fânio Cepião, na qual Murena foi
envolvido e depois executado. Dependendo da altura do ano em que ocorreu, o conluio pode ser uma
causa ou um resultado do estabelecimento de 23: vide Jones 1970 52-54; Southern 1998 120-121 n.19.
Goldsworthy 2014 278-283 prefere situar o acontecimento depois da reorganização de poderes de 23 a.C..
59
Para o lugar dele entrou L. Sêxtio, que lutara com Bruto e continuava a honrar a sua memória.
Augusto não mostrou desagrado, pois até aprovava tal devoção. Pretendia, assim, abrir o consulado
a um maior número de candidatos fora do seu círculo restrito: D.C. 53.32.3-4.

23
Para poder continuar a ter poder dentro da cidade, não sendo já cônsul,
foi-lhe garantida por lei a tribunicia potestas, os poderes dos tribunos, mas
agora separados da magistratura e a título vitalício, o que era realmente uma
inovação60. Tal poder, usado por Augusto e pelos sucessores (D.C. 53.32.6),
torna-se de futuro ‘designativo do mais elevado poder’ (Tac. Ann. 3.56.2: sum-
mi fastigii uocabulum), e representava a capacidade de manter o equilíbrio
entre nobres e as classes populares. Na prática, permitia convocar o senado
(com o privilégio de apresentar em cada sessão qualquer assunto), agir em favor
da “plebe”, propor leis e vetar, embora Augusto nunca usasse o veto.
No que toca ao governo das províncias, recebeu um imperium proconsulare,
ou imperium proconsulare maius como sugere Díon Cássio (53.32.5); mais
provavelmente um imperium proconsulare aequum, isto é, igual aos dos outros
procônsules61, à semelhança dos comandos especiais concedidos anteriormente.
A diferença (e privilégio) estava em que ele podia exercer o poder nas várias
províncias ao mesmo tempo, desde que dentro do limite temporal definido, e
não perdia os poderes ao atravessar o pomerium, conseguindo governar a partir
da Urbe e não precisando de os renovar sempre que saía dela62. Graças à auc-
toritas, podia intervir também nas províncias senatoriais. Mas, embora
insistisse na legalidade, a verdade é que Augusto atingira um poder tal que dele
não quereria (ou não poderia) desistir63.
Nesse mesmo ano (23 a.C.), depois da recuperação do princeps, Agripa, que
recebera um imperium proconsular por 10 anos 64, parte para o Este por motivos
para nós pouco esclarecidos. É difícil de aceitar que fosse ressentimento em

60
Discute-se se ele já teria os poderes dos tribunos na totalidade antes desta data, ou se estes
lhe foram sendo atribuídos de forma faseada, ou ainda se deteria até então apenas a sacrossantidade
dos tribunos. Apiano (BC 5.548) diz que, depois de derrotar Sexto Pompeio, lhe foi concedida
a magistratura de tribuno para toda a vida, em 36, no que é secundado por Orósio (6.18.34).
Contudo, Díon Cássio (49.15.6) afirma que, em 36 a.C., recebeu a sacrossantidade dos tribunos
e o direito de auxílio (ius auxilii). O mesmo autor sugere (51.19.6) que, em 30 a.C., recebeu os
poderes de tribuno para toda a vida, e que estes foram estendidos para além do pomerium, algo
que era inusitado; e repete (53.32.5) a mesma atribuição em 23. Ou Díon Cássio confunde a
magistratura com a sacrossantidade e poder de auxílio, em 30, ou Augusto recusou a oferta nessa
altura. De qualquer modo, Augusto conta os anos da tribunicia potestas desde 23 a.C.. Vide Jones
1970 44 e 55; Southern 1998 85-86 e 123; Wardle 2014 212-213; Moatti 2018 257 n. 4.
61
Um imperium maius, cuja existência é hoje negada por diversos autores, entraria em conflito com
a afirmação de Augusto nas Res Gestae de que não tivera poderes acima dos colegas de magistratura
(Anc. 34), como argumenta Southern 1998 122. Para esta autora, imperium proconsulare aequum está
mais de acordo com a prática republicana. Posição diferente está espelhada em Jones 1970 59-60.
62
Vários autores sugerem que exercia o poder em Roma, o que parece contraditório, porque
tal poder entra na competência do imperium consulare, não proconsulare.
63
Como diz Goldsworthy 2014 282. Nessa altura, passa as províncias da Gália Narbonense
e de Cipro para a tutela do senado, demonstrando que só as mantivera enquanto precisavam de
proteção militar: vide Jones 1970 55.
64
Persistem, também, no caso de Agripa, as dúvidas sobre se era imperium procunsulare maius
ou aequum. Vide Southern 1998 125 n. 21.

24
relação à preferência de Augusto por Marcelo, como sugerem Suetónio e Díon
Cássio65; é mais provável que se tratasse de um comando que talvez tivesse que
ver com o jogo de relações com a Pártia rival; regressará em 21. Ainda em finais
de 23, morre Marcelo, o mais plausível herdeiro, e levantam-se suspeitas, cer-
tamente infundadas, em relação a Lívia66.
A partir daqui reduzem-se visivelmente os cônsules de substituição (suffec-
ti) e o consulado fica aberto à antiga aristocracia sobrevivente, mas Augusto
atingira um prestígio tal, que ninguém podia já rivalizar com ele67. Ele era o
garante de que a guerra civil não voltaria, pelo que a aristocracia aceitava o
novo regime como inevitável. Nesse mesmo ano de 23 aumenta o número de
pretores de 8 para 10, colocando dois nas finanças. Mas tal parece não ser
suficiente para as massas, que preferem que Augusto tome as rédeas da situação,
pelo que, em 22, por altura de uma carência, oferecem-lhe a ditadura (que ele
recusa de forma teatral68), o consulado e a censura vitalícios, que ele rejeita –
aceita apenas a cura annonae, a responsabilidade pelo fornecimento de cereais,
que exerce por apenas algumas semanas69.
Acontece mesmo que o povo, inconformado com a desistência de Augusto
do consulado e tentando forçá-lo a aceitar, se recusa a eleger nos comitia
centuriata dois cônsules para 21, e depois para 19 a.C., precisamente numa
altura em que Augusto está fora de Roma. Neste último ano, dá-se o caso
de Egnácio Rufo, pretor que se tinha tornado muito popular por ter criado
um grupo de bombeiros quando era edil e que agora queria candidatar-se
ao lugar vago de cônsul antes de ter a idade regulamentar. Apoiado num
bando intimidatório, provocou uma sedição tal que teve de ser reprimida
por um senatus consultum ultimum (decretado então pela última vez) sob a
direção do único cônsul eleito, Gaio Sêncio Saturnino: Egnácio e seus se-
quazes foram executados 70.
Chega a surgir a ideia de haver 3 cônsules, Augusto continuamente e mais dois
eleitos, mas terá sido posta de lado, em proveito de um poder pessoal, não ligado
a qualquer cargo, mas assinalado pelos símbolos71. Tudo parece, pois, indicar que,
neste ano, recebeu, sem assumir a magistratura, um imperium consulare, para toda

65
Cf. Suet. Aug. 66.3; D.C. 53.32.1.
66
Porque teria interesse em promover os filhos, Tibério e Druso. Cf. D.C. 53.33.4. Augusto
honra o sobrinho com uma biblioteca e dando o nome ao Teatro de Marcelo. Vide Jones 1970 56;
Southern 1998 124-125; Goldsworthy 2014 272-275.
67
Vide Goldsworthy 2014 262-272 e 285.
68
Cai de joelhos e desnuda o peito, deixando cair a toga dos ombros: Suet. Aug. 52.
69
Vide Jones 1970 56 e 75.
70
As fontes (Vell. 2.91.3-4; Suet. Aug. 19.1; D.C. 53.24.4-6) tratam o incidente como uma
conspiração contra o próprio Augusto. Vide Southern 1998 128-129; Goldsworthy 2014 285 e 301.
71
Díon Cássio (54.10.5) diz que ele tem direito aos 12 lictores e a sentar-se entre os cônsules
numa cadeira curul. Goldsworthy 2014 318.

25
a vida ou pontualmente (a discussão permanece72), o que permite explicar os
poderes que detinha também em Roma quando não era cônsul73.
Em 18, o imperium proconsular é prolongado por mais 5 anos, juntamente
com Agripa, tal como os poderes de censor; e renovado o título de princeps (que
detinha havia 10 anos) por mais 574.
Quanto ao governo das províncias, a distribuição provincial de 27 entre
Augusto e o senado foi sofrendo alterações: a Gália Narbonense e Cipro tran-
sitaram para o controlo do senado em 22 a.C., e a província senatorial da Ilíria
passa a ser imperial devido à ameaça da Panónia. Augusto governa através de
legados por ele nomeados, enquanto os senatoriais são escolhidos por sorteio.
Mas a sua influência exerce-se sobre todo o império: recebe embaixadas e os
exércitos juram fidelidade ao imperador. O imperador domina a política exter-
na: pode fazer tratados em seu nome com monarcas submetidos.

3. Entre a urbe e o orbe

3.1. Com a colaboração próxima de Agripa

No Oriente. Augusto ia alternando as visitas a Roma com longos períodos


de permanência nas províncias, pelo que, como salienta Goldsworthy 2014
284, o regime por ele criado desenvolveu-se em grande parte na sua ausência.
Augusto viaja para a Sicília (22-21 a.C.), depois para a Grécia, instalando-se
em Samos, e depois para a Ásia (D.C. 54.7). No Leste, não se faziam sentir
os pruridos da constituição romana, pelo que Augusto era um monarca para
todos os efeitos. Apareciam templos a Augusto e Roma e cidades com o nome
de Cesareia (Suet. Aug. 60). A cidadania torna-se cada vez mais uma forma de
premiar soldados na altura do licenciamento, cidadãos distintos e comunida-
des leais. A estes cidadãos se juntavam outros provenientes de Itália em
programas de colonização75.
Nessa altura (em 21), regulou a questão da Arménia, combinando diploma-
cia e demonstração de força. Mandou o jovem enteado Tibério, à frente de um

72
Díon Cássio (54.10.5) diz que ele recebeu o imperium consular para toda a vida (juntamente
com os 12 lictores), mas tal não é confirmado por outras fontes, pelo que os críticos modernos
se dividem. Também em Suetónio (Aug. 27.5) se lê que ele recebeu a supervisão dos costumes e
das leis para toda a vida, contra os 5 anos indicados por Díon Cássio. Vide Jones 1970 59-60.
73
Com a vantagem de que acalmava também a populaça que, não confiando na aristocracia,
o reclamava repetidamente para o cargo: vide Southern 1998 132-134 e n.2. A autora defende
que foi para toda a vida. Augusto diz (Anc. 8) que fez censos em 8 a.C. e em 14 d.C. com base
no seu poder consular.
74
D.C. 54.12.4-5.
75
Vide Goldsworthy 2014 297-298.

26
exército, conduzir Tigranes (refugiado em Roma) ao trono da Arménia 76, estado-
-tampão que era alvo da disputa de influência pela Pártia e por Roma. A nenhum
dos lados interessava a guerra, pelo que os Partos aceitaram devolver as águias e
estandartes tomados a Crasso e António, e ainda libertar prisioneiros de guerra.
O facto foi capitalizado por Augusto como uma verdadeira vitória sobre a Pártia,
porque recuperava sem luta o que tinha perdido em batalha, como assinala Díon
Cássio77. Tal devolução ficou imortalizada nos relevos da couraça da conhecida
estátua de Prima Porta, bem como em cunhagens com a legenda signis receptis;
e os símbolos recuperados foram colocados no templo de Marte Vingador (Mars
Vltor), inaugurado em 2 a.C., no Fórum de Augusto.
Regressado a Samos, continua a receber embaixadas, entre as quais se con-
ta uma da Índia que impressiona as fontes antigas e é sinal do prestígio
ecuménico de Augusto: delegações, pedidos de amizade, súplicas e envio vo-
luntário de reféns que ele próprio regista nas suas Res Gestae78. Na viagem de
regresso morre o poeta Virgílio ao chegar a Brundísio.
Durante o regresso a Roma, em 19, uma delegação vai ao seu encontro com
o problema criado por Egnácio Rufo, e Augusto nomeia cônsul um dos envia-
dos, Quinto Lucrécio (um dos antigos proscritos). Na mesma altura, aceita o
voto do templo da Fortuna Redux.
No Ocidente. De 16 a 13, visita a Gália, a Germânia e a Hispânia. Depois
de nomear um prefeito da cidade, Estatílio Tauro, que fica também encarregado
da Itália79, Augusto, em 16, dirige-se para a Gália, enquanto Agripa se dirige
para o Leste. Discute-se a razão desta ausência80, mas é nesta altura que se dá a
derrota de Lólio, que perdera uma águia no confronto com povos germânicos81.
Uma das razões para as campanhas na Germânia pode ter sido a proteção da
Gália, como César já tinha feito antes, mas também pode ser uma forma de justi-
ficar a existência de um exército fiel e preparado82. Em 15 foram levadas a cabo,
por Druso e Tibério, as campanhas para pacificação das comunidades alpinas que
cobravam a passagem e faziam razias nos vales83 (Fig. 1). Depois, Augusto dirige-se

76
A pedido dos Arménios. Cf. Vell. 2.94.4; D.C. 54.9.4-6.
D.C. 54.8.1-3. Cf. Vell. 2.91.1; Sut. Aug. 21.3; Tib. 9.1; Aug. Anc. 29.2. Vide Jones 1970
77

57-58; Southern 1998 126-127; Goldsworthy 2014 302-305.


78
Aug. Anc. 31-32. Cf. D.C. 54.9.7-10; Suet. Aug. 21.3.
79
Díon Cássio (54.19.6.) Talvez seja um precedente para a futura reativação do prefeito da
cidade, com 3 coortes ao seu dispor. Tibério é neste ano pretor urbano.
80
D.C. 54.19.1-3 fala de afastamento propositado da cidade por causa da impopularidade que
a legislação moral causou. Outra hipótese, pouco credível, seria a de poder fruir da presença de
Terência, esposa de Mecenas, longe de olhares indiscretos.
81
Usípetes e Tencteros. Revés pouco credível para Díon Cássio (54.20.5-6), mas uma das
calamidades (clades) para Suetónio (Aug. 23.1), embora ‘mais desonrosa que lesiva’ (maioris infamiae
quam detrimenti). Augusto leva Tibério com ele.
82
Como nota Southern 1998 154-156.
83
O feito foi comemorado no troféu de Augusto que ainda se pode ver em La Turbie (nos

27
à Hispânia. Dessa altura (14 a.C.) são a fundação da colónia de Caesaraugusta (atual
Saragoça) e melhoramentos de Augusta Emerita (Mérida), fundada em 25.

Fig 1. Troféu de Augusto, comemorativo da subjugação das tribos dos Alpes.


La Turbie, Alpes Marítimos. Foto de António Brandão

Em 13, regressa a Roma e é decretada pelo senado a construção da Ara Pacis


(inaugurada depois em 9 a.C.). Nessa altura, o seu império proconsular é prorro-
gado por mais 5 anos. A Agripa, que regressa do Leste, é prolongada a tribunicia
potestas e acrescentado um imperium proconsulare semelhante ao de Augusto84. E,
em 12 a.C., por morte de Lépido, Augusto é investido no cargo religioso de
Pontífice Máximo, mas em vez de ir residir para a casa oficial, junto ao templo de
Vesta, entrega a moradia às vestais e permanece na sua residência do Palatino.

3.2. Feitos dos filhos de Lívia: Tibério e Druso.

A morte inesperada de Agripa, em 12 a.C., aumenta as responsabilidades


de Tibério (cônsul pela primeira vez em 13, com a idade de 29 anos) e Druso,
dois Cláudios, filhos de Tibério Cláudio Nero, o anterior marido de Lívia. Estes

Alpes Marítimos), no qual se cataloga a subjugação de 48 povos alpinos. Vide Jones 1970 64-65;
Southern 2014 340.
84
Vide Goldsworthy 2014 353.

28
vão trabalhar ativamente no alargamento de fronteiras e consolidar os seus
estatutos de generais experimentados: Druso avança para além do Reno; e
Tibério subjuga revoltas na Ilíria e conquista a Panónia. Enquanto isso, Augusto
instala-se na Gália Lugdunense. A dedicação em 9 a.C. do Altar da Paz (Ara
Pacis) vem sublinhar a ideologia da Pax Romana, apesar de continuarem guer-
ras nas fronteiras distantes.
Druso morre em 9 a.C., no regresso de uma campanha em que atingira o
Elba, assegurando a boa fama dos que morrem cedo, por comparação com a de
Tibério. Este foi transferido para a fronteira do Reno, para desencorajar inves-
tidas dos Germanos, e elevado à categoria de Imperator, título que partilha
agora com Augusto. Logo que pode, Augusto junta-se ao teatro de operações
na Gália, levando consigo o neto Gaio, então com 12 anos.
Mas, em 8, Augusto perde o seu outro amigo e colaborador, Mecenas, o
diplomata, cujos conselhos tinham um efeito suavizante sobre o temperamen-
to do imperador 85 . Ainda nesse ano, Augusto leva a cabo um censo da
população 86 , reforça as margens do Tibre, alarga o pomerium de Roma e
procura regular a corrupção eleitoral. O mês sextilis, em que inaugurara o seu
1º consulado, em 43, e em que anexara o Egito, em 30, recebe o seu nome,
que mantém até hoje.
Em 7 a.C., Tibério (cônsul pela segunda vez) celebrará um triunfo pelas
campanhas na Germânia e restaura o templo da Concórdia. Depois regressa
à Germânia (D.C. 55.1-8), pelo que tem agora um papel e poderes semelhan-
tes aos que Agripa tivera. Com efeito, tendo desempenhado os anteriores
comandos como legatus Augusti pro praetore, Tibério recebe, em 6 a.C., uma
missão diplomática no Este, na Arménia, e o poder tribunício por cinco anos,
mas, neste cume de glória, introduz na carreira uma pausa mal explicada que
terá irritado Augusto.

3.3. Promoção dos netos: Gaio e Lúcio

Começam a promover-se as carreiras de Gaio e Lúcio Césares, filhos de


Agripa e Júlia 87. Num paralelo com Agripa em 23, Tibério, em 6 a.C., retira-
-se para Rodes de forma mal explicada. Suetónio (Tib. 10) faz uma súmula
das possíveis razões: desgostoso com o casamento com Júlia, para fazer sentir

85
Prevenindo inconvenientes explosões públicas de cólera, como exemplifica Díon Cássio
(55.7.1.) O poeta Horácio morre no mesmo ano.
86
Conta 4 233 600 sem que se saiba quanto do acréscimo se deve a crescimento demográfico,
a concessão da cidadania ou a manumissão de escravos, como observa Jones 1970 68.
87
Em 6, Gaio, com 14 anos, foi, sem ser candidato, eleito pelos comitia centuriata para o
consulado (D.C. 55.9.1-4), cargo que Augusto, zangado (fingida ou sinceramente: cf. Tac. Ann.
1.3), diferiu para quando ele tivesse a idade de 21. Vide Southern 1998 172-173.

29
a sua falta em Roma, ou ainda para deixar o caminho livre a Gaio e Lúcio
Césares (motivo oficial que o próprio Tibério deu mais tarde) 88. Na ilha de
Rodes, Tibério vive como simples particular, mantendo apenas a tribunicia
potestas que expiraria em 1 a.C.. No final cai em desgraça, disfarçada pelo
título de legatus de Augusto, e chega a temer pela vida 89.
Em 5 a.C., pelo décimo segundo consulado de Augusto, Gaio, depois
de receber a toga uirilis, torna-se princeps iuuentutis, e Lúcio recebe o mes-
mo título uns tempos depois, sendo uma honra que os assinalava como
potenciais sucessores. Em 2 a.C., Augusto torna-se cônsul mais uma vez
para introduzir Lúcio na vida pública. Neste ano é dedicado o templo de
Marte Vingador e Gaio e Lúcio presidem aos jogos. O senado concedeu a
Augusto o título de Pai da Pátria 90. Mas é também deste ano o exílio de
Júlia, como veremos à frente.
Deverá ser igualmente deste ano a instituição de 2 prefeitos como co-
mandantes dos pretorianos. Já a partir de 5, torna-se comum a prática (que
não era nova) de nomear cônsules substitutos (suffecti), para fornecer pessoal
de categoria consular para os cargos administrativos.

3.4. A hora de Tibério e Germânico

Entretanto, em 1 a.C., Gaio recebe um imperium e é enviado para o Oriente


para resolver o problema do trono da Arménia, que caíra de novo sob a in-
fluência dos Partos, e morre em consequência de um ferimento, em 4 d.C.;
também Lúcio morre em Massília, em 2 d.C.. Tibério, embora mostrasse
vontade de regressar a Roma, só é autorizado a fazê-lo em 2 d.C., com a con-
dição de não participar na vida pública. Mas as mortes prematuras de Lúcio

88
Cf. Suet. Tib. 11-13; Tac. Ann. 1.53.1; D.C. 55.9.4-7; Vell. 2.100.3-5. Southern (1998
173-176) sugere uma razão diferente e artificiosa: Tibério teria sido enviado para Rodes, por
esta ilha se encontrar numa posição estratégica, numa espécie de missão secreta para controlar
a transmissão do poder no trono da Arménia, de modo a restabelecer o equilíbrio entre Roma
e a Pártia. Tibério já tinha experiência nesta matéria pois havia negociado o estabelecimento
de Tigranes no trono da Arménia e a devolução dos estandartes tomados pelos Partos a Crasso
e a António. Para Goldsworthy (2014 388-391), a explicação é mais simples: teria a ver com
o seu carácter avesso à vida pública e com o cansaço de uma carreira política começada muito
cedo e que não prometia descanso de futuro, a par do desgosto pela perda do irmão e da má
relação com Júlia.
89
Já se derrubavam as suas estátuas em Nemauso, dando-o como caído em desgraça. Vide
Goldsworthy 2014 415-416.
90
Segundo Salmon (1956 456-478), o título de Pater Patriae, normalmente visto como
puramente honorífico, é, de facto, o culminar do principado de Augusto (mais do que em 19 a.C.
com a atribuição do que Díon Cássio, 54.10.5, chama ‘poder dos cônsules’). O próprio Augusto
termina as Res Gestae com a sua citação como Pai da Pátria, o que deixa a impressão de que é para
ele a acme da sua carreira.

30
e de Gaio lançam-no definitivamente como principal herdeiro, pelo que vai
ser adotado por Augusto e recebe de novo os poderes anteriores.
Entre 4 e 6 d.C. continuam as campanhas na Germânia. Mas, a partir de
6, acontecem diversas revoltas: houve uma crise militar com tensões na fron-
teira do Reno e uma revolta grave na Panónia e na Dalmácia (mas também
noutras partes91) que colocavam de novo a Itália em perigo (ou pelo menos
explorou-se tal receio). A situação obrigou à presença de Tibério e do sobrinho
Germânico. O próprio Augusto, em 8, se desloca para Arímino (atual Rimini),
para estar mais próximo do teatro de operações 92. Lança recrutamentos em
Itália, sem êxito, pelo que tem de recrutar unidades de libertos e escravos li-
bertados dos seus donos 93. Para fazer face às despesas criou, em 6 d.C., o
tesouro militar (aerarium militare), o que levou a lançar novos impostos, que
naturalmente constituíram medidas impopulares. Por essa altura (em 6), terão
também sido criados os uigiles (mencionados à frente), para controlar a amea-
ça do fogo na cidade, subsidiados por um imposto sobre a venda de escravos.
Tudo isto, agravado por carências de cereal (em 7 d.C.), terá conduzido a
distúrbios e aparentemente a conjuras94.
Mais gravoso foi o massacre de 3 legiões comandadas por Quintílio Varo
na floresta de Teutoburgo, numa emboscada preparada por Armínio, chefe dos
Queruscos e cavaleiro romano95. O desastre perturbou profundamente Augusto
e levou-o a repensar a estratégia96: o recuo na política expansionista terá, como
salienta Vasco Mantas (2009 67-77), determinado para sempre as fronteiras
da latinidade no Reno, o que constituía um retrocesso em relação a estabele-
cimentos anteriores. Tibério e Germânico foram enviados de novo para a
Germânia, mas mais para tentar restabelecer o prestígio de Roma do que para
reconquistar, pelo que foi abandonada a ideia da fronteira do Elba97. Germânico
visitará mais tarde o campo de batalha e prestará honras aos mortos, cujos
restos ainda encontra espalhados.
Em 13 d.C., os poderes de Augusto e Tibério foram renovados por mais dez
anos, entregando-se a Tibério um imperium igual ao de Augusto, bem como a

91
Judeia e Mauritânia.
92
Cf. D.C. 55.28-56.18. Depois de debelada a rebelião na Panónia, Tibério foi agraciado com
um triunfo e Germânico com os ornamenta triumphalia.
93
Criou assim as cohortes ciuium Romanorum ingeniorum (de cidadãos livres) e as cohortes ciuium
Romanorum uoluntariorum (de antigos escravos).
94
Vide Jones 1970 74-75; Goldsworthy 2014 433-439 e 443.
95
Cf. Vell. 2.117-119; Tac. Ann. 1.61-62; D.C. 56.18-22. Tratou-se das legiões XVII, XVIII
e XIX, designações não mais usadas por serem consideradas pressagas.
96
Suetónio apresenta uma versão dramática (Aug. 23.2): ‘Diz-se que ficou tão transtornado
que, durante meses a fio, deixando crescer a barba e o cabelo, batia de quando em quando com a
cabeça nas portas e bradava: “Quintílio Varo, devolve as legiões!”’. Cf. D.C. 56.18-23. Augusto
aconselhará mais tarde o sucessor a não expandir o império: cf. Tac. Ann. 1.11; C.D. 56.33.5-6.
97
Como salienta Jones 1970 76-77.

31
tribunicia potestas. Em 14, o príncipe ainda levou a cabo um censo com o su-
cessor. Mas a 19 de agosto desse ano, quando Tibério já se dirigia para a Ilíria,
Augusto adoece e falece pouco depois na sua propriedade de Nola – para
Suetónio uma morte serena, própria de um sábio, interrogando os presentes
sobre se tinha representado bem o mimo da vida98.

4. Administração augustana

Depois de passada em revista a vida e feitos do fundador do Principado,


vejamos, em síntese, as alterações operadas no funcionamento das instituições:
a forma que assumia o novo Estado a que se refere Suetónio (Aug. 28.1) pela
redistribuição de competências entre as instituições republicanas e o princeps 99.
As reformas são sobretudo fundamentadas em antigas tradições.

4.1. Augusto e os poderes tradicionais do Senado

Augusto fixa o senado em 600 membros (embora pretendesse inicialmente


reduzi-lo a 300), e tenta, em 18 a.C., uma rebuscada seleção por delegação, em
que, a partir de um grupo de 30 candidatos previamente escolhidos por ele, se
iam escolhendo uns aos outros. O processo correu mal e o próprio Augusto
teve de concluir as escolhas 100. Como o interesse pelas reuniões do senado
decrescia101, fixou em 9 a.C. o calendário das reuniões (dois dias por mês em
que não podia haver outras reuniões nem julgamentos)102. Em 4 d.C. volta a
fazer uma purga do senado com um método semelhante ao de 18 a.C.: muitos
renunciaram voluntariamente, outros foram excluídos103.

98
Suet. Aug. 99. Tácito (Ann. 1.5.4) menciona um rumor sobre a responsabilidade de Lívia.
Além disso, deixa a suspeita de que, quando Tibério chegou a Nola, Augusto já teria morrido
havia vários dias, e que Lívia mantivera a sua morte em segredo para assegurar a sucessão ao filho.
Díon Cássio (56.30.2) sugere que Lívia lhe teria dado figos envenenados, num flagrante decalque
da tradição sobre a morte de Cláudio com um cogumelo. Vide Martin 1955 123-128; Questa
1959 41-55; Fornaro 1988 155-167; Martin 1991 350-352; Néraudau 1996 41-2; Wardle 2014
549-552; Brandão 2014 61-73.
99
Vide síntese destes aspetos em Jones 1970 86-89; Scullard 1982 219-231; Montenegro Duque
1983 208-211; Roldán Hervás 1995 263-269.
100
A seleção terá sido feita em 3 ocasiões, segundo ele próprio diz (Anc. 8): a primeira vez em
28 (remoção de 190 senadores); a segunda em 18, onde se tentou o sistema de cooptação para a
redução a 600; a terceira em 13 ou 11. O processo de 18 a.C., impopular, provocou as naturais
resistências. Até o triúnviro Lépido foi indicado, o que irritou o princeps. Cf. Suet. Aug. 35 e 54; D.C.
54.13-15. Vide Carter 2003 145-146; Southern 1998 143-144 3 n. 11; Goldsworthy 2014 318-319.
101
Foi preciso aumentar as multas por falta às sessões: D.C. 54.18.3.
102
Cf. D.C. 55.3.
103
Cf. D.C. 55.13.3.

32
Entre 27 e 18 a.C., instituiu o consilium principis104, formado por repre-
sentantes dos magistrados (um ou dois cônsules, um pretor, um edil, um
questor, e talvez um tribuno da plebe) e 15 senadores tirados à sorte, que
mudariam semestralmente. A tarefa seria preparar os assuntos para os levar ao
senado e prever as reações deste, como uma espécie de representação daquele
órgão junto do imperador105. Em 13 d.C., reestrutura este conselho, por lhe
ser penoso deslocar-se às sessões do senado, alargando o número de senadores
para 20, por ele escolhidos, e o seu período de permanência de seis meses para
um ano. Tibério, Germânico e Druso tornam-se conselheiros e as decisões
equivaliam a decretos do senado106.
O senado deixa de ter poder militar, como vimos. Mas Augusto tratava este
conselho com grande respeito e partilhava com ele a administração, embora a
preponderância efetiva seja desigual. O conselho viu restaurado o prestígio e
influência que tinha perdido no final da República. Além da reconhecida ca-
pacidade consultiva, algumas resoluções tornam-se lei sob Augusto107.
Os tribunais (as quaestiones organizadas por Sula) continuam a existir, mas as
atividades judiciais do imperador e do senado aumentam com a criação de novos
tribunais108. Por outro lado, a prouocatio ad populum é substituída pela appellatio
ad Caesarem, provavelmente criada em 30 a.C., em consequência de os poderes
dos governadores provinciais estarem submetidos ao imperium de Augusto109.
Também as questões fiscais são partilhadas entre o senado e Augusto110. Mas
a criação do aerarium militare (administrado por 3 ex-pretores) permitia mitigar
a ligação que, desde Mário, existia entre general e soldados. Também no que
respeita às cunhagens a situação é desigual: o imperador cunha moedas de ouro e
prata (com efeitos propagandísticos), enquanto os tresuiri monetales (‘triúnviros
responsáveis pela cunhagem’), sob a alçada do senado, cunham em bronze e cobre.
Augusto partilha ainda com o senado a administração da Urbe, de Itália e das
províncias, mas os cargos de nomeação vão substituindo a intendência do senado:
praefecti e curatores. Com tal distribuição de cargos, Augusto criou uma série de
postos para integrar largo número de senadores, ex-magistrados e cavaleiros.

104
Ou os amici principis.
105
Cf. Suet. Aug. 35.4; D.C. 53.21.4-5.
106
D.C. 56.28.2. Vide Jones 1970 91-93; Goldsworthy 2014 461.
107
A partir de Antonino Pio, séc. II, os senatus consulta tornam-se formalmente lei.
108
Os casos de alta traição de aristocratas são julgados em dois novos tribunais superiores não
sujeitos a apelo: um diante do conselho do imperador; outro no senado, sob a presidência dos
cônsules. Augusto detém, como se viu (supra secção 2.1.), o “voto de Minerva”, pelo qual pode
perdoar os que foram condenados pelos tribunais.
109
O caso mais célebre será o apelo de S. Paulo em 58 d.C.. Vide Jones 1970 124-130; Scullard
1982 220-221.
110
A comum divisão entre aerarium para as receitas proveniente das províncias senatoriais e o
fiscus para a das províncias imperiais é demasiado simplista e não abarca os procedimentos existentes,
que eram mais complexos. Vide Jones 1970 117-123; Scullard 1982 221.

33
Quanto à ordem equestre (equites), é incluída por Augusto nas tarefas admi-
nistrativas, pelo que também sai dignificada. O número dos cavaleiros é alargado
de 1800 para 5000: recebem cavalo público, anel de ouro e angustus clauus.
O imperador restaura a inspeção anual da ordem em Roma, altura em que ex-
pulsa os indignos e inclui os novos. Para serem incluídos devem possuir no
censo 400.000 sestércios111. Organizados como uma classe distinta, os cavaleiros
tinham acesso a postos militares e governos de pequenas províncias (como pro-
curadores), aos comandos da armada (praefectus classis)112 e sobretudo às quatro
grandes prefeituras: a da vigilância e incêndios (uigiles), a do provimento de cereais
(annona), a do pretório e a do Egito113. Com sorte e empenho podiam aspirar ao
senado, contribuindo para a renovação deste órgão conservador114.

4.2. Novas competências dos magistrados

As magistraturas tradicionais continuam a existir, mas conhecem novas


atribuições ou perdem outras. Para combater a corrupção eleitoral, Augusto
promulga em 18 a.C. a lex Iulia de ambitu. Além de ter capacidade para nomear
ou rejeitar candidatos, podia fazer campanha pelos seus, como, de resto cons-
tituía prática entre outros aristocratas, embora o peso não fosse o mesmo. Já
vimos que o povo chega a tentar forçar a eleição de Augusto (em 21 e 19 a.C.).
Os Cônsules (idade mínima: 42 anos) vêem a duração do cargo encurtada
para 6 meses (a partir de 5 a.C.). O próprio Augusto ocupa o cargo por diversas
vezes, como antes se observou. Aos consules ordinarii seguem-se os consules suffec-
ti (i.e. cônsules substitutos), de modo a haver mais oficiais de categoria consular
disponíveis para cargos públicos: legados nas províncias imperiais, procônsules
nas províncias senatoriais, curatores em Roma ou até prefeitos da cidade.
Quanto aos Pretores (idade mínima: 30 anos), em 23 a.C., passaram de 8
para 10, e, nos últimos anos do seu governo, Augusto subiu esse número para
12. Continuam a ter a jurisdição urbana e peregrina e a presidência dos iudicia
publica. Verifica-se, no entanto, um reforço das suas funções: 2 deles superin-
tendem o tesouro a partir de 23 a.C. (em lugar dos questores) e, a partir de 22,
oferecem jogos e festivais. O cargo habilitava-os a serem, depois, procônsules
em províncias senatoriais ou legados nas províncias imperiais.

111
Entre os cavaleiros incluem-se os filhos de senadores até à idade de 25 anos. A designação
equites era por vezes usada em sentido lato, abarcando libertos possuidores de riqueza igual ou
superior a 400.000 sestércios.
112
Uma esquadra em Miseno e outro em Ravena, designadas por classes praetoriae.
113
Inovação introduzida depois da batalha de Áccio. A partir de 6 d.C., também a Judeia é
governada por um prefeito da ordem equestre, como se verifica no conhecido caso de Pilatos. A partir
de Cláudio estes prefeitos passam a ser designados por procuratores.
114
Vide Jones 137-138; Southern 1998 149-150.

34
Os tribunos da plebe mantêm os poderes apenas formalmente, pelo que a
aristocracia perde o interesse por tal magistratura, não obrigatória no cursus
honorum, a ponto de, em 13 e 12 a.C., ser necessário tomar medidas para suprir
a falta de candidatos.
O mesmo acontece com os Edis (6), cujas funções são reduzidas: em 22
a.C., perdem o controlo fornecimento de trigo e a oferta de jogos; em 11 a.C.,
a responsabilidade pela água (aquedutos); e em 6 d.C. o combate do fogo.
Mantêm a competência dos mercados, a reparação das ruas e as questões sump-
tuárias. A perda da superintendência dos jogos corta-lhes a possibilidade de
ganharem com isso nomeada para concorrer à pretura, pelo que por vezes os
lugares tiveram de ser sorteados entre ex-questores e ex-tribunos.
Os Questores (20; idade mínima: 25 anos) perdem para os pretores a ges-
tão do erário de Saturno; continuam a dar assistência aos governadores
provinciais nas províncias senatoriais; e podem ser legados do procônsul. O
cargo mantém-se como pré-requisito para entrar no senado.

4.3. A administração da Urbe e da Itália

A administração da cidade, que antes estava a cargo do senado e dos ma-


gistrados, é colocada nas mãos de funcionários nomeados diretamente para os
cargos. O governo da cidade, na ausência do imperador, fica sob alçada do
prefeito da cidade (praefectus Vrbi), senador, que comandava 3 cohortes urbanae.
Era responsável também por um tribunal para crimes menores. Trata-se da
restauração de uma instituição antiga que caíra em desuso. O primeiro foi
Messala Corvino, que abdicou pouco depois por considerar inconstitucional
esta função.
Surge uma série de curatelae que entrega a senadores: os curatores para o
abastecimento de águas, edifícios, vias, saneamento. No que toca aos cuidados
de manutenção e segurança da cidade, em 20 a.C., Augusto indica funcionários
de origem pretoriana como curatores uiarum. Para combate aos frequentes in-
cêndios, já em 21 entregara aos edis 600 escravos que estão na origem dos
uigiles. E, em 7 a.C., reestrutura a estratégia, dividindo a cidade em 14 regiões,
e estas em uici supervisionados pelos magistri uici: passa então para a tutela
destes os escravos públicos treinados para o combate aos incêndios (antes sob
alçada dos edis)115. Finalmente, foram criados os uigiles em 6 d.C.116: 7 coortes
(1 coorte para cada 2 regiões), cada coorte com 1000 homens, recrutados entre
libertos, que acumulavam também funções policiais e estavam sob a superin-
tendência geral de um prefeito da ordem equestre (praefectus uigilum).

115
Cf. Suet. Aug. 30.1; D.C. 55.8.6. Os altares das encruzilhadas (os Lares Compitales) ficam
ligados ao culto imperial: passam a designar-se por Lares Augusti.
116
Na sequência de um incêndio: cf. D.C. 55.26.4-5.

35
Quanto ao fornecimento de cereais, em 22, depois de ter assumido por breve
trecho a cura annonae, Augusto entregou-a a ex-pretores, substituídos em 6 d.C.
por dois ex-cônsules. Finalmente, entre 8 e 14 d.C., o aprovisionamento de trigo,
bem como de artigos de primeira necessidade da Urbe, é finalmente entregue a
um prefeito da classe equestre: praefectus annonae117. No décimo terceiro consu-
lado, em 2 a.C., tinha limitado a distribuição de cereal a 200.000 beneficiários.
Agripa tinha sido desde 34 a.C. o responsável pelos aquedutos e esgotos,
que mantinha e construía a expensas próprias. Com a morte deste, Augusto
entregou a tarefa a três curatores aquarum chefiados por um curator de catego-
ria consular — o primeiro foi Messala Corvino, de 11 a.C. a 13 d.C.. A partir
de 11 d.C., Augusto transfere a responsabilidade pelos edifícios públicos para
dois ex-pretores ou ex-cônsules (curatores operum publicorum). As cheias do
Tibre passaram, a partir de 15 d.C., a ser reguladas por cinco curatores riparum
Tiberis, sob a presidência de um ex-cônsul.
Para a sua proteção pessoal, Augusto escolhe uma guarda de elite: 9 coortes
pretorianas dirigidas por um prefeito da ordem equestre – o prefeito do pretó-
rio – que, com o tempo, há-de adquirir enorme prestígio no império.
A Itália foi dividida em 11 regiões administrativas. O estabelecimento de
numerosas colónias de veteranos contribuía para manter a ordem. Continua a
ser respeitada a autonomia dos órgãos locais em relação ao poder central, pelo
menos teoricamente, embora alguns setores que transcendem a responsabilida-
de da comunidade sejam supervisionados por funcionários imperiais, como as
vias e os correios (o cursus publicus, criado por Augusto), com despesas parti-
lhadas entre o tesouro público e as localidades por onde passavam118.

4.4. Administração das províncias

As chamadas províncias senatoriais mantiveram a aplicação das normas


republicanas: os proconsules continuavam a receber o cargo por sorteio (entre
ex-cônsules e ex-pretores), tal como os questores. O cargo era anual e exercido
5 anos depois da magistratura em Roma. Tinham direito a escolher legados,
que os assistiam nos comandos e nos assuntos civis: os ex-cônsules tinham 3,
e os ex-pretores apenas 1. O senado administrava os impostos que iriam para
o aerarium, da responsabilidade do senado. No entanto, procuratores equestres
estavam encarregados das propriedades imperiais existentes nestas províncias,
das minas e da recolha de alguns impostos dependentes do imperador.
As províncias imperiais eram governadas por legados de Augusto (legati
Augusti pro praetore), escolhidos entre ex-cônsules e ex-pretores, normalmente

117
Vide Southern 1998 183-184.
118
Os curatores hão de assumir, a partir de finais do séc. I a.C., competências administrativas
nas cidades. Vide sínteses de Scullard 1982 230-231; Roldán Hervás 1995 266.

36
por 3 anos. Estes tinham um imperium subordinado ao poder do princeps (e,
destes, só os de categoria consular tinham legados militares, sendo 1 por legião).
Não tinham questores. As funções da administração eram resolvidas por fun-
cionários imperiais, geralmente com competências financeiras.
No âmbito das províncias do imperador podemos considerar as prouinciae
procuratoriales, províncias recentes e pequenas, confiadas a membros da ordem
equestre (procuratores)119. O caso do Egito constituía uma situação especial: era
governado por um prefeito equestre (praefectus Aegyti), sendo proibida a presença
de qualquer membro da ordem senatorial sem autorização expressa do imperador.
A Judeia foi, à semelhança do Egito, entregue a um perfeito em 6 d.C..
Os governadores de província administram também a justiça, embora haja
notícias de júris de cidadãos romanos, à semelhança dos tribunais de Roma.
Desta forma, Augusto controlava a grande maioria das províncias, embora
não as mais ricas, que estavam sob a alçada do senado. Controlava ainda os
reinos clientes: no Ocidente, a Mauritânia e, no oriente, múltiplos reis, etnar-
cas, tetrarcas e dinastas, que tinham um papel importante de colaboração com
Augusto na segurança das fronteiras do império e na romanização, visto que os
príncipes eram frequentemente educados em Roma120.

5. Orientações ideológicas e propagandísticas da política augustana

O principado de Augusto consolida-se ideologicamente sob o lema do re-


torno aos valores tradicionais. Ele próprio salienta, nas Res Gestae (Anc. 34), as
virtudes do escudo de ouro com que o senado o honrara: valor (uirtus), cle-
mência (clementia), justiça (iustitia) e devoção (pietas). A pietas é um elemento
importante, explorado na Eneida de Virgílio. Também na vida privada, Augusto
procurava passar uma imagem de moderação a vários níveis121, de acordo com
o mos maiorum: na comida, na forma de trajar, com roupas confecionadas pela
esposa e pela filha, nas residências da Urbe e nas de férias.

5.1. Legislação moral e social

Embora Suetónio (Aug. 27.5) diga que Augusto aceitou perpetuamente a


superintendência das leis e dos costumes (morum legumque regimen), o próprio
Augusto o desmente (Anc. 6), acrescentando que introduziu a legislação pedi-
da pelo senado através do seu poder tribunício. Mas talvez o negue de forma

119
Como os Alpes, Récia e Nórico.
120
Vide Jones 1970 94-109; Montenegro Duque 1983 210-211; Roldán Hervás 1995 266-267.
121
Como procura demonstrar Suetónio (Aug. 72-78).

37
exagerada, por modéstia, porque Díon Cássio (54.10.5) diz que ele recebeu a
supervisão dos costumes (e a censura) por cinco anos quer em 18 a.C., quer
em 13 (D.C. 54.30.1). Terão sido, portanto, poderes temporários. Além disso,
a auctoritas podia ser determinante neste caso122.
A preocupação com a restauração moral, depois das guerras civis, levou-o
a promulgar leis sumptuárias123, leis contra a corrupção eleitoral124, e leis para
favorecer o casamento125 e reprimir o adultério126 – estas últimas foram mal
aceites, sobretudo pelos equites 127. Além disso, proibiu o casamento de senado-
res com libertas, preocupado com a restauração das virtudes da dignitas e
grauitas da classe senatorial128.
Promoveu leis para limitar a manumissão de escravos, sobretudo para regu-
lar a libertação informal, a percentagem de escravos a libertar de cada vez, bem
como a idade do senhor e do escravo em causa129. Diz Suetónio (Aug. 40.3-4)
que Augusto procura manter a pureza de sangue, contendo as misturas com
elementos estrangeiro e servil130, mas tratar-se-ia antes de regular a entrada de
novos cidadãos, cujo número aumenta drasticamente nos censos. Procura man-
ter também a distinção de status, no que respeita ao tratamento dos libertos
(Suet. Aug. 74), embora os incluísse em atividades importantes131.

5.2. Família e poder: a consolidação de uma dinastia

Uma dimensão importante da pietas diz respeito à família. Vimos que a


ascensão de Octávio se fez sob a bandeira de Júlio César divinizado, determi-
nante para motivar os soldados e justificar o ataque contra Bruto e Cássio

122
Vide Carter 2003 125-126; Southern 1998 145-146 e n.12; Goldsworthy 2014 318-319;
Wardle 2014 214-215.
123
Lex Iulia sumptuaria de 18 a.C..
124
Lex Iulia de ambitu de 18 a.C..
125
Com benefícios para os pais de três ou mais filhos e penalizações para os solteiros e sem filhos.
126
Lex Iulia de adulteriis coercendis de entre18 e 16 a.C..
127
A Lex Iulia de maritandis ordinibus (18 a.C.), depois temperada com a reformulação de 9
d.C.: Lex Papia Poppaea. Não é impossível que existisse um programa moral já antes de 18, como
sugere D.C. 53.13.1-2. Os cavaleiros protestaram: Suet. Aug. 34. O próprio Augusto era conhecido
como adúltero inveterado: Suet. Aug. 59 e 71.1. Vide Jones 1970 62-63 e 131-132; Southern 1998
146-149 e n. 13; Goldsworthy 2014 324-326.
128
Vide cap. seguinte: Oliveira § 4.
129
Lex Iunia (25 ou 17 a.C.), Lex Fufia Caninia (2 d.C.), Lex Aelia Sentia (4 d.C.): propostas
pelos cônsules à época.
130
Cf. D.C. 56.33.3. Segundo Tompson (1981 35-46), os critérios de Augusto (assim como
a interpretação do biógrafo) não são racistas, mas culturais e morais. Vide Gascou 1984 744.
131
Vide Jones 1970 133-140; Southern 1998 151-152. Em muitas cidades itálicas existiam os
seuiri Augustales, colégio de 6 libertos dedicado ao culto imperial.

38
como um ato de pietas 132. Normalmente os críticos tendem a mostrar um
posterior distanciamento em relação a Júlio César, por causa da rejeição da
ditadura e da opção pelo título de princeps. Mas, segundo Goldsworthy 2014
410, os autores modernos podem ter exagerado, porque no geral ele valoriza
a herança política anterior, como patenteia o nome César, pelo qual é conhe-
cido – ele e os sucessores.
Uma prova de que Augusto não pensava restaurar a República é que ele vai
continuamente assegurar a sucessão dentro da sua família, através de casamen-
tos ou de adoção133. Em 21 a.C., Agripa casa em terceiras núpcias com Júlia,
filha de Augusto, que ficara recentemente viúva de Marcelo. Em 20, Júlia dá à
luz Gaio e, em 17, Lúcio, que Augusto adota como filhos, reforçando a inten-
ção dinástica. Em 18, Agripa, que já tinha imperium proconsular, recebe
também a tribunicia potestas por cinco anos, de forma a assegurar a continui-
dade do poder na família, em caso da morte de Augusto.
Depois da morte de Agripa em 12 a.C., Tibério é forçado, aparentemente
a contragosto, a divorciar-se de Vipsânia (filha de Agripa) e a casar com Júlia,
em 11134 – enlace que fracassa, como vimos, mas que o lançara como via alter-
nativa a Gaio e Lúcio. A morte de Lúcio, em 2 d.C., e de Gaio, em 4 d.C., virá
precipitar a adoção de Tibério como razão de Estado. Primeiro, este, além de
ter já um filho, adota também Germânico, filho do irmão Druso, de modo a
garantir a cadeia da sucessão. Depois, Augusto adota Tibério e Agripa Póstumo,
filho de Agripa e Júlia. Assim, Augusto passa a ter dois filhos, mas também
dois netos, Druso, filho de Tibério, e Germânico, por este adotado. Tibério
torna-se claramente o herdeiro, depois que lhe é conferida a tribunicia potestas
e o imperium, poderes que tivera antes de se exilar em Rodes135. A sua escolha
é apresentada, talvez injustamente, pelas fontes como um mal necessário 136.
Mas, apesar dos rumores de maquinação e pressões de Lívia, a verdade é que
Tibério era quem estava em melhor posição.
Suetónio e Tácito dizem que a Fortuna frustrou as esperanças que Augusto
colocara na família137, e não foram só as mortes a abalar os planos de Augusto.

132
Sobre a deificação de César, vide Southern 1998 61-63.
133
Como observa Jones (1970 78-79).
134
A escolha deste enteado como substituto de Agripa e sucessor é apresentada pelas fontes
como forçada pelas circunstâncias, mas tal parece ser um exagero criado a partir da posterior
apreciação do principado de Tibério. Cf. D.C. 54.31.1. Para uma crítica da suposta relutância
de Augusto na escolha de Tibério, vide Levick 1999 161-162 e n. 2, onde se referem relevantes
teorias modernas sobre o assunto.
135
Vide Goldsworthy 2014 427-430. Como nota este autor, o estatuto de Tibério seria semelhante
ao de Agripa com a diferença de que este sucessor era genro, enquanto Tibério é filho por adoção.
136
Cf. Suet. Tib. 21.2 e 23; Tácito (Ann. 1.10.7) é secundado por Díon Cássio (56.45.3) na
sugestão de que a escolha de Tibério foi uma forma de Augusto assegurar a sua boa fama, por
comparação com a crueldade e arrogância de Tibério.
137
Suet. Aug. 65.1 e 4; Tac. Ann. 3.24. Vide Goldsworthy 2014 443-445.

39
Enquanto Gaio e Lúcio progrediam na vida pública, dá-se (em 2 a.C.) o escân-
dalo que levou ao exílio de Júlia, fosse apenas por conduta imoral, contrária à
legislação, por traição ou ainda por tentativa de golpe de Estado138. Agripa
Póstumo, cuja promoção não teve paralelo com a dos irmãos, é, em 6 d.C.,
emancipado e banido por razões obscuras139. Também Júlia, irmã de Póstumo,
é exilada, em 8 d.C., a pretexto de adultério, escândalo a que se costuma asso-
ciar o desterro do poeta Ovídio, ocorrido na mesma altura140.
Verdade é que a vida familiar de Augusto tinha sido feliz noutro aspeto: o seu
casamento com Lívia (Suet. Aug. 62.2), que se mostrou digna do seu papel e
grande colaboradora, apesar dos rumores sobre crimes para favorecerem a ascensão
de Tibério141. E é deste enlace que nascerá a dinastia dos Júlio-Cláudios, através
de Agripina, filha de Júlia e Agripa e dos filhos do primeiro casamento de Lívia
com Tibério Cláudio Nero: Tibério e Druso142. A família continua a ser promo-
vida em bloco: Germânico é cônsul em 12 e Druso, filho de Tibério, em 15.
Com a morte de Augusto, o governo transita naturalmente para Tibério,
que detinha os referidos poderes militares e civis, embora as fontes falem de
uma farsa em que ele simula hesitação – certamente uma interpretação posterior
à luz da má fama que ele alcançou143. De qualquer modo, tal transição “mo-
nárquica” era inusitada e teria os seus perigos, apesar de ninguém querer voltar
às lutas civis. O incómodo Agripa Póstumo foi prontamente eliminado, e Tibério
negou ter nisso qualquer responsabilidade144. Houve motins nos exércitos, na

138
Foi enviada para a ilha de Pandatária, eventualmente por estar em causa a desobediência a
leis, que Augusto impusera com grande oposição das classes elevadas (Aug. 34.1). Southern (1998
179) não considera ser necessário envolver Júlia, juntamente com os amantes, numa teoria da
conspiração, pelo que a questão moral seria suficiente. Diferente posição tem Néraudau (1996
227-231), pois Júlia reunia à sua volta um grupo de potenciais agitadores executados depois, entre
os quais se contava Iulo António, filho sobrevivente de António e Fúlvia, que foi morto ou cometeu
suicídio. Vide Jones 1970 69; Goldsworthy 2014 396-401.
139
A razão oficial foi o carácter intratável de Agripa (Suet. Aug. 65; D.C. 55.26.4-5). Há
rumores vagos de conspiração: um plano para a evasão de Agripa e Júlia (talvez a mãe) e para os
apresentar aos exércitos (Suet. Aug. 19.2). Vide Jones 1970 70-71; Levick 1972 674-97; Néraudau
1996 250; Southern 1998 186 e n. 7, 253-254.
140
Júlia suportou vinte anos de exílio sustentada pela caridade de Lívia Augusta, como refere
Tácito (Ann. 4.71.4), e foi impedida de criar a filha que deu à luz depois. Ao amante Décimo Júnio
Silano foi sugerido o exílio voluntário. O marido, Lúcio Emílio Paulo, foi acusado de conspiração
(Suet. Aug. 19.1) e não se lhe conhece o destino.
141
Vide Goldsworthy 2014 377-380.
142
Quanto aos futuros imperadores desta dinastia, Calígula, sendo filho de Germânico e Agripina,
será neto de Druso + Antónia e de Júlia + Agripa; Cláudio é filho de Druso + Antónia; Nero, sendo
filho de Agripina II + Domício Aenobarbo, é, por parte da mãe, neto de Germânico + Agripina
I e bisneto de Druso + Antónia e de Júlia + Agripa, mas também filho de Cláudio por adoção.
143
Cf. Suet. Tib. 24. Suetónio segue uma tradição hostil: Vide Cascou 1984 264-265. No
entanto, Tibério estaria a tentar definir o significado do seu poder. Vide Seager 1972 56-57; Syme
1974 485-486; Timonen 1993 133-148; Levick 1999 76.
144
Suet. Tib. 22. Este foi, segundo Tácito Ann. (1.6.1), “o primeiro crime do novo Principado”.

40
Germânia: Germânico chegou a ser proclamado princeps, mas ele próprio res-
tabeleceu a ordem, mostrando lealdade, com risco da própria vida.

5.3. Engrandecimento da Urbe eterna

A tutela paternalista implica o cuidado da pátria, imaterial e física, que ele se


empenha em restabelecer, dando expressão a um outro âmbito da pietas. Ao
longo da vida, Augusto, assumindo o papel de novo fundador145, leva a cabo (ele
próprio ou através dos colaboradores) vastas obras de construção e reconstrução
tendo em vista o embelezamento e engrandecimento da Urbe, imagem visível da
deusa Roma: numerosos templos, bibliotecas, teatros, banhos, esgotos e outras
estruturas de uso público. Entre as maiores obras, destacam-se o templo de Apolo
no Palatino, a conclusão do Fórum de César, com o templo deste, a construção
do Fórum de Augusto, cujas representações celebram o lugar central do princeps
na gloriosa história de Roma146, com o templo de Marte Vingador (Vltor), e a
conclusão do Teatro de Marcelo, em honra do sobrinho e genro. As termas de
Agripa foram construídas por este seu colaborador e genro, bem como o Panteão.
O papel da família é assim exaltado, tendo o mausoléu como corolário. Junto
a ele faz gravar a síntese dos seus feitos (Res Gestae) e, perto, o Altar da Paz (Ara
Pacis), decorado com cenas litúrgicas onde figuravam as deusas Roma e Terra, a
família imperial e os seus ancestrais, Eneias, Rómulo e Remo147. Pôde depois dizer
que encontrou a cidade de tijolo e a deixou de mármore (Suet. Aug. 28.3), em
sentido real, mas também metafórico, com os aperfeiçoamentos institucionais. Em
17 a.C., organiza os Jogos Seculares para celebrar a grandeza de Roma, para os
quais Horácio compôs o carmen saeculare, simbolizando o início de uma nova era148.

5.4. Uma era de paz e prosperidade

A dedicação do Altar da Paz pelo senado é o testemunho de que, depois


de tantos anos de guerra civil, Augusto introduz com mérito na propaganda
a ideia da pax Augusta: um período que se prolongará até ao final dos Antoninos.

O assunto ainda não é pacífico e as culpas continuam a dividir-se. Sobre a culpa de Tibério, vide
Detweiler 1970 289-295; Paladini 1954 313-329. Pelo contrário, Jameson (1975 287-314) acha
que Salústio Crispo, tendo uma posição de conselheiro semelhante à que teve Mecenas, agiu por
sua iniciativa, na ânsia de dar uma ajuda ao novo regime. Vide Levick 1972 674-697.
145
Vide Lott 2004 82.
Cujas representações celebram o lugar central de Augusto na história de Roma, como mostra
146

Goldsworthy 2014 403-409.


147
Vide Goldsworthy 2014 358-359.
148
Vide Goldsworthy 2014 329-333.

41
Ele próprio se vangloria nas Res Gestae (Anc. 14) de ter fechado por três vezes
as portas do templo de Jano, simbolizando o fim de todas as guerras no im-
pério, circunstância que durante a República só ocorrera duas vezes. Além do
mais, propalava a ideia de um império universal mantido com base na justi-
ça, dizendo que preferia preservar que destruir os povos (Anc. 3) e levando a
cabo a missão divina expressa poeticamente por Virgílio na Eneida (6.852-3):
“e impor a civilização pela paz; poupar os submissos e derrubar os insolentes”.
Augusto procura, pois, consolidar as fronteiras, a organização política e a
coesão de um império que tinha crescido de forma desorganizada. O êxito que
obteve nas províncias deveu-se ao facto de garantir a paz e a prosperidade (pois,
apesar de ocorrerem algumas revoltas graves, no geral a situação era vantajosa),
de introduzir um esquema mais justo de tributação, de garantir um salário aos
governadores, desincentivando a rapina149, e de instituir um serviço de correio
público (primeiro com estafetas, que passavam as mensagens aos seguintes, e
depois com mudas de transporte, de modo a levar o mesmo mensageiro até ao
final), o que facilitava a comunicação com a administração central de Roma150.

5.5. Religião e universalismo

A pietas pressupunha, antes de mais, a relação com os deuses. E Augusto apre-


senta-se como um restaurador da religião, numa perspetiva antiquária 151: retoma
cultos, santuários, irmandades, sacerdócios caídos em desuso152. Promoveu também
o culto a Marte, a Apolo e o de César (diuus Iulius). Embora resistisse, por precaução
ou por modéstia, à divinização em vida, acaba por se tornar inevitavelmente objeto
de veneração. Em Roma, o culto pessoal em vida era matéria sensível, conotada com
a prepotência tirânica. Para evitar o culto à pessoa do imperador, promoveu-se o
culto ao seu Genius. Os cultos ligados às encruzilhadas (Lares Compitales) foram
também associados ao Génio de Augusto, pelo que se chamaram Lares Augusti153.
Nas províncias, o culto e a divinização eram mais aceitáveis. No Oriente acei-
tou o culto a si próprio, desde que associado ao de Roma divina (dea Roma et
Augustus). Mas o culto imperial desenvolveu-se também nas províncias ocidentais,

149
Provavelmente iniciou a prática de julgar os casos de concussão junto do senado (com
Augusto a presidir ou a assistir), de modo a evitar a corrupção dos tribunais antes existentes para
julgar estes crimes. A formação de concilia para o culto de Roma e Augusto também terá favorecido
a perseguição judicial dos governadores por extorsão.
150
Vide Jones 1970 94-97; Roldán Hervás 1995 268­‑269; Rocha Pereira 2009 231-232.
151
Augusto foi investido como pontifex maximus em 12 a.C..
152
Como o flamen Dialis, cujos diversos impedimentos o tornavam pouco atrativo para a
aristocracia. Em relação aos cultos estrangeiros, manifesta respeito reverente pelas práticas religiosas
antigas e consagradas, como os mistérios de Elêusis, e desprezo pelas restantes (Suet. Aug. 93).
153
Vide Lott 2004 81ss.

42
como atesta o Altar das Três Gálias (Ara trium Galliarum) em Lugduno e o Altar
dos Úbios (Ara Ubiorum) em Colónia154. Já nos antecedentes do relato da morte,
Suetónio acolhe um episódio que significa o reconhecimento do orbe ao poder de
Augusto. Aparentemente, a expressão de um credo religioso e político que retoma
um tema recorrente da propaganda augustana — a paz universal e a segurança dos
mares de que Augusto é o garante (Aug. 98.2):

Quando atravessava, um dia, a baía de Putéolos, os passageiros e os tripulantes de um


navio de Alexandria, que acabara justamente de aportar, vestidos de branco e coroados
com grinaldas, não só lhe ofereceram incenso, como também o cumularam de bons
augúrios e de extraordinários louvores: “Por ele viviam, por ele navegavam; da liberda-
de e da felicidade por ele fruíam.”155.

Fig. 2. Templo de Évora, dedicado ao culto de Augusto. Créditos Filipe Teixeira Lopes

Conclusão

Como forma de honrar Augusto o senado escolheu, logo após a morte do


imperador, a designação Saeculum Augustum para indicar o período de 57
anos em que ele governou o mundo. Muitas das fontes antigas, como Suetónio,
Tácito, Apiano, Díon Cássio, escrevem numa altura em que Augusto há

154
Vide Jones 1970 147-152; Roldán Hervás 1995 280-281; Southern 1998 195.
155
Trata-se de uma cerimónia litúrgica, pelo aparato (roupas, flores, incenso) e pelo ritmo da
invocação, um eventual reflexo do culto imperial que se praticava nas províncias; Vide Rocca-Serra
1974 671-680; Wardle 2014 542-543.

43
muito tinha atingido proporções sobrenaturais. Independentemente dos mé-
todos que usou, teve o mérito de transformar a política romana, que
soçobrava entre as disputas dos poderosos aristocratas, em algo de mais coe-
rente e unitário, com objetivos mais definidos. Conseguiu canalizar as
motivações políticas e experiência dos mais poderosos para o serviço da
missão romana. Augusto teve a fortuna de viver tempo suficiente para se
transformar de facto em novo fundador, um dos construtores da civilização
ocidental. Muito contribuiu para definir a identidade do Império Romano,
as fronteiras e a síntese do legado clássico que está na base da identidade
cultural, política e jurídica da Europa.

Tábua Cronológica

63 a.C. – Nascimento de Octávio


44 a.C. – Assassinato de Júlio César
43 a.C. – Primeiro consulado de Octávio. Formação do II triunvirato: Octávio, M. António e Lépido
42 a.C. – Batalha de Filipos: morte de Cássio e Bruto
40 a.C. – Acordo de Brundísio: M. António casa com Octávia
39 a.C. – Acordo de Miseno entre os triúnviros e Sexto Pompeio. Nascimento de Júlia
38 a.C. – Casamento de Octávio com Lívia Drusila
37 a.C. – Tratado de Tarento. Renovação do triunvirato
36 a.C. – Derrota de Sexto Pompeio. Lépido é afastado do poder
31 a.C. – Batalha de Áccio.
30 a.C. – Morte de António e Cleópatra. Anexação do Egito
28 a.C. – Octávio é intitulado princeps
27 a.C. – Primeira definição dos poderes. Octávio recebe o título de Augusto
23 a.C. – Segunda definição dos poderes. Recebe o poder tribunício para toda a vida. Morte de Marcelo
21 a.C. – Agripa casa com Júlia
17 a.C. – Augusto adota os dois filhos de Agripa e Júlia: Gaio e Lúcio. Jogos Seculares
13 a.C. – Morte de Lépido
12 a.C. – Augusto eleito Pontífice Máximo. Morte de Agripa
11 a.C. – Casamento de Tibério com Júlia
9 a.C. – Dedicação da Ara Pacis. Morte de Druso
6 a.C. – Tibério recebe a tribunicia potestas e retira-se para Rodes
2 a.C. – Augusto recebe o título de Pai da Pátria. Exílio de Júlia
2 d.C. – Morte de Lúcio. Retorno de Tibério a Roma
4 d.C. – Morte de Gaio. Tibério adota Germânico e Augusto adota Tibério e Agripa Póstumo
6 d.C. – Criação do aerarium militare e dos uigiles
7 d.C. – Exílio de Agripa Póstumo
8 d.C. – Exílio de Júlia, neta de Augusto, e de Ovídio
9 d.C. – Desastre de Teutoburgo: Quintílio Varo perde 3 legiões
13 d.C. – Tibério recebe poderes iguais aos de Augusto
14 d.C. – Morte de Augusto e aclamação de Tibério

Bibliografia
Béranger, J. (1953), Recherches sur l’aspect idéologique du principat. Basel: Friedrich Reinhardt.
Beard, M. (2016), SPQR. Uma história de Roma Antiga. Trad. portuguesa. Lisboa, Bertrand

44
Brandão, J. L. (2009), Máscaras dos Césares. Teatro e moralidade nas Vidas suetonianas. Coimbra, Coimbra
University Press.
Brandão, J. L. (2014), “Páginas de Suetónio: a morte de Augusto ou o ‘mimo da vida’”, Boletim de
Estudos Clássicos 59 61-73.
Brandão, J. L. - Leão, D. (2016), “Augusto em Suetónio” in R. Morais - M. Bandeira - M. J. Sousa, coords.,
Celebração do Bimilenário de Augusto. Ad Nationes. Ethnous Kallaikon. Braga 17-31.
Carter, J. M. (2003), Suetonius: Divus Augustus. Edited with Introduction and Commentary. Bristol,
Bristol Classical Press.
Cary, E, Dio’s Roman History. Vols. IV (1916), V-VI (1917), VII (1924). Cambridge MA, Harvard
University Press.
Detweiler, R. (1970), “Historical perspectives on the death of Agrippa Postumus” CJ 65 289­‑295.
Eck, W. (1998), The Age of Augustus. Translated by Deborah Lucas Schneider. New material by Sarolta
A. Takács (2003). Oxford, Blackwell.
Fornaro, P. (1988), “Una vita senza maschera, Suet. Aug. xcix, l”, CCC 9 155-167.
Franco, C. (1989), “Il lungo sonno di Ottaviano”, Studi Classici e Orientali 39 257-264.
Galinsky, K. (1996), Augustan Culture. An interpretive Introduction. Princeton. Princeton University
Press.
Gascou, J. (1984), Suétone historien. Paris, De Boccard.
Goldsworthy, A. (2014), Augustus. From Revolutionary to Emperor. London, Weidenfeld & Nicolson
Grimal, P (1999), O império Romano. Trad. port. Lisboa, Edições 70.
Grimal, P. (1986), “Suétone historien dans la Vie d’Auguste”, Rome. La littérature et l’histoire 2. Paris /
Roma. École Française de Rome, II, 729-738.
Grimal, P. (1997), O Século de Augusto. Trad. port. Lisboa, Edições 70.
Hellegouarc’h, J. (1987), “Suétone et le principat d’après la Vie d’Auguste”, Filologia e forme letterarie.
Studi offerti a F. della Corte , Urbino, Quattro Venti, IV, 79­‑94.
Ihm, M. (1908), C Suetoni Tranquilli Opera, I: De vita Caesarum: libri VIII, recensuit, editio minor;
Stuttgart et Lipsiae, Teubner (reimpr. de 1993).
Jackson, J. (1937), Tacitus. The Annals. Latin With an English Translation. Loeb Classical Library Edic-
tion. Cambridge MA, Harvard University Press.
Jameson, S. 1975, “Augustus and Agrippa Postumus”, Historia 24 287-314.
Jones, A. H. M. (1970), Augustus. London, Chatto & Windus.
Kessissoglu, A. I. (1988), “Mimus vitae”, Mnemosyne 41 385-388.
Levick, B. (1972), “Abdication and Agrippa Postumus”, Historia 21 674-697.
Levick, B. (1999), Tiberius the Politician. London / New York, Routledge.
Lorsch, R. S. (1997), “Augustus’ conception and the heroic tradition”, Latomus 56 790-799.
Lott, B. (2004), The Neighborhoods of Augustan Rome. Cambridge, Cambridge University Press.
Magnino, D. (1986), “Una testimonianza dall’autobiografia di Augusto?”, Athenaeum 64 501­‑504.
Mantas, V. (2009) “Uma batalha há dois mil anos: Teutoburgo”, Boletim de Estudos Clássicos 52 67-77.
Martin, R. (1955), “Tacitus and the death of Augustus”, CQ 49 (5, new ser.) 123-128.
Martin, R. (1991), Les douze Césars: du mythe à la réalité. Paris. Les Belles Lettres.
Moatti, C. (2018), Res Publica. Histoire romaine de la chose publique. Paris, Fayard.
Montenegro Duque et al. (1983), Manual de Historia Universal. Vol. IV. Roma. Madrid, Nadjera.
Néraudau, J. P. (1996), Auguste. La brique e le marbre. Paris, Les Belles Lettres.
Paladini, M. L. (1954), “La morte di Agrippa Postumo e la congiura di Clemente”, Acme 7 313­‑329.
Pelling, C. (2008), “The triumviral period” in A. Bowman, E. Champlin, & A. Lintott, The Cambridge
Ancient History. Vol. X. The Augustan Empire, 43 B.C—A.D. 69. Cambridge, CUP 1-69.
Perrin, B. (1920), Plutarch’s Lives. Vol. IX. Demetrius and Antony. Pyrrhus and Gaius Marius. With an
English Translation. Loeb Classical Library edition. Cambridge MA, Harvard University Press.
Questa, C. (1959), “La morte di Augusto secondo Cassio Dione”, PP 14 41-55.
Rocca-Serra, G. (1974), “Une formule cultuelle chez Suétone (Divus Augustus, 98,2)”, Mélanges de philo-
sophie, de littérature et d’histoire ancienne offerts à P. Boyancé. Rome, Palais Farnèse, 671-680.
Rodrigues, N. S. (2002), “O retrato de Augusto em Flávio Josefo”, De Augusto a Adriano. Actas de coló-
quio de Literatura Latina (Lisboa, 2000. Novembro 29-30), 89­‑102.
Roldán Hervás, J. M. (1995), Historia de Roma. Salamanca, Ediciones Universidad.

45
Rolfe, J. C. (1913-1914), Suetonius, I e II. The Loeb Classical Library (reimpr. de 1979) Cambridge (Mass.),
Harvard University Press / London, Heinemann.
Salmon, E. T. (1956), “The evolution of Augustus’ principate”, Historia 5 456-478.
Scullard, H. H. (51982), From the Gracchi to Nero. London, Routledge.
Seager, R. (1972), Tiberius. London, Eyre Methuen.
Southern, P. (1998), Augustus. London/New York, Routledge.
Syme, R. (1974), “History or biography. The case of Tiberius Caesar”, Historia 23 481-496.
Timonen, A. (1993), “Emperors ars recusandi in biographical narrative”, Arctos 27 133-148.
Tompson, L. A. (1981), “The concept of purity of blood in Suetonius’ life of Augustus”, MusAfr 7 35-46.
Vasto, F. di (1985), “Il soprannome di Augusto e un’osservazione sull’itinerario di C. Ottavio”, PP 40
39-40.
Wardle, D. (2012), “Suetonius on Augustus as god and man”, CQ 62 307-326.
Wardle, D. (2014), Suetonius. Life of Augustus. Translated with introduction and historical Commen-
tary. Oxford, OUP.

46
2. Sociedade e cultura na época de Augusto

Francisco Oliveira
Universidade de Coimbra
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
ORCID: 0000-0003-4871-243X
foliveir@ci.uc.pt

Sumário: Para compreender a sociedade augustana são abordados os


seguintes temas: a crise institucional e política; o alargamento da litera-
cia em especial às mulheres; a evolução da moral sexual e das formas de
relacionamento amoroso; os problemas demográficos e tentativas para
os resolver; a questão do regime e sua legitimação, incluindo repressão
e condicionamento da opinião (lex maiestatis); e as consequências psi-
cológicas, sociológicas e literárias da evolução do otimismo augustano
para um pessimismo visível numa reação literária anticlássica.

1. Introdução1

Mesmo quando juramos cautela, a compartimentação de épocas, tanto em


literatura como em história, por vezes torna difícil perceber que muito daqui-
lo que consideramos próprio de uma época não é mais do que o ponto de
chegada ou a síntese de tendências, soluções ou problemas que têm uma já
longa elaboração.
Por isso, uma súmula sobre a sociedade augustana não pode ignorar desen-
volvimentos sociais e políticos cujas raízes se encontram na longínqua época
das Guerras Púnicas — trate-se da crise institucional e política, do alargamen-
to da literacia em especial às mulheres, da evolução da moral sexual e das

1
Trabalho desenvolvido no âmbito do projeto UID/ELT/00196/2013, financiado pela FCT –
Fundação para a Ciência e a Tecnologia, publicado em Oliveira 2010 e revisto para a presente edição
integrada no Projeto Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and the Shaping of Identity(ies)
(PTDC/LLT-OUT/28431/2017).

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_2
formas de relacionamento amoroso, visíveis tanto no teatro como nos elegíacos,
dos problemas demográficos e constrangimentos e tentativas para os resolver,
da questão do regime e da sua legitimação, incluindo as formas de repressão e
condicionamento da opinião, de que o célebre degredo de Ovídio seria um caso
tão complexo, quão exemplar.
Aliás, dois dos grandes lemas dessa época, o regresso ao passado e a ficção
republicana2, justificam metodologicamente uma atenção a essas mesmas raízes.

2. A crise institucional e cívica de fins da República

A sociedade augustana é o resultado imediato da crise de finais da República,


que se estendia da política à literatura, da filosofia ao quotidiano. E os romanos
não ignoraram essa crise, pois tentaram encontrar respostas várias, em todos os
campos onde ela se mostrava.
Lucrécio, apoiado na filosofia epicurista, propôs uma verdadeira rutura. Mas
o ideal quietista da escola, mesmo condenando a ambição política, a guerra ofen-
siva e o expansionismo3, não vai impedir a intervenção cívica, que deve cingir-se
à defesa da pátria quando esta é ameaçada. No âmbito da política externa, este
posicionamento afronta o cerne do belicismo e do imperialismo romanos. Quanto
à política interna — a ser verdade que a invocação de Vénus Genetriz na abertu-
ra do De rerum natura de Lucrécio é um eco de simpatia cesarista, por oposição
à Vénus Victrix cultuada pelos Pompeianos, e, apesar dos tratados epicuristas
sobre a realeza, como o de Epicuro ou, mais provavelmente, o de Filodemo de
Gádaros —, o apregoado quietismo da seita filosófica não impediu que um epi-
curista, Cássio, fosse um dos assassinos de Júlio César. Talvez pensasse que a pátria
estava em perigo, o que legitimava tanto a intervenção política como o assassínio
do tirano. Recorde-se cic. Rep. 2.46, sobre Lúcio Bruto e o derrube dos Tarquínios:

Então um homem eminente pelo génio e pela virtude, Lúcio Bruto, afastou dos seus
concidadãos aquele jugo injusto de uma dura servidão.

Também o poeta neotérico Catulo vai apresentar uma solução. Contra a seve-
ridade dos velhos que olham com desdém os novos costumes, contra os ideais de

2
Bradley 1997 364, sobre Pompeu: “he wanted his appointments to appear constitutional”;
Tac. Ann. 1.3.7, sobre Augusto: “Eram os mesmos os nomes das magistraturas”; 1.81.3: “propósitos
pomposos em palavras, mas ocos ou enganadores quanto a factos, e quanto mais se cobriam com
a aparência da liberdade, tanto mais desembocariam numa servidão bem funesta”; 4.19.4: “Era
característico de Tibério cobrir crimes recém-inventados com palavras antigas”.
3
Ver passos como Lucr. 2.38 gloria regni ‘a glória de reinar’, com reinterpretação racionalista
do mito de Sísifo em 3.995-1002; e, para o expansionismo, 1.29-30 “Faz com que, entretanto, as
ferozes empresas militares por mares e terras se deixem aplacar”; e 2.13 rerumque potiri ‘apoderar-se
do poder’. Cf. Oliveira 2015.

48
participação política tradicionais, representados por oradores como Cícero, contra
as ligações políticas baseadas no conceito de amicitia ‘amizade’, Catulo propõe um
valor novo, o amor único e obsessivo, celebrado num pacto de amizade sensual.
Com esta reformulação de conceitos, Catulo postula uma verdadeira revolução de
valores e costumes, numa sociedade que não valorizava o amor-paixão como
fundamento de uma ligação entre homem e mulher. Esta perspetiva vai ser con-
tinuada por elegíacos como Cornélio Galo, Tibulo e sobretudo Propércio, no
contraponto da visão do amor em Lucrécio, Horácio e Ovídio (Oliveira, F. 2009).
Todavia, tanto nos neotéricos como em Horácio, por escolha estética, a mensagem
seria destinada a um público intelectual restrito.
Outra proposta de solução da crise foi a apresentada por Cícero, numa linha
de pensamento que posso considerar restauracionista. Esta expressão é metafó-
rica, como se depreende do prólogo do livro V do Tratado da República, e na
prática tem algumas confluências com as ideias de Salústio e de Tito Lívio
sobre os inconvenientes das lutas entre fações, sobre a necessidade de regene-
ração moral e de uma concordia ordinum ‘concórdia entre ordens’, ou seja,
entre equites ‘cavaleiros’ e aristocracia conservadora (boni). Na sua visão mora-
lista, Cícero tem consciência muito aguda de que os tempos não iam a favor
dos valores republicanos, subvertidos por tentativas de poder pessoal e abusivo,
como no caso do poder tribunício, por decadência de costumes, e em especial
pelo desinteresse dos melhores em relação à participação política. O proémio
do livro I afronta exatamente as variadas controvérsias e doutrinas que favore-
ciam o afastamento da ação política.
Uma delas é o já referido quietismo político implícito no ideal epicurista
de voluptas, que concebe o prazer como critério de felicidade e que Cícero
integra na sua argumentação, quando escreve (Cic. Rep. 1.1):

Só quero tirar a seguinte conclusão: ao género humano foram dados pela natureza tanta
necessidade de virtude e tanto amor ao bem-estar comum, que essa força venceu todos
os atrativos do prazer e do ócio4.

Cícero tem de confrontar-se também com os estoicos que identificavam


virtude e saber, sábio e filósofo, mas que, com a sua teoria dos indiferentes,
reduziam a política a participação virtual e hipotética em casos extremos, mas
que dificilmente identificariam. Esses estoicos respaldavam-se num ideal con-
templativo e intelectual que, na verdade, os levava a desdenhar o vulgo, isto é,
a fugirem de se relacionar, na ação política, com os não sábios.
Mas Cícero, além de afrontar esses posicionamentos filosóficos que apelavam
à inação ou confinavam a intervenção cívica a uma capacidade de agir mera-
mente teórica, tem de esconjurar também a experiência prática daqueles que,

4
A ideia é reforçada em Cic. Rep. 1.3, que concebe a ação política como fonte de prazer:
“somos incitados a este prazer pelos estímulos da própria natureza”.

49
afinal, na política só tinham encontrado ingratidão. Trata-se, aqui, de um re-
gisto verdadeiramente inglório —por vezes traduzido no tema do exílio —,
sentido como verdadeira chaga que nem o cosmopolitismo cínico nem a teoria
estoica dos indiferentes fariam sarar em almas tão arreigadas à urbe como a de
Cícero5 e a de Ovídio6, ou mesmo a do Melibeu de Virgílio (Ecl.1). Nesse as-
peto, todos caminhavam na senda dos neotéricos, urbanos e requintados,
consagrando a grande característica da civilização romana, a cultura urbana7.
Por esse motivo, no célebre Sonho de Cipião, que encerra o livro VI e o
Tratado da República, numa verdadeira temática em anel, Cícero vê-se obriga-
do a reformular o conceito de glória para atrair os sábios e os melhores cidadãos
à política ativa, e fá-lo prometendo-lhes a verdadeira imortalidade, aquela que
colheriam quando, no momento estabelecido, a alma se libertasse do corpo e
fosse recolhida entre os astros (Oliveira, F. 2010a).
Esta aposta final torna-se universalmente convincente, pois tanto satisfaz
os políticos sem preocupações filosóficas como todos aqueles cujas doutrinas
inquiriam sobre a justificação da ação política. Este registo sincrético abrange
as tonalidades órfico-pitagórica, platónica e aristotélica, com reminiscências de
todas as filosofias helenísticas, incluindo o cinismo, e de teorias científicas
várias 8. E esse mesmo sincretismo quadrava muito bem com a mentalidade
prática e não especulativa romana, onde retórica e diatribe funcionavam como
cadinhos amalgamadores. De resto, mesmo sob o ponto de vista linguístico,
epicurismo e evemerismo encontravam na heroizição ou divinização do filan-
tropo e do bom governante uma imagem e uma conceção que lhes não
repugnava (cf. Lucr. 5.1-21).
Mas a proposta de Cícero também se focaliza na figura do governante su-
premo, cuja panóplia de designações varia conforme a perspetiva — moral,
económica, metafórica —, mas que, no plano da teoria política, provavelmen-
te se reduzia a duas hipóteses, princeps ‘príncipe’ e rector ‘regedor’. Por razões
que não vou aqui explanar, penso que, no plano meramente teórico, o registo
seria preferentemente rector9; no plano prático, admito que a hipótese princeps,

5
Ver Tratado da República, em especial 1.5-6 e Pro domo sua.
6
E.g. Tr. 4.10.113-114: não tem ouvintes; 5.12: estiola o engenho; e Cartas do Ponto.
7
Citroni 2006 362 para os neotéricos; a diatribe cínica não considerava o exílio um mal (cf.
Oltramare 1926 47, tese 19); o exilado Musónio Rufo exemplificou no fr.9 que o sábio é feliz onde
quer que esteja, porque todo o mundo é sua pátria, ideia nos antípodas de Ovídio, que parece
utilizar clichés tradicionais na literatura do exílio. A primazia da cultura urbana não impede por
vezes uma saudade nostálgica do refúgio campestre (cf. Hor. S. 2.6 e em especial Tibulo, e.g. 2.3).
8
Nesta questão, o ecletismo e o frouxo rigor científico vergam-se ao primado do objetivo ético:
cf. Oliveira 2008a 280 n.422; Nicolet 1988 69-95, que acentua o carácter político da geografia
entre os Romanos.
9
Ov. Tr. 2.37-40: genitorque deum rectorque ... patriae rector ... paterque ‘progenitor dos deuses e
seu regedor ... regedor da pátria ... e pai’; Met. 15.858-860; Plin. Nat. 2.18, sobre Vespasiano; Tac. Ann.
3.59.6: a Druso, sucessor de Tibério, chamam rectorem generis humani ‘regedor do género humano’.

50
que segundo alguns teria servido de matriz à titulatura dos imperadores roma-
nos, também quadraria com os precedentes existentes (princeps civitatis
‘príncipe da cidade’, princeps senatus ‘príncipe do senado’)10.
Por outro lado, o regime que se adivinha — onde um único detentor con-
centra o poder supremo, uma monocracia que só partilha algumas tarefas com
um corregente quando tem em vista preparar um sucessor, ou hipotéticos
sucessores —, necessita de estabelecer a sua própria legitimação e vai fazê-lo
através da força das armas, da legalização de magistraturas extraordinárias (II
Triunvirato), do assumir de poderes especiais ou magistraturas que garantem
ascendente ou capacidades essenciais (tribunicia potestas ‘poder tribunício’,
cura annonae ‘curatela da anona sc. abastecimentos públicos’, praefectura mo-
rum ‘prefeitura dos costumes’, consulado). Ora, neste caso, a manutenção da
designação republicana não esconde a alteração das caraterísticas, em especial
da anuidade e da colegialidade das magistraturas, antes disfarça a modificação
do conteúdo e até o seu esvaziamento. Mas tudo isso tinha precedentes, desde
Cipião Emiliano com o seu comando supremo entre 210 e 201, a Sila (ditador
entre 82 e 80), a Pompeu (poderes extraordinários e sem base legal, cônsul
único em 52), a Júlio César (praefectura morum em 46, tribunicia potestas em
45 e ditadura perpétua em 44)11, sem que, durante um século, o senado tives-
se conseguido impor-se a todos os arrivistas e ambiciosos que se sucederam.

Sidus Iulium, representado em denário de 36 a.C.,


©Wikimedia Commons

10
Tac. Ann. 1.9.7, sobre Augusto: “Que todavia o Estado não estava organizado como reino ou
sob uma ditadora, mas sob o nome de um príncipe”; 3.53.4: por comparação com edis, pretores
ou cônsules, “ao príncipe era exigido algo maior e mais relevante”. Nos Anais, Tácito reserva
o termo rector para algo como precetor de um jovem príncipe (1.24: Sejano, de Druso; 3.48:
Sulpício Quirino, de Gaio César); em 3.56.1-2 sobre a tribunicia potestas de Augusto, escreve:
“Foi essa a expressão que Augusto encontrou para o poder supremo, para não assumir o título
de rei ou de ditador”.
11
Suet. Jul. 76 desenvolve o caso dos poderes extraordinários de Júlio César.

51
Nesse novo regime, a necessidade de legitimação leva a reforçar ou criar um
sistema global de propaganda que utiliza todos os canais possíveis para reforçar
a mensagem, da arquitetura à numismática, da literatura à religião, da arte ao
espetáculo12, sem esquecer o culto imperial enquanto forma de lealdade enten-
dida como exaltação de evergetas e benfeitores da humanidade, no sentido em
que Lucrécio declarava Epicuro um deus e em que Cícero e Ovídio estabelecem
um paralelo entre Júpiter e o governante máximo13.
Este sistema de propaganda, que de qualquer forma tem antecedentes, em
especial em Júlio César14, vai assumir duas formas específicas: o histrionismo
do poder e o mecenatismo literário.
Sobre o histrionismo do poder pretendo designar três realidades, e todas
implicam a consciência de que o poder tem necessidade de contacto direto com
as grandes massas. A primeira faceta é a da promoção de jogos, com o próprio
imperador a aparecer como editor15, substituindo nessa função edis e pretores.
Augusto recorda nos seus Feitos essa realidade, que mesmo o imperador Tibério,
pela generalidade das fontes considerado severo e pouco sociável e afável (Plin.
Nat. 35.20), não deixou de incentivar16.
A segunda implica a construção de recintos e locais adequados. Na ótica da
vida quotidiana, a inauguração do primeiro teatro permanente, o de Pompeu,
logo seguido de outros, como o de Marcelo e o de Balbo, forneceu espaços

12
Uma boa perspetiva geral sobre a arte como veículo da propaganda augustana pode encontrar­
‑se em Zanker 1992, mas até nesse domínio é muito útil o livro de Galinsky 1996.
13
Lucr. 5.1-54; já o Salsicheiro de Aristófanes surge como numa teofania para salvar a pólis
(Eq. 146-149 soter ... phaneis ‘revelando-se ... como um salvador’); o próprio Augusto, que tão
bem soube aproveitar o aparecimento de um cometa, o Sidus Iulium (cf. Verg. Ecl. 9.47-49) em
favor da divinização do seu pai adotivo, em privado faria uma interpretação muito mais racionalista
(Plin. Nat. 2.93-94; Suet. Jul. 88 persuasione vulgi ‘por crença do vulgo’; Oliveira 1992 250-251
n.417 e 2016 47-48). Ver eventuais referências astrológicas e ideia de apoteose em Verg. Ecl. 4 e
5; Hor. Ep. 16.
14
Já nomeado ditador por 10 anos, César deixa-se eleger cônsul em 46 e 45, e, novidade
absoluta no mundo romano para um líder em vida, em 44 permite que a sua efígie apareça em
moedas (cf. Galinsky 1996 31). A importância da religião para a organização do Estado foi bem
entendida tanto por Júlio César, o reorganizador do calendário a quem Varrão dedica as Antiquitates
‘Antiguidades’, como por Augusto, que bem o testemunha nas Res Gestae, e.g. Anc. 19, 21 e 24;
recorde-se a importância do seu Sumo Pontificado.
15
Cf. Anc. 20.1 (restauro do Teatro de Pompeu), 21.1 (Teatro de Marcelo), 22-23 (jogos
vários, incluindo naumaquias).
16
Segundo Plin. Nat. 34.62, Tibério foi pressionado no teatro, pelo clamor do povo,
a restituir uma estátua de Lisipo, o Apoxiómeno; Tac. Ann. 4.2.4: Tibério recebe o epíteto
facilis ‘sociável’, relacionado com teatro (cf. 3.72, onde a comitas ou afabilidade é atribuída a
Germânico); em 1.54 apresenta alguma condescendência perante dissensões entre atores, mas
só o fazia por fingimento, para não romper uma tradição de tolerância herdada de Augusto,
e mesmo neste caso por atenção aos gostos de Mecenas; 1.76, Tibério não assiste a jogos de
gladiadores presididos por Druso, fosse por desprazer por multidões, fosse para não suscitar
manifestações do público ou dos atores e suas claques, como as relatadas no § seguinte; Suet.
Tib. 34 (regulamenta mas não proíbe).

52
vocacionados para pontos de encontro galantes que são dos lugares preferidos
por Ovídio para conquistas amorosas17. E é essa mesma realidade que permite
a Ovídio responder à objeção dos que acusam a sua Arte de Amar por convidar
ao vício (Tr. 2.277), com uma conclusão surpreendente: a ser assim, Augusto
teria que arrasar os lugares de encontro, a começar pelos teatros (Tr. 2.280;
2.313 ss.)! E, respondendo a outra acusação, se a Arte de Amar promove o
deletério ou nimia lascivia ‘excessiva lascívia’ (2.509 ss.), que dizer da política
augustana, que consente jogos, inclusive com mimos a representar cenas de
adultério e com donzelas, matronas e crianças na assistência, perante a passivi-
dade do imperador (Tr. 2.514)?!
A terceira refere-se tanto ao ambiente teatral e de simulação que regulava
as relações na corte imperial, como tão bem se anota nos Anais de Tácito, em
especial no tocante a Tibério, como ao facto de o imperador não desdenhar
apresentar-se ele próprio como atleta, artista ou ator, como Calígula e Nero18.
No aspeto sociológico, esta realidade permitiu a Paul Veyne 1976 defender que
os jogos contribuíam para a apolitização das massas. Com tal afirmação, pare-
ce esquecer que tais espetáculos suscitavam importantes movimentos de
oposição ao poder ou, pelo menos, funcionaram como barómetro de popula-
ridade. Assim, tanto no consulado de Júlio César em 59 a.C., como em 57
a.C., quando alusões ao exílio de Cícero se transformaram em manifestações a
favor do seu regresso, contra a vontade de Clódio (Cic. Sest. 115-132), em 57
e 55 a.C. com manifestações relacionadas com Pompeu19, como no final da
ditadura de Júlio César (Suet. Jul. 80.4), no reinado de Augusto, quando os
manifestantes gritaram contra as leis sobre o casamento (Suet. Aug. 34.3), ou
no de Tibério, obrigado por constantes reclamações do povo no teatro a resti-
tuir uma estatueta que o imperador desviara para uso privado, exatamente o
Apoxiómeno de Lisipo (Plin. Nat. 34.62).
Quanto ao mecenatismo, fenómeno extremamente estudado e nem por isso
menos controverso, trata-se de um movimento de proteção aos intelectuais que
se afirma quando se pretende reenquadrar ou retomar a “tradição da literatura
dirigida à comunidade política”, cuja ligação fora subvertida pelos neotéricos,
poetas no geral ricos e podendo descartar protetores20. Torna-se evidente que

17
Ov. Ars 1.89-100; Rem. 751-756 (não frequentar o teatro é um remédio contra o amor).
18
Para Calígula, ver Suet. Cal. 32.5 (treina-se com um gladiador mirmilão), 54 (suas exibições
em espetáculos vários); para Nero, abone-se com Suet. Nero 10.5, 11, 20-25, 49 (célebre exclamação
Qualis artifex pereo! ‘Que grande artista morre comigo!’).
19
Segundo Cic. Att. 2.19.3, no ano de 59 a.C., apesar de manipular contiones ‘reuniões e
assembleias informais’ e comitia ‘comícios, assembleias’, César, mal acolhido no teatro, reage com
desagrado, escrevendo a Pompeu, também ele visado; segundo Lucano, 7.9-12, na noite anterior
à batalha de Farsalo, Pompeu sonha com os aplausos recebidos no teatro. Sobre as manifestações
e sua eficácia, ver Oliveira 1993.
20
Citação de Citroni 2006 256-257. Sobre o estatuto social dos neotéricos, cf. Griffin 1985 116. A
nível institucional, o precedente está na proteção do Estado romano a Lívio Andronico e à corporação dos

53
os mecenas procuravam fomentar nos seus protegidos manifestações consentâ-
neas com os seus gostos e ideais; mas também é certo que isso não impediu
recusas ou escusas (recusatio), ou concretizou-se em meros apontamentos oca-
sionais21, e que, em última instância, o protegido tinha a faculdade de mudar
de protetor. É o caso de Virgílio e de Horácio, que transitam do círculo de
Polião para o de Mecenas, tendo Asínio Polião e Messala uma sensibilidade
menos empenhada em relação ao novo regime22.
No caso de escritores sem desafogo económico, a questão tem a ver com
a inexistência de quadro legal que permitisse a um escritor receber direitos
de autor, tornando-o dependente do apreço, da boa vontade e das benesses
dos grandes 23.
Mas não se pode entender mecenatismo, e refiro-me diretamente ao caso
de Mecenas, como puro policiamento e condicionamento da arte, pois que, ao
aceitar determinado mecenas, qualquer artista ou literato romano sabia que ia
estabelecer relações de clientela, desde os mais remotos tempos republicanos
reguladas por deveres e direitos mútuos, em especial a troca de serviços e apoios24.
Assim, ao integrar determinado círculo, o artista automaticamente fazia a sua
opção ideológica, uma opção consequentemente não imposta, mas consentida
e consciente. O caso é tanto mais interessante quanto Virgílio, o cantor dos
valores nacionais e da nova ordem nas Geórgicas — com homenagens a Octávio
e a Mecenas estrategicamente colocadas ao longo da obra, desde a abertura ao
fecho —, o cantor da gesta romana e da gens Iulia na Eneida, fora amigo de
Asínio Polião e de Cornélio Galo25. Por sua vez, em Horácio, o poeta do Carmen
Saeculare, perpassa tanto a ideologia augustana (proteção de Febo Apolo, apro-
ximação de Augusto à divindade, otimismo da nova idade do ouro, virtudes do
bom governante) como especificamente a ideologia do Principado (imagem do
governante como médico, com os registos linguísticos inerentes, como fessus
‘esgotado, cansado’, salutaris ‘salutar’), e em composições como o Epodo 9, as

escribas; a nível privado, na colocação da estátua de Énio no túmulo dos Cipiões e no próprio Círculo
dos Cipiões; ver entourage de letrados de grandes personagens como Sila e Quinto Lutácio Cátulo.
21
Hor. Epod. 14; Carm. 1.6 e 12, 4.15 e S. 2.1.10-20; genericamente, a opção neotérica pela poesia
menor implica a recusa dos géneros maiores; Propércio, e.g. 2.1, 3.1, 4.1, irá nobilitar a poesia erótica, em
consonância com a valorização que faz do amor como opção vivencial. Tal não o impediu de ocasionalmente
cantar Augusto e um tema tão significativo como a batalha de Áccio; cf. Cairns 1984 129-168.
22
Prop. 3.9.47-60: apesar da recusatio da épica, Propércio anuncia alguns temas patrióticos que
tratará no livro IV, desde que Mecenas lhe manifeste o seu agrado; cf. Gil 1985 133.
23
Habinek 1998 106, recorda tanto o pouco dinheiro pela venda dos livros como as queixas
de Juvenal em relação às benesses recebidas dos protetores.
24
Para a inclusão do mecenatismo nas relações de clientela, ver Saller 1982 7-39 e, em geral,
Galinsky 1996 225-287 e 245 (“The poets had their own minds”).
25
Recorde-se a hipótese de as Geórgicas terminarem com um elogio de Cornélio Galo, depois
da sua queda política substituído pelo episódio de Aristeu e Orfeu; cf. Griffin 1985 180-182.

54
Odes Cívicas e em especial as Odes Romanas26. Ora esse mesmo Horácio lutara
em Filipos, em 42 a.C., do lado republicano27.
Por outro lado, o mecenatismo terá correspondido essencialmente a uma pri-
meira fase do período augustano, aquela em que a memória das guerras civis era
ainda muito viva e experienciada pelos intelectuais em causa, em especial Virgílio
e Horácio. Num segundo momento, depois da consolidação desse processo e já
sem a memória direta dessa fase conturbada e traumática, e particularmente após
algum afastamento e a morte de Mecenas28, o próprio regime poderá ter envere-
dado por uma atitude de censura e até de rigor em relação aos intelectuais que
gravitavam em torno de Valério Messala Corvino, como o elegíaco Ovídio em 8
d.C., o historiador Tito Labieno em 12 d.C., o orador Cássio Severo entre 8 e 12
d.C.29. Consolidado o regime, talvez os próprios literatos sentissem menos neces-
sidade de o celebrarem ou entendessem que era tempo de dar voz a outras
realidades sociais, o que justificaria atitudes como as de Horácio, o qual “só se
tornou poeta lírico depois de Áccio” (Citroni 2006 522; cf. 439-440).
O próprio Ovídio, sendo de família equestre e por isso economicamente
independente30, mesmo na sua temática amorosa condena o amor-paixão e,
de acordo com a moral tradicional, apresenta exemplos de harmonia conjugal31.
Neste aspeto, o relato da partida de Ovídio para o desterro, com a consequen-
te despedida da esposa, na elegia Tr. 1.3, é uma soberba proclamação de um
exemplo do amor conjugal romano, o do próprio Ovídio e de Fábia, na qual
a realidade romana se entrecruza com os motivos da amante elegíaca, das
heroínas épicas e trágicas, numa linha de continuidade que liga, na exaltação

26
Hor. Carm. 3.1-6 (em especial sobre a primeira, ver Woodman 1984 83-94); cf. 4. 5 e 15.
Hor. Carm. 2.7. Veja-se DuQuesnay 1984 57: “after Philippi, Horace changed sides. He joined
27

Maecenas and that means that he committed himself to support of the Triumvirs and of Octavian”.
28
Refiro-me aos anos 23/22 e 8 a.C.; cf. Tac. Ann. 3.30; Suet. Aug. 66.6.
29
Ver Cizec 2008 140-142, para quem Cremúcio Cordo foi vítima do ódio de Sejano; Citroni
2006 642-643. Em relação a Cássio Severo (cf. infra n.99), diz Tac. Ann. 1.72 que, por iniciativa
de Augusto, ele foi a primeira vítima de uma interpretação abusiva da antiga lex maiestatis, sendo
condenado ao exílio, provavelmente em 8 d.C., por ter escrito libelos difamatórios contra particulares.
Quanto a Labieno, cujos escritos não seriam libelos, mas teriam dignidade literária, vendo os seus
livros queimados, encerrou-se no túmulo, onde se deixou finar. Ver Gil 1985 139-140.
30
Para a independência de autores de origem equestre ou aristocrática, como o mimógrafo
Labério, Varrão, Ático e os poetas neotéricos, cf. Citroni 2006 356-357. Parece que devemos
enquadrar aqui figuras tão relevantes como Messala, Asínio Polião, Salústio e Tito Lívio.
31
Catul. 61 e 68.73-76 (Protesilau e Laodamia); Cic. Att. 1.18.1 e Fam. 14.1; Tib. 2.2; Prop.
1.15 e 2.9 (exemplos mitológicos), 3.12 e 4.3.49: “todo o amor é grande, mas é maior o amor às
claras por um cônjuge”; Ov. Am. 3.13; Ars 3.15ss.; Tr. 3.3 à sua excelente esposa (optima coniunx);
Met. 8, e.g 631ss. (caso de Filémon e Báucis); Tac. Ann. 1.33: Agripina caracterizada por castitate
et mariti amore ‘pela castidade e amor ao marido’; 1.41.3: por praeclara pudicitia ‘por uma preclara
castidade’; 3.33-34: discurso de Valério Messalino e de Druso contra a proposta de impedir os
governadores de província de levarem as esposas no séquito. Para exemplos de amor conjugal e
adultério em Ovídio, ver Frécaut 1972 232 e, no geral, Griffin 1985 112 ss., em esp. 141 n.95.

55
do amor socialis ‘amor conjugal’, a Aretusa de Propércio às protagonistas das
Heroides, em especial Laodamia32.
Para além de supor a ideia de um governante único para o corpo do impé-
rio (cf. Tr. 2.231-234), Ovídio também apresenta consonâncias frequentes com
os lemas da política augustana33, particularmente na primeira versão dos Fastos,
anterior ao exílio e dedicada a César Augusto, conforme o próprio autor con-
fessa em Tr. 2.549-553, onde a afirmação da religião como instrumentum regni
‘instrumento de poder’ contraria a mensagem lucreciana e se aproxima do
movimento restauracionista religioso de Augusto34, cuja divinização é referida
no final de Fastos35 e cantada no fecho das Metamorfoses (15.745-870), onde,
sob a tutela de Vénus e em ligação com a lenda troiana (cf. Fast. 4.120-124),
o sidus Iulium assinala a divinização de Júlio César e a futura apoteose de
Augusto, sem que se possa em qualquer desses momentos encontrar sinal de
insinceridade. Daí afirmar Galinsky: “It makes no sense to call him anti-Au-
gustan or un-Augustan; in a way, he is the truest product of the Augustus age”36.
Note-se ainda que até no registo linguístico e concetual Ovídio compreendeu
a essência do regime augustano: assim, em Fast. 1.282, o tema do encerramen-
to das portas do Templo de Jano (Caesareoque diu numine clausus ero); em Fast.
1.617-636, a exaltação e justificação do cognome de Augustus, partilhado com
Júpiter37; em Fast. 1.709-724, o tema da Paz simbolizado pelo Altar da Paz ou
Ara Pacis; em Fast. 5.545 ss., a referência ao Templo de Marte Vingador e à
recuperação dos estandartes perdidos por Crasso frente aos Partos; em Fast.
2.119-142, a analogia entre Júpiter e Augusto, explorada a favor deste, com
ênfase no título de pater patriae ´Pai da Pátria’ e de princeps ‘Príncipe’, por
oposição a dominus ‘Senhor’ (Ov. Tr. 2.39 e 181). Deste modo Ovídio perfilha

32
Prop. 4.3, carta da esposa Aretusa ao marido Licotas, ao gosto das Heroides de Ovídio; Ov.
Ep. 13 (Laodamia e Protesilau), Tr. 4.3 (Fábia como esposa fiel e amante elegíaca), 5.14.28 e 36;
Met. 7.800; Pont. 3.1.73 e 105 ss.; cf. Fedeli 2008, esp. 109-110 n.78.
33
Ov. Tr. 2.61-64 afirma que os seus livros estão cheios de elogios de Augusto, tanto os que
foram objeto de reprovação passada como os que se anunciam para as Metamorfoses (Tr. 2.555-562),
que receberam inspiração do mesmo Augusto, a quem dedicara os Fastos (Tr. 2.547-552; em 14
d.C., em nova edição, a dedicatória passa para Germânico). Independentemente da discussão sobre
a natureza da adulatio ‘adulação, lisonja’ ou até sobre alguma ironia, certo é que o mesmo Ovídio
dirá que Augusto estaria pronto a perdoar (Pont. 4.6.13-16), como escreve Luisi 2008 37 (“Lo stesso
Ovidio ebbe sentore del perdono di Augusto”), relacionando com a hipotética reaproximação de
Augusto a Agripa Póstumo nos anos 7 e 8 d.C., promovida por Quinto Fábio Máximo (cf. Plin.
Nat. 7.150; Tac. Ann. 1.5; D. C. 56.30).
34
Fast. 3.420 sobre a importância do título de Pontífice: “aos títulos foi acrescentada a honra
do Pontificado”.
35
Fast. 4.954, que associa Febo, Vesta e Augusto: “uma casa única alberga três deuses eternos”.
Galinsky 1996 228. McKeown 1984 187, referindo-se aos Fastos, fala em “inability to
36

accomodate such passages to the general spirit of the poem”.


37
Fast. 1.587 ss. sobre os títulos do imperador, em esp. 608: “ele partilha o título com o
supremo Júpiter” (sc. Augustus).

56
uma visão republicana e benévola do poder de Augusto, na linha do que Cícero
escreve em Rep. 1.64 seguindo Énio e tendo Rómulo como paralelo:

Não chamavam ‘donos’ nem ‘senhores’ àqueles a quem haviam obedecido, de acordo
com a justiça, enfim nem sequer ‘reis’, mas ‘guardiões da pátria’, mas ‘pais’, mas ‘deuses’.

Gera-se mesmo a ideia de um vicariato de Júpiter38, igualmente em paralelo


com o preceituado em Cícero para o governante ideal, o qual recebeu a missão
de “zelar por aquele globo que vês no meio deste templo e que se chama Terra”39.
Em suma, como escreve J.-P. Martin (2006-2008 88), “Ovide a réalisé là le
travail de compréhension le plus précis qui ait jamais été fait de la pensée et
des désirs d’Auguste”.
De resto, os amores galantes e sem compromisso afetivo que Ovídio apresen-
ta em Amores, Arte de Amar e Remédios de Amor40, têm por objeto uma amica
‘amiga, amante’, meretrix ‘meretriz, cortesã’, ou puella ‘jovem, donzela’, cuja cara-
terística básica é a infidelidade ou a partilha do seu amor, caraterísticas da meretrix
já retratadas no teatro plautino e terenciano. Desse modo, dificilmente podiam
ser ofensivos da moral41, tradicionalmente tolerante com esses amores desde que

38
Em Tr. 2.54-55 refere-se-lhe como deus ‘deus’ e vir maxime ‘o maior dos homens’ onde deus
é, portanto, elogio hiperbólico na linha do evemerismo, a exemplo de Verg. Ecl. 1.6-8 (deus) vs
1.42 (illum ... iuvenem ‘aquele ... jovem’), como observa Ramage 1987 100 n.243. Para a apoteose
de Augusto, cf. Hor. Ep. 1.17.33-35 (alusão) e, para o vicariato de Júpiter, Carm. 1.12; Plin. Nat.
27.3 em relação ao Império Romano.
39
Cic. Rep. 6.13-15, em conjugação com 1.50 e 56; cf. Oliveira 2008a 254 n.115 e 2011 23;
Hor. Carm. 1.12 e 3.5; Ov. Tr. 2.33-40 e Fast. 2.131-132.
40
Frécaut 1972 230: “Ovide annonce dès l’abord son dessein qui est d’étudier uniquement la
technique des liaisons galantes, d’en dégager des règles qui serviront à l’édification des libertins; sans
doute, il délimite clairement son champ d’observation d’où il veut bannir tout ce qui se rapporte au
mariage, à la famille, à l’adultère”. Opinião contrária tem Boyd 1997 16: “Ovid uses the normally
conservative role of didactic poet to challenge and subvert the moralizing legislation characteristics
of Augustus’ reign ... cause of eventual exile”. Por outro lado, a condenação da poesia erótica em
Rem. 757-766 é justamente feita no quadro da cura do amor-paixão, que em Verg. Ecl.10 aparece
sem remédio. Ver infra n.70.
41
Especificamente em relação à Ars e em resposta aos seus detratores, que pelos vistos eram
antigos (cf. Ov. Rem. 361-398), o próprio Ovídio abona com uma autocitação de Ars 1.51-54,
afirmando que o imperador “não encontraria nenhum motivo de acusação na minha Arte de Amar ...
nada contrário às leis ... nada para além das escapadelas consentidas” (Tr. 2.239 ss.; cf. Pont. 3.3.69).
Nos v.305-306 escreve: “E para longe da minha Arte de Amar, escrita somente para meretrizes, logo
a primeira página afasta mãos bem nascidas”. O problema era essencialmente ideológico: a levitas
‘leveza, leviandade’ e o otium ´ócio, lazer’ neotéricos — e Ovídio insiste no carácter de devaneio e
jogo, com frequência irónico, da sua poesia erótica, tal como o seu epitáfio quadraria com a epígrafe
“CANTOR DE TERNOS AMORES”, de acordo com Tr. 3.3.73-75, cf. 4.10.1 —, contradiziam
a gravitas ‘gravidade’, a severitas ‘severidade’ e o onus ‘ónus’ ou pondus ‘peso’ tradicionais (Ov. Tr.
2.213 ss.). Apesar disso, mesmo na elegia por vezes ocorrem tonalidades épicas (cf. Tib. 1.7, a
Messala) e os elegíacos ocasionalmente avançam para estilos mais elevados, como na narrativa das
Metamorfoses, concebida como uma alternativa à Eneida, no dizer de Galinsky 1996 262.

57
não estivesse em causa o património familiar, a reputação ou o cumprimento dos
deveres cívicos42. É essa logo a afirmação inicial da Arte de Amar, onde, conscien-
te de ausência de algo ilícito ou de contrário à ideologia augustana, afirma que o
seu livro não se destina nem a donzelas honradas nem a castas matronas, as que
usavam fitas (vittae) e toga ou túnica comprida (instita longa), nem canta amores
adúlteros, que, pelos perigos de castigo inerentes, não eram seguros (Ars 1.31-34):

Mantenham-se longe, ó delicadas fitas do cabelo, insígnia do pudor,


e tu, ó larga toga, que desces até meio das pernas.
Nós vamos cantar uma Vénus segura e escapadelas consentidas,
e no meu canto não haverá qualquer motivo de acusação.

E não me parece fácil contestar que, sob o ponto de vista da temática amorosa,
Ovídio não diz nada que não tivesse já sido dito por neotéricos e elegíacos, herdeiros
da poesia alexandrina e da Antologia Palatina, e de forma muito mais ofensiva para
a ideologia augustana43, ou mesmo que não estivesse já delineado na comédia nova,
na comédia latina 44, na sátira de Lucílio, em Lucrécio e Horácio (Oliveira, F. 2009).
E até mais do que nos precedentes literários, o tema dos amores galantes fazia
parte da vida quotidiana, que convivia com profusa iconografia de exemplos de amo-
res ligeiros reminiscentes da mitologia, do drama, da épica, da pintura e da escultura45.

3. Alargamento da cultura. Literacia feminina

Uma das grandes características do final da República e início do Principado


é uma verdadeira explosão da divulgação da cultura e da literacia, que, sendo
comprovada inclusive com a descoberta de bibliotecas em campos militares, do

42
Cf. Ov. Fast. 4.133-164, sobre Vénus Verticordia, a que muda os corações; Cic. Cael. 28,
42-43, 48 ss.
43
Ov. Tr. 2.361: “Enfim, não fui o único a cantar ternos amores”. Neste ponto, concordo com
Habinek1998 155-156: a auto-defesa de Ovídio oferece a Augusto uma oportunidade para alterar o castigo.
44
O próprio Ovídio o recorda em Tr. 2.369: “Não há comédia do popular Menandro despojada
de temática amorosa, / e ele é correntemente lido por rapazes e donzelas”. A relação entre comédia,
e mesmo tragédia, e elegia está bem documentada em Griffin 1985 203-210, e cito p.207: “These
ressemblances between Comedy and Elegy are more than verbal echoes. They relate to central
ideas and attitudes of the genre”.
45
Cf. Pl. As. 174-175: figura da meretriz em escultura e pintura; Ter. Eu. 583-589: contemplação
de pintura de Júpiter e Dânae prepara o estupro (cf. Prop. 2.32.59-60 e Griffin 1985 139: “a woman
taking money”); carme 64 de Catulo (bodas de Peleu e Tétis, com écfrase de pintura do mito de Teseu
e Ariadne a ilustrar os perigos do adultério); Prop. 2.6.27 ss., sobre pintura erótica de paredes; Ov.
Met. 10.242-297: estátua feita por Pigmalião (‘womanufacture’, como escreve Wyke 2002 161-163);
Tr. 2.420, 521-528: pintura erótica exposta em público e em privado; cf. Plin. Nat. 35.17-18, 70 e 72;
36.22 e, para as artes decorativas, 14.140: “vasos gravados com adultérios”, e 33.4: “O estímulo dos vícios
fez crescer até a arte: tornou-se moda gravar motivos libidinosos em taças e beber por obscenidades”.

58
Eufrates à Britânia46, se estende de modo especial ao público feminino e for-
nece uma explicação sociológica para o facto de a mulher se ter tornado fonte
de inspiração na elegia amorosa47.
No caso da cultura feminina, os precedentes explícitos não são muitos, mas
existem, com registos em Lucílio, em Terêncio, no epitáfio de Cornélia mãe
dos Gracos, do séc. II a.C. (“aprazível a sua fala”)48.
Sendo certo que a poesia neotérica supõe um círculo literário restrito onde a
mulher era elemento ativo, todavia, a obra de Ovídio é, nesse aspeto, a mais clara
afirmação da importância dos novos públicos, não pela inexistência de precedentes
isolados de voz feminina49, mas por um conjunto de fatores explícitos que claramen-
te lhe permitem definir um público-alvo feminino e generalizado: a dedicatória do
livro III da Arte de Amar; o facto de o destinatário implícito de Remédios de Amor ser
também feminino; o surgimento de uma literatura com voz e pontos de vista femi-
ninos nas Heroides50. E é extremamente sintomático que Ovídio tenha consciência
desta realidade sociológica irreversível quando se defende dos detratores que, embo-
ra concedendo que o público de Ovídio não são as matronas, o acusam de permitir
que estas aprendam as malas artes dos amores lascivos junto daquelas a quem o livro
é destinado. Contrapõe ele que isso seria supor que uma matrona ficaria impedida
de ler o que quer que fosse (v.265: ‘motivo de acusação, qualquer livro o tem’), pois
nos mais insuspeitos autores, como Énio, iria encontrar histórias de devassidão51.
Sendo este o exemplo sociologicamente mais relevante dos novos públicos,
não é de menos importância a feitura das obras em função de um público de
não especialistas, o que supõe uma vertente de divulgação que encontramos em

46
Habinek 1998 118. A inscrição de Vipasca é também elucidativa.
47
Cf. Prop. 2.1.4: é a amada que dá inspiração; Griffin 1985 54-55.
48
Sobre a cultura feminina, em especial da matrona de classe elevada, ver Hemelrijk 1999.
49
Sobre o círculo catuliano, cf. Citroni 2006 347. Recordem-se a poesia neotérica das filhas
de Hortênsio e de Cornifício (Citroni 2006 356); a Semprónia de Sal. Cat. 25 (posse versus facere);
a saphica puella de Catul. 35; o epitáfio de Cornélia em Prop. 4.11; a carta de Aretusa a Licotas
em 4.3; a poesia de Sulpícia (Tib. 3.8-18). Em relação à maioria destas vozes femininas, poesia
de autoria masculina, Habinek 1998 122 ss., e.g. 130, usa a expressão ‘ventriloquism’ para se
referir à inexistência de expressão oral feminina e de falta de visibilidade social própria (casos das
Heroides de Ovídio e da Élia Gala de Prop. 3.12); uma perspetiva feminista encontra-se em Wyke
2002, esp. 155-191.
50
Prop. 2.13.11-12: “Que o meu prazer seja recitar versos no regaço de uma jovem culta, / e
ver os meus poemas aprovados pelos seus ouvidos sinceros”; 2.24.22; 3.3.19: “se uma multidão de
donzelas aprecia os meus versos?”; cf. Ov. Tr. 2.435‑436: referência a Perila, um caso bem destacado;
Habinek 1998 134-136, na p.124 observa que, no geral, “learned women are not in turn authors”.
51
Ov. Tr. 2.253-264; em Pont. 3.3.49-69, Amor atesta que não ensinou adultérios a matronas;
cf. Tib. 3.1.7-8, atribuído a Lígdamo: “As formosas seduzem-se com um poema, as avaras com
o pagamento”. Todavia, o argumento é essencialmente formal; cf. Hemelrijk 1999 80: “the type
of the docta puella poetry adored in love poetry may have inspired some upper-class women to
follow their example in certain respects”. A meu ver, está aqui implícito o receio de confusão entre
matrona e meretrix; cf. Wyke 2002 35 para a conexão entre amante elegíaca e mulher augustana e
113-114, sobre a Cíntia e a Aretusa de Propércio; e Oliveira 2009.

59
Cícero, com a escolha do diálogo como forma de cativar público vasto em obras
como Tusculanae, de senectute, de amicitia; no Horácio das Sátiras; em Varrão,
no de vita populi Romani e nas Sátiras Menipeias; em Tito Lívio; em Higino;
em Germânico e em Plínio o Antigo, que escreve:

Existe, além disso, um generalizado repúdio pelos mais eruditos. Usa-o até Marco Túlio,
que está acima de qualquer suspeita quanto ao seu talento, e, para nossa maior admi-
ração, defende-se com um advogado: Não é para os mais doutos. † Eu não quero Mânio
Pérsio a ler isto; quero Júnio Congo. Ora se Lucílio entendeu falar assim …52.

Tal alargamento torna possível a decisão de Ovídio de não dedicar a sua obra a
um destinatário individualizado, mas ao público em geral, indeterminado e vasto.
No final da República, o interesse pela cultura alarga-se extraordinariamen-
te e abrange campos que vão da pintura à geografia e etnografia e se espelham
em excursos astronómicos, geográficos e etnográficos de autores tão diversos
como Cícero, Salústio, Júlio César, Ovídio, Séneca53 ou Tácito, e em domínios
tão variados como os exempla retóricos, os mirabilia, a mitologia, a botânica,
a astrologia e a zoologia, assumindo uma vertente unificadora no enciclopedis-
mo de Varrão e de Plínio o Antigo.
O incremento da cultura era de tal modo forte que Roma se sente guindada
à condição de centro cultural, ideia a que Cícero dá voz no Discurso em Defesa
do Poeta Árquias, ao atribuir a Roma a capacidade de exercer uma arbitragem
ou julgamento sobre o talento (ingenii arbitrium / iudicium), isto é, de valorar,
premiar e consagrar a qualidade artística, destinando à imortalidade o poeta que,
ao celebrar Roma, também a destinara à perenidade54. É esta a essência do dis-
curso, que sintomática e coerentemente desvaloriza o caso jurídico em apreço.
É também revelador que a própria anomia de algumas ordens sociais, in-
cluindo a dos equites — que se virá a transformar numa elite funcional
fortemente empenhada na produção intelectual e na promoção da cultura —,
gerará um desenvolvimento cultural de extrema amplitude, que se traduz na
exposição pública e privada de obras de arte, mapas arquitetónicos, leituras
públicas com respetivos auditórios, bibliotecas públicas — como a projetada
por César e Varrão e depois aberta por Asínio Polião no templo de Apolo no
Palatino, em 28 a.C., a suceder às bibliotecas privadas ou semi-públicas ante-
riormente existentes, como a de Luculo, cenário dos livros III e IV do de
finibus de Cícero —, e se alarga à movimentação editorial implícita tanto nos
Paedagogia de Ático como nas sucessivas reedições de Ovídio. Recordem-se

52
Ver Cic. Rep. 1. fr.1c = Plin. Nat. pr. 7: a procura de destinatários que não são “os mais
doutos” liga sintomaticamente Lucílio a Cícero e Plínio o Antigo.
53
Para citar um único exemplo, veja-se o catálogo das cidades gregas em Sen. Tro. 814-861,
onde a curiosidade geográfica das troianas quase esconde as suas dores de cativas.
54
A expressão ingenii iudicium ou ingenii arbitrium é-me sugerida por Plin. Nat. pr. 6 e 7.108.

60
ainda os livros ilustrados, as esferas e planisférios para estudar astronomia, as
técnicas de restauração, o surgimento de museus e parques zoológicos55.
Tão grande fermentação intelectual, que transforma a cultura em moda, com
o inerente snobismo e exagero de alguns (cf. Cic. Fin. 1.10), implicava porven-
tura uma cultura livresca que por vezes seria mais superficial do que profunda,
fornecida por cartilhas, coletâneas, pintura, prontuários de leitura rápida, catá-
logos de exempla ‘exemplos’ retóricos tipificados e repetitivos. Seria este tipo de
cultura, de que recordamos os Erotika Pathemata ‘Padecimentos de Amor’ do
poeta helenístico Parténio, que em parte tornava possível uma literatura como as
Metamorfoses e Fastos de Ovídio, os Feitos e ditos dignos de memória de Valério
Máximo, dedicados a Tibério, e a sobredose de referências mitológicas nos ele-
gíacos em geral, com exceção de Tibulo, que haveria de provocar uma completa
expurgação posterior de todo o aparato mitológico em Lucano.
Por outro lado, o interesse do grande público pela cultura tornava a própria
cultura ainda mais apetecível como arma de condicionamento da opinião,
através da propaganda e do mecenatismo cultural. Horácio revela consciência
desse movimento, no qual todavia vê necessidade de acautelar a escolha crite-
riosa dos veículos da mensagem56.

4. Demografia

No plano demográfico, o final da República e inícios do Principado é também


um momento de crise, tanto na questão da natalidade como na taxa de mortali-
dade. O problema demográfico torna-se de importância acrescida por razões de
recrutamento de tropas, sendo por isso mais agudo em momentos de guerras
prolongadas e em especial durante as proscrições e guerras civis, mas também por
necessidade de recrutamento de pessoal administrativo para gerir um império
cada vez mais largo e em vias de centralização burocrática, e não apenas política.
Para resolver o problema da base de recrutamento militar, os Romanos, que
não tinham a tradição de utilizar tropas mercenárias, encontraram várias soluções:
a imposição de obrigações militares nos tratados celebrados aquando da deditio
ou da integração no Estado Romano; o alargamento da base de recrutamento
com a remuneração do serviço militar; a extensão da duração do serviço; e,
sobretudo, o recrutamento de tropas auxiliares, que eram as primeiras a entrar

55
Depois da primeira em 39 a.C., a abertura de bibliotecas públicas teve seguimento imediato
com as instaladas por Augusto no Templo de Apolo em 28 a.C. e no Pórtico de Octávia em 23
a.C ; sobre a presença de temática amorosa em todos os géneros e autores, cf. Ov. Tr. 2. 419-420:
“E esses temas, misturados com as obras de doutos varões, / foram postos à disposição do público
graças à munificência dos chefes”. Habinek 1998 103-121 procura demonstrar que a aristocracia
curou de enquadrar tal movimento de modo a continuar a sua hegemonia.
56
Hor. Ep. 2.1, 2.2.1-140, 2.3 (Carta aos Pisões); cf. Habinek 1998 88-102.

61
em combate57, com os legionários a serem lançados na batalha somente em si-
tuações mais difíceis (Tac. Ag. 18, 32, 35-36) — prática que os inimigos dos
romanos viam como sinal de fraqueza58.
Uma consequência lateral desta situação concretizou-se na devoção dos
militares ao seu chefe, aquele que lhes garantia o pagamento do soldo e, sobre-
tudo, de um montante significativo no termo do serviço, que significava de
facto o pecúlio da reforma59. Não podemos esquecer que a noção de segurança
social ou Estado providencial não existia e que a satisfação das expectativas das
tropas era uma condição de segurança que, à falta de pagamento em espécie,
era satisfeita com a distribuição de terras, muitas delas confiscadas ou expro-
priadas. Foi o que sucedeu na Campânia, em 59 a.C., para os veteranos de
Pompeu, e depois da batalha de Filipos em 42 a.C., com desapossamentos que
deixaram eco nos Rerum rusticarum libri de Varrão, atingiram a propriedade
do poeta Virgílio (cf. Ecl. 1 e 9) e acaso também a de Horácio, e são referidas
por Suet. Jul. 38. Foi o que também sucedeu quando Augusto desmobilizou
32 legiões após a batalha de Áccio60.
Mas se para o recrutamento militar se iam encontrando várias soluções, já
o fomento da natalidade de cidadãos e a sua preparação ou educação para ta-
refas de cidadania e de exercício de funções administrativas e dirigentes se
revelava mais difícil. A situação já se colocara durante a II Guerra Púnica, por
131 a.C., certamente perante um quadro demográfico negativo relacionado
com as inúmeras guerras e a necessidade de governar mais territórios, tendo
Quinto Cecílio Metelo Macedónico pronunciado um discurso em defesa da
natalidade (de prole augenda), conhecido através de Aulo Gélio e com eco em
Lucílio, fr.678-9 M:

Os homens para si mesmos preparam esta moléstia, e mais que isso,


a maior das desgraças: arranjam mulher, geram
filhos e, com eles, tais desgraças fabricam.

57
Cf. Tac. Ann. 3.45.1: contra Sacrovir, Sílio “avança com duas legiões precedidas de tropas
auxiliares”.
58
Ver Tac. Ann. 3.40.5 (discurso de Sacrovir): “nos exércitos de Roma não havia ninguém válido
para além dos estrangeiros”. Para os problemas militares em geral, remeto para Varandas 2010.
59
Os Commentarii de Sila e de Júlio César, ao fixarem nomes de simples soldados, deixam perceber
essa realidade; Sal. Cat. 11.5-6 culpa Sila pela perversão do exército para assegurar a sua lealdade
(cf. Jug. 96); Tac. Ann. 1.17.6‑9 testemunha a rebelião de tropas por causa do soldo; cf. Suet. Jul.
25.5 (César duplicou o soldo), Aug. 49.3: “fixou uma tabela fixa de estipêndios e prémios”; Nero
32.1: “a ponto de se tornar necessário suspender e adiar os estipêndios e os benefícios dos veteranos”.
60
Ver Hor. S. 2.6.55 ss.; Anc. 3 (instalação de 300.000 veteranos em colónias, que terão sido
28), 15.3, 16 e 17; Bradley 1997 463). A devoção ao chefe era uma consequência tanto da reforma
militar mariana, com recrutamento de capite censi e respetivo pagamento, como dos precedentes de
recrutamento privado de legiões para intervenção em favor do Estado, sejam os casos de Pompeu
durante a Guerra Social (Plin. Nat. 7.95-98) e de Júlio César nas campanhas da Gália (Suet. Jul. 24.2).

62
Tal situação agravara-se posteriormente, a partir da época dos Gracos, com
a violência política, as proscrições de Sila e posteriormente dos triúnviros, a
Guerra Social, as revoltas do escravos e, finalmente, as Guerras Civis, a afirma-
ção de Augusto e do seu regime, circunstâncias que provocaram dizimações por
toda a Itália e em escala inaudita, com as proscrições do II Triunvirato a liqui-
darem, só por si, 300 senadores, entre eles Cícero, e 2.000 equites. Mesmo
quando essas guerras fratricidas, plus quam civilia ‘mais do que civis’ (Luc. 1.1),
se passavam fora de Itália, como em Dirráquio, Farsalo, Filipos e Útica, os seus
agentes eram cidadãos romanos e as chefias das camadas dirigentes.
A situação era agravada por dificuldades e obstáculos insuspeitos à procriação:
pesadas restrições, inclusive de ordem económica, como a limitação da fortuna à
propriedade fundiária, recaíam sobre os senadores; novas regras de higiene, como
os banhos quentes, provocavam infertilidade masculina, e a água canalizada fazia
grassar o saturnismo; hábitos alimentares prejudiciais, como os banquetes (cenae)
recheados de iguarias exóticas, causavam graves problemas de saúde61; filosofias
que apregoavam a misantropia, como o cinismo, ou que consentiam o casamento
mas sem entusiasmo, como o epicurismo, ou que, no caso de alguns estóicos,
celebravam ideais teóricos e contemplativos, constituíam obstáculos pouco con-
sentâneos com apego à família ou preocupações com a procriação.
É também de admitir que a mesma consequência resultasse da nova ênfase
no amor-paixão, que está presente em Virgílio, tanto na figura trágica de Dido
na Eneida como nas Bucólicas e até com tonalidades homo-eróticas, como nas
Ecl. 2.8 e 10 ou em Catulo e Tibulo, inclusive na arte de amar pederástica da
elegia 1.4. Esse novo ideal viria a ser transposto para o interior da relação ma-
trimonial e nesta buscaria os modelos de conjugalidade e fidelidade inerentes
aos códigos do amor elegíaco, em especial com Propércio, o qual “procurou
recuperar, na nova ética do amor livre, certos valores específicos do casamento
e investi-los daquele calor passional que, no matrimónio, era normalmente
desvirtuado” 62. Ora, para além de retardar o casamento, tal ênfase levaria à
preferência por uniões em que a procriação era uma impossibilidade ou um
inconveniente, sobretudo para a mulher, ou que, mesmo dando filhos, não
produziam cidadãos63.

61
Cf. Catul. 44.1-9; Hor. S. 2.2.70 ss.; Plin. Nat. 9.104, sobre a moda de peixes e mariscos:
“em toda a natureza, o mar é a coisa que mais dano causa ao ventre, e de várias maneiras”; 14.
37 ss.; 26.43: “os costumes chegaram a um ponto tal que a comida é a principal causa de morte”.
62
Veja-se Tib. 3.3.31-32, atribuído a Lígdamo: “Cultivem outros esses desejos; a mim, seja-
me consentido, vivendo na modéstia, poder fruir em segurança da minha querida esposa”; cf.
Citroni 2006 567. Por outro lado, o modelo elegíaco vai colorir a relação conjugal, como quando
Ovídio transforma a uxor amans ‘esposa amante’ Fábia em heroína elegíaca (cf. Tr. 1. 3; Fedeli
2008 90-94 e 111).
63
Cf. Ov. Am. 2.13 e 14. Para uma abordagem do problema do aborto e da contraceção, ver
Oliveira 2008b, em esp. p.73, 77 e 81-82 e notas correspondentes.

63
Aduzo uma última razão para a dizimação da camada dirigente e o desa-
parecimento de famílias da aristocracia e da nobreza: a anomia decorrente,
por um lado, dos novos papéis, mais ativos, igualitários e masculinizados da
mulher, que poderia provocar algum desconforto e arrepio em homens inca-
pazes de se adaptarem a essa intrusão na esfera do masculino 64, e, por outro,
a dificuldade de adaptação a um novo tipo de relacionamento com a comu-
nidade cívica e com o regime, o que, mesmo descontando a clementia de César
e em parte de Augusto, levou a oposições e, sobretudo, à banalização do
suicídio, muitas vezes aceite em alternativa à execução, outras vezes adotado
como protesto, e em consequência exercido num ambiente encenado (cf. Tac.
Ag. 42 ambitiosa morte ‘morte cheia de fausto’). De outra forma, os processos
movidos por delatores de classes elevadas contra os seus pares, que têm pre-
cedentes na época dos Gracos, anunciam uma verdadeira autofagia no
ambiente da corte ou no senado, que julgava as causas onde os senadores
estavam implicados 65.
A relegatio ‘relegação, desterro’ de Ovídio pode ser exatamente relacionável
com esta anomia, se porventura o crimen ‘crime’ praticado tem a ver com co-
nhecimento ou implicação nalguma conjura66, ou mesmo se, como me parece
mais provável, as opiniões de Ovídio se inclinaram para o elogio de uma linha
política antoniana, hostil a Tibério e favorável a Germânico, ou foram conside-
radas convicium ‘vitupério’ contra a pessoa do príncipe e portanto sancionadas
com base na lex maiestatis existente desde tempos republicanos67.

64
Para o importante papel social e político desempenhado pelas mulheres dos exilados e para
a imagem da mulher masculinizada e castradora em Ovídio, ver Oliveira – Torrão 2010; Fedeli
2008 103-104 observa que o argumento da utilitas ‘utilidade’ justifica que Fábia não se suicide
para poder prestar auxílio a Ovídio exilado. O igualitarismo sexual, por vezes sob a forma de
primazia, iniciativa e violência da mulher, é um pressuposto em Lucrécio e na imagem da Lésbia
de Catulo, e.g. 8, 107 e 109; Tib. 1.6.67-72, 2.1.75-78, 2.3.79 (imperium dominae ‘o poder da
senhora’; cf. Cic. Cael. 67, imperatrix para definir Clódia) e 2.4; Prop. 2.20.27: “Apesar de muitos
te procurarem, tu só a mim procuravas”; diria mesmo que é a condição do servitium amoris ‘serviço
amoroso’ elegíaco, também conhecido como milícia erótica, e dos motivos do exclusus amator ‘amante
posto fora da porta’ e do paraklausithyron ‘serenata diante de uma porta fechada’. Ver Griffin 1985
54-55 (capacidade de a mulher dizer não ao amante); 206-207 (a sujeição do amante à mulher
tem origem na comédia plautina).
65
Tac. Ann. 3.66.1: “Depois passavam pouco a pouco do indecoroso ao perigoso”; Citroni
2006 239-240: delatoresn lançam ataques contra a aristocracia senatorial na época dos Gracos. A
lex Paedia de interfectoribus Caesaris de 43 a.C. punia com interdição de água e fogo e confiscação
de bens dos cesaricidas, recompensando os delatores (crime tipificado como parricidium publicum);
Rotondi 1966 435; Suerbaum 1971 61-99, esp. 69 n.21.
66
O error ‘erro, engano’, distinto de scelus ‘delito’, referido em Trist. 2.109 e 208, 4.10.90.
67
A suposição de um erro político real e enquadrável no crime de maiestas ‘lesa-majestade’ (ver,
entre outros passos, Tr. 1.5.84: laesi ira dei ‘a ira de um deus lesado’; 2.108: laeso numine ‘lesado
um ente numinoso’; 2.123-4: laesi Caesaris ira ‘a ira de César lesado’; 3.6.23: numinis ut laesi ...
ira; 4.10.8: laesi principis ira ‘a ira do príncipe lesado’) parece-me defendida com bastante lógica
por Luisi 2008, esp. p.23-25 (sobre o triângulo amoroso entre Helena, Menelau e Páris) e 31-45.

64
Como procurou Augusto resolver estes problemas demográficos? Antes de mais,
repita‑se que o que preocupava Augusto era a carestia de cidadãos, e, antes de mais,
de cidadãos da elite, conforme decorre do clausulado da legislação que promulgou
sobre adultério e casamento em 18/17 a.C. (lex Iulia de adulteriis coercendis e lex
Iulia de maritandis ordinibus), e que veio a reformular em 9 d.C. com a lex Papia
Poppaea, com o objetivo de regular a moral sexual e incrementar a natalidade. Mas
torna-se difícil imaginar Augusto ofendido por uma Arte de Amar publicada por
Ovídio entre 1 a.C. e 1 d.C., pior ainda reagindo uns sete anos depois da sua
publicação e um quarto de século distante da primeira legislação moral68.
Este raciocínio parece-me igualmente válido mesmo no caso de se admitir
que o poeta finge quando insistentemente apregoa que o seu amor galante não
é o amor procriativo e regulado pelo casamento, mas o amor multívago de
Lucílio, de Lucrécio e de Horácio, em suma, o amor vulgar e até meretrício.
E cabe recordar, a este propósito, que a ocorrência de termos como matrona
‘matrona’ vir ‘homem, marido’ uxor ‘esposa’ não se refere necessariamente a uma
relação matrimonial, menos ainda quando Propércio, antecedido por Catulo,
transfere a linguagem e os conceitos matrimoniais para o âmbito do amor-paixão69.
Além disso, também como Lucrécio e Horácio, e de certo modo como Propércio,
1.4, Ovídio vai oferecer, em Remédios de Amor, os meios para a cura do amor-
-paixão e medicar aqueles que, contra o objetivo explicitado no prólogo da sua Ars
1.1-34, se tinham desviado de um amor guiado pela razão. Este papel de mestre e
de médico do amor é rastreado na recorrência dos termos ars ‘arte’ como em arte
regendus Amor ‘O amor deve ser regido com arte’ (Ars 1.4), doctus ‘douto’, magister
‘mestre’, praeceptor ‘precetor’, peritus ‘perito’ e em metáforas várias70. Poderíamos
mesmo acrescentar que o amor meretrício, tal como em numerosas comédias plau-
tinas e terencianas, poderia implicitamente funcionar como uma espécie de
iniciação erótica e sentimental pré-matrimonial dos adolescentes romanos71.
Também nesta questão demográfica o imperador soube recorrer ao passado,
mas introduzindo algumas nuances e até inovações. É mesmo impressionante
a arte com que Augusto inovou sem poder ser acusado de não ter precedente

68
Ov. Tr. 2.543-544: “Assim, escritos que julguei não me iriam prejudicar, sendo eu um jovem
pouco prudente, me prejudicam agora que sou velho”; cf. Gil 1985 140-141; Galinsky 1996 268-269.
69
Cf. Galinsky 1996 272 ss.; ver Tib. 1.6.15: “Mas tu, incauto esposo de uma jovem pérfida”;
Prop. 2.6.42: “serás sempre a minha amada, e sempre também a minha esposa”; o amor é fidelidade
e aliança (fides e foedus) duradouros em Prop. 2.20.34: “no final, a minha fidelidade será idêntica
à inicial”; o uso do termo para uniões entre escravos é atestado em inscrições e já é causa de
controvérsia em Pl. Cas. e.g. 69: “Uns escravos vão casar-se ou vão pedir alguém em casamento?”
(trad. A. Couto: Plauto, Cásina, Lisboa, 2006).
70
Este raciocínio arreda a hipótese de os Remédios de Amor serem uma palinódia ou retractatio
‘retratação’ (Frécaut 1972 235). Referindo-se às suas obras eróticas, o próprio Ovídio proclama
que a maior parte é mendax e ficta ‘mentirosa e fictícia’ (Tr. 2.355).
71
Oliveira 2006 333-355, onde se recorda Ter. Eu. 930-940 (amor meretrício é uma prevenção
para o futuro) e Ad. 149-152 (rito de passagem).

65
republicano. De facto, o novo poder vai perfilhar inicialmente a clemência de
César para justificar o perdão concedido a muitos pompeianos — e estava
mesmo disposto a poupar Catão de Útica se este não se tivesse suicidado —,
assim preservando famílias à custa da expectativa de futura não oposição ao
regime; nalguns casos, o imperador vai refazer a fortuna de membros da elite
para garantir o censo necessário à manutenção do status senatorial72; promover
elites municipais e provinciais, num movimento iniciado por Júlio César73 e
apoiado por Salústio; estabelecer programas de enquadramento da juventude
através do lusus Troiae (parada de jovens no festival oficial chamado Jogo de
Troia) e, posteriormente, da juventude neroniana (Iuventus Neroniana), e da
criação de apoios para formação de jovens (alimenta); e dar isenções fiscais e
visibilidade social aos progenitores de famílias numerosas.
Que a preocupação de Augusto era essencialmente com a classe dirigente,
ressalta com clareza da já referida legislação sobre moralidade e natalidade: por
um lado, os privilégios concedidos são diretamente proporcionais ao status
social, e, quando não são contestados74, tornam-se apetecidos simplesmente
porque davam visibilidade social, como no caso do ius trium liberorum, ou
implicavam vantagens políticas ao descerem a idade mínima de acesso a ma-
gistraturas75; por outro, as leis sobre manumissão procuram evitar libertações
em massa, em especial as testamentárias, dificultando o acesso de ex-escravos
à cidadania. É o caso da lex Fufia Caninia de manumissionibus, de 2 a.C., e da
lex Aelia Sentia de manumissionibus, de 4 d.C.76.
Um outro aspeto curioso é que, tendo por objetivo moralizar uma sociedade
que caíra na lassidão de costumes, sendo limitativa da liberdade individual e
defensora de ideais tradicionais, como a estabilidade e a fidelidade conjugal
consagradas nos ideais da univira e do homem de um só matrimónio77, afinal de

72
Ver Suet. Aug. 40; Tac. Ann. 2.37, sobre Marco Hórtalo: “pelo divino Augusto aliciado,
graças a uma generosa oferta de um milhão de sestércios, a procurar esposa, a ter filhos, para que
não se extinguisse a sua ilustríssima família”; 2.48: Tibério por um lado ajuda financeiramente, por
outro deixa sair livremente do senado os que haviam perdido a qualificação do censo necessário.
Esta auto-exclusão parece uma das facetas da anomia da classe senatorial.
73
A promoção de elites provinciais é representada na Hispânia pelos Bocchi de Salacia e pelos
Balbi de Gades; e, de origem turdetana, pelos Senecae de Corduba, os Trahii de Italica. Quanto à
política de Júlio César, cf. Suet. Jul. 76.5 e 80.3-4.
74
Para a controvérsia sobre leis de fomento de natalidade, cf. Prop. 2.7: alegra-se com a abolição
de uma lei que obrigaria os celibatários a casar e que, por isso, o liberta de dar filhos e soldados
à pátria; tratar-se-ia de um projeto de 28 a.C., que enfrentou oposição; cf. Hor. Carm. 3.24; Tac.
Ann. 3.28; Suet. Aug. 34.1-4 (lei contornada); Griffin 1985 23-24; Galinsky 1996 128 ss.
75
É o caso implícito em Tac. Ag. 6; Plin. Ep. 10.94 pede tal distinção para Suetónio Paulino,
que não tem filhos.
76
Sobre a legislação referida e seu conteúdo, ver Rotondi 1966; Galinsky 1996 128-140.
77
Em Tac. Ann. 2.73.3, Germânico é elogiado por “um único casamento, filhos com toda
a certeza seus”; o termo certus ocorre em Ov. Med. 45 (Certus amor morum est), ideia que tem
continuidade nos v.49-50.

66
contas essa mesma legislação dificulta a oposição do progenitor ao casamento;
estabelece prazos curtos para que viúvos e viúvas tornem obrigatoriamente a
casar, assim contrariando a imagem de fidelidade ao defunto marido prometida
pela Dido virgiliana, sem a poder louvar pelos amores com Eneias78; impede um
senador e seu descendente até ao 3º grau de desposar uma liberta; afrouxa a
tutela sobre a mulher e, no fim de contas, mitiga as sanções sobre o divórcio.
Legislação posterior virá mesmo a desvalorizar o casamento por confarreatio79.
Nesta medida, a legislação augustana, na sua pouca eficácia demográfica,
mais não fazia do que reconhecer a realidade também constante da literatura,
a progressiva emancipação feminina80, a desenvoltura de costumes e o desapa-
recimento das formas de casamento mais tradicionais, como o casamento in
manum e a sua forma mais solene e elitista, a confarreatio.
Tal desenvoltura aparece referida em autores insuspeitos, como Horácio,
Carm.3.5, onde o elogio da idade de ouro trazida por Augusto, com a sua re-
generação de costumes, vem a par de uma preterição de realidades que se
pretendem esconder — lassidão de costumes, adultérios, incestos, maridos
complacentes, de tal modo que o fecho parece um grito interior que adivinha
um futuro bem pior (“uma progénie ainda mais viciosa”) —, como que ante-
cipando os comportamentos relatados por Juvenal (1.55-57) ou por Tácito:
mulheres casadas, e até da ordem equestre, a reivindicarem o direito de se
prostituírem, e maridos a consentirem (Tac. Ann. 2.85); mulheres voluntario-
sas e imperialistas, que, no séquito dos generais, até dão ordens às tropas ou
que, se deixadas em casa, logo se dariam ao adultério (Ann. 3.33-34).
Ora a verdade é que, na sua própria vida privada, a domus Caesaris dava
exemplo claro tanto de lassidão de costumes como da importância política das
mulheres da familia Caesaris, agentes efetivos de poder e da sua legitimação, a
par com o exército, o Prefeito do Pretório e os libertos imperiais81.

78
A coloração elegíaca de Dido refere-se naturalmente ao canto IV da Eneida; cf. Wyke
2002 97-98.
79
Refiro-me a uma lex de flaminica diali hipoteticamente de 24 d.C.. Tac. Ann. 4.16 dá a
explicação sociológica para a decadência do casamento solene por confarreatio (aspersão com
farinha), adivinhando-se a resistência das mulheres a tal estatuto, que juridicamente as inferiorizava.
80
A emancipação feminina tanto está ligada a normativos jurídicos (a viuvez e o divórcio
transformavam a mulher em sui iuris, isto é, mulher juridicamente independente, sem necessidade
de tutor, ajudando a explicar mulheres emancipadas como a Lésbia de Catulo (provavelmente
a Clódia que Cícero denigre no pro Caelio com laivos de exclusa amica ‘amante abandonada’),
como ao poderio económico feminino (Cic. Rep. 3.17: controvérsia sobre as heranças femininas),
já visível na comédia nova e na comédia plautina e terenciana, com a figura da esposa com dote
(uxor dotata). No final da República e início do Principado, a popularidade crescente do mimo
atesta seguramente a temática da mulher, com atrizes, costumes soltos, homo-erotismo, adultérios
e maridos traídos (cf. Ov. Tr. 2.497 ss.), pendente libidinoso do ardente serviço amoroso feminino
cantado por Sulpícia (Tib. 3.11‑13).
81
Ver Tac. Ann. 2.43.6-7: a corte está dividida entre dois possíveis herdeiros de Tibério
(Germânico e Druso): “rivalidade feminina … De facto, a corte estava dividida e desunida por

67
Terá a relegatio de Ovídio sido causada por essa nova realidade82? Pelo me-
nos parece deduzir-se que fatais acontecimentos muito recentes (Tr. 2.97-99)
são bastante posteriores à data da publicação da Ars e haviam sido causados por
um golpe da fortuna (Tr. 2.85 e 107), por um acaso (casus, v.108), por uma
calamidade (Tr. 2.100 procella)83, o que é claramente incompatível com a pu-
blicação de livros que, tratando-se de Ars ou Amores, haviam tido várias datas
de saída a público e já teriam sido objeto de nota censória ou de exclusão de
bibliotecas 84. Ovídio queixa-se, em consequência, de ter o destino que não
tiveram Tibulo — e quem não pensará na arte de amar homo-erótica da elegia
1.4.7-72, ou nas elegias 1.2 e 1.6.9? —, nem Propércio (Tr. 2.463-466), nem
Virgílio (Tr. 2.533-538).
Mas, até pela incompatibilidade com necessidades de curto prazo, as restri-
ções legais ou a censura moral não conseguem resolver o déficit demográfico,
menos ainda problemas tão importantes como o da sucessão imperial, vendo-se
o imperador na necessidade de fomentar a mobilidade social recorrendo a
mecanismos já existentes na tradição romana, como a adoção, a manumissão,
a promoção de famílias equestres, de veteranos, de domésticos e sobretudo de
libertos, e até de provinciais, como já visionara Júlio César.
Horácio, enquanto filho de um liberto, é um exemplo claro de alguém que,
de ascendência itálica ou servil, chegou ao convívio com a nata da aristocracia,
mas que, quando Augusto quis ir buscá-lo ao Círculo de Mecenas, viu ser-lhe
oferecida uma função sem dúvida elevada, mas também marcada pela ligação a
uma classe social inferior — situação tanto mais irónica quanto o próprio Horácio
procura ignorar esse seu estigma pessoal (Hor. S. 1.6.89 ss.). O mesmo proble-
ma de aceitação plena terá Sejano: quando pede a Tibério para casar com Livila,
a filha do falecido Germânico e então viúva de Druso, depara com uma recusa
cortês mas bem justificada 85, certamente fundada numa realidade que nem
o próprio imperador conseguia evitar — o inconformismo social existente,

simpatias secretas a favor de Druso ou de Germânico”; 2.72.1: antes de morrer, Germânico


recomendara a Agripina “que não hostilizasse os mais poderosos rivalizando em influência”; 3.64:
relações conflituosas entre Tibério e sua mãe Júlia Augusta; 4.39-40: influência de Sejano; quanto
à desvergonha reinante, cf. 3.24 impudicitia.
82
Ov. Tr. 2.137: relegatus, non exul ‘relegado, não exilado’; cf. 5.11.21; Pont. 4.15.2: relegatus
Naso ‘Nasão, o relegado’.
83
A singularidade do delito é expressa por várias expressões latinas: Tr. 2.109: illa namque die;
121-122: sub uno / sed non exiguo crimine; 210: semel.
84
Tr. 2.7-8; 211-212: “pelo meu torpe poema sou acusado de me ter tornado mestre de obscenos
adultérios”; 3.1.65-68 e 5.12.67-68: exclusão das bibliotecas.
85
Tac. Ann. 4.39-40; cf. 3.36: desdém por libertos e escravos; Tac. Ann. 3.75, sobre mobilidade
social: Ateio Capitão chega ao senado graças a Augusto, mas era descendente de centurião, gerando
odium ex invidia ‘ódio por inveja’; Suet. Aug. 63.3: Augusto procurou casar Júlia mesmo na ordem
equestre; já Salústio propugna o alargamento e a regeneração moral da classe dirigente defendendo
uma aristocracia da virtus, cf. Citroni 2006 422-423.

68
exemplificado pela influência e pela promoção de libertos, em particular os li-
bertos imperiais86.

5. Delito de opinião (lex maiestatis)

A propósito da época de Augusto e início do Império, e tendo em vista


tanto a relegatio de Ovídio como os julgamentos por lesa-majestade no tempo
de Tibério, muito se tem discutido sobre a existência de delito de opinião
nessa época. Cita-se amiúde o julgamento de Cremúcio Cordo como um
apelo à liberdade de expressão87. Ora, Cremúcio Cordo publicara ainda no
tempo de Augusto e não fora então perseguido por ter elogiado Bruto e exal-
tado Cássio, elogio que estava longe de ser inusitado, para não dizer que era
recorrente e se enquadrava bem na ficção republicana do regime. Por isso,
Cordo defende-se dizendo que a lex maiestatis só o poderia visar se ele tivesse
atacado o príncipe ou a sua progenitora, e por atos, não por escritos (Cizec
2008 208, n.146-151).
Efetivamente, na análise de factos como o delito de opinião e as acusações
com base na lex maiestatis, não podemos esquecer que a condenação à morte
por injúrias contra alguém em sua vida já estava prevista na Lei das Doze Tábuas
e que essa medida é louvada por Cícero (Rep. 4.12). Neste passo, o contexto
parece ter na mira a vituperatio em ambiente de representação cénica, onde
seria especificamente proibido o ataque a altos magistrados como os Cipiões
ou Catão, entendimento que já está implícito nas tentativas de limitação do
ataque nominal (onomasti komodein) na Atenas clássica, pois a confusão entre
dirigentes e Estado é fácil de fazer88.
De qualquer forma, o legalismo romano, e em especial no Principado, não
permitiria condenações sob a lex maiestatis sem fundamento, pelo menos sem
cumprir formalidades e tipificar o crime, cuja legalidade poderia advir somen-
te da existência de precedente89.

86
Plin. Nat. 33.32-36 sobre os equites e o direito ao anel de ferro e sua perversão por libertos;
33.134-135 e 35.201.
87
Sobre toda esta problemática, remeto para Suerbaum 1971 61-99, muito bem fundamentado, e
para Haffter 1971 104-110. O texto clássico base é Tac. Ann. 4.34.1: “Cremúcio Cordo é processado
por um crime novo e pronunciado então pela primeira vez, a saber: por, nos anais que publicou,
ter louvado Marco Bruto e afirmado que Gaio Cássio era o último romano”; cf. 3.76 (efígies de
Cássio e Bruto consentidas por Tibério nos funerais de Júnia) e 16.7 (Nero reprova a ostentação
de tais bustos). Cf. Cizec 2008 146-151.
88
Cic. Rep. 4.11. Cf. Suerbaum 1971 81-82 e em esp. n.60, a propósito da invocação das
práticas gregas por Cremúcio Cordo em Tac. Ann. 4.35.1 (por conveniência de argumentação,
Cordo silencia as tentativas de limitação da invetiva nominal ou onomasti komodein). Gil 1985
114 ss., relaciona a severidade da pena com eventual ligação a práticas mágicas.
89
Tac. Ann. 4.69.1: na época da primazia de Sejano, os delatores de Tício Sabino têm consciência

69
Tácito acusa Tibério de ter, por instigação do cônsul Pompeu Macro, res-
taurado a ancestral lex maiestatis, mas dando-lhe um conteúdo diferente do
antigo, a exemplo de Augusto, que fizera condenar Cássio Severo por vituperar
varões e mulheres ilustres com seus libelos difamatórios e escritos provocadores90.
É que também Tibério se sentia ofendido com versos anónimos que atacavam
a sua crueldade, a sua soberba e as discordâncias com sua mãe91.
Para Tácito, estas parecem ser inovações, pois a prática anterior, de ascen-
dência republicana, visaria somente traição militar, sedição popular ou má
gestão. Parece tratar-se de pura parcialidade de Tácito, pois as leis republicanas
sobre maiestas, como a lex Cornelia de iniuriis, de 81 a.C., já sancionavam li-
belli famosi ‘panfletos difamatórios’, tal como eram punidas as ofensas a
magistrados e particulares pela lex Cornelia de maiestate, do mesmo ano, que
se aplicaria tanto ao domínio privado como ao público, usa o termo declamari
e estabelece a pena de interdição de água e fogo, também prevista na lex Iulia
de maiestate, de 46 a.C..
Estes e outros dados permitem a L. Gil afirmar que “el estado republica-
no contaba desde muy antiguo con las bases legales suficientes para una
enérgica represión de estos excesos que el principado no tuvo más que repris-
tinar para cortarlos de raíz” e considerar que a lex Cornelia de iniuriis
constituía o instrumento legal para justiçar libelos difamatórios 92. E, para
além da história do encarceramento de Névio por ofensa aos Metelos, existe
ainda notícia de que Pompeu fizera condenar à morte Valério Sorano por ter
revelado em escrito o nome secreto de Roma, o que obviamente se enquadra
no conteúdo mais tradicional do conceito de crime de maiestas 93. Entre outros
exemplos referidos por Cremúcio Cordo, César e Octaviano teriam perdoado
os ataques políticos de Catulo e de Fúrio Bibáculo, parecendo implícita uma
distinção entre literatura e puro denegrimento vexatório e panfletário, do
qual a historiografia partidária adversa se poderia aproximar 94.
Assim, nem Augusto, com a lex Iulia maiestatis de 8 a.C. — que dá con-
tinuidade à referida lei cesariana de 46 a.C. e visa ofensas à pessoa ou nome

de que seria improcedente qualquer acusação sem número adequado de testemunhas (“como fazer
chegar esses propósitos ao ouvido de muitos”). Mas Tácito insiste nas inovações penais feitas
por Tibério (Ann. 2.27.2, sobre Libão Druso: ‘foi então pela primeira vez inventado’; 2.30.5: ‘o
espertalhaço e inventor de um direito novo, Tibério’; 4.34.1, sobre Cremúcio Cordo: ‘processado
por um crime novo e pronunciado então pela primeira vez’).
90
Tac. Ann. 1.72.4.
91
Tac. Ann. 1.72.5. Sobre as formas e a terminologia da maledicência e da invetiva (carmen,
dictum, epigramma, factum, famosus, flagitium, flagitare, incantare, infamia, libellus, liber, occentatio,
probrosus, etc.), cf. Haffter 1971 100-110; Gil 1985 112-122.
92
Gil 1985 112, 118 e 137-138 (reforço da lex Cornelia; para a legislação citada, ver Rotondi 1966).
93
Ver Gil 1985 109 e 115-116; Citroni 2006 234.
94
Tac. Ann. 4.34; Suet. Aug. 55-56. Cf. Suerbaum 1971 78-80; Gil 1985 133-134 (tratar-se-ia
de aparência externa a encobrir a política augustana de repressão ou censura literária).

70
do imperador, sancionando com exílio e confiscação de bens qualquer ataque
e reservando a pena capital para crimes de perduellio ‘alta traição ou delito
contra o Estado’ —, nem Tibério no ano 15 d.C., criaram algo de novo. De
resto, é o próprio Tácito a recordar que no julgamento de Apuleia Varila,
Tibério não quis que fossem sancionados impropérios ofensivos contra si ou
sua mãe (Ann. 2.50: probrosis sermonibus). Podendo este facto ser entendido
como uma decisão pessoal de não utilizar todas as possibilidades e interpreta-
ções legais, também fica claro que a grande novidade não era a existência de
legislação nova contra quem atacasse um alto magistrado, mas o facto temível
de “haber acaparado el príncipe en su persona toda la maiestas del estado”,
mesmo quando não intervinha pessoalmente na repressão para se proteger
politicamente (Gil 1985 129 e 138).
Deste modo, os testemunhos existentes parecem claramente indicar que
o delito de opinião expressa em forma escrita não era passível de originar
acusação, julgamento e condenação a não ser quando implicasse ofensa di-
rigida a alta personalidade e, tendo em conta os procedimentos legais,
designando-a pelo nome, para fazer prova inequívoca em caso de citação em
tribunal. Daí se compreender que Ovídio, quando insiste em atribuir a re-
legação a um carmen, não deixa de o mencionar para provar a falta de
fundamento da acusação, como se, em pura tática, antes procurasse esconder
o motivo real 95.
É evidente que os poderosos, como acontecera em Atenas, encontram
forma de reinterpretar a lei ou tipificar a acusação de acordo com o seu pro-
pósito de penalizar os oponentes políticos. Parece ser essa a razão pela qual
frequentemente a acusação é dupla, misturando, por exemplo, crime de adul-
tério ou práticas mágicas com maiestas ou perduellio 96. Logicamente, também
os acusados procuravam distinguir entre ditos e atos, subtilizar conceitos ju-
rídicos, enfatizar precedentes, de modo a conseguir a ilibação ou, pelo menos,
a condenação por um crime de moldura penal menos gravosa.
Estas razões explicam a narrativa de Tácito sobre o processo de Clutório
Prisco: quando foi acusado de ter preparado um elogio fúnebre para o caso de
o enfermo Druso morrer, encontrou um único oponente à condenação à morte
proposta no senado, Mânio Lépido, que argumentou serem as palavras coisa
diferente de atentados (Tac. Ann. 3.50.2). Certamente por realismo, mas também
sem êxito, Lépido dispôs-se a votar a pena de exílio como se efetivamente tives-
se havido crime de maiestas. A reação de Tibério foi de censura contra os

95
Ov. Tr. 2.2-4: “... eu que pereci, ai de mim, vítima do meu próprio talento?!”; cf. 2.207
(duo crimina, carmen et error ‘dois delitos: um poema e um erro’); que se trata da Ars, é reiterado
em Tr. 2.7-8, 240, 345-346.
96
Cf. Suerbaum 1971 98-99 (Appendix); Gil 1985 118 ss. sobre os conceitos de maiestas e
perduellio, e 130 sobre a elasticidade do conceito de magia.

71
senadores, por entender que simples palavras não deviam merecer penas tão
severas (Tac. Ann. 3.51.2)97.
Também Cremúcio Cordo (Tac. Ann. 4.35.3-4), para cercear qualquer
perseguição contra intelectuais, e em especial historiadores e poetas, argu-
mentou que seria improcedente qualquer condenação: se o maledicente era
de má qualidade, não se justificava o castigo, pois não teria eco ou eficácia;
se era de boa qualidade, o castigo era ineficaz, pois o nome do eventual réu,
pela sua qualidade artística, seria eternamente recordado; e apagar a memória
de um talento era coisa que nem reis estrangeiros haviam tentado fazer98.
Parece ser também esse o raciocínio subjacente em Ovídio quando, para além
de silenciar o error, quanto a mim a causa do degredo, e insistir num delito
com pouca ou nenhuma substância, intenta reversão da pena ou, pelo menos,
a sua mitigação 99.
Teríamos que admitir, em consonância, que condenações de intelectuais como
Cássio Severo100, Ovídio ou Cremúcio Cordo, mais do que censura literária,
seriam motivados por participação em ofensas explícitas à figura dos governantes
ou da familia Caesaris, com agravamento no caso de serem dirigidas contra Augusto
divinizado, ou em conhecimento ou participação em círculos de oposição e
conjura — o error que Ovídio silencia? —, tudo matérias que a lei sobre maiestas
contemplava desde tempos republicanos.
De facto, a argumentação expendida arreda a hipótese de Ovídio ter sido
condenado por motivos literários, se o motivo invocado fosse a sua temática
amorosa. Se o motivo foi dissonância e até hostilização da política augustana,
então, ironia das ironias, o degredo de Ovídio serviu fortemente essa mesma
política: do seu exílio em Tomos, com Tristezas e Cartas do Ponto, o Sulmonense
contribuiu fortemente para o projeto Romano de colonização, contra as tenta-
tivas locais de enfermar a estabilidade do regime imperial, pese embora o facto
de poder ter sido vítima de ação direta do imperador, o que prenunciava um
regime mais duro e personalizado101.

97
É idêntico o raciocínio de Cremúcio Cordo quando elogia a liberdade de expressão em
Atenas, onde a um dito se responde com outro dito (Tac. Ann. 4.35.1: “ou, se se prestar atenção,
de uma palavra vingavam-se com outra palavra”).
98
Tac. Ann. 4.35.3-7: no fundo, a condenação funciona como um ingenii iudicium ‘julgamento
sobre o talento’, para usarmos a expressão de Plin. Nat. pr. 6 e 7.108.
99
Ov. Tr. 2.118: “todavia tenho uma grande nomeada em todo o orbe”.
100
Cássio Severo, RE 89, foi condenado ao exílio e seus livros queimados (Tac. Ann. 1.72;
sobre a sua personalidade, cf. Tac. Dial. 19.1 e 26.4; Sen. Con. 3 pr.5, 10 pr.8; Suet. Aug.
56.6). O mesmo destino terão os livros de Cremúcio Cordo (Tac. Ann. 4.35.5: “O senado foi
de parecer que os livros deviam ser queimados a mando dos edis; mas eles continuaram a existir
e a ser publicados em segredo”; cf. Suet. Tib. 61.10). Sobre queima de livros, ver Suerbaum
1971 93 e n.84.
101
Ver Gil 1985 140-141 (represália pessoal de Augusto fosse qual fosse o crime); Habinek
1998 13-14 e 151‑169.

72
Estátua de Augusto de Prima Porta
@ Wikimedia Commons

6. Do otimismo ao pessimismo

Da transição da República para o Principado, com a Pax Augusta, o fecho do


Templo de Jano e a celebração do regresso da idade do ouro nos Jogos Seculares,
a que Horácio forneceu a força do seu talento e que Virgílio anunciava na Bucólica
IV, vai nascer um otimismo que se espelha na crença de que a produção da épo-
ca augustana atingira o esplendor máximo (ver Galinsky 1996 90-121).
Penso que esse tema de uma sociedade primeva se concretizou na literatura
em expressões tão diversas como os motivos da idade do ouro, o tema da Pax,
o elogio da vida campesina e correspondente autarcia, e em manifestações tão
diferentes como o de senectute de Cícero, o quadro idílico das Bucólicas e o
tratado técnico As Geórgicas, em vários cenários campesinos de Horácio102, e

102
Hor. S. 1.6, esp. v.100 ss., 1.8, com oposição Tíbur/Roma, 2.6, Ep. 1.7 sobre a quinta da
Sabina, Epod. 2, apesar do final paródico.

73
mesmo em elegíacos como Propércio (2.19: no campo não há corruptores),
Tibulo (1.1, 10, 2.1, 3 e 5) ou o próprio Ovídio. Deste, recordo Amores, 3.13,
uma viagem com a esposa para ver uma festa campesina em honra de Juno, a
divindade do casamento. O reflexo da dualidade cidade/campo e o registo de
uma imagem de supremacia poderão encontrar-se nos elogios da Itália e de Roma
(Romae / Italiae laudes), que se distribuem por autores tão diversos como Cícero,
Varrão, Virgílio, Tito Lívio, Manílio, Séneca, Plínio o Antigo.
Um ato significativo dessa nova época de paz, consentida pela ausência de
guerra, consistiu no já referido fecho simbólico do Templo de Jano, em 29
a.C.. Com esse gesto bem registado em Res Gestae103, Augusto criou uma si-
tuação irreversível que foi confirmada com a adoção de uma política de
contenção imperialista, em favor da paz, do comércio e da diplomacia 104. Ora,
a problemática do imperialismo, e consequentemente da guerra, era uma
questão na ordem do dia, presente em Lucrécio, analisada no livro III do
Tratado da República através dos discursos duplos de Carnéades, que num dia
pôs a justiça na base do império, e no seguinte demonstrou exatamente o
contrário, subjacente ao discurso de Mémio em Salústio (Jug. 31)105. Se Augusto
propagandeava uma época de paz, como poderia ele ficar ofendido com a
recusa da musa épica?
Este cúmulo de felicidade e bem-estar respondia à restauração postulada por
Cícero e implicava, por isso, a crença no regresso de uma idade do ouro que
assumia também a faceta de retorno ao passado enquanto modelo ético e políti-
co, o qual, por influência retórica e de acordo com tradição que já vinha dos
Gregos106, simultaneamente funcionava como crítica contra os desmandos do
presente. Não admira, por isso, que o elogio de uma fase primitiva da natureza,
de uma vida de tipo theriodes ‘selvagem’, frugal, ascética, agradasse a pensadores

103
Anc. 13; em Ovídio o tema da Paz, por vezes em ligação ao fecho das portas do Templo
de Jano, ocorre em Fast. 1.277-282, 701-704, 709-724 (Ara Pacis), 3.881-882 (com Concordia e
Salus); cf. Suet. Aug. 22.
104
Cf. Anc. 27.2 (política de diplomacia na região da Arménia), 31-33 (diplomacia e política
de protetorados; cf. Suet. Aug. 60). Sobre abusos dos Romanos nas províncias, ver Sal. Hist. 6,
Carta de Mitridates; discurso de Carnéades em favor da injustiça em Cic. Rep. 3.20-28; Tac. Ag.
19 e 30. Augusto teria deixado, em Res Gestae e outros documentos, orientações para o sucessor,
incluindo a suspensão da política expansionista: cf. Tac. Ag. 13 e Ann. 1.11; Vell. 2.124.3; Strab.
6.4.2 e 7.1.4; D. C. 56.33.3. Ver Ramage 1987 115.
105
Sobre a génese do imperialismo romano, ver Oliveira 2015 233-241 e bibliografia aí
indicada.
106
Veja-se o elogio aristofânico dos heróis de Maratona, época idealizada em passos como Ach.
181, 697-698 e Nu. 986; cf. Salústio, Cat. e.g. 5.9 e 6-13; Cícero, para além do elogio geral do mos
maiorum ‘costumes dos antepassados’ (Rep. 3.41 e 5.1-2), parece colocar também os costumes na
origem do direito (Rep. 1.2 e 2.64). Em Leg. 1.43 ss., 2.11 ss., enfatiza a necessidade de a natureza
confirmar o direito, o que, segundo 2.23, teria acontecido tanto na constituição como no edifício
jurídico romano tradicional.

74
e intelectuais tão diferentes como Lucrécio107, Tibulo108, Propércio, em particular
4.11 sobre as virtudes tradicionais romanas, e Ovídio (Ars 2.467-492, 621-624),
se traduzisse em manifestações tão diferentes como o interesse pela arqueologia
de Roma, exemplificado no livro II do Tratado da República, nas Antiquitates de
Varrão, nas lendas das origens de Roma em Tito Lívio, e em trechos tão diversos
como o Canto VIII da Eneida (visita a Evandro), elegias várias do livro IV de
Propércio, nas Metamorfoses e nos Fastos de Ovídio, e tornado visível na recons-
tituição por Augusto, no cimo do Palatino, da casa Romuli.
Mas, ao dar resposta a essa crise de valores tão bem ilustrada por Lucrécio
ou por Catulo e mesmo entrevista em Ovídio109, o otimismo augustano, que
vai propagandear ter o regime de Augusto trazido a perfeição em todos os
domínios, supõe a cura dos males existentes e com isso, paradoxalmente, fun-
da os alicerces de um pessimismo que levará a correntes estéticas adversas.
Trata-se de algo semelhante ao afirmado por Cícero a propósito da decadência
expectável da oratória a partir do cesarismo, depois de a mesma ter atingido o
seu zénite110. Tal otimismo tem, no campo literário, afloramentos muito ricos,
mesmo antagónicos, como se adivinha: assim, apesar do ideal de regresso ao
passado, a época augustana vai substituir o pater Ennius ‘pai Énio’, verdadeiro
fundador e clássico da literatura latina até então, por um astro literário coevo,
Virgílio111 — e nisso dá seguimento às preferências estéticas neotéricas contra
as quais Cícero se rebelara (Tusc. 3.45)112; vai fomentar a emulação dos litera-
tos no sentido de reivindicarem a criação de novas espécies literárias, como no
caso de Horácio quando se proclama o Arquíloco latino esquecendo Catulo,

107
Lucr. 5.783 ss., 925 ss., onde, todavia, a idealização retórico-filosófica do passado não
impede a crença no progresso, tendo em conta a juventude da terra (5.330-332: “A verdade é que,
a meu parecer, tudo tem novidade e é recente a natureza do mundo, e não teve o seu começo há
muito tempo. Por isso agora certas artes se embelezam, agora também se desenvolvem”; cf. 5.780;
a ideia de progresso acentua-se na fase civilizada, onde, como remédio para os erros, o verdadeiro
prazer (5.1433 vera voluptas) não impede o progresso contínuo (5.1453), graças à descoberta da
verdadeira moral por Epicuro, em Atenas (6.4 solacia dulcia vitae ‘doces refrigérios da vida’, 6.24
veridicis dictis ‘palavras verdadeiras’, 6.28 recto cursu ‘o caminho direto’, expressões que remetem
para 3.1-30: ver 3.2 commoda vitae ‘o agradável da vida’, 3.9 rerum inventor ‘inventor da realidade’,
3.12 aurea dicta ‘palavras de ouro’, 3.28 divina voluptas ‘o prazer divino’).
108
Tib. 1.3.35-50, 1.10.1-12, 2.1.37-78, 2.3, esp. v.35-49 e 68-80; cf. Galinsky 1996 270 ss.
(Tibulo não rejeita os valores augustanos).
109
Cf. Citroni 2006 363-363 para Catulo e 394-395 para Lucrécio; Ov. Med. 11-25 contrapõe
a beleza rústica das Sabinas aos excessos de toilette das mulheres e até dos homens da sua época.
110
Cic. Brut. 1-6; Citroni 2006 288.
Neste aspeto, Cecílio Epirota é um inovador, ao abrigar autores contemporâneos no currículo
111

pedagógico; cf. Hor. Ep.2.1, uma espécie de querela entre antigos e modernos, Habinek 1998 106-107.
112
Também Tac. Ann. 3.55, elogia Vespasiano e mostra que a sua época forneceu exemplos que
não ficam atrás dos do passado (‘nem tudo no passado era melhor’); Plínio, no geral elogiando o
passado, ocasionalmente também o censura (Nat. 36.4), acabando por fazer uma síntese na figura
de Vespasiano (Nat. 2.18: ‘os líderes romanos ... agora Vespasiano’; cf. Oliveira 1992 129 n.231,
288-289); ver Lucr. 3.1024 ss.: desprezo pelas grandes figuras da antiguidade.

75
ou no de Ovídio a propósito das Heroides, mesmo quando a novidade não é
absoluta113. Ora, a crença no progresso alcançado irá esgotar a veia clássica e
gerar um pessimismo que se virá a traduzir em anseios artísticos anti-clássicos,
como no caso de Lucano, o qual arreda toda a maquinaria mitológica tão cara
aos autores tardo-republicanos e augustanos, de Cícero a Virgílio e a Ovídio.
Será que esta reação, consequência fatal da própria crença implícita no devir
cíclico, já se adivinhava quando o regime augustano terá infletido a sua política de
mecenatismo prazenteiro para uma veia mais autoritária, após o afastamento de
Mecenas por 23 a.C. e a sua morte em 8 a.C.? Pelo menos, não se pode negar que
tanto as Geórgicas como a Eneida têm suscitado leituras que vão nesse sentido114.

Tábula Cronológica

82 a.C.: Sila nomeado ditador sem termo certo


81 a.C.: lex Cornelia de maiestate
52 a.C.: Pompeu cônsul único
48 a.C.: batalha de Farsalo
46 a.C.: praefectura morum de Júlio César; lex Iulia de maiestate
45 a.C.: Júlio César cônsul único, assume a sacrosanctitas dos tribunos da plebe
44 a.C.: Júlio César ditador perpétuoCesaricídio
43 a.C.: lex Paedia de interfectoribus Caesaris; II Triunvirato
42 a.C.: batalha de Filipos
31 a.C.: batalha de Áccio
29 a.C.: fecho do Templo de Jano
27 a.C.: Augusto renuncia a todos os seus poderes e províncias; título de Augustus; reorganização cons-
titucional e do senado
26 a.C.: poeta Cornélio Galo cai em desgraça
23 a.C.: Augusto renuncia ao consulado; recebe imperium proconsulare maius e tribunicia potestas
18 a.C.: lex Iulia de adulteriis coercendis; lex Iulia de maritandis ordinibus
17 a.C.: ludi saeculares; carmen saeculare de Horácio
12 a.C.: Augusto torna-se Pontifex Maximus
8 a.C.: lex Iulia maiestatis; morte de Mecenas
2 a.C.: Augusto recebe título de Pater Patriae
4 d.C.: Augusto adota Tibério
8 d.C.: desterro de Ovídio
9 d.C.: lex Papia Poppaea; dedicação da Ara Pacis
14 d.C.: morte de Augusto, Sucede-lhe Tibério
20 d.C.: processo e suicídio de Pisão
21 d.C.: julgamento e execução do poeta Clutório Prisco
25 d.C.: processo e suicídio do historiador Cremúcio Cordo
c.32-35 d.C.: orador Cássio Severo morre no exílio
37 d.C.: morte de Tibério; sucede-lhe Calígula

113
Para Horácio, cf. Ep. 1.19, Citroni 2006 518; para Ovídio, ver Ars 3.341-346; cf. Prop.
4.3: carta de Aretusa a seu marido.
114
Tac. Ann. 3.30, a propósito de Salústio Crispo, e a exemplo de Mecenas e do seu
relacionamento com os imperadores: “em idade avançada, gozou mais de aparência de amizade do
que da influência inerente”.

76
Bibliografia

Boyd, B. W. (1997), Ovid’s Literary Loves. Influence and Innovation in the Amores. Ann Arbor, the University
of Michigan Press.
Bradley, P. (1997), Ancient Rome. Using Evidence. Rydalmere, Hodder Education (repr. 1990).
Brown, R. P. (1987), Lucretius on Love and Sex. Leiden.
Cairns, F. (1984), “Propertius and the battle of Actium (4.6)” in T. Woodman – D. West ed, Poetry and
politics in the age of Augustus. Cambridge, Cambridge University Press 129-168.
Cizec, E. (2008), “Une polémique. Tacite par rapport à Velleius Paterculus et à Valère-Maxime. Le con-
texte”, Studii Clasice 42-44 139-151.
Citroni, M. – Consolini, E. E. – Labate, M. – Narducci, E. (2006), Literatura de Roma Antiga (trad. M.
Miranda e I. Hipólito, revisão de W. Medeiros). Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.
DuQuesnay, I. M. Le M. (1984), “Horace and Maecenas: The propaganda value of Sermones I” in T.
Woodman – D. West, eds Poetry and politics in the age of Augustus. Cambridge, Cambridge University
Press 19-58.
Fedeli, P., Nascimento, A. A. (2002), Propércio, Elegias. Lisboam Centro de Estudos Clássicos (usadas
algumas traduções).
Fedeli, P. (2008), “L’ultima notte romana di Ovidio, fra epos ed elegia: una rilettura di Trist. 1.3” in A. A.
Nascimento – M. C. S. Pimentel, coords Ovídio: exílio e poesia. Actas do Colóquio no bimilenário da
“relegatio”. Lisboa, Centro de Estudos Clássicos 83-112.
Flury, M. (1986), Liebe und Liebessprache bei Menander, Plautus und Terenz. Heidelberg, Carl Winter.
Frécaut, J.-M. (1972), L’esprit et l’humour chez Ovide. Grenoble, Presses Universitaites de Grenoble.
Galinsky, K. (1996), Augustan Culture. An Interpretive Introduction. Princeton, Princeton University Press.
Gigante, M. (1987), La bibliothèque de Philodème et l’épicurisme romain. Paris., Les Belles Lettres.
Gil, L. (1981), Censura en el mundo antiguo. Madrid, Alianza (11966).
Gold, K. (1982), Literary and Artistic Patronage in Ancient Rome. Austin, University of Texas Press.
Gregoris, R. L. (2002), El amor en la comedia latina. Análisis lexico y semántico. Madrid, Ediciones Clásicas.
Griffin, J. (1985), Latin Poets and Roman Life. London, Duckworth.
Grimal, P. (1991), O amor em Roma. São Paulo, Martins Fontes.
Habinek, Th. N. (1998), The Politics of Latin Literature. Writing, Identity, and Empire in Ancient Rome.
Princeton, Princeton University Press.
Haffter, H. (1971), “Pasquill, Pamphlet und Invektive bei Tacitus” in G. Radke, ed, Politik und literaris-
che Kunst im Werk des Tacitus. Stuttgart, Klett 100-110.
Hemelrijk, E. A. (1999), Matrona Docta. Educated women in the Roman élite from Corneli to Julia
Domna. London, Routledge.
Labate, M. (1984), L’arte di farsi amare. Modelli culturali e progetto didascalico nell’elegia ovidiana. Pisa,
Giardini.
Luisi, A. (2008), “La culpa silenda di Ovidio: nel bimillenario dell’ esilio” in A. A. Nascimento –
M. C. S Pimentel, coords. Ovídio: exílio e poesia. Actas do Colóquio no bimilenário da “relegatio”.
Lisboa, Centro de Estudos Clássicos 19-45.
Martin, J.-P. (2008), “Les Fastes d’Ovide: une oeuvre ‘augustéenne’?”, Studii Clasice 42-44 77-88.
McKeown, J. C. (1984), “Fabula proposito nulla tegenda meo: Ovid’s Fasti and Augustan politics”
in T. Woodman – D. West, eds Poetry and politics in the age of Augustus. Cambridge, Cambridge
University Press 169-187.
Nicolet, Cl. (1988), L’inventarie du monde. Géographie et politique aux origines de l’Empire romain. Paris,
Fayard.
Oliveira, E. M. R. – Torrão J. M. N. (2010), “Cícero e Ovídio: o poder da uxor em contexto de exílio”
in Pimentel, M. C. S. – Rodrigues, N. S., coords. Sociedade, poder e cultura no tempo de Ovídio.
Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos 145-171.
Oliveira, F. (1992), Les idées politiques et morales de Pline l’Ancien. Coimbra, Instituto Nacional de In-
vestigação Científica.
_________ (1993), “Teatro e poder em Roma”, in J. Torrão, ed As Línguas Clássicas. Investigação e
Ensino. Coimbra, Instituto de Estudos Clássicos 121-142.

77
_________ (2006), “Amor em Terêncio” in A. Pociña – B. Rabaza – M.F. Silva, eds Estudios sobre Teren-
cio. Granada, Universidad de Granada 333-356.
_________ (2008a), Cícero: Tratado da República. Lisboa, Círculo de Leitores / Temas e Debates.
_________ (2008b), “Misoginia clássica. Perspectivas de análise” in C. Soares – I. C. Secall – M. C.
Fialho, eds Norma e Transgressão. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra 65-91.
_________ (2009), “Amor na sátira de Horácio e seus predecessores” in M. H. Rocha Pereira, J. Ribeiro
Ferreira, F. Oliveira, eds, Horácio e a sua Perenidade. Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Hu-
manísticos 21-53.
_________ (2010a), “O Sonho de Cipião. Um programa de cidadania e liderança” in V. S. Pereira, ed
O além, a ética e a política. Em torno do Sonho de Cipião. Braga, Húmus 65-86.
_________ (2010b), “Sociedade e cultura na época augustana” in M. C. S. Pimentel – N. S. Rodrigues,
coords Sociedade, poder e cultura no tempo de Ovídio. Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Hu-
manísticos 11-36.
_________ (2015) , “Consequências da Expansão Romana” in J. L. Brandão – F. Oliveira, eds, História de
Roma Antiga. I vol. Das origens ao fina da República. Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra
237-315.
_________ (2016), “Augusto em Plínio o Antigo” in R. Morais – M. Bandeira – M. J. Sousa, eds,
Celebração do Bimilenário de Augusto. Ad nationes. Etnous Kallaikon. Braga, Câmara Municipal de
Braga 40-53.
Oltramare, A. (1926), Les origines de la diatribe romaine. Genève, Imprimeries populaires.
Ramage, E. S. (1987), The Nature and Purpose of Augustus’ Res Gestae. Stuttgart, F. Steiner Verlag.
Ramírez de Verger, A. (2005), Publio Ovidio Nasón, Obras completas. Madrid, Consejo Superior de
Investigaciones Cientificas.
Rotondi, G. (1966), Leges publicae populi romani. Hildesheim, G. Olms.
Rudd, R. (1966), The Satires of Horace. Cambridge, Cambridge University Press.
Suerbaum, W. (1971), “Der Historiker und die Freiheit des Wortes. Die Rede des Cremutius Cordus bei
Tacitus, Ann. 4,34/35” in G. Radke, ed. Politik und literarische Kunst im Werk des Tacitus. Stuttgart,
Klett, 61-99.
Varandas, J. (2010), “Legiões em Marcha no Tempo de Ovídio” in M. C. S. Pimentel – N. S. Rodrigues,
coords, Sociedade, poder e cultura no tempo de Ovídio. Coimbra, CECH, 221-240.
Williams, G. (1978), Change and Decline. Roman Literature in the Early Empire. Berkeley, University of
California Press.
Winkes, R. (1985), The Age of Augustus. The Rise of Imperial Ideology. Louvain-la-Neuve.
Woodman, T. (1984), “Horace’s first Roman ode” in T. Woodman – D. West, eds Poetry and politics in
the age of Augustus. Cambridge, Cambridge University Press, 83-94.
Wyke, M. (2002), The Roman Mistress. Oxford, Oxford University Press.
Zanker, P. (1992), Augusto y el poder de las imágenes. Madrid, Alianza Editorial (trad. da ed. alemã, de 1987).

Imagens:

Fonte: Wikimedia Commons


Fig. 1: Sidus Iulium: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:RSC_0090.2.jpg
Fig. 2: Estátua de Augusto: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Statue-Augustus.jpg

78
3. Os Júlio-Cláudios

Fábio Duarte Joly


Universidade Federal de Ouro Preto
ORCID: 0000-0001-6549-3094
fabio.joly@ufop.edu.br

Fábio Faversani
Universidade Federal de Ouro Preto
ORCID: 0000-0002-3464-1020
faversani@ufop.edu.br

Sumário: Os Júlio-Cláudios: o poder de uma domus. Tibério e a tenta-


tiva de equilíbrio entre senado e princeps. Calígula e a tensão desnuda
do Principado. Cláudio e a afirmação de uma corte imperial. Nero e o
ocaso de uma dinastia. Conclusão: a consolidação da ideia de dinastia1.

1. Uma dinastia do Palatino

A dinastia Júlio-Cláudia foi um momento chave na consolidação do


Principado não só pelas rupturas que impôs em relação à República, mas so-
bretudo pelas continuidades que persistiram entre esses dois períodos da
história romana (Faversani 2013). Como nos lembra Fergus Millar (1998 123),
a história de Roma, no Alto Império, é “a história de um tipo anômalo e es-
tranho de cidade-Estado”, cuja “anomalia mais acentuada era, naturalmente,
de que era agora governada por um imperador, e todas suas complexas insti-
tuições sofreram transformações por esse fato”. Uma transformação
importante se refere à própria estrutura das domus aristocráticas. Embora na
República tardia, as casas dos nobiles republicanos já apresentassem uma

1
Trabalho realizado no âmbito do Projeto Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and
the Shaping of Identity(ies) (PTDC/LLT-OUT/28431/2017). A pesquisa para este capítulo também
contou com o apoio do CNPq (Bolsa de Produtividade 2, processo 302301/2018-6, F. D. Joly).

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_3
tendência a serem pequenas “cortes”, no Principado isso passa paulatinamen-
te a ser visto como prerrogativa dos imperadores.
Augusto, quando saiu vitorioso das guerras civis em 31 a.C., não estabele-
ceu o poder de um só homem, mas de uma casa dinástica, uma domus que tinha
uma identidade coletiva e onde as mulheres tinham papéis públicos e homens
jovens eram promovidos como potenciais sucessores imperiais (Rowe 2002).
Também escravos e libertos (a chamada “familia Caesaris”), por sua integração
à casa imperial, passaram a ter posições públicas. A casa imperial, ao assumir
um peso extraordinário na administração do Estado, fez com que libertos e
mulheres, que, em geral, se limitavam à esfera privada de cada casa aristocrá-
tica, tivessem funções públicas e papel político cada vez mais relevantes.
De Augusto a Nero, ocorreu a progressiva institucionalização de uma corte
imperial (aula Caesaris), distinguindo a casa dos imperadores das demais casas
aristocráticas (Winterling 1999). Ao longo da dinastia Júlio-Cláudia, nota-se
igualmente uma crescente “provincialização” na orientação da política imperial.
Se, com Tibério, Roma continua o foco das atenções, sob Cláudio e Nero, o
quadro muda, prefigurando uma visão mais compósita do Império.
O presente texto busca apresentar uma interpretação geral desse período,
focando mais na construção da trama dinástica do Principado e nas linhas de
força da ação política de cada imperador.

2. Tibério2

Tibério Cláudio Nero nasceu em 16 de novembro de 42 a.C. em Roma, filho


de Tibério Cláudio Nero e Lívia Drusila. A família refugiou-se na Sicília em 40
a.C. por conta da oposição de seu pai a Otaviano, o futuro Augusto. Após o
retorno da família a Itália em 39 a.C., Tibério tornou-se herdeiro de um certo
Marco Gálio – provavelmente amigo de seu pai e, como ele, apoiador de Antônio
–, mas não tomou seu nome. Nesse mesmo ano, Lívia divorciou-se de Tibério
Nero e casou-se com Otaviano. Com a morte de Tibério Nero em 33 ou 32 a.C.,
Otaviano ficou como guardião de seus filhos e Tibério foi logo prometido para
desposar Vipsânia Agripina, filha de Agripa, então com apenas um ano de idade.
Após 30 a.C., com Augusto detendo o poder de fato, Tibério aparece asso-
ciado ao imperador, mas não gozando do mesmo prestígio daqueles que eram
parentes de sangue. Em 29 a.C. Tibério tomou parte no triunfo de Otaviano
pela vitória em Ácio e, em 26-5 a.C., acompanhou-o como tribuno militar na
guerra contra os Cântabros. Em 20 a.C. retornou Tigranes ao seu reino da
Armênia e conseguiu que o rei parto Fraates devolvesse os estandartes de Marco

2
Sobre o reinado de Tibério as principais fontes são Tácito (Ann. 1-6), Suetônio (Tib.), Díon
Cássio (57-58) e Veleio Patérculo (2, 123-131). Seguimos Eck 2006a; Kienast 2011 76-79; Levick
1999; Shotter 2004; Wiedemann 1996 198-221.

80
Licínio Crasso, perdidos na batalha de Carrae em 53 a.C.. Por este motivo re-
cebeu os ornamenta praetoria no ano seguinte. Foi pretor com Augusto em 16
a.C. na Gália, colaborando na reorganização da província. Em 13 a.C. foi côn-
sul ordinário e, em 12 a.C., com a morte de Agripa, tomou seu lugar nas
campanhas para a conquista da Panônia, encerrada em 9 a.C.. Com a morte de
seu irmão Druso nesse mesmo ano, Tibério assumiu o comando de legiões na
Germânia e pacificou-a a ponto de, em 7 a.C., ser-lhe permitido um triunfo.
Tibério chegou a ser apontado como herdeiro político de Augusto em 6 a.C.,
visto que recebeu a tribunicia potestas por um período de cinco anos. O casa-
mento com Júlia, filha de Augusto, em 12 a.C., também era um indicativo.
Porém, a promoção dos filhos de Júlia, Gaio e Lúcio, que Augusto adotara,
marcou um revés nesse sentido. Tibério retirou-se para Rodes, onde passou sete
anos. Voltou a Roma em 2 d.C. (já divorciado de Júlia, devido aos escândalos
em que ela se envolvera), mas apenas em 4 d.C., com a morte de Gaio César,
Augusto nomeou Tibério seu sucessor e adotou-o. Por sua vez, antes dessa oca-
sião, Tibério teve que adotar o filho de seu irmão e sobrinho-neto de Augusto,
Germânico. Tibério recebeu a tribunicia potestas por um período de dez anos e
o imperium como procônsul. Ele comandou o exército e a província da Germânia
entre 4 e 6 d.C., consolidando a fronteira do Reno entre 10 e 12 d.C.. Em 13
d.C. recebeu novamente a tribunicia potestas por outro período de dez anos e o
imperium como procônsul, de modo que, quando Augusto morreu em 14 d.C.,
na Campânia, não havia dúvidas de que Tibério seria o novo princeps.
Tibério tomou assim controle da casa imperial e iniciou a transição de
reinado, escrevendo primeiramente aos exércitos romanos. Em seguida, não se
sabe se com a ciência de Tibério ou não, Agripa Póstumo, terceiro filho de
Agripa e Júlia, e adotado por Augusto em 4 d.C., foi executado na ilha de
Planásia, onde estava exilado desde 7 d.C. (Wiedemann 1996 202).
Tibério acompanhou o traslado do corpo de Augusto até Roma e o funeral
público foi decretado numa sessão do senado em setembro, convocada por
Tibério por conta de sua tribunicia potestas. O testamento de Augusto foi lido
no senado, confirmando Tibério como seu principal herdeiro. Coube-lhe dois
terços dos bens de Augusto, o restante sendo destinado a Lívia.
Tendo sido apresentadas as linhas gerais do contexto dinástico que possi-
bilitou a ascensão de Tibério, cabe observar agora os pontos mais relevantes
de sua relação com o senado, um parceiro importante do imperador no gover-
no do império. Do ponto de vista da composição social do órgão, Tibério
mostrou-se avesso a se admitir de forma indiscriminada novos membros ao se-
nado, e preferiu se limitar a indivíduos oriundos da Itália, que, à época, incluía
a Gália Cisalpina. Já no tocante ao trato com esse órgão, a historiografia
moderna tem indicado a preocupação desse princeps em revitalizar o senado
para que agisse de forma mais eficiente na condução dos assuntos públicos
(Levick 1999 70-3). Um primeiro passo constou da reformulação do consilium
formal que Augusto instituíra para preparar a agenda levada ao senado.

81
A partir de 13 d.C. esse grupo era formado por vinte senadores, com manda-
tos anuais, cônsules, cônsules designados, Tibério e seus filhos, e outros
membros escolhidos ad hoc. As decisões ali tomadas pesavam no debate no
senado e, antes de 13 d.C., suas resoluções tinham até mesmo o status de se-
natus consulta, diminuindo, portanto, a autoridade do senado. Tibério aboliu
este comitê, mantendo um outro tipo de consilium, constituído de seus amigos
de confiança, além de vinte lideranças escolhidas pelo senado. Esses vinte
membros eram representantes permanentes do senado para aconselhar Tibério
em questões administrativas. Tratava-se, pois, de uma configuração que garantia
o prestígio do senado e não impedia necessariamente a deliberação senatorial.
Outra medida na direção de um fortalecimento controlado do senado nota-se
na transferência das eleições dos comitia centuriata e tributa do povo para o
senado (Tac. Ann. 1.81). O povo perdia, assim, sua voz nas eleições e o sena-
do votava agora nos candidatos a magistraturas, produzindo uma lista com o
número necessário para o preenchimento das vagas. A competição por cargos
era decidida nos bastidores, entre os senadores, e o imperador recebia os nomes
dos candidatos e lia a lista no senado. Em suma, o princeps, com Tibério,
obtinha um papel formal no processo eleitoral.
Contudo, no que dizia respeito às finanças do Império e ao controle do
exército, Tibério deixou o senado em segundo plano, mesmo sem alijá-lo de
todo. Na crise financeira de 33 d.C. (Tac. Ann. 6.16-17; Suet. Tib. 48; D.C.
58.21) Tibério desembolsou dinheiro próprio para contemplar proprietários
fundiários, mas concedeu a gestão da distribuição do recurso aos senadores.
Mesmo nos casos de processos de lesa-majestade (maiestas), em que as proprie-
dades dos condenados eram confiscadas pelo Estado, o direcionamento dos
valores, sob Tibério, tendia a ir para o Fisco imperial – controlado diretamen-
te pelo princeps – e não para o erário público, formalmente da alçada do
senado (Levick 1999 77; 104). Estes confiscos concentrados levaram, em larga
medida, à própria crise financeira de 33 d.C. (Gaia 2014).
No plano provincial, embora Tibério tenha enfrentado revoltas na Gália em
21 d.C. (Tac. Ann. 3.40-46) e na África entre 17 e 25 d.C. (Tac. Ann. 2.52;
3.20; 4.13; 24-26), no geral o Império manteve-se pacificado e coeso. Duas
inovações marcaram seu Principado. Primeiro, o longo mandato de alguns
governadores de províncias, e, segundo, o governo de províncias sem a presen-
ça física de legados do imperador. Foi o caso de Lúcio Élio Lamia, legado da
Síria entre 21 e 32, e de Lúcio Arrúncio, legado da Tarraconense entre 23 e 33
d.C. (Levick 1999 97). Tratar-se-ia, portanto, de uma tentativa de administra-
ção centralizada, com o princeps em Roma administrando as províncias. O
próprio Tibério não visitou qualquer província após sua nomeação como im-
perador, recorrendo inicialmente a membros da casa imperial, como Germânico
que realizou campanhas na Germânia e no Oriente. No geral, a visão que Tibério
tinha do Império estava muito centrada em Roma e na Itália, com as províncias
entendidas ainda basicamente como fontes de tributos. Tampouco gozou de

82
popularidade com a plebe de Roma – ponto ressaltado por Suetônio (Tib. 75)
– e mostrou-se preocupado em expandir os limites territoriais do Império.
Manter a paz das regiões conquistadas era seu objetivo, em sintonia com as
recomendações do testamento de Augusto.
Um ponto de inflexão em seu reinado é a ida para Capri em 27, estabele-
cendo aí sua corte e não mais ficando acessível diretamente ao senado como
anteriormente. Nesse contexto ganhou proeminência Lúcio Élio Sejano, co-
mandante da guarda pretoriana. Sejano chegou a ter uma grande influência
junto ao senado, articulando inclusive uma sucessão de acusações de maiestas
contra seus opositores, em geral partidários de Agripina, esposa de Germânico.
Em 29 conseguiu a deportação de Agripina e seu filho Nero, e Druso, seu se-
gundo filho, foi aprisionado no palácio em 30. Sejano tentou obter de Tibério
consentimento para se casar com Lívia, viúva de Druso, filho de Tibério, mas
não logrou êxito. Em 31, quando Sejano tentou eliminar Calígula, terceiro
filho de Agripina, foi acusado de conspiração perante o senado e executado.
No período em que Sejano atuou como intermediário entre o senado em
Roma e Tibério em Capri, esse órgão viu-se mais envolvido em disputas dinás-
ticas e sua posição política viu-se enfraquecida com o centro do governo
afastado. Se a própria retirada de Tibério do contato mais imediato com os
senadores teve por meta estimular a independência do senado, fato que se
observa desde o início de seu reinado, o resultado obtido foi diferente.
Tibério morreu em 37 d.C., em Miseno, provavelmente pelas mãos de
Calígula, que então ascenderia ao trono. A imagem que os escritores do século
II, como Tácito e Suetônio, nos deixaram aproximam Tibério de um tirano.
Todavia, seu governo, como aqueles dos demais Júlio-Cláudios, deve ser en-
tendido como um momento de experimentação política, em que se buscava
parâmetros de governabilidade tendo em vista a confluência de uma nova
cultura política imperial – cujo centro era a casa imperial – com os elementos
institucionais do período republicano (Campos 2013 11-12).

2. Calígula3

Gaio César Germânico nasceu em 31 de agosto de 12 d.C. em Antium,


filho de Germânico e Agripina Maior. O apelido de Calígula foi dado pelos
soldados da frente renana, onde esteve com sua mãe em 14 d.C. – e ele, como
sói ocorrer, não gostava do apelido. Calígula, que já era sobrinho-neto de
Augusto, também se tornou seu neto quando Germânico foi adotado por Tibério.
Em 17 d.C. Calígula acompanhou o triunfo de seu pai sobre as tribos germâ-
nicas. Em 18 d.C. Germânico partiu com a família para Oriente, pois o

3
Sobre o reinado de Calígula as principais fontes são Suetônio (Cal.) e Díon Cássio (59). Segui-
mos Eck 2006b; Kienast 2011 85-89; Barrett 2001; Winterling 2011; Wiedemann 1996 221-229.

83
conjunto das províncias orientais fora-lhe confiado com um maius imperium.
Com a morte de seu pai em 19 d.C., em Antioquia, Calígula e Agripina retor-
naram a Roma. Com o exílio da mãe, foi educado por sua avó Lívia e depois
por Antônia. Em 31 d.C. Tibério levou-o para Capri, e apontou-o, junto com
o neto Tibério Gemelo, seu herdeiro. Calígula esteve envolvido na conspiração
contra Tibério em 37 d.C., tanto que, no mesmo dia da morte do imperador,
a 16 de março, soldados em Miseno aclamaram-no imperator, e, dois dias depois,
o senado acompanhou o gesto. Logo assumiu todos os títulos individuais que
foram de Tibério, com a exceção de pater patriae (que tomaria depois). Foi
cônsul suffectus nesse ano de 37 e cônsul em 39, 40 e 41 (Eck 2006).
De acordo com Suetônio (Cal. 13), a ascensão de Calígula ao poder foi
comemorada pela população de Roma, pelos soldados que o conheceram quan-
do criança e pelos habitantes das províncias. Seu primeiro discurso no senado
– na versão de Díon Cássio (59.6) – teve um tom conciliatório, afirmando que
governaria juntamente com os senadores e colocaria um fim nos processos de
lesa-majestade (maiestas). No discurso fúnebre de Tibério, pronunciado em
abril de 37, ressaltou sua vinculação a Augusto e Germânico, e, a despeito do
fato de o testamento de Tibério ter sido invalidado, honrou seu conteúdo:
doações à guarda pretoriana, ao povo de Roma e às coortes urbanas (uma es-
pécie de força policial).
Outro ato simbólico de reverência à sua família imediata foi sua ida às ilhas
onde sua mãe e irmão pereceram no exílio. Calígula retornou a Roma com seus
restos mortais e depositou-os no mausoléu de Augusto. Na cerimônia, membros
proeminentes da ordem equestre carregaram as urnas em liteiras normalmente
destinadas para transportar estátuas de deuses. Cabe ressaltar que, durante o prin-
cipado de Calígula, as mulheres da família imperial receberam até então o mais
público reconhecimento de seu poder e importância dinástica. As honras conferidas
a suas irmãs (Agripina, Drusila e Júlia Livila) e à mãe destacam-se na primeira
cunhagem de moedas inteiramente devotadas (isto é, tanto no anverso quanto no
reverso) a uma mulher (um sestércio dedicado a Agripina, a Velha); pelo fato de
terem sido as primeiras mulheres vivas representadas e nomeadas numa emissão de
moedas romanas imperiais (as três irmãs de Calígula num sestércio de 37-8 d.C.);
as primeiras mulheres cujos nomes foram incluídos em juramentos públicos junto
com aqueles endereçados ao imperador; as primeiras mulheres a deterem os direi-
tos de virgens vestais (suas irmãs e Antônia Menor, sua avó); a primeira mulher
(Drusila) a ser nomeada no testamento de um imperador como herdeira de seu
imperium, bem como a primeira a ser deificada (Wood 1995; Griffin 1984 26).
Embora tais atos tenham sido interpretados pelos autores antigos – e por
parte da historiografia moderna que subscreve a imagem de Calígula como um
“imperador louco” 4 –, observa-se na ênfase de Calígula em suas irmãs uma

4
Para uma crítica desse tipo de abordagem, não só para o caso de Calígula, mas também de
Nero e Domiciano, ver Winterling 2012.

84
certa racionalidade no sentido de que honrá-las publicamente era honrar o
remanescente da família de Agripina e Germânico, alvo de perseguições por
Sejano sob Tibério. Significava, assim, preparar o público para a aceitação de
qualquer filho de suas irmãs como potenciais herdeiros do trono. Como nos
ensina Saller (1994 95ss), a família como entidade composta por parentescos
consanguíneos vai perder importância no Império. Passam a ter cada vez mais
peso as relações de parentescos ágnatas, geradas por casamentos e adoções, por
exemplo. A família vai deixando de ser progressivamente o resultado de uma
ascendência genética – a respeito da qual nada se pode fazer – para correspon-
der a um conjunto de relações que se pode construir.
Isto se revela sobretudo no caso de Drusila. Ainda que casada com Lúcio
Cássio Longino, Calígula uniu-a com Marco Emílio Lépido, membro de uma
prestigiosa família republicana e de longa data associada a Augusto. Seu pai
(cônsul em 6 d.C.) teria sido considerado por Augusto como capax imperii (cf.
Tac. Ann. 1.13). A irmã de Lépido, Emília Lépida, fora esposa de Druso, irmão
de Calígula. A confiança de Calígula em Lépido transparece, ademais, no fato
de ter-lhe dado o sinete durante sua convalescência em 37 d.C., indicando que
Lépido, como marido de Drusila, deveria administrar a casa imperial se Calígula
falecesse (Wiedemann 1996 224). Se entende, então, que a morte de Drusila
em setembro de 38 tenha impactado as pretensões de Calígula.
No entanto, o ponto de virada de seu governo é localizado em 39, quando
Calígula alegou a descoberta de uma conspiração para derrubá-lo. As circuns-
tâncias desse evento não são muito claras, mas um dado de relevo é que os
indivíduos envolvidos não eram velhos rivais da família de Germânico e tam-
pouco partidários de Tibério Gemelo, que Calígula eliminara em 37 (Winterling
2011 94). À frente estariam Lépido e Cneu Cornélio Lentulo Getúlico, cônsul
em 26 d.C. e comandante das legiões da Germânia superior desde 30. A pre-
sença de Lépido confere um conteúdo dinástico a essa conspiração, visto que
fora casado com Drusila e a morte dela não o distanciou das pretensões ao
poder supremo. Dessa maneira, a conspiração de 39 foi o primeiro momento
em que Calígula viu-se impelido a defender sua posição no plano da casa
imperial. Esse foi o momento também em que Calígula rompeu o estado de
conciliação com o senado, acusando os senadores de odiá-lo e planejarem sua
morte (D.C. 59.16.2-7). Então, como sintetiza Aloys Winterling (2012 12),
“ele rompeu o complexo e ambíguo sistema de comunicação e trouxe à cena
a questão central que, durante décadas, e com grande esforço, fora mantida
latente na comunicação entre imperador e senadores: a discrepância funda-
mental entre o poder imperial e os interesses da aristocracia, a falta de
aceitação do imperador e a ameaça a sua pessoa representada especificamente
pelos senadores”. Este quadro se repete no caso de outros “maus imperadores”,
notadamente Nero e Cômodo.
Lépido e Getúlico foram executados, enquanto que Agripina e Livila, acu-
sadas de adultério com Lépido, foram exiladas. Essas ações foram tomadas por

85
Calígula a caminho das legiões do Reno, com o objetivo primevo de conter
uma possível rebelião liderada por Getúlico. O imperador, após executá-lo,
substitui-o por Sérvio Sulpício Galba, e reorganiza as tropas, dispensando um
número de centuriões e também comandantes de outras legiões de províncias
que teriam chegado tarde à Germânia. Calígula acreditava que havia uma re-
belião de Getúlico, mas o cenário que encontrou não foi de resistência. Ao lado
de Galba, Calígula chefiou algumas expedições ao longo do Reno.
O imperador deixou a fronteira renana e passou o inverno de 39-40 em
Lyon, capital da província da Gália Lugdunense. Nessa localidade Calígula
organizou dois leilões, um com as posses de suas irmãs, outro com pertences
da família imperial. As fontes que reportam esses eventos – Suetônio (Cal. 39.1)
e Díon Cássio (59.21) –, apesar de, em parte, aproveitarem a oportunidade
para enfatizar o comportamento tirânico de Calígula, que teria dispensado bens
do povo romano por ganância, também permitem vislumbrar uma preocupação
do imperador em ganhar apoio das elites gaulesas, permitindo-lhes que tivessem
acesso a bens da família imperial. O segundo leilão, sobretudo, poderia assim
ser compreendido como um ritual de conciliação num momento de enfrenta-
mento de conspirações e necessidade de dinheiro. Cabe lembrar que, na Gália,
Calígula concebe a ideia de uma conquista da Bretanha, além de medidas para
assegurar a posição romana no limite renano (Kleijwegt 1996).
Ambas as regiões estavam estrategicamente ligadas, embora não se possa as-
severar que Calígula tivesse por pretensão uma grande ofensiva na Germânia.
Garantir a frente oriental contra incursões germanas significava possibilitar uma
campanha na Bretanha sem o risco de cortes nos suprimentos. De toda a sorte,
qualquer plano de invasão da ilha parece ter sido adiado e Calígula retornou a
Roma em agosto de 40 (Barrett 2001 129-138), colocando em prática, até sua
morte em janeiro de 41, uma política de enfrentamento com a aristocracia sena-
torial, a ponto de colocar a guarda pretoriana posicionada no senado e promover
uma degradação cerimonial no trato com os aristocratas. O auge dessa conjun-
tura ocorreu quando Calígula permitiu que a aristocracia o venerasse como
divino, um fato inédito até então. Em suma, o que se observa doravante no
comportamento de Calígula é a tentativa de aniquilar a hierarquia aristocrática
e obter uma posição de honra para si mesmo para além daquela hierarquia ba-
seada nas honras republicanas ligadas a magistraturas (Winterling 2012 14).
O resultado final dessa tensão entre princeps e aristocracia foi a eliminação
do próprio Calígula por uma conspiração em 24 de janeiro de 41, quando
também pereceram sua esposa Milônia Cesônia e a filha Júlia Drusila.
Do ponto de vista da história dos Júlio-Cláudios, o reinado de Calígula
permite vislumbrar, com suas frequentes alusões ao passado da dinastia e im-
portância das mulheres da família imperial, um momento crucial para o estudo
da legitimidade dinástica (Cogitore 2002 202), aspecto este que continuará
candente sob os imperadores seguintes, Cláudio e Nero, quando também entram
em cena os libertos imperiais.

86
3. Cláudio5

Nascido em 10 a.C., em Lugdunum (Lyon), Tibério Cláudio Druso era o


filho mais jovem de Cláudio e Antônia Menor, irmão de Germânico, sobrinho
de Tibério e tio de Calígula. Embora intimamente vinculado à domus Augusta,
Cláudio permaneceu uma figura de segundo plano. Augusto conferiu-lhe o
augurado, mas Cláudio não ingressou no senado. Continuou como membro
da ordem equestre e, após a morte de Augusto, tornou-se sodalis Augustalis.
Quando Calígula se tornou imperador em 37, designou Cláudio como co-
-cônsul, mas, a nos fiarmos em Suetônio (Cl. 9.2), apenas para rebaixá-lo,
consultando-o sempre por último nas sessões do senado. Desde 39/40, Cláudio
esteve casado com Valéria Messalina, de quem teve Otávia, em 40, e Britânico
em 41. Foi aclamado imperador pelos pretorianos (e logo depois pelo senado)
em 41, em seguida à morte de Calígula (da qual provavelmente foi cúmplice,
cf. Levick 1990 35). Cláudio recebeu a tribunicia potestas e o imperium procon-
sulare, além de ser pontifex maximus. Foi cônsul quatro vezes e recebeu o
título de pater patriae já em 42 (Eck 2006).
A tradição literária – em especial, Sêneca, Suetônio e Tácito – sobre Cláudio
é particularmente hostil, embora permitam vislumbrar pontos positivos de seu
governo. Prepondera, contudo, a imagem de um imperador “fraco”, sem mui-
ta iniciativa própria, refém de suas esposas e libertos. A historiografia mais
recente tem buscado rever essa interpretação, tomando os anos de reinado de
Cláudio como ponto de partida para uma análise do desenvolvimento da cul-
tura política imperial num momento ainda incipiente de institucionalização
do Principado (Osgood 2011 22).
Nesse sentido, um fato digno de menção foi o apoio dos pretorianos a
Cláudio, que deixou o senado sem alternativa a não ser proclamá-lo imperador.
O débito de Cláudio com a guarda pretoriana revela-se nas moedas do início
de seu governo (que mostram imagens do imperador com os soldados), e cuja
cunhagem objetivou pagar o donativo sem precedentes de quinze mil sestércios
aos pretorianos (Wiedemann 1996 232). Contudo, não apenas uma lógica
pecuniária explica a posição da tropa, visto que já revela a atuação do exérci-
to na fabricação do princeps, um dado que retornará de forma mais incisiva
após a morte de Nero em 68.
Do ponto de vista dinástico, Cláudio, assim como seus antecessores, buscou
reforçar sua posição por alianças familiares. Em 42 Ápio Júnio Silano foi cha-
mado de seu governo na Tarraconense para se casar com a mãe de Messalina,
Domícia Lépida, filha da sobrinha de Augusto, Antônia Maior. A filha de
Cláudio com Élia Petina, Antônia, foi casada com Pompeu Magno, filho de

5
Sobre Cláudio as principais fontes são Sêneca (Apoc.), Suetônio (Cl.), Tácito (Ann. 11-12)
e Díon Cássio (60). Seguimos Eck 2006c; Kienast 2011 90-92; Levick 1990; Osgood 2011;
Wiedemann 1996 229-241.

87
Marco Licínio Cássio Frugi, cônsul em 27 d.C.. Otávia, filha de Cláudio e
Messalina, com dois anos foi comprometida com Lúcio Júnio Torquato Silano.
Cláudio também permitiu o retorno do exílio de Júlia Livila e Agripina. Livila
foi executada pouco depois de sua volta, mas Agripina recuperou a guarda de
seu filho, Domício Aenobarbo, o futuro imperador Nero, e sua propriedade,
confiscada por Calígula, voltou às suas mãos. Casou, então, com Gaio Salústio
Passieno Crispo, filho adotivo de Gaio Salústio Crispo, conselheiro de Augusto.
Como notou Barbara Levick (1990 46), “a proeminência das mulheres nos
principados de Gaio e Cláudio mostra o quanto de progresso ocorreu em di-
reção de se tornar a posição suprema virtualmente a posse hereditária de uma
única família”. Todavia, dentro desse mesmo processo, já em 42 Cláudio veio
a enfrentar conspirações. A primeira, com Ápio Silano, acima citado, e a se-
gunda, liderada pelo legado da Dalmácia, Lúcio Camilo Escriboniano. Ambos
acabaram mortos (Wiedemann 1996 253-4).
Um segundo aspecto que confere uma certa peculiaridade ao principado
claudiano é o papel desempenhado pela chamada familia Caesaris. Com Cláudio,
alguns libertos assumiram um maior papel político-administrativo devido a
uma associação entre procuradores equestres e procuradores libertos para a
administração de assuntos financeiros e provinciais. Cabe notar que as carreiras
de cavaleiros e libertos sempre se mantiveram rigidamente separadas (Weaver
1981), de maneira que as críticas dirigidas aos libertos imperiais pela aristocra-
cia em Roma visavam mais à atribuição de honrarias a esse segmento pelo
imperador, que costumeiramente cabiam a senadores. Essa dissonância de
status, sublinhada pelos autores antigos, não nos deve fazer esquecer a função
dos libertos na gerência da casa e propriedades imperiais. Os numerosos teste-
munhos epigráficos, estudados sobretudo por Boulvert (1970) e Weaver (1972),
documentam esse ponto. E mesmo informações fornecidas pela literatura
permitem vislumbrar tal papel. Para o caso específico do principado de Cláudio,
pode-se citar o senatus consultum Claudianum, de 52 d.C. (cf. Gaius Inst. 1.84),
que, conforme Tácito (Ann. 12.53), foi apresentado ao senado como uma
proposta do liberto Palas, encarregado das finanças imperiais. O objetivo últi-
mo da lei era regular os casamentos na familia Caesaris, resguardando os
interesses do fiscus, ao reduzir as esposas, nascidas livres, de escravos imperiais
à condição de escravas imperais (Caesaris servae), e todos os seus filhos ao sta-
tus de escravos também (Caesaris vernae) (Weaver 1972 168).
Além dessa maior importância dos libertos e escravos do imperador, observa-
-se também, no governo de Cláudio, uma redefinição das atribuições da ordem
equestre. Por um lado, em Roma, Cláudio reduziu a idade de 25 para 24 anos
para os cavaleiros comporem tribunais de justiça, um campo que particularmen-
te interessou Cláudio. Por outro lado, no tocante à organização das províncias
(a conquista da Bretanha foi seu maior triunfo), enquanto anteriormente os
cavaleiros enviados para governar províncias menores ou distritos como a Judeia
e a Récia ganhavam o título militar de prefeito, que conferia certo prestígio,

88
com Cláudio ocorreu uma substituição dos prefeitos por procuradores, como,
por exemplo, nas novas províncias da Mauritânia Caesariense e Mauritânia
Tingitana (Levick 1990 48-49; Osgood 2011 113). O uso do título procurator
enfatizava o controle pessoal de Cláudio sobre as províncias, uma vez que os
praefecti eram usualmente apontados pelo comandante senatorial que subjugara
o território. Esse maior controle imperial também se nota na transferência, em
44 d.C., da responsabilidade pelo aerarium Saturni de uma dupla de pretores
(que era escolhida anualmente por sorteio, desde 23 a.C.)6 para uma outra de
questores, agora apontados pelo princeps, e na transferência da responsabilidade
pelo pagamento das distribuições de trigo do aerarium para o fiscus, ou seja, para
o tesouro imperial. Essas medidas todas foram tomadas por alguns estudiosos,
como Arnaldo Momigliano (1961), como reveladoras de uma tendência centra-
lizadora de Cláudio, confrontando a autonomia senatorial.
No entanto, há registros também de muitas questões que Cláudio poderia
ter resolvido sozinho, mas que remeteu ao senado (Eck 2006). Por exemplo,
ele fez o senado confirmar a autoridade de procuradores na administração da
justiça (Tac. Ann. 12.60), assim como possibilitou o ingresso de alguns aristo-
cratas gauleses no senado, com a aquiescência desse órgão (Tac. Ann. 11.23-25;
CIL XIII 1668 = ILS 212; ver Griffin 1982). Mesmo no caso de Palas, acima
citado, foi o senado quem conferiu os ornamenta praetoria (Tac. Ann. 12.53;
para indignação de Plínio, o Jovem, Ep. 7.29.2).
Ao invés de se falar em centralização do poder – algo que é inerente ao
governo de qualquer imperador – é preciso atentar para o principado de Cláudio
como um período importante na institucionalização de uma corte (aula). Isso
se nota na configuração das residências imperiais no monte Palatino, onde, de
Augusto a Nero, as casas de outros aristocratas foram, sucessivamente, deslo-
cadas pelas domus dos principes.
Sob Cláudio, a chamada domus Tiberiana, uma construção palaciana, cujas
dimensões mediam 117 por 132 metros, desenvolveu-se na parte setentrional da
colina, rompendo – assim, como, mais tarde, sob Domiciano, a domus Augustana
na parte meridional do Palatino – do ponto de vista qualitativo e quantitativo
com os padrões das residências aristocráticas de então, impondo um caráter à
parte para a casa imperial (Winterling 1999 64). A partir de Cláudio, a corte
assumiu um papel central na tomada de decisões políticas e que afetavam os
rumos dinásticos do Principado (Michel 2015). Isso fica bem ilustrado pela
movimentação na corte que se seguiu a uma conspiração contra o imperador,
quando sua esposa, Messalina, pretendeu desposar um jovem aristocrata, de nome
Gaio Sílio. O problema não foi a infidelidade de Messalina, mas a formação de
laço matrimonial, reforçando nossa hipótese de que as famílias governantes ga-
nhavam destaque em detrimento de indivíduos. E, na composição das famílias,
casamentos e adoções são fundamentais. Após a eliminação de ambos, de acordo

6
Vide cap. 1, Leão e Brandão, § 4.2 e 4.4.

89
com Tácito, os libertos de Cláudio discutiram entre si, sobre a futura esposa do
imperador (Ann. 12.1). O casamento de Cláudio com Agripina em 48 d.C., sob
instigação de Palas, abriu caminho para que seu filho, Domício Aenobarbo,
fosse designado como sucessor ao trono. Em 49 foi prometido a Otávia, filha de
Cláudio, e, em 50, foi adotado pelo imperador. Cláudio acabou morto, envene-
nado pela própria Agripina em 54 (Tac. Ann. 12.66-69; Suet. Cl. 44).

4. Nero7

Nascido em 15 de dezembro de 37, em Antium, Lúcio Domício Aenobarbo


era filho de Cneu Domício e Agripina Menor. O pai de Nero morreu em 40 e
sua mãe foi banida por Calígula, fazendo com que Nero fosse inicialmente
criado por sua tia, Domícia Lépida. Quando Agripina retornou do exílio em
41, Nero, como descendente de Augusto, ficou visado como sucessor ao trono.
Isso apenas foi reforçado por sua adoção por Cláudio em 50, quando tomou o
nome de Nero Cláudio César Druso Germânico. Em 51 Nero foi designado
princeps iuventutis, e, em 53, casou-se com Otávia, filha de Cláudio. Embora
Cláudio tivesse um filho próprio, Britânico, Agripina conseguiu afastá-lo.
A morte de Cláudio em 54 selou a ascensão de Nero. Em 13 de outubro de 54
Nero foi aclamado pelos pretorianos, cujo prefeito, Afrânio Burro, era aliado de
Agripina. Outro suporte importante vinha de Sêneca, cuja volta do exílio im-
posto por Cláudio fora orquestrada por Agripina. O senado logo conferiu a Nero
a tribunicia potestas e o imperium proconsulare, tradicionais atributos que con-
firmavam o poder imperial. Em 55 Nero assumiu seu primeiro consulado; os
seguintes ocorreram em 57, 58, 60 e 68. Em 55 aceitou o título de pater patriae,
após uma vitória diplomática contra os Partos (Elvers - Eck - Eder 2006).
Embora Agripina tenha estado à frente para elevar Nero ao poder imperial,
após 55 ocorre um paulatino enfraquecimento de sua influência. O assassinato
de Britânico nesse ano consolidou a posição de Nero, assim como o afastamento,
nesse mesmo ano, do liberto Palas de seu posto de a rationibus. A ligação de
Nero com uma liberta, Acte, também é relacionada por Tácito e Díon Cássio a
uma perda do controle da mãe sobre o filho. Acte aparece logo em 55, como
amante do imperador (Ann. 13.12), com a ciência de Sêneca e Burro, e Díon
Cássio (61.71), remontando a ascendência de Acte a Átalo III, rei de Pérgamo,
afirma que o imperador amava-a mais que a Otávia, sua esposa.8 O assassinato

7
Sobre Nero as principais fontes são Suetônio (Nero), Tácito (Ann. 13-16) e Díon Cássio
(61-63). Seguimos Champlin 2003; Elvers - Eck - Eder 2006; Griffin 1984; Kienast 2011 96-98;
Wiedemann 1996 241-255.
8
Escrava libertada por Cláudio ou Nero, Acte recebeu de Nero vastas propriedades fundiárias
no Lácio (em Velletri), na Campânia (em Pozzuoli), talvez no Egito e principalmente na Sardenha
(em Ólbia) (Mastino – Ruggeri 1995).

90
de Agripina em 59 constituiu o auge desse processo de separação de Nero das
suas ligações com a família Júlio-Cláudia, ainda mais intensificado ao se divorciar
de Otávia, e bani-la de Roma em 62, para se casar com Popéia Sabina, oriunda
de uma família sem ancestralidade senatorial, de Pompéia (Griffin 1984 101-102).
O assassinato de Agripina, se confiarmos em especial no relato de Tácito, contou
com largo apoio dos soldados, das municipalidades e, por fim, do próprio sena-
do (Tac. Ann. 14.10-13). Já o banimento de Otávia encontrou resistência (Tac.
Ann. 14.61). Avaliamos que ambos os movimentos, de apoio e resistência, têm
a mesma origem: uma preocupação com o enfraquecimento da família imperial.
Sêneca e Burro destacam-se, portanto, como as principais personalidades dos
anos iniciais do principado neroniano, tanto que, como ponderou Anthony
Barrett (1999 159), “a natureza da influência de Sêneca e Burro sobre Nero e
suas contribuições no declínio do papel de Agripina representam o mais difícil
problema histórico dos primeiros anos do reinado de Nero”. No caso específico
de Sêneca, é comum atribuir-lhe, seguindo Tácito, a elaboração de uma propos-
ta de governo para Nero sintonizada com um ideal senatorial, que postulava,
acima de tudo, uma colaboração entre imperador e senado, como se o princeps
fosse um primus inter pares, qualificada especialmente na literatura anglófona
como um quinquennium Neronis (para uma crítica desta concepção, ver Faversani
2014). A leitura da obra de Sêneca, como seu De clementia, contudo, não cor-
robora essa tese, visto que Sêneca aí avança um ideal de principado que o
tornava mais autocrático e centralizado (Faversani 2007).
De qualquer forma, Nero não deixou de reconhecer a dignidade das ordens
equestre e senatorial. Suetônio cita o fato de não ter admitido no senado filhos
de libertos e o costume de fazer ler por um cônsul suas mensagens na cúria
(Nero 15) como exemplos de seu respeito pela instituição do consulado. Na
descrição suetoniana dos espetáculos oferecidos por Nero em Roma continua
a predominar a ênfase no respeito do imperador frente à aristocracia, como nos
Iuvenales (Nero 11). Os Iuvenales foram instituídos em 59 d.C. (Tac. Ann. 14.15;
D.C. 61.19-21) e pelo menos até antes de 64 esses jogos foram realizados
anualmente. Além dos Iuvenales, a participação de aristocratas no palco ou na
arena é atestada para os anos 57 (Tac. Ann. 13.31), 59 (Tac. Ann. 14.14; D.C.
61.17), 60 (Tac. Ann. 14.20; D.C. 61.21) e 63 (Tac. Ann. 15.32). Sobre os
jogos quinquenais em 60 d.C., Tácito reconhece que muitos, inclusive sena-
dores, apoiavam a iniciativa de Nero (Ann. 14.21). Sobre os jogos denominados
Neronia, Suetônio acrescenta ainda que Nero deu lugares de honra aos senado-
res e aos cavaleiros e determinou que consulares fossem sorteados como juízes
dos concursos (Nero 12) (cf. Joly 2005 117-119).
Essa preferência de Nero pelo campo artístico, longe de ser uma mera ex-
centricidade do imperador, revela uma forma de se inserir no ambiente de
competição intra-aristocrática de Roma e uma certa concepção do Principado
(Manning 1975). De acordo com Aloys Winterling, “com Nero, não é a refe-
rência à res publica que serve como base para a posição imperial. A hierarquia

91
política tradicional, em que a honra social resultava de cargos políticos, ou seja,
a partir de conquistas para a comunidade política, e em que o imperador não
encontrava um lugar, aqui aparece anulada e substituída por uma alternativa.
Um tipo de meritocracia permanece como a base da classificação social. Não
honras de cargos públicos, mas vitórias nas competições aparecem como a base
da glória imperial, e antigos ideais aristocráticos gregos servem como ponto de
referência” (Winterling 2012 14).
Essa escolha, todavia, não impediu um certo isolamento do imperador
frente a setores da aristocracia e sobretudo frente ao exército (a despeito das
vitórias na Bretanha sobre Boudica por Suetônio Paulino em 60, e sobre os
Partos com Domício Corbulão em 63). Em especial com a plebe de Roma Nero
gozava de popularidade9. Em 65 arma-se uma conspiração contra Nero para
tentar colocar no poder C. Calpúrnio Pisão, de uma família nobre. Tácito
qualifica essa conspiração de militaris conspiratio (Ann. 15.66) pelo envolvi-
mento de pretorianos (ver também Suet. Nero 36.1-2; D.C. 62.24-27). Delatada
a conjura por um liberto dos senadores envolvidos, seguiu-se uma dura repres-
são com a morte de cavaleiros e senadores. O próprio Sêneca, e seu sobrinho,
o poeta Lucano, pereceram nessa ocasião. Outro fator importante de instabili-
dade do principado de Nero foi o grande incêndio de Roma em 64. Além de
ter gerado importantes problemas fiscais sobre os quais as fontes falam pou-
quíssimo, trouxe uma agudização das diferenças hierárquicas entre imperador
e os demais aristocratas com a construção da monumental Domus Aurea. Para
se ter uma ideia, sob Vespasiano, a construção do magnífico Coliseu foi cele-
brada como a retomada para o público daquilo que havia sido apropriado por
um privado. A tensão entre público e privado no que se refere às posses e
atuação tanto do imperador quanto daqueles que lhe são próximos, seguirá
sendo um tema central de conflitos ao longo de todo o principado.
Desde então a posição de Nero em Roma fragiliza-se, tanto que, em 66,
parte para a Grécia, para participar em concursos artísticos, deixando seu liber-
to Hélio em Roma como informante do estado de coisas. Retornou a Roma
apenas em 68, quando teve notícias da sublevação de Júlio Vindex, apoiado por
Galba, na província da Gália Lugdunense. Ninfídio Sabino, prefeito do Pretório,
percebendo que Nero estava isolado, juntou-se a Galba com os pretorianos. Em
8 de junho de 68, o senado declarou Nero inimigo público. Um dia depois, fora
de Roma, Nero comete suicídio, auxiliado por um de seus libertos.
Seguiu-se à morte de Nero uma guerra civil que perduraria até a vitória final
de Vespasiano em 69, em que os envolvidos clamavam estar libertando Roma
da opressão de um tirano. Moedas com as legendas Libertas Restituta e Adsertor
Libertatis Publica foram cunhadas por Júlio Civil, Galba, Vitélio e Vespasiano,
sugerindo que certos grupos antes se viam como “escravos” de Nero (Roller 2001

9
A relação da plebe de Roma, bem como o apelo popular desse imperador, até mesmo depois
de sua morte, é um ponto desenvolvido por Champlin 2003.

92
261). Ainda no século IV, Aurélio Vitor, em seu Epitome de Caesaribus, uma
compilação de eventos dos reinados de Augusto a Teodósio, apresenta o com-
portamento da plebe de Roma, quando da morte de Nero, como um ritual de
libertação de escravos10. Com o fim de Nero, encerrava-se a dinastia Júlio-Cláudia.
Tácito, quando narra, nas Histórias, os eventos da guerra civil de 68-69,
que se seguiu à morte de Nero, afirma que então fora desvelado um dos arcana
imperii: o imperador agora poderia ser feito fora de Roma (Hist. 1.4)11. Se esse
comentário, por um lado, revela o peso maior dos exércitos na indicação do
princeps após os Júlio-Cláudios, por outro, não significa que deitou por terra
a ideia de dinastia. Vespasiano, que saiu vitorioso da guerra civil, foi sucedido
por seus filhos, Tito e Domiciano.
Um aspecto interessante quando estudamos os principados dos Júlio-Cláudios
é o afastamento entre o que dizem as fontes de sua própria época e aquelas
posteriores. Isto já havia sido apontado por Tácito quando cunhou sua famosa
legenda “sine ira et studio”. Mas cumpre destacar que é um campo fértil para
reflexão tanto que os imperadores bons foram se transformando pelas fontes
em imperadores perfeitos (sendo todas as críticas pouco a pouco esquecidas,
como no caso de Augusto) e os maus foram feitos intoleráveis – mesmo tendo
governado por mais de década em alguns casos, como Nero e Domiciano (sen-
do suas qualidades totalmente apagadas com o passar das gerações). Esta ilusão
produzida pelas fontes de uma divisão enorme entre bons e maus imperadores
se tornou algo corrente para o público, mas vem sendo intensamente revisada
pela historiografia recente.

Tábua cronológica

19 de agosto de 14 d.C. – morte de Augusto


10 de outubro de 19 d.C. – morte de Germânico
26 d.C. – Tibério deixa Roma
27 d.C. – Tibério se fixa em Capri
31 d.C. – morte de Sejano
16 de março de 37 d.C. – morte de Tibério
39 d.C. – exílio de Agripina e Livila, irmão de Calígula
24 de janeiro de 41 d.C. – assassinato de Calígula
43 d.C. – conquista da Bretanha por Cláudio
50 d. C. – adoção de Nero por Cláudio
13 de outubro de 54 d.C. – morte de Cláudio
Março de 59 d.C. – assassinato de Agripina, mãe de Nero
19 de junho de 64 d.C. – início do incêndio de Roma, sob Nero, que duraria cerca de nove dias
65 d.C. – conspiração de C. Calpúrnio Pisão contra Nero
Setembro de 66 d.C. – ida de Nero à Grécia para participar em jogos
09 de junho de 68 d.C. – suicídio de Nero

10
Epit. 8-9: ut plebs induta pilleis manumissionum tamquam saevo exempta domino triumpharet.
11
Sobre este assunto, vide cap. seguinte, Brandão.

93
Bibliografia

Barrett, A. A. (1999), Agrippina: sex, power, and politics in the Early Empire. London, Routledge.
________ (2001), Caligula: The Corruption of Power. London, Routledge.
Boulvert, G. (1970), Esclaves et affranchis impériaux sous le Haut-Empire: rôle politique et administratif.
Napoli, Jovene.
Campos, R. C. (2013), Entre Roma e Capri: o afastamento de Tibério César como ponto de inflexão política
durante seu Principado. Tese de doutorado, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Uni-
versidade de São Paulo.
Cary, E. – Foster, H. (1924), Cassius Dio. Roman History, vol. VIII (books 56-60), ed., trad. Massachu-
setts, Harvard University Press.
________ (1925), Cassius Dio. Roman History, vol. VIII (books 61-70), ed., trad. Massachusetts, Har-
vard University Press.
Champlin, E. (2003), Nero. Massachusetts, Belknap Press/Harvard University Press.
Cogitore, I. (2002), La légitimité dynastique d’Auguste à Néron à l’épreuve des conspirations. Roma, École
Française de Rome.
Eck, W. (2006a), “Tiberius”, in H. Cancik - H. Schneider, eds. Brill’s New Pauly. Leiden, Brill.
________ (2006b), “Caligula”, in H. Cancik - H. Schneider, eds. Brill’s New Pauly. Leiden, Brill.
________ (2006c), “Claudius”, in H. Cancik - H. Schneider, eds. Brill’s New Pauly. Leiden, Brill.
Elvers, K.-L. - Eck, W. - Eder, W. (2006), “Nero”, in H. Cancik - H. Schneider, eds. Brill’s New Pauly.
Leiden, Brill.
Faversani, F. (2007), “Tácito, Sêneca e a historiografia”, in F. D. Joly, ed., História e retórica: Ensaios sobre
a historiografia antiga. São Paulo, Alameda Casa Editorial 137-146.
________ (2013), “Entre a República e o Império: apontamentos sobre a amplitude desta fronteira”,
Mare nostrum 4 100-111.
________ (2014), “Quinquennium Neronis e a ideia de um bom governo”, Phoînix 20-1 158-177.
Gaia, D. V. (2014), “Inopia nummorum: Uma leitura da crise financeira de 33 d.C.”, Phoînix 20-1 144-
157.
Goelzer, H. (1953), Tacite. Annales, vols. I-III, ed., trad. Paris, Les Belles Lettres.
________ (1953), Tacite. Histoires, vols. I-II, ed., trad. Paris, Les Belles Lettres.
Griffin, M. T. (1982), “The Lyons Tablet and Tacitean Hindsight”, Classical Quarterly 32 404-418.
________ (1984), Nero: the end of a dynasty. London, B. T. Batsford.
Joly, F. D. (2005), “Suetônio e a tradição historiográfica senatorial: uma leitura da Vida de Nero”, História
24 111-127.
Kienast, D. (2011), Römische Kaisertabelle: Grundzüge einer römischen Kaiserchronologie. Darmstadt, WBG.
Kleijwegt, M. (1996), “Caligula as auctioneer”, Acta Classica 39 55-66.
Levick, B. (1990), Claudius. London, B. T. Batsford.
________ (1999), Tiberius, the Politician. London, Routledge.
Manning, C. E. (1975), “Acting and Nero’s Conception of the Principate”, Greece & Rome 22(2)
164-175.
Mastino, A. – Ruggeri, P. (1995), “Claudia Augusti liberta Acte, la liberta amata da Nerone ad Olbia”,
Latomus 54(3) 513-545.
Michel, A-C. (2015), La cour sous l’empereur Claude: les enjeux d’un lieux de pouvoir. Rennes, Presses
Universitaires de Rennes.
Millar, F. (1998), “The Roman city-state under the emperors, 29 BC-AD 69”, Prudentia supplementary
number 113-134.
Momigliano, A. (1961) Claudius: The Emperor and his Achievement. Cambridge, W. Heffer & Sons.
Osgood, J. (2011), Claudius Caesar. Image and Power in the Early Roman Empire. Cambridge, Cambridge
University Press.
Rolfe, J. C. (1914), Suetonius. Lives of the Caesars, vol. I (Julius. Augustus. Tiberius. Gaius. Caligula), ed.,
trad. Harvard University Press.
________ (1914), Suetonius. Lives of the Caesars, vol. II (Claudius. Nero. Galba, Otho, and Vitellius.
Vespasian. Titus, Domitian.), ed., trad. Harvard University Press.

94
Roller, M. (2001), Constructing autocracy: aristocrats and emperors in Julio-Claudian Rome. Princeton,
Princeton University Press.
Rowe, G. (2002), Princes and Political Cultures: The New Tiberian Senatorial Decrees. Ann Arbor, The
University of Michigan Press.
Saller, R. (1994), Patriarchy, property and death in the Roman family. Cambridge, Cambridge University
Press.
Shotter, D. (2004), Tiberius Caesar. London, Routledge.
Weaver, P. R. C. (1972), Familia Caesaris: a social study of the emperor’s freedmen and slaves. Cambridge,
Cambridge University Press.
________ (1981), “Movilidad social en el Alto Imperio Romano: la evidéncia de los libertos imperiales
y los esclavos”, in M. I. Finley, ed., Estudios sobre Historia Antigua. Madrid, Akal Editor 137-156.
Wiedemann, T. E. J. (1996), “Tiberius to Nero”, in A. K. Bowman - E. Champlin - A. Lintott, eds. The
Cambridge Ancient History. vol. X: The Augustan Empire, 43 B.C.-A.D. 69. Cambridge, Cambridge
University Press 198-255.
Winterling, A. (1999), Aula Caesaris: Studien zur Institutionalisierung des römischen Kaiserhofes in der Zeit
von Augustus bis Commodus (31 v. Chr.-192 n. Chr.). München, R. Oldenbourg Verlag.
________ (2011), Caligula: A Biography. Berkeley, University of California Press.
________ (2012), “Loucura imperial na Roma antiga”, História 31(1) 4-26.
Wood, S. (1995), “Diva Drusilla Panthea and the sisters of Caligula”, American Journal of Archaeology
99(3) 457-482.

95
(Página deixada propositadamente em branco)
4. Galba, Otão e Vitélio: a crise e experiências de 68-69

José Luís Brandão


Universidade de Coimbra
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
ORCID: 0000-0002-3383-2474
iosephus@fl.uc.pt

Sumário: A aclamação de Galba, governador da Hispânia Tarraconense.


O principado de Galba e a influência dos seus satélites. A austeridade
de Galba e o descontentamento dos exércitos. A aclamação de Vitélio
pelos exércitos da Germânia. A adoção de Pisão como herdeiro de Galba,
o golpe de Estado de Otão e morte de Galba no Foro. O principado de
Otão e a guerra com Vitélio. A vitória deste e o seu avanço até Roma.
A atuação de Vitélio e a aclamação de Vespasiano no Oriente. A guerra
e a morte de Vitélio. O significado da crise.1

Entre o fim dos Júlio-Cláudios e a aclamação dos Flávios estende-se um


período de 18 meses que vale a pena tratar aqui por implicar uma concentração
de sucessivos imperadores com diversas motivações e políticas, bases de apoio
diversas e descentralizadas e diferentes tentativas de definição da identidade do
poder imperial.
A partir do momento em que Nero perdeu o apoio do senado, do povo, dos
exércitos e dos pretorianos, estava aberto o caminho para a guerra civil que
havia de se estender pelo ano e meio a seguir à morte do último representante
da dinastia júlio-cláudia, em junho de 68 d.C.. Neste breve trecho, desfilaram
em Roma quatro imperadores: Galba, Otão, Vitélio e, por fim, Vespasiano, o
único que se impôs e deu início à dinastia dos Flávios. Por isso, o ano de 69
fica conhecido como “o ano dos quatro imperadores”, porque os abarcou a

1
Trabalho realizado no âmbito do Projeto Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and
the Shaping of Identity(ies). (PTDC/LLT-OUT/28431/2017).

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_4
todos, incluindo os últimos dias de Galba e os primeiros de Vespasiano. O
modelo de governo imperial sofre como que a primeira grande crise de identi-
dade, pelo que parece necessitar de uma redefinição2.

1. A linha dura tradicional: Galba, um imperador aclamado na Hispânia

A revolta contra Nero tinha estalado na Gália, na Primavera de 68 d.C.,


com Víndex. Mas, se este governador da Gália Lugdunense, de ascendência
gaulesa, não punha em risco o trono do filho de Agripina – por enquanto, a
Urbe estava habituada a ter principes da mais pura nobreza romana –, quando
Galba, a convite de Víndex, se aliou à revolta, a situação tornava-se mais séria:
o velho general, que então governava a Hispânia, era oriundo de uma linhagem
de distintos políticos do passado; tinha sido próximo da casa de Augusto,
através do favor de Lívia; prestara grandes serviços e acumulara honras nos
principados de Calígula e Cláudio; dera provas de possuir excecionais dotes
administrativos e rigor no governo das províncias; era um paladino dos cos-
tumes antigos – não fora a sua idade avançada e o facto de não ter filhos e
encarnaria o príncipe ideal.
Foi cônsul, em 33, e governador da Aquitânia. Depois, colocado por Calígula
à frente do exército da Germânia, em lugar de Getúlico, restabeleceu imedia-
tamente a disciplina3. Durante o seu proconsulado de África, Galba procedeu
com justiça e rigor4. Depois governou a Hispânia Tarraconense, com alguma
indolência, talvez pela idade ou para não se tornar notado para Nero5.
Galba não hesita muito tempo e aceita a proposta de Víndex, alegando que
intercetara cartas secretas de Nero com ordem de o liquidar (Suet. Gal. 9.2).
Trata então do recrutamento de tropas, instituição de uma espécie de senado,
seleção de um corpo de guarda entre jovens cavaleiros, expedição de éditos a
pedir apoio às províncias6.
À revolta aderiu imediatamente M. Sálvio Otão, antigo companheiro de
Nero, de carácter perdulário. Tendo embora sido enviado para a Lusitânia por
Nero, no que era percebido como um exílio, aparentemente por razões passionais

2
Como fontes principais para este período temos Suetónio, Vidas de Galba, de Otão e de
Vitélio; Plutarco, Vidas de Galba e Otão, a parte sobrevivente das suas biografias de imperadores, a
começar em Augusto e a terminar em Vitélio. Da historiografia antiga temos as Histórias de Tácito
e a História Romana de Díon Cássio.
3
Suetónio (Gal. 6.2) diz que logo se difundiu pelo acampamento o verso: ‘disce miles militare:
Galba est, non Gaetulicus’ (“Aprende, tropa, a andar na tropa: este é Galba, não Getúlico”).
4
Cf. Tac. Hist. 1.49.4.
5
Cf. Suet. Gal 9.1. Cf. D.C., 63.23; Plu. Gal. 4.1.
6
Cf. Suet. Gal. 10.2-3.

98
relacionadas com Popeia Sabina, mas encapotado sob a aparência de promoção7,
governou bem a província durante dez anos8.
Entretanto Víndex é derrotado por Virgínio Rufo, comandante da Germânia
Superior, numa batalha talvez forçada pelos soldados, o que deixa Galba com-
pletamente desmoralizado e inclinado ao suicídio (Suet. Gal. 11). Porém, o
movimento já estava em marcha: rapidamente a revolução atinge o coração do
Império: os pretorianos abandonam Nero e o senado declara-o inimigo público,
empurrando, assim, para o suicídio o último dos Júlio-Cláudios. E eis que Galba,
reconhecido pelo senado, faz a sua caminhada triunfal para Roma, sob o lema
da libertas restituta ‘a liberdade restituída’, depois da tirania de Nero9. A entra-
da em Roma é particularmente sangrenta, o que não augurava nada de bom10.
Com a mudança dos tempos, os velhos valores já não eram percebidos da
mesma maneira. A proverbial parcimónia de Galba, elogiada por Tácito, leva-o a
tomar, quando imperador, atitudes de contenção de despesas, como a revogação
das liberalidades de Nero11, que, agravadas por incoerência e submissão, como diz
Suetónio, aos caprichos dos agentes (Tito Vínio: senador, responsável pelas finan-
ças; Cornélio Lacão: cavaleiro, prefeito do pretório, e Ícelo: um liberto)12, o tornam
impopular13. A corrupção destes gerou injustiças em rendimentos e isenção de

7
Porque Otão tinha sido apenas questor e a Lusitânia era por norma governada por
antigos pretores.
8
Cf. Suet. Otho 2.2-3.2; Tac. Hist. 1.13 e Ann. 13.46; Plu. Gal. 19-20. A revolta de Galba
oferecia-lhe por assim dizer a oportunidade de vingança, como sugere Suetónio (Otho 4.1).
9
Toma o título Caesar (cf. Suet. Gal. 11; D.C. 63.29.6) e põe­‑se a caminho de Roma, vestido
com o manto do general e um punhal, pendurado ostensivamente ao pescoço e pendente sobre
o peito, motivo de ridículo para Díon Cássio (64.3.4). Segundo Poulle (1997 243-252), Galba
estaria a lembrar que o seu bisavô estivera entre os conjurados dos idos de Março (Suet. Gal. 3.2).
Galba retoma a propaganda monetária dos assassinos de César: um pileus rodeado de dois punhais
com a legenda libertas restituta (de facto, temos notícia de que, divulgada a morte de Nero, alguns
festejaram­‑na colocando o pileus: cf. Suet. Nero 57.1)
10
Perecem o prefeito do pretório Ninfídio Sabino, que tentou um novo golpe de estado: segundo
Plutarco (Gal. 14-15), morto pelos soldados no campo pretoriano (enquanto Galba ordenou a morte
dos aliados dele, Cingónio Varrão, cons. designado para 69, e de Mitridates do Ponto, rei cliente
do Bósforo residente em Roma); o legado da Germânia, Fonteio Capitão, segundo o rumor, por
não conseguirem persuadi­‑lo a revoltar­‑se contra Galba; o legado de África, Clódio Macro, que
se revoltara contra Nero promovendo embargo de cereais – este por ordem directa de Galba (Tac.
Hist.1.7.1). Petrónio Turpiliano, cons. de 61, também viria a morrer por continuar leal a Nero (Tac.
Hist.1.6.1). Acresce o massacre, às portas da Urbe, de uns marinheiros que Nero tinha convertido
em soldados e vinham reclamar a confirmação do novo estatuto. Perante a insistência destes, Galba
mandou a cavalaria carregar sobre eles (Suet. Gal.12.2). Por isso, Tácito (Hist. 1.37.3) e Plutarco
(Gal. 15.6-8) sublinham o terror da entrada de Galba em Roma. Vide Morgan 2006 42-43.
11
Cf. Plu. Gal. 16; Tácito, Hist. 1.20; Suet. Gal. 12-13; 15.1. Sobre as políticas de Galba,
vide Sancery 1983 97-119.
12
Suet. Gal. 14.2. Cf. Plu. Gal. 17.1; Tácito, Hist. 1.13.1. Vide Sancery 1983 121-124;
Martin 1991 286-287.
13
Suet. Gal. 14.1. Cf. Tácito, Hist. 1.7.2.

99
impostos e arbitrariedade em algumas execuções14. A ideia de que era um bom
cidadão privado, mas mau imperador, vem expressa em Tácito (Hist. 1.49.4) de
forma arguta e humorada: “era por consenso universal apto para o império, se não
fosse imperador!”. Suetónio (Gal. 12.1) é mais negativo, pois considera-o essen-
cialmente avaro e cruel. Mas foi muito prejudicial para Galba o facto de não
atribuir aos soldados pretorianos o donativo que o prefeito do Pretório, Ninfídio
Sabino, lhes tinha prometido, para os convencer a abandonarem Nero e prestarem
o seu juramento a Galba, como se tornara habitual depois de Cláudio15.
Também o exército da Germânia Superior se agitava por se ver defraudado
nas suas aspirações, depois de ter vencido Víndex, e por o seu popular coman-
dante, Virgínio Rufo, ter sido substituído de modo pouco honroso (depois de
haver recusado o cargo de imperador que os soldados lhe ofereciam). Rejeitavam,
pois, um imperador eleito na Hispânia 16. A revolta alastrou ao exército da
Germânia Inferior, comandado por Aulo Vitélio, que, embora dado aos praze-
res da comida e da bebida, era da mais ilustre cepa romana, sendo ele próprio
próximo de Calígula, de Cláudio e de Nero17.
Pensava Galba que o problema era o facto de ser idoso e não ter filhos, pelo
que tratou de adotar um jovem nobre, que seria o seu sucessor. A escolha de
Galba recaiu sobre L. Calpúrnio Pisão Frúgi Liciniano, jovem ilustre que dava
provas de grande elevação moral, mas pouco conhecido. A família fora dura-
mente reprimida por Cláudio e por Nero. Ao fazer tal escolha Galba estaria a
pensar no interesse do Estado, mas o exército preferia Otão. E este esperava vir
a ser adotado, pelo que não se poupava a despesas para conciliar o favor dos
pretorianos com generosos donativos. Ao desapontamento de Otão por ter sido
preterido, associou-se o ressentimento dos pretorianos, por Galba nem sequer
nessa altura, ao anunciar a adoção diante da parada, lhes conceder o donativo18.
Em poucos dias, como nota Plutarco, o golpe de estado foi perpetrado de uma
forma aparentemente temerária: era de tal modo reduzido o número de soldados
que aclamaram primeiramente Otão no Foro, que o próprio acreditava que estava

14
Com castigo de inocentes e, em contrapartida, impunidade para certos agentes de Nero,
contra o parecer do povo romano, como o eunuco Haloto e Tigelino, prefeito do pretório de Nero
desde 62. Cf. Suet. Gal. 15.2; Plu. Gal. 17.4-7. Suetónio apresenta a versão mais desfavorável,
porque silencia o aplauso do povo pela eliminação dos agentes de Nero: Hélio, Policlito; Petino;
Patróbio; Locusta e outros, referidos em Plu. Gal. 17.2-3 e D.C. 63.3.4. Vide Morgan 2006 45-46.
15
Galba replica que “costuma recrutar e não comprar os soldados”. O célebre dito é transmitido
pelas várias fontes: Plu. Gal. 18.4; Tac. Hist. 1.5.2 e Suet. Gal. 16.1. Ninfídio Sabino tinha-lhes
prometido um donativo elevado. Cf. Plu. Gal. 2.1-2 e 8.2.
16
Cf. Plu. Gal. 18.7-9; Suet. Gal. 16.2. Segundo Tácito (Hist. 1.12.1), as legiões da Germânia
Superior entregavam a eleição ao senado e ao povo romano, para atenuarem o carácter insurreccional
do movimento.
17
Cf. Tac. Hist. 1.55-57; Plu. Gal. 22; Suet.Vit. 8.1-2. Sobre os relatos da aclamação, vide
Venini 1974 997-2000; Venini 1977 118-119; Sancery 1983 137-145; Martin 1991 229-230.
18
Cf. Plu. Gal. 23; Tac. Hist. 1.18; Suet. Gal. 17; Otho 5.

100
perdido. Mas, no caminho, outros se lhes juntaram e, uma vez no aquartelamento,
a generalidade dos soldados foi-se aliando por inércia, por medo ou por convicção19.
Nesse mesmo dia, 15 de janeiro de 69 d.C., Galba e Pisão foram assassinados e
decapitados no Foro e, com eles, outros apoiantes: entre estes Vínio, Lacão e Ícelo20.
Afinal o tiranicida libertador também se transformara em tirano, segundo as fontes,
por causa dos que o rodeavam e da condição dos tempos, que eram outros21.

2. A linha moderada: Otão, um imperador dos pretorianos

O novo príncipe, garantindo no senado que fora como que raptado na rua
e forçado a assumir o imperium, mas que o governaria de acordo com o arbítrio
de todos22, conseguiu granjear o favor daquele órgão23 e do povo ao castigar
Tigelino 24, o prefeito do pretório culpado de muitas atrocidades durante o
principado de Nero, e ao proceder com moderação e justiça. Ao mesmo tempo,
terá empreendido uma política conciliatória: não recusou o nome de Nero com
que a plebe o apelidou e até o terá usado em salvo-condutos e cartas25; não se
opôs à reposição das estátuas daquele imperador, restabeleceu os seus procura-
tores e libertos26 e promoveu a conclusão da Domus Aurea27. Mas, por outro

19
Plu. Gal. 25.1-6; Tac. Hist. 27; Suet. Otho 6.3.
20
Vínio talvez estivesse implicado na conspiração, como terá alegado em vão perante os algozes.
Plu. Gal. 27; Tac. Hist. 1.41-43 e 46; Suet. Gal.20. Vide Sancery 1983 157-169; Morgan 2006
57-63; Brandão 2010 39-46.
21
Plutarco (Gal. 29.4-5) expressa admiração por este homem cuja virtude entrara em desuso:
“Daí que, na intenção não de tomar os afazeres do governo em seu proveito, mas antes de se entregar
a si próprio aos afazeres, pensava comandar os homens domesticados por Tigelino e Ninfídio, como
Cipião, Fabrício e Camilo tinham comandado os Romanos de antanho. E, apesar de debilitado pela
velhice, até nas armas e nos exércitos ele era um imperador íntegro e à moda antiga”.
22
Otho 7.1. Em D.C. 64.8, Otão diz, no seu discurso ao senado, que correria perigo de vida,
se se opusesse aos soldados.
23
Plutarco (Gal. 28.1-2) assinala a volubilidade do órgão: “O senado imediatamente aplaudiu,
e, como se tivessem transformado noutros, ou os deuses tivessem mudado, reuniam-se para prestar a
Otão o juramento, que ele próprio tinha prestado (a Galba), sem o ter observado. E proclamavam­
‑no César e Augusto, ainda os cadáveres decapitados jaziam nas suas roupas consulares no Foro.”
Ideia semelhante em Tac. Hist. 1.47.1.
24
Cf. Plu. Oth. 2; Tac. Hist. 1.72.3.
25
Informação de Clúvio Rufo (governador da Hispânia depois de Galba), segundo Plu. Oth. 3.2.
Plutarco acrescenta que Otão renunciou a esta prática ao ver o descontentamento que gerava. Talvez fosse
um boato posto a circular pelos opositores para o inibir de cometer exageros: vide Morgan 2006 99.
26
Provavelmente por necessidade, pois não poderia confiar nos governadores de Galba, numa
altura em que as posições das províncias se extremavam entre ele e Vitélio: cf. Tac. Hist. 1.76. Este
autor salienta a celebração da aclamação de Otão por parte de um liberto de Nero. Vide Murison
1992 110-111.
27
Suet. Otho 7.2. Cf. Tac. Hist. 1.78.2; Plu. Oth. 3.1-2.

101
lado, adotou um estilo de vida austero que o próprio Tácito, apesar de não ser
benevolente com ele, reconhece28.
O clima de insegurança era perpetuado pelos próprios soldados pretorianos
que quase levaram a cabo uma matança de senadores, num banquete no palácio,
a pretexto de que estes conspiravam contra o novo imperador. Foi o próprio
Otão que a custo os protegeu 29. Paralelamente, havia o problema de Vitélio,
entretanto também aclamado na Germânia. Foram enviadas cartas conciliado-
ras, mas, como não foi possível um acordo entre as duas partes, a guerra estava
de novo no horizonte30.
Os exércitos encontraram-se no norte de Itália e a batalha principal deu-se
em Betríaco, pequena cidade perto de Cremona. Embora as circunstâncias
aconselhassem a esperar, Otão, incapaz de suportar por mais tempo um desfecho,
ou pressionado pelos soldados, que desejavam travar combate e regressar a Roma,
ordenou o ataque, enquanto ele próprio se retirava para Brixelo com um pode-
roso contingente militar, cometendo assim mais um erro ao retirar aos soldados
a motivação da sua presença. A batalha, embora desfavorável para Otão, ocorreu
de forma difícil de esclarecer e os relatos divergiam, pelo que o resultado não se
apresentava definitivo. Além disso, estavam a caminho tropas da Mésia. Mas
Otão tomou uma decisão que havia de ser considerada pelas fontes a mais nobre
da sua vida: decidiu sacrificar-se em prol do Estado, para que não houvesse mais
guerra civil por sua causa. Considerava que, vivo, não seria tão útil à res publica
como seria a sua morte, geradora de concórdia. E, depois de tratar da salvaguar-
da dos senadores e amigos que com ele estavam, suicidou­‑se, trespassando o
peito com um punhal. O seu funeral torna patente a devoção dos soldados com
manifestações efusivas de pesar, incluindo suicídios31. As várias fontes estão de
acordo sobre a nobreza da morte, em contraste com a vida. Suetónio é quem
demonstra maior admiração, para o que não seria alheio o facto de o pai do
biógrafo ter sido tribuno angusticlavo no exército de Otão32.

28
Tac. Hist. 1.71.1. Suetónio silencia os outros factos, mesmo os favoráveis a Otão, como o
castigo de Tigelino (Hist. 1.72.3. Wellesley (2000 60) nota que a conexão com Nero tornou Otão
politicamente suspeito, apesar da moderação que adotava de momento. Vide Morgan 2006 95.
29
Cf. Plu. Oth. 3.3-13; Tac. Hist.1.80-85; Suet. Otho 8.2.
30
Suet. Otho 8.1. Cf. Plu. Oth. 4.4-6; Tac. Hist. 1.74.1; D.C. 64.10.1. Suetónio refere até a
oferta de Otão a Vitélio de uma aliança através do casamento com a filha do último.
31
Cf. Suet. Otho 9-12; Plu. Oth. 15-18; Tac. Hist. 2.46-50; D.C. 64.11-15. Vide Martin 1991
364-367; Harris 1962-63 73-77; Gascou 1984 295-316.
32
Como observa Gascou (1984 311-312), Suetónio (Otho 12) não partilha a severidade dos
outros autores em relação à vida de Otão: apenas opõe o modo de vida efeminado a uma morte viril;
Tácito (Hist. 2.50.1) contrasta a morte digna de Otão com o infame assassínio de Galba; Plutarco
(Oth. 18.3) diz que não viveu mais honestamente que Nero, mas morreu mais nobremente; Díon
Cássio (64.15.2) opõe a morte à impiedade e perversidade de Otão, uma morte ótima a uma vida
péssima. Suetónio (Otho 12.2) vai ao ponto de justificar a morte de Galba pelo desejo de restituir
a res p. ac libertas ao povo romano. Para uma análise das razões e do significado do suicídio de
Otão, vide Morgan 2006 139-146.

102
Os senadores que estavam em Mútina ficaram longo tempo indecisos e receosos
e recuaram para Bonónia antes de tomarem qualquer decisão, até que receberam,
por Valente, a confirmação da derrota e suicídio de Otão. A partir daí, decidiram
conceder a Vitélio todas as honras que os imperadores tinham acumulado.

3. Vitélio: imperador imposto pelos exércitos da Germânia

Vitélio tivera o favor de Calígula, Cláudio e Nero, por, segundo diz Suetónio,
favorecer os vícios destes33. A gula é o seu principal defeito, bem realçado na
biografia de Suetónio 34. Contra todas as expetativas, Galba, talvez com a coni-
vência de Tito Vínio, enviara­‑o para a Germânia Inferior mais por desprezo
que por favor: porque, dizia, os homens menos perigosos são os que só pensam
em comer; e com a abundância da província podia satisfazer a sua gula insa-
ciável 35. Dado o seu carácter afável, foi recebido com entusiasmo por um
exército já desejoso de revolta36, e, como se disse atrás, foi aclamado, no mo-
vimento de reação à aclamação de Galba37. Tomou o cognome de Germânico,
adiou o de Augusto e recusou para sempre o de César, assinalando um corte
com os Júlio-Cláudios38. De facto, Vitélio demonstra intenção de fundar uma
dinastia através dos filhos 39. E foi o primeiro imperador que não buscou o
reconhecimento do senado em Roma.
Impressionou as fontes a sua caminhada para a Urbe com os seus exércitos
indisciplinados, acompanhada de pilhagens, rixas entre legionários e tropas
auxiliares e banquetes do imperador40. Quando chega ao campo de Betríaco,

33
O favor de Gaio pela comum paixão pelas corridas do circo; o de Cláudio, pela paixão pelo
jogo dos dados; o de Nero, pelas mesmas paixões e porque, ao presidir aos jogos Neronianos, juntara
os seus rogos aos do povo para que o imperador participasse no concurso dos citaredos — o que
Nero desejava, mas se não atrevia a fazer: cf Suet. Vit. 4.
34
Para este período não podemos contar com o testemunho de Plutarco, pois a Vida de Vitélio
perdeu-se, tal como as suas restantes Vidas dos Césares de Augusto a Nero.
35
Suet. Vit. 7.1.
36
Particularmente os comandantes da Germânia Inferior, Fábio Valente, e da Germânia Superior,
Alieno Cécina, que tinham razões de queixa de Galba. Cf. Tac. Hist. 1.56.
37
Greenhalgh (1975 115-115) procura entrever os méritos que, apesar da hostilidade das fontes,
ele possuiria para ter sido aclamado pelas duas Germânias, apenas um mês depois de chegar, graças
à sua integridade e firmeza na abolição das práticas corruptas no exército.
38
Suet. Vit. 8.2. Cf. Tac. Hist. 1.62.3 e 2.62.2. Vide Greenhalgh 1975 117-118; Murison 1992
152. Terá adiado o título de Augusto devido às suas intenções dinásticas (apesar de declarar a sua
mãe Augusta e de ser admirador de Nero), ou talvez esta ideia fosse criada por retroprojeção pelo
facto de aceitar o título por pressão popular. Para Morgan (2006 149) as contradições resultam
das indecisões e incongruências do próprio Vitélio.
39
Nomeou o filho de 6 anos herdeiro e casou a filha com Décimo Valério Asiático, governador
da Bélgica.
40
Cf. Suet. Vit. 9; Tac. Hist. 1.61ss.

103
cerca de 40 dias depois da batalha, profere, segundo Suetónio, palavras ímpias
e insolentes sobre os mortos e a memória de Otão. Vejamos a viva descrição,
reveladora dos excessos da guerra civil (Vit. 10.3):

Quando chegou aos campos onde se travara o combate, ousou encorajar os que se afas-
tavam dos cadáveres em decomposição com estas palavras abomináveis: ‘Muito bem
cheira um inimigo morto, e ainda melhor se for um concidadão’. E, facto não menos
grave, para suavizar a violência do odor, bebeu bastante vinho puro, à vista de todos,
e distribuiu­‑o em redor. Com a mesma jactância e insolência, ao olhar a lápide escrita
à memória de Otão, disse que ‘ele era digno de tal mausoléu’; e o punhal com que o
antecessor se tinha matado, enviou­‑o para Colónia Agripinense, para ser dedicado a
Marte. E no cume dos Apeninos celebrou mesmo uma vigília.41

Depois assiste aos espetáculos oferecidos pelos seus dois generais rivais:
Cécina, em Cremona, e Valente, em Bonónia42. A caminhada até Roma conti-
nua marcada por conflitos, desta vez entre a imensa horda de soldados e civis
provocadores, e a entrada na Urbe foi uma parada militar impressionante43,
marcada, segundo Suetónio (Vit. 11), por falta de moderação44.
Quanto ao principado, ainda é mais difícil de caracterizar que o de Galba e
Otão, como nota Morgan (2006 148). O governo de Vitélio fora iniciado, ainda
na Gália, com medidas louváveis: segundo Suetónio (Vit. 10.1), licenciou as
coortes pretorianas45, pelo seu péssimo exemplo (subentende­‑se a traição a Nero
e a Galba), e condenou à morte os que tinham pedido a Otão uma recompensa
por terem participado na morte de Galba. Diz o biógrafo que “procedia com
nobreza, no fim de contas, e com grandeza, ao ponto de criar até a esperança
num eminente príncipe, se, quanto ao resto, não agisse mais segundo a natureza
e a vida anterior que segundo a majestade do império”. Tácito (Hist. 2.62) acres-
centa, como ações positivas, que expulsou os astrólogos e proibiu a participação
de cavaleiros em combates de gladiadores, degradantes para a ordem46.
Já em Roma, terá oferecido no campo de Marte um sacrifício aos Manes de
Nero, para que, no entender de Suetónio, não houvesse dúvidas sobre o modelo

41
Cf. Tac. Hist. 2.70. Tácito descreve a cena macabra sem mencionar as palavras ímpias,
embora note o contraste entre atitude dos que choravam e a atitude prazenteira do imperador.
Vide Morgan 2006 157.
42
Cf. Suet. Vit. 9-10; Tac. Hist. 2.68-71.
43
Cf. Tac. Hist. 2.88-89.
44
Segundo o biógrafo, levavam as armas à vista. Mas uma versão mais próxima da legalidade
é apresentada em Tácito (Hist. 2.89.1): Vitélio, que se dispunha a entrar na cidade em traje
militar, deixa­‑se convencer pelos amigos a vestir a toga praetexta, e os oficiais levam uma veste
branca, enquanto em Suetónio envergam o sagum, hábito de guerra contraposto à toga. Vide
Venini 1977 125-126.
45
Segundo Tácito (Hist. 2.67.2), o licenciamento deu-se por fases.
46
Os astrólogos fomentavam problemas dinásticos com as suas previsões. Vide Morgan 2006 152.

104
do seu governo, o que agradava ao povo simples mas não à aristocracia47, e pediu
a um citaredo que, num banquete solene, cantasse uma composição da autoria
daquele imperador.
Suetónio, nítido admirador de Otão, exagera os defeitos de Vitélio. Diz (Vit.
12.1) que este administrou o império segundo a vontade dos mais vis histriões e
aurigas e sobretudo do liberto Asiático, mas parece haver exagero48. Na verdade,
Vitélio até entregou aos cavaleiros as secretarias que antes eram confiadas a liber-
tos49. Um dos problemas é que, enquanto imperador, era uma criação das legiões
da Germânia (como nota Murison 1992 153), pelo que acabava por obsequiar
estes soldados e dispersar os de Otão, o que criava conflitos e indisciplina. Para
Tácito, as transferências que fez, através dos seus generais, enfraqueceram as suas
legiões, a cavalaria e os pretorianos, com efeitos negativos para o próprio50.
Segundo Suetónio, os vícios principais são a sumptuosidade (luxuria) e a
crueldade (saeuitia)51. A sumptuosidade concretiza­‑se na gula. Criticava-se o
hábito de fazer um banquete de cada uma das refeições do dia e de recorrer ao
vómito para aguentar52. Salientam-se avultados gastos com pratos enormes e
requintados, tal o refinamento das iguarias vindas dos extremos do império e
de fora dele e através dos meios do Estado 53. Para Tácito o banquete era o
caminho mais rápido para chegar ao imperador (Hist. 2.95). Mas há aqui mui-
to de estereótipo.
Quanto à crueldade, soa a exagero a sentença de Suetónio de que é exerci-
da contra quem quer que seja e a qualquer pretexto54. Sabe-se que até poupou
inimigos55, pelo que se tratará mais de fama resultante de generalizações. Só se
conhecem duas vítimas ilustres: Cornélio Dolabela, ligado a Galba e marido
da primeira mulher de Vitélio, que parece estar envolvido em traição (Tac. Hist.
2.63-64), e Júnio Bleso, governador da Gália Narbonense (Tac. Hist. 2.38-39)56.

47
Suet. Vit. 11.2. Cf. D.C. 65.7.3. Tácito (Hist. 2.95.1) fala de altares e sacrifícios, mas não
integra o facto num programa de governo.
48
Baseado na admiração que o imperador nutria por histriões e aurigas, o que levava a que viessem
ao seu encontro quando ia a caminho de Roma: cf. Tac. Hist. 2.87. Mas a corrupção de Asiático
é denunciada também em Tácito: Tac. 2.95.2. Vide Murison 1992 158-159; Venini 1977 128.
49
Cf. Tac. Hist. 1.58.1. Vide Greenhalgh 1975 119-120.
50
Cf. Tac. Hist. 2.94.
51
Vit. 13.1.
52
Cf. D.C. 65.4.3.
53
Vit. 13.2-3. Cf. Plin. Nat. 35.163ss; D.C: 65.3.
54
Vit. 14.1: Pronus uero ad cuiuscumque et quacumque de causa necem atque supplicium Parece
ser uma forma de o conotar com estereótipos de Nero, cf. Nero 37.1: Nullus posthac adhibitus
dilectus aut modus interimendi quoscumque libuisset quacumque de causa.
55
Díon Cássio (66.6.2) nota que suprimiu reduzido número de otonianos.
Embora neste caso seja incerto se havia indício de conjura. Vide Murison 1992 162-163;
56

Greenhalgh 1975 120-122.

105
As notícias de requintes de malvadez (a um doente que, durante um acesso de
febre, lhe pedia água, o próprio Vitélio deu veneno num copo de água fria; e
de que, a outra vítima, depois de a condenar, manda reconduzi­‑la de novo à
sua presença e, quando todos celebravam já a sua clemência, ordena que a
matem à sua frente, porque, de acordo com a sua gula, “queria dar alimento
aos olhos”) parecem sugerir, por comparação com Tácito, a utilização para
diversas vítimas de elementos da mesma narrativa da morte de Júnio Bleso57.
Mas, no Oriente, as tropas e o prefeito do Egito (Tibério Alexandre) aclama-
ram Vespasiano, que antes se tinha mostrado favorável a Otão. De novo se
prepara uma luta titânica entre os exércitos do Este e Oeste58. Eclodiu de novo a
guerra e, depois do avanço de António Primo (comandante da Panónia) sobre
Roma e de uma feroz luta nas ruas da cidade, Vitélio é linchado no Foro de forma
aviltante, perante os insultos da multidão, em dezembro de 69 d.C.59. Pelo meio
ficou um terrível saque de Cremona, depois da segunda batalha de Betríaco, e o
incêndio do Capitólio, onde os apoiantes e Vespasiano em Roma (entre os quais
estavam o irmão deste, Flávio Sabino, que era o prefeito da cidade, e Domiciano,
o filho mais novo de Vespasiano) se tinham fortificado. A estabilidade viria com
a dinastia dos Flávios (Suet. Vesp. 8.1), que se finaria em 96 com o assassínio de
Domiciano. Mas esse será o assunto do próximo capítulo deste volume.

Conclusão: o significado da crise

Um período tão terrível, e ainda relativamente próximo da altura em que


Plutarco, Tácito e Suetónio relatavam os factos, provocou transformações que
levarão estes autores a interrogarem-se sobre as razões da crise e a natureza das
mudanças. No primeiro capítulo da Vida de Galba, Plutarco atribui, antes de mais,
as culpas da situação aos impulsos irracionais dos soldados, que põem à prova o
carácter dos generais, à sua avidez desenfreada, e à falta de bons líderes capazes de
imporem a necessária disciplina60. Como resultado, os imperadores são compara-
dos por Plutarco a tiranos cénicos que se sucedem no palco como atores.
Para o religioso Suetónio, a par do carácter das personagens históricas, a
tónica é colocada no fim de um ciclo, bem delimitado pelo destino, como o

57
Suet. Vit. 14.1-2. Cf. Tac. Hist. 3.39.1. Murison 1992 162-163. Do mesmo modo não se
pode dar crédito à notícia de que manda executar uns homens da plebe por terem caluniado a
facção azul nas corridas (Vit. 14.3). Soa a decalque de Calígula, que se ofende por a plebe apoiar
outra equipa (Suet. Cal. 30.2).
58
Como nota Greenhalgh 1975 123.
59
Cf. Suet. Vit. 17.1-2; Tac. Hist. 3.84.5-85; D.C. 65.21.2). Tácito censura a volubilidade da
multidão, que antes o aplaudia e agora o vilipendiava. Vide Cizek 1975 125-130; Martin 1991
380-385; Murison 1992 173; Brandão 2015 71-84.
60
Vide Scuderi 1995 405-406; De Blois 2008 6 ss..

106
será, depois, o tempo da dinastia dos Flávios, determinado logo no início da
Vida de Vespasiano (Ves. 1). Este autor começa precisamente a Vida de Galba
com a queda da casa dos Césares (da progenies Caesarum, e não apenas de Nero),
prevista desde o princípio e anunciada com evidentes sinais (signa euidentissima)61.
Através destes sinais sagrados, o biógrafo latino salienta o tremendo impacto
psicológico que o fim da linhagem de Augusto teve sobre os Romanos62. Além
disso, acrescenta que o templo dos Césares foi atingido por um raio (tacta de
caelo) e o cetro foi arrebatado das mãos de Augusto, evento cujo simbolismo é
evidente. Acabado o tempo que os deuses destinaram a esta dinastia, havia que
começar de novo. Suetónio vai multiplicar os presságios, que, na Vida de Galba,
são particularmente numerosos. Um papel importante será atribuído à Fortuna,
cujo favor garante a ascensão de Galba63 enquanto o desfavor lhe provoca a
queda64, sendo ambas as situações anunciadas através de sonhos.
Para o historiador Tácito, os conflitos surgiam devido a tensões sociais e à
condição dos tempos, a sentimentos diversos nos vários setores da sociedade
romana. Entre as legiões e seus comandantes, foi revelado um segredo do im-
pério - “o princeps podia ser aclamado em outro lado que não em Roma” (Hist.
1.4.2) – abriu-se assim uma brecha no sistema que tornava o império frágil,
pois facultava o caminho a usurpadores. Está, pois, em causa a investidura
imperial65. Mas a oposição passado/presente, em termos de degeneração, é um
fator determinante para o historiador: constata que, na cidade, os pretorianos
já não suportam a austeridade de Galba e desprezavam a antiga disciplina,
habituados aos vícios de Nero (Hist. 1.5.2).
Trata-se sobretudo das consequências do extinguir de uma dinastia cuja
autoridade segurava a construção e equilibrava as forças. Com a morte de Nero,
vieram ao de cima tensões representadas pelo senado, pelas províncias, pelos
exércitos, pelos soldados pretorianos. O senado perde peso. Se Galba e Otão
se preocupam em ser legitimados pelo senado (e Galba até criou uma “imitação”

61
Recuando ao momento da fusão dos Júlios com os Cláudios, pelo casamento de Augusto e
Lívia, Suetónio conta a história da galinha branca que uma águia (ave associada ao poder supremo)
deixou cair no regaço de Lívia com um ramo de louro no bico. A galinha, matriarca de vasta prole
de galináceos, trazia um ramo de louro no bico, que, depois de plantado, ficou ligado à família
júlio­‑cláudia. Os ramos, retirados para as cerimónias dos triunfos, eram plantados de novo no
lugar. De cada vez que morria um imperador secavam as pernadas que tinha plantado. Verificou-
se que, no último ano de Nero, secou toda a moita e morreram todas as galinhas – diz Suetónio,
exagerando: afirmação desautorizada por Plínio, Nat. 15.136-137, onde consta que são os harúspices
que aconselham Lívia a preservar a galinha e a sua descendência e a cuidar religiosamente do ramo.
Vide Flory 1988-1989 343-356; Murison 1992 26-27.
62
Como nota Flory 1988-1989 347.
Cf. Suet. Gal. 4.3; D.C. 54.1.2. Durante o Principado, a Fortuna é, com a Vitória, um
63

preeminente atributo da casa imperial; vide Murison 1992 35.


64
Suet. Gal. 18.2.
65
Vide Scuderi 1995 405; Schettino 2005 354-355.

107
de senado na Hispânia), Vitélio já não procura tal ratificação. E Vespasiano irá
institucionalizar o seu poder com uma lei, embora não saibamos bem se a lex
de imperio já era habitual para os imperadores anteriores66. Por seu turno, o
órgão mostra-se servil para com os sucessivos imperadores cedendo simples-
mente aos vencedores. Aclama Otão ainda com os cadáveres dos senadores no
foro, como diz Plutarco. Depois, os senadores que acompanhavam Otão no
norte de Itália, ficam hesitantes e receosos na certeza do desfecho, até que
outorgam a Vitélio todos os poderes dos antecessores, e o mesmo fazem depois
com Vespasiano. De qualquer modo, não houve tentativas de retorno à República;
já se não põe em causa o regime imperial.
Os exércitos provinciais passam a ser uma preocupação maior. A aclamação
pelas legiões passa a ter um papel importante67. Se é verdade que houve tenta-
tivas anteriores, estas agora tiveram êxito e criaram um precedente. As
províncias parecem querer fazer ouvir a sua voz e participar mais na política
central; revelam-se tensões entre forças militares (pretorianos; soldados regula-
res; marinheiros; tropas auxiliares), entre províncias e entre Oriente e Ocidente.
Mas não se punha em causa a unidade do império.
A escolha de Pisão por adoção, apesar de fatídica para o próprio e para
elementos da sua família, faz Tácito (Hist. 1.15-16) colocar na boca de Galba
um discurso sobre a vantagem da escolha do melhor, mas fora da própria fa-
mília, algo de semelhante ao que Nerva será forçado a fazer mais tarde, depois
do assassinato de Domiciano em 96. Vitélio e Vespasiano preferem a linha
hereditária, porque a questão é se há filhos de sangue ou não.
Esta crise trouxe sobretudo modificações determinantes nas marcas identi-
tárias da pessoa do imperador. A antiga aristocracia republicana, anterior a
Augusto, representada por Galba e por Pisão (o herdeiro escolhido), não logra
os seus intentos: Galba é um homem do passado, pela família e pela forma
como pretende aplicar as virtudes romanas. Otão e Vitélio, membros da
Aristocracia que singrou a partir de Augusto, também não obtêm melhores
resultados: tornou-se claro que a árvore genealógica já não é o principal crité-
rio para fazer imperadores. Nos antípodas de Galba, que expôs a sua árvore
genealógica no átrio, fazendo remontar a família a Pasífae68, Vespasiano não só
não tinha antepassados ilustres, como se mostrava orgulhoso das suas origens
humildes69, certamente porque seria uma forma de exaltar o seu mérito pessoal70.
Mas, sendo de família equestre, representa uma revolução social no acesso ao

66
Sobre este assunto, vide, a seguir, cap. 5, Rodrigues § 1.1.
67
Sancery 1983 171-176; Vide Morgan 2006 263-267; Moatti 2008 265-266.
68
E não se tratará de uma efabulação dele próprio, mas provavelmente de documentos recolhidos
dos arquivos de família da época republicana.
69
Cf. Suet. Ves. 1.1; 2.1.
70
Vide Morgan 2006 262-263.

108
poder supremo, com a ascensão de uma espécie de burguesia 71. E sendo de
origem sabina, Vespasiano abria caminho para a aclamação de imperadores
oriundos de outras regiões.

Tábua cronológica

Junho de 68 – Reconhecimento de Galba como imperador; suicídio de Nero


Janeiro de 69 – Aclamação de Vitélio pelas legiões das Germânia
– Aclamação de Otão pelos pretorianos
– Morte de Galba no Foro
– Reconhecimento de Otão pelo senado
Abril de 69 - Derrota de Otão na batalha de Betríaco
– Suicídio de Otão
Junho de 69 – Vespasiano é aclamado imperador pelas tropas do Oriente
Dezembro de 69 – Vitélio e morto no Foro Romano
– Vespasiano é declarado imperador pelo senado

Bibliografia

Bassols de Climent, M. (1970), C. Suetonio Tranquilo. Vida de los Doce Césares. (vol. IV). Testo revisado
y traducido. Barcelona, Alma Mater.
Braithwaite, A. W. (1927), C. Suetoni Tranquilli Diuus Vespasianus. Edited with introduction and com-
mentary. Oxford, Clarendon Press.
Brandão, J. L. (2012), Plutarco. Vidas de Galba e Otão. Tradução do grego, introdução e notas. Coleção
de autores gregos e latinos. Coimbra, IU; S. Paulo, Annablume.
___________ (2015), “Páginas de Suetónio: a morte ignóbil de Vitélio”, Boletim de Estudos Clássicos 60
71-84.
___________ (2009), Máscaras dos Césares. Teatro e moralidade nas Vidas suetonianas. Coimbra, CECH-Clas-
sica Digitalia.
___________ (2010), “Galba e Otão: duas perspectivas biográficas”, Cadmo 20 543-560.
___________ (2010), “Páginas de Suetónio: a morte de Galba”, Boletim de Estudos Clássicos 53 39-46.
Cesa, M. (2000), Svetonio. Vita di Vespasiano. Bologna, Cappelli.
Cizek, E. (1975), “La mort de Vitellius dans les Vies des douze Césars de Suétone”, REA 77 125-130.
De Blois, L. (2008), “Soldiers and leaders in Plutarch’s Galba and Otho” in H. M. Shellenberg – V. E.
Hirschmann – A. Kriechhaus, eds A Roman Miscellany. Essays in honor of Anthony R. Birley on his
seventieth birthday. Gdansk 5-13.
Flacelière, R. – Chambry , E. (1979), Plutarque, Vies, tome XV. Texte établi et traduit. Paris, Les Belles
Lettres.
Flory, M. B. (1988-1989), “Octavian and the omen of the gallina alba”, CJ 84 343-356.
Gascou, J. (1984), Suétone historien. Paris, Editions de Boccard.
Giua, M. A. (1990), “Aspetti della biografia latina del primo impero”, RSI 12 535-559. 

71
Diz Suetónio (Ves. 4.3) que teve de dedicar­‑se ao tráfico (ad mangonicos quaestus) de animais,
como sugere a alcunha de mulio, para poder manter a quantia que exigia o censo senatório. O
expediente parece contraditório com a dignitas que pretende manter, pelo que deve ter sido posto
a circular pelos opositores, mas seria certamente rentável. Vide Levick 1999 24. De facto Suetónio
(Ves. 2.2) também diz que Vespasiano desdenha muito tempo o cargo de senador; e Jones & Milns
(2002 44) sugerem que Vespasiano se atrasa em requerer tal status por interesses materiais.

109
Godolphin, F. R. B., (1935), “The source of Plutarch’s thesis in the Lives of Galba and Otho”, AJPh 56
324-328.
Greenhalgh, P. A. L. (1975), The Year of the Four Emperors. London, Weidenfeld and Nicolson.
Harris, B. F. (1962-63), “Tacitus on the death of Otho”, CJ 58 73-77.
Hershbell, J. P. (1997), “Plutarch’s concept of history: philosophy from examples”, AnSoc 28 225-243.
Ihm, M. (1908), C Suetoni Tranquilli Opera, I : De Vita Caesarum: libri VIII, editio minor. Stuttgart et
Lipsiae, Teubner (usada a reimpr. de 1993).
Jones, B. – Milns, R. (2002), Suetonius: the Flavian emperors, a historical commentary. London, Bristol
Classical Press.
Koestermann, E. (1969), P. Cornelii Taciti libri qui supersunt, tom. II, fasc. I: Historiarum libri. Lipsiae,
Teubner.
Levick, B. (1999), Vespasian. London / New York, Routledge.
Little, D. – Ehrhardt, Chr. (1994), Plutarch, Lives of Galha & Otho. Translation and commentary. London,
Bristol Classical Press.
Martin, R. (1991), Les douze Césars: du mythe à la réalité. Paris, Les Belles Lettres.
Moatti, C. (2008), Storia romana. Dalle origine alla tarda antichità. Roma, Carocci editore.
Morgan, G. (2006), 69 A.D. The year of Four Emperors. Oxford, OUP.
Murison, Ch. L. (1992), Suetonius Galba, Otho, Vitellius. Edited with introduction and notes, London,
Bristol Classical Press.
Perrin, B. (1926), Plutarch’s Lives. With English translation. XI. London, Loeb.
Poulle, B. (1997), “Les poignards de l’année 68-69”, RPh 71 243-252.
Raoss, M. (1958), “La rivolta di Vindice ed il sucesso di Galba”, Epigraphica 20 46-120.
Rolfe, J. C. (1913-1914), Suetonius, I e II. The Loeb Classical Library (reimpr. de 1979) Cambridge
(Mass.), Harvard University Press / London, Heinemann.
Sancery, J (1983), Galba. Ou l’armée face au pouvoir. Paris, Les Belles Lettres.
Schettino, M. T. (2005), “I Soggetti politici e i conflitti civili del 68/69 d.C. in Plutarco” in De Blois
et alii eds, The statesman in Plutarch’s works. Proceedings of the sixth international conference of the
international Plutarch society. Vol. II: The statesman in Plutarch’s Greek and Roman Lives. Leiden/
Boston, Brill 351-361.
Scuderi, R. (1995), “Le Vite Plutarchee di Galba e di Otone: teoria e prassi politica nella successione
imperiale”, in I. Gallo – B. Scardigli (cura), Atti del V convegno plutarcheo. Napoli, M. D’Auria
Editore 399-413.
Stadter, Ph. A. (2005), “Revisiting Plutarch’s Lives of the Caesars” in A. Pérez Jiménez – F. Titchener,
Studi offerti al professore Italo Gallo dall’ The International Plutarch Society. Málaga-Logan, 419-435.
Tagliasachi, A. M. (1960), “Plutarco e la tragedia greca”, Dioniso 34 125-142.
Venini, P. (1974), “Sulle Vite suetoniane di Galba, Otone e Vitellio”, RIL 108 991-1014.
Venini, P. (1977), C. Svetonio Tranquillo.Vite di Galba, Ottone, Vitellio. Con comm. Torino, Paravia.
Wellesley, K. (32000), The year of the four emperors, with a new introduction by B. Levick. London / New
York, Routledge.

110
5. Os Flávios

Nuno Simões Rodrigues


Universidade de Lisboa
CECH-UC/CH-ULisboa/CEC-ULisboa
ORCID: 0000-0001-6109-40961
nonnius@fl.ul.pt

Sumário: Depois dos Júlio-Cláudios e do ano marcado pela sucessão de


quatro imperadores, a segunda dinastia imperial romana assumiu o
poder em 69 d.C., com Vespasiano, e terminou em 96 d.C., com a morte
de Domiciano, filho daquele. Entre um e outro, Tito governou um
curto período de dois anos (79-81 d.C.). Apesar de, no essencial, o regime
político ter-se mantido inalterado, com os Flávios houve algumas inter-
venções, significativas, sobretudo ao nível da administração, da gestão
do território e da reestruturação das forças armadas. Este texto apresen-
ta uma síntese do processo político vigente durante este período.

0. Os Flávios ou a continuidade na mudança

Após a morte de Nero e ainda no decurso do conturbado ano 69 d.C., uma


nova dinastia assumiu o controlo do governo de Roma e do mundo romano:
os Flávios. Com a acessão do primeiro príncipe flávio começou a segunda di-
nastia imperial romana. Esta nova dinastia, que governou o Império Romano
entre 69 e 96 d.C., contou com apenas três príncipes: Vespasiano (69-79 d.C.)
e os seus dois filhos, Tito (79-81 d.C.) e Domiciano (81-96 d.C.). Ainda assim,

1
Este estudo é financiado por Fundos Nacionais através da FCT – Fundação para a Ciência
e a Tecnologia, I.P., no âmbito dos projectos Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and
the Shaping of Identity(ies) (PTDC/LLT-OUT/28431/2017) do Centro de Estudos Clássicos e
Humanísticos da Universidade de Coimbra, UID/HIS/04311/2013 do Centro de História da
Universidade de Lisboa e UID/ELT/00019/2013 do Centro de Estudos Clássicos da Universi-
dade de Lisboa.

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_5
o período flávio foi de relativa prosperidade e, sobretudo, de consolidação das
instituições e do regime autocrático inaugurado apenas algumas décadas antes
por Octávio Augusto. Tendo sido a segunda dinastia imperial vigente em Roma,
os Flávios tiveram também o papel de confirmar que a Vrbs e os territórios a
ela associados ou dela politicamente dependentes não eram mais administrados
por uma república, em que o povo e suas assembleias tinham palavras a dizer,
mas por um regime dinástico, cada vez mais marcado pela linha determinada
pelo sangue ou pela família e centrado na figura do princeps que, entre outras
coisas, era também imperator e pontifex maximus. Com os Flávios, Roma e os
Romanos ganharam consciência de que a Res Publica era cada vez mais uma
história associada aos seus antepassados e que, apesar do que as instituições
persistiam em tentar mostrar, estavam de novo mais próximos dos tempos de
Rómulo e dos Tarquínios do que dos de Catão-o-Censor ou dos Gracos.

1. Titus Flauius Sabinus Vespasianus (69 d.C.-79 d.C.)2

Os Flauii eram uma família não aristocrática, originária da região de Reate,


na Sabina (Suet. Ves. 1.2; 2.1). Tito Flávio Sabino Vespasiano nasceu no ano 9
d.C., sendo filho de Tito Flávio Sabino. Este tinha sido publicano no Oriente
e veio a exercer a atividade bancária entre os Helvécios (Suet. Ves. 1.2). Terá sido
nessa qualidade que Flávio Sabino angariou alguma fortuna, o que lhe permitiu
ingressar na ordem equestre. Por seu lado, a mãe de Vespasiano, Vespásia Póla,
de quem ele herdou o seu cognomen Vespasianus, pertencia a uma família de
equites, sendo que um dos seus tios tinha sido já senador (Suet. Ves. 1.3).
Apesar de não ser das mais ilustres de Roma, a família de Vespasiano culti-
vava patrocínios e mantinha contactos sociais que se revelaram da maior
importância. Da rede social dos Flauii destacam-se, além de outros, os Pomponii,
os Plautii e os Vitellii3. A este propósito, parece-nos pertinente citar uma frase
de Tácito, que diz que Vespasianus… Vitellii cliens, cum Vitellius colega Claudio
foret (“Vespasiano era cliente de Vitélio, quando Vitélio era colega de Cláudio”,
Tac. Hist. 3.66). A afirmação de Tácito parece sintetizar bem a rede clientelar
em que o futuro imperador de Roma radicava e em que se movimentou e que
deverá ter contribuído para a sua acessão.
Mas, de todos os Flávios, Vespasiano não terá sido o que melhor impressão
causou nas esferas do poder durante esse período. Com efeito, o irmão de Tito
Flávio Sabino Vespasiano, conhecido apenas como Flávio Sabino, terá tido um
percurso a todos os níveis mais exemplar e proeminente, no final da governação
da dinastia júlio-cláudia, vindo a morrer às mãos dos apoiantes de Vitélio. Se

2
As datas indicadas junto ao nome de cada um dos imperadores flávios dizem respeito ao
período de exercício do principado.
3
Jones 1992 3-4; Levick 1999 23-25; Vervaet 2016.

112
Vespasiano chegou a ser imperador, o irmão dele foi antes disso legado na Mésia
(49 e 56 d.C.), cônsul sufecto no tempo de Nero e prefeito de Roma no tem-
po de Otão (Tac. Hist. 1.46).
Ainda assim, não será de excluir a hipótese de que terá sido sob o governo
de Nero que Flávio Vespasiano fez germinar aquilo que viria a ser conhecido
como as partes Flauianae ou “partido flaviano”, que o viriam a apoiar na sua
acessão imperial. De facto, Tito Flávio Sabino Vespasiano iniciou a sua carrei-
ra política sob o principado de Nero.
Por outro lado, parece ser também ponto assente entre os historiadores
contemporâneos que parte considerável do reconhecimento de Vespasiano se
deveu às qualidades do homem como militar e político4. Uma dessas qualidades
parece ter sido o sentido de retribuição que Flávio Vespasiano demonstrou para
com os seus apoiantes, cujas competências e lealdade ele percebeu sempre no
momento oportuno. Não raramente, Vespasiano parece ter reconhecido quem
o apoiou com a retribuição e devolução de maiores responsabilidades ainda, o
que se traduziu em usufruto de mais poderes também5.
Por outro lado, não deixa de ser pertinente referir que terá sido a falta de
nobreza da família de Vespasiano que terá acabado por favorecê-lo sob o prin-
cipado de Nero, visto que essa característica tê-lo-á isentado de ser um alvo
preferencial a abater, na eventualidade de alimentar algum tipo de concorrên-
cia política no espírito do último dos Júlio-Cláudios.
No seu percurso biográfico, não será ainda de desconsiderar a relação que
o Flávio manteve com Antónia Cénis. Vespasiano casou-se com uma mulher
da sua própria família, Flávia Domitila, que era filha de Flávio Liberal, de quem
teve três filhos: Tito Flávio Vespasiano (n. 39 d.C.), Domitila Menor (n. 45
d.C.) e Tito Flávio Domiciano (n. 51 d.C.). A mulher e a filha de Vespasiano
morreram ainda antes de ele se tornar imperador (Suet. Ves. 3). A vida amoro-
sa deste Flávio, no entanto, parece ter sido dominada sobretudo por uma
liberta de Antónia Menor6. Antónia Cénis era assim uma mulher bem relacio-
nada com a casa imperial, em particular com os Júlio-Cláudios, não tendo por
certo sido estranha à emergência política do primeiro imperador flávio. B. W.
Jones vai mais longe, ao afirmar que todas as relações matrimoniais e amorosas
da família de Vespasiano tiveram objetivos bem concretos: o avô casou­‑se com
Tertula, de quem recebeu o dinheiro; o pai com Vespásia Póla, de quem recebeu
o estatuto; Vespasiano relacionou­‑se com Antónia Cénis, através de quem
conseguiu influência política (D.C. 65.14)7.

4
Nicols 1978; Nicols 2016 61-62.
5
Nicols 2016 62.
6
A filha de Marco António e Octávia, mulher de Druso (filho de Lívia e enteado de Augusto),
mãe do imperador Cláudio e avó do imperador Gaio Calígula. Sobre esta princesa, vide e.g. Kokkinos
1992 e Meise 1969 93-139.
7
Jones 1992 4.

113
Foi assim, graças a esta herança, que tanto Vespasiano como o irmão mais
velho, Tito Flávio Sabino, acabaram por seguir uma carreira pública, militar e
administrativa, a qual, por sua vez, lhes permitiu atingir cargos de topo no
Estado romano.
A proclamação de Vespasiano como príncipe de Roma ocorreu a 1 de julho
de 69 d.C., o primeiro momento em que as tropas estacionadas no Oriente o
aclamaram imperator (Suet. Ves. 6.3). A confirmação oficial do senado, porém,
só aconteceu cerca de meio ano depois, em dezembro de 69 d.C8. Entre a acla-
mação militar e a confirmação senatorial manteve-se um clima de guerra civil
que culminou com a ocupação da Urbe pelos Flávios9. Quando foi aclamado
pelas suas tropas, o próprio Vespasiano estava no Oriente, mais concretamente
na Judeia, juntamente com o filho Tito. Os Flávios eram apoiados por outros
centros militares localizados nas regiões da Síria (com guarnições comandadas
por Gaio Licínio Muciano) e ao longo do Danúbio, na Europa Central. Tais
apoios revelaram-se fundamentais para enfrentar a crise política e militar, sobre-
tudo, e económica e social, por arrasto, que desde a morte de Nero, pelo menos,
se tinha instalado no império. Como nota J. Nicols, um dos pontos fracos da
administração de Nero, primeiro, e das tentativas de implementação de Galba,
Otão e Vitélio, depois, foi precisamente a alienação da elite administrativa que
criou uma lacuna nos apoios necessários aos príncipes em exercício ou poten-
cialmente governantes10.
Com efeito, antes de se ter tornado imperador de Roma, Vespasiano exerceu
outros cargos públicos, nomeadamente: pretor (40 d.C.), legado da legião II
Augusta durante a invasão da Britânia sob o principado de Cláudio (ocasião em
que angariou os ornamentos triunfais e dois sacerdócios), cônsul sufecto (51
d.C.) e procônsul da África (que era em 63 d.C.)11. Em 66 d.C., Vespasiano
acompanhou Nero à Grécia. Suetónio conta que foi nessa ocasião que, por ter
adormecido durante uma das exibições artísticas do então princeps, Flávio Sabino
Vespasiano teria caído em desgraça (Suet. Ves. 4.4). Mas algo mais haverá de
ter estado por detrás desse processo, pois parece-nos fraca a justificação que
Suetónio dá para o afastamento daquele que viria a inaugurar a segunda dinas-
tia imperial. De qualquer modo, em 67 d.C., Nero voltou a atribuir funções
políticas ao Flávio, entregando-lhe o comando das tropas encarregadas de do-
minar a rebelião que tinha eclodido no ano anterior na Judeia (J. BJ 3.3-4)12.

8
Levick 1999 79.
9
Há que não esquecer a turbulência política vivida por Roma e pelos Romanos nesse ano de
69, justamente conhecido como o “Ano dos Quatro Imperadores”, em que os centros de poder se
formavam à custa dos apoios militares e se distribuíam pelas várias regiões do império. Sobre esta
questão, vide Brandão: capítulo anterior neste volume.
10
Nicols 2016 62-63.
11
Levick 1999 23-42; Griffin 2000 2-3.
12
Sobre a rebelião judaica, Rodrigues 2007 759-762.

114
Foi precisamente esta comissão ao serviço do principado que acabou por
ser decisiva no processo de proclamação e de entronização de Vespasiano como
imperador13. Foi a vez de Flávio Vespasiano encontrar apoio no exército ro-
mano estacionado no Oriente. Aparentemente, o primeiro candidato dessas
tropas terá sido não Vespasiano, mas Gaio Licínio Muciano, então governador
da Síria. Este, porém, terá recusado a honra que o exército lhe oferecia (Tac.
Hist. 1.10). Por conseguinte, os legionários teriam depositado a sua confiança
em Flávio Vespasiano.
Segundo os textos antigos, Flávio Vespasiano não terá aceitado o poder
imperial de ânimo leve, chegando a invocar-se elementos tópicos para a des-
crição do processo de aceitação 14 . O general ter-se-á rodeado de apoios
estratégicos de modo a garantir o êxito da sua proclamação. Entre esses apoios
estavam o próprio filho de Vespasiano, Tito Flávio Vespasiano, assim como
Gaio Licínio Muciano e Tibério Júlio Alexandre, o então prefeito do Egito,
que era de origem judaica, e que foi o primeiro governador a autoproclamar-
-se pró-flávio (Tac. Hist. 2.79; Suet. Ves. 6). Com efeito, nas calendas de julho
de 69 d.C., Tibério Júlio Alexandre reconheceu Flávio Vespasiano imperador,
com o apoio das legiões estacionadas na Síria, no Egito e na Judeia, bem como
com o das restantes províncias e reinos aliados do Oriente (angariados por
Tito como resultado de um excelente golpe de diplomacia), e ainda o dos
legados provinciais e líderes religiosos da Ásia e da Acaia 15. O apoio de Júlio
Alexandre revestia-se de um significado acrescido, visto que o controlo do
Egito, fonte de abastecimento de cereal a Roma, era estrategicamente funda-
mental num processo desta natureza.
A forma de garantir o trono de modo efetivo passava por eliminar Aulo
Vitélio, tarefa de que Gaio Licínio Muciano se encarregou, enquanto Vespasiano
se refugiava em Alexandria, no Egito. Mais do que uma mera escolha idílica
derivada das paisagens e do clima egípcio, a opção de Vespasiano por se refugiar
no Egito traduz uma ação essencialmente política. Com efeito, uma vez em
Alexandria, Vespasiano tinha precisamente a capacidade de controlar o abaste-
cimento de trigo a Roma. Ao mesmo tempo, sob o comando de Marco António
Primo, as legiões estacionadas nas regiões do Danúbio, e que antes haviam sido
apoiantes de Otão e do próprio Vitélio, passaram-se para o lado de Vespasiano

13
Essa ação veio a acontecer depois de uma guerra civil em Roma, que, além de fragilizar o
aparelho estatal e favorecer a rebelião dos povos entretanto dominados, resultou nas mortes de
todos os anteriores candidatos (Galba, Otão e Vitélio) e levou Tácito a caracterizar o momento
como um período “rico em desastres e terrível em batalhas” (Tac. Hist. 1.2) – assunto desenvolvido
por Brandão no capítulo 4.
14
Referimo-nos, por exemplo, ao passo em que Suetónio refere que Cláudio se estaria escon-
dido atrás de um reposteiro quando a guarda imperial o aclamou imperador, Suet. Cl. 10.1-2; vide
ainda Rodrigues 2007 754-755.
15
Rodrigues 2007 757-758.

115
e avançaram sobre Roma. Estas defrontaram os apoiantes de Aulo Vitélio em
Cremona, em 69 d.C., infligindo-lhes uma derrota decisiva16.
Em Roma, contudo, o processo não foi tão fácil. O irmão de Vespasiano,
T. Flávio Sabino, tentou resolver a questão de forma diplomática, mas o então
praefectus urbis teve de se refugiar juntamente com o sobrinho e filho mais novo
de Vespasiano, Tito Flávio Domiciano, no Capitólio. A colina, porém, foi ataca-
da em dezembro de 69 d.C. e Flávio Sabino acabou por sucumbir no ataque,
enquanto Domiciano fugia. Dias depois, M. António Primo entrou em Roma e
vingou a morte de Flávio Sabino, eliminando Aulo Vitélio, cujo corpo acabou
por ser lançado ao Tibre. Antes da intervenção de António Primo, contudo, já o
senado tinha proclamado Vespasiano imperador, entregando-lhe, e ao filho Tito
Flávio Vespasiano, o consulado in absentia (Tac. Hist. 4.38, 51-52; D.C. 66.1.1)17.
Na sequência destes acontecimentos e depois de ter submetido praticamente
todo o território judaico, com a exceção de Jerusalém, Vespasiano entregou o
controlo da província oriental ao filho mais velho e viajou para Roma, onde o
seu partido estava representado pelo filho mais novo e por Gaio Licínio Muciano.
Em setembro de 70 d.C., Vespasiano entrou em Roma como imperador. Ao
fazê­‑lo, o Flávio dava início à segunda dinastia imperial ao mesmo tempo que
assegurava a continuidade do regime político inaugurado por Augusto cerca de
um século antes. O êxito da manutenção desse regime deve-se não apenas ao
apoio militar que os Flávios obtiveram durante todo o processo, mas também ao
facto de não ter existido então uma vontade de regressar ao regime republicano.
A verdade é que durante o período de Augusto e dos príncipes júlio-cláudios
criou-se uma elite político­‑económica, saída das aristocracias municipais itálicas
e provinciais, cuja prosperidade, imanente à sua entrada na ordem equestre e,
eventualmente, no senado, se devia essencialmente ao regime do Principado.
Foram, pois, também os membros dessa elite que apoiaram a manutenção do
regime, apesar da mudança de dinastia. Aliás, em boa verdade, o próprio Flávio
Vespasiano era um dos representantes dessa mesma ordem social18. Assim, se por
um lado a dinastia flávia significou a manutenção de um regime na mudança
dinástica, por outro, ela traduz uma novidade socio­‑política, evidência de que o
Principado continuava a evoluir e, com isso, a fazer História.

1.1 A legitimação do poder

Uma das consequências que a crise do sistema político romano nos anos 68-
69 d.C. trouxe foi a perceção de que o governo do Império não estava vedado a

16
Levick 1999 50.
17
Jones 1984 81.
18
Castillo 1989 180.

116
indivíduos provenientes de outros espaços que não Roma. Aliás, o próprio Tácito
se dá conta disso nas Histórias (Tac. Hist. 1.4.2). Esse facto mostra também que
o regime do Principado estava ainda numa fase de ajustamento e de consolidação,
depois do que o sistema implementado por Augusto tinha significado de novo
para o Império. Outra novidade que deve ser assinalada é o facto de ter sido com
os Flávios que uma dinastia imperial obedeceu a um regime efetivo e diretamen-
te hereditário, pois só com estes imperadores o poder passou para os seus
sucessores de forma legítima direta, i.e. de pai para filhos “naturais”, visto que,
com Augusto e os Júlio­‑Cláudios, a transmissão do trono imperial se fez sempre
ou de pai para filhos adotivos (os casos de Tibério e Nero) ou para familiares
indiretos (os casos de Gaio e Cláudio). A este processo junta-se o facto de ter
sido também durante o período flávio que as elites itálicas, e algumas províncias,
participaram pela primeira vez de uma forma mais ativa no governo do império.
Como qualquer dinastia recém-empossada, Vespasiano teve também de lidar
com a questão da legitimação do poder. O facto é que, ao contrário dos cha-
mados Júlio­‑Cláudios, em que todos eram descendentes diretos ou indiretos
de Augusto (um Júlio) e de Lívia (uma Cláudia), os Flávios traduziam uma
rutura com a continuidade familiar e gentílica anterior, essa sim, inaugurada
por Octávio Augusto. A legitimação do poder e do seu consequente exercício
foi, por conseguinte, um aspeto da maior importância, com o qual os Flávios,
Vespasiano em particular, tiveram de lidar.
J. Nicols enuncia esta problemática de uma forma bastante clara: de que modo
garantiria Vespasiano a sua autoridade perante o exército e os militares? As es-
truturas urbanas e as províncias do império? E o senado e as elites intelectuais e
económicas?19 Com efeito, eram estes os três pilares perante os quais Vespasiano
teria de se afirmar se queria manter-se no poder e governar com eficácia.
Assim, a primeira preocupação do partido flaviano, especialmente de Flávio
Vespasiano, depois dos confrontos fratricidas entre os exércitos romanos, foi a
reconciliação das forças em confronto. Dificilmente Vespasiano se conseguiria
afirmar como príncipe em Roma se não terminasse de vez com o clima de
guerra civil que então se vivia. Tácito fornece um bom testemunho de como o
processo decorreu através do discurso atribuído a Quinto Petílio Cereal (pos-
sivelmente genro de Vespasiano pelo seu casamento com Domitila Menor),
através do qual, na região do Reno, o general romano salienta os benefícios da
administração romana (Hist. 4.73-74). O objetivo central do discurso parece
ser a promoção da unidade e da reconciliação, as quais eram de facto uma
prioridade para alcançar a estabilidade governativa. Para isso, contribuiu tam-
bém uma política de apaziguamento que evitou castigar com a pena capital os
oficiais e comandantes das fações opostas e derrotadas, de modo a transmitir
o tão desejado sentimento de reconciliação. Simultaneamente, fez-se um esfor-
ço para aumentar o pagamento dos legionários, de modo a consolidar o seu

19
Nicols 2016 63.

117
apoio e a evitar a secessão. A este propósito, B. Levick escreve pertinentemen-
te sobre a existência de um equilíbrio entre esperança e medo que se teria
instalado entre as camadas militares neste período, mas que parece ter funcio-
nado para bem da nova dinastia20. Há também que não esquecer que Vespasiano
tinha uma forte experiência militar o que lhe proporcionou armas suplemen-
tares, especialmente ao nível da psicologia social, para lidar com a situação.
No processo de instituição da nova dinastia, salienta-se, por conseguinte, a
necessidade de assegurar a auctoritas. Suetónio nota que esse terá sido um dos
principais problemas com que Vespasiano deparou com a acessão imperial (Suet.
Ves. 7.2). É verosímil que a célebre lex rogata conhecida como lex de imperio
Vespasiani tenha consistido numa atribuição de poderes específicos ou extraor-
dinários ao novo imperador (CIL 6.93021), mas o facto é que os investigadores
também têm discutido se as leges de imperio não seriam votadas pelo senado
sempre que um novo imperador acedia ao trono, com o objetivo de ratificar os
poderes constitucionais do príncipe, nomeadamente o poder de imperium e a
tribunicia potestas (cf. Dig. 40.1.14.1). Se assim for, a lex de imperio Vespasiani
não seria mais do que o cumprimento de uma rotina política instituída com
Augusto. Assim sendo, não é de ignorar a hipótese de Vespasiano ter acabado
por legitimar o seu poder com base no apoio militar e, por conseguinte, sena-
torial, sem necessidade de uma constituição específica para tal. A questão,
contudo, permanece em aberto22.
No processo de legitimação do imperador, há, contudo, uma outra questão
que merece a nossa atenção particular. Trata-se da literatura e das tradições de
cariz messiânico entretanto associadas a Vespasiano. As fontes referem uma
tradição que correria então pelo Império e que assegurava que o vindouro go-
vernador do mundo sairia da Judeia. Alguns desses textos dariam justificação ao
facto de os Judeus terem matado o governador romano da Síria no tempo de
Nero. No entanto, não devemos desconsiderar a hipótese de a morte daquele
ter na verdade sido um ato de insurreição e rebelião por parte de Judeus, essen-
cialmente afetos aos que conhecemos como sicários e zelotas, a que se terá
vindo a juntar posteriormente a justificação político-messiânica. A profecia seria
assim, naturalmente, feita a posteriori. Seja como for, na sequência do assassínio
do governador da Judeia, o da Síria interveio, mas essa intervenção não foi su-
ficiente, forçando o imperador a enviar reforços para a região. O apoio
concretizou-se precisamente na comissão de Vespasiano em 67 d.C., que se fez
acompanhar de duas legiões (Suet. Ves. 4.5-6; Tac. Hist. 1.10). Estas viriam a
ser fulcrais, dois anos mais tarde, para a proclamação do Flávio como imperador.
De igual modo, parece que o partido flávio veio a rentabilizar também a mesma

20
Levick 1999 107-116.
21
Vide e.g. Gaudemet 2002 289-290.
22
Brunt 1977.

118
tradição que dava conta de que o futuro governo do mundo emergiria da Judeia.
Pelo menos, a tradição historiográfica posterior fê-lo. A literatura greco-romana
veio a preencher esse espaço messiânico com a figura do próprio Vespasiano.
Alguns Judeus, porém, reagiram, recusando esta proposta e apostando no anún-
cio de um regresso apocalíptico de Nero23.
É também neste ponto que entronca a questão de Josefo. O judeu José ben
Matias ter-se-á rendido nessa ocasião àquele que veio a ser imperador de Roma.
Um dos primeiros confrontos das tropas comandadas por Vespasiano na Judeia
ocorreu em 67 d.C., em Jotapata, fortificação em que se havia refugiado um grupo
significativo de Judeus revoltosos. Segundo conta o próprio Josefo, este ter-se-ia
dirigido para a cidade fortificada com o objetivo de levantar o moral dos sitiados.
Ao fim de um longo cerco, com vicissitudes várias (como o ferimento do próprio
Vespasiano, o processo de suicídio em massa dos sitiados e o balanço de mais de
quarenta mil mortos), a fortaleza acabou por cair nas mãos dos romanos. Josefo,
contudo, escapou ao massacre e aparece nos textos já ao lado dos romanos, a cujos
generais, Vespasiano e Tito, profetiza um futuro político brilhante como impera-
dores. Isso valeu-lhe uma generosa recompensa, que consistiu em benesses como
a cidadania romana e um lugar de destaque na corte imperial (J. BJ 3.399-401)24.
Aquele que viria a ser um dos historiadores oficiais dos Flávios autoapresenta­‑se
como emissário da Providência divina, que o teria enviado a comunicar aos futu-
ros patronos qual viria a ser o destino deles. O passo inscreve­‑se, portanto, no
contexto antes referido. E não deixa de ser interessante que, num contexto profé-
tico sobre a acessão dos Flávios à púrpura imperial, Suetónio confirme as palavras
do historiador judeu (Suet. Ves. 5.6), o que muito provavelmente denuncia que a
obra de Josefo poderá ter sido uma das suas fontes ou que a história messiânica
em torno de Vespasiano se teria tornado proverbial em setores estratégicos da
sociedade romana (Suet. Ves. 5). Seja como for, o aproveitamento propagandísti-
co do episódio parece-nos evidente25.
Por fim, associadas a este processo, se não no tempo do próprio imperador,
em fase já posterior, difundiram-se também várias ideias que tinham como
ponto comum o carácter sotérico e até taumatúrgico de Vespasiano (D.C. 65.8-
9). A estas correntes dificilmente terão sido estranhos o contexto judaico e a
relação que o flávio teve com esse povo e o seu território. Acresce que o tempo
dos Flávios é também o tempo da emergência do cristianismo como religião, a
que as categorias enunciadas não são alheias, e consequente processo de sepa-
ratismo relativamente ao judaísmo. Devemos, aliás, entender neste quadro uma

23
Esta é uma questão pertinente e com bastante bibliografia associada. Vide Hadas-Lebel 1990
118-121; Levick 1999 145; Rodrigues 2007 766 e fontes e bibliografia aí citadas.
24
Sobre a relação de Josefo com os Flávios, vide e.g. Rodrigues 2007 771-781.
25
Suetónio refere inclusive uma consulta oracular no Monte Carmelo e uma tradição talmúdica
recupera o episódio referido quer por Josefo quer por Suetónio; vide ainda D.C. 65.1.4; e Rodrigues
2007 773-775; Saulnier 1989 1991.

119
criação literária tardo-medieval, de essência antijudaica, conhecida como História
do mui nobre Vespasiano Imperador de Roma, impressa em Lisboa em 1492 e
que, basicamente, faz do imperador flávio um convertido ao cristianismo por
intermédio de uma figura da tradição cristã, a Verónica, e, simultaneamente,
um braço armado de Deus contra os Judeus26.
Mas se, parte desse soterismo/messianismo se vislumbra numa clara associa-
ção ao universo semítico, é também inegável, como enunciámos, que existem
vestígios de uma agenda ideológica semelhante nas fontes greco-latinas sem, pelo
menos aparente, relação direta com a questão judaico-cristã. Em Suetónio (Ves.
25) e em Díon Cássio (65.12), por exemplo, lemos que, baseado no seu horós-
copo, Vespasiano teria afirmado que os seus filhos deveriam ser os seus
sucessores; caso contrário, ninguém lhe sucederia27. Numa primeira leitura, esta
afirmação parece ser, naturalmente, uma daquelas interpolações posteriores ao
imperador, de modo a valorizá­‑lo ou, até, a legitimar os seus sucessores. Assim
sendo, não teria sido Vespasiano o autor de tal afirmação, mas um zeloso cro-
nista ou historiador que lhe terá sobrevivido ou vivido depois dele. No entanto,
no seguimento de interpretações como a apresentada por M. P. Charlesworth 28,
não é de desprezar a proposta que entende esta afirmação não num sentido
soteriológico ou messiânico, mas essencialmente político e pragmático (sem
prejuízo do facto de as soteriologias e os messianismos serem essencialmente
políticos, naturalmente). Assim, o que Vespasiano pretenderia dizer era que ou
a dinastia flávia se manteria ou a anarquia se instalaria rapidamente em Roma.
Por conseguinte, torna-se verosímil que tenha sido o próprio imperador a fazer
tal afirmação, a qual será ao mesmo tempo sintoma da sua lucidez política29.

1.2 A ação política de Vespasiano

Vespasiano parece ter sempre tido noção da importância do senado na es-


trutura socio­‑política romana. É nesse sentido que as fontes apontam, ao
sugerirem que, da parte do novo imperador, terá sempre havido uma predispo-
sição para as boas relações com aquele órgão constitucional. Para isso, Vespasiano
terá recolocado a instituição numa posição de prestígio (e.g. Suet. Ves. 9.2),
procurando recuperar uma linha política que tinha sido inaugurada com Augusto,
e feito uso da sua função como censor, manipulando as listas senatoriais e intro-
duzindo novos membros, naquele organismo. Estes, provenientes da ordem

26
Machado 2007; Martins 1956.
27
“Todos concordam que ele tinha tanta confiança no que se dizia em torno do seu nascimento
e no dos seus filhos, que depois de tantas conspirações contra si chegou a afirmar perante o senado
que ou os seus filhos lhe sucederiam ou não lhe sucederia ninguém” (Suet. Ves. 25).
28
Charlesworth 1936 6.
29
Sobre esta problemática, vide Schalit 1975.

120
equestre e das elites e oligarquias municipais de Itália e de algumas províncias
(Gália, Hispânia, Egito), eram indivíduos essencialmente afetos ao imperador,
criando assim uma rede clientelar que, evidentemente, contribuiu para fazer do
senado um órgão de apoio à governação flávia e não de oposição. Paralelamente,
o imperador apoia-se nos equites, o que se manifesta também nas nomeações
que Vespasiano faz para a administração imperial.
Já o contrário parece não ter sido regra. Isto é, nem sempre os senadores
foram fervorosos apoiantes de Vespasiano ou dos Flávios. Isso deverá explicar,
aliás, o facto de alguns senadores, como membros de outros grupos, terem sido
perseguidos sob este imperador. Tal deverá ter sido o caso de Helvídio Prisco,
por exemplo, genro do malogrado Trásea Peto (Suet. Ves. 15; cf. Tac. Ann. 16.21).
Naturalmente, a atenção do novo imperador também se focou na organi-
zação militar do Império. Logo em 69 d.C., houve a preocupação de reduzir
os membros da guarda pretoriana, cujo número de efetivos havia sido particu-
larmente inflacionado sob o curto governo de Vitélio. Vespasiano reduziu a
quantidade de pretorianos para os valores que essa guarda de elite conhecera
no tempo de Augusto, recrutando os homens que viriam a exercer essas funções
nas regiões itálicas e nas províncias mais romanizadas, como a Hispânia e a
Gália30. Um dos objetivos desta medida foi neutralizar as pressões militares,
evitando que o exército governasse ou que conseguisse manter algum tipo de
controlo sobre o poder político através de si ou de qualquer outro no seu lugar.
Na verdade, com esta medida, Vespasiano conseguiu reintroduzir uma forte
hierarquia militar, colocando no topo homens da sua absoluta confiança polí-
tica, concordes em submeter o poder militar ao poder político. Além disso, o
imperador nomeou o filho Tito prefeito do pretório, passando este a ser o
único homem a desempenhar essa função31.
Já a administração militar de Vespasiano pôs em prática um aumento das
unidades auxiliares, de forma a garantir a estabilidade política a elas associada.
Sob Flávio Vespasiano, as legiões ascenderam, portanto, ao número de 2932.
Com a exceção das legiões VII Gemina, que se manteve estacionada na Hispânia,
da X Fretensis, instalada na Judeia, e da III Augusta, em África, todas as forças
militares se concentraram em zonas fronteiriças, criando assim o que alguns
autores chamam de “limes fortificado”33. Esta política era, portanto, uma ino-
vação relativamente ao que se verificara com os Júlio-Cláudios, que haviam
apostado num sistema de Estados-tampão, estrategicamente colocados entre os

30
Levick 1999 152-155.
31
Jones 1984 84-85.
32
Castillo 1989 185. Como nota este autor, Vespasiano suprimiu quatro legiões renanas, por
terem sido derrotadas ou se terem aliado a Júlio Civil: I Germanica, IV Macedonica, XV Primigenia
e XVI Gallica; manteve as duas criadas por Nero e a que Galba formou na Hispânia: I Italica e I
Adiutrix e VII Gemina; e criou ainda três novas: II Adiutrix, IV Flauia Felix e XVI Flauia Firma.
33
E.g. Castillo 1989 185; Dart 2016.

121
limites do Império e os chamados territórios bárbaros. Naturalmente, esta
opção política teve também como consequência um relativo desinvestimento
no povoamento e controlo militar das regiões do interior, o que só deverá ter
sido possível depois de assegurada uma paz generalizada.
Uma das exceções foi precisamente a Judeia, o que deverá justificar a manu-
tenção da legião X Fretensis nessa região. Mas houve mais casos. Há que referir
três focos de conturbação política no tempo de Vespasiano, além do bem conhe-
cido caso judaico. O primeiro desses focos é o do reino do Ponto, onde, na
sequência da incumbência de governar que Roma recebeu como herança, em 63
d.C., após a morte do rei Pólemon II, espoletou uma rebelião independentista,
liderada por um liberto de nome Aniceto, que controlava a costa meridional do
Mar Negro. Além de representar uma ameaça ao domínio imperial e à unidade
do território governado por Roma, o movimento encabeçado por Aniceto punha
também em perigo as rotas comerciais que passavam pela região pôntica, nomea-
damente o comércio de cereais, cuja importância não devia jamais ser mitigada.
Por conseguinte, Vespasiano apressou-se a tratar de esmagar a rebelião de Aniceto
e a reassegurar o controlo do território por parte de Roma34.
O segundo foco de conturbação militar foi o do reino dos Partos. Apesar
de Vespasiano ter tentado manter a política de neutralidade em relação a esse
território, o facto é que o processo não se revelou de fácil concretização.
O problema, porém, era de vital importância, até porque da estabilidade na
região dependia também a segurança da fronteira oriental do Império. Vologeso
I ainda atacou as guarnições romanas instaladas na Síria, mas o exército co-
mandado pelo legatus Marco Úlpio Trajano, pai do futuro imperador Trajano,
acabou por conter os ataques. Na sequência dessas investidas, Vespasiano
decidiu reforçar as fronteiras da região, anexando a Arménia Menor e
Comagene, aumentando desse modo a zona de influência romana no territó-
rio e transformando o Eufrates no limes natural do Império relativamente aos
Partos. Deste modo, também, Vespasiano não abdicou em absoluto da polí-
tica de criação de Estados­‑tampão, por reconhecer a sua eficácia em alguns
casos. Aparentemente, este seria um deles. Na sequência da reorganização
administrativa de toda a região, Vespasiano criou a província da Cilícia, que
passou a incluir a Capadócia, a Galácia, a Lícia e a Panfília 35.
O terceiro foco de distúrbios militares foi a Germânia e a região do Danúbio.
Estes confrontos, porém, radicaram mais nas rebeliões militares romanas de 69
d.C. do que propriamente em problemas autonomistas ou independentistas,
como de certo modo podemos caracterizar as causas judaica e pôntica da mesma
época. Ainda assim, isso não significa que não se tenham verificado então mo-
vimentos separatistas que tiveram o apoio das elites militares locais, como
parece ter sido a proclamação do imperium Galliarum. As posições extremadas

34
Levick 1999 115, 167.
35
Levick 1999 152-169.

122
nessa ocasião, porém, não foram unânimes, pelo que estas tentativas de secessão
acabaram votadas ao desaire. O genro de Vespasiano, Quinto Petílio Cereal, foi
o general romano encarregado de neutralizar esses movimentos ao comando de
oito legiões, o que conseguiu com o arrependimento de alguns dos insurretos e
a derrota de outros. Aparentemente, em 70 d.C., tudo estava sob controlo36.
Relativamente às linhas marítimas, há que salientar a manutenção das fro-
tas adriáticas, sendo claro o objetivo de assegurar as rotas de abastecimento de
trigo proveniente do norte de África a Itália e, em particular, a Roma. O pro-
gressivo aumento da importância das classes Siriaca e Pontica, contudo,
permite-nos pensar que as rotas de abastecimento provenientes do Oriente e
do Mar Negro deverão ter ganhado significado nesse mesmo período, até pelo
contexto gerado pelos conflitos pôntico e pártico, acima mencionados37.
As medidas que Vespasiano tomou para travar o crescimento de latifundia
parecem vir na sequência da necessidade de evitar a concentração de propriedade
nas mãos de uma elite económica que se visse depois capaz de criar monopólios
e, desse modo, controlar preços de bens essenciais. Com efeito, a lex Manciana
é essencialmente uma tentativa de proteção dos pequenos proprietários agrícolas38.
Por outro lado, o princeps flávio parece ter favorecido alguns dos territórios pro-
vinciais com projetos de urbanização e a promoção do estatuto jurídico de
algumas cidades. Como foi já notado por alguns historiadores, este último aspe-
to parece ter sido dirigido sobretudo para cidades da parte ocidental do Império,
a cujos municípios outorgou o estatuto de cidadania. Desse modo, Vespasiano
integrou no sistema jurídico romano parte das elites locais e indígenas39. Plínio-
o-Velho afirma, e.g., que o príncipe teria promulgado um edictum através do qual
concedeu o direito latino a toda a Península Ibérica (Nat. 3.3.3040). Por detrás
destas medidas não deverá ter sido estranha a necessidade de angariar apoios para
a continuidade dos Flávios no poder.
Um outro problema com o qual Vespasiano deparou assim que assumiu a
cadeira curul foi o das finanças públicas. Com efeito, sob Nero, o Estado ro-
mano tinha entrado praticamente na bancarrota e, com os confrontos que
opuseram os vários candidatos ao poder no ano 69 d.C., o deficit aumentou
consideravelmente, pelo que urgia tomar medidas drásticas nesse domínio.
E a verdade é que a imagem de Vespasiano viria a ficar definitivamente marca-
da por essa faceta da sua administração.
Uma das primeiras medidas do novo imperador foi controlar os gastos da casa
imperial, não só porque com isso dava o exemplo, naturalmente, mas também

36
Levick 1999 108-111.
37
Dart 2016 211, 219-220.
38
Levick 1999 100-101.
39
Levick 1999 134-151.
40
“Apesar de sacudido por tormentas, o imperador Vespasiano Augusto atribuiu o direito
latino a toda a Hispânia.”.

123
porque essa fora, desde os Júlio-Cláudios, uma das principais fontes de despesa
do Estado. As leis sumptuárias de César e de Augusto, as leges Iuliae sumptuariae
de 46 e de 18 a.C., denunciavam na ocasião uma necessidade contenção de
gastos do erário público que, ao que parece, não terá sido particularmente ob-
servada sob os principados que lhe sucederam, muito em particular no tempo de
Nero. Vespasiano teve de regressar ao espírito de contenção.
Não é impossível que esta nova filosofia económica se tenha manifestado
inclusive ao nível da moda. Com efeito, o período flávio é conhecido pelos his-
toriadores da arte e pelos arqueólogos como particularmente expressivo ao nível
dos retratos femininos, sobretudo no que diz respeito aos penteados. É deste
período que, por norma, são datados os bustos e retratos de mulheres que exibem
o chamado penteado com topete ou em “ninho de vespa”41. Mulheres da casa
imperial, como Domícia Longina ou Júlia Titi, aparecem representadas com os
cabelos penteados dessa forma. Uma das mais célebres obras de arte desse perío-
do, o conhecido Busto Fonseca, é mesmo considerado emblemático quer para a
História da Arte Romana em geral, quer para o período flávio em particular42.
Vários trabalhos começaram por associar esta moda a um estilo de vida ocioso,
frívolo e sobretudo luxuoso, ainda que usado apenas em ocasiões formais e oficiais.
Esta conceção, porém, espoletou alguns problemas aos historiadores, uma vez
que o período flávio é precisamente conhecido pela austeridade e pelo regime
conservador, impostos e assumidos pela casa imperial. Aqueles teriam sido em
parte derivados da política de censura então em voga, em parte reação ao estilo
entendido como “decadente” que se teria difundido nos últimos anos dos Júlio-
Cláudios. De facto, a mensagem que subjaz à política atribuída a Vespasiano não
se coaduna com a alegada imagem de luxo transmitida pelos penteados em to-
pete, em especial quando interpretados em representações de mulheres que na
sociedade em causa deveriam constituir autênticos exempla de comportamento43.
Contudo, como assinalaram recentemente investigadores como E. D’Ambra
e E. Bartman, elaborar um penteado com uma grinalda de caracóis, em várias
filas, sobrepostas na testa, e prender um carrapito com trança na parte posterior
da cabeça exigia tempo, disponibilidade e mão-de-obra relativamente especializa-
da; mas eventualmente pouco ou nenhum recurso extraordinário ou desperdício
que se pudesse definir como luxo44. Com efeito, se analisarmos bem a questão,

41
Rodrigues (no prelo).
42
Busto que representa uma dama do período flávio e que foi propriedade do português D.
José Maria Ribeiro da Fonseca de Évora, bispo do Porto e embaixador de D. João V em Roma,
que teria comprado a escultura na cidade italiana e depois oferecido ao papa Bento XIV, em 1740,
para o espólio do Museu Capitolino. Sobre esse processo, ver Marlowe 2013 1622. Não raramente,
a figura representada pelo busto é identificada como sendo Júlia Titi. Todavia, não há qualquer
fundamento para essa identificação.
43
Abbema 2016.
44
D’Ambra 2013; Bartman 2001 1-2, 8.

124
o mais provável é que as coroas de caracóis usadas por estas senhoras tivessem
como objetivo substituir, através da ilusão, a aplicação de joias, como diademas
e coroas de metais e pedras preciosas, que, essas sim, seriam sintoma de gasto e
de efetivo luxo45. Levando em conta o contexto político­‑económico da época, a
hipótese parece-nos não só verosímil, como uma evidência da política de auste-
ridade de Vespasiano.
Para atingir o reequilíbrio das contas públicas, Vespasiano começou por
revogar isenções, como as que Nero havia concedido a algumas cidades gregas
e Galba havia atribuído às províncias da Gália e da Hispânia. Depois, veio o
inevitável aumento de impostos, diretos e indiretos, como as taxas aduaneiras.
São dois os casos recorrentemente citados como exemplos dos impostos criados
durante o principado de Vespasiano e que mostram bem a necessidade de rein-
ventar formas de aumentar o rendimento do Estado. Referimo-nos, claro, ao
fiscus Iudaicus e ao uectigal urinae. Mais do que do impacte que estas medidas
terão tido no tesouro público romano, a fama destas duas propostas para di-
minuir o deficit orçamental deverá advir do seu carácter extraordinário e ao
mesmo tempo inusitado.
O fiscus Iudaicus consistia numa taxa cobrada aos Judeus e que se compreen-
de no contexto político imperial de então, nomeadamente da neutralização da
revolta judaica e consequente destruição do templo de Jerusalém em 70 d.C.
Antes da destruição do templo, todos Judeus que habitavam no limes imperial
romano estavam obrigados a pagar anualmente a Javé um tributo de duas dra-
cmas. Depois da destruição, o tributo passou a reverter para o templo de Júpiter
Capitolino, o que foi particularmente ofensivo para os Judeus. O impacte que
o judaísmo veio a ter na História tornou o fiscus Iudaicus particularmente cé-
lebre; no entanto, esta não foi a única taxa de natureza “étnica”, digamos assim,
criada por Vespasiano. Com efeito, o imperador flávio criou também na mesma
ocasião o fiscus Alexandrinus, que deveria estar relacionado com o abastecimen-
to de trigo a Roma, e o fiscus Asiaticus, que, tal como a taxa alexandrina,
estava relacionado com o aerarium populi Romanorum46.
Quanto ao uectigal urinae, trata-se, basicamente, de uma taxa aplicada à
urina. Dito desta forma, poderá parecer que um imposto desta natureza seria,
no mínimo, patético, fazendo dele um instrumento de arremesso fácil à figura
e ação política de Vespasiano. Suetónio dá conta dessa instrumentalização ao
contar como Tito teria ficado indignado com a medida tomada pelo pai, re-
preendendo-o por isso. Num ato teatral, porém, Vespasiano teria posto uma
moeda proveniente desse imposto junto ao nariz do filho, perguntando-lhe se

45
Ideia desenvolvida por D’Ambra 2013 523-524. No caso das figuras imperiais, poderia ser
acrescentado um diadema de facto ao penteado, com o objetivo de as dignificar no seu estatuto
imperial.
46
Heemstra 2010 11-12; Levick 1999 98-99, 101.

125
o cheiro o incomodava. Perante a resposta negativa de Tito, Vespasiano teria
replicado: “Pois provém da urina” (Suet. Ves. 23.3)47.
O uectigal urinae, no entanto, foi sobretudo a demonstração do espírito
pragmático do princeps, bem como do seu sentido de administração pública.
Com efeito, o que passou a pagar-se foi não propriamente um imposto sobre
a urina, mas sim sobre as ânforas que eram colocadas nas esquinas das ruas da
cidade e que tinham como objetivo recolher os fluídos humanos que eram
depois utilizados pelos curtidores no trabalho dos curtumes48. Deste modo, o
imperador conseguiu não só uma forma de assegurar a manutenção da recolha
dessa matéria-prima, como obteve um imposto indireto sobre o rendimento
dos curtidores e, portanto, uma mais-valia para o Estado.
O novo imperador determinou ainda que fossem restituídas ao Estado as
propriedades públicas que haviam sido transferidas para mãos privadas. Para
isso, Vespasiano ordenou que se cadastrasse o ager publicus. Ao mesmo tempo,
reformou a administração das propriedades estatais, tanto dos latifundia im-
periais como de outras possessões, como minas. As da Lusitânia não deverão
ter sido exceção 49.
No seu conjunto, estas reformas implicaram uma substituição, em alguns
casos radical, dos procuratores imperiais assim como dos conductores ou arren-
datários do Estado, de modo a garantir e assegurar um controlo efetivo
desses rendimentos.
Importa salientar que, no seu conjunto, as medidas de Vespasiano tiveram
um êxito significativo, contribuindo de forma eficaz para a recuperação econó-
mica do Estado. Mas, como notou A. del Castillo, há que não esquecer que a
paz que o princeps impôs no império foi também determinante para esse resta-
belecimento da economia 50. Sem guerras ativas e rebeliões particularmente
significativas e com as ameaças fronteiriças contidas, Britânia incluída, os
gastos estatais estavam mais controlados e nem os pagamentos que a lealdade
dos legionários e dos pretorianos exigiu do imperador foram suficientes para
evitar o reequilíbrio financeiro.
Eventualmente, terá sido esta política que permitiu a Vespasiano investir na
sua imagem pública, o que, para um estadista do seu tempo, não significava
pouco em termos de afirmação política e de exercício do poder.

47
Díon Cássio refere­‑se ao mesmo episódio, contando que o imperador teria colocado moedas
provenientes do imposto frente ao filho e ter-lhe-ia dito que não deitavam qualquer cheiro. O texto
grego reza εἴ τι ὄζουσιν (ei ti ozousin); mas a expressão que se tornou proverbial foi uma versão
latina, non olet (cf. D.C. 65.14).
48
Na ausência de possibilidade de sintetizar ureia de modo químico-artificial, a urina era
no período romano uma fonte deste sal. Quando armazenada durante longos períodos, a ureia
transforma-se em amónia ou amoníaco. A sua aplicação a peles e couros era, portanto, de grande
utilidade para o tratamento dos curtumes.
49
Levick 1999 100-101.
50
Castillo 1989 185.

126
1.2.1 As obras públicas de Vespasiano

Apanágio dos estadistas romanos, as empresas de obras públicas tinham


naturalmente um objetivo de serviço público, mas não deixavam de ter também
uma função eminentemente política, pela forma como contribuíam para a
construção da imagem de quem a promovia, como tão bem demonstrou P.
Zanker51. Não raramente, aliás, as obras públicas andavam associadas a práticas
de evergetismo, fenómeno particularmente estudado por P. Veyne52.
Vespasiano não parece ter escapado a esta regra. A construção do foro que acabou
associado ao seu nome é disso exemplo. Mas este não é caso único. A ele deve
juntar-se a reconstrução de parte do Teatro de Marcelo (Suet. Ves. 19), a intervenção
no templo dedicado a Cláudio, a renovação da estátua colossal que havia sido antes
dedicada a Nero na Domus Aurea e, claro, o restauro do Capitólio, que tinha sido
particularmente danificado durante o conflito de 69 d.C. (Suet. Ves. 8.5).
Algumas das cidades da Ásia Menor também deverão ter assimilado parte
das receitas estatais ao terem sido incluídas em projetos de restauro e reconstru-
ção, na sequência de abalos sísmicos que atingiram a região nos tempos de Nero
e do próprio Vespasiano (Suet. Ves. 17). Além destes gastos extraordinários, a
administração vespasiana assumiu a continuidade de políticas de investimento
em infraestruturas dentro do limes imperial, continuando a construção de vias
e até de fortificação de zonas fronteiriças.
A maior das empresas, porém, deverá ter sido a edificação do Anfiteatro Flávio
no mesmo lugar em que, no tempo de Nero, se localizava a Domus Aurea. Note-
se aqui o contraste que terá tido um impacte significativo na época: enquanto a
grande obra de Nero tinha sido o seu palácio, a Casa Dourada, algo do foro pri-
vado, a de Vespasiano era uma enorme estrutura para usufruto da população – um
anfiteatro bem no centro de Roma53. A edificação do anfiteatro, com capacidade
para 45-50 mil espectadores, foi ordenada por Vespasiano, mas o edifício foi
concluído apenas durante o governo do seu filho. Não será demais recordar, porém,
o contributo que os espólios trazidos das campanhas orientais deverão ter dado
para estes projetos. Efetivamente, temos indícios de que esta infraestrutura foi
financiada com o espólio judaico de 70 d.C. Uma inscrição de bronze, colocada
na arquitrave do edifício e substituída já no século V d.C., referia­‑o54.
É provável que o saque judaico tenha igualmente sido utilizado para a
construção de um templo novo, o Templum Pacis, erguido para comemorar a
vitória sobre os Judeus e exaltar a paz assim imposta. Este templo foi inaugu-
rado em 75 d.C., localizando-se no antigo macellum de Augusto, entre a Basílica

51
Zanker 2008.
52
Veyne 1995.
53
Alston 1998 176; Gunderson 2003.
54
Rodrigues 2007 768, onde se pode ler o que diz a inscrição, e bibliografia aí citada.

127
Emília e o Argileto, bairro que se situava perto do Palatino. O novo templo
terá recebido tesouros de Jerusalém, além de outros (J. BJ 7.158-162)55.

2. Titus Flauius Vespasianus (79-81 d.C.)

Como vimos, quando Vespasiano se viu forçado a abandonar a Judeia sem


ter assegurado o controlo de Jerusalém, de modo a concentrar esforços na
conquista da púrpura imperial, coube ao seu filho Tito dirigir as operações
(J. BJ 4.62-365). O facto é que a cidade foi tomada apenas em setembro de 70
d.C., na sequência de um cerco que durou cinco meses. Tomada e incendiada,
Jerusalém foi praticamente destruída, incluindo o templo de Javé, que havia
sido restaurado por Herodes-o-Grande no século I a.C. A resistência judaica
durou ainda alguns anos, terminando apenas em Masada, em 74 d.C.56 Para os
Judeus, os acontecimentos que culminaram na destruição do templo, no cerco
de Masada e em mais uma diáspora forçada e massiva foram dramáticos.
Mas, tal como Vespasiano, foi com esse processo que Tito granjeou todo
o carisma militar e político de que necessitava para legitimar a sucessão do seu
pai no trono imperial. A edificação do chamado Arcus Titi, ao cimo da Via
Sacra, em Roma, entre 82 e 83 d.C., já no tempo de Domiciano, é um dos
testemunhos da importância desse acontecimento na carreira política de Tito.
Outro testemunho assenta na descrição que Josefo faz do desfile triunfal que
Vespasiano e o filho mais velho fizeram em Roma, na companhia do filho e
irmão mais novo, Domiciano, no Verão de 71 d.C., para celebrar em forma
de propaganda a conquista de Jerusalém e a derrota dos Judeus (J. BJ 7.118­
‑152). É possível que os medalhões com relevos no interior do Arco de Tito
evoquem a forma como o desfile terá então decorrido em Roma 57. Podemos
citar ainda um terceiro exemplo que nos parece pertinente neste contexto:
trata-se de um sestércio, cunhado em 71 d.C., sob Vespasiano, portanto, que
pretende celebrar a derrota dos Judeus, representando Tito em traje militar
enquanto fita uma mulher que chora, sentada junto a uma palmeira. A mulher
simboliza a Judeia, o que uma legenda confirma: Iudaea capta, s.c. (“A Judeia
aprisionada, decreto do senado”)58.

55
Rodrigues 2007 769. Sobre o principado de Vespasiano, vide ainda Homo 1949; Levick
1999; Griffin 2000 146 e Nicols 2016.
56
Na sequência da destruição do templo de Jerusalém, Vespasiano ordenou também o encerra-
mento do templo judaico de Onias. Este era o único templo judaico fora da Judeia, construído pela
comunidade de judeus de Leontópolis e que, neste contexto, emergia como ameaça de se tornar
um foco de resistência a Roma, organizada sobretudo por sicários e zelotas. Com efeito, os focos
de revolta não terminaram repentinamente com a destruição de Jerusalém. Sobre esta questão,
vide Rodrigues 2007 765-780.
57
Rodrigues 2007 766-767, 769-770.
58
Rodrigues 2007 786.

128
Foi, pois, a este património carismático entretanto angariado que, em par-
te, Tito apelou quando, na sequência da morte do pai em junho de 79 d.C.59,
subiu ao trono imperial de Roma. Tito, contudo, não era politicamente inex-
periente. O pai tinha-o nomeado princeps iuuentutis logo em 69 d.C., o que
fazia dele “o primeiro dos jovens de Roma” e, ao mesmo tempo, particeps im-
perii, uma espécie de corregente, como mostra o facto de ter chegado a redigir
éditos ou lido discursos no senado em nome do próprio pai (Suet. Tit. 6.1)60.
Além dessa função, Tito Flávio Vespasiano exerceu ainda os cargos de cônsul
com o pai, por sete vezes (em 70, 71, 73, 74, 76, 77 e 79 d.C.) – o que apon-
ta para o projeto de instituir uma dinastia –, e de censor, em 73 d.C. A partir
de 70 d.C., Tito usufruiu da tribunicia potestas, além de ter sido prefeito do
pretório em 71 d.C., o que, segundo Suetónio, teria sido uma novidade cons-
titucional, visto que até Tito nenhum indivíduo que não fosse unicamente um
eques teria exercido esse cargo (Suet. Tit. 6).
É também Suetónio que afirma que, durante o exercício da prefeitura do
pretório, Tito Flávio foi particularmente agressivo e cruel nos seus comporta-
mentos (“mostrou-se duro e violento”, Tit. 6.1). As fontes não dão conta de que
Tito tivesse mantido esse tipo de atitudes durante o exercício do principado,
mas o facto é que este princeps apenas governou dois anos, pelo que há uma
grande probabilidade de não ter havido tempo para que ele se revelasse de outra
forma. Recordamos que Suetónio afirma que poucos príncipes deveriam ter
chegado ao trono com tantos a odiá-lo como Tito (Suet. Tit. 6.2) e, segundo
Josefo, depois da conquista de Jerusalém, o príncipe condenou à arena mais de
dois mil e quinhentos prisioneiros judeus para celebrar o aniversário de Domiciano
(J. BJ 6.418­‑419; 7.23-24, 37-40). De qualquer modo, estas são opções que
também devem ser entendidas no contexto socio­‑político e mental da época.
No entanto, a maioria das notícias que nos chegam parece dizer respeito
apenas ao que frequentemente se chama “estado de graça” de um governante.
Os textos referem­‑se à atenção que prestou aos interesses das camadas populares
de Roma, parecendo ter havido a preocupação de alimentar e satisfazer ânimos
com demonstrações públicas de evergetismo, a que não terá sido estranha uma
forma de captatio beneuolentiae da população romana. Foi sob o seu principa-
do, em 80 d.C., que o anfiteatro Flávio foi inaugurado e esse acontecimento
terá tido um impacte especial na população e na forma como esta encarou o
príncipe. Os ludi então organizados foram verdadeiramente grandiosos, tendo
durando cem dias, entre abril e julho, noite e dia, e incluído naumaquias,
combates de gladiadores e condenações ad bestias. Suetónio conta que num só
dia foram abatidas cinco mil feras (Suet. Tit. 7.7) e Díon Cássio fala mesmo
de nove mil (66.25). Eventualmente, haverá algum exagero nas cifras, mas as
fontes, e o próprio edifício, deixam perceber que as cerimónias de inauguração

59
Vespasiano morreu aos 69 anos, na sequência de uma doença súbita, Suet. Ves. 24.
60
Jones 1984 79, 82, 85-87.

129
terão de facto sido magníficas. Muito certamente, Tito aproveitou-as para
demonstrar o poder imperial e os benefícios que a nova dinastia trazia a Roma
e aos Romanos, num claro exercício de propaganda e de contraste com o que
tinham sido os últimos anos dos Júlio-Cláudios. Só o facto de se exibirem no
anfiteatro animais provenientes de todos os cantos do Império era uma forma
de propagandear o poder e os domínios do imperador e sua família. O célebre
Livro dos Espetáculos de Marcial testemunha bem o acontecimento61.
A este tipo de “ação social”, Tito associou uma baixa de impostos, o que só
foi possível graças às políticas de contenção e de austeridade levadas a cabo por
Vespasiano. Nesse aspeto, Tito beneficiou de uma conjugação de fatores. Note-
se que mesmo a inauguração do anfiteatro Flávio em 80 d.C. só foi possível
porque a construção do edifício se iniciara no tempo do pai, também. No
entanto, nem só de aspetos positivos foi preenchido o curto principado de Tito.
Efetivamente, foi no tempo deste imperador que o império sofreu alguns de-
sastres naturais, que abalaram consideravelmente a sociedade de então. Esses
acontecimentos não deixaram de ter impacte na economia, sobretudo, visto
ter-se espoletado a emergência e a urgência dos auxílios estatais.
Além de uma epidemia que grassou por parte considerável do território
imperial e de um incêndio que atingiu Roma, que ainda não havia recuperado
completamente do fogo que havia destruído cerca de dois terços da cidade em
64 d.C., logo no ano em que Tito se sentou na cadeira imperial, a região da
Campânia foi atingida por uma erupção do Vesúvio, que fez milhares de mor-
tos e destruiu por completo três das cidades da baía de Neápolis: Pompeios,
Herculano e Estábias. Esta região havia sido atingida por um violento sismo
ainda no tempo de Nero, entre 62 e 63 d.C. As cidades campanenses não se
tinham, portanto, restabelecido ainda do impacte que esse cataclismo lhes tinha
causado, quando foram atingidas pela erupção do Vesúvio. Segundo a interpre-
tação tradicional, baseada no texto de Plínio-o-Jovem, a erupção vulcânica terá
ocorrido no dia 24 de agosto de 79 d.C. (Plin. Ep. 6.16.20). Mas a investigação
mais recente tem posto em causa este dado cronológico62.
Num contexto deste tipo, percebe-se também mais facilmente que o retrato
de Tito não tenha sido feito de forma negativa, justificando-se assim também as
tão citadas palavras com que Suetónio abre a biografia deste imperador: amor ac
deliciae generis humani (“a adoração e a delícia do género humano”, Suet. Tit. 1).

61
Pimentel 2000 19-38; Rodrigues 2007 768-769; Tuck 2016.
62
Dúvidas relativas à leitura paleográfica dos números registados nos manuscritos medievais
que transmitiram as epístolas de Plínio, os vestígios de frutos outonais que se encontraram durante
as sondagens arqueológicas de Pompeios, as roupas – inusitadas para o Verão mediterrâneo – feitas
de lã que estavam a ser usadas por muitas vítimas no momento do cataclismo, o achado na cidade
de uma moeda romana cunhada não antes de setembro de 79 d.C. e o estudo da orientação dos
ventos da região têm sido os argumentos que têm contribuído para pôr em causa a data tradicional
de agosto de 79 d.C. É, antes, verosímil que a erupção tenha ocorrido entre setembro e outubro
desse mesmo ano. Sobre esta questão vide Rodrigues 2012.

130
Um outro elemento, o romanesco, acabou por cunhar a imagem de Tito na
tradição ocidental. Trata-se da relação que terá mantido com Júlia Berenice,
princesa judia. Berenice fora, juntamente com o irmão Agripa II e outros reis-
-vassalos orientais (Soemo de Émesa e Antíoco IV de Comagene), uma das
apoiantes de Vespasiano em 69 d.C. (Tac. Hist. 2.81), constituindo o que pa-
rece ter sido uma autêntica factio oriental de apoio aos Flávios63. Mas, ao que
parece, o papel da princesa na vida do princeps foi muito além disso.

2.1 O “caso Berenice” e suas consequências políticas

Tito casou-se com pela primeira vez em 63 d.C., ainda no tempo de Nero,
depois de regressar a Roma, vindo da Germânia e da Britânia. Esse primeiro
casamento foi com Arrecina Tertula, filha de Marco Arrecino Clemente, um
eques que havia sido prefeito do pretório. Dessa união, Tito terá tido pelo
menos uma filha, Júlia Flávia. Um passo de Filóstrato, porém, sugere que ele
deverá ter sido pai de mais do que de uma única rapariga (Philostr. VA 7.7).
Tertula, contudo, morreu em 65 d.C. e Tito voltou a casar-se depois disso com
uma senhora chamada Márcia Furnila, de quem acabou por se divorciar e de
quem terá tido também uma filha (Suet. Tit. 4.2).
As fontes fornecem pouca informação acerca das esposas legítimas de Tito.
Nos anais da História, e decerto por alguma razão, destaca-se sobretudo a
relação que o imperador terá mantido com a filha de Marco Júlio Agripa
(também conhecido como “Herodes” Agripa), Júlia Berenice, sem prejuízo
para o facto de Suetónio destacar o seu gosto por práticas sexuais alternativas
com jovens rapazes e eunucos (Suet. Tit. 7.1). Estas observações do historiador,
porém, devem ser lidas no contexto antigo, em que amor e sexualidade não
eram duas realidades necessariamente coincidentes. Os ecos historiográficos
da relação de Tito com Berenice ganharam particular relevo porque ela moti-
vou uma tradição literária na cultura europeia, eventualmente, só comparável
à que conhecemos para António e Cleópatra e Herodes e Mariame64. Mas essa
tradição não deixa de radicar num facto politicamente pertinente que marcou
a dinastia flávia no tempo de Tito. De facto, a relação de Tito e Berenice
deverá ter tido um impacte político no seu tempo semelhante ao da de António
e Cleópatra nos alvores do Principado65. Mommsen chamou mesmo a Berenice:
“Kleopatra im kleinen”66.

63
Jones 1989 127-134.
64
Akerman 1978.
A bibliografia sobre Tito e Berenice e sobre a receção do tema é imensa. O leitor pode
65

encontrar uma súmula dos principais títulos em Rodrigues 2007 781-798.


66
Apud Perea Yébenes 2000 94.

131
A história conhece vários contornos, interessando destacar aqui sobretudo
as suas implicações políticas. Sendo filha de Marco Júlio Agripa, bisneta de
Herodes-o-Grande e irmã de Agripa II, Júlia Berenice era uma figura proemi-
nente da casa real dos Judeus. Acresce que a princesa tinha sido casada com
Marco Júlio Alexandre, um judeu irmão de Tibério Júlio Alexandre, o homem
que havia proclamado Vespasiano imperador em Alexandria (J. AJ 19.274-277).
Ao pertencer à elite política judaica do seu tempo, Berenice também se distin-
guia das forças que haviam desencadeado o movimento de rebelião contra Roma,
as quais eram essencialmente constituídas, como referimos, por zelotas e sicários.
Isso significa que Berenice não estaria necessariamente ao lado do movimento
de rebelião, tal como, aliás, dificilmente estaria qualquer um dos membros da
família real judaica. Pelo contrário, sendo culturalmente helenística, Júlia
Berenice identificava­‑se e estaria mais próxima dos círculos do poder em Roma.
O papel político desta princesa na conjuntura flávia é inegável. Uma inter-
pretação atenta dos medalhões interiores do Arco de Tito parece sustentar esta
ideia: sob o braço erguido de Tito, num dos relevos, podemos ver as efígies de
um homem e de uma mulher que se afrontam: muito provavelmente, Berenice
e Agripa II, como que submetidos pelo imperator romano, mas não deixando
de estar no horizonte dele.
A influência de Júlia Berenice na corte dos Flávios parece ter-se intensifi-
cado a partir de 75 d.C. As fontes contam que Tito pretendia casar­‑se com
Berenice (e. g. Suet. Tit. 7) e Díon Cássio refere mesmo a existência de uma
relação de concubinato entre o imperator e a princesa. É provável, pois, que
tenha havido uma relação de tipo marital entre Tito e Berenice, que teria co-
meçado antes de o romano se ter tornado imperador, mas tudo aponta para
que o casamento de iure nunca se tenha concretizado67. De facto, condiciona-
lismos jurídicos e religiosos derivados das origens romanas e judaicas dos
intervenientes colocavam diversos obstáculos a uma união legal.
A verdade é que, tal como Cleópatra VII cerca de cem anos antes, Júlia
Berenice era essencialmente uma persona non grata aos Romanos. Berenice
representava os inimigos de Roma, uma cultura estranha aos Romanos e a
possibilidade constante da traição. Estes factos parecem justificar o passo de
Suetónio: “Mandou Berenice imediatamente para longe de Roma, contra a
vontade de um e a do outro” (Suet. Tit. 7.2). Na verdade, Berenice era mais
apropriada para desfilar no triunfo de Tito como espólio do que para aparecer
como imperatriz. Além disso, a factio política a que se associava era foco de
discórdia em Roma. Ora, Tito era uma pedra angular da nova dinastia, por
conseguinte, não poderia deixar que se abrissem fendas na muralha que Vespasiano
tinha começado a construir.
Talvez a expulsão de Berenice em 79 d.C. tenha sido uma tentativa de re-
conciliação política de Tito com os seus adversários políticos. De facto, aos

67
Rodrigues 2007 790.

132
Flávios, não bastava a auctoritas; eram necessários amici. E todo este processo
comprova que o “caso Berenice” interferiu de modo determinante no projeto
político dos Flávios68.
No final da biografia de Tito, Suetónio escreve o seguinte: “não se arrepen-
dia de nenhum ato da sua vida, à exceção de um” (Suet. Tit. 10.1). Segundo o
mesmo historiador, nesse momento, alguns pensaram que o imperador se refe-
ria a uma alegada relação amorosa que teria mantido com a cunhada, Domícia
Longina. Esta, porém, negou que fosse isso. Não podemos deixar de pensar
que Tito se referia à forma como tratara Berenice69.

3. Titus Flauius Domitianus (81-96 d.C.)

Segundo as fontes, uma das primeiras preocupações de Tito Flávio Domiciano


após a morte do irmão em 81 d.C., vítima talvez de uma febre (Suet. Tit. 10.1),
talvez de envenenamento (Aur. Vict. De Caes. 10.11; Philostr. VA 6.32)70, foi
entregar aos guardas pretorianos um donativo equivalente ao que o seu próprio
pai lhes havia dado em ocasião semelhante. Depois de o fazer, Domiciano
apresentou-se perante o senado, que imediatamente confirmou os seus poderes
fazendo dele princeps aos 30 anos de idade.
Os autores que se têm dedicado à personalidade deste imperador são pratica-
mente unânimes em considerá-lo um indivíduo brilhante, com uma inteligência
acima da média. Outros referem a possibilidade de Domiciano padecer de algum
“complexo de secundogénito”, que se teria refletido nas suas ações políticas71.
Outros ainda salientam a sua propensão para a psicopatia, baseados, todavia, em
fragmentos literários eventualmente demasiado incipientes ou inconsistentes, como
os passos em que Suetónio conta que o príncipe se entretinha a torturar moscas
ou a inventar formas de tortura particularmente cruéis (Suet. Dom. 3.1; 10.5).
Não nos parece impossível que assim fosse em termos psicoanalíticos, mas estas
opiniões dificilmente poderão ser comprovadas e passar de mera especulação, dado
o estado da informação que possuímos acerca destes indivíduos. Mas não deixam
de ser válidas enquanto conclusões meramente opinativas e retiradas após uma
leitura mais ligeira das fontes.
Com efeito, ao contrário do irmão, o retrato de Domiciano nos textos
antigos não lhe é muito favorável. Este imperador aparece como um homem
perturbado, com tiques de tirano, no sentido pejorativo do termo, e senhor de
uma crudelitas que deveria ser o oposto do príncipe ideal. Tornaram-se célebres,

68
Crook 1951.
69
Sobre o principado de Tito, vide ainda Jones 1984; Griffin 2000 46-54 e Murison 2016.
70
Jones 1984 154-156.
71
E.g. Castillo 1989 190.

133
por exemplo, a referência à condenação que terá feito das vestais acusadas de
praticarem atos sexuais (D.C. 67.3.3) e a tenacidade com que teria reforçado
as leis contra o adultério ou contra atos homossexuais com homens nascidos
livres72; e tanto Suetónio como Díon Cássio referem que o princeps fazia ques-
tão de ser tratado como dominus et deus73. Curiosamente, este seria um retrato
mais facilmente enquadrável em Tito, dadas as suas afinidades com o Oriente,
de que a relação com Júlia Berenice é uma das manifestações, do que com
Domiciano. Note­‑se, contudo, que este esteve no poder década e meia e não
apenas dois anos, como Tito. Uma quantidade de tempo como a que Domiciano
governou possibilitou um tipo de avaliação diferente daquela a que Tito foi
sujeito. Por outro lado, há que não esquecer que Domiciano foi assassinado, o
que poderá traduzir hostilidades pessoais, mas também, e sobretudo, oposições
políticas. Estas, porém, podem não ter sido necessariamente resultado de com-
portamentos de vilania. Bastaria a cobiça do poder para que surgissem. Mas
deverão, certamente, ter estado por detrás das intenções de construir um retra-
to negativo do último imperador flávio.
Parte significativa dessa oposição terá advindo, naturalmente, da ordem se-
natorial. Uma primeira fase do governo de Domiciano terá mantido privilégios
e prerrogativas dos senadores e respetivas famílias. Nesses primeiros tempos, o
imperador terá, portanto, mantido a política de proteção senatorial que, afinal,
deveria ter um efeito mútuo relativamente ao príncipe. Mas tudo leva a crer que,
paulatinamente, Domiciano tenha optado por um regime político de maior
concentração no princeps, à semelhança, aliás, do que outros, como Gaio Calígula,
teriam já feito. Note-se, por exemplo, como, a partir de 84 d.C., Domiciano
não deixou de exercer o cargo de censor, o que lhe conferia o privilégio de de-
cidir continuamente sobre a composição do senado. A par desse facto, o
príncipe terá introduzido nesse órgão vários elementos que lhe eram próximos,
de modo a garantir a manutenção dos seus poderes e o apoio de que necessita-
va. Ao mesmo tempo, o imperador percebeu que se hostilizava os senadores
teria de encontrar partidários noutras fontes. O exército e os cavaleiros revelaram-
-se as opções mais eficazes como apoios (ao contrário de Cláudio, por exemplo,
que se apoiou sobretudo num grupo de libertos e, por conseguinte, indivíduos
infiltrados na corte e muito próximos da família imperial). Por isso, também, o
príncipe aumentou o número de pretorianos74. Uma política deste tipo não terá
estado isenta de fortes oposições e elas deverão ter-se feito sentir. Essa oposição
manifestou-se também nas perseguições que Domiciano acabou por levar a cabo.

72
A velha lex Scantinia; cf. Suet. Dom. 8.3; D.C. 67.12.1; Stat. Silu. 5.2.102; Mart. 7.7, 22,
45; Juv. 2.29. Griffin 2000 79.
73
Suet. Dom. 13.2. Cf. D.C. 67.4.7, onde se lê καὶ  δεσπότης  καλούμενος  καὶ  θεὸς, kai
despotes kaloumenos kai theos.
74
Como nota Castillo 1989 191, em 83 d.C., Domiciano criou, também, uma nova legião: a
I Flauia Minerua, posteriormente conhecida como I Flauia Minerua Pia Fidelis Domitiana.

134
A rebelião de 88 d.C., protagonizada por Lúcio António Saturnino na
Germânia, terá sido uma das mais importantes, não só pelo que significou em
termos de oposição a Domiciano, mas também pelo temor e cautela que terá
inculcado a partir daí no imperador. Considera-se mesmo que, a partir de
então, terá aumentado a função e o número de delatores na corte imperial,
depois de os ter reprimido (Suet. Dom. 9.3). Os julgamentos por crimes de
maiestas aumentaram bem como a perseguição a alguns grupos específicos75.
Os textos referem em especial os que se identificavam com os intelectuais gre-
gos e algumas minorias étnico­‑religiosas, como os Judeus76. Não deixa de ser
curioso que as notícias que possuímos acerca de Flávio Josefo parem quase em
simultâneo com o final da governação de Domiciano, que parece ter mantido
alguma hostilidade para com indivíduos associados aos Judeus ou ao judaísmo.
Não podemos deixar de pensar na possibilidade de existir alguma relação entre
os dois factos. Neste âmbito, há que referir que alguma tradição cristã consi-
derou desde muito cedo que Domiciano terá sido um opositor do cristianismo,
associando-o mesmo a uma das tradicionalmente tidas como primeiras grandes
perseguições, bem como às condições que levaram à composição do livro do
Apocalipse77. Este fator terá sido também determinante na imagem que a tradi-
ção ocidental construiu do último dos Flávios.
No entanto, há que notar que muito dificilmente, no tempo de Domiciano
e em particular na corte imperial, se faria já alguma distinção entre Judeus e
cristãos. Muito provavelmente, para os Romanos do tempo de Domiciano,
como para o próprio príncipe, Judeus e cristãos seriam o mesmo ou, quanto
muito, estes não passariam de uma seita de origem oriental derivada daqueles.
Para o Estado romano, o delito comum a Judeus e cristãos seria apenas o de
impietas 78. Nem sempre, porém, a acusação de que se era alvo traduziria as
verdadeiras motivações de quem acusava e o facto de os acusados Clemente e
Domitila pertencerem à família imperial e de Domiciano ser um zeloso defen-
sor do poder centralizado na figura do princeps, motivando assim oposições e
ódios políticos, deve ser levado em conta neste contexto. Note-se que, antes de
Flávio Clemente, outro parente do imperador, Tito Flávio Sabino, tinha sido
já acusado e condenado à morte. E as oposições dentro da própria casa imperial
parecem manifestar-se também nos processos políticos em que a própria mulher

75
Jones 1992 182-192.
76
Esta hostilidade em relação aos Judeus sob Domiciano poderá ser paradoxal relativamente ao
apoio que o pai desse imperador terá tido por parte de alguns Judeus, como Tibério Júlio Alexandre
ou até mesmo Flávio Josefo. Haverá, contudo, que levar em conta os contextos específicos de cada
circunstância. Vide e.g. Rodrigues 2007 756-758, 767-768.
77
Rodrigues 2007 766, 809.
78
Sob essa acusação terão caído nomes como Acílio Glabrião (banido e executado), Tito Flávio
Clemente (condenado à morte) e Flávia Domitila (exilada em Pandatária), estes últimos membros
da própria família imperial (D.C. 67.14). Jones 1992 114-116. Não confundir esta Flávia Domitila
com a mulher de Vespasiano, de quem era neta. Vide Eracle 1964.

135
do imperador, Domícia Longina, terá estado envolvida. Suetónio refere um
caso passional como motivo para o exílio da imperatriz, que depois acabou por
regressar à corte (Suet. Dom. 3.1). Mas não deixa de ser significativo que talvez
tenha sido em torno dela que se tenha formado a conspiração da qual resultou
o assassínio de Domiciano (D.C. 67.15).
Há que recordar ainda que Domiciano chegou a ser usado pelo próprio pai
como instrumento de consolidação dinástica. Em 70 d.C., Vespasiano tentou
casar o filho mais novo com uma das suas netas, filha de Tito e, portanto, so-
brinha do próprio Domiciano: Júlia Flávia, também conhecida como Júlia Titi
(Suet. Dom. 22.1). As fontes dão conta, no entanto, que, nessa ocasião, Domiciano
estaria interessado numa outra dama da corte, Domícia Longina, uma descen-
dente de Augusto, filha de Gneu Domício Corbulão e antes mulher de Lúcio
Élio Pláucio Lâmia Eliano (Suet. Dom. 1.2; 22.1). Obtido o divórcio do pri-
meiro casamento de Domícia, Domiciano casou-se então com esta senhora em
71 d.C., vindo depois a conseguir a sua proclamação como Augusta (Suet. Dom.
3.1). A vida conjugal de Domiciano e Domícia Longina, contudo, não foi um
êxito. Em 83 d.C., Domiciano ordenou o exílio da mulher, talvez por causa de
adultério por ela cometido com um ator então famoso (Suet. Dom. 3.1). Segundo
as fontes, Domiciano ter-se-ia envolvido então com a sobrinha, a mesma Júlia
com quem Vespasiano desejara que ele se casasse. E mesmo depois de Domícia
Longina ter regressado à corte na sequência do perdão imperial, Domiciano
manteve a relação amorosa com Júlia Titi, o que deverá não ter sido alheio ao
facto de Domícia Longina se ter envolvido na conspiração que levou à morte
do próprio marido (Suet. Dom. 17; D.C. 67.3.1-2; 67.15.2)79.

3.1 A ação política de Domiciano

Uma das medidas que se impôs no tempo deste imperador foi o controlo
eficaz dos governadores provinciais. O imperador não podia esquecer que par-
te significativa da riqueza do Estado romano provinha das províncias e que
eram esses mesmos territórios que poderiam tornar alguém particularmente
poderoso se, ao invés de enviar para Roma os impostos devidamente coletados,
se apoderasse deles em proveito próprio. Além disso, havia o perigo de conseguir
alianças com elites políticas, económicas e militares locais, que poderiam pôr
em causa o poder do princeps. A proclamação de Vespasiano em 69 d.C. mos-
trava essa possibilidade sem equívocos. Domiciano terá levado em conta todos

79
Sintomaticamente, Suetónio conta que, depois da morte do príncipe, as cinzas dele foram
recolhidas pela sua ama, que as depositou no templo dos Flávios, misturando-as com as de Júlia
Titi, a quem ela também criara e que morrera na sequência de um aborto mal-sucedido. Júlia
estava grávida de Domiciano e terá sido ele próprio a exigir a interrupção da gravidez da amante
(Suet. Dom. 17.3; 22; D.C. 67.18).

136
esses fatores, o que também se deverá relacionar com o facto de ter prestado
particular atenção à atribuição do direito de cidadania a vários provinciais e de
ter criado cargos como o dos curatores reipublicae, essencialmente procuradores
do Estado, função também exercida pelos equites80.
De um modo geral, Domiciano parece ter compreendido e continuado o
pensamento e a ação política do seu pai, Vespasiano. Isto significa que manteve
a perceção da necessidade de continuar a fortificar os limites imperiais, recorren-
do não apenas a uma maior concentração de tropas nessas regiões, como também
a uma intensificação das fortificações aí instaladas. Na região renana, por exem-
plo, aplicou esse princípio, reforçando as medidas com incentivos à instalação de
populações agrícolas locais, ou deslocadas de outros territórios como a Gália, de
modo a criar aí comunidades que viessem a ganhar um sentido de identidade e
de pertença com o território ao ponto de o defenderem como seu. Assim, lutan-
do pelo próprio espaço, esses grupos defendiam as fronteiras do próprio império.
Desta forma, o imperador reforçava de modo significativo os espaços de limina-
ridade. Acresce que estes grupos tinham ainda como contrapartida o pagamento
de uma taxa de 10% dos seus rendimentos ao Estado romano, o que perfazia
uma fonte de rendimento extraordinária muito bem-vinda81.
Do pai, Domiciano parece ter herdado também a competência na adminis-
tração financeira, visto que, sob o seu domínio, a moeda terá parado de
desvalorizar82. No que diz respeito à política económica, é de destacar o edictum
de 92 d.C., com o qual o imperador assegurou medidas com vista a baixar o
preço dos cereais. Com efeito, aparentemente, o comércio do vinho tinha-se
tornado particularmente rentável nos anos que precederam o governo de
Domiciano. Esse fator terá levado muitos agricultores a investirem na vide e
na vinha de modo a tornarem-se produtores vinícolas. Esta medida levou, por
um lado, a uma baixa dos preços do vinho, consequência de uma maior oferta
deste produto nos mercados. Mas, por outro, levou também a uma carestia
cerealífera, uma vez que a maioria dos agricultores preferia plantar vides, colher
uvas e produzir vinho a semear trigo ou outros cereais. A falta de cereal, por-
tanto, levou a um encarecimento significativo desse bem, assim como à
necessidade de mais importação a partir das províncias, o que não favorecia o
preço por que era depois vendido em Roma, por exemplo. Com o edictum de
92 d.C., Domiciano proibiu o plantio de novos pés de vide na Itália e ordenou
que metade das vinhas da Ásia Menor e de outras províncias fosse arrancada83.
Apesar de, a uma primeira leitura, esta medida parecer uma forma de protecio-
nismo dos produtores itálicos de vinho, ela deverá ser preferencialmente

80
Griffin 2000 78.
81
Castillo 1989 192; Fernández Uriel 2016 185-186.
82
Fernández Uriel 2016 198-201.
83
Jones 1992 77-79; Fernández Uriel 2016 194-196.

137
entendida como uma solução para aumentar a produção de cereal e, por con-
seguinte, baixar o seu preço e o do pão dele derivado84.
Em termos de ação militar, Domiciano enfrentou problemas com os Dácios,
chefiados por Decébalo, entre 85 e 89 d.C. Estes confrontos foram umas vezes
favoráveis aos Romanos, outras aos Dácios, que se aliaram a outros povos e
tribos, como os Sármatas, os Quados e os Marcomanos85. Roma chegou mesmo
a perder duas das suas legiões nesses confrontos. Por fim, acabou por acordar
tréguas com Decébalo, assinando um tratado que concedia ao rei dácio privi-
légios comerciais e o direito à exploração de territórios agrícolas, além de uma
pensão anual. Além do mais, deste modo, Decébalo constituía-se também como
rei-cliente ou vassalo de Roma, interessado em defender os seus próprios inte-
resses86. Como nos parece evidente, a administração de Domiciano limitou-se
a reproduzir aqui o modelo usado de um modo mais geral nas regiões de limes.
Naturalmente, esta solução ter-se-á revelado mais rentável para Roma do que
a manutenção do conflito, cujo desenlace não seria certo.
Já na fronteira mais ao oriente, mantiveram-se as linhas definidas por
Vespasiano, assim como na mais ao norte, na Britânia. Domiciano decidiu,
aliás, parar com as ofensivas nessa região, comandadas por Júlio Agrícola, de-
certo por razões económicas87.
Na sequência deste conjunto de medidas, o último dos Flávios reorganizou a
província da Germânia em Germânia Superior e Germania Inferior, nomeando
legati Augusti pro praetore. Estes territórios, contudo, mantiveram-se ligados aos
da Gália Bélgica, para efeitos de gestão financeira, para a qual Domiciano nomeou
um procurator prouinciae Belgicae et utriusque Germaniae88. O mesmo foi feito
com a Mésia, então dividida em Mésia Superior e Mésia Inferior, províncias que
passaram a ser administradas por legati consulares89. Esta reorganização adminis-
trativa teve também como consequência o crescente aumento das elites provinciais
no contexto do império.
Tal como os seus dois predecessores, Domiciano percebeu a importância do
evergetismo e das obras públicas enquanto formas de construir uma imagem polí-
tica. Este imperador terá assim investido parte da sua atividade política em
projetos urbanísticos de utilidade essencialmente pública, desde edifícios destinados

84
Jones 1992 78. Há que notar, contudo, que esta medida não foi posta em prática de forma
pacífica, visto que o imperador encontrou oposição em vários grupos cujos interesses económicos
estavam precisamente ou na exploração da vinha ou na (pouca) produção cerealífera. A medida
proclamada pelo edictum de 92 d.C., no entanto, esteve em vigor até ao principado de Marco
Aurélio (280 d.C.).
85
Fernández Uriel 2016 266.
86
Jones 1992 138-139, 141-143, 150-155.
87
Castillo 1989 193.
88
Morelli 2014 212-226; Dart 2016.
89
Jones 1992 150-155; Morelli 2014 206-212.

138
a banhos públicos a teatros e circos, passando por templos, entre os quais um de-
dicado ao próprio pai, Vespasiano90.

4. O fim da dinastia flávia

Em setembro de 96 d.C., uma conspiração formada talvez em torno da


imperatriz Domícia Longina (ou pelo menos com o seu conhecimento), e que
envolveu pessoas da familia imperial bem como elementos da guarda pretoria-
na e membros do senado, foi bem sucedida em montar uma armadilha e
assassinar Domiciano. Suetónio conta o episódio sob uma perspetiva quase
cinematográfica (Suet. Dom. 17). Segundo este biógrafo romano, um liberto
de Flávia Domitila, a sobrinha que ele tinha exilado em Pandatária, chamado
Estéfano aproximou­‑se do imperador, com o pretexto de lhe denunciar uma
conspiração. O pretexto era, de facto, verdadeiro, mas a conspiração não seria
desmascarada, visto ser precisamente a que estava em curso. Apoiado por um
militar de nome Clodiano, por um liberto chamado Máximo, por um criado
da câmara do imperador e por um gladiador, Estéfano apunhalou Domiciano
até à morte (cf. D.C. 67.15-17). Segundo Díon, nessa ocasião, em Éfeso,
Apolónio de Tíana, um filósofo da época, teria gritado: “Boa, Estéfano! Excelente,
Estéfano!” (D.C. 67.18).
Os conjurados decidiram que o sucessor de Domiciano seria um membro da
família dos Cocceii e antigo cônsul sufecto, no tempo de Gaio Calígula: Nerva.
Por sua vez, o senado decretou que Domiciano fosse votado à damnatio memo-
riae (Suet. Dom. 23.1)91. A dinastia dos Flávios tinha chegado ao seu termo.

Tábua cronológica:

9 d.C. – nascimento de Vespasiano


37 d.C. – Flávio Sabino é quaestor
39 d.C. – nascimento de Tito; Flávio Sabino é aedilis
40 d.C. – Flávio Sabino e Vespasiano são praetores
41 d.C. – morte de Gaio Calígula
45 d.C. – nascimento de Domitila Menor
47 d.C. – Flávio Sabino é consul suffectus
49 d.C. – Flávio Sabino é legatus na Mésia pela primeira vez
51 d.C. – nascimento de Domiciano; Vespasiano é consul suffectus
56 d.C. – Flávio Sabino é legatus na Mésia pela segunda vez
63 d.C. – Vespasiano é proconsul de África; Tito casa-se com Arrecina Tertula; sismo violento na Campâ-

90
Uma lista de obras levadas a cabo por Domiciano pode ser lida em Alston 1998 187. Sobre
o principado de Domiciano, vide ainda Jones 1992; Griffin 2000 54-83; Morelli 2014; Fernández
Uriel 2016 e Galimberti 2016.
91
Fernández Uriel 2016 274-279.

139
nia atinge Pompeios, Herculano e Estábias
65 d.C. – morte de Arrecina Tertula; Tito casa-se com Márcia Furnila
66 d.C. – Vespasiano acompanha Nero à Grécia
67 d.C. – Vespasiano assume o comando das tropas romanas na Judeia; cerco e massacre de Jotapata
68 d.C. – morte de Nero
Antes de 69 d.C. – morte de Domitila e de Domitila Menor
69 d.C. – Flávio Sabino é praefectus de Roma; principado de Galba, de Vitélio e de Otão; principado de
Vespasiano; batalha de Cremona; morte de Flávio Sabino
70 d.C. – Vespasiano entra em Roma como imperador; cerco e destruição de Jerusalém e do Templo
às mãos de Tito; primeiro consulado de Tito; Tito detém a tribunicia potestas; provavelmente, Tito
conhece Júlia Berenice
71 d.C. – desfile triunfal de Vespasiano e Tito pela conquista de Jerusalém; segundo consulado de Tito;
Tito é prefeito do pretório; casamento de Domiciano com Domícia Longina
73 d.C. – Tito é censor; terceiro consulado de Tito
74 d.C. – conquista, saque e massacre de Masada; quarto consulado de Tito
75 d.C. – inauguração do Templo da Paz
79 d.C. – morte de Vespasiano; principado de Tito; sétimo consulado de Tito; Tito expulsa Júlia Berenice
de Roma; erupção do Vesúvio; destruição de Pompeios, Herculano e Estábias
80 d.C. – inauguração do Anfiteatro Flávio
81 d.C. – morte de Tito; principado de Domiciano
82-83 d.C. – edificação do Arco de Tito; exílio de Domícia Longina; Domiciano envolve­‑se com Júlia Titi
85 d.C. – guerra contra os Dácios
88 d.C. – rebelião de L. António Saturnino
89 d.C. – tratado com Decébalo, rei dos Dácios
92 d.C. – edictum de Domiciano sobre o cultivo de cereais e o plantio de vinha
95 d.C. – condenação de Flávio Clemente à pena capital; exílio de Flávia Domitila em Pandatária
96 d.C. – conspiração contra Domiciano; morte de Domiciano; principado de Nerva.

Bibliografia

Abbema, L. K. van (2016), “Women in Flavian Rome” in A. Zissos, ed., A Companion to the Flavian Age
of the Imperial Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 296-312.
Akerman, S. (1978), Le mythe de Bérénice. Paris, Éditions A.-G. Nizet.
Alston, R. (1998), Aspects of Roman History AD 14-117. London/New York, Routledge.
Bartman, E. (2001), “Hair and the Artifice of Roman Female Adornment”, AJA 105 125.
Beard, M. (2003), “The Triumph of Flavius Josephus” in A. J. Boyle – W. J. Dominik, eds, Flavian
Rome. Culture, Image, Text. Leiden/Boston, Brill 543-558.
Bernstein, N. W. (2016), “Epic Poetry: Historicizing the Flavian Epics” in A. Zissos, ed., A Companion
to the Flavian Age of Imperial Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 395-411.
Blake, S. H. (2016), “The Aesthetics of the Everyday in Flavian Art and Literature” in A. Zissos, ed.,
A Companion to the Flavian Age of Imperial Rome. Oxford, BlackwellJohn Wiley & Sons 344-360.
Boyle, A. J. & Dominik, W. J., eds., Flavian Rome. Culture, Image, Text. Leiden/Boston, Brill.
Brunt, P. A. (1977), “Lex de imperio Vespasiani”, JRS 67 95-116.
Castillo, A. del (1989), “La dinastía Flavia” in J. M. Roldán – J. M. Blázquez – A. del Castilo, Historia
de Roma. Tomo II – El Imperio Romano (siglos I-III). Madrid, Cátedra 175-193.
Chapman, H. H. – Rodgers, Z., eds (2016), A Companion to Josephus. Oxford, Blackwell-John Wiley
& Sons.
Charlesworth, M. P. (1936), “The Flavian Dynasty” in S. A. Cook – F. E. Adcock – M. P. Charlesworth,
eds, The Cambridge Ancient History, vol. XI: The Imperial Peace AD 70–192. Cambridge, Cambridge
University Press 1-45.
Croisille, J.-M. (1982), Poésie et art figuré de Néron aux Flaviens. Recherches sur l’iconographie et la corre-
spondance des arts a l›époque impériale. Bruxelles, Latomus.

140
Crook, J. A. (1951), “Titus and Berenice”, AJPh 72/2 162-175.
D’Ambra, E. (2013), “Mode and Model in the Flavian Female Portrait”, AJA 117/4 511525.
Dart, C. J. (2016), “Frontiers, Security, and Military Policy” in A. Zissos, ed., A Companion to the Flavi-
an Age of the Imperial Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 207-222.
Dominik, W. J. (2003), “Hannibal at the Gates: Programmatising Rome and Romanitas in Silius Italicus’
Punica 1 and 2” in A. J. Boyle & W. J. Dominik, eds., Flavian Rome. Culture, Image, Text. Leiden/
Boston, Brill 469-498.
Eracle, J. (1964), “Une grande dame de l’ancienne Rome: Flavia Domitilla, petite fille de Vespasien”,
Echos de Saint-Maurice 62 109-134.
Fernández Uriel, P. (2016), Titus Flavius Domitianus. De Princeps a Dominus: un hito en la transforma-
ción del Principado. Madrid/Salamanca, Signifer Libros.
Franchet d’Espèrey, S. (1986), “Vespasien, Titus et la literature”, ANRW II.32.5 3048-86.
Galimberti, A. (2016), “The Emperor Domitian” in A. Zissos, ed., A Companion to the Flavian Age of the
Imperial Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 92-108.
Gallia, A. B. (2016), “Remaking Rome” in A. Zissos, ed., A Companion to the Flavian Age of the Imperial
Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 148-165.
Gaudemet, J. (72002), Les institutions de l’Antiquité. Paris, Éditions Monchréstien.
Griffin, M. T. (22000), “The Flavians” in A. K. Bowman, P. Garnsey, D. Rathbone, eds., The Cambridge
Ancient History, vol. XI: The High Empire A.D. 70-192. Cambridge, Cambridge University Press 1-83.
Gunderson, E. (2003), “The Flavian Amphitheatre: All the World as Stage” in A. J. Boyle & W. J.
Dominik, eds., Flavian Rome. Culture, Image, Text. Leiden/Boston, Brill 637658.
Hadas-Lebel, M. (1990), Jérusalem contre Rome. Paris, Éditions du Cerf.
Heemstra, M. (2010), The Fiscus Iudaicus and the Parting of the Ways. Tübingen, Mohr Siebeck.
Homo, L. (1949), Vespasien, l’empereur du bom sens (69-79 apr. J.C.). Paris, Albin Michel.
Kokkinos, N. (1992), Antonia Augusta: Portrait of a Great Roman Lady. London, Routledge.
Jones, B. W. (1984), The Emperor Titus. London/Sydney, Croom Helm.
Jones, B. W. (1989), “Titus in Judaea, A. D. 67”, Latomus 48 127-134.
Jones, B. W. (1992), The Emperor Domitian. London/New York, Routledge.
Levi, M. A. (1975), “I Flavi”, ANRW II.2 177-207.
Levick, B. M. (1999), Vespasian. London/New York, Routledge.
Machado, J. B. (2007), História do mui nobre Vespasiano Imperador de Roma. Introdução, edição e lema-
tização de José Barbosa Machado. Braga, Edições Vercial.
Markus, D. D. (2003), “The Politics of Epic Performance in Statius” in A. J. Boyle – W. J. Dominik, eds,
Flavian Rome. Culture, Image, Text. Leiden/Boston, Brill 431468.
Marlowe, E. (2013), Shaky Ground. Context, Connoisseurship and the History of Roman Art. London/New
York, Bloomsbury Academic.
Martins, M. (1956), “Em torno de Jerusalém” in M. Martins, Estudos de Literatura Medieval. Braga,
Livraria Cruz 48-59.
Mason, S. (2003), “Flavius Josephus in Flavian Rome: reading on and between the lines” in A. J. Boyle
& W. J. Dominik, eds., Flavian Rome. Culture, Image, Text. Leiden/Boston, Brill 559-590.
Meise, E. (1969), Untersuchungen zur Geschichte der Julisch-Claudischen Dynastie. München, Verlag C.
H. Beck.
Morelli, U. (2014), Domiziano. Fine di una dinastia. Wiesbaden, Harrassowitz Verlag.
Murison, C. L. (2016), “The Emperor Titus” in A. Zissos, ed., A Companion to the Flavian Age of the
Imperial Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 76-91.
Newton, H. C. (1901), The Epigraphical Evidence for the Reigns of Vespasian and Titus. St. Andrews,
MacMillan.
Nicols, J. (1978), Vespasian and the Partes Flavianae. Wiesbaden, Franz Steiner.
Nicols, J. (2016), “The Emperor Vespasian” in A. Zissos, ed., A Companion to the Flavian Age of Imperial
Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 60-75.
Perea Yébenes, S. (2000), Berenice, reina y concubina. Madrid, Alderabán.
Pimentel, M. C. (1993), A adulatio em Marcial. Lisboa, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Pimentel, M. C. S., Leão, D. F., Brandão, J. L., Ferreira, P. S. (2000), Marcial. Epigramas. Vol. I. Lisboa,
Edições 70.

141
Rodrigues, N. S. (2007), Iudaei in Vrbe. Os Judeus em Roma de Pompeio aos Flávios. Lisboa, Fundação
Calouste Gulbenkian/Fundação para a Ciência e Tecnologia.
Rodrigues, N. S. (2012), “Sodoma e Gomorra em Pompeios” in J. R. Carbó, ed., El Final de los Tiem-
pos. Perspectivas religiosas de la catástrofe en la Antigüedad. Huelva: Publicaciones de la Universidad
de Huelva (= ARYS 10) 259-274.
Rodrigues, N. S. (no prelo), “A Mulher de Milreu: anatomia e recepção de um penteado”, O Arqueólogo
Português.
Saulnier, C. (1989; 1991), “Flavius Josèphe et la propagande Flavienne”, RBi 96/4 545562; 98/2 199-
221.
Schalit, A. (1975), “Die Erhebung Vespasians nach Flavius Josephus, Talmud und Midrasch. Zur Ges-
chichte einer messianischen Prophetie”, ANRW II.2 208-327.
Tuck, S. L. (2016), “Imperial Image-Making” in A. Zissos, ed., A Companion to the Flavian Age of the
Imperial Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 109-128.
Vasunia, P. (2003), “Plutarch and the Return of the Archaic” in A. J. Boyle – W. J. Dominik, eds, Flavian
Rome. Culture, Image, Text. Leiden/Boston, Brill 669-390.
Vervaet, F. J. (2016), “The Remarkable Rise of the Flavians” in A. Zissos, ed., A Companion to the Flavian
Age of the Imperial Rome. Oxford, Blackwell-John Wiley & Sons 43-59.
Veyne, P. (1995), Le pain et le cirque. Paris, Seuil.
Wilson, M. (2003), “After the Silence: Tacitus, Suetonius, Juvenal» in A. J. Boyle & W. J. Dominik, eds.,
Flavian Rome. Culture, Image, Text. Leiden/Boston, Brill 523-542.
Zanker, P. (2008), Augustus und die Macht der Bilder. München, Verlag C. H. Beck.
Zissos, A. (2003), “Spectacle and Elite in the Argonautica of Valerius Flaccus” in A. J. Boyle – W. J.
Dominik, eds, Flavian Rome. Culture, Image, Text. Leiden/Boston, Brill 659-684.
Zissos, A., ed. (2016), A Companion to the Flavian Age of the Imperial Rome. Oxford, Blackwell-John
Wiley & Sons.

142
6. Literatura e poder em Roma no séc. i d.c.

Paulo Sérgio Margarido Ferreira


Universidade de Coimbra
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
ORCID: 0000-0003-4244-5625
pmf@fl.uc.pt

Sumário: O estudo procura traçar a evolução da concentração aris-


tocrática do saber e do poder até à perseguição dos imperadores a
indivíduos que ensombravam os seus dotes oratórios e artísticos; refle-
tir sobre a literatura de cariz senatorial, a falta de liberdade de expressão
e as consequências ao nível da eloquência, e, por fim, sobre a literatu-
ra panegírica, o speculum principis e a adulatio aos imperadores 1.

1. Da unidade aristocrática entre saber e poder à dispersão por áreas que pouco
tinham que ver com a filosofia

Ao considerar os tipos de poder subjacentes ao modo como o homem romano


se relacionava com os diversos saberes durante a República e nos inícios do Império,
sustentou Narducci que, se até aos anos 90 do séc. I a.C. prevaleceu uma tradição
aristocrática que encarava o poder e o saber como uma unidade, já a partir do
referido momento se assistiu a uma progressiva especialização2. Para chegar a esta
conclusão, baseou-se o investigador sobretudo no De Oratore de Cícero, que, es-
crito embora em 55 a.C., recriava ficcionalmente um diálogo ocorrido em 91,
onde Lúcio Licínio Crasso, porta-voz do próprio autor, lamentava a cisão socrá-
tica entre filosofia e retórica (3.60), e, depois de observar que o orador devia ter

1
Trabalho desenvolvido no âmbito do projeto UID/ELT/00196/2013, financiado pela FCT
– Fundação para a Ciência e a Tecnologia.
2
Narducci 1989 536.

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_6
uma formação semelhante à do político dirigente, concluía que ambos deviam
aliar a uma vasta cultura geral um eficaz domínio da palavra (3.132ss.).
Apesar disso, a personagem que, pela formação, pelas qualidades de orador e
prosador e pelos feitos militares praticados, melhor haveria de resolver a velha
oposição literária arma/ toga haveria de ser Gaio Júlio César3. O dictator ainda
confiou a Varrão o encargo de criar a primeira biblioteca pública romana e conce-
beu o projeto de conceder a cidadania a todos os intelectuais gregos presentes em
Roma (Jul. 42.2). Não se pense, contudo, que a conciliação, em César, da acumulação
aristocrática dos diversos saberes com o que parece ser um esforço no sentido de
tornar a cultura acessível ao maior número, reflete uma concessão do general às
suas origens políticas, nomeadamente aos ideais dos populares, mas, como notou
Narducci, “un tentativo di rivitalizzare la tradizione dell’evergetismo aristocrático”4.
Como César saiu de Roma para estudar oratória, também Augusto foi estudar
para Apolónia (Aug. 8.2)5, aprendeu retórica com Apolodoro de Pérgamo e hos-
pedava em sua casa um filósofo grego6. Escreveu poesia, de que se destaca um
poema sobre a Sicília, epigramas e ainda uma tragédia incompleta, escreveu
cartas, 13 livros de Commentarii de uita sua e uma inscrição funéria, res gestae
Diui Augusti, que veiculava o seu testamento político e foi reproduzida em di-
versas partes do império 7. Entre as razões que levaram Augusto a poupar a
cidade de Alexandria contava-se, segundo Díon 51.16.4, o facto de Areu, filóso-
fo estoico, ser natural dessa cidade. Se César confiou a Varrão o encargo de criar
a primeira biblioteca pública romana, quem a inaugurou, entre 39/ 38 e 28 a.C.,
no Atrium Libertatis, junto do Foro de César, foi Asínio Polião, e Augusto criou
outras duas, uma no templo de Apolo, no Palatino, em 28 a.C., e outra no pór-
tico de Otávia, ao Campo de Marte, em 23 a.C8. Se, no caso de César, o desejo

3
Rocha Pereira 2009 236. Além de, na sua juventude, ter tido aulas com o orador Apolónio
Mólon em Rodes (Suet. Jul. 4.1), César não só levou a cabo a conquista da Gália entre 58 e 52, a
invasão da Itália, decidida em janeiro de 49, e a batalha de Farsalo, na Tessália, em agosto de 48,
onde derrotou Pompeio, como também justificou os feitos militares praticados nos commentarii.
Entre as obras de César, conta também Suetónio, da fase da juventude, umas Laudes Herculis, uma
tragédia Oedipus e uns Dicta Collectanea, e, da fase adulta, um tratado gramatical De analogia, um
Anticato, ambos em dois livros, um poema intitulado Iter e cartas a diversos destinatários (Jul. 56.5ss.).
4
Narducci 1989 569. Sobre a “exaltação de evergetas e benfeitores da humanidade” no âm-
bito do culto imperial que servia a legitimação do governante que detinha o poder supremo, v.
Oliveira 2010 14.
5
Brandão 2005 57. O investigador já chamara a atenção para o facto de Suetónio se servir dos mes-
mos critérios para caracterizar o modo como cada césar se relacionava com a cultura e as humanidades.
6
Citroni et al. 2006 442.
7
Citroni et al. 2006 442 e 642-3. Suet. Aug. 85, ainda alude concretamente a Rescripta Bruto
de Catone, a umas Hortationes ad philosophiam, aos volumes de uma autobiografia (De uita sua), e
a uma tragédia destruída sobre Ájax.
8
O referido limite temporal para a criação da primeira biblioteca pública é proposto por
Dalzell 1955 27, mas não existe consenso quanto à data, pois se André 1949 117 já afirmara: “La
date est postérieure à son triomphe d’octobre 39 sans que l’on puisse fixer le terminus ante quem”,

144
de criação de uma biblioteca pública decorria da necessidade de reabilitar a tra-
dicional proteção que a aristocracia exercia sobre os seus dependentes, já, no de
Augusto, a divulgação das obras literárias, o apoio, por intermédio de Mecenas,
aos escritores e a monumentalidade de Roma estavam ao serviço da propaganda
política de regresso à moral tradicional e de exaltação do princeps.
Na esteira do mecenatismo augustano, promoveram Tibério (imperador
14-37) e Cláudio (imperador 41-54) uma literatura comprometida com os
valores dos respetivos regimes, de que se destacam as obras de autores como
Veleio Patérculo e Valério Máximo. Como Augusto, na fase final da sua vida,
também os referidos imperadores, com Calígula (imp. 37-41) exerceram re-
pressão sobre os escritores. Embora Ovídio mencione, em Pont. 4.16, cerca de
trinta poetas contemporâneos, a verdade é que deles pouco ou nada se conhe-
ce. Se excetuarmos as Controuersiae e as Suasoriae de Séneca-o-Velho, as Fabulae
de Fedro, alguma poesia épica e didascálica, certas obras de pendor histórico,
outras de natureza científica e prática, o que resta da época são indicações
sobre a formação dos imperadores e nomes de autores e obras.
Tibério foi estudar filosofia para Rodes (Tib. 11.3), dedicou-se aos estudos
em grego e latim, tentou, sem sucesso, seguir Messala Corvino na oratória, com-
pôs um poema intitulado Conquestio de morte L. Caesaris (“Lamento pela morte
de Lúcio César”), versos gregos à maneira de Riano, Euforião e Parténio – poetas
helenísticos difíceis, eruditos e rebuscados que inspiraram os poetae noui latinos
–, era obcecado pelo estudo da mitologia e dirigia aos gramáticos capciosas per-
guntas sobre o tema (Tib. 70.1), falava e escrevia fluentemente grego, mas
evitava usá-lo em muitas ocasiões, nomeadamente na atividade senatorial (70.2) 9.
Quanto a Calígula, com uma educação pautada pela sucessiva perda de fi-
guras familiares e tutelares (Cal. 10.1) e dotado embora de palavra fácil e
eloquência pronta (Cal. 53.1), não era culto (Cal. 53.1), mas, em contraparti-
da, era um apaixonado pelo canto, pela dança, que inclusivamente cultivou,
pela luta, pela condução de carros de cavalos em competição (Cal. 11 e 54.1)10
e pelo jogo de dados (Séneca, Dial. 11.17.4).
Consciente da popularidade da eloquência senequiana e do fascínio que esta
exercia junto da juventude (Quintiliano, Inst. 10.1.125-127, Suetónio, Cal. 53),
Calígula dizia que as composições de Séneca não passavam de exercícios escolares
e de “areia sem cal” (Cal. 53)11. Díon Cássio, que escreveu a sua história de Roma
no início do séc. III d.C., conta, em 59.19.7-8, que, depois de assistir a uma

e Citroni et al. 2006 441 se limitam a afirmar que Polião fundou a primeira biblioteca pública
com as receitas da campanha na Ilíria, em 39, Rocha Pereira 2009 210-211 situa a inauguração
da biblioteca em 38. Sobre a presença de bibliotecas em campos militares e sobre a precedência de
bibliotecas privadas e semipúblicas relativamente às públicas, v. Oliveira 2010 20 e 22.
9
Brandão 2005 59 e 65, e Citroni et al. 2006 661-2.
10
Brandão 2005 57.
11
Pimentel 2000 15.

145
brilhante defesa por parte de Séneca de um ponto de vista no senado, o imperador
o tinha condenado à morte e de tal havia sido dissuadido por uma de suas aman-
tes que, ao invocar a debilidade física do Filósofo e a sua tuberculose, o tinha
convencido de que o Cordubense não haveria de durar muito. É certo que Griffin
recorda os argumentos de quantos cuidam que se trata de uma invenção, e Sørensen
nem sequer alude ao episódio12, mas, com base no testemunho de Séneca, Ep.
78.613, acredito, com Segurado e Campos, e Pimentel, que a informação de Díon
corresponda à realidade, tanto mais que Séneca não só se vê obrigado a abandonar
a prática judicial pouco depois de a iniciar (Ep. 49.2), como, provavelmente re-
cordado desse episódio, haverá de proibir Nero de estudar os antigos oradores
(Nero 52)14. Daqui se depreendem os malefícios da dispersão por áreas do saber
que não estão ao serviço da filosofia e de uma formação integral do homem, mas
que, encaradas isoladamente, podem exacerbar as paixões humanas.
No caso de Cláudio, não consta que tenha invejado os feitos oratórios
alheios, mas se o seu aspeto físico, o seu apreço pela língua grega e pelo jogo
de dados lhe valeram uma sátira menipeia, paródica e caricatural, feita por
Séneca na Diui Claudii Apocolocyntosis15, a verdade é que a sua prolífica pro-
dução literária também o não impediu de exercer de forma parcial a justiça e
condenar à morte diversos familiares de Augusto e muitas outras pessoas em
processos onde os sentenciados nem chegavam a ser ouvidos16.

12
Sobre o assunto, v. Griffin 1976 53ss. Segurado e Campos (1991 330 n. 21) admite a pos-
sibilidade de a referida amante de Calígula ser Agripina. Sørensen 1988.
13
Na sua juventude, Séneca teria, segundo Ep. 78, ficado quase tuberculoso. Sobre o recurso
à doença para evitar punição e como estratégia política, v. Griffin 1976 54, que aduz o caso de
Tigelino (Plut. Galba 17).
14
Segurado e Campos 1991 330 n. 21; Pimentel 2000 15-16.
15
A Diui Claudii Apocolocyntosis zomba da instituição imperial da apoteose do imperador morto.
Cláudio morre a escutar comediantes. É descrito como uma criatura de boa estatura, de cabelos
completamente brancos, que abana a cabeça com ar ameaçador, arrasta o pé direito e profere sons
confusos numa voz indistinta, que não soa a língua alguma conhecida (Apoc. 4.2 e 5.2). Hércules
receia estar perante o seu décimo terceiro trabalho, mas conclui tratar-se de um homem e interpela-
-o em grego (Il. 1.170). Cláudio exulta com a presença de letrados no céu e a possibilidade de aí
fazer ler as suas histórias, e responde com duas citações de Homero, onde confessa a sua crueldade
(Od. 9.39 e 9.40; Apoc. 5.4; cf. Suetónio, Cl. 42). Sem lugar entre os Olímpicos, julgado pelo
tribunal infernal de Éaco e sem direito a defesa, vê-se Cláudio condenado, em clara caricatura da
mofa que fizera das leis contra jogo de dados, e numa paródia da obra que tinha escrito sobre esse
divertimento (Cl. 5 e 33.2, Vit. 4; v. Eden 1984 135 e 148-9), a jogar com copo sem fundo (Apoc.
14.5; v., sobre a influência helénica nesta área, Wallace-Hadrill 1983 185).
16
Sob a orientação de Tito Lívio, começou a escrever obras históricas ainda jovem, escreveu
ainda uma autobiografia em oito livros, marcada por bom estilo e mau gosto, uma Ciceronis defen-
sionem aduersus Asini Galli libros (“Defesa de Cícero contra os escritos de Asínio Galo”), cheia de
erudição, uma teoria sobre três novas letras que acrescentou ao alfabeto e cujo uso tentou introduzir
quando se tornou imperador (Cl. 41), respondeu no senado a embaixadores gregos com discursos
preparados, citava Homero em tribunal, escreveu em grego vinte livros de história etrusca e oito
de cartaginesa (Cl. 42). Para o longo rol de vítimas de Cláudio, v. Apoc. 8.2, 10.4, 11.1-2, 13.4-6.

146
Da Consolatio ad Heluiam (Dial. 12.17) e de Ep. 95.9-10, é possível de-
preender que o estudo das artes tradicionalmente tidas por liberais – que, de
acordo com Ep. 88, compreendiam, entre outras disciplinas, a gramática, a
música, a geometria, a astronomia, a pintura, a escultura e a luta – seria o meio
preferido por Séneca para se alcançar a arte liberal, isto é, libertadora por ex-
celência, a filosofia, que, por sua vez, tornaria o homem verdadeiramente livre
de paixões. Tomando isto em consideração, facilmente se percebe que o que
Séneca pretende, com a Apocolocyntosis, dizer ao jovem Nero, a quem a mãe
privara do estudo da filosofia (Nero 52), é que a grande cultura geral não é
suficiente para se ser um bom imperador e que dela, como já dizia Crasso, se
não devia dissociar a filosofia e a prática governativa.
Educado por um bailarino, por um barbeiro (Nero 6.3) e pelo filósofo Séneca
(Nero 7.1), Nero cultivou artes, como o canto (Nero 20ss.), a música (Vit. 3-4,
cf. Nero 30.2), a pintura e a escultura (Nero 52)17. O imperador teria começa-
do a sua atividade de citharoedus em Nápoles, durante um tremor de terra (Nero
20.2), e teria desempenhado os papéis de Canace parturiens, Orestes matricida,
Oedipus excaecatus, Hercules insanus (Nero 21.3), Thyestes, Alcmaeon (Díon
63.9.4), Antigone, Melanippe (Juvenal 8.228-29) e, por último, Oedipus exsul
(Nero 46.3)18, sobretudo em competições ocorridas na Grécia após 65 d.C. Teria
sido também vestido de citharoedus que ele teria recitado, durante o incêndio
de Roma (64 d.C.), a Halosis Iliou (Díon 61.20.1-2; 62.18.1, Suetónio, Nero
38.2), que talvez correspondesse aos Troica ou fizesse parte dos referidos Troica
que Juvenal diz terem sido escritos por ele e cuja identificação faz oscilar os
críticos modernos entre um poema épico, como os Augonautica de Apolónio
de Rodes ou a obra homónima Valério Flaco, e um conjunto de poemas mais
breves (cf. Díon 62.29.1), como os Amores, os Tristia ou as Heroides de Ovídio19.
Do exposto, importa, desde já, notar que a recitação de poesia por parte de
Nero durante catástrofes como o tremor de terra e o incêndio, a ser verdadeira,
se revela pouco digna de um rei que Séneca pretendia proficiens. Mas o problema
é mais complexo, porquanto, se o imperador tolerava versos recriminatórios (Nero
39), já o êxito alheio nas áreas artísticas por ele cultivadas o deixava louco de
inveja e de cólera, como nos dizem Suetónio, Nero 33.2, a propósito da rivalida-
de com Britânico por causa da voz deste, Tácito, Ann. 14.52.3-4, na alusão, por
parte dos adversários de Séneca, aos carmina do Filósofo para explorar a inveja
do imperador20, e provavelmente Vero Filóstrato, pai do biógrafo Apolónio, em
(Pseudoluciano,) Nero 9: a grande ovação com que o público de certo concurso

17
Brandão 2005 57-58, 60 e 65.
18
Kelly 1979: 28 n. 26 e 29 n. 33.
19
Kelly 1979 29-30. Ao comparar a Nero o matricida Orestes, Juvenal 8.220-21 escreve: In
scaena numquam cantauit Orestes, Troica non scripsit.
20
Sobre a possibilidade de, por carmina, se entenderem algumas tragédias de Séneca, v. Fer-
reira 2011 43.

147
grego brindara um tragoedus do Epiro, deixara Nero tão cego de raiva que, depois
de ter enviado um secretário para o convencer a desistir em seu favor, e confron-
tado com a exigência por parte do epirota de dez talentos, enviou para a
plataforma os seus próprios atores que, após se terem ocupado a escrever em
placas de marfim como se fizessem parte do espetáculo, encostaram o tragoedus
a uma coluna e, com os rebordos das placas, lhe destroçaram a garganta.
Habinek observa:

“Much like the emperor Augustus before him, who, as Andrew Wallace-Hadrill has
recently argued, sought to coordinate the separate, specialized expertises of law, phi-
lology, and antiquities in the interests of the Roman state, so Seneca seeks to subsume
dogmatic philosophy in his cultural project of offering moral advice.”21

Se, por “antiquities”, entenderem Wallace-Hadrill e Habinek um regresso


a valores dos antepassados, como a pietas, a moderatio, a iustitia, a frugalitas, a
parsimonia e, ao cabo, o mos maiorum, facilmente se conclui que esta perspe-
tiva de progresso subjacente à política augustana, pelo menos na teoria, não
andaria longe do governo que, segundo Séneca, presidiria à sociedade primiti-
va (Ep. 90.4-6):

“Os primeiros homens, os homens da geração seguinte que, ainda incorruptos, obede-
ciam à natureza, tinham um só chefe e uma só lei: confiar-se às decisões do melhor, já
que a lei natural é que os inferiores se submetam aos melhores. Nos bandos de animais,
são os mais fortes ou mais corajosos que assumem a chefia: quem guia a manada não é
o touro fraco, mas sim o que se avantaja aos outros machos na corpulência e na força;
entre os elefantes, o chefe é o de maior estatura; entre os homens, a chefia competia,
não ao mais forte, mas ao moralmente superior. O chefe era eleito pelas suas qualida-
des, e por isso os antigos povos viviam em perfeita felicidade, já que era impossível ao
mais poderoso não ser simultaneamente o melhor. Um homem que entende o dever
como limite rigoroso ao poder, pode exercer o seu poder sem perigo para os demais.
Naquela época a que soe chamar-se ‘a idade de ouro’, o governo estava nas mãos dos
sábios: tal é a opinião de Posidónio. Os sábios impediam a violência, protegiam os mais
fracos dos mais fortes, indicavam o que se devia ou não fazer, apontavam o que tinha ou
não utilidade. Graças à sabedoria, providenciavam para que nada faltasse ao seu povo;
graças à coragem, mantinham afastados os perigos; por meio dos seus benefícios, distri-
buíam bem-estar e prosperidade entre os súbditos. Para eles, governar era o exercício de
um dever, e não a mera posse do poder. Ninguém tentava experimentar contra eles as
suas forças, pois a eles deviam essas forças; ninguém tinha a ousadia de os injuriar, nem
para tal havia motivo, pois é fácil obedecer a quem governa com justiça; a maior ameaça
que o rei podia fazer aos seus súbditos era a de retirar-se do poder.

21
Habinek 1998 140.

148
Quando a gradual irrupção dos vícios transformou a realeza em tirania, e se tornou ne-
cessário o recurso às leis, foi inicialmente aos sábios que se recorreu para as elaborar.”22

O Filósofo exemplifica com Sólon, Licurgo, Zaleuco e Carondas, antes de


dizer que até aqui está de acordo com Posidónio.
Se o leitor se der ao prazeroso trabalho de cotejar as ideias expostas em De
clementia com as veiculadas nos três parágrafos transcritos, facilmente concluirá
que muitas são as afinidades entre ambos os textos, mas o contexto em que são
expostas é que diverge substancialmente: em contraste com o chefe da idade do
ouro e com os elogios feitos a Nero no referido speculum principis, o filho de
Agripina, na altura em que Séneca escreve esta carta, já tinha, sob o mínimo
pretexto, condenado à morte quem lhe apetecera (Suet. Nero 37.1), já mostrara
que princeps algum conhecera toda a extensão do seu poder e movera uma inten-
sa perseguição aos senadores (Suet. Nero 37.5). Este seria seguramente um dos
motivos pelos quais não poderia Séneca concordar com Posidónio, quando este
defendera que os filósofos tinham inventado as artes liberais e as tecnologias du-
rante a idade do ouro. É certo que Nero ainda estaria longe de pronunciar a
famosa frase qualis artifex pereo (Suet. Nero 49.1), mas a verdade é que Séneca,
neste contexto, não poderia admitir qualquer ligação entre a filosofia, criada para
combater no homem a força do desejo, e as artes liberais que, no caso de Nero,
estavam ao serviço de paixões humanas como o desejo e a vaidade. Mas, conforme
notou Fabre-Serris, o que está em confronto são a ars e a natura e, ao cabo, duas
formas de entender os primórdios da humanidade: de um lado a augustana e se-
nequiana e, do outro, a ovidiana e neroniana. Como a lena ovidiana Dipsas
qualifica de immundae as Sabinas que no tempo de Tito Tácio se não tinham
querido entregar a vários homens (Am. 1.8.39-40); caricatura Penélope, ao afirmar,
em clara conotação sexual, que usara o arco para testar o vigor dos jovens (Am.
1.8.47-48); e, entretanto, sustenta: “são dadas ao prazer as mulheres belas; casta
é aquela a quem ninguém cortejou”23 (Am. 1.8.43) –; estava Nero, de acordo com
Suet. Nero 29.2, convencido de “que nenhum homem era casto ou puro em ne-
nhuma parte do corpo, na verdade a maior parte dissimulava o vício e
habilmente ocultava”. Por isso, perdoava a todos os que diante dele confessassem
a sua lubricidade. Do mesmo modo que Ovídio fala em simplicitas rudis (Ars
3.113) para caracterizar os tempos antigos; se congratula por ter nascido num
tempo em que Roma acumula riquezas e comodidades e, ao cabo, num momen-
to mais propício ao seu feitio (Ars 3.121-122); elogia a cosmética – que diz ars
que deve ser mantida discreta – porque favorece a beleza (Ars 3.209-210); reco-
menda ao amante que elogie a mulher desejada, que tenha o cuidado de não
denunciar o fingimento das suas palavras, pois a ars é útil, se se mantiver camu-
flada (Ars 2.311-313); equaciona a relação ars/natura quando descreve a gruta do

22
Trad. de Segurado e Campos 1991 439-440.
23
Trad. de André 2006 47.

149
banho de Diana ou a de Tétis respetivamente em Met. 3.159 e 11.235-236; assim
procurou Nero, no parque da Domus Aurea, recorrer aos mais requintados luxos
e às mais ousadas inovações arquitetónicas (cf. Cenatio rotunda); misturar ambien-
tes selvagens, domésticos e urbanos; nas pinturas, articular, nas mesmas figuras, o
animal, o humano e o vegetal; nas festas que organizava à noite, propiciar todos
os tipos de relações físicas, independentemente do sexo e do estatuto social; e
desempenhou os papéis de incestuoso, matricida, parricida e assassino de familia-
res, para tentar, por meio da ars, recriar os caos primordial sem regras nem limites24.
No fundo, em vez de servirem para os diversos imperadores alcançarem a
arte liberal por excelência, isto é, a filosofia, funcionavam as artes tradicional-
mente tidas por liberais como critério para acicatar rivalidades, invejas e, ao
cabo, a crueldade e a lubricidade dos imperadores. Os maus exemplos de Calígula
e de Cláudio, em vez de ajudarem Nero a proceder de modo diferente, parece
que lhe serviam de estímulo para fazer pior25.

2. A falta de liberdade de expressão, as conspirações contra os imperadores e as


condenações dos autores

Como César e Augusto, assim Tibério e Cláudio escreveram (commentarii)


De uita sua (Aug. 85.1; Tib. 61.1; Cl. 41.3), e Vespasiano (imp. 69-79) e Tito
(imp. 79-81), de acordo com Flávio Josefo, Ap. 1.10 [56], Vit. 342 (cf. 358),
também teriam sido autores de ὑπομνήματα ‘commentarii’26. Além de estas e
outras obras já anteriormente mencionadas revelarem, desde logo, a preocupação
do dictator e dos principes com a imagem que deixariam à posteridade, a verda-
de é que a justificação da respetiva atuação política e militar indicia, de igual
sorte, a existência de uma tradição adversa e de cariz eminentemente senatorial.
Embora haja quem, como Séneca-o-Velho nas suas Historiae ab initio bellorum
ciuilium e na interpretação que delas faz Canfora, faça remontar a perda de li-
berdade de expressão à seditio Gracchana27 e quem, como Tácito, lhe procure as
origens na batalha de Áccio (31 a.C.) (Tácito, Hist. 1.1), a verdade é que Asínio
Polião, que tratou sem medos as guerras civis desde o primeiro triunvirato (60

24
Muita da informação dos últimos parágrafos pode ser encontrada em Fabre-Serris 2003.
25
Suetónio, Nero 7.3, conta que, na noite posterior ao momento em que lhe confiaram a
educação de Nero, Séneca sonhou que o tinham feito precetor do jovem Calígula.
26
Brandão 2005 62-3.
27
No exórdio de Séneca, De uita patris, conforme a reconstrução de Studemund (apud Canfora 1998
165), é com efeito possível, acerca de Séneca-o-Velho, ler o seguinte: “Quem quer que tivesse lido as
suas Histórias desde o início das guerras civis, a partir do momento em que pela primeira vez a verdade
retrocedeu, quase até ao dia da sua morte, muito haveria apreciado saber de que pais tinha nascido aquele
que a história de Roma…”. Há, no entanto, quem não interprete as palavras acerca de Séneca-o-Velho da
mesma forma: Griffin 1976 33, p. ex., entende que a obra começaria “with the great Civil Wars, taking
as its opening date 49 B.C., or perhaps the death of Caesar in 44, and ended with the death of Tiberius.”

150
a.C.) até à batalha de Filipos (42), segundo McDonald e Spawforth28, ou ao
episódio de Áccio, segundo Canfora29, e elogiou os cesaricidas, ainda conseguiu
publicar a obra no rescaldo deste antes de 27/ 25 a.C. (sobre os perigos em que
incorrera, v. Horácio, Carm. 2.1.6-8, talvez de 23 a.C.).
Da obra de Tito Lívio, intitulada Ab Vrbe condita, que retrataria em 142
livros a história de Roma desde as origens até 9 a.C., restam os livros 1 a 10 e
21 a 45, mas sabe-se que o último livro publicado em vida de Augusto foi o
120, uma vez que o 121, sobre as proscrições, só logrou ver a luz do dia após
a morte do referido imperador.
Sobre as perseguições que foram movidas aos intelectuais que gravitavam
em torno de Valério Messala Corvino, um admirador confesso dos cesaricidas,
e sobre as circunstâncias que levaram o historiador Cremúcio Cordo a come-
ter suicídio no tempo de Tibério, mais precisamente em 25, já F. Oliveira
refletiu no capítulo 2 deste volume. Tácito (Ann. 6.29.3) e Suetónio (Tib.
61.3) informam que o verdadeiro motivo da condenação de Mamerco Emílio
Escauro foi a inimizade de Macrão, que, por sua vez e como pretexto para o
incriminar, recitou versos de uma tragédia do primeiro que acusavam
Agamémnon e facilmente podiam ser voltados contra Tibério (additis uersibus
qui in Tiberium flecterentur), mas, em julgamento, o que seus acusadores,
Servílio e Cornélio, alegaram, foi adultério com Livila, sobrinha de Tibério,
e práticas de magia. A morte ocorreu em 35 d.C 30.
Consciente de que a obra histórica de Tito Labieno tinha sido queimada
e de que o autor havia cometido suicídio (Con. 10 praef. 5), Séneca-o-Velho
não publicou em vida as suas Histórias, que, por sua vez, talvez tenham sido
publicadas pelo filho, Séneca Filósofo, assim que Calígula subiu ao poder.
No propósito de agir de modo diferente do seu antecessor, Calígula começou
por conceder aos autores alguma liberdade que possibilitou a publicação das
obras de Cássio Severo, de Tito Labieno e, com alguma censura, de Cremúcio
Cordo (Tac., Ann. 4.34-35; Suet., Cal. 16.1; Quint., Inst. 10.1.104).
A prática de publicar obras depois da morte do imperador nelas visado pela
negativa é relativamente comum em Séneca: sucede com o De ira, provavelmen-
te publicado entre 41 e 52 e onde Calígula aparece como um exemplo acabado
do referido affectus, e com a Diui Claudii Apocolocyntosis, dada à luz depois da
morte do imperador a 13 de outubro de 54, e onde Augusto acusa Cláudio de
exceder Calígula em crueldade e condenar à morte muitas pessoas sem instruir
os respetivos processos (Apoc. 10.4 e 11.2).
Agripina chamou Séneca para alcançar o apoio da oposição senatorial, tão
debilitada pela ação de Messalina e dos libertos de Cláudio, e para educar

28
McDonald and Spawforth 2012 184.
29
Canfora 1998 163.
30
Para melhor contextualizar esta informação, vale a pena ler, no cap. 2 § 5, a reflexão de
Oliveira sobre o “delito de opinião (lex maiestatis)”.

151
Nero. Séneca foi um dos grandes responsáveis pela boa governação do filho
de Agripina durante os cinco primeiros anos de reinado (quinquennium Neronis,
54-59 d.C.). O Filósofo escreveu o discurso com que Nero, depois do assas-
sínio de Cláudio por instigação de Agripina, prometeu ao senado uma
recuperação de prerrogativas perdidas (Tac. Ann. 13.4) e uma governação ex
Augusti praescripto (Suet. Nero 10.1). Séneca foi um dos beneficiários da dis-
tribuição por parte de Nero, depois do assassinato de Britânico, dos bens
deste pelos amigos do imperador. Consciente de que Nero se comportava como
um tirano, o precetor não abandonou o barco e tentou minorar os efeitos
negativos da ação política do imperador (Dial. 9.4-5). Séneca é acusado por
Díon Cássio (62.12.1) de ter sido o mentor do assassinato de Agripina e, por
Tácito (Ann. 14.11.3) de ter sido o autor do texto com que Nero justificou
ao senado a execução da mãe por conspiração e atentado. Apesar deste percur-
so, com a morte de Burro em 62, a nomeação de Tigelino para prefeito da
guarda pretoriana e um adverso ambiente de intrigas que procura acicatar no
princeps sentimentos de inveja e rivalidade (Tac. Ann. 14.52.1-4), também
Séneca se começa a sentir isolado na corte, mas, sem o acordo do imperador
para se retirar, por causa da sua influência junto do senado, trata de apresen-
tar desculpas para se dedicar ainda mais à escrita em sua casa (Naturales
Quaestiones, De Beneficiis, algumas das suas tragédias 31, e, entre outras obras,
Ad Lucilium epistulae morales). Por fim, em contexto de proliferação das con-
denações por crimes de maiestate, o Filósofo vê-se injustamente condenado
por envolvimento na conspiração liderada pelo cônsul Calpúrnio Pisão, des-
coberta em abril de 65, e obrigado a cometer suicídio32.
Por semelhante motivo foram condenados seus dois irmãos, Aneu Mela e
Aneu Novato, e seu sobrinho, Marco Aneu Lucano (39-30.4.65 d.C.), a quem
Nero proporcionara a admissão ao colégio dos áugures e, de forma precoce, o
acesso à questura; que, nos jogos de 60 em honra de Nero (Neronia), havia
recitado umas Neronis laudes; que escrevera, talvez para deleite do imperador,
um Iliacon (cf. Nero, Troica); cujo talento a Antiguidade diz ter sido invejado
pelo filho de Agripina e cujo afastamento da corte talvez se tenha ficado a
dever a tendências republicanas reveladas no seu poema épico intitulado Bellum
ciuile, ou, por leitura abusiva de 9.985s., Pharsalia.

31
Na cronologia mais aceite pelos autores anglófonos, o Thyestes e as Phoenissae (Fitch 1981
291). As outras seis peças senequianas (Agamemnon, Phaedra, Oedipus, Medea, Troades e Hercules
furens) seriam anteriores a 54. É tentador ver, na ausência de odes corais das Phoenissae, um reflexo
da morte forçada de Séneca, mas não existe consenso quanto ao caráter inacabado da obra nem,
para os que consideram a obra posterior a 60 ou a 62 (data proposta para o Thyestes), ao momento
preciso da sua composição.
32
Toda esta informação pode ser encontrada, de forma mais desenvolvida, em Pimentel 2000
23-66. A condenação por parte de Nero ao exílio de um ator de atelanas, que o acusava de cometer
crimes familiares, revelava, no entender de Suetónio, Nero 39.3, desdém por qualquer tipo de insulto
ou a tentativa de evitar, pela manifestação de desagrado, algum incentivo à prática.

152
Do mesmo modo que o Júpiter virgiliano prenunciara, em A. 1.291ss., que,
com a chegada de Augusto ao poder, se acabariam as guerras civis e uma nova
idade do ouro começaria, assim Lucano, depois de apresentar o tema do seu
Bellum ciuile, diz que as guerras civis se não devem lamentar, pois foram a
forma encontrada pelo destino para levar Nero ao poder e a cumprir, mais que
Augusto, a profecia de Júpiter (1.33ss.). Apesar, no entanto, dos começos aus-
piciosos, o Eneias virgiliano acaba por matar o suplicante Turno, mas, pese
embora esta disforia final, a verdade é que a Aeneis já havia recorrido à mitologia
para dar legitimação divina ao poder do princeps. É então por meio da elimi-
nação da mitologia e de uma técnica de alusão “antifrástica”, que consiste na
manipulação do texto virgiliano de modo a subverter ou inverter as expressões,
afirmações e situações da Aeneis33, que Lucano procura denunciar certo enco-
brimento por parte de Virgílio da destruição augustana das instituições
republicanas, do desrespeito por valores morais, do triunfo da injustiça, da
perda da liberdade e, ao cabo, da implementação de uma tirania disfarçada.
Talvez se deva a esta visão negativa do principado o facto de, segundo a
biografia de Lucano atribuída a Vaca, Nero não ter permitido ao autor a pu-
blicação de mais do que os três primeiros livros do Bellum ciuile. Também
Eumolpo, uma das personagens do Satyricon de Petrónio, depois de considerar
os requisitos necessários à escrita de um bom poema, há de, a título de exemplo,
recitar um improviso sobre a guerra civil que, como o próprio reconhecerá,
ainda não recebera a última demão (118.6). Ora, se este for o poema que
Eumolpo tentava terminar em pleno naufrágio, cujo final o Bom Cantor con-
fessava estar encravado e cuja conclusão fora obrigado a interromper (Petrónio
115.1-5), talvez seja possível, com Connors, ver, na alusão de Petr. 124, v. 293,
às Epidamni moenia não só um eco da situação desesperada de César em
Alexandria – onde vislumbrava, no meio das tropas acossadas, Ceva, que, nos
campos de Epidamno, tinha mantido o cerco a Magno que pisava as muralhas
(Luc. 10.543-6) – mas também uma evocação ficcional da conjuntura que
teria impedido Lucano de acabar o poema e de o publicar na totalidade34.
O tema da obra inacabada talvez fosse caro a Petrónio pela situação do seu
próprio Satyricon, que, para Schmeling, seria uma Odisseia paródica de que
restam parte do livro 14, o 15 e parte do 1635. Ao relatar a morte do Árbitro
(em Ann. 16.18-20.2), alude Tácito à inveja de Tigelino, ao suborno de um
escravo que denunciou a amizade entre Petrónio e Cevino, à retenção do Árbitro
em Cumas, à abertura das veias por parte deste, à atenção prestada a quem
recitava poemas ligeiros e divertidos, à distribuição de recompensas e castigos

33
Citroni et al. 2006 783.
34
Connors 1994 232, 1998 101, 139-141.
35
Schmeling 1996 457-490, esp. 460-461. Com recurso ao tema da homossexualidade (Encólpio
– Gíton – Ascilto/ Eumolpo), a obra parodia, segundo alguns, o triângulo amoroso caraterístico
do romance sentimental (moço – moça – homem mais velho).

153
pelos escravos, à participação num banquete e à entrega ao sono – para que a
morte parecesse acidental (ficção de morte) –, à recusa em adular os responsá-
veis pela sua situação e em os contemplar no seu testamento, ao registo escrito,
disfarçado por nomes de promíscuos e prostitutas, do rol de depravações e
excessos do princeps, ao envio do texto selado a Nero, à destruição do sinete
– para não causar vítimas –, à condenação por parte do imperador de Sília ao
exílio por ter supostamente sido responsável pela divulgação das depravações
noturnas de Nero. Petrónio cometeu suicídio na primavera de 66 d.C.
Trásea Peto, estoico, defensor da liberdade senatorial, celebrante do aniver-
sário de Bruto e Cássio (Juvenal 5.36-37), e autor de uma biografia de Catão
de Útica36, começou por cooperar com Nero, mas, consciente da incapacidade
de travar o servilismo senatorial, acabou por recorrer à abstenção para marcar a
sua oposição e viu-se condenado por Nero em 66, ano em que cometeu suicídio37.
Neste mesmo ano, o delator Éprio Marcelo criticou Cúrcio Montano por
ser autor de detestanda carmina (Tácito, Ann. 16.28.1). Exilado por ter exi-
bido a sua genialidade em poesia não caluniosa (16.29.2), foi perdoado por
Nero sob condição de desistir da sua carreira pública (16.33.2). Tácito (Hist.
4.42.5-6) conta que, em 70 d.C., já no governo de Vespasiano (69-79 d.C.),
Montano instara o senado a fazer o mesmo que se fizera no dia a seguir à
morte de Nero, isto é, a pedir a cabeça dos delatores, para que o bom impe-
rador de então se não tornasse um tirano.
Com base nas semelhanças entre os sucessos de Montano inicialmente
referidos e parte do percurso de vida de Materno, conforme é descrito no
Dialogus, e a partir da crítica de ambos aos informadores neronianos e das
associações de ambos a Helvídio Prisco, admitiu Bartsch a possibilidade,
indemonstrável, de o segundo não passar de “a fictional character meant to
evoque his parallel from the Histories who turns up there, oddly enough, in
the same paragraph as Vipstanus Messala, our friend from the Dialogus, now
defending his delator half-brother Regulus” 38.
Em Tácito (Dial. 11.2), confessa Materno que começou a ganhar prestígio
com a recitação de tragédias quando atacou o poder de Vatínio in Nerone(m),

36
Para a escrita da biografia do Uticense, Trásea baseou-se em outra de Munácio Rufo (séc. I a.C.),
e a obra de Trásea haveria de servir a Plutarco de fonte de inspiração para o seu Cato Minor (25, 37).
37
Suetónio (Nero 37.1) informa que, por alturas da condenação de Trásea, foi também con-
denado Cássio Longino, um jurista, por ter em sua casa e entre as imagens dos antepassados, o
cesaricida Cássio. Titínio Capitão, secretário imperial durante os reinados de Domiciano, Nerva
e Trajano, era um patrono das letras e conservava as estátuas de Bruto, Cássio e M. Pórcio Catão
em sua casa (Plínio, Ep. 1.17).
38
Bartsch 1994 260-1 n.68. Recorda, além disso, que “Marcus Aper, who has no existence
outside the Dialogus, seems curiously evocative of the delator Domitius Afer, both men marked
by Gallic birth (cf. Dial. 10.2) and a vehement speaking style; and, as A. Riggsby points out to
me (personal correspondence, August 1992), Afer appears in the company of Julius Secundus and
Vibius Crispus at Quint. Inst. 10.1.118-119 e 12.10.11.”

154
ou, segundo L. Müller, imperante Nerone39. O problema é que não há certezas
sobre se Materno o fez durante ou após o reinado de Nero, se Nero seria o
título da peça ou a personagem da praetexta Octauia, se se trataria da peça
Domitius e se a recordação da gloriosa ação de L. Domício Enobarbo, cônsul
em 54 a.C. e antepassado de Nero, serviria para envergonhar o descendente e
nele suscitar um desejo de emulação 40.
De Curiácio Materno, conta ainda Tácito, Dial. 2.1ss., que tinha lido pu-
blicamente a sua praetexta Cato e encarnado a personagem principal de tal
forma que os poderosos tinham ficado melindrados. No dia seguinte à recitatio,
Marco Apro e Júlio Secundo, dois eminentes advogados, dirigiram-se a casa do
autor, que tinha a obra na mão, confrontaram-no com as críticas de seus de-
tratores, e perguntaram-lhe, em toada sugestiva, se não estaria disposto a cortar
os passos que tinham dado azo a deturpação e, ao cabo, a demarcar-se da res-
posta do público, para depois publicar a obra (3.2). Materno respondeu aos
dois advogados que o tinha feito por uma questão de consciência e que, se de
algo se tinha esquecido, haveria de aparecer no Thyestes (3.3). Posteriormente,
ainda há de Apro dizer que, mais grave do que a escolha de um amigo, é a de
Catão, que se reveste de grande autoridade, e adivinhar que, em sua defesa, há
de Materno reconhecer a cedência a temas do gosto do público, como a crítica
anti-imperial à tirania, e, por conseguinte, ao aplauso fácil e ao falatório da
assistência (10.6-7). Embora haja quem, com base nas palavras dos advogados
e na conclusão do primeiro discurso de Materno, admita como forte a hipóte-
se de uma morte prematura, esta ideia não é consensual41.
O referido episódio de Materno não pode deixar de nos trazer à memória
outro, cujo protagonista havia sido Helvídio Prisco, que costumava celebrar o
aniversário dos cesaricidas (Juv. 5.36-37), rivalizava com eles (Tac. Hist. 4.8)
e, em 70 d.C., ousara, qual rediuiuus Catão (Tác. Hist. 4.8.3) e dando voz à
revolta senatorial contra os delatores, invetivar Éprio Marcelo. A liberdade de
expressão só durou até às ameaçadoras intervenções de Vespasiano e Licínio

39
Ap. Bartsch 1994 200.
40
Para uma síntese do estado da questão, com indicação da bibliografia, v. Bartsch 1994 200-2.
41
T. J. Luce ap. Bartsch 1994 104-5. Bartsch 1994 105 recorda protagonistas que encontraram
a morte pouco depois da data dramática das obras: Sócrates (Platão, Phaedo), Crasso (Cícero, De
Oratore) e Cipião Emiliano (Cícero, De Republica). Há quem faça coincidir este Materno com o
scholasticus (grego sophistes) referido por Díon 67.12.5 (Winterbottom 2012 399); quem defenda
que a propaganda antidomiciânica lhe teria valido a morte em 91 ou 92; quem sustente que não
teria sido condenado por propaganda antidomiciânica (Hartman ap. Bartsch 1994 249 n.8); e quem
diga que o dramaturgo é referido por Marcial (1.96, 4.60, 10.37) e teria morrido em 88 d.C. de
morte natural (Herrmann ap. Bartsch 1994 249 n. 8). Bartsch 1994 94-95 e 248 n. 8 sustenta
que se não trata da personagem referida por Díon, aduz um certo distanciamento da personagem
em relação à retórica (p. ex., Tác. Dial. 11.3 e 5.4; cap. 11 e 42), recorda que não fazia sentido a
preocupação dos amigos com uma morte de um homem de meia idade, que só aconteceria 16 ou
17 anos depois, e a presença, na tradição epigráfica, de dois Curiácios Maternos que nada têm que
ver com a personagem do Dialogus.

155
Muciano na reunião seguinte do senado, e tais continuaram a ser as críticas de
Helvídio ao imperador que o primeiro acabou condenado ao exílio em 75 e
depois executado.
Domiciano (imp. 81-96) condenou à morte Hermógenes de Tarso por
alusões na sua história e mandou crucificar os copistas da obra (Suet. Dom.
10.1); condenou, em 93, Aruleno Rústico, fervoroso adepto do estoicismo, por
causa de um panegírico em honra de Trásea Peto, de quem era amigo e seguidor;
e, depois de processo movido por Mécio Caro, condenou Herénio Senecião,
que se recusara a candidatar-se a um posto mais elevado e tinha escrito uma
Vida de Helvídio Prisco, e acabou por morrer no final de 93 (Tácito, Ag. 2.1).
Embora Materno nunca associe explicitamente a eloquência contemporânea
à atividade dos delatores, é, com efeito, possível, na sequência das ousadas
respostas aos advogados, ver, em Dial. 12.2 – onde a referida arte da palavra
aparece descrita como lucrativa, manchada de sangue, decorrente da pérfida
natureza humana e arma de arremesso – e em 13.4 – onde Víbio Prisco e Éprio
Marcelo, apresentados por Apro como modelos de sucesso, não são considera-
dos melhores que escravos, pois inspiram temor e receiam pelas próprias vidas
– indícios da referida ligação. Apesar disso, o discurso final do diálogo critica
a licenciosidade, a que os parvos chamam “liberdade”, e que permitira o flo-
rescimento da oratória na época republicana (Dial. 40.2). Para efetuar esta
crítica, Materno altera ligeiramente um passo ciceroniano (Brut. 45), onde, da
eloquência, se dissera ser companheira da paz e do otium e fruto de um estado
bem organizado. Ao comentar a atitude aparentemente contrastante de Materno,
não só demonstrou Bartsch, de forma convincente, que o elogio de Materno
deve ser entendido à luz da técnica do chamado “doublespeak” (“duplo sentido”),
como também que o Dialogus deve ter sido escrito na época de Nerva e que
semelhante interpretação se deve fazer dos elogios que, em Agricola e Historiae,
Tácito respetivamente dirige, por meio de outras pessoas, a Nerva (imp. 96-98)
e a Trajano (imp. 98-117)42.

3. As figuras da República e os imperadores nas obras dos autores

Lactâncio recordou Séneca para estabelecer um paralelo entre as idades de


Roma e as seis idades do homem (Diu. Inst. 7.15.14)43:

“Não foi de forma inábil que Séneca distribuiu por “idades” a história da cidade de
Roma: disse, com efeito, que a primeira foi a infância sob o mando de Rómulo, pelo
qual não só foi gerada, mas também criada. Depois veio a meninice sob os restantes
reis, que a fizeram crescer e a instruíram com competências e costumes. Mas pelo con-

42
Bartsch 1994 110-125.
43
L. Annaei Senecae Historiae ab initio Bellorum Ciuilium, frg. 1 HRR.

156
trário, no reinado de Tarquínio, como já começasse a ser quase adulta, não suportou a
servidão e, rejeitado do soberbo domínio o jugo, preferiu obedecer às leis a obedecer
aos reis. E como tivesse a sua adolescência terminado com o fim das Guerras Púnicas,
ao cabo confirmadas as forças, começou a chegar à juventude. Submetida com efeito
Cartago, que por muito tempo émula foi de seu poder, estendeu suas mãos por terra
e mar a todo o orbe, até que, subjugados todos os reis e nações ao seu poder, como já
faltasse ocasião para a guerra, de suas forças mau uso fazia, pelas quais ela própria se
aniquilou. Esta foi a sua primeira velhice, quando por guerras civis lacerada e por males
internos oprimida sem demora tornou a cair no governo de um único homem como
se regressada a outra infância. Perdida com efeito a liberdade, que sob o comando e a
ação de Bruto tinha defendido, assim definhou como se ela própria não tivesse forças
para se sustentar, a menos que brilhasse com o apoio dos regentes.”

O passo citado é deveras importante para o tema que nos ocupa porquanto
se a maior parte de editores e críticos o diz extraído das Historiae ab initio
bellorum ciuilium44, de Séneca-o-Velho, Griffin, depois de afirmar que nada do
que tem sido aduzido é suficientemente consistente para pôr em causa a atri-
buição a Séneca Filósofo, observa: “there is probably no thought in it that was
not already current by the triunviral or early Augustan period – but it can show
how the passage fits with Seneca’s thought and, for those who accept the phi-
losopher as the author, add to our knowledge of Seneca’s political attitudes.”45.
É certo que Lactâncio cita vários passos de uma obra perdida de Séneca, inti-
tulada Moralis philosophiae libri, e seguramente conheceria muito bem os
restantes escritos do Filósofo, mas, uma vez que se não conhece obra historio-
gráfica senequiana onde o referido passo coubesse, tendo, com a maioria dos
editores e investigadores, para a atribuição a Séneca-o-Velho.
Embora o autor do passo revele clara preferência pela República, uma vez
que nela as leis estão acima de todas as pessoas e a liberdade é uma garantia46,
a verdade é que não deixa de ver o regresso a um sistema próximo do monár-
quico como uma espécie de inevitabilidade e de reconhecer à monarquia o
mérito de ter dotado Roma de disciplinae plures institutaque. Como a monarquia
do passado descambara, com Tarquínio, em soberba e opressão contra o povo,
a ação de Lúcio Júnio Bruto na expulsão do tirano e em defesa da liberdade
aparece elogiada. Uma vez que, na monarquia, o rei está acima da lei, importa
retomar a velha ideia platónica do filósofo-rei e, ao cabo, tornar indissociável,
da avaliação moral, a política do governante.
Embora o Séneca-o-Velho aluda às lealdades pompeianas do historiador
Labieno (Con. 10 praef. 5), Sussman vê, no envio de Séneca para uma escola

44
HRR; edição da Loeb; Cânfora 1998 162-3, 165.
45
Griffin 1976 195-6.
46
Sobre a importância das leis e da aequalitas iuris ciuilis como alicerces da República, v. Ben.
2.20.2 e Ep. 86.2-3.

157
em Roma após os acontecimentos de 43 a.C., um sinal de que o património
dos Aneus de Córduba se mantinha de boa saúde depois das guerras civis, e,
na proximidade relativamente a Clódio Turrino e a Asínio Polião, indícios de
ligações cesarianas e de uma aliança com Augusto47.
Séneca Filósofo revela uma visão profundamente negativa da coligação
formada por César, Pompeio e Crasso em 60 a.C. Em Ben. 5.16.4, acusa, com
efeito, Pompeio de ingratidão para com Roma, uma vez que, como recompen-
sa dos três consulados, dos três triunfos e de inúmeras honras precoces, se
tinha associado a comparsas para a tomar e, na esperança de se ver menos
invejado, tinha repartido por três as províncias e a república, de modo que ao
povo não deixara outra hipótese de salvação que não fosse a servidão48. Desta
perspetiva difere a de Lucano, que, em 9.192-6, pela boca de Catão, elogia
Pompeio por, com condições para se tornar senhor de Roma, ter preferido
continuar como simples cidadão, chefe de um senado soberano, por nada ter
tentado obter por meio da guerra e por ter dado às pessoas a liberdade de lhe
negarem o que ele queria.
Em Dial. 2.2, Séneca critica, pela voz de Catão Uticense, a ambição, um mal
multiforme, e a imensa sede de poder que a divisão do orbe em três não pode
saciar. Em Ep. 94.64, sustenta o Filósofo que não tinha sido a virtude ou a razão,
mas o desejo de prolongar o seu poder e o receio – contrário à opinião geral – de
não ser suficientemente grande, que tinham levado Pompeio a participar em
guerras nas mais diversas partes do mundo então conhecido. Se Pompeio era
ingrato, ingrato também se revelava, de acordo com Ben. 5.16.5, César, parti-
dário do povo, que, da Gália e da Germânia, havia trazido a guerra a Roma (49
a.C.) e tinha instalado o seu acampamento no circo Flamínio, mais próximo
portanto que o de Porsena49. Também Lucano (1.183ss., 2.519-21, 5.12-14)
condena o avanço de César sobre Roma e o desrespeito revelado pelo senado.
Em Ep. 94.65, atribui Séneca ao desejo de glória, à ambição, à ânsia de su-
perar os demais e à incapacidade de se ver ultrapassado por quem quer que fosse,
a ação de César que tinha conduzido à sua queda e à da República. Na esteira de
Séneca (Dial. 6.14.3 e Ep. 94.64-5), afirma Lucano (1.125-6): “Não pode César
suportar mais alguém superior/ Pompeio, alguém igual.”
Apesar disso, talvez mercê de eventuais tendências cesaristas de seus ante-
passados, é possível ver em Séneca maior simpatia por César do que por Pompeio:
depois de falar da ingratidão de ambos, reconhece, no entanto, que, em con-
traste com os que tinham saciado de sangue as suas espadas e depois as tinham

47
Sussman 1978 29. A amizade com Polião devia remontar a 43, quando este vivia em Córduba.
48
A ideia de que Pompeio, César e Crasso se não conluiaram pela defesa da liberdade, mas
para reduzirem o povo à servidão é ainda sugerida em Ep. 104.29.
49
A crítica senequiana à ação militar de César, apoiado pela plebe e por todos quantos desejavam
a revolução, e à de Pompeio, seguido pelas classes senatorial e equestre, ocorre em Ep. 104.30,
onde se conclui que Catão de Útica havia sido o único que realmente tentara defender a república.

158
deposto, César usara de moderação no momento da vitória e só matara os que
estavam armados (Ben. 5.16.5). Em Dial. 4.2.23.4, conta que, depois de aceder
às cartas que a Pompeio tinham enviado pessoas não-alinhadas e os adversários
políticos de César, este queimara a referida correspondência e assim revelara
clemência (cf. Plínio, Nat. 7.94, que situa este gesto em Farsalo). Se Séneca
revela mais simpatia por César, já Lucano, um pouco em contraciclo com a
tradição familiar, não deixa de manifestar preferência por Pompeio, de sentir
as já esperadas dificuldades em o reabilitar e de (em 1.146ss. e 7.797ss.) criti-
car a cólera patológica de César.
Na esteira de autores politicamente comprometidos com as ideias políticas
de Tibério e Cláudio, como Veleio Patérculo (2.56) e Valério Máximo (1.5.7,
1.8.8, 1.6.13), considera Séneca o assassínio de César uma injustiça, desde logo
porque era um homem grande em outros aspetos e poderia ter sido um monar-
ca justo (Ben. 2.20.2), o homicídio decorria das ambições desmedidas dos seus
amigos (Dial. 5.3.30.4), Bruto não agia em conformidade com os preceitos
estoicos (Ben. 2.20.2), revelava a incoerência de António, que o desaprovava,
mas dava aos cesaricidas províncias (Ben. 5.16.6), e, ao cabo, não recuperava
em definitivo o modo de vida republicano e a liberdade perdida, uma vez que
outro viria ocupar o seu lugar (Ben. 2.20.2). Lucano (8.610) recorda que havia
quem considerasse o assassínio de César um nefas, e Tácito (Ann. 4.34.3) sus-
tenta que fora uma injustiça50.
Discordante, embora, do assassínio de César, Séneca considera Bruto um
uir magnus (Dial. 12.9.5) e iliba-o da acusação de ingratidão (Ben. 2.20.2).
Quanto a Catão Uticense, é a figura que maior consenso reúne junto de Séneca-
o-Velho, Séneca Filósofo e Lucano; não lhe encontra Séneca defeitos, e tanto
a sua vida como a sua morte foram, para o Filósofo, absolutamente exemplares.
Posto inúmeras vezes à prova por uma fortuna adversa, nomeadamente com a
guerra civil em gestação, Catão revelou sempre enorme coerência e coragem na
sua vida, nomeadamente na oposição ao primeiro triunvirato, na defesa isolada
da publica libertas e da república, nos desafios e nas acusações a Pompeio e a
César, na tentativa de que ambos depusessem as armas e no terrível infortúnio
que o obrigou a fugir do segundo e a seguir o primeiro51. Embora Séneca (Ep.
71.8) pareça sugerir que, no caso de Pompeio vencer, Catão teria um papel
relevante na reconstrução de Roma, Bruto, em Lucano (2.277-84), diz ao
Uticense que Pompeio é um dux priuatus e que, para combater pela liberdade,
deve seu interlocutor enfrentar o vencedor do confronto entre César e Pompeio.
Catão, de acordo com Séneca (Ep. 104.32-33), dissera que, se César vencesse,

50
Com Lucano concordam Petrónio 120.64 e autor de Oct. 498ss., e, com Tácito, Díon
44.1-2, Apiano, BC 4.134.
51
Ep. 104.29ss., cf. Dial. 1.3.14, 1.2.10, 2.2.1-2, 6.20.6, Ep. 24.6-7, 95.70. Em Lucano
2.319-23, a justificação apresentada para a opção por Pompeio é a de que, no caso de este ganhar
a guerra com César, não poder dizer que o tinha feito sozinho.

159
se suicidaria, e, se o vencedor fosse Pompeio, optaria pelo exílio, e, no cumpri-
mento da sua promessa, morreu e, desse modo, se eximiu à servidão.
Ao considerar as causas do declínio da eloquência em Roma, Séneca-o-Velho
alude à decadência moral da época, e, por conseguinte, talvez considere um
logro o programa augustano de regresso aos valores tradicionais (Con. 1 praef.
6-10); ao sustentar que a eloquência é mal remunerada e, por isso, usada com
propósitos menos dignos e mais lucrativos, talvez esteja a pensar na atividade
dos delatores e tenha consciência de que, uma vez perdida a liberdade, a ativi-
dade forense nada pode contra os referidos agentes. É por isso que Séneca
adverte os filhos do perigo em que incorre quem optar por uma carreira polí-
tica no Império (Con. 2 praef. 3-4)52. Assim se justifica, no caso de Séneca-o-Velho
ser o autor do longo passo traduzido e conforme notou Archambault, a inclu-
são, na velhice romana, do reinado de Augusto e a perspetiva de que se trata
de um regresso à infância53. E a crítica é tanto mais pertinente quanto infantia
se relaciona com infans que é aquele que não fala (in + fari).
Na esteira de Séneca-o-Velho, entende o Filósofo que, na época de Augusto,
as palavras já eram molesta (Ben. 3.27.1), mas se, na fase da conquista do poder,
Augusto lhe serve de exemplo a contrario sensu para educar Nero, já no Principado,
é visto, salvo raras exceções, como um modelo de virtude que deve ser imitado
e superado por Cláudio e pelo filho de Agripina. Em Cl. 1.9.1, diz que, com 19
anos – talvez a idade não esteja correta e o limite de 21 anos seja mais preciso –,
já Augusto tinha assassinado os cônsules Hírcio e Pansa na guerra de Módena,
já tinha maquinado a morte de M. António, e sido colega deste nas proscrições
(43 a.C.). Após escapar a diversos atentados, com mais de quarenta anos e por
sugestão de sua esposa Lívia, não só perdoou ao conspirador Lúcio Cina como
lhe concedeu o consulado, o contou entre seus amigos íntimos, foi seu único
herdeiro e, deste modo, acabou com as conspirações contra si. Augusto revelou
tato político na escolha de Agripa (Ep. 94.46, Ben. 3.32), mas não na de Mecenas
(Ep. 114.6) e muito menos na revelação pública dos despudorados escândalos de
sua filha, que, em vez de resolver a situação, antes a agravou, e o levou a lamen-
tar, já de cabeça fria, não ter dado ouvidos a Agripa ou Mecenas (Ben. 6.32.1ss.;
cf. Cl. 1.10.3)54. Se se tomar em consideração que De beneficiis teria sido escrito
numa fase de progressivo afastamento relativamente à vida política, talvez o
passo sirva de aviso a Nero quanto às consequências de não ouvir o seu precetor.

52
Sobre este assunto, v. Sussman 1978 32-3.
53
Archambault 1966 197. Não será, de resto, por acaso que Suetónio, Aug. 7.2, haverá de
informar que alguns cuidavam que Augusto, na qualidade de segundo fundador da cidade, se
deveria chamar Rómulo.
54
O que Séneca, no fundo, pretende dizer é que, se não é vergonhoso ser ultrapassado por
poderosos governantes na concessão de benefícios e se os filósofos se devem sentir reconhecidos
pelo otium que aqueles lhe concedem (Ep. 73.6-9, Ben. 6.18-24), os referidos filósofos também
podem ajudar reges e principes a tomarem melhores decisões (Ben. 5.4.2-3).

160
Veleio Patérculo (n. 25-20 a C.) celebra a ação de Tibério na reorganização
do estado durante os primeiros anos do seu principado, e Valério Máximo escreve
nove Factorum ac dictorum memorabilium libri, que, dedicados ao seu mecenas,
Tibério, dele faziam um deus e um depositário dos valores veiculados por mais
de mil histórias verídicas e destinadas à formação dos estratos ligados à admi-
nistração imperial. Séneca estabelece uma ligação entre o fim do reinado de
Augusto e o início do de Tibério (Cl. 1.1.6; Tac. Ann. 1.11-12), parece apreciar
o humor do princeps (Ep. 122.10), considera-o exemplo de amor pelos filhos
mortos, pela mãe e pelo irmão morto e, pela voz de Cláudio, elogia-lhe os feitos
militares praticados (Dial. 6.4.2, 6.15.3 e 11.15.5), mas considera-o rude na
concessão de benefícios (Ben. 2.7.2), acusa-o de ingratidão para com quem o
ajudara antes de se tornar imperador (Ben. 5.25.2), não esquece que deixara o
vegetarianismo pela perseguição do princeps aos adeptos dos cultos exóticos (Ep.
108.22) e não deixa de notar que, na época do referido imperador, as palavras
eram periculosa (Ben. 3.27.1), e tal era a sanha delatora, que, qual praga, não
poupava o discurso dos ébrios, nem piadas inocentes (Ben. 3.26.1-2)55.
Calígula, de acordo com Séneca, carateriza-se pela loucura56, pela irascibilidade57,
pela inveja e requintada crueldade58, por humilhar familiares mais velhos e pessoas
ilustres, entre as quais senadores59, por ter, algum tempo depois da subida ao
trono, coartado a liberdade de expressão60, por ter sido um exemplo acabado de
tirano61, por ter esbanjado o património do estado e ter reduzido à servidão o povo
romano62, e por ser uma figura ridícula63. Embora Suetónio (Tib. 59) observe que

Séneca-o-Velho, Suas. 2.12, informa que Átalo, professor do filho, tinha sido exilado por
55

maquinações de Sejano.
56
A sua chegada ao trono, como a de Arrideu, meio-irmão de Alexandre Magno com pertur-
bações mentais, suscita em Séneca interrogações sobre os propósitos da Providência, tanto mais
que Gaio estava sedento de sangue humano (Ben. 4.31.1-2).
57
Dial. 2.18.4 e 3.1.20.9 (irritação de Calígula com os céus e com Júpiter por este perturbar
a atuação de pantomimos e aterrorizar as suas orgias).
58
Por inveja do requinte e do cabelo cuidado do filho de Pastor, mandou-o prender e, mal o
pai intercedeu por ele, ordenou que fosse sentenciado, convidou o pai para um festim e colocou
uma pessoa junto dele para ver se manifestava algum pesar pelo filho ou revolta contra o imperador,
coisas que Pastor não fez porque tinha outro filho (Dial. 4.2.33; cf. 9.14.5). V. outros exemplos
em Séneca, Dial. 5.3.19.5, 9.11.12, e Suetónio, Cal. 26.1 e 35.1.
59
Após conceder a vida a Pompeio Peno (Cartaginês), um velho senador, obrigou-o a beijar o
pequeno soco de ouro adornado de pérolas que trazia calçado no pé esquerdo (Ben. 2.12.1-2); v.
outras humilhações em Dial. 2.18.1-3, Suet. Cal. 56.2; e os castigos aplicados aos senadores em
Dial. 5.3.19.1-2; Suet. Cal. 30, Díon 59.13.6.
60
Ordena que se coloque uma esponja ou os trapos das vestes dos condenados na boca destes
para que, nem na hora da morte, possam ter liberdade de expressão (Dial. 5.3.19.3-4).
61
Calígula era comparado a Fálaris de Agrigento em Dial. 4.2.5.1 (cf. 9.14.4).
62
Dial. 5.3.19.2, 10.18.5, 12.10.4, Ben. 2.12.1-2, Suet. Cal. 30, Díon 59.13.6).
63
Tendia a ser impertinente com toda a gente, e a sua loucura manifestava-se numa palidez
desagradável, nos seus olhos turvos e escondidos sob uma testa senil, na deformidade da cabeça

161
Tibério costumava repetir a famosa frase do Atreus de Ácio, “que me odeiem,
desde que me temam”, Séneca (Dial. 5.3.20.4) só a põe na boca de Gaio (cf. Suet.
Cal. 30). Em Cl. 1.12.4 e 2.2.2, a afirmação é vista como um traço característico
de um tirano, e, em conformidade, Calígula acabou assassinado por alguns da-
queles a quem ofendera64, o que dele fez um exemplo completo daquilo que Cláudio
e Nero deviam tentar evitar (Dial. 11.13.1).
Nos dois livros da obra que nos deixou (Historia Romana?), Veleio Patérculo
dá uma imagem positiva e mais realista da figura de Cláudio.
Díon Cássio (61.10.2) conta que, durante o exílio na Córsega (41-49 d.C),
Séneca enviou para Roma uma obra onde adulava Messalina e os libertos de
Cláudio, e disso se teria arrependido e teria repudiado a obra. Talvez se tratas-
se da Consolatio ad Polybium (41-43 a.C., 42?), onde, sob o pretexto de
consolar o secretário a libellis de Cláudio pela morte do irmão, o filósofo não
só adula o liberto, mas também o imperador. Em Dial. 11.12.3, Séneca, com
efeito, confia Políbio, com seu sofrimento, à figura de Cláudio, de quem diz
que exerce um poder mais baseado na bondade do que nas armas; exorta-o a
erguer-se e, cada vez que as lágrimas lhe vierem aos olhos, a dirigi-los a César,
pois a contemplação de uma divindade suprema e preclara não só os secará
como impedirá que olhem para qualquer outra coisa (cf. diuinae manus, 11.13.2;
diuina…. auctoritas, 11.14.2). O Filósofo ainda manifesta, em Dial. 11.12.5,
o desejo de que Cláudio pratique feitos semelhantes aos de Augusto e o supere
em longevidade, de que, enquanto viver, não morra ninguém da sua família, e
de que seus netos conheçam o dia, oxalá distante, em que a sua linhagem o
reclame para o céu.
Os elogios a Cláudio e os votos pelo imperador continuam, mas, do con-
fronto das ideias expostas com outras presentes na Diui Claudii Apocolocyntosis,
facilmente se vislumbram as contradições em que Séneca se enredou. Na sátira
menipeia, considera o narrador que a morte do imperador marca o início de
um século deveras feliz (initio saeculi felicissimi, 1.1), e, depois de revestir
Augusto de grande autoridade, faz de seu testemunho um momento decisivo
na assembleia dos deuses que rejeita a pretensão de Cláudio a se tornar um
deus. Cláudio ainda é acusado de ter condenado à morte muitos dos seus fa-
miliares sem instruir os respetivos processos (Apoc. 10.3-4).
A morte de Cláudio marca o início de um século muito feliz porque abre a
porta do poder a Nero, a quem o Apolo da Diui Claudii Apocolocyntosis deseja
que ultrapasse a duração de uma vida mortal, e de quem diz que se lhe asse-
melha em aspeto e em beleza, que nada lhe fica a dever no que toca a voz e
canto, que trará séculos afortunados aos homens cansados e acabará com o

calva, com cabelos ralos, na cerviz repleta de cerdas, nas pernas delgadas e nos desmesurados pés
(Dial. 2.18.1).
64
Dial. 2.18, 3.1.20.9, Ep. 4.7. Como era louco, o assassinato foi um bem que lhe fizeram
(Ben. 7.20.3).

162
silêncio das leis (4.1). A ideia de que Nero resgatou as leis de que Cláudio fi-
zera letra morta será retomada por Séneca numa obra intitulada De clementia
(1.1.4 e 1.1.8), que, na esteira da tradição platónica do filósofo-rei, da perspe-
tiva de Posidónio sobre a naturalidade da monarquia (Sén. Ep. 90.4-6)65 e dos
escritos “Sobre a realeza” até então publicados, não só pretende servir de espe-
lho da boa consciência, do tipo de pessoa em que Nero se poderá tornar e, ao
cabo, do tipo de felicidade que poderá alcançar (1.1.1), mas também apresen-
tar, ao princeps e rex, o sapiens como modelo a seguir (2)66.
No caso de Nero, as expectativas são grandes, pois, com a idade que Augusto
tinha quando já havia cometido um conjunto de crimes (Cl. 1.9.1-1.11.1), re-
vela grande bondade natural e, como o próprio confessa, não cede à cólera na
aplicação de castigos injustos, nem aos impulsos juvenis, nem à rebeldia dos
homens, nem ao exibicionismo pela prática do terror, mas mantém a espada na
bainha, respeita os homens de mais baixa condição e faz-lhes, bem como aos de
condição elevada, concessões, exerce autocontrolo como se estivesse sob o do-
mínio das leis, facilmente se comove com a pouca ou muita idade das pessoas,
e, quando não tem de que se compadecer, revela respeito por si próprio (Cl.
1.1.3-4). Séneca diz que Nero mantém em segurança o Estado que lhe foi con-
fiado, se carateriza pela innocentia, que etimologicamente traduz a atitude de
não causar dano (in + nocere), é apreciado, como nenhum outro alguma vez foi,
pelo povo romano, revela uma bondade inata, é fator de estabilidade, pois não
se esquecerá da sua essência, não faz o povo romano desejar mais, mas apenas a
manutenção da situação em que se encontra, isto é, da mais próspera forma de
governo, manifesta uma clemência que toca os homens da mais baixa à mais alta
condição social (Cl. 1.1.5-9). Para ilustrar a referida bondade, ainda tratará
Séneca de recordar que, para não ter de tomar medidas contra dois malfeitores,
havia Nero manifestado o desejo de não saber escrever e uma inocência digna
da Idade do Ouro (2.1.2). Convém, por isso, que Nero transforme o simples
impulso natural, por meio da consciencialização, em critério e em virtude pro-
fícua. É que da bondade natural se distingue a clemência por decorrer de uma
atitude consciente, do iudicium e ter um caráter ativo (Cl. 2.2.2). Entre a secção
inicial e esta, havia Séneca, em Cl. 1.3.3, comparado, ao Sol, Nero que, estando
acima das pessoas, as protege e por elas é protegido (cf. 1.8.4). Em contraste
com a deformidade física de Calígula e de Cláudio, que refletia a deformidade

65
No passo citado, estabelece Posidónio o paralelo entre o poder do animal dominante em
muitas das espécies e a superioridade dos primitivos reis. Sobre este assunto, v. Díon Crisóstomo,
περὶ βασιλείας 3.41ss., 3.50, Platão, Plt. 267d ss., 301b, Lg. 3.690a-c, Políbio 6.4.2, Séneca, Cl.
1.19.2. Griffin 1976 205 n. 7 observa que passo algum dos referidos sustenta que a monarquia é
a melhor forma de governo. Sobre os perigos de a monarquia se transformar em tirania, v. p. ex.
Cícero, Rep. 1.61, 65.
66
Importa, no entanto, ter presente que, para o Estoicismo Médio, a melhor constituição é
a mista. Mas, embora admirassem Esparta, Cleantes, Perseu e Esfero escreveram tratados περὶ
βασιλείας (Griffin 1976 204).

163
moral de cada um e se prestava ao tratamento caricatural por parte de Séneca,
é Nero, com influência da tradição oriental do culto de Mitra, comparado a
Apolo e ao Sol, e a sua beleza física, de acordo com os princípios da fisiogno-
monia, traduz a sua elevação moral, pelo menos na fase da juventude, embora
a sua ação futura contradiga os princípios da referida perspetiva.
Séneca chega a dizer, em Cl. 1.11.2, que a clemência do filho adotivo de
Cláudio era a verdadeira, pois nunca tinha derramado o sangue de cidadão
algum. Se esta afirmação for verdadeira, a obra será anterior ao assassínio de
Britânico entre finais de 55 e inícios de 56 (cf. Tácito, Ann. 13.15ss.), mas, no
caso de ser falsa, revela um Séneca capaz de sacrificar a verdade ao seu desejo
de influência política, embora diga preferir, a uma atitude adulatória, valori-
zada pelos poderosos, ofender com verdades (Cl. 2.2.2), e atribua ao seu Etéocles,
depois de este ter afirmado que o ódio é indissociável da realeza, a seguinte
conclusão (Phoen. 664): “O poder vale bem qualquer preço.”
Plínio Naturalista (Como, 23 ou 24 – Estábias, 79) disse de Nero que era
“inimigo do género humano” (Nat. 7.46), e, talvez em consequência desta
avaliação ou por uma questão de coerência política, ora terá passado, como
oficial, os anos do principado do filho de Agripina nas campanhas na Germânia,
sob o comando de Domício Corbulão e, de seguida, de Pompónio Secundo,
tragediógrafo, seu amigo e protetor, ora no exercício da atividade de advogado.
Foi durante o principado de Vespasiano que, na qualidade de procurador (car-
go administrativo da ordem equestre), exerceu funções na Hispânia, em África
e provavelmente na Gália Narbonense e na Bélgica. Do seu intenso estudo, em
grande parte realizado à noite e nos intervalos dos seus afazeres e das reuniões
com Vespasiano, e da consciência aguda dos seus deveres para com a sociedade,
resultou uma extensa obra enciclopédica, a Naturalis historia, em 37 livros.
Quanto à personalidade de Sílio Itálico (n. 25-29, m. 101-104), não gera
consenso entre os investigadores: provavelmente baseados em Plínio-o-Moço
(Ep. 3.7.3), Citroni et al. sustentam que “foi delator (…) ao serviço de Nero,
que, por sua vez, o designou cônsul para o ano 68”67; fundados em Tácito (Hist.
3.65), observam que geriu bem a amizade com Vitélio na crise de 69 e parti-
cipou nas negociações secretas entre este e o irmão de Vespasiano; viu o seu
prestígio e riquezas acrescentados com proconsulado da Ásia (c. 77), com a
nomeação do seu filho para consul suffectus no tempo de Domiciano (93 d.C.);
e, ao cabo, se revelou “um hábil oportunista”68. Depois de afirmar que Sílio
Itálico tinha sido centúnviro, um reputado advogado e um notável orador;
tinha seguido na época dos Flávios (Vespasiano, Tito e Domiciano, 69-96) um
brilhante cursus honorum; tinha, nos seus Punica (mais 12 000 versos em 17
livros), sobre a II Guerra Púnica (218-201 a.C.), repetidamente distorcido a

67
Citroni et al. 2006 857.
68
Citroni et al. 2006 857.

164
verdade e prestado “alguma vénia a Domiciano (Pun. 3.607ss.)”69; e, em cora-
josa e serena morte estoica, se deixara morrer de fome (com 76 anos, talvez em
103) – justificou Pimentel, à luz da fidelidade do épico à memória do falecido
Domiciano e da recusa a adular Trajano (imp. 98-117), traduzida desde logo
na de se deslocar a Roma em 99 para receber o novo princeps, a crítica que
Plínio lhe dirigiu e os louvores que teceu a quem, como ele, apoiava Trajano,
ou, como Régulo e Veientão, passara a apoiar o novo princeps70.
Na época de Vespasiano, procurou o senado punir os delatores do tempo
de Nero, mas M. Aquílio Régulo, defendido por Vipstano Messala, seu irmão,
e acusado por Cúrcio Montano, acabou, com a sua retórica asianista, por con-
tinuar em funções dentro do referido órgão de estado (70)71. Suetónio (Ves. 18)
informa que Vespasiano tornou regularmente remunerado o ensino da retórica
por professores gregos e latinos, e, segundo Pimentel, teria distinguido Quintiliano
por esse processo72. Da admiração que o princeps seguramente nutria por alguns
oradores asianistas que da retórica se serviam para a atividade delatória dá se-
guramente conta a articulação do testemunho de Quintiliano, que (em Inst.
5.13.48, 10.1.119 e 12.10.11) recorda Quinto Víbio Crispo como um magní-
fico orador, com os Tácito, em Hist. 2.10 e 4.41-3, onde Víbio mais se distingue
pela riqueza, pelo poder e pelo engenho entre os notáveis do que entre as pessoas
de bem; e em Dial. 8, onde a personagem e Éprio Marcelo se contam entre as
personalidades que fizeram fortuna à custa dos imperadores e, em particular
no caso da primeira, de Vespasiano. No fundo, Víbio Crispo foi um delator
que, com a referida atividade, enriqueceu e progrediu politicamente.
Foi já postumamente que Marcial, que teria vindo de Bílbilis para Roma
por volta de 64 e teria tido por patronos Séneca Filósofo e Sílio Itálico, entre
outros, adulou Vespasiano (imp. 69-79), para realçar as semelhanças com
Domiciano. Quando notou o contraste entre o primeiro e o terceiro dos Flávios,
foi sempre em benefício deste73.
Augusto projetou, Vespasiano iniciou a construção do Anfiteatro dos
Flávios, e Tito (imp. 79-81) concluiu, em 80, o edifício que posteriormente
se haveria de chamar Coliseu. À referida data remonta o início oficial da
carreira literária de Marcial, pois, no rescaldo dos jogos oferecidos pelo im-
perador quando da inauguração do Anfiteatro, escreveu um Epigrammaton
liber, que, numa edição de 1602, haveria de aparecer com o título de Liber
de spectaculis e onde louvou o caráter divino, a benevolência e a clementia do

69
Vale, no entanto, a pena notar que, em Pun. 3.593-629 o louvor abarca toda a dinastia
flávia.
70
Pimentel 1993 13-14.
Pimentel 1993 31. A investigadora ainda informa que foi um dos principais delatores no
71

tempo de Domiciano e se manteve no senado sob Nerva e sob Trajano.


72
Pimentel 1993 27.
73
Pimentel 1993 9 e 12.

165
princeps (v., p. ex. Spect. 12.6, 20 e 23). Em Spect. 4, elogia Marcial o facto
de Tito ter exibido os delatores na arena e os ter condenado ao exílio em
terras africanas, mas, a julgar por Suetónio e Díon, talvez fossem de baixa
condição como os que foram vendidos como escravos e exilados para inós-
pitas ilhas 74 . Vespasiano e Tito contavam, entre os seus amigos, alguns
delatores do tempo de Nero (p. ex. Éprio Marcelo e Víbio Crispo). Tito (imp.
79-81) concedeu a Marcial o “direito dos três filhos” (ius trium liberorum),
embora o poeta nunca tenha casado. Apesar de ter havido um grande incên-
dio na época de Nero (64) e outro na de Tito, não referiu Marcial, em
contraste com Suetónio (Tit. 8.10), os esforços do último princeps para aliviar
o sofrimento da população, antes tratou de louvar a ação de Domiciano na
reconstrução das partes destruídas (Marcial 5.7). Ao referir o triunfo de
Vespasiano e Tito sobre os Judeus em 71, o que Marcial pretende, em 2.2, é
dizer que fica muito aquém dos feitos de Domiciano, que, com 18 anos, no
ano 70, participou numa campanha vitoriosa contra os Germânicos e, em
82/83, triunfou dos Catos, o que lhe valeu o cognomen de Germanicus75. Talvez
por Domiciano ter acompanhado, a cavalo, os carros em que, no triunfo de
71, se deslocaram Vespasiano e Tito, e por Vespasiano não ter consentido em
que Domiciano fosse apoiar os Partos nas lutas contra os Alanos, a verdade
é que a memória do pai e a do irmão não eram caras a Domiciano, o que
talvez justifique as poucas referências aos dois na obra de Marcial. Apesar
disso, não deixará Domiciano de criar o colégio dos Flauiales Titiales, que
tinha por missão zelar pelo culto da dinastia flávia. Tito, “a partir de 81 e do
Livro I dos Epigramas, servirá de termo de comparação para a grandeza do
irmão (ou para a sua desgraça, após 96, cf. Spect. 33) ou assumirá apenas,
juntamente com Vespasiano e com ele eternamente agradecido pela pietas de
Domiciano, o honorífico mas apagado papel de divindade tutelar do chefe
de Roma e do mundo (VIII 53(55))”. Pimentel ainda recorda que Quintiliano,
em contraste com a opinião pública romana, defendeu Berenice, a irmã de
M. Júlio Agripa por quem Tito se havia apaixonado enquanto estivera na
Judeia, em 67-70, e com quem viveu em Roma (75-) 76.
Suetónio (Dom. 2.4) e Tácito (Hist. 4.86) informam que, para compensar
a frustração resultante da atenção dada pelo pai ao irmão e dos feitos come-
tidos por ambos, se dedicou Domiciano à poesia; o primeiro biógrafo, no
referido passo, sustenta que o princeps simulou modéstia e interesse pela
poesia, arte que lhe era algo alheia e que viria a abandonar –, e observa que
o imperador chegou a dar leituras públicas; em Dom. 20.1-3, que Domiciano,
no início do seu principado, descurou as artes liberais, e, embora se tenha

74
Ver, respetivamente, Suetónio, Tit. 8.14 e Díon, 66.19.3.
As qualidades militares de Domiciano revelaram-se em numerosas campanhas e valeram-lhe um
75

segundo triunfo, em 89, agora sobre Marcomanos e Quados, na Panónia, (cf. OCD s.v. Domitian).
76
Pimentel 1993 27 (cf. Inst. 4.1.19). Vide capítulo anterior, Rodrigues, §2.1.

166
esforçado por repor os volumes destruídos pelo incêndio da biblioteca e tenha
inclusivamente enviado a Alexandria copistas para reproduzir e corrigir obras,
a verdade é que nunca mostrou grande interesse em saber história, conhecer
poesia ou adquirir um bom estilo, mas os commentarii et acta, “as memórias
e as atas” de Tibério eram a sua leitura de eleição, e o princeps confiava a
outros a escrita das suas cartas, discursos e éditos. Em contraste com estas
informações, sugere Marcial (p. ex. em 4.27, 5.6, 6.64, 7.99, 8.82) que
Domiciano teria um genuíno interesse por poesia e os poetas em grande
consideração; recorda Suetónio (Dom. 9.1, 12.7 e 18.3) momentos onde o
imperador respetivamente cita de cor e a propósito Virgílio (G. 2.537) e
Homero (Il. 2.204 e 21.108) e reconhece ao princeps, em Dom. 20.4, um
discurso elegante e ditos notáveis, dos quais regista alguns. Plínio (Nat. praef.
5), Estácio (Ach. 1.15), Sílio Itálico (3.621), Quintiliano (Inst. 10.1.91-2)
realçam as qualidades poéticas e a eloquência de Domiciano; e, conforme se
depreende de Marcial (5.5.7), de Valério Flaco (Argon. 1.10.12) e de Suetónio
(Dom. 18.3) teria respetivamente o princeps escrito um poema sobre o cerco
do Capitólio pelos apoiantes de Vitélio em dezembro de 69, “um poema
sobre a tomada de Jerusalém, em que decerto não escamoteava o valor bélico
do irmão e do pai” 77, e, dada a sua própria calvície, um libellus de cura capi-
llorum. Quanto à contradição entre a simulação de interesse pela poesia e a
citação de Virgílio e Homero de cor, talvez se possa admitir a possibilidade
de Domiciano os ter estudado por uma coletânea de sentenças. Além disso,
se se tomar em consideração que Domiciano teria encomendado a Marcial e
a Estácio poemas sobre o jovem Eárino, e teria confirmado o ius trium libe-
rorum concedido por Tito a Marcial, facilmente se conclui que apreciaria a
poesia e os poetas que o adulavam. Daqui se pode concluir que devemos
adotar uma atitude muito crítica relativamente à informação veiculada pelos
apoiantes e à transmitida pelos detratores de Domiciano, uma vez que ne-
nhuma coincide em absoluto com a verdade.
Na adulatio a Domiciano, que Pimentel considera sincera e outros têm por
irónica78, Marcial não só contribui para a damnatio memoriae de quantos não
agradavam ao imperador (p. ex. Nero)79, como o elogia e às pessoas que faziam
parte das suas relações: familiares, colaboradores, políticos influentes, executo-
res das deliberações políticas do princeps, ministri, pueri, delatores, artistas, os
vencedores dos jogos circenses, amigos pessoais e patronos80.
Além de Sílio Itálico e Marcial, já referidos, também Estácio (c. 45-96) e
Quintiliano (n. 35-40) elogiaram o princeps. A Thebais, de acordo com Juvenal

77
Pimentel 1993 83.
78
Pimentel 1993 4.
79
Veja-se ainda a condenação por parte de Marcial, em 7.21.3, de Nero, por este ter cometido
o mais atroz de todos os crimes, que é ter obrigado Lucano a suicidar-se.
80
Pimentel 1993 4-5.

167
(7.82-87), teria alcançado grande sucesso em leituras públicas, mas não dis-
pensava Estácio de escrever libretos para pantomimos, em particular uma Agave
para Páris, poesia para pessoas abastadas e poesia celebrativa (90 d.C.) dos
feitos de Domiciano na Germânia e na Dácia, para melhorar o seu modesto
pecúlio. Estácio teceu grandes elogios a Víbio Máximo, de quem Pimentel diz
que teria ligações familiares a Domiciano; e, em Silu. 4.7.54, se diz ter-se de-
dicado à historiografia. Se se tomar em consideração que Estácio faleceu antes
do assassinato de Domiciano (96 d.C.) e que o poeta adulou o princeps, facil-
mente se admite a possibilidade de, nesta altura, o elogio ao familiar do
imperador não ser tido como uma ofensa, mas como algo que se inscrevia num
contexto mais amplo de adulatio ao princeps81.
Quanto a Quintiliano, foi nomeado por Domiciano precetor de Flávia
Domitila e de Fábio Clemente, filhos da sobrinha e herdeiros do princeps
(Inst. 4 praef. 2). Numa belíssima síntese da relação do retórico com o
princeps, escreve Pimentel: “Embora já se tenham querido ver na Institutio
Oratoria traços vários de censura ao clima de terror e repressão vigente em
Roma, bem como sugestões de como se poderia condenar essa tirania sem
incorrer em perigosos riscos, parece-nos impossível negar a efetividade dos
serviços prestados por Quintiliano ao princeps ou diminuir a sinceridade da
admiração que por ele transparece em alguns passos da obra (e.g. IV praef.;
X 1, 91-2).” 82.
Há ainda escritores menos conhecidos que sobressaem em concursos ins-
tituídos por Domiciano: é o caso de Cevo Mémor, que venceu o agon
Capitolinus, e cujas tragédias, de que restam uma intervenção de um Coro de
cativas troianas e talvez um passo sobre Hércules (Fulgêncio, Serm. ant. 25),
parecem, formal e tematicamente e ao nível das personagens, seguir Séneca,
em detrimento da tragédia politicamente mais interventiva de Materno 83. O
irmão de Mémor, Turno, era um poeta satírico que, segundo Tandoi citado
por Pimentel, satirizaria a tirania de Nero, de modo a engrandecer a atuação
dos Flávios. Teria atingido o auge da sua carreira entre 92 e 96 e sido um
precursor de Juvenal na crítica aos uitia humanos e à dinastia júlio-cláudia84.
Ao pedir à Musa, em 3.20.1ss., que lhe diga se Cânio Rufo escreve sobre o
principado de Cláudio, ou se desdiz, em poesia, o que outros disseram de
Nero, ou se cultiva outros géneros literários, sugere Marcial que a personagem

81
Mais tarde, elogiou-lhe Plínio as qualidades literárias e também as posições políticas
(Plin. Ep. 9.1).
82
Pimentel 1993 37. A adaptação ao AO 1990 é minha.
83
Pimentel 1993 43. A investigadora ainda observa: “Brugnoli[….] vê na tragédia Hercules a
hipótese de que Memor tivesse escolhido esse tema por ser um dos favoritos da política belicista
de Domiciano; à escolha das Troianas, episódio patético, presidira o desejo de agradar aos gostos
do público romano.”.
84
Pimentel 1993 44-45.

168
seria um polígrafo com pretensões a historiador e poeta, mas, ao que tudo
indica, para agradar a Domiciano, numa perspetiva tendenciosamente depre-
ciativa que ora realçava tudo quanto de mau fizeram Cláudio e Nero, ora
desmentia todo o bem que deles se dizia 85. É provável que Colino tenha, no
domínio da poesia, alcançado a vitória nos primeiros Jogos em honra de
Júpiter Capitolino (86 d.C.; cf. Marcial 4.54.2), que também incluíam outras
artes, como a música, e modalidades, como o atletismo, e eram uma ocasião
privilegiada para Domiciano se exibir em toda a sua magnificência e fomen-
tar o culto da sua personalidade 86. Enquanto alguém que se esforçou por
patrocinar e fomentar as artes e as letras, Domiciano não só criou os Jogos
Capitolinos, mas também os Albanos (uilla de Alba do princeps, 19 e 23 de
março), que consistiam sobretudo em concursos de poesia e contaram, entre
os seus vencedores, Caro, que ainda conquistou a coroa de oliveira nos
Capitolinos seguintes e, com ela, coroou o busto do imperador 87. Outros
mereceram a confiança política de Domiciano, numa altura em que já des-
confiava de toda a gente: o poeta Lúcio Estertínio Avito, p. ex., que o princeps
nomeou para o cargo de consul suffectus em 92. Arrúncio Estela, poeta abas-
tado e patrono de Marcial e Estácio, celebrou, com uns jogos dados em 93,
a vitória de Domiciano sobre os Sármatas (Marcial 8.78). Embora Domiciano
e Marcial não tivessem grande apreço por filósofos estoicos, a verdade é que
Deciano, um filósofo estoico, admirador confesso do cristalizado e inofensi-
vo Catão e ou de Trásea, que se opusera a Nero, não acabou, como Musónio
Rufo na época de Nero, ou Artemidoro, Díon Crisóstomo e Epicteto na de
Domiciano, expulso de Roma, “simplesmente porque não merecia o nome de
filósofo ou porque se incluía entre a fação dos que trabalhavam ad maiorem
gloriam Domitiani.” 88.
Pretor em 70, Sexto Júlio Frontino cedeu o lugar na magistratura a
Domiciano; foi cônsul em 72 ou 73; enquanto legado na Britannia (entre
73/4-77, segundo o OCD, ou 76 e 78, de acordo com Pimentel89), subjugou
os Sílures; talvez tenha acompanhado Domiciano em 82/83 na expedição
contra os Catos; descreveu, em Stratagemata, a batalha e celebrou a atuação
do princeps; foi procônsul da Ásia em 86; provavelmente devido à inveja de
Domiciano, deixou, nos últimos anos do principado deste, de progredir no
cursus honorum; foi nomeado por Nerva (imp. 96-98) curator aquarum; acusou
o falecido Domiciano (em Aq. 2.118) de ter defraudado o aerarium dos pro-
ventos proporcionados pelos aquedutos públicos; foi nomeado cônsul pela

85
Fábio Rústico teria seguido a mesma orientação.
86
Suet. Dom. 4.10.
87
Ver, respetivamente, Marcial 9.23. 5-6 e 9.23, 24..
88
Pimentel 1993 47.
89
Pimentel 1993 22.

169
segunda vez em 98 (Marcial 10.48), pela terceira em 100 e foi quem, à frente
de uma embaixada, anunciou a Trajano, na Germânia Superior, que Nerva o
escolhera para seu sucessor90.
Terminado o período de terror de Domiciano, foram certos poemas de
Marcial (p. ex. alguns do livro 10) censurados e substituídos por outros que
celebravam a nova liberdade, e a opinião de Marcial, p. ex. nos livros 11 e
12, acerca do princeps tornou-se cada vez mais alinhada com a dos seus
detratores e favorável a Nerva e a Trajano: em 11.33, há quem admita a
possibilidade de Marcial identificar Domiciano com Nero e considere que,
após a morte do primeiro, os verdes teriam passado a ganhar por mérito, e
não por viciação de resultados decorrente de Domiciano ser seu adepto;
outros cuidam que Marcial está a falar apenas de Nero e a zombar dos azuis,
pois, ao que parece, o poeta seria adepto dos verdes. Em 12.3(4), Marcial
critica o cruel Domiciano (sub principe duro) por não ter admitido qualquer
tipo de generosidade que excluísse o imperador como beneficiário. Em
12.15, regozija-se Marcial com a possibilidade, devolvida às pessoas após a
morte de Domiciano, de contemplarem nos templos as riquezas que princeps
acumulara no palácio do Palatino. O poeta de Bílbilis ainda tratou de con-
denar temíveis delatores do tempo de Domiciano, como Métio Caro, que,
com Bébio Massa, acabou acusado por Heliodoro, um delator do tempo de
Nerva, e morto.
Apesar da bonomia de Nerva, a verdade é que os pretorianos exigiram
uma vingança pela morte de Domiciano e o novo princeps acabou por ter
de manifestar público reconhecimento por quem o tinha livrado de funes-
tas personagens, como o liberto Parténio. Em 11.7, critica Marcial o
hábito de Domiciano de convocar as mulheres com quem desejava ter rela-
ções sexuais para a sua uilla de Circeios, a impotência dos maridos perante
a situação e o recurso por parte das mulheres a uma justificação desse tipo
para se encontrarem com algum amante mais distante; e louva o facto de,
na época de Nerva, a destinatária do poema só poder ser uma Penélope.
Provavelmente por causa de Domícia Longina se ter apaixonado pelo pan-
tomimo Páris, que acabou assassinado em 83; talvez devido ao facto de a
farsa Paris et Oenone ter valido ao seu autor, o filho de Helvídio Prisco, a
morte (Dom. 10.2); e dada a possibilidade, que os escoliastas consideram
um facto, de Juvenal ter criticado Domiciano pelo ascendente de Páris
junto da corte imperial, ter sido obrigado pelo princeps a exilar-se no Egito
e só ter começado a publicar as suas Saturae após a morte do imperador –
Marcial só se referiu ao pantomimo em 97, portanto após a morte deste e
de Domiciano 91.

90
Díon 68.3.4 e Plínio, Pan. 9.1.
91
Sobre a matéria exposta ao longo deste parágrafo, veja-se Pimentel 1993 22, 25, 37, 55, 42.

170
Plínio-o-Moço, famoso advogado, escritor, rico patrono de Marcial e com
tendências estoicas, soube, sem extremar posições e sem se retirar, ser oposição
a Domiciano. Acusou um delator, Métio Caro, de ter entregado ao imperador
uma lista de personalidades a abater, da qual constava o seu nome, e observa
que apenas se conseguiu salvar porque, entretanto, o princeps foi assassinado 92.
As suas Epistulae ora refletem o orgulho e a vaidade com que, nos seus discur-
sos (que à exceção de um não chegaram até nós), se bateu com adversários
políticos e delatores (e.g. Régulo), ora o regozijo por a leitura no senado de
um género de texto geralmente acolhido com enfado e indiferença, ter, no
caso do Panegyricus de Trajano, alcançado tão grande sucesso que levou Plínio
a publicar o texto e a justificar o referido êxito com a liberdade proporciona-
da pelo novo princeps e com a verdade subjacente ao elogio a este dirigido (Ep.
3.18.2). Sherwin-White, contudo, fala em “restored but limited freedom of
the Trajanic age”93.
Em jeito de conclusão, vale, seguramente, a pena notar que, se alguns es-
critores estoicos têm coragem de divergir e assumir claramente as suas
diferenças relativamente aos principes em exercício, outros há que adulam os
imperadores no poder, para, após a morte destes, os criticarem e passarem a
adular outros imperadores (Séneca e Marcial). A crítica ao princeps falecido
podia servir de advertência dirigida ao novo senhor de Roma, mas, embora
alguns começos de governo se revelassem auspiciosos, nomeadamente com
uma boa governação (Nero) ou com a perseguição movida aos delatores que
tinham estado ligados ao imperador falecido (Vespasiano), a verdade é que os
novos principes, quer por opções próprias quer por se verem ultrapassados pela
conjuntura e circunstâncias em que se encontravam (e.g. Nerva) acabaram por
se ver rodeados por hábitos e comportamentos criminosos que tinham conde-
nado (p. ex. a delação). Importa finalmente observar que, sem grandes causas
para defender, sem grande originalidade de temas e com a progressiva perda
de poder, num ou em outro momento muito esporadicamente invertida, do
senado, a retórica prosseguiu, excetuando raras exceções (p. ex., Sílio Itálico,
Plínio, Lúcio Licínio Sura, provável autor dos discursos de Trajano) o seu
curso de empolamento, vacuidade e decadência (asianismo). Quanto aos au-
tores que louvaram os Flávios e, em particular, Domiciano, importa realçar
Estácio, Sílio Itálico, Marcial e Quintiliano, entre os que deles traçaram re-
tratos menos favoráveis, contam-se Tácito, Juvenal, Plínio, Suetónio, Díon e,
após a morte de Domiciano, o próprio Marcial. Importa, por isso, adotar uma
perspetiva crítica perante os testemunhos destes autores, uma vez que, condi-
cionados por uma ou outra das orientações políticas referidas, veicularam
perspetivas deturpadas da realidade.

92
Ep. 7.27.14.
93
Sherwin-White 1966 252 n. 6.

171
Tábua cronológica

14 – Morte de Augusto
14-37 – Principado de Tibério
25 – Morte de Cremúcio Cordo
35 – Morte de Mamerco Emílio Escauro
37-41 – Principado de Calígula
41-54 – Principado de Cláudio
41-49 – Exílio de Séneca na Córsega
54-68 – Principado de Nero
54-59 – Quinquennium Neronis
65 – Morte de Séneca e de Lucano
66 – Morte de Petrónio e de Trásea Peto
69-79 – Principado de Vespasiano
75 – Exílio de Helvídio Prisco
79-81 – Principado de Tito
80 – Inauguração do Coliseu e data Liber de spectaculis de Marcial
81-96 – Principado de Domiciano
96-98 – Principado de Nerva
98-117 – Principado de Trajano

Bibliografia

Abreviaturas

HRR Peter, H., Historicorum Romanorum reliquiae, vol I, Lipsiae, 11870, 21914; Stutgardiae, 1967 ed.
stereotypa; vol II, Lipsiae 1906; repr. 1993, in Aedibus B. G. Teubneri.
OCD Hornblower, S. – Spawforth, A. (42012). The Oxford Classical Dictionary. Oxford, University Press.

Estudos e edições

André, C. A. (2006), Ovídio. Amores. Lisboa, Cotovia.


André, J. (1949), La vie et l’oeuvre d’Asinius Pollion. Paris, Klincksieck.
Archambault, P. (1966), “The Ages of Man and the Ages of the World: A Study of two Traditions”, Revue
des études augustiniennes 12 193-228.
Bartsch, Sh. (1994), Actors in the audience: theatricality and doublespeak from Nero to Hadrian. Cambrid-
ge (Mass.) – London (Engl.), Harvard University Press.
Brandão, J. L. L. (2005), “Os políticos e as humanidades (a cultura nas Vidas dos Césares de Suetónio)”,
Biblos n. s. 3 55-67
Campos, J. A Segurado e (1991), Lúcio Aneu Séneca. Cartas a Lucílio. Lisboa, Gulbenkian.
Canfora, L. (2000), “Seneca e le guerre civili” in P. Parroni (a cura di), Seneca e il suo tempo. Atti del
Convegno internazionale di Roma-Cassino, 11-14 novembre 1998. Roma, Salerno Editrice 161-177.
Citroni, M. et al. (2006), Literatura de Roma antiga (trad. de M. Miranda e I. Hipólito a partir de original
italiano de 1997). Lisboa, Gulbenkian.
Codoñer, C. (31999), Lucio Anneo Séneca. Diálogos, presentación, trad. y notas. Madrid, Tecnos. Connors,
C. (1994), “Famous last words: authorship and death in the Satyricon and Neronian Rome”, in
J. Elsner – J. Masters, eds, Reflections of Nero. Culture, history & representation. London, Duckworth
225-235.

172
————— (1998), Petronius the poet. Verse and literary tradition in the Satyricon. Cambridge, University
Press.
Dalzell, A. (1955), “C. Asinius Pollio and the Early History of Public Recitation at Rome”, Hermathena
86 20-28.
Eden, P. T. (1984), Seneca. Apocolocyntosis. Repr. 1990. Cambridge – New York – Port Chester – Mel-
bourne – Sydney, Cambridge University Press.
Fabre-Serris, J. (2003), “Les réflexions ovidiennes sur le débat ars/natura: un antecedent augustéen au
recours à l’ars dans la Domus Aurea”, C. Lévy – B. Besnier – A. Gigandet eds, Ars et ratio: sciences, arts
et métiers dans la philosophie hellénistique et romaine: actes du colloque international organise a Créteil,
Fontenay et Paris du 16 au 18 octobre 1997. Bruxelles, Latomus 176-183.
Ferreira, P. S. M. (2011), Séneca em cena. Enquadramento na tradição dramática greco-latina. Lisboa, Gulbenkian.
Fitch, John G. (1981), “Sense-pauses and relative dating in Seneca, Sophocles and Shakespeare”, AJPh
102 289-307.
Griffin, M. T. (1976), Seneca: A Philosopher in Politics. Oxford, Clarendon Press.
Habinek, Th. N. (1998), The politics of Latin literature: writing, identity, and empire in ancient Rome. Princeton
and Oxford, Princeton University Press.
Kelly, H. A. (1979), “Tragedy and the performance of tragedy in late Roman antiquity”, Traditio 35 21-44.
McDonald, A. H. and Spawforth, A. J. S. (42012). “Asinius Pollio, Gaius”, OCD 184.
Narducci, E. (1989), “Le risonanze del potere” in G. Cavallo, P. Fedeli, A. Giardina, dirett. Lo spazio
letterario di Roma Antica, vol II. La circolazione del testo. Roma, Salerno Editrice 533-77.
Oliveira, F. de (2010), “Sociedade e cultura na época augustana”, in M. C. de S. Pimentel e N. S. Ro-
drigues, coords. Sociedade, poder e cultura no tempo de Ovídio. Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e
Humanísticos – Imprensa da Universidade de Coimbra, 11-36.
Pimentel, M. C. de C.-M. de Sousa (1993), A adulatio em Marcial. Diss. FLUL. Lisboa.
————— (2000), Séneca. Lisboa, Inquérito.
Reynolds, L. D. (1965), L. Annaei Senecae ad Lucilium Epistulae Morales. Oxonii, e Typographeo Claren-
doniano.
Rocha Pereira, M. H. da (42009), Estudos de história da cultura clássica. II Volume – Cultura romana.
Lisboa, Gulbenkian.
Schmeling, G. (1996), “The Satyrica of Petronius”, G. Schmeling ed., The novel in the ancient world. Leiden -
New York – Köln, Brill 457 -90.
Sherwin-White, A. N. (1966), The Letters of Pliny. A historical and social commentary. Oxford, Clarendon Press.
Sørensen, V. (1988), Seneca (trad. italiana de B. Berni a partir de Seneca, humanisten ved Neros hof, Copena-
ghen 1976). Roma, Salerno Editrice.
Sussman, L. A. (1978), The Elder Seneca. Lugduni Batauorum, Brill.
Winterbottom, M. (42012), “Curiatius Maternus”, OCD 399.
Wallace-Hadrill, A. (1983), Suetonius. London, Duckworth.

173
(Página deixada propositadamente em branco)
7. Os Antoninos: o apogeu e o fim da pax romana

Deivid Valério Gaia


Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de História
ORCID: 0000-0001-7818-3503
dvgaia@hotmail.com

Sumário: O apogeu e o início do declínio do Principado romano.


A época de ouro do Império Romano. O mito da adoção do melhor.
Uma dinastia Hispânica. Nerva e a cisão com o período de Domiciano.
Nerva (96-98). A sucessão imperial de Nerva a Trajano. Trajano (98­
‑117). A sucessão imperial de Trajano a Adriano. Adriano (117-138).
A sucessão imperial de Adriano a Antonino Pio. Antonino Pio (138­
‑161). A sucessão imperial e os dois herdeiros de Antonino Pio. Marco
Aurélio e Lúcio Vero (161-169) e, então, Marco Aurélio (169-180).
A sucessão imperial de Marco Aurélio a Cômodo. Cômodo (180-192).
O final da dinastia Antonina. A perspectiva senatorial e o retrato da
dinastia Antonina.

1. O apogeu e o início do declínio do principado romano

A dinastia Antonina foi a terceira do Império romano. Teve sete soberanos


entre 96 e 192 d.C.: Nerva (96-98), Trajano (98-117), Adriano (117-138),
Antonino Pio (138-161), Marco Aurélio (161-180), que governou conjuntamen-
te a Lúcio Vero (161-169), e Cômodo (180-192). Essa dinastia corresponde ao
apogeu do Império; a grandeza desse período foi evocada pelos escritores da
época, sobretudo por Plínio, o Jovem, em seu Panegírico a Trajano1 e por Élio
Aristides em seu famoso discurso Elogio a Roma2, na época de Antonino Pio.

1
Plin. Pan. 1.
2
Arist. Or. 26.11.

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_7
O século II d.C. foi um período de renascimento cultural, que contribuiu
para que fosse denominado como o século de ouro ou o século dos imperadores
Antoninos. Por que o nome de Antonino Pio foi utilizado para caracterizar a
dinastia? Ele foi o pivô da dinastia e se seu nome foi escolhido para representá-la,
foi porque ele reagrupava as qualidades dos diferentes príncipes Romanos e, na
própria Antiguidade, por Marco Aurélio, em suas Meditações3, Antonino Pio foi
considerado o melhor, dotado de uma grande equanimidade4 e senso de justiça.
O principado dos Antoninos foi representativo de uma época de grande
prosperidade, a dinastia foi imortalizada como o período áureo da pax e da li-
bertas romanas. Na Itália e nas províncias, conheceu-se uma administração
imperial muito próspera, na qual o consilium principis passou a ter um papel
importante, e os membros da ordem equestre foram notadamente beneficiados.
Durante a época de Trajano, o espírito expansionista romano levou o Império
à sua máxima extensão territorial com a conquista da Dácia, da Pártia, da
Mesopotâmia e com a anexação do reino Nabateu de Petra. A exploração das
minas de ouro da Dácia enriqueceu o Império. As províncias prosperaram, ao
passo que a Itália continuou seu declínio e, aos poucos, foi provincializada.
Houve uma maior unificação legislativa e facilidade para obtenção do direito à
cidadania. Os provinciais tiveram um grande espaço de poder no seio das ordens
dirigentes de Roma, pois vários dos imperadores dessa dinastia eram de origem
provincial. Houve uma intensificação urbana e um grande enriquecimento das
elites, quadro que criou melhorias econômicas para o conjunto do Império.
No entanto, esse período também representou o início da derrocada da pax
romana, pois as guerras defensivas passaram a ser mais constantes e extrema-
mente onerosas aos cofres públicos. Adriano e Antonino Pio construíram
muralhas defensivas no norte da Britânia. Marco Aurélio e Cômodo empreen-
deram uma difícil guerra contra os Partos e contra os Marcomanos, em um
contexto militar e econômico difícil, marcado pela falta de efetivos e pela es-
cassez de recursos financeiros. A partir da morte de Marco Aurélio, o Império
Romano caminhou, paulatinamente, para um período de crise militar e econô-
mica que modificou para sempre os rumos de sua história, abrindo as portas
para a crise do século III e, logo depois, para a Antiguidade Tardia.
A forma como lidaram com o poder imperial não se distinguiu muito da
época de Augusto, embora a historiografia insista naqueles que respeitaram as
prerrogativas senatoriais – como Nerva, Trajano, Antonino Pio e Marco Aurélio
– e aqueles que desdenharam essas prerrogativas, como Adriano e Cômodo.
O respeito às prerrogativas senatoriais foi decisivo na forma como esses impe-
radores foram retratados pela historiografia tradicional romana, fortemente
influenciada pela ideologia senatorial; dessa forma, enquanto os amigos do

3
M.Aur. Med. 6.30.
4
Segundo o autor da Historia Augusta (Ant. P. 12.6.), a última palavra de Antonino Pio foi
aequanimitas – equanimidade.

176
senado tiveram a chance de serem bem retratados, os inimigos não o foram.
Essa dinastia, em grande parte, repousou sobre o equilíbrio entre o poder civil
e militar e ficou conhecida como a dinastia da “adoção do melhor”, um mito
que até hoje ronda a historiografia.

2. A época de ouro do Império Romano

A dinastia Antonina é, indubitavelmente, a mais elogiada pelos autores antigos


e modernos e é vista como a época de ouro do Império Romano5. “O universo se
tornou uma cidade única”, escreveu Élio Aristides, no principado de Antonino Pio,
e ainda acrescentou, “O mundo inteiro está em festa, pois deixou seus armamentos
para se abraçar à alegria de viver”6. O autor da História Augusta escreveu que a
época de Antonino Pio foi marcada pela preservação da felicidade, da piedade, da
tranquilidade e da religiosidade. O Imperador vivera sem quase derramar sangue
civil ou de inimigos7.
Para se compreender o sucesso da dinastia Antonina é imprescindível que
se conheça o período que a antecede, pois seu êxito funciona, também, como
contraponto ao principado de Domiciano8. Domiciano, vítima de assassinato
em uma conspiração palaciana, foi um imperador muito controverso. Tácito
descreveu seu principado como quinze anos de tirania9. Nesse sentido, a época
dos Antoninos tinha que ser diferente e deveria assegurar valores que, a priori,
não existiam na época do predecessor: a liberdade e a paz.
Os imperadores Antoninos não foram somente elogiados pelos seus coetâneos
e, posteriormente, na própria antiguidade, mas se tornaram modelos para os
príncipes modernos. Em Portugal, no início do século XX, Júlio de Castilho
dedicou ao príncipe herdeiro, D. Luís Felipe de Bragança, um livro sobre a
grandiosidade do principado de Trajano10. Os principados de Nerva, Trajano,
Adriano, Antonino Pio e Marco Aurélio também marcaram Maquiavel, que
cunhou, em 1503, a expressão “dinastia dos cinco bons imperadores” 11. No

5
Schiavone 2005 15-31.
6
Arist. Or. 26.11.13.
7
Hist.Aug. Ant. Pius 13.4.
8
Os historiadores da Antiguidade são unânimes em colocar o principado de Domiciano no
mesmo patamar dos principados de Calígula, Nero e Heliogábalo - ou seja, os “maus” imperado-
res. Suet. Dom. 23. Um antonino também foi inserido nessa lista: Cômodo, que será apresentado
posteriormente.
9
Tac. Agric. 3. Vide atrás, cap. 5, Rodrigues §3.
10
Castilho 1906. Gaia 2010.
11
Para Maquiavel, esses cinco bons imperadores não precisaram de coortes pretorianas ou de
incontáveis legiões para guardá-los, porque eram defendidos pelo bom modo como viviam, pela
boa ligação com o senado e com o povo: Maquiavel 1883 1.10.

177
século XVIII, o historiador inglês Edward Gibbon fez um célebre louvor à
época dos Antoninos que marcou para sempre a historiografia moderna:

“Se fosse mister determinar o período da história do mundo durante o qual a condição da
raça humana foi mais ditosa e mais próspera, ter-se-ia sem hesitação de apontar a que se
estende da morte de Domiciano até a elevação de Cômodo. A vasta extensão do Império
Romano era governada pelo poder absoluto sob a inspiração da virtude e da sabedoria. Os
exércitos foram contidos pela mão branda mas firme de quatro imperadores sucessivos cujo
caráter e autoridade suscitavam respeito involuntário. As formas da administração civil,
cuidadosamente preservadas por Nerva, Trajano e Adriano e os Antoninos, justificavam a
imagem de liberdade em que eles se compraziam, considerando-se ministros responsáveis
perante as leis. Tais príncipes mereceriam a honra de restaurar a república, tivessem os Ro-
manos de sua época sido capazes de desfrutar uma liberdade racional.”12

Esse testemunho de Gibbon, por mais elogioso que seja, está inserido no
combate do autor aos problemas de seu próprio tempo: a Igreja, o Estado, etc.
Embora não se abordem, aqui, as questões intrínsecas ao seu contexto, cabe
ressaltar que o testemunho desse historiador com relação ao século II d.C.
influenciou vivamente os historiadores posteriores que se debruçaram sobre
esse período (e sobre outras épocas também, notadamente, no que se refere ao
fim do Império Romano). Dessa forma, ele contribuiu, ainda mais, para que o
período ficasse conhecido como a época de ouro.
Os autores que escreveram na própria época Antonina, todos fortemente
marcados pela ideologia senatorial, como Tácito, Aristides, Plínio, Suetônio e
Plutarco (mais tarde Díon Cássio e Herodiano), ao criticarem seus predecesso-
res – Tibério, Calígula, Nero e Domiciano, etc. -, coroavam a sua própria
época com os louros da liberdade e da paz, estabelecidas entre o imperador e
o senado. Nesse sentido, quando se lê a produção literária concebida no perío-
do antonino, pode-se conhecer as justificativas que motivaram Gibbon a tecer
tamanhos elogios. Há de se notar que os elogios à dinastia Antonina são quase
um topos na historiografia. Não obstante, hoje, o acesso a uma documentação
mais variada e a formação de opiniões diversificadas apresentam essa época com
mais complexidade, sobretudo quando se parte de uma perspectiva na qual se
questiona a tradicional mentalidade senatorial romana que selecionou o que
dizer sobre esses imperadores, alguns vistos como bons e outros como maus.

3. O mito da adoção do melhor

Essa dinastia é conhecida, de modo geral, pelo termo (ou mito) da “adoção
do melhor”, pois acreditava-se que o imperador deveria adotar, como herdeiro,

12
Gibbon 1989 87.

178
“o melhor” dos homens de Roma para ser seu sucessor; esse foi o caso, aparen-
temente, de quase todos, exceto o de Marco Aurélio. Nerva inaugurou a
famosa adoção do melhor ao adotar Trajano, e por isso foi louvado por Tácito.
Trajano, por sua vez, adotou seu primo de segundo grau, Adriano. Adriano
adotou Antonino Pio. Este, a pedido de Adriano, adotou dois, o filho de Élio
César, Lúcio Vero - que na ocasião ainda era criança - e o sobrinho de sua es-
posa, Marco Aurélio - que na ocasião tinha dezessete anos. Marco Aurélio foi
o único que teve um herdeiro direto: Cômodo. O quadro, portanto, parece
perfeito para se pensar na adoção do melhor.
Maquiavel e Gibbon, em suas respectivas épocas, viram a “adoção do melhor”
com bons olhos. Defendiam que nesse procedimento se repousava a grandeza
dessa dinastia, pois esses imperadores, à exceção de Marco Aurélio, repudiaram
o princípio da herança dinástica. A grande prova do fracasso da instituição di-
nástica hereditária para Maquiavel, Gibbon e outros historiadores, foi o exemplo
de Domiciano, filho de Vespasiano, que mergulhou Roma em uma longa tirania
de quinze anos. Segundo Maquiavel e Gibbon, a frustração do poder hereditário
na dinastia Antonina se mostrou, uma única e fatal vez, com a sucessão de Marco
Aurélio. Não se pode esquecer que Cômodo é o único que, talvez pela razão de
“não ser o melhor”, não faça parte da lista dos bons imperadores. Em 1503,
quando escreveu seu livro sobre a primeira década de Tito Lívio, Maquiavel
pronunciou-se sobre a adoção imperial da seguinte forma: “todos os Imperadores
que ascenderam ao trono por nascimento, exceto Tito13, foram ruins. Já os que
ascenderam ao trono por adoção foram bons, de Nerva até Marco Aurélio. Mas
tão logo o Império caiu novamente nas mãos dos herdeiros por nascimento, sua
ruína começou.14” Aqui, ele se refere, claramente, a Cômodo.
No entanto, embora haja tantos estudiosos obstinados a ver na adoção do
melhor a chave da grandeza dos Antoninos, cabe ressaltar que a adoção imperial
não foi uma invenção desses soberanos. Outros, que não tiveram descendentes
diretos, também se valeram da adoção imperial, como por exemplo: Augusto,
que adotou o filho de sua esposa Lívia, Tibério; e Cláudio, que adotou seu
enteado, o filho de Agripina, Nero. Pode-se dizer que os adotados não eram “os
melhores”, mas não se pode defender o contrário, com segurança, para a época
Antonina. Na transição da República para o Império, o próprio Júlio César
adotou seu sobrinho, Otaviano, que mais tarde tornou-se o primeiro imperador
de Roma, Otávio Augusto.
Com os Antoninos, não era diferente, pois a adoção também se dava, em
boa parte, no seio da própria família. Trajano adotou Adriano que era seu
primo e esse, por sua vez, obrigou Antonino Pio a adotar Marco Aurélio (pa-
rente de Adriano). Porém, para Maquiavel e Gibbon, a maldição do poder

13
Na visão de Suetônio, Tito era o amor e a delícia do gênero humano. Suet. Tit. 1.1.
14
Maquiavel 1883 1.

179
dinástico hereditário só caiu no colo de Marco Aurélio quando esse passou o
poder ao seu filho, Cômodo15.
Há de se destacar algo também muito importante, Marco Aurélio foi o
único imperador antonino a ter um filho. Na falta de herdeiro direto, a única
opção era a adoção. Para que esta fosse justificada, criava-se em torno dela uma
áurea de engrenagem de solução que resolveria os problemas de Roma, que era
governada não pelo filho de fulano ou cicrano, mas pelo melhor cidadão. Para
a elite senatorial, a falta de herdeiro direto desses imperadores era, certamente,
um certo alívio para continuar no controle das questões políticas e militares,
pois a dinastia foi fundada no seio mais antigo do senado com a escolha do
senador Nerva como primeiro imperador da dinastia. Como se não bastasse a
relação de parentesco sanguíneo, eles também estabeleceram relações de paren-
tesco a partir dos matrimônios16. Os casamentos das mulheres e de parentes
dos principes foram bem entrelaçados nessa dinastia17.
O historiador François Chausson, nos seus estudos de prosopografia imperial,
também coloca em xeque a “adoção do melhor”. Para Chausson, os Antoninos já
eram parentes de sangue antes da adoção e o Império continuou, como sob os
júlio-cláudios, os flávios e, posteriormente, sob os Severos, um bem patrimonial
que deveria ser legado ao parente mais próximo. Marco Aurélio, então, obedeceu
a essa lógica secular e não a uma “fragilidade” paternal tradicionalmente invocada
no momento no qual ele passou o poder imperial ao seu filho, Cômodo18.
Portanto, é falsa a tese de que os Antoninos rejeitaram a transmissão do
poder hereditário e que primaram pela “adoção do melhor”. “A adoção do me-
lhor”, da forma como foi concebida, só pode ser aplicada para o caso de Nerva
quando adotou Trajano. A adoção foi uma regra, sim, mas não necessariamente
a do melhor. Eles adotaram porque não tiveram filhos, o primeiro a ter filhos
quebrou a tradição19. Afinal, qual era a garantia de que Lúcio Vero, adotado por
Antonino Pio com sete anos de idade, fosse o melhor? Seu único mérito era ser
filho do filho adotivo de Adriano, Élio César, um homem de saúde frágil que
morreu antes de assumir o trono. Nesse caso, a tese de adoção do melhor não
se sustenta. A adoção tem que ser vista mais como um recurso a um meio arti-
ficial para manter uma linhagem de poder, que deveria administrar o Império e

15
Gibbon 1989 Cap. 3.
16
Roman 2000 257.
17
Sabina, a esposa de Adriano, era sobrinha de Trajano. Faustina, a Antiga, também tinha pa-
rentesco com Trajano: era bisneta de sua irmã, Úlpia Marciana. Faustina, a Jovem (filha de Faustina,
a Antiga, com Antonino Pio) casou-se com Marco Aurélio. Portanto, Cômodo, filho de Marco
Aurélio com Faustina, a Jovem, era neto de sangue de Antonino Pio. Essas questões de parentescos
aparecem bem claras nos stemmata (árvores genealógicas). Vide Chausson 2005
18
Chausson 2005 123-160.
19
Também podemos pensar nessa premissa ao inverso: os que adotaram e que romperam com
a tradição, e o que teve herdeiro direto manteve uma tradição secular de transmissão de poder na
Antiguidade.

180
dar continuidade aos projetos, e não como um projeto proposital de se escolher
“o melhor” para governar Roma. A adoção do melhor, como foi apresentada na
própria antiguidade e depois reproduzida por Maquiavel, Gibbon e pelos his-
toriadores contemporâneos, funcionou mais como uma esperança senatorial do
que como uma realidade efetiva dentro da política romana; tal esperança sena-
torial foi inventada por Plínio20 e por Tácito21 e seguida por outros. O sistema
continuou muito parecido com o de Augusto dentro da Domus Augusta, pois de
Trajano a Cômodo os escolhidos pertenciam à Domus Imperial centrada em um
princeps que também era dominus. A dinastia Antonina seguiu, portanto, as
regras da transmissão do poder de todas as monarquias: a hereditária.
No entanto, esses questionamentos contrários à ideia da adoção do melhor
não colocam em questão o fato de que os Antoninos foram bons Imperadores
que levaram o Império Romano ao seu apogeu através de uma política de in-
tegração e de estabilidade. O reino dos cinco bons imperadores, louvados na
Antiguidade e depois por Maquiavel e por Gibbon, deu seu nome ao século II;
por isso que é chamado de Século de Ouro, ou, simplesmente, Século dos
Antoninos; mas não deve ser chamado de século da adoção do melhor.

4. Uma dinastia Hispânica

O século de Ouro foi o momento da emergência de um verdadeiro Império


unitário, cuja capital, Roma, que sempre se comportara como um centro ex-
plorador, deixou de ver o Mediterrâneo como uma periferia a ser explorada. A
emergência desse Império integrado, deve-se, em grande parte, às relações es-
tabelecidas entre o poder imperial e as províncias. Nesse sentido, a figura de
Trajano foi singular e diferente dos imperadores que o precederam, pois foi o
primeiro não romano a vestir a púrpura. Ele era de origem hispânica e abriu
caminho para os outros. Seu primo, Adriano, era um hispânico de coração
grego. Antonino Pio era originário do sul da Gália. Os dois últimos, Marco
Aurélio e Cômodo, também eram de origem hispânica, descendiam dos Uccubi
da Bética. O forte peso desses importantes imperadores para o Império Romano
deu a essa dinastia a alcunha de hispânica. Se um hispânico podia ser impera-
dor, os provinciais poderiam ser impedidos de alguma coisa? A priori, não.
Trajano, sendo de origem provincial, não ascendeu ao poder sozinho, mas
levou consigo, de maneira direta e indireta, todos os provinciais que, a partir
dele, puderam ascender aos mais altos cargos das ordens dirigentes romanas.
Desde a época de Cláudio, mas sobretudo com os flávios, havia uma renovação
das ordens dirigentes, em particular no que tange à ordem senatorial, pois as
grandes famílias aristocráticas republicanas haviam desaparecido em sua maioria.

20
Plin. Pan. 7.1.
21
Tac. Hist. 1.15-16.

181
No entanto, é com Trajano que essa mudança se torna radical. As elites gaulesas,
hispânicas, depois as africanas e orientais durante o século II, começaram a fazer
parte, efetivamente, das decisões políticas de Roma. Tácito, Plínio, o Jovem,
Plutarco, Élio Aristides e, depois, Díon Cássio, Herodiano e outros são provas
contundentes desse movimento no qual os provinciais, em Roma, eram mais
romanos do que os próprios Romanos. Reafirmaram os valores da sociedade
imperial, até mesmo aqueles de que os próprios Romanos, de origem, já tinham
se esquecido. Voltaram-se para uma moral senatorial fortemente aristocrática e
estoica. Pode-se definir a época dos antoninos como um período no qual uma
forte dinastia hispânica governou um Império Greco-Romano, e então era por
isso que, para Élio Aristides “o mundo todo está em festa”22.

5. Nerva e a cisão com o período de Domiciano

Nerva, o princeps senatus, foi escolhido para suceder Domiciano, haja vista
sua carreira exemplar. A “escolha do melhor” - nesse caso, o melhor dentre os
senadores - foi saudada por Tácito. Esse historiador louvou o retorno da asso-
ciação entre Principado e liberdade 23; conceitos que, durante a época de
Domiciano, não dividiam o mesmo espaço.
Se a sucessão ao trono de Nero foi acompanhada de uma guerra civil, no ano
de 69 d.C., a de Vespasiano (sucessor de Nero) por Tito e depois a de Tito por
Domiciano foram tranquilas. Quanto ao último dos flávios, Domiciano, irmão
e sucessor de Tito, seus contemporâneos não lhe guardaram muita simpatia24.
Criou a censura perpétua e impediu qualquer tipo de crítica à sua pessoa, per-
seguindo e matando seus opositores. Sua época foi conhecida pelo triunfo dos
delatores, das confiscações, das mortes e dos exílios. Mas os escritores habituados
a criticar Domiciano, sejam eles antigos ou modernos, às vezes, perdem de
vista que no aspecto administrativo o seu principado foi muito eficiente. Também
há de se notar que era um corajoso general. Foi em sua época que alguns eques-
tres começaram a ocupar cargos antes ocupados por libertos imperiais25.

22
Arist. Or. 26.11.13.
23
Tac. Agric. 3.
24
Plínio, o Jovem foi o primeiro a criticá-lo, mas só depois da morte do imperador. Tácito e
Suetônio (Suet. Dom. 23) também não pouparam o último dos flávios. Domiciano foi acusado de
usar o poder de forma autocrática e autoritária. Queria ser denominado, definitivamente, como
dominus e deus (senhor e deus). Também ganhou o ódio dos autores cristãos que viram nele, depois
de Nero, um grande perseguidor. Lo Cascio 1999 324.
25
Havia, desde Nero, uma desvalorização da moeda e foi com Domiciano que houve uma
revalorização. Aumentou o stipendium das tropas em um terço; esse foi o primeiro aumento desde
o início do Principado, mas por conta disso, foi acusado de comprar o exército. Foi um grande
construtor, tendo dado continuidade ao projeto de seus antecessores de reconstrução de Roma,
com o prosseguimento das reformas do Fórum e a construção de um opulento estádio onde hoje é

182
Uma conspiração, que foi associada aos círculos judaico-cristãos de Roma
e à própria corte imperial no ambiente senatorial, colocou fim, em 96, à vida
de Domiciano. O imperador sofreu a damnatio memoriae26 e ficou conhecido,
a partir de então, como um grande tirano27. A sua morte foi recebida com
indiferença pela plebe e de forma negativa pelo exército e pela guarda preto-
riana. O sucessor de Domiciano, escolhido dentre os patres, foi o ancião Marco
Coceio Nerva, que deveria, indubitavelmente, ser a antítese do último dos
flávios. Abriu-se, então, um novo capítulo da História Romana.

6. Nerva (96-98)

O principado de Nerva28 foi muito rápido - governou de 96 a 98 (um ano


e quatro meses). Era um dos homens mais ricos de Roma e descendia de uma
velha família republicana. Antes mesmo da morte de Domiciano, o velho se-
nador de 70 anos já era considerado como o novo imperador. Na noite do
assassinato, ele recebeu o imperium. Por ser senador, ele assegurava a boa rela-
ção do poder imperial com o senado, algo que Domiciano não conseguira fazer.
Ao ser empossado, prometeu, publicamente, que nenhum senador seria morto
durante o seu principado. Colocou fim aos processos de lesa-majestade, anulou
as condenações dos perseguidos políticos exilados, permitiu o regresso a Roma
e devolveu-lhes os bens confiscados.29 Nerva foi louvado pelos autores da épo-
ca, o poeta Marcial era muito simpático ao imperador 30 e o descreveu como
campeão da liberdade. Para os senadores, Nerva simbolizava a harmonia per-
feita entre o Principado e a liberdade, pois não fora escolhido no quadro
militar, como os Flávios, e tampouco no quadro de uma linha hereditária,
como os Júlio-claudianos; ele foi escolhido por conta de sua moderação e
experiência advinda da idade avançada. Uma inscrição de 18 de setembro de
96 marca o início de um período no qual o Principado daria as mãos à liber-
dade31, perdida durante os quinze anos de principado do “tirano”. O clima de

a Praça Navona. Conduziu batalhas de sucesso em terras germânicas, nas quais lutou pessoalmente.
Também ordenou expedições à Britânia, sob o comando de Agrícola, sogro de Tácito (Tac. Agric.
3). Vide atrás cap. 5, Rodrigues §5.
26
Condenação da memória. É um voto do senado por meio do qual o condenado era consi-
derado inimigo público de Roma, os bens eram confiscados e seu nome era apagado de todas as
inscrições e documentos.
27
As moedas de Domiciano foram fundidas, suas estátuas foram demolidas e seu nome apagado
de todos os edifícios públicos por ordem senatorial. D.C. 68.1 e Suet. Dom. 23.
28
Nasceu em 8 de novembro de 30 e morreu em 27 de janeiro de 98.
29
D.C. 68.1 e 2.
30
Mart. Epig. 11.5.
31
CIL 6. 472.

183
distanciamento da autocracia de Domiciano pode ser observado em uma lei
comicial, agrária, proposta por Nerva32.
Há poucas informações sobre a vida de Nerva. O relato mais completo
sobre seu principado foi transmitido por Díon Cássio, no livro 68, e por Aurélio
Victor. Tácito fez um resumo de seu principado nos Anais, mas é na obra A
vida de Júlio Agrícola que elogiou o imperador. Entretanto, como foi contem-
porâneo e senador, Tácito jamais criticaria o imperador que era muito próximo
do senado. As primeiras informações sobre Nerva aparecem no principado de
Nero. Em 65, foi eleito pretor. Foi conselheiro de Nero e desempenhou um
papel de destaque durante a conspiração de Pisão 33. Foi reconhecido pelos
flávios ao obter o consulado em 71. Em 90, dividiu o consulado com Domiciano
devido ao seu papel durante a conspiração de Saturnino.

Se por um lado a chegada de Nerva ao poder foi reconhecida pelo povo e


aclamada pelo senado, por outro, foi recebida com dificuldade pelos preto-
rianos e pelo exército. Isso porque o novo imperador não tinha renome
militar e nem a mesma popularidade que Domiciano. Nerva nunca comandou
uma legião e, ao que parece, tampouco governou uma província. Sua longa
carreira senatorial e seus dois consulados não foram suficientes para evitar as
revoltas entre os militares. Logo no início de seu principado, teve que con-
viver com as rebeliões dos pretorianos e dos soldados, que ainda lamentavam
o assassinato de Domiciano e desconfiavam que o novo imperador estivesse
envolvido no complô que tirou a vida de seu predecessor (era papel da guar-
da pretoriana assegurar a sobrevivência do imperador). Segundo Díon Cássio,
os conspiradores propuseram a sucessão a Nerva antes mesmo do assassinato.
A partir de então, Díon defende que Nerva sabia do complô 34. Suetônio não
menciona o nome de Nerva no episódio, porque era contemporâneo de Adriano
quando escreveu sobre a vida de Domiciano; ele não poderia sugerir que a
dinastia de seu imperador, Adriano, tinha sido fundada sobre um assassinato
imperial 35. Seja como for, os pretorianos queriam fazer justiça em nome do
imperador assassinado.
Um ano depois de Nerva ter se tornado imperador, para diminuir as insa-
tisfações dos pretorianos, chamou para a guarda Caspério Eliano, comandante
das revoltas e antigo prefeito do pretório sob Domiciano. Nerva não foi feliz
ao tomar essa medida, pois Eliano, juntamente com os seus soldados, queria se

32
Digesto 47.21.3. As leis comiciais eram votadas pelo povo.
33
Tac. Ann. 15.72.
34
D.C. 68.15.
35
Suet. Dom. 23.

184
vingar dos assassinos de Domiciano36. Eles tomaram o palácio para executar os
assassinos que não foram condenados por Nerva. Assassinaram, inclusive, o
prefeito do pretório, Petrônio Secundo, que era chefe do complô contra
Domiciano. O imperador também se tornou refém37. Apesar de Nerva ter sido
contrário, teve que proferir um discurso público de agradecimento ao ato “no-
bre” de Eliano38. Esse episódio enfraqueceu enormemente seu governo39.
O problema não era somente entre os pretorianos. Nerva também teve que
intervir no exército na Germânia Superior, quando campos foram incendiados
e, na Panônia, quando um complô foi formado contra o príncipe. Tal complô
foi rapidamente acalmado pelo filósofo Díon de Prusa. Trajano foi enviado
como legado e conseguiu restabelecer a ordem na Germânia, em nome de Nerva.
Dessa forma, Trajano se tornou indispensável, pois tinha uma boa relação com
o exército. Na tentativa de procurar o equilíbrio entre o senado, o povo e o
exército (inclusive com a guarda pretoriana) e, devido à sua idade avançada,
Nerva deixou patente sua aproximação com Trajano.

**

Diante de um imperador enfraquecido tanto pelos problemas econômicos


do Império, quanto pelos conflitos militares dentro e fora de Roma, o senado,
temendo uma possível guerra civil com a morte de Nerva, entrou em um ver-
dadeiro jogo de forças para a escolha do herdeiro ao trono. Uma parte do
senado tinha como predileção Marco Cornélio Nigrino, condecorado general
de Domiciano e governador da Síria, também de origem hispânica. Outra
parte tinha predileção por Trajano, que já tinha acalmado as revoltas do exér-
cito na Germânia Superior e era próximo do senado (filho de um grande
senador), além de querido pelo povo e pelo exército. Trajano, sabe-se, foi o
escolhido. Logo abaixo serão apresentados os detalhes de sua adoção.
Adotar Trajano, popular entre os pretorianos e os soldados, deu ao princi-
pado de Nerva um ar mais tranquilo. Trajano oferecia todas as garantias para
o estabelecimento de um poder durável, pois transitava bem nas três instituições
mais importantes do poder romano: o senado, o exército e o povo. Nerva e
Trajano abriram um capítulo novo na história do Império Romano, primando
pela harmonia entre o poder imperial, o senado e a comunidade em geral. Os
senadores tiveram seus privilégios ainda mais reafirmados e atuavam como
conselheiros dos principes. Diferentemente dos flávios, que deram continuida-
de ao principado hereditário, os Antoninos optaram pelo princípio da adoção,

36
Aur. Vic. Caes. 12.7.
37
D.C. 68.3.
38
Aur. Vic. Caes. 12.8.
39
D.C. 68.3.

185
como foi mostrado acima, mas cabe ressaltar que, se houve um exemplo no
qual a “adoção do melhor” funcionou nos moldes louvados pelos senadores, foi
com Trajano, que não era parente de Nerva.

***

A situação financeira e econômica do Império durante o governo de Nerva


não era muito boa. O velho imperador herdou uma Roma à beira de uma crise
e devido aos gastos iniciais do seu governo, a situação só se agravou, ao ponto
que foi obrigado a criar uma comissão especial para reduzir as despesas da ad-
ministração central. A renda procedente dos leilões das propriedades de Domiciano
deu um pequeno fôlego à economia40. Apesar da falta de dinheiro, Nerva pro-
curou exercer uma política de aliviamento fiscal. Aboliu o imposto especial que
era pago pelos Judeus, o chamado fiscus Iudaicus. Eliminou, também, as contri-
buições pagas pelos itálicos para o transporte de pessoas, comunicações e bens,
o chamado cursus publicus41. Essas medidas foram vistas como exemplos da li-
beralidade imperial. Seu único projeto arquitetônico de grande porte foi a
construção de um complexo de armazéns (Horrea Nervae) para estocar o supri-
mento de grãos da cidade de Roma. Além disso, construiu aquedutos e realizou
obras de reforma da cidade; também construiu um pequeno fórum que tinha
sido iniciado por Domiciano42. Uma instituição importante criada por Nerva e
que durou durante toda a época antonina, aprimorada por Trajano, foram os
alimenta, um subsídio financeiro às famílias italianas pobres para criar seus filhos.

7. A sucessão imperial de Nerva a Trajano43

Temendo uma possível Guerra Civil na transição do poder, haja vista que já
era idoso e não muito querido pelo exército e pela guarda pretoriana, o impe-
rador adotou e designou à sucessão, no dia 28 de outubro de 97, o general e
senador de origem hispânica, Marco Úlpio Trajano. A cerimônia de adoção se
deu no templo capitolino e, segundo Díon Cássio, Nerva proferiu as seguintes
palavras: “Para que a escolha seja feliz e favorável para o senado, para o povo
romano e para mim também, adoto Marco Úlpio Nerva Trajano!”44 O senado
concedeu a Trajano várias honrarias: o título de César, o imperium maius, o

40
D.C. 68.2.
41
Lo Cascio 1999 327.
42
Suet. Dom. 5.
43
As partes desse texto nas quais apresentamos as sucessões imperiais foram escritas com base
nos documentos textuais de época e organizadas de acordo com os livros de História Romana
publicados na França e na Itália recentemente: Lo Cascio 1999, Roman 2000 e Martin 2014.
44
D.C. 68.3.

186
poder tribunício, o nome de Augusto e, também, o consulado epônimo do ano
98 (consulado de Nerva e Trajano). Durante a cerimônia de adoção, Trajano
não estava em Roma, pois ainda era legado na Germânia Superior. O exército
ficou satisfeito com tal nomeação, pois durante dez anos esse vir militaris foi
tribuno dos soldados e havia dado inúmeras provas de coragem em campo de
batalha e conhecia, como ninguém, o funcionamento do exército. A escolha de
Trajano foi uma excelente estratégia diplomática para sair da crise política.
Três meses depois, no dia 27 de janeiro de 98, Nerva faleceu. Adriano foi
o primeiro a transmitir a notícia a Trajano45, que na ocasião estava em Colônia,
na Germânia. Dois anos depois, após terminar sua expedição militar no Reno,
Trajano retornou a Roma e assumiu o trono. Colocou fim aos principais pro-
blemas de segurança que herdou da época de Nerva. Resolveu seu conflito com
o prefeito do pretório, Caspério Eliano, que foi, possivelmente, executado, e
enviou Nigrino, seu concorrente à adoção, para a Hispânia, onde permaneceu
até a morte46. Nerva foi divinizado pelo senado a pedido de Trajano.

8. Trajano (98-117)

Os relatos sobre Trajano são raros. Além de Díon Cássio, de Eutrópio e de


Aurélio Victor, há Plínio, o Jovem. A carreira de Trajano foi apresentada por
Plínio, no seu Panegírico, mas por conta da natureza desse gênero literário,
deve-se tomar cuidado ao analisá-lo devido os exageros plinianos.
Trajano era descendente de um grupo de italianos que, durante a época
republicana, se instalou em Itálica, na província da Hispânia (futura Bética).
Seus ancestrais, os Ulpii, eram originários da Úmbria. Há duas teses polêmicas
sobre o local de nascimento de Trajano: a mais aceita pelos historiadores é que
ele tenha nascido em Itálica 47, a segunda tese, mais controversa, sugere que ele
tenha nascido em Roma. Segundo Eutrópio, os autores antigos escreveram que
Trajano era originário da Hispânia, mas não defenderam que ele nasceu por
lá 48. Seu pai, Úlpio Trajano, era um senador reconhecido entre seus pares e
isso deu boas condições ao seu filho para galgar as mais altas magistraturas na
capital. Trajano percorreu, com sucesso, seu cursus honorum durante o princi-
pado dos flávios. Por mais que ele tenha sido considerado, por alguns, como
estrangeiro, cabe destacar que um senador (filho de senador) jamais seria es-
trangeiro em Roma.

45
Hist.Aug. Hadr. 2.
46
D.C. 68.5.
47
Des Boscs-Plateux 2006 471.
48
Eutr. 8.2.

187
Trajano governou de 98 a 11749. De todos os imperadores romanos que suce-
deram Augusto, ele foi, indubitavelmente, o mais notável e, assim como o primeiro,
foi chamado de optimus. Conhecido pelas suas qualidades como chefe militar,
também foi um bom administrador do Império. A correspondência trocada entre
Plínio, o Jovem, e Trajano, no livro X, é reveladora da boa relação entre o príncipe
e seus colaboradores. Nas cartas de Plínio, também se conhece um Trajano preocu-
pado com a administração e com o aprovisionamento das cidades romanas50.
Segundo Plínio, para Trajano “o príncipe não está acima das leis, as leis é
que estão acima do Príncipe”51. Trajano procurava fazer bom uso do imperium,
ao colocar em prática seu estilo moderado; foi um dos soberanos que teve sua
reputação irrefutável da Antiguidade até os dias atuais. Trajano e Augusto foram,
seguramente, as referências de governo para os sucessores, tanto que se dizia
felicior Augusto, melior Traiano, - ou seja, desejava-se que cada novo imperador
tivesse mais sorte que Augusto e que fosse melhor do que Trajano. Eles repre-
sentaram os principes que melhor conseguiram manter boas relações com as três
forças do Império: o povo, o senado e o exército.
Trajano chegou ao ponto de ser cristianizado, por intercessão divina, pelo
Papa Gregório I. Tomás de Aquino e Dante viram nele o modelo de um pagão
virtuoso. Na sua passagem pelo paraíso, Dante viu Trajano, apesar de muitos
outros imperadores estarem no inferno. Para Maquiavel, o principado de Trajano
foi um modelo a ser seguido por todos os príncipes.
Depois da morte de Nerva, Trajano não mostrou pressa para voltar a Roma,
continuou na Germânia por dois anos. Nesse período, procurou manter a paz ao
longo das fronteiras setentrionais do Reno e do Danúbio52. Só voltou a Roma no
outono de 99 e foi recebido com grandes honrarias, afinal, era a primeira vez que,
como imperador, entrava na capital53. Marchou em direção ao palácio imperial a
pé, dando demonstração de sua grande e famosa simplicidade. Foi no principado
do Optimus princeps que o Império Romano atingiu a sua máxima extensão ter-
ritorial com as conquistas perenes da Dácia, a anexação do Reino Nabateu de Petra
e com as conquistas efêmeras da Armênia e da Mesopotâmia. Pode-se dizer, então,
que a grande obra de Trajano foi de natureza militar e administrativa.

Trajano deu um novo fôlego ao espírito expansionista romano quando re-


tomou as incursões da Dácia, rompendo a paz que havia sido selada entre

49
Nasceu em 18 de setembro de 55 e morreu no dia 8 ou 9 de agosto de 117.
50
Plin. Ep. 10.
51
Plin. Pan. 64-65.
52
D.C. 68.3.
53
Plin. Pan. 12.

188
Domiciano e o rei Dácio, Decébalo, em 89. Esse acordo entre Domiciano e
Decébalo era muito desfavorável para Roma, pois os Romanos eram obrigados
a ajudar os Dácios, oferecendo engenheiros e subsídios, e a reconhecer um
único rei Dácio. Romper essa situação era importante para o Império, pois o
arranjo era assaz oneroso e conquistar a Dácia permitiria aos Romanos o aces-
so a minerais preciosos. A exploração dos minérios resolveria o problema
financeiro romano e daria a Trajano um grande triunfo militar. Assim sendo,
os Romanos enfrentaram Decébalo em duas grandes guerras, a primeira entre
101-102 e a segunda entre 105-106.
Na primeira guerra, entre 101 e 102, os Romanos marcharam em território
dácio sem grandes resistências. Para atravessar o Danúbio, uma ponte foi cons-
truída sobre o rio pelo arquiteto Apolodoro de Damasco. No início do conflito,
Decébalo evitou, ao máximo, o confronto direto. No entanto, durante a batalha
de Tapas - a única dessa guerra-, Romanos e Dácios se enfrentaram em um di-
fícil confronto54. No início da batalha, os Romanos tinham obtido bastante
sucesso e, por conta disso, os Dácios tentaram bloquear os caminhos que levavam
à capital, Sarmizegetusa. Em contrapartida, os Romanos bloquearam o aprovi-
sionamento da cidade. O bloqueio forçou Decébalo a passar à ofensiva, com o
objetivo de liberar a sua capital, mas pouco adiantou. Por volta de março de
102, Trajano atacou Sarmizegetusa, e para evitar o massacre da população,
Decébalo propôs um acordo de paz. No entanto, dessa vez, as condições para o
acordo foram impostas por Trajano e não eram boas aos Dácios; contudo,
Decébalo continuou no poder, mantendo a unidade do seu reino. Nessa primei-
ra guerra, não se sabe se Trajano tinha o objetivo de transformar a Dácia em
estado cliente ou se ele já tinha o objetivo de fazer uma segunda investida, como,
de fato, aconteceu.
O acordo de paz da primeira guerra não durou muito tempo. Decébalo
fortificou a capital, com muros e pontes, e criou um novo exército 55. Em 105,
os Dácios atacaram os Romanos, retomaram a região de Banato, que estava
sob o controle de Roma, e depois atacaram a Mésia. Com isso, o rei Dácio
mostrou não respeitar o acordo que assinou com os Romanos. Então, o se-
nado de Roma declarou aberta a segunda guerra dácia. Trajano retornou,
pessoalmente, ao campo de guerra, com um grande exército - ainda maior
que aquele da primeira guerra 56 - formado por metade dos efetivos de todo
o Império. Ao chegarem ao Danúbio, encontraram a Mésia devastada e inú-
meras construções romanas destruídas. Em 106, as legiões atravessaram o
Danúbio, Decébalo fora atacado por diversas frentes e foi, assim, obrigado a
deixar Sarmizegetusa. Após um cerco sangrento e doloroso, a cidade se rendeu.

54
D.C. 68.8. 2.
55
D.C. 68.10.3.
56
D.C. 68.10.4.

189
Trajano não fixou as mesmas condições de paz e a submissão foi efetivada.
Decébalo tentou fugir para os Cárpatos, mas foi cercado pelos Romanos e se
suicidou. Com o fim da guerra, a moeda romana celebrava a vitória com a
divisa “Dacia capta” (Dácia capturada). Trajano fundou outra capital com o
mesmo nome, não muito distante das ruínas da antiga. O imperador celebrou
o triunfo com muitos dias de festas. Todos os episódios da guerra foram es-
culpidos na Coluna de Trajano a partir da perspectiva do vencedor. As duas
guerras foram narradas por Díon Cássio 57.
Concomitante à guerra da Dácia, em 106, Trajano ordenou que o governa-
dor da Síria anexasse o reino Nabateu de Petra58, por conta da morte do rei
Rabelo II. As moedas da época, com a divisa “Arabia Acquisita” (Arábia adqui-
rida), sugerem que a anexação foi feita de modo pacífico, pois esse reino já era
protegido por Roma. Se fosse uma conquista militar, possivelmente as moedas
exibiriam a divisa “Arabia Capta”, como foi o caso da Dácia. No entanto,
Amiano Marcelino 59 e Díon Cássio60 sugerem que houve resistência, embora
não apresentem os detalhes. Com esse triunfo, Trajano abriu as portas para
conquistar a Mesopotâmia, o sonho dourado de um conquistador para se igua-
lar a Alexandre, o Grande; reforçou as fronteiras do Império (limes) no Oriente
e conseguiu, de modo mais efetivo, fortalecer a região e aumentar os cuidados
com o Egito, a Judeia e a Síria, fontes de constantes revoltas.
A partir de 106, em Roma, Trajano, vencedor da guerra da Dácia, adminis-
trava seu Império e tudo parecia bem. Contudo, em 113, os Partos violaram
um tratado de paz com Roma, que fora assinado em 63, sob o principado de
Nero. Eles tentaram, na sucessão do trono da Armênia, apresentar um candi-
dato que não era o de Roma. A campanha militar começou quando, em
janeiro de 114, o imperador chegou a Antioquia. Trajano ocupou a Armênia,
assassinando Partamasíris, que havia sido colocado no trono por seu irmão, o
rei da Pártia, Osróes61 e, posteriormente, deslocou-se para a Mesopotâmia se-
tentrional. Em 114, tomou Nibisis e, em 115, tomou Dura-Europos à margem
do Eufrates. A Mesopotâmia foi anexada ao Império Romano em 115.
No dia 20 de fevereiro de 116, o senado romano concedeu a Trajano o títu-
lo de Parthicus, em acréscimo ao título de Dacicus, recebido após a conquista
da Dácia. No ano de 116, Trajano marchou em direção ao sul da Mesopotâmia,
chegando a Selêucida, e logo em seguida, ao Golfo Pérsico. No inverno de 116-
117, Trajano estava no palácio de Alexandre, o Grande, na Babilônia (Alexandre
sempre exerceu grande fascínio nos maiores conquistadores romanos, César,

57
D.C. 68.8-15.
58
D.C. 68.14.
59
Amm. Marc. 14.8.12.
60
D.C. 69.14.
61
D.C. 68.22.

190
Augusto e Trajano) 62. A conquista da Mesopotâmia foi efêmera. Roma não tinha
meios militares para manter tal dominação, pois, concomitante a essa extensão
territorial, grandes revoltas eclodiram no Oriente: Palestina, Síria, norte da
Mesopotâmia e, sobretudo, a revolta dos Judeus de Cirenaica, de Chipre e do
Egito. Essas revoltas ocuparam a maior parte do exército de Trajano na tentati-
va de apaziguamento, dessa forma Trajano não tinha efetivos para guardar os
novos territórios conquistados63.
Foi retornando a Roma, em 117, que o Optimus Princeps morreu, deixando
o Império Romano na sua máxima extensão territorial. Trajano foi divinizado
pelo senado, e suas cinzas deixadas aos pés de sua coluna.

**

Muito se discutiu sobre as motivações imperialistas de Trajano, sobretudo


a da Dácia. Os historiadores debatem a velha questão do imperialismo ofensi-
vo e defensivo. Entretanto, sejam lá quais forem as teses e conclusões, uma é
incontestável: a conquista da Dácia disponibilizaria uma quantidade de metais
preciosos que resolveria os problemas financeiros de Roma (que Trajano herdou
de Nerva), através da pilhagem e da exploração das minas de ouro64. Graças a
essa riqueza, Trajano conseguiu guardar as fronteiras romanas e continuar sua
investida ofensiva. Conseguiu financiamento para todas as grandes construções
de seu governo: como o Fórum de Trajano, o Mercado de Trajano, as diversas
estradas (a importante via Traiana), pontes, basílicas, bibliotecas, aquedutos,
banhos e até mesmo portos. Também com o dinheiro dácio construiu uma
coluna para festejar seu triunfo, na qual expôs em baixo-relevo as etapas da
conquista. O dinheiro dos Dácios manteve viva a liquidez no Império, tornan-
do as taxas de juros muito equilibradas, variando entre 4 e 6 por cento - juros
característicos de um período de equilíbrio financeiro. Trajano também foi ao
encontro dos pequenos agricultores, criando incentivos agrícolas para melhorar
a produção, e anulou muitas dívidas de cidades com o fisco romano.
Nerva, durante seu curto principado, criou um programa social chamado
de alimenta, um subsídio alimentar às famílias pobres italianas, um tipo de
welfare-state65. No entanto, o projeto foi efetivado por Trajano, que se tornou
o patrono do programa, promovendo-o junto à elite. Plínio, o Jovem foi res-
ponsável por alguns alimenta, tanto na região de Roma, quanto na cidade de
Como, de onde era originário66. Em que consistia os alimenta? O dinheiro

62
D.C. 68.30.
63
Roman 2000 246.
64
Vide Guey 1924 445-475
65
Expressão utilizada por Lo Cascio 1999 329.
66
Plin. Ep. 6.19.

191
provinha dos juros de dinheiro aplicado a uma taxa que variava de 4 a 6 por
cento. O Estado agia como credor e os civis como devedores. A rentabilidade
do dinheiro aplicado era destinada às famílias pobres para manterem a educa-
ção de seus filhos67.
Pode-se, portanto, defender a tese de que a paz antonina só chegou a ser
realmente efetivada depois que os Romanos colocaram as mãos no tesouro dos
Dácios, pois a aclamada “paz” não iria muito longe sem o dinheiro. Com esse
feito, Trajano provou ser um grande conquistador e conseguiu, com o dinhei-
ro do reino conquistado, equilibrar as finanças do Estado, fortalecer o exército,
amenizar as disparidades sociais, embelezar a cidade de Roma e construir inú-
meros monumentos pelo Império afora. Tal riqueza foi explorada por toda a
época Antonina, sobretudo por Adriano.

9. A sucessão imperial de Trajano a Adriano

Trajano era casado com Plotina, com a qual não teve filhos. Na ausência
de um herdeiro direto, Trajano deu um grande relevo a P. Élio Adriano, seu
primo, que, como o próprio imperador, tinha origem hispânica. Pelo lado
paterno, Trajano tinha uma tia chamada Úlpia, que se casou com P. Élio
Adriano Marulino. Tiveram como filho P. Élio Adriano Afer, o pai de Adriano68.
Tendo Afro falecido em 86, Trajano e P. Célio Atiano, um cavaleiro romano
de Itálica, tornaram-se os tutores de Adriano, que na ocasião tinha apenas dez
anos69. Portanto, a ligação de Trajano com Adriano era estabelecida além de
relações de parentescos, pois Trajano era seu tutor 70. Adriano também se casou
com a sobrinha de Trajano, Sabina. Além de primo, era tutelado e sobrinho
por aliança. Acredita-se que Trajano escolheu Adriano como seu sucessor no
leito de morte, em 8 agosto de 117. Tal adoção criou muita controvérsia entre
os próprios escritores antigos, pois a carta que formalizava o ato e que foi
entregue ao senado fora assinada em Antioquia, em 9 de agosto, pela esposa
de Trajano, Plotina, que, por sua vez, era muito próxima de Adriano71. Dois
dias depois da assinatura da carta, Trajano faleceu. O autor da História Augusta
sugere que a adoção foi uma farsa criada pela viúva imperial72. Díon Cássio
sugere que Adriano amava Plotina e que ela fraudou a adoção 73. Rapidamente,

67
Vide Veyne 1957 177-241. Lo Cascio 2000 223-293. Lo Cascio 1999 329.
68
Hist.Aug. Hadr. 1.2.
69
Hist.Aug. Hadr. 1.4.
70
Syme 1964 142.
71
D.C. 69.1.
72
Hist.Aug. Hadr. 1.
73
D.C. 69.1.

192
o exército aclamou Adriano como imperador de Roma e este, ato contínuo,
escreveu ao senado para apresentar seu mais alto respeito e para indagar sobre
os títulos imperiais. Apesar da desconfiança, o senado e o povo reconheceram
o novo imperador, mas é bom frisar que a relação do novo herdeiro com o
senado não era muito boa74.

10. Adriano (117-138)

Adriano governou de 117 a 13875. Era conhecido como o imperador cosmo-


polita. Foi o grande artífice da civilização bilíngue do Império, a representação
de um império greco-romano. A sua biografia foi narrada por Díon Cássio,
Aurélio Vitor, Eutrópio e pelo autor da História Augusta. Mário Máximo também
escreveu sobre a sua vida, mas a obra se perdeu. Na História Augusta há menção
a uma autobiografia, a qual, infelizmente, tampouco chegou à atualidade.
Adriano, assim como Trajano, era de origem hispânica. Nasceu, possivel-
mente, em Itálica76. O autor da Vida de Adriano na História Augusta sugere
que ele tenha nascido em Roma 77. Seu pai, o senador romano de origem his-
pânica, Públio Élio Adriano Afro, era primo de Trajano 78. Teve uma carreira
brilhante, foi pretor em 104 e cônsul sufecto em 108. Exerceu ambas as ma-
gistraturas antes da idade mínima 79. Em 111 ou 112, ele foi eleito como
arconte de Atenas, uma honraria muito rara no cursus honorum, por ser uma
magistratura própria do mundo grego80. Segundo o autor da História Augusta,
em 113, Adriano foi nomeado legado na guerra contra os Partos, possivelmen-
te, graças à influência de Plotina 81. Em 116, Trajano o fez legado na Síria82.
Adriano acompanhou Trajano em quase todas as suas batalhas, na Germânia,
na Dácia e no Oriente (Mesopotâmia). Seguramente, na corte de Trajano,
Adriano era o mais apto a substituí-lo, mas o jovem tinha um grande número
de inimigos, sobretudo dentro do senado; as inimizades eram tantas que,
mesmo muitos anos depois, o autor da História Augusta – portador da ótica
senatorial - sugeriu, inúmeras vezes, que Adriano conseguia suas honrarias
graças à influência de Plotina, inclusive sua adoção, como foi mostrado acima.

74
D.C. 69.1.
75
Nasceu no dia 24 de janeiro de 76 e faleceu em 10 de julho de 138.
76
App. Hisp. 38.
77
Hist.Aug. Hadr. 1.3.
78
D.C. 69. 3. Hist.Aug. Hadr. 1.2.
79
Hist.Aug. Hadr. 3.8.
80
CIL 3. 550 ou ILS 308.
81
Hist.Aug. Hadr. 4.10.
82
D.C. 69.1.

193
*

Em agosto de 117, quando Adriano chegou ao poder, o Império Romano se


encontrava no seu apogeu territorial. O novo imperador, rapidamente, devido
às dificuldades militares do momento, rompeu com a política expansionista de
Trajano. Entretanto, não deixou de reforçar o limes no Danúbio, no Reno e na
Britânia. Adriano escolheu a via diplomática para amenizar os problemas do
Império, lançando mão de uma política estritamente defensiva. Com isso, aca-
bou por renunciar às importantes conquistas de Trajano, como a da Mesopotâmia,
Armênia e Assíria. Adriano cedeu aos Sármatas a região do Baixo Danúbio na
Dácia e concentrou-se, sobretudo, na Transilvânia, onde ficavam as minas de
ouro da Dácia, já que eram protegidas por uma barreira natural, os Cárpatos.
A nova fronteira oriental do Império se tornou o Eufrates, consolidando o limes.
Já no Ocidente, em um esforço semelhante, Adriano erigiu, em 122, uma mu-
ralha na Britânia conhecida como a Muralha de Adriano.
Ao abandonar a política expansionista de Trajano, o imperador entrou em
forte atrito com o senado, que queria dar continuidade ao espírito imperialis-
ta romano. Talvez, por isso, Adriano tenha sido vítima de uma conspiração logo
no início de seu principado. Contudo, a conjuração malogrou e Adriano con-
denou à morte os quatro senadores, ex-cônsules, que organizavam a conjuração.
Assassinou-os sem consultar o senado, em um gesto que só agravou a sua situação
junto aos patres conscripti.

**

Como imperador, Adriano reforçou o aparelho administrativo: criou


uma verdadeira carreira para a ordem equestre, que ficou incumbida dos
mais altos postos administrativos, que, antes, de modo geral, eram ocupados
por libertos imperais; introduziu os juristas no seu conselho, transforman-
do o Conselho do Príncipe (consilium principis) em um órgão oficial de
governo formado por funcionários altamente qualificados que eram pagos,
recebiam em torno de cem mil sestércios. Procurou unificar a legislação,
até então muito fragmentada, por meio do Édito Perpétuo, do famoso ju-
risconsulto Sálvio Juliano, de 131, que codificou e atualizou o direito
romano para os funcionários e juízes. Esse édito foi referência de poder até
o século V d.C., mas, infelizmente, não chegou na íntegra à atualidade,
senão através de citações e comentários em outros textos. Essas inovações,
no aparelho jurídico, foram aperfeiçoadas pelos Severos e o resultado pode
ser visto no Digesto 83.
Adriano cancelou as dívidas fiscais dos Romanos com o objetivo de atrair
para si a simpatia da população. Foi ao encontro dos pequenos proprietários

83
Vide: Digesto. Corpus Iuris Civilis, Digesta Iustiniani editado por T. Mommsen.

194
de terra, criando inúmeros incentivos e subsídios para a produção agrícola;
deu continuidade aos alimenta, de Nerva e Trajano, e reorganizou o traba-
lho de exploração de minas, pois durante o seu principado ainda se
exploravam as minas de ouro da Dácia 84, uma atividade muito rentável para
o erário. Erigiu monumentos em todo Império, notadamente em Roma,
onde ele reconstruiu o Panteão e erigiu um Templo em homenagem à deu-
sa Vênus. Construiu, próximo a Roma, a grande villa que leva seu nome:
Villa Hadriana.
Adriano acelerou o processo de integração das províncias romanas,
sobretudo a partir da concessão mais ampla da cidadania. Um senatuscon-
sultum decretou que toda romana casada com um latino (não romano) ou
peregrino, deveria ser, automaticamente, a mãe de um cidadão romano.
O número de cidadãos romanos provenientes da Hispânia aumentou con-
sideravelmente. Raros eram aqueles que não tinham os tria nomina 85. Isso
permitiu que muitos membros das elites provinciais se integrassem às ordens
senatorial e equestre.

***

Adriano concentrou-se em defender as fronteiras e, como representante


máximo da ordem imperial, não hesitou em reprimir com mão de ferro algumas
revoltas. A mais famosa delas se deu na província da Judeia. Adriano encon-
trou graves problemas nessa província, principalmente quando, em 132,
mandou reconstruir a cidade de Jerusálem, que estava em ruínas desde a sua
destruição por Tito, em 70. O projeto de construção era baseado nos moldes
de uma cidade grega, a moda na época de acordo com o espírito filelênico do
imperador. Adriano, então, construiu banhos públicos e estátuas de deuses
gregos foram espalhadas pela cidade. Os Judeus viram na nova forma da ci-
dade uma profanação dos seus costumes tradicionais, ao serem obrigados a
conviver com a vida grega “gentia”; outro grande motivo de revolta se devia
ao fato de Adriano ter proibido a circuncisão no Oriente; para os Judeus, esse
ato era um rito e sua proibição era uma afronta aos seus costumes. Os Judeus,
então, se insurgiram contra Roma, comandados por Simão Bar Kochba.
Os Romanos tiveram que lutar, novamente, contra os insurgentes e perderam
as primeiras batalhas. Os Judeus reconquistaram alguns territórios romanos
e lutavam pela independência. Conseguiram cunhar moedas e organizar um
Estado que ficou no seu estágio embrionário.
Depois de muitas batalhas sangrentas, os Romanos acabaram por sufocar a
revolta que durou de 132 a 135. Doze legiões tiveram que participar dessa
repressão. Após a vitória de Roma, Adriano decretou a expulsão dos Judeus de

84
Guey 1924 445-475.
85
Roman 2000 266.

195
Jerusalém, escravizou e vendeu parte dos sobreviventes. A cidade de Jerusalém
foi reconstruída, assim como as demais cidades do Império, seguindo o mode-
lo de uma cidade grega, sendo rebatizada de Élia Capitolina. No lugar do
templo de Jerusalém, erigiu-se uma estátua a Júpiter e, no Gólgota, erigiu-se
uma estátua à deusa Vênus. A província da Judeia também mudou de nome e
passou a ser chamada de Palestina; além disso, foi também anexada à província
da Síria, tornando-se Síria-Palestina. Dessa forma, Adriano tentou apagar a
memória da presença dos Judeus, sobretudo, em Jerusalém. Com essa guerra,
o imperador eliminou a possibilidade do renascimento do judaísmo em Jerusalém
durante o período romano.

****

Adriano ficou conhecido como o imperador ausente, pois sempre estava


viajando pelo Império86. Viajou 12 anos, no total de 21 anos de governo. Suas
viagens podem ser divididas em três blocos que vão de 121-126, 127-128 a
128-134. Essas viagens eram importantes para inspecionar o exército e, em
campo de guerra, levava a mesma vida que seus soldados. As viagens mostraram
uma situação inquietante do Império, devido à necessidade de defender o limes,
fruto disso foi a construção de uma muralha no norte da Britânia. Entre 121
e 134, visitou a Gália, a Germânia, a Britânia, a Mauritânia, o Oriente e a
África, notadamente o Egito. Mas era a Grécia que Adriano mais visitava e
pela qual expressava notória predileção. Construiu muitos monumentos por
onde passou e também aperfeiçoou, in loco, o sistema jurídico e administrati-
vo das cidades. Em Atenas, mandou completar a construção do Olimpeu,
templo de Zeus. Esforçou-se para transformar Atenas na capital cultural de
um Império dotado de duas línguas: o latim e o grego. Construiu um Império
ecumênico fortemente marcado por uma cultura helênica que se pode chamar,
nas palavras de Paul Veyne, de Império Greco-Romano. Para esse autor, a
inserção de Adriano no Oriente e seu filelenismo tiraram a hegemonia que
antes ficava somente em torno da capital e do seu senado. Adriano foi um
Nero que logrou êxito ao transformar seu amor pela cultura helênica em um
projeto político87. Com isso, observa-se, na época de Adriano, a emergência
de um verdadeiro Império integrado.
Segundo o autor da História Augusta, o amor de Adriano pelo mundo
grego, sobretudo pela literatura, rendeu-lhe o apelido de “gregozinho”
(graeculus) 88. Esse apelido, contudo, pode ter várias facetas, inclusive assaz
pejorativa, com insinuação às práticas homoeróticas de Adriano. Haja vista

86
Syme 1988.
87
Veyne 2005 51. Veyne 1976 654.
88
Hist.Aug. Hadr. 1.5. Vide Dubuisson 1991.

196
que ele ficou famoso ao ter tido alguns problemas com Trajano por conta de
ter sodomizado inúmeras vezes os libertos favoritos do imperador 89; todos
sabiam do gosto de Trajano pelos jovens rapazes90. Também, foi do conheci-
mento de todos, que ele levou a cabo a sua história de amor com um rapaz de
origem grega, Antínoo. Segundo o autor da História Augusta, na ocasião da
morte de Antínoo, Adriano “chorou como uma mulher” 91. O autor acrescen-
tou que Adriano, nos seus prazeres excessivos, gostava de escrever poemas de
amor aos seus favoritos 92, possivelmente em grego; gabava-se por cantar e
tocar a cítara. O apelido graeculus era, sem dúvida, uma forma sutil utilizada
pelos patres a fim de criticar o imperador no tocante ao seu amor pela diver-
sidade da cultura grega. Independente do caráter pejorativo da crítica, Adriano
foi um homem muito culto e apaixonado pela literatura grega. Segundo
Eutrópio, era muito eloquente em latim e muito erudito em grego93. Era vis-
to como um grande estudioso, disciplinado e inteligente. Por conta da sua
admiração pelos filósofos gregos (ou para esconder um defeito no rosto),
lançou a moda da barba, imitando o estilo dos velhos filósofos. A moda foi
difundida por todo o Império.
O final do seu principado foi marcado pela morte do seu favorito,
Antínoo, que, possivelmente, faleceu afogado no rio Nilo. No entanto, há
também a hipótese de que tenha sido assassinado. O desaparecimento de
Antínoo foi uma grande perda para o imperador, que se recolheu em luto
e consagrou um culto ao seu amado; fundou, no Egito, a cidade Antinópolis
e mandou esculpir inúmeras estátuas de Antínoo que foram espalhadas por
todo o Império. Essa história de amor foi imortalizada por Marguerite
Yourcenar no seu romance Memórias de Adriano 94 ; narrado em primeira
pessoa, como uma carta de Adriano a Marco Aurélio (futuro imperador que,
na época, era jovem) 95.
A partir de 134, o autor da Historia Augusta não menciona mais nenhuma
viagem de Adriano. Sabe-se que o imperador passou o final de sua vida, já
muito doente 96, na suntuosa Villa Hadriana, construída nas imediações de
Tíbur. Morreu em julho de 138 e deixou a sua sucessão organizada, preparan-
do duas gerações de imperadores.

89
Hist.Aug. Hadr. 4.5.
90
D.C. 68.7.4.
91
Hist.Aug. Hadr. 14.5.
92
Hist.Aug. Hadr. 14.8.
93
Eutr. 8.7.
94
Yourcenar 1951.
95
Nesse romance autobiográfico ficcional, Adriano escreveu sobre seus triunfos militares e
sobre seu amor pela poesia, música e filosofia. Outrossim, escreveu sobre sua história de amor
com Antínoo.
96
D.C. 69.17.20 e 22.

197
11. A sucessão imperial de Adriano a Antonino Pio

O casal Adriano e Sabina (assim como o casal Trajano e Plotina) não teve
filhos. Foi somente depois de 136 que o imperador começou a se preocupar
com o problema da sucessão. Nesse sentido, Adriano adotou Lúcio Ceiônio
Cômodo Vero, que recebeu o nome de Élio Cesar. Jérôme Carcopino defendeu
a tese de que Élio Cesar era um bastardo de Adriano, pois isso justificaria a
adoção 97, mas sua tese não é convincente. De todo modo, essa adoção não
gerou frutos, já que o adotado era de saúde frágil e morreu no dia primeiro de
janeiro de 138. Foi então que Adriano adotou um homem originário de Nimes,
na Gália, de carreira brilhante e de moral exímia: Tito Aurélio Fúlvio Boiônio
Árrio Antonino, que mais tarde se tornou Antonino Pio. A adoção teve condi-
ções claras: Antonino foi obrigado a adotar, de sua parte, o filho do falecido
Élio César que na ocasião tinha sete anos, Lúcio Ceionio Cômodo (futuro Lúcio
Vero) e Marco Ânio Vero, descendente direto de Trajano, que na ocasião tinha
dezessete anos (futuro Marco Aurélio). Antonino deveria ser intermediário até
que os jovens tivessem condições de assumir o trono.

12. Antonino Pio (138-161)

Antonino Pio98 era filho de Árria Fadila e de T. Aurélio Fulvo. O seu pai
foi cônsul em 89 e eram originários de Nemauso, na Gália (atual Nimes, na
França). À morte de seu pai, Antonino foi educado por Árrio Antonino, seu
avô materno. Antonino Pio casou-se com Faustina, a Antiga, com a qual teve
quatro filhos, dentre eles Faustina, a Jovem, futura Imperatriz, esposa de Marco
Aurélio. Sua esposa era conhecida na cidade de Roma pela sua notória sabedo-
ria e pelo fato de dedicar sua vida aos mais desprovidos. A sua morte, em 141,
significou um grande sofrimento a Antonino Pio, que se vestiu de luto por um
longo tempo e dedicou à esposa um templo em Roma (Diva Faustina).
Há poucas informações sobre Antonino Pio, o relato mais completo vem
da História Augusta99. A sua carreira política foi percorrida na época de Adriano.
Depois de questor e pretor, tornou-se cônsul em 120. Foi nomeado por Adriano
como procônsul na Itália e depois na Ásia. Foi um distinto membro do consilium
principis de Adriano.
Antonino Pio, ao tornar-se imperador, teve como primeira tarefa convencer
o senado a divinizar seu pai adotivo. Não foi fácil convencer os patres, pois ti-
veram relações ruins com o falecido imperador. Após conseguir tal feito, recebeu

97
Carcopino 1958 6.
98
Nasceu no dia 19 de setembro de 86 e morreu no dia 7 de março de 161.
99
Hist.Aug. Ant. Pius.

198
o cognome de Pio100. Assim como Augusto, Antonino Pio recebeu o escudo do
senado proclamando a sua “pietas erga deos patriamque”101.
Para manter sua boa relação com o senado, Antonino Pio ab-rogou as de-
cisões de Adriano sobre o aparelho administrativo que formava o conselho do
príncipe e o conselho dos juristas que, de certa forma, excluía o senado. No
entanto, essa realidade reapareceu sob Marco Aurélio e foi colocada sob a res-
ponsabilidade dos iuridici 102. Durante todo seu reino, Antonino Pio prezou
pela boa relação com os patres, e esforçou-se para se diferenciar de seu pai
adotivo, ao ponto que raramente saiu de Roma.
Antonino Pio, por personificar as boas qualidades dos diferentes principados
e por ser dotado de grande moderação, prudência e equanimidade, foi o pivô
da dinastia, que carrega o seu nome. Seu filho adotivo e genro, Marco Aurélio,
elogiou vivamente Antonino em suas Meditações103: “Em tudo, agi como discí-
pulo de Antonino Pio”. O imperador continuou o elogio dando relevo ao
caráter moderado, justo, humilde, paciente e piedoso de seu pai adotivo. Foi
durante seu reino que Aristides pronunciou o seu famoso discurso sobre o quão
era maravilhoso viver no Império. Seu principado foi considerado a belle époque
do Império Romano. Elio Lo Cascio sugere que a época de Antonino Pio foi
um verdadeiro “verão indiano”, com um Império seguro, pacífico, tranquilo,
que proporcionava qualidade de vida aos seus habitantes104. Seu governo foi
muito próspero economicamente, pois aumentou as reservas do Império e
houve um grande enriquecimento das províncias.
Seu principado foi muito pacífico, apesar dos problemas militares no Egito
e na Mauritânia, na década de 140. Uma revolta na Britânia levou o imperador
a erigir uma Muralha que leva seu nome, assim como fez Adriano; mas foi
rapidamente abandonada. Pouco viajou, resolveu os problemas sem sair da
Itália. Alguns historiadores o acusam de grande inércia, de não ter previsto os
problemas nas fronteiras do Império e de ter passado uma bomba relógio a
Marco Aurélio.
O principado de Antonino Pio foi o mais longo desde o de Augusto. Faleceu
na Etrúria, em 7 de março de 161. A última palavra de Antonino Pio foi “equa-
nimidade”. Seu corpo foi depositado no Mausoléu de Adriano. Em sua
homenagem foi erigida uma coluna no Campo de Marte.

100
Há outra versão sobre o recebimento do cognome: seu sogro, já idoso, apoiava-se
sobre seu ombro ao entrar no edifício do senado, lembrando a tradicional imagem de Eneias
carregando seu pai Anquises. Simbolizava, dessa forma, a pietas, uma virtude tão apreciada
pelos Romanos
101
Devoção em relação aos deuses e à pátria, ou a consciência dos deveres em relação aos
deuses e à pátria.
102
Roman 2000 248.
103
Aur. Med. 6.30.
104
Lo Cascio 1999 336.

199
13. A sucessão imperial e os dois herdeiros de Antonino Pio

Antonino Pio não teve que se preocupar com a sucessão, pois foi fiel ao seu
pai adotivo, Adriano, que, antes de morrer, a organizara. Ele mudou pouca
coisa. A vontade de Adriano era que Marco Ânio Vero (mais tarde Marco
Aurélio) se casasse com a filha de Élio César, mas Antonino Pio o casou com
sua própria filha, Ânia Faustina, ou Faustina, a Jovem. No entanto, na “escolha
do melhor”, Antonino Pio demonstrava predileção por M. Ânio Vero, que era
um pouco mais velho que seu irmão adotivo Lúcio Vero. Na corrida pelas
honrarias, M. Ânio Vero, que nasceu em 121, destacava-se enormemente dian-
te de Lúcio Vero, que nasceu em 130. Em 139, Marco Ânio Vero se tornou
pretor. Posteriormente, ganhou o nome de César e recebeu o imperium pro-
consular juntamente com o poder tribunício. Os dois foram educados de forma
parecida, mas Lúcio Vero só se tornou pretor em 153 e nunca recebeu o título
de César.

14. Marco Aurélio e Lúcio Vero (161-169) e, então, Marco Aurélio (169-180)

Marco Aurélio nasceu em Roma no seio de uma família patrícia, com o


nome Ânio Catílio Severo 105. Era filho de um pretor romano, Ânio Vero.
Adriano o chamava de Annius Verissimus (o mais sincero). Era o preferido de
Adriano para herdar o trono. Porém, à sua época ainda era muito jovem.
Antonino Pio, adotado por Adriano, designou Marco Ânio Vero ao poder logo
no início de seu principado, em 25 de fevereiro de 138. Depois da adoção, seu
nome foi modificado para Marco Ânio Vero. Quando se tornou imperador, seu
nome foi modificado, definitivamente, para Marco Aurélio Antonino Augusto.
Sua biografia é conhecida por meio de Díon Cássio, Herodiano e Frontão, com
o qual trocou muitas cartas.
Em 145, depois que Antonino Pio anulou o casamento de Marco Aurélio
com Ceiônia Fábia, a filha de Élio César (como queria Adriano), Marco Aurélio
se casou com a filha de Antonino Pio, Faustina, a Jovem. Tiveram treze ou
quatorze filhos. Dois de seus filhos se destacaram: Lucila, que se casou com o
co-imperador Lúcio Vero, e Cômodo, que assumiu o trono de Marco Aurélio.
Apesar dos boatos dos autores da História Augusta sobre a infidelidade da es-
posa de Marco Aurélio, sabe-se que ele ficou muito afetado com a morte dela,
em 176, na Capadócia. Devido ao fato dela o acompanhar nas campanhas
militares, os soldados a chamavam, carinhosamente, de Mater castrorum, a mãe
dos campos de batalha.
Após a morte de Antonino Pio, Marco Aurélio e Lúcio Vero dividiram o
trono, sem dividir o Império, através de um pacto de fidelidade e cooperação.

105
Nasceu em 26 de abril de 121 e morreu em 17 de março de 180.

200
Não se conhecem os motivos que conduziram à primeira divisão de poder do
Império, além da adoção e do respeito à vontade de Adriano e de Antonino
Pio - de qualquer maneira, eram ambos Augustos106.
Díon Cássio demonstrou grande admiração por Marco Aurélio, apresen-
tando-o como um grande estudioso. Mesmo como imperador, ele não se
envergonhava de procurar os seus professores, como o filósofo Sexto da Beócia
e o professor de retórica Hermógenes de Tarso. Era um homem de grandes
virtudes. Durante seu principado enfrentou dificuldades extraordinárias, mas
conseguiu sobreviver e salvar o Império107. Para Herodiano, Marco Aurélio era
perfeito no que se refere à prática das virtudes do homem romano 108.
Durante o principado de Marco Aurélio, houve perseguição aos cristãos.
Em 165, Justino morreu em Roma, tornando-se um mártir. Em 177, houve
uma grande perseguição em Lugdunum, atual Lyon, tendo como mártir prin-
cipal Blandina, que se tornou santa. Para Marco Aurélio, o cristianismo se
servia das paixões para instalar uma moral sem ligação com a natureza. Não
suportava o “fanatismo dos cristãos” e não tolerava o “fetichismo” por Cristo,
e por isso os perseguiu, considerando-os um perigo ao Império.
Deixou uma grande marca na dinastia, pois é conhecido como o imperador
filósofo, por sua dedicação ao estoicismo. Herodiano afirmou que, de todos os
príncipes que tomaram para si o título de filósofo, Marco Aurélio foi o único
que o mereceu.109 Marco Aurélio escreveu a famosa obra Meditações110. O impe-
rador estoico, ao longo de suas Meditações, coloca em destaque os mais altos
valores humanos: a prudência, a justiça, a coragem e a temperança. Marco Aurélio
os utilizou no exercício do seu poder. Ele se preocupava com a precariedade da
existência humana, a fugacidade do tempo, da memória, que englobam todos
os homens, grandes ou pequenos, no esquecimento e na morte111. O imperador
da paz, que tinha o bem como fim, acabou por se transformar no imperador da

106
Há analogias do poder que Marco Aurélio dividiu com Lúcio Vero com as Instituições da
República Romana, quando o poder era dividido entre os dois cônsules. Esse tipo de sistema só se
repetiu quando Diocleciano estabeleceu a tetrarquia imperial.
107
D.C. 71.
O príncipe deveria ser virtuoso para que os cidadãos o imitassem. Segundo Aurélio Victor,
108

Marco Aurélio foi um dos imperadores mais homenageados em vida e depois de sua morte, com
colunas, templos e sacerdotes. Aur. Vict. 16. 1.
109
Herod.1.
110
Foi iniciado à filosofia muito cedo e teve Diogneto como mestre e logo depois Apolônio
da Calcedônia. Em literatura grega foi aluno de Sexto da Queroneia, neto de Plutarco. Nas letras
latinas e na retórica, teve como mestre Frontão, o mais famoso orador de seu tempo. Com Frontão,
Marco Aurélio trocou algumas correspondências que dão preciosas informações sobre sua vida e o
funcionamento da corte imperial antonina, (Fronto Ep.) de 139 até 166, ano da morte de Frontão.
111
Para Marco Aurélio, o objetivo do homem seria viver de forma digna o seu presente, desem-
penhar seu papel como ser útil ao bem comum, pois os indivíduos, ligados à natureza, construiriam
um todo que é o universo, já que o fim último da vida era o bem (Aur. Med.).

201
guerra. Ele buscou a paz, mas a guerra lhe foi imposta por um contexto difícil,
o mais complicado de toda a dinastia. Enquanto Trajano erigiu uma coluna de
uma guerra ofensiva que só enriqueceu Roma, Marco Aurélio, por sua vez,
erigiu uma coluna de guerra defensiva que só empobreceu Roma e seu Império.
O Principado nunca se recuperou dessa crise.

Quando Aristides proferiu seu discurso em 143, estava convencido que


o Império Romano tinha atingido o seu apogeu e que as guerras não mar-
cariam mais as vidas dos Romanos. Ele mal sabia que em menos de duas
décadas o Império estaria envolvido em difíceis guerras no principado de
Marco Aurélio 112. Se Trajano conquistou novos territórios, Marco Aurélio só
pôde defender o limes. Seu principado foi o palco de conflitos contra os
Partos e contra os Germanos.
No mesmo ano em que Marco Aurélio ascendeu ao trono, os Partos inva-
diram algumas províncias orientais do Império, notadamente a Armênia, que
estava sob o protetorado romano. Os Germanos tentaram penetrar na Gália.
O imperador tinha que se dividir para defender as duas fronteiras. Dessa forma,
Marco Aurélio enviou seu co-imperador, Lúcio Vero, para guardar as fronteiras
no Oriente e ele mesmo se ocupou das fronteiras na Germânia. No combate
aos Partos, os Romanos se depararam com uma derrota. No Oriente, as opera-
ções mais importantes ficaram a cargo de Estácio Prisco e Avídio Cássio.
Instalaram-se em Antioquia e, pouco a pouco, entre 162 e 166, os Romanos
reconquistam seus territórios pilhando Selêucida do Tigre e a capital Ctesifonte.
Em 166, na ocasião do triunfo dos dois imperadores, os Romanos foram
confrontados com uma tragédia ainda maior, a peste antonina. Esta dizimou
parte da população romana e gerou grandes consequências sociais e econômicas.
Para piorar o cenário, os Romanos também tiveram que conviver, no início do
principado de Marco Aurélio, com a grande inundação do Tibre em 161 (rio
que corta a cidade de Roma) e o terramoto em Cízico, na Anatólia.
A guerra com os Partos mal havia acabado e o governo de Marco Aurélio
tinha um desafio ainda maior, a guerra com os germanos Marcomanos insta-
lados à margem do Danúbio. Estes ameaçavam invadir a Gália e, depois, a
Itália. Em 169, Lúcio Vero morreu nas fronteiras do Oriente, sempre fiel ao
seu irmão adotivo. A partir de então, Marco Aurélio teve que enfrentar os
problemas sozinho. Durante mais de cinco anos, de 169 a 175, Marco Aurélio
conviveu com a ameaça dos Marcomanos. Teve como grandes apoiadores
Cláudio Pompeiano e Pertinaz. Concomitante à guerra contra os Marcomanos,
outra questão assolou o Império. Em 175, o rumor da morte de Marco Aurélio
conduziu Avídio Cássio, governador de um grande território no Oriente, a

112
Alfoldy 1989 172.

202
se autoproclamar imperador graças a uma conjuração no Egito e em algumas
províncias orientais. Públio Márcio Vero, governador da Capadócia, fiel a
Marco Aurélio, ajudou-o até que ele pudesse organizar as legiões danubianas
para marchar sobre Avídio Cássio. Nesse ínterim, apesar do perdão de Marco
Aurélio, o senado declarou Avídio Cássio inimigo público. Não foi necessário
um confronto direto, pois em 175, um centurião de Avídio Cássio o assassi-
nou durante uma revolta, depois de três meses de reinado. A cabeça de Avídio
Cássio foi enviada a Marco Aurélio, e este se recusou a vê-la, exigindo que
fosse enterrada dignamente 113.
Após o conflito com Avídio Cássio, Marco Aurélio resolveu viajar pelo
Oriente com sua esposa e com seu filho, Cômodo. Visitaram a Cilícia, a Síria,
o Egito, Esmirna e Atenas. Sua esposa faleceu durante essa viagem e o impera-
dor se recolheu em luto. No final de 176, o imperador realizou os triunfos da
vitória sobre os Germanos. O triunfo foi efêmero, pois, em 177, Marco Aurélio
teve que retornar à fronteira danubiana com seu filho, Cômodo, para conter
outra revolta. Marco Aurélio adoeceu na Panônia, e morreu em 17 de março
de 180, provavelmente em Vindóbona (atual Viena, capital da Áustria), como
suposta vítima da peste114. Para Díon Cássio e Herodiano, Marco Aurélio foi
o último imperador de uma Roma feliz115.

15. A sucessão imperial de Marco Aurélio a Cômodo

Quando Antonino morreu, toda a sucessão já tinha sido minuciosamente


organizada. Ele tinha dois herdeiros, Marco Aurélio, o preferido, e Lúcio Vero.
Em 169, com a morte de Lúcio Vero, Marco Aurélio governou sozinho e, depois,
seu filho se tornou co-imperador. No seu caso, a sucessão não foi um problema,
pois ele era o único dos Antoninos a ter herdeiro direto. Cômodo foi o her-
deiro de seu pai, pois todos os outros seus irmãos tinham morrido. Se ele
sobreviveu não seria um sinal dos deuses que ele deveria herdar o trono? Sim,
os antigos entenderam que os deuses o haviam escolhido. Em 166, o próprio
Marco Aurélio lhe concedeu o título de César. Em 176, recebeu o título de
imperator e, no dia primeiro de janeiro de 177, tornou-se cônsul. No mesmo
ano, recebeu o nome de Augustus, podendo, a partir de então governar com seu
pai, que morreu poucos anos depois, em 180. Segundo Díon Cássio, a morte
de Marco Aurélio simbolizou o fim da Idade de Ouro e início da época de
ferro e ferrugem116.

113
Hist.Aug. Avid. Cas.
Díon Cássio defendeu que Marco Aurélio fora envenenado pelos seus médicos por ordem
114

de Cômodo, que já era co-imperador desde 177 (D.C. 71).


115
D.C. 72. 36.4 e Her. 2.14.3.
116
D.C. 71.36.

203
16. Cômodo (180-192)

Cômodo 117 nasceu da união do imperador Marco Aurélio com Faustina,


a Jovem, filha de Antonino Pio 118. Teve um irmão gêmeo, Antonino, que
morreu aos quatro anos. Sua época foi narrada por Díon Cássio119, Herodiano
e pelo autor da História Augusta. Há poucas fontes sobre sua vida, e as exis-
tentes apresentam sempre uma visão negativa, de forte influência senatorial.
Foi o único imperador da dinastia Antonina a ascender ao trono por linhagem
sanguínea direta, o único porfirogênito.
Tradicionalmente, considera-se o principado de Cômodo como o perío-
do de 180 a 191. No entanto, ele foi corregente de seu pai a partir do dia
primeiro de janeiro de 177, quando recebeu o título de Augusto. Até à
morte de Marco Aurélio, eles governaram juntos. À morte do pai, na fron-
teira do Danúbio, em 180, não houve resistência do senado e nem do
exército para que Cômodo se tornasse imperador. Ele, que havia lutado ao
lado de seu pai 120 na guerra contra os Marcomanos, decidiu, logo no início
do seu principado, encerrar a política de guerra e propôs uma negociação de
paz com os Germanos. O exército romano continuou em campanhas no
Danúbio de 180 a 182. Dessa forma, voltou para Roma a fim de se apresen-
tar à plebe e assegurar seu poder. O senado não pareceu contente com o
abandono das políticas ofensivas de Cômodo. Assim como Adriano, que
abandonou alguns territórios conquistados por Trajano, Cômodo foi mal
visto pelo senado 121.
O início do seu principado foi marcado por uma conspiração originária
do próprio seio familiar, liderada pela sua irmã Lucila, viúva de Lúcio Vero
(corregente de Marco Aurélio). Na ocasião, Lucila era esposa de Tibério
Cláudio Pompeiano; talvez o melhor general de Marco Aurélio. Essa cons-
piração teve o apoio do senado e enfraqueceu o governo de Cômodo, mas
não o derrubou. A irmã foi exilada e depois executada, e seu esposo foi
afastado da vida pública. Cômodo se aproximou cada vez mais do seu cír-
culo privado de amigos e favoritos, distanciando-se do senado, de forma a
piorar uma relação que nunca foi boa. Também procurou apoio do prefeito
do pretório, inicialmente, junto a Perênio, em 182, e, em 185, junto a
Cleandro, um liberto imperial que se tornou equestre. As intrigas na guar-
da pretoriana eram constantes, ao ponto que, em 190, Cleandro foi
substituído por Leto.

117
Nasceu em 31 de agosto de 161 e morreu em 21 de dezembro de 192.
118
Sua mãe, quando grávida, sonhava que daria à luz serpentes. Hist.Aug. Comm. 1. 3.
119
D.C. 72.
120
Eutr. 8.
O fato de o senado detestar Cômodo foi um motivo a mais para o autor da História
121

Augusta ver nele um homem extravagante, depravado e irresponsável? Possivelmente sim.

204
*

Cômodo ficou conhecido pela posteridade como o imperador que era apai-
xonado pelos jogos. Jogos estes que seu pai havia proibido e que, desde a
época de Plínio122, já não eram bem-vistos pela elite senatorial. Os senadores
o viam como um herdeiro de sangue de saúde mental frágil que era dominado
por um liberto. Ao restabelecer os jogos, Cômodo foi, novamente, de encontro
à ótica senatorial. Segundo o autor da História Augusta, o gosto de Cômodo
pela violência foi prematuro. Aos doze anos de idade já demonstrava uma
certa perversidade123. No entanto, ao se aproximar dos jogos, Cômodo ganha-
va o coração do povo. Não só oferecendo espetáculos e até participando deles,
mas também, utilizando um certo carisma religioso, levando a Roma deuses
estrangeiros e promovendo o culto a Júpiter, pai de Hércules. Para aproximar-
-se do povo, desceu ao posto de gladiador no anfiteatro. Como era devoto a
Hércules, autodenominou-se Hércules Romano, exigindo culto a si mesmo
como se fosse a reencarnação do deus 124. E, como se considerava um deus,
mudou o nome de Roma para Colônia Comodiana125.

17. O final da dinastia Antonina

O final do principado de Cômodo foi marcado por várias conjurações. Em


uma delas, ele sucumbiu, quando Márcia, sua concubina, juntamente ao pre-
feito do pretório, Leto, assassinaram-no na virada do ano de 192 para 193.
Jovem, sem filhos e sem herdeiros adotados, ele deixou o Império em situação
difícil e, na falta de um Antonino, a dinastia viu seu fim. O senado, mais que
depressa, reservou a Cômodo o mesmo destino de Nero e de Domiciano, a
damnatio memoriae126. Imediatamente, após sua morte, Pertinaz vestiu a púr-
pura, mas foi logo assassinado. Em 193, após alguns conflitos, o Império foi
entregue ao então Governador da Panônia, Septímio Severo 127. Quando este se
tornou imperador, para ganhar a simpatia da plebe e do exército, obrigou o
senado a divinizar Cômodo. O senado, a contragosto, obedeceu. Isso mostra o
quanto o falecido imperador era amado pelo povo. Os Severos, por sua vez,

122
Plin. Ep. 9.6.
123
“Já em criança era guloso e depravado. Quando jovem desonrou todo o tipo de homens do
seu redor e por todos era desonrado. A quem se ria dele lançava-o aos animais selvagens...” (Hist.
Aug. Comm. 10).
124
Hist.Aug. Comm. 8.5.
125
Hist.Aug. Comm.8.6.
126
Her. 1.14.8.
127
Vide os detalhes da transição de poder em Gonçalves 2007.

205
tentaram se filiar aos Antoninos quando Septímio deu o nome de Antonino ao
seu filho, Caracala128.

18. A perspectiva senatorial e o retrato da dinastia Antonina

Os escritores, historiadores e biógrafos da época antonina não ousaram criticar


a vida de seus próprios soberanos como fizeram com outros, por razões óbvias.
Embora o regime fosse louvado, pelo menos no campo da retórica, como o reino
da paz e da liberdade, a realidade era diversa. Se o imperador não gostasse de sua
própria história ou biografia, o risco de morte do escritor seria considerável. Quase
tudo que se conhece sobre o Império Romano foi escrito na época Antonina, pois
a maior parte dos escritores, historiadores e biógrafos que chegaram à atualidade,
viveram nessa época: Plínio, o Jovem, Tácito, Suetônio, Aristides, Plutarco e
outros. Eles tinham algo em comum, pois de modo geral, eram bastante influen-
ciados pela ideologia senatorial, sendo alguns deles senadores, e eram de origem
provincial (exceto Suetônio, cujo local de nascimento é incerto). Esses provinciais,
vivendo em Roma, pareciam mais romanos que os próprios Romanos de origem.
Na época de Trajano, a alegria de ser romano, mesmo para os provinciais, atingiu
seu auge129. Díon Cássio, Herodiano e posteriormente os escritores da História
Augusta também tinham essas questões em comum com os primeiros.
De todos os imperadores, Nerva foi o mais bem visto, pois era membro do
senado e assegurava uma excelente relação entre o poder imperial e os senadores.
Pelo que tudo indica, antes mesmo do assassinato de Domiciano, fora escolhi-
do pelos patres. Prometeu que nenhum senador seria morto no seu reino.
Colocou um ponto final nas perseguições aos seus pares e devolveu, aos exila-
dos, os bens confiscados por Domiciano.
Sobre as relações entre Trajano e o senado, nem é necessário aprofundar-se
muito, basta ler o Panegírico a Trajano de Plínio, O Jovem. Trajano foi bem-
-visto pelos senadores, pois jurou não exercer o autoritarismo sobre os patres e,
como Nerva, deu sua palavra que nenhum senador seria julgado sem a partici-
pação dos pares 130. Também tirou do exílio inúmeros senadores e equestres,
devolvendo-lhes os bens confiscados por Domiciano. Tamanha generosidade
lhe valeu o título de pater patriae, ofertado pelo próprio senado. Dando provas
de uma política de equidade juntamente com o senado, Trajano reafirmou sua
própria posição como sendo o primeiro entre os pares - primus inter pares.
Bastou isso para que Plínio, o Jovem, o considerasse como “um dos nossos”131.

128
Hist.Aug. Sev. 9 e Gonçalves 2007 3.
129
Roman 2000 244.
130
D.C. 68. 5.
131
Plin. Pan. 2.4.

206
Plínio escreveu que Trajano teria dito que o príncipe não estava acima das leis,
mas as leis estavam acima do príncipe 132. Apesar dessa política de aparente
igualdade, o próprio Plínio destacou que tudo dependia da vontade de um só
homem, Trajano133. Como prova de deferência, o senado prestou a Trajano uma
grande homenagem, concedendo-lhe um título honorífico Optimus Princeps,
em referência a Júpiter, deus conhecido como Optimus Maximus. A posterida-
de o consagrou como o melhor de todos os príncipes. Diante dessas relações
com o senado, não é à toa que ele foi tão louvado. O mesmo não aconteceu
com o seu sucessor, Adriano.
Adriano centralizou o poder e, ao ter à sua disposição o consilium principis
para ajudá-lo, ignorou, de certo modo, o senado. Isso só contribui para aumen-
tar o ódio dos senadores por Adriano. Já a ordem equestre gozou de mais
prestigio durante seu principado e isso não agradou ao senado, que se sentiu
preterido. A própria adoção de Adriano foi questionada, pelo menos oficiosa-
mente, por muitos membros do senado. A situação se tornou ainda pior
quando, logo no início do seu principado, depois de ser vítima de uma cons-
piração, Adriano executou quatro ex-cônsules conspiradores, entre eles Lúcio
Quieto (comandante da cavalaria à época de Trajano). As execuções foram
ordenadas sem o acordo prévio dos senadores. A Cúria se distanciou ainda mais
de Adriano e ficou apavorada, pois a qualquer momento um deles poderia ser
uma nova vítima, já que o novo imperador não se comportava como os seus
predecessores, Nerva e Trajano. A situação hostil com o senado piorou, de vez,
quando Adriano compeliu um de seus parentes, o senador Lúcio Júlio Urso
Serviano, que já tinha mais de noventa anos, ao suicídio. Adriano desconfiava
que este buscava a sucessão imperial para o seu neto, que também teve que se
suicidar. Essa decisão causou revolta entre os patres, que outra vez não foram
consultados sobre a morte do senador. Foram raros os momentos em que Adriano
e o senado se deram bem, mas com Antonino Pio o quadro foi diferente.
Antonino Pio, de tão querido pelo senado, conseguiu divinizar Adriano com
o consentimento dos patres. Tal feito lhe valeu o nome de Pio, uma grande
deferência. Esforçou-se, continuamente, para manter boas relações com o se-
nado, chegando ao ponto de deixar de lado as reformas administrativas de
Adriano que não prestigiavam os patres. Marco Aurélio foi um dos mais admi-
rados. Apesar de ter sido o imperador que enfrentou mais problemas no
conjunto do Império, continuou a ser louvado pelos autores senatoriais que
viam nele uma grande fonte de moderação134.
Quanto a Cômodo, Herodiano escreveu que o Império Romano foi gover-
nado com dignidade somente até Marco Aurélio. Já nas mãos de Cômodo, o

132
Plin. Pan. 64-65.
133
Plin. Ep. 3.20.12.
134
Para Herodiano, os tempos de Marco Aurélio eram sempre recordados com prazer: Her.
2. 14. 3.

207
Império foi entregue aos erros de sua juventude, que eram atribuídos aos adu-
ladores e conselheiros, sempre cúmplices da infâmia imperial 135. Esse imperador
foi, certamente, o mais criticado pelos historiadores e biógrafos. Essas críticas
senatoriais aparecem de forma clara na sua biografia da História Augusta. Díon
Cássio o considerava como um grande assassino, ao ponto de escrever que tor-
naria sua escrita entediante se descrevesse todas as vítimas do jovem imperador 136.
De acordo com a visão dos senadores, Cômodo não demonstrava muito zelo
pelas tarefas quotidianas do seu governo. Durante muito tempo, manteve-se
isolado na sua propriedade em Lanúvio. A mentalidade senatorial pintou um
quadro obscuro de Cômodo, no qual ele é representado como um tirano irres-
ponsável, cruel e pervertido; como um imperador que se isolou da aristocracia,
a mais prestigiosa, e se aproximou de um pequeno grupo de conselheiros (assim
como Adriano). Como o senado pôde detestar tanto o filho de Marco Aurélio,
o excelente imperador admirado por todos? A própria mentalidade senatorial
resolveu esse problema ao duvidar da paternidade de Cômodo. Para Díon Cássio,
Faustina, a Jovem, era uma mulher de hábitos duvidosos e infiel que traía o
marido com marinheiros, atores teatrais e até mesmo com gladiadores137. Assim,
poder-se-ia explicar o gosto do jovem Cômodo pelos jogos violentos.
Como um imperador tão amado pela plebe e pelo exército138 pode ter tido
uma imagem tão execrável elaborada pelo senado? Se for acreditar piamente no
que prega a mentalidade senatorial representada nas biografias e histórias dos
imperadores, a vida de Cômodo, juntamente com a de Calígula, Nero, Domiciano
e, às vezes, a de Adriano, não mereceriam crédito algum. Adriano também era
querido pelo povo e pelo exército e assim como Nero, não foi poupado das crí-
ticas senatoriais. Não se pode esquecer que o Império se fundava em três poderes
com os quais o imperador tinha que se relacionar de modo equilibrado: o povo,
o senado e o exército. Muitos imperadores foram adorados pelo povo e pelo
exército, mas bastava ser detestado pelo senado – intérpretes dos fatos e produ-
tores de documentos – para que a sua imagem ficasse para sempre maculada.
Se os imperadores “inimigos” do senado foram retratados de forma execrá-
vel, as “inimigas” do senado, mulheres da domus imperial também não deixaram
de ser mal retratadas. São os casos de Agripina e Plotina. Muitos senadores
viam a aproximação de Adriano a Plotina como uma possível ameaça que re-
lembrava a relação de Agripina com Nero. As mulheres imperais – fossem elas
mães, esposas ou próximas do poder – não foram poupadas. No entanto, como
não era conveniente criticar as mulheres do presente, devido aos riscos corridos,
as mulheres do passado eram então criticadas para mostrar os problemas, na

135
Her. 2.10.3.
136
D.C. 73.4.1 e 73.7. 3. Díon aproxima a figura de Cômodo à de Domiciano.
137
Vide Levick 2014 81.
138
Her. 2.6.10.

208
visão senatorial, do próprio presente. Foi isso que historiadores e biógrafos da
época Antonina fizeram139.
Há duas formas de se analisar a produção senatorial e sua relação com a
época antonina. A primeira é a partir da análise dos escritores da própria
época, as testemunhas oculares, como, notadamente, Tácito e Suetônio. Eles
só conseguiram criticar o presente escrevendo sobre o passado, nesse caso, a
época júlio-cláudia. Faz-se necessário partir do princípio que, muito frequente-
mente, em período de opressão, toda escrita da história tende a ser militante.
Nesse sentido, os senadores da época de Adriano, que certamente se sentiam
ameaçados pelo príncipe, militavam tacitamente ao escreverem seus textos,
denunciando problemas do presente na análise do passado140. Dessa forma, ao
que tudo indica, Adriano foi atrelado à figura de Nero e ligado a vícios de
outros imperadores; foi o alvo desses escritores, pois eram coetâneos. Levando
em consideração que, no plano administrativo, Nero foi um bom imperador
e era querido pelo povo, faz-se necessário perguntar: o imperador Nero, pro-
duzido por esses autores da Época Antonina, seria realmente aquilo que foi
apresentado ou seria então um grito sufocado desses autores na tentativa de
criticar Adriano? Essa é uma questão que deve ser mais aprofundada em torno
dos elementos que os aproximam (filelenismo, homoerotismo, presença forte
de figuras femininas, etc.) 141. O escritor - seja ele historiador, biógrafo, etc.-
nunca evade seu próprio tempo.
A segunda forma de se estudar a documentação senatorial produzida sobre
a Época Antonina é a partir da análise da produção historiográfica e biográfica
concebida posteriormente à época relatada por autores dos séculos III e IV que
vai de Díon Cássio e Herodiano até aos autores da História Augusta. Esses
autores, também embebidos na ótica senatorial, tiveram mais distância dos
fatos e não correram os mesmos riscos que Tácito e Suetônio. Cômodo foi
claramente ligado à figura de Calígula, de Nero e de Domiciano. Díon Cássio
foi testemunha ocular do principado de Cômodo, mas só escreveu na época
dos Severos. Segundo José L. Brandão, quando se lê a biografia de Cômodo na
História Augusta, o leitor tem uma impressão de déjà vu que o transporta para

139
Díon e os escritores da História Augusta foram mais mordazes na elaboração do quadro
das mulheres Antoninas, sobretudo no de Plotina e de Faustina, a Jovem, pois quando escreve-
ram já havia passado muito tempo e a dinastia não estava mais no poder.
140
Tácito, antes de ser um historiador, era político, um senador. Suetônio, particularmente,
teve graves problemas pessoais com Adriano devido ao seu suposto envolvimento com a Impera-
triz Sabina.
141
Sabe-se que Tácito e Suetônio publicaram seus livros na época de Adriano e jamais pode-
riam criticar o imperador diretamente, caso contrário correriam riscos de vida. A única forma de
fazê-lo seria escrevendo sobre o passado, mas sempre de modo tácito e indireto, nas entrelinhas.
Destacaram nos predecessores, sobretudo Tibério, Calígula e Nero, os vícios proeminentes da
época de ouro. Eles obedeceram a uma ordem histórica natural, a de que os valores do presente
são indissociáveis do ato da escrita.

209
o texto de Suetônio sobre as vidas de Calígula e Nero142. Para Brandão, a vida
de Cômodo, na História Augusta, “reflete a mentalidade senatorial: representa
um forte ataque, usando como arma a moral tradicional.”143 Além disso, mer-
gulhados na mentalidade senatorial, os autores omitiram os bons feitos de
Cômodo que ajudariam a equilibrar a imagem do imperador, haja vista que o
ódio a Cômodo não era universal144. Então, os primeiros, testemunhas oculares,
criticaram a própria época nas entrelinhas ao abordarem o passado: a época
júlio-cláudia. Os segundos, Dion Cássio e Herodiano, devido ao distanciamen-
to, puderam ser mais audaciosos ao fazer críticas diretas aos Antoninos que, no
contexto deles, já estavam mortos. Os autores da História Augusta seguiram
nessa mesma linha e desvelaram como os patres conscripiti do século IV, ou
parte deles, viam e sentiam o mundo.
A perspectiva senatorial com relação a Adriano e a Cômodo - os dois impe-
radores antoninos que se distanciaram do senado - fica ainda mais clara quando
o estudioso de hoje se depara com o profundo conservadorismo aristocrático da
historiografia antiga, produzida pelas ordens dirigentes. Esse conservadorismo
é apontado por Fábio Faversani ao lembrar que os autores aristocráticos viam a
centralização do poder imperial e a consequente diminuição da influência da
aristocracia nas decisões políticas como fenômenos sempre condenáveis, pois
seriam portadores de perigosas tendências ao autoritarismo e à tirania145. Os
imperadores ideais, para essa perspectiva senatorial, foram aqueles que governa-
ram juntamente com a aristocracia, como Nerva, Trajano, Antonino Pio e Marco
Aurélio. É também nesse princípio que se baseiam Maquiavel e Gibbon. Essa
ideologia senatorial garantia aos membros da cúria a posição de destaque dentro
das relações de poder do Império. O senado e, por consequente, a escrita, era o
local de expressão deles, e é normal que o resultado fosse esse, pois era necessá-
rio, de alguma forma, defender-se. Louvar os amigos, mesmo quando não foram
tão competentes administrativamente - como Nerva (que teve dificuldades com
os pretorianos e com o exército) e Antonino Pio (que, de certo modo, fechou
os olhos para os problemas nas fronteiras) - e criticar os inimigos – como Adriano
e Cômodo (os dois amados pelo povo e pelo exército, sendo o primeiro deles
conhecido como bom general e bom administrador) – fazia parte do contexto
político no qual esses senadores estavam inseridos.
Desse modo, é notório que os imperadores que respeitaram as prerrogati-
vas senatoriais tiveram um bom retrato, mas aqueles que “desrespeitaram” o
senado foram jogados na lama e seus bons feitos relegados ao esquecimento.

142
Brandão 2007 133.
Brandão acrescenta que “histórias inventadas, fruto da maledicência dos inimigos que
143

Cómodo granjeou no senado, ficaram agarradas para sempre à reputação do imperador.” Bran-
dão 2007 142.
144
Brandão 2007 143-144.
145
Faversani 2007 146.

210
O problema é que na falta de documentação para se estabelecer uma compa-
ração, os textos de origem senatorial acabaram abundando. É essa visão que
se tornou tradicionalmente a mais assimilada. Em pleno século XXI, as visões
de Tácito e Suetônio que alimentaram Maquiavel e Gibbon ainda são proe-
minentes e a perspectiva senatorial continua a triunfar entre os historiadores;
ora aceita de modo automático, ora levemente questionada. Para mudar esse
quadro é necessário muito trabalho. Apesar do esforço dos estudiosos do
mundo antigo, infelizmente, está-se longe de apresentar esses imperadores de
forma mais clara. No entanto, reside aí toda a arte e encanto do oficio do
historiador. Uma possibilidade de saída, por exemplo, seria insistir em uma
pesquisa que parta de uma abordagem baseada no estudo de um paradigma
indiciário, com a análise comparativa de vários corpora documentais, e que
leve em consideração, efetivamente, o discurso da obra atrelado ao contexto
no qual foi concebida e conhecida. Ao estudar a época de Nero ou de outro
imperador produzida pelos autores da época Antonina, o historiador deve
prestar mais atenção na época antonina (contexto de produção do documento)
do que na época de Nero em si (sem ignorá-la, obviamente). Isso parece tão
óbvio, mas nem por isso é fácil e usualmente feito.
Ao se colocar esse paradigma senatorial em questão, abrem-se, inevitavel-
mente, muitas janelas para novas observações. Nesse sentido, é necessário
questionar a produção marcada pela perspectiva senatorial e sempre indagar se
Adriano e Cômodo (Calígula, Nero, Domiciano) não foram “vítimas” dessa
perspectiva ao terem sido retratados da forma como foram. Contudo, questio-
nar a perspectiva senatorial não significa que deva ser ignorada, por ser
partidária. A perspectiva senatorial dever ser pensada como um dos vários
elementos da sociedade romana, e jamais como um todo.
Portanto, o que chegou à atualidade sobre a dinastia Antonina a partir das
fontes escritas deve ser visto como uma “representação” de como a ordem sena-
torial via e sentia o mundo. Essa forma fica clara quando esses escritores, nutridos
por essa perspectiva, denunciaram, tacitamente, os problemas de sua própria
época ao escreverem sobre o passado de Roma.

Tábua cronológica

96 – (16 de setembro) assassinato de Domiciano.


96 – 98 – Marco C. Nerva.
96- Damnatio memoriae de Domiciano.
97 – Nerva adotou Trajano.
98 – Morte de Nerva
98-117 – Marco U. Trajano.
100 – (1º de setembro) Plínio, o Jovem, proferiu o Panegírico a Trajano.
101-102 – Primeira Guerra Dácica.
105-106 – Segunda Guerra Dácica.
106 – Anexação do reino Nabateu de Petra.

211
114-117 – Guerra Pártica
115 - 117– Revoltas judaicas no Egito, na Cirenaica, em Chipre e na Judeia.
117 – Morte de Trajano na Cilícia.
117-138 – Públio Élio Adriano.
118 – Assassinato dos 4 ex-cônsules.
120-125 – primeira grande viagem de Adriano.
c. 120 – Tácito redigiu os Anais sobre os Júlio-Cláudios de 14 a 66 d.C.
120 – Suetônio redigiu A vida dos doze Césares.
122 – Construção do Vallum Hadriani na Britânia.
126 – Morte de Plutarco.
130 – (outubro) fundação de Antinópolis, em homenagem a Antínoo.
131 – Édito Perpétuo.
132-135 – Revolta judaica liderada por Simone Bar Kokhba.
138 – Adoção de Tito A. Antonino.
138 – (10 de julho) morte de Adriano.
138-161 – Antonino Pio.
144 – Élio Aristides proferiu o Elogio a Roma.
147 – Marco Aurélio é associado ao Império.
161– (7 de março) Morte de Antonino Pio.
161-180 – Marco Aurélio.
161-169 – Marco Aurélio e Lúcio Vero dividem o poder.
161-166 – Guerra contra os Partos.
165-166 – Peste no Ocidente.
167 – Ataque contra os Marcomanos.
169 – (janeiro) morte de Lúcio Vero.
175 – Revolta de Avídio Cássio.
180 – (17 de março) morte de Marco Aurélio.
180-192 – Cômodo.
182 – repressão à primeira conjuração de Lucila e da nobilitas.
192 – Cômodo mandou executar vários senadores.
192 – (31 de dezembro) Morte de Cômodo na conjuração de Márcia.
192 – o prefectus urbi, Pertinaz, foi aclamado como imperador de Roma.

Bibliografia

Fontes

Amiano Marcelino: Galletier, E. (1968), Ammien Marcelin. Histoires. Tome I: Livres XIV-XVI, ed., trad.
Paris, Les Belles Lettres.
Apiano: Appien. Goukowsky, P. (1997), Histoire romaine. L’Ibérique. Tome II: Livre VI, ed., trad. Paris,
Les Belles Lettres.
Apuleio: Valette, P. (1940), Apulée. Les Métamorphoses. Livres I-III, ed., trad. texte établi par D. S. Ro-
bertson et traduit par. Paris, Les Belles Lettres.
Aulo Gélio: Marache, R. (1967), Aulu Gelle. Nuits Atiques. Tome I: Livres I-IV, ed., trad. Paris, Les Belles Lettres.
Aurélio Vitor: Dufraigne, P. (2002), Aurelius Victor. Livre des César. ed., trad. Paris, Les Belles Lettres.
CIL: Mommsen, T. ed. (1888), Corpus Inscriptionum Latinarum, BBAW, Berlim.
Digesto: Mommsen, T. – Krüger, P. – Watson, A. eds (1985), Corpus Iuris Civilis. Digesta Iustiniani. The
Digest of Justinian, Philadelphia, University of Pennsylvania Press.
Élio Aristides:  Gascó, F. – Ramírez de Verger, A. (1987), Elogio a Roma (introdução, tradução, notas).
Madrid, Editorial Gredos, 1987.

212
Dião Cássio: Gros, R. (1867). Dion Cassius. Histoire romaine. ed., trad., Paris, Librairie de Firmin Didot
Frères.
Eutrópio: Hellegouarc’h. J. (1999), Eutrope. Abrégé de l’histoire romaine, ed., trad. Paris, Les Belles Lettres.
Frontão: Fleury, P. (2003), Fronton. Correspondance. trad. Paris, Les Belles Lettres.
Herodiano: Esbarranch, J. (1985), Historia del Império Romano después de Marco Aurélio. ed., trad. Ma-
drid, Gredos.
História Augusta: Teixeira, C. A. – Brandão. J. L. – Rodrigues, N. S. (2012). História Augusta (tradução,
introdução, notas e índice). Classica Digitalia, Brasil, S. Paulo.
História Augusta: Chastagnol, A. (1994), Histoire Auguste. ed., trad. Paris, A. Coll. Bouquins, Robert
Laffont.
Marco Aurélio: Hadot, P. (1998), Marc Aurèle. Pensées, Écrits pour lui-même. ed., trad. Paris, Les Belles
Lettres.
Marcial: Izaac, H. J. (1934), Martial. Épigrammes. ed., trad. Paris, Les Belles Lettres.
Plínio, o Jovem: Zehnacker, H. – Méthy, N. (2011), Pline le Jeune. Lettres. Tome II: Livre IV-VI, ed.,
trad. Paris, Les Belles Lettres.
Plínio, o Jovem: Zehnacker, H. – N. Méthy. N. (2017). Pline le Jeune. Lettres. Livre X, ed., trad. Paris,
Les Belles Lettres.
Plínio, o Jovem: Durry, M. (1948), Pline le Jeune. Panéryrique de Trajan. ed., trad., Paris, Les Belles
Lettres.
Suetônio: Ailloud, H. (2011), Suetone. Vies des douze Césars. Tome III, Paris, Les Belles Lettres,
2011.
Tácito: Saint-Denis, E. (1942), Tacite. Vie d’Agricola. ed., trad. Paris, Les Belles Lettres.
Tácito: Wuilleumier, P. - Le Bonniec, H. - Hellegouarc’h. J. (1987). Tacite. Histoires. Tome I: Livre I,
ed., trad. Paris, Les Belles Lettres.
Tácito: Wuilleumier, P. - Le Bonniec, H. (1990). Tacite. Annales (livres IV-VI), ed., trad. Paris, Les Belles
Lettres.
Tácito: Le Bonniec, H. - Hellegouarc’h. J. (2002). Tacite. Histoires. Tome III: Livres IV et V, ed., trad.
Paris, Les Belles Lettres.

Estudos

Andreau, J. (2001), “La cité romaine dans ses rapports à l’échange et au monde de l’échange” in S. Lefe-
bvre org., Rome, ville et capitale de Jules César à la fin des Antonins. Paris, Vuibert, 254 – 277.
Alföldy, Géza (1989), História social de Roma. Lisboa, Presença.
Bennett, J. (1997), Trajan, Optimus Princeps. London, Routledge.
Birley, A. (2000), Hadrian to the Antonines in Bowman, P. Garnsey, Rathbone, D., The Cambridge Ancient
History. Cambridge, Cambridge University Press 132-194.
_____ (2002), Marcus Aurelius, a Biography. London, Routledge.
Brandao, J. L. (2007), “Cómodo: outro Calígula, outro Nero”. Humanitas 59, 133-146.
_____ (2009), Máscaras dos Césares – teatro e moralidade nas Vidas suetonianas. Imprensa da Universidade
de Coimbra, Coimbra
Brian, W. (1992), The Emperor Domitian. London, Routledge.
Carcopino, J. (1958), Passion et politique chez les Césars. Paris, Hachette.
Carrié, J.-M. - Rouselle, A. (1999), L’empire romain en mutation des Sévères à Constantin 192-337. Paris,
Seuil.
Castilho, J. (1906), Os dois Plínios: estudos da vida romana. Lisboa, Officinas Typographica Antonio Maria
Pereira.
Chausson, F. (2003), “Regards sur la famille de l’empereur Lucius Vérus” in F. Chausson – E. Wolff, orgs.
Consuetudinis amor. Fragments d’histoire romaine (IIe-VIe siècles) offerts à Jean-Pierre Callu. Rome, L’Er-
ma di Bretschneider 103-161.
____ (2005), “Varietés généalogiques, III – La génealogie d’Antonin le Pieux” in G. Bonamente – M.
Mayer, orgs. Historiae Augustae Colloquium Barcinonense, n. s. IX, Bari, 107-155.

213
____ (2007), “Varietés généalogiques, IV – Cohésion, collusions, collisions : une autre dynastie an-
tonine” in G. Bonamente – H. Brandt, orgs. Historiae Augustae Colloquium Barcinonense, n. s. X,
Bari, 123-163
Chastagnol, A. (1994), “Introduction” in Histoire Auguste. Texte traduit et noté par Chastagnol, Paris, A.
Coll. Bouquins, Robert Laffont, IX- CLXXXII.
Cizek, E. (1983), L’époque de Trajan. Circonstances politiques et problèmes ideologiques. Paris, Les Belles
Lettres.
Citroni, M. et alii (2005), Literatura de Roma Antiga. Tradução de M. Miranda e I. Hipólito. Lisboa,
Fundação Calouste Gulbenkian.
Coarelli, F. (1999), La colona Traiana. Roma, Editore Colombo.
Des Boscs-Plateaux, F. (2006), Un parti hispanique à Rome? Madrid, Casa de Velazquez.
Dubuisson, M. (1991), “Graecus, Graeculus, Graecari: l’emploi péjoratif du nom des Grecs en latin”
in S. Said, org. Ἐλληνισμός: quelques jalons pour une histoire de l’identité grecque. Leiden, Brill
315-335.
Esteves, A. M. (2013), “A morte de Nero em Suetônio”, Calíope (UFRJ), 26, 8-30.
Faversani, F. (2007), “Tácito, Sêneca e a historiografia” in F. Joly, ed., História e retórica, ensaios sobre
historiografia antiga. São Paulo, Alameda.
Gaia, D. V. (2010), “Em busca da educação romana: modelos plinianos para o príncipe português Dom
Luiz Filipe” in C. Beltrão et al. eds., A busca do Antigo. Rio de Janeiro, Nau Editora.
Garnsey, P. (1968), “Trajan’s Alimenta: some Problems”, Historia 17 367-381.
Gibbon E. (1989), Declínio e queda do Império Romano. São Paulo, Cia das Letras. Original de 1790.
Guarinello, N. (2013), História Antiga. São Paulo, Contexto.
Grant, M. (1996), The Antonines. The Roman Empire in Trasition. London, Routledge.
Grimal, P. (1991), Marc Aurèle. Paris, Fayard.
Gonçalves, A. T. M. (2007), “Rupturas e continuidades: os Antoninos e os Severos”, Fênix, 4 Ano IV.1
1-15.
_____ (2012), “Cômodo e a difícil tarefa de substituir Marco Aurélio: poder e legitimidade”, Phoinix
UFRJ 18.1, 112-133.
Gonzalez, J. org. (2000), Trajano emperador de Roma. Roma, “L’Erma” di Bretschneider.
Guey, J. (1966), “De “l’or des Daces” (1924) au livre de Sture Bolin (1958), guerre et or, or et monnaie”
in Mélanges d’archéologie, d’épigraphie, et d’histoire offerts à J. Carcopino, Paris Hachette 445-475.
Hammond, M. (1959), The Antonine Monarchy.  Roma, America Academy in Rome.
Le Roux, P. (1998), Le Haut-Empire romain en Occident, d’Auguste aux Sévères.  Paris, Seuil.
Lefebvre, S. org. (2001), Rome, ville et capitale de Jules César à la fin des Antonins. Paris, Vuibert.
Levi, M. A. (2000), Adriano, un vetennio di cambiamento. Bologna, Tascabili Bompiani.
Levick, B. (2014), Faustina I and II, Imperial Women of the Golden Age, Oxford, Oxford University Press.
Lo Cascio, E. (2000), “Gli alimenta, l’agricoltura italica e l’approvvigionamento di Roma” in El Lo
Cascio, Il Princeps e il suo Impero, Studi di storia amministrativa e finanziaria romana. Bari, Edi-
puglia 223-293.
_____ (1999), “Dai Flavi agli Antonini: Il consodolidamento del regime imperiale” in E. Gabba – D.
Foraboschi – E. Lo Cascio, E. eds., Introduzione alla Storia di Roma. Milano, LED.
Maquiavel (1883), Discourses on the First Decade of Titus Livy. Book 1, London, K. Paul, Trench e Co. Orig-
inal de 1503.
Martin, J.-P. (2014). “Les Antonins et les Sévères (96-235 ap.J.-C.)” in J.-P Martin – A. Chauvot – M.
Cebeillac-Gervasoni, Histoire romaine. Paris, Armand Colin.
Roman, Y. – Roman D. (2000), Rome: de la République à l’Empire. Paris, Elipses.
Roman, Y (2001), Empereurs et sénateurs, une histoire politique de l’Empire Romain. Paris, Payot.
_____ (2008), Hadrien, l’empereur virtuose. Paris, Payot. 
_____ (2013), Marc Aurèle, l’Empereur paradoxal. Paris, Payot.
Sartre, M. (1997), Le Haut-Empire romain, les provinces de Mediterranée orientale d’Auguste aux Sevères. Pa-
ris, Seuil.
Schiavone, A. (2005), “O século de ouro” in A. Schiavone, Uma História Rompida. Roma Antiga e Oci-
dente Moderno. São Paulo, Edusp, 15-31.
Syme, R. (1958), Tacitus. Oxford, Oxford University Press.

214
_____ (1964), “Hadrian and Italica”, The Journal of Roman Studies, 54, 142-149.
_____ (1980), “Guard Prefects of Trajan and Hadrian”, The Journal of Roman Studies, 70, 64-80.
_____ (1980), “The Imperial Finances under Domitian, Nerva and Trajan”, The Journal of Roman Stud-
ies, 20, 55-70.
Veyne, P. (1957-1958), “La table des Ligures Baebiani et l’institution alimentaire de Trajan”, M.E.F.R.,
69, 81-135 e 70, 177- 241.
_____ (1976), Le pain et le cirque, Paris, Seuil.
_____ (1991), La Société romaine, Paris, Seuil.
_____ (2005), L’Empire Gréco-Romain, Paris, Seuil.
Yourcenar, M. (1951), Mémoires d’Hadrien, Paris, Gallimard.
Winterling, A. (2009), Politics and Society in Imperial Rome. Oxford, Wiley Blackwell- Malden, John
Wiley and Sons.

215
(Página deixada propositadamente em branco)
8. Os jogos de gladiadores

Renata Senna Garraffoni1


Universidade Federal do Paraná/Brasil
ORCID: 0000-0002-4745-8161
resenna93@gmail.com

Sumário: O presente capítulo visa apresentar ao/a leitor/a os principais


desafios ao estudar os combates de gladiadores na Antiguidade Romana.
Está dividido em três partes: na primeira parte, de forma resumida,
discutem-se os principais conceitos sobre as lutas e a documentação para
estudá-las, na segunda as principais correntes historiográficas sobre o
fenômeno para, ao final, na terceira parte, propor o estudo da Epigrafia,
em especial as lápides de gladiadores e os escritos de parede de Pompeia
para deslocar o olhar do plano político dos jogos para o cotidiano dos
gladiadores e das pessoas comuns que frequentavam as arenas romanas.

Introdução

Os jogos de gladiadores são polêmicos. Na década de 1990, Wiedeman


(1995 XVI) afirmava que os estudiosos modernos tentaram evitar o tema em
diferentes momentos, mas os jogos foram muito populares no passado para
isso. Os gladiadores, os políticos que financiaram os espetáculos, os torcedores
que frequentavam as arenas, enfim, pessoas das mais distintas camadas da so-
ciedade romana, em diferentes períodos, deixaram registros sobre sua percepção
acerca dos combates, nos legando um corpus documental abundante e difícil
de ignorar. Talvez seja por isso que desde o século XIX, com mais ou menos
ênfase, os jogos de gladiadores voltam ao centro das atenções. Ora tidos como

1
A autora agradece, além dos organizadores do livro pelo convite em participar dessa obra
coletiva, aos seguintes colegas pelas trocas de ideias em diferentes momentos: Pedro Paulo Funari,
Ray Laurence e Richard Hingley. Institucionalmente, agradece ao Departamento e ao Programa de
Pós-Graduação em História da UFPR. A responsabilidade das ideias recai apenas sobre a autora.

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_8
exemplos da tecnologia romana, já que para que pudessem existir os jogos, os
romanos desenvolveram uma arquitetura própria resultando nas arenas, ora
tidos como exemplo da violência de Roma, em especial no pós-guerra, a histo-
riografia moderna varia bastante, trazendo à tona debates sobre violência,
moral, ética, identidade, conflito, domínio, poder e religião.
De fato, a particularidade do fenômeno, homens e, em alguns contextos
mulheres, lutando entre si diante de plateias, provoca as mais distintas rea-
ções entre os que aproximam do tema. Se pensarmos na popularidade de
filmes como Spartacus de S. Kubrick (1960) ou Gladiator de R. Scott (2000),
por exemplo, percebemos que a narrativa fílmica explora uma profusão de
emoções: do ódio ao amor, recolocam-se debates sobre violência, família,
identidade, religião, política para um amplo público leigo. Já na academia,
entre especialistas, as tentativas de explicar as lutas passam pelos mais dife-
rentes vieses, do político ao psicanalítico, do ético ao moral. Talvez o mais
interessante nesse processo seja que, entre leigos ou especialistas, o embate
passado e presente, identidade e alteridade nos faz pensar sobre nosso lugar
no mundo. Quando tratamos de um tema que choca a sensibilidade, as
reações são diversas e pensar sobre elas altera as percepções sobre a vida.
Nesse contexto, discutir os jogos de gladiadores é um caminho profícuo para
pensar sobre os múltiplos aspectos da história de Roma e de como nos po-
sicionamos diante do passado mais antigo.
Que escolhas fazer? Estudar ou não um tema como esse? Como se mover
diante de tantos documentos? Como aproximar desses gladiadores? Pelo viés
político? Pelo viés humano? Muitas dessas perguntas se fizeram presentes mais
de uma vez ao longo da pesquisa realizada entre 2000 e 2004 e, aos poucos,
foi definido o viés da narrativa a ser trilhada. Durante os anos de trabalho e
reflexões mais recentes, debater o cotidiano das pessoas comuns, daqueles que
lutaram nas arenas, que viveram, que tiveram medos e glórias ou que simples-
mente conhecemos apenas seu nome se tornou a prioridade. O enfoque nos
indivíduos foi se constituindo como olhar relevante por que os estudos sobre
as lutas nublam um pouco as pessoas, gladiadores ora eram sombras, ora mons-
tros, ora sedutores, mas nunca pessoas.
Explorar essa lacuna é, portanto, o viés central do capítulo que segue.
Mais do que uma análise global sobre o assunto, o capítulo pode ser enten-
dido como uma ferramenta crítica para aqueles que também se intrigam com
o tema, visando novos estudos que explorem aspectos sociais e culturais dos
combates. Nesse sentido, a partir da experiência anterior de trabalho
(Garraffoni 2005), o texto está dividido em três partes: alguns dados sobre
os jogos e a documentação disponível, as principais correntes historiográfi-
cas sobre as lutas e alguns comentários sobre os gladiadores a partir da
Epigrafia. Com essa estrutura, a ideia é construir um diálogo com os leitores
e as leitoras, compartilhando algumas inquietações sobre os jogos de gladia-
dores e sua relevância histórica.

218
1. Os munera

Ao estudar a Antiguidade sempre nos deparamos com as incertezas. Embora


muitas vezes estudiosos optem por construir metanarrativas acerca dos romanos,
as lacunas saltam aos olhos e nos obrigam a lidar com as ambiguidades e contra-
dições. No caso do tema dos jogos dos gladiadores não poderia ser diferente.
Saber com precisão quando se deu a primeira luta ou a última é quase impossível,
assim como é bastante improvável que saibamos ao certo como os combates foram
criados. O que sabemos é que, muito provavelmente, o primeiro combate reali-
zado em Roma foi em 264 a.C., em memória do falecido Iunius Brutus Pera, de
acordo com o registro de Tito Lívio (Ab urbe condita, 16). Mesmo que essa data
tenha chegado até nós, não há consenso entre historiadores e arqueólogos se os
combates tiveram origem na Etrúria e, diretamente, teriam chegado a Roma ou
na Campânia e, posteriormente, levados a Roma pelos etruscos (Mouratidis 1996).
Igualmente polêmicas são as considerações tecidas diante o Código Teodosiano
de 438 d.C. e que marca o fim dos combates no mundo romano. A grande
maioria dos estudiosos afirma que o cristianismo foi fundamental na sua ex-
tinção, mas Teja (1992) defende a importância de revisão desse argumento e
acredita que uma multiplicidade de fatores influenciou na interrupção dos
jogos: mudanças na economia, na política e no próprio gosto dos espectadores
pelos combates. Mas os debates não se encerram por aqui. Mesmo que tomemos
essas datas como balizas temporais, são quase sete séculos de lutas em um vas-
to território, o que nos leva a pensar sobre as continuidades e mudanças da
relação das pessoas com os jogos, seu funcionamento e suas normas. Ou seja,
os jogos foram dinâmicos na Antiguidade, envoltos em permanências e ruptu-
ras, o que desafia as percepções modernas dos estudiosos.
Talvez o pouco consenso que haja entre os estudiosos esteja relacionado ao
seu caráter funerário e religioso, no início familiar e, depois, aberto ao públi-
co. Lafaye (1896) apontou essa característica ainda no século XIX: mesmo que
no final do período republicano os combates deixaram o âmbito familiar e
passaram a ser feitos para um público amplo, essa mudança não alterou seu
caráter fúnebre, o nome seguiu munus e eles nunca se confundiram com os
jogos de teatro ou circo2. Os combates seriam, portanto, munus funebre e es-
tariam relacionados às obrigações que os políticos teriam para com a cidade
em homenagem a falecidos ilustres ou antepassados.
Essa mudança do caráter familiar para o de grande espetáculo é considerado
pela historiografia como um marco e foi interpretada de distintas maneiras: ora
vista como uma evolução natural do fenômeno, ora como ruptura que apontava
mudanças de comportamento e política com o nascimento do Império. Ou seja,

2
Munus, (pl. munera), é uma palavra de âmbito jurídico-social e pode ser traduzida como
“empenho”, “presente”, “tarefa”, “obrigação”, “gratificação”, isto é, como um dever que o cidadão deve
prestar aos demais. Para detalhes e sua relação com termos como municipium cf. Garraffoni 2005 20.

219
os espetáculos grandiosos que fazem parte do imaginário moderno, são somente
uma parte do fenômeno dos combates de gladiadores, mas expressa mudanças
concretas no cotidiano romano: há alterações nas legislações para sua realização
e manutenção, há um processo de reorganização do espaço urbano com a cons-
trução de anfiteatros de pedra, afastados do forum, e as uenationes (caçadas que
poderiam ser lutas entre homens e animais ou somente entre animais), que até
então eram apresentadas no circo, passam a constituir parte dos munera.
Estudar essa paixão dos romanos é, portanto, bastante complexo, na verda-
de um desafio, pois nos leva a pensar não somente nos membros da elite e sua
relação com ela, mas também nas pessoas comuns e no público anônimo, além
é claro, de seus protagonistas. Quando se pesquisa mais a fundo o fenômeno
no período imperial percebe-se que, a partir dele, é possível nos confrontarmos
com uma grande diversidade de concepções de mundo, logo de posições dian-
te desses espetáculos. A quantidade de registros que chegou até nós talvez seja
tão grande, embora fragmentada, devido ao envolvimento das pessoas e ao
volume de lutas ao longo do período imperial. Se pensarmos na documentação
escrita, encontraremos referências aos combates de gladiadores em tratados
filosóficos de Sêneca ou Apuleio, nas narrativas históricas de Salústio, Suetônio,
Tácito, nos escritos de Plínio, nas sátiras de Juvenal, Marcial e Petrônio, além
de escritos oficiais como as Res Gestae de Augusto ou do próprio o Digesto de
Justiniano, só para citar alguns exemplos3.
Há, também, uma diversidade de registros materiais: os relevos funerários
de cidadãos que propiciaram espetáculos com representações dos diferentes tipos
de gladiadores, moedas comemorativas, lamparinas de cerâmica, odres, pratos,
vasos ou mosaicos como os de Zlitene, no Norte da África. Nesta listagem é
possível inserir ainda, as lápides funerárias de gladiadores, grafitos parietais, suas
armas encontradas em Pompeia ou as centenas de bonecos de terracota espalha-
dos em diversas regiões. Isso sem mencionar os anfiteatros de pedra que, a
partir do período imperial, são construídos nas regiões mais longínquas e regis-
tram em suas arquibancadas nomes das famílias senatoriais ou da elite local, as
inscrições honoríficas, dedicatórias religiosas, as de caráter funcional ou mesmo
os anúncios de espetáculos nos fornecem algumas pistas sobre as complexas
redes de relações que se estabeleciam para realizar os munera.
Assim, espetáculo na arena de pedra, lutas de gladiadores e caçadas é o que
se constituiu ao longo do período imperial. Há uma carta bastante conhecida
de Sêneca a Lucílio em que menciona como se davam os espetáculos no mo-
mento em que vivia: além de caçadas e lutas de gladiadores, ocorriam as excuções
de crimosos – as que Sêneca repudia, já que para ele seria um simples massacre,
sem ética, misericórdia ou um espetáculo agradável aos olhos como os combates
tradicionais (Seneca, Cartas a Lucílio 1, 7, 3-4). Esse tipo de relato de Sêneca é
o que mais encontramos na documentação escrita, ou seja, menções breves das

3
Para uma listagem completa dos trechos de textos sobre os munera cf. Futrell 2007.

220
lutas marcam as posições dos autores, suas impressões ou opiniões acerca dos
jogos. Não há, portanto, uma descrição passo a passo do que ocorria nas arenas,
já que se espera que o ouvinte/leitor soubesse do que se tratava; portanto, o que
conhecemos são reconstruções a partir de textos e da cultura material feitas por
estudiosos, artistas ou escritos ao longo do tempo.
Pelos textos, sabemos, então, das opiniões, das críticas ou gracejos dirigidos
não só aos gladiadores como à audiência, além de algumas etapas dos eventos.
No que respeita a cultura material, as informações são mais diversificadas.
Lápides e grafitos, como veremos mais adiante, trazem informações sobre a vida
dos gladiadores e as pessoas próximas a eles; os anfiteatros, por meio das suas
inscrições, nos dizem quem financiava os jogos; bem como as arquibancadas
ainda apresentam registros de quem se sentava onde. Assim sabemos que quan-
do ocorriam lutas no período imperial, pessoas das cidades vizinhas tinham
lugares reservados, o que nos leva a crer que espetáculos de vários dias movi-
mentavam o comércio local. Nesse sentido, informações variadas, como essas
e muitas outras que podem ser retiradas da cultura material, nos dão um qua-
dro aproximado dos jogos no período imperial: sabemos que movimentavam
muitas pessoas, desde os membros das camadas aristocráticas, que doavam re-
cursos para sua execução, aos homens que cuidavam das vestes e armamentos;
os que contratavam os grupos de gladiadores, os que preparavam sua alimen-
tação, os collegia – assossiações que entre outras coisas poderiam ajudar a dar
um enterro digno aos gladiadores que eventualmente morriam em combate, as
amantes, entre tantos outros possíveis envolvidos.
Também é via cultura material, seja pintura de paredes, grafitos, mosaicos
lamparinas, cerâmica (copos, pratos, ânforas), por exemplo, que sabemos das
principais categorias de gladiadores: o samnita, o mais antigo tipo de gladiador
que carregava um escudo rectangular e espada curta; trácios que geralmente
portavam escudo quadrado, uma proteção no braço direito e poderiam empu-
nhar uma espada curva ou angulada; hoplômaco (hoplomacus), difícil de
reconhecer na iconografia por ser parecido com o trácio, portando espada reta
e um pequeno escudo; o reciário (retiarius), o mais simples de reconhecer de-
vido às suas cacterísticas singlares, o uso da rede e tridente; assim como o
mirmilão (murmillo) por ter um peixe esculpido no elmo; o secutor que lutava
contra o reciário e portava espada reta e um elmo pequeno e redondo para
dificultar ser preso pela rede do adversário; o eques, que lutava a cavalo, e o
provocator, de que temos menos informações.
Todos estes registros, mais do que nos fornercer dados concretos do que rela-
mente acontecia nas arenas, nos propiciam um corpus heterogêneo e complexo,
indícios de experiências de vidas e visões de mundo diversas que são transformadas
por historiadores e arqueólogos em documentos para seus argumentos. Dependendo
da maneira como os estudiosos escolhem e ordenam seu corpus de evidências surgem
os modelos interpretativos e as discussões sobre violência, ethos militar, política,
poder ou domínio. São algumas dessas leituras que serão discutidas a seguir.

221
2. A historiografia e as lutas de gladiadores: principais abordagens

2.1. Pão e Circo

Conforme comentado anteriormente, os estudos sobre os jogos de gladiado-


res variam ao longo dos séculos XIX e XX, mas é interessante notar que, no que
diz respeito ao início do Principado romano, nosso foco nesse capítulo, alguns
temas predominam: a ideia de que havia uma manipulação política das elites,
popularmente conhecida como ‘política do pão e circo’; a questão da violência
e a representação da alteridade. Nesse sentido, é interessante retomar brevemen-
te os principais argumentos dessas vertentes e explorar o aspecto cultural, menos
trabalhado na historiografia, mas nem por isso menos importante.
Iniciemos, então, com o mais conhecido: a relação entre política imperial
romana e as lutas de gladiadores. Os primeiros trabalhos a fazerem essa ligação
datam da segunda metade do século XIX e início do XX. Os trabalhos de Mommsen
(edição consultada 1983), Friedländer (edição consultada 1947), Meier (1881)
e os verbetes de Lafaye (1896) e Schneider (1918) são a base de muitos estudos
sobre o tema. Enquanto Lafaye e Schneider ainda são citados devido à grande
quantidade de dados que reuniram sobre os combates em seus verbetes, Mommsen,
Friedländer e Meier são referências importantes no campo de interpretação dos
jogos e espetáculos romanos. Entre esses três últimos, Meier é o que mais se
dedica aos jogos de gladiadores, enquanto Friedländer e Mommsen, por terem
escrito obras de maior fôlego sobre o Império, dedicam partes de seu trabalho
aos gladiadores em específico. No entanto, são Mommsen e Friedländer que
fundamentaram aquilo que se tornaria conhecido como ‘política do pão e circo’.
Críticos do ócio romano, ambos fizeram leituras das obras de Sêneca e Juvenal
repreendendo o excesso de luxo da aristocracia e, ao mesmo tempo, o ócio po-
pular. Mommsen não usa diretamente a expressão ‘pão e circo’, mas critica
enfaticamente o desinteresse da plebe pelo trabalho e sua paixão pelos jogos.
Já Friedländer, contemporâneo de Mommsen, é mais explícito em sua argu-
mentação e, talvez, seja o primeiro a afirmar que os jogos de gladiadores se
constituíam em um instrumento de manobra política da aristocracia (Friedländer
1947 498). Como caracterizou a população romana com termos como ‘turba’ ou
‘massa’, Weeber (1994 166) chegou a afirmar que Friedländer teve um papel
importante na formação da ideia depreciativa da população que frequentava os
espetáculos. Friedländer se baseou em especial em Juvenal e, retirando o contex-
to satírico de sua obra, descreveu as pessoas que frequentavam a arena de
maneira bastante negativa4. A analise de Friedländer está permeada pelas percep-
ções do contexto em que foi escrita: momento do desenvolvimento capitalista e
das indústrias em que se valorizava ao máximo o trabalho e apresentava o otium

4
Para uma análise mais detida sobre essa questão, cf. Garraffoni 2005 68-72.

222
como potencial ameaça à ordem estabelecida. A maneira como elabora seu texto
é uma expressão dessa perspectiva: compara os marginalizados romanos com os
modernos e traz à tona suas preocupações com o desemprego e as revoltas que
acometiam as cidades europeias no final do século XIX.
Esta ideia de plebe ociosa e perigosa semeada em finais do século XIX se
fortalece ao longo do século XX. Carcopino (edição consultada de 1990) desen-
volve seus argumentos a partir de percepção binária atrelando virtudes à elite e
vícios às camadas populares que frequentavam os espetáculos, Grimal (1981)
enfatiza que o povo romano era desocupado e adorava combates de gladiadores,
Robert (1995) opõe a população rural à urbana, definindo a primeira como
trabalhadora e virtuosa e a segunda como desocupada e propensa aos prazeres.
É só com Veyne (1976) que a perspectiva começa a ser criticada: embora os
espetáculos ainda sejam entendidos como trunfo político das elites, Veyne ar-
gumenta que eles não despolitizariam o povo, uma vez que se configurariam em
um espaço de confronto com o imperador. O conceito de ‘pão e circo’ ressigni-
ficado nos textos de Veyne, encontrou nos estudos sobre os espetáculos um
campo fértil e muitos classicistas dos anos de 1980/90, inclusive os brasileiros
(Almeida 2000; Corassin 2000), fizeram uso em abundância desta concepção.
Ela se constitui em uma alternativa, pois indicava uma explicação aceitável para
os combates, além de abrir espaço para que estes classicistas questionassem a
imagem já consagrada da plebs totalmente alheia à vida política (Weeber 1994).
Em alguns estudos que seguiram o de Veyne aceitou-se, portanto, a elite pro-
porcionar jogos para o “povo” romano, mas a ênfase não estava mais na
ociosidade dos populares e sim na possibilidade de manifestação política, em-
bora a última palavra sempre fosse do imperador ou membro da elite local.
Essas considerações constituem, na verdade, um resumo de um amplo debate,
mas permitem enfatizar que essa perspectiva, pautada na política, na modalidade
mais conhecida ou na versão mais crítica de Veyne e Weeber, está profundamente
baseada em uma oposição binária elite/povo e, portanto, não leva em consideração
contextos específicos do Império, nem as relações sociais e de gênero sobre a qual
a sociedade romana era constituída. Embora seja a perspectiva mais popular entre
o grande público, não é a única entre os estudiosos. Alguns optaram por entender
o fenômeno fazendo o recorte a partir da violência dos combates. Vejamos a seguir
os principais pontos debatidos por essa perspectiva.

2.2. Sangue na Arena

Os jogos de gladiadores envolvem combate corpo a corpo que poderia ou


não resultar em morte. Nesse contexto, a questão da violência é um tema que
aparece com certa frequência, em especial depois da II Guerra Mundial. Grant
(1967) é um bom exemplo disso. Partindo sua análise desde uma perspectiva
marcadamente marxista e com o objetivo de denunciar a opressão exercida por

223
Roma, Grant evidencia a crueldade a que as camadas populares estavam sub-
metidas. Na introdução de Gladiators, por exemplo, afirma que os combates
são o traço mais nocivo da civilização romana, devendo ser estudado para de-
nunciar as atrocidades que acometeram esta sociedade.
Embora seu texto seja de denúncia à exploração dos romanos vencedores
sobre a população vencida e suas maneiras de coerção violentas, Grant com-
partilha de uma perspectiva muito difundida em interpretações fora do
marxismo – a noção de um cristianismo purificador de hábitos pagãos. Esta
ideia, que já estava presente na década de 1930 em Carcopino (1990), é re-
tomada em um novo contexto e ajuda a construir uma imagem dos jogos
muito mais violenta e sangrenta que a presente nas décadas anteriores: en-
quanto os estudiosos do século XIX e início do XX se preocupavam com o
aspecto político dos combates, os historiadores que se debruçaram sobre a
questão após os anos de 1950 enfatizam o que chamaram de lado sádico e
destrutivo desta instituição.
O trabalho de Grant é um exemplo do mau estar que se encontra na épo-
ca: muitos estudiosos no pós-guerra se incomodaram com o fato de não haver
críticas romanas aos combates, ou seja, gradativamente, ao longo do século
XX a violência dos combates é questionada teoricamente, mas são raríssimos
os documentos que mencionem o problema. Auguet (1985), que escreveu suas
reflexões nos anos de 1970, é um dos primeiros a problematizar a questão e
afirma que, para um historiador moderno, pensar que a elite romana não
questionava os combates é algo brutal e, por isso, boa parte dos pesquisadores
se escora em breves passagens de Sêneca ou na suposta bondade cristã. Devido
a esta sensibilidade, fruto do pós-guerra, busca-se a desaprovação dos comba-
tes e não se aceita, por exemplo, que talvez ela não tenha existido (Auguet
1985 167). De certa forma, o pós-guerra inaugura um dilema diante do ob-
jeto de estudo, pois a morte pode ser entendida como diversão. Em um
contexto de crítica ao nazismo e fascismo que assolou a Europa esse dilema
afasta os estudiosos dos gladiadores, em especial entre os anos de 1950-70, e,
quando foram elaboradas pesquisas, essas foram feitas a partir de um prisma
de denúncia, com forte ênfase na crueldade e uma repugnância profunda,
quase uma necessidade de afastar o NÓS (pesquisadores modernos) do ELES
(romanos violentos)5.
Esse embaraço predomina na historiografia até o início da década de 1980,
quando sofre um deslocamento. Embora muitos estudos ainda mantenham a
violência como ponto central que estrutura as investigações, a abordagem muda
consideravelmente: ao invés de afirmar categoricamente que os combates eram
cruéis, os historiadores passam a refletir sobre o contexto cultural em que os
jogos se desenvolveram.

5
Sobre o embaraço que as lutas causavam aos historiadores, cf, também, os comentários de
Gregori (2001 15).

224
Sabbatini Tumolesi (1980 157), por exemplo, afirma que de nada adianta
aproximarmos dos combates com um olhar repleto de preconceitos e, simples-
mente, taxá-los de violentos. Widemann (1995 XVII) explicita que seu objetivo
central é procurar entender os munera no contexto romano e em suas concepções
de sociedade, moralidade e morte. Já C. Vismara (2001 9) é mais radical e
instiga o estudioso a fazer um esforço mental de abandonar as sensibilidades
modernas para compreender a romana, uma cultura em que a punição corporal
e o espetáculo faziam parte da vida cotidiana de inúmeras pessoas. Kyle (1997)
elabora sutis críticas às produções historiográficas dos anos de 1990 sobre os
combates e estimula o pesquisador a repensar antigos conceitos aplicados às
arenas e a elaborar releituras críticas, além de teorizar sobre as diferentes formas
de violência na História, contextualizando a romana no ambiente esportivo
(Kyle, 1998). Nesta linha questionadora poderíamos acrescentar, ainda, o co-
mentário de Potter (1999) que, ao discutir os espetáculos na arena, chama a
atenção para o fato de que, embora o sangue seja derramado em diversas ocasiões,
não significa que a morte fosse uma presença constante nas arenas.
Todos estes trabalhos explicitam um descontentamento com as interpretações
que reduzem a sociedade romana a expressões de sadismo e gosto pelo sangue.
Considerar a sociedade como escravista, atribuindo distinto valor à vida como
fez Vismara, criticar os anacronismos, retomar a concepção religiosa ou as
virtudes militares como fizeram, em diferentes medidas, Wiedemann, Sabbatini
Tumolesi, Kyle e Potter, são atitudes que expressam esforços teóricos diversifi-
cados para procurar criar outras formas de entender o fenômeno. Neste viés
analítico, os contextos histórico, cultural e social possuem um papel decisivo
(Wistrand 1992; Barton 1993; Hopkins 1983; Plass 1995).
Diante dessas novas abordagens Brown (1995) publicou uma resenha sobre
os livros de Wiedemann e Barton em que apresenta algumas observações rele-
vantes aos estudos mencionados. Nessa resenha, destacou a seriedade destes
trabalhos e o avanço que forneceram ao tema, afinal em um ambiente histo-
riográfico de pouca simpatia pelos combates, Wiedemann e Barton iniciaram
buscas pelas relações sociais que poderiam estar presentes nas arenas. Embora
haja divergências nos trabalhos, Brown ressalta um ponto em comum: ambos
criam uma “teoria da necessidade”, isto é, que os romanos precisavam dos
gladiadores para que houvesse um bom funcionamento da sociedade.
Este ponto destacado por Brown é fundamental e relevante. Pensar os com-
bates como necessários implica dar um papel de importância à instituição, que
por um período ficara em um segundo plano na historiografia, no entanto,
acaba por reduzir sua complexidade a uma única interpretação para o fenôme-
no, a política. Neste sentido, a observação de Brown quanto à criação de um
“modelo da necessidade” pode ser estendida também a Hopkins, Plass e Wistrand,
pois cada um a seu modo enfatiza um lado único do combate (a violência) e
se baseia em um modelo normativo de interpretação que busca explicar o fe-
nômeno de maneira racional e aceitável pelo mundo moderno.

225
Assim, com exceção de Sabbatini Tumolesi, que buscou um questiona-
mento do sadismo enfocando o cotidiano dos gladiadores, os demais autores,
embora tenham produzido estudos de grande erudição, na tentativa de inter-
pretar a violência, acabaram gerando modelos mais normativos da cultura
romana. Inúmeros indivíduos que, por razões diversas, acabaram nas arenas
foram transformados em um sujeito universal, o gladiador: uma massa sem
rosto, atirada à própria sorte para manter o status do Império.
Tal leitura, embora enfatize a violência como necessária para o controle e
ordem social, isto é, com uma função política de amenizar as divergências e
manter a tranquilidade, é construída com o auxílio de outros conceitos im-
portantes como a Romanização, a produção de uma identidade única,
baseada na oposição romano/bárbaro, e o confronto do povo com o impera-
dor. Em outras palavras, embora estes estudos recentes procurem justificar
ou explicar a violência, muitas vezes ecoam a consagrada ideia do pão e circo,
isto é, a arena como meio de controle social.
Neste sentido, é possível reconhecer que há uma tradição de leitura dos
jogos na qual temas políticos ou sobre a violência são analisados de modo a
explicar a sociedade romana e seus meios de dominação, mas poucos estudos
versam sobre os gladiadores. Seria possível deslocar a questão e pensar em
linhas de fuga, no sentido deleuziano do termo, que permitam outras apro-
ximações do objeto? A estratégia adotada a seguir é inspirada em Sabbatini
Tumolesi e busca focar no cotidiano dos protagonistas e, nesse sentido, a
aproximação com arqueologia clássica é fundamental, pois o estudo das ins-
crições propicia leituras em que a alteridade pode ser preservada, provocando
deslocamentos em nossas percepções no presente.

3. Uma proposta de leitura

Como já ressaltado anteriormente, a grande maioria da documentação


sobre os espetáculos foi escrita por membros da elite romana. Para produzir
leituras que não se restrinjam a percepções aristocráticas, uma alternativa é
o estudo da epigrafia, notadamente, as inscrições de parede de Pompeia e
as lápides funerárias dos gladiadores 6.
As inscrições, embora fragmentadas, trazem consigo características
particulares que desestabilizam muitas das perspectivas dos combates e
da vida cotidiana dos gladiadores no período imperial, por isso são ins-
tigantes. Os grafitos são efêmeros e só chegaram até nós devido ao acaso
da explosão do Vesúvio em 79 d.C. e as lápides de gladiadores são raras,

6
Vale lembrar que Tony Wilmott (2009) organizou um livro sobre novas leituras dos combates
de gladiadores a partir da Arqueologia e consta uma parte sobre inscrições e iconografia, destacando
a importância dessa documentação para pensar os combates de gladiadores.

226
pois a maioria deles eram enterrados em valas comuns. Devido a essas
particularidades, cada uma a seu modo, trazem elementos que permitem
refletir sobre as complexidades de um ambiente masculino na Antiguidade.
A partir delas, análises de relações de gênero são possíveis, assim como
estudos sobre produção de memória de um determinado grupo da socie-
dade; afinal, tanto as lápides como os grafitos, escritos de próprio punho
ou por pessoas próximas, são indícios de seus desejos e visões de como
gostariam de serem lembrados.
Ao longo desses anos de pesquisa é possível perceber que os grafitos de
Pompeia apresentam gladiadores e público bem mais próximos do que a histo-
riografia comentada poderia prever: os primeiros com suas percepções de
mundo, deixando pelas paredes conquistas amorosas, bem como seus nomes e
categorias de armas, e o segundo deixando claras suas preferências e entusiasmo
com os vencedores. Nesses ambientes, a gladiatura é parte da constituição das
identidades desses homens que não parecem se intimidar por exercerem uma
profissão infame (Garraffoni e Funari 2010; Feitosa e Garraffoni 2010; Garraffoni
2013; Garraffoni e Laurence 2013).
A amostra de grafitos que foi pesquisada é instigante e somam cerca de
260 inscrições (Garraffoni e Laurence 2013) 7. Há uma grande diversidade de
tipos de grafitos sobre gladiadores: podem ser desenhos de armas ou dos
combatentes com ou sem os nomes dos gladiadores e seu desempenho nas
lutas. Desses (com homens e nomes), os gladiadores podem estar sozinhos ou
em pares, se vencedores levam palmas, coroas e suas armas, se perdedores
estão no chão, com armas depostas ou sangrando. Na maioria das vezes anô-
nimos, é bem provável que esses grafitos tenham sido feitos pelo público que
assistia aos espetáculos. Por outro lado, há vários grafitos sem desenhos e
compostos apenas por inscrições encontrados na ‘Casa dos gladiadores’, lugar
em que ficavam alojados antes das lutas, e esses sim podem ser atribuídos aos
lutadores. É nessas inscrições que temos seus nomes e suas conquistas amo-
rosas. Nessa ‘Casa’ há cerca de cento e quarenta e cinco grafitos sobre as lutas,
dos quais vinte e sete são nomes e indicam categorias de luta. O que há de
interessante nesse edifício é que 83% dos grafitos se encontra espalhado nas
colunas do peristilo da casa e o que nos chamou a atenção na ocasião é que
a grande maioria dos grafitos sobre o tema não está próximo aos lugares das
lutas, mas onde os gladiadores se encontravam para comer ou descansar, em
espaços de circulação, permitindo o diálogo com outras pessoas que por ali
passassem (Garraffoni e Laurence 2013). Tais grafitos expressam as escolhas
daqueles que os fizeram, sejam para marcar suas conquistas amorosas ou de
lutas, esses homens escreveram seus nomes, seu desempenho e deixaram nas
paredes e colunas da ‘Casa’ as formas de como gostariam de ser reconhecidos
e representados.

7
Ao final do texto há alguns exemplos desses grafites.

227
Grafitos de parede – alguns exemplos8

Dois gladiadores lutando (imagem no catálogo de Langner) – CIL IV, 10.236


Inscrições:
Lado esquerdo: M. Att (ilius), na parte superior.
Logo abaixo: M. Attilius (pugnae) I, (coronae) I, V(icit)
Tradução: M. Atílio, I luta, I vitória, venceu a luta.
Lado direito: L. Raecius Felix/ (pugnarum) XII, (coronarum) XII, M(issus)
Tradução: L. Récio Feliz, lutou 12 vezes, venceu 12, esta vez foi poupado.

Tr.
Celadus (CIL IV, 4341)
Tradução: Célado, o trácio

Suspirium puellarum
Tr.
Celadus.Oct. III. C III (CIL IV, 4342)
Tradução: Suspiro das garotas, Trácio Célado, Otaviano, 3 lutas, 3 vitórias

Puellarum decus
Celadus Tr. (CIL, IV 4345)
Tradução: Célado, o trácio, glória das garotas

Tr. (CIL IV, 4290)


Crescens (CIL IV, 4318)
Florus (CIL IV, 4298)

Já as lápides nos apresentam outra forma de narrativa. Elas são raras, a


maioria dos gladiadores eram enterrados de maneira anônima em valas comuns,
conforme mencionado, mas há duas coleções bastante importantes que nos
chegaram até nós: uma de Roma e outra da Hispania. Sabbatini Tumolesi (1980;
1988) e Hope (1998; 2000) já chamaram a atenção para a importância dessa
documentação pouco estudada, pois, embora fragmentada, permite que possa-
mos perceber as relações entre os gladiadores e suas redes de sociabilidade.
De fato, as lápides que remanesceram nos trazem uma série de informações:
origem étnica, número de lutas e vitórias, parentescos, onde o gladiador apren-
deu a lutar, suas relações familiares – filhos, amantes – e suas redes de amizade.
No geral as lápides eram simples, mas os que juntavam dinheiro ou tinham
companheiras ou amigos fiéis, poderiam deixar lápides mais elaboradas. Na
mostra de Córdova, chamam a atenção as dedicatórias de mulheres que não só
contam um pouco da vida dos companheiros, como também pedem que sua

8
Para mais exemplos e com imagens, cf. Langner 2001.

228
memória seja respeitada (Garraffoni 2012 220-227). No caso específico dessas
lápides, a voz das mulheres na construção das memórias é imprescindível e a
maneira como narram a vida desses homens faz com que possamos rever a ideia
que temos dos gladiadores isolados nas arenas, em um mundo masculino em
busca da vitória. Nessas lápides, os gladiadores são comemorados como aman-
tes, pais e amigos, como pessoas que compartilharam desejos e intimidades.
Lápides, assim como grafitos, trazem outros tipos de discursos que permitem
pensar o processo de construção de memória a partir das escolhas dos gladia-
dores e de pessoas próximas, deslocando nossa percepção que, em geral, é
baseada nos discursos dos membros das elites.

Lápides funerárias, alguns exemplos:

Roma9:

No 57
C(aius) Futius Hyacintus doct(or) opl(omachorum).
Futia C(ai) l(iberta) Philura fecit.
Tradução: Caio Fúcio Jacinto, treinador de hoplómacos.Fúcia Filura, liberta,
fez.

No 87
Amanus, Sam(nes), Ner(onianus),
v(ictoriarum) III, (coronarum) II
Tradução: Amano, samnita, neroniano, 3 vitórias, 2 coroas.

No 94
L(ucius) Lucretius, tr(aex), vict(oriarum) XIIX.
Tradução: Lúcio Lucrécio, trácio, 18 vitórias

Hispania: o número que cada uma das inscrições possui se refere ao origi-
nal do catálogo de Garcia y Bellido, 1960.

No 2
Mur(millo). Cerinthus. Ner(onianus). II. Nat(ione) graecus.
An(norum) XXV. Rome Coniunx bene merenti de suo posit. T(e) R(ogo)
P(raeteriens) D(icas) S(it) T(ibi) T(erra) L(euis)
Tradução: Mirmilão Cerinto, neroniano, lutou 2 vezes, grego. Morreu com
25 anos. Rome, sua esposa, colocou esta lápide. Passante, te peço, diga que a
terra seja leve.

9
O número que cada uma possui se refere ao original do catálogo de Sabbatini Tumolesi 1988.

229
No 8
Actius, mur(millo), uic(it) VI, Anno XXI, H(ic) s(itus) e(st) s(it) t(erra)
l(euis). Uxor uiro de suo quot quisquis uestrum mortuo. Optarit mihi it ili di
faciant. Semper uiuo et mortuo.
Tradução: Áccio, mirmilão, venceu 6 vezes. Morreu com 21 anos. Aqui está
sepultado, que a terra seja leve. Sua esposa pagou, por conta própria, este monu-
mento. O que qualquer um de vocês desejar a meu falecido, o mesmo farão os
deuses com vivos e mortos.

No 13
Germanus. Samnis. IVL.XIII. (na)tione graeca. Anno XXX. H.S.E.
Tradução: Germano, samnita, Juliano, lutou 14 vezes. Grego, 30 anos, aqui jaz.

Mas por que essas inscrições fragmentadas podem ser tão importantes? Tanto
as lápides como os grafitos, por mais que sejam fragmentados, permitem que a
gente acesse aos indivíduos que lutaram nas arenas e, ao mesmo tempo, quando
olhadas em conjunto, nos apresentam redes de sociabilidades a partir de seus
pontos de vista. Assim, relações afetivas, deslocamentos, origens étnicas e per-
cepções de mundo podem ser delineados a partir de um ponto de vista cultural
e social, permitindo abordagens particulares que podem ajudar a questionar a
universalidade das arenas dentro da sociedade romana. O contexto específico
das inscrições permite pensar a pluralidade de formas de vida na antiguidade.

Considerações finais

Quando estes estudos foram iniciados, vários incômodos com a historio-


grafia sobre os gladiadores surgiram, mas o principal deles dizia respeito a esta
forma de entender os combates na qual os protagonistas não aparecem ou são
apenas engrenagens de um sistema político de dominação. Essa perspectiva
incomodava porque não exprimia a diversidade e a complexidade das arenas,
tampouco dos protagonistas ou das pessoas que por ali passavam. Buscar alter-
nativas a essa maneira de perceber os combates tornou-se, portanto, um dos
objetivos. Conforme a pesquisa foi se desenvolvendo muitas perguntas surgiram:
como transitar por esse universo das arenas? Porque trazer os gladiadores para
o presente? Qual a ideia de Império Romano que se pretende construir? Os
incômodos, aos poucos, foram se transformando em questões de fundo teóri-
co-epistemológico, que precisavam de reflexão.
Neste novo contexto, os argumentos de Lowenthal (1985) foram muito
importantes, ter clareza da posição política do estudioso no presente é funda-
mental para definir uma narrativa, para se pensar sobre qual passado escrever.
Contrastar presente e passado para criar uma possibilidade de ação política no
presente, tornou-se, então, um novo desafio. Foi por essa razão que ao longo

230
desses anos de pesquisa focamos naqueles personagens menos estudados, os
gladiadores, e, ao mesmo tempo, na busca pela diversidade nos fragmentos de
discursos que eles deixaram, exploramos as ambiguidades dos universos mas-
culinos romanos e de como os percebemos no presente. Nesse sentido, explorar
o lado das relações afetivas dos protagonistas das arenas ou mesmo das pessoas
próximas a eles significa construir um modelo interpretativo menos conven-
cional, mas promissor: esses escritos, fragmentados e incompletos, nos colocam
frente a frente a dilemas cotidianos, nos lembram das fragilidades da vida, das
diferentes origens étnicas daqueles que viveram sob o julgo romano. Nesse
sentido, estudar o cotidiano desses homens infames, não só como proscritos,
pode ser um caminho interessante para rever aquilo que pensamos o que é o
Império Romano, trazer à tona suas ambiguidades, seus conflitos, formas de
resistências, diversidade de viver e sentir. O facto de trazermos os gladiadores
para o centro das atenções, mais uma vez, implica em reflexões sobre violência,
morte, dominação, mas também encontros, paixões e vida.

Tábua Cronológica

246 a.C. - data tradicional da primeira luta de gladiadores em homenagem ao falecido Iunus Brutus Pera,
segundo Tito Lívio
44 a.C. - assassinato de Júlio César
31 a.C. - Augusto se torna imperador
79 d.C. - erupção do Vesúvio e destruição de Pompeia
79 d.C. - inauguração do Anfiteatro Flávio em Roma, mais conhecido como Coliseu
438 d.C. - data tradicional do final das lutas de gladiadores, segundo o Código Teodosiano

Bibliografia

Almeida, L.S. (2000), “Poder e política nos espetáculos oficiais de Roma Imperial”, Clássica 9/10
132-141.
Auguet, R. (1985), Crueldad y civilización: los juegos romanos. Barcelona, Ediciones Orbis.
Barton, C. A. (1993), The sorrows of the Ancient Roman; the gladiator and the monster. Nova Jersey, Pin-
ceton University Press.
Brown, S. (1995), “Explaining the arena: did the Romans ‘need’ gladiators?”, Journal of Roman Archae-
ology 8 376-384.
Carcopino, J. (1990), Roma no apogeu do Império, São Paulo, Cia das Letras.
Corassin, M. L. (2000), “Edifícios de espetáculos em Roma”, Clássica 9/10 119-131.
Feitosa, L. M. G. C. - Garraffoni, R. S. (2010), ‘Dignitas and infamia: rethinking marginalized masculi-
nities in early Principate’, Studia Historica. Historia Antigua 28 57-73.
Futrell, A. (2007), The Roman Games: A Sourcebook. Londres, Blackwell.
Friedländer, L. (1947), La sociedad romana – Historia de las costumbres en Roma, desde Augusto hasta los
Antoninos. Madri, Fondo de la Cultura Económica.
Garcia y Bellido, A. (1960), “Lapidas funerarias de gladiadores de Hispania”, Archivio Español de Arqueo-
logia 33 123-144.
Garraffoni, R. S. (2005), Gladiadores na Roma Antiga: dos combates às paixões cotidianas. São Paulo,
Annablume/FAPESP.

231
Garraffoni, R. S. (2013), “Escritos e inscrições: uma reflexão sobre a pluralidade no início do Principado”
in G.V. Silva – L.R. Leite, As múltiplas faces do discurso em Roma. Vitória, Editora da UFES 120-134.
Garraffoni, R. S. (2012), ‘Reading gladiators’ epitaphs and rethinking violence and masculinity in the
Roman Empire’, in B. Voss – E. Casella, orgs The archaeology of colonialism: intimate encounters and
sexual effects. Nova York, Cambridge University Press 214-231.
Garraffoni, R. S. - Laurence, R. (2013), ‘Writing in public space from child to Adult: The meaning
of graffiti’ in G. Sears – P. Keengan – R. Laurence, orgs Written Space in the Latin West, 200BC to
AD300. Londres, Bloomsbury 123-134.
Garraffoni, R. S. - Funari, P.P.A. (2009), ‘Reading Pompeii´s walls: a social archaeological approach
to gladiatorial grafitti’, in Wilmott, T., org., Roman Amphitheatres and Spectacula: a 21st Century
Approach. Oxford, Archeopress 185-193.
Grant, M. (1967), Gladiators. Londres, The Trinity Press.
Gregori, G.L. (2001), “Aspetti sociali della gladiatura romana”, in la Regina, A., org. Sangue e Arena,
Roma, Electa 15-27.
Grimal, P. (1981), A vida em Roma na Antigüidade. Lisboa, Publicações Europa-América.
Hope, V. (2000), “Fighting for identity: the funerary commemoration of italian gladiators”, in A. Co-
oley, org. The epigraphic landscape of Roman Italy. Londres, University College of London 93-113.
Hope, V. (1998), “Negotiating identity and status – the gladiators of Roman Nîmes” in J. Berry - R.
Laurence, orgs. Cultural identity in the Roman Empire. Londres, Routledge 179-195.
Hopkins, K. (1983), Death and Renewal – sociological studies in Roman History. Cambridge, Cambridge
University Press.
Kyle, D.G. (1997), “Rethinking the Roman arena: gladiators, sorrows and games”, The Ancient History
Bulletin, vol. 11, no1 94-97.
Lafaye, G. (1896), “Gladiator”, in Daremberg-Saglio, orgs., Dictionnaire des Antiquités Grecques et Ro-
mains Paris, Librairie Hachette, tomo II 1563-1599.
Langner, M. (2001), Antike Graffitizeichnungen – Motive, Gestaltung und Bedeutung, Wiesbaden.
Lowenthal, D. (1985), The past is a foreign country, Cambridge, Cambridge University Press.
Meier, J.P., (1881), De gladiatura romana (Dissertatio), Bonn.
Mommsen, T. (1983), El mundo de los Cesares, Madri: Fondo de Cultura Económica.
Mouratidis, J. (1996), “On the origin of the gladiatorial games”, Nikephoros 9 111-134.
Plass, P. (1995), The game of death in Ancient Rome – Arena sport and political suicide. Wisconsin, The
University of Wisconsin Press.
Olgivie, R. M. (1974). Titus Livius. Ab urbe condita. Oxford, Oxford University Press.
Potter, D.S. (1999). “Entertainers in the Roman Empire”, in D. S. Potter – D. J. Mattingly, orgs., Life,
Death and Entertainment in the Roman. Michigan, The University of Michigan Press.
Robert, J-N, (1995), Os prazeres de Roma, São Paulo, Martins Fontes.
Sabbatini Tumolesi, P.L. (1980), Gladiatorum paria: annunci di spettacoli gladiatorii a Pompei. Roma,
Edizioni di Storia e Letteratura.
Sabbatini Tumolesi, P.L. (1988), Epigrafia anfiteatrali dell’Occidente Romano I – Roma. Roma, Edizioni Quasar.
Gummere, Richard M. (1917) Seneca, Lucius Annaeus. Epistulae Morales (Letters). 3 vols. London, Har-
vard University Press, Loeb.
Schneider, K., (1918), “Gladiatores”, in Real-Encyclopädie der classichen Alterstumswissenchaft (Supplemen-
tband III – Pauly-Wissowa – orgs), Sttutgart 760-784.
Teja, R. (1992), “Los juegos de anfiteatro y el cristianismo”, in El anfiteatro en la Hispania Romana,
Mérida 69-78.
Veyne, P. (1976), Le Pain et le cirque: sociologie historique d’un pluralisme politique. Paris, Seuil.
Vismara, C. (2001), Il supplizio come spettacolo. Roma, Edizioni Quasar.
Weeber, K.W. (1994), Panem et circenses: Massenunterhaltung als Politik im antiken Rom. Mainz am Rhein,
Philipp von Zabern.
Wiedemann, T. (1995), Emperors and Gladiators. Londres, Routledge.
Wilmott. T. org. (2009), Roman Amphitheatres and Spectacula: a 21st Century Approach. Oxford,
Archeopress.
Wistrand, M. (1992), Entertainment and violence in ancient Rome – the attitudes of Roman writers of the
first century A.D.. Göteborg, Coronet Books.

232
9. Os Severos

Ana Teresa Marques Gonçalves1


Universidade Federal de Goiás
ORCID: 0000~0001-6020-3860
anateresamarquesgoncalves@gmail.com

Sumário: Convencionou-se denominar de Severos os imperadores que


governaram Roma e seu Império territorial de 193 a 235 d.C., ou seja,
Septímio Severo, Geta, Caracala, Macrino, Heliogábalo e Severo
Alexandre. Todos tiveram governos com características específicas e
acrescentaram ou aboliram práticas sociais, políticas e econômicas que
transformaram a sociedade romana.

Élio Aristides, em seu Discurso a Roma, promove a ideia de que os governos


dos imperadores Antoninos foram o ápice da administração imperial, pois
percebe a conquista do mundo pelos romanos, que chega a seu extremo de
expansão territorial do limes com as guerras dácicas promovidas por Trajano,
como um elemento de desenvolvimento do Mediterrâneo capaz de transformar
o gênero humano como um todo em algo melhor. Afirma em sua obra que os
romanos “transformaram o mundo inteiro em um prazeroso jardim”2. Depois
de se alcançar o extremo da boa governança, só restaria aos pósteros lidarem
com a queda. Os próprios autores que produziram suas obras na passagem do
II para o III século d.C. percebem seu tempo como um momento de crise a
ser solucionada. Herodiano, em sua História do Império Romano Após Marco
Aurélio, busca demonstrar que depois do governo idealizado de Marco o Império
havia sido lançado num momento de grandes conturbações:

1
Professora Titular de História Antiga e Medieval na Universidade Federal de Goiás. Doutora
em História pela Universidade de São Paulo. Coordenadora do Laboratório de Estudos sobre o
Império Romano (LEIR) – Núcleo Goiás. Bolsista Produtividade II do CNPq.
2
Hel.Arist. Orat. 26.59.

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_9
“Este Império foi governado com dignidade até a época de Marco, e era admirado com
respeito. Quando caiu nas mãos de Cômodo começaram os erros, imputáveis à sua ju-
ventude, mas em todo o caso foram ocultados pela sua nobre origem e pela memória de
seu pai. Seus erros inspiravam mais compaixão que ódio, pois eram atribuídos não a si,
mas aos seus aduladores e conselheiros e cúmplices de suas infâmias”3.

Por esta leitura de seu tempo, Herodiano optou por construir sua narrativa
tendo por marcos cronológicos os últimos atos de Marco Aurélio, antes de sua
morte em 180 d.C., à ascensão de Gordiano III, em 238 d.C.. Deste modo,
seu relato abarca 58 anos do Império Romano, indo, assim, do governo de um
Optimus Princeps até o governo de um Princeps Puer. Para este autor, os gover-
nos posteriores ao de Marco concentraram em si todos os tipos de problemas
capazes de imprimirem mudanças responsáveis por atraírem a atenção de um
historiador da Antiguidade latina:

“Acredito que não desagradará aos leitores posteriores o conhecimento de um tão gran-
de número de importantes acontecimentos concentrados em um tão curto espaço de
tempo. Em todo caso se alguém passasse em revista todo o período que vai de Augusto,
quando o regime romano se transformou em poder pessoal, até os tempos de Marco,
não encontraria nestes cerca de duzentos anos nem tão contínuas alternâncias no poder
imperial, nem tantas mudanças de sorte em guerras civis e exteriores, nem comoções
nos povos das províncias e conquistas de cidades [...], nem movimentos sísmicos e pes-
tes, nem finalmente vidas de tiranos e imperadores tão incríveis que antes eram raras
ou nem sequer eram recordados”4.

Díon Cássio, na obra História Romana, escrita por este senador da Bitínia
no mesmo período em que Herodiano produziu seu relato, também defende
que após os Antoninos o Império enfrentou grandes perturbações, ao afirmar
que se passava, sob o governo dos Severos, de uma idade do ouro para uma
idade do ferro5.
Estes são apenas alguns exemplos de uma documentação textual passível de
abalizar concepções historiográficas que sustentam que após o governo de
Cômodo o Império teria sido lançado numa grave crise institucional, adminis-
trativa, econômica e política. Só para citar três exemplos (um inglês, um
francês e um italiano) desta postura bastante pessimista a respeito dos Severos,
destacamos a obra de F.W. Walbank, La Pavorosa Revolución, que observa que
após o “verão dos Antoninos” teria se iniciado uma “usurpação militar do po-
der” que levou à “queda de Roma”6; o livro de Roger Rémondon, La Crisis del

3
Hdn. 2.10.3.
4
Hdn. 1.1.3-4.
5
D.C. 71.36.4.
6
Walbank 1981 50-54.

234
Imperio Romano, no qual fica bastante claro que é exatamente o afastamento
dos “princípios iluminados” dos Antoninos que leva o Império a mergulhar
numa longa “decadência” a partir dos Severos7; e o clássico opúsculo de Francesco
de Martino, em que se elencam as duas correntes fundamentais, no interior da
historiografia moderna sobre os governos severianos, que têm buscado explicar
as controvérsias por eles enfrentadas:

“Segundo uma, Septímio Severo, o fundador da dinastia mediante uma usurpação militar,
se afastou decisivamente dos princípios do governo iluminado dos Antoninos e desde o
início fez a barbarização do Estado romano, apoiando-se no elemento militar constituído
a partir da massa rude da província. Segundo a outra, ao contrário, ele foi o responsável
por estender a todo o Império a cultura e os bens materiais da Itália e das antigas pro-
víncias, quase sendo a expressão de um movimento revolucionário, democrático, vindo
da parte mais humilde da população do Império. Estas duas correntes contrapostas não
são devidas à extravagância dos historiadores, mas derivam do fato de que os aspectos do
governo dos Severos são efetivamente contraditórios e apresentam a característica de uma
luta acirrada contra o senado e a aristocracia, compreendida aquela da província, e por
isso de um despotismo militar cruel e de uma tendência favorável às classes humildes da
população, seja na elaboração de vários princípios jurídicos, seja pelo tratamento dado
aos administradores [...]. A ascensão dos Severos implica uma luta decisiva contra a velha
classe dirigente, um maior favor em direção às classes inferiores, das quais era extraído o
elemento militar, a progressiva militarização dessas classes e definitivamente o nascimento
de uma monarquia militar fundada sobre o elemento popular”8.

Deste modo, torna-se fundamental despirmo-nos de antigas e arraigadas


conceituações negativas a respeito dos Severos para podermos propor uma re-
leitura de seus feitos à frente do governo de Roma e de suas várias províncias.
Este processo já se encontra em andamento. No livro L’Empire Romain en
Mutation, des Sévères à Constantin, Jean-Michel Carrié e Aline Rousselle discu-
tem vários destes argumentos tradicionais e a qualificação de Septímio Severo
como um imperador militar e autocrata. Segundo estes autores, Septímio de-
veria ter sua imagem mais ligada ao direito, devido às suas destacáveis aptidões
para o governo civil e para os princípios fundadores do direito romano, do que
aos aspectos militares9. Sem dúvida, Septímio inaugurou uma longa série de
governantes impostos ao senado pelo exército, mas fez questão de ser legitima-
do pelos senadores quando entrou em Roma, tanto que correu com suas legiões
para chegar a Roma e ser reconhecido como imperador após as guerras civis de
193 a 195 d.C., e discursar diante dos mesmos antes que Pescênio Nigro o
fizesse. Da mesma forma, fez questão que os filhos fossem aceitos como seus

7
Rémondon 1967 178-181.
8
De Martino 1974 393-394.
9
Carrié - Rousselle 1999 55.

235
herdeiros pelos senadores10. Destacável também é a obra Severan Culture, cole-
tânea de artigos editada por Simon Swain, Stephen Harrison e Jás Elsner, que
demonstra cabalmente que o Império Romano durante os governos de Septímio
e de seus sucessores (193 a 235 d.C.) vivenciou uma vida cultural rica e dinâ-
mica, digna de ênfase, e não o auge do militarismo e da rudeza como uma
historiografia mais tradicional tenta imprimir.

1. Septímio Severo e seus sucessores

O surgimento de mais uma dinastia de imperadores, após outra crise suces-


sória aberta com o assassinato de Cômodo, mandado executar por seu prefeito
do pretório, chamado Leto, em 192 d.C., e posteriormente agravada com a eli-
minação de Hélvio Pertinaz pelos pretorianos, levou a um realinhamento das
forças sócio-políticas no interior do Império Romano. Cômodo, durante seu
governo (180-192 d.C.), enfrentou diversas conspirações, como a promovida por
sua irmã Lucila em 182 d.C., que contou com o apoio de alguns senadores, e as
engendradas por seus prefeitos do Pretório Perênio e Cleandro, respectivamente
em 185 e 189 d.C.. Deste modo, a conjuração de Leto, apoiada pela esposa de
Cômodo, Márcia, e por alguns senadores e membros da guarda pretoriana, foi
apenas o cume de um processo que vinha se estruturando há muito tempo.
A guarda pretoriana, cada vez mais, alcançou, durante ainda a dinastia dos
Antoninos, destaque no cenário político romano. De defensores da pessoa do
imperador, os membros da guarda foram assumindo inúmeras outras funções,
como a defesa do palácio e da família do príncipe, até chegarem ao ponto de
se sentirem os responsáveis pela proteção do cargo imperial e pela indicação
dos soberanos. Assim, não é de se estranhar que o sucessor de Cômodo, Públio
Hélvio Pertinaz, senador eminente e rico, prefeito da Cidade de Roma, indi-
cado por seus pares senatoriais, tenha ficado apenas oitenta e sete dias no poder.
Para tentar evitar o agravamento da economia, já que os cofres públicos encon-
travam-se esvaziados desde os esforços de guerra implementados durante o
governo de Marco Aurélio, Pertinaz negou-se a distribuir um donativum de
doze mil sestércios para cada membro da guarda11. Os pretorianos invadiram
o palácio e assassinaram Pertinaz, promovendo uma espécie de leilão do cargo
imperial. Neste processo, apareceu Dídio Juliano, também senador e rico, que
ofereceu vinte cinco mil sestércios para cada membro da guarda que o ajudas-
se a ascender ao comando imperial. Juliano acabou acolhido pelo senado, mas
não conseguiu apoio junto às tropas estacionadas nas fronteiras. As legiões da
Panônia aclamaram Septímio Severo, as estacionadas na Síria apoiaram a indi-
cação de Pescênio Nigro e as da Bretanha indicaram Clódio Albino. Septímio

10
Idem 73-75.
11
D.C. 74.1.2.

236
foi quem se organizou mais rápido. Reuniu dezesseis legiões, proclamou-se
Vingador de Pertinaz e se dirigiu a Roma. Conhecia bem o Império, tendo
trabalhado sob os governos dos Antoninos. Havia recebido cargos na Sardenha,
na província da África, na Síria, na Sicília, na Gália. Em 193 d.C., ele entrou
em Roma, fomentou a morte de Dídio Juliano e reformou a guarda pretoriana,
identificada como a assassina de Pertinaz, de quem se dizia Vingador.
Descreve, assim, Herodiano, a reforma da guarda:

“Quando Severo recebeu a notícia da decisão do senado (de proclamá-lo imperador


único) e da morte de Juliano, [...] criou uma forma astuta para controlar e aprisionar
os assassinos de Pertinaz. Enviou de forma privada mensagens secretas com generosas
promessas aos tribunos militares e aos centuriões para que persuadissem aos soldados
de Roma a obedecer suas ordens com disciplina. Enviou também um recado às tropas,
ordenando que deixassem todas as armas no acampamento e que saíssem em paz, [...]
lhes ordenou que fossem prestar juramento de fidelidade a sua pessoa, plenamente
confiantes de que seriam sua guarda pretoriana. Os soldados confiaram nas ordens e,
persuadidos pelos tribunos, deixaram todas as armas e se apressaram a sair, vestidos
somente com os uniformes de cerimônia e com coroas de louros. [...] Então, Severo
lhes ordenou que se agrupassem para dirigir-lhes palavras de boas vindas. Mas quan-
do se aproximaram dele, que havia subido numa tribuna, [...] com um sinal todos
foram rodeados. Severo havia ordenado previamente a seus homens que, quando os
pretorianos estivessem próximos a ele, com a atenção distraída, fossem cercados como
inimigos. [...] que os mantivessem cercados e os vigiassem com suas armas [...] para
que não se atrevessem a lutar por temor de serem feridos, por estarem em inferiorida-
de numérica e desarmados frente a tropas bem armadas e numerosas”12.

Severo, então, fez um longo discurso no qual demonstrou bastante cle-


mência ao lhes poupar a vida, mas obrigou-os a se despirem de todos os
distintivos militares. Os pretorianos perderam, assim, seus cargos e foram
despojados de armas. Severo ainda mandou que se confiscassem as armas
deixadas no pretório e que se fechassem as portas do acampamento para que
os pretorianos não conseguissem retomar suas forças. “Este foi, pois, o casti-
go que receberam os assassinos de Pertinaz” 13. Os pretorianos antigos foram,
então, banidos de Roma 14.
Contudo, o imperador não podia ficar sem uma guarda de proteção. Desta
forma, constituiu uma nova guarda com os melhores soldados vindos das legiões
provinciais. Até o governo de Severo, os pretorianos eram escolhidos somente
entre soldados vindos da Península Itálica. Além disso, Septímio triplicou as

12
Hdn. 2.13.1-5.
13
Hdn.2.13.12.
14
D.C. 75.1.1.

237
coortes urbanas, responsáveis pela segurança da cidade de Roma; criou os equi-
tes singulares, isto é, um corpo de cavalaria para auxiliar na defesa do imperador,
de sua família e de seu palácio; e estacionou nos Montes Albanos, próximos a
Roma, trinta mil soldados. Todas estas medidas contribuíram para aumentar a
sensação de proteção garantida ao governante, que ainda teria que enfrentar dois
inimigos, que como ele queriam ocupar o cargo imperial: Pescênio Nigro e
Clódio Albino.
Percebendo que não poderia lutar em duas frentes, contra Albino que vinha
do Ocidente e contra Nigro que vinha do Oriente, Septímio se aliou a Albino,
proclamando-o César e, portanto, indicando-o para ser seu sucessor, e atacou
Nigro na Síria. As tropas severianas venceram as de Nigro, que acabou sendo
assassinado quando tentava atravessar o rio Eufrates, para se refugiar no terri-
tório dos Partos. Após esta vitória, Septímio decidiu indicar seus filhos, Caracala
e Geta, como seus herdeiros e sucessores do comando imperial, atraindo a ira
de Albino. Este se rebelou ao perceber que não conseguiria ascender ao coman-
do imperial. Reuniu suas legiões e atravessa a Gália, com o intento de invadir
a Península Itálica. Septímio reorganizou suas legiões e foi ao seu encontro,
travando a batalha de Lugdunum, na qual Albino foi vencido. Seus partidários
foram executados, estando entre eles vinte e nove senadores favoráveis a Albino
e contrários a Severo.
Num artigo clássico, intitulado “La Lotta di Settimio Severo per la Conquista
del Potere”, Eugenio Manni defende que a principal arma usada por Severo
para conseguir se legitimar no poder após as guerras civis travadas contra Nigro
e Albino foi se declarar o continuador dos Antoninos15. Após vencer Clódio
Albino, Septímio estava pronto para começar um governo sem guerras civis e
com vitórias sobre os Partos, nas quais estava metido desde sua aclamação como
imperador em 193 d.C.. Desta forma, em 196/197 d.C., ele se dedicou a criar
bases sólidas e legítimas para seu governo. Assim, mudou o nome de seu filho
mais velho para Marco Aurélio Antonino, em 196 d.C. e, no ano seguinte,
proclamou-se filho de Marco Aurélio e frater Commodi, decretando que sua
damnatio memoriae deveria ser interrompida e substituída por uma apoteose,
convencendo o senado, após suas gloriosas vitórias internas e externas, a pro-
mover a consecratio de Cômodo e a denominá-lo de Pius Felix. No mesmo ano,
Caracala recebeu o título de Imperator Destinatus, em troca do apoio que dera
ao pai ao longo das batalhas travadas no Oriente.
A lembrança das desmedidas de Cômodo assustaram o senado, mas era
impossível se vincular à imagem de Marco Aurélio sem procurar reabilitar a de
Cômodo, seu filho e herdeiro. Contudo, senadores fizeram pilhérias a respeito
da inovação proposta por Severo, ao adotar um pai ao invés de ser adotado por
ele. E é Díon Cássio quem nos conta:

15
Manni 1947 24.

238
“Quando o imperador se registrou na família de Marco, Áuspice (o importante
senador A. Polênio Áuspice) falou: ‘Eu o comprimento, César, por ter achado
um pai!’, comentando que até esse momento ele não tinha tido pai devido a seu
obscuro nascimento”16.

Parece, desta forma, que a vinculação mais estreita à memória de Marco


Aurélio teria agradado a vários senadores, mas a reabilitação de Cômodo teria
provocado o efeito inverso. O nome de Marco Aurélio estava inseparavelmente
unido ao epíteto de “filósofo”, pois esta foi a imagem construída por ele e que
se perpetuou nos trabalhos dos historiadores antigos e modernos, pois ele se
manteve conforme às tradições romanas e divulgava máximas do estoicismo, que
agradavam aos aristocratas mais cultivados. Para os historiadores antigos, como
vimos, Marco Aurélio já aparecia como o último imperador de uma Roma feliz,
cujo equilíbrio teria sido rompido com a ascensão de Cômodo17, e esses autores
representavam um modo de entendimento comum a alguns grupos aristocráti-
cos, que ficaram bastante contentes com a aproximação de Septímio da imagem
de Marco, mas resistiram à aproximação com a odiada imagem de Cômodo.
Septímio buscou controlar as oposições a seu governo mediante a remessa de
donativos para os soldados. Além disso, criou novas estratégias para defesa das
fronteiras, reforçando fortificações, construindo novas estradas para facilitar a
movimentação das tropas, criando forças móveis e facilitando o recrutamento
regional de soldados. Num processo que se estendia desde o governo de Domiciano,
da dinastia dos Flávios, Severo aumentou o soldo dos legionários e reorganizou
a annona militar, responsável pela distribuição de alimentos para os soldados.
Permitiu o casamento oficial dos legionários e a permanência de suas famílias em
cidades próximas às fortificações. Além disso, concedeu acesso direto dos centu-
riões à ordem eqüestre, o que lhes abria inúmeras possibilidades de ascender a
cargos civis e militares.
Com estas medidas, Severo buscava obter o apoio das forças militares, mas
também fortalecer as fronteiras frente aos avanços dos Partos, no Oriente, e
dos Bretões, que insistiam em atravessar a Muralha de Adriano. Manteve
relações tensas com os senadores, visto que confiou várias legiões e governos
de províncias a eqüestres, além de fortalecer o cargo de prefeito do pretório,
que passou a ser ocupado por famosos juristas, durante o período severiano,
como Papiniano, Ulpiano e Júlio Paulo, em detrimento do cargo de prefeito
da Cidade de Roma, ocupado somente por membros da ordem senatorial. As
relações com o senado pioraram após a conjuração de Plauciano, prefeito do
pretório e amigo pessoal de Severo, como ele africano nascido em Leptis
Magna, ocorrida em 205 d.C., na qual estavam implicados vários senadores.

16
D.C. 77.9.4.
17
Grimal 1997 7 e 327.

239
Além disso, o período severiano foi muito importante para a sistematiza-
ção das leis, tanto que Jean-Pierre Coriat chamou Septímio de “Le Prince
Législateur”, tal a técnica legislativa que se desenvolveu a partir de seu go-
verno e dos métodos de criação do direito imperial que foram fomentados
por ele e pelos seus sucessores 18.
Seguindo o modelo deixado por Adriano, Severo fez várias viagens pelo
Império, buscando conhecer seus governados, restabelecer o moral das tropas,
garantir a fidelidade das elites provinciais e fiscalizar os governadores provinciais.
Buscou também aproximar sua família de seu governo dando títulos diversos
a sua esposa, Júlia Domna, e a seus dois filhos e herdeiros, Caracala e Geta.
Septímio morreu de doença em 211 d.C., na cidade de York, enquanto lutava
contra os invasores na Bretanha.
Baseando-se na frase proposta por Díon Cássio como o último conselho de
Septímio para seus filhos e herdeiros: “Permaneçam unidos, enriqueçam os
soldados e não se preocupem com os demais”19, muitos autores defenderam que
esses primeiros Severos foram os responsáveis por criar uma monarquia militar,
buscando apoio somente entre os elementos militares para conseguirem ascen-
der ao poder e permanecer nele por mais tempo.
Entretanto, outras frases aparecem em outras obras como as últimas palavras
proferidas por Septímio. Por exemplo, tanto na obra de Aurélio Victor, Livro
dos Césares, quanto na História Augusta, a última frase de Septímio teria sido:
“Eu fui tudo, e isto de nada me serviu”20. Na História Augusta também apare-
ce ainda outra frase possível de ter sido dita por Severo antes de falecer:

“Ocupei-me de uma pátria agitada e turbulenta e a deixo pacificada, até mesmo a


Bretanha, deixando para meus filhos Antoninos, eu que estou enfermo dos pés e ve-
lho, um Império vigoroso, se é que são bons, mas temo que sua má conduta desfaça
minha obra”21.

Outro argumento para a caracterização da monarquia militar, que tem sido


bastante discutido, é o que se refere ao aumento dos soldos e à distribuição de
donativos, como forma de conseguir o apoio irrestrito dos soldados. Quase
todos os autores que usam este argumento se apoiam numa passagem de Díon
Cássio, na qual Caracala teria dito aos pretorianos, após o assassinato de Geta:
“Ninguém sobre a terra pode ter mais dinheiro do que eu, e eu quero dá-lo
todo para os soldados”22.

18
Coriat 1997.
19
D.C. 77.17.4.
20
Aur.Vic. Lib.Caes. 20 e Hist.Aug. Sev. 18.
21
Hist.Aug. Sev. 23.
22
D.C. 78.20.2.

240
Destarte, Mario Mazza afirma que:

“Os privilégios concedidos por Septímio Severo, e pelos seus sucessores, aos soldados
foram perfeitamente justificados pela situação econômica e, na realidade, não constitu-
íram nada além de uma necessária adequação a uma situação anterior insustentável”23.

Septímio e Caracala teriam tentado, com o aumento dos soldos, diminuir


o impacto inflacionário sobre o stipendium, que ocorria desde o governo de
Cômodo, e com isso tornar a carreira militar mais atraente e aumentar as ins-
crições nas legiões. Além disso, a possibilidade de casamento dada aos soldados,
entre outros benefícios descritos nas fontes textuais, faria com que os filhos dos
soldados se interessassem pela carreira paterna. Yann Le Bohec, no seu livro
L’Esercito Romano, demonstra, mediante um exaustivo estudo das fontes textu-
ais, epigráficas e numismáticas, e fazendo quadros comparativos com os
governos anteriores e posteriores, que os Severos não gastaram tanto assim em
soldos nem em donativos24.
Quanto à questão da utilização do exército para garantir a sucessão im-
perial, Louis Harmand defende que se deve apagar a tradicional distinção
entre Severos e Antoninos, pela qual os primeiros defenderam a hereditarie-
dade enquanto os segundos teriam defendido a adoção, como formas de
sucessão. Os Antoninos só adotaram porque não tiveram filhos legítimos,
tanto que quando foi possível, com Marco Aurélio, se optou novamente pela
hereditariedade. Além disso, Septímio procurou, inicialmente, a adoção de
Clódio Albino como César, para só depois indicar os seus dois filhos como
sucessores25. Acrescente-se ainda que mesmo utilizando a adoção, os Antoninos
não abriram mão do apoio do exército na escolha do próximo soberano,
basta relembrar as indicações de generais famosos, como Trajano e Adriano.
Os Antoninos também se preocuparam com o apoio das legiões aos seus in-
dicados, além do apoio senatorial.
Assim, acreditamos que realmente os primeiros Severos procuraram apoio
entre os militares, mas não foram os únicos a fazer isso, nem se apoiaram
apenas nos soldados. As bases da associação do imperador com o exército
foram firmemente estabelecidas por Augusto, e os imperadores subsequentes
preservaram e reelaboraram estas ideias26. Septímio Severo não tentou delibe-
radamente se basear unicamente no militarismo. Como todos os imperadores,
ele baseou sua posição num suporte militar, mas também reconheceu a neces-
sidade de acomodar os desejos das aristocracias, romanas e provinciais.

23
Mazza 1970 459.
24
Le Bohec 1993 283-290.
25
Harmand 1960 21.
26
Campbell 1984 409.

241
Depois da morte de Septímio, subiram ao poder seus dois filhos: Geta e
Caracala. A rivalidade entre os dois imperadores tornou-se rapidamente mani-
festa. Caracala ordenou a eliminação de Geta pelos seus centuriões e buscou o
apoio dos pretorianos, prometendo-lhes uma distribuição de trigo e de moedas
de prata (denários). Logo após o assassinato de Geta, ele se apresentou ao se-
nado, buscando também adquirir o seu apoio. Vários partidários de seu irmão
e membros da sua corte foram executados, junto com possíveis candidatos ao
cargo imperial, como um neto de Marco Aurélio. Durante o ano de 211 d.C.,
em que governaram de forma colegiada, tomaram duas medidas: aprovaram no
senado a consecratio de Septímio e assinaram um tratado de paz com os povos
invasores da Bretanha, o que foi considerado uma demonstração de fragilidade
dos novos imperadores, que prefeririam o armistício à guerra.

2. A cidadania universal

Caracala governou sozinho de 212 a 217 d.C.. Aumentou o soldo dos le-
gionários, causando inflação. Para combatê-la, criou uma nova moeda, o
Antoniano. Em 212 d.C., editou a Constitutio Antoniniana, uma lei imperial
que concedia a cidadania romana a todos os homens livres do Império. Com
esta medida, Caracala aumentou a arrecadação de impostos e a inscrição de
soldados nas legiões. Somente Díon Cássio faz referência a esta medida legis-
lativa tomada por Caracala:

“Esta foi a razão (necessidade de aumentar a arrecadação das taxas pagas pelos cida-
dãos) porque ele (Caracala) tornou todo o povo do Império cidadão romano. Nomi-
nalmente, ele os estava honrando, mas sua real proposta era aumentar os rendimentos,
porque aumentava-se, assim, o número de pessoas que deveriam pagar as taxas”27.

Caracala também enfrentou problemas nas fronteiras, como seu pai, e aca-
bou assassinado por comandados de seu prefeito do pretório, Opélio Macrino,
em 217 d.C.. As legiões estacionadas no Oriente tentaram eleger Advento, um
dos prefeitos do pretório, como imperador, mas este, alegando velhice, declinou
o convite. As legiões elegeram, então, Macrino, o outro prefeito do pretório.
Este tomou o nome dos Severos e deu o de Antonino a seu filho Diadúmeno
e neutralizou a invasão dos Partos. Todavia, a aristocracia romana e as legiões
estacionadas no Ocidente lhe foram hostis. O maior perigo ao seu governo,
contudo, demonstrou estar no interior do próprio palácio: o poder de coaliza-
ção das princesas sírias. Júlia Mesa, irmã de Júlia Domna, e suas filhas Júlia
Soêmia e Júlia Mamea conseguiram, após farta distribuição de moedas e da
divulgação da notícia da existência de um filho de Caracala, que as legiões da

27
D.C. 78.9.3-7.

242
Síria proclamassem Heliogábalo, filho de Soêmia, imperador. Macrino acabou
sendo morto junto com seu filho na Bitínia pelos soldados que anteriormente
haviam legitimado o seu poder.
Heliogábalo foi apresentado às tropas como sucessor direto dos Severos, em
218 d.C., como o propalado filho de Caracala. Para debelar a oposição, mandou
executar vários governadores provinciais, legados legionários e senadores. Para
manter um certo equilíbrio nas contas do tesouro, multiplicou as execuções e
os consequentes confiscos dos bens dos condenados. Seus costumes orientali-
zantes são ressaltados pelas fontes como motivo de descontentamento da
aristocracia romana, desde sempre autoproclamada defensora do mos maiorum.
Heliogábalo se apresentava vestido com roupas orientais e gastava muito tem-
po fazendo culto ao deus Elagabal de Émesa, um meteorito negro trazido para
Roma. A crise econômica se manteve e as despesas aumentaram com o serviço
de corte e com a manutenção do exército. O agravamento da situação frontei-
riça, com o acirramento das invasões, principalmente no lado oriental do
Império, acabou concorrendo para a eliminação de Heliogábalo e de Júlia
Soêmia pelos pretorianos, em 222 d.C., que entregaram o poder ao filho de
Júlia Mamea, Severo Alexandre.
Este buscou apoio no exército e no senado conjuntamente, o que lhe valeu
a entrada no rol dos denominados “bons imperadores” na historiografia im-
perial de cunho aristocrático. Tinha apenas quinze anos quando ascendeu ao
poder e acabou sendo bastante influenciado pelas mulheres de sua família.
Devolveu o deus Elagabal a Émesa e retirou de cargos importantes homens
fiéis a Heliogábalo. Porém, com a iminência da guerra contra os Persas
Sassânidas, começaram a surgir algumas rebeliões militares nas legiões alocadas
no Egito e na Síria, que tinham a intenção de provocar uma mudança de
imperador. As dificuldades econômicas continuavam e geravam inflação, o que
acabava por diminuir o poder de compra dos soldados, acarretando um au-
mento do descontentamento das legiões. Agitações internas, como a da
Mauritânia em 227 d.C., e os combates sucessivos, como contra os Persas em
231-232 d.C. e contra os Alamanos em 234-235 d.C., enfraqueceram o te-
souro, o exército e o imperador. Tornaram-se comuns os motins de soldados
provenientes de áreas ocidentais, desejosos de abandonar os campos de batalha
no Oriente e retornar às suas terras de origem.
Neste ínterim, toda vez que rumores de negociações com os invasores em
termos prejudiciais para Roma apareciam, a fraqueza do imperador se torna-
va ainda mais evidente. Desta forma, em 235 d.C., Severo Alexandre e sua
mãe acabaram sendo assassinados a mando de um antigo soldado de origem
trácia, chamado Maximino, que rapidamente se fez aclamar imperador. Soldado
de carreira, descendente de pastores, ele não buscou legitimação estabelecen-
do laços fictícios com os imperadores anteriores, mas trilhou caminhos novos
à frente do Império, enfrentando vários movimentos de oposição à sua pessoa
e ao seu governo.

243
3. Corte e elementos africanos e orientalizantes

A corte severiana foi composta por homens e mulheres que compartilhavam


com o príncipe o espaço da domus imperial ou palatium, ou seja, podiam se
deslocar pela residência imperial e compartilhavam da proximidade da figura
e da família do imperador. Em latim, o termo que aparece para caracterizar
estas pessoas é aula Caesaris. Trata-se de um grupo heterogêneo na sua compo-
sição e bastante flutuante em termos de número e características peculiares.
Para Robert Turcan é um tipo de estado dentro do Estado, que acaba por se
confundir muitas vezes com o Estado, pela possibilidade de obter benesses
imperiais e de influenciar a tomada de decisões28.
Como Septímio Severo nasceu no norte da África, na cidade de Leptis
Magna, e sua esposa, Julia Domna, vinha do Oriente (Émesa), costuma-se
buscar perceber a adição ao funcionamento da corte de elementos africanizados
e/ou orientalizantes. Todavia, acreditamos que a família severiana se comportou
no poder como uma boa família romana, apesar de suspeitas lançadas por seus
contemporâneos, como Díon Cássio, que ao relatar as festividades do casamen-
to de Caracala com Plautila, filha de Plauciano, enfatiza um certo caráter
bárbaro no cardápio oferecido no banquete: “E nós participamos juntos de um
banquete, em parte real em parte com um estilo bárbaro, no qual foram servi-
dos não somente todas as costumeiras carnes cozidas, mas também carne crua
e diversos animais ainda vivos”29.
O termo “corte” começou a ser empregado no início do século XIII para
designar tanto o conjunto de funcionários que cercava o rei, trabalhando para
este principalmente dentro dos limites do palácio, quanto os parlamentos que
se formaram na Espanha medieval, mais precisamente nos reinos de Leão e
Castela, por volta do ano de 1230 30. Ele tem sido, desde então, recorrentemen-
te empregado no estudo da sociedade romana para designar o grupo de
pessoas que cercava, acompanhava e servia os imperadores.
Na documentação textual relativa aos governos dos imperadores severianos,
aparecem também as palavras gregas terapontes (os servidores devotados de
nascimento livre que recebem voluntariamente um serviço honorável)31 e oikeioi
(os familiares, os da casa)32, e o verbo proseko (vir até alguém ou obedecer, ser
devotado)33 para identificar estes cortesãos. Devemos registrar também o apa-
recimento da expressão oi peri ten aulen, que pode ser traduzida de forma

28
Turcan 1987 10.
29
D.C. 77.1.3.
30
Cook 1983 74 -75.
31
Por exemplo, Hdn. 2.10.4.
32
Hdn. 4.6.1.
33
Hdn. 4.3.3.

244
literal por “os que cercam”, “os que estão dispostos em torno de alguém” 34.
Também em viagens, os soberanos levavam consigo alguns familiares, amigos
e servidores, cujas funções eles não poderiam dispensar. Como indicou Herodiano,
onde o imperador se encontrava, ali estava Roma35.
Em sentido amplo, a corte era formada pelos familiares, amigos, servidores
e funcionários do imperador, fossem estes escravos, libertos ou livres. Alguns
habitavam nas dependências imperiais no Palatino, enquanto outros moravam
em suas próprias residências e iam ao palácio apenas para prestar os seus ser-
viços. Entre os que serviam o soberano sem pertencer à casa imperial estavam,
por exemplo, os mestres retores, os astrólogos e os médicos.
Para Herodiano, o caráter dos membros de uma corte vinculava-se direta-
mente ao caráter do príncipe. Este costumava se deixar rodear por pessoas que
combinavam com ele em termos de vícios e virtudes. Herodiano cita, por
exemplo, as críticas que Septímio Severo teria feito à corte de Cômodo, res-
ponsável em parte pelo seu mau governo, pois seus membros compartilhavam
dos vícios do imperador e eram seus cúmplices nas suas más ações36. O grau da
influência de um servidor sobre o governante dependia do caráter do imperador,
da relação que o cortesão desenvolvia com ele e da posição hierárquica assumi-
da pelo cortesão no cada vez mais complexo serviço palaciano.
Conhecemos várias conjurações, que visavam a eliminação capital do soberano,
que contaram em suas fileiras com a participação dos cortesãos. Os mentores nor-
malmente eram senadores ou equestres, e os executores eram pessoas advindas de
estratos mais baixos da população, que tinham acesso à pessoa do príncipe. No caso
de Cômodo, por exemplo, os mentores foram Leto e Márcia, mas o executor foi
Narciso, um jovem liberto que estrangulou Cômodo37. Septímio faleceu de doen-
ça, mas antes disso, Caracala havia tentado acelerar a sua enfermidade, buscando
persuadir os médicos que o assistiam a não ministrar-lhe a medicação devida38.
Geta e Caracala construíram cortes paralelas, que agiam dentro dos valores
sociais vigentes, ou seja, serviam quase sempre com dedicação os seus respec-
tivos senhores, mas ao servirem-nos buscavam ao mesmo tempo enfraquecer o
poder do outro imperador. Como afirma Herodiano: “De ambas as partes seus
aduladores e serviçais incitavam a sua inimizade, alimentando a sua inclinação
para a discórdia própria dos jovens”39.
O medo de envenenamento por intermédio de copeiros e cozinheiros era
tão grande e constante que Júlia Mamea não permitia que seu filho, Severo

34
Hdn. 5.3.2.
35
Hdn. 1.6.5.
36
Hdn. 2.10.3.
37
Hdn. 1.17.11.
38
Hdn. 3.15.2.
39
Hdn. 3.10.4.

245
Alexandre, provasse bebidas ou manjares enviados por Heliogábalo, já que o
próprio imperador ou algum de seus apoiadores poderia utilizar este expedien-
te para eliminar Alexandre. Além disso, os cozinheiros e copeiros de Alexandre
não eram os que prestavam serviço geral no palácio, mas homens escolhidos
por sua mãe e sobre cuja lealdade não havia dúvidas40.
J. Crook, no livro Consilium Principis, ressalta a existência de um conselho
de amigos do príncipe que se reunia no palácio, a pedido do soberano e de
acordo com sua agenda e necessidade, intentando aconselhá-lo ao longo de seu
governo41. Sua composição, função e funcionamento variaram de um imperador
para outro, seguindo as circunstâncias, mas de um modo geral ele era compos-
to por homens úteis, técnicos eficazes e pessoas bem informadas. Segundo Turcan,
estes altos funcionários bastante experimentados constituíam a equipe governa-
mental com a qual o imperador trabalhava constantemente. Eles asseguravam
também uma certa continuidade de um governo para outro. Os conselheiros se
reuniam em horários diferentes do dia, segundo as urgências ou as rotinas.
Serviam como uma instância que acumulava as funções de comitê legislativo e
de um conselho privado dos amici principis, pois as leis eram elaboradas e deci-
didas no Palatino por meio dos éditos 42. No caso de Severo Alexandre, por
exemplo, seu conselho, organizado por sua avó e por sua mãe, acabou funcio-
nando como um verdadeiro conselho de regência, devido à sua pouca idade43.
Tratando-se do período severiano, não podemos nos esquecer do famoso
círculo de intelectuais que cercava Júlia Domna44 e que estimulou a divulgação
da segunda sofística45. Faziam parte deste círculo homens como o poeta Opiano,
o médico Galeno, o historiador Diógenes Laércio, o filósofo Filóstrato - bió-
grafo do taumaturgo Apolônio de Tiana - os juristas Ulpiano e Papiniano,
entre outros, que muitas vezes acabaram por ocupar cargos importantes junto
aos imperadores46. Indubitavelmente eles imprimiram marcas sensíveis na vida
social, artística e literária de seus contemporâneos.
De palco de prestação de serviços práticos e cotidianos, a aula foi se
transformando numa instituição característica do sistema imperial romano.
Um local de conflitos, no qual os descontentamentos se expressavam num
ambiente bem próximo do governante, onde público e privado se misturavam
sem limites rígidos definidos. Apesar das intrigas e conjurações ocorridas no

40
Hdn. 5.8.1.
41
Crook 1955 78.
42
Turcan 1987 143-146.
43
Hdn. 6.1.2.
44
Penella 1979 161-168.
45
Temos informações a respeito da carta de número setenta e três de Flávio Filóstrato, endereçada
exatamente a Júlia Domna, na qual ele distingue a antiga da segunda sofística, e a famosa referência
à segunda sofística na obra Vidas dos Sofistas do mesmo Filóstrato.
46
Turcan 1987 212.

246
seu interior, o serviço palaciano nunca deixou de existir. Ele foi se tornando
mais complexo e hierarquizado, seus cargos foram recebendo novas nomen-
claturas e abarcando novos serviços. A vita imperatoria não é somente
aquela dos imperadores, mas de todo o aparelho do Palatino e do que se
chama comumente de corte 47.
Portanto, os sucessores dos Antoninos não foram tão militarizados ou es-
trangeiros aos cânones do poder quanto a historiografia mais tradicional
gostaria de demonstrar. Ao contrário, os imperadores Severos foram responsáveis
por inúmeras inovações e recuperações capazes de garantir a permanência de um
Império territorial nas mãos dos dignatários romanos por mais alguns séculos.

Tábua Cronológica

161-180 d.C. Governos de Marco Aurélio e Lúcio Vero (morto em 169 d.C.)
162-166 d.C. Guerras contra os Partos
166-172 e 177-180 d.C. Guerras contra Marcomanos e Sármatas
180-192 d.C. Governo de Cômodo
193 d.C. Governo de Pertinaz; Governo de Dídio Juliano
193-211 d.C. Governo de Septímio Severo
194 d.C. Derrota de Pescênio Nigro em Isso
197 d.C. Derrota de Clódio Albino em Lyon
197-199 d.C. Guerras contra os Partos
208-211 d.C. Guerra contra os Bretões
211-217 d.C. Governos de Caracala e Geta (morto em 212 d.C.)
212 d.C. Promulgação da Constitutio Antoniniana
217-218 d.C. Governo de Macrino
218-222 d.C. Governo de Heliogábalo
222-235 d.C. Governo de Severo Alexandre
235-238 d.C. Governo de Maximino Trácio

Bibliografia

Bell, H. I. (1947), “The Constitutio Antoniana”, JRS 37 17-23.


Campbell, J. B. (1984), The Emperor and the Roman Army. Oxford, Clarendon Press.
Carrié, J.M. - Rousselle, A. (1999), L’Empire Romain em Mutation, des Sévères à Constantin. Paris, Seuil.
Cook, Ch. (org.) (1983), Dictionary of Historical Terms. London, Macmillan.
Coriat, J.P. (1997), Le Prince Législateur. Rome, École Française de Rome.
Crook, J. (1955), Consilium Principis. Cambridge, University Press.
De Martino, F. (1974), Storia della Costituzione Romana. Napoli, Dott. Eugenio Jovene.
D’Ors, A. (1956), “Estudios sobre la Constitutio Antoniniana”, Emerita 24 1-26.
Grimal, P. (1997), O Século de Augusto. Lisboa, Setenta.
Harmand, L. (1960), “Le Monde Romain sous les Antonins et les Sévères”. L’Information Historique.
22 21-29.
Le Bohec, Y. (1993), L’Esercito Romano. Roma, La Nuova Italia Scientifica.

47
Idem 10.

247
Manni, E. (1947), “La Lotta di Settimio Severo per la Conquista del Potere”, Rivista di Filologia Classica.
75 211-243.
Mazza, M. (1970), Lotte Sociali e Restaurazione Autoritaria nel III Secolo d.C. Catania, Università.
Penella, R.J. (1979), “Philostratus’ Letter to Julia Domna”, Hermes 107 161-168.
Rémondon, R. (1967), La Crisis del Imperio Romano. Barcelona, Labor.
Swain, S. – Harrison, S. – Elsner, J. eds (2007), Severan Culture. Cambridge, University Press.
Talamanca, M. (1971), “Effetti della Constitutio Antoniniana” in Studi in Onore di E. Volterra. Milano,
A. Giuffrè 433-560.
Turcan, R. (1987), Vivre à la Cour des Césars. Paris, Les Belles Lettres.
Walbank, F.W. (1981), La Pavorosa Revolución. Madrid, Alianza.

248
10. A anarquia do século III

Cláudia Teixeira
Universidade de Évora
Universidade de Coimbra
Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos
ORCID: 0000-0002-1282-2568
caat@uevora.pt

Sumário: Neste capítulo, descrevem-se os elementos que, tradicional-


mente, são chamados à colação para explicar o período de 235 d.C. a
284 d.C.. Além de uma breve exposição relativa às fontes, apresentam-se
os elementos de ordem económica, demográfica e climática que carac-
terizaram este espaço temporal e descrevem-se os confrontos com a Pérsia,
as invasões, os conflitos internos e as secessões na Gália e no Oriente.
Por fim, elencam-se as reformas realizadas, nomeadamente por Galieno
e Aureliano, e as tendências observadas no âmbito da gestão do Império 1.

A morte de Alexandre Severo, assassinado em 235 d.C., marca não apenas


o fim da dinastia severa, mas também o início de um longo período de insta-
bilidade, que se tornou conhecido como ‘período da anarquia’ ou ‘período da
anarquia militar’.
Os problemas que eclodem não são, na sua maioria, novos: a extensão do
império impunha métodos de gestão complexos que obrigavam ao recurso a
uma máquina burocrática pesada e cara; o fim do expansionismo territorial
impôs dificuldades à preservação do crescimento económico; a depreciação
monetária tinha sido um mecanismo recorrentemente usado no passado2 para

1
Trabalho realizado no âmbito do Projeto Rome our Home: (Auto)biographical Tradition and
the Shaping of Identity(ies). (PTDC/LLT-OUT/28431/2017).
2
No tempo de Augusto o denário continha 95% de prata. Após sucessivas desvalorizações
ocorridas nos principados de Nero, Marco Aurélio, Septímio Severo e Caracala, a moeda de prata
entrou em rápida depreciação. Vide Potter 2004 137-138 e 268.

https://doi.org/10.14195/978-989-26-1782-4_10
fazer face às crescentes dificuldades financeiras, originando elevados índices de
inflação; a instabilidade nas fronteiras, ameaçadas por povos bárbaros que
forçavam a entrada no espaço do Império, constituía uma realidade desde o
século anterior; crises políticas, nomeadamente de sucessão, haviam ocorrido
no final das dinastias júlio-cláudia e antonina; e usurpações, quer na forma
tentada, quer ipso facto, aconteceram também nas dinastias precedentes.
Todavia, no período de 235-284, a situação política, militar e económica
do Império sofre uma agudização, não só porque nela confluem problemas aos
quais as políticas anteriores não deram solução cabal, mas também porque
surgiram outros elementos de perturbação.

1. Fontes

A análise deste período (235 d.C.-284 a.C.) constitui, ainda hoje, um desafio,
em primeiro lugar, devido a uma substancial falta de fontes fidedignas e circuns-
tanciadas que permitam reconstruir, de forma integrada, a genealogia e a evolução
deste período de instabilidade. Não quer isto dizer que o estudo do século III se
encontre desprovido de fontes coevas. Como observa Géza Alföldy, “Our preserved
literary sources from the third century are quite diverse works of pagans and
Christians, historians and rhetors, apologists and philosophers, written in Egypt,
Asia Minor, Africa, Rome, Gaul or elsewhere, and their statements are influenced
by time, place, religion, by the authors’ personal interests and by the literary genos.”3.
Apesar desta constatação, a verdade é que a historiografia contemporânea
continua a apresentar reservas no tocante aos elementos que nos são transmitidos
pelos textos antigos. As razões são diversas e oscilam entre a consideração de que
se, por um lado, os autores cristãos, apesar de nos terem deixado uma visão de
um mundo em decadência, recorrentemente assolado por guerras, pestes e fomes,4
conferiram mais relevo aos desafios que se punham ao crescimento da Igreja,
submetendo o impulso de historiografar as vicissitudes do império ao filtro dos
valores emergentes do cristianismo, por outro lado, também os textos de autores
pagãos, além de escassos, desenvolvem características que os afastam da histo-
riografia de cariz elevado e eloquente dos séculos precedentes.

3
Alföldy 1974 90-91. Veja-se também Alföldy 1989, esp. 240 e segs.
4
Alföldy 1974 101-102: “In Christian literature, the constantly emphasized fames et terrae motus et
pestilentiae were an old apocalyptic topic. But Saint Cyprian gave in his Ad Demetrianum (3) a detailed
catalogue of the actual economic problems: shortage of food, increasing prices, exhaustion of mines and
quarries, decline of craftsmanship. (…) Seventh, decrease in population and manpower shortage, frequently
emphasized in the third century (…). Cyprian lamented that decrescit ac deficit in arvis agricola, in mari
nauta, miles in castris, and Dionysius of Alexandria was shocked by the decrease in population in his city.
This problem, together with physical degeneration and decreasing duration oflife, was emphasized also by
Philostratus, pseudo-Aristides, Solinus, Arnobius and Lactantius, and by panegyrists as well, who praised the
first tetrarchy for the fact that hominum aetates et numerus augentur, which was denied, however, by Lactantius.”

250
Assim, no século III, Herodiano escreve, em grego, História do Império
Romano após Marco Aurélio, que subsiste como a melhor fonte para o período
imediatamente subsequente ao fim dos Severos: o final do livro VI e o VII
incidem, respetivamente, no período de ascensão e de governação de Maximino
Trácio (235 d.C.- 238 d.C.); e o livro VIII relata os acontecimentos do ano
238 d.C.. Ainda do mesmo século, as obras de Déxipo de Atenas, sobre as
guerras entre Romanos e Godos (Skythika) e sobre o império de Cláudio o
Godo (Chronike Historia), sobreviveram apenas fragmentariamente 5. Do sé-
culo IV conservou-se um conjunto de obras, muito possivelmente elaboradas
a partir da mesma fonte 6. Além da Historia Augusta, uma coletânea de biogra-
fias de imperadores, césares e usurpadores 7, em grande parte considerada
fantasiosa e contaminada por uma considerável subjetividade, chegou-nos um
conjunto de obras desenvolvidas segundo o mesmo esquema narrativo: o Liber
de Caesaribus de Aurélio Victor, o Breuiarium Historiae Romanae de Eutrópio
e a Epitome de Caesaribus, obra anónima, equivocamente atribuída a Aurélio
Victor. Do mesmo século, subsiste ainda o Breviarium rerum gestarum populi
Romani de Festo.
Se a leitura destes textos torna percetíveis as dificuldades e as transfor-
mações que se operaram durante o período da anarquia, já a explicação das
causas do suposto declínio do império, mais do que decorrer de uma avalia-
ção crítica dos processos, enfermava de uma conceção personalizante da
análise histórica, de cariz moral, que via os acontecimentos como resultado
direto das ações e do carácter dos seus agentes, tipologicamente segmentados
entre “bons e maus imperadores”, ou, sobretudo nos textos cristãos, de uma
conceção moralizante da história, que frequentemente interpretava as vicis-
situdes dos tempos como resultado da intervenção divina, que por meio
delas castigava a decadência moral do Império: “(...) the whole Christian
apology laid the blame on pagan society, vehemently putting forward very
similar arguments: all contemporary evils were to be regarded as ultio divina
(thus in Cyprian’s terminology, referring to the defeat of Decius by the Goths)
for the religious and moral sins of pagan Rome and, indeed, for the weakness
and laxity of some Christians, too. (...) Historians attempted to find more

5
A obra de Déxipo de Atenas foi continuada, no século seguinte, por Eunápio, que escreveu
sobre os anos de 270 d.C. a 404 d.C.
6
Alexander Enmann formulou a tese de que estas obras teriam tido uma fonte comum. Essa
fonte ficou conhecida como Enmannsche Kaisergeschichte ou simplesmente Kaisergeschichte.
7
A obra inicia-se com a biografia de Adriano e termina com a de Carino, com uma lacuna que
abrange os anos de 244 a 253, correspondente aos principados de Filipe, Décio, Treboniano Galo e
Emiliano. A obra, a despeito dos julgamentos relativos à sua falta de fidedignidade, tem motivado
substanciais estudos. A título de exemplo, deixa-se aqui a referência aos treze volumes publicados
entre 1963 e 1989, em Bona, da série Historia Augusta Colloquia, a que se seguiu a publicação de
mais dez volumes entre 1991–2007, em Itália (Macerata: vol. 1; Bari: vols. 2-10) da nova série
dos Historiae Augustae Colloquia.

251
rational explanations as well. Cassius Dio and Herodian tried to explain all
evils in contemporary history by errors and mistakes of emperors - in par-
ticular the young ones, said Herodian (1.1.6) - who disregarded the
traditional order. The same personalistic attitude towards history is to be
found frequently.” 8.
Embora a fixação da memória histórica torne reconhecíveis os sinais da
instabilidade vivida neste período do século III, contudo as fontes não desen-
volvem, de forma articulada, o problema das suas causas para que seja
epistemologicamente possível um conhecimento integrado da realidade.
A escassez de informação exige frequentemente o recurso a autores poste-
riores9 (Eunápio, Zósimo Malalas, Jordanes, Sincelo e Zonaras, entre outros10),
ou a obras de outros géneros (como aos obscuros Oracula Sibyllina, cujo livro
XIII nos oferece informações sobre a campanha de Gordiano III contra a
Pérsia), ou ainda a autores de outras tradições (de que é exemplo a monogra-
fia de Al-Tabari sobre os Sassânidas). De igual forma, quer a epigrafia quer
a numismática têm sido fundamentais para a reconstituição do período. Se o
declínio da epigrafia comprova, em termos de macroanálise, a quebra do
investimento em obras públicas e a redução das práticas evergéticas, os textos
das inscrições que sobreviveram ao período têm-se provado úteis para a re-
constituição dos acontecimentos e da respetiva cadeia cronológica. A título
de exemplo, a inscrição que transmite a Res gestae Divi Saporis dá-nos infor-
mações sobre as cidades conquistadas a Oriente nas guerras com os Romanos;
e a inscrição de Augsburg, encontrada no início dos anos noventa do século
XX, permitiu introduzir na narrativa histórica um episódio desconhecido
(a libertação de romanos capturados pelos Jutungos), contribuindo ainda para
a definição da cronologia da secessão na Gália; 11 de igual forma os estudos
numismáticos oferecem-nos dados que permitem confirmar a existência de
sujeitos históricos 12, bem como informações relativamente a matérias tão
distintas como o grau de enfraquecimento da moeda ou as tendências da
representação imperial 13.

8
Alföldy 1974 106.
Uma exaustiva concatenação de fontes relativas às guerras com a Pérsia encontra-se em
9

Dodgeon – Lieu 1991.


10
Em Drinkwater 2008 65-66, pode ler-se uma breve análise crítica das fontes mais relevantes
para o estudo deste período.
11
Vide Hekster 2008 26; e Potter 2004 296-297.
12
Goldsworthy 2009 138: “In 2004 a coin was found in Oxfordshire bearing the image and
name of the extremely short-lived usurper Domitianus. Briefly mentioned in the literary sources,
he was said to have rebelled against Aurelian in 270 or 271. Only a single coin had previously
been found with his name, and this had widely been dismissed as a forgery. Now it is clear that
he made a bid for imperial power, probably somewhere in the western provinces, and lasted long
enough to have coins minted in his name.”
13
Vide Manders 2012, esp. 221-222 e 253-309.

252
2. Economia, clima e demografia

Um dos problemas estruturais que abalou o império durante o período de


crise foi a sistemática desvalorização da moeda e o consequente enfraquecimento
do sistema financeiro. Os esforços de guerra, quer nas fronteiras, quer em quadro
intestino, exauriram o tesouro público14, levando à tomada de medidas económicas
e financeiras, que, contrariamente ao esperado, se tornaram parte do problema.
Um dos recursos à disposição dos imperadores para adquirir liquidez financeira
passava pela aplicação de medidas fiscais, nomeadamente aumentando impostos,
de forma sistemática ou extraordinária. Todavia, a ampliação da carga fiscal não só
operava um sério contraste com o regime de baixa taxação que caracterizara o
império nos tempos precedentes, como, aplicada em tempo de crise, suscitava a
animosidade das populações, agravadas por medidas consideradas injustas,15 crian-
do tensões sociais e revoltas: “In the face of these ever-increasing demands for
revenue, local notables protested loudly (and in some cases simply refused to collect)
the war taxes which central government attempted to impose on the provinces of
empire.”16 Desta forma, e independentemente de a política subjacente às tributações
agravar todos ou apenas alguns setores da população17, o potencial subversivo
destas medidas (que explicaria, por exemplo, os esforços de redução da carga fiscal
no tempo de Gordiano III18), aliado às dificuldades de realizar a taxação com re-
gularidade, sobretudo nas zonas mais instáveis, tornou a desvalorização da moeda
o mecanismo mais utilizado durante a crise do século III para fazer face à necessi-
dade de liquidez. Caracala tinha introduzido o antoniniano19 em 215 d.C..

14
Lo Cascio 2008 161: “The immense war effort of these years inevitably entailed more taxation,
which increasingly took the form of requisitions for the annona militaris.”.
15
Drinkwater 2008 30 observa, sobre Maximino: “On the other hand, his constant warfare
led to a significant increase in state spending which had to be met from taxation. Maximinus
tightened up the collection of standard taxes and demanded extraordinary payments from rich
and poor alike. Money and materials were not the only things he asked for: the levying of recruits
may also have occasioned resentment.”; idem 34, sobre Gordiano III: “The new administration
attempted to avoid a reputation for rapacity, and efforts were made to reduce the tax burden. (...)
The continued production and debasement of the antoninianus suggests fiscal difficulties;” idem
38, sobre Filipe: “Towards the end of his reign, his brother, Priscus, attempted to increase taxes in
the east, but managed only to provoke a second ephemeral rebellion led by M. F(ulvius?) Ru(fus?)
Iotapianus. Contemporary religious rioting in Alexandria was, perhaps, also stimulated by Priscus’
attempts to squeeze more taxation from Egypt.”; idem, 51 sobre Aureliano: “Aurelian’s attempts
to increase his resources brought him more unpopularity. It was perhaps his efforts to improve tax
collection that inspired charges of rapacity;”.
16
Kelly 2004 110.
17
Lo Cascio 2008 161: “But there were also attempts to reform the very system of tax collection.
Philip the Arabian, for example, tried to distribute the tax burden more equitably and efficiently
by revising the definition of taxable capacity, without weighing excessively on the higher classes.”
18
Vide nota 14.
Segundo Corbier 2008 334: “The weight and silver content of the antoninianus, which
19

becomes the commonest denomination, falls by very little before 250, but the decline then accelerates.

253
A cunhagem desta moeda, suspensa no tempo de Heliogábalo, foi retomada com
Pupieno e Balbino e substituiu o denário no tempo de Gordiano III. A moeda
rapidamente ficou à mercê de sucessivas desvalorizações, ocorridas, por exemplo,
nos principados do próprio Gordiano III, de Filipe e de Galieno20. No entanto,
as emissões com baixa percentagem de prata geraram uma crise de confiança por
parte das populações, o que, consequentemente, levou ao aumento de preços de
forma a compensar o reduzido conteúdo de metal precioso – situação que, por
sua vez, conduziu a uma espiral inflacionária.21 A inflação, que segundo alguns
estudos teria chegado aos 1000%, levou ao declínio do poder de compra, das
atividades económicas e das trocas comerciais. Em virtude desta circunstância, as
receitas tributárias desceram, pelo que “(…) the cash payments to the army and
some taxes were partly transmuted into payments in kind. From the third century
the annona became more of a regular institution, but at first its regulation was
inconsistent and spasmodic. Cash payments to the army were taken from the
central treasury, but requisitions in kind fell most heavily on those areas where
the troops were operating.”22.
Além disso, nas províncias mais expostas às invasões existem indicadores de
que a instabilidade afetou a produtividade, o que, consequentemente, conduziu
à descida do volume dos excedentes agrícolas. Que os campos foram, em parte,
abandonados pode deduzir-se das medidas fiscais de Aureliano e de Probo que
pretendiam encorajar a produção agrícola e a viticultura 23. Evidentemente, a
situação não seria igual em todas as regiões do império, nem as alterações
aconteceram necessariamente no mesmo espaço cronológico24. Estudos recentes,
apoiados em dados arqueológicos, têm revelado indicadores, desconhecidos ou
não tratados pela literatura, que nos permitem perceber as múltiplas variações
da crise não só à escala regional como, em alguns casos, no plano intra-regional25.

These reductions also affect the aureus: its weight keeps falling and, besides, its metal content is
reduced in the reigns of Valerian and Gallienus, while its weight becomes totally erratic.”. Vide
também, Burns 2013.
20
Watson 2003 126 observa: “The debasement of this coin was not only rapid but thorough:
under Gallienus the antoninianus effectively became a base-metal coin with the merest dash of silver,
so that, by the time of Aurelian’s accession, its silver content was little more than 1.5 per cent.”
21
Watson 2003 125- 126 aduz ainda outras consequências destes debasements: “(...) the virtual
collapse of the copper-based coinage. (...); the end of the local civic coinage. (...); a rapidly increasing
amount of fraudulent coining.”
22
Southern 2001 96.
23
Watson 2003 137.
24
Hekster 2008 35: “Geographic differences become even more telling if they are combined with
chronological differentiation. Until the 260s, many areas of the empire (especially those that were
not directly touched by warfare) changed little in terms of inhabitants, welfare and infrastructure.
The areas that have been thus defined by recent scholarship include Italy, Gaul, Britain, Spain
and of course northern Africa.”.
25
Jongman 2007 197: “More land per person inevitably means a lower aggregate production:
production per hectare must have gone down, since there was more land to work in the same

254
Estes indicadores comprovam, por exemplo, que, se a agricultura no Norte da
Península Itálica, da Germânia e da Gália entrou em decadência, na Britânia
não há sinais de declínio;26 e que na Hispânia27 e no Norte de África28 não se
registam sinais de eversão económica.
De igual forma, o êxodo das populações não foi uniforme: se, em algumas
regiões, as cidades foram abandonadas, em outras registou-se o abandono dos
campos, por vezes causado por razões idiossincráticas; se, por um lado, algumas
zonas rurais foram desocupadas porque se encontravam diretamente expostas
às invasões, outras, situadas em zonas seguras, teriam sido abandonadas pelos
proprietários em virtude da incapacidade de cumprirem exigências fiscais pe-
sadas e de consecutivos anos de más colheitas; por sua vez, as pequenas
produções abandonadas neste último contexto tenderam a concentrar-se nas
mãos de grandes proprietários, aos quais o campo oferecia uma maior proteção
do movimento invasor, que preferencialmente dirigia os ataques contra aglo-
merados populacionais de maior dimensão.
A instabilidade afetou também outros setores como os da extração 29 e o
comércio: “The intestine wars, the external pressure, and the economic
crisis of the third century had a damaging effect on the Eastern long-distance
trade. It has already been noted that trade was prosperous when the Empire
was at peace, that is, from the later first century B.C.; consequently, it should
hardly come as a surprise that internal warfare in the third century had

amount of time. For this reason, and because some of the worst land was probably abandoned,
production per man hour must have gone up, and thus also incomes from agricultural labour (...)
Duncan-Jones has recently surveyed the evidence for agricultural change, and concluded that there
were two trends: the first is that from the third or even late second century A.D. site numbers
declined pretty steeply in many (though not all) parts of the Empire. The second trend is that of
a particularly steep decline of smaller sites, and an increase in the size of larger and sometimes
even fortified sites. The agricultural decline seems to have gone together with a change in rural
social relations.” Vide exemplos de variação regional e intra-regional em Hekster 2008, 34 e segs.
26
Martino 1985 567: “Perdonada por las invasiones, Britania tuvo en el siglo III y en la
primera mitad del IV una agricultura que seguía siendo floreciente, mientras que en otras partes,
como hemos visto, decaía (...).”; idem, 570: “Como la Galia, e incluso de forma más inmediata,
Germania estaba expuesta a las incursiones e invasiones de los bárbaros del siglo III, que dejaron
profundas huellas en la región, provocaron el empobrecimiento del campo y la desaparición de la
pequeña propiedad (...).”. Vide também, Birley 2007.
27
Vide Bravo Castañeda 1993 e Arce Martínez 1993.
28
Hekster 2008 36: “It may not be a coincidence that the area of the Roman world with
the most stable economy was also the zone which suffered least from the military unrest in the
empire. With the Mediterranean in the north, and the Sahara in the south, Africa was safe from
enemy attacks. Brigands roamed round on occasion, but they had already done so before the third
century, and created more embarrassment than disaster (...). More importantly, perhaps, Africa was
spared the large conglomeration of troops, which many border regions of the empire suffered (...)”
29
Marzano 2011 221: “Indeed, by the third century, because of those invasions and disorders
that caused the fortification of the Iberian towns to be built, the exploitation of the mines had
ceased and the export of olive oil and salted fish had dropped.”.

255
damaged this trade. Similarly, the uncontrolled inflation which gripped the
Roman world during the latter part of the third century damaged interna-
tional commerce, in so far as the buying power of Roman currency collapsed.
In addition, the serious inflation greatly reduced the ability of citizens to
purchase luxury goods.” 30.
Estudos recentes têm também chamado a atenção para as alterações climá-
ticas ocorridas entre os séculos II e III. O clima, tradicionalmente quente e
húmido, teria dado lugar a tempos mais secos e frios 31, o que teria tido im-
pacto na produtividade agrícola, 32 gerado problemas fitossanitários e, na
opinião de alguns autores, contribuído para a pressão dos povos bárbaros nas
fronteiras 33. Outro problema que assolou o Império foi a peste. Embora seja
difícil calcular o impacto deste fenómeno na população, as epidemias ocorri-
das nos principados de Treboniano Galo, Galieno e Cláudio tiveram efeitos
na baixa demográfica que se sentiu no século III e, consequentemente, na
economia e na sociedade.

3. Conflitos

Um dos fatores que, tradicionalmente, é chamado à colação na qualidade


de elemento estruturante da crise de 235-284 assenta na pressão operada a Este
pela Pérsia, reemergente após a subida ao poder da nova dinastia sassânida, e
no limes Germanicus, isto é na fronteira do Danúbio e do Reno, pelos povos
germânicos 34. Todavia, a co