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REPÚBLICA DE ANGOLA

MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO

ESCOLA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES 4 DE ABRIL

NOME:

Classe: 12ª

Opção: Mat.física

Turma: G
INTRODUÇÃO

A paixão pelo saber continua a ser um grande mistério da própria experiência


humana. Todas as coisas devem ter um rosto a que nos dirigimos primeiro, antes de
olharmos para alguém.

À maior parte dos Homens que olham para a filosofia, sobretudo nos nossos
dias, ela não suscita nem prazer nem amor. Pois, a filosofia manifesta um mostro
desagradável, ridículo e mais do que nunca inútil. Esta parte da filosofia é a sua
fisionomia vista por fora.

Mas a filosofia não é apenas uma face externa, também interna. A filosofia, vista
por fora, é a imagem externa que o mundo tem de si: complexa, cheia de confusões e
discórdias, perturbadora de espíritos quietos e acomodados, clara de ignorância, na
ausência da crítica sobre o que está a sua volta. Pois não haverá reacção contrária para
quem se acomoda a ignorância, a não ser aquela que inutiliza tudo aquilo que é
exigente.
A filosofia é o próprio HOMEM: dinâmico, problemático, insaciável (sempre
quer mais e sempre mais), é a própria razão humana ao serviço do próprio homem.
Espero que com este material encontres uma possibilidade de fazer uma
experiência filosófica diferente, que te ilumine no olhar a realidade com visão crítica
(não no sentido crítico que se prolifera nas nossas sociedades), mas no sentido de
reflectir em cada momento da vida as circunstâncias, desafios e problemas que ela nos
apresenta.
UNIDADE I – EMERGÊNCIA DA FILOSOFIA

1. HISTÓRIA E EVOLUÇÃO

A filosofia ocidental surgiu na Grécia antiga no século VI a.C. A partir de então,


uma sucessão de pensadores originais – como Tales, Xenófanes, Pitágoras, Heráclito e
Protágoras – empenhou-se em responder, racionalmente, questões acerca da realidade
última das coisas, das origens e características do verdadeiro conhecimento, da
objetividade dos valores morais, da existência e natureza dos deuses (ou de Deus).
Muitas das questões levantadas por esses antigos pensadores são, ainda, temas
importantes da filosofia contemporânea.
Durante as Idades Antiga e Medieval, a filosofia compreendia praticamente
todas as áreas de investigação teórica. Em seu escopo figuravam desde disciplinas
altamente abstratas – em que se estudavam o "ser enquanto ser" e os princípios gerais
do raciocínio – até pesquisas sobre fenômenos mais específicos – como a queda dos
corpos e a classificação dos seres vivos. Especialmente a partir do século XVII, vários
ramos do conhecimento começam a separar-se da filosofia e a constituir-se em ciências
independentes com técnicas e métodos próprios (priorizando, sobretudo, a observação e
a experimentação).
Apesar disso, a filosofia atual ainda pode ser vista como uma disciplina que trata
de questões gerais e abstratas que sejam relevantes para a fundamentação das demais
ciências particulares ou demais atividades culturais. A princípio, tais questões não
poderiam ser convenientemente tratadas por métodos científicos.
Por razões de conveniência e especialização, os problemas filosóficos são
agrupados em subáreas temáticas: entre elas as mais tradicionais são a metafísica, a
epistemologia, a lógica, a ética, a estética e a filosofia política.
Acreditamos que as pessoas ao redor são em tudo semelhantes a nós, vêem as
mesmas coisas, têm os mesmos sentimentos e sensações e as mesmas necessidades.
Buscamos interagir com outras pessoas, e encontrar alguém com quem compartilhar a
vida e, talvez, constituir família, pois tudo nos leva a crer que essa é uma das condições
para a nossa felicidade. Periodicamente reclamamos de abusos na televisão, em
propagandas e noticiários, na crença de que há certos valores que estão sendo
transgredidos por puro sensacionalismo.
Em todos esses casos, nossas crenças e valores determinam nossas ações e
atitudes sem que eles sequer nos passem pela cabeça. Mas eles estão lá, profundamente
arraigados e extremamente influentes. Enquanto estamos ocupados em trabalhar, pagar
as contas ou divertir-nos, não vemos necessidade de questionar essas crenças e valores.
Mas nada impede que, em determinado momento, façamos uma reflexão profunda sobre
o significado desses valores e crenças fundamentais e sobre a sua consistência. É nesse
estado de espírito que formularemos perguntas como: “O que é a realidade em si
mesma?”, “O que há por trás daquilo que vejo, ouço e toco?”, “O que é o espaço? E o
que é o tempo?”, “Se o que aconteceu há um centésimo de segundo já é passado, será
que o presente não é uma ficção?”, “Será que tudo o que acontece é sempre antecedido
por causas?”, “O que é a felicidade? E como alcançá-la?”, “O que é o certo e o errado?”,
“O que é a liberdade?”. De onde viemos? Quem somos? Para onde vamos?1 Essas
perguntas são tipicamente filosóficas e refletem algo que poderíamos chamar de atitude
filosófica perante o mundo e perante nós mesmos. É a atitude de nos voltarmos para as
nossas crenças mais fundamentais e esforçar-nos por compreendê-las, avaliá-las e
justificá-las. Muitas delas parecem ser tão óbvias que ninguém em sã consciência
tentaria sinceramente questioná-las. Poucos colocariam em questão máximas como
“Matar é errado”, “A democracia é melhor que a ditadura”, “A liberdade de expressão e
de opinião é um valor indispensável”. Mas, a atitude filosófica não reconhece domínios
fechados à investigação. Mesmo em relação a crenças e valores que consideramos
absolutamente inegociáveis, a proposta da filosofia é a de submetê-los ao exame crítico,
racional e argumentativo, de modo que a nossa adesão seja restabelecida em novo
patamar. Em outras palavras, a proposta filosófica é a de que, se é para sustentarmos
certas crenças e valores, que sejam sustentados de maneira crítica e refletida.
Muitos autores identificam essa atitude filosófica com uma espécie de habilidade
ou capacidade de se admirar com as coisas, por mais prosaicas que sejam. Na base da
filosofia, estaria a curiosidade típica das crianças ou dos que não se contentam com
respostas prontas. Platão, um dos pais fundadores da filosofia ocidental, afirmava que o
sentimento de assombro ou admiração está na origem do pensamento filosófico:
Embora essa capacidade de admirar-se com a realidade possa estar na origem do
pensamento filosófico, isso não significa que tal admiração provoque apenas e tão
somente filosofia. O sentimento religioso, por exemplo, pode igualmente surgir dessa
disposição: a aparente perfeição da natureza, as sincronias dos processos naturais, a
complexidade dos seres vivos podem causar profunda impressão no indivíduo e levá-lo
a indagar se o responsável por tudo isso não seria uma Inteligência Superior.

1.1 A Origem da Filosofia

A história da humanidade produziu vários acontecimentos, enquadrados


periodicamente em duas grandes eras de desenvolvimento humano:

1. Era primitiva.
2. Era moderna ou actual.

A Era Primitiva desdobrou-se num longo período que se estende desde a


dependência do Homem em relação à Natureza provavelmente à renovação cultural do
próprio Homem; isto é, quando sai das florestas para as savanas, das savanas para as
aldeias e das aldeias para as cidades que geram as civilizações actuais. Sabe-se que na
fase primitiva o homem dependia directamente da natureza porque o seu pensamento

1
Paul Gauguin, 1897/98, no Museu de Belas Artes de Boston
não lhe permitia ainda alterar o curso das coisas. Pelo que se alimentava dos frutos
silvestres e a carne não cozida, caminhando longas distâncias a pé, etc.

Com o desenvolvimento do seu cérebro, qualidade melhorada com o Homo


sapiens, varias foram as tentativas de mudar o rumo dos acontecimentos: cerca de 450
mil anos2 atrás, o Homem descobre o fogo, sua primeira conquista. Nesta era, o Homem
pensava, mas o seu pensamento é considerado mitológico. Isto porque as várias
respostas e hipóteses dadas sobre o mundo tinham predominação do mito, um tipo de
respostas imaginárias. Podemos lembrar o mito sobre as sereias do mar ou dos rios.

Os tempos foram mudando, e tendo em conta a lei da evolução à qual o Homem


está sujeito a transformações. Aconteceu no século VI a. C. que este descobriu existir
dentro de si mesmo uma forma de pensamento diferente da mitologia. Esta nova forma
de pensamento é conhecida como pensamento racional, e é fundamentada na razão.
Esta maneira de pensar começa a vigorar na Grécia antiga, que gera a filosofia, por
intermédio do seu primeiro filósofo, marcado pela história do pensamento, Tales de
Mileto. Assim, estamos em presença de duas formas básicas de pensamento:

 O pensamento mitológico; utilizado na era primitiva através da


imaginação.
 O pensamento racional; utilizado na era actual ou pelo mundo moderno,
que começa com a filosofia.

A diferença entre os dois tipos de pensamento está na forma como explicam os


fenómenos do mundo, na sua fundamentação, na justificação das respostas e hipóteses
dadas: a mitologia explica os fenómenos da natureza com recurso a respostas
imaginárias, longe de verdadeiras hipóteses científicas; pois a maior parte dos casos não
constituem uma verdade nem são válidas e, muito menos, têm uma coerência lógica.

Enquanto o pensamento racional, ao procurar as últimas causas das coisas,


obriga o Homem a que as suas respostas sejam rigorosas, coerentes, válidas e bem
argumentadas.

Em síntese, a mitologia não é rigorosa nas suas respostas, enquanto a filosofia é


racional e rigorosa nas suas hipóteses.

O que é a mitologia e o mito? O que é a filosofia e a razão? A mitologia 3 é uma


representação fantasiosa, que constitui a consciência social dos primeiros estádios do
pensamento humano sobre os fenómenos da natureza e da vida social de um povo.

O mito é uma fábula, fantasia ou faculdade imaginativa que ajudou a fornecer ao


Homem várias ideias sobre os fenómenos do mundo primitivo. Em todo o percurso
mitológico, o mito desempenhou três funções fundamentais:

2
MIRANDA, Isabel e SANTOS, Adelaide, Viagens no Tempo, História, 7º ano, 3º. Ciclo do ensino básico,
Plátano Editora, Lisboa, 1995, p. 14
3
CASINI, Paolo, As Filosofias da Natureza, Editorial Presença.
 Função Religiosa: em que o Homem primitivo utilizava o mito para
atribuir poderes, capacidade e vida a vários seres animados e inanimados
do Universo, ex.: do fenómeno dos trovões dizia-se ser fruto da fúria dos
deuses;
 Função Social: em que o Homem se servia do mito para estabelecer um
conjunto de tabus, que naquela altura tiveram um certo carácter de norma
social, e cujo fim era regular e fazer cumprir certos costumes e tradições,
para enquadramento social do próprio Homem, bem como para
prevenção e um certo modo de evitar a desarmonia social;
 Função Filosófica: que consistia numa certa atitude de curiosidade para
dar uma explicação dos fenómenos.

O surgimento da filosofia como ciência, pelo menos como um certo modo de


entender racionalmente o Universo, em toda a história do pensamento humano, é uma
conquista peculiar dos gregos. Tendo em conta a sua importância, levanta-se uma certa
discussão quanto ao modo do seu surgimento: alguns teóricos dizem que esta forma
racional e rigorosa de pensar, atribuída aos gregos, tem as suas bases na filosofia
oriental. Deste modo, os teóricos dividem-se em duas tendências:

 Uma é constituída pelos teóricos orientais, que atribuem a origem da


filosofia grega a uma imitação da filosofia oriental, no século I a.C;
 A outra é a tendência ocidental que sustenta que, pelo menos até ao
século VI a.C., nenhum outro povo pensou tão racionalmente como o
povo da Grécia Antiga.

A tendência ocidental, observada na filosofia grega, teria a sua origem e


influência nos princípios e doutrina da filosofia oriental (Babilónia, Síria, Palestina e
Egipto). Com efeito, diversos gregos, entre eles; Tales, Pitágoras e até Platão, viajaram
muito pelo Oriente, sobretudo até ao Egipto, onde se terão inspirado para depois
desenvolverem a sua filosofia na Grécia. Foi no Egipto que Pitágoras captou as
experiências da geometria que consistiam da «necessidade de medir o rio Nilo»; daí
compreendeu que o (aithmós), número ou medida, é o principio primeiro que dá origem
às figuras que hoje inundam o Universo. Estas reivindicações podem ser encontradas
nos trabalhos do primeiro historiador grego, Heródoto e em outros.

Daí concluir-se que a filosofia oriental é diferente da filosofia ocidental, porque


a oriental é tendencialmente religiosa (embora possa ter certos princípios racionais), ao
passo que a filosofia ocidental é basicamente racional, uma investigação constante das
causas últimas de todas as coisas.

Por isso, a filosofia (como ciência) maioritariamente estudada é a ocidental;


aquela que surge no século VI a.C. por intermédio de Tales de Mileto, numa das ilhas
da Ásia Menor do império grego, a Jónia, a qual se estende por todo o mundo, de
geração em geração. Desta maneira, a filosofia torna-se a primeira ciência racional
criada pelo Homem para facilitar a compreensão do mundo.
A história da filosofia divide, por isso, a filosofia em: oriental e ocidental,
conforme o esquema seguinte:

1ª Filosofia indiana

Oriental 2ª Filosofia chinesa

3ª Filosofia egípcia

Filosofia 1ª Filosofia grega

2ª Filosofia patrística

Ocidental 3ª Filosofia moderna

4ª Filosofia contemporânea

As preocupações pelo bem-estar na vida, levaram os indianos ao estudo da ética,


da moral, da teoria do conhecimento e de outros ramos que hoje constituem várias
ciências, embora de modo incipiente.

Entre os séculos V e III a.C. surgem na China antiga um conjunto diverso de


sistemas, que representam filosofias incipientes. O materialismo, a dialéctica, o
conhecimento na base dos órgãos sensoriais, etc. Confúcio (551-429 a.C.) destacava-se
na filosofia chinesa por ter sido o primeiro a elaborar um tipo de pensamento social. O
sentido da honestidade na vida; a identificação do Homem pelo seu trabalho; a
determinação da vontade dos homens pelas divinas e naturais, etc; por isso, também se
conclui que a filosofia chinesa é dominada pela religiosidade.

1.2 Etimologia da palavra Filosofia

A palavra "filosofia" (do grego) é uma composição de duas palavras: philos


(φίλος) e sophia (σοφία). A primeira é uma derivação de philia (φιλία) que significa
amizade, amor fraterno e respeito entre os iguais; a segunda significa sabedoria ou
simplesmente saber. Filosofia significa, portanto, amizade pela sabedoria, amor e
respeito pelo saber; e o filósofo, por sua vez, seria aquele que ama e busca a sabedoria,
tem amizade pelo saber, deseja saber. A tradição atribui ao filósofo Pitágoras de Samos
(que viveu no século V a.C.) a criação da palavra. Conforme essa tradição, Pitágoras
teria criado o termo para modestamente ressaltar que a sabedoria plena e perfeita seria
atributo apenas dos deuses; os homens, no entanto, poderiam venerá-la e amá-la na
qualidade de filósofos.

A palavra philosophía não é simplesmente uma invenção moderna a partir de


termos gregos, mas, sim, um empréstimo tomado da própria língua grega. Os termos
φιλοσοφος (philosophos) e φιλοσοφειν (philosophein) já teriam sido empregados por
alguns pré-socráticos (Heráclito, Pitágoras e Górgias) e pelos historiadores Heródoto e
Tucídides.

A formação da palavra filosofia na Grécia antiga resulta de uma história muito


curiosa; tudo começou quando numa dada discussão livre entre dois gregos se quis que
Pitágoras, reconhecido como sábio, resolvesse a sua contenda. Humildemente, Pitágoras
disse que não era sábio, porque sábio seria aquele que já tudo sabe; e que entre os
homens nenhum sabe tudo, porque a sabedoria plena e perfeita pertence unicamente aos
deuses; se fosse sábio, acrescentou, não teria motivos para se ocupar da investigação.
Logo só exerce essa tarefa quem sabe que nada sabe – tal o dirá Sócrates; por isso,
Pitágoras preferiu que o chamassem «amigo da sabedoria», isto é, aquele que nada sabe
e que por isso se lança à pesquisa para obter o conhecimento daquilo que não sabe.

Diante deste breve ensaio etimológico da palavra filosofia, que surge por
intermédio de Pitágoras, é preciso notar o seu significado original: a expressão «amor»,
em qualquer cultura, pretende designar uma energia interna do organismo humano, que
o obriga ou o apela à procura, à busca constante de algo, que neste caso é o
conhecimento; significa, ainda, que o filósofo, tendo em si o amor, deve ser Homem de
ciência, do saber; ora esta atitude de ir à procura ou em busca reflecte uma missão de
pesquisa ou investigação científica. Pois todo aquele que tem consciência de que não é
sábio, que não possui sabedoria ou conhecimento, deixa-se motivar por essa energia
para procurar o alimento espiritual, o conhecimento.

Por isso, a filosofia e o filosofar resumem-se, para os gregos, à investigação, a


ciência ou ao estudo constante do Universo através da Razão. A razão é entendida como
a faculdade que tem a função de coordenar o pensamento para o conhecimento das
coisas. Ela opera esta função através da combinação dos seus princípios. A razão é uma
faculdade de elevado poder de reflexão que chega muitas vezes a prever coisas,
unicamente como base em raciocínios, vários acontecimentos naturais e sociais.
1.3 Conceito de filosofia
Para os eruditos o conceito de "filosofia" sofreu, no transcorrer da história,
várias alterações e restrições em sua abrangência. As concepções do que seja a filosofia
e quais são os seus objetos de estudo também se alteram conforme a escola ou
movimento filosófico. Essa variedade presente na história da filosofia e nas escolas e
correntes filosóficas torna praticamente impossível elaborar uma definição
universalmente válida de filosofia. Definir a filosofia é realizar uma tarefa
metafilosófica. Em outras palavras, é fazer uma filosofia da filosofia. O sociólogo e
filósofo alemão Georg Simmel ressaltou esse ponto ao dizer que um dos primeiros
problemas da filosofia é o de investigar e estabelecer a sua própria natureza. Talvez a
filosofia seja a única disciplina que se volte para si mesma dessa maneira. O objeto da
física não é, certamente, a própria ciência da física, mas os fenômenos ópticos e
elétricos, entre outros. A filologia ocupa-se de registros textuais antigos e da evolução
das línguas, mas não se ocupa de si mesma. A filosofia, no entanto, move-se neste
curioso círculo: ela determina os pressupostos de seu método de pensar e os seus
propósitos através de seus próprios métodos de pensar e propósitos. Não há como
apreender o conceito de filosofia fora da filosofia; pois somente a filosofia pode
determinar o que é a filosofia.

Platão e Aristóteles concordam em caracterizar a filosofia como uma atividade


racional estimulada pelo assombro ou admiração. Mas, para Platão, o assombro é
provocado pela instabilidade e contradições dos seres que percebemos pelos sentidos. A
filosofia, no quadro platônico, seria a tentativa de superar esse mundo de coisas
efêmeras e mutáveis e apreender racionalmente a realidade última, composta por formas
eternas e imutáveis que, segundo Platão, só podem ser captadas pela razão. Para
Aristóteles, ao contrário, não há separação: de um lado, um mundo apreendido pelos
sentidos e, de outro lado, um mundo exclusivamente captado pela razão. A filosofia
seria uma investigação das causas e princípios fundamentais de uma única e mesma
realidade. O filósofo, segundo Aristóteles, “conhece, na medida do possível, todas as
coisas, embora não possua a ciência de cada uma delas por si”.

Pode definir-se o que é a Filosofia? Certamente que qualquer objecto ou


conceito pode ser definido. O que é complicado nas definições é conseguir que todos
teóricos e filósofos ou cientistas façam a mesma4, o que constituiria uma falta de
espírito crítico e de progresso científico.

Hoje, definir a filosofia tornou-se um grande problema filosófico. Isto acontece


por várias razões: a primeira resulta do facto de que em filosofia se estudam diferentes
tipos de objectos, o que leva ao surgimento de várias correntes filosóficas e de várias
ciências dentro da filosofia; logo, cada caso estudado em filosofia é primeiro visto de
uma perspectiva geral para depois ser visto em particular; a segunda resulta do facto de
todos os filósofos não pensarem da mesma maneira.

Daí, que consoante o problema estudado por uma determinada corrente


filosófica também será o ângulo de formulação de uma definição de filosofia. Por outro
lado, ela pode tornar-se num problema filosófico, na medida em que está sujeita a um
questionamento constante.

Assim, a problemática resulta da crítica ou estudo constante da filosofia.


Contudo, duas definições concorrem na doutrina: uma é-nos fornecida por Aristóteles,
na sua Metafísica, na qual diz que a «filosofia estuda as causas últimas de todas as
coisas»; a outra, é fornecida pelos teóricos, que dizem que a «filosofia estuda a
totalidade do real» ou, simplesmente, que «estuda tudo». Ora, torna-se necessário
advertir duas razões que levam vários teóricos a sustentarem que a filosofia estuda tudo,
pelo facto de existirem no Universo objectos concretos e não concretos. É certo que
existem coisas susceptíveis de verificação, de demonstração, exame e experimentação e
outras que só a cabe à razão compreendê-las, sustentá-las porque não podem ser

4
Se assim fosse, acreditaríamos na hipótese, segundo a qual, «tudo foi descoberto», algo que para
muitos de nós não corresponde à verdade. Alias, nem sempre a verdade aparece do mesmo modo para
todos os filósofos e cientistas e aí assenta a evolução da ciência (cf. KUHN, Thomas, Estruturas das
Revoluções Cientificas).
palpáveis: a própria razão e seus princípios, o amor, a beleza, a virtude, para além da
vida, etc. Por isso, duas razões devem necessariamente subsistir:

 O facto de existirem coisas que não são susceptíveis à experimentação


laboratorial, ex.: as ideias existem ou não? São factos que podem ser estudados
pela reflexão filosófica, pela especulação filosófica, e em que muitas vezes se
empregam as deduções.
 O facto de existirem objectos concretos, susceptíveis de experimentação
laboratorial, comprovação e demonstração requerem a intervenção das ciências
autónomas5 para tratarem à parte os problemas particulares de cada objecto.

Mas tanto o concreto e o não concreto pode ser estudados pela filosofia,
fundamentalmente no que diz respeito às coisas últimas das coisas.

1.4 Objecto de Estudo da Filosofia

O objecto de estudo da filosofia não pode ser definido com exatidão, tão
variados são os temas/problemas com que se depara. A própria definição de filosofia é
um problema filosófico. Perante o meio que o rodeia o homem não pode deixar de se
perguntar, de se admirar e maravilhar com a quantidade enorme de coisas/fenómenos
que o seu entendimento não alcança ou não compreende. A falta de compreensão e de
sentido impele-o a procurar explicações e justificações. É devido à inexistência de
limites para os atos especificamente humanos, como o perguntar e o espanto, que a
reflexão filosófica não pode deixar de versar sobre qualquer tema/problema que a
realidade coloca ao ser humano. Num ou noutro período histórico podem estar mais na
“moda” determinados temas/problemas. No entanto, a história da filosofia prova que
todo e qualquer tema é susceptível de abordagem filosófica. Assim, genericamente,
podemos dizer que o objeto da filosofia é a “totalidade do real”.

A filosofia é um conhecimento, uma forma de saber que, como tal, tem uma
esfera própria de competência, a respeito da qual procura adquirir informações válidas,
precisas e ordenadas. Mas, enquanto é fácil dizer qual é a esfera de competência das
várias ciências experimentais, o mesmo não se dá com a filosofia. Sabemos, por
exemplo, que a botânica estuda as plantas, a geografia, os lugares, a história, os factos, a
medicina, as doenças etc.

Quanto à filosofia, o que é que ela estuda? No dizer dos filósofos, ela estuda todas
as coisas. Aristóteles, que foi o primeiro a fazer uma pesquisa rigorosa e sistemática em
torno desta disciplina, diz que a filosofia estuda «as causas últimas de todas as coisas»;
Cícero define a filosofia como «o estudo das causas humanas e divinas das coisas»;
Descartes afirmam que a filosofia «ensina a raciocinar bem»; Hegel entende-a como «o
saber absoluto». Poderíamos citar muitos outros filósofos que definem a filosofia ora
como o estudo do valor do conhecimento, ora como a indagação do fim último do
homem, ora como estudo da linguagem, do ser, da história, da arte, da cultura, da
5
PISSARA, Mário e REIS, Alfredo, Rumos da Filosofia, 10.º ano, Edições Rumo, 2.ª edição, Maio de 1994,
Lisboa.
política etc. Realmente, coerentes com essas diferentes definições, os filósofos
estudaram todas as coisas. Devemos então concluir que a filosofia estuda tudo? Sim, e
por duas razões.

Em primeiro lugar, porque todas as coisas podem ser examinadas à nível


científico e também e filosófico. Assim, os homens, os animais, as plantas, a matéria,
estudados por muitas ciências e sob diversos pontos de vista, podem ser objecto também
da indagação filosófica.
De facto, os cientistas perguntam-se de que é feita a matéria, o que é a vida, como
são formados os animais e o homem, mas não consideram outros problemas que dizem
respeito também ao homem, aos animais, às plantas, à matéria, como, por exemplo, o
que é a existência. Especialmente a respeito do homem, que as ciências estudam sob
vários aspectos, muitos são os problemas que nenhuma delas estuda (supondo-os já
resolvidos), como o do valor da vida e do conhecimento humanos, o da natureza do mal,
o da origem e do valor da lei moral. Destes problemas ocupa-se somente a filosofia.
Em segundo lugar, porque, enquanto as ciências estudam esta ou aquela
dimensão da realidade, a filosofia estuda o todo, a totalidade, o universo tomado
globalmente.
Eis, portanto, a primeira característica que distingue a filosofia de qualquer outra
forma de saber: ela estuda toda a realidade ou, pelo menos, procura oferecer uma
explicação completa e exaustiva de uma esfera particular da realidade.
Há, porém, duas outras qualidades que contribuem para dar um carácter próprio e
específico ao saber filosófico: trata-se do método e do objectivo.

1.5 Método de Estudo da Filosofia


Ao contrário da ciência e da matemática, a filosofia não recorre à
experimentação ou observação dos fenómenos e não possui qualquer meio de prova que
justifique ou demonstre o resultado da sua atividade. A filosofia é uma atividade de
interpretação e reflexão crítica que visa, através da argumentação, aprofundar e
clarificar os mais diversos problemas com que o ser humano se confronta. Enquanto
atitude antidogmática, a filosofia é um exercício crítico das nossas crenças/saberes com
vista à sua fundamentação através de argumentos racionais. A filosofia é uma atividade
de questionar constante em que cada resposta remete para novas questões.
Tem um método diferente, o da justificação; lógica, racional (a argumentação
lógica está associada a dois elementos importantes: a articulação rigorosa dos conceitos
e a correta concatenação das premissas e conclusões, de modo que essas últimas sejam
derivações incontestáveis das primeiras). Das coisas que estudam, a filosofia deseja
oferecer explicação conclusiva e, para consegui-la, serve-se da Razão, isto é, daquilo
que os gregos chamaram logos. A filosofia é um empreendimento racional: quer
compreender; quer compreender através da razão. 

1.6 Objectivos da Filosofia

Qualquer estudo feito sobre um problema prende-se a certos objectivos ou


finalidades. Quanto ao objectivo, a filosofia não busca fins práticos e não tem interesses
como a ciência, a arte, a técnica, etc. as quais de modo algum ou de outro, sempre têm
em vista alguma satisfação ou alguma vantagem. A filosofia tem como único objectivo
o conhecimento, procura a verdade pela verdade, prescindindo de eventuais utilizações
práticas. A filosofia tem a finalidade puramente contemplativa; não procura a verdade
por algum motivo que não seja a própria verdade.
Ao buscar a verdade... o filósofo fica atento ao próprio conceito do que entende
por verdade. A verdade que a filosofia procura há-de ser abrangente. No mundo a
verdade está em conflito perpétuo. A filosofia leva esse conflito ao extremo, porém o
despe de violência.
A filosofia questiona e explica nossa existência baseada na vivência e nos
anseios do ser humano. Filosofar é nada mais que discutir os porquês e linhas que a vida
segue e tentar chegar a uma melhor resposta para os fenómenos, acontecimentos e
comportamento das pessoas. Um dos maiores filósofos (Platão) e mais estudado, inicia
seus estudos baseados nas ideias de Sócrates em que é preciso despertar a consciência
para a luz do saber comparando a ignorância como uma caverna e o conhecimento como
a luz, fora dessa caverna.
A filosofia, desde que começou o seu estudo, sempre esteve vinculada às
seguintes finalidades:
 Obtenção do conhecimento só pelo conhecimento, permitindo deste modo a
elaboração de uma cosmovisão (visão geral do mundo).
 Estimular a pesquisa, quer seja científica quer seja especulativa (a sua excelência
pedagógica).
 Promover a cultura da humanidade.

Por isso, como diz Aristóteles, ela é “livre” enquanto não se destina a nenhum
uso de ordem prática realizando-se na pura contemplação da verdade.

1.7.1 Relação da Filosofia com as Ciências


A pluralidade de ciências que, em conjunto, harmonizam o conhecimento
científico torna imprescindível o relacionamento de umas com as outras. O surgimento
da filosofia como ciência primeira, que no decurso do seu progresso foi gerando outras
dentro de si, estabelece que, muito provavelmente a partir do século XVII, se observa o
início acentuado do processo de autonomização de muitas ciências empíricas e não
empíricas.
Para entendermos a relação da filosofia com as demais ciências, somos, contudo,
obrigados a procurar aquilo que as relaciona. Pois se cada ciência tem o seu objecto,
método e fins específicos, então em que consiste a sua relação? A relação entre a
filosofia e as ciências aclara-se nos seguintes elementos: o conhecimento, a verdade, a
atitude filosófica, a utilidade das coisas e a determinação dos princípios que regem um
certo fenómeno, os objectos de estudo das ciências autónomas já investigados pela
filosofia.
Seguindo todo o percurso da filosofia e, agora, o das ciências, ver-se-á que todas
elas cruzam no estudo dos fenómenos (objectos de estudos) para conhecerem as suas
causas e efeitos: origem e fim, composição e decomposição, sua utilidade social, etc.
Exemplo disto é o que podemos ver no objecto «Homem». Sabemos hoje que o homem
é, em si mesmo, um fenómeno natural e socialmente complexo. Durante muito tempo,
ele foi estudado no interior da filosofia; agora, com a autonomia das ciências, o Homem
continua indiviso na sua constituição física, mas dividido cientificamente. Isto porque se
cruzam no seu estudo várias ciências: filosofia, antropologia, sociologia, história,
medicina, direito, biologia, genética e um número indeterminado de ciências sociais e
humanas. Cada uma delas preocupa-se em estudar o Homem dentro da sua área
específica.
Também é importante reparar nas ciências o uso indispensável da atitude
filosófica. O que se pode entender por uma atitude filosófica? É uma atitude filosófica
aquela que parte da ignorância a procura do conhecimento. Nela se inicia o esforço
científico.
Algumas Características da Atitude Filosófica
 A primeira, a atitude filosófica, é tomada como «pergunta -espanto»;
esta é uma interrogação aberta para a aquisição do conhecimento sobre
aquilo que uma coisa pode ser. Aristóteles afirmava que a filosofia tinha
a sua origem no espanto, na estranheza e perplexidade que os homens
sentem diante dos enigmas do universo e da vida. É o espanto que os leva
a formularem perguntas e os conduz à procura das respectivas soluções.

Aqui está o início da ciência, na medida em que qualquer ciência deve constituir
num conjunto de perguntas capazes de fornecer respostas correctas no estudo de um
fenómeno.
A atitude filosófica ou científica não pode partir de uma resposta diferente da
manifestação de um fenómeno; antes parte da formulação de perguntas para a obtenção
de respostas ou verdades. Estas respostas podem aparecer em forma de hipóteses
científicas;
 A segunda, a atitude filosófica pode actuar como uma dúvida; todo
aquele que investiga deve duvidar das suas hipóteses, das suas respostas;
pois sendo a dúvida uma reserva mental sobre um resultado obtido, pode
também ser meio para a obtenção de uma verdade ou um conhecimento
certo e incontestável6; Ao filósofo exige-se que duvide de tudo aquilo é
assumido como uma verdade adquirida. Ao duvidar este distancia-se das
coisas, quebrando desta forma a sua relação de familiaridade com as
coisas. O que era natural torna-se problemático. O que então emerge é
uma dimensão inquietante de insatisfação e problematização. A reflexão
começa exatamente a partir do exame daquilo que se pensa ser
verdadeiro.  Se nunca duvidarmos de nada  nunca saberes o fundamento
daquilo em que acreditamos, mas também jamais pensaremos pela nossa
cabeça.

 Por outro lado, a atitude filosófica manifesta-se como admiração e


meditação.

 O rigor. O questionamento radical que anima o verdadeiro filósofo, não é


mais do que um ato preparatório para fundar um novo saber sobre bases
mais sólidas. A crítica filosófica é por isso radical, não admite
compromissos com as ambiguidades, as ideias contraditórias, os termos
imprecisos.
 A insatisfação. A filosofia revela-se uma desilusão para quem quiser
encontrar nela respostas para as suas inquietações. O que o aprendiz de
filósofo encontra na filosofia são perguntas, problemas e incitamentos
6
Cf. Bíbilia Sagrada;Evangelho de São João Cap 20, 24-29
para que não confie em nenhuma autoridade exterior à sua razão, para
que duvide das aparências e do senso comum. A única "receita" que os
filósofos lhe dão é que faça da procura do saber um modo de vida. Não
se satisfaça com nenhuma conclusão, queira saber sempre mais e mais.
Para Kant, filósofo alemão do século XVIII, “não há filosofia que se possa
aprender; só se pode aprender a filosofar”. Isto significa que a filosofia é sobretudo
uma atitude, um pensar permanente. É um conhecimento instituinte, no sentido de que
questiona o saber instituído.
Nesse ambiente de relação, a filosofia distingue-se das outras ciências por um
tipo de conhecimento geral, racional, crítico, abstracto, como resultado das suas
características específicas: da racionalidade, a filosofia produz o conhecimento
racional, o qual a razão alcança a partir dos seus princípios lógicos, diferentes do
conhecimento empírico que vem de experienciados casos; da universalidade consegue
elaborar uma cosmovisão, um conhecimento geral do mundo, ao contrário das ciências
particulares, cujo tipo de conhecimento é direccionado sobre um fenómeno concreto que
só ela estuda; da radicalidade, a filosofia estuda as últimas causas ou princípios
primeiros de todas as coisas, enquanto as ciências autónomas estudam as regras dos
fenómenos; isto é, a filosofia preocupa-se com as coisas naquilo que as ordena em
comum e as ciências procuram aquilo que ordena cada fenómeno em particular.
Alguns teóricos incluem na especificidade da filosofia a autonomia, a
historicidade. Existem ainda outras formas de como a filosofia faz transparecer a
verdade: a reflexão, a interrogação, a problematização, a procura, o debate, etc.
A filosofia distingue-se ainda de certas ciências pela forma como utiliza a
verdade obtida no percurso da investigação: enquanto as ciências se preocupam com a
apropriação da verdade fornecida pelas primeiras hipóteses, a filosofia não só procura
obter a verdade, mas também as críticas, de modo a utilizá-las com segurança. “Pois,
para muitas ciências só vale estudar o concreto, quer dizer que tudo quanto não fosse
verificável, não podia constituir a ciência”7.
Com isso, levanta-se uma questão: as ideias existem ou não? Se existem, elas
podem aparecer nas máquinas? Então, quem estudará o não verificável? Os princípios
que orientam as coisas existem ou não? São concretos ou estão no concreto? Será que se
o Homem não tivesse ideias seria compreendido? Será que os irracionais entendem que
existem princípios que ordenam o Universo? Logo a experiência só é possível com
ajuda da razão8. Ora a razão é também algo de imaterial, podendo para muitos ser alma,
para outros ser espírito ou ainda ser inteligência e há quem prefira dizer apenas
pensamento.
Nisto, a filosofia assume-se como a mãe das ciências, ocupa-se dos problemas e
princípios mais gerais, é uma pedagogia da ciência por excelência, por ter ainda uma
grande preocupação pela pesquisa e pelo conhecimento, mesmo quando a ideologia se
tenta cruzar o seu caminho e, por isso, hoje vai assumindo, segundo muitos autores, o
estatuto de epistemologia.

7
Tendência positivista de AUGUSTO COMTE.
8
BACON, Francis, O Novum Organon.
UNIDADE II - A ACÇÃO HUMANA

“Nem sempre podemos escolher o que a


vida toca, mas podemos escolher o jeito
de dançar” Jesus Mosterin, 

Começamos uma unidade importante no estudo da filosofia (antropológico),


ligado intrinsecamente a temática do âmbito humano.
Antropologia: ramo da filosofia que se ocupa única e exclusivamente do estudo
do homem. É na antropologia onde se descreve e se dá uma visão clara da constituição
humana, das funções de cada parte e como o homem está dividido e vive segundo as
dimensões que constituem a sua natureza.
O homem define-se pelo modo como escolhe, decide e executa as diferentes
acções. Cada homem individualiza-se neste processo. Através das acções o homem
transforma a realidade, intervém no curso dos acontecimentos, torna-se num agente de
mudança. As suas acções projectam-no no futuro.
As acções denominadas humanas são as especificamente do homem, as que são
inerentes à sua natureza. O homem pratica dois tipos de actos: os que são comuns a
outros animais e os que só ele próprio realiza.
No primeiro caso temos, entre outros, os chamados Actos Instintivos. Os
estudos de Korand Lorenz, apontam para a existência de quatro grandes instintos
comuns ao homem e aos animais (nutrição, reprodução, fuga e agressão). Os instintos
nos animais determinam quase totalmente o comportamento destes, permitindo-lhes
uma resposta perfeita ao meio, constituindo uma condição imprescindível à sua
sobrevivência.

No segundo, a actividade instintiva é secundarizada em favor da actividade


reflexiva, especifica dos seres humanos. Agir, no caso do homem, implica pensar antes
de agir (analisar as situações, definir objectivos, escolher as respostas mais adequadas e
ponderadas as suas consequências). Por tudo isto não podemos reduzir as acções dos
homens a simples actos mecânicos. Os homens são livres de agir ou não, de escolher um
ou outro caminho, os seus actos possuem uma dimensão moral que se fundamenta na
liberdade e na consciência da acção.

Dada a diversidade das acções que o homem pratica é natural que a palavra
acção tenha muitos significados. Importa distinguir dois tipos de acções: as
involuntárias e as voluntarias.

Acções involuntárias: não implicam qualquer intenção da parte do sujeito.


Coisas que acontecem connosco, mas onde nos limitamos a ser meros receptores de
efeitos que não provocamos. Há actos que realizamos por mero reflexo instintivo,
fazemo-los sem pensar, há outros que realizamos de forma acidental devido a uma
sucessão de causas que nos são totalmente alheias e que não controlamos.

Acções voluntarias: implicam uma intenção deliberada do sujeito, de agir de


determinado modo e não de outro. Estas acções são reflectidas, estudadas, premeditadas
ou até projectadas a longo prazo, tendo em vista atingir determinados objectivos. Nestes
casos afirmamos que a intenção ou o propósito de fazer o que fazemos. Aplicamos o
termo acção apenas às que realizamos de forma consciente, dado que são a únicas que
são específicas dos seres humanos.9 Motivos Fazer

- Actos Voluntários Intenção Decisão

Acção Causas Agir

- Actos Involuntários

Ao distinguir acto do homem e acção do homem levantam-se duas questões:”


será que toda actividade humana poderá ser considerada acção humana?”, “o que
especifica uma acção?”.Ao procurarmos respostas a estas questões podemos concluir,
ou supor que a acção humana é: voluntaria, consciente, reflectida, envolve decisão, tem
um fim e é dirigida, responsável, finalizada, exige opção ou escolha, deliberada
controlada pelo agente, intencional, motivada, livre e reajustavel. 
Enquanto que caracterizamos o acto do homem como sendo involuntário,
inconsciente, espontâneo, rotineiro, automático, irreflectido, reactivo, reflexo,
mecânico, não controlado e como não senso fruto da vontade.
Ao distinguirmos acção e acontecimento, concluímos que acção é intenção do
agente, fruto da vontade, exige escolha e decisão e o sujeito interfere nesta, enquanto
que acontecimento não é fruto da vontade nem da escolha consciente do sujeito, não há
intenção, não e fruto da vontade e não se medem os prós e contras.
Todas as nossas acções são voluntarias ou involuntárias. Uma acção voluntária
faz com que nos usufruamos do fruto da vontade, esta exige uma opção e por sua vez
uma consciência da acção. Uma acção involuntária é inconsciente, esta não é
controlada, realiza-se sem intenção e escapa à vontade do homem – ao seu livre
arbítreo.
Acção Humana: é tudo aquilo que o homem faz de modo consciente, voluntário,
deliberado e livre. O homem ao agir interfere e actua sobre a situação. O ser humano é o
agente e o actor já que a acção humana parte do sujeito livre que, como tal, é
responsável por aquilo que faz.

Exemplo: estudar para o teste de filosofia.

Acto do Homem: embora tudo que realizamos faça parte do nosso


comportamento, nem tudo o que realizamos constitui uma acção como é o caso dos

9
FONTES Carlos, Acção Humana – análise e compreensão do agir.
actos do homem. Existem comportamentos que embora sejam conscientes não são
controláveis pelo ser humano. Alguns dos nossos movimentos físicos são movimentos
que o nosso corpo executa sem que os possamos evitar, embora tenhamos consciência
deles – realizamo-los de forma mecânica e independentemente da vontade do sujeito.10 

Exemplo: respirar.

2. Condicionantes da ação humana

Será que o homem pode fazer tudo o que quer?


Será que tudo nos é permitido?
Será que não se pode fazer nada livremente?
Será que o homem não passa de uma marioneta com ilusões de liberdade?

É nas situações particulares que o homem tem experiência da liberdade. O


homem concreto, identificável pelo nome e pelo rosto, vivencia situações, concretas
também, e é nelas que sente o que é ser livre e se apercebe dos obstáculos que se opõem
à realização daquilo que deseja.

2.1 Condicionantes físico-biológicas

“Todo o homem é condicionado pela morfologia e fisiologia do seu próprio


corpo. Possuir um corpo saudável e vigoroso permite desenvolver atividades que um
organismo frágil é incapaz de realizar. Todos sabemos, por exemplo, que as nossas
capacidades de atuação divergem quando nos sentimos doentes, ou com saúde.
O corpo que possuímos, a integridade dos nossos órgãos internos, o equilíbrio
do nosso sistema nervoso, o bom funcionamento do sistema glandular, na medida em
que condicionam a energia psicossomática necessária para muitas das nossas atuações,
são determinantes do modo como agimos e reagimos nas diferentes circunstâncias.
Toda esta estrutura físico-biológica depende de uma herança que nos foi geneticamente
legada pelos nossos ancestrais. A hereditariedade é, por princípio, uma condicionante
básica das nossas possibilidades de acção.
Diretamente ligadas à componente biológica do homem situam-se as motivações
primárias que interferem também em todo o comportamento humano. Na verdade,
comer, descansar, dormir são atos que temos obrigatoriamente de realizar para
preservarmos a nossa integridade orgânica. Para além disso, o grau de satisfação ou de
insatisfação destas necessidades liga-se a condições fisiológicas que fazem variar as

10
JESUS Mosterin, Racionalidad y Accion Humana, Alianza Editorial, Madrid. pp. 141-143
nossas atuações. E momentos existem em que a satisfação destas necessidades nos leva
a condutas que efetuamos em detrimento de ações tidas como mais elevadas e
essencialmente humanas. Deste modo, por mais altruísta que se seja, ocasiões se nos
deparam em que a necessidade de preservar a vida se sobrepõe ao desejo de praticar
ações de cariz humanitário.
2.3 Condicionantes histórico-culturais
A construção do ser humano decorre num ambiente social que exige a sujeição a
um sistema de regras que norteiam o seu relacionamento com os semelhantes. Esta
aferição dos modos individuais de reagir pelas normas e padrões sociais vigentes vai-se
efectuando à medida que se desenrola o processo de socialização.
Socialização: modo como o indivíduo se adapta aos diversos grupos em que se
integra, o que implica a interiorização das normas sociais próprias de cada um desses
grupos.
É inegável que o homem reflete as condições do meio social e histórico em que
nasce e se desenvolve. Assim, o homem do século XXI tem de ser necessariamente
diferente do homem do século VI, e ambos diferentes do homem pré-histórico.
As dissemelhanças observadas explicam-se pelos condicionalismos culturais das
diferentes épocas. De uma para outra, diferem não somente as relações sociais, como
também as formas de aproveitamento da natureza, os recursos técnicos e científicos, os
sistemas de valores, os conceitos de educação, etc.
Por isso, quando queremos compreender, por exemplo, a personalidade e o
trabalho de um cientista, de um filósofo, de um político ou de um artista, há que fazer o
enquadramento histórico adequado.
Se, ao longo do tempo, a mentalidade do homem e a sua ação nos aparecem com
características que trazem a marca do contexto cultural da época, também é certo que,
numa mesma época, o modo de ser e de agir das pessoas acusa diferenças, explicáveis
pelos diversos espaços culturais em que estão integradas.”11

UNIDADE III - A DIMENSÃO AXIOLÓGICA

3. História da Axiologia

A conduta humana, as preferências manifestadas nas suas acções foram sempre


objectos questionados em filosofia. Na ética estudam-se as formas de conduta, mas as
razões pelas quais as condutas acontecem tal como acontecem, é resultado da valoração
que o Homem tem por si e pelos outros. Ora se a ética estuda a conduta, uma outra
ciência estuda a valoração das coisas: esta ciência é a axiologia.

O que é Axiológico:
Axiológico é tudo aquilo que se refere a um conceito de valor ou que constitui
uma axiologia, isto é, os valores predominantes em uma determinada sociedade. O
aspecto axiológico ou a dimensão axiológica de determinado assunto implica a noção de
escolha do ser humano pelos valores morais, éticos, estéticos e espirituais.

11
ABRUNHOSA Maria Antónia; LEITÃO Miguel; Um outro olhar sobre o Mundo:
Ensino secundário: 10º ano. Porto: Asa, 2007, p. 71-73.
A axiologia é a teoria filosófica responsável por investigar esses valores,
concentrando-se particularmente nos valores morais. Etimologicamente, a palavra
"axiologia" significa "teoria do valor", sendo formada a partir dos termos gregos "axios"
(valor) + "logos" (estudo, teoria).
Neste contexto, o valor, ou aquilo que é valorizado pelas pessoas, é uma escolha
individual, subjetiva e produto da cultura onde o indivíduo está inserido.
De acordo com o filósofo alemão Max Scheler (1874-1928), os valores morais
obedecem a uma hierarquia, surgindo em primeiro plano os valores positivos
relacionados com o que é bom, depois ao que é nobre, depois ao que é belo, e assim por
diante. Segundo Max Scheler, os valores são objetivos e dispostos em ordem eterna o
que torna possível hierarquiza-los. Deste modo, juízo (faculdade de julgar de avaliar,
faculdade de pensar o particular como inserido no geral), é então, um julgamento crítico
sobre as escolhas humanas, uma reflexão propositiva das relações existentes entre meios
e fins de nossa ação no mundo.
Os valores se organizam na seguinte escala de importância: ÉTICO é o juízo
sobre o bem e o mal. Diz daquilo que é vital/Vida.  MORAL  e a ação normativa do
comportamento, costumes, hábitos, normas e leis. Diz do   Convívio Humano em
sociedade.  MATERIAL é o juízo sobre o que é necessário para a sobrevivência
humana. RELIGIOSO é o juízo  sobre o que é bom para o espírito e diz das coisas da
alma. O valor ESTÉTICO, que opera um  juízo  sobre o belo e o feio e diz das coisas do
mundo sensível, da Natureza. E por ultimo o valor de UTILIDADE que se refere ao
juízo do que é melhor e pior e diz das coisas e dos objetos.
 “Atribuir Valor a uma coisa, é não ficar indiferente a ela. Isto é a principal
característica do valor”.

A ética e a estética estão vinculadas de forma intrínseca aos valores


desenvolvidos pelo ser humano. A ética é um ramo da filosofia que investiga os
princípios morais (bom/mau, certo/errado etc.) na conduta individual e social. A estética
estuda os conceitos relacionados à beleza e harmonia das coisas.12
Porém, era necessário procurar no comportamento humano entre o ser (facto) e o
dever-ser (o agir). Esta distinção permitiu à filosofia dos valores, à luz das entranhas do
racionalismo, compreender a experiência humana, numa dupla caracterização: a das
relações subjectivas e a das relações objectivas.
Esta sessão marca a visibilidade dos factos ou das coisas como sendo «não
constitutivos do valor enquanto tal»; dito de outro modo, não é que a coisa seja
exactamente o próprio valor. Existe uma separação entre a coisa e o valor dessa coisa.
Pois o valor de uma coisa resulta de um juízo racional e subjectivo, o qual avalia um
objecto como belo ou feio, bom ou mau, verdadeiro ou falso através das qualidades
do juízo de valor: positiva ou negativa.

Ora, uma coisa tem um tipo de valor real (objectivo) e ideal (subjectivo)
dependente da satisfação social; pois existem bens económicos, valores políticos,
morais, sociais, religiosos, científicos, etc. Um bem que integre qualquer destas áreas,
participa em certas características das coisas: capacidade, dureza, peso, preferência,
qualidade, utilidade, preço, grau de beleza ou de bem-estar, importância, etc.

12
Batista Mondim. Livro:  Introdução à Filosofia - Ed.: Paulus.
Porém, é preciso compreender que estas características não constituem
exactamente os próprios objectos. Não será que é o Homem que dita aquilo que as
coisas são? Quem diz que a Maria é bela? A beleza é a Maria? Ela está na Maria ou nos
olhos de quem a vê?13 Pois o que seria das coisas e das suas qualidades se não fossem
contempladas pelo Homem?

Criada a filosofia dos valores, a qual estabelece a distinção entre o ser o dever-
ser, procurou-se compreender em seguida o modo como o Homem cria as qualidades
nas coisas. Nestes termos, a resposta vem-nos de Kant. Este filósofo esclarece que as
qualidades resultam do juízo de valor estabelecido na passagem das coisas do facto ao
dever-ser. O que é um juízo de valor? É o raciocínio ou ideia que é emitida sobre as
coisas.

3.1 Os Valores e a sua Classificação

O que é o valor? Quais são as suas características? A estas perguntas dar-se-iam


vários tipos de respostas; mas a doutrina filosófica, dividida entre racionalistas
(idealismo) e empiristas (materialistas), obriga-nos a seguir este
dualismo gnosiológico. E para o nosso estudo solicita-se, a Exercício: Elabora dois exemplos aos
priori, uma síntese pedagógica.
quais aplicarás uma qualidade
Genericamente, Valor é uma qualidade atribuída a uma positiva e negativa
coisa, a partir da avaliação ou juízo feito sobre ela. Como
características observa-se um valor atribuído a uma coisa que
pode ser positivo ou negativo. Os tipos de valores seguirão uma
classificação própria.

Sobre o valor, podemos destacar dois exemplos: 1º a independência de Angola


ao 11 de Novembro 1975. Este facto tem um valor; neste caso, o valor corresponde à
importância que o facto tem para o povo angolano, data e acontecimento que não marca
outros povos do mundo (pode ver-se desde já o carácter relativo dos valores para uns é e
para outros não é); 2º qual é o valor de um carro e de um avião? Aqui podemos avaliar
os objectos pela sua utilidade, pela sua importância, preço ou custo, peso, qualidade,
etc.

No primeiro caso, podemos compreender um tipo de valor diferente do segundo


exemplo. Na definição do valor, dois sentidos se destacam: o primeiro é o objectivo,
pois nada se valora sem que tenha uma existência real e, por isso, certos autores fazem
entender que a qualidade depende intrinsecamente da existência da coisa; então, é
necessário que o objecto tenha consigo o seu valor; exemplo: entendemos que o carro é
útil porque traz consigo a sua utilidade (o valor do carro) para o Homem. O segundo é o
subjectivo, o qual explica que o Homem, no uso das suas faculdades psíquicas,
estabelece o valor de cada coisa e, por isso, deve-se pensar a externalidade dos valores
dos objectos; (não é por acaso que algo seja belo para alguém e feio para outro).

13
Lembrar o princípio dos Sofistas «o Homem é a medida de todas as coisas».
O facto é sempre um acontecimento sucedido e observável num determinado
espaço e tempo. Daí que a qualificação valorativa aplicável aos objectos ou factos esteja
intrinsecamente adaptada a duas características que identificam necessariamente aquilo
que deve valer: a primeira é a característica que determina que toda a qualidade
atribuída a um objecto ou facto deve ser positiva. Esta característica agrupa consigo
todas as qualidades racionais do sentido positivo que devem ser atribuídas aos objectos,
independentemente da área desse objecto – a verdade, o bem, a paz, a alegria, o belo ou
o bonito, o agradável, o útil, etc. A segunda é característica negativa, a qual determina
racionalmente as qualidades de tipo desagradável (negativo) que qualquer Homem
atribui às coisas: falsa, mentira, maldade, azeda, feia, amarga, conflituosa, inútil, não
agradável, etc.

Portanto, toda a qualidade atribuída a um objecto pode ser positiva ou negativa.


O valor de um objecto será positivo quando agrada aos sentidos e ao espírito e será
negativo quando não causa no nosso espírito e nos nossos órgãos dos sentidos uma
harmonia agradável.

Como se forma a ideia de valor? É preciso notar que o Homem está diante de
uma tripla dimensão existencial:

 Primeiro, o Homem vive num meio natural e social que permite a sua
realização na utilização das coisas;
 Segundo, o Homem é possuidor de uma esfera de racionalidade, cuja
consciência está capacitada para a formulação de conceitos;
 Terceiro, tem a ver com a formulação de juízos de valores sobre a
realidade.

Desta forma, a consciência (moral e psicológica) forma o valor a partir da


vivencia que estabelece com as coisas, a qual origina uma certa consciência psicológica;
a ideia do valor como uma fonte ontológica, reflexo espiritual das coisas e o juízo de
valor ou formação das próprias qualidades que, por sinal também devem existir para que
possam ser apreendidas.

Portanto, para a formação do valor, três elementos se destacam: a vivência com


o objecto; a ideia desse objecto e a qualidade em si a ser atribuída ao objecto.

Hoje, os valores multiplicam-se tal qual se multiplicaram os conhecimentos


sobre as diversas partes que compõem o nosso mundo. Tem sido um dos motivos que
torna difícil precisar os seus conceitos, pois a sua hierarquia e pluralidade já não facilita
tal processo. A filosofia dos valores estabeleceu duas classificações básicas dos grupos
de valores:

- A primeira classificação agrupa os valores de ordem material dos objectos e a


segunda classificação agrupa os valores de ordem espiritual ou ideal. Por sua vez os
valores agrupados na ordem material integram os valores utilitários, estéticos,
simbólicos, económicos e alguns de âmbito social, etc. e a ordem espiritual ou ideal
integra os valores éticos, religiosos.

3.2 Tipos de valores

Os valores não são coisas nem simples ideias que adquirimos, mas conceitos que
traduzem as nossas preferências. Existe uma enorme diversidade de valores, podemos
agrupá-los quanto à sua natureza da seguinte forma:
Os valores do hedonismo (prazer e desprazer) . Dizem respeito aos valores do
prazer, do agradável, da satisfação. Busca-se a experimentação de das sensações
prazerosas, inclusive, e principalmente, as intelectuais, e de tudo que possa levar a elas,
como a comida, bebidas, etc.
Os valores vitais (forte e débil). São aqueles que dizem respeito à bios, ou seja, à
vida, como, por exemplo, a vitalidade, a força, a saúde, etc. Nietzsche considerava os
valores vitais os mais importantes de todos os valores, dando origem a uma espécie de
biologismo ético, que mais tarde será apropriado pelos regimes ultranacionalistas do
início do século XX. O arianismo pode ser considerado uma espécie de culto à
vitalidade e força da chamada raça ariana pelos nazistas, uma forma deturpada dos
valores chamados vitais.
Os valores de utilidade (adequado e inadequado). Liga-se à economia. Diz
respeito à satisfação das necessidades da vida, como a alimentação, o vestuário, a
habitação e assim por diante.
A idéia da “busca da felicidade”, princípio que pode ser considerado um valor
associado à utilidade, ou seja, a busca do caráter utilitário, das necessidades da vida.
Os valores lógicos (verdade e falsidade, conhecimento e ignorância). Trata-se
do conhecimento, do saber, da posse da verdade e do esforço para se alcançar essa
verdade. Valores éticos (justo e injusto).
- Dizem respeito sempre às pessoas, nunca as coisas.
- Tem a força de um imperativo absoluto (certo ou errado; deve ou não deve
fazer).
- Se apregoa o direito de se tornarem universais, ou seja, direcionado ao
conjunto dos homens.
- São totalitários, ou seja, presentes e vigilantes em todos os momentos da vida. 
Valores estéticos (belo e horrível). A busca do corpo perfeito na
contemporaneidade pode ser considerada um valor estético. Vamos pensar, por
exemplo, por exemplo, nas pessoas que se submetem a inúmeras cirurgias estéticas, que
muitas vezes não alcançam o resultado esperado.
Valores religiosos (santo e profano). Nos dias de hoje não tem um sentido de
obrigatoriedade, não é um valor obrigatório. Não é um dever-ser, apenas um ser. Os
valores podem apresentar uma hierarquia, neste caso uns valem mais que outros,
contudo, essa hierarquia pode apresentar variações.
Por exemplo, um artista pode considerar os valores estéticos os mais
importantes. Durante a época mercantilista – e em grande medida ainda hoje – muitos
consideram os valores utilitários os mais importantes. Cada época histórica tem a sua
escala diferenciada de valores e a forma específica de encarar cada um deles. Os
regimes totalitários, por exemplo, defendiam como mais importantes os valores vitais.

3.3 Hierarquia

Hierarquia é a ordenada distribuição dos poderes com subordinação sucessiva


de uns aos outros, é uma série contínua de graus ou escalões, em ordem crescente ou
decrescente, podendo-se estabelecer tanto uma hierarquia social, uma hierarquia urbana,
militar, eclesiástica etc.
A hierarquia é uma ordenação contínua de autoridades que estabelece os níveis
de poder e importância, de forma que a posição inferior é sempre subordinada às
posições superiores.
Originalmente o termo hierarquia possuía um significado religioso, onde a
organização social das igrejas levou à formação de hierarquias cuja graduação era
intangível por derivar da autoridade transcendental de cada camada social. Esse sentido
religioso perdeu-se nas demais estruturas hierarquizadas, mas nelas sobreviveram a
rigidez da graduação e a observância estrita das atribuições de cada autoridade.

3.4 Classificação Hierarquia dos Valores

Não atribuímos a todos os nossos valores a mesma importância. Na hora de


tomar uma decisão, cada um de nós, hierarquiza os valores de forma muito diversa. A
hierarquização é a propriedade que tem os valores de se subordinarem uns aos outros,
isto é, de serem uns mais valiosos que outros. As razões porque o fazemos são
múltiplas.
Exemplo:
A maioria da população mundial continua a passar graves carências alimentares.
Todos os anos morrem milhões de pessoas por subnutrição. Não é de querer que
hierarquia dos seus valores destas pessoas a satisfação das suas necessidades biológicas
não esteja logo em primeiro lugar.
Os valores têm a particularidade de se distinguirem uns dos outros, de
estabelecerem entre eles uma relação de polaridade que os faz distinguir em negativos e
positivos, de se distinguirem entre eles como valores mais altos e mais baixos,
encontrando-se ao mesmo tempo numa relação de hierarquia uns com outros.
À problemática da hierarquia dos valores dedicou-se sobretudo Max Scheler,
que nos forneceu cinco critérios para determinar a altura dos valores:
a) Em primeiro lugar, os valores são tanto mais altos quanto maior for a sua
duração. Duradouro é o valor que se prolonga no tempo. Dos valores faz
parte o fenómeno de duração e perdurabilidade. Os valores mais baixos são
os mais transitórios e de menos duração e os mais altos são os eternos.
b) Em segundo lugar, os valores são tanto mais altos quanto menos divisíveis
forem. Enquanto os bens materiais para podendo ser participado por todos,
têm de ser divididos, (tal acontece com os recursos alocados à saúde, para
todos poderem participar deles, têm de ser distribuídos), com os valores
espirituais tal não se passa, uma vez que é da sua essência serem ilimitados,
não sofrendo divisão; a contemplação do divino é algo que pode ser
realizado por uma pluralidade de sujeitos, não sofrendo por isso qualquer
tipo de divisão ou diminuição.
c) Em terceiro lugar o valor, que serve de fundamento a outros é mais alto que
os que se fundam neles.
d) Em quarto lugar, os valores são tanto mais altos quanto mais profunda é a
satisfação que a sua realização produz em nós.
e) Em quinto lugar, os valores são relativos. Existem valores que só podem ser
praticados por determinados seres. O valor saúde (valor vital) só é relativo
aos seres com vida.

3.5Tipos de Hierarquia

 Hierarquia empresarial
A hierarquia empresarial é representada pelos diferentes níveis de comando
encontrados dentro de uma organização. Apesar de possuírem autonomia, estão em
parte, interligados entre si.
A hierarquia empresarial é geralmente estabelecida obedecendo a três diferentes
áreas: estratégica, tática e operacional.
A área estratégica, ocupada por presidentes, diretores e demais gestores da alta
cúpula, decidem as políticas e as diretrizes da empresa. A área tática, ocupada por
gerentes e chefes de sessões, é responsável pelas acções do quotidiano da empresa,
como também pela motivação dentro de cada sector. Por fim a operacional, ocupada por
chefes de equipa e supervisores, responsáveis pela execução e realização das atividades
de produção.
 Hierarquia da Igreja católica
A hierarquia da Igreja católica é uma forma de definir a função de cada membro
da Igreja:

 Papa – posto máximo da Igreja Católica. Resolve problemas legais da


Igreja, estabelece dioceses, elege bispos, canoniza santos etc.
 Cardeal – escolhido pelo Papa, compõe o “colégio episcopal”, em conclave,
para eleição do papa.
 Arcebispo – é o bispo de uma Arquidiocese, o titular da sede metropolitana,
formada pelo conjunto de diversas dioceses.
 Bispo – é o responsável pelos ensinamentos da palavra de Deus. É obrigado
a fazer visita ao Papa, de quatro em quatro anos, para apresentar à Santa Sé
um relatório de sua diocese.
 Padre – é o responsável por uma paróquia e pelos serviços sacerdotais. Pode
exercer a missão secular, fixo em sua paróquia, ou ser missionário.
 Diácono – é o religioso que está no último dos sete anos de estudos que o
leva à carreira clerical. O diácono já pode realizar algumas celebrações
religiosas, como batismo e casamento.

 Hierarquia das Leis


A hierarquia das leis estabelece a importância que cada lei representa. A
hierarquia significa que as leis inferiores não podem ir contra o que está escrito nas leis
superiores. A hierarquia segue a seguinte ordem: Constituição, lei complementar, lei
ordinária, decreto regulamentar e ato administrativo.
Assim, a lei em seu sentido estrito (ordinária ou complementar) tem que estar
conforme a Constituição. O decreto que regulamenta as leis tem que estar de acordo
com essas leis e diretamente de acordo com a Constituição. O ato administrativo tem
que estar conforme a lei e também conforme a Constituição.
 Hierarquia Social
Hierarquia social são os níveis e posições de cada indivíduo dentro de uma
sociedade. A hierarquia social faz com que as pessoas sejam divididas em grupos, de
acordo com uma estrutura, entre as classes mais ricas, a classe média e as classes mais
baixas.
A hierarquia social pode ser exemplificada com uma pirâmide, onde, a parte de
baixo concentra as camadas mais pobres da sociedade, e quanto mais perto chega do
topo da pirâmide estão concentradas as classes mais ricas, como milionários, por
exemplo. Essa classificação existe há muito tempo, desde a época do feudalismo, que
caracterizava as sociedades como escravos, artesãos, plebe, exército e os reis.
 Hierarquia Urbana
Hierarquia urbana nada mais é do que a escala de subordinação entre as cidades,
que ocorrem quando as pequenas cidades se subordinam as cidades médias, e estas
cidades médias, se subordinam às cidades grandes.
Hierarquia urbana também é a forma como é organizado o espaço nacional, em
termos de influência de certos centros urbanos sobre outros. Funciona como um
indicador da importância de uma cidade, importância que nem sempre depende do seu
tamanho e é exercida numa escala regional ou nacional.
Esta teoria da hierarquia urbana está relacionada com o ranking de cidades,
desde a menor até à que tem maior população. Dentro da hierarquia urbana as cidades
podem mudar de posição, uma vez que existem transferências de população entre as
cidades podem fazer variar a sua posição bem como a sua posição hierárquica.
O conceito de hierarquia urbana está baseado na noção de rede urbana, que é um
conjunto integrado de cidades que estabelecem relações económicas, sociais e políticas
entre si.

UNIDADE IV – O PROBLEMA DO CONHECIMENTO

Introdução
Conhecer certamente é uma das palavras que perpassa direta ou transversalmente
os mais diversos discursos acerca das coisas. Infelizmente, muitos dos discursos ditos
filosóficos e/ou científicos usam termos correlatos ao Problema do Conhecimento de
modo extremamente despreocupado. O conhecimento pode ser encarado como uma
habilidade que um determinado ente possui,

Epistemologia – Gnosiologia ou teoria do Conhecimento (episteme) - ciência;


(logos) - estudo de), é o ramo da filosofia que trata da natureza, das origens e da
validade do conhecimento, a estrutura, os métodos. Relaciona-se com a metafísica, a
lógica e a filosofia das ciências pois, em uma de suas vertentes, avalia a consistência
lógica de teorias e suas credenciais científicas. Este facto torna-a uma das principais
áreas da filosofia (à medida que prescreveria "correcções" à ciência).
A sua problemática compreende a questão da possibilidade do conhecimento -
nomeadamente, se é possível ao ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno,
dos limites do conhecimento (haveria realmente uma distinção entre o mundo
cognoscível e o mundo incognoscível?) e da origem do conhecimento (Por quais
faculdades atingimos o conhecimento? Haverá conhecimento certo e seguro em alguma
concepção a priori?).
4. Origem do Conhecimento
O acto de questionar acerca do conhecimento é quase tão antigo como a
própria Filosofia. Já Platão e Aristóteles dedicaram grande parte da sua reflexão às
questões do conhecimento, mas só na época moderna, nos séculos XVII e XVIII, que
filósofos como Decartes, Jonh Locke, David Hume e Kant elegeram a teoria do
conhecimento ou gnosiológica como uma das áreas fundamentais da Filosofia.
No que toca, especificamente, à origem do conhecimento surgem perguntas
como: “Qual é, realmente, a origem do conhecimento?”, “Será que o conhecimento
provém unicamente da experiência?”, “Será que o conhecimento tem origem na
razão?”, “Ou provirá de ambas as fontes, mas com diferentes graus de verdade?”
Nos extremos do conhecimento exclusivo entre racionalistas e empiristas subs-
crevem-se a teoria das ideias «ideias inatas», de René Descartes, e a teoria da «tábua
rasa», de John Locke. Será que o homem nasce com ideias ou resultarão elas da
relação do sujeito com o objecto? As deduções matemáticas perfilhadas por Descartes
encaminharam-no ao entendimento de que há ideias que nascem com o homem, pois
são produtos da razão interna.
A tábua rasa de John Locke (1632-1704) resulta do entendimento da relação do
Homem com as coisas. Será que se o Homem não entrasse em contacto com as coisas
seria capaz de obter algum conhecimento? Para Locke, não. O Homem só conhece a
partir da experiência. Só a experiência fornece o conhecimento através das sensações.
São os órgãos dos sentidos que experimentam o ser das coisas. Por exemplo: como
saberíamos que a maçã é doce sem o paladar? Daí que não se possa falar de uma fonte
de conhecimento estranha à experiência.
Por outro lado; o que se conhece? Assim, não só coloca a questão sobre o que
se conhece, mas também sobre quem conhece. Diz-se que não haverá conhecimento
sem sujeito e sem objecto. Logo o conhecimento é um processo, resulta de uma
relação14.
Numa tentativa de responder a essas perguntas surgiram duas correntes
filosóficas – o empirismo e o racionalismo - este último será o tema deste trabalho.
 Racionalismo
O racionalismo considera a razão a fonte principal e verdadeira do
conhecimento. O conhecimento seguro é aquele que se encontra através da razão
independentemente da experiência sensível.
Este conhecimento é logicamente necessário, porque apenas pode ser
interpretado de uma única forma, caso contrário estaríamos em contradição. É também
universalmente válido pois o seu valor é constante em todo o lado para toda a
Humanidade.

14
CHAMBISSE, CASTIANO e VEIGAS, A Emergência do Filosofar, 11.ª e 12.ª classe, 1.ª edição,
Moçambique Editora. Sobre as fontes do conhecimento ver GRÁCIO, R. A. e GIRÃO, J. M., Razões em
Jogo, Introdução à Filosofia, 11.º ano, 4.ª Edição, Lisboa, 1998.
Os racionalistas consideram a existência do conhecimento empírico - aquele que
depende da experiência – mas este não pode ser considerado verdadeiro pois não se
concilia com a necessidade racional.

4.1 As Propriedades do Conhecimento Intelectivo


Kant exageradamente afirmou que o nosso conhecimento se dá somente no tempo
e no espaço (categorias da sensibilidade). Apesar do seu extremismo algo de verdade
contém esta afirmação. Não trata de que a razão não tenha a capacidade de conhecer
realidades metafísicas, mas o facto é que, o nosso conhecimento dá-se no tempo e no
espaço, porque somos seres marcados no tempo e no espaço. Portanto, o conhecimento
possui as seguintes características:

 Mundanidade: pela mundanidade o nosso conhecimento diz sempre relação


ao mundo. Há uma estreita relação entre o conhecimento e o mundo, pois o
conhecer é conhecer algo (o ser) e o ser tem seu alcance no mundo. Em
consequência, o conhecimento tem uma estrutura mundana.

Algumas correntes de pensamento como os platónicos e os idealistas, não


reconhecem esta característica porque o conhecimento intelectual é tão puro, que exclui
mistura com o mundo.

 Universalidade: está ligado ao conhecimento intelectivo para contrapor-se ao


sensitivo que se circunscreve ao particular.
 Perspectivismo: indica a limitação que o homem tem diante da realidade em
acolher de acolher todo o objecto quer dizer, nosso conhecimento é processual.
Esta característica favorece a intersubjectividade e o diálogo.
 Subjectividade Pessoal: indica que o nosso conhecimento está marcado pelo
empenho pessoal,
 Historicidade: indica que o nosso conhecimento é marcado profundamente
pelo tempo. Quer dizer, ele varia segundo a época. Daí a necessidade de situar
cada autor no seu tempo. Neste sentido, a dimensão histórica do conhecimento
leva a uma revisão profunda da teoria gnosiológica.

O pensamento tem prioridade ontológica sobre a linguagem. Por isso, mesmo que
as palavras sejam ultrapassadas porque são temporais, a realidade designada é atemporal
e pode ser permanente, porque o ser é universal e inteligível.

 Intencionalidade: indica que o nosso conhecimento tende para um objecto.


Quer dizer, a inteligência está apta para conhecer o ser deste mundo. E
conhecer o ser deste mundo é conhecer a verdade deste mundo. Portanto, o
objecto próprio do intelecto humano é as essências e o ser das coisas matérias
porque o nosso espírito atinge a realidade mediante o corpo.
4.2 O Conhecimento Vulgar ou Senso Comum

Este é o nível mais básico do conhecimento, constituído a partir da apreensão


espontânea e imediata da realidade. O conhecimento vulgar corresponde ao senso
comum abrange aquelas coisas que quase toda gente sabe. Reporta aquilo que vamos
aprender desde muito cedo e, por vezes, até de uma forma quase inconsciente. “O Senso
Comum é o ponto de partida para qualquer tipo de conhecimento, embora seja
inseguro”.15
As crenças e opiniões que partilhamos, as tradições e jogos, as celebrações e
ofícios, as tarefas, lendas, tudo isto dizem respeito ao senso comum. Adquire-se através
da repetição de experiências, do testemunho e do exemplo dos outros (família, amigos,
vizinhos, etc.), com a prática e também com os erros. Ajuda a sobreviver e a conviver,
ajuda nas tarefas do quotidiano e nos mais diversos ofícios, e desempenhar papéis
sociais ao longo da vida.
Trata-se de um conhecimento assistemático, pois consiste num conjunto de
informações dispersas e pouco estruturadas. É um conhecimento superficial e mais
direccionado para um domínio prático, porque não procura as causas e os porquês dos
fenómenos e porque têm em vista o funcionamento das coisas e a realização de tarefas.
É um conhecimento acrítico e passivo, não se aceita sem se pôr em causa, sem se
questionar. Está pouco sujeito a mudanças rápidas ou radicais, embora não seja
completamente estático, já que acaba por vezes sofrer a influência das descobertas
científicas. A linguagem usada no conhecimento vulgar é a nossa linguagem de todos os
dias e, frequentemente, os termos utilizados são imprecisos e vagos. Apesar de ser
muitas vezes dogmático e erróneo às vezes o senso comum constitui um saber válido e
indispensável.

Senso Ligado ao processo


de socialização

Saber Saber Subjectivo Saber Saber não Crítico

Baseia-se em Baseia-se em Baseia-se numa Baseia-se em ideias


observações observações acumulação não feitas e não
ingénuas da espontâneas. organizada de reflectidas sobre a
realidade. Está representações realidade. Não
Confunde o contaminando espontâneas procura apreender a
real com as por factores sobre a realidade. universalidade das
suas culturais e mesmas coisas ou
aparências psicológicos situações nem o

15
POPPER Karl;
4.3 Principais Características do Senso Comum

- Carácter Empírico: o senso comum é um saber que deriva directamente da


experiência quotidiana, não necessitando, por isso de uma elaboração racional dos
dados recolhidos através dessa experiência.
- Carácter Acrítico: não necessitando de uma elaboração racional, o senso
comum não procede a uma crítica dos seus elementos, é um conhecimento passivo, em
que o indivíduo não se interroga sobre os dados da experiência, nem se preocupa com a
possibilidade de existirem erros no seu conhecimento da realidade.
- Carácter Assistemático: o senso comum não é estruturado racionalmente,
tanto ao nível da sua aquisição, como ao nível da sua construção, não existe um plano
ou um projecto racional que lhe dê coerência.
- Carácter Ametódico: o senso comum não tem método, ou seja, um saber que
não segue nenhum conjunto de regras formais. Os indivíduos adquirem-no sem esforço
e sem estudo. O senso comum é um saber que nasce da sedimentação casual da
experiência captada ao nível da experiência quotidiana (por isso se diz que o senso
comum é sincrético).
- Carácter Aparente ou Ilusório: como não há a preocupação de procurar
erros, o senso comum é um conhecimento que se contenta com as aparências, formando
por isso, uma representação ilusória, deturpada e falsa da realidade.
- Carácter Colectivo: o senso comum é um saber partilhado pelos membros de
uma comunidade, permitindo que os indivíduos possam cooperar nas tarefas essências à
vida social.
- Carácter Subjectivo: o senso comum é subjectivo, porque não é objectivo:
cada indivíduo vê o mundo a sua maneira, formando as suas opiniões, sem a
preocupação de as testar ou de as fundamentar num exame isento e crítico da realidade.
- Carácter Superficial: o senso comum não aprofunda o seu conhecimento da
realidade, fica-se pela superfície, não procurando descobrir as causas dos
acontecimentos, ou seja, a sua razão de ser que por sua vez, permitiria explicá-los
racionalmente.
- Carácter Particular: o senso comum não é um saber universal, uma vez que
se fica pela aquisição de informações muito incompletas sobre a realidade (por isso
também se diz que ele é fragmentário), não podendo, assim fazer generalizações
fundamentadas.
Carácter Prático e Utilitário: o senso comum nasce da prática quotidiana e
está totalmente orientado para o desempenho das tarefas da vida quotidiana, por isso as
informações que o compõem são o mais simples e directas possíveis.
UNIDADE V – O PROBLEMA DA VERDADE

O objecto próprio da nossa inteligência é o conhecimento da verdade. Quer


dizer, a razão só fica satisfeita quando se encontra com a verdade. Por isso, um filósofo
que não se coloca o problema da verdade está a trair a sua vocação de filósofo: buscar a
verdade.
Entre os clássicos se definia a verdade como “adequação entre o intelecto e a
realidade.
5. Algumas Distinções
A verdade não é sinónimo de certeza nem se confunde com a sinceridade. Tanto
a certeza como a sinceridade dizem respeito ao sujeito. Enquanto a verdade diz respeito
a uma relação (objectiva) adequada entre o sujeito e o objecto. A certeza é um
convencimento subjectivo.
Sinceridade é coerência entre o que se pensa e o que se diz. Porém, o que se
pensa não necessariamente é verdade.
A verdade descreve um dever ser e propõe um ideal. É um valor (constituído de
adequação) quer dizer, que só existe verdade quando há adequação plena entre o
intelecto e o objecto. A correspondência se dá quando a potência intelectiva
compreende, assimila e se identifica com a coisa. Assimilar significa ver o outro
enquanto outro.
5.1 S. Tomás Distingue Três Tipos de Verdade
A Verdade Ontológica: refere-se ao ser da coisa. Aqui o ser da coisa e a verdade
coincide; significa que a verdade não acrescenta nada ao ser, além da conformidade.
Exprime algo que já está contido no ser.
A Verdade Lógica: é a verdade que está na mente. É a adequação do sujeito e do
objecto; é aqui onde se cumpre propriamente a definição do verdadeiro. Portanto, cada
conhecimento se cumpre através da assimilação do sujeito a coisa conhecida. Por isso,
há conhecimento autêntico e há conhecimento quando há verdade.
Por conseguinte, a conformidade entre o sujeito e objecto tem como
consequência o conhecimento da coisa, pois o conhecimento é assimilação da coisa por
parte do sujeito.
A Verdade Semântica: é a verdade de linguagem. Está ligada a comunicação da
verdade, é aquilo mediante o qual se mostra aquilo que é.
A verdade semântica é consequência lógica na medida em que se dá a verdade
lógica é que se pode comunicar. Como se pode perceber, o conceito de verdade é
análogo. Precisa-se de entes (ontológica); dos juízos, pensamentos (lógicos) e
preposições (semântica).
Dentre as três predicações o analogatum principiunm (princípio análogo) é a
verdade lógica, porque a verdade é em primeiro lugar propriedade do intelecto. Porque a
essência da verdade, (adequatio), se dá completamente no intelecto. Coisas são
verdadeiras enquanto são causa da adequação (inteligíveis), e das enunciações
(proposições).
Embora a verdade lógica seja a realização do analogatum principiunm, realiza-se
uma hierarquia definitiva, “secundum prius et posterrum” (segundo o ante e o depois),
em primeiro lugar, a verdade é uma propriedade do intelecto Divino, o qual se adequa a
coisa, mas a coisa adequa-se ao intelecto Divino. Portanto, Deus é o princípio activo da
verdade; em segundo lugar a verdade é uma propriedade do intelecto humano, neste
caso, é ele que se deve adequar as coisas. É pois, um princípio passivo da verdade:
descobre a verdade e não a cria.

5.2 Propriedade da Verdade


A verdade encontra-se tanto no intelecto Divino como no intelecto humano, mas
de modo diversificado. Por isso, também as propriedades de verdade Divina não são as
verdades humana. Embora haja quem identifica, na mente Divina a verdade tem um
carácter de eternidade, é clara e segura. A mente Divina conhece a verdade de cada ser;
é plena e perfeita porque a adequação é total, o pensado coincide com o pensamento.
- Na mente humana a verdade tem as mesmas propriedades de mente Divina,
porque o conhecimento produz mediante a iluminação, é eterno, imutável, infalível
(platónicos).
- É permanente, imutável, evidente e evanescente (esvai, efémero). Pois é uma
relação de adequação; então é subsistente.
- É universal, abstracta, mundana porque o objecto do nosso conhecimento é as
coisas deste mundo.
- Perspectividade; ninguém acolhe de forma total.
- Historicidade e subjectividade pessoal; estas duas propriedades circunscrevem
a verdade dentro do horizonte temporal e pessoal. A verdade colhe-se na história e no
tempo, embora ultrapasse a história; (é universal).
5.3 Critérios da verdade
Sobre os parâmetros críticos que nos permitem discernir quando é que estamos
na verdade, podemos destacar as seguintes posições:
- Realismo: o critério supremo da verdade é a evidência objectiva;
- Racionalismo: tomam a clareza e a distinção como sendo o critério da
verdade;
- Neopositivismo: verificação experimental. É verdade somente o que é
susceptível a experimentação;16
- Pragmatismo e marxistas: acção;
- Idealistas: a coerência.
São critérios quem contém meias-verdades porque servem-se de alguma
perspectiva da realidade. Há, no entanto, um critério de verdade que é universal, valido
para todo âmbito do conhecimento e que contém todos os outros critérios; é a evidência
objectiva. Porque designa o aparecer manifestativo daquilo que é, um aparecer tão
manifesto que exclui toda a possibilidade de dúvida e erro.
Se pode distinguir vários tipos de evidências:
- Extríinseca: as verdades que não conhecemos pessoalmente e que aceitamos
em base em testemunhos de outros que têm autoridade e conhecimento de determinado
assunto ou caso. Exemplo: as verdades religiosas.
- Intrínseca imediata: verdades cujo fulgor, nossa inteligência é observadora
directa; por exemplo: os primeiros princípios. Esta evidência subdivide-se em;
Evidência mediata: quando é resultado dum raciocínio. Mediante o discurso da
razão a evidência dos princípios é transpassada à conclusões e a demonstração, prova-se
que a verdade contida na conclusão participa da mesma evidência que tem as premissas.
16
POPPER Karl; o racionalismo crítico (falsificabilidade)
A evidência intrínseca é objectiva porque:
a) Não depende das disposições subjectivas do sujeito cognoscente; mas
procede da verdade conhecida. É o critério da verdade porque é ela que
garante imediatamente que as coisas são como a inteligência afirma;
b) Funda-se na realidade, no objecto conhecido; é o objecto que, com sua
luminosidade produz no sujeito a adesão irresistível, isto é, o assentimento. É
a verdade ontológica que em o acto causa na mente a verdade lógica; o juízo;
Formalmente a evidência não pertence a coisa, mas a consciência porque o que é
verdadeiro ou falso não é a coisa, mas o conhecimento. Portanto, a medida da verdade
lógica é a coisa; que determina a verdade do juízo.
Segundo S. Tomás, se pode distinguir verdades evidentes para nós verdades
evidentes em si mesmas. Para que haja verdade e em consequência a evidência é
necessário que a mente e a realidade se encontrem, se unam e se identifiquem. Pois, o
conhecimento é um encontro com o ser.
5.4 O problema da Falsidade e do Erro
A busca e o conhecimento da verdade constituem um dever e até direito de
todos. Já os clássicos (Sócrates, Aristóteles), tinham concebido isso. Por isso, fizeram
da sabedoria a busca da verdade a tarefa principal do filósofo. Nossa experiência do dia-
a-adia indica-nos que nem sempre estamos diante da verdade; nem sempre encontramos
onde pensamos que ela está. Daí então, a necessidade de precisarmos alguns termos:
A Certeza: é a atitude que assumimos em confronto com a verdade. Segundo
S.Tomás, a certeza é adesão firme (sem nenhuma hesitação) da faculdade cognoscitiva
ao objecto conhecido. Portanto, a característica própria da certeza é a firmeza e ela (a
certeza) constitui uma característica fundamental da Fé (a certeza de possuir os bens
que não se vêem)17, mas também da razão quando chega a evidência.
A Dúvida: consiste no movimento da razão para ambas partes de uma
contradição sem ter coragem de decidir de uma parte ou para outra. É uma indecisão,
estado em que a razão não consegue fixar-se em nenhuma das partes.
Opinião: é um estado intermédio entre a certeza e a dúvida. É a atitude que a
mente assume quando dá assentimento parcial a uma dada proposição ou tese, enquanto
teme que a proposição contrária possa ser verdadeira.
Falsidade: é a inadequação da mente a coisa. Distingue-se do erro (o acto
mental pelo qual a razão dá assentimento a uma proposição falsa. O erro está ligado ao
juízo é a afirmação contrária a realidade.

BIBLIOGRAFIA
ABBAGNANO, N., Dicionário de Filosofia, 4.ª edição, Martins Fontes, Editora,
São Paulo, 2000.
- História da Filosofia; vol. I. Editorial Presença, 1984.

17
Cf. Hebreus 11,2
ARANHA, Maria L. A. MARTINS. Temas de filosofia. Editora Moderna, São
Paulo: 2005.
GAARDNER, Justein: O Mundo da Sofia.

DESCARTES, Rene. Discurso do Método e Memorias.

KANT, Imanuel. Crítica da Razão Pura.

HABERMAS, J. Consciência Moral e o Agir Comunicativo; Rio de Janeiro: Tempo


Brasileiro 1998.

ARRUDA, M.L, Filosofando, Introdução à Filosofia.

CHAMBISSE, E. D., COSSA, J.F., CASTIANO e VEIGAS, M.A., A Emergência


do Filosofar, 11.ª e 12.ª classes, 1ª edição, Texto Editora, Lisboa.