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ISBN 978-65-87926-14-8
DADOS INTERNACIONAIS
DE CATALOGAÇÃO NA
PUBLICAÇÃO

MARSILI, ITALO
Lives #74 [livro eletrônico] : Transcrições
das Lives @italomarsili -- 1. ed. -- Maringá, PR :
Real Life Books, 2020.
PDF

ISBN 978-65-87926-14-8

1. Auto-ajuda / Aperfeiçoamento pessoal.


2. Desenvolvimento e modificação do ca-
ráter e personalidade.
3. Relações humanas. I. Título

CDD-15
8.1

ÍNDICES PARA CATÁLOGO SISTEMÁTICO:

1. Auto-ajuda : Aperfeiçoamento pessoal 158.1

2
EQUIPE

EDITOR CHEFE SUPORTE


Arno Alcântara Márcia Corrêa de Oliveira
Alessandra Figueiredo Pelegati
REDAÇÃO E CONCEPÇÃO Rayana Mayolino
Luiza Araújo
Marcela Saint Martin FINANCEIRO
Marra Signorelli Douglas Pelegati
Raíssa Prioste Joline Pupim
William Rossatto
REVISÃO
Cristina Alcântara COORDENAÇÃO DE PROJETOS
Arno Alcântara
DIREÇÃO DE CRIAÇÃO Italo Marsili
Matheus Bazzo Matheus Bazzo

DESIGN E DIAGRAMAÇÃO COORDENAÇÃO DE


Jonatas Olimpio OPERAÇÃO
Vicente Pessôa Douglas Pelegati
Weverson Ramos

ILUSTRAÇÃO DA CAPA
André Martins

TRANSCRITORES
Edilson Gomes da Silva Jr
Rafael Muzzulon

Material exclusivo para assinantes do Guerrilha Way.

Transcrição das lives realizadas no Instagram do Dr. Italo Marsili.


3
ENTENDA O
SEU MATERIAL
1. O Caderno de Ativação ajudará você a incorporar
e a colocar em prática o conteúdo de uma das
fabulosas lives. É um material para FAZER.

2. No LIVES você encontrará transcrições, resumos


e uma visão geral das lives selecionadas para a
semana. É um material para se CONSULTAR.

3. Se quiser imprimir, utilize a versão PB, mais


econômica.

4. Imprima e pendure o seu PENDURE ISTO.

4
O LIVES
MUDOU!
Ele também andava pesado
e fora de forma...

Mais esbelto e funcional,


agora o seu LIVES trará,
toda semana, a transcrição
e o resumo da live
escolhida para o CA.

Mais foco e concentração


para melhores resultados:
parece que o #Menos50T
também passou por aqui.

Aproveite!

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O PONTO CENTRAL _______________________ 7

A FORÇA DA PERSONALIDADE _____________ 10

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O PONTO CENTRAL
R E S U M O D A S E M A N A

A FORÇA DA PERSONALIDADE
A idéia de que o ser humano é um ser que nasce, cresce,
se reproduz e morre nos foi ensinada desde a escola. Po-
rém, diferente dos outros seres vivos, o homem é aquele
que consegue encontrar um sentido para aquilo que está
fazendo, que consegue se mover em uma esfera superior
à da necessidade biológica. Quem vive apenas para satis-
fazer as necessidades biológicas se frustrará, porque elas
não são a única necessidade do ser humano e um dia não
mais será possível satisfazê-las. Ver o ser humano a partir
do ângulo da necessidade biológica é condená-lo à falta
de sentido.

O animal, que só se move no campo da matéria, termina


sua vida quando morre. O homem, que deseja bens imate-
riais e se movimenta nesse campo, não termina sua vida
quando deixa o mundo material. Essa é, independente de
religião ou da falta dela, a percepção básica do que é o
homem. Considerar apenas o elemento corporal do ho-
mem é amputá-lo. A força humana não está na constitui-
ção material do homem, mas na personalidade, naquilo
que o individualiza.

A personalidade é algo que o homem vai construindo ao


longo da vida, na medida em que vive sua história. A pes-
soa que ama apenas os bens materiais terá uma persona-
lidade pequena e não ficará muito diferente dos animais.
Para expandir a personalidade, é necessário amar algo
além disso. É necessário amar as pessoas e interessar-se
verdadeiramente por elas. As pessoas são o símbolo do

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que há de imaterial e transcendente no mundo. Somente é
possível amadurecer olhando e amando outro ser huma-
no.

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A FORÇA DA PERSONALIDADE
Eu queria que vocês fechassem tudo o que pode distraí-
-los, porque esse assunto é da maior importância. Como já
é de costume, vamos percorrer um arco para chegarmos à
profundidade do que vem a ser a personalidade. Mais do
que compreender isso, no final das contas, vamos ganhar
algumas ferramentas, para que possamos trabalhar o ama-
durecimento desse elemento que muita gente nem sabe
o que é. Não estou falando só de leigos, mas de muitas
pessoas que trabalham com isso (psiquiatras, psicólogos,
professores, pedagogos, entre outros). Vou passar alguns
conceitos bastante claros, para que possamos chegar ao
final desta live com um conhecimento bem robusto e se-
guro, capaz de nos levar à contemplação e discriminação
do que é a personalidade e de como podemos nos instalar
neste que é o elemento central da vida humana.
Nos últimos dias, os que me acompanharam através do
Instagram viram que fui convidado para conversar com o
presidente, e o que eu fiz? Postei uma foto com ele no meu
feed do Instagram. Eu já sabia o que poderia acontecer... e
botei lá um texto falando sobre a coragem, fazendo refe-
rência ao fato de que muitas pessoas, no final das contas,
deixam de viver uma vida humana (instalada na realida-
de), porque estão acovardadas diante de fantasmas. Ora,
só podem fazer isso as pessoas que ainda não entraram
mesmo no jogo da vida humana. Voltando, nós sabemos
que o presidente divide corações em nosso país: por um
lado, os partidários, que o odeiam, com os mesmos dizeres
(fascista, taxista etc.); por outro, aqueles da bandeira “é o
mito”. Então, essa divisão/comoção nacional orbita em vol-
ta do presidente. Como sempre, os que são contra o presi-
dente ficam me xingando de “bolsominion” e, com graça e
um pouco humor, ouço isso tudo – o que não me afeta. Aí,
falei: “A única vez que postei uma foto aqui e falei sobre o
presidente foi em outubro de 2018, o que me levou a per-
der 10% dos meus seguidores.” Nisso, eu brinquei ao dizer

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que queria perder 83.000 dos meus 850.000 seguidores,
o que me levaria a ser o cara do Instagram a perder mais
gente em menos tempo só por ter postado uma foto com
um texto sobre a coragem e a centralidade do espírito hu-
mano.
O que aconteceu? Ao longo de 2 dias, perdi 25.000 segui-
dores. Confesso que achei um pouco de graça, não fiquei
frustrado nem decepcionado por não ter batido a minha
meta de perder 83.000 seguidores. Por um lado, eu perdi,
realmente, uma enxurrada de gente; por outro, foi, sem
dúvida, a postagem que rendeu mais opinião – foram qua-
se 20.000 comentários naquela foto, pessoas falando algo
que me chamou a atenção: “Nossa, Italo! Parabéns pela
coragem!”. Aí é que está o texto que botei lá no Instagram:
“Muita gente vai se paralisando na vida, porque está com
medo de... medo de... medo de quê?”. Ora, que tipo de gen-
te é essa que acorda – às vezes, faz ou não uma oração
–, toma seu café da manhã, vai trabalhar e, já em casa,
ao se contemplar no espelho, não encontra ali um centro
agente... e se vê com dificuldade de responder à seguin-
te indagação: “quem foi que viveu esse dia?”. Isso é a ca-
racterística das pessoas que, miseravelmente, tem vivido
acovardadas. Aí, eu me interrogo: “Medo de quê? De um
olhar feio? De xingamentos? De não agradar?”. É a respeito
disso a live de hoje. Vou te dizer qual é o único antídoto
possível para que você acorde e, ao final de uma jornada,
consiga se olhar no espelho sem aquela pretensão do D.
Quixote, que fala “eu sei quem eu sou” – estou bem antes...
um, dois, três passos atrás disso. Só quero que, no final da
live de hoje, você compreenda qual é o elemento da vida
humana que nos faz ter uma substância... um centro... pos-
sibilitando que a gente aja em primeira pessoa e, ao final
de uma vida, nos leve a olhar a nossa história e falar “eu
consigo entender a vida dessa pessoa que sou eu, que, de
algum modo, mesmo com dificuldades, frustrações, vaci-
lações, claudicações e tropeços, tentou viver mesmo em

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primeira pessoa – que é o único tesão real da vida. É a res-
peito disso que falaremos hoje, ou seja, da personalidade
– elemento que nos devolve uma certa coragem, tira uma
certa covardia do nosso peito e faz com que nos instale-
mos naquela trama da existência humana chamada ação
pessoal.
De fato, quero te entregar uma coisa que está no meu co-
ração mesmo – uma coisa sobre a qual medito há muito
tempo... não só da meditação e da contemplação das coi-
sas que acontecem, mas de uma experiência recolhida ao
longo de anos atendendo gente “de carne e osso”, com
dramas reais e não apenas questões e teorias de livros
(Teologia, Metafísica, Sociologia etc.). Não! Dramas de
pessoas de carne osso (maridos, esposas, filhos, profes-
sores, alunos), ou seja, pessoas que, diante das demandas
da vida, encontravam em si uma certa moleza, uma certa
passividade – não a boa, do sujeito humilde, mas aquela
passividade de pessoa mole/fraca. É isso que eu não quero
para quem está aqui conosco.
Há praticamente um século, acontece uma coisa na per-
cepção do que é o homem, que faz com que homens e mu-
lheres, dia a dia, levantem de suas camas enfraquecidos.
Mas que coisa é essa? Dificilmente, algo que aparece em
nossas cabeças foi criado por nós, do tipo “Ah, Italo... eu
estava aqui e, de repente, veio uma ideia”. Nem com gênios
isso acontece. Então, em geral, só estão na nossa cabeça
aquelas coisas trabalhadas, extensamente, há décadas
numa discussão que aparece entre intelectuais – não ne-
cessariamente nas universidades, que hoje, infelizmente,
não dão conta de produzir material realmente intelectual.
Atualmente, o grande debate intelectual acontece, em re-
gra, à margem da universidade. Mas o que importa mais
agora é sabermos o seguinte: no início do século XX, em
meados dos anos 1910, começa a circular de modo mais
arranjado e consistente uma percepção sobre o homem,
que não o visualiza mais como um ser simbólico/espiritu-

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al (que tem tanto a dimensão material como a espiritual),
mas como um ser amputado das suas faculdades superio-
res, quase biológico (que nasce, cresce, se reproduz e mor-
re) – quem nunca ouviu isso nas aulas de Ciências da épo-
ca da 4ª série? Pare pra pensar sobre essa visão triste: se
o homem é aquele bicho que nasce, cresce, se reproduz e
morre, então não há diferenças entre nós e uma minhoca,
uma ameba ou uma samambaia. Afinal, vegetais e animais
inferiores também passam por esse ciclo. Se é disso que
trata a vida humana, estamos “muito mal das pernas”.
Quando paramos para olhar a vida de uma pessoa priva-
da de educação, liberdade, sonhos, mesmo assim, conse-
guimos ver que ela não é só isso. Por exemplo, ao longo
desses dias, eu comentei sobre a história de um sujeito
chamado Maximiliano Kolbe, alguém que muitos não co-
nhecem. Ele foi um sujeito desses que são grandes, am-
plos e fantásticos, que nos dão a dimensão do que é uma
vida humana. Muitas pessoas conhecem a história do Dr.
Viktor Frankl – que eu já mencionei muitas vezes, aquele
psiquiatra que, no campo de concentração, pela observa-
ção e intimidade com o centro do seu coração e por um
olhar quase obcecado com a maravilha do que é humano,
desenvolve o que vem a ser a logoterapia, ou seja, a cura
pelo encontro e pela vivência do sentido da vida. É uma
história divulgada – Graças a Deus! –, vejo até nos meus
históricos do Instagram um monte de pessoas – inclusive
de outros campos do saber – lendo os livros deles sobre a
busca do sentido da vida. Porém, há uma série de biogra-
fias desconhecidas, histórias de pessoas também privadas
de liberdade e esperança – pois sabiam que iriam morrer
–, que faziam atos como o do Maximiliano Kolbe.
Esse sujeito, no campo de concentração de Auschwitz, pre-
senciou o seguinte: numa certa manhã, três judeus conse-
guiram fugir desse campo de concentração. Os guardas fo-
ram atrás deles e não os encontraram. Retornaram, então,
e avisam ao comandante na época, que resolver dar uma

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punição aos judeus: “Se três fugiram, dez serão sacrifica-
dos. Esses dez animais devem ser trancados numa cova de
2 metros quadrados, sem luz, água e comida e com pouco
oxigênio, convivendo com excrementos até que todos mor-
ram”. Diante dessa cena – em que eles seriam enterrados
vivos –, enquanto caminhavam para a cova, um deles, o
Frank, gritou: “Piedade! Tenho mulher e filhos! Preciso cui-
dar deles” – observe que esse sujeito, com seu grito de cle-
mência, demonstrou ainda um pouco de esperança, que o
nutria no campo de concentração. Então, Maximiliano Kol-
be, ao olhá-lo, analisa que não tem família e, num ato de
generosidade, olha para o sargento alemão responsável
e diz: “Deixe-me ir no lugar dele! Poupe a vida desse mi-
serável que tem mulher e filhos e precisa cuidar deles em
casa”. O sargento, num ato de sarcasmo, atendeu ao pedi-
do: “Troca aí! Para mim, tanto faz. Todos são bichos!”. En-
tão, Kolbe é jogado na cova com aqueles outros nove ho-
mens. O coveiro inventariante, que abria e fechava a cova
de dois em dois para olhar e reportar quantos haviam
morrido, falou: “Não conseguia entender o que acontecia
com aquele sujeito chamado Maximiliano Kolbe. Eu entra-
va naquelas covas e sentia um clima de paz, quase um cli-
ma de alegria, uma consolação na tragédia”. A presença de
Kolbe, de algum modo, tinha algo em si que o coveiro não
sabia dizer, mas confortava os outros. Quando este olhava,
os prisioneiros estavam orando e entoando cânticos e hi-
nos, esperando o destino deles – quase que reconfortados
pela presença de uma personalidade.
O que fazia Kolbe ser capaz de acalmar aqueles corações
e dar consolação naquela tragédia, mesmo naquela cir-
cunstância desumana? Ele tinha um cultivo de um algo de
seu espírito e de sua biografia que chamamos de perso-
nalidade. Maximiliano Kolbe conversava com aqueles su-
jeitos e contava histórias acerca do que é a vida humana
e a própria divindade – inclusive os batizou. Depois de 21
dias insistindo em voltar e olhar, o coveiro voltou e ainda

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encontrou Kolbe com um olhar sereno, fazendo o que era
necessário.
Uma vez, Viktor Frankl falou a mesma coisa para um dos
condenados à execução na câmara de gás. Na época, o
comandante do campo de concentração falou: “Fale lá
uma coisa para o sujeito que está para morrer”. E Frankl
falou: “Não importa se você vai viver por mais 2 minutos
ou 20 anos. É necessário encontrar sentido nisso que você
está fazendo”. Agora... essa aqui é toda a história da nossa
live: aquelas concepções teóricas que mostram o homem
como um bichinho que está no mundo para comer, beber
e ser feliz com essa felicidade canina... ganhar dinheiro,
sair com mulher, festejar... tudo isso é muito bom! É óbvio.
Mas essas concepções que dizem que apenas isso é o ser
humano são um caminho seguro para a fraqueza. Por quê?
Se Kolbe e aqueles sujeitos tivessem essa visão sobre vida
humana, o que aconteceria com eles? Eles teriam um en-
fraquecimento total, porque eles foram privados de tudo
isso – e sabiam disso; afinal, quem entrava no campo de
concentração, ficava marcado por uma história assombro-
sa.
Mas, Maximiliano Kolbe e Viktor Frankl, sujeitos que saíam
mais fortes do campo de concentração, tinham algo que
falta nas concepções teóricas – fracas, no final das contas
– da contemporaneidade. Eu quero que você veja o mes-
mo que eu e esses sujeitos vemos – o que toda a tradição
viu. Exercício: fome é a mesma coisa que vontade de co-
mer? A fome dá na barriga! Se você está com fome mesmo,
um pão velho serve. Às vezes, por estar na academia, num
engarrafamento, fazendo jejum, por exemplo, você acaba
sabendo o que é fome. Ela dá na barriga, e qualquer coisa
serve para saciá-la. Agora, o que é vontade de comer? Isso
é fundamental para entender a força do que é a personali-
dade. Vontade de comer é um outro movimento. Ela dá na
cabeça (num lugar que não é material). Às vezes, você ter-
mina de se alimentar (pizza, fondue, salada, sushi) e acha

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que não está satisfeito. Isso já aponta para nós um certo
de domínio do ser humano. E olha que vontade de comer
tem a ver com coisas materiais, ou seja, com comida (uma
coisa que está neste mundo).
Há outras vontades que, necessariamente, não têm a ver
com o mundo da matéria. Por que você não vai ao museu,
por exemplo? “Ah, Italo, só vou porque minha namorada
me chama e tenho que ir”. Mas por que ela quer ir? Por-
que ela tem uma sensibilidade estética, ou seja, gosta de
olhar a beleza – você não é bonito mesmo. Então, quer ver
a beleza dos quadros e das esculturas. Um dos motivos de
se viajar é ver as coisas bonitas de um determinado lugar.
Realmente, a beleza nos deixa felizes devido ao seu ele-
mento de conforto. É bom ver coisa bonita!
Nós também achamos que beleza é uma coisa relativa, ou
seja, uma construção social. Mas isto também é uma per-
da da percepção do que é belo – até recomendo que você
assistam ao documentário Why Beauty Matters?, apresen-
tado pelo filósofo Roger Scruton. Mas o que é a beleza? É
um conjunto de proporções estabelecidas. Ora, proporção
é uma coisa que também acontece no mundo espiritual.
O homem tem vontades dirigidas à matéria. A fome é uma
necessidade de comer. Já a vontade de comer foi produ-
zida na sua mente. Temos também vontades superiores,
como contemplar o belo/a beleza. Existem vontades que
não se dirigem apenas à beleza, mas ao bem – o que cria
um certo estado interior. A maior parte de nós sabe que
é melhor fazer o bem ao invés de fazer o mal. Quando fa-
zemos coisas boas, produzimos e ficamos fortes, o que
nos leva a ter um ambiente interior capaz de levar ao sur-
gimento de coisas que antes não apareciam. Há pessoas
ainda que não se contentam com isso, então precisam in-
vestigar e conhecer o que é a verdade das coisas.
Veja que interessante! Toda essa percepção tradicional se
perdeu nas Escolas de Psicologia da contemporaneida-
de. Nós sempre soubemos que o homem tem não só uma

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dimensão de necessidades materiais, mas também um
desejo (movimento/inclinação para algo), que te dá vida.
Primeiramente, você tem uma vida orgânica, isto é, fome, ir
ao banheiro, cobrir-se ou tirar a blusa são vontades mate-
riais do corpo, coisas que produzem movimentos. Depois,
temos outros desejos, relacionado com essas coisas ma-
teriais, ou seja, vontade de comer não é igual a fome. Por
fim, há desejos (movimentos) dirigidos a elementos imate-
riais – a beleza, o bem e a verdade. Isso é do cacete! Olhar
o ser humano assim nos coloca num lugar muito diferen-
ciado.
Se perdemos essa capacidade de ver o ser humano como
essa pessoa que tem movimento no domínio transcen-
dente/superior (da verdade, do bem e da beleza), ficamos
fracos, pois nos sujeitamos ao império da matéria – por
exemplo, o campo de concentração. Ao perdermos a ca-
pacidade de compreender o ser humano como esse bicho
que consegue, independentemente das privações mate-
riais, dirigir seus movimentos para a apreensão dessas
coisas que pairam sobre o movimento do mundo – ou,
simbolicamente, que estão na profundeza, independente-
mente do chacoalhar da superfície da água –, isto é, essa
capacidade tanto de profundidade quanto de elevação
do ser humano, achatamos a vida humana no domínio do
império da matéria, levando a uma vida de desespero. Por
quê? Nós sabemos que sempre haverá dor de dente, he-
morroida, fome, empurrão dado por alguém etc. A nossa
vida diária será sempre assim! Num lugar como um campo
de concentração, só há isso.
Imagine a vida do Maximiliano Kolbe nos últimos 21 dias
de vida: ele ficou convivendo na cova com pessoas mor-
rendo a cada dia, excrementos, frio, vermes. Mas por que
ele continuava forte? Aí, volto à pergunta que postei no
Instagram: medo de quê? O que vai acontecer comigo por
ter postado uma foto com o presidente na timeline? Vai
surgir uma meia dúzia de peludinhas falando “fascista”?

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Isso é ridículo! Ou, por exemplo, no seu trabalho, se surgir
uma injustiça, você não vai se posicionar com calma, a fim
de defender o injustiçado? Numa festa de família estão fa-
lando da sua tia... você não vai se posicionar em prol dela,
que te ajudou na infância?
A nossa fraqueza vem da falta da nossa hierarquia de va-
lores, ou seja, do que o homem pode ser. Se consideramos
o homem apenas como uma massa corporal (pele, carne
e osso), a vida nesse mundo será apenas uma busca por
conforto e prazer – e você ficará muito triste. Atendi mui-
tas pessoas ricas na minha experiência clínica. Nós sabe-
mos que dinheiro, poder e fama não dão conta de curar
uma hemorroida ou fazer uma pessoa sentir menos frio
do que outra pessoa – vivemos no mesmo mundo. Câncer
e gripe aparecem para qualquer um! É claro que os mais
ricos têm mais acesso a determinadas tecnologias médi-
cas, mas o destino final do homem, no limite, é morrer feio,
cuspindo sangue, com falta de ar, numa cama de hospital
cheio de fios furando a jugular e as veias. “Ah, Italo! Vou
morrer como um passarinho, à noite, dormindo”. Então,
você será um velho caquético e sem forças. Se o sujeito
morre assim, é porque tem alguém limpando a bunda dele
há décadas. Esse estado de privação material aparece tan-
to para ricos quanto para pobres. Aparece para famosos e
anônimos, ou seja, todos os indivíduos. No último instante
da sua vida, isso vai aparecer.
As concepções teóricas que apostam que o homem é só
isso são profundamente pessimistas. O destino das pes-
soas que embarcam nisso é a tristeza. Olhe o que estamos
tratando aqui: o arco da vida humana, para entendermos o
que é a personalidade. Se a vida humana é só “evitar so-
frimento e buscar conforto imediato”, já vimos que não dá
certo. Notamos que existem pessoas que não vivem assim
e têm mais intensidade, entrega e densidade de felicidade
na vida. São pessoas que, realmente, servem para alguma
coisa. Já estou dizendo que existem outras duas dimen-

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sões no homem: um movimento de coisas ainda materiais,
produzido não mais no corpo, e um movimento de coisas
imateriais transcendentes, da verdade, do bem e da bele-
za. Esse é o arco do homem!
Se existe movimento no campo imaterial, ou seja, no seu
espírito, um movimento da vontade – que é imaterial, não
está em lugar nenhum –, então o homem tem vida – o que
define a vida é o movimento. Isso é o que falta nas dou-
trinas de Psicologia e Sociologia contemporâneas. Então,
mesmo quando o homem não tiver mais corpo, ele con-
tinuará se movimentando, visto que esse movimento não
depende do corpo. Equivale a dizer o seguinte: o nosso
arco de vida não acaba na morte – isso não tem a ver com
religião, é a percepção básica do homem. Movimento é
o que define vida. Se existe um movimento imaterial, ou
seja, da vontade/da psique), existe um movimento na dire-
ção da verdade, da beleza e do bem (que são imateriais),
ora isso é profundo demais. Eu preciso que você venha
comigo, para entender onde está a verdadeira força do ser
humano – em qual eixo temos que construir a história da
nossa personalidade.
Se a visão é “só tem movimento na carne”, quando morre
acaba tudo. Que tristeza! Mas já vimos que há movimen-
to num domínio imaterial. Quando seu corpo for tirado
– devido a um tiro ou câncer, por exemplo –, você conti-
nuará com vida. Eu nem gosto do termo “vida pós-morte”,
porque, na verdade, o arco é o mesmo, ou seja, uma vez
que se entra, não se sai mais. O que acontece não deixa
de acontecer Entrando na existência, você continua nela.
Uma folha que balançou, balançou para sempre. Uma pe-
dra que caiu, caiu para sempre. Não estou dizendo que
a pedra continua caindo; ela está caída, ela é. E nós tam-
bém. Nós continuamos como? Continuamos com vida, ou
seja, com movimento. Como isso deixa de aparecer nas
concepções psicológicas contemporâneas? Não há ne-
nhuma técnica de psicologia, religião, cough etc. capaz de

19
sustentar os anseios, os movimentos e a densidade do que
é ser humano. Essa é a coisa para nós!
Então, o que é essa força que está na personalidade? Em
primeiro lugar, já contamos o que é o tamanho de uma
pessoa – estamos esquecidos disso. Podemos olhar para
uma pessoa e só vê-la com desejo sexual, vermos um fi-
lho pequeno e pensarmos em cuidar dele, olharmos para
um professor e pensarmos na nota 10 da prova. Esse não
é o tamanho de uma pessoa, ela é muito mais do que isso!
A pessoa está inscrita nessa totalidade absoluta e infini-
ta – um absoluto e um infinito que são, portanto não saem
mais da existência, têm ser; aquela porra é; você é; a pe-
dra caiu, então é. Isso é muito bonito! Estamos aqui numa
densidade do real de que se fala muito pouco. E é nessa
vida que estamos inscritos – e não em outra –, que tem um
início e, assim, entra no reino do absoluto, do infinito e
do eterno. Volto a falar: é uma pena que as linhas teóricas
que olham para o homem não deem conta de notar isso.
Quando olhamos para toda a doutrina psicanalítica freu-
diana, mesmo sendo fantástica por contar sobre uma par-
te da vida humana, um ferramental teórico que deve ser
utilizado por aqueles que trabalham com pessoas, per-
cebemos que é uma tragédia, algo devastador. Toda uma
literatura demole a concepção do que é o homem para o
Freud. Por exemplo, Paul-Laurent Assoun, em Introdução à
Epistemologia Freudiana, que é um grande livro, faz uma
análise científica acerca de como Freud vê esse homem –
que não é um homem, é um bicho deformado, criado, tal-
vez, à imagem e semelhança do próprio Freud. Há também
a obra Freud: Crepúsculo de um ídolo, de Michel Onfray,
de perspectiva similar, só pra citar aqui. As duas obras
mostram que falta rigor científico, metafísico, ontológico
e simbólico, então não se poder levar a sério no sentido
de que “isso aqui é o homem”. É só um modelo teórico que
serve para tapar certos buracos. Ao passo que o arco da
vida humana foi sempre intercambiado e visto assim ao

20
longo de toda a tradição, desde os gregos pré-socráticos
até os contemporâneos que, de fato, estão instalados na
visão do que é realmente o homem. A obra Psicologia, um
dos melhores livros da área, escrito no século XX, é de um
brasileiro, o Mário Ferreira dos Santos, que faz uma análi-
se, descrevendo o que é o homem. É fantástico!
Vamos fazer uma distinção aqui entre temperamento e
personalidade. O temperamento é um elemento mineral
específico do homem, podendo ser sanguíneo, colérico,
fleumático ou melancólico. Você nasce com um desses e
fica até o final da vida. Se isso acontece (ele não muda),
ele não é um elemento histórico, isto é, não é o elemen-
to que te define. Você não é o seu temperamento! Você o
tem, mas ele não te define. Obviamente, ele é mais com-
plexo, mais interior do que a cor do cabelo ou a altura, por
exemplo. O temperamento é um filtro, por meio do qual
você recebe e entrega de modo mais expansivo, contraí-
do, úmido (envolvente) ou seco as percepções do mundo.
O que não vai mudar é temperamento! Agora, a persona-
lidade é aquele componente que te individualiza. É como
uma impressão digital da sua pessoa, algo próprio, só seu.
Por isso, ela é a sua força no final das contas. A personali-
dade é o seu componente histórico, que você desenvolve
ao longo da sua trajetória. Ela vai amadurecendo e se am-
pliando, ganhando, assim, uma forma. E é isso que as pes-
soas reconhecem, quando te olham.
Miseravelmente, vivemos num tempo de pessoas com pou-
ca personalidade – entre outros aspectos, isso acontece
por existir a concepção de que o homem é só um “bichi-
nho” que busca o prazer e foge da dor, e é óbvio que todo
mundo faz isso, ninguém é idiota ao querer a dor pela dor.
Nós vimos que, além das demandas materiais, o homem
tem outras coisas para desenvolver: as vontades que se di-
rigem para as coisas materiais e as vontades de verdade,
bem e beleza. Uma pessoa que acorda e dorme só buscan-
do esse domínio (frequência, vibração) – botando apenas

21
isso para dentro da própria história e demonstrando que
só isso marca a totalidade do dia dela – terá, então, pouca
personalidade. Por quê? Aí, evocamos aquela sentença do
José Ortega y Gasset – que é mais do que uma frase, é toda
uma ideia, todo um panorama existencial –, que fala: “Eu
sou eu e minhas circunstâncias”.
Preste atenção! Estamos inscritos numa circunstância que
é fome; em outra, que é vontade de comer e ainda em ou-
tra, que é bem, beleza e verdade. Se você só põe para den-
tro a circunstância “fome”, ou seja, essa luta entre prazer e
desprazer, você será você mais essa circunstância. Então,
sua personalidade será bem pequena. Sua história será es-
crita com esses elementos. Entre você, um tatu bola e uma
formiguinha não vai haver muita diferença. Claro que há
uma diferença total de possibilidade, afinal você pode ser
herói, santo, crápula ou ditador – tendo, assim, uma ampli-
tude enorme – mas, ao escolher só essas coisinhas, você
fica pequeno.
Agora, se a aposta da vida passa a ser o convívio com o
bem e a verdade, quando você começa a buscar os domí-
nios superiores – deixando de reclamar, como sempre falo,
pois você passa, assim, a dar atenção para calor, frio, fome,
coceira, meleca escorrendo, ou seja, só para essa vibra-
ção que não te distingue dos seres inferiores. Quando eu
te oriento a parar de reclamar, estou apontando sua aten-
ção para um lugar um pouco superior, no qual passamos a
conviver não mais com nossas circunstâncias materiais, e
sim com gente – e essa é a coisa desta live. É no convívio
humano – no confronto com uma e outra pessoa de carne
e osso – que a nossa vida vai acontecendo. Quando esque-
cemos a maravilha que é ter uma pessoa ao nosso lado –
a quem podemos entregar nosso serviço, coração, olhar,
afeto e inteligência –, toda a nossa atenção volta-se para
a conquista e o medo de perder as coisas materiais. Então,
a abertura do olhar para o ser humano, ou seja, para quem
está ao nosso lado, não é algo opcional para nós. O ser hu-

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mano é um animal político, não no sentido de quem vota
no PT ou no PSL, mas político de pólis, no sentido grego
do termo, é um bicho que convive, vai para a ágora (praça
pública) falar, conversar, se expor, colocar suas ideias em
jogo.
Agora, quando nos amedrontamos com tudo e nos preser-
vamos, apenas buscando sentir coisas boas, não consegui-
mos conviver com o ser humano. Por quê? Aqui é que pre-
cisamos perder o medo, afinal não temos opção no final
das contas. É porque a coisa está feita. Quando nos rela-
cionamos com carro, celular, dinheiro, projetos de carreira
e de viagem, aquilo, de algum modo, está amarrado – pe-
gamos a totalidade da coisa. Por mais que haja frustração
com um projeto de carreira, o projeto em si foi previsto
por nós com a nossa mente. Quanto à viagem, nós faze-
mos roteiro de viagem. E coisa, então? “Ah, comprei um
carro”. O próprio relacionamento com um animal... eu ado-
ro cachorro, mas prefiro gato. O cachorro é muito diferen-
te dos outros animais. Ele tem uma capacidade de receber
afeto que o leva a quase parecer com pessoas. Mas é qua-
se! Ele não é gente ainda. Por mais que o seu labrador, por
exemplo, seja diferente do da vizinha, o dela é muito pare-
cido com o seu. Ele faz as mesmas coisas que todo labra-
dor faz. Diante disso, não é pra ficar triste, pensando “Ah,
meu Deus, não consigo mais olhar para meu labrador e
amá-lo”. Deixe de ter o coração pequeno! O bichinho está
aí para ser amado e também expandir seu coração!
Agora, preste atenção! O labrador, exceto pela morte dele,
não te traz aquele incômodo. Por isso, muitas vezes é mais
fácil amar um bichinho do que uma pessoa. O labrador
não te traz aquele incômodo da incompletude, da vulnera-
bilidade que a relação com outro ser humano nos traz. O
que é amar uma pessoa? É apostar no absurdo, no ridícu-
lo e no cafona. O amor a uma pessoa é sempre a abertura
do coração para uma coisa a qual não estamos vendo, ou
seja, não vemos a vida completa do outro lado, porque,

23
realmente, ela não está completa – diferente das coisas e
dos animais. O coração humano só se dilata, no limite, isto
é, só ganha a amplitude da transcendência do desconhe-
cido que brilha na sua magnanimidade, quando a gente,
de fato, invade esse domínio do absoluto, infinito e eterno.
Para nós, que estamos aqui de carne e osso – mesmo para
os religiosos –, só aparece no confronto entre olhares. Isso
é o que dá força para o ser humano. É a aposta em colocar
para dentro da nossa biografia não só aqueles elementos
materiais, mas também os elementos de transcendência
(de absurdo, infinito, absoluto, eternidade), que só apare-
cem para nós através do convívio verdadeiro com outro
ser humano. É só olhar para a nossa história: tanto as par-
tes resplandecentes quanto as partes profundas, caver-
nosas e negras apareceram quando perdemos o carro ou
fomos demitidos, ficando sem dinheiro? Apareceram por-
que falhamos diante de alguém ou porque alguém falhou
conosco, nos traiu, estendeu a mão, nos amou.
Naqueles momentos da minha história juvenil, o primeiro
empreendimento que fiz – com uma finalidade amorosa –,
e acabei falindo, ali eu fui confrontado não só com a perda
material de dinheiro, mas também com todo um abismo e
uma magnitude resplandecente de gente. É essa abertura
para o convívio humano que dá uma dimensão profun-
da do que somos e do que podemos ser. A primeira coisa
aqui da live: as pessoas que se fecharam para o amor e o
convívio humano, que não estão comprometidas em convi-
ver, olhar, se abrir, conversar e perdoar, ficarão fracas. Por
isso, elas andam inseguras e com tanto medo, chorando e
procurando, muitas vezes, os consultórios – sem a possi-
bilidade de redenção, pois esta não estará numa técnica
específica de análise, na medida em que só se procura a
si. A redenção, a cura e o progresso estão na abertura para
a outra pessoa, ou seja, para quem está do seu lado (sócio,
funcionária, chefe, marido, esposa, filho). Por quê? Porque
essa abertura através do olhar é que nos inscreve e nos dá

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esse domínio amplo do que é a vida.
“Italo, como posso fazer isso na prática?”. Por um lado, no
aulão sobre as 12 camadas da personalidade, que minis-
trei para o pessoal inscrito no Guerrilha Way, descrevi o
itinerário da progressão (a camada 1 é inferior à camada
10 etc.), um itinerário de amadurecimento. Mas aqui tem
uma técnica básica, quase um pré-requisito para isso tudo
acontecer, independentemente da camada em que o sujei-
to se encontra. Mas, se você não sabe o que é camada, não
tem problema. Não estou falando disso agora.
Voltando, o convívio com coisas dá uma personalidade
muito pequena. Com bichos, sobretudo os superiores,
como os cachorrinhos, o convívio já dá uma abertura. Os
cachorros conseguem absorver o nosso afeto, por isso é
óbvio que muita gente sofre quando perde um cachorro
– o seu afeto estava direcionado ao ser vivo que poderia
recebê-lo. Mas não se entristeçam comigo! O seu cachorri-
nho é muito parecido com os demais. Os cães de caça ca-
çam; os de guarda, guardam; os de madame, passeiam no
shopping. É igual. Os seres humanos são esses bichos que
têm uma amplitude imensa. É nesse convívio de homem a
homem e mulher a mulher – nessa abertura para o outro –
que a coisa se dá.
Qual é o primeiro passo da abertura, para ganharmos
uma força real, capaz de nos abrir? Primeiramente, o que
é a vida humana? É só essa vida orgânica material? Não!
É uma vida que tem um arco que começa e não termina,
porque o que é, é. Esse “é” também tem um domínio de
movimento (vida) imaterial, isto é, mesmo ao perder o cor-
po, você continua vivo. Isso não tem nada a ver com reli-
gião ou crença. É uma observação primária e uma cons-
tatação metafísica. Você continua vivo (com movimento),
ou seja, continua sendo a Joana, a Bruna, o Pedro. Isso é a
vida humana!
Como ter personalidade? Ou seja, no dia que você mor-
rer, como continua robusto, sólido, amplo e pleno? Mesmo

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se você estiver privado de conforto e segurança material,
como continuar vivo? A abertura para uma pessoa é uma
condição sem a qual não se pode ser humano. Nós sabe-
mos disso! O ser humano é o único mamífero que tem uma
mãe que, ao amamentar, já dá um indício do que é a vida
humana. Já viu uma porquinha amamentando? Com ela
deitada, os porquinhos vão lá, mamam e vão embora – os
olhos deles, inclusive, batem na barriga da mãe. A teta do
animal fica embaixo. Os seios da mulher possibilitam um
contato visual durante a amamentação. A vida humana
adulta, madura, acontece num ato de generosidade. Na
amamentação, nós dependíamos de alguém que, genero-
samente, se doou para nos sustentar. Isso é a vida humana
madura. Perder essa dimensão é uma tragédia, pois perde-
mos toda a força.
Como, então, pegar a personalidade? Ou seja, como pe-
gar o que temos de próprio, o que colocamos para dentro
– lembra do “eu sou eu e minha circunstância”? Se você
deixa passar toda a circunstância de bem e de verdade
– transcendentes –, o seu eu vai ficando pequeno, o que
te deixa fraco e amedrontado. Aqui, já dissemos: uma das
formas de tocar nessa transcendência/abertura (absolu-
to, eterno) é procurar neste mundo aquilo que é símbolo,
sinal e presença, ou seja, aquilo é imagem e semelhança
do absoluto, infinito e eterno. Ao fazer isso, seus olhos só
vão bater em gente. Os seus olhos precisam procurar! E
como essa relação se estabelece? Afinal, vamos encontrar
ao lado pessoas caducas, que estão mal, não amam mais
e estão com um “coração minúsculo”. Como começamos a
destravar o desamor que habita por aí?
Aqui, nós temos uma técnica bem simples, mas profun-
da demais. Se você é uma pessoa sem desejo profundo
de implicância, seria bom ser feliz, né? Cultivar uma certa
esperança... ela é um elemento central da vida humana...
é fundamental. A gente espera um algo de felicidade, que
muitas vezes o véu deste mundo encobre e não consegui-

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mos achar. O que nas relações entre pessoas pode abrir
essa dimensão da felicidade e da esperança? Uma coisa
simples, mas profunda demais: sorriso. A sua cara fecha-
da, essa insistência em cultivar cara de bunda nos lugares
(lar, trabalho, festinha de família, faculdade, condomínio,
rua), fechando os lábios para não mostrar os dentes... essa
insistência na regra e na moralidade mal compreendida,
isso tira a sua humanidade e o desejo de que convivam
contigo. Você se torna símbolo não mais do absoluto, mas
do que está chapado, da falta de esperança e do desamor.
Pense: nenhum bicho sorri. O sorriso humano tem tantas
nuances quantas são as promessas de felicidade eterna.
O cachorro não sorri, ele pula em você e abana o rabo. O
peixe é uma planta sem caule. Os bichos não riem. Pedra
não ri. Planta também não ri. Gente sorri! Nós, às vezes,
não sorrimos, como quem diz: “Ou estou apostando numa
vida canina ou de pedregulho ou infernal”. Então, a aber-
tura do sorriso na sua cara é um dos elementos de abertu-
ra de esperança, de fluidez de relacionamento.
Há gente que é boazinha, não faz nada de errado, cumpre
a regra... como aquele personagem do seriado A Grande
Família. O bom profissional do departamento, que nunca
fez bem ou mal para alguém, assim como uma máquina,
cumpre regras. Esse não é o sujeito que te abre o tesão de
viver, a esperança e o incômodo do confronto com a tua
miséria, dessa coisa pequena que você tem insistido em
ser. Qual é esse ingrediente humano da adesão, que te faz
querer estar... querer ser? É esse elemento de desafio, e a
esperança te desafia. Ela te chama para um lugar mais alto
e para assumir uma postura diante da vida. A esperança te
chama, para que você não coloque dentro da sua história
só os elementos materiais – de fugir do que dói e aderir ao
que não dói.
A esperança te chama para viver esse conflito de desco-
brir o bem e tocar na verdade – esse drama/sistema da
vida humana. Isso é maravilhoso! É algo sem o qual não

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conseguimos ser humanos. Esse exercício de abrir os olhos
e sorrir para alguém que está ao lado é fundamental. Ou-
tra coisa fundamental para sair do império da matéria é se
livrar dessas pendências afetivas diminutas. Por que dia-
bos você não manda uma mensagem para seu Tio Carlos,
que naquele churrasco de 1998 fez piada sobre o Flamen-
go na frente de todos, no aniversário da Vanessinha, mes-
mo sabendo que você é flamenguista? E você não fala com
ele desde aquela época. Esse apegar-se rancoroso é um
cultivo que te diminui e te impede de sorrir e ficar tran-
quilo na vida. Você deve sorrir e matar essas pendências
afetivas! Você deve mandar uma mensagem de Whatsa-
pp para seu tio: “Tio Carlos, eu te amo! Vamos comer uma
pizza! Foi mal!”. Mande para a sua tia: “Tia Cristina, você
me desculpe aí!”. Mate essas pendências que impedem
seu sorriso. Elas te deixam preocupado com coisas deste
mundo. A coisa passou, é um efeito remoto de um incômo-
do no peito que não tem razão de ser mais. “Ah, Italo! Mas
você está simplificando muito”. Mas é isso mesmo. Estou
simplificando o que é simples, para podermos aprofundar
no complexo. Uma grande parte do meu trabalho aqui é
“não dourar a pílula”, como o pessoal fala. É não colocar
“mais cabelo na peruca”. É reduzir os problemas que não
são problemas. Como é que você pode ter força na perso-
nalidade e conseguir ter uma vida, ou seja, “eu sou eu e
a minha circunstância”, se você, voluntariamente, entrou
nessa circunstância de tristeza, rancor e peso afetivo que
já passou? Você vai ser isso no final. Lembre daquele ver-
so: “Transforma-se o amador na coisa amada”. Se seu amor,
sua atenção e seu olhar nesse mundo foram para rancor,
picuinha e tristeza, em que você se transformará? Num
sujeito medroso, fraquinho e pequeno, que não botou para
dentro da personalidade aquelas dimensões superiores
da beleza, da verdade e do bem. O que estamos fazen-
do nesta live é faxina, é limpeza. O esfregão e o sabão se

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chamam sorriso e matar rancor. Essas são as armas con-
tra esse desamor, o que precisamos para ter neste mundo
uma personalidade ampla, plena e feliz.

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@italomarsili
italomarsili.com.br

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