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NOVO
PROGRAMA
Metas
Curriculares
11.º ano

OS CLÁSSICOS
Hoje MARIA ALMIRA SOARES

os maias
EÇA DE QUEIRÓS
Ler
OS CLÁSSICOS
Hoje MARIA ALMIRA SOARES

Os maias
Eça de Queirós
ÍNDICE GERAL

APRESENTAÇÃO ............................................. 5
CONTEXTUALIZAÇÃO
HISTÓRICO-LITERÁRIA .................................. 6
Realismo .................................................... 6
Eça de Queirós e o realismo português .......... 8
Biografia de Eça de Queirós ......................... 9

OS MAIAS ....................................................... 11
Importância e valor literário de OS MAIAS ...... 11
Características do texto narrativo............... 12
O romance ................................................. 15
Visão global da obra e da sua estruturação ... 30

EDUCAÇÃO LITERÁRIA – TEXTOS


ESCOLHIDOS DE OS MAIAS ............................. 32
Representação de espaços sociais
e crítica de costumes ................................... 32
Espaços e seu valor simbólico e emotivo ......... 39
Representações do sentimento e da paixão:
diversificação da intriga amorosa ................. 42
Pedro da Maia.......................................... 42
Carlos da Maia ......................................... 43
Ega ....................................................... 44
Características trágicas dos protagonistas .... 48
Afonso da Maia ........................................ 48
Carlos da Maia ......................................... 48
Maria Eduarda......................................... 49
A descrição do real e o papel das sensações .... 54
A descrição do real e o papel das sensações.
Linguagem, estilo e recursos expressivos ....... 59
ÍNDICE REMISSIVO

Ação 6, 13, 16, 17, 18, 19, 22, 25, 26, 57


Ação central 15, 17, 18, 19
Biografia 9
Características trágicas 48, 52
Catástrofe 23, 33, 37, 52, 53
Comédia de costumes 17
Comparação 38, 60, 62, 63
Complexidade 14, 15, 19, 20
Contextualização 6
Crítica de costumes 7, 24, 32, 36, 37
Descrição 12, 13, 14, 29, 41, 54, 59, 62
Diálogo 12, 13, 14, 38, 51
Discurso indireto livre 14, 15, 38
Espaço 12, 15, 19, 22, 24, 36, 40, 41, 57, 58, 62
Estilo 8, 59
Estruturação 14, 30,
Extensão 15, 20, 28, 29
Intriga 12, 14, 15, 17, 24, 26, 31, 42, 45, 46, 53
Ironia 8, 13, 28, 37
Linguagem 59
Metáfora 38, 60, 62, 63
Monólogo 12, 13, 15
Narração 12, 13, 14, 18, 21, 22
Paixão 18, 25, 26, 35, 42, 46, 47, 48, 49
Personagens 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 26, 27, 28, 29, 36,
38, 52
Personificação 62, 63
Pluralidade 16, 19, 46
Protagonistas 19, 24, 25, 46, 48, 51, 52, 53, 62
Realismo 6, 7, 8, 15, 47
Reconhecimento 52
Recursos expressivos 36, 38, 41, 59, 60, 62, 63
Reprodução do discurso no discurso 14, 36
Romance 6, 7, 8, 9, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 20, 21, 22, 23, 24,
26, 28, 29, 30, 31, 40, 41, 45, 46, 52, 62
Sensações 14, 54, 57, 58, 59, 60
Sentimento 7, 25, 26, 42, 46
Sinestesia 38, 62, 63
Subtítulo 30, 31
Tempo 7, 11, 12, 13, 16, 19, 20, 21, 23, 26, 31, 40, 48, 56,
57, 58, 61
Texto narrativo 12, 15, 17, 19, 21, 29
Título 9, 30, 31
Tragédia 25, 26, 41, 47, 51, 52, 62
Uso expressivo do adjetivo 38, 60, 62, 63
Uso expressivo do advérbio 38, 60, 61, 62, 63
Valor emotivo 39, 40, 41
Valor simbólico 39, 40, 41
Visão global 30
APRESENTAÇÃO
O Programa de Português do Ensino Secundário,
«Educação Literária», 11.º ano, inclui Os Maias, obra
cujo valor literário, histórico-cultural e patrimonial
é indiscutível. Sem prejuízo da concordância com
esta inclusão, não deverão deixar de ser pondera-
das algumas dificuldades de leitura, compreensão e
interpretação deste romance por parte dos alunos
do 11.º ano. A completa fruição da obra passa pela
ultrapassagem dessas dificuldades.
É sabido que a leitura dos clássicos é essencial
em educação literária, mas também não deixa de
ser conhecida a dificuldade de penetração nesses
textos, provocada por múltiplos fatores. Sendo
assim, os alunos necessitam de instrumentos que
os incentivem e os ajudem a encontrar o caminho
mais proveitoso e não os deixem desistir perante os
obstáculos à leitura.

Este auxiliar da leitura de Os Maias, que aqui


apresento, pretende prestar aos alunos a necessária
ajuda capaz de os levar a ler com o melhor proveito.

Assim, para além da informação de ordem lite-


rária e contextual que enquadra a obra e ilumina a
sua compreensão, são apresentadas, para cada um
dos excertos selecionados, sequências de questões e
respetivas respostas. Esta questionação incide preci-
samente nos temas do domínio da «Educação lite-
rária» presentes no Programa. A relação leitura do
texto/questão/resposta facultará aos alunos os recur-
sos necessários ao desenvolvimento do seu percurso
neste domínio: por um lado, a experimentação e o
conhecimento-treino do tipo de questionação espe-
rável; por outro lado, os saberes necessários à lei-
tura de um texto literário clássico e especificamente
deste romance.



5
CONTEXTUALIZAÇÃO
HISTÓRICO-LITERÁRIA

Realismo
Na história da literatura portuguesa, a segunda
metade do século xix é a época do Realismo.
O romance de Eça de Queirós, Os Maias, foi publi-
cado em 1888, constituindo, assim, um marco
importantíssimo do movimento realista.

Durante o século xix, com o evoluir da sociedade


e da situação política portuguesa, o Romantismo,
que vigorara durante a primeira metade do século,
tornou-se um movimento decadente, desligado da
realidade. O sentimentalismo romântico perdeu
autenticidade e cristalizou num modo de fazer litera-
tura alheado das mudanças sociais que pediam outra
atitude, outro olhar e outros objetivos literários.

Uma nova geração de jovens escritores antirro-


mânticos – a Geração de 70, por se ter formado nos
anos setenta do século xix – luta e clama pelo Rea-
lismo. Trata-se de uma geração muito influenciada
pela cultura francesa que pôde conhecer, graças ao
desenvolvimento das comunicações, sobretudo da
ligação por via férrea entre Portugal e Paris.

De facto, passado o período conturbado das


lutas liberais, a «Regeneração» (situação política
que instituiu estabilidade no país) permitiu algum
progresso material, nomeadamente no capítulo das
comunicações.

Todavia, como o Romantismo estava muito


enraizado na cultura portuguesa, a ação da Geração
de 70 – para além da própria criação literária rea-
lista – revestiu enérgica intervenção pública, em que
sobressaem as «Conferências do Casino». Numa
dessas conferências, intitulada «O Realismo como
nova expressão da Arte», Eça de Queirós afirmou

6
as linhas fundamentais da nova escola literária, o
Realismo.

Linhas fundamentais do Realismo:


– a criação literária realista tem como ideal a
reforma dos costumes sociais e concretiza-se
através do romance;
– o romance realista, através da representação
pormenorizada da vida social (hábitos, figuras,
gostos, realizações) faz a análise crítica dos cos-
tumes, expondo com clareza os seus males para
que possam ser corrigidos;
– a literatura realista tem, pois, objetivos da
ordem da crítica social; não se limita a ser,
como era o Romantismo, «a apoteose do sen-
timento»1;
– a literatura realista deve ter, como temas, a vida
social sua contemporânea e, como recursos,
a observação pormenorizada, a experiência, a
análise;
– a razão, a análise racional, deve sobrepor-se à
subjetividade sentimental romântica que sub-
metia a razão aos sentimentos.

O Realismo levou algum tempo a implantar-se


no panorama literário português e, assim, só prati-
camente no último quartel do século xix se publica-
ram obras realistas. Eça de Queirós sobressai dentre
os escritores realistas portugueses e Os Maias são,
sem dúvida, a sua obra-prima, o grande romance
realista da literatura portuguesa.

1
In Eça de Queirós, O Realismo como nova expressão da arte.

7
Eça de Queirós e o realismo
português
Ler os romances de Eça de Queirós é uma das
melhores formas de ficar a conhecer o realismo por-
tuguês. Eles constituem o que de melhor se produ-
ziu, em termos de romance, na segunda metade do
século xix, em Portugal.

Eça de Queirós, durante a sua formação inte-


lectual, absorveu, pela leitura, as influências do
realismo francês que já se desenvolvera e afirmara
através de grandes romances. Além disso, os prin-
cípios e objetivos, que o Realismo propugnava,
conjugavam-se muito bem com o carácter da sua
escrita literária e mesmo com o seu modo de estar
na vida.

Eça era mordaz, sarcástico, dono de um espírito


crítico lúcido e certeiro, iluminado por uma ironia
tão fina quão eficaz. Associava, ao seu inigualável
sentido de humor, uma grande capacidade de obser-
vação crítica do real social. Através do seu sentido
crítico, ele era um português distanciado dos modos
retrógrados em que a vida social portuguesa se cris-
talizara e que teimavam em persistir, atrasando a
evolução cultural do país.

Eça de Queirós, através de uma escrita imbuída


de um estilo inconfundível, preciso, esteticamente
agradável, irónico, foi o grande obreiro do ideal
realista português. Trabalhava admiravelmente a
língua portuguesa, ao serviço do seu fino poder de
observação. Deste modo, deixou-nos retratos ines-
quecíveis do Portugal seu contemporâneo, em que,
ainda hoje, fruímos, simultaneamente, a lúcida
compreensão da realidade social e o gozo mordaz da
sua representação irónica.

Não é, pois, exagero, afirmar que a obra de Eça


de Queirós é a trave-mestra do romance realista
português e o seu máximo expoente.

8
Biografia de Eça de Queirós
José Maria de Eça de Queirós nasceu na Póvoa
de Varzim, em 1845.

A sua primeira educação escolar decorreu


no Colégio da Lapa, no Porto, a partir de 1855.
A partir de 1861, frequentou a Faculdade de Direito
de Coimbra até 1866, ano em que, já formado em
Direito, se instalou em Lisboa, em casa dos pais.
Nesse mesmo ano, inscreveu-se como advogado no
Supremo Tribunal de Justiça.

A sua primeira obra, publicada ainda nesse ano,


surge na Gazeta de Portugal sob a forma de folhetim
e intitula-se Prosas Bárbaras.

Ainda em 1866, parte para Évora. Aí, funda e


dirige um jornal da oposição, Distrito de Évora. Em
1867, regressa a Lisboa e, no final desse ano, parti-
cipa no Cenáculo, espécie de clube intelectual de
intuitos revolucionários.

Em 1869, faz uma viagem ao Egito, assistindo à


inauguração do Canal do Suez. A experiência desta
viagem é a base dos relatos que publica no Diário de
Notícias sob o título de «Port-Said a Suez».

Em 1870, publica, em colaboração com Rama-


lho Ortigão, O Mistério da Estrada de Sintra. Neste
mesmo ano, é nomeado administrador do concelho
de Leiria e obtém o primeiro lugar na classificação
das provas que presta para cônsul de 1.ª classe.

Em 1871, publica com Ramalho Ortigão As Far-


pas e participa nas Conferências do Casino.

A partir deste ano, prossegue a sua carreira diplo-


mática, sendo cônsul em Havana e Newcastle. Viaja
pela América.

Em 1876, publica o romance O Crime do Padre


Amaro e, em 1878, O Primo Basílio.

9
Em 1886, casa com Emília de Castro Pamplona,
condessa de Resende e, em 1888, é nomeado cônsul
em Paris e publica Os Maias.

Nos anos seguintes, continua a publicar e a


intervir na vida cultural portuguesa, permanecendo
sempre como cônsul em Paris. Morre em 1900, em
Paris.


10
OS MAIAS

Importância e valor literário


de OS MAIAS
Ler Os Maias é conhecer a Lisboa da segunda
metade do século xix, naquele sentido, defendido
por muitos, de que se conhece melhor a História e a
sociologia de um dado momento de um povo atra-
vés da leitura de um romance do que de um ensaio
de cariz histórico. De facto, Os Maias dão-nos o
retrato do quadro histórico, dos meios sociais, dos
espaços físicos e geográficos onde se move todo um
conjunto de personagens representativas de uma
época.

O poderoso génio criativo de Eça de Queirós,


para compor personagens representativas da vida
social do seu tempo, faz de Os Maias um inigualável
ponto de observação de Portugal e, sobretudo, de
Lisboa, no último quartel do século xix.

Com a leitura deste romance, ficamos a conhecer


os costumes sociais, em áreas que vão dos diverti-
mentos à educação, passando pela culinária, pelo
vestuário, pelos transportes, pelos hábitos culturais
e amorosos, numa visão simultaneamente ampla e
pormenorizada.

A este valor, advindo da exímia representação da


vida social, acrescem duas outras características lite-
rárias que tornam a leitura deste romance extrema-
mente apetecível:
– o tom da escrita: humorístico, caricatural,
irónico;
– o brilhantismo linguístico com que Eça de
Queirós narra, descreve, constrói os diálogos.
A construção do romance é também uma
demonstração de bem escrever. Os Maias paten-
teiam a arte literária de construir e sequencializar
grandes painéis coletivos, sem deixar de, neles,

11
inscrever, com nitidez, os acontecimentos nucleares
da intriga em que agem as personagens principais.

Trata-se, pois, de uma obra que é um marco da


qualidade literária atingida pelo romance portu-
guês, no período realista.

Características do texto narrativo


Texto narrativo
Os Maias são um texto narrativo e, dentro deste
género textual, um romance.

Como texto narrativo que são, contam ao leitor


os acontecimentos ficcionais que constituem a sua
intriga, dispondo-os numa certa ordem sequencial.
Tais acontecimentos são situados no tempo e no
espaço, em estreita conexão com as personagens.
Estas mantêm, entre si e com o meio, uma teia de
relações.

No caso d’Os Maias, a elaboração e o desenvol-


vimento dos referidos elementos (intriga, tempo,
espaço, personagens) exigem uma narrativa extensa
e complexa a que chamamos romance.

Os Maias são, pois, um romance. Nele, o enca-


deamento dos eventos e sequências narrativas é
urdido de modo a simular o acontecer natural. As
personagens vão-se insinuando subtilmente, dei-
xando que o andar da narrativa revele a função e o
lugar específicos de cada uma na história que está a
ser contada.

São vários os modos de expressão de que uma


narrativa dispõe e pode utilizar segundo a sua eco-
nomia própria. Os principais são: a narração; a des-
crição; o diálogo; o monólogo.
A arte de narrar consiste na combinação adequada
destes vários modos de expressão. Por exemplo:

12
– as páginas finais de Os Maias reabrem Lisboa
ao regresso de Carlos e Ega e, numa romagem
de memória, passados dez anos, reativam a
intensa descrição dos lugares e das persona-
gens, que nos tinham sido já antes descritas,
mas, agora, muito mais decadentes;
– a mensagem final do romance é expressa em
forma de diálogo: a ironia do declarado pessi-
mismo, do «vencidismo» de Carlos e Ega, é dei-
xada no ar através das falas de um diálogo entre
os dois amigos («– Ainda o apanhamos!»), que
correm para o americano, a caminho de uma
jantarada.

Narração
N’Os Maias, como aliás na generalidade das nar-
rativas, o modo de expressão básico é a narração.
É a narração que faz avançar os fios da história,
a corrente verbal-base que vai derivando, segundo
as necessidades narrativas, para a descrição, para o
diálogo ou para o monólogo. A narração é dinâ-
mica, flui no tempo, urdindo os acontecimentos;
a descrição é estática, constitui uma pausa no
andamento da ação e destina-se a «desenhar» as
personagens retratando-as ou a dar a imagem de
lugares.

Descrição
Os Maias, como romance realista, usam assidua-
mente a descrição e uma descrição pormenorizada
que constrói imagens fiéis ao real. As descrições
deste romance queirosiano são quase fotográficas;
lê-las é ter a sensação de caminhar pela Lisboa do
século xix, com o Chiado, o Grémio Literário, a
Havaneza, os teatros, os hotéis, as ruas e as praças, e
encontrar «gente» da época como se a sua vida, a sua
cor, a seu movimento, a sua voz fossem reais.

Eça de Queirós é um exímio estilista da des-


crição dos ambientes, compondo, com meticuloso
cuidado, quer espaços interiores ou exteriores, quer

13
retratos de personagens. Depois da leitura destas
descrições, o sentido queirosiano dos pormenores
deixa-nos, na memória, tecidos, tons, texturas,
luzes, ruídos, gestos, olhares, aromas, as mais
fugazes ou impressivas sensações térmicas, auditi-
vas, visuais. Deste modo, mergulhamos em toda
a complexidade e variedade da atmosfera roma-
nesca.

A particular estruturação deste romance exige


que a sua primeira parte seja bastante descritiva:
nela, o leitor é inserido no ambiente social e físico e
são-lhe apresentadas as personagens nucleares.

Diálogo
No entanto, à medida que a intriga começa a
ganhar ritmo e velocidade narrativa, o diálogo é fre-
quente e torna-se abundante. Trata-se de diálogos
muito bem construídos, com grande naturalidade e
maleabilidade segundo as personagens intervenien-
tes. Os quadros sociais de conjunto, tantas vezes fic-
cionados n’Os Maias, são vivíssimos, empolgantes
até – como no episódio do jantar do Hotel Cen-
tral – e vivem da bem conseguida combinação entre
narração, diálogo e descrição.

Reprodução do discurso no discurso


– Discurso indireto livre
Outro modo de expressão, de que Eça de Queirós
é um grande criador, é o discurso indireto livre. Este
modo discursivo mistura características da narração
e do diálogo:
– por um lado, mantém os aspetos formais da
narração, ou seja, do discurso indireto (pon-
tuação; verbos no passado e na terceira pessoa;
referência das personagens na terceira pessoa);
– por outro lado, quanto aos aspetos semânticos
e vocabulares, introduz no discurso as carac-
terísticas próprias da personagem como se se
tratasse de uma intervenção sua em diálogo.

14
O uso do discurso indireto livre faz o leitor
reconhecer os tiques, o olhar, os hábitos verbais
da personagem, senti-la como presença viva, mas,
simultaneamente, distanciada, mediada pela obser-
vação externa, indireta, do discurso do narrador.
Este facto produz, muitas vezes, efeitos irónicos,
humorísticos, caricaturais ou reflexivos, críticos.

Monólogo
Em consequência do progressivo desenvolvi-
mento da complexidade narrativa do romance, a
intriga atinge o seu clímax, ou seja, o momento
da descoberta do parentesco entre Carlos e Maria
Eduarda. A partir daí, tudo se encaminha para o
desfecho: a separação dos dois e o seu afastamento
de Lisboa, palco da ação central; a morte de Afonso
da Maia.

É neste momento do romance que a problemá-


tica mais subjetiva, em torno das reações de Carlos
da Maia, exige, por vezes, a presença do monólogo
interior em que ele pensa e sofre os seus dilemas.

O romance
Dentro do género narrativo, Os Maias são um
romance cujos traços definidores são:
– a extensão volumosa da sua narrativa;
– a complexa atmosfera psicossocial criada;
– o número de personagens denso, variado, plural;
– o ritmo temporal predominantemente lento,
aproximando-se do acontecer quotidiano.

Sendo um romance, Os Maias são ainda um


romance realista, pois dão corpo literário ao sentido
social que o Realismo atribui à literatura. Os Maias
são também um romance de espaço, a «pintura» de
um meio histórico, de um ambiente social.

15
Pluralidade de ações
A ação de Os Maias articula-se fundamental-
mente em dois planos:
– o da trajetória da família Maia;
– o da sucessão de quadros representativos da
decadência social de Portugal no século xix.

A trajetória da família Maia reparte-se por três


tempos diferentes:
– o tempo de Afonso da Maia, personagem
que se mantém ao longo do romance, desde
a juventude até à morte, acompanhando toda
a ação;
– o tempo de Pedro da Maia, tempo curto de
uma personagem que se esvai em si mesma,
vítima do seu exacerbado sentimentalismo
romântico;
– o tempo de Carlos da Maia, o protagonista da
ação principal.
A ação principal do romance, protagonizada
pela família Maia, não se limita aos acontecimentos
íntimos desta família, mas torna-se mais complexa
através do seu enquadramento em ações secundárias
que constroem a época de cada geração:
– Afonso da Maia surge inserido no tempo das
lutas liberais e dos exílios românticos, embora
venha a acompanhar a ação até ao final;
– Pedro da Maia insere-se no período dos exces-
sos sentimentais do clima ultrarromântico;
– Carlos da Maia é contemporâneo da «Regene-
ração», do tempo em que o constitucionalismo
monárquico está já estabelecido.

Há, pois, n’Os Maias, uma pluralidade de ações


que se entrecruzam.
Os acontecimentos que envolvem de perto
as personagens da família Maia, ou aquelas de
que são íntimas, marcam a linha nuclear da ação,

16
constituindo o seu primeiro plano. Nele, as perso-
nagens são desenhadas em grandes planos aproxi-
mados com traços bem nítidos. A economia desta
linha da ação é fortemente dramática.

Simultaneamente e enquadrando a ação central,


há um vasto plano de fundo, em que se desenvolve
a comédia de costumes.

Este plano é constituído por uma série de qua-


dros de conjunto, em que se cruza grande quan-
tidade de personagens secundárias. Aí, a ação não
integra uma intriga dramática nem evolui através
de marcadas peripécias ou acontecimentos excecio-
nais, mas segue o ritmo aproximado do acontecer
natural.

Cada um destes quadros de conjunto fraciona-se


em múltiplas breves ações, apontamentos, ao sabor
dos encontros e desencontros das muitas persona-
gens e dos motivos sociais que as põem em movi-
mento. Trata-se de um tecido narrativo lenta mas
sabiamente urdido, produzindo uma visão caleidos-
cópica.

O cruzamento destes dois planos da ação de


Os Maias – o central e o de fundo – faz-se pela pre-
sença das personagens principais nesses quadros de
conjunto:
– a pacatez provinciana dos serões de Santa Olá-
via é perturbada pelas traquinices de Carlos;
– o brilhantismo das noites do Ramalhete evi-
dencia a vil inveja do Dâmaso;
– os encontros clandestinos de Carlos e da Con-
dessa apimentam as maçadoras terças-feiras em
casa dos condes de Gouvarinho;
– a superior serenidade de Carlos acalma os
fáceis ânimos de Ega e de Alencar, no jantar do
Hotel Central;
– a presença de Carlos dá um tom de entusiasmo
e de animação às corridas de cavalos;

17
– Carlos escapa-se da insuportável maçada do
sarau da Trindade, manifestando, assim, o seu
olhar crítico.

A multiplicidade sucessiva de largos quadros


sociais, com uma conotação sempre inferior à do
plano restrito da família Maia, vai retardando o fio
da ação central, através da sua plural e descansada
corrente, entretecida de múltiplas ações secundá-
rias.
De outro modo, o fio da ação central estrutura-se
com maior tensão, relacionando eventos que repre-
sentam momentos de excecionalidade na trajetória
das personagens. Eis, em síntese, o fio condutor da
ação no plano central:

Carlos da Maia, filho de Pedro e neto de Afonso,


é separado, em bebé, da irmã Maria Eduarda. Esta
separação é devida a motivos passionais: a mãe,
Maria Monforte, movida por uma paixão fugaz por
um conde italiano, abandona a família, levando
consigo a filha e deixando o filho, Carlos, com o pai
e o avô. A partir daqui, os irmãos ignoram mutua-
mente a própria existência. Nessa ignorância, vão
reencontrar-se e apaixonar-se um pelo outro: trá-
gico amor incestuoso que põe fim a todos os ideais
de vida profissional e social de que Carlos sonhara
ser o expoente e mensageiro, reformador da deca-
dente vida romântica do país.

Neste plano da ação central, a narração é mais


linear e tem um ritmo mais dramático do que no
plano de fundo em que decorre o «viver» da bur-
guesia lisboeta.

O dramatismo presente na ação central assenta


nas seguintes características:
– ritmo crescente do relacionamento entre Car-
los e Maria Eduarda;
– acumulação de subtis dúvidas e ameaças de que
uma fatalidade escondida, disfarçadamente

18
referida aqui e ali, poderá, mais tarde, abater-se
sobre a família Maia: a supersticiosa fatalidade
do Ramalhete; os fatais olhos negros de Pedro
da Maia; as parecenças fisionómicas, que ainda
se não sabe corresponderem a parentescos; a
falta de certeza absoluta sobre o destino final
da filha de Maria Monforte;
– a erupção repentina e surpreendente da peripé-
cia do drama, ou seja, da trágica identificação
de Carlos e Maria Eduarda como irmãos;
– o dilema vivido por Carlos da Maia perante a
descoberta de que a mulher que ama é a irmã
cuja existência desconhecia;
– a catastrófica morte de Afonso e a destruição
de qualquer possibilidade do futuro sonhado,
quer no plano amoroso, quer no plano social.

A complexidade da ação de Os Maias resulta do


entrelaçamento (sábio, coerente e coeso) entre:
– a síntese dramática da ação central;
– a pluralidade de ações secundárias que consti-
tuem a crónica de costumes.

Complexidade do tempo, do espaço


e dos protagonistas
Tempo
O discurso narrativo refere e relaciona entre si
acontecimentos que ocorrem no tempo. Assim, no
discurso narrativo, são claramente visíveis os regis-
tos de tempo através dos verbos, dos advérbios, das
datas.

Exemplificando:
– «O antepassado, cujos olhos se enchiam agora...
fora, na opinião...»
– «... partiram ontem para Londres...»
– «... no Outono de 1875...»
– «A essa hora parecia miss Sara...»

19
No romance, cada sequência de acontecimentos é
temporalmente alongada ou abreviada, conforme a
sua importância relativa para o seu significado global:
– se for muito importante, é narrada com mais
demorados pormenores e maior aproximação
ao tempo do acontecer natural;
– se não for importante, pode ser rapidamente
resumida ou até passar subentendida, sem qual-
quer referência.
Por exemplo: há um certo momento em que,
de uma viagem de Carlos a Santa Olávia, nada é
narrado. Este evento é elidido. Sobre ele, apenas
lemos: «Foi no sábado» e «No sábado seguinte».
E, no entanto, sabemos que decorreu uma semana
de que nada ficamos a saber.
Outra forma de acelerar a passagem do tempo é o
resumo rápido e muitíssimo genérico: «Outros anos
tranquilos passaram sobre Santa Olávia.»
Todavia, não é este o tratamento do tempo que
predomina n’Os Maias. Neste romance, o trata-
mento predominante do tempo tende a aproximar
o seu ritmo do acontecer natural, do dia a dia.
Exemplificando:
– «Carlos, nessa manhã, ia visitar...»;
– «No Ramalhete, depois do almoço...»;
– «Na manhã seguinte, às oito horas pontual-
mente...»;
– «Três semanas depois, por uma tarde quente...».

Outra forma de encarar a complexidade do


tempo n’Os Maias é observar a extensão temporal
da história narrada e de que modo se reparte a sua
organização.

O marco temporal mais recuado corresponde


à juventude de Afonso da Maia (sensivelmente na
segunda década do século xix) e a última referência
de tempo é «janeiro de 1887».

20
Assim, a história narrada n’Os Maias estende-se
por cerca de sessenta anos, a que se acrescentam os
dez (de 1877 a 1887) correspondentes ao intervalo
entre o afastamento de Carlos no estrangeiro e o seu
regresso a Lisboa.
Todavia, no discurso narrativo, a organização
deste tempo da história não é sempre feita por
ordem cronológica direta.
Vejamos:
1 – No início do romance, estamos já no outono
de 1875 e Afonso da Maia é já um velho que pre-
para o Ramalhete para o regresso de Carlos da Maia,
o seu neto, já adulto.
2 – Em breve, passadas oito páginas e através do
uso do mais-que-perfeito – o tempo verbal do pas-
sado mais recuado – somos levados para o tempo mais
recuado da história: a juventude de Afonso da Maia.
A partir deste movimento narrativo de inversão
temporal, uma analepse, a narração vai, então, pros-
seguir contando o passado durante sensivelmente
oitenta páginas: o casamento de Afonso; o nasci-
mento de Pedro; o exílio de Afonso; o regresso de
Afonso; o casamento de Pedro; o nascimento dos
filhos de Pedro, Maria Eduarda e Carlos; a fuga da
mulher de Pedro; a educação de Carlos em Santa
Olávia; a formação de Carlos em Medicina e a sua
viagem pelo estrangeiro; Afonso e o restaurado
Ramalhete aguardando a instalação de Carlos em
Lisboa (a narração reencontra-se com o momento
do início do romance, o outono de 1875).
3 – De novo no outono de 1875, a partir daí
e durante cerca de dois anos, o fluir temporal vai
decorrer segundo a ordem cronológica direta até
janeiro de 1877.
4 – Finalmente, depois de dez anos elididos da
narração, o tempo volta a ser tratado demorada-
mente, durante o dia em que Carlos, acompanhado
por Ega, peregrina por Lisboa e pelas memórias que
lhe estão associadas.

21
Perante esta organização do ritmo temporal da
narração, verifica-se – de acordo com a centralidade
das ações narradas – uma oscilação entre grande
rapidez e grande lentidão narrativas:
– os acontecimentos anteriores a 1875 são narra-
dos num ritmo genericamente rápido;
– os acontecimentos correspondentes aos dois
anos que se iniciam no outono de 1875 são
narrados lentamente;
– a ausência de Carlos no estrangeiro durante 10
anos é resumida em duas páginas;
– o último dia, final, de revisita de Carlos e Ega
aos lugares da ação, centrando-se nas memórias
dos dois, alonga-se por 26 páginas.

Espaço
De um modo geral, as ações ficcionadas n’Os
Maias ocorrem em lugares real e historicamente
existentes.

Neste romance, o espaço é geralmente citadino:


«A pacata Lisboa adormecida ao sol...».

Os lugares, onde predominantemente decorre


a ação, pertencem à Lisboa burguesa dos fins do
século xix:
– o Chiado, o Loreto, o Aterro, lugares onde se
passeia em amenas cavaqueiras;
– o S. Carlos, o Trindade, o Grémio Literário,
cuja intenção cultural é desmentida pela reali-
dade predominantemente sentimental;
– o Hotel Central, onde à roda da mesa se discute
alegre e levianamente a viabilidade do país;
– o hipódromo, lugar de suposta diversão que
acaba pífia e tristonha;
– a Vila Balzac, a «Toca» e outros lugares da rela-
ção amorosa clandestina, de adultério reinante.

22
No entanto, outros lugares estão presentes no
romance:
– a Lisboa com a sua atmosfera citadina,
contrapõe-se a quinta de Santa Olávia que,
pelo seu ambiente saudável, pelos seus ares
lavados, a água pura, a natureza, é o lugar de
retiro da família Maia nos momentos críticos,
o lugar da educação de Carlos;
– Sintra é o lugar burguês dos passeios, do vera-
neio, muito conotado com vivências poéticas e
sentimentais;
– Coimbra é o lugar tradicionalmente acadé-
mico, onde Carlos vive a boémia estudantil e
se forma em Medicina;
– o estrangeiro (sobretudo Paris, mas também a
Inglaterra) é um lugar mítico: padrão que evi-
dencia a inferioridade nacional, no entender de
Afonso, adepto da vida à inglesa; representação
do chic parolo do Dâmaso que idolatra o bou-
levarzinho parisiense.

Porém, entre todos os espaços ficcionados no


romance, há um, o Ramalhete, que merece menção
especial, por ser:
– o lugar onde vive a personagem nuclear da nar-
rativa, Carlos da Maia;
– a casa cujos interiores mais vezes e com mais
pormenor são descritos;
– um lugar que simboliza e reflete, através da
evolução do seu aspeto, o grau de felicidade
dos seus donos (perde a aparência de fachada
tristonha e jesuítica, de aspeto austero, freirá-
tico, para receber Carlos; adorna-se luxuosa-
mente e revive festivamente, durante o tempo
de boémia dourada de Carlos e dos seus ami-
gos; regressa, durante a catástrofe final que
atinge a família, à imagem de casarão som-
brio, fachada tristonha, coberto de tons de
ruína).

23
O espaço n’Os Maias ocupa um lugar substancial
através de extensas e pormenorizadas descrições que
«fotografam» a Lisboa burguesa oitocentista.

Nessas «imagens» feitas de palavras, para além da


dimensão física, é ainda mais importante a dimen-
são social.

Tratando-se de um romance realista de crítica de


costumes, torna-se muito importante representar
literariamente a atmosfera social de cada lugar.

O retrato da decadência de uma burguesia que


nada faz de progressivo, de útil, de eficaz para a
transformação do país, deve muito à presença des-
tes espaços sociais, em que apenas se conversa, se
joga, se ri, se come, se namora, se inveja e se intriga,
numa indolência destrutiva das possíveis energias
reformadoras da sociedade.

Protagonistas
A personagem nuclear do romance, o seu verda-
deiro protagonista é uma família, a família Maia,
que se articula em três gerações sucessivas. A relação
geracional dos seus elementos transporta caracterís-
ticas identitárias que se refletem no comportamento
de cada geração.

Cada uma destas gerações organiza-se em torno


de uma personagem masculina que, por sua vez,
faz par com uma personagem feminina, vive numa
roda de amigos íntimos e integra-se numa dada
situação histórica:
– Afonso da Maia e D. Maria Runa;
– Pedro da Maia, Maria Monforte e o seu grande
amigo Alencar;
– Carlos da Maia, o seu íntimo amigo João da
Ega e Maria Eduarda.

24
O retrato de cada um dos protagonistas destes
três momentos é eximiamente traçado por Eça de
Queirós.

Afonso da Maia é um homem culto, sereno, de


bom gosto, equilibrado, sólido, firme, amigo afe-
tuoso e solícito; patrão justo e generoso; cidadão
exemplar; a síntese das tradicionais e esquecidas
virtudes portuguesas, melhorada pelo contacto com
a admirada Inglaterra; um «bloco de granito» que,
«esmagado pela tragédia», se torna num velho cujos
«passos lentos e incertos, muito pesados» desembo-
cam na morte de pé.

Pedro da Maia é um homem frágil, de profundos


olhos negros românticos, vítima de uma educação
livresca e clerical. Carácter amolecido pelo roman-
tismo, dado a melancolias sem razão, endoidecido
pelo amor, apaixonado febril, acaba no suicídio.
Opõe-se à moral familiar representada por seu pai,
Afonso; obedece à moral do sentimento; suicida-se,
num desfecho melodramático de herói romântico.

Carlos da Maia, educado à inglesa, destinado a


ser obreiro do progresso, da transformação do país,
«formoso e magnífico moço, bem feito, de uma
testa de mármore», é apresentado como um ser
superior. No entanto, submerso pelo tédio reinante
na burguesia lisboeta, deixa-se vencer pelos efei-
tos da paixão, dando, assim, primazia aos «genes»
românticos que herdara dos pais. Não se empenha
profundamente em nada, é um diletante e acaba
falhado. É um dandy cujos «hábitos de luxo con-
denam irremediavelmente ao diletantismo». Dentre
os protagonistas que constituem a família Maia,
ele ocupa o lugar mais importante. Está no núcleo
da ação e, por isso, é ele a personagem que alcança
maior espessura psicológica. Esta sua maior densi-
dade vem-lhe das situações complexas que vive:
– os bocejos de saciedade provocados pela frustre
experiência amorosa com a Gouvarinho;

25
– a abstração radiosa advinda da paixão por
Maria Eduarda;
– as fraquezas, as hesitações, as resoluções falha-
das, os projetos por concretizar, a comoção
com a morte do avô;
– a revolta, o medo, a fuga, a covardia, o choro, o
ceticismo, o cinismo, a secura afetiva, o pessi-
mismo existencial, durante e depois da tragédia
que o atingiu.
Maria Eduarda, que se destaca, dentre as per-
sonagens femininas, é bela, mas discreta. Alta, de
aparência estrangeirada, move-se com um andar
de «deusa». Não representa o feminino apenas
enquanto sentimento e emoção, pois tem qualida-
des no plano intelectual que a colocam à altura de
uma conversa com Carlos e Ega.
Alencar ocupa o lugar de amigo íntimo, no
tempo da geração de Pedro e Maria Monforte,
mas sobrevive-lhes até ao reencontro com Carlos.
Poeta, é o melhor representante da geração român-
tica à qual sobrevive. Surge no romance como «um
rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido
de negro», caricatura do poeta ultrarromântico,
que solta frases ressoantes e arrasta as suas poses.
Mais tarde, já na geração de Carlos, reaparece como
«homem alto, todo de preto, longos bigodes român-
ticos» e funciona, então, como recordação agoni-
zante de emoções patrióticas perdidas.
João da Ega, «um certo João da Ega», íntimo
de Carlos, o «grande» João da Ega, que «tinha nas
veias o veneno do diletantismo», nos tempos de
Coimbra, estudava direito e reprovava. Personagem
que talvez seja um alter-ego de Eça, ou antes, uma
autocaricatura dos seus próprios ímpetos de artista
vingador, figura exagerada de literato, perseguidor
de ambiciosos planos irrealizados, é um falhado
como Carlos. A sua figura, pelo aspeto físico e pela
sua função predominante na intriga (apresenta per-
sonagens, liga acontecimentos, faz avançar a ação,

26
não escapa a ser portador da notícia fatal) tem o seu
quê de mefistofélica. Aliás, é referido como «Esse
Mefistófles de Celorico». Consciência irónica e crí-
tica dos acontecimentos, através de palavras sempre
exageradas, acaba por exibir uma certa confusão
mental. É teatral, cómico, pueril, incoerente. Não
respeita nada, professa o desacato como condição
de progresso, mas bajula o Cohen homenageando-o
com um jantar e concordando-lhe com as opiniões,
só porque quer aproximar-se da mulher, a divina
Raquel, por quem está fascinado. Perante a desgraça
que avassala o amigo, acaba por surgir «cheio só de
compaixão e ternura, com uma grossa lágrima nas
pestanas».

Personagens secundárias
Em torno destas personagens fulcrais e, por con-
traponto, ajudando muitas vezes a fazê-las emergir,
gravita uma série de personagens secundárias.

N’Os Maias, as personagens secundárias, ora


frequentes, ora episódicas, ora circunstanciais,
multiplicam-se ao sabor da intenção realista de
construir um painel da sociedade lisboeta, da
segunda metade do século xix, segundo um ponto
de vista crítico.
Vejamos algumas dessas personagens:
Sequeira e D. Diogo Coutinho: velhos compa-
nheiros de Afonso da Maia;
Steinbroken: embaixador finlandês, olhado cari-
caturalmente;
Vilaça (pai e filho): administradores zelosos da
segurança material da família Maia;
Taveira: o funcionário do Tribunal de Contas;
Cruges: o pianista de cabeleira desleixada e
amargo spleen;
Eusebiozinho: o produto mais representativo de
toda a degenerescência física e moral da sociedade
portuguesa da altura;

27
Craft: inglês, sereno, fleumático, espantado com
a «enormidade» portuguesa;
Dâmaso Salcede: o filho do velho Silva, o agiota;
figura desorbitada de pura sátira, caricatura do fran-
cesismo em calão; representante de um dos mais
baixos degraus da sociedade lisboeta; bochechudo
e balofo, «frisadinho como um noivo de província»,
aldrabão, vaidoso, oco, cobarde, humilhado, avil-
tado; movido pela lisonja, pela inveja, pelo rancor;
servil, obcecado pelo chic, ridículo.

Na multímoda personagem que é a burguesia lis-


boeta, emergem ainda:
Cohen: o diretor do Banco Nacional, corrupto,
indiferente aos reais interesses do país;
Conde de Gouvarinho: par do reino, político
bacoco, inútil, produzindo discursos ridículos;
Condessa de Gouvarinho: exímia nos processos
de assédio aos favores amorosos de Carlos e nos ges-
tos melodramáticos de vítima do abandono;
Raquel Cohen: a divina despertadora de paixões;
Melanie, Miss Sara, Teles da Gama, Palma
Cavalão, Castro Gomes, D. Maria Cunha, enfim,
um rio interminável de figuras que são tipos sociais,
ou seja, têm um comportamento determinado pela
sua origem e estatuto social.

Trata-se de personagens representativas de clas-


ses, grupos, funções, atitudes sociais. Estas perso-
nagens-tipo são as que melhor servem a intenção
de crítica social realista: representam de forma cari-
catural os males sociais, expondo-os, dando-os a
conhecer, tornando-os objeto de análise crítica e de
ironia demolidora.

Extensão
Dentre os vários subgéneros narrativos, o
romance é a narrativa mais extensa e mais com-
plexa. Mais breves e mais lineares são, por exemplo,
a novela e o conto.

28
Para além desta razão básica, a de serem um
romance, outras razões fazem com que Os Maias
sejam um romance extenso.

De facto, trata-se de um romance realista cujo


principal objetivo é o de ficcionar o viver social, a
partir da observação pormenorizada, fotográfica,
dos múltiplos aspetos da sociedade. Não é, pois,
possível cumprir este desígnio sem desenvolver um
extenso volume de discurso narrativo.

Para construir literariamente a imagem realista


dos costumes sociais, é necessária uma forte pre-
sença da descrição. Neste caso, ou seja, para ser rea-
lista, a descrição tem de ser pormenorizada, atenta
às cores, aos sons, aos movimentos, às texturas, aos
odores, enfim, aos dados dos sentidos capazes de
darem ao leitor a sensação de realidade que se pre-
tende que ele tenha.

Por outro lado, o objetivo realista, de fazer crí-


tica social através da literatura, implica a inclusão de
um painel plural, variado, extenso, de personagens
secundárias. N’Os Maias, Eça de Queirós monta,
com grande mestria, longos quadros de conjunto,
onde essas personagens que são tipos sociais se
entrecruzam.

Deste modo, o romance ganha extensão, volume,


como é próprio de uma obra literária cujos objetivos
são consentâneos com a corrente literária realista.

Mesmo que consideremos apenas a sua dimensão


romanesca, há, n’Os Maias, processos narrativos que
contribuem para a sua extensão.

Do movimento realista, fazia parte uma vertente


naturalista que pretendia analisar quase cientifica-
mente a decadência social, atribuindo-lhe, como
causas, a educação, a hereditariedade, o meio fami-
liar e social de origem das personagens e, bem assim,
das classes que representam.

29
Assim, seguindo essa tendência, torna-se necessá-
rio narrar os antecedentes de Carlos da Maia, a sua
educação, a sua ascendência.

Carlos da Maia falha, também, porque traz em


si a marca romântica que herdou de Pedro da Maia
e de Maria Monforte, mais intensa do que a lúcida
racionalidade da educação de inspiração inglesa a
que Afonso o submete.

Maria Eduarda, com a mesma origem, representa


o regresso desse passado que, tragicamente, perse-
gue e vence os intuitos reformadores de Afonso e
de Carlos.

Ora, para dar corpo a esta vertente, de algum


modo naturalista, do romance, Eça inclui uma
substancial analepse que se avoluma no início do
romance.

Assim, sendo Os Maias um romance e, apenas


por esta razão, uma narrativa extensa, o facto de
serem um romance realista implica processos nar-
rativos e estruturais que avolumam o seu caudal
narrativo, à imagem e semelhança do fluir do rio
da vida.

Visão global da obra


e da sua estruturação
Título e subtítulo
Para além do título Os Maias, o romance apre-
senta um subtítulo: Episódios da Vida Romântica.

Tal facto não deve ser encarado como uma sim-


ples explicitação de conteúdo, mas como uma pista
importante para a compreensão das linhas da sua
estruturação.

30
É o subtítulo, com o seu carácter abrangente-
mente coletivo e com a sua referência à «vida», que
indica uma das dimensões do romance:
– a de fresco caricatural da sociedade portuguesa
nas últimas décadas do século xix, crónica de
costumes, em cujas páginas a vida social pulula
e gesticula.

Por sua vez, o título refere a personagem central,


a família que se desdobra por três gerações e age
numa dimensão diferente: a dimensão das íntimas
histórias sentimentais e das relações familiares.

A existência de um título e de um subtítulo


encaminha-nos para a análise do modo como o
romance está estruturado em dois planos que se ins-
crevem um no outro:
– a história da família, mormente de Carlos
(título);
– a crónica social do Portugal oitocentista, persis-
tentemente romântico (subtítulo).

Existe, entre estes dois planos, uma articulação


coerente que inscreve os episódios da intriga fami-
liar nos momentos político-sociais que o país atra-
vessa:
– Afonso da Maia / tempo de lutas pela afirma-
ção do Liberalismo;
– Pedro da Maia / ambiente de decadência ultrar-
romântica;
– Carlos da Maia / o constitucionalismo monár-
quico: a «Regeneração».

Claramente, a trajetória da família (anunciada no


título) inscreve-se na evolução do Portugal român-
tico (referida no subtítulo).



31
EDUCAÇÃO LITERÁRIA
– TEXTOS ESCOLHIDOS
DE OS MAIAS 2

representação de espaços sociais


e crítica de costumes

 Texto 
A voz do Ega sibilava... Mas, vendo assim trata-
dos de grotescos, de bestas, os homens de ordem que
fazem prosperar os bancos, Cohen pousou a mão no
braço do seu amigo e chamou-o ao bom senso. Evi-
dentemente, ele era o primeiro a dizê-lo, em toda
essa gente que figurava desde 46 havia medíocres
e patetas – mas também homens de grande valor!
– Há talento, há saber – dizia ele com um tom de
experiência. – Você deve reconhecê-lo, Ega... Você é
muito exagerado! Não senhor, há talento, há saber.
E, lembrando-se que algumas dessas bestas eram
amigos do Cohen, Ega reconheceu-lhes talento e
saber. O Alencar, porém, cofiava sombriamente o
bigode. Ultimamente pendia para ideias radicais,
para a democracia humanitária de 1848: por ins-
tinto, vendo o romantismo desacreditado nas letras,
refugiava-se no romantismo político, como num
asilo paralelo: queria uma república governada por
génios, a fraternização dos povos, os Estados Uni-
dos da Europa... Além disso, tinha longas queixas
desses politicotes, agora gente do Poder, outrora
seus camaradas de redação, de café e de batota...
– Isso – disse ele – lá a respeito de talento e de
saber, histórias... Eu conheço-os bem, meu Cohen...
O Cohen acudiu:
– Não senhor, Alencar, não senhor! Você tam-
bém é dos tais... Até lhe fica mal dizer isso... É exa-
geração. Não senhor, há talento, há saber.

2
Textos selecionados da edição de «Livros do Brasil», Lis-
boa (9.a edição).

32
E o Alencar, perante esta intimação do Cohen,
o respeitado diretor do Banco Nacional, o marido
da divina Raquel, o dono dessa hospitaleira casa da
Rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recal-
cou o despeito – admitiu que não deixava de haver
talento e saber. Então, tendo assim, pela influência
do seu banco, dos belos olhos da sua mulher e da
excelência do seu cozinheiro, chamado estes espíri-
tos rebeldes ao respeito dos parlamentares e à vene-
ração da Ordem, Cohen condescendeu em dizer, no
tom mais suave da sua voz, que o país necessitava
reformas...
Ega, porém, incorrigível nesse dia, soltou outra
enormidade:
– Portugal não necessita reformas, Cohen, Portu-
gal o que precisa é a invasão espanhola.
Alencar, patriota à antiga, indignou-se. O Cohen,
com aquele sorriso indulgente de homem superior
que lhe mostrava os bonitos dentes, viu ali apenas
«um dos paradoxos do nosso Ega». Mas o Ega falava
com seriedade, cheio de razões. Evidentemente,
dizia ele, invasão não significa perda absoluta de
independência. Um receio tão estúpido é digno só
de uma sociedade tão estúpida como a do Primeiro
de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões
de habitantes serem engolidos, de um só trago, por
um país que tem apenas quinze milhões de homens.
Depois ninguém consentiria em deixar cair nas mãos
de Espanha, nação militar e marítima, esta bela linha
de costa de Portugal. Sem contar as alianças que
teríamos a troco das colónias – das colónias que só
nos servem, como a prata de família aos morgados
arruinados, para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma
invasão, num momento de guerra europeia, seria
levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa
indemnização, perdermos uma ou duas províncias,
ver talvez a Galiza estendida até ao Douro...
– Poulet aux champignons – murmurou o criado,
apresentando-lhe a travessa.
E enquanto ele se servia, perguntavam-lhe dos
lados onde via ele a salvação do país nessa catástrofe

33
que tornaria povoação espanhola Celorico de Basto,
a nobre Celorico, berço de heróis, berço dos Egas...
– Nisto: no ressuscitar do espírito público e do
génio português!
Sovados, humilhados, arrasados, escalavra-
dos, tínhamos de fazer um esforço desesperado
para viver. E em que bela situação nos acháva-
mos! Sem monarquia, sem essa caterva de políti-
cos, sem esse tortulho da inscrição, porque tudo
desaparecia, estávamos novos em folha, limpos,
escarolados, como se nunca tivéssemos servido.
E recomeçava-se uma história nova, um outro
Portugal, um Portugal sério e inteligente, forte e
decente, estudando, pensando, fazendo civiliza-
ção como outrora... Meninos, nada regenera uma
nação como uma medonha tareia... Oh! Deus de
Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen,
passe-me o St. Emilion.
Agora, num rumor animado, discutia-se a
invasão. Ah, podia-se fazer uma bela resistência!
Cohen afiançava o dinheiro. Armas, artilharia,
iam comprar-se à América – e Craft ofereceu logo
a sua coleção de espadas do século xvi. Mas gene-
rais? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia
estar barato...
– O Craft e eu organizamos uma guerrilha – gri-
tou o Ega.
– Às ordens, meu coronel!
– O Alencar – continuava Ega – é encarregado
de ir despertar pela província o patriotismo, com
cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o cálice, teve um movi-
mento de leão que sacode a juba:
– Isto é uma velha carcaça, meu rapaz, mas não
está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda,
e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par
de galegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas
coisas me põe o coração negro! E como vocês
podem falar nisso, a rir, quando se trata do país,
desta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja
má, de acordo, mas, caramba, é a única que temos,
não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que

34
rebentamos... Irra! falemos de outra coisa, falemos
de mulheres!
Dera um repelão ao prato, os olhos humedeciam-
-se-lhe de paixão patriótica... E no silêncio que se
fez, Dâmaso, que desde as informações sobre a rapa-
riga do Ermidinha emudecera, ocupado a observar
Carlos com religião, ergueu a voz pausadamente,
disse, com ar de bom senso e de finura:
– Se as coisas chegassem a esse ponto, se se puses-
sem assim feias, eu cá, à cautela, ia-me raspando
para Paris...
Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali,
no lábio sintético de Dâmaso, o grito espontâneo
e genuíno do brio português! Raspar-se, pirar-se!...
Era assim que de alto a baixo pensava a sociedade
de Lisboa, a malta constitucional, desde el-rei nosso
senhor até aos cretinos de secretaria!...
In Capítulo VI

Contexto
Através desta conversa durante o jantar no hotel
Central, representam-se ficcionalmente os dados do
contexto histórico: a crítica situação socioeconó-
mica do país; a falta de competência de quem tinha
o poder; a falta de honestidade intelectual de quem
o criticava; a falta de consciência nacional.

Relacionação com outros textos


Esta discussão dos problemas do país está tam-
bém presente em Viagens na Minha Terra: neste
livro de Garrett, é, na voz do narrador, que a situa-
ção sociopolítica é criticada.

«Se excetuarmos o débil clamor da imprensa libe-


ral já meio esganada da polícia, não se ouve no vasto
silêncio deste ermo senão a voz dos barões gritando
contos de réis.
Dez contos de réis por um eleitor!
Mais duzentos contos pelo tabaco!

35
Três mil contos para a conversão de um anfiguri3!
Cinco mil contos para as estradas dos aeronautas!
Seis mil contos para isto, dez mil contos para
aquilo! Não tardam a contar por centenas de milha-
res. Contar a eles não lhes custa nada. A quem custa
é a quem paga para todos esses balões de papel – a
terra e a indústria...»

Educação literária – as questões


1. Indique o espaço social representado neste
texto.
1.1 Identifique o setor da sociedade que cada
uma das personagens representa.
2. Neste texto, está presente a crítica de costu-
mes.
2.1 Através de referências ao texto, justifique a
afirmação anterior; explicite-a.
2.2 Indique os recursos expressivos que dão viva-
cidade e acutilância à crítica.
3. Refira-se à presença de reprodução do discurso
no discurso, explicitando o modo utilizado.

Educação literária – as respostas

1. Este texto é um excerto do grande quadro do


jantar do hotel Central. Nele, está representada a
alta burguesia lisboeta com poder económico e
social e outros setores com opinião acerca do estado
do país.
Através da conversa que vai decorrendo durante
o jantar, fica patente a inconsistência das posições
intervenientes na situação do país.
1.1 As personagens que animadamente conver-
sam à roda da mesa representam setores componen-
tes da sociedade:
3
Anfiguri = texto de sentido obscuro, muito difícil de com-
preender.

36
– Cohen representa a banca, a finança;
– Alencar representa as velhas posições dos escri-
tores românticos com o seu sentimentalismo e
idealismo patriótico, ainda subsistentes e resis-
tentes na sociedade portuguesa;
– Ega representa a intelectualidade juvenil e radi-
cal, muito crítica e demolidora, mas simulta-
neamente muito diletante: muitas palavras;
poucas ações;
– Craft representa o ponto de vista estrangeiro,
distanciado;
– Dâmaso representa a burguesia individualista e
cobarde, totalmente desprovida de consciência
nacional.
2.1 A crítica de costumes presente neste texto
atinge os seguintes alvos:
– a incompetência, a hipocrisia e a falta de ver-
dadeira consciência dos problemas nacionais
e de coragem para os enfrentar e tentar resol-
ver, por parte daqueles a quem tal deveria
competir;
– a primazia da diversão e da satisfação dos
prazeres pessoais, em vez do empenhamento
responsável na análise e estudo dos meios
para reformar e fazer progredir o país, por
parte de quem tem essa responsabilidade,
quer por ocupar lugares de poder, quer por
se dizer detentor de pensamento crítico sobre
o assunto.
2.2 O recurso expressivo que principalmente
contribui para a acutilância e vivacidade da crítica é
a ironia. Ela está presente ao longo do texto. Pode-
remos fixar-nos nos seguintes momentos:
– «E enquanto ele se servia, perguntavam-lhe
dos lados onde via ele a salvação do país nessa
catástrofe que tornaria povoação espanhola
Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de
heróis, berço dos Egas...»;

37
– «Meninos, nada regenera uma nação como
uma medonha tareia... Oh! Deus de Ouri-
que, manda-nos o castelhano! E você, Cohen,
passe-me o St. Emilion.»;
– «Mas generais? Alugavam-se. Mac-Mahon, por
exemplo, devia estar barato...»;
– «Eis ali, no lábio sintético de Dâmaso, o grito
espontâneo e genuíno do brio português!
Raspar-se, pirar-se!... Era assim que de alto a
baixo pensava a sociedade de Lisboa, a malta
constitucional, desde el-rei nosso senhor até
aos cretinos de secretaria!...»

Alguns exemplos de outros recursos expressivos:


– comparação: «como a prata de família aos
morgados arruinados, para ir empenhando em
casos de crise»;
– uso expressivo do adjetivo: «levarmos uma sova
tremenda, pagarmos uma grossa indemniza-
ção»; «Sovados, humilhados, arrasados, escala-
vrados»;
– uso expressivo do advérbio: «cofiava sombria-
mente o bigode»;
– metáfora: «sem esse tortulho da ‘inscrição’»;
– sinestesia: «me põe o coração negro».
3. Neste texto predomina o diálogo, uma vez que
se trata de uma conversa à volta da mesa do jantar.
Por vezes, todavia, as falas das personagens são
introduzidas através do discurso indireto livre, ou
seja, a introdução do registo e do tom próprios da
personagem no decorrer do discurso narrativo sem
apresentar marcas gráficas e morfossintáticas pró-
prias do discurso direto.
Exemplo:
«Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada
uma invasão, num momento de guerra europeia,
seria levarmos uma sova...».


38
espaços e seu valor simbólico e emotivo
 Textos 
A
[...] e o Ramalhete possuía apenas, ao fundo de
um terraço de tijolo, um pobre quintal inculto,
abandonado às ervas bravas, com um cipreste, um
cedro, uma cascatazinha seca, um tanque entu-
lhado, e uma estátua de mármore (onde Monsenhor
reconheceu logo Vénus Citereia) enegrecendo a um
canto na lenta humidade das ramagens silvestres.
In Capítulo I

B
Não era decerto o jardim de Santa Olávia: mas
tinha o ar simpático, com os seus girassóis perfi-
lados ao pé dos degraus do terraço, o cipreste e o
cedro envelhecendo juntos como dois amigos tris-
tes, e a Vénus Citereia parecendo agora, no seu tom
claro de estátua de parque, ter chegado de Versa-
lhes, do fundo do Grande Século... E desde que a
água abundava, a cascatazinha era deliciosa, dentro
do nicho de conchas, com os seus três pedregulhos
arranjados em despenhadeiro bucólico, melancoli-
zando aquele fundo de quintal soalheiro com um
pranto de náiade doméstica, esfiado gota a gota na
bacia de mármore.
In Capítulo I

C
Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio
na sua nudez de inverno, tinha a melancolia de
um retiro esquecido, que já ninguém ama: uma
ferrugem verde, de humidade, cobria os grossos
membros da Vénus Citereia; o cipreste e o cedro
envelheciam juntos, como dois amigos num ermo;
e mais lento corria o prantozinho da cascata, esfiado
saudosamente, gota a gota, na bacia de mármore.
In Capítulo XVIII

39
Contexto
Casas senhoriais, como o Ramalhete que Eça
cria literariamente para habitação da família Maia,
durante o tempo dourado de Carlos em Lisboa,
integram-se no contexto citadino do século xix.
Visitar o bairro das Janelas Verdes, onde Eça o situa,
é, ainda hoje e através de edifícios remanescentes,
reviver essa realidade urbana oitocentista que o
romance nos dá a conhecer.

Relacionação com outros textos


Não é raro encontrarmos na literatura, nomea-
damente em romances, descrições de casas. Lem-
bremos, por exemplo, a famosa Casa do Vale de
Santarém, presente em Viagens na Minha Terra, de
Almeida Garrett:
«Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por
entre um claro das árvores a janela meio aberta de
uma habitação antiga mas não dilapidada – com
certo ar de conforto grosseiro, e carregada na cor
pelo tempo e pelos vendavais do sul a que está
exposta. A janela é larga e baixa; parece-me mais
ornada e também mais antiga que o resto do edi-
fício que todavia mal se vê... Interessou-me aquela
janela. Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar
ali?»

Frequentemente, nas obras literárias, é atribuído,


ao espaço, um valor simbólico e emotivo. Lembre-
mos, por exemplo, o espaço do segundo ato de Frei
Luís de Sousa, a casa em que D. Madalena vivera
com seu primeiro marido. Trata-se, de facto, de um
espaço carregado de sinais ameaçadores do regresso
de D. João de Portugal e que angustia extrema-
mente a personagem de Madalena.

40
Educação literária – as questões
1. Leia seguidamente os três textos acima que,
em momentos diferentes do romance, descrevem o
mesmo recanto do Ramalhete; atente nas palavras e
expressões realçadas.
1.1 A partir desta leitura, escreva um texto expo-
sitivo em que desenvolva o seguinte tópico:
Espaços e seu valor simbólico e emotivo.

Educação literária – as respostas


1.1
Há, n’Os Maias, espaços físicos cujo tratamento
literário ultrapassa a descrição realista e lhes confere
um valor simbólico e emotivo.
O caso mais saliente é o do Ramalhete que, ao
longo do romance, vai mudando a sua conotação
emotiva, tornando-se como que um emblema do
grau de felicidade e brilho social da família Maia.
O recanto descrito nestes três textos é a parte do
Ramalhete que, mais evidentemente, assume esse
valor simbólico e emotivo de um espaço. Evolui
em três tempos, como a família: antes de Carlos;
durante Carlos; depois da tragédia de Carlos.
Assim, a adjetivação e outros recursos expressivos
criam, para o mesmo espaço, três conotações sim-
bólicas e emotivas diferentes:
– abandono, secura, ruína (antes de Carlos);
– conforto, convívio, bom gosto, amenidade
(durante Carlos);
– abandono, decadência, tristeza (depois da tra-
gédia de Carlos).


41
representações do sentimento
e da paixão: diversificação
da intriga amorosa
Pedro da Maia
 Texto 
Não tardou de resto a falar-se em toda a Lisboa
da paixão de Pedro da Maia pela negreira. Ele tam-
bém namorou-a publicamente, à antiga, plantado a
uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com
os olhos cravados na janela dela, imóvel e pálido de
êxtase.
Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis
folhas de papel – poemas desordenados que ia com-
por para o Marrare: e ninguém lá ignorava o destino
daquelas páginas de linhas encruzadas que se acu-
mulavam diante dele sobre o tabuleiro da genebra.
Se algum amigo vinha à porta do café perguntar
por Pedro da Maia, os criados já respondiam muito
naturalmente:
– O sr. D. Pedro? Está a escrever à menina.
E ele mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe
a mão, exclamava radiante, com o seu belo e franco
sorriso:
– Espera aí um bocado, rapaz, estou a escrever
à Maria!
Os velhos amigos de Afonso da Maia que vinham
fazer o seu whist a Benfica, sobretudo o Vilaça, o
administrador dos Maias, muito zeloso da dignidade
da casa, não tardaram em lhe trazer a nova daque-
les amores do Pedrinho. Afonso já os suspeitava: via
todos os dias um criado da quinta partir com um
grande ramo das melhores camélias do jardim; todas
as manhãs cedo encontrava no corredor o escudeiro,
dirigindo-se ao quarto do menino, a cheirar regalada-
mente o perfume de um envelope com sinete de lacre
dourado; e não lhe desagradava que um sentimento
qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o
filho à estroinice bulhenta, ao jogo, às melancolias
sem razão em que reaparecia o negro ripanço...
In Capítulo I

42
Carlos da Maia
 Texto 
Maria Eduarda veio encostar-se à janela, Car-
los seguiu-a; e ficaram ali juntos, calados, profun-
damente felizes, penetrados pela doçura daquela
solidão. Um pássaro cantou de leve no ramo da
árvore; depois calou-se. Ela quis saber o nome de
uma povoação que branquejava ao longe, ao Sol,
na colina azulada. Carlos não se lembrava. Depois,
brincando, colheu uma margarida, para a interro-
gar: Elle m’aime, un peu, beaucoup... Ela arrancou-
-lha das mãos.
– Para que precisa perguntar às flores?
– Porque ainda não mo disse claramente, absolu-
tamente, como eu quero que mo diga...
Abraçou-a pela cinta, sorriam um ao outro.
Então Carlos, com os olhos mergulhados nos dela,
disse-lhe baixinho, e implorando:
– Ainda não vimos a saleta de banho...
Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaçada
pelo salão, depois através da sala de tapeçarias, onde
Marte e Vénus se amavam entre os bosques. Os
banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo,
avivado por um velho tapete vermelho da Caramâ-
nia. Ele, tendo-a sempre abraçada, pousou-lhe no
pescoço um beijo longo e lento. Ela abandonou-se
mais, os seus olhos cerraram-se, pesados e vencidos.
Penetraram na alcova quente e cor de oiro: Carlos,
ao passar, desprendeu as cortinas do arco de capela,
feitas de uma seda leve que coava para dentro uma
claridade loira: e um instante ficaram imóveis, sós
enfim, desatado o abraço, sem se tocarem, como
suspensos e sufocados pela abundância da sua feli-
cidade.
In Capítulo XIII

43
Ega
 Texto 
Mas a cólera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve
um momento mordendo os beiços, recalcando os
soluços, com os olhos reluzentes de lágrimas.
Quando as palavras voltaram, foi uma explosão
selvagem:
– Quero-me bater em duelo com aquele mal-
vado, a cinco passos, meter-lhe uma bala no cora-
ção!
Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da
garganta; e batendo furiosamente o pé, esmurrando
o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se na estri-
dência da própria voz:
– Quero matá-lo! Quero matá-lo! Quero matá-
-lo!
Depois, alucinado, sem ver Carlos, rompeu a
passear desabridamente pelo quarto, às patadas,
com o manto deitado para trás, a espada mal afive-
lada batendo-lhe as canelas escarlates.
– Então descobriu tudo – murmurou Carlos.
– Está claro que descobriu tudo! – exclamou o
Ega, no seu passear arrebatado, atirando os braços
ao ar. – Como descobriu, não sei. Sei isto, já não é
pouco. Pôs-me fora!... Hei de lhe meter uma bala no
corpo! Pela alma de meu pai, hei de lhe varar o cora-
ção!... Quero que vás logo pela manhã com o Craft...
E as condições são estas: à pistola, a quinze passos!
Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chá-
vena de chá. Depois, disse muito simplesmente:
– Meu querido Ega, tu não podes mandar desa-
fiar o Cohen.
O outro estacou de repelão, atirando pelos olhos
dois relâmpagos de ira – a que as medonhas sobran-
celhas de crepe, as duas penas de galo ondeando na
gorra, davam uma ferocidade teatral e cómica.
– Não o posso mandar desafiar?
– Não.
– Então põe-me fora de casa...
– Estava no seu direito.

44
– No seu direito!... Diante de toda a gente?...
– E tu, não eras amante da mulher diante de toda
a gente?...
In Capítulo IX

Contexto
A leitura da representação do amor na literatura
não se faz sem deixar na memória do leitor um rasto
de lugares:
– cafés onde se escrevem cartas de amor (Pedro);
– casas onde os apaixonados recatam a sua inti-
midade (Carlos e Maria Eduarda);
– salões de festas, em que se namora a mulher do
amigo (Ega).

Estes lugares são ficcionados a partir do real:


– o Marrare, que era um requintado café de
Lisboa fundado pelo napolitano António
Marrare. Ficava na rua Garrett e fora, preci-
samente, o ponto de encontro da geração de
Almeida Garrett;
– a «Toca», nos Olivais, que, no século xix, era
um lugar campestre mas próximo da grande
cidade e, assim, muito apetecível para os deva-
neios da fidalguia lisboeta;
– os salões da alta burguesia, onde, para além
das festas que os animavam, como, por exem-
plo, os bailes de máscaras, muitos encontros e
desencontros amorosos aconteciam.

Relacionação com outros textos


O par amoroso, elemento central da intriga roma-
nesca, é talvez o tópico mais frequente no romance.
Assim, tomemo-lo como ponto de partida para
relembrar outros pares de outros textos da literatura
portuguesa:
– Pedro e Inês (Os Lusíadas);
– Simão e Teresa (Amor de Perdição);
– Madalena e Manuel (Frei Luís de Sousa).

45
Educação literária – as questões
1. Os Maias são um romance, ou seja, uma
narrativa complexa em todas as suas dimensões,
incluindo a da intriga amorosa, que, de facto, se
diversifica em várias intrigas amorosas.
Estas envolvem épocas e protagonistas diferentes,
com consequências na forma de representar o senti-
mento e a paixão.
1.1 A partir da leitura dos três textos acima e
lembrando a leitura integral do romance, escreva
um texto expositivo em que desenvolva o seguinte
tópico:
– A pluralidade de intrigas amorosas n’Os Maias,
desde o destino fatal de Pedro à maneira do herói
romântico, passando pela vivência de pendor mais
materialista e realista do amor entre Carlos e Maria
Eduarda e pela caricatura do adultério reinante, a
que Ega não escapa.

Educação literária – as respostas


1.1 Uma das linhas de desenvolvimento da com-
plexa intriga d’Os Maias diz respeito à paixão amo-
rosa. Tanto Pedro como Carlos polarizam em si o
papel de homens apaixonados por belas mulheres.
Todavia, os modos como os seus amores são lite-
rariamente representados não coincidem entre si.
Este facto deve-se ao espírito e ideais diferentes que
reinam na época de cada um deles.
Pedro vive o seu amor por Maria Monforte como
um absoluto que dá sentido à sua vida, como era pró-
prio do Romantismo. Arrebatadamente, escreve-lhe
cartas. O seu amor por ela muda-lhe a vida. Dá-lhe
a força suficiente para enfrentar Afonso e desprezar
os seus valores morais. De tal modo a paixão é para
ele (um romântico) um ideal de vida, que, perante a
traição, não resiste e suicida-se.
Carlos, pelo contrário, é a aposta de Afonso con-
tra os malefícios do romantismo exacerbado que lhe
matou o filho. Imbuído de uma visão realista e de

46
um sentido de progresso que não quer perder a luci-
dez analítica dos problemas, no entanto, Carlos, ser
humano, não resiste a apaixonar-se.
Vive essa paixão como uma componente da
felicidade e do prazer que a vida lhe deve. Tenta
resolver de modo sereno e racional os pequenos
obstáculos que vão surgindo – situação conjugal de
Maria Eduarda; opinião do avô – mas acaba der-
rotado pela presença desse elo de parentesco que
vem da vivência dramática do amor nos românticos
tempos de Pedro. No entanto e apesar da gravidade
trágica do desenlace, resiste com bastante frieza e
realismo à tragédia que o atinge.
Contemporâneo de Carlos, Ega, sendo uma per-
sonagem objeto de um desenho caricatural, é, no
amor, mais um representante do adultério reinante.



47
características trágicas
dos protagonistas
Afonso da Maia
 Texto 
O velho cerrara os olhos, como se desfalecesse,
estendendo a mão para se apoiar. Ega correu para
ele:
– Não se aflija, Sr. Afonso da Maia!
– Que queres então que faça? Onde está ele? Lá
metido, com essa mulher... Escusas de dizer, eu sei,
mandei espreitar... Desci a isso, mas quis acabar esta
angústia... E esteve lá ontem até de manhã, está lá
a dormir neste instante... E foi para este horror que
Deus me deixou viver até agora!
Teve um grande gesto de revolta e de dor. De
novo os seus passos, mais pesados, mais lentos, se
sumiram no corredor. Ega ficou junto da porta, um
momento estarrecido. Depois foi-se despindo deva-
gar, decidido a dizer a Carlos, muito simplesmente,
ao outro dia, antes de partir para Celorico, que a sua
infâmia estava matando o avô, e o forçava a ele, seu
melhor amigo, a fugir para a não testemunhar por
mais tempo.
In Capítulo XVII

Carlos da Maia
 Texto 
Subitamente Carlos parou diante dele, apertando
desesperadamente as mãos:
– Estarem duas criaturas em pleno céu, passar
um quidam, um idiota, um Guimarães, dizer duas
palavras, entregar uns papéis e quebrar para sempre
duas existências!... Olha que isto é horrível, Ega!
Ega arriscou uma consolação banal:
– Era pior se ela morresse...
– Pior porquê? – exclamou Carlos. – Se ela mor-
resse, ou eu, acabava o motivo desta paixão, restava

48
a dor e a saudade, era outra coisa... Assim estamos
vivos, mas mortos um para o outro, e viva a pai-
xão que nos unia!... Pois tu imaginas que por me
virem provar que ela é minha irmã, eu gosto menos
dela do que gostava ontem, ou gosto de um modo
diferente? Está claro que não! O meu amor não se
vai de uma hora para a outra acomodar a novas cir-
cunstâncias, e transformar-se em amizade... Nunca!
Nem eu quero!
Era uma brutal revolta – o seu amor defendendo-
-se, não querendo morrer, só porque as revelações
de um Guimarães e uma caixa de charutos cheia de
papéis velhos o declaravam impossível, e lhe orde-
navam que morresse!
In Capítulo XVII

Maria Eduarda
 Texto 
Duas lágrimas corriam-lhe devagar pela face.
E diante desta dor, tão humilde e tão muda, Ega
ficou desconcertado. Durante um instante, com
os dedos trémulos no bigode, viu Maria chorar
em silêncio. Por fim ergueu-se, foi à janela, voltou,
abriu os braços diante dela numa aflição:
– Não, não é isso, minha querida senhora! Há
outra coisa, há ainda outra coisa! Têm sido para nós
dias terríveis! Têm sido dias de angústia...
Outra coisa!?... Ela esperava, com os olhos largos
sobre o Ega, a alma toda suspensa.
Ega respirou fortemente:
– Vossa Excelência lembra-se de um Guimarães,
que vive em Paris, um tio do Dâmaso?
Maria, espantada, moveu lentamente a cabeça.
– Esse Guimarães era muito conhecido da mãe
de Vossa Excelência, não é verdade?
Ela teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas
o pobre Ega hesitava ainda, com a face arrepanhada
e branca, num embaraço que o dilacerava:

49
– Eu falo em tudo isto, minha senhora, porque
Carlos assim me pediu... Deus sabe o que me custa!...
E é horrível, nem sei por onde hei de começar...
Ela juntou as mãos, numa súplica, numa angús-
tia:
– Pelo amor de Deus!
E nesse instante, muito sossegadamente, Rosa
erguia uma ponta do reposteiro, com Niniche ao
lado e a sua boneca nos braços. A mãe teve um grito
impaciente:
– Vai lá para dentro! Deixa-me!
Assustada, a pequena não se moveu mais, com os
lindos olhos de repente cheios de água. O reposteiro
caiu, do fundo do corredor veio um grande choro
magoado.
Então Ega teve um só desejo, o desesperado
desejo de findar.
– Vossa Excelência conhece a letra de sua mãe,
não é verdade?... Pois bem! Eu trago aqui uma
declaração dela a seu respeito... Esse Guimarães é
que tinha este documento, com outros papéis que
ela lhe entregou em 71, nas vésperas da guerra...
Ele conservou-os até agora, e queria restituir-lhos,
mas não sabia onde Vossa Excelência vivia. Viu-a há
dias numa carruagem, comigo e com o Carlos... Foi
ao pé do Aterro, Vossa Excelência deve lembrar-se,
defronte do alfaiate, quando vínhamos da Toca...
Pois bem! O Guimarães veio imediatamente ao
procurador dos Maias, deu-lhe esses papéis, para
que os entregasse a Vossa Excelência... E nas pri-
meiras palavras que disse, imagine o assombro de
todos, quando se entreviu que Vossa Excelência era
parenta de Carlos, e parenta muito chegada.
Atabalhoara esta história de pé, quase de um
fôlego, com bruscos gestos de nervoso. Ela mal com-
preendia, lívida, num indefinido terror. Só pôde
murmurar muito debilmente: «Mas...» E de novo
emudeceu, assombrada, devorando os movimentos
do Ega, que, debruçado sobre o sofá, desembru-
lhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por
fim voltou para ela com um papel na mão, atrope-
lando as palavras numa debandada:

50
– A mãe de Vossa Excelência nunca lho disse...
Havia um motivo muito grave... Ela tinha fugido
de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim bru-
talmente, perdoe-me Vossa Excelência, mas não é
o momento de atenuar as coisas... Aqui está! Vossa
Excelência conhece a letra de sua mãe. É dela esta
letra, não é verdade?
– É! – exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
– Perdão! – gritou Ega, retirando-lho violenta-
mente. – Eu sou um estranho! E Vossa Excelência
não se pode inteirar de tudo isto enquanto eu não
sair daqui.
In Capítulo XVII

Relacionação com outros textos


Em plena tragédia motivada pela descoberta de
que Maria Eduarda é sua irmã, Carlos é colocado,
por Ega, perante a hipótese ainda mais grave da
morte: « – Era pior se ela morresse...». Porém, Car-
los, personagem pertencente a um contexto positi-
vista e realista, sacode de si os hipotéticos desfechos
fatalistas de Ega, tentando analisar a situação com
alguma frieza. Esta observação leva-nos a estabe-
lecer um paralelo, em termos de desfechos, entre
Os Maias e Amor de Perdição, verificando existir
uma oposição total. Na novela de Camilo Castelo
Branco, a morte é, para os protagonistas, a única
solução.
Este diálogo em que Maria Eduarda vai, progres-
sivamente, compreendendo o sentido das palavras
de Ega, evoca as cenas do final do segundo ato, de
Frei Luís de Sousa, em que Madalena, a partir das
palavras do Romeiro, descobre, aos poucos, que
D. João de Portugal está vivo. Ambas as situações
se desenvolvem em crescendo e acabam em clima
trágico.

51
Educação literária – as questões
1. Os Maias são um romance, cujos protagonistas
são atingidos pela tragédia.
1.1 A partir da leitura dos três textos acima e
recordando a leitura integral do romance, escreva
um texto expositivo em que desenvolva o seguinte
tópico:
– Características trágicas presentes nas persona-
gens de Afonso da Maia, Carlos da Maia e Maria
Eduarda.

Educação literária – as respostas


1.1
O carácter trágico de Afonso da Maia revela-se
sobretudo no seu desfecho enquanto personagem.
É, nesse desfecho, que verdadeiramente se com-
preende a sua condição de vítima de um destino trá-
gico que o atinge fatalmente provocando-lhe a morte.
Sendo o seu perfil composto de suprema digni-
dade e até alguma solenidade, como acontece com
as grandes personagens-padrão da tragédia antiga,
a resposta que dá à catástrofe que sobre ele se abate
não poderia nunca ser a de adaptação ou cinismo.
O seu alto nível moral não pode conviver com a
grave transgressão do neto e, daí, só lhe resta morrer
silenciosa e dignamente. Naquele mundo, não há
lugar para ele: é este o sinal do seu carácter trágico.
Carlos da Maia é vítima de um destino que o
leva a cometer um crime, de que, até certo ponto, se
mantém inocente.
Todavia, depois do reconhecimento de Maria
Eduarda como sua irmã, continua a desafiar os dita-
mes morais.
É uma personagem que não vive a tragédia com
intensidade semelhante à de Afonso, mas de um modo
relativizado pelos costumes burgueses e realistas.
Não se pune, não se entrega a um castigo como
muitas vezes faziam as personagens trágicas, mas
tenta até autodesculpar-se.

52
Torna-se cínico, cético, afetivamente indiferente.
Não deixa, porém, antes do desfecho, de passar pelo
chamado dilema trágico, sofrendo interiormente a
angústia da escolha de um dos dois caminhos que se
lhe apresentam e respetivas consequências.
Maria Eduarda é a vítima mais frágil: inocente
do seu destino e do seu crime até ao fim, sofre digna
e tragicamente a catástrofe que sobre ela se abate.
Para ela, tal catástrofe, que só em Afonso da Maia
reveste a radicalidade da morte, concretiza-se na dor
do afastamento e da impossibilidade do amor.
Este carácter trágico, que marca os protagonistas
d’Os Maias, está presente desde o início da intriga,
através de indícios que nela vão sendo subtilmente
semeados como um destino escondido que os
ameaça:
– as parecenças fisionómicas;
– a superstição fatal atribuída às paredes do
Ramalhete;
– a dúvida, ainda que mínima, que possa per-
sistir sobre o rumo da vida da filha de Pedro e
Maria Monforte.

Todavia, é de modo imprevisto que a mão do


destino vingador (ironicamente através do senhor
Guimarães, o tio do Dâmaso) vem fazer o gesto
revelador e sem outra saída que não seja a da catás-
trofe concretizada na morte ou no abandono e
esquecimento.


53
a descrição do real e o papel
das sensações

 Texto 
Agora começava a divertir-se. Apenas vira de
relance Vladimiro, e gostara da cabeça ligeira do
potro, do seu peito largo e fundo; mas apostava
sobre tudo para animar mais aquele recanto da tri-
buna, ver brilhar gulosamente os olhos interesseiros
das mulheres. Teles da Gama ao lado aprovava-o,
achava aquilo patriótico e chic.
– É «Minhoto»! – gritou de repente Taveira.
Na volta, com efeito, fizera-se uma mudança.
Subitamente «Rabino» perdera terreno, resistindo à
subida, com o fôlego curto. E agora era «Minhoto»,
o cavalicoque obscuro de Manuel Godinho, que se
arremessava para a frente, vinha devorando a pista,
num esforço contínuo, admiravelmente montado
por um jóquei espanhol. E logo atrás vinham as
cores escarlates e brancas de Darque: ao princípio
ainda pareceu que era «Rabino»: mas, apanhado de
repente num raio oblíquo de sol, o cavalo cobriu-se
de tons lustrosos de baio claro, e foi uma surpresa
ao reconhecer-se que era «Vladimiro»! A corrida
travava-se entre ele e «Minhoto».
Os amigos de Godinho, precipitando-se para a
pista, bradavam, de chapéus no ar:
– «Minhoto»! «Minhoto»!
E, em redor de Carlos, os que tinham apostado
pelo campo contra «Vladimiro» faziam também
votos por «Minhoto», em bicos de pés, junto do
parapeito da tribuna, estendendo o braço para ele,
animando-o:
- Anda, «Minhoto»!... Isso, assim!.... Aguenta,
rapaz!... Bravo!... «Minhoto»! «Minhoto»!
A russa, toda nervosa, na esperança de ganhar
a poule, batia as palmas. Até a enorme Craben se
erguera, dominando a tribuna, enchendo-a com
os seus gorgorões azuis e brancos: – enquanto que,
ao lado dela, o conde de Gouvarinho, também de
pé, sorria, contente no seu peito de patriota, vendo

54
naqueles jóqueis à desfilada, nos chapéus que se agi-
tavam, brilhar civilização...
De repente, de baixo, d’ao pé da tribuna, de
entre os rapazes que cercavam o Darque, uma excla-
mação partiu.
– «Vladimiro»! «Vladimiro»!
Com um arranque desesperado o potro viera
juntar-se a «Minhoto»: e agora chegavam furiosa-
mente, com brilhos vivos de cores claras, os foci-
nhos juntos, os olhos esbugalhados, sob uma chuva
de vergastadas.
Teles da Gama, esquecido da sua aposta, todo
pelo Darque, seu íntimo, berrava por «Vladimiro».
A russa, de pé num degrau, apoiada sobre o ombro
de Carlos, pálida, excitada, animava «Minhoto»
com gritinhos, com pancadas de leque. A agitação
daquele canto da tribuna estendera-se em baixo ao
recinto – onde se via uma linha de homens, con-
tra a corda da pista, bracejando. Do outro lado, era
uma fila de rostos pálidos, fixos numa curta ansie-
dade. Algumas senhoras tinham-se posto de pé nas
carruagens. E através da colina para ver a chegada,
dois cavalheiros, segurando com as mãos os chapéus
baixos, corriam à desfilada.
– «Vladimiro»! «Vladimiro»! foram de novo os
gritos isolados, aqui, além.
Os dois cavalos aproximavam-se, com um som
surdo das patas, trazendo um ar de rajada.
– «Minhoto»! «Minhoto»!
– «Vladimiro»! «Vladimiro»!
Chegavam... De repente o jóquei inglês de «Vla-
dimiro» todo em fogo, levantando o potro que lhe
parecia fugir de entre as pernas, esticado e lustroso,
fez silvar triunfantemente o chicote, e de um arre-
messo direto lançou-o além da meta, duas cabeças
adiante de «Minhoto», todo coberto de espuma.
Então em volta de Carlos foi uma desconsolação,
um longo murmúrio de lassidão. Todos perdiam;
ele apanhava a poule, ganhava as apostas, empolgava
tudo. Que sorte! Que chance! Um adido italiano,
tesoureiro da poule, empalideceu ao separar-se do
lenço cheio de prata: e de todos os lados mãozinhas

55
calçadas de gris-perle, ou de castanho, atiravam-lhe
com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de
placas que ele recolhia, rindo, no chapéu.
– Ah, monsieur – exclamou a vasta ministra da
Baviera, furiosa – mefiez-vous... Vous connaissez le
proverbe: heureux au jeu...
– Helas! madame! – disse Carlos, resignado,
estendendo-lhe o chapéu.
E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braço.
Era o secretário de Steinbroken, lento e silencioso,
que lhe trazia o seu dinheiro e o dinheiro do seu
chefe, a aposta do reino da Finlândia.
In Capítulo X

Contexto
«No Bom Sucesso, nas traseiras da atual rua Bar-
tolomeu Dias, com entrada pela travessa dos Peões,
existiu durante décadas o Hipódromo de Belém. As
corridas de cavalos não possuem hoje, em Lisboa, o
cariz de encontro elegante que ainda têm em Paris
(Longchamps) ou Londres (Ascot). No entanto,
chegaram a ser um dos locais mais bem frequenta-
dos da cidade, no tempo em que o hipódromo se
situava nesta extremidade ocidental de Lisboa.»
In A Lisboa de Eça de Queiroz, de Marina Tavares Dias

Relacionação com outros textos


Um poeta que, com outros meios, ‘pinta’, como
Eça, cenas citadinas e lisboetas, cheias de luz, cor e
movimento, é Cesário Verde:
[...]
Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!
Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

56
E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua traîne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus meclemburgueses.

Desdobram-se tecidos estrangeiros;


Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós de arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.
[...]
In «O Sentimento dum Ocidental»

Educação literária – as questões


1. Neste texto, é narrado um dos momentos do
episódio das corridas de cavalos: o despique final
entre os cavalos «Minhoto» e «Vladimiro».
1.1 Segundo o ritmo de desenvolvimento da
ação, divida o texto em três partes.
2. Faça o levantamento de palavras e expressões
que contribuem para as sensações de rapidez do
movimento no tempo e no espaço.

Educação literária – as respostas


1. Este texto estrutura-se em função dos acon-
tecimentos que narra. Apresenta um ritmo que vai
aumentando de intensidade até à vitória de «Vla-
dimiro», vindo, depois, a esmorecer. O seu eixo
principal é a corrida, a deslocação dos cavalos na
pista. Assim, o texto é claramente divisível em três
partes:

Introdução – primeiro parágrafo.


A corrida – desde «– É «Minhoto»!» até «...todo
coberto de espuma».
Conclusão – desde «Então em volta de Carlos...»
até ao fim.

57
Na primeira parte, Carlos da Maia é o principal
polo de atenção, em contraponto com os restantes
espetadores das corridas.
Na segunda parte, o elemento principal é a cor-
rida, o movimento no tempo e no espaço.
Na terceira parte, o tema é o triunfo de Carlos,
mais uma vez em contraponto com os restantes, que
perdem.
2. Palavras e expressões que contribuem para as
sensações de rapidez do movimento:
– no tempo: agora; ao princípio; de repente
(quatro vezes); subitamente;
– no espaço: de relance; na volta; para a frente;
logo atrás; precipitando-se; à desfilada (duas
vezes); aqui, além.


58
a descrição do real e o papel
das sensações
linguagem, estilo e recursos
expressivos

 Textos 
A
– Agora, Cruges, filho, repara tu naquela tela
sublime.
O maestro embasbacou. No vão do arco, como
dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava,
à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma
composição quase fantástica, como a ilustração de
uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no pri-
meiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo
salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque
cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos,
fazendo ao longo da grade uma muralha de folha-
gem reluzente; e emergindo abruptamente dessa
copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno
resplendor do dia, destacando vigorosamente num
relevo nítido sobre o fundo do céu azul-claro, o
cume airoso da serra, toda cor de violeta-escura,
coroada pelo Palácio da Pena, romântico e solitário
no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre
esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao Sol
como se fossem feitas de ouro...
In Capítulo VIII

Contexto
A «tela», que Eça aqui «pinta» com palavras, é a
recriação literária de uma paisagem realmente exis-
tente. Trata-se da vista do Palácio da Pena através do
vão do arco do Palácio de Seteais, em Sintra.

Relacionação com outros textos


A descrição de paisagens, com mais ou menos
variações, é uma presença constante nas narrativas

59
literárias. Vejamos um outro exemplo retirado de
Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett:

«O vale de Santarém é um destes lugares privile-


giados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em
que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa har-
monia suavíssima e perfeita: não há ali nada gran-
dioso nem sublime, mas há uma como simetria de
cores, de tons, de disposição em tudo quanto se vê
e se sente, que não parece senão que a paz, a saúde,
o sossego do espírito e o repouso do coração devem
viver ali, reinar ali um reinado de amor e benevo-
lência.»

Educação literária – as questões


1. Eça de Queirós é um grande estilista, um
esteta. O seu sentido do belo e o seu génio literário
revelam-se na composição de descrições de paisa-
gem capazes de nos fazer fruir todas as sensações,
como se estivéssemos nesses lugares.
1.1 Faça o levantamento dos seguintes recursos
expressivos que permitem e fundamentam as afir-
mações anteriores:
– comparação;
– metáfora;
– uso expressivo do adjetivo;
– uso expressivo do advérbio.

Educação literária – as respostas


1.1 Levantamento de recursos expressivos:
comparação – «como dentro de uma pesada
moldura de pedra»; «como a ilustração de uma bela
lenda de cavalaria»; «como se fossem feitas de ouro»;
metáfora – «uma muralha de folhagem relu-
zente»;
uso expressivo do adjetivo – «luz rica»; «quadro
maravilhoso»; «composição quase fantástica»; «todo
salpicado de botões amarelos»; «renque cerrado de

60
antigas árvores»; «fundo do céu azul-claro, o cume
airoso da serra, toda cor de violeta-escura»; «parque
sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar»;
uso expressivo do advérbio – «emergindo abrup-
tamente dessa copada linha»; «destacando vigorosa-
mente num relevo nítido».


B
Agora, uma estreita tira de água e monte que se
avistava entre dois prédios de cinco andares, sepa-
rados por um corte de rua, formava toda a paisa-
gem defronte do Ramalhete. E, todavia, Afonso
terminou por lhe descobrir um encanto íntimo. Era
como uma tela marinha, encaixilhada em cantarias
brancas, suspensa do céu azul em face do terraço,
mostrando, nas variedades infinitas de cor e luz, os
episódios fugitivos de uma pacata vida de rio: às
vezes uma vela de barco da Trafaria fugindo airo-
samente à bolina; outras vezes uma galera toda em
pano, entrando num favor da aragem, vagarosa, no
vermelho da tarde; ou então a melancolia de um
grande paquete, descendo, fechado e preparado para
a vaga, entrevisto um momento, desaparecendo
logo, como já devorado pelo mar incerto; ou ainda
durante dias, no pó de ouro das sestas silenciosas,
o vulto negro de um couraçado inglês... E sempre
ao fundo o pedaço de monte verde-negro, com um
moinho parado no alto, e duas casas brancas ao
rés da água, cheias de expressão – ora faiscantes e
despedindo raios das vidraças acesas em brasa; ora
tomando aos fins de tarde um ar pensativo, cobertas
dos rosados tenros do poente, quase semelhantes a
um rubor humano; e de uma tristeza arrepiada nos
dias de chuva, tão sós, tão brancas, como nuas, sob
o tempo agreste.
In Capítulo I

61
Contexto
O espaço, n’Os Maias é composto por descrições
fotográficas: lê-las é reconhecer e fruir literaria-
mente o real. Esta descrição da vista do Ramalhete
sobre o rio Tejo e a outra banda corresponde àquilo
que olhos humanos poderão ver a partir desse ponto
da cidade.

Relacionação com outros textos


Neste caso, o rio Tejo com seus barcos é contem-
plado num estado de espírito de fruição e prazer.
Todavia, noutro romance, Amor de Perdição, outro
rio, o Douro, com outros barcos, é contemplado
num estado de espírito antagónico, correspondente
à tragédia dos seus protagonistas:
«Às nove horas da manhã pediu a Constança
que a acompanhasse ao mirante e, sentando-se em
ânsias mortais, nunca mais desfitou os olhos da nau,
que já estava verga alta, esperando a leva dos degre-
dados. [...] Ouviu-se a voz de levar âncora e largar
amarras. Simão encostou-se à amurada da nau, com
os olhos fitos no mirante.»

Educação literária – as questões


1. Mais um texto em que Eça de Queirós «pinta»
literariamente uma «tela», neste caso do rio Tejo.
1.1 Faça o levantamento dos seguintes recursos
expressivos que contribuem para a recriação literária
desta vista do Tejo:
– comparação;
– metáfora;
– uso expressivo do adjetivo;
– uso expressivo do advérbio;
– personificação;
– sinestesia.

62
Educação literária – as respostas
1.1 Levantamento de recursos expressivos:
comparação – «como uma tela marinha, encai-
xilhada em cantarias brancas»; «como já devorado
pelo mar incerto»; «tão sós, tão brancas, como
nuas»;
metáfora – «estreita tira de água»; «suspensa do
céu azul»; «no pó de ouro das sestas silenciosas»;
uso expressivo do adjetivo – «episódios fugiti-
vos»; «o vulto negro»; «monte verde-negro»; «das
vidraças acesas em brasa»;
uso expressivo do advérbio – «fugindo airosa-
mente»;
personificação – «a melancolia de um grande
paquete»; «duas casas brancas ao rés da água, cheias
de expressão»; «tomando aos fins de tarde um ar
pensativo»; «semelhantes a um rubor humano»; «de
uma tristeza arrepiada nos dias de chuva»;
sinestesia – «rosados tenros do poente»; «tristeza
arrepiada».


63
4
Ler
OS CLÁSSICOS
Hoje
Volumes publicados:
1 . Luís de camões – poesia lírica e épica
2 . Poesia trovadoresca
3 . amor de perdição – Camilo castelo branco
4 . OS MAIAS – EÇA DE QUEIRÓS
5 . FREI LUÍS DE SOUSA – ALMEIDA GARRETT

ISBN 978-972-47-5404-8

9 789724 754048
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