Você está na página 1de 14

13º ENCONTRO NACIONAL DE PRESBÍTEROS

03 a 09 de fevereiro de 2010, Itaici, Indaiatuba ‐ SP 
ENPs, 25 anos celebrando e fortalecendo a comunhão presbiteral 
“Eu me consagro por eles” (Jo 17,19a)

Prot. 02/2010
13º ENP

UMA IGREJA EM MUDANÇA DE ÉPOCA


Pontos relevantes para a compreensão da Igreja na segunda década do século XXI
Pe. Joel Portella Amado

1. VALORES E LIMITES DESTA ANÁLISE DE CONJUNTURA ECLESIAL


Análises de conjuntura são tentativas de se compreender o aqui e o agora e,
mais do que isso, compreendermo-nos dentro deste aqui e agora. Para a ação
evangelizadora, as compreensões do momento histórico são indispensáveis, pois não
se pode imaginar a Igreja desconectada de sua missão, de sua presença sacramental
no mundo, como sinal e instrumento do Reino de Deus (DA 367). Evangelizar
implica olhar a Igreja, olhar o mundo e olhar a Igreja no mundo. A própria expressão
conjuntura aponta para o aspecto histórico, ou seja, o contexto no qual a Igreja se faz
presente no atual momento da história do mundo e do país.
O grande problema que enfrentamos está no fato de que todo olhar histórico é
sempre um olhar limitado, ainda mais quando se dirige ao momento presente. Em
virtude do pouco distanciamento histórico dos fatos, o grau de objetividade se reduz.
São sempre leituras a partir de específicos lugares históricos, eclesiais e teológicos.
Por isso, não tenho a pretensão de fugir destes risco, pois seria ilusório pretender
absoluta neutralidade. Creio que, o mais importante, numa compreensão da
conjuntura, seja identificar, de início, a partir de que ponto de vista se olha a
realidade. No nosso caso, o ponto de vista a ser adotado é aquele que nos reúne neste
encontro: o ponto de vista dos presbíteros. Feita esta opção, por certo alguns aspectos
receberão destaque maior e outros serão deixados de lado. Os aspectos aqui
destacados podem ser resumidos em algumas questões centrais:
1) Como entender o atual momento histórico? Há algum critério capaz de
abranger a complexidade da vida em nossos dias?
2) Em que sentido o atual momento histórico afeta a Igreja, na
compreensão que ela tem de si mesma, na ação que desenvolve, bem
como na identidade e na missão dos presbíteros?
3) Qual o rosto da Igreja para a nova década que se inicia?
4) Que aspectos deve o presbítero ter em contínua referência para que sua
ação evangelizadora se desenvolva com maior presteza e fidelidade, ao
mesmo tempo, ao atual momento histórico e à integridade da Boa
Nova?
Chamo, por fim, a atenção para o fato de que uma leitura teórica da realidade
é sempre marcada por afirmações muito agudas. A realidade é mais matizada do que
as descrições que dela se fazem.

2. UMA IGREJA DENTRO DE UMA MUDANÇA DE ÉPOCA


Uma das principais referências para qualquer compreensão da Igreja no
mundo hoje é, sem dúvida, a categoria mudança de época. Muito se tem falado a
respeito dela como instrumento para a compreensão do atual momento histórico em
geral. Diversos podem ser os enfoques, mas unânime é o fato de que estamos
passando por uma dessas etapas na história da humanidade. Tamanho é o impacto
destas mudanças de época que, mesmo o tema já tendo sido abordado várias vezes,
em artigos 1, palestras, encontros, nem por isso, conseguimos esgotar todo o seu
alcance.
Uma explicação muito simples e clara do que seja uma mudança de época
encontra-se nas atuais Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora (DGAE 13). Elas
falam que estamos não numa época de mudanças, mas numa mudança de época. Enquanto,
nas épocas de mudança, transformam-se as realidades circundantes, mas os critérios
de julgar permanecem inalterados, nas mudanças de época também os critérios de
julgar são atingidos. É por isso que crescem questionamentos do tipo: O que é certo?
Será mesmo que estou errado(a) ao agir deste modo? O que é pecado hoje em dia? A
perplexidade e a oscilação em relação aos critérios são marcas próprias das
mudanças de época 2.
Isso acontece porque mudanças de época são períodos históricos bem
específicos, onde as respostas que, até então, eram úteis, tranqüilas, já não servem
mais. Surgiram novas questões. São, por isso, períodos desestruturadores. Causam
perda do chão, crise nas referências, nas certezas e nas identidades. Por sua
abrangência e radicalidade, as mudanças de época não deixam coisa alguma
incólume. Também a Igreja se sente afetada. Para a transmissão da Boa-Nova, a
Igreja mergulha nas culturas, estabelecendo com elas uma atitude de diálogo, às
vezes mais intenso, às vezes menos, porém inevitável diálogo. Sem as culturas, a Boa
Nova não se transmite. Ora, se o mundo passa por uma mudança de época, que é
global, universal, atingindo, ainda que em níveis distintos de afetação, as mais

1 Nos sites de busca, só em português, aparecem mais de quatro milhões de links relacionados ao tema.
2 O próprio fato de alguns se perguntarem: como ser padre hoje? Qual o caminho? Qual minha identidade?
diversas culturas, os mais variados âmbitos, como imaginar que a Igreja permaneça
fora deste contexto?

3. CARACTERÍSTICAS DA ATUAL MUDANÇA DE ÉPOCA


Estamos vivendo um período histórico que deita suas raízes na modernidade,
mas que, de algum modo, ainda não muito claro e discutido pelos estudiosos,
ultrapassa o que tínhamos de modernidade. Alguns utilizam o termo mais
corriqueiro pós-modernidade (Lyotard, Baumann). Outros dizem modernidade tardia
(Giddens). Outros, terceira modernidade (Gesché) 3. O fato é que cada uma destas
expressões manifesta uma faceta de um fenômeno abrangente, global, universal, a
que ninguém está isento.
Como toda mudança de época, a atual também recompõe a hierarquia dos
principais elementos que constituem e interpretam a vida. Alguns aspectos, que,
antes, estavam nos primeiros lugares, passam para segundo ou até mesmo último
plano. Em caminho inverso, aspectos antes relegados a patamares inferiores, são
erguidos até mesmo ao centro da cena. No caso da pós-modernidade, sabemos que a
recomposição dos aspectos gira em torno do papel que se atribui ao sujeito individual,
como base para um novo pensar, sentir e agir. É, pois, este pressuposto cultural que
hoje atinge patamares agudos, tornando-se o núcleo de uma nova cultura emergente.
Com isso, experimentamos a desvalorização do outro lado da moeda: o tradicional e
o institucional, a memória histórica, a pertença e a perenidade. Mais do que aderir,
acolher ou se submeter, o sujeito da modernidade e da pós-modernidade tende a
escolher, tomando a si mesmo como parâmetro de julgamento para tudo que o cerca.
Trata-se da desconstrução das formas tradicionais de se viver a totalidade da vida e,
nela, a dimensão religiosa. Este fato atinge as formas tradicionais de ser cristão, de
configurar a comunidade e as relações de pertença. Desaparece o mundo construído
sob a tutela da dimensão religiosa. Desaparece a concepção de religião única ou
hegemônica. Desaparece até mesmo a concepção de que é lógico ter uma religião
única ou definitiva, que é lógico pertencer a uma única instituição ou comunidade.
Emerge, portanto, um mundo construído sobre a tutela do imanente e do imediato,
com grande pluralidade de ofertas culturais, morais e religiosas, onde a lógica
consiste em pinçar aspectos parciais e construir, cada um, seu próprio conjunto de

3 Ver, por exemplo, LYOTARD, Jean François, A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança
cultural. 5ª. ed. Rio de Janeiro: José Olympio 1998; BAUMANN, Z. Tempos Líquidos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007;
IDEM, A era do vazio, São Paulo, Manole, 2005; LIPOVETSKY, G. A felicidade paradoxal. Ensaio sobre a sociedade de
hiperconsumo, São Paulo, Companhia das Letras 2007; GESCHÉ, A., O mal, São Paulo: Paulinas, 2003, p. 38.
valores e normas. Esta mudança, nunca é demais repetir, atinge de cheio o
cristianismo e, nele, o catolicismo 4.

4. A IGREJA EM MEIO À MUDANÇA DE ÉPOCA


Como, pois, compreender a presença e a missão da Igreja nesta mudança de
época? E mais: como compreender a missão do presbítero numa Igreja que, em
decorrência da Encarnação, precisa anunciar a Boa-Nova da Salvação também neste
momento? O caminho para esta resposta, penso, está no encontro do ponto central da
modernidade com o ponto central de nossa Fé. Está na capacidade de anunciarmos a
possibilidade de positiva relação entre o sujeito individual e o Deus-Amor manifestado
em e por Jesus Cristo. A modernidade valorizou a subjetividade, a individualidade,
fazendo contraponto com épocas anteriores em que esta mesma individualidade não
era tão valorizada. O problema reside sempre na reação pendular.
A valorização do sujeito individualmente concebido, sem a referência aos
outros e ao Outro Radical tem como conseqüência uma leitura da vida em chave de si
mesmo. Esta leitura, se não gera diretamente, pelo menos facilita a não consideração,
em grau suficiente, do próximo como condição positiva e indispensável do existir de
cada um. A modernidade, em seus primórdios, valorizou o EU. Tal valorização se
exacerbou de tal modo que o EU tende a prescindir de tudo e de todos que se
encontram além de si mesmo, além de seus projetos 5. Esta perspectiva abrange todos
os setores da vida humana. Vai desde a mãe, que, defendendo a morte do nascituro,
afirma que a mulher tem direito a seu corpo, esquecendo-se de que ali não está uma
parte dela mesma, mas um outro ser, que lhe foi dado gerar e cuidar. Atinge as
matanças vergonhosas e humilhantes que praticamente todos os dias mancham de
sangue as periferias de nossas cidades e também o campo grilado. Atinge o planeta,
que se vê ameaçado de destruição por uma ganância que não sabe renunciar a seus
lucros, nem pensa no legado que estamos deixando ou não às gerações futuras.
Atinge, enfim, todos os setores da vida, que tendem a se voltar para si mesmos,
buscando a realização individual, em detrimento da co-realização, da co-
humanidade, da fraternidade e da solidariedade. Este ethos da individualidade
absoluta e fechada é uma das principais marcas da base cultural que vem emergindo
nas últimas décadas. A questão que a atual conjuntura nos coloca diz respeito ao
futuro deste ethos. Ele pode permanecer e se solidificar ou ser superado por algo
radicalmente novo, a ser construído na história.

4Cf. HERVIEU-LÉGER, D., Catholicisme. La fin d’um monde, Paris, Bayard, 2003, p. 275ss; TAYLOR, C., A secular age,
Cambridge/Massasussets/London, 2007, 505-535 ; DAVIE, G., Religión in Britain since 1945, Oxford, Bkackwell, 1994, p.
93-116
5Trata-se aqui, convém lembrar, do EU literalmente individual, mas também, lato sensu, do eu grupal. Nos dois casos, os
projetos de cada um, projetos localizados, específicos, como são todos os projetos, tendem a assumir caráter universal,
único.
Percebemos aqui e acolá o surgimento de tentativas de um novo ethos, que
seja capaz de conduzir a totalidade da vida a rumos diferentes dos que constatamos a
olhos nus 6. É exatamente nesta busca de um novo ethos que se manifesta a
responsabilidade histórica atual da Igreja. Já não se trata, por certo, de se retornar à
cristandade. O mundo se tornou plural e este fato é irreversível. O advento do sujeito
com a possibilidade de inúmeras escolhas é um ganho positivo (DGAE 20). Sua
exacerbação é o problema. Neste contexto, portanto, de valorização do sujeito e de
pluralidade de possibilidades, cabe à Igreja manifestar a Boa Nova do Reino de Deus,
anunciando o Deus do Reino, dizendo por atitudes e palavras que nossa Fé se
alicerça no Deus que é Uno e Trino, num Deus que, em si mesmo, é relação. Disso
não podemos abrir mão.

5. A ATUAL RESPONSABILIDADE MISSIONÁRIA DA IGREJA


Crer, portanto, no Deus Uno e Trino é crer na presença gratuita, fecunda,
positiva e libertadora do outro em nossa vida. É construir a vida a partir da alteridade
como condição para existir, para co-existir 7. Se, neste momento da história da
humanidade, a Igreja, em toda a sua extensão, não contribuir efetivamente para a
manifestação de um ethos de alteridade, terá falhado em sua missão de ser sal,
fermento e luz. Isso, por certo, não significa a obrigação de que este ethos seja aceito,
pois isso depende da liberdade de quem acolhe. Não é mais tempo de imposições em
nome de Deus. Significa, no entanto, a responsabilidade por apresentar, de modo
claro e significativo quem é, no atual mercado de deuses, o Deus em quem
acreditamos e sabemos ser o sentido único para a vida. Se não assumirmos esta
responsabilidade com a força que ela exige, não só estaremos incorrendo no
conhecido pecado da omissão, como também estaremos declarando para a história
que nossa Fé não é capaz nem mesmo de dar sentido à nossa própria existência de
cristãos católicos. Afinal, quem ama irradia. Quem tem uma causa transborda esta
mesma causa para que outros a ela venham se juntar.
É por isso que a Conferência de Aparecida nos impulsionou para a Missão
Continental. Longe de ser uma guerra santa, onde a caça de clientela se torna o mais
importante, a Missão Continental deve ser vista como o assumir desta
responsabilidade histórica, desta responsabilidade de transmitir às pessoas, aos
grupos, aos povos e às culturas, o ethos da alteridade e da gratuidade como
fundamentos últimos da existência. É neste sentido que devemos compreender a

6Há inúmeras tentativas, aqui e acolá, de valorização, por exemplo, da família, da vida em comunidade, dos laços humanos
sobrepondo-se à mentalidade do lucro a todo custo, da preservação ambiental e defesa do planeta. Estas tentativas se
manifestam não apenas em experiências concretas, mas também na sensibilização através de eventos, campanhas,
mensagens nos meios de comunicação, entrevistas de personalidades públicas, em especial do meio artístico etc.
7Percebe-se, deste modo, um dos motivos para que a primeira encíclica de Bento XVI, Deus Caritas Est, seja dedicada
exatamente ao tema do Amor-Agape. De modo especial, os nn. 12ss. Ver também Caritate in Veritate, nº 6.
expressão de Aparecida recomeçar a partir de Jesus Cristo (DA 12, 41 e 549) 8 . Não
podemos compreender esta expressão como busca desenfreada por um tempo que já
se foi, ou por uma clientela que outros estão levando embora. O recomeçar a partir
de Jesus Cristo tem inúmeras implicações. Para nós, importa observá-lo no nível
deste novo ethos que o mundo precisa encontrar.
De nossa parte, nesta atitude de contribuição para o novo ethos, importa
mostrar que Jesus Cristo não viveu fechado em si mesmo, mas, esvaziando-se, veio
ao encontro da humanidade. Importa mostrar que o Filho do Homem, no extremo da
kenosis e à diferença das aves do céu que têm seus ninhos e das raposas que têm suas
tocas, não tinha sequer onde reclinar a cabeça. Não vivia para si. Vivia para o Pai e
para os demais. Trata-se, portanto, de uma cristologia acentuadamente kenótica, uma
cristologia de esvaziamento, de saída de si (2 Cr 8,9; Fp 2,5ss ).
Algumas conseqüências precisam então ser tiradas. Elas dizem respeito ao
rosto da Igreja no atual momento da história, seja mundial, nestes tempos de
globalização, seja brasileira, que mais diretamente nos afeta. Estas conseqüências
chamam nossa atenção para a mudança de lugar sociocultural que a Igreja ocupa no
horizonte mundial e brasileiro. Dizem também respeito aos pontos que se tornam
prioritários na ação evangelizadora.

6. A TRANSMISSÃO DE NOSSA FÉ
Na medida em que conteúdo e método possuem viva articulação entre si, não
podemos pensar em caminho evangelizador, que não seja através do diálogo, da
inclusão e do relacionamento. À primeira vista, estes termos podem parecer
repetitivos, pois, afinal, nunca deixamos de falar sobre eles. Qualquer bom sermão, e
lá estamos nós a abordar estes aspectos. A novidade trazida pelo atual momento
histórico diz respeito ao fato de que, para um mundo plural, de tantas possibilidades
e escolhas, a base para as construções de vida não se dá pelo institucional nem pelo
tradicional. Ela se dá pelo relacionamento direto, pela imediatez dos resultados, pela
proximidade da eficácia.
Um dos exemplos mais interessantes é o que se liga ao mundo das religiões
em nossos dias. Temos religiões para todos os tipos e gostos. A maioria delas, porém,
ingressa neste mundo pós-moderno oferecendo sucesso pessoal, afetivo e
patrimonial. Não me consta que, nos últimos anos, alguma religião tenha alcançado
êxito pregando, por exemplo, vida eterna. Tampouco me consta que o mesmo
patamar seja alcançado através da condição de ser uma religião histórica, antiga,
tradicional ou institucional. O que consta para o atual momento histórico no qual a
Igreja se vê inserida é o caráter imediato da eficácia divina, do Deus – cada vez mais

8 Cf. JOÃO PAULO II, Millennio Ineunte, nn. 28-29


sem rosto e sem nome (o Senhor Deus?) – que age, produzindo prodígios, realizando
milagres, através de formas contratuais, que, no máximo, chegam às portas do
Antigo Testamento. Em nossos dias, prodígios, imediatez e personalização
constituem as grandes referências para a aceitação sociocultural de uma proposta
religiosa. Não temos mais a valorização de uma proposta religiosa em decorrência de
sua origem, sua história e sua tradição. O que temos é valorização do fulano que
realiza as expectativas do sujeito individual. No ambiente religioso, é aquele(a) que
faz milagres, que opera prodígios.
O atual momento histórico, à diferença da modernidade clássica, que pregava
o combate a Deus em nome da autonomia do sujeito, traz o divino para o centro da
cena. Não são poucos os estudos a respeito do retorno do sagrado. A novidade está
no fato que o sagrado não emerge agora nos mesmos moldes de antes, pois o
ambiente de aferição da eficácia do divino foi deslocado. Do eterno e mesmo do
histórico visto sob a ótica do compromisso sociotransformador, passou-se para o aqui
e o agora. Pouca gente corre atrás, hoje em dia, de pregação pela vida eterna nem por
mensagens que insistam muito em transformações sociais. Num mundo em que a
tecnologia aproximou as soluções e acelerou os ritmos do tempo, o que interessa,
também no âmbito das religiões, é a oferta de um caminho para a solução imediata
dos problemas. Trata-se, portanto, de uma religiosidade individualizada, pragmática,
terapêutica e intramundana.
Esta passagem da instituição para o indivíduo atinge muito diretamente os
presbíteros. Não temos mais a igreja tal, onde aquele indivíduo – padre, pastor,
ministro – atua. Surge agora a figura individual do taumaturgo, seja ele padre,
pastor, missionário ou qualquer outro título que a criatividade mercadológica possa
apresentar. O que importa destacar é isso: não mais a instituição, e sim a pessoa. Não
é mais a Igreja Santa, Católica, Apostólica, Romana que dá plausibilidade ao, no
nosso caso, presbítero, naquilo que ele faz. É, ao contrário, o presbítero que acaba
dando plausibilidade sociocultural à instituição. É por isso que ouvimos coisas do
tipo, “vou à igreja por causa do padre fulano; quando o padre fulano sair, saio
também”. Aqui não se trata de uma questão teológica, mas de plausibilidade
sociocultural. O teológico permanece.
Por certo, este deslocamento, como todos os fatos históricos, traz em si uma
carga de ambigüidade. Nele, há valores e perigos. Seu maior perigo consiste em
colocar nas costas dos indivíduos praticamente toda a validade sociocultural de uma
proposta de sentido para a existência. Quando isto acontece, acabamos por nos
esquecer de que os indivíduos são humanos e, conseqüentemente, frágeis. Em
tempos de maior valorização da instituição, quando um membro falha, logo se
justifica a continuidade da proposta, dizendo tratar-se de uma pessoa limitada
dentro de uma instituição santa e confiável. Em tempos de valorização da pessoa,
quando ocorrem escândalos, o caminho é a mídia. O ministro leva consigo a
instituição e, mais ainda, a mensagem que prega. O peso é, sem dúvida, muito
grande.
O ponto positivo é possibilidade de valorização do testemunho pessoal,
trazido então aos primeiros lugares. Nosso tempo ainda não aprendeu a valorizar o
testemunho como se desejaria. Algumas vezes, por sede de uma eficácia miraculosa,
intra-histórica e consumista, aceitam-se até mesmo ministros de ética questionável.
Este fato, contudo, não nos deve isentar do reconhecimento do testemunho como
uma das grandes possibilidades do nosso tempo. Não, por certo, o testemunho dos
prodígios e milagres de quem caiu nos tentáculos da chamada Teologia da
Prosperidade. A possibilidade é a do testemunho de uma vida kenótica, cujas
conseqüências são o sonho comum, a fraternidade, o despojamento e a solidariedade
9.

Neste sentido, sabemos que, desde os primórdios, a Igreja é testemunhal por


natureza. O anúncio do Reino de Deus e do Deus do Reino, na linha do que vimos
falando até aqui, passa necessária e primeiramente pelo testemunho 10. Se nós
desejamos e devemos anunciar um ethos de alteridade, gratuidade, acolhimento,
diálogo e comunhão, se desejamos um mundo que respeite o outro, que saiba
conviver com as diferenças, o primeiro passo é o testemunho de uma vida
organizada a partir destes valores. De fato, a questão maior de nosso tempo não é o
pluralismo, com sua diversidade de possibilidades. O problema é o que vamos fazer
com o pluralismo. O problema é a convivência dos diferentes.
Este é um problema que tem algumas soluções falaciosas. A primeira –
rejeitada com maior facilidade, pelo menos no discurso – é a solução do
fundamentalismo, do fechamento em torno de si mesmo, confundindo concretizações
históricas com a Fé, confundindo perspectivas localizadas com a totalidade da vida.
O fundamentalismo transforma o particular em universal. Para ele, portanto, não há
acolhimento nem diálogo.
A segunda solução falaciosa é a do pseudo irenismo, que tudo aceita sem nada
interpelar. Esta solução é falaciosa simplesmente porque a realidade que ela apregoa
não existe. Na verdade, quando se diz que todos devem conviver cada um na sua,
sem interpelação a partir das diferenças, acaba-se caindo nas armadilhas da
modernidade que prega os sujeitos individuais fechados em si mesmos, com
relacionamentos predominantemente tangenciais e utilitaristas, pois ocorrem apenas
quando necessários.

9 BENTO XVI, Frères dans le Christ. L’espirit de la fraternité chretienne, Paris: Cerf, 2005.
10 Cf. PAULO VI, Exortação Apostólica Evangellii Nuntiandi, 15
A terceira solução falaciosa é a da carreira solo, do fechamento em torno dos
projetos e das expectativas pessoais, em detrimento do caminhar comum. Embora eu
esteja utilizando a imagem muito própria do ambiente musical, esta realidade se
aplica a todas as dimensões da vida. Basta olhar o que acontece com muitos casais,
quando um dos dois rompe a relação, afirmando que, de agora em diante, vai olhar
mais para si, buscando a felicidade. Não se trata – repito – de negação do direito à
felicidade. O que angustia é o fato de ser um projeto individualizado de felicidade.
Daí a imagem da carreira solo.
O ethos da alteridade gratuita, da comunhão, da efetiva partilha de vida,
implica necessariamente interpelação mútua. Significa interpelar e deixar-se
interpelar, de modo que o outro, no sentido mais amplo do termo, sendo diferente de
mim, me interpela, me incomoda e me questiona. Esta interpelação pode levar à
rejeição ou ao fascínio. A rejeição parece ser o ethos predominante de nosso tempo.
Desde o nível religioso até os âmbitos da intimidade humana e geração da vida. A
regra é sempre a mesma: se me incomoda, elimino. Assim se justificam, por exemplo,
o já mencionado aborto, a mobilidade religiosa, já demonstrada em pesquisa feita há
alguns anos 11, as prisões da miséria, que em nada recuperam o ser humano, mas, ao
contrário, tornam-no ainda mais desumano, os choques de ordem nas grandes
cidades, que, em lugar de resolver os problemas sociais, apenas os empurram para
outros lugares, a pregação, enfim, da violência e da destruição como solução.

7. ECUMENISMO INTERNO E EXTERNO


Ou testemunhamos nossa efetiva capacidade de conviver com o outro,
praticando já dentro de nossas comunidades, uma espécie de ecumenismo interno,
ou teremos problemas muito sérios em curto prazo. Teremos problemas internos,
pois, num mundo que se compreende cada vez mais plural, não há como desejar
forma única de existência. Teremos problemas externos, pois nossa incapacidade
interna de dialogar acabará sendo um contra-testemunho mais forte que qualquer
discurso. Assim, o conviver das diferentes formas de ser cristão, o acolhimento das
diversidades em harmonia, ainda que, experimentando conflitos ocasionais, é o
primeiro e grande testemunho que somos chamados a dar em nossos dias.
Lembremo-nos da imagem das primeiras comunidades descritas nos Atos dos
Apóstolos. Este é um tempo propício para fazer de nosso recomeçar a partir de Jesus
Cristo um caminho para o fascínio que brota em quem contempla os discípulos(as)
deste mesmo Jesus Cristo. O atual momento histórico em que a Igreja está inserida, a
atual conjuntura, nos convida a ultrapassar o horizonte da uniformidade pastoral e

11 Não sou eu que devo me converter aos princípios de uma religião institucionalizada. É a religião que deve se adaptar
(integralmente) às minhas expectativas. Neste contexto, algumas propostas religiosas de nosso tempo trabalham bastante
com pesquisas de mercado, procurando saber, o tempo todo, o que pensam e esperam seus (possíveis) adeptos.
ingressar, com maior empenho, numa pastoral diversificada e, por certo, articulada,
sem a qual perderemos muito de nossa força testemunhal e interpeladora em vista ao
ethos do diálogo e o respeito mútuo.

8. UMA IGREJA COMUNIDADE DE COMUNIDADES


É por isso que Aparecida, reiterando Santo Domingo, afirma a importância e
mesmo a urgência da rede de comunidades, como o caminho indispensável para a
ação evangelizadora em nossos dias 12. Na pequena comunidade, o relacionamento
humano assume caráter primeiro, recompondo a hierarquia de valores,
principalmente diante do consumismo de prodígios. Neste ponto, o agir
evangelizador que nos é proposto diferencia nitidamente dos novos empórios de
curas e milagres. Quem vende prodígios não se interessa por comunidade, pois, na
comunidade, existe necessariamente o convívio interpelador. Não podemos cair nas
armadilhas de um mundo neoliberal, consumista e mercantilizador, que tudo
transforma em mercadoria, inclusive a dimensão religiosa. Nosso caminho
evangelizador é o caminho da formação de comunidades, da rede de pequenas
comunidades. 13
Neste redescobrir das pequenas comunidades, vários desafios nos são
colocados. Temos o fenômeno das novas comunidades. Temos a riqueza das
Comunidades Eclesiais de Base, riqueza tão bem explicitada pelo Documento de
Aparecida e, mais recentemente, pelo 12º Intereclesial em Porto Velho. Temos
inúmeras outras tentativas para concretizar este ideal, tentativas que giram em torno
de grupos bíblicos, com reflexão, oração e ação. Em nossos dias, fala-se muito de
comunidades de adesão afetiva ou por interesse e não tanto em função do território,
comunidades marcadas pela fluidez de vínculos e pelos ajuntamentos pontuais 14. A
prática pastoral, contudo, ainda está muito arraigada aos princípios territoriais.
O importante, em todas estas formas, é não esquecer a indicação precisa de
Aparecida, no nº 179. Embora o texto fale explicitamente das CEBs, podemos aplicá-
lo a qualquer comunidade 15:

12 DA 99e, 170ss, 309; SD 58


13Por certo, não se trata agora de negar a possibilidade, por exemplo, do trabalho com as massas. Este, dentro da pastoral
de conjunto, dá referência, agregação e identidade. Torna-se problemático quando é colocado no primeiro lugar das
propostas pastorais, quando acaba sendo a única realidade que se oferece.
14HERVIEU-LÉGER, D., Le Pèlerin et le converti. La religion en mouvement, Paris: Flammarion, 1999, 157ss; MAFESOLLI,
M., O tempo das tribos. O declínio do individualismo nas sociedades de massa, 3a ed, Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 1987, 126ss.
15 Podemos destacar cinco pontos: 1) A Palavra de Deus como fonte de espiritualidade, 2) a orientação do ministério
ordenado, como guia que assegura a comunhão eclesial, 3) o compromisso evangelizador e missionário entre os mais
simples e afastados, 4) a opção preferencial pelos pobres e 5) os vários serviços e ministérios a favor da vida na sociedade
e na Igreja.
9. UMA IGREJA DE BATIZADOS(AS)-MISSIONÁRIOS(AS)
Uma segunda conseqüência diz respeito à integração positiva entre clero e
laicato, sob a consciência da única dignidade que decorre do batismo. A dinâmica
testemunhal a que somos atualmente chamados nos interpela a superar os conflitos
que se arrastam ao longo da história. Somos chamados a superar certa visão de
superioridade clerical, que espera do laicato subserviência ou, pior ainda, uma
concepção que vê no laicato, muitas vezes melhor formado que nós padres, ameaça e
competição. Quando isto acontece, entra o ethos da destruição, próprio da
exacerbação da modernidade. Não podemos, como presbíteros, sentir que nosso
ministério seja ameaçado pela valorização do laicato. A Tradição da Igreja sempre
afirmou o caráter ontológico de nosso sacerdócio. Esta afirmação, porém, não nos
deve levar a relacionamentos periféricos ou até mesmo de exclusão. Deve, ao
contrário, nos livrar do temor da concorrência e nos levar à atitude kenótica de
valorização dos outros, pois, assim, pelo esvaziamento, é que se manifesta a glória de
Deus. A Conferência de Aparecida valoriza o laicato tanto na inserção no mundo
(DA 210), quanto no interior da Igreja (DA 211), destacando sua importância como
elo de ligação entre a Igreja e a sociedade (DA 497a).
Não há nestas afirmações novidade teológica alguma. O que existe é o tão
falado retorno às fontes, às origens de nossa Fé, atitude que se deve sempre ter, em
especial nas mudanças de época. Assim como mudou o lugar sociocultural da Igreja,
mudou igualmente o lugar sociocultural de seus membros, de seus ministros. O
presbítero não tem mais, pelo fato de ser presbítero, o mesmo peso sociocultural de
outras épocas. Agora ele precisa conquistá-lo por seu testemunho. Este testemunho
poderá ser o da taumaturgia imediatista e consumista ou do irmão mais velho na
comunidade, animador dos carismas, mestre na fé, discípulo com os discípulos(as).

10. INSUFICIÊNCIA DE UMA PASTORAL DE CONSERVAÇÃO


A terceira conseqüência diz respeito ao perfil de nosso agir pastoral. A
Conferência de Aparecida assume com toda clareza a insuficiência da chamada
pastoral de conservação (DA 370). Trata-se de um estilo de fazer pastoral que tenha
como centro de suas atenções a manutenção de uma Fé, trazida dos antepassados e
transmitida pelos pais. Este sistema de transmissão da fé, dos valores e da cultura vai
deixando de existir (DA 33-39), exigindo criatividade missionária. Lembremos que
não se trata de rejeitar o papel dos pais na transmissão da cultura e da Fé. Este é um
dado antropológico básico. Trata-se de reconhecer que as mudanças das últimas
décadas, mudanças que afetaram até mesmo a composição e a compreensão da
família já não facilitam mais este caminho. Nossas comunidades estão recebendo
cada vez mais adultos que não ouviram falar adequadamente de Jesus Cristo. Alguns
desses adultos nem mesmo possuem os sacramentos da iniciação cristã. Outros até
possuem os referidos sacramentos. Para eles, contudo, Jesus Cristo já não significa
mais coisa alguma. Esta é a razão pela qual a Conferência de Aparecida nos convoca
a largar um perfil pastoral centrado na conservação e assumir uma pastoral de perfil
decididamente missionário, recomeçando a partir de Jesus Cristo. É por isso que, em
nossos dias, muito se tem falado da iniciação cristã de adultos, alçada pela
Conferência de Aparecida à categoria de prioridade na ação evangelizadora 16.
Por que insistir tanto nisso, uma vez que se trata de assunto já tão abordado
em encontros, cursos, formação permanente etc? É porque são séculos de um tipo de
atitude pastoral e, neste caso, aplica-se o antigo provérbio a respeito do uso do
cachimbo, que faz a boca torta. Estamos tão acostumados à cristandade e à sua
pastoral de conservação, que temos dificuldade em ultrapassá-la e ingressar, na
linguagem de Aparecida, numa “pastoral decididamente missionária”. A pastoral de
conservação centra-se na doutrina, na moral e nos sacramentos, considerando,
supondo que a experiência inicial de encontro com Jesus Cristo tenha ocorrido nas
instâncias socioculturais, entre as quais se destaca a família. Ora, as mudanças de
época afetam os fundamentos. O encontro com Jesus é o fundamento. A doutrina, a
moral e os sacramentos são as conseqüências. Centrar a pastoral nestes aspectos é
semelhante à construção de uma casa que se inicia já com as paredes, imaginando
que outros, anteriormente, terão colocado os alicerces. A mudança de época lembra
que os alicerces não foram plantados e, se foram, não se fixaram adequadamente.
Neste aspecto, a Conferência de Aparecida é muito dura. Chega a afirmar que
algumas formas de fazer pastoral, formas que até deram certo em outros tempos, por
não mais responderem aos anseios de nosso tempo, tornam-se causa de abandono da
Igreja (DA 225). Daí a exigência de uma corajosa busca de novos caminhos para
evangelizar e formar comunidade, coragem que exige até mesmo o abandono de
“estruturas ultrapassadas que já não favoreçam a transmissão da Fé” (DA 365-366).

11. AMOR AOS CRUCIFICADOS: TESTEMUNHO KENÓTICO INEQUÍVOCO


As características indicadas até agora para o caminho evangelizador podem
causar estranheza e mesmo rejeição, por se achar que se trata da referida guerra
santa, da busca de católicos com reforço dos quadros internos. Esta é uma
preocupação séria, pois contraria a compreensão da Igreja como sal, fermento e luz,
além de negar a história da Igreja no Brasil e na América Latina, uma história de
compromisso com os sonhos e lutas do povo em geral. E, de fato, nós cairemos neste

16DA 294 – “Assumir esta iniciação cristã exige não só uma renovação de modalidade catequética da paróquia. Propomos
que o processo catequético de formação adotado pela Igreja para a iniciação cristã seja assumido em todo o Continente
como a maneira ordinária e indispensável de introdução na vida cristã e como a catequese básica e fundamental...”
erro se nos fecharmos àquele aspecto que sempre distinguiu os(as) discípulos(as) de
Jesus Cristo, qual seja, a sensibilidade aos crucificados da terra, tenham eles o nome
que tiverem: pobres, excluídos, marginalizados etc... (DA 391). Num mundo marcado
pelo horizonte do lucro desenfreado, do consumo, da individualização, da religião
como grande negócio, é a preocupação pela vida ameaça, crucificada e destruída,
vida em todas as suas instâncias, que vai assinalar o DNA dos(as) seguidores(as) de
Jesus Cristo. Não se pode passar muito rapidamente pelos nn 391-393 de Aparecida:
“Tudo o que tenha relação com Cristo, tem relação com os pobres e tudo o que está
relacionado com os pobres reivindica a Jesus Cristo” (DA 393).
É por isso que o testemunho que somos chamados a dar concretiza-se no
amor, na parceria e na santa cumplicidade em relação aos que nada podem retribuir,
aos que não participam de um mundo organizado a partir do lucro. Nosso tempo
gerou muitos e muitos rostos de crucificados (DA 65, 402 e 409) e os continuará
gerando, até que a força de um novo ethos seja capaz de brecar a virulência de uma
mentalidade e de estruturas que se constroem a partir do individual exacerbado, do
ganho, do lucro e do acúmulo 17. A pergunta, então, que surge é: como fazer isso?
Como enfrentar tamanha força do ethos do mercado? Só mesmo com o testemunho
da gratuidade. E não há gratuidade maior do que o amor efetivo e afetivo pelos
sofredores da terra (DA 396s). É verdade que a Igreja, de um modo ou de outro,
sempre esteve ao lado dos sofredores. A história está aí para não nos deixar mentir.
A novidade do atual momento histórico, ou seja, da atual conjuntura, está no fato de
que esta solidariedade deve ser, de fato, alçada aos primeiros lugares da
concretização do recomeçar a partir de Jesus Cristo. A atual conjuntura pede uma Igreja
fortemente comprometida com a vida, termo ampla e includentemente assumido.
Trata-se de concretizar para o hoje a afirmação paulina de não se querer outro senão
o Cristo Crucificado, loucura e escândalo (1 Cor 1,23).

12. OS PRESBÍTEROS NUMA IGREJA EM A MUDANÇA DE ÉPOCA


As mudanças de época sacolejam a realidade, desarrumando compreensões e
reajeitando as hierarquias de valores e os lugares socioculturais das instâncias e
instituições. Elas mudam o peso do papel social que cada um possui. Muda,
portanto, o lugar social da Igreja. Muda também o lugar social dos presbíteros.
No caso dos presbíteros, esta situação se torna mais delicada. Isso porque
temos uma geração que, vindo do pré-concílio, atravessou o Vaticano II e
heroicamente deu a vida pela implantação das orientações conciliares. Temos uma
segunda geração, que, respondendo ao momento histórico, mergulhou no
compromisso sociotransformador. Temos uma terceira geração que nasceu, cresceu e

17 CEF2010, Texto-Base, 21ss.


mesmo se formou para o presbiterato no período mais agudo da crise da
modernidade. E todos estamos juntos, a serviço do Reino de Deus, na Igreja que está
no Brasil. Trazemos todos, independentemente, do tempo em que assumimos a
vocação que nos foi dada, as marcas da cristandade, com os sonhos e os riscos de
uma Igreja que se acostumou única no cenário sociocultural. Temos, diante de nós, o
desafio de ultrapassar estas marcas históricas e buscar, sob o impulso do Espírito, o
caminho para a Igreja e, nela, para nós, presbíteros.
Uma coisa é certa. No primeiro Encontro Nacional de Presbíteros, um dos
oradores manifestava emocionado nossa alegria pelo fato de sermos presbíteros e
não outra opção de vida qualquer. É - lembrava o orador - o presbiterato que dá
sentido a tudo que fazemos, seja nas atividades mais diretamente ligadas às
paróquias, seja em outras atividades, como, por exemplo, a vida acadêmica.
Alegrávamos por ser presbíteros. Tantos anos depois esta mesma alegria deve se
manifestar em nós, dando-nos forças para enfrentar, com o espírito despojado, os
desafios da mudança de época, os desafios de um tempo diferente daquele em que
celebrávamos o 1º ENP.
Perdemos muito do papel social de destaque, que, em tempos de cristandade,
tínhamos. Hoje, nossa fragilidade aparece com maior clareza, exigindo de nós maior
testemunho e, mais ainda, maior confiança n’Aquele que nos vocacionou (1 Cr 1,25-
27 e 2 Cr 12,10). Importa reconhecer que as mudanças de época são períodos
profundamente libertadores. Permitem que separemos o que efetivamente pertence
ao núcleo da Fé daquilo que foi se acumulando sobre este mesmo núcleo ao longo do
tempo. Liberta o anúncio do Evangelho das marcas de uma compreensão
sociocultural que já não existe mais. Leva a Igreja a repensar o modo de exercer sua
grande e única missão evangelizadora e, quanto aos presbíteros, dá-lhes a chance de
redescobrirem o essencial para o qual foram escolhidos, sem mérito algum de sua
parte, como anualmente rezamos no aniversário de nossa ordenação (Ef. 2,8).