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Simon J.

Kistemaker

As
Parábolas
de
JESUS

Tradução:
Eunice Pereira de Souza
Produzido em Português com
autorização do
próprio Autor

Diretoria Executiva:
Diretor-Presidentc: Addy Félix de Carvalho
Diretor-Editor: Valter Graciano Martins
Diretor-Comercial: Edezildo Barros Corrêa

Revisão:
Valter Graciano Martins
Rosivaldo Cabral dos Santos
Gecy Soares de Macêdo

Arte:
Jader de Almeida

Composição:
Zenaide Rissato dos Santos

l 3 Edição 1992 — 3.000 exemplares

CASA EDITORA PRESBITERIANA


Rua Miguel Teles Jr., 382/394 — Cambuci
01540-040 - São Paulo - SP
Fone: (011) 270.7099
Apresentação

A s Parábolas de Jesus é o primeiro livro do gênero, bem


como o primeiro do Autor - Simon Kistemaker que esta
Editora produz e oferece ao público evangélico brasileiro -
extensivamente ao leitor de língua portuguesa de outros países.
Aliás, até onde vão os nossos dados informativos, este Autor
ainda não é lido via língua portuguesa, não obstante ser ampla­
mente conhecido e respeitado como lídimo teólogo e expositor
do Novo Testamento, já em muitas línguas. Além de outras
obras de sua autoria particular, o Autor também forma parce­
ria com William Hendriksen na série Comentário do Novo
Testamento, que ora é publicado por esta Editora. De sua
Autoria é Hebreus, Pedro e Judas, Tiago e Epístolas de João
e Atos dos Apóstolos (este último já se acha em preparação,
em dois volumes, e em breve virá a lume).
Além disso, o Autor tem sido um dos colaboradores es­
trangeiros no curso de mestrado em teologia, no Brasil, espe­
cialmente no Seminário Teológico José M anoel da Conceição
(J.M.C), em São Paulo. Ele faz parte da plêiade de teólogos
calvinistas que ainda permeiam (graças a Deus!) o seio da
Igreja do Cordeiro. Esta Editora, bem como toda a IPB, fica­
mos em dívida para com o renomado Autor.
Ao prepararmos este livro, uma ineontida emoção e uma
profunda convicção nos fizeram antever o quanto será ele uma
bênção na vida cristã de cada leitor, seja ele ministro do
Evangelho ou seja leigo, porém estudioso e ativo na Seara de
nosso Mestre Jesus Cristo. Isto afirmamos sobre bases sólidas,
pois eis aqui um livro rico em requisitos positivos: Sua simpli­
cidade fica logo em admirável evidência. Dele podem beber
todos quantos possuam alguma cultura e quantos são detento­
res de cultura privilegiada. Também, eis um livro que se destina
a toda classe de leitores interessados em aumentar sua visão da
literatura mais linda do mundo - as parábolas de Jesus! Sua
abrangência o torna ainda mais rico e útil. Além de discorrer
sobre todas as parábolas de nosso Senhor, nos Evangelhos,
ainda nos fornece muitos dados e detalhes para a melhor
compreensão dessa literatura tão complexa. Finalmente, res­
ta-nos mencionar sua precisão e fidelidade à sã doutrina. O
Autor revela total respeito e apreço para com a Palavra de
nosso Senhor.
Louvamos ao Senhor e convidamos a cada leitor solícito
a ler e meditar nesta obra tão preciosa, resvalando-se dela para
outra muito mais preciosa ainda - as próprias parábolas!
Ainda uma palavra sobre um amigo que preferiu perma­
necer no anonimato, por meio de quem obtemos autorização
para esta publicação. Ele não quis aparecer, todavia registra­
mos o nosso apreço e gratidão em sua referência. Obrigado,
amigo oculto! O leitor não saberá quem é você, todavia nós
sabemos, e, acima de tudo, o Senhor da Igreja sabe... e é isto
que importa! Agradecemos ao Dr. Simon Kistemaker por não
ter requerido de nós qualquer royalty ( = pagamento de direi­
tos autorais). Esperamos que este livro seja um meio dentre
tantos outros para a maior glorificação do Nome de Jesus
Cristo, o Senhor da Igreja... “até que ele venha”! Maranata!

Dezembro de 1992

Valter Graciano Martins


Editor
Prefácio

.L/ivros sobre parábolas, escritos a partir de uma perspectiva evangé­


lica, são poucos e, a maior parte das vezes, desatualizados: muitos dos que
foram publicados deixaram de ser reeditados. Ao escrever este livro, procu­
rei ir ao encontro da necessidade do pastor que deseja consultar um livro
evangélico que contenha todas as parábolas de Jesus e a maior parte do que
é dito sobre elas nos Evangelhos Sinóticos.
Este livro procura atingir o nível adequado de pastores teologicamente
treinados. Tendo os pormenores técnicos sido restringidos a notas de roda­
pé, o texto, em si, pode ser de grande ajuda a qualquer um que pretenda
estudar seriamente a Bíblia. O livro apresenta uma bibliografia selecionada.
Muitas pessoas colaboraram para tornar este livro uma realidade.
Quero expressar meus agradecimentos ao Seminário Teológico Reformado
por me ter liberado do trabalho aos sábados; ao diretor e bibliotecário da
Livraria Tyndale, em Cambridge, Inglaterra; a meus alunos assistentes, Dana
W. Casey, Edward Y. Hopkins e James Theodore Lester; à minha secretária,
Mrs. Kathleen Sapp; à minha esposa, Jean, que datilografou o manuscrito;
e aos revisores, Mrs. Mary L. Hulton e P. Ronald Carr.
Possa este livro ajudar os pastores a preparar seus sermões a respeito
das parábolas de Jesus.

Simom J. Kistemaker
1980
LU
s
índice
1
Abrewaíuras / ^
............................................................... ° 23
In tro d u ç ã o ........................................................................... 15
1. O sal da t e r r a .................................................................. 29
Mt 5.13 Lc 14.34,35>

2. Os dois fundamentos .................. .. .............................. 31


Mt 7.24-27 Lc 6.4749

4. Meninos na praça ......................................................... 35


Mt 11.16-19 Lc 7.31-35

4 .0 semeador . ....................................... ^

Mt 13.3-8 Mc 4.3-8 Lc 8.5-8

5. A semente ..................................................................... 53
Mt 4.26-29 -

6. O joio .............................................................................. 57
Mt 13.24-30

7. O grão de mostarda ...................................................


Mt 13.31,32 Mc 4.30-32 Lc 13.18,19

8. O f e r m e n t o ..................................................................
Mt 13.33 Lc 13.20,21
9. O tesouro escondido..................................................... 73
Mt 13.44

10. A p é r o la ...................................................................... 73
Mt 13.45,46

11. A r e d e ......................................................................... 79
Mt 13.47-50

12. O credor incompassivo............................................... 85


Mt 18.21-35

13. Os trabalhadores na v in h a .................... 93


Mt 20.1-16

14. Os dois filhos .............................................................. 105


Mt 21.28-32

15. Os lavradores m a u s................................ .. ................. 109


Mt 21.33-46 Mc 12.1-12 Lc 20.9-19

16. As b o d a s ...................................................................... 121


Mt 22.1-14

17. A figueira ................................... .. ........................... 129


Mt 24.32-35 Mc 13.28-31 Lc 21.29-33

18. O servo vigilante ........................................................ 135


Mc 13.32-37 Lc 12.35-38

19.0 la d r ã o ............................. ......................................... 141


Mt 24.4244 Lc 12.39,40

20. O servo fiel e prudente............................................... 145


Mt 24.45-51 Lc 12.4146

21. As dez virgens.............................................................. 151


Mt 25.1-13

22. Os talentos ................................................................. 159


Mt 25.14-30

23.0 grande julgam ento.................................................. 169


Mt 25.31-46
24. Os dois devedores ..................................................... 181
Lc 7.36-50

25. O bom samaritano ..................................................... 187


Lc 10.25-37

26. O amigo importuno .................................................. 197


Lc 11.5-8

27. O rico insensato........................................................... 201


Lc 12.13-21

28. A figueira estéril ........................................................ 207


Lc 13.6-9

29. Os primeiros lu g a r e s....................... .......................... 211


Lc 14.7-14

30. A grande ceia .............................................................. 215


Lc 14.15-24

31. O construtor da torre e o rei guerreiro..................... 223


Lc 14.28-33

32. A ovelha p e r d id a ........................................................ 227


Mt 18.12-14 Lc 15.4-7

33. A dracma perdida ..................................................... 231


Lc 15.8-10

34. O filho p r ó d ig o ........................................................... 235


Lc 15.11-32

35. O administrador i n f i e l .................... .......................... 249


Lc 16.1-9

36. O rico e L á z a r o ........................................................... 257


Lc 16.19-31

37. O fazendeiro e o s e r v o ............................................... 267


Lc 17.7-10

3 8 .0 juiz iníqüo .............................................................. 271


Lc 18.1-8
39. O fariseu e o publicano ............................................ 277
Lc 18.9-14

40. As dez minas .............................................................. 283


Lc 19.11-27

C on clu sã o .......................................................................... 293


Bibliografia ....................................................................... 305
Abreviaturas

.477? Anglican Theological Review


BA Biblical Archaeologist
Bib Bíblica
BibLeb Bibel und Leben
CBQ Catholic Biblical Quarterly
EvQ Evangelical Quarterly
ExpT Expository Times
HTR Harvard Theological Review
Interp Interpretation
JBL Journal o f Biblical Literature
JETS Journal o f the Evangelical Theological Society
JTS Journal o f Theological Studies
NAB New American Bible
NASB New American Standard Bible
NEB New English Bible
N ID N TT New International Dictionary o f New Testament Theology
N IV New International Version
N ovT Novum Testamentum
N TS New Testament Studies
RefR Reformed Review
ScotJT Scottish Journal o f Theology
SB H. L.Strack and P. Billerbeck, Kommentar
StTh Studia Theologia
TB Tyndale Bulletin
TDNT Theological Dictionary ofthe New Testament
TynHBul Tyndale House Bulletin
TS Theological Sludies
TZ Theologische Zeitschrift
ZNW Zeitschrifl für die Neuentestamentliche Wissenschaft
ZPEB Zondervan Pictorial Encyclopedia o f the Bible
ZTK Zeitschrift für Theologie und Kirche

Livros da Bíblia

Gn Jr Lc
Êx Lm Jo
Lv Ez At
Nm Dn Rm
Dt Os 1,2 Co
Js J1 G1
Jz Am Ef
Rt Ob Fp
1,2 Sm Jn Cl
1,2 Rs Mq 1,2 Ts
1,2 Cr Na 1,2 Tm
Ed Hc Tt
Ne Sf Fm
Et Ag Hb
Jó Zc Tg
SI Ml 1,2 Pe
Pv 1,2,3, Jo
Ec Mt Jd
Ct Mc Ap
Is
Introdução
C o m muita freqüência, os jornais trazem, junto aos editoriais, com
destaque, uma caricatura. Com poucas linhas, o artista traça o esboço
humorístico de um fato político, social ou econômico, atual. Através do
desenho ele transmite uma mensagem contundente e direta, cuja eloqüência
um redator dificilmente poderia alcançar.
Contando parábolas, Jesus desenhava quadros verbais que retratavam
o mundo ao seu redor. Ensinando através das parábolas, ele descrevia aquilo
que acontecia na vida real. Isto é, ele usava uma história tirada do cotidiano,
para, através de um fato já aceito e conhecido, ensinar uma nova lição. Essa
lição, na maior parte das vezes, vinha no final da história e provocava um
impacto que precisava de tempo para ser entendido e assimilado. Quando
ouvimos uma parábola, acenamos com a cabeça, concordando, porque a
história é como a vida real e fácil de ser entendida. No entanto, mesmo que
se ouça a aplicação da parábola, ela nem sempre é compreendida. Vemos a
história se desenrolar diante de nossos olhos, mas nem sempre percebemos
seu significado.1 A verdade permanece escondida até que nossos olhos se
abram e possamos vê-la mais claramente. Então, a nova lição da parábola se
torna significativa. Como Jesus disse a seus discípulos: “A vós outros vos é
dado o mistério do reino de Deus, mas aos de fora tudo se ensina por meio
de parábolas” (Mc 4.11).

Formas

A palavra parábola, no Novo Testamento, tem uma conotação ampla


que inclui formas de parábolas que são, geralmente, divididas em três
categorias2. Há as autênticas parábolas, histórias em forma de parábolas e
ilustrações.
1. R. Schippers, “The Mashal-character o f the Parable o f the Pearl”, em Studia Evangélica, ed.
F. L. Cross (Berlin: Akademie-Verlag, 1964), 2:237.
2. F. Haucck, TD N T, V:752.

XV
AS PARÁBOLAS DE JESUS

1. PARÁBOLAS AUTÊNTICAS. Essas usam como ilustração um


fato comum do dia-a-dia, e são facilmente compreendidas por qualquer um
que as ouça. Qualquer pessoa entende a verdade transmitida; não há motivo
para objeção ou crítica. Todos já viram uma semente germinar (Mc 4.26-29);
o fermento levedando a massa (Mt 13.33); crianças brincando numa praça
(Mt 11.16-19; Lc 7.31,32); uma ovelha desgarrada do rebanho (Mt 18.12-14);
uma mulher que perde uma moeda em sua própria casa (Lc 15.8-10). Essas
e muitas outras parábolas começam retratando verdades evidentes a respeito
da natureza do homem. São contadas, usualmente, no presente.
2. HISTÓRIAS EM FORMA DE PARÁBOLAS. Diferindo das pa­
rábolas autênticas, a história em forma de parábola não se relaciona com
uma verdade óbvia ou com um costume geralmente aceito. A verdadeira
parábola é contada como um falo, com o verbo no presente. A história em
forma de parábola, por outro lado, se refere a um acontecimento em
particular, que teve lugar no passado — geralmente a experiência de uma
pessoa. É, por exemplo, a experiência de um fazendeiro que semeou trigo e,
mais tarde, percebeu que seu inimigo semeara o joio no mesmo pedaço de
chão (Mt 13.24-30). É a história de um homem rico, cujo administrador
defraudou os seus bens (Lc 16.1-9); ou, é o relato a respeito de um juiz que
julgou a causa de uma viúva atendendo a seus inúmeros pedidos (Lc 18.1-8).
O interesse dessas histórias não está na narrativa, porque o que é significativo
nelas não é o fato, mas a verdade transmitida.
3. ILUSTRAÇÕES. As histórias ilustrativas registradas no Evangelho
de Lucas são, geralmente, classificadas como histórias que servem de mo­
delo, de exemplo. Incluem a parábola do bom samaritano (Lc 10.30-37); a
parábola do rico insensato (Lc 12.16-21); a parábola do rico e Lázaro (Lc
16.19-31); e a parábola do fariseu e o publicano (Lc 18.9-14). Essas ilustra­
ções diferem das histórias em forma de parábolas pelo seu propósito. En­
quanto a história em forma de parábola é uma analogia, as ilustrações
contêm exemplos a serem imitados ou evitados. Elas focalizam, diretamente,
o caráter e a conduta de um indivíduo; a história em forma de parábola faz
isso apenas indiretamente.
Nem sempre é simples classificar uma parábola. Algumas delas apre­
sentam características dos dois grupos — da autêntica parábola e da história
em forma de parábola — e podem ser classificadas de um modo ou de outro.
Os Evangelhos registram, também, numerosas afirmações em forma de
parábola. E, muitas vezes, difícil determinar quando uma declaração de
Jesus constitui uma autêntica parábola, ou quando é uma declaração em
forma de parábola. O ensinamento de Jesus a respeito do fermento (Lc
13.20,21) é classificado como uma verdadeira parábola, mas sua mensagem
xvi
INTRODU ÇÀO

sobre o sal (Lc 14.34,35) é considerada uma afirmação em forma de parábo­


la. No entanto, algumas declarações de Jesus são apresentadas como pará­
bolas. Por exemplo: “Propôs-lhe também uma parábola: Pode porventura
um cego guiar a outro cego? Não cairão ambos no barranco?” (Lc 6.39).
No que uma parábola difere de uma alegoria? O Peregrino de John
Bunyan é uma representação alegórica do caminhar de um cristão pela vida.
Os nomes e as circunstâncias encontrados no livro representam a realidade.
Cada fato, cada característica ou afirmação são simbólicos e devem ser
interpretados ponto a ponto em seu significado real para que possam ser
corretamente entendidos. Uma parábola, por sua vez, é fiel à vida e ensina,
geralmente, apenas uma verdade básica. Em suas parábolas, Jesus usou
muitas metáforas, como, por exemplo, um rei, servos e virgens, mas estas
nunca se afastaram da realidade. Não estão nunca relacionadas com um
mundo de fantasia ou ficção. São histórias e exemplos tirados do mundo em
que Jesus vivia e transmitem uma verdade espiritual, através da comparação.
Os pormenores da história são o sustentáculo da mensagem que a parábola
transmite. Não devem ser analisadas ponto a ponto e interpretadas como
uma alegoria, pois perderiam o seu significado.

Composição

Embora, de um modo geral, seja verdade que uma parábola ensina


somente uma lição básica, esta regra nem sempre é definitiva. Algumas das
parábolas de Jesus têm composição complexa. A composição da parábola
do semeador apresenta quatro partes e cada parte pede uma interpretação.
Do mesmo modo, a parábola sobre as bodas não é uma história única, pois
tem acrescentada uma parte a respeito de um convidado que não está usando
roupas apropriadas para a ocasião. Também, a conclusão da parábola sobre
os lavradores maus se desvia do cenário da vinha para o de construtores e
seus negócios. Por causa dessa complexidade, é sensato o exegeta não
prender-se a um ponto único na interpretação da composição das parábolas.
Ao ler as parábolas de Jesus, nós nos perguntamos por que são
deixados de lado vários detalhes que deveriam fazer parte da história. Por
exemplo, na história do amigo que bate à porta de seu vizinho, no meio da
noite, para pedir três pães, a mulher do vizinho não é mencionada. Na
parábola do filho pródigo, o pai é uma figura marcante, mas nem uma palavra
é dita a respeito da mãe. A parábola das dez virgens apresenta o noivo, mas
ignora completamente a noiva. Esses pormenores, entretanto, não são rele­
vantes na composição geral das parábolas, especialmente se compreender­
mos o artifício literário das tríades, muitas vezes usado nas parábolas de
Jesus. Na parábola do amigo que vem bater à porta no meio da noite, há três
XVll
AS PARÁBOLAS DE JESUS

personagens: o viajante, o amigo e o vizinho. A parábola do filho pródigo


também fala de três pessoas: o pai, o filho mais jovem e o irmão mais velho.
Na história das dez virgens, encontramos três elementos: as cinco virgens
prudentes, as cinco virgens tolas e o noivo.
Além disso, nas parábolas de Jesus não é o começo da história o que
é importante, porém o seu final. A importância recai sobre a última pessoa
mencionada, o último feito ou a última declaração. O “efeito final” da
parábola é deliberadamente elaborado em sua composição3. Foi o samari­
tano que procurou aliviar a dor do homem ferido, não o sacerdote ou o levita.
Embora os dois servos que apresentaram cinco e dois talentos adicionais a
seu senhor tenham recebido louvor e elogios, foi o fato de ter enterrado seu
único talento na terra que trouxe ao terceiro servo escárnio e condenação.
Na parábola sobre o proprietário de terras que durante o dia contratou
homens para trabalhar em sua vinha e, às seis horas, ouviu reclamações de
alguns dos trabalhadores, o mais importante é a resposta do dono: “Amigo,
não te faço injustiça... são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (Mt
20.13,15).
A arte de elaborar e contar parábolas, demonstrada por Jesus, não
encontra paralelo na literatura. Mas bem semelhantes às parábolas de Jesus
são aquelas dos antigos rabinos dos dois primeiros séculos da era cristã.
Essas parábolas eram apresentadas, comumente, com uma pergunta: “Uma
parábola: A que se assemelha?” Nessas parábolas, também, o artifício
literário da tríade e a ênfase final eram usados. Por exemplo:
Uma parábola: A que se assemelha? A um homem que estava viajando
pela estrada, quando encontrou um lobo. Conseguiu escapar dele e seguiu
adiante, relatando aos outros seu encontro com o lobo. Então, ele encontrou
um leão e escapou dele; e seguiu adiante, contando a todos o encontro com
o leão. A seguir, ele encontrou uma cobra e escapou dela. Após esse
acontecimento, ele se esqueceu dos dois anteriores e prosseguiu contando
o caso da cobra. Assim também é Israel: as últimas dificuldades o fazem
esquecer as primeiras. 4
Entretanto, a semelhança entre as parábolas de Jesus e as dos rabinos
está apenas na forma. As parábolas dos rabinos, normalmente, são apresen­
tadas para explicar ou elucidar a Lei, versículos das Escrituras, ou uma
doutrina. Elas não são usadas para ensinar novas verdades, como acontece
com as parábolas de Jesus. Através das parábolas, Jesus explicava os grandes
temas de seu ensinamento; o reino dos céus; o amor, a graça e a misericórdia

3. A. M. Hunter, The Parables Then and Now (London: Westminster Press, 1971), p. 12.
4 . 1. Epstein, ed., “Seder Zeraim Berakoth 13a”, in The Babylonian Talmud (London: Soncino
Press, 1948); p.73.

xviii
INTRODUÇÃO

de Deus; o governo e a volta do Filho de Deus; o modo de ser e o destino do


homem..5 Enquanto que as parábolas dos rabinos não ensinam senão a
aplicação da Lei, as de Jesus são parte da revelação de Deus ao homem. Em
suas parábolas, Jesus revela novas verdades, pois ele foi comissionado por
Deus para tornar conhecida a vontade e a Palavra de Deus. As parábolas de
Jesus, portanto, são a revelação de Deus; as dos rabinos, não.

Propósito

As parábolas mostram que Jesus estava perfeitamente familiarizado


com a vida humana em seus múltiplos aspectos e significados. Ele tinha
conhecimento de como cultivar a terra, lançar a semente, extirpar as ervas
daninhas e colher os frutos. Ele se sentia em casa, em uma vinha; sabia a
época da colheita dos frutos da videira e da figueira, e estava a par do quanto
se pagava por um dia de trabalho. Ele não apenas estava familiarizado com
a rotina do fazendeiro, do pescador, do construtor e do mercador, mas se
encontrava igualmente à vontade entre os chefes de Estado, os ministros das
finanças de uma corte real, os juizes das cortes de justiça, os fariseus e os
coletores de impostos. Ele compreendeu a pobreza de Lázaro, embora fosse
convidado para jantar com os ricos. Suas parábolas retratam a vida de
homens, mulheres e crianças; o pobre e o rico; os que são marginalizados e
os que são exaltados. Pelo seu conhecimento da amplitude da vida humana,
ele era capaz de ministrar a todas as camadas sociais. Ele falava a linguagem
do povo e seus ensinamentos eram adequados ao nível daqueles que o
ouviam. Jesus usava parábolas para tornar sua linguagem acessível ao povo,
para ensinar às multidões a Palavra de Deus, para chamar seus ouvintes ao
arrependimento e à fé, para desafiar os que criam a transformar palavras em
atos e para exortar seus seguidores a permanecerem atentos.
Jesus usou as parábolas para comunicar a mensagem de salvação de
um modo claro e simples. Seus ouvintes podiam, prontamente, entender a
história do filho pródigo, dos dois devedores, da grande ceia e do fariseu e
o publicano. Através das parábolas, eles identificavam Jesus com o Cristo
que ensina com autoridade a mensagem redentora do amor de Deus.
Dos relatos do Evangelho, todavia, tomamos conhecimento que a
interpretação das parábolas era feita em particular, no círculo dos discípu­
los. Jesus lhes disse: “A vós outros é dado o mistério do reino de Deus, mas
aos de fora tudo se ensina por meio de parábolas, para que
5. Hauck, T D N T, V:758. J. Jeremias, na oitava edição de seu D ie Gleichnisse Jesu (Gõttingen:
Vandenhoeck & Ruprecht, 1970), p. 8, faz notar que as parábolas de Jesus podem ter
contribuído para o desenvolvimento do gênero literário das parábolas dos rabinos.

xix
AS PARÁBOLAS DE JESUS

vendo, vejam, e não percebam; e ouvindo, ouçam,


e não entendam, para que não venham a
converter-se e haja perdão para eles.”
(Mc 4.11,12).
Isso significa que Jesus, que foi enviado por Deus para proclamar a
redenção dos homens caídos e pecadores, esconde essa mensagem através
de parábolas incompreensíveis? As parábolas são, então, um tipo de enigma
compreendido apenas pelos iniciados?
As palavras de Marcos 4.11,12 devem ser entendidas no contexto mais
amplo, no qual o escritor as colocou.6 No capítulo anterior, Marcos relata
que Jesus encontrara descrença, blasfêmia e oposição direta. Ele foi acusado
de estar possuído por Belzebu e de expelir demônios, pelo príncipe dos
demônios (Mc 3.22). ü contraste que Jesus apresenta, conseqüentemente,
é entre aqueles que acreditavam e os que não acreditavam, entre seguidores
e oponentes, entre os que aceitavam e os que rejeitavam a revelação de Deus.
Os que fazem a vontade de Deus recebem a mensagem das parábolas,
porque pertencem à família de Jesus (Mc 3.35). Os que tentam destruir Jesus
(Mc 3.6) não conhecem a salvação, por causa da dureza de seus corações. É
uma questão de fé e descrença. Os que acreditam ouvem as parábolas e as
recebem com fé e entendimento, mesmo que a completa compreensão
venha, apenas, gradualmente. Os incrédulos rejeitam as parábolas porque
elas são estranhas à sua maneira de pensar. Recusam-se a perceber e
entender a verdade de Deus. Assim, por causa de seus olhos cegòs e seus
ouvidos surdos, privam a si mesmos da salvação proclamada por Jesus, e
trazem sobre si mesmos o julgamento de Deus.
Não nos surpreende que os discípulos de Jesus não tenham entendido
completamente a parábola do semeador (Mc 4.13). Os seguidores mais
próximos estavam perplexos com os ensinamentos da parábola porque não
tinham visto ainda a importância da pessoa e do ministério de Jesus, em
6. J. Jeremias. The Parables o f Jesus (New York: Scribner, 1063), pp. 13-18, sustenta que essas
palavras de Jesus foram deslocadas e pertencem a outro escrito; devem ser interpretadas
sem relação com o contexto de Marcos 4. D e acordo com Jeremias, o escritor inseriu
passagem proveniente de outra tradição, por causa do sentido comum da palavra parábola,
que ele afirma significar, originalmente, enigma. Jeremias abribui, assim, dois sentidos à
palavra parábola, em Marcos 4. O primeiro significando parábola autêntica, e o segundo,
enigma. A s regras da exegese, no entanto, não apoiam a interpretação de Jeremias, pois, a
m enos que o evangelista revele um significado diferente para uma palavra do texto, essa deve
conservar o m esm o sentido através de toda a passagem.
7. W. Lane, The Gospel According to Mark (Grande Rapids: Eerdmans, 1974), p. 158; W.
Hendriksen, G ospel o f Mark (Grand Rapids: Baker Book House, 1975), p. 145; H. N.
Ridderbos, The Corning of the Kingdom (Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1962),
p. 124.

XX
INTRODUÇÃO

relação à verdade de Deus revelada na parábola. Somente pela fé foram


capazes de ver aquela verdade da qual as parábolas davam testemunho.8
Jesus explicou de modo mais pormenorizado a parábola do semeador e a do
trigo e do joio (em outras, ele, de quando em quando, acrescentava esclare­
cimentos às conclusões). Aos discípulos foi dado ver a relação entre os
acontecimentos que Jesus descrevia na parábola do semeador e o reino dos
céus, iniciado na pessoa de Jesus, o Messias.9

Interpretação

Na igreja primitiva, os Pais da igreja começaram a procurar nas


Escrituras do Velho Testamento vários significados ocultos relacionados
com a vinda de Jesus. Como conseqüência natural dessa tendência, os Pais
começaram a encontrar significados ocultos nas parábolas de Jesus. Influen­
ciados, talvez, pela apologética judaica, substituíram a simplicidade das
Escrituras pela especulação sutil. O resultado foram as interpretações ale­
góricas das parábolas. Por isso, desde o tempo dos Pais da igreja, até meados
do século XIX, muitos exegetas interpretaram as parábolas alegoricamente.
Orígenes, por exemplo, acreditava que a parábola das dez virgens
estava cheia de símbolos ocultos. As virgens, disse Orígenes, são todos
aqueles que receberam a Palavra de Deus. As prudentes acreditam e levam
uma vida de justiça; as tolas acreditam, mas falham no agir. As cinco
lâmpadas das prudentes representam os cinco sentidos, que são todos
preparados para o seu uso apropriado. As cinco lâmpadas das tolas deixa­
ram de fornecer luz e se encaminharam para a noite do mundo. O óleo é o
ensinamento da Palavra e os vendedores de óleo são os mestres. O preço
que eles cobram pelo óleo é a perseverança. A meia-noite é a hora do
descuido imprudente. O grande clamor ouvido vem dos anjos que despertam
todos os homens. O noivo é Cristo que vem para encontrar a noiva, a igreja.
Assim Orígenes interpretou a parábola.
Entre os comentaristas do século XIX, era comum identificar os
pormenores da parábola. Na parábola das dez virgens, a lâmpada acesa
representava as boas obras; e o óleo, a fé daquele que crê. Outros viram o
óleo como uma representação simbólica do Espírito Santo.
Ainda assim, nem todos os intérpretes das parábolas tomaram o
caminho da alegoria. Por ocasião da Reforma, Martinho Lutero tentou
mudar a maneira de interpretar as Escrituras. Ele preferiu um método de
exegese bíblica que levava em consideração a localização histórica e a

8. C.E.B. Cranfield, “St. Mark 4.1-34", Scot JT 4(1951): 407.


9. Lane, Mark, p.160.

xxi
AS PARÁBOLAS DE JESUS

estrutura gramatical da parábola. João Calvino foi ainda mais direto. Ele
evitou totalmente as interpretações alegóricas das parábolas e procurou
estabelecer o ponto principal de seu ensinamento. Quando ele constatava o
significado de uma parábola, não se preocupava com os seus pormenores.
Em sua opinião, os detalhes não tinham nada a ver com aquilo que Jesus
pretendia ensinar através da parábola.
Durante a segunda metade do século XIX, C.E. van Koetsveld, um
estudioso alemão, deu novo impulso ao modo de abordar o assunto, iniciado
pelos Reformadores. Ele mostrou que as extravagantes interpretações ale­
góricas das parábolas, feitas por numerosos comentaristas, obscureciam
mais que esclareciam o ensino de Jesus.10 Para interpretar uma parábola
apropriadamente, o exegeta precisa apreender seu significado básico e
distinguir o que é, ou não, essencial. Van Koetsveld foi seguido, em sua
maneira de abordar as parábolas, pelo teólogo alemão A. Jülicher, que
observou que, embora o termo parábola seja usado freqüentemente pelos
evangelistas, a palavra alegoria jamais é encontrada nos relatos dos Evange­
lh o s/1
No final do século passado, as amarras que atavam a exegese das
parábolas foram cortadas e uma nova era de pesquisa teve início.12 Enquanto
Jülicher via Jesus como um professor de princípios morais, C. H. Dodd o
considerou como uma pessoa histórica, dinâmica, que, com seus ensinamen­
tos, provocou um período de crise. Disse Dodd: “A tarefa de um intérprete
de parábolas é descobrir, se puder, a aplicação da parábola na situação
pretendida pelos Evangelhos”. 3 Jesus ensinava que o reino de Deus, o Filho
do Homem, o Juízo e as bem-aventuranças passavam a fazer parte da história
daquela época. Para Jesus, de acordo com Dodd, o reino significava o
governo de Deus exemplificado em seu próprio ministério. Portanto, as
parábolas ensinadas por Jesus devem ser entendidas como diretamente
relacionadas com a efetiva situação do governo de Deus na terra.
J. Jeremias continuou o trabalho de Dodd. Ele, também, desejou
descobrir os ensinamentos das parábolas que remetem de volta ao próprio
Jesus. Jeremias se dispôs a traçar o desenvolvimento histórico das parábolas,
o que acreditava ocorrer em dois estágios. O primeiro diz respeito à situação
real do ministério de Jesus, e o segundo é uma reflexão sobre o modo como
as parábolas eram postas em prática pela igreja cristã primitiva. A tarefa a

10. C.E. van Koetsveld, D e Gelykenissen van den Zaligmaker (Schoonhoven, 1869), vols. 1,2.
11. A. Jülicher, D ie Gleichnisreden Jesu (Tübingen: Buchgesellschaft, 1963), vols. 1,2.
12. Consulte os interessantes estudos de M. Black, “The Parables as A legoiy”, BJRL 42 (1960):
273-87; R. E. Brown, “Parable and A llegoiy Reconsidered”, NTS 5 (1962): 36-45.
13. C.H. Dodd, The Parables o f the Kingdon (London, Nesbit and Co., 1935), p. 26.

xxii
INTRODUÇÃO

que Jeremias se propôs era a de recuperar a forma original das parábolas


para ouvi-las na própria voz de Jesus.1 Com o seu profundo conhecimento
da terra, da cultura, dos costumes, do povo e da língua de Israel, Jeremias
foi capaz de reunir um rico cabedal de informações que fazem de sua obra
um dos livros de maior prestígio a respeito das parábolas.
Apesar disso, uma questão se apresenta: pode a forma original ser
separada do contexto histórico sem sucumbir a um acúmulo de adivinha­
ções? Por outro lado, o texto das parábolas pode ser tomado e aceito como
uma representação real do ensino de Jesus. Isto é, o texto bíblico que o
evangelista nos entregou reflete o contexto histórico no qual as parábolas
foram, originalmente, narradas. Dependemos do texto que recebemos e
agimos acertadamente quando deixamos as parábolas e seu assentamento
histórico intactos. Isso pede confiança — que os evangelistas, ao registrarem
as parábolas, tenham compreendido a intenção de Jesus ao ensiná-las nas
circunstâncias por eles descritas.15 Na ocasião em que as parábolas foram
registradas, testemunhas e ministros da Palavra transmitiram a tradição oral
das palavras e feitos de Jesus (Lc 1.1,2). Por causa do elo com as testemu­
nhas, podemos confiar que o contexto no qual as parábolas estão inseridas
se refere ao tempo, lugares e circunstâncias nas quais Jesus, originalmente,
as ensinou.
Mais recentemente, representantes de nova corrente da hermenêutica
têm, de maneira crescente, deslocado as parábolas de seu assentamento
histórico para uma ênfase literária claramente baseada numa estrutura
existencial.16 Quer dizer, esses estudiosos tratam as parábolas como litera­
tura existencial, as removem de suas amarras históricas e substituem sua
significação original por uma mensagem contemporânea. Negam que o
sentido da parábola tem sua origem na vida e ministério de Jesus; não estão
interessados em suas fontes1o
e bases, mas, antes, em sua forma literária e sua
interpretação existencial. Para eles, a estrutura literária da parábola é
importante porque leva o homem moderno a um momento de decisão: tem
que aceitar ou rejeitar o desafio colocado diante dele.

14. Jeremias, Parables, pp. 113,114.


15. A. M. Brouwer, D e Gelykenissen (Leiden: Brill, 1946), p. 247; G.V. Jones, The Art and
Truth o f the Parables (London: S.P. C.K., 1964), p. 38.
16. M. A . Tolbert, Perspectives on the Parables (Philadelphia: Fortress Press, 1979), p.20.
17. D . O. Via, Jr., em “A response to Crossan, Funk, and Peterson”, Sem eia 1 (1974): 222,
afirma: “N ão tenho absolutamente interesse, nem mesmo na Pessoa do Jesus histórico”.
18. J. D . Crossan, em “The Good Samaritan” Towards a Generic Definition o f Parable", Semeia
2 (1974): 101, parece indicar que é mais importante para uma proposição ser interessante
que ser verdadeira.

xxiii
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Aceitamos prontamente a idéia de que as parábolas chamam o homem


à ação; na aplicação da parábola do bom samaritano, ao intérprete da lei
que o questionou, Jesus disse: “Vai, e procede tu de igual modo” (Lc 10.37).
Entretanto, o existencialista, em sua interpretação da parábola, enfatiza o
modo imperativo e menospreza o modo indicativo no qual a parábola foi
contada. Ele separa as palavras de Jesus de sua disposição cultural e, assim,
as despoja do poder e autoridade que Jesus lhes deu.
Além do mais, ao tratar as parábolas como estruturas literárias sepa­
radas de seu assentamento original, o existencialista precisa estabelecer para
elas uma nova base. Assim, ele coloca as parábolas num contexto contem­
porâneo. Mas, esse método dificilmente pode ser chamado de exegético, pois
insufla no texto bíblico uma filosofia existencial. Isso é eisegese, não exegese.
Infelizmente, o cristão comum, que procura orientação para o entendimento
das parábolas com os representantes da nova escola hermenêutica, precisa,
primeiro, buscar conhecer a filosofia existencial, a teologia neo-liberal e o
jargão literário do estruturalismo, para que possa se beneficiar com seus
pontos de vista.

Princípios

Interpretar parábolas não exige um treinamento completo em teologia


e filosofia, mas implica que o exegeta se atenha a alguns princípios básicos
de interpretação. Esses princípios, em resumo, estão relacionados com a
história, a gramática e a teologia do texto bíblico. Sempre que possível, o
intérprete deve fazer um estudo da conjuntura histórica da parábola, incluin­
do uma análise pormenorizada das circunstâncias religiosas, sociais, políti­
cas e geográficas reveladas na parábola. A disposição da parábola do bom
samaritano, por exemplo, exige certa familiaridade com a instrução do clero
daqueles dias. O intérprete da lei, procurando Jesus e perguntando-lhe o
que fazer para herdar a vida eterna, deu início à conversação que levou à
história do bom samaritano.
Em relação à parábola do bom samaritano, o exegeta deveria se
familiarizar com a origem, a classe social e a religião dos samaritanos, com
as funções, ofício e residência do sacerdote levita; com a topografia da área
entre Jerusalém e Jericó; e com o conceito judaico de boa vizinhança.
Observando o contexto histórico da parábola, o intérprete apreende a razão
por que Jesus contou essa história e compreende a lição que Jesus procurou
transmitir através da parábola.19

19. L. Berkhof, Principies o f Biblical Interpretation (Grand Rapids: Baker Book H ouse, 1952),
p. 100.

xxiv
INTRODUÇÃO

A seguir, o exegeta deve atentar para a estrutura literária e gramatical


da parábola. Os modos e tempos de verbos empregados pelo evangelista em
relação à parábola são muito significativos e lançam luz sobre o principal
ensinamento da história. As palavras estudadas em seu contexto bíblico,
assim como em escritos extracanônicos são parte essencial do processo de
interpretação de uma parábola. Assim, o estudo da palavra próximo no
contexto do comando “Ama o teu próximo como a ti mesmo”, como foi dado
no Velho e Novo Testamentos, resulta num exercício gratificante. O intér­
prete precisa, também, levar em consideração a introdução e a conclusão de
uma parábola, pois podem conter um artifício literário como uma questão
de retórica, uma exortação ou uma ordem. A parábola do bom samaritano
é concluída com o comando direto: “Vai, e procede tu de igual modo” (Lc
10.37). O intérprete da lei, que tinha perguntado a Jesus a respeito do que
fazer para herdar a vida eterna, não teve como deixar de se envolver no
cumprimento da ordem de amar a seu próximo como a si mesmo. As
introduções, e especialmente as conclusões, contêm as diretrizes que ajudam
o intérprete a encontrar os pontos principais das parábolas.
Ainda, o ponto principal de uma parábola deve ser comparado teolo­
gicamente com os ensinamentos de Jesus e com o resto das Escrituras.20
Quando o ensino básico de uma parábola foi completamente explorado e
está corretamente entendido, a unidade das Escrituras se manifestará e o
sentido apropriado da passagem poderá ser visto em toda a sua simplicidade
e limpidez.
Por último, o intérprete da parábola deve traduzir seu significado em
termos apropriados às necessidades de hoje. Sua tarefa é aplicar o ensina­
mento central da parábola à situação de vida da pessoa que está ouvindo sua
interpretação. Na parábola do bom samaritano, a ordem para amar o
próximo se torna cheia de significado quando a pessoa que foi roubada e
ferida na estrada de Jericó não é mais uma figura de um passado distante.
Ao contrário, o próximo que clama pelo nosso amor é o sem-teto, carente e
oprimido. Ele vem ao nosso encontro na estrada de Jericó das páginas diárias
dos jornais e do noticiário colorido da televisão.

Classificação

As parábolas de Jesus podem ser agrupadas e classificadas de várias


formas. As do semeador, da semente germinando secretamente, do trigo e
do joio, da figueira estéril, e a da figueira brotando são, todas, parábolas
naturais. Várias parábolas de Jesus dizem respeito ao trabalho e ao salário.
Algumas delas são a respeito dos trabalhadores da vinha, do arrendatário e

20. A. B. Mickelsen, Interpreting the Bible (Grand Rapids: Eerdmans 1963), p. 229.

XXV
AS PARÁBOLAS DE JESUS

do administrador infiel. O tema de outras são as bodas e festas ou ocasiões


solenes. Essas incluem a parábola das crianças brincando na praça, a das
dez virgens, a da grande ceia e a do banquete das bodas. Outras, ainda, têm
como motivo geral o achado e o perdido. Essas incluem as parábolas da
ovelha perdida, da moeda perdida e a do filho perdido.
Nem sempre, no entanto, é fácil classificar uma parábola. A parábola
da rede é uma parábola natural, ou deve ser agrupada com as que falam de
trabalho e salário? Onde colocar a parábola do bom samaritano? Fica claro
que a classificação das parábolas pode ser, de certo modo, arbitrária, e, em
alguns casos, forçada.
Os Evangelhos Sinóticos apresentam parábolas com correspondentes
em dois ou mesmo três dos Evangelhos, e também parábolas específicas de
um único evangelista. Enquanto Marcos tem apenas uma parábola peculiar
a seu Evangelho (a da semente crescendo secretamente), Mateus e Lucas
têm várias. Em minha apresentação das parábolas, segui a seqüência dos
Evangelhos, discutindo primeiro as de Mateus, com a exclusiva de Marcos
estudada entre a parábola do semeador e a do trigo e o joio, e, então, as
apresentadas no Evangelho de Lucas. Nas parábolas que têm corresponden­
te, a seqüência quase uniforme de Mateus, Marcos e Lucas foi adotada.
Escolhi esse procedimento a fim de ajudar o leitor que queira consultar um
estudo dos paralelos sinóticos, por exemplo, Synopsis o f the Four Golspels
de K. Aland.21 Nesse estudo sobre as parábolas, referências a palavras gregas
e hebraicas são freqüentes. Quando elas aparecem são transliteradas e
traduzidas. A Bíblia Inglesa usada é a Nova Versão Internacional (com
permissão da Comissão Executiva). Para ajudar o leitor, o texto é transcrito
integralmente no princípio de cada parábola. As parábolas que têm corres­
pondentes nos três Evangelhos Sinóticos são apresentadas na seqüência de
Mateus, Marcos e Lucas. Um total de quarenta parábolas e declarações em
forma de parábolas são estudadas neste livro. Todas as principais parábolas
estão arroladas, assim como a maior parte das declarações em forma de
parábola. Naturalmente, uma seleção foi necessária com relação a essas
declarações, por isso a parábola do sal está incluída e a da candeia foi
omitida. Apenas as declarações em forma de parábola que se encontram nos
Evangelho Sinóticos foram estudadas, não aquelas encontradas no Evange­
lho de João.
A literatura a respeito das parábolas é volumosa — uma interminável
corrente de livros e artigos. Dificilmente uma parábola terá sido negligen­
ciada pelos recentes estudiosos. Novas concepções provindas dos estudos
21. K. Aland, Synopsis of the Four G ospels (Stuttgart: Württembergische Bibelanstalt, 1976).

xxvi
INTRODUÇÃO

sobre a cultura e a lei judaicas têm sido valiosas no avanço para uma melhor
compreensão dos ensinamentos de Jesus. O objetivo deste livro é presentear
o pastor e o verdadeiro estudioso da Bíblia com um acervo abrangente e
contemporâneo dos escritos sobre as parábolas, sem se prender a pormeno­
res. As notas de rodapé e a bibliografia selecionada auxiliam o estudioso de
teologia que desejar prosseguir mais intensamente no estudo das parábolas
de Jesus. Através do material bibliográfico e do índice, ele terá acesso à
literatura disponível sobre as parábolas de Jesus.

xxvii
1
O Sal

Mateus 5.13 Marcos 9.50 Lucas 1434,35

13“Vós sois o sal 50 “Bom é o sal; mas ^ “O sal é certa­


da terra; ora, se o sal se o sal vier a tornar-se mente bom; caso,
vier a ser insípido, insípido, como lhe res­ porém, se torne in­
como lhe restaurar o taurar o sabor? Tende sípido, como res­
sab o r? P a ra n ad a sal em vós mesmos, e t a u r a r - lh e o
m ais p resta senão paz uns com os ou­ sabor?” 35 “Nem
para, lançado fora, tros.” presta para a ter­
ser pisado pelos ho­ ra , nem m esm o
mens.” p ara o m onturo;
lançam -no fora.
Quem tem ouvi­
dos p a ra ouvir,
ouça.”

Através da história, o sal tem sido usado para preservar e dar gosto
aos alimentos. É uma das necessidades básicas da vida. Seu uso é universal
e seu provimento é aparentemente inesgotável. Mas além de suas qualidades
úteis, o sal tem, também, propriedades destrutivas. Ele pode transformar o
solo fértil em terra árida e devastada.1 A área ao redor do Mar Morto é um
exemplo.
Nos tempos atuais, achamos inconcebível que o sal possa deixar de ser
salgado. O cloreto de sódio (nome químico do sal de cozinha) é um composto
estável. Ele não possui qualquer impureza. No antigo Israel, entretanto, o

1. D t 29.22,23; Jz 9.45; Jó 39.6; SI 107.34; Jr 17.6; Sf 2.9.

29
AS PARÁBOLAS DE JESUS

sal era obtido pela evaporação da água do Mar Morto. A água continha
várias outras substâncias, além do sal. A evaporação produz cristais de sal e
cloreto de potássio e de magnésio. Porque os cristais de sal são os primeiros
a se formarem durante o processo de evaporação, eles podem ser recolhidos
e fornecem, assim, sal relativamente puro. Se o sal resultante da evaporação
não for, no entanto, preservado, e se, com o tempo, os cristais se tornarem
úmidos e liqüefeitos, o que restar será insípido e inútil.2
O que se pode fazer com o sal insípido? Não serve para nada. Os
fazendeiros não querem esse produto químico em suas terras, pois, no estado
bruto, prejudica as plantas. Jogar esse resíduo na pilha de estrume também
não resolve, pois, comumente, o esterco é espalhado na terra, como fertili­
zante. A única coisa que se pode fazer com o sal insípido é lançá-lo fora onde
será pisado.3 Se o sal perder sua propriedade básica e deixar de ser salgado4,
não se poderá mais recuperá-la.
No Sermão da Montanha, Jesus se dirigiu à multidão e a seus discípu­
los, dizendo-lhes: “Vós sois o sal da terra.” Como o sal tem a característica
de impedir a deterioração, assim também os cristãos devem exercer uma
influência moral na sociedade em que vivem. Por suas palavras e atos devem
restringir a corrupção espiritual e moral. Como o sal é invisível (no pão, por
exemplo) e, ainda assim, um agente poderoso, também os cristãs nem sempre
são vistos, mas individual e coletivamente permeiam a sociedade e consti­
tuem uma força refreadora num mundo perverso e depravado.
“Tende sal em vós mesmos, e paz uns com os outros”, diz Jesus (Mc
9.50^. Ele exorta seus seguidores a usar dotes espirituais para promover a
paz, primeiro em casa, e depois com os outros. Porque os cristãos não têm
sido capazes de viver em paz entre si mesmos, têm perdido sua eficiência no
mundo.
Muitas pessoas podem jamais ter lido a Bíblia, todavia constantemente
observam aqueles que já a leram. Na Igreja Cristã primitiva, o eloqüente
Crisóstomo, certa vez, disse que se os cristãos vivessem a vida que se espera
deles, os incrédulos desapareceriam.
2. Jeremias, Parables, p. 169; J. H. Marshall, The Gospel o f Luke (Grand Rapids: Eerdmans,
1978), p. 596; Hauck, TDN T, 1.229.
3. E. P. Deatrick, em “Salt, Soil, Savior”, B A 25 (1962): 47, citando Lamsa, menciona que no
m oderno Israel “o sal insípido é espalhado em terraços cobertos com terra. Por causa do sal,
a terra endurece. Os terraços são, então, usados com o áreas de lazer e de brincadeiras de
crianças.
4. O verbo em Mateus 5.13 e Lucas 13.34 para “tornar-te insípido” é mõrainein, que tem o
sentido original de “fazer tolice”, na voz ativa, e “fazer-se de tolo”, na voz passiva. W. Bauer,
W. F. Arndt, F. W. Gingrich e F. Danker, A Greek-English Lexicon o f the New Testam ent
(Chicago: University o f Chicago Press, 1978), p. 531.
5. W. Nauck, “Salt as a Metaphor”, St Th 6 (1953); 176.

30
2
Os Dois Fundamentos
Mateus 7.24-27 Lucas 6.47-49

24 “Todo aquele, pois, que 47 “Todo aquele que vem


ouve estas minhas palavras e as a mim e ouve as minhas pa­
pratica, será comparado a um lavras e as pratica, eu vos
homem prudente, que edificou mostrarei a quem é seme­
a sua casa sobre a rocha; 25 e lhante. 48 É semelhante a
caiu a chuva, transbordaram os um homem que, edificando
rios, sopraram os ventos e de­ uma casa, cavou, abriu pro­
ram com ímpeto contra aquela funda vala e lançou o alicer­
casa, que não caiu, porque fora ce sobre a rocha; e, vindo a
edificada sobre a rocha. 26 E enchente, arrojou-se o rio
todo aquele que ouve estas mi­ contra aquela casa, e não a
nhas palavras e não as pratica, pôde abalar, por ter sido
será comparado a um homem bem construída. 49 Mas o
insensato, que edificou a sua que ouve e não pratica é
u - 2 7 semelhante a um homem
casa sobre a areia; e caiu a
chuva, transbordaram os rios, que edificou uma casa so­
sopraram os ventos e deram bre a terra sem alicerces, e
com ímpeto contra a casa, e ela arrojando-se o rio contra
desabou, sendo grande a sua ela, logo desabou; e aconte­
ruína.” ceu que foi grande a ruína
daquela casa.”

J esus se referiu, muitas vezes, a tempestades repentinas que transfor­


mavam o leito seco de um riacho em correntes violentas. São cenas comuns
em Israel, onde o tempo muda de repente e altera, às vezes, drasticamente
a paisagem.

31
AS PARÁBOLAS DE JESUS

As construções rurais dos dias de Jesus eram, geralmente, feitas com


barro endurecido. Os ladrões conseguiam cavar buracos através das paredes
de tais casas (Mt 6.19). Quatro homens fizeram uma abertura no teto da casa
onde Jesus estava ensinando, para por ela fazer baixar o leito onde estava
seu amigo paralítico (Mc 2.3,4). Para quem construía era uma questão de
economia construir longe de possíveis cursos de água, mesmo que essas valas
permanecessem secas por vários anos.1
O construtor prudente cscolhc um local sobre a rocha. Assim, ele não
temerá que uma chuva torrencial, provocando o súbito transbordamento de
um riacho, arraste a casa, nem receará as rajadas de vento que se abaterão
sobre ela. O alicerce da casa construída sobre a rocha resistirá.
O construtor insensato constrói sua casa como se estivesse erguendo
uma tenda. Não lhe ocorre que a casa deve ter uma estrutura mais perma­
nente. Ele edifica sua casa sobre a areia, possivelmente por causa do acesso
mais fácil a um riacho próximo. Enquanto o tempo está bom e o céu
permanece azul os ocupantes da casa nada têm a temer. Quando, quase sem
que se possa prever, o tempo muda, as nuvens se acumulam, a chuva cai, os
riachos transbordam e o vento sopra, a casa vem abaixo com grande estron­
do.
Os dois evangelistas, Mateus e Lucas, mostram algumas diferenças na
narrativa da parábola. Podemos explicar essas variações atentando para os
diferentes leitores a quem elas se destinavam. Mateus escreveu para o leitor
judeu, que vivia em Israel, enquanto Lucas levava o evangelho aos helenos,
que viviam na Ásia Menor e no Mediterrâneo. Para um judeu acostumado
com as técnicas de construção que prevaleciam no antigo Israel, a parábola
a respeito dos dois construtores se explicava por si mesma. Lucas, contudo,
não escrevia para um povo que vivia na Galiléia, ou na Judéia. Ele se dirigia
a gregos ou helenos. Por isso, Lucas substituiu por procedimentos de cons­
trução usuais entre eles, aqueles comuns em Israel2. O construtor cava,
abrindo profunda vala, e assenta o alicerce da casa sobre a rocha, descreve
Lucas. Além da diferença na maneira de construir, Lucas tinha que levar em
consideração as mudanças geográficas e climáticas. Enquanto Mateus es­
creveu sobre a chuva caindo, o riacho transbordando e o vento soprando

1. E. F. F. Bishop, em “Jesus o f Palestine” (London; Lutterworth Press, 1955), p. 86, faz


referência a casas de barro, entre Gaza e Asquelon, que tinham sido construídas bem longe
de um curso de água, para evitar que uma súbita mudança de sua direção as atingisse. Mas,
durante um inverno no deserto de Neguebe, um leito seco se encheu subitamente, mudou
seu curso, e inundou completamente um acampamento beduíno, causando a m orte de
pessoas e de gado.
2. Jeremias, Parables, p. 27. A s casas gregas eram, muitas vezes, construídas com porões
( = alicerces), o que não era comum na Palestina.

32
OS DOIS FUNDAMENTOS

forte, Lucas se referiu à enchente que veio e à força da correnteza se


arrojando contra a casa. Mateus fala de se construir sobre a areia; Lucas, de
se construir sobre a terra. Esses pormenores diferentes não alteram o
significado da parábola. O construtor é prudente quando constrói a casa
sobre base sólida.
Uma pessoa que ouve as palavras de Jesus e as pratica é como o
construtor prudente. É tolo aquele que, ouvindo palavras de Jesus, não as
obedece. Tal pessoa pode ser comparada ao construtor que constrói sua casa
sobre a areia, ou sobre a terra, sem alicerce.
Essa parábola faz eco às palavras do profeta Ezequiel. Ele descreve
uma parede frágil que é construída, a chuva torrencial, o granizo batendo
com força e a violência do vento que explode. Assim, a parede cai (Ez
13.10-16).
Ao concluir o Sermão da Montanha (Mt 5-7), ou o sermão da planície
(Lc 6), Jesus queria que seus ouvintes não apenas ouvissem, mas, também,
praticassem o que ele lhes havia dito. É insuficiente apenas ouvir as palavras
de Jesus. Aquele que crê deve aceitar a palavra de Jesus e construir sua fé
apenas nele. Jesus é o fundamento sobre o qual o homem prudente constrói.
Nas palavras de Paulo: “Segundo a graça de Deus que me foi dada, lancei o
fundamento como prudente construtor; e outro edifica sobre ele. Porém,
cada um veja como edifica. Porque ninguém pode lançar outro fundamento,
além do que foi posto, o qual é Jesus Cristo” (1 Co 3.10,11).
O prudente ouve atentamente e direciona sua vida de acordo com as
palavras de Jesus. Aquele que ouve as palavras de Jesus e não as pratica se
arruinará completamente. Não gasta tempo cavando e assentando seu ali­
cerce. Sua casa fica pronta logo e é temporariamente adequada às suas
necessidades, mas quando a adversidade chega como um furacão, a casa que
não tem Jesus como fundamento tomba, e sua ruína é completa.
Essa parábola chama a atenção, indiretamente, para o julgamento de
Deus, que todos, quer prudentes ou insensatos, terão que enfrentar. O
prudente que construiu sua fé, baseado em Jesus, está apto a resistir às
tempestades da vida. Ele permanece seguro, supera e triunfa. Nas Bem-
aventuranças, Jesus chama o pobre, o manso e o perseguido de bem-aven­
turados. Na parábola, os que construíram sobre a Rocha demonstram
firmeza em tudo que fazem. Eles ouvem a palavra de Deus e a praticam. Por
isso, nunca serão destruídos. Acreditam em Jesus e obedecem à sua palavra.

33
Meninos na Praça
Mateus 11.16-19 Lucas 731-35

31
16 “Mas, a quem hei de com­ “A que, pois, compa­
parar esta geração? E seme­ rarei os homens da presen­
lhante a meninos que, sentados te geração, e a que são eles
nas praças, gritam aos compa­ semelhantes? 3 São seme­
nheiros: lhantes a meninos que, sen­
1V
‘Nós vos tocamos flauta e tados na praça, gritam uns
não dançastes; entoamos la­ para os outros:
mentações, e não pranteastes.’ ‘Nós vos tocamos flauta, e
18 Pois veio João, que não co­ não dançastes; entoamos
mia nem bebia, e dizem: ‘Tem lamentações, e não choras-
demônio’. 19 Veio o Filho do tes.’
homem, que come e bebe, e Pois veio João Batista,
dizem: ‘Eis aí um glutão e be­ não comendo pão nem be­
bedor de vinho, amigo de pu­ bendo vinho, e dizeis: T em
blicanos e pecadores’. Mas a demônio’. Veio o Filho
sabedoria é justificada por suas do homem, comendo e be­
obras”. bendo, e dizeis: ‘Eis aí um
glutão e bebedor de vinho,
amigo de publicanos e pe­
cadores’. Mas a sabedo­
ria é justificada por todos os
seus filhos.”

J e s u s contou uma parábola interessante sobre crianças brincando


numa praça. Ele extraiu a cena diretamente do cotidiano: uma visão conhe­
cida de crianças inventando suas brincadeiras e representando-as. O “faz de

35
AS PARÁBOLAS DEJESUS

conta” podia, muito bem, ter acontecido assim: vários meninos e meninas
estavam brincando na praça, provavelmente vazia. Algumas crianças que­
riam brincar de casamento. Além da noiva e do noivo, precisavam de um
tocador de flauta, pois um grupo deveria dançar na festa. Embora o noivo e
a noiva estivessem prontos, e uma das crianças providenciasse a música de
flauta, o resto das crianças se recusou a dançar. Não estavam interessados
em brincar de casamento.
Em outro exemplo, algumas crianças queriam representar um funeral.
Uma delas tinha que se fingir de morta, enquanto outras cantavam um canto
fúnebre. O resto tinha que chorar — mas se recusaram. Não queriam
participar daquela brincadeira fúnebre. As crianças que tinham inventado
as brincadeiras sentaram-se e disseram aos outros:
Nós vos tocamos flauta,
e não dançastes;
entoamos lamentações,
e não chorastes.

Aplicação

De acordo com o evangelho de Mateus, as crianças sentadas na praça


gritam aos seus companheiros. No Evangelho de Lucas, as crianças estão
gritando umas para as outras. Na apresentação de Mateus, um grupo de
crianças é criativo e sugere duas brincadeiras diferentes a um outro grupo.1
O relato de Lucas dá a impressão de que um grupo queria representar uma
brincadeira alegre e o outro, uma triste. Nenhum dos grupos queria aceitar
a sugestão do outro. É provável, ainda, que apenas a reprovação de um dos
grupos tenha sido registrada,2 e que o uso de “uns para os outros” não deva
ser indevidamente enfatizado.
Mas, como se aplica a parábola? Basicamente, há dois modos de se
aplicar a cena que Jesus descreveu. Primeiro, as crianças que sugeriram as
brincadeiras de casamento e funeral representam Jesus e João Batista,
respectivamente. As crianças que se recusaram a brincar são os judeus. João
veio a eles de forma tão pungente quanto um canto fúnebre, mas eles não
estavam dispostos a ouvi-lo. Para se livrarem de João, diziam que estava
endemoninhado. Jesus, entretanto, veio e trouxe alegria e felicidade, contu­
1. Jeremias, em Parables, p. 161, segue a sugestão de Bishop, em Jesus of Palestine, p. 104.
Jeremias escreve: “O fato de algumas crianças estarem sentadas talvez implique que
estivessem satisfeitas em apenas se queixar e se lamentar, deixando para outros tarefas mais
cansativas”. Há, no entanto, grande perigo em se ir tão longe na interpretação do texto.
2. Marshall, Luke, p. 300.

36
MENINOS NA PRAÇA

do os judeus zombaram dele porque entrava nas casas dos marginalizados


moral e socialmente, e comia e bebia com eles.
A segunda interpretação é o oposto da primeira. As crianças que
sugeriram a brincadeira alegre do casamento e a triste do funeral são os
judeus que queriam que João fosse alegre e que Jesus se lamentasse. Quando
nenhum dos dois viveu conforme a expectativa deles, então se queixaram.
Disseram a João: “Nós vos tocamos flauta, e não •Jdançastes.” E, disseram a
Jesus: “Entoamos lamentações, e não chorastes.”
Das duas, a segunda explicação é a mais plausível. Primeiro, ela
estabelece uma ligação definida entre “os homens da presente geração” (Lc
7.31) e as crianças que faziam recriminações. Os judeus estavam desconten­
tes tanto com João Batista como com Jesus, assim como as crianças com os
seus companheiros. Segundo, ela coloca as queixas das crianças, aplicadas
a João e a Jesus, numa ordem cronológica.4 João veio como um asceta que
vivia de gafanhotos e mel silvestre — não era de seu agrado comer pão e
beber vinho —, e os judeus o acusaram de ser possuído pelo demônio. Jesus,
ao contrário, comia pão e bebia vinho, e eles o chamaram de glutão e
beberrão, amigo dos publicanos e “pecadores”. Deus enviou seus mensagei­
ros nas pessoas de João e Jesus, mas seus contemporâneos nada fizeram
senão achar faltas neles.

Paralelos

As brincadeiras que as crianças queriam brincar e suas conseqüentes


reclamações estão em consonância com o Livro de Eclesiastes, que poetica­
mente observa que há tempo para tudo. H á “tempo de chorar, e tempo de
rir; tempo de prantear, e tempo de saltar de alegria” (Ec 3.4), diz o Pregador.
Os insultos que os judeus lançaram sobre Jesus, entretanto, não eram,
de modo algum, inofensivos. Eles o acusaram de ser glutão e beberrão. Essa
era a descrição de um filho desobediente, que, de acordo com a lei de Moisés,
devia ser apedrejado até à morte (Dt 21.20,21). O relacionamento de Jesus
com os marginalizados social e moralmente, que eram olhados como após­
tatas pelos líderes religiosos, foi considerado reprovável. Por causa desse
convívio, os judeus achavam que o próprio Jesus devia ser considerado
apóstata.5

3. F. Mussner, em “D er nicht erkannte Kairos (M t 11.16-19 = Lc 7.31-35)”. Bid 40 (1959)600;


descreve todas as crianças sentadas e gritando.
4. A . Plummer, The G ospel o f Luke (ICC) (N ew York: C. Scribner & Sons, 1902), p. 163.
5. Mt 9.11; Lc 5.30; 15.1,2; 19.7.

37
AS PARÁBOLAS DE JESUS

A literatura dos rabinos apresenta um paralelo extraordinário. Embo­


ra seja difícil afirmar quando foi escrito e qual sua origem, na forma oral, o
texto é interessante:
Jeremias falou diretamente ao Santo, louvado seja Ele: Tu
enviaste Elias, de cabelos encaracolados, para agir em benefí­
cio deles, c cies riram dele, dizendo: “Olha como ele ondula
seus cabelos!”, e zombavam dele, chamando-o de “aquele dos
cabelos crespos”. E, quando Tu fizeste com que Eliseu se
levantasse para agir em benefício deles, disseram-lhe, ironica­
mente: “Sobe, calvo; sobe, calvo!”6

Conclusão

O ponto culminante dessa parábola diverge nas descrições dos dois


Evangelhos. Os relatos de Mateus e Lucas variam na frase conclusiva. “Mas
a sabedoria é justificada por suas obras” (Mt 11.19), e “Mas a sabedoria é
justificada por todos os seus filhos” (Lc 7.35). Já foi sugerido que a diferença
pode ser devida a uma expressão do aramaico, que foi mal traduzida.7
Qualquer que seja a causa, no entanto, não varia o sentido que as palavras
transmitem. A sabedoria significa a sabedoria de Deus; ela pode ser mesmo
um circunlóquio para o próprio Deus. De acordo com Mateus, as obras
divinas de Jesus (Mt 11.5) são provas da sabedoria de Deus. No evangelho
de Lucas, os filhos de Deus são testemunhas da veracidade de sua sabedoria.
Por exemplo, publicanos e mulheres sem moral, rejeitados como marginais
pelos religiosos daqueles dias, viram revelada em João Batista e em Jesus a
sabedoria de Deus. Ambos, João e Jesus, proclamaram a mensagem de
redenção - João, com toda a austeridade, no Jordão (Lc 3.12,13); e Jesus,
ao redor da mesa, em suas casas (Lc 5.30).

6. Piska 26, em W. G. Braude, Pesikta Rabbati, 2 vols. (New Haven: Yale University Press,
1968,69), 1: 526-27. V er também, SB II; 161.
7. Jeremias, Parables, p. 162. n2 44.

38
4
O SEMEADOR

Mateus 13.1-9 Marcos 4.1-9 Lucas 8.4-8


-i
Naquele mesmo 1Voltou Jesus a ensi­ 4A flu in d o um a
dia, saindo Jesus de nar à beira-mar. E reu­ grande multidão, e vin­
casa, assentou-se à niu-se a ele, numerosa do ter com ele gente de
beira-mar; 2 e gran­ multidão, de modo que todas as cidades, disse
d es m u ltid õ e s se entrou num barco, onde Jesus por parábolas: 5
reuniram perto dele, se assentou, afastando- Eis que o sem eador
de modo que entrou se da praia. E todo o saiu a semear. E, ao se­
num barco e se as­ povo estava à beira-mar, mear, uma parte caiu à
sentou; e toda a mul­ na praia. 2Assim lhes en­ beira do caminho; foi
tidão estava em pé sinava muitas coisas por pisada e as aves do céu
na praia.3 E de mui­ parábolas, no decorrer a com eram . 6 Outra
tas coisas lhes falou do seu doutrinamento. caiu sobre a pedra; e,
por parábolas, e di­ Ouvi: Eis que saiu o se­ tendo crescido, secou,
zia: Eis que o semea- meador a semear. 4E, ao por falta de umidade.
, 4
dor saiu a semear. semear, uma parte caiu O utra caiu no meio
E, ao semear, uma à beira do caminho, e dos espinhos; e estes,
parte caiu à beira do vieram as aves e a come­ ao crescerem com ela,
caminho, e, vindo as ram . 5O utra caiu em a sufocaram. 8Outra,
aves, a comeram. 5 solo rochoso, onde a ter­ afinal, caiu em boa ter­
Outra parte caiu em ra era pouca, e logo nas­ ra; cresceu e produziu
solo rochoso onde a ce u , visto n ão ser a cem por um. Dizendo
terra era pouca, e profunda a terra. 6Sain- isto, clam ou: Q uem
logo nasceu, visto do, porém, o sol a quei­ tem ouvidos para ou­
não ser profunda a mou; e porque não tinha vir, ouça.
terra. 6 Saindo, po- raiz, secou-se. 7Outra

39
AS PARÁBOLAS DE JESUS

rém, o sol a quei­ parte caiu entre os espi­


mou; e porque não nhos; e os espinhos cres­
tinha raiz, secou-se. ceram e a sufocaram,o
e
Outra caiu entre os não deu fruto. Outras,
espinhos, e os espi­ enfim, caíram em boa ter­
nhos cresceramo
e a ra, e deram fruto que vin­
sufocaram. Outra, gou c cresccu, produzindo
enfim, caiu em boa a trinta, a sessenta e a cem
terra, e deu fruto: a por um. 9E acrescentou:
cem, a sessenta e a Quem tem ouvidos para
tr i n t a p o r um . ouvir, ouça.
9Quem tem ouvidos
(para ouvir), ouça.

Composição

Em nossas sociedades industrializadas, a agricultura tem-se preocu­


pado sempre com a produção de alimentos. Cultivar a terra não é simples­
mente um meio de vida; ao contrário, tornou-se um modo de ganhar a vida.
A moderna tecnologia tem sido amplamente aplicada a métodos de cultivo,
de tal modo que o agricultor se tornou um técnico em diversas áreas — um
especialista na aplicação de fertilizantes, herbicidas e inseticidas — e um
homem de negócios que conhece o custo da produção, o valor de seu produto
e a situação do mercado.
Quando Jesus ensinou a parábola do semeador a seus ouvintes na
Galiléia, eles podiam, literalmente, ver o agricultor lançando a semente nos
campos próximos, durante o mês de outubro. O evangelista não nos diz
quando Jesus contou a parábola, mas pode muito bem ter sido na ocasião
em que o semeador saiu para semear. As multidões (de acordo com Mateus,
grandes multidões) tinham vindo até à praia, à margem noroeste do Lago da
Galiléia. Talvez chegassem a milhares. Para se dirigir a tamanha multidão,
Jesus usou um púlpito flutuante, sentando-se num barco, muito provavel­
mente afastado da praia.1 Desse modo, a superfície da água refletia sua voz
que, num dia calmo, podia alcançar seus ouvintes à distância. Aquele
ambiente natural funcionava mais eficientemente que os atuais sistemas
usados para a comunicação com o público.
Jesus não precisava explicar as atividades do lavrador. Eles, talvez, o
estivessem vendo, à distância, no trabalho, semeando grãos de trigo e cevada.
Provavelmente haviam passado ao lado de seu campo, no caminho para a

1. W. Neil, “Expounding The Parables”, Exp T 78 (1965): 74.

40
O SEMEADOR

praia. Na sociedade agrícola daqueles dias, muitos dos que ali estavam eram
donos de terra, ou já haviam trabalhado no seu cultivo.
Cultivar a terra era relativamente fácil nos dias dc Jesus. Embora a
parábola não nos conte nada a respeito de métodos dc cultivo, aprendemos
no Velho Testamento (Is 28.24,25; Jr 4.3 e Os 10.11,12) c nos escritos dos
rabinos que, no final de um longo e quente verão, o fazendeiro ia para o
campo semear trigo e cevada sobre o solo endurecido. Ele arava a terra para
cobrir a semente e esperava que a chuva de inverno viesse fazer germinar os
grãos.2
Na parábola de Jesus, o lavrador partiu para o campo levando seu
suprimento de grãos numa bolsa que trazia a tiracolo. Com passos ritmados,
lançava as sementes em faixas, pelo campo. Não se preocupava com os
poucos grãos que caíam à beira do caminho, nem com aqueles que eram
lançados em terra pouco profunda, onde as rochas despontavam. Também
não se preocupava com o trigo caído entre os espinheiros que cresceriam na
primavera, abafando as sementes. Para o lavrador, tudo aquilo fazia parte
de seu dia de trabalho.
A descrição é corriqueira e precisa. O lavrador não podia impedir que
os grãos caíssem em solo duro. Cedo ou tarde viriam as aves e os comeriam.
Alguns pássaros comeriam até mesmo as sementes lançadas no campo.
Acontecia comumente. Também, pouco ele podia fazer a respeito das
rochas. Assim era a terra. Ele havia tentado acabar com os espinheiros
arrancando suas raízes, mas estes teimavam em renascer.
A expectativa do lavrador estava no tempo da ceifa, quando iria colher.
Um lucro médio, naqueles dias, podia ser menos que dez por um.3 Se tivesse
um retorno de trinta por um, ou uma colheita mais favorável que rendesse
sessenta por um, seria um acontecimento excepcional. Muito raramente,
talvez, ele conseguiria colher a cem por um (Gn 26.12). Resumindo, o
semeador não estava interessado nos grãos que perdia enquanto semeava.
Sua esperança estava no futuro, na colheita, que ele esperava com ansiedade.
Nenhum dos ouvintes de Jesus discordou dele. Mas, o clímax da
história deve ter surpreendido seus ouvintes: em vez de uma colheita normal

2. J. Jeremias, “Palàstinakundliches zum Gleichnis vom Sãemann”, NTS 13 (1967): 48-53. Ver
também Parables, p. 12.
3. Jeremias. “Palàstinakundliches”, p. 53; ver, também, K. D . White, “The Parable o f the Sower:,
JTS 15 (1964): 300-7; P. B. Payne, “The Order o f Sowing and Ploughing” NTS 25 (12978):
123-29. Os ensinos do Velho Testamento (A m ós 9.13; Jeremias 31.27; Ezequiel 36.29,30) e,
os ensinos dos escritos dos rabinos e das pseudo epígrafes parecem ser o de que a terra
produzirá fruto em abundância, na era Messiânica. N. A. Dahl, “The Parables o f Growth”,
StTh 5 (1951): 153; SB, IV: 880-90.

41
AS PARÁBOLAS DE JESUS

com um lucro de dez vezes, Jesus falou de um retorno de cem por um. O
ponto principal da história é, portanto, uma colheita abundante.

Propósito

A parábola do semeador é uma das poucas encontradas nos três


Evangelhos Sinóticos. Quando incorporaram a história de Jesus a respeito
do lavrador semeando e colhendo, cada um dos escritores dirigiu-se a seus
próprios leitores. Mateus, Marcos c Lucas, obviamente, colocaram a pará­
bola no contexto de seus respectivos Evangelhos para mostrar o ponto
central do ensino de Jesus.
No Evangelho de Mateus, o capítulo 13 é precedido por um relato a
respeito do ministério de Jesus no âmbito de cura (capítulos 8 e 9). Con­
cluindo essa parte, Mateus registra que Jesus ensinava nas sinagogas, pre­
gava as boas-novas do reino, e curava todos os tipos de doenças e
enfermidades (9.35). Então, ele olhou para as multidões, e porque não
tinham quem as orientasse espiritualmente, teve compaixão delas. Ele as
comparou a ovelhas sem pastor. “E então se dirigiu a seus discípulos: A seara
na verdade é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao
Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara” (9.37,38). No
capítulo 10, Mateus registra como Jesus enviou os doze apóstolos, comissio­
nados para buscar as ovelhas perdidas de Israel. Mas Jesus advertiu os
discípulos sobre rejeição, perseguição e morte. Eles encontrariam oposição,
hostilidade constante e correriam risco de vida. Mateus volta ao mesmo
assunto nos dois capítulos seguintes. As multidões tinham seguido João
Batista, mas o povo dizia que ele tinha demônio. Sobre Jesus, diziam que era
glutão e beberrão, amigo de publicanos e “pecadores” (11.19). Em Corazim,
Betsaida, e Cafarnaum o povo se recusou a se arrepender e a crer em suas
palavras. Parecia que Jesus tinha semeado em terra pouco profunda, e que
as sementes por ele lançadas não tinham germinado. Ainda assim, apesar
das dúvidas de João Batista (11.3), da descrença dos galileus (11.21,23) e da
hostilidade dos líderes religiosos (12.2,24,38), o reino de Deus se instalou e
prosperou. As pessoas que fazem a vontade de Deus são parte e parcela do
reino. São o irmão, a irmã e a mãe de Jesus (12.50).
Neste ponto, Mateus apresenta a parábola do semeador. A estrutura
da redação do relato evangélico revela a mão habilidosa de um arquiteto
literário.4 O evangelista preparou a cena para a parábola do semeador. O
objetivo é alertar seus leitores para a inesperada colheita arrecadada no
reino de Deus.

4. H. N. Ridderbos, Studies in Scripture and Its Authority (St. Catharines: Paideia Press, 1978),
p. 50.

42
O SEMEADOR

De outro lado, Marcos parece enfatizar o ministério no âmbito do


ensino, de Jesus ao longo das praias do Lago da Galiléia. Ele começa a
passagem, dizendo: “Voltou Jesus a ensinar à beira-mar” (4.1). Enquanto
Mateus omite a referência ao fato de Jesus ter-se assentado num bote, “à
beira-mar”, Marcos se refere ao lago por, pelo menos, três vezes, no versículo
introdutório. Marcos informa a seus leitores que, uma vez mais, Jesus se
encontrou com uma grande multidão, junto ao mar (vejam-se 2.13 e 3.7). Ele
intercala três parábolas de seu evangelho (o semeador, a semente germinan­
do e o grão de mostarda) nesse ponto de sua narrativa para indicar o lugar
onde foram ensinadas, a quem Jesus se dirigia, e o propósito delas.
O escritor do terceiro Evangelho expõe uma versão abreviada da
parábola do semeador e a coloca em um contexto sobre a aceitação e a
rejeição. As palavras e os feitos de Jesus foram prontamente aceitos pelas
pessoas comuns, pelos coletores de impostos, mulheres de má fama e outros
(7.29,37; 8.1-3), mas encontraram firme oposição da parte dos fariseus e dos
intérpretes da lei (7.30,39). A versão de Lucas da parábola difere pouco das
de Mateus e Marcos, embora seja muito mais curta e mostre alguma dife­
rença de vocabulário. “Essas mudanças mostram que Lucas ou a tradição
oral se sentiram à vontade para modificar pormenores na narração da
história, coisa que os modernos pregadores costumam fazer quando tornam
a contar as parábolas.”5

Mateus 13.18-23 Marcos 4.13-20 Lucas 8.11-15

18“A ten d e i vós, 13“Então lhes pergun­ 11“Este é o senti­


pois, à parábola do tou: Não entendeis esta do da parábola: A
semeador. 19A todos parábola, e como com- semente é a palavra
os que ouvem a pala­ preendereis todas as pa­ de D eus. 1 A que
vra do reino, e não a rábolas? 140 semeador caiu à beira do cami­
compreendem, vem semeia a palavra. 15São nho são os que a ou­
o maligno e arrebata estes os da beira do ca­ viram; vem a seguir o
o que lhes foi semea­ minho, onde a palavra é diabo e a rre b a ta -
do no coração. Este semeada; e, enquanto a lhes do coração a pa-
é o que foi semeado ouvem, logo vem Satanás la v ra , p a r a n ão
à beira do caminho. e tira a palavra semeada suceder que, crendo,
20O que foi semeado n e le s. ^Sem elhante­ sejam salvos. 13A
em solo ro ch o so , mente são estes os se­ que caiu sobre a pe­
esse é o que ouve a m ead o s em solo dra são os que, ou­
palavra e a recebe rochoso, os quais, ouvin- vindo a palavra, a
5 . 1. H. Marshall, “Tradition and Theology in Luke”, Tyn H Buli 20 (1969); 63.

43
AS PARÁBOLAS DE JESUS

logo, com alegria; do a palavra, logo a rece­ recebem com alegria;


21mas não tem raiz bem com alegria. 17Mas estes não têm raiz,
em si mesmo, sendo eles não têm raiz em si crêem apenas por al­
antes de pouca dura­ mesmos, sendo antes de gum tempo, e na hora
ção; em lhe chegan­ pouca duração; cm lhes da provação se des­
do a angústia ou a chegando a angústia ou a viam. 14A que caiu en­
p e r s e g u iç ã o p o r perseguição por causa da tre espinhos são os que
causa da palavra, palavra, logo sc escandali­ ouviram e, no decorrer
logo se escandaliza. zam. 18Os outros, semea­ dos dias, foram sufo­
O que foi semeado dos entre os espinhos, são cados com os cuida­
entre os espinhos é o os que ouvem a palavra, d o s, riq u e z a s e
que ouve a palavra, 19mas os cuidados do mun­ deleites da vida; os
porém os cuidados do, a fascinação da riqueza seus frutos não che­
do mundo e a fasci­ e as demais ambições, con­ gam a am ad u rece r.
nação das riquezas correndo, sufocam a pala­ 5A que caiu na boa
sufocam a palavra, e vra, ficando ela infrutífera. terra são os que, tendo
fic a in fru tífe ra . 20Os que foram semeados ouvido de bom e reto
Mas o que foi se­ em boa terra são aqueles coração, retêm a pala­
meado em boa terra que ouvem a palavra e a vra; estes frutificam
é o que ouve a pala­ recebem , frutificando a com perseverança.”
vra e a compreende: trinta, a sessenta e a cem,
este frutifica, e pro­ por um.”
duz a cem, a sessenta
e a trinta por um.”

A parábola do semeador é uma das poucas que Jesus explicou a seus


discípulos e a outros que estavam junto dele. À primeira vista, a parábola
parece não necessitar de explicação, mas, na realidade, precisa ser aplicada
para que possa ser entendida espiritualmente. A pergunta inicial dos discí­
pulos: “Por que lhes falas por parábolas?” recebe uma resposta que não é
prontamente entendida. Jesus diz: “Porque a vós outros é dado conhecer os
mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isto concedido. Pois ao
que tem se lhe dará, e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que
tem lhe será tirado. Por isso lhes falo por parábolas; porque, vendo, não
vêem; e, ouvindo, não ouvem nem entendem.” (Mt 13.11-13).
Notamos que os discípulos perguntam por que Jesus fala ao povo por
parábolas, e que ele responde por que lhes fala por parábolas. Marcos dá
ainda mais ênfase à distinção entre nós e eles, registrando: “Aos de fora se
ensina por meio de parábolas” (4.11).
O que, precisamente, queria Jesus dizer ao se referir aos “mistérios do
reino”? Se Jesus é o Grande Mestre ( = Rabi), esperamos que ele ensine
44
O SEMEADOR

verdades espirituais numa linguagem simples. Seria difícil crer que Jesus,
adotando uma determinada maneira de falar, pretendesse ocultar o seu
ensino das multidões, e, ainda assim, falar dos mistérios do reino.
Os documentos de Cunrã se referem ao papel do Mestre da Justiça,
comissionado para revelar os mistérios divinos. Além disso, o Mestre deveria
instruir seus discípulos sobre a revelação por ele recebida de Deus.6 Jesus
trouxe revelação divina ao ensinar a seus discípulos os segredos do reino dos
céus. Os outros, aqueles que não faziam parte do círculo mais restrito dos
discípulos de Jesus (quer dizer, os de fora), não tinham a compreensão do
reino como o tinham os seguidores mais próximos de Jesus.7
Jesus, indiretamente, se refere à exigência do novo nascimento espiri­
tual para a entrada no reino de Deus (Jo 3.3-5). Em outras palavras, a
capacidade e o privilégio de discernir os segredos do reino foram dados aos
discípulos. Aos de fora, esse privilégio não foi concedido.8
As multidões a quem Jesus se dirigia são referidas como “eles”. Isso,
em si mesmo, não surpreende em vista dos ais proferidos por Jesus às cidades
impenitentes de Corazim, Betsaida e Cafarnaum (Mt 11.20-24). Jesus rece­
bia oposição constante dos anciãos, escribas, fariseus e de toda a hierarquia
religiosa. Mateus parece ter empregado um termo simples para os judeus
que cercavam Jesus — são, apenas, “eles”.9
Entretanto, os segredos do reino não devem permanecer escondidos
para sempre. Marcos acrescenta as seguintes palavras à explicação de Jesus
sobre a parábola do semeador: “Pois nada está oculto, senão para ser
manifesto; e nada se faz escondido, senão para ser revelado” (4.22).10 A
verdade que Jesus proclama por meio das parábolas é entregue àqueles que
vêem e compreendem.

6. F. F. Bruce, Second Thoughts on the Dead Sea Scrolls (London: Paternoster Press, 1956), p.
101.
7. B. Van Elderen, “The Purpose of the Parables According to Matthew 13.10-17”, em New
Dim ensions in Evangelical New Testament Studies, ed. R. N. Longenecker e M. C. Tenney
(Grande Rapids: Zondervan, 1974), p. 185.
8. W. Hendriksen, The G ospel of Mattew (Grand Rapids: Baker Book H ouse, 1973), p. 553. J.
R. Kirkland rejeita essa explicação e afirma que pessoas esclarecidas e eruditas vêem a
verdade escondida nas parábolas, mas os menos inteligentes e menos perspicazes, não. Veja
seu “The Earliest Understanding of Jesus’ Use o f Parables: Mark IV 10-12 in Context”, Novt
19 (1977): 13. A proposição de Kirkland desaparece diante da oração de Jesus: “Graças te
dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas cousas aos sábios e entendidos,
e as revelaste aos pequeninos.” (Mt 11.25).
9. J. D. Kingsbury, The Parables o f Jesus in Matthew 13 (Richmond: John Knox Press 1969), p.
13.
10. Kirkland, “Earliest Understanding”, pp. 16-20.

45
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Mateus, em contraste, diz que aquele que tem receberá em abundân­


cia, e o que não tem, até o que tem lhe será tirado (13.12). Escrevendo para
os judeus, Mateus deixa implícita a idéia de que os judeus, a quem não fora
dada a percepção espiritual, e que rejeitam as palavras de Jesus, devem
abandonar o entendimento que têm dos ensinos do Velho Testamento, a
respeito do reino de Deus. Pois, sem uma compreensão espiritual desses
ensinamentos, os oráculos do Velho Testamento perdem o seu significado.
Assim, mesmo que eles (os judeus) vejam, não vêem; ainda que ouçam, não
ouvem e não entendem (Mt 13.13).
Todos os evangelistas citam as palavras de Isaías 6.9,10 —
De sorte que neles se cumpre a profecia de Isaías:
“Ouvireis com os ouvidos, e de nenhum modo entendereis;
vereis com os olhos, e de nenhum modo percebereis. Porque
o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram
com os seus ouvidos, e fecharam os seus olhos; para não
suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos,
entendam com o coração, se convertam e sejam por mim
curados.” (Mt 13.14,15)
Os três evangelistas Sinóticos parecem empregar a citação de Isaías
para expressar a razão pela qual aqueles que tinham endurecido seus
corações perderão, até mesmo, sua herança espiritual.11 Outros comenta­
ristas interpretam o uso de Isaías 6.9,10 como lição ou advertência quanto
aos resultados de um coração empedernido.12
Dos três evangelistas Sinóticos, Marcos apresenta o relato completo
da interpretação da parábola feita por Jesus.13 Ele inclui uma recriminação
de Jesus: “Não entendeis esta parábola?” (4.13). Por implicação, Marcos
indica que a parábola do semeador é única. Talvez o fato desta parábola ter
sido uma das poucas que foram explicadas por Jesus, lhe dê um significado
especial. Mas, as palavras de recriminação também indicam que os discípu­
los, cujos corações eram esclarecidos, deveriam ter entendido o sentido
básico da parábola.
O relato de Mateus é mais preciso em sua composição. Foi Mateus
quem deu o título dessa parábola à igreja: parábola do semeador. E é o
11. Hendriksen, Mark, p. 154.
12. Marshall, Luke, p. 323.
13. B. Gerhardsson, em “The Parable o f the Sower and Its Interpretation”, NTS 14 (1967-68):
192, conclui que a parábola e sua interpretação caminham juntas como a m ão e a luva. “Se
a parábola — na forma como a conhecemos — veio de Jesus, também sua interpretação”.
Veja C. F. D. Moule, “Mark 4.1-20. Yet once more”, Neotestamentica et Semitica (1969):
95-113.

46
O SEMEADOR

Evangelho de Mateus que estabelece um tom pedagógico, com uniformida­


de de estilo e frases simétricas de efeito.
Mas, antes de iniciarmos a interpretação da parábola propriamente
dita, devemos observar que a imagem usada por Jesus é retratada, também,
em 2 Esdras 9.30-33:
Disseste: “Ouvi, Israel: atentai para as minhas palavras, raça
de Jacó. Esta é a minha lei, que eu semeei entre vós, para que
dê fruto e vos traga glória para sempre”. Mas, nossos pais que
receberam tua lei não a guardaram; não observaram os teus
mandamentos. Não que o fruto da lei tenha perecido; isto é
impossível, pois tu és a lei. Os que a receberam pereceram,
porque deixaram de guardar a boa semente, que neles foi
semeada.14
Nos dias de Jesus o verbo “semear” podia ser empregado metaforica­
mente, com o sentido de “ensinar”. Podemos presumir que esta era a
maneira de falar nas sinagogas locais. A formulação e a interpretação de
Jesus da parábola do semeador combinam muito bem com o padrão de
linguagem da época.
O que nos surpreende na interpretação da parábola é a ausência de
certos fatores. O primeiro deles é a figura do semeador. Apesar de ser
mencionada apenas como meio de introdução da parábola, sua presença na
interpretação, embora presumida, não é explicada. Em vez disso, a ênfase
cai sobre a semente que é lançada. Lucas chama a semente de “a palavra de
Deus”; Marcos a chama simplesmente de “palavra”. E Mateus, em vista da
citação de Isaías, diz, por implicação: “A todos os que ouvem a palavra do
reino, e não a compreendem, vem o maligno e arrebata o que lhes foi
semeado no coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho” (13.19).
Embora pudéssemos esperar alguma referência à chuva, que obviamente
aumentaria a colheita, nada é dito (veja, por exemplo, Dt 11.14,17).15 Ne­
nhuma menção é feita ao trabalho árduo de arar o campo, embora seja claro
que foi parte do processo. A provisão de chuva por parte de Deus e o esforço
do homem no trabalho do campo não têm nenhuma significação na constru­
ção e interpretação da parábola.
A ênfase da parábola são os altos e baixos por que passa o lavrador em
seu trabalho de cultivar a terra.16 Ele pode perder parte do que plantou,
neste exemplo por três vezes, mas na colheita final tem uma safra abundante.
14. N ew English Bible, The Apocrypha (Oxford, Cambridge: Oxford and Cambridge Univers-
tity Press. 1970).
15. Gerhardsson, “Parable o f the Sower”, p. 187.
16. C. H. Dodd, The Parables of the Kingdom (London: Nesbit and Co., 1935), p. 182.

47
AS PARÁBOLAS DEJESUS

Aplicação

Quando mencionou pormenores, tais como a beira do caminho, os


lugares rochosos e os espinhosos, Jesus, evidentemente, pretendia aplicar a
lição da semente e do solo às pessoas que ouviam a mensagem do reino
(Mateus), a Palavra de Deus (Lucas). Mateus usa O presente do particípio
grego, referindo-se aos que são chamados a ouvir e receber a Palavra de
Deus. A passagem explica também como a Palavra de Deus é ouvida por
quatro diferentes tipos de ouvintes.17
Mateus, bem como Lucas, apresentam a palavra coração. “Vem o
maligno e arrebata o que lhes foi semeado no coração” (13.19). A Palavra
de Deus alcança o coração daquele que a ouve, mas antes que a Palavra
possa produzir qualquer efeito, o maligno (Mateus), Satanás (Marcos), ou
o diabo (Lucas) vem e a arrebata. Na parábola, os pássaros descem à beira
do caminho e devoram os grãos. Diz Marcos: “São estes os da beira do
caminho, onde a palavra é semeada; e, enquanto a ouvem, logo vem Satanás
e tira a palavra semeada neles” (4.15). Poderíamos dizer: “entra-lhes por um
ouvido e sai pelo outro”. Algumas pessoas ouvem polidamente o evangelho,
e só. O evangelho não tem valor para elas, pois seus corações são endurecidos
como os caminhos pisados, à beira das plantações. Ignoram completamente
o resumo da lei de Deus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu
coração...” (Mt 22.37).
De início, parece que uma semente lançada em solo rochoso brota
muito facilmente. As rochas, aquecidas no verão, desprendem, pouco a
pouco, nos meses de inverno, o calor armazenado. Há chuva suficiente e o
calor e a umidade fazem germinar, prontamente, o grão. Os brotos verdes
despontam rapidamente, e enquanto o resto do campo está ainda árido e
infrutífero, apresentam um espetáculo impressionante. O olho treinado do
lavrador vê a diferença. Ele sabe que a aparência das hastes verdes no solo
rochoso é enganosa. Quando cessarem as chuvas e o sol da primavera chegar
esquentando a terra, as plantas murcharão. Elas não têm, no solo, raízes
profundas capazes de suprir a planta de água. Elas definharão e morrerão.
Na interpretação desse segmento da parábola, tanto Mateus como
Marcos destacam o aspecto do imediatismo. “Semelhantemente são estes os
semeados em solo rochoso, os quais, ouvindo a palavra, logo a recebem com
alegria. Mas eles não têm raiz em si mesmos, sendo antes de pouca duração;
em lhes chegando a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se
escandalizam” (Mc 4.16,17). O imediatismo é ressaltado na rápida germina­
ção do grão lançado em terreno rochoso.

17. Gerhardsson, “Parable of the Sower”, p. 175.

48
O SEMEADOR

Enquanto Mateus e Marcos atribuem a apostasia às dificuldades e à


perseguição, Lucas fala em “hora da provação” (Lc 8.13). Os evangelistas se
referem ao sofrimento que faz com que as pessoas mudem de opinião sobre
a religião. Quando chega a hora de tomar posição e pagar o preço, mudam
de interesse e se desligam da fé que uma vez abraçaram com alegria. Uma
palavra define essas pessoas: superficialidade. O sol, geralmente considerado
fonte de felicidade e alegria, é retratado aqui em termos de angústia e
perseguição.18 A razão desse aparente rigor é a falta de umidade. O justo,
por outro lado, floresce como uma árvore plantada junto a corrente de águas
(SI 1.3). Ao leviano falta convicção, coragem, estabilidade e perseverança.
Ele é influenciado por qualquer vento de doutrina que sopre em seu cami­
nho. Porque não tem profundidade, sua vida espiritual tem significação
passageira.
A semente lançada entre os espinhos parece ter maior probabilidade
de crescer e de se desenvolver do que aquela que foi lançada em solo pouco
profundo. Primeiro, após um período de germinação, as plantas começam a
brotar. De fato, por ocasião da primavera parecem viçosas e não se diferen­
ciam das outras. Mas, quando o calor do sol se torna mais forte e aquece a
terra, as raízes dos espinheiros e dos cardos renascem. Depois de descansa­
rem durante o inverno, estão prontas para uma nova estação, e em questão
de semanas os espinhos e os cardos já ultrapassaram o trigo em altura. Elas
o privam da umidade e dos nutrientes da terra e, literalmente, o sufocam até
à morte.
O solo em que a semente foi lançada não é duro como o chão pisado
da beira do caminho, nem raso e rochoso. Ele é, antes, um solo bom — fértil
e úmido. O único problema é que aquele chão tem outros residentes perm a­
nentes, outras raízes. A semente lançada em terra fértil e úmida terá, muito
breve, que disputá-la com raízes que crescem e se desenvolvem abaixo do
solo, e com verdejantes cardos e espinhos à superfície. Resumindo, dois tipos
de plantas estarão lutando por um lugar ao sol e vencerá aquela que assentou
suas raízes antes e mais profundamente.
“Os outros, os semeados entre os espinhos, são os que ouvem a palavra,
mas os cuidados do mundo, a fascinação da riqueza e as demais ambições,
concorrendo, sufocam a palavra, ficando ela infrutífera” (Mc 4.18,19). O
homem que leva uma vida dupla — religião aos domingos e vida sem religião
durante a semana — logo descobrirá que “os cuidados do mundo, a fascina­
ção da riqueza e as demais ambições” vencerão, e sua fé se tornará sem valor.
A mensagem do evangelho não pode florescer e dar fruto; ao contrário, ela
é sufocada pelos cuidados do mundo. Esse homem tem levado uma vida

18. Jülicher, Gleichnisteden, 2: 528.

49
AS PARÁBOLAS DE JESUS

dupla, desde o início. Encontrou segurança na riqueza e no que possui.


Relegou, propositadamente, sua fé a um lugar secundário. Ele é o homem
que colhe espinhos e cardos e, eventualmente, apenas espinhos e cardos.
Mesmo o que tem lhe é tirado.
Estas três representações do campo não devem desencorajar o lavra­
dor. Do mesmo modo, as três descrições das pessoas cuja fé se tornou
infrutífera não devem desanimar o crente verdadeiro. A semente que foi
lançada em boa terra produziu colheita abundante. As pessoas que respon­
dem com fé ao evangelho são inumeráveis, multidões incalculáveis. “Mas o
que foi semeado em boa terra é o que ouve a palavra e a compreende; este
frutifica, e produz a cem, a sessenta e a trinta por um” (Mt 13.23).19 Marcos
apresenta uma ordem ascendente de a trinta, a sessenta e a cem por um.”
Lucas, na parábola propriamente dita, apenas cita que “produziu a cem por
um”, mas na interpretação, diz: “A que caiu na boa terra são os que, tendo
ouvido de bom e reto coração, retêm a palavra; estes frutificam com perse­
verança” (8.15). Onde Lucas usa “retêm”, Marcos usa “recebem” e Mateus,
“compreende”.
Quem é, então, aquele que possui um coração reto e bom? Mateus
responde: “o que ouve a palavra e a compreende”. Mateus, naturalmente,
tem em mente a citação de Isaías. O homem reto de coração faz a vontade
de Deus e, ouvindo o chamado de Deus — “a quem enviarei?” —, responde
confiante: “Envia-me a mim, ó Senhor”. Ele é aquele que ouve e pratica a
Palavra. Ele compreende porque seu coração é receptivo à verdade de Deus.
Todo o seu ser — vontade, mente e emoção — é tocado pela Palavra. Há
um crescimento espiritual, e aquele que crê frutifica; ele faz a vontade de
Deus.20
O que a parábola ensina? Alguns estudiosos têm chamado a parábola
do semeador de parábola das parábolas. Isso não significa que tenha maior
destaque nos Evangelhos Sinóticos, mas, antes, que ela contém quatro
parábolas em uma. Embora todas as quatro sejam apenas aspectos de uma

19. The G ospel o f Thomas, trans. B. M. Metzger, Citação 9, afirma o seguinte: “Jesus disse:
Eis que o sem eador saiu para semear, encheu sua mão e semeou (a sem ente). Algumas
(sem entes) caíram no caminho. Os pássaros vieram e as apanharam. Outras caíram sobre
as rochas e não lançaram raízes para a terra nem espigas para o céu. E outras caíram entre
espinhos. Eles abafaram as sem entes e os vermes as comeram. E outras caíram em boa
terra, e lançaram bom fruto para o céu. Produziram sessenta por um e cento e vinte por
um.” É óbvio que o escritor do Evangelho de Tom é fundiu a parábola do sem eador num
molde gnóstico. A razão porque o escrito conclui a parábola com “cento e vinte por um”
pode muito bem ter sido pelo fato de que ele acreditava ser o número 12 o número da
perfeição. Veja H. M ontefiore e H. E. W. Tum er, Thomas and the Evangelists (London:
SCM Press, 1962), p. 48.
20. Kingsbury, Parables o f Jesus, p. 62.

50
O SEMEADOR

verdade particular: a Palavra de Deus é proclamada e ocasiona uma divisão


entre os que a ouvem; o povo de Deus recebe a Palavra, a compreende, e
obedientemente a cumpre; outros deixam de ouvir pela dureza de seus
corações, por serem basicamente superficiais, ou por interesse em riquezas
e posses. Essas pessoas não frutificam e, espiritualmente falando, até aquilo
que têm lhes será tirado. A parábola, portanto, atinge aqueles que realmente
fazem parte da igreja e os que estão “à margem”. Este é o tom principal da
parábola. Todos os seus pormenores fazem convergir, para esse ponto, o
foco da atenção. A proclamação fiel do evangelho nunca deixará de produzir
fruto, “trinta, sessenta ou mesmo cem vezes o que foi semeado”.

51
5
A Semente Germinan­
do Secretamente
Marcos 4.26-29
26“Disse ainda: O reino de Deus
é assim como se um homem lan-
çasse a semente à terra, depois
dormisse e se levantasse, de noite
e de dia, e a semente germinasse e
crescesse, não sabendo ele como.
A terra por si mesma frutifica,
primeiro a erva, depois a espiga, e,
por fim, o grão cheio na espiga. 29E
quando o fruto já está maduro,
logo se lhe mete a foice, porque é
chegada a ceifa.”

O Evangelho de Marcos não é conhecido por suas dissertações; ao


contrário, em sua narrativa o autor retrata Jesus como um homem de ação.
Mesmo assim, o evangelista apresenta material didático, como a preleção
sobre os sinais do final dos tempos (capítulo 4). Marcos não está interessado
em aumentar o número de parábolas. Ele parece ter feito uma seleção do
material que tinha à disposição.1 Escolheu as parábolas do semeador, da
1. Veja-se, por exemplo, Marcos 4.2,10,13 e 33, onde o plural ‘parábolas’ é usado consistente-
mente.

53
AS PARÁBOLAS DE JESUS

semente germinando secretamente e do grão de mostarda. Essas parábolas


obviamente detalham o plantio da semente, a germinação e o amadureci­
mento, a ceifa e a colheita.2 Marcos usa as parábolas para ilustrar a natureza
do reino de Deus como foi ensinada por Jesus.

Composição

Por falta de alguns pormenores, a história da semente germinando


secretamente é, em si mesma, de algum modo, simplista. Nada é dito a
respeito da preparação do solo, da chuva caindo, da extração da erva
daninha, ou da fertilização. A vida do lavrador parece semelhante à da
semente plantada: dormir à noite e despertar pela manhã. Ao chegar o
tempò da colheita, o fruto maduro é ceifado.
A parábola deixa de lado os detalhes por mais significativos que
possam ser e coloca ênfase na semeadura, na germinação e na ceifa. Não
devemos pensar que o fazendeiro passe seu dia ociosamente. Naturalmente
que não; ele tem trabalho pesado para ser feito. Lavrar a terra, fertilizá-la e
limpá-la das ervas daninhas toma muito de seu tempo. Além das tarefas
diárias, ele tem que cuidar das compras e das vendas, planejar e preparar a
colheita. Tudo isso está subentendido e dado como certo na parábola.
Observamos, também, que Deus providenciará a chuva necessária. Ele
controla os elementos da natureza.
Este é exatamente o ponto. Desde o momento em que lança a semente,
o lavrador deve confiar a Deus a germinação, o crescimento, a polinização
e a maturação. Ele pode descrever o processo da germinação do trigo, mas
não pode explicá-lo. Depois que a semente foi semeada, ela absorve a
umidade do solo, incha e brota. Após uma semana ou duas, as primeiras
hastes aparecem na superfície; gradualmente as plantas começam a lançar
rebentos, ganham altura e desenvolvem as espigas. Então, quando a planta
morre, sua cor muda do verde para o dourado; o grão amadurece e é chegada
a hora da ceifa. O fazendeiro não pode explicar esse crescimento e desen­
volvimento.4 Ele é apenas um trabalhador que no tempo certo semeia e
colhe. Deus guarda o segredo da vida. Deus mantém o controla.
2. Lane, Mark, p. 149.Ridderbos, em Corning o f the Kingdom, p. 142, é de opinião que Marcos
escolheu essas três parábolas para ensinar “o significado positivo da demora do julgam ento.”
3. Q uando Marcos escreve que a terra “por si mesma” produz o grão ele não quer dizer que o
solo produz a colheita sem a provisão de Deus, mas que a ajuda do fazendeiro não é necessária
no processo de germinação do grão. W. Michaelis, D ie Gleichnisse Jesu (Hamburg: Furche-
Verlag, 1956), p. 38. Além disso, a ênfase na produção do grão não deve ser colocada sobre
o solo, nem na própria semente. R. Stuhlmann “Beobachtungen zu Markus IV. 26- 29", NTS
19 (1972-73): 156.
4. Jülicher, Gleichnisreden, 2: 540.

54
A SEMENTE GERMINANDO SECRETAMENTE

Interpretação

A parábola da semente germinando secretamente só é encontrada no


Evangelho de Marcos. Mateus e Lucas não se referem a ela, e não temos
maiores informações do que as encontradas nesses versículos de Marcos
4.26-29. A parábola é introduzida pela sentença: “O reino de Deus é assim.”
Há várias interpretações dessa parábola. Alguns comentaristas expli­
cam o relato alegoricamente: Cristo semeou e na ocasião certa virá para a
ceifa; o resto da parábola se refere ao trabalho invisível do Espírito Santo na
igreja e na alma. Outros têm destacado um dos seguintes fatores: a semente,
o período de amadurecimento, a ceifa; ou o contraste entre semear e ceifar.
Certamente, todas essas interpretações — mesmo as alegóricas (quando
qualificadas) — apresentam pontos positivos.
João Calvino olhou além do Originador dessa parábola e viu os minis­
tros da Palavra semeando a semente. Eles não devem desanimar, diz Calvino,
quando não vêem resultados imediatos. Jesus ensina que devem ser pacien­
tes e os faz recordar o processo de germinação, como acontece na natureza.
Não devem se agastar ou se inquietar, mas depois de terem proclamado a
Palavra, devem se ocupar das tarefas do dia — dormir à noite, levantar pela
manhã e fazer tudo o que há para ser feito. Como a semente chega à
maturação no tempo próprio, assim o fruto do trabalho do pregador, even­
tualmente, aparecerá. Os ministros do evangelho devem ter coragem e
continuar sua obra decidida e confiantemente?
Deus está atuando no processo da germinação da semente, em seu
crescimento, desenvolvimento e maturação. “O fruto é o resultado da se­
mente; o fim está implícito no começo. O infinitamente grande já está ativo
no infinitamente pequeno.”9 É bom relembrar a afirmativa jubilosa de Paulo

5. Há paralelos na literatura apostólica, inclusive I Clemente 23.4: “Ó insensatos: Comparai-vos


a uma árvore. Tomai uma videira, por exemplo: ela primeiro espalha suas folhas, então o
botão e a flor, e som ente após, primeiro a uva verde e então a madura.” A postolic Fathers,
vol.2 ed. R. M. Grant e H. H. Graham (Camden. N. J.: Thomas Nelson & Sons, 1965), p. 48.
Ver também, II Clemente 11.3, e o Evangelho de Tom é, Citação 21.
6. H. B. Swete, The G ospel According to St. Mark (London: Macmillan & Co., 1909), p. 85.
7. Para uma classificação abrangente dessas interpretações, veja C. E. B. Cranfield: “M essage
o f Hope, Mark 4.21-32”, Interp 9 (1955): 158-162.
8. J. Calvin, Harmony o f the Evangelists (Grand Rapids: W. B. Eerdmans, 1949), 2:128. Embora
Calvino dê atenção ao período de crescimento, dá ênfase igual àquele que semeia o grão. O
criticismo de Cranfield tem algum valor: Calvino considerou a parábola endereçada aos
discípulos de Jesus. N o entanto, a aplicação, no comentário de Calvino, parece muito mais
abrangente do que o mero círculo dos doze discípulos. Ver Cranfield: “M essage o f H op e”,
p. 159.
9. Jeremias, Parables, p. 152.

55
AS PARÁBOLAS DE JESUS

“de que aquele que começou boa obra em vós há de completá-la até ao dia
de Cristo Jesus” (Fp 1.6).
Na parábola, o lavrador é apenas um auxiliar da obra divina. Ele lança
a semente, e dia após dia faz o trabalho necessário — dá andamentos à sua
tarefa. Tem confiança que a época da colheita chegará. Sabe, pela experiên­
cia, quantos dias se passarão desde a semeadura até à ceifa. 0 E quando a
colheita está madura ele não espera mais. O dia da ceifa chegou. Do mesmo
modo, os ministros da Palavra têm a tarefa divina de proclamar as boas-novas
de salvação em Cristo Jesus. Eles, também, devem permanecer de lado,
enquanto Deus efetua a obra secreta de crescimento e desenvolvimento. No
tempo de Deus, o ministro verá os resultados quando chegar a hora de ceifar.
A parábola da semente germinando secretamente é, realmente, uma
parábola de seqüência: a colheita segue a semeadura, no tempo devido. A
manifestação do reino de Deus sucede o ministério fiel da Palavra de Deus.
Um leva ao outro, e nada acontece sem o secreto poder operante de Deus.
“A lição é: a vitória está assegurada; a colheita se aproxima e chegará, com
certeza, no momento apropriado decidido no plano eterno de Deus. O reino
de Deus será revelado em todo o seu resplendor.”11
As últimas palavras da parábola são, de certo modo, reminiscência de
Joel 3.13: “Lançai a foice, porque está madura a seara.” Sem dúvida, a
passagem se refere definitivamente ao dia do julgamento quando o Senhor,
de acordo com Apocalipse 14.12-16, envia o seu anjo para ceifar a terra.
Nesse ínterim, aqueles que foram enviados para proclamar a Palavra têm
que aprender a ter a paciência do lavrador. “Sede, pois, irmãos, pacientes,
até à vinda do Senhor. Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso
fruto da terra...” (Tg 5.7). Falta de paciência é uma característica humana.
Ela aparece até mesmo na descrição de João, das almas daqueles que foram
mortos por causa da Palavra de Deus. Eles clamam em alta voz: “Até quando,
ó Soberano Senhor...?” e a resposta que recebem é que devem esperar ainda
por algum tempo (Ap 6.9-11). Deus está no comando e determina quando é
chegado o tempo da colheita. Ninguém, nem mesmo Jesus, sabe o dia e a
hora (Mt 24.36).

10. Os fazendeiros do centro-oeste americano têm um ditado que diz que o milho “deve estar
à altura dos joelhos pelo quatro de julho.”
11. Hendriksen, Mark, p. 170.

56
6
O Joio e o Trigo

Mateus 13.24-30

24“Outra parábola lhes propôs,


dizendo: O reino dos céus é seme­
lhante a um homem que semeou
boa semente no seu campo; 25mas,
enquanto os homens dormiam,
veio o inimigo dele, semeou o joio
no meio do trigo, e retirou-se. 6E,
quando a erva cresceu e produziu
fruto, apareceu também o joio.
27Então, vindo os servos do dono
da casa, lhe disseram: Senhor, não
semeaste boa semente no teu cam­
po? D onde vem, pois, o joio?
8Ele, porém, lhes respondeu: Um
inimigo fez isso. Mas os servos lhe
perguntaram: Queres que vamos e
arranquemos o joio? 2 Não! repli­
cou ele, para que, ao separar o
joio, não arranqueis também com
ele o trigo. 30Deixai-os crescer jun­
tos até à colheita, e, no tempo da
colheita, direi aos ceifeiros: Ajun-
tai primeiro o joio, atai-o em feixes
para ser queimado; mas o trigo,
recolhei-o no meu celeiro.”

57
AS PARABOLAS DE JESUS

A parábola sobre o trigo e o joio é peculiar ao Evangelho de Mateus,


assim como a parábola da semente germinando secretamente é encontrada
apenas em Marcos. A palavra joio não é uma tradução adequada da palavra
original grega zizania, que significa “uma erva daninha que nasce nas plan­
tações de grãos, parecida com o trigo”.1 Não podemos determinar se a
palavra se refere, ou não, a uma variedade venenosa dessa erva. De qualquer
modo, a planta se parece com o trigo e cresce exclusivamente em campos
cultivados.2 Na verdade, a planta é uma degeneração do trigo. A cizânia pode
ser comparada à aveia silvestre, que cresce livremente nos trigais da América
do Norte, e que são difíceis de se erradicar.

O Campo do Fazendeiro

Depois da parábola do semeador e de sua interpretação, Mateus relata


que Jesus contou à multidão uma outra parábola, a história de um fazendeiro
abastado. Ele tinha servos e também ajudantes, no tempo da colheita.
Como fazendeiro eficiente, esse dono de terras tinha usado boa semen­
te em seu campo. E óbvio que ele não tinha interesse nenhum em semear
erva daninha, que iria lhe causar grande problema. A boa semente não está
misturada ao joio. O fazendeiro tinha semeado boa semente em seu campo
(quando e como isso foi feito não é importante para a história).
Assim que ele acabou de semear o trigo do inverno, veio seu inimigo.
Ele chegou escondido pelas trevas, enquanto todos dormiam, e semeou joio
por sobre o trigo. Com certeza não fez isso pelo campo todo. Aqui e ali, ele
espalhou a semente. Ninguém poderia saber, até à chegada da primavera,
que o joio estava crescendo entre o trigo.3 O joio tem a aparência exata do
trigo. Mas, quando as plantas começam a espigar, qualquer um pode distin­
guir o trigo do joio — “pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.20).
Nessa hora, no entanto, é impossível tentar resolver o problema.
Qualquer um andando pelo trigal para remover o joio vai pisar o trigo. Além
disso, as raízes do trigo e do joio estão tão emaranhadas que quem puxar o
joio vai arrancar também o trigo.
Os empregados do fazendeiro o alertaram sobre o problema e até
mesmo mostraram vontade de fazer algo a respeito. Queriam saber de onde

1. W. Bauer et al. Lexicon, p. 339.


2 . 1. Lõw, D ie Flora der Juden (Hildersheim: 1967), 1:725. SB, 1:667.
3. M eu sogro comprou uma fazenda no Canadá, no final de 1930. Logo viu que os campos
estavam cobertos com um tipo de erva chamada “margarida”. D o proprietário anterior, ele
ficou sabendo a causa: alguns anos antes, um vizinho rancoroso havia montado a cavalo, um
dia, e espalhado pelo campo sementes de “margarida”. O resultado é visto até hoje.

58
O JOIO E O TRIGO

tinha vindo o joio. O fazendeiro apenas lhes explicou que um inimigo tinha
feito aquilo e deveriam deixar tudo como estava até à chegada da ceifa.
Então, os ceifeiros receberiam instruções para colher o joio e atá-lo em
feixes, e para recolher o trigo no celeiro. O fazendeiro usará os feixes de joio
— semente e palha — como combustível. Assim transformará em lucro uma
desvantagem: terá aquecimento para o inverno.
Embora, no final, o fazendeiro consiga resolver de algum modo aquela
situação, ele sabe que o joio absorveu umidade e nutrientes que se destina­
vam ao trigo. Sua produção de grão será substancialmente menor que a
esperada. Apesar de toda a sua experiência de cultivo, ele foi incapaz de ver
a diferença entre o trigo e o joio antes que as plantas começassem a espigar
e o tempo da colheita estivesse próximo.4 Só meses após o mal ter sido feito,
o fazendeiro se deu conta de que seu inimigo o atacara insidiosamente. Ele
tem, então, que enfrentar as conseqüências da trama perpetrada por seu
inimigo.

Interpretação

Mateus 1336-43
36“Então, despedindo as multi­
dões, foi Jesus para casa. E che­
gando-se a ele os seus discípulos,
disseram: Explica-nos a parábola
do joio no campo. 37E ele respon­
deu: O que semeia a boa semente
é o Filho do homem: o campo e
o mundo; a boa semente são os
filhos do reino; o joio são os filhos
-3Q . .
do maligno; o inimigo que o se­
meou é o diabo; a ceifa é a consu­
mação do século, e os ceifeiros são
anjos. 40Pois, assim como o joio é
colhido e lançado ao fogo, assim
será na consumação do século.
M andará o Filho do homem os
seus anjos que ajuntarão do seu
reino todos os escândalos e os que
praticam a iniqüidade, e os lan­
çarão na fornalha acesa; ali haverá
choro e ranger de dentes. 43Então,_________________
4. Jülicher, em Gleichnisreden, 2: 548, afirma que o joio amadurece antes do trigo.

59
AS PARÁBOLAS DE JESUS

os justos resplandecerão como o


sol, no reino de seu Pai. Quem tem
ouvidos (para ouvir), ouça.”

De acordo com Mateus, os discípulos de Jesus lhe pediram uma


explicação sobre a parábola do joio.5 A explicação é dada em poucas
palavras. Pode ser lida assim:

1. “O que semeia a boa semente ó o Filho do homem;


2. o campo é o mundo;
3. a boa semente são os filhos do reino;
4. o joio são os filhos do maligno;
5. o inimigo que o semeou é o diabo;
6. a ceifa é a consumação do século, e
7. os ceifeiros são anjos.”

Embora a interpretação da parábola sej a dada por Jesus, a composição


da explicação parte de Mateus. Mateus toma o ensino de Jesus e ordena suas
palavras numa lista de sete conceitos.6 (O arranjo de nomes e dados é uma
característica de Mateus, como fica evidente desde o primeiro capítulo de
seu Evangelho.)
Na interpretação, nenhuma menção é feita ao fato de que o inimigo
veio quando todos dormiam. Também é omitida a referência ao crescimento
e à maturação do trigo e do joio, e nada é dito sobre o ajuntamento do trigo
no celeiro e dos feixes de joio lançados ao fogo. Em sua interpretação, Jesus
omite a referência aos servos. Ele talvez tenha feito isso para focalizar a
atenção no ponto mais significativo da parábola: o conflito entre o bem e o
mal, entre Deus e Satanás. E, nesse conflito, Satanás perde a batalha. Do
mesmo modo, a conversa dos servos com o fazendeiro parece não ter
importância para a interpretação da parábola. É deixada de lado; apenas
uma referência a ela é feita no resumo onde o fato do joio ser arrancado e
lançado ao fogo se torna importante (Mt 13.40). Na verdade, a conclusão da
interpretação é uma visão das coisas que acontecerão no final dos tempos,
Jesus, realmente, está dizendo: “com as Escrituras do Velho Testamento,
vou lhes dizer o que vai acontecer”.
5. Compare-se Mateus 15.15, onde a mesma questão da explicação da parábola é levantada.
Consulte-se M. de Goedt, “L’Eplication de la Parable de L’Ivraie (Mt XIII, 36-43)”, RB 66
(1959): 35. Veja-se J. Jeremias, “D as Gleichnis vom Unkraut unter dem W iezen, ”em
Neotesstamentica et Patristica (Leiden: Brill, 1962), p. 59.
6. R. Schippers, Gelijkenissen van Jezus (Kampen: J. H. Kok, 1962), p. 71.

60
O JOIO E O TRIGO

41“Mandará o Filho do homem


os seus anjos que ajuntarão do seu
reino todos os escândalos e os que
praticam a iniqüidade, 42e os lan­
çarão na fornalha acesa; ali haverá
choro e ranger de dentes. 43Então
os justos resplandecerão como o
sol, no reino de seu Pai. Quem tem
ouvidos (para ouvir), ouça.”

Da maneira usual, o ensinamento de Jesus reflete direta e indiretamen­


te as Escrituras do Velho Testamento?7 Jesus parece se referir à profecia de
Sofonias: “De fato consumirei todas as coisas sobre a face da terra, ... os
homens e os animais” (1.2,3), quando fala de extirpar de seu reino tudo
aquilo que traga escândalo e todo aquele que pratique a iniqüidade. A frase
“os lançarão na fornalha acesa” lembra Daniel 3.6: “... lançado na fornalha
de fogo ardente.” O próprio conceito se assemelha a Malaquias 4.1: “Pois
eis que vem o dia, e arde como fornalha; todos os soberbos, e todos os que
cometem perversidade, serão como o restolho...” A passagem: “Então os
justos resplandecerão como o sol”, lembra Daniel 12.3: “Os que forem
sábios, pois, resplandecerão, como o fulgor do firmamento; e os que a muitos
conduzirem à justiça, como as estrelas sempre e eternamente.” E para
completar, devemos ler, também, Malaquias 4.2: “Mas para vós outros que
temeis o meu nome nascerá o sol da justiça...”
Sem dúvida, na interpretação de Jesus, ressoa o eco das palavras e
sentimentos dos profetas. A parábola do joio é, realmente, aquela na qual
Jesus ensina o julgamento que está para vir; pode ser chamada de a parábola
da ceifa.
Os servos estavam dispostos a arrancar o joio, embora pudessem, no
processo, arrancar também o trigo — o sistema de raízes do joio é bem mais
desenvolvido que o do trigo. Mas o fazendeiro diz: vamos esperar até à ceifa,
quando, então, os ceifeiros separarão o trigo do joio.
O fazendeiro conhece o seu negócio. Se permitir que os empregados
arranquem o joio, perderá sua safra de trigo, pois o trigo não pode ser

7. Jeremias, em Parables, pp. 84,85, afirma que “é impossível deixar de concluir que a
interpretação sobre o joio vem do próprio Mateus.” D e acordo com Kingsbury, em Parables
o f Jesus, p. 109, Jesus é o Senhor exaltado, que exorta os cristãos na igreja de M ateus a serem
obedientes à vontade de Deus. N o entanto, com o observa R. H. Gundiy: “A resposta à
questão de origem é o ensino de Jesus.” The use o f the Old Testament in St. Matthew’s
G ospel (Leiden: Brill, 1967), p. 213. Resumindo, não tem os que chegar à m ente imaginativa
de Mateus. Antes, a origem desse ensinamento está em Jesus mesmo.

61
AS PARÁBOLAS DE JESUS

separado do joio. Se perder sua colheita, dará ao seu inimigo a satisfação


que ele pretendia.
Em vez disso, o dono de terras decide esperar que toda a plantação
amadureça. Fará a separação na ocasião da ceifa. Tanto o joio quanto o trigo
estarão maduros para a colheita.
O joio são os filhos do maligno, e a boa semente são os filhos do reino.
Como os dois — o mal e o bem — amadurecem não é explicado, e será
sensato não tentarmos ir além da parábola, em busca de explicação.8
Enquanto os dois crescem e amadurecem, o fazendeiro não pode fazer
nada para remediar a situação. Essa incapacidade não provém da ignorân­
cia. Pelo contrário, o lavrador, plenamente ciente do problema, espera o
tempo certo. Ele sabe o que deve ser feito. Ele sabe de onde veio o joio e
como foi semeado em seu campo - à noite, enquanto todos dormiam.
Jesus, ao interpretar a parábola, disse que o fazendeiro que semeia boa
semente é o Filho do homem. O Filho do homem é o próprio Jesus, que
tomando a forma humana, se fez semelhante ao homem (Fp 2.7,8). Ele veio
semear a boa semente, os filhos do reino, a nova humanidade em Cristo. O
campo onde a semente é lançada é o mundo. É onde tem lugar o drama entre
o bem e o mal. O inimigo que semeia o joio é o diabo, e o joio são os filhos
do maligno.
É interessante notar que o campo, o mundo, pertence ao fazendeiro
- a Jesus. Nesse campo cresce o trigo e o joio. Não importa onde o homem
viva na terra. Onde quer que viva estará em propriedade que pertence a
Jesus.9 Ele é o trigo ou o joio, um ou outro. Ele é filho do reino ou filho do
maligno. Tanto o trigo quanto o joio estarão maduros quando o dono das
terras enviar os ceifeiros para o campo.
Quando chegar o final dos tempos, os ceifeiros, que são anjos de Deus,
separarão o bom do mau, o trigo do joio, os filhos do reino dos filhos do
maligno. No conflito entre Deus e Satanás — tudo que causa escândalo e
todo aquele que pratica a iniqüidade - é arrancado e lançado ao fogo
ardente. Os filhos do reino, por outro lado, resplandecerão como o sol, no
reino de seu Pai. Eles são os justos. São abençoados. Permanecerão para
sempre.

8. Ridderbos, Corning of the Kingdom, p. 139.


9. Schippers, Gelijkenissen, p. 71.

62
O JOIO E O TRIGO

Aplicação

Esta parábola de Jesus põe em confronto o bem c o mal, e ensina que


o bem prevalecerá. Na parábola, os servos perguntam ao fazendeiro de onde
veio o joio: “Donde vem, pois, o joio?” A resposta concisa do fazendeiro foi:
“Um inimigo fez isso.” Os servos, naturalmente, podiam ler desabafado sua
raiva contra o inimigo,10 mas voltaram sua atenção para o joio e manifesta­
ram a vontade de arrancá-lo. O fazendeiro disse: “Não!”.
Os servos refletem a impaciência de muitos cristãos no reino dc Deus.
Com o pretexto de manter a pureza da igreja, crentes zelosos têm causado
dano incalculável, julgando e afastando outros cristãos da igreja.
Qualquer jardineiro sabe que, às vezes, é impossível ver a diferença
entre uma planta que produzirá belas flores e outra que se transformará
apenas em erva daninha. Nos antigos versos:
Há tanto bem no pior de nós,
E tanto mal no melhor de nós,
Que dificilmente qualquer um de nós
poderá falar dos demais de nós.11
Ninguém deve deduzir que a parábola ensina a eliminação da discipli­
na ou desaprova o cumprimento e a aplicação da lei. Ao contrário, as
Escrituras ensinam muito claramente que a disciplina deve ser mantida e
que a lei deve ser preservada. Jesus ensina, explicitamente, a doutrina da
disciplina em Mateus 18.15-17. Ao esboçar o procedimento, no entanto, ele
indica que a disciplina deve ser conduzida com espírito de amor e delicadeza.
O processo deve se desenvolver cautelosa e pacientemente. O objetivo da
disciplina deve ser, sempre, a salvação e recuperação da pessoa envolvida.
Em Romanos 13, Paulo ensina que: “não há autoridade que não
proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De
modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus; e
os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. Porque os magistrados
não são para temor quandosefazobem ,e,sim ,quandosefazom al” (13.1-3).
Deus investiu de autoridade os magistrados para preservar a lei, punir o que
pratica o mal e impedir o crime.
A parábola, entretanto, nos instrui a ter paciência e a não nos auto-no-
mearmos juizes. “Sede vós também pacientes, e fortalecei os vossos cora­

10. W. G. Doty, “A n Interpretation o f the W eeds and Wheat”, Interp 25 (1971): 189.
11. Com agradecimentos a Hunter, Parables, p. 48, que parece ter um estoque infindável de
versos, poem as e ditados.

63
AS PARÁBOLAS DE JESUS

ções, pois a vinda do Senhor está próxima. Irmãos, não vos queixeis uns dos
outros, para não serdes julgados. Eis que o juiz está às portas.” (Tg 5.8,9)
À primeira vista, a parábola pode dar a impressão de que há dois tipos
de indivíduos neste mundo, o bom e o mau, e que os bons serão sempre bons
e os maus permanecerão maus para sempre. Mas isso não é totalmente
correto. As Escrituras não ensinam que Deus tenha criado os homens bons
e que Satanás criou os maus. Deus criou gente — artesanato divino —, e ele
regenera aqueles que escolheu por obra da graça de seu Espírito. Os maus,
embora criados por Deus, foram corrompidos por Satanás e são usados por
ele para influenciar o povo regenerado de Deus.12 São o joio entre o trigo.
O trigo e o joio amadurecem lado a lado até à ceifa. Então, serão separados.
A parábola do joio contém uma lista compacta de termos similares,
em forma de glossário. A aparente simplicidade na explicação dos termos é
quase um desafio a que se faça o mesmo em relação a outras parábolas
ensinadas por Jesus. Muitos comentaristas têm visto isso como um convite
explícito para explicar as parábolas à maneira de Jesus. Por exemplo, ao
explicar a parábola das cinco virgens prudentes e as cinco virgens néscias
(Mt 25.1-13), alguns comentaristas da igreja primitiva davam explicações
variadas para a palavra óleo. Para Hilário, o óleo era o fruto das boas obras;
para Agostinho, o óleo significava alegria; Crisóstomo dizia que o óleo
significava a ajuda dada aos necessitados; e Orígenes considerava o óleo
como sendo a palavra de ensinamento.13
Obviamente, os comentaristas não têm a sabedoria demonstrada por
Jesus para interpretar parábolas. Devem ser cautelosos, para não verem nas
parábolas pensamentos e conceitos que elas não pretendem ensinar. Na
verdade, serão sensatos se buscarem o ensinamento básico da parábola, na
própria parábola, ou em seu contexto, e limitarem sua interpretação ao
ensino transmitido pela parábola.

12. Calvin, Harmony o f the E-. angelists, 2:120.


13. N um erosos exemplos são encontrados nas séries, Works of the Father, coletados por Tom ás
de Aquino. Veja Coomentary on the Four Gospels, I, St. Matthew (Oxford: n. p. 1842).
7
O Grão de Mostarda

Mateus 1331,32 Marcos 430-32 Lucas 13.18,19

31“Outra parábo­ 30“Disse mais: a que 18“E dizia: A


la lhes propôs, di­ assemelharemos o rei­ que é semelhante
zendo: O reino dos no de Deus? ou com o reino de Deus, e
céus é semelhante a que parábola o apre­ a que o compara­
um grão de mostar­ sentaremos? 31É como rei? 19É semelhan­
da, que um homem o grão de m ostarda te a um grão de
tomou e plantou no que, quando semeado, mostarda que um
seu campo; 32o qual é a menor de todas as homem plantou na
é, na verdade, a me­ sementes sobre a ter- sua horta; e cres­
nor de todas as se­ ra; 32 mas, uma vez se­ ceu e fez-se árvo­
mentes, e, crescida, m eada, cresce e se re; e as aves do céu
é maior do que as torna maior do que to­ aninharam-se nos
hortaliças, e se faz das as hortaliças, e dei­ seus ramos.”
árvore, de modo que ta grandes ram os a
as aves do céu vêm ponto de as aves do
aninhar-se nos seus céu poderem aninhar-
ramos.” se à sua sombra.”

J e s u s contou duas parábolas para falar a respeito do fenomenal


crescimento do reino dos céus: a parábola do grão de mostarda e a parábola
do fermento. As duas formam um par, e são, na verdade, duas faces de uma
mesma moeda. A parábola do grão de mostarda retrata o crescimento do
65
AS PARÁBOLAS DE JESUS

reino em extensão e a do fermento descreve a intensidade desse crescimen­


to.1
Mateus colocou as duas em seu capítulo de parábolas (Mt 13); prova­
velmente por causa do assunto. Lucas, por outro lado, incorporando as
parábolas no decorrer da chamada narrativa da viagem (Lc 9.51 —19.27),
talvez reflita uma seqüência mais histórica, embora não possamos afirmar
isso, com certeza. Podemos, apenas, presumir que Jesus tenha ensinado
• 2
essas duas parábolas, juntas, na mesma ocasião.

A Semeadura e o Crescimento

Vinte e cinco alunos acompanham seu professor a Washington D.C.,


para ver a Casa Branca. Quando voltam à sala de aula, o professor pede que
cada um deles faça uma descrição da visita. Vinte e cinco redações refletem
vinte e cinco aspectos da residência presidencial. Uma criança, talvez,
escreva: “A Casa Branca parece...”, seguindo-se uma descrição daquilo que
lhe pareceu mais interessante. Outra criança, todavia, pode usar a mesma
introdução, mas na redação retratar uma perspectiva da Casa Branca,
inteiramente diferente.
Jesus tornou familiar a seus seguidores várias das características do
reino de Deus. Por meio de parábolas, ele procurou descrever as facetas do
poder soberano de Deus. Assim, ele introduz suas parábolas com a frase: “O
reino dos céus é semelhante...”
A parábola do grão de mostarda, em contraste com a do trigo e do joio,
é muito curta. Em poucas palavras, Jesus descreve o surpreendente tamanho
da mostardeira (“árvore”, em Mateus e Lucas; “hortaliça”, em Marcos) que
se desenvolve da menor das sementes. Obviamente, Jesus realça a diferença
entre o pequenino grão e a grande árvore. Ele não diz nada sobre a qualidade
da mostarda. Ele poderia ter mencionado seu uso na comida e nos remédios,
sua cor e seu gosto, mas esse não era o propósito da parábola.
Jesus usa um exemplo da vida diária. Na nossa sociedade moderna de
comida enlatada, engarrafada e empacotada, muitos não conhecem uma
horta. Mas nos dias de Jesus quase todo mundo tinha sua própria plantação.
Mesmo os religiosos pagavam o dízimo das especiarias colhidas — hortelã,
1. A . B. Bruce, The Parabolic Teaching o f Christ (New York: A. C. Armstrong, 1908), p. 91.
2. Michaelis, Gleichnisse, p. 55. N o Evangelho de Tom é, as parábolas do grão de mostarda e
do ferm ento estão separadas. Elas têm o mesmo estilo (com ligeiras variações) dos relatos
canônicos. Vejam-se Citações 20 e 96.

66
O GRÃO DE MOSTARDA

endro e cominho (Mt 23.23). Em cada quintal havia uma mostardeira. A


planta podia, muitas vezes, ter crescido no campo ao lado do canteiro de
hortaliças, porque exige muito espaço. Em Mateus, o jardineiro plantou a
semente em um campo; em Lucas, numa horta; e em Marcos, na terra.
O horticultor tomou apenas uma das sementes de mostarda. Seus
dedos pareciam grandes demais para segurar uma semente tão pequena. Ele
plantou a semente em seu campo porque sabia que aquela coisinha minús­
cula tinha a capacidade de se transformar numa planta do tamanho de uma
árvore.3 Ele precisava de apenas uma planta, e ele sabia do contraste entre
a semente e a planta.4 De fato, o tamanho insignificante da semente de
mostarda se tornou proverbial, no primeiro século. Jesus, uma vez disse: “Se
tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para
acolá, e ele passará” (Mt 17.20).5 Tanto Mateus como Marcos dizem expli­
citamente que o grão de mostarda é a “menor de todas as sementes”. O
contraste, no entanto, se torna mais marcante, porque a afirmativa é posta
em comparação com a descrição da planta adulta: “crescida, é maior do que
as hortaliças, e se faz árvore”. Aquele minúsculo grão, depositado no solo,
se transforma numa árvore. Um milagre!

Concluindo a parábola, Jesus se refere ao Velho Testamento, às


passagens de Daniel 4.12 e Ezequiel 17.23 e 31.6. A passagem de Daniel era
bem conhecida de seus ouvintes, pois se referia a um sonho de Nabucodo-
nosor sobre uma árvore que se tornava tão forte que sua altura chegava até
ao céu. Debaixo dela, os animais do campo achavam sombra e em seus ramos
as aves do céu vinham se aninhar. Jesus, que fala as palavras de Deus (Jo
3.34), ensina, indiretamente, as Escrituras chamando, através de uma alusão
verbal, a atenção para uma parábola messiânica, em Ezequiel 17.23: “No
monte alto de Israel o plantarei, e produzirá ramos, dará frutos e se fará

3. Alguns manuscritos trazem “grande árvore”, em Lucas 13.19. B. M. Metzger, em A Textual


Commentary on the Greek New Testament (London, New York: United Bible Societies,
1971), p. 162, escreve: “Embora alguns copistas possam ter suprimido mega, para harmonizar
Lucas com o texto preponderante de Mateus (13.32), é muito mais provável que, com o
interesse de enfatizar o contraste entre o grão de mostarda e a árvore, o termo mega tenha
sido acrescentado, também, em alguns testemunhos, no paralelo de M ateus.”
4. A sem ente da mostarda negra (sinapis nigra) cresce predominantemente nas regiões do sul
e do leste dos países mediterrâneos, Mesopotâmia e Afeganistão. É a menor das sem entes
de três ou quatro variedades de mostarda. Lõw, D ie Flora der Juden, I: 521, O. Michel,
T D N T, III: 810-12.
5. Para exemplos dos escritos dos rabinos, veja SB, I: 669.
6. E possível que os dois evangelistas tenham acrescentado essa explicação com o ajuda ao leitor.

67
AS PARÁBOLAS DE JESUS

cedro excelente. Debaixo dele habitarão animais de toda sorte, e à sombra


dos seus ramos se aninharão aves de toda espécie.”
O Cumprimento

Através da parábola, Jesus ensina que o reino de Deus pode parecer


sem importância e insignificante, especialmente na Galiléia de 28 AD. Mas,
o evangelho do reino, proclamado por um carpinteiro transformado em
pregador, provocará um impacto tremendo no mundo todo. Os seguidores
de Jesus eram um grupo de pescadores “rudes” a quem foi ordenado que
fizessem discípulos de todas as nações. Esses seguidores puseram o mundo
em chamas, com a mensagem de salvação, que hoje é proclamada em quase
todas as línguas conhecidas da terra. O pequenino grão semeado na Galiléia,
no nascer da nova era do Cristianismo, se tornou uma árvore que, hoje, provê
abrigo e descanso para os povos de todos os lugares. E o dia ainda não se
acabou.
8
A árvore ainda não alcançou maturidade; ainda está crescendo.
Olhamos para o fenômeno do seu crescimento e sabemos que Deus está
operando o desenvolvimento do seu reino. Sabemos que inúmeros povos
desse planeta ainda não ouviram as boas-novas do amor generoso de Deus.
Nações inteiras estão virtualmente destituídas da sombra e do abrigo ofere­
cidos pelo reino de Deus. Os ramos da árvore devem continuar a crescer e
a se estender até àquelas regiões que ainda precisam do evangelho para que
multidões possam encontrar refúgio e descanso.9 E quando o evangelho do
reino de Deus tiver sido pregado a todas as nações do mundo, então o fim
virá (Mt 24.14) e a árvore terá alcançado sua plenitude.

7. J. W. Wevers, Ezekiel (Greenwood, S. C.: Attic Press, 1969), p. 139. C. L. Feinberg, em The
Prophecy o f Ezekiel (Chicago: Mood Press, 1969), p. 97, diz que os versículos finais de
Ezequiel 17 “sem dúvida, apresentam uma profecia messiânica”. Veja, também, D. M. G.
Stalker, Ezekiel (London: S. C. M. Press, 1968), p. 154; J. B. Taylor, Ezekiel (Downers Grove,
III: Inter Varsity Press, 1969), p. 146; e, J. Mánek, Und Brachte Frucht (Stuttgart: Calwer,
1977), p. 28.
8. Os estudiosos hesitam em se referir à planta da mostarda como uma árvore. Veja R. W. Funk:
“The Looking-Glass Tree is for the Birds”, Interp 27 (1973): 5. N o entanto, ela alcança uma
altura de mais ou menos três metros. A linguagem popular descrevia o fenôm eno do
crescimento da mostarda, naqueles dias, como “uma árvore”.
9. Os rabinos costumavam chamar os gentios de “aves do céu”. Veja Hunter, Parables, p. 45, e
Kingsbury, Parables o f Jesus, p. 82. Também, H. K. McArthur, “The Parable o f the Mustard
S eed”, CBQ 33 (1971): 208; O. Kuss, “Zum Sinngehalt des Doppelgleichnisses vom Senfkom
und Sauerteig”, Bib 40 (1959): 653.

68
8
O Fermento

Mateus 1333 Lucas 13.20,21

33“Disse-lhes outra parábo- 20“D isse mais: a que


la: O reino dos céus é seme- com pararei o reino de
lhante ao fermento que uma Deus? 21É muito semelhan-
mulher tomou e escondeu em te ao fermento que uma
três medidas de farinha, até fi- mulher tomou e escondeu
car tudo levedado.” em três medidas de farinha,
até ficar levedado.”

O método visual era um dos recursos pedagógicos mais usados por


Jesus. Sempre que ensinou às multidões a respeito do reino de Deus, ele
usou exemplos tirados diretamente do cotidiano. Quando menino, em Na­
zaré, viu sua mãe fazendo pão. Primeiro, ela dispunha as vasilhas e panelas;
então, pegava farinha, água e fermento, e adicionava uma pitada de sal. Ela
misturava os ingredientes e deixava a massa descansar. Seu trabalho, até ali,
estava feito; o fermento agiria e faria a massa crescer. Quando o processo
da fermentação estivesse completo, ela dividiria e assaria os pães.
Jesus contou a história de uma mulher fazendo pão — cena comum do
dia-a-dia. A mulher apanhou uma pequena quantidade de fermento, mistu­
rou-o a uma grande quantidade de farinha, e assou pão suficiente para uma
refeição de cem pessoas. Tanto Mateus quanto Lucas indicam que a mulher
usou três satas de farinha. Uma iate eqüivale a, mais ou menos, 13,13 litros.
Assim, a mulher tomou cerca de 39 litros de farinha — mais de 20 quilos —,

69
AS PARÁBOLAS DE JESUS

pretendendo fazer uma grande quantidade de pão. É demais, naturalmente,


para o consumo diário de uma família pequena.1 Mas Sara, mulher de
Abraão, assou o mesmo tanto, quando três homens vieram visitá-los em
Manre (Gn 18.6). E, em pelo menos outras duas referências, o total de três
medidas (seah, ou um EFA) 6 mencionado em relação à farinha usada para
o pão (Jz 6.19 e 1 Sm 1.24).
H á quem argumente que as traduções modernas confundem o sentido
básico do versículo traduzindo a palavra grega zume como fermento e não
como levedo. A não ser entre o povo judeu, o uso do levedo não é muito
conhecido, e por isso o conceito de fermento está na introdução: “O reino
dos céus é semelhante ao fermento que uma mulher tomou e escondeu em
três medidas de farinha, até ficar tudo levedado” (Mt 13.33). O fermento,
como o conhecemos hoje, é limpo, fresco, saudável e até saboroso. É feito
da cultura de uma solução de sal e açúcar à qual se adiciona amido. O levedo,
no entanto, era conseguido com uma porção de massa guardada da semana
anterior, à qual eram adicionados sucos para facilitar o processo de fermen­
tação. Se o levedo fosse contaminado por uma cultura de bactérias nocivas,
essa contaminação passaria para o pão até que o processo fosse interrompi­
do, quando comessem pão não levedado durante uma semana, como faziam
por ocasião da Páscoa.
Jesus não teve a intenção de considerar nocivo o levedo. Ele usou o
exemplo do levedo por causa de seu poder oculto. O fermento e o levedo
fazem a massa crescer, permeando-a inteiramente. Depois de misturados à
farinha, o fermento ou o levedo não podem mais ser encontrados. Ficam
escondidos e invisíveis.
Esta parábola tão curta tem sido interpretada de várias maneiras.
Jerônimo, por exemplo, identificou a mulher com a igreja.3 As três medidas
de farinha têm sido explicadas como sendo os três ramos da raça humana
(descendentes de Sem, Cão e Jafé); os gregos, judeus e samaritanos; ou o
coração, a alma e a mente.4 Essas interpretações são especulativas, imagi­
nativas e de pouco valor.
1. Jeremias, em Parables, p. 147, afirma sumariamente: “Nenhuma dona-de-casa amassaria tão
grande quantidade de pão.”
2. Para uma descrição mais minuciosa, veja-se C. L. Mitton, “Leaven”, Expt T 84 (1973), 339-43.
3. R. C. H. Lenski, Inteipretation o f St. Matthew’s Gospel (Columbus: Lutheran Book
Concem , 1943), pp. 530-32).
4. F. G odet, Commentaiy on St. Luke’s G ospel (Grand Rapids: Kregel, reprint o f 1870 ed.), 2:
122. R. W. Funk, em “Beyond Criticism in Quest of Literacy: The Parable o f the Leaven”,
Interp 25 (1971) entende o número três escatologicamente e escreve: “Três medidas de
farinha apontam para o poder sacramental do Reino para a ocasião festiva de uma epifania”,
p. 163. D evem os acentuar, no entanto, o poder e não o significado da farinha ou do número
três.

70
O FERMENTO

A parábola destaca o fato de o fermento, uma vez adicionado à farinha,


permear toda a porção de massa, até que cada partícula seja atingida. O
fermento fica invisível, mas todos podem ver o seu efeito. É assim que o reino
de Deus demonstra seu poder e sua presença no mundo de hoje.
Na parábola do grão de mostarda, Jesus tornou conhecida a expansão
aparente do reino. Na parábola do fermento, ele focaliza a atenção no poder
interior do reino e em sua influência sobre tudo.
A parábola do grão de mostarda ilustra o programa evangelístico
global da igreja em obediência à comissão de Cristo e seus seguidores para
que fizessem discípulos em todas as nações. A parábola do fermento torna
claro que essa obediência a Cristo traz como conseqüência a cristianização
de cada setor e de cada segmento da vida. O seguidor de Cristo deixa sua
luz brilhar diante dos homens, para que vejam suas boas obras e glorifiquem
seu Pai que está nos céus (Mt 5.16). Ele alivia o sofrimento dos pobres e dos
aflitos; luta pela causa da justiça, em favor dos oprimidos; exige honestidade
dos que foram eleitos ou escolhidos para governar as nações; ergue o
estandarte da moralidade e da decência; defende a santidade da vida;
respeita as leis da natureza; exige integridade nos negócios, no comércio, na
indústria, no trabalho e nas profissões (médicas, jurídicas, religiosas); e na
área da educação, explica significativamente que em Cristo “todos os tesou­
ros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” (Cl 2.3). O seguidor de
Cristo torna o ensinamento das Escrituras de especial relevância em todos
os lugares. “Está claro para todo aquele que tiver olhos para ver, que o
“fermento” do poder de Cristo, nos corações e nas vidas dos homens e em
todas as esferas humanas, tem exercido, de milhares de maneiras, uma
influência completa. E essa influência ainda continua.”5 Quem tem ouvidos
para ouvir, ouça.
O que, precisamente, queria Jesus dizer com a expressão “reino dos
céus”? É um sinônimo de igreja? O povo de Deus, individual e coletivamente,
confessa o nome de Jesus Cristo como seu Salvador. Juntos constituem a
igreja. Nessa igreja recebem dons e poderes que se tornam capazes de
guardar cuidadosamente a lei de Deus, proclamar universalmente o evange­
lho da salvação e promover efetivamente o governo de Deus.6 A igreja, então,
é constituída de cristãos que praticam os ensinamentos de Cristo em todas
as esferas da vida. Assim procedendo, promovem o reino de Deus, no qual
o governo de Cristo é aceito. Resumindo, cada área da vida influenciada pelo
ensinamento de Cristo (o fermento) pertence ao reino.

5. Hendriksen, Matthew, p. 568.


6. Para um estudo mais abrangente, veja-se Ridderbos, Corning o f the Kingdom, especialm ente
as páginas 342-56.

71
9
O Tesouro Escondido
Mateus 13.44
^ “O reino dos céus é semelhan-
te a um tesouro oculto no campo,
o qual certo homem, tendo-o acha­
do, escondeu. E, transbordante de
alegria, vai, vende tudo o que tem,
e compra aquele campo.”

10
Pérola
Mateus 13.45,46
45“0 reino dos céus é também
semelhante a um que negocia e
procura boas pérolas; 46e, tendo
achado uma pérola de grande va­
lor, vendeu tudo o que possuía, e a
comprou.”

E m sua série de sete parábolas, Mateus elabora cuidadosamente as


duas primeiras — o semeador, o trigo e o joio — registrando a interpretação
de cada uma delas. As outras cinco são um tanto curtas na forma, e diretas
no tocante ao assunto. Apenas duas sentenças constituem cada uma das

73
AS PARÁBOLAS DE JESUS

parábolas — do tesouro oculto e da pérola; a primeira sentença de cada uma


delas é a conhecida frase introdutória: “O reino dos céus é semelhante a...”
O ponto principal da parábola se encontra, naturalmente, na segunda frase.
Encontramos essas duas parábolas apenas no Evangelho de Mateus.
Não sabemos se Jesus contou-as em seqüência ou se Mateus reuniu- as pelo
assunto ao organizar seu material. Permanece o fato de que as duas estão
relacionadas.
Estritamente falando, as frases que apresentam as duas parábolas não
são inteiramente condizentes. Numa, o reino dos céus é semelhante a um
tesouro; e na outra, a um mercador. Não devemos, no entanto, abordar as
duas parábolas com a mente analítica ocidental. Devemos, antes, procurar
seu sentido básico buscando entendê-las como foram entendidas pelos
discípulos, que primeiro as ouviram.

Composição

Jesus contou a história de um homem que achou um tesouro escondido


num campo. Rapidamente, tornou a enterrá-lo e voltou alegre para casa, a
fim de vender tudo o que possuía, para comprar o campo.
As crianças, muitas vezes, fantasiam que em algum lugar, em alguma
casa velha, ou celeiro, vão descobrir um tesouro que ninguém viu. Na nossa
sociedade sofisticada, consideramos isso irreal; pensamos que tais coisas não
acontecessem mais. Entretanto, de tempos em tempos, descobertas são
feitas: um pastor encontrou, perto do Mar Morto, rolos de pergaminho de
dois mil anos de existência; um mergulhador localizou, afundado na costa
da Flórida, um navio espanhol do século 17, cheio de ouro e prata; e um
fazendeiro, arando o seu campo, em Suffolk, Inglaterra, achou um cofre que
guardava belos pratos de prata, do tempo dos romanos.2
Um tesouro tinha sido enterrado em um campo. Quem o enterrara e
por quanto tempo permanecera ali, são perguntas que não temos como
responder. Sabemos que, na antiga Palestina, um país freqüentemente em
guerra, as pessoas achavam mais seguro guardar seu tesouro, ou parte dele,
no campo do que em suas casas. Em casa, os ladrões podiam roubá-lo; no
1. A lguns estudiosos citam o Evangelho de Tomé, onde as duas parábolas estão separadas
(H idden Treasures, Citação 109; and Pearl, Citação 76). Isso é verdade, também, em relação
às parábolas do grão de mostarda e do fermento. A evidência disponível, no entanto, não é
conclusiva. O assunto é discutido por O. Glombitza, “D er Perlenkaufmann”, NTS 7 (1960-
61): 153-61. V er também J. C. Fenton: “Expounding the Parables: IV. The Parables o f the
Treasure and the Pearl (Mt 13.44-46)”, Expt 77 (1966): 178-80; J. Dupont: “Les Paraboles
du Trésor et de la Perle”, NTS 14 (1967-68): 408-18.
2. E. A . Armstrong, The G ospel Parables (New York: Sheed and Ward, 1967), p. 154.

74
O TESOURO ESCONDIDO/A PÉROLA

campo ficaria em maior segurança. Mas, se o proprietário morresse na


guerra, levaria para o túmulo o seu segredo, e ninguém, jamais, poderia saber
onde enterrara o tesouro.
O homem que encontrou tal tesouro podia ser um empregado ou
mesmo um arrendatário daquele campo. Talvez estivesse arando, cavando
buracos, ou plantando uma árvore. De qualquer modo, ele bateu em alguma
coisa dura debaixo da terra, cujo som não parecia o de uma pedra. Ele cavou
e encontrou um tesouro. Não nos é contado de que tesouro se tratava, mas
o homem ficou maravilhado. Nunca tinha visto um tesouro tão valioso. Tudo
aquilo poderia ser seu, se comprasse o campo.
Em segundos, arquitetou um plano. Rapidamente, pôs o tesouro de
volta no lugar, cobriu-o com terra e foi para casa. Sabia que o atual proprie­
tário do terreno não tinha enterrado o tesouro ali. Assim, se o dono lhe
vendesse o terreno, ele teria a posse do tesouro, que, então, seria seu de
direito.3 Ele precisava de dinheiro e pôs à venda tudo o que tinha. Algumas
pessoas talvez tenham meneado a cabeça, reprovando aquela atitude tão
impetuosa. Mas o homem sabia o que estava fazendo. Com o dinheiro,
poderia comprar o campo e teria para si o tesouro.
Em poucas palavras, Mateus relata a parábola da pérola, contada por
Jesus. Um mercador está à procura de pérolas e encontra uma de excepcio­
nal valor. Vai, vende tudo que possui, e compra aquela pérola única.
A história é muito parecida com a do homem que encontrou o tesouro.
A mesma dedicação é encontrada em ambas as parábolas. Cada um dos
homens quer ter o objeto de seu desejo mesmo que isso lhe custe o que
ajuntou em toda a sua vida. Os dois, literalmente, vendem tudo o que têm
para conseguir o tesouro e a pérola.
No tempo do Velho Testamento, as pérolas, aparentemente, não eram
conhecidas, mas já no primeiro século da era cristã, tinham-se tornado
símbolo de status entre os ricos.4 Jesus disse a seus ouvintes: “Nem lanceis
ante os porcos as vossas pérolas” (Mt 7.6), e Paulo queria que as mulheres
de seu tempo se vestissem modestamente: “não com cabeleira frisada e com
ouro, ou pérolas, ou vestuário dispendioso” (1 Tm 2.9). No Apocalipse, uma
voz dos céus, diz: “Choram e pranteiam os mercadores da terra, porque já
ninguém compra a sua mercadoria, mercadoria de ouro, de prata, de pedras
preciosas, de pérolas” (Ap 18.11,12).
3. N ão devem os pôr em dúvida a moral daquele homem, pois não sabemos com o eram as leis
de propriedade, nos dias de Jesus. A parábola não dá ênfase à conduta ética do homem que
encontrou o tesouro. Para um estudo mais detalhado, veja-se J. D. M. Derrett, Law in the
N ew Testam ent (London: Longman and Todd, 1970), pp. 1-16.
4. B. T. D . Smith, The Parables o f the Synoptic G ospels (Cambridge: S. P. C. K., 1937), p. 145.

75
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Nos dias de Jesus e dos apóstolos, as pérolas eram muito procuradas.


Os mercadores tinham que ir ao Mar Vermelho, ao Golfo Pérsico, e até
mesmo à índia para encontrá-las. As pérolas inferiores vinham do Mar
Vermelho; as melhores vinham do Golfo Pérsico e das costas do Ceilão (hoje
Sirilanka) e da índia.5 Um mercador tinha que viajar muito para conseguir
as melhores e maiores pérolas.
O homem, cuja história Jesus contou, está à procura das mais finas
pérolas. Não sabemos para onde viajou, mas um dia encontrou uma de
grande valor. Para ele, era uma oportunidade única na vida. Não sossegou
enquanto não a teve. Pensou muito, fez todos os cálculos, avaliou seus bens,
e decidiu vender tudo o que tinha para comprar aquela pérola única,
perfeita.
Devemos notar que o mercador não foi deliberadamente de um apa­
nhador de pérolas para outro, em busca de uma excepcional. Enquanto as
procurava, no decorrer normal de seu trabalho, ele se deparou com a melhor
de todas as pérolas que já havia visto. Como o homem que descobriu o
tesouro, o mercador, de repente, viu a pérola. Era uma questão de agora —
ou nunca: vender tudo e comprar! Típico negociante oriental, mantém o
rosto impassível durante o negócio. Quando a pérola for sua, haverá tempo
para celebrar.
“Nada vale, nada vale, diz o comprador, mas,
indo-se, então se gaba.” (Pv 20.14)

Aplicação

Os amigos e conhecidos dos dois homens das parábolas devem ter


sacudido suas cabeças em desaprovação, quando os viram vender tudo que
possuíam. Devem ter ficado surpresos, quando logo a seguir tiveram conhe­
cimento do lucro obtido. E tiveram que mostrar respeito; os homens sabiam
o que estavam fazendo.
Os dois, no entanto, não especularam. Não havia nenhum risco na
compra do campo, ou na aquisição da pérola; o que fora comprado valia o
preço. O que fizeram foi o mais sensato. Por acaso, encontram aqueles bens,
e seria tolice ignorá-los. Diante da oportunidade, tudo que tiveram que fazer
foi adquirir o tesouro e a pérola.
Ao comprar o campo e a pérola, os dois homens não fizeram sacrifício
algum, mesmo vendendo tudo o que possuíam. “Há uma diferença básica

5. Smith, Parables, p. 146. Veja Schippers, Gelijkenissen, p. 103; Jeremias, Parables, p. 199;
Hauck, TD N T, IV: 472.

76
O TESOURO ESCONDIDO/A PÉROLA

entre o valor de uma compra e um sacrifício. A compra é a aquisição de um


objeto de valor equivalente. O sacrifício, de outro lado, é uma dádiva que
não espera recompensa.”6 Tanto o homem que encontrou o tesouro quanto
o mercador de pérolas pagaram o preço justo pelo que compraram. Viram
a oportunidade e se mostraram dispostos a pagar o preço devido. Deram
tudo o que tinham em troca do único bem desejado.
O que, então, as parábolas ensinam? Pais da Igreja, como Irineu e
Agostinho, identificam o tesouro e a pérola com Cristo. Pensaram acertada-
mente. O recém-convertido diz exatamente a mesma coisa: “Achei o Cristo.”
O novo cristão, de repente, encontrou Cristo. Alegre, ele volta para casa,
abandona o seu modo de vida, e se devota completamente a seu Senhor.
Alguns vendem tudo o que têm para buscar instrução teológica, a fim de se
ordenarem ministros ou missionários do Evangelho de Cristo.
' 7
E Cristo quem oferece o tesouro e a pérola aos viajantes da vida.
Alguns deles estão buscando; outros estão andando a esmo. Subitamente,
encontram Jesus e acham nele um tesouro inestimável. Sua resposta a Jesus
é de entrega total. Alegremente vendem tudo o que têm, para ter Jesus. A
salvação, naturalmente, é plena e de graça, e não pode ser comprada. É uma
dádiva. Significa que Jesus exige o coração do homem. Como nas palavras
do antigo hino:
Tudo, ó Cristo, a ti entrego,
Por ti tudo deixarei;
Resoluto, mas submisso,
Sempre a ti eu seguirei.
Tudo entregarei! Tudo entregarei!
Tudo, sim, Jesus bendito, por ti deixarei!

6. E. Linnemaim, Parables o f Jesus: Introduction and Exposition (London: S. P. C. K., 1966),


p. 100.
7. Hunter, Parables, p. 80. Também Michaelis, Gleichnisse, p. 66.

77
11
A Rede

Mateus 13.47-50
47“0 reino dos céus é ainda se­
melhante a uma rede que, lançada
ao mar. recolhe peixes de toda es­
pécie. E, quando já está cheia, os
pescadores arrastam -na para a
praia e, assentados, escolhem os
bons para os cestos, e os ruins dei-
r 49. •
tam tora. Assim sera na consu­
mação do século: Sairão os anjos e
separarão os maus dentre os jus­
tos, 50e os lançarão na fornalha
acesa; ali haverá choro e ranger de
dentes.”

Somente o Evangelho de Mateus registra a parábola da rede.1 Está


claramente associada à parábola do trigo e do joio; a interpretação de ambas
focaliza o dia do juízo final. Ainda assim, ficam evidentes diferenças impor­
tantes. Na parábola do joio, Jesus acentuou a idéia de paciência. Essa idéia
não aparece na parábola da rede.2

1. N o Evangelho de Tom é, Citação 8, encontramos uma parábola semelhante, uma cuja ênfase
difere radicalmente: “E ele disse: O homem é com o um pescador que lançou sua rede ao
mar; ele a recolheu quando estava cheia de pequenos peixes. Entre eles o pescador achou
um peixe grande. O pescador sensato lançou de volta ao mar todos os pequenos peixes (e)
escolheu o grande, sem dificuldade. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.”
2. Mánek, Frucht, p. 50. Ver, também, Jeremias, Parables, p. 226.

79
AS PARÁBOLAS DE JESUS

A parábola do joio é mais descritiva. Ela menciona o fazendeiro, seus


servos, e os ceifeiros, mas na parábola da rede apenas os pescadores e suas
tarefas são mencionados. O joio é semeado no campo depois que o fazen­
deiro já tinha plantado o trigo, ao passo que os peixes próprios para serem
consumidos, e os impróprios, estão sempre juntos no Mar da Galiléia. A
parábola do joio descrevc as condições do campo, no presente, e a ceifa
como um acontecimento futuro. A parábola da rede, por outro lado, retrata
a separação dos peixes, no presente.3

A Pesca

A maior parte dos discípulos de Jesus era de pescadores por profissão;


tinham deixado suas redes e seus barcos para seguir Jesus e se tornarem
pescadores de homens. Quando Jesus lhes contou a parábola da rede,
compreenderam cada nuança da história. Jesus se referiu exatamente ao
modo de vida que levavam antes.
A margem norte do Mar da Galiléia é um dos melhores lugares de
pesca, em Israel. As plantas arrastadas pela correnteza do rio Jordão são
depositadas na enseada, ao norte. Essas plantas atraem e alimentam cardu­
mes vastos e variados. Vinte e cinco espécies nativas, pelo menos, já foram
identificadas naquele lado.4
Embora houvesse várias maneiras de pescar, nos dias de Jesus, um dos
mais eficientes era o uso do arrastão. Esse tipo de rede tinha dois metros de
largura e perto de cem metros de comprimento. Tinha cortiça na parte
superior para mantê-la à tona e pesos na parte inferior, para mantê-la ao
fundo. Às vezes, os pescadores fixavam uma das extremidades da rede na
praia, enquanto um barco puxava a outra ponta pelo lago, fazendo uma curva
e trazendo a rede de volta à praia. Outras vezes, saíam dois barcos da praia,
formando um semicírculo com a rede; juntos, os homens a puxavam para
apanhar os peixes e juntá-los nos barcos. O uso do arrastão exigia a força de
seis homens ou mais. Enquanto uns remavam, outros lançavam ou puxavam
a rede e outros ainda batiam na água para guiar os peixes para a rede.5
Pescadores experimentados procuravam localizar um bom cardume
antes de começar a pescar. Mas, uma vez lançada a rede, os homens puxavam
3. Michaelis, Gleichnisse, pp. 68-69. Consulte, também, B. Gerhardsson, “The Seven Parables
in M attew XIII”, NTS 19 (1972-1973): 18-19.
4. G. Cansdale, Animais o f Bible Lands (Grand Rapids: Zondervan, 1970), p. 216. Consulte,
também, Dalman, Arbeit und Sitte, 4: 351, que faz referência a vinte e quatro espécies.
5. Há uma interessante descrição a respeito em W. O. E. Oesterley, The G ospel Parables in the
Light o f Their Jewish Background, (New York: Macmillan Co., 1936), pp. 85-86.

80
A REDE

todos os peixes apanhados por ela. Obviamente, os peixes estavam mistura­


dos, pois não podiam selecioná-los, enquanto pescavam.6
A rede apanhava os peixes próprios e impróprios para o consumo —
os bons e os maus. Peixes de todos os tipos e tamanhos se debatiam ao serem
puxados para a praia. Muitas espécies eram consideradas impuras, de
acordo com as normas de alimentação dos judeus. Peixes sem barbatanas e
sem escamas não podiam ser comidos (Lc 11.10), e tinham que ser lançados
de volta à água. Os peixes pequenos, também, eram abandonados. Somente
os peixes em condição de serem negociados eram apanhados e colocados
em recipientes adequados. A classificação dos peixes, enfim, determinava o
valor da pesca; até à hora da escolha, era impossível avaliar o lucro obtido.

Explicação

Jesus usa a parábola da rede para descrever o dia do juízo. Ele se dirige
a seus discípulos que sabiam como apanhar e selecionar os peixes. Ele fala
a linguagem deles e consegue, assim, comunicar efetivamente uma verdade
espiritual. Jesus faz, ainda, uma breve interpretação da parábola. “Assim
será na consumação do século: Sairão os anjos e separarão os maus dentre
os justos, e os lançarão na fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de
dentes” (Mt 13.49,50). As palavras são quase idênticas àquelas usadas por
Jesus em sua interpretação da parábola do trigo e do joio. “Pois, assim como
o joio é colhido e lançado ao fogo, assim será na consumação do século.
Mandará o Filho do homem os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos
os escândalos e os que praticam a iniqüidade, e os lançarão na fornalha
acesa; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13.40-42).
Argumentar que a interpretação da parábola da rede não se ajusta aos
termos da própria parábola, porque os peixes impróprios para serem comi­
dos são jogados de volta à água, e não em uma fornalha acesa, é ilógico. Do
mesmo modo, alguém poderia afirmar que a interpretação da parábola do
trigo e do joio é inadequada, pois o joio não range os dentes. Jesus usa
linguagem simbólica e transfere a mensagem da parábola para o destino
espiritual do homem: céu ou inferno. Na parábola do trigo e do joio, o destino
do homem é o céu, onde os justos resplandecerão como o sol, ou o inferno,
onde há choro e ranger de dentes.
A interpretação dada omite todos os pormenores descritivos a respeito
dos pescadores lançando a rede e trazendo para a praia o produto da pesca;
apenas a separação dos peixes bons, daqueles sem valor, é explicada. Por­
6. D odd, Parables, p. 188.

81
AS PARÁBOLAS DEJESUS

tanto, não é prudente usar a própria interpretação para os detalhes da


parábola.7 Os pormenores fazem parte do quadro total do produto da
colheita. A rede traz todos os peixes apanhados, e os pescadores, simples­
mente, não podem escolher enquanto pescam. Do mesmo modo, os segui­
dores de Jesus, escolhidos para serem pescadores de homens, não têm como
selecionar quando e a quem proclamar o evangelho. Usando as palavras de
outra parábola, os servos de Cristo saem pelas ruas e reúnem todos os que
encontram, tanto bons como maus (Mt 22.10). O apelo do evangelho é
dirigido a todos, sem discriminação.
Na parábola da rede, os pescadores lançam a rede, juntam o que
conseguiram apanhar, e separam os peixes.8 Na interpretação são os anjos
que vêm e separam os ímpios dos justos. Assim, podemos deduzir que os
pescadores, também, pertencem à multidão da qual os anjos recolherão os
ímpios. Os ímpios serão retirados da multidão dos justos.
O termo ímpio é abrangente: ele se refere, também, àquelas pessoas
que na aparência fazem parte da igreja, mas no íntimo não têm qualquer
ligação com a verdadeira igreja. Com a boca confessam o Credo Apostólico,
mas em seus corações não possuem a fé genuína em Jesus Cristo.
Essas pessoas são como aquelas descritas na parábola do semeador:
têm seus corações endurecidos (o solo à beira do caminho); são cristãos
apenas superficialmente (o solo rochoso); amam os bens e os prazeres do
mundo (o solo cheio de espinheiros). Estão na igreja, mas não pertencem a
ela. No dia do juízo final, os anjos de Deus virão e os separarão do povo de
Deus, e os lançarão no fogo ardente reservado para eles.
O que a parábola ensina? Diz aos seguidores de Jesus: vão à sua tarefa
diária de testemunhar aos outros, onde quer que estejam; tragam-nos para
a igreja; façam com que se lembrem sempre da necessidade da fé e do
arrependimento; que eles estejam atentos para o dia do juízo, quando, então,
a separação entre o ímpio e o justo acontecerá.
Mateus, apropriadamente, fecha a série de sete parábolas (sete é o
número da perfeição) com a parábola da rede. Essa última parábola lembra,
uma vez mais, o dia dos dias, quando se dará o juízo final.

7. Por exemplo, Lenski, em Matthew’s Gospel, p. 547, diz que “a rede é o Evangelho”.
8. Em um curto e interessante estudo, J. Mánek, “Fishers ot M en”, NovT 2 (1958): 138^1,
mostra que há inimizade entre o mar e Deus (A p 21.1). “Porque o mar é lugar de revolta
contra Deus, ele não pode participar do mundo novo, no futuro. Ele passará juntam ente
com outros poderes demoníacos, com o está demonstrado na visão do novo céu e da nova
terra, em Ap. X X I.l”, p. 139. O s pescadores de homens, portanto, os resgatarão de um
ambiente hostil a Deus.
9. Veja W. F. Albright e C. S. Mann, Matthew (New York: Doubleday, 1971), p. cxliv.

82
A REDE

O escritor da Epístola aos Hebreus resume sucintamente: “E, assim,


como aos homens está ordenado morrerem uma só vez e, depois disto, o
juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para
tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o
aguardam para a salvação” (Hb 9.27,28).

83
12
O Credor
Incompassivo

Mateus 18.21-35
71
“Então Pedro, aproximando-
se, lhe perguntou: Senhor, até
quantas vezes meu irmão pecará
contra mim, que eu lhe perdoe?
Até sete vezes? 22Respondeu-lhe
Jesus: Não te digo que até sete
vezes, mas até setenta vezes sete.”
“Por isso o reino dos céus é
semelhante a um rei, que resolveu
ajustar contas com os seus servos.
2 E passando a fazê-lo, trouxeram-
lhe um
2 c
que
*■
lhe devia dez mil talen-
tos. Não tendo ele, porém, com
que pagar, ordenou o senhor que
fosse vendido ele, a mulher, os fi­
lhos e tudo quanto possuía, e que
a dívida fosse paga. 6Então o ser­
vo, prostrando-se reverente, ro­
gou: Sê paciente comigo e tudo te
pagarei. 27E o senhor daquele ser­
vo, compadecendo-se, mandou-o

85
AS PARÁBOLAS DE JESUS

embora, c perdoou-lhe a dívida.


28Saindo, porém, aquele servo, en­
controu um dos seus conservos
que lhe devia cem denários; e,
agarrando-o, o sufocava, dizendo:
Paga-me o que me deves. 29Então
o seu conservo, caindo-lhe aos pés,
lhe implorava: Sc paciente comigo
e te pagarei. 30Ele, entretanto, não
quis; antes, indo se, o lançou na
prisão, até que saldasse a dívida.
Vendo os seus companheiros o
que se havia passado, entristece­
ram-se muito, e foram relatar ao
seu senhor tudo que o acontecera.
32Então o seu senhor, chamando-
o, lhe disse: Servo malvado, per­
doei-te aquela dívida toda porque
me suplicaste; 33não devias tu,
igualmente, compadecer-te do teu
conservo, como também eu me
compadeci de ti? ^ E , indignando-
se, o seu senhor o entregou aos
verdugos. até que lhe pagasse toda
a dívida. Assim também meu Pai
celeste vos fará, se do íntimo não
perdoardes cada um a seu irmão.”

A História

J e s u s , alguma vez, negou-se a atender qualquer um que tenha vindo


a ele em arrependimento e fé? Claro que não! Nunca, não importa que
pecado tivesse cometido. Essa é a nossa resposta. Sabemos isso porque “a
Bíblia nos diz”. Mas, quantas vezes nos esquecemos do nosso próximo? Uma
coisa é Jesus perdoar alguém que tenha cometido um crime odioso; outra,
nós perdoarmos o nosso próximo que cai, constantemente, no mesmo peca­
do.
Pedro, conhecedor da Lei e dos Profetas, bem como da tradição
judaica, sabia que devia perdoar seu semelhante. Sabia qual era o seu dever.
Mas, qual o limite? Há limite, afinal? Pedro pensava que devia perdoar até
sete vezes. Ele achava que sete vezes seria suficiente, e que Jesus, provavel­
mente, diria algo como: “Sim, Pedro, é bastante.” A misericórdia sem limite

86
O CREDOR INCOMPASSIVO

não encoraja uma vida de pecados? Jesus não concordaria com Pedro: “H á
limite para tudo?”
Mas a resposta de Jesus é: “Não te digo que até sete vezes, mas até
setenta vezes sete.” Jesus multiplica os dois números, sete e dez — números
que simbolizam a perfeição — e acrescenta um outro sete: Ele quer dizer,
não sete vezes, mas setenta vezes — sete vezes; isto é, a perfeição vezes a
perfeição e mais a perfeição.1 Ele indica a idéia de infinito. A misericórdia
de Deus é tão grande que não pode ser medida; você, Pedro, deve também
mostrar misericórdia a seu próximo.
Para explicar a magnitude do amor misericordioso de Deus, que deve
se refletir em seu povo, Jesus ensina a parábola do servo incompassivo. Ele
conta a história, e o faz muito bem.
Um rei reuniu seus oficiais (= servos), no dia marcado para o acerto
de contas.2 Um deles lhe devia a astronômica soma de dez mil talentos. De
fato, a expressão “dez mil talentos” traz implícito o significado de algo que
não se pode numerar ou contar, algo infinito.3 Além disso, o talento era,
naqueles dias, o mais alto valor monetário do sistema financeiro. Comparan­
do, vemos que o total anual de impostos que Herodes, o Grande, recebia de
todo o reino era de, aproximadamente, novecentos talentos.4 Está claro que
o ministro das finanças devia a seu senhor uma quantia enorme. Não nos é
contado o que ele havia feito com o dinheiro; esse fato não tem importância.
Ele devia a soma de dez mil talentos, e tinha que pagar. Ele sabia que jamais
conseguiria todo aquele dinheiro, no dia marcado para o ajuste de contas.
Quando ficou diante de seu senhor, ouviu o veredito: ele, sua mulher,
seus filhos e tudo o que possuía seriam vendidos para o pagamento da dívida.
E ra demais para ele. Atirou-se aos pés do soberano, implorando misericór­
dia, e pediu: “Sê paciente comigo e tudo te pagarei.” Ele implorou miseri­
córdia, não o perdão. Prometeu restituição, sabendo que poderia pagar
apenas uma pequena parte e não mais. Como resposta, recebeu o que menos

1. A frase pode também ser traduzida como “setenta vezes sete”. Veja-se, Gn 4.24.
2. Quando um monarca oriental convocava seus secretários do tesouro, deixava de lado os
oficiais menores. Ele se encontrava com os oficiais do alto escalão do serviço público. Veja-se
K. H. Rengstorf, T D N T II: 266 que destaca que a palavra servo é a forma lingüística usual
para a relação de sujeição ao rei, nas despóticas monarquias do antigo oriente.”
3. H. G. Liddell e R. Scott, A Greek English Lexicon (Oxford: Clarendon Press, 1968), p. 1154.
A soma de dez mil talentos chega a vários milhões de dólares.
4. Josephus, Antiquities 17:318-20. Judéia, Iduméia e Samaria pagavam seiscentos talentos de
im postos anualmente. Galiléia e Peréia pagavam duzentos talentos; Batanéia e Traconitis,
bem com o Auranitis pagavam cem talentos.

87
AS PARÁBOLAS DE JESUS

esperava — quitação da dívida. Seu senhor teve piedade dele, cancelou o


seu débito e deixou-o ir.5 Inacreditável! Que alegria! Quanta bondade!
Este foi apenas o primeiro ato do drama.6 O segundo ato é paralelo
ao primeiro: o ministro das finanças se torna senhor e encontra um outro
oficial do rei.
Descendo as escadas do palácio real, o servidor público absolvido
encontrou um outro servidor que lhe devia cem denários. Realmente, era
muito pouco — alguns dias de trabalho e a soma seria conseguida. Mas o
servidor público, agarrou-o pelo pescoço e o sufocava, exigindo pagamento
imediato: “Paga-me o que me deves.”7 O devedor atirou-se aos pés do
ministro das finanças e pediu: “Sê paciente comigo e te pagarei.” Ele não
precisava dizer: “Pagarei tudo”, porque o total era pequeno. Estava claro
que ele pagaria tudo. Mas o ministro das finanças se recusou, lançou o
homem na prisão, esperando que alguém o pusesse em liberdade sob fiança,
e pagasse a dívida.
O terceiro ato apresenta as testemunhas do segundo ato; e é, também,
a segunda e última confrontação do rei com o servidor público.
Nada foi feito às escondidas; era difícil guardar segredos, no palácio.
Outros viram o que tinha acontecido e não podiam manter silêncio. Tinham
que contar ao rei. O rei, quando ouviu a história, ficou zangado. Chamou o
servo e o repreendeu: “Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque
me suplicaste, não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo,
como também eu me compadeci de ti?” Com isso, entregou-o aos carcereiros
para que o torturassem até que a dívida fosse paga.8
A conclusão é que todo aquele que recebeu perdão deve estar pronto
a perdoar quem quer que esteja em débito com ele, e deve fazê-lo de todo
o coração.
5 .0 ministro das finanças expôs sua falta de condição para pagar a divida e pediu um adiamento.
Prometia pagar tudo dentro de um ano. D esse modo, o dinheiro devido renderia juros ao rei.
Na realidade, o débito ( = daneion) que o rei perdeu era um empréstimo. Derrett, Law in the
New Testament, pp. 39-40.
6. Para um estudo simétrico da parábola, veja-se F. H. Breukelman, “Eine Erklárung des
Gleichnisses vom Schaiksknecht”, Parrhesia, Festschrift honoring Karl Barth (Zürich: 1966),
pp. 261-87.
7 .0 conservo não podia pagar, pois estava indo ao rei para quitar seu im posto anual. Prendendo
seu companheiro, o ministro das finanças ofendeu o rei, privando-o de receber o que lhe era
devido, naquele dia. Consulte-se Derrett, Law in the New Testament, pp. 41-42.
8. “A tortura era empregada regularmente, no Oriente, contra um governador desleal, ou contra
qualquer um que atrasasse os impostos, a fim de descobrir onde escondia o dinheiro, ou para
extorquir a soma de seus parentes e amigos.” Jeremias, Parables, 212.

88
O CREDOR INCOMPASSIVO

A Lição

Esta história movimentada, contada em pormenores expressivos,


acentua o contraste entre o amor infinito e a misericórdia de Deus e o
comportamento mesquinho do homem, que tenta justificá-lo com base na
lei. Jesus usa essa parábola para dizer a Pedro algo a respeito da grandeza
do amor misericordioso de Deus para com o homem pecador. O pecado do
homem é tão grande que Deus tem que perdoá-lo infinitamente mais que a
conta de setenta vezes sete. A misericórdia de Deus não pode ser medida.
Podemos calculá-la apenas vaga e aproximadamente, ao contar a história do
servidor público que devia a seu senhor uma soma que beirava a milhões.
Embora a palavra justiça não seja encontrada na parábola, os conceitos
expressos são os de misericórdia e justiça. São conceitos bíblicos porque
ocorrem repetidamente no Velho Testamento, revelados pelos salmistas e
r 9
protetas.
Cantarei a bondade e a justiça;
a ti, SENHOR, cantarei (SI 101.1).
O povo judeu sabia muito bem que tinha que praticar a misericórdia
e a compaixão. Deus lhes dissera expressamente: “Se emprestares dinheiro
ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás com ele como credor
que impõe juros. Se do teu próximo tomares em penhor a sua veste, lha
restituirás antes do pôr-do-sol; porque é com ela que se cobre, é a veste do
seu corpo; em que se deitaria? Será, pois, que, quando alguém clamar a mim,
eu o ouvirei, porque sou misericordioso” (Ex 22.25-27).10 A justiça se
manifestava de diversas maneiras. Por exemplo, as exigências do Ano do
Jubileu eram impostas; durante aquele ano, os que haviam alienado suas
propriedades entravam de novo na posse delas e os escravos adquiririam sua
liberdade.11 Resumindo, o judeu dos dias de Jesus sabia que misericórdia e
justiça não podem ser tratadas separadamente. Estão interligadas.
É por esse motivo que Jesus conta a parábola do credor incompassivo.
Ele ensina que a prática da misericórdia não se coloca apenas ocasionalmen­
te ao lado da justiça. Jesus ensina a aplicação de ambas, da justiça e da
misericórdia. Muitas vezes, entendemos justiça como uma norma que deve
ser aplicada rigorosamente, a misericórdia como um abandono ocasional
9. SI 103.6,8; Mq 6.8. Consulte-se F. Notscher, “Righteousness (justice)” na Encyclopedia of
Biblical Theology (London: 1970), 2: 782.
10. SB, I: 800-1.
11. O sistema do A n o do Jubileu, do Velho Testamento não funcionava muito bem. Não por
causa da lei de D eus, mas pelo egoísm o e avareza do homem. Os profetas do V elho
Testam ento pregavam a justiça baseados, constantemente, na lei. Veja-se A. H. Leitch,
“Righteousness”, em ZPEB, 5:108.

89
AS PARÁBOLAS DE JESUS

dessa norma. Exercemos essa opção como um “direito”, e, freqüentemente,


somos elogiados ao mostrar indulgência.12 Reconhecemos que a justiça
contém um tanto de misericórdia, mas, no geral, sentimos que esta não deve
ser mostrada a toda hora.
No tempo do Velho Testamento, entretanto, Deus instruiu seu povo a
considerar misericórdia e justiça como normas iguais. Normas essas que
devem ser, ambas, eficientes e funcionais, pois refletem a maneira como
Deus se relaciona com o seu povo. Com o tempo, a ênfase se alterou. Escritos
do período entre os Testamentos proclamam que, no dia do juízo, a justiça
prevalecerá e a misericórdia terá fim. “Então o Altíssimo será visto no trono
do julgamento, e haverá um fim para toda piedade e paciência. Apenas o
julgamento permanecerá” (2 Esdras 7.33, 34 NEB).

Aplicação

Em nossa sociedade temos, às vezes, enfatizado a misericórdia, em


detrimento da justiça. A preocupação exageradamente escrupulosa para
com os “direitos” do criminoso tem alcançado extensão tal que os direitos
do ofendido acabam por ser completamente ignorados. As Escrituras não
ensinam que a misericórdia anula a justiça; nem ensinam que a justiça
elimina a misericórdia. As duas normas são igualmente válidas.
Como Jesus mostrou a Pedro que ele devia perdoar o seu próximo,
vezes sem fim? Ele contou a história de um homem cujo débito era esmaga-
doramente grande e que implorou piedade quando a justiça foi aplicada. Seu
senhor cancelou a dívida e mostrou infinita misericórdia. O homem foi posto
em liberdade e pôde conservar sua mulher, filhos e tudo quanto possuía.13
Estava isento de sua dívida.
Jesus não contou a história de um homem que, várias vezes, dia após
dia, vinha diante de seu senhor para implorar perdão pelos pecados que
repetidamente cometia. Em vez disso, para realçar o nosso débito para com
Deus, ele ensina a história de um homem que tinha uma enorme dívida com
o seu senhor. “Se observares, SENHOR, iniqüidades, quem, SENHOR,
subsistirá? Contigo, porém, está o perdão, para que te temam” (SI 130.3,4).
A desesperança do homem se revela quando ele está diante de Deus.14 Seu
12. Linnemann, Parables, pp. 111-13; Hunter, Parables, p. 69.
13. “A lei judaica apenas permitia a venda de um israelita em caso de roubo, se o ladrão não
pudesse devolver o que tinha roubado; a venda da esposa era termínantemente proibida sob
a jurisdição dos judeus; conseqüentemente, o rei e seus ‘servos’ representam os gentios."
Jeremias, Parables, p. 211. Ver, também, SB, I: 798. Mas a parábola não se refere ao povo
judeu, e, portanto, a lei judaica não se aplica. Veja-se Derrett, Law in the New Testament,
p. 38.
14. R. S. Wallace, Many Things in Parables (New York: Harper and Brothers, 1955), p. 171.

90
O CREDOR INCOMPASSIVO

pecado é esmagador porque ele transgrediu a lei de Deus. Merece a morte.


Mas ele sabe que Deus é um Deus de misericórdia. Quando Davi tinha
desobedecido a Deus, levantando o censo de Israel e Judá, ao fazer cumprir
a justiça, Deus deu a ele três escolhas: três anos de fome, três meses de
perseguição, ou três dias de peste. Davi respondeu: “Caiamos nas mãos do
SENHOR, porque muitas são as suas misericórdias...” (2 Sm 24.14; 1 Cr
21.13). Deus revelou a Davi o seu pecado, dcu-lhc o veredito e mostrou
misericórdia.
No segundo ato da história, Jesus mostra que o homem perdoado deve
refletir a misericórdia e a compaixão de Deus. Se Jesus não tivesse descrito
o servidor público, de joelhos, implorando misericórdia, e tivesse contado
apenas a segunda metade da história, com o homem forçando seu compa­
nheiro a pagar-lhe a dívida, poderíamos dizer que prevaleceu a justiça
mesmo que rigorosa.15 Mas o homem tinha sido perdoado de uma dívida
enorme, e agora encontrava um companheiro que, devendo-lhe uma ninha­
ria, pedia misericórdia. Ele perdoaria?
Corrie ten Boom, conhecida oradora e autora, esteve prisioneira,
durante a II Grande Guerra, em um campo de concentração alemão, sofren­
do muito nas mãos de um dos guardas alemães. Anos mais tarde, um dia,
testificou sua alegria no Senhor, numa reunião na Alemanha do após guerra.
Depois do encontro, enquanto algumas pessoas conversavam com ela, aque­
le mesmo guarda alemão aproximou-se de Corrie e lhe pediu que o perdoas­
se. Num clarão de reconhecimento, ela se lembrou da dor e da angústia
sofridas na prisão, por causa daquele guarda. Agora, ele ali estava, à sua
frente, pedindo-lhe misericórdia. E aquele que não merecia, recebeu o
perdão. Triunfou a misericórdia!
O servidor público retratado na parábola não perdoaria. Aplicaria o
princípio da justiça sem misericórdia. Em vez de deixar triunfar a misericór­
dia, escolheu a vitória da justiça. Esse foi seu erro. Tiago escreve que “o juízo
é sem misericórdia para com aquele que não usou de misericórdia” (2.13).
O servo se recusou a refletir a compaixão que seu mestre lhe mostrara.
Porque não mostrou piedade por seu companheiro, mas exigiu justiça, teve
que enfrentar, uma vez mais, seu senhor, o rei. Exigindo justiça se afastou
de seu mestre e de seu companheiro.16
No último ato desse drama, o servo incompassivo reencontra, face a
face, o seu irado senhor. O que o servo fizera a seu devedor, o senhor faz
agora a ele: a justiça é administrada sem misericórdia. O servo lançou a si
próprio na miséria, para sempre.

15. Wallace, Many Things, p. 174; Linnemann, Parables, p. 111.


16. D. O. Via, Jr., The Parables (Philadelphia: Fortress Press, 1967), p. 142.

91
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Deus não pode relevar que alguém se recuse a mostrar misericórdia,


pois isto contraria sua natureza, sua Palavra e seu testemunho. Deus perdoa
aceitando o pecador como se este não tivera pecado jamais. Deus perdoa a
dívida do pecador e recomenda que não peque mais (SI 103.12 e Jr 31.34).
Deus espera que o pecador perdoado faça o mesmo. Ele se torna o repre­
sentante de Deus quando mostra a característica divina da graça misericor­
diosa.
A conclusão da parábola é expressa em palavras que nos são familiares.
Quando Jesus ensinou o Pai Nosso, continuou, dizendo: “Porque se perdoar -
des aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se,
porém, não perdoardes aos homens (as suas ofensas), tão pouco vosso Pai
vos perdoará as vossas ofensas” (Mt 6.14,15).17

17. Veja-se, também, Marcos 11.25 e Colossenses 3.13.

92
13
Os Trabalhadores da
Vinha

Mateus 20.1-16
1“Porque o reino dos céus é se­
melhante a um dono de casa que
saiu de madrugada para assalariar
trabalhadores para a sua vinha. E,
tendo ajustado com os trabalhado­
res a um denário por dia, mandou-
os p ara a vinha. 3Saindo pela
terceira hora viu, na praça, outros
que estavam desocupados, e dis-
se-lhes: Ide vós também para a vi­
nha, e vos darei o que for justo.
Eles foram. 5Tendo saído outra
vez perto da hora sexta e da nona,
procedeu da mesma forma; e,
saindo por volta da hora undéci-
ma, encontrou outros que estavam
desocupados, e perguntou-lhes:
Por que estivestes aqui desocupa­
dos o dia todo? R esponderam -
lh e: P o rq u e n in g u ém nos
contratou. Então lhes disse ele: Ide

93
AS PARÁBOLAS DEJESUS

também vós para a vinha. 8Ao cair


da tarde, disse o senhor da vinha
ao seu administrador: Chama os
trabalhadores e paga-lhes o salá­
rio, com eçando pelos últimos,
indo até aos primeiros. 9Vindo os
da hora undécima, recebeu cada
um deles um denário. 10Ao chega­
rem os primeiros, pensaram que
receberiam mais; porém, também
estes receberam um denário cada
um. 11 Mas, tendo-o recebido,
murmuravam contra o dono da
12
casa, dizendo: Estes últimos tra­
balharam apenas uma hora; contu­
do, os ig u a la ste s a nós que
suportamos a fadiga e o calor do
dia. 13Mas o proprietário, respon­
dendo, disse a um deles: Amigo,
não te faço injustiça; não combi-
naste comigo um denário? 14Toma
o que é teu, e vai-te; pois quero dar
a este último, tanto quanto a ti.
Porventura não me é lícito fazer
o que quero do que é meu? Ou são
maus os teus olhos porque eu sou
bom? 16Assim, os últimos serão
primeiros, e os primeiros serão úl­
timos (porque muitos são chama­
dos, mas poucos escolhidos).”

C o n h ecid a pelo título de “Os Trabalhadores da Vinha”1, esta história


é uma das parábolas encontradas em Mateus, a respeito do reino. Entretan­
to, esta parábola não termina com a mensagem: “Vai, e procede tu de igual
modo”, no reino do céu. Seu enfoque não é a relação de trabalho e economia
com o estabelecimento de um pagamento justo. Antes, as palavras e os atos

1. Jeremias, em Parables, p. 136, dá mais ênfase ao empregador que aos trabalhadores e,


conseqüentemente, fala da parábola do Bom Empregador. Veja-se, também, Hunter,
Parables, p. 70. Mánek, Frucht, p. 55, chama a parábola de “Pagamento Igual”.

94
OS TRABALHADORES DA VINHA

do empregador, teologicamente falando, apontam para Deus, que dá aos


homens, livremente, suas dádivas. Na verdade, ecoa na história o verso de
um dos Salmos de Davi: “Oh! provai, e vede que o SENHOR é bom...” (SI
34.8).

O Trabalho e os Trabalhadores

Embora a parábola não cite a época específica do ano em que os


trabalhadores são mais necessários na vinha, podemos presumir que seja em
setembro,2 quando se dá a colheita da uva. Durante o mês de setembro, o
período entre o levantar e o pôr-do-sol, em Israel, vai, aproximadamente,
das 6 horas da manhã até às 6 horas da tarde. Descontando os períodos de
descanso para as refeições e as orações, um trabalhador judeu, nos dias de
Jesus, considerava normal uma jornada de dez horas de trabalho.3 Em Israel,
a temperatura do meio do dia é ainda mais alta em setembro, de modo que
os trabalhadores no campo ou nas vinhas experimentavam literalmente “o
calor do dia”.
O proprietário de uma vinha de tamanho regular resolveu colher suas
uvas, em um determinado dia. Todos os seus servos, que trabalhavam para
ele, regularmente, durante todo o ano, saíram para a vinha às seis horas da
manhã, enquanto o dono foi até à praça da cidade próxima, ao romper da
aurora. Ele precisava encontrar alguns trabalhadores desempregados que
estivessem dispostos a trabalhar por dia, pela soma razoável de um denário.
Bem cedo, entre cinco e seis horas da manhã, alguns homens dispostos a
trabalhar já permaneciam pela praça à espera de algum empregador que
viesse oferecer-lhes trabalho. O proprietário da vinha falou com os homens,
mencionou o pagamento diário de um denário — com o qual todos concor­
daram — e levou-os para a jornada de dez horas de trabalho. Os trabalha­
dores, estando desempregados, dependiam do empregado que, por acaso,
precisasse deles por um curto período de tempo. É claro que precisavam
muito mais do empregador do que este precisava deles.
Nos dias de Jesus, os trabalhadores se consideravam privilegiados ao
conseguir um salário. Providenciando trabalho, o empregador demonstrava
2. A . C. Schultz, em “Vine, Vineyard”, ZPEB, 5: 882, afirma que, embora as uvas com ecem a
amadurecer em Julho, a colheita acontece em setembro. Consulte-se Dalman, A rbeít und
Sitte, IV:336. Derrett, “Workers in the Vineyard: A parable o f Jesus”, Journal o f Jewish
Studies 25 (1974): 72, publicano, também, em Studies in the New Testament (Leiden: Brill,
1977), 1:56.
3. F. Gryglewicz, “The Gospel o f the Overworked Workers”, CBQ 19 (1957): 192. Veja-se SB,
1:830.
4. U m denário era um pagamento justo por um dia de trabalho e suficiente para sustentai um
trabalhador e sua família. Veja-se Mánek, Frucht, p. 56.

95
AS PARÁBOLAS DE JESUS

sua bondade. E ra um ato de graça da parte do empregador.5 Passar horas


ociosas na praça significava para o trabalhador que ele e sua família teriam
que contar com a caridade dos outros. O trabalhador não tinha recursos
próprios, e as dádivas dos ricos nem sempre aconteciam. Conseqüentemen­
te, um dia todo de trabalho era uma bênção para o trabalhador e sua família.
Enquanto os servos e os novos contratados estão ocupados trabalhan­
do na vinha, o proprietário volta à praça para ver se consegue encontrar mais
alguns trabalhadores. São entre oito e nove horas, e muitos estão ainda à toa,
na praça. O empregador pergunta-lhes se trabalhariam o resto do dia em
sua vinha. Ele lhes promete um salário justo, embora não especifique a
quantia. Os trabalhadores, conhecendo a reputação do dono da vinha,
confiam nele plenamente. Sabem que não ficarão desapontados ao fim do
dia.
A medida que o trabalho progride, o proprietário e seu capataz
calculam o número de horas de trabalho necessárias ainda para terminar a
tarefa antes que a noite caia. Fica evidente a necessidade de mais trabalha­
dores extras. O dono da vinha sabe exatamente quando certas uvas devem
ser colhidas. Se forem deixadas na videira por mais um ou dois dias acumu­
larão açúcar demais. O valor de mercado das uvas de vindima superior
depende da quantidade correta de açúcar. Se o dia da colheita cai numa
sexta-feira, o fazendeiro faz tudo o que pode para conseguir trabalhadores
adicionais e completar a tarefa antes do sábado.6
Idas à praça próxima se repetem a intervalos regulares, ao meio-dia e
às três da tarde, com sucesso variado. Ao entardecer, parece que o projeto
não estará completo até ao cair da noite, a menos que mais trabalhadores
sejam contratados. O proprietário volta à praça às cinco horas e encontra
alguns homens por ali. Pergunta por que estão na praça, àquela hora do dia.
Eles respondem que ninguém veio contratá-los. O empregador diz: “Ide
também vós para a vinha.” Não faz nenhuma menção ao pagamento.
O dono da vinha sabe que é permitido aos trabalhadores consumir
quanta uva desejarem. Ele espera perder, com isso, aproximadamente três
por cento da colheita. Contratando trabalhadores ao final da tarde, porém,
não corre o risco de perder tanta uva. Ele espera que apliquem sua energia
no trabalho da colheita. “Ide também vós para a vinha.”

5. A diferença de condições de trabalho de antigamente e de hoje é surpreendente. Veja-se


Oesterley, Parables, p. 107.
6. Os relógios não eram usados; o dia era dividido em horas a partir do nascer do sol, muito
embora o dia judeu comece ao pôr-do-sol. Veja-se Jeremias, Parables, p. 136, ne 21. Derrett,
“Workers in the Vineyard”, p. 56.

96
OS TRABALHADORES DA VINHA

As Horas e os Pagamentos

Na parábola toda, o empregador é a figura dominante. Ele visita a


praça ao romper da aurora, contrata os trabalhadores, observa a necessidade
de trabalhadores extras, retorna, ainda, repetidas vezes à praça, para con­
tratar mais homens. É ele que instrui seu capataz para pagar os trabalhado­
res, e ele mesmo se dirige àqueles que murmuram contra ele. O proprietário
mantém o controle da situação do começo ao fim. De fato, ele é aquele a
quem se compara o reino dos céus, na frase introdutória.
Várias questões surgem a respeito da administração da vinha. Por
exemplo: por que o proprietário volta à praça por, pelo menos, quatro vezes
a fim de contratar novos trabalhadores? O esperado seria que ele fizesse
uma estimativa cuidadosa de quantos trabalhadores seriam necessários para
cumprir a tarefa, antes que viesse a noite. Mas, não devemos aplicar a lógica
ocidental a uma história que provém da cultura oriental. A lei da procura e
da oferta foi, sem dúvida, observada. Além disso, trabalhadores contratados
mais tarde, no dia, chegavam à vinha descansados e com energia para gastar.
O empregador obtinha um bom retorno dos trabalhadores que trabalhavam
energicamente durante meio dia ou menos.
Os trabalhadores podiam ser contratados por hora e esperavam ser
pagos imediatamente após o término de sua tarefa.8 Aqueles que permane­
ceram na praça durante todo o dia podiam ter voltado para casa logo de
manhã, quando ninguém os havia contratado. Em vez disso, esperavam que
alguém viesse e os contrastasse, mesmo que para apenas uma parte do dia.
Esses trabalhadores não eram vadios que passavam o tempo em conversas
vazias. Tinham família para sustentar, e por isso esperavam ansiosos que
alguém os contratasse. Até às cinco horas da tarde, esperavam ainda,
desejando que alguém precisasse de seus serviços por apenas uma hora, ou
com a esperança de combinar alguma tarefa para o dia seguinte. A seu modo,
mostravam confiança, dedicação e necessidade.

7. A frase introdutória, entretanto, é apenas um ponto de partida. Ridderbos, Corning o f the


Kingdom, p. 141. O dono da vinha é a figura central da parábola e sua palavra e seus atos
ilustram o significado do reino.
8. A regra dos rabinos era que um homem empregado por hora, para uma tarefa, devia receber
seu salário todos os dias. Veja-se Baba Mezia III a e Nezikin I, em Babylonian Talm ud,
(Boston: Bennet, n.d.), p. 633. Veja-se, também, SB, 1:832. Pagando antes os trabalhadores
contratados por último, e dando a eles um salário igual, o proprietário evitou possíveis
pechinchas, que lhe tomariam tempo considerável. Veja-se D errett, “Workers in the Vi-
neyard”, p. 63.

97
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Os trabalhadores recebiam seu pagamento no final do dia. Os empre­


gadores observavam as normas bíblicas de não reter o pagamento do traba­
lhador diarista durante a noite (Lv 19.13) e não tirar vantagem de um
contratado por ser ele pobre e necessitado. “No seu dia lhe darás o seu
salário, antes do pôr-do-sol; porquanto é pobre e disso depende a sua vida;
para que não clame contra li ao SENHOR, e haja em ti pecado” (Dt 24.15).
O proprietário da vinha ciente, dessas injunções, dá instruções a seu capataz
para que pague aos trabalhadores o seu salário. Ele é retratado como um
homem justo e de confiança. Apenas aos trabalhadores contratados às seis
horas da manhã ele havia prometido um denário pela tarefa do dia. Aos
trabalhadores empregados às nove horas ele prometera o que fosse justo.
Com os que foram requisitados mais tarde, no dia, nada foi combinado a
respeito do pagamento. Eles foram para a vinha confiando plenamente no
proprietário, e certos de que ele lhes pagaria ao anoitecer.
O fazendeiro é um homem de palavra. Quando instrui seu capataz para
pagar aos trabalhadores, recomenda que pague primeiramente os que foram
contratados por último, e sucessivamente até chegar aos primeiros. Que
surpresa quando os que foram contratados às cinco horas receberam um
denário!9 Eles estão contentes, alegres e cheios de gratidão. Sabem que o
dono da vinha é não apenas digno de confiança e honesto, mas, também, um
homem generoso. Todos os trabalhadores contratados no decorrer do dia
recebem o mesmo pagamento e testificam a bondade e a generosidade do
empregador.
Aqueles trabalhadores contratados ao amanhecer, entretanto, que
haviam suportado o calor do dia, esperam receber mais que um denário cada
um. Eles, também, desejam experimentar a generosidade do empregador.
Mas seu desejo não se cumpre. Recebem um denário, como haviam combi­
nado antes de começar o trabalho. Acham o acontecido injusto; tornam claro
seu descontentamento e seu desapontamento, murmurando contra o fazen­
deiro. Não se dirigem a ele com bons modos. Zangados, fazem uma série de
queixas: Trabalhamos pesado durante todo o dia, suportamos o calor e o
suor, e recebemos um denário; outros vieram às cinco da tarde, trabalharam
uma hora e receberam, também, um denário.
O empregador não se mostra ofendido. Dirige-se a um dos trabalha­
dores, evidentemente o que falava pelo grupo, e o chama de “amigo”. A
9. Durante o reinado do rei Agripa II, por volta de 60 A .D ., os claustros do lado oriental do
templo de Jerusalém foram construídos com a ajuda de cerca de 18.000 trabalhadores. O
tesoureiro do templo e seus cooperadores decidiram pagar a cada operário o salário de um
dia todo, mesmo que trabalhasse apenas durante uma hora. Veja-se Josephus, Antiquities
20:219-20; Derrett, “Workers in the Vineyard”, p. 63.

98
OS TRABALHADORES DA VINI IA

conotação é de reprovação, mas o tom é amigável.10 Ao responder ao


queixoso, o fazendeiro se mostra senhor da situação. “Amigo, não te faço
injustiça; não combinaste comigo um denário?” O trabalhador insatisfeito
pode recorrer à justiça, mas não terá êxito, pois as evidências são contra ele.
Ele concordou em trabalhar o dia todo por um denário, que lhe foi pago.
Sua acusação de injustiça não passa de um disfarce para a inveja e a avareza.
O empregador não discute, não se explica e nem se justifica. Simplesmente
faz a pergunta que o outro tem que responder afirmativamente: “Não
combinaste comigo um denário?” Ao fazer a pergunta, já tem incluída a
resposta. “Não me é lícito fazer o que quero do que é meu?”
O ponto de discussão não é a fraude ou a decepção. Ao contrário,
ninguém é tratado com injustiça. A maior parte dos trabalhadores experi­
mentou a generosidade do fazendeiro. Se há alguém que sacrificou a parte
econômica pela benevolência, este é o proprietário da vinha. Teria sido
melhor para ele se tivesse pago aos trabalhadores a quantia exata mereci­
da.11 Ele é acusado por sua generosidade. “Ou são maus os teus olhos porque
eu sou bom?”, ele pergunta. Com essa última pergunta, o empregador põe
à mostra a falsidade dos empregados desapontados. Ele demonstrara bon­
dade e gentileza enquanto eles mostraram inveja a avareza. Eles permane­
cem cegos à bondade do proprietário até que a máscara que escondia seu
descontentamento é removida pela questão: “Ou são maus os teus olhos
porque eu sou bom?”
Assim é o reino dos céus, diz Jesus. Porque Deus é tão bom, triunfa o
princípio da graça. No mundo, o conceito é o de que aquele que trabalha
mais, recebe mais.12 Isso é justo. Mas, no reino de Deus, os princípios do
mérito e da capacidade são postos de lado para que a graça prevaleça.

Graça

Não há na parábola a intenção de ensinar economia ou negócios. Ela


não existe para ser usada como exemplo de relações humanas, na área do
10. A palavra hetaire aparece três vezes no Novo Testamento: 1) na parábola dos trabalhadores
na vinha (Mt 20.13); 2) na parábola das bodas, quando o rei se dirige ao convidado que não
se apresenta vestido para as bodas (Mt 22.12); 3) no relato da prisão de Jesus no Getsêmani,
quando Jesus diz: “Am igo, para que vieste?” (Mt 26.50). D e acordo com K. H. Rengstorf,
T D N T 11:701, o termo “sempre denota uma relação de obrigação mútua entre aquele que
fala e o que ouve, a qual foi desprezada e escarnecida pelo ouvinte”.
11. C. L. Mitton, Expounding the Parables, VII. The Workers in the Vineyard (M ateus 20.1-6),
Expt 77 (1966): 308.
12. Os cidadãos do reino dos céus devem conhecer plenamente os princípios operante: no
reino. Veja-se Wallace, Parables, p. 125.

99
AS PARÁBOLAS DE JESUS

trabalho e da administração. A lição que a parábola transmite é a de que a


graça vale mais que a justiça imparcial e as práticas lucrativas de negócio. O
empregador da parábola foi à praça, várias vezes, durante o dia, e viu, atrás
de cada trabalhador, uma família necessitando de sustento. Ele sabia que
uma fração de denário não seria suficiente para as necessidades diárias de
uma família. No fim do dia, pagou aos trabalhadores que contratara no
decorrer do dia, não em relação às horas trabalhadas, mas de acordo com a
necessidade de seus dependentes. Ele cra uma pessoa muito generosa.
Quando Jesus ensinou a parábola, estava diante de pessoas treinadas
na doutrina judaica do mérito. Seus contemporâneos acreditavam que o
homem deve acumular a seu crédito numerosas boas obras, que possam ser
convertidas em recompensas, para assim poder reclamá-las diante de Deus.
Essa era a doutrina das obras, no tempo de Jesus.13 O povo conhecia a graça
de Deus exaltada em salmos e orações. Não obstante, dava ênfase ao
meritório valor das obras.
Ao ensinar a parábola, Jesus mostrou que Deus não trata os homens
de acordo com o princípio do mérito, da justiça ou da economia. Deus não
está interessado em lucros. Deus não trata o homem na base do “toma lá dá
cá”, ou “uma boa ação merece recompensa”. A graça de Deus não pode,
simplesmente, ser dividida em quantidades proporcionais ao mérito acumu­
lado pelo homem. Havia em circulação, na época, uma moeda chamada
pondion, que valia a duodécima parte de um denário.14 Na graça de Deus,
no entanto, não circulam porcentagens, porque “todos nós temos recebido
da sua plenitude, e graça sobre graça” (Jo 1.16).

Aplicação

Deus é tão bom;


Deus é tão bom;
Deus é tão bom;
Tão bom ele é para mim.
Esta simples canção, cantada em muitas línguas, através do mundo,
expressa vividamente o sentido básico da parábola. No reino dos céus, a
bondade de Deus prevalece e se revela àqueles que, somente pela graça,
entraram no reino. O fato do fazendeiro pagar um denário àqueles a quem
dissera que receberiam o que fosse justo e também àqueles a quem nada fora
prometido, foi um ato de pura bondade. Todos os trabalhadores receberam
o mesmo pagamento, que era suficiente para o sustento de suas famílias.
Aqueles trabalhadores, que tinham combinado trabalhar pela soma de um
13. Oesterley, Parables, p. 104.
14. T. W. Manson, The Sayings o f Jesus (London: SCM Press, 1950), p. 220.

100
OS TRABALHADORES DA VINHA

denário ao dia, tinham que reconhecer que o fazendeiro era um homem


justo, que honrava seus compromissos. Justiça e bondade, exemplificadas na
parábola, são características fundamentais no reino de Deus.
O contexto da parábola diz respeito à pergunta de Pedro e à resposta
de Jesus. Pedro perguntou o que ele e os discípulos seus companheiros
receberiam por seguirem a Jesus: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos:
que será, pois, de nós?” Jesus respondeu que seus seguidores receberiam
incontáveis bênçãos espirituais:
“Em verdade vos digo que vós, os que me seguistes, quando,
na regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua
glória, também vos assentareis em doze tronos para julgar as
doze tribos de Israel. E todo aquele que tiver deixado casas,
ou irmãs, ou pai, ou mãe (ou mulher), ou filhos, ou campos,
por causa do meu nome, receberá muitas vezes mais, e herdará
a vida eterna. Porém, muitos primeiros serão últimos; e os
últimos, primeiros (Mt 19.27-30).15
Jesus ilustra o significado da última sentença — “muitos primeiros
serão últimos; e os últimos, primeiros” — através da parábola dos trabalha­
dores na vinha. Ele conclui a parábola com as mesmas palavras, embora em
ordem inversa: “Os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos.”
Dizendo isso, Jesus não tem a intenção de mostrar a Pedro e aos outros
discípulos que a posição do primeiro e do último no reino será invertida. A
parábola usa, antes, a expressão para indicar que, no reino dos céus, a
igualdade é a regra. A recompensa, igual para todos, mesmo que o trabalho
possa variar, transcende a tarefa realizada pelos discípulos, e conseqüente­
mente por qualquer um que se disponha a seguir a Jesus. O dom de Deus é
a graça plena.16 Sua graça é suficiente para todos.17

15. Os paralelos dos Evangelhos de Mateus e Marcos são idênticos exceto no fato de que em
Mateus a parábola dos trabalhadores na vinha é acrescentada como uma ilustração da
expressão: “Porém, muitos primeiros serão últimos; e os últimos, primeiros” (M t 19.30;
20.16; Mc 10.31). Em Lucas 13.30, a expressão também ocorre, embora em contexto
inteiramente diferente.
16. A. H. McNeile, The G ospel According to St. Matthew (London: McMillan and Co., 1915),
p. 285.
17. A s versões bíblicas atribuem Mateus 20.16 a Jesus. O texto não é parte da observação feita
pelo dono da vinha, mas é uma conclusão repetida por Jesus com o seqüência de M ateus
19.30. O NEB, entretanto, não apresenta o versículo como citação, e por isso se conclui que
ele é o fecho dado por Mateus à parábola. Jeremias, em Parables, p. 36, chega a sugerir que
“deixemos de lado o versículo 16”. Por outro lado, Morison, em St. Matthew, p. 356, e
Derrett, em “Workers in the Vineyard”, p. 51, sustentam que as palavras d e Mateus 20.16
são a aplicação da parábola feita por Jesus mesmo. Falta clareza ao argumento de que Jesus
não proferiu as palavras do versículo 16. Ele não é convincente.

101
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Os discípulos eram os ouvintes de Jesus. Não podemos afirmar que


havia outras pessoas presentes. Os discípulos, desde crianças, tinham apren­
dido a doutrina do mérito. Era necessário deixarem de lado esse ensinamen­
to para que pudessem apreciar inteiramente a bondade de Deus e para que
pudessem entender que seu próprio lugar no reino era um dom da graça.
Mais que isso: no decorrer do tempo, receberiam, na igreja, com agrado, os
gentios. Pedro, por exemplo, seria enviado à casa de Cornélio, o centurião
romano, para pregar o evangelho, balizar os que criam, e para louvar a Deus
por ter concedido, também aos gentios, “o arrependimento para vida” (At
11.18). Os gentios receberiam a mesma dádiva que Deus havia dado aos
judeus que acreditaram em Jesus. Paulo chama isto de mistério, e conclui
que “os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-partici-
pantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho” (Ef 3.6).
Quem, então, são os murmuradores? Embora a parábola não deva ser
interpretada alegoricamente,18 a questão referente aos murmuradores é
válida. Eles podem ser comparados ao irmão mais velho da parábola do filho
pródigo. Juntos, refletem a atitude de alguns fariseus que, por causa de seu
zelo na observação da lei de Deus, contavam ter um lugar privilegiado no
reino de Deus. Os fariseus esperavam que Deus os recompensasse por suas
obras e se recusasse a abençoar os pecadores indignos. Jesus mostrou-lhes
(presumindo-se que estivessem ali) por intermédio da parábola, que Deus
é um Deus de justiça que honra sua Palavra, mas que oferece, também, suas
misericórdias aos que não as merecem, mas que, apesar disso, são vasos de
sua graça. 19
A parábola ensina que quando o homem chega diante de Deus, ele não
recebe uma porção cuidadosamente calculada da graça divina. Deus, antes,
lhe concede livremente as dádivas do perdão, da reconciliação, da paz, da
alegria, da felicidade e da segurança. “Segundo a sua riqueza em glória, há
de suprir em Cristo Jesus...” (Fp 4.19) todas as suas necessidades. O cristão
deve se alegrar com os que se convertem e passam a fazer parte da igreja de
Jesus Cristo. Não deve haver ceticismo. Mas, a história ensina que esse
ceticismo tem existido repetidamente. Quando George Whitefield e John e
Charles Wesley levaram o evangelho às classes menos favorecidas da socie­
dade do século dezoito, foram criticados e provocaram a ira dos cristãos
18. Os pais da igreja primitiva se entregavam a interpretações fantasiosas. Irineu, por exemplo,
interpretou os cinco períodos de trabalho, durante os quais os trabalhadores foram contra­
tados, com o cinco períodos da história, começando com Adão. O período das nove horas
ao meio-dia seria aquele de N oé a Abraão; o das doze às três incluía o período de Abraão
a Moisés; o das três às cinco significava o tempo entre M oisés e Cristo, e a última hora aponta
para o período entre a ascensão e a volta do Senhor.
19. Mitton, “Expounding the Parables”, p. 310.

102
OS TRABALHADORES DA VINHA

convencionais.20 William Booth, que teve compaixão dos moradores dos


bairros pobres de Londres e que deu a eles “sopa, sabão e salvação”, foi
condenado pelos presunçosos membros da igreja de sua época.
Esta parábola nunca será aceita por aqueles que querem impor à
salvação regras e estipulações feitas pelos homens. No reino dos céus, como
as Escrituras ensinam, não existe a burocracia humana. A graça de Deus é
plena e livre para todo aquele que venha a ele pela fé. E todos os que são
vasos de sua graça proclamam com o salmista:
Rendei graças ao SENHOR, porque ele é bom,
e sua misericórdia dura para sempre (SI 107.1).

20. Hunter, Parables, p. 72.

103
14
Os Dois Filhos
Mateus 2128-32
“E que vos parece? Um ho­
mem tinha dois filhos. Chegando-
se ao primeiro, disse: Filho, vai
hoje trabalhar na vinha. 29Ele res­
pondeu: Sim, senhor; porém não
foi. 30Dirigindo-se ao segundo,
disse-lhe a mesma coisa. Mas este
respondeu: não quero; depois, ar­
rependido, foi. 31Qual dos dois fez
a vontade do pai? Disseram: o se­
gundo. Declarou-lhes Jesus: Em
verdade vos digo que publicanos e
meretrizes vos precedem no reino
de Deus. 32Porque João veio a vós
outros no caminho da justiça, e não
acreditastes nele; ao passo que pu­
blicanos e meretrizes creram. Vós,
porém, mesmo vendo isto não vos
arrependestes, afinal, para acredi-
tardes nele.”

S om ente no Evangelho de Mateus encontramos a parábola a respeito


dos dois filhos. Ela é marcada pela simplicidade e por ser resumida nas
conhecidas palavras de Tiago: “Tornai-vos, pois, praticantes da palavra, e
não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos” (1.22). Ela ensina que
a pessoa que se recusa a fazer o que lhe é pedido, mas que, mais tarde, muda
de idéia e faz a tarefa, é melhor que aquela que promete cuidar de suas
obrigações, mas nunca as realiza.

105
AS PARÁBOLAS DE JESUS

O Evangelho de Mateus coloca a parábola imediatamente após o


incidente ocorrido quando os principais sacerdotes e os anciãos do povo
questionaram a autoridade de Jesus. Jesus, por sua vez, lhes propôs outra
questão, perguntando-lhes a respeito do batismo de João, se era dos céus ou
do homem. E a resposta deles foi: “Não sabemos”. A resposta de Jesus à
indagação a respeito de sua autoridade foi: “Nem eu vos digo com que
autoridade faço estas coisas.”
Enquanto ensinava no templo, e com os principais sacerdotes e os
anciãos a escutá-lo, Jesus continuou o curso de seu pensamento com uma
história sobre um pai e seus dois filhos. O pai possuía uma vinha, que era a
fonte de recursos da família. Por isso, o trabalho na vinha era comunitário e
realizado por todos os membros da família. O pai dirigiu-se ao primeiro filho
e disse-lhe para ir trabalhar na vinha, naquele dia em particular.1 É irrele­
vante se era o começo da primavera quando as vinhas eram podadas, ou
verão quando as ervas daninhas eram arrancadas, ou outono quando as uvas
eram colhidas. E o pedido feito e o atendimento dado a ele que são
essenciais. “Filho, vai hoje trabalhar na vinha.” O filho, sem se preocupar em
se mostrar cortês para com o pai, respondeu apenas: “Não quero.”2 Ele
errou em não se dirigir respeitosamente ao pai, chamando-o de senhor, e
nem procurou uma desculpa para sua má vontade.
O pai teve que dirigir-se ao segundo filho, com o mesmo pedido, a fim
de ter o trabalho feito, na vinha.3 Esse filho, na polida maneira oriental,
dirigiu-se ao pai corretamente, e disse: “Sim, senhor.” Entretanto, não foi.

1. J. D. M. Derrett, “The Parable of the Two Sons”, Studia Theologica 25 (1971); 109-16,
também publicada em Studies in the New Testament, 1:76-84, segue Jülicher, Gleichnisre-
den, 2:367. Derrett destaca que o primeiro filho era o mais velho e deveria ser o sucessor do
pai. “U m filho mais velho pode muito bem ter mais interesse na forma que na substância.”
(Studies, p. 81).
2. A evidência textual, em relação à sua leitura, varia. Tecnicamente, há três variações, (a) D e
acordo com o Códice Sinaítico e outros manuscritos, o primeiro filho disse não, mas se
arrependeu; o segundo disse sim , mas não foi. Essa é a leitura em traduções tais com o A V ,
RSV e NIV. (b) D e acordo com o Códice do Vaticano e outros manuscritos, o primeiro filho
diz sim , mas não vai; o segundo diz não, mas se arrepende. Quem faz a vontade do pai? A
resposta varia: “o último dos dois”, “o último”, “o segundo”. Traduções, incluindo NASB,
N A B e NEB, seguem o Códice do Vaticano, (c) O assim chamado texto Ocidental segue a
ordem do Códice Sina/tico, com exceção da resposta à questão: “Qual dos dois fez a vontade
do pai?”, que é “o último”. Isto significa que o filho que disse sim , mas não foi, cumpriu o
pedido do pai. Absurdo. A escolha fica, portanto, entre (a) ou (b). Veja J. R. Michaels, “The
Parable o f the Regretful Son”, HTR 61 (1968): 15- 26. A ordem não afeta o sentido da
parábola. Consulte-se Metzger, Textual Commentary, pp. 55-56.
3. Metzger, em Textual Commentaiy, p. 56, indica que a comissão do Novo Testam ento G rego
das Sociedades Bíblicas Unidas optou pela ordem seguida pelo Códice Sinaítico. Para
substanciar essa escolha Metzger escreve: “Poderíamos argumentar que se o primeiro filho
tivesse obedecido, não havia razão para chamar o segundo.”

106
OS DOIS FILHOS

Prometeu ao pai um dia todo de trabalho. Era uma promessa que não
pretendia cumprir.

Interpretação

Jesus colocou para os que o ouviam a inevitável questão: “Oual dos


dois fez a vontade do pai?” Os principais sacerdotes e os anciãos do povo
não podiam mais se esconder atrás de uma ignorância fingida. Foram
forçados a responder, mesmo compreendendo que a parábola fala da hie­
rarquia eclesiástica de Israel. Eles responderam: o filho que primeiro se
recusou, mas que, mais tarde, mudando de idéia, fez a vontade do pai.
Jesus esclarece o que a história sobre o pai e seus dois filhos significa,
realmente, no contexto de sua época. O primeiro filho, diz Jesus, é a
personificação dos coletores de impostos e das meretrizes que viviam uma
vida de pecado e que se recusavam a fazer a vontade de Deus. Mas, quando
veio João Batista “... pregando batismo de arrependimento para remissão
de pecados” (Mc 1.4), os marginalizados pela moral e pela sociedade se
arrependeram, creram, e entraram no reino de Deus. Assim fizeram a
vontade do Pai.
O segundo filho retrata a atitude dos líderes religiosos dos dias de
Jesus. São aqueles que fazem tudo para serem vistos pelos homens: “Prati­
cam, porém, todas as suas obras com o fim de serem vistos dos homens; pois
^largam os seus filactérios e alongam as suas franjas. Amam o primeiro lugar
nos banquetes e as primeiras cadeiras nas sinagogas, as saudações nas praças
e o serem chamados mestres pelos homens” (Mt 23.5-7). São aqueles que
não praticam o que pregam. João Batista veio a eles, mostrando-lhes o
caminho da justiça. Ouviram suas palavras, mas não creram nelas. Simples­
mente o ignoraram. Viram, no entanto, que os publicanos aceitaram a
mensagem de João e foram batizados. Não obstante, rejeitaram o propósito
de Deus para si mesmos, recusando-se a serem batizados por João (Lc 7.30).
A aplicação da parábola é dinâmica. Os coletores de impostos e as
meretrizes tinham-se recusado a obedecer a vontade de Deus. Mas, quando
ouviram a mensagem de arrependimento, voltaram-se para Deus, em obe­
diência. Eram como o filho que disse: “Não quero”, mas que, mais tarde,
mudou de idéia e foi trabalhar na vinha. Eles eram como Zaqueu, que disse
a Jesus: “Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se
nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais.” (Lc
19.8)
Os líderes religiosos que, presumivelmente, eram peritos na lei de
Deus, mostravam uma aquiescência apenas aparente. Interiormente, no

107
AS PARÁBOLAS DE JESUS

entanto, se recusavam a aceitar a Palavra de Deus, viesse ela pela palavra


escrita dos profetas, ou pela palavra falada de João Batista e de Jesus. Eram
como o filho que disse a seu pai: “Sim, senhor”, porém não foi.
Embora essa parábola seja relativamente curta e sua mensagem seja
simples, a lição que ensina não é, de modo algum, trivial. Ela contém o ensino
do Velho e Novo Testamentos: obedecer a Palavra de Deus, escutar a sua
voz e fazer a sua vontade. Como disse Samuel a Saul: “Eis que o obedecer é
melhor que a gordura dos carneiros” (1 Sm 15.22), do mesmo modo Jesus
instrui seus discípulos: “Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando”
(Jo 15.14). O próprio Jesus fala abertamente de sua obediência a Deus, o
Pai, dizendo: “Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria
vontade; e, sim, a vontade daquele que me enviou. E a vontade de quem me
enviou é esta: Que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário,
eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.38,39).

108
15
Os Lavradores Maus

M ateus 2133-46 Marcos 12.1-12 Lucas 20.9-19



5-2
“Atentai noutra 1
“Depois entrou Je­ 9“A seguir, pas­
parábola. Havia um sus a falar-lhes por pa­ sou Jesus a proferir
h o m em , d o n o de rábolas: Um homem ao povo esta parábo­
casa, que plantou plantou uma vinha, cer- la: C e rto hom em
uma vinha. Cercou-a cou-a de um a sebe, plantou uma vinha,
de uma sebe, cons­ construiu um lagar, edi- arrendou-a a lavra­
truiu nela um lagar, ficou uma torre, arren­ dores e ausentou-se
e d ific o u -lh e um a dou-a a uns lavradores do país por prazo
torre e arrendou-a a e ausentou-se do país. considerável. 10No
uns lavradores. De­ 2N o tempo da colheita, devido tempo, man­
pois se ausentou do enviou um servo aos la­ dou um servo aos la­
, 34 . i
pais. Ao tempo da vradores para que re­ vradores para que
colheita, enviou os c e b e ss e d e le s o dos lhe dessem do fruto
seus servos aos la­ frutos da vinha; eles, da vinha; os lavrado­
vradores, para rece­ porém , o agarraram , res, porém, depois
ber os frutos•5 C
que
A
lhe espancaram, e o despa­ de o espancarem, o
tocavam. E os la­ charam vazio. 4De novo despacharam vazio.
vradores, agarrando lhes enviou outro servo, 1JEm vista disso, en­
os servos, espanca­ e eles o esbordoaram viou-lhes outro ser­
ram a um, mataram na cabeça e o insulta­ vo; mas eles também
outro, e a outro ape­ ram. 5Ainda outro lhes a este espancaram e,
drejaram . 36Enviou mandou, e a este mata­ depois de o ultraja­
ainda outros servos ram. Muitos outros lhes rem, o despacharam
em maior número; e enviou, dos quais es­ vazio. 1 Mandou,
trataram-no da mes- pancaram uns e mata- ainda, um terceiro;

109
AS PARÁBOLAS DE JESUS

ma sorte. E por úl­ ram outros, b estav a- também a este, depois


timo enviou-lhes o lhe ainda um, seu filho de o ferirem, expulsa­
seu próprio filho, di­ amado; a este lhes en­ ram. 13Então disse o
zendo: A meu filho viou, por fim, dizendo: dono da vinha: Que fa­
respeitarão. 38Mas Respeitarão a meu filho. rei? Enviarei o meu fi­
os lavradores, vendo 7Mas os tais lavradores lho amado; talvez o
o filho, disseram en­ disseram entre si: Este é respeitem. 14Vendo-o,
tre si: Este é o her­ o herdeiro; ora, vamos, porém, os lavradores,
deiro; ora, vamos, matemo-lo, e a herança arrazoavam entre si,
matemo-lo, e apode- será nossa. 8E, agarran­ dizendo: Este é o her­
remo-nos da sua he- do-o, mataram-no e o d e iro ; m a te m o -lo ,
rança. E, agarran­ atiraram para fora da vi­ para que a herança ve­
do-o, lançaram -no nha. 9Que fará, pois, o nha a ser nossa. 15E,
fora da vinha e o ma­ dono da vinha? Virá, ex­ lançando-o fora da vi­
ta ra m . 40Quando, terminará aqueles lavra­ nha, o mataram. Que
pois, vier o senhor dores e passará a vinha a lhes fará, pois, o dono
da vinha, que fará outros. Ainda não lestes da vinha? 16Virá, ex­
àqueles lavradores? esta Escritura: A pedra terminará aqueles la­
41Responderam- que os construtores re­ vradores é passará a
lhe: F ará p erece r jeitaram, essa veio a ser vinha a outros. Ao ou­
horrivelmente a es­ a principal pedra angu­ virem isto, disseram:
tes malvados, e ar­ lar; 11isto procede do T al n ão a c o n te ç a !
re n d ará a vinha a Senhor, e é maravilhoso 17Mas Jesus, fitando-
o u tro s lav rad o res aos nossos olhos? 12E os, disse: Que quer di­
que lhe remetam os procuravam prendê-lo, zer, pois, o que está
frutos nos seus devi­ mas temiam o povo; por­ escrito: A pedra que
dos tempos. ^ P e r­ que co m p reen d eram os construtores rejei­
guntou-lhes Jesus: que contra eles proferia taram, esta veio a ser a
Nunca lestes nas Es­ esta parábola. Então, principal pedra angu­
critu ras: A p ed ra desistindo, retiraram - lar? 1 Todo o que cair
que os construtores se.” sobre esta pedra, fica­
rejeitaram, essa veio rá em pedaços; e aque­
a ser a principal pe- le sobre quem ela cair,
d ra a n g u la r; isto ficará reduzido a pó.
procede do Senhor, 19 1
N a q u e la m esm a
e é maravilhoso aos hora os escribas e os
nossos olhos? ^ P o r­ principais sacerdotes
tanto vos digo que o procuravam lançar-
reino de Deus vos lhe as mãos, pois per­
será tirado e será en­ c e b e ra m q u e em
tregue a um povo referência a eles disse­
que lhe produza os

110
OS LAVRADORES MAUS

respectivos frutos. ra esta p aráb o la:


44
T odo o que cair m as te m ia m o
sobre esta pedra fi­ povo.”
cará em pedaços; e
aquele sobre quem
ela cair ficará redu­
zido a pó. 45Os prin-
cipais sacerdotes e
os fariseus, ouvindo
estas parábolas, en­
tenderam que era a
respeito deles que
Je s u s fa la v a; 6e,
conquanto buscas­
sem prendê-lo, te­
meram as multidões,
porque estas o con­
sid e ra v a m com o
profeta.”
D e acordo com Mateus, Marcos e Lucas, Jesus contou a parábola dos
lavradores maus, durante a última semana de sua vida na terra. Entre um
evangelista e outros pode haver variações em pequenos detalhes, mas todos
transmitem, com fidelidade, o ensino de Jesus. O Evangelho de Tomé,
apócrifo, também apresenta a parábola.1 A história deve ser fiel ao fato e
reproduz a história eclesiástica de Israel. As pessoas que cercavam Jesus
entenderam a história, porque responderam à parábola, dizendo: “Tal não
aconteça!” (Lc 20.16). Além disso, os fariseus, os principais sacerdotes e os
mestres da lei sabiam que essa parábola era endereçada a eles.

A História

Um dono de terras tinha um terreno e decidiu transformá-lo num


vinhedo. Depois de ter plantado os tenros brotos da uva, ele os protegeu dos

1. Evangelho de Tom é, Citação 65: “Ele disse: ‘Um homem bom tinha uma vinha. Entregou-a
a arrendatários para que a cultivassem e ele pudesse receber deles os seus frutos. Ele enviou
seu servo para que os arrendatários lhe entregassem o fruto da vinha. Eles o agarraram (e)
espancaram; um pouco mais e o teriam matado. O servo foi (e) contou tudo a seu senhor.
Seu senhor disse: Talvez ele não os conhecesse. Enviou outro servo; os lavradores maus,
também, o espancaram. Então, o dono da vinha enviou o seu filho. Logo que os arrendatários
souberam que ele era o herdeiro da vinha, agarraram-no (e) o mataram. Quem tem ouvidos,
ouça’.” D e m odo interessante, o Evangelho de Tom é, Citação 66, continua. “Jesus disse:
Mostrai-me a pedra que os construtores rejeitaram. Ela é a pedra angular.”

111
AS PARÁBOLAS DE JESUS

animais selvagens, tais como as raposas e os javalis (Ct 2.15; SI 8.13) plan­
tando uma sebe ao redor da vinha. Também equipou a vinha com um lagar
e uma torre. A torre era usada durante a colheita na vigilância contra os
ladrões, e podia, também, servir de moradia ao lavrador.
O projeto todo era uma aventura financeira para o fazendeiro. Ele
plantou novas videiras num solo ainda não testado. Arrendou a vinha a
lavradores, mas teria que esperar durante quatro anos até que as videiras
começassem a produzir. Durante esse período, ele teria que sustentar os
lavradores, comprar adubo e suprimentos para a vinha, e esperar que o
quinto ano lhe trouxesse algum lucro.2 Um novo vinhedo não era, portanto,
um empreendimento que trouxesse retorno financeiro imediato; era, antes,
uma promessa de resultados permanentes, que beneficiariam sucessivas
gerações.
O fazendeiro saiu para viajar durante um longo período. Na sua
ausência, os lavradores cultivariam a vinha, podariam os galhos e cuidariam
da plantação de vegetais entre as videiras durante os primeiros anos. Os
arrendatários trabalhavam como meeiros e tinham direito a uma parte do
que fosse produzido. O lucro restante pertencia ao proprietário. Os lavra­
dores tinham feito um contrato com o dono da terra para cultivar a vinha.
Durante os quatro primeiros anos seriam sustentados pelo proprietário.
Passados esses anos de trabalho árduo, a vinha poderia se tornar uma fonte
de lucros para o dono.
Quando se aproximou a época da colheita, no quinto ano, o fazendeiro
enviou seu servo3 para receber o lucro da vindima.4 Os contatos entre o
proprietário e os arrendatários devem ter sido mínimos, durante os primei­
ros quatro anos. Essa falta de aproximação pode ter resultado em alienação
e mesmo em atitudes hostis da parte dos lavradores, como descreve a
parábola. A razão exata da amarga animosidade não é exposta, mas fica

2. Derrett, Law in the New Testament, p. 290.


3. Onde Marcos e Lucas, bem com o o Evangelho de Tomé, falam de um servo, Mateus usa o
plural. D e acordo com Mateus, numerosos servos são enviados, e são espancados, apedreja­
dos e mortos. Essa pode ser uma tentativa deliberada de Mateus de ligar a parábola ensinada
por Jesus à história eclesiástica de Israel. Um toque de alegria está presente, embora não em
relação à pessoa do filho: J. A. T. Robinson. “The Parable of the Wicked Husbandman: A
Test o f Synoptic Relationships”, NTS, 21 (1975); 451. 1 Rs 18.13; 2 Cr 24.21; Mt 23.37; Lc
13.34; A t 7.52; 1 Ts 2.15; e Hb 11.37, tornam evidente que alguns profetas foram mortos e
apedrejados até à morte.
4. Porque o texto afirma explicitamente que o servo foi receber “dos frutos da vinha” (Mc 12.2;
Lc 20.10), presumindo que o proprietário enviou o servo quando as uvas estavam prontas
para serem colhidas.

112
OS LAVRADORES MAUS

evidente no relato.5 O servo foi agarrado, espancado e mandado de volta a


seu senhor. Voltou com as marcas físicas de um corpo ferido. O fato serviu
ao proprietário como mensagem de que os arrendatários não tinham a
intenção de pagar o lucro exigido, proveniente da colheita das uvas. Eles
queriam guardar, para si mesmos, o lucro total, talvez como recompensa
pelos anos de labuta e cuidado dispensados à vinha, antes que viesse a
colheita. Ao mandarem o servo de volta, espancado, e de mãos vazias, os
arrendatários não deixaram dúvidas quanto à sua intenção de reter o total
do lucro da safra.
Porque o fruto da vinha tinha que ser vendido, o lucro exigido pelo
fazendeiro poderia ser pago em épocas variadas, durante o ano. O proprie­
tário, portanto, mandou um outro servo aos arrendatários, com o mesmo
pedido. Ele, sem dúvida, se referiu ao contrato assinado entre os arrendatá­
rios e o proprietário, que expunha claramente os termos. Mas eles o recebe­
ram do mesmo modo como tinham recebido seu predecessor. Bateram-lhe
na cabeça, trataram-no insultuosamente e, também, o enviaram de volta com
as mãos vazias (Lc 20.11). Uma vez mais se mostraram abertamente desa­
fiadores: não queriam partilhar com ninguém o lucro obtido na colheita. O
proprietário mostrou elogiável tolerância. Ele não opôs força à força, nem
declarou nulo ou cancelado o contrato, como tinham feito os arrendatários.
Depois de algum tempo, talvez na safra seguinte, o proprietário enviou um
terceiro servo.6 Outra vez, os lavradores se recusaram a ceder ao pedido do
proprietário; foram violentos, ferindo (Lc 20.12 ou matando o servo (Mc
12.5). Mas, enquanto o dono continuava enviando os servos7, os arrendatá­
rios, ferindo-os e matando-os, tornavam conhecido o fato de que a vinha
permanecia em suas mãos. Eles a tinham feito produtiva; portanto, argumen­
tavam, tinham direito ao que fosse produzido pela vinha e, mesmo, à própria
vinha.
5. Alguns estudiosos vêem um paralelo entre a dominação estrangeira de vastos territórios da
Galiléia, antes e durante o tempo do ministério de Jesus e o proprietário retratado na
parábola. Dodd, Parables p. 125; Jeremias, Parable, p. 74; M. Hengel, “D as Gleichnis von
den Weingartner Mc 12.1-12 ins Lichte der Zenonpapyri und der rabbinische G leichnisse”,
ZN W 59(1968); 11-25; J. E. e R. R. Newell, “The Parable o f the Wickeii Tenantes”, NovT 14
(1972): 226-37. N o entanto, a parábola não indica de m odo algum que os arrendatários
fossem oprimidos por um dono de terras estrangeiro. A o contrário, os lavradores e não o
proprietário são chamados de malvados (kakous), Mt 21.41. Consulte-se SB, 1:871.
6. Derrett, em Law in the New Testament, pp. 298-99, entende que o segundo servo procurou
os arrendatários no final da segunda ceifa, e o terceiro, na safra seguinte. Assim , por três
anos consecutivos os lavradores guardaram para si o lucro da vinha.
7. Apenas Marcos relata que após ter enviado sucessivamente três servos, o proprietário ainda
enviou outros. Mateus diz que dois grupos de servos, em duas diferentes ocasiões, foram
enviados. Lucas fala de três servos que sucessiva e individualmente procuraram os lavrado­
res.

113
AS PARÁBOLAS DE JESUS

O proprietário entendeu que os arrendatários estavam agindo como


donos legítimos da propriedade que era sua. Como último recurso ele enviou
seu filho, dizendo a si mesmo que os lavradores reconheceriam sua autori­
dade, quando se confrontasse com seu filho. “A meu filho respeitarão”,
disse. Os simples servos não impunham o mesmo respeito que seria devido
a um filho que fosse enviado.8 Enviaria seu único filho, o herdeiro da vinha.
Os arrendatários, no entanto, não estavam dispostos a abrir mão da
vinha. Quando viram o filho se aproximando, devem ter pensado que o dono
tinha morrido e que seu filho tinha tomado seu lugar. Se esse fosse o caso,
pouco restaria no caminho da posse total da vinha, se o filho fosse afastado.
Os arrendatários, então, poderiam proclamar que tinham cuidado da vinha
fielmente, que não haviam pago aluguel algum durante vários anos, e que o
legítimo proprietário das terras tinha morrido.9 No tempo legal, os lavrado­
res estariam habilitados à posse exclusiva da propriedade. Os juizes locais
mui provavelmente favoreceriam os lavradores e dariam como legal a ope­
ração.
Os arrendatários decidiram matar o herdeiro e tomar para si a heran­
ça. Eles o receberam na vinha, mas, depois, para não macular a vinha com
sangue, eles o mataram fora.10 Eles o abandonaram ali, presumindo que os
servos que o acompanhavam cuidariam do funeral.
A paciência do dono das terras se esgotou. Os arrendatários tinham
cometido erro desastroso ao matar seu filho. Medidas foram tomadas para
arrancá-los da terra e levá-los à justiça, e o proprietário, reclamando plena
posse da propriedade, escolheu outros lavradores para tomar conta da vinha.
Esses eram servos que lhe dariam a parte estipulada da colheita, no tempo
devido.

O Significado

A história contada por Jesus foi prontamente aceita pelos que o


ouviam. Ela retratava a situação real de um fazendeiro que, ausente de
tempos em tempos, enviava um servo para recolher a parte justa do lucro
anual da vinha. Os que o ouviam conheciam as circunstâncias descritas por

8. Dodd, Parables, p. 125.


9. Derrett, Law in the New Testament, pp. 3004. Os arrendatários podiam m esm o citar Dt
20.6, para a própria justificação: “Qual o homem que plantou uma vinha e ainda não a
desfrutou? Vá, torne-se para sua casa, para que não morra na peleja e outrem a desfrute...”
10. Am bos, Mateus e Lucas, afirmam que os lavradores atiraram o filho para fora da vinha e,
então, o mataram. Marcos inverte a ordem, dizendo que primeiro o mataram e, então, o
lançaram fora da vinha.

114
OS LAVRADORES MAUS

Jesus na parábola. Podiam imaginar o final da história e dar sugestões de


como se executaria a justiça.
Jesus se dirigia aos principais sacerdotes, fariseus c mest rcs da lei. Eles
devem ter reconhecido, rapidamente, a citação da profecia dc Isaías:
Agora cantarei ao meu amado,
o cântico do meu amado a respeito de sua vinha.
O meu amado teve uma vinha
num outeiro fertilíssimo.
Achou-a, limpou-a das pedras
e a plantou de vides escolhidas;
edificou no meio dela uma torre,
e também abriu um lagar.
Ele esperava que desse uvas boas,
mas deu uvas bravas. (Is 5.1,2)

O povo judeu sabia esse cântico de cor; eles o haviam aprendido no


culto da sinagoga onde era cantado de tempos em tempos.11 Sabiam, tam­
bém, o seu final:
Porque a vinha do SENHOR dos Exércitos
é a casa de Israel,
e os homens de Judá
são a planta dileta do SENHOR;
este desejou que exercessem juízo,
e eis aí quebrantamento da lei;
justiça, e eis aí clamor. (Is 5.7)

Os líderes religiosos, especialmente, sabiam que a parábola se aplicava


a eles. Sabiam que Jesus estava se referindo aos profetas que Deus enviara
a Israel. Alguns desses profetas foram mortos por causa da mensagem que
traziam. Um deles, Zacarias, foi assassinado no pátio do templo, entre o
santuário e o altar (2 Cr 24.20,21; Mt 23.25). Com habilidade, Jesus ensinou
a seus ouvintes o significado dessas passagens tão conhecidas do Velho
Testamento. Quando Jesus falou a respeito do filho do dono da vinha que,
tendo sido enviado à vinha, foi assassinado pelos arrendatários, falou, pro­
feticamente, de sua própria morte iminente.12
11. E. Werner, The Sacred Bridge (New York: Columbia University Press, 1959), p. 140.
12. Dodd, Parables, p. 131: Hengel, “Gleichnis”, p. 37. Jeremias, em Parables, pp. 72-73, observa
que, embora Jesus falasse profeticamente de si mesmo, “o significado messiânico do filho
podia não ser admitido pela maior parte dos seus ouvintes."

115
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Jesus perguntou aos que o ouviam: “Quando, pois, vier o senhor da


vinha, que fará àqueles lavradores?” Ele usou palavras que trazem à memó­
ria aquelas do Cântico da Vinha (Is 5.4,5). Suas palavras eram dirigidas
contra os líderes do povo. Eles tinham rejeitado a mensagem de João Batista,
e tinham questionado a autoridade de Jesus, a ponto de o desafiarem
abertamente. Na verdade, rejeitaram o último mensageiro de Deus.13
A resposta à pergunta de Jesus foi que um castigo imediato deveria ser
aplicado aos lavradores assassinos. Deveriam ser mortos e a vinha arrendada
14
a outros.
Falando diretamente à multidão, Jesus fez referência ao Salmo 118,
uma passagem das Escrituras bastante conhecida por todos aqueles fiéis que
tinham vindo a Jerusalém, na festa da Páscoa. Esse salmo era entoado num
dia determinado, durante a festa. Participavam do coral dos cânticos, os
sacerdotes, os peregrinos e os prosélitos que cantavam as palavras do salmo
diante dos portões do templo. Um coro de peregrinos cantava a parte do
salmo que fala da j Jra rejeitada pelos construtores, mas que se tornou a
principal pedra, a pi ira angular (SI 118.22-25).15 Referindo-se a esse salmo
familiar, e especialmente aos versículos a respeito da pedra rejeitada, Jesus
perguntou aos ouvintes se nunca tinham lido nas Escrituras:
A pedra que os construtores rejeitaram,
essa veio a ser a principal pedra, angular;
isto procede do SENHOR,
e é maravilhoso aos nossos olhos.
(SI 118.22,23)16
Essa questão de retórica proposta por Jesus tinha que ser respondida
afirmativamente. Jesus transferiu a figura dos arrendatários que rejeitaram
os servos para a dos construtores que rejeitaram a pedra. Os lavradores
maus, matando o filho, destruíram a si mesmos; e os construtores, deixando
de lado a pedra que se tornou a pedra angular, fizeram-se de tolos. A pedra,
pela vontade do Senhor, veio a ser a pedra principal, a pedra angular do
portal do edifício. Originariamente, a pedra pode ter sido referência a um

13. Lane, Mark, p. 419.


14. Não fica claro, no texto, quem seriam os outros arrendatários. Jeremias, Parables, p. 76,
com base em uma das bem-aventuranças: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão
a terra.” (Mt 5.5), afirma que os “outros” são os pobres. A lógica dessa afirmativa não é
muito convincente. Um argumento a ser usado talvez seja o uso da palavra “povo” ( = eth-
nos), em Mt 21.43, com referência aos gentios.
15. A Weiser, The Psalms (Philadelphia: Westminster Press, 1962), p. 724.
16. Embora a citação (SI 118.22) seja repetida em At 4.11 e 1 Pe 2.7, não há razão para se aceitar
que a igreja primitiva tenha acrescentado estas palavras à parábola dos lavradores maus.

116
OS LAVRADORES MAUS

dos blocos da construção do templo de Salomão, que veio a ser a principal


pedra, pedra de esquina do edifício.17
Jesus deixou implícito que ele era a personificação do filho do proprie­
tário da vinha, bem como a pedra rejeitada pelos construtores. Mais que isso,
os doutores da lei e os outros líderes religiosos eram os arrendatários da
vinha e os construtores que haviam posto de lado a pedra principal. Assim,
Jesus falou de sua morte e exaltação iminentes.

Teologia

A parábola, como registrada pelos evangelistas, tem um foco cristoló-


gico definido. O assassinato do filho traz a inevitável transferência do
arrendamento para outros lavradores, e a rejeição da pedra resulta em sua
maravilhosa exaltação. A parábola ensina, portanto, as imagens paralelas da
rejeição do filho e da rejeição da pedra. Ambas representam o Filho de
Deus.
Ao mencionar dois grupos separados de servos enviados pelo dono de
terras para receber sua parte no produto da vinha, Mateus, aparentemente,
faz alusão às duas divisões de profetas — os antigos e os últimos profetas.
Ele não adianta qualquer pormenor a respeito do filho do dono da vinha.
Marcos e Lucas, no entanto, o chamam de “filho amado”, que traz a
conotação de filho único.19 A expressão “filho amado” foi usada, também,
por ocasião do batismo de Jesus e em sua transfiguração. Marcos escreve
que o dono de terras enviou seu filho por último. A palavra último ressoa
claramente nos primeiros versículos da Epístola aos Hebreus: “Havendo
Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos
profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho a quem constituiu herdeiro
de todas as coisas, pelo qual também fez o universo.” (Hb 1.1,2)
Além disso, enquanto Marcos diz que o filho foi morto dentro da vinha,
Mateus e Lucas escrevem que os lavradores maus apanharam o filho,
atiraram-no fora da vinha e, então, o mataram. Fica implícito que os arren­
datários deixaram o corpo ali, de modo que os que por lá estivessem, o
enterrassem. Uma vez mais, o leitor ouve o eco na Epístola aos Hebreus:

17. Jeremias, T D N T, 1:792. A pedra rejeitada se referia a Abraão, Davi ou ao Messias, de


acordo com os rabinos. Os construtores eram descritos com o os mestres da Lei. SB 1:875-76.
18. M. Black, em “The Christological Use o f the Old Testament in the New Testam ent” NTS
18 (1971-72):13, chama a atenção para a interpretação messiânica da pedra e, conseqüente­
mente, fala da pedra e do filho rejeitados.
19. Gn 22.2; Mt 3.17; Mc 1.11; Lc 3.22; 2 Pe 1.17.

117
AS PARÁBOLAS DE JESUS

“Por isso foi que também Jesus, para santificar o povo, pelo seu próprio
sangue, sofreu fora da porta.” (Hb 13.12)
Se a parábola terminasse com a morte do filho e com a ida do
proprietário à vinha, o sacrifício da vida do filho teria sido desnecessário. O
proprietário poderia ter ido até à vinha imediatamente após seus servos
terem sido maltratados. A exaltação do filho não teria sido retratada, então,
pela parábola da vinha. Mas, através da figura da rejeição, Jesus liga o Salmo
118 à parábola e a citação do Salmo revela que à pedra rejeitada é destinado
o lugar mais importante entre todas as outras pedras da construção. O
Senhor exaltou a pedra principal.
Jesus, deliberadamente, entrelaçou a figura da vinha e a da pedra,
dizendo: “Portanto vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será
entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. Todo o que cair
sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará
reduzido a pó” (Mt 21.43,44).20 O reino de Deus se torna a vinha onde outro
povo produzirá frutos. Ao mesmo tempo, a pedra reduz a pedaços e esmaga
oponentes do Filho. A “vinha” e a “pedra angular” são metáforas pronta­
mente entendidas pelos ouvintes teologicamente treinados, os líderes reli­
giosos. Da profecia de Isaías eles sabiam que “a vinha do SENHOR dos
Exércitos é a casa de Israel, e os homens de Judá são a planta dileta do
SENHOR.” (Is 5.7) Da mesma profecia conheciam, ainda, que “o SENHOR
dos Exércitos... será pedra de tropeço e rocha de ofensa às duas casas de
Israel. Muitos dentre eles tropeçarão... cairão, serão quebrantados...”. (Is
8.13-15)21
Opropósito da parábola e a citação do salmo não escaparam aos líderes
religiosos. Todos os três evangelistas relatam que “compreenderam que
contra eles proferia esta parábola”. Eles, de fato, seriam esmagados pelo
Filho que tinham rejeitado, mas a quem Deus tinha exaltado.

Aplicação

A parábola se aplicava, de maneira óbvia, aos principais sacerdotes,


aos fariseus, escribas e anciãos do povo. Eles eram descritos como maus
lavradores e como construtores preconceituosos. Eles se rebelaram contra

20. A evidência textual parece se tom ar mais forte pela inclusão de Mt 21.44 que pela sua
omissão. É possível, naturalmente, olhar o versículo com o sendo uma interpolação de Lc
20.18. Não obstante, “a antigüidade da leitura e sua importância na tradição do texto” devem
ser vistas com o fatores decisivos para sua conservação. Metzger, em A Textual Commentary,
p. 58, não obstante, sugere que o versículo pode ser um acréscimo ao texto.
21. Outras referências à pedra são encontradas em: Is 28.16; Dn 2.34,44,45; A t 4.11; Rm 9.33;
E f 2.20; e l P e 2.6.

118
OS LAVRADORES MAUS

o dono da vinha, mataram seu filho e rejeitaram a pedra principal, angular.


Escolheram a inimizade contra Deus e seu Filho. Foram esmagadoramente
derrotados e tiveram morte inesperada.
Qual é o propósito da parábola? Jesus ensina que, aparentemente, a
paciência infinita de Deus se estende a todos os que se opõem a ele, mas
que, quando essa paciência se esgota, na rejeição de seu Filho, o castigo
imediato de Deus se segue com toda a certeza.
A passagem proclama uma mensagem de certcza e confiança àqueles
que fielmente seguem a Jesus. Mesmo que a igreja possa experimentar
tempos de adversidade, Jesus Cristo é o Rei eterno cuja vitória é certa. Nas
palavras de uma confissão do século 16.
Esta igreja existe desde o princípio do mundo e permanecerá
até ao fim. Isso emana do fato de que Cristo é o Rei eterno, do
que se conclui que ele não pode deixar de ter súditos. E esta
santa igreja é protegida por Deus do furor do mundo todo.
Nunca será destruída mesmo que, às vezes, possa afigurar-se
pequenina e possa mesmo parecer que se apaga.22

22. The Belgic C onfession, artigo 27.

119
16
As Bodas

Mateus 22.1-14
1“De novo entrou Jesus a falar
por parábolas, dizendo-lhes: O
reino dos céus é semelhante a um
rei que celebrou as bodas de seu
filho. 3Então enviou os seus servos
a chamar os convidados para as
bodas; mas estes não quiseram vir.
4Enviou ainda outros servos, com
este recado: Dizei aos convidados:
Eis que já preparei o meu banque­
te: os meus bois e cevados já foram
abatidos, e tudo está pronto; vinde
para as bodas. 5Eles, porém, não
se importaram, e se foram, um
para o seu campo, outro para o seu
negócio; 6e os outros, agarrando os
servos, os maltrataram e mataram.
70 rei ficou irado e, enviando as
suas tropas, exterminou aqueles
assassinos e lhes incendiou a cida­
de. 8Então disse aos seus servos:
Está pronta a festa, mas os convi­
dados não eram dignos. 9Ide, pois,

121
AS PARÁBOLAS DE JESUS

para as encruzilhadas dos cami­


nhos e convidai para as bodas a
quantos encontrardes. 10E, saindo
aqueles servos pelas estradas, reu­
niram todos os que encontraram,
maus c bons; e a sala do banquete
ficou repleta de convidados. En­
trando, porém, o rei para ver os
que estavam à mesa, notou ali um
homem que não trazia veste nup­
cial, 12e perguntou-lhe: Amigo,
como entraste aqui sem veste nup­
cial? E ele emudeceu. 13Então or-
d e n o u o re i aos serv e n te s:
Amarrai-o de pés e mãos, e lançai-
o para fora, nas trevas; ali haverá
choro e ranger de dentes. 14Por-
que muitos são chamados, mas
poucos escolhidos.”

A ssim como a parábola da grande ceia é peculiar a Lucas, a parábola


das bodas pertence ao Evangelho de Mateus. Pode haver alguma semelhança
entre as duas, e o tema parece comum a ambas; mas as diferenças são tão
fundamentais, que é bom tratá-las como parábolas distintas.

A Parábola

Jesus contou a história de um rei que preparou um banquete para


festejar as núpcias de seu filho. O rei — e não sua mulher, nem seu filho, mas
o rei - fez os preparativos. Para a ocasião feliz do casamento, o rei planejou
cuidadosamente a festa. Ele queria que todos os importantes dignatários de
seu reino estivessem presentes. Mandou, então, que fossem anunciadas as
bodas.
Era costume, naqueles dias, os convites serem entregues em mãos e os
convidados serem relembrados do acontecimento, no dia da festa. Mas ao
entregar os convites, os servos do rei não foram bem recebidos. Os dignatá­
rios e membros da nobreza fizeram saber aos servos que não estavam
absolutamente interessados na festa. Expressaram amargura e rebeldia.
Mesmo sabendo que o convite real era equivalente a uma ordem real, se
recusaram a tomar conhecimento do comunicado do rei.

122
AS BODAS

Uma sombra se abateu sobre o palácio real. Pessoas de alta posição


no reino, abertamente, menosprezavam o rei. Eles se recusavam a honrá-lo
com sua presença no casamento do príncipe herdeiro. Mas, o rei continuou
os preparativos para a festa, e, quando chegou o dia das núpcias de seu filho,
enviou novamente os servos para fazer lembrar aos dignatários de todo o
reino que eram convidados ao banquete. Fez saber que tudo estava pronto.
No entanto, infelizmente, a atitude do rei não teve o resultado espera­
do. Ele, talvez, até soubesse o tipo de resposta que seus servos receberiam,
quando fossem enviados pela segunda vez. Já, antes, tinham recebido res­
postas negativas e hostis. Certamente enfrentariam a mesma amargura e o
mesmo ressentimento, se não pior. Os servos partiram com a mensagem real:
“Meus bois e cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; vinde para as
bodas.1 Mas, os convidados não deram atenção ao convite. Agiram de modo
ostensivamente desafiante: uns foram para o seu campo, outros para o seu
negócio, e, quando os servos do rei insistiram um pouco mais com um
terceiro grupo, foram maltratados. Alguns até foram mortos.
O rei, justamente irado, enviou seus soldados para punir os assassinos
e queimar sua cidade. Desabafou assim a sua ira, mas ainda queria que
pessoas viessem e celebrassem com ele as bodas de seu filho. Por isso,
ordenou aos servos que fossem às esquinas das ruas e convidassem qualquer
um que quisesse vir à festa. Tanto pessoas boas como más vieram em grande
número, de modo que a sala do banquete se encheu de convidados.
Um dos convidados, no entanto, se recusou a usar o traje nupcial que
lhe foi oferecido, quando chegou. Por causa de sua roupa, ele ficou muito
em evidência. Chegou, então, o momento da entrada do rei no salão do
banquete. Ele examinou seus convidados com aprovação, até notar aquele
que tinha-se recusado a usar a vestimenta apropriada. Surpreso, o rei
exclamou: “Amigo, como entraste aqui sem veste nupcial?” O homem ficou
calado. Não podia contar ao rei, na frente de todos os outros convidados,
que se recusara a usar o traje que lhe fora oferecido ao chegar. Permaneceu
em silêncio. O rei ordenou a seus servos que amarrassem o convidado
obstinado e o lançassem lá fora, nas trevas.

Explicação

A parábola do banquete das bodas é a terceira de uma série de três, e


é o ponto culminante do grupo que inclui ainda as parábolas dos dois filhos
e dos lavradores maus. Estas três parábolas sobre o reino foram enunciadas
1. U m paralelo no V elho Testamento é o convite para o banquete da Sabedoria, registrado em
Provérbios 9.2-5.

123
AS PARÁBOLAS DE JESUS

no decorrer da última semana de Jesus na terra, quando ele experimentou


a hostilidade dissimulada dos fariseus, dos principais sacerdotes e dos
anciãos do povo, enquanto estes preparavam suas armadilhas para apanhá-
lo em contradição. Sem temor, Jesus ensinou a parábola das bodas, que era
dirigida, claramente, contra seus oponentes. Esta parábola, no entanto, deve
ser lida e entendida no contexto histórico dos eventos que encerram o
ministério de Jesus.
Na introdução da parábola, ressoa uma nota de alegria e felicidade. O
rei prepara, com esmero, um banquete para festejar as bodas de seu filho.
Celebrando, ele convida altos dignitários para o banquete. O ato de comer
e beber juntos, alegremente, expressa, com naturalidade, o laço de paz e
união que deve existir entre o hospedeiro e seus convidados.2 Um banquete,
obviamente, não é preparado apenas com o propósito de satisfazer o apetite.
Enquanto o dono da casa e seus hóspedes comem juntos, conversam e se
tornam mais íntimos. O embaraço desaparece e um espírito de entendimento
e afinidade toma seu lugar. Nos banquetes devem prevalecer a paz e a
harmonia.
Aqueles que foram convidados pelo rei recusaram-se a ir. No oriente,
assim como em qualquer outro lugar, espera-se que os convidados aceitem
o convite real, como uma obrigação. Espera-se, também, que os convidados
ao casamento tragam presentes apropriados à ocasião. Porque os convida­
dos da parábola não poderiam agir de maneira recíproca, convidando o rei
e sua família para uma festa semelhante, os presentes deveriam ser caros —
especialmente sendo o casamento do filho do rei.3 Recusar o convite traria
sérias implicações que poderiam resultar em problemas e hostilidades. A
recusa poderia ser interpretada como uma declaração de que o filho do rei
não merecia um presente, que os convidados não aprovavam o casamento e
que não manteriam mais sua fidelidade ao rei.4 O rei é obrigado a tomar
medidas que assegurem sua autoridade. Faz isso enviando os servos pela
segunda vez, mas, agora, com o apelo urgente de que venham imediatamente.
Não toma, ainda, nenhuma outra medida. O rei espera que os convidados
tenham mudado de idéia e aceitem seu convite.
Os convidados, no entanto, não tinham mudado seus sentimentos. Vão
para seus próprios negócios, ignorando a mensagem do rei. Quando os

2. Mánek, Frucht, p. 61.


3. Derrett, Law in New Testament, p. 139.
4. Derrett, Law in the New Testament, p. 139, chama a atenção para o fato de Sir Thomas More
ter-se recusado a assistir à coroação da Rainha Ana Bolena, em 1534.

124
AS BODAS

mensageiros insistem, fazendo ver a urgência do convite real, eles demons­


tram-lhes seu desprezo, os ridicularizam e não hesitam mesmo em matá-los.
Jesus está contando a história de Israel, e seus ouvintes entendem que
ele se refere aos profetas enviados por Deus, com a mensagem urgente de
arrependimento. Mas Israel, em vez de aceitar o chamado de Deus e se
arrepender, trata de maneira vergonhosa os profetas, c mata alguns deles
(Mt 23.35).6 Jesus rememora a seus ouvintes a página negra do livro de sua
história. Os fariseus, mestres da lei, sacerdotes e anciãos compreendem que
ele está se referindo a eles.
Jesus continua e descreve um rei zangado, que envia seu exército para
destruir os assassinos e queimar sua cidade. O rei, tendo feito lembrar seus
convidados, pela segunda vez, através de seus servos, e vendo que seus
mensageiros são escarnecidos e mesmo assassinados, compreende as conse­
qüências políticas do fato. É de importância capital que ele enfrente aqueles
que se opõem à sua lei. Ordena às suas tropas que destruam os assassinos e
queimem sua cidade.7 É indiferente que isso tenha acontecido no próprio
dia das bodas, ou imediatamente após. Significativo é o fato de o rei ter
exercido sua autoridade; ele governa e exige obediência.
Embora a referência à queima de uma cidade possa ser alusão à
destruição de Jerusalém, em 70AC, é mais adequado pensar que o povo que
ouvia Jesus estivesse familiarizado com os relatos históricos de reis enviando
tropas para destruir os adversários e para tocar fogo em suas cidades. Os
ouvintes de Jesus provavelmente viram a figura irada do rei como a perso­
nificação de Deus. Eles sabiam que “... Deus é fogo que consome, é Deus
zeloso” (Dt 4.24). A paciência de Deus não dura para sempre, e quando sua
misericórdia não encontra arrependimento, o resultado é o juízo.
O rei convida o povo da cidade e de seus arredores para os salões
festivos do banquete nupcial. Eles vêm de longe e de perto, os bons e os
maus, e enchem os lugares deixados vazios pelos convidados indignos. O rei

5. Alguns escritores consideram que este detalhe, bem com o alguns outros, vão além dos limites
do exagero oriental. Veja-se, por exemplo, Armstrong, Parables, p. 103; Oesterley, Parables,
p. 123; Linnemann, Parables, p.94; e Jeremias, Parables, p. 68. Entretanto, K. H. Rengstorf,
em “D ie Stadt der Morder (Mt 22.7), Judentum, Urchristentum, Kirche, Festschrift honoring
J. Jeremias (Berlin: Tõpelmann, 1960), pp. 106-29, acumulou uma coleção de incidentes, nos
quais mensageiros enviados por reis eram escarnecidos ou mortos.
6 .2 Cr 30.1-10. Josephus, Antiquities 9:264-265, escreve que os mensageiros de Ezequiel foram
escarnecidos, agarrados e assassinados. Para comparar, leia-se Judite 1.11.
7. A expressão “suas tropas”, embora plural em grego, é um semitismo. Jeremias, Parables, p.
68, ne 75.
8. Rengstorf, “Stadt der Morder”, pp. 106-24. Veja-se, especialmente, suas conclusões, nas
páginas 125-29.

125
AS PARÁBOLAS DE JESUS

é um retrato de benevolência e representa a misericórdia e o amor de Deus


estendidos aos pecadores. Pessoas de todos os caminhos da vida recebem
o convite e respondem afirmativamente.
Os servos do rei saúdam as pessoas, quando estas chegam ao palácio,
e dizem a cada hóspede que use as roupas feitas para a ocasião. O rei convida
o povo e espera que usem as vestes que providenciou. Vestindo o traje
nupcial, ninguém mostra pobreza ou miséria. Cada um dos convidados pode
esconder sua condição social e econômica atrás das roupas oferecidas pelo
rei.10 As vestes eram imaculadas e brancas, cor que na cultura oriental
significa alegria e felicidade.11 Segundo os costumes, um hospedeiro não
comia com os convidados, num banquete formal; ele apenas se apresentava
entre eles durante a refeição.12
Qualquer um pode vir ao casamento do filho do rei? A resposta é que
todos são bem-vindos, contanto que usem as vestes nupciais. Quando o rei
chega ao salão do banquete e nota que um dos convidados não está vestido
de maneira apropriada, considera o fato como um insulto deliberado. Ele
não pode tolerar obstinação, desacato ou recusa. Ele quer que seu convidado
aceite tudo que ele tenha a oferecer. Qualquer um que resolva declinar a
oferta do rei, provoca sua ira e vai sofrer as conseqüências. O único convi­
dado que apareceu no banquete usando suas próprias roupas foi sumaria­
mente retirado do salão e lançado fora, na escuridão da noite. Cheio de
remorsos, ele geme e range os dentes. Não são todos que permanecem no
salão da festa das bodas. Apenas aqueles que aceitam o convite do rei, e
chegam ao local obedecendo seus termos, poderão ficar.
O Livro do Apocalipse, em especial, fala a respeito dos justos usando
vestes brancas de linho fino, resplandecente e imaculado.13 Deus providen­
cia essas vestiduras que representam a justiça de Deus com seu povo. Deus
lhes dá a veste da justiça que simboliza que quem a usa foi perdoado, seus
pecados foram resgatados, e ele é um membro da casa de Deus, por
intermédio de Cristo. Quando o pai se alegrou com a volta do filho pródigo
9. D. O. Via, Jr., em “The Relationship of Form to Content in the Parables: The Wedding Feast”;
Interp 25 (1971): 181, é de opinião que o rei é “inquestionável e imutável”. N o entanto, o rei
mostra amor, misericórdia e paciência de um lado, e desgosto, ira e vingança, de outro.
10. Para um estudo mais pormenorizado acerca do fornecimento de vestes aos convidados, por
parte do rei, veja Hendriksen, Matthew, pp. 797-98. Consultem-se referências das Escrituras
em 2 Rs 10.22; Is 61.10; Ap 19.7,8.
11. Derrett, Law in the New Testament, p. 142, contrasta as vestes limpas e alvas com as sujas
que significam luto. Veja-se, também, Jeremias, Parables, p. 187; SB I: 878-79.
12. Jeremias, Parables, p. 187.
13. Ap 3.4,5,18 e 19.8. N o último versículo, o escritor acrescenta a explicação de que o linho
representa os atos de justiça dos santos.

126
AS BODAS

à casa, ele o vestiu de roupas finas, para mostrar que o passado do filho fora
esquecido (Lc 15.22).14 Como o rei da parábola queria que todos os convi­
dados usassem as roupas nupciais, por ele providenciadas, assim Deus
deseja que os pecadores venham à festa de seu filho e usem as vestiduras
brancas que simbolizam o arrependimento, o perdão e a justiça.
O convidado que não estava usando a veste branca, no banquete real,
sem dúvida, representa o pecador que se auto-justifica. Ele quer que todos
saibam que não precisa da morte sacrificial e do sangue expiatório de Cristo,
para entrar no céu. Ele não ouve as palavras de Jesus: “Ninguém vem ao Pai
senão por mim” (Jo 14.6), e, por isso, quando chega diante de Deus, é
lançado fora. É absolutamente impossível chegar diante de Deus sem a veste
protetora oferecida por Jesus Cristo.
O parágrafo termina com as palavras: “Porque muitos são chamados,
mas poucos escolhidos.” Tanto o começo quanto o fim da parábola se
referem a pessoas que tinham sido convidadas. Aqueles que se recusaram a
ir, assim como o convidado que não vestiu as roupas apropriadas para as
bodas, não fazem parte do grupo dos que foram escolhidos. Embora o
convite seja universal e extensivo a todos os povos, apenas aqueles que o
aceitam com fé e arrependimento são destinados à vida eterna (At 13.48).
Deus não se compraz com a morte do perverso; ele quer que ele viva
(Ez 18.23; 33.11). O desejo amoroso de Deus é que “nenhum pereça, senão
que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pe 3.9). Mas, se o homem faz
saber que não sente necessidade de Jesus, ele, assim, recusa a justiça
dispensada por ele. Ele tem que se arrepender, dando-se conta de que não
tem merecimento algum para chegar à presença de Deus, e que necessita
das vestes de justiça que Jesus provê. Um coração “compungido e contrito”
(SI 51.17) é necessário para que se queira aceitar, prontamente, essa vesti-
dura.
O convite do evangelho é proclamado a todo o mundo, mas relativa­
mente poucos respondem à oferta de salvação. Mesmo entre os que aceitam
o convite há muitos que se contentam com uma simples profissão de fé. A
profissão de fé deve demonstrar renovação de vida. 5 O crente deve trans­
formar em atos suas palavras. Embora Deus escolha sem olhar as obras, essa
escolha se expressa plenamente quando o eleito vive uma vida de obediência
a Deus.16
A escolha envolve o Deus Triúno. Os escolhidos são “eleitos segundo
a presciência de Deus Pai.” Eleitos “em santificação do Espírito, para a
14. Jeremias, Parables, pp. 130 e 189.
15. Calvin, Harmony o f the Evangelists, 11:175.
16. G. Schrenk, T D N T, IV:187.

127
AS PARÁBOLAS DE JESUS

obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1 Pe 1.2). Deus elege e


o homem responde. A eleição divina representa um lado do quadro; o outro
é a responsabilidade do homem em aceitar o convite de Deus com fé
verdadeira.17 As palavras: “Porque muitos são chamados, mas poucos esco­
lhidos” são complemento de “porque estreita é a porta e apertado o caminho
que conduz à vida, e são poucos os que acertam com ela” (Mt 7.14).

17. J. Morison, A Practical Commentary on the G ospel According to St. Matthew (Boston:
Bartlett & Co., 1884), p. 407.
17
A Figueira

Mateus 2432-35 Marcos 13.28-31 Lucas 21*29-33


yy 28
"“Aprendei, “Aprendei, pois, a 29“A in d a lhes
pois, a parábola da parábola da figueira: propôs uma pará­
figueira: quando já quando já os seus ra­ b o la , d iz e n d o :
os seus ramos se re­ mos se renovam e as Vede a figueira e
novam e as folhas folhas brotam, sabeis todas as árvores.
brotam, sabeis que que está próximo o ve­ 30Q uando com e­
está próximo o ve­ rão. 29Assim também çam a brotar, ven-
rã o . 33Assim tam ­ vós: q u an d o virdes do-o, sabeis por
bém vós: q u an d o acontecer estas coisas, vós mesmos que o
virdes todas estas sabei que está próxi- verão está próxi­
co isas, sab ei que mo, as portas. Em mo. 31Assim tam­
está próximo, às por- verdade vos digo que bém , quando
ta s. MEm verdade não passará esta gera­ virdes acontecer
vos digo que não ção sem que tudo isto estas coisas, sabei
passará esta geração aconteça. 31Passará o que está próximo
sem que tudo isso céu e a terra, porém as o reino de Deus.
aconteça. 35Passará 32
minhas palavras não Em verdade vos
o céu e a terra, po­ passarão.” digo que não pas­
rém as minhas pala­ sará esta geração,
vras não passarão.” sem que tudo isto
33
aconteça. Passa­
rá o céu e a terra,
porém as minhas
palavras não pas­
sarão.”

129
AS PARÁBOLAS DE JESUS

O s evangelhos revelam que Jesus era um arguto observador da


natureza. Seu ensino, constantemente, faz alusão ao meio ambiente que
cercava a ele e a seus ouvintes. As parábolas não são exceção, pois, muitas
vezes, se referiam à vida do fazendeiro, do pescador e dos pastores. Os
ouvintes de Jesus viviam mais próximos da natureza do que fazemos nós
agora, e não tinham dificuldade para entender o significado de sua mensa­
gem. Nos tempos bíblicos, a figueira era muito comum em Israel, especial­
mente nas proximidades de Jerusalém, onde Betfagé ( = “casa dos figos”) se
localizava. Em Israel, um dito popular sempre lembrado e que se referia ao
reinado calmo de Salomão, afirmava que um homem está em segurança
“debaixo de sua videira, e debaixo de sua figueira” (1 Rs 4.25 e M q 4.4).
Durante o verão, a figueira com suas largas folhas verdes oferece boa
sombra. Mas, diferentemente de outras árvores, tais como a oliveira, o cedro
e a palmeira, ela perde suas folhas com a aproximação do inverno. Mesmo
quando outras árvores, que também costumam perder as folhas, começam
a mostrar sinais de vida, logo no início da primavera — a amendoeira, por
exemplo —, a figueira continua a apontar para o céu seus ramos nus, até que
chegue o verão. Então, a seiva começa a correr, os rebentos intumescem, e,
em alguns dias, as tenras folhas novas aparecem. A natureza proclama que
o perigo da noite gelada e mortal já passou e o verão está próximo.
Jesus talvez tenha ensinado a parábola da figueira florescente durante
a primeira semana de abril, exatamente quando as árvores começam a dar
os primeiros sinais de vida. “Quando já os seus ramos se renovam e as folhas
brotam, sabeis que está próximo o verão.”1 Esta era a linguagem que seus
ouvintes entendiam.
A questão, no entanto, era se o povo seria capaz de interpretar este
sinal teológica e espiritualmente. As pessoas tinham vindo a Jesus, repetida­
mente, pedindo por um sinal, mas Jesus não tinha o hábito de apresentar
sinais. Certa vez, ele dissera aos fariseus que nenhum outro sinal seria dado
senão aquele do profeta Jonas (Mt 12.39), e uma outra vez ele os censurou
por serem capazes de interpretar o aspecto do céu; porém não serem capazes
de discernir os sinais dos tempos (Mt 16.2,3). Saberiam seus discípulos
reconhecer o sinal da figueira ao florescer? “Assim também vós: quando
virdes todas estas coisas, sabeis que está próximo, às portas.”2
1. Lõw, D ie Flora der Juden, 1.240, destaca que a palavra verão (grego = theros) em hebraico
pode ter ocasionado um jogo de palavras: gayis ( = verão; fruto do verão) e ges ( = fim da
vida; tempo do castigo final). Veja-se, também, J. Dupont, “La parable du figuier qui
bourgeonnne (Mc XIII, 28,29 et. par.)”, RB 75 (1968): 542, que se refere à profecia de Am ós
8.1,2, na qual o cesto de frutos de verão tem significado escatológico.
2. Dupont, “Parble fu figuier”, p. 532. A s palavras “assim também” dão a impressão de que os
discípulos são comparados a um outro grupo. O “vós” do versículo precedente (Mt 24.32;
Mc 13.28; Lc 21.30) deve ser entendido no sentido geral de “todos sabem que o verão está
próximo.”

130
A FIGUEIRA

O ponto focalizado na ilustração é óbvio: quando as árvores começam


a mostrar as tenras folhas, todos sabem que o verão está próximo. Lucas
acrescentou: “todas as árvores”.3 Ele generalizou, quando escreveu: “Vede
a figueira e todas as árvores. Quando começam a brotar, vcndo-o, sabeis por
vós mesmos que o verão está próximo.” Lucas dá menos ênfase à figueira
que às pessoas que olham as árvores: elas podem ver a evidência por si
mesmas.
Qual é, pois, a comparação? Os evangelistas diferem na narrativa.
Mateus inclui tudo. Escreve: “Assim também vós: quando virdes todas estas
coisas, sabeis que está próximo, às portas”. Marcos varia ligeiramente,
dizendo: “... quando virdes acontecer estas coisas”, que é igual à versão de
Lucas. Mas Lucas tem um final diferente: “... sabei que está próximo o reino
de Deus.” Ele omite a frase, “próximo, às portas”.4
A expressão “quando virdes” ocorre no começo do sermão escatoló-
gico de Jesus: “Quando, pois, virdes o abominável da desolação situado onde
não deve estar...” (Mt 24.15; Mc 13.14; Lc 21.20). Inegavelmente, as palavras
“estas coisas” ou “todas estas coisas” devem referir-se às predições delinea­
das anteriormente, no discurso. Os discípulos de Jesus perguntaram: “Dize-
nos quando sucederão estas coisas” (Mc 13.4). O sermão todo a respeito do
final dos tempos (Mc 13.5-23 e paralelos), especialmente a parte sobre o
cerco de Jerusalém e o aparecimento de falsos profetas, está resumido na
expressão: “estas coisas”, ou “todas estas coisas”.5 A expressão se refere,
também, ao “abominável da desolação” que foi profetizado que viria ao
templo de Jerusalém. “Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exérci­
tos, sabei que está próxima a sua devastação” (Lc 21.20).
Jesus aplica esta verdade diretamente a seus contemporâneos. “Em
verdade vos digo”, diz ele a seus discípulos, “que não passará esta geração
sem que tudo isto aconteça” (Mc 13.30). Uma vez mais ele generaliza,
usando a expressão “tudo isto”. Com certeza, os discípulos seriam capazes
de constatar como estavam próximas a profanação e a destruição do templo,
tanto quanto saberiam como estava próxima a chegada do verão, olhando
3. Um outro exemplo da generalização é encontrado em Lc 11.42, “... porque dais o dízimo da
hortelã, da arruda e de todas as hortaliças...” O paralelo é encontrado em Mt 23.23, “...
porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho...”.
4. A s palavras de Mateus e Marcos, “próximo, às portas”, indicam a chegada iminente do
Senhor que está vindo como Juiz e Redentor. “Sede vós também pacientes, e fortalecei os
vossos corações, pois a vinda do Senhor está próxima. Eis que o juiz está às portas.” (Tg
5.8,9) Notem -se as palavras do Apocalipse: “Eis que estou à porta, e b ato” (3.20). Mánek,
Frucht, p. 34.
5. Lane, Mark, p. 448; C. B. Cousar, “Eschatology and Mark’s Theologia Crucis, A Criticai
Analysius of Mark 13", Interp 24 (1970): 325; G.R. Beasley — Murray, A Com m entaiy on
M arkThirteen (London, New York: Macmillan, 1957), p. 97.

131
AS PARÁBOLAS DE JESUS

para a figueira. Mas, o texto diz, “não passará esta geração sem que tudo isto
aconteça”. E todas estas coisas preditas no sermão sobre o final dos tempos
vão muito além do tempo dos contemporâneos de Jesus.6 Porém, os rolos
de Cunrã têm lançado significativa luz na compreensão da frase “esta
geração”. A expressão significa uma duração que não se limita a um período
de vida, e não deve ser entendida literalmente.7 Ela se refere a pessoas que
persistem e permanecem fiéis até ao fim. Inclui, portanto, os discípulos que
ouviram as palavras dos próprios lábios de Jesus, aqueles que testemunha­
ram a queda de Jerusalém, e os crentes que, através dos séculos, com
perseverança, têm esperado o cumprimento das profecias que dizem respei­
to ao final dos tempos.
A imagem da figueira florescente é comumente associada a um perío­
do de bênçãos (J1 2.22) e raramente está relacionada com destruição e
calamidade. A parábola, como tal, não deve ser vista basicamente ligada às
calamidades profetizadas no sermão.8 A ênfase deve permanecer, antes, na
redenção que se torna evidente na vinda do reino de Deus. Embora Mateus
e Marcos falem de calamidades, como a fome e terremotos, como sendo “o
princípio das dores” (Mt 24.8; Mc 13.8), Lucas as omite. Ele apresenta as
palavras de Jesus emolduradas de prazeirosa expectativa. “Ora, ao começa­
rem estas coisas a suceder, exultai e erguei as vossas cabeças; porque a vossa
redenção se aproxima” (Lc 21.28). Lucas usa praticamente a mesma lingua­
gem na aplicação da parábola da figueira florescente: “Assim também,
quando virdes acontecer estas coisas, sabei que está próximo o reino de
Deus” (Lc 21.31). Naturalmente, os termos “redenção” e “reino de Deus”,
neste contexto, se referem à futura consumação da salvação.9 Eles se referem
à derradeira vinda do reino de Deus, quando o povo de Deus será libertado
da aflição. Então, também, “a própria criação será redimida do cativeiro da
corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21).
A parábola conclui, dizendo: “Passará o céu e a terra, porém as minhas
palavras não passarão.” O que passa se torna parte do passado e não significa
mais nada para o presente.10 O sentido da parábola é o de que as palavras
de Jesus não perdem seu impacto quando uma predição, em particular, se
6. A s interpretações variam quanto ao significado da expressão “esta geração”: a) O povo judeu
dos dias de Jesus. Beasley — Murray, Commentary p. 100; b) O povo judeu com o uma raça.
Hendriksen, Matthew, p. 868; c) A humanidade em geral (Jerônimo); d) Os fiéis na igreja.
A. L. M oore, The Parousia in the New Testament, (Leiden; Brill, 1966), pp. 131-32.
7. E. E. Ellis, The G ospel of Luke (The Century Bible) (London: Nelson, 1966), pp. 246-47. A
expressão é usada em 1 QpHab 2.7; 7.2.
8. Mánek, Frucht, p. 34.
9. Marshall, Luke, pp. 777,779.
10. Ridderbos, Corning of the Kingdom, p. 502.

132
A FIGUEIRA

cumpre no tempo. São tão válidas hoje, como o eram quando foram primeiro
proferidas.
Qual é a mensagem da parábola? Até ao dia do retorno de Cristo,
quando o reino de Deus virá em toda a sua plenitude, nenhuma geração
estará livre de calamidade. Mas, nenhum cristão deve desanimar-se ou
entregar-se ao desalento. Ele deve observar os sinais dos tempos com muito
cuidado, do mesmo modo como observa uma figueira que floresce e saberá
que os acontecimentos que o cercam são anunciadores de uma nova era. A
parábola, assim, exorta o crente a perseverar atento. As adversidades que
ele enfrenta não devem abater o seu ânimo e enfraquecer a sua confiança.
Elas devem, antes, confirmar a sua expectativa da aproximação do fim
glorioso do qual essas adversidades são os prenúncios. Mesmo que os
crentes, através dos tempos, tenham sofrido aflições e enfretado infortúnios,
o cristão, hoje, mais que nunca, é encorajado pelas palavras de Paulo: “E
digo isto a vós outros que conheceis o tempo, que já é hora de vos desper-
tardes do sono, porque a nossa salvação está agora mais perto do que quando
no princípio cremos. Vai alta a noite e vem chegando o dia. Deixemos, pois,
as obras das trevas, e revistamo-nos das armas da luz” (Rm 13.11,12).

133
18_____________
O Servo Vigilante

Marcos 1332-37 Lucas 1235-38


'I C
“Mas a respeito daquele “Cingidos estejam os
dia ou da hora ninguém sabe; vossos corpos e acesas as
nem os anjos no céu, nem o vossas candeias. 36Sede vós
Filho, senão somente o Pai. semelhantes a homens que
33
Estai de sobreaviso, vigiai (e esperam pelo seu senhor,
orai); porque não sabeis quan­ ao voltar ele das festas de
do será o tempo. MÉ como um casamento; para que, quan­
homem que, ausentando-se do do vier e bater à porta, logo
país, deixa a sua casa, dá auto­ lha abram. ^Bem -aventu­
ridade aos seus servos, a cada ra d o s aq u e le s servos a
um a sua obrigação, e ao por­ quem o senhor quando vier
teiro ordena que vigie.35Vigiai, os encontre vigilantes; em
pois, porque não sabeis quan­ verdade vos afirmo que ele
do virá o dono da casa; se à há de cingir-se, dar-lhes lu­
tarde, se à meia-noite, se ao gar à mesa e, aproximando-
cantar do galo, se pela manhã; se, os servirá. 38Quer ele
36para que, vindo ele inespera­ venha na segunda vigília,
damente, não vos ache dormin- quer na terceira, bem-aven­
do. O que, porém, vos digo, turados serão eles se assim
digo a todos: Vigiai!” os achar.”

O título deste capítulo se aplica bem mais à parábola registrada no


Evangelho de Marcos, que àquela que encontramos em Lucas. Em Marcos,
135
AS PARÁBOLAS DE JESUS

todos os servos recebem uma obrigação específica do senhor da casa, que


está pronto para partir. Ao porteiro é dito que se mantenha vigilante. Os
ouvintes, no entanto, são incluídos porque o comando universal é dado no
plural: “Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o dono da casa” (Mc
13.35).1
Na parábola de Lucas, espcra-sc que todos os servos estejam prontos
para abrirem a porta, quando o dono da casa estiver de volta de uma festa
de casamento, numa determinada noite. Também, a admoestação geral dada
(no plural) a todos que a ouvem, é: “Cingidos estejam os vossos corpos e
acesas as vossas candeias.” (Lc 12.35) Um título mais apropriado à parábola
de Lucas seria “os servos à espera”.
As duas parábolas, em Marcos 13 e Lucas 12, não são idênticas na
forma. Não apresentam sentenças ou frases paralelas. Ainda assim, o ensi­
namento básico dos dois relatos é o mesmo. Ambos apresentam a mensagem
da vigilância para os servos que aguardam a chegada de seu senhor. Na
parábola de Marcos, o senhor vai se ausentar, provavelmente para outro
país,2 e no Evangelho de Lucas o senhor está participando de uma festa de
casamento. Em Marcos, embora todos os indícios sejam de que chegará em
casa à noite, os servos não sabem quando o senhor voltará, “se à tarde, se à
meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã.” Lucas apresenta uma lista
semelhante de períodos de tempo. “Quer ele venha na segunda vigília, quer
na terceira, bem-aventurados serão eles, se assim os achar.” Marcos adota
o costume romano de dividir a noite em quatro vigílias, cada uma com três
horas de duração.3 Lucas, no entanto, divide a noite em três vigílias.4

Marcos 1333-37

Ninguém sabe, absolutamente, a hora em que Jesus voltará. Os anjos


do céu não têm essa informação, nem mesmo o Filho sabe a respeito.
Somente o Pai sabe. “Estai de sobreaviso, vigiai5 (e orai); porque não sabeis
quando será o tempo.” Como vigia o crente?
1. O imperativo da segunda pessoa plural da voz ativa é usado aqui e no versículo paralelo de
Mateus 24.42.
2. “A usentando-se” ( = apodemos) não significa, necessariamente, partirpara um país distante.
Pode querer dizer, simplesmente, sair da província, como, por exemplo, da Galíléia e
Decápolis.
3. SB, 1:688. Em A t 12.4, Lucas registra, fielmente, as vigílias romanas: “quatro escoltas de
quatro soldados cada uma”, guardavam Pedro durante a noite. Veja-se, também, Mt 14.25
e Mc 6.48, onde é narrado que Jesus caminhou sobre o Mar da Galiléia durante a quarta
vigília da noite.
4. Dodd, Parables, p. 162.
5. O acréscimo de “e orai” talvez derive de Mc 14.38. E mais fácil explicar a inserção que a
omissão. Metzger, Textual Commentary, p. 112.

136
O SERVO VIGILANTE

É como um homem que tem certo número de servos, e um deles é o


porteiro noturno. Quando o dono da casa se prepara para partir por um
tempo indefinido, dá a cada um dos servos uma tarefa determinada. O
porteiro, por exemplo, deve vigiar a entrada da propriedade. As casas, em
Israel, eram, muitas vezes, separadas das estradas ou ruas por um muro alto
que as cercava. A casa propriamente dita, juntamente com outras constru­
ções, ficava afastada do portão. Perto da entrada ficava a pequena casa do
porteiro. O porteiro era a última segurança daqueles que moravam dentro
dos muros da propriedade.6 Dele se esperava que estivesse atento à noite e
que descansasse durante o dia. Dormir em serviço era falta grave, que
contrariava as instruções explícitas dadas pelo dono da casa (Mc 13.34,36).
De certo modo, as tarefas destinadas aos outros servos não parecem
tão importantes quanto à do vigia, e os servos não são instruídos a ajudar o
porteiro em sua missão. Nesse ponto, a ênfase da parábola se transfere. Os
ouvintes próximos, os discípulos de Jesus são exortados a permanecer
vigilantes. Jesus aplica a parábola diretamente a seus seguidores com a
intenção de que eles entendam a exortação espiritualmente. Fica claro que
o proprietário da casa personifica o Filho do Homem que, no tempo conhe­
cido apenas pelo Pai, virá “com grande poder e glória” (Mc 13.26). Os
seguidores de Jesus são aconselhados a permanecer vigilantes, a não dormir,
mas a esperar a sua volta. Como o vigia espera paciente e ansiosamente a
volta do dono da casa, durante qualquer uma das quatro vigílias da noite,
assim devem estar alertas os seguidores de Jesus, despertos e atentos à sua
vinda.
O dono da casa não podia determinar com precisão a hora de sua
chegada. Podia ser a qualquer hora, cedo ou tarde. Do mesmo modo,
ninguém é capaz de afirmar a hora exata da volta de Jesus. Pode ser a
qualquer tempo. Assim como o porteiro não podia dizer que seu senhor
estaria de volta durante a quarta vigília, pouco antes do amanhecer,8 também
os seguidores de Jesus não podem afirmar que Jesus voltará quando tiver
passado a noite de adversidades. A volta de Jesus acontecerá inesperada­
mente (Mc 13.36). Por isso Jesus exorta não apenas seus ouvintes próximos,
mas se dirige a todo o povo: “O que, porém, vos digo, digo a todos: Vigiai!”
6. SB, 11:47. D e acordo com o Mishna, quando no pátio havia mais que uma residência, o
proprietário podia exigir que os moradores ajudassem a pagar o porteiro, Smith, Parables p.
105.
7. J. Dupont, “La Parabole du Maitre Qui Rentre dans La Nuit”, Melanges Bibliques, Festshrift
honoring B. Rigaux (Gembloux: Duculot, 1970), p. 96. Jeremias, em Parables, p. 55, afirma
que a parábola foi dirigida aos escribas, que possuíam as chaves do reino dos céus. É difícil
deduzir do texto e do contexto que é realmente assim. Consulte-se Smith, Parables, p. 106.
8. Michaelis, Gleichnisse, p. 84.

137
AS PARÁBOLAS DE JESUS

O tom de vigilância permeia toda a parábola, pois em cada versículo a


idéia se expressa positiva ou negativamente. Aqueles que ouvem a parábola
não devem ser encontrados adormecidos. São exortados a se manter alertas,
pois não podem saber quando Jesus virá.9

Lucas 1235-39

A parábola dos servos vigilantes é análoga à do porteiro. É comum se


afirmar que ambas derivam de uma parábola original, ensinada por Jesus.10
Disso se deduz que a comunidade cristã primitiva ou os evangelistas criaram
a versão atual dos Evangelhos. Entretanto, os dois relatos sobre o porteiro
e os servos vigilantes são tão diferentes no vocabulário e na estrutura das
frases que é impossível aceitar uma parábola original. É muito mais simples
afirmar que ambas as parábolas vieram dos lábios de Jesus. Uma é relatada
por Marcos, a outra por Lucas.
No relato de Lucas, a parábola é apresentada como uma comparação.
Após ter feito uma exortação à vigilância, Jesus compara o estado de alerta
“a homens que esperam pelo seu senhor, ao voltar ele das festas de casamen­
to; para que, quando vier e bater à porta, logo lha abram.” Jesus diz a seus
discípulos que estejam preparados para o serviço e que mantenham acesas
as suas lâmpadas. Claramente, a mensagem que Jesus transmite deve ser
entendida espiritualmente. Na parábola que fala sobre o porteiro, mesmo
que a todos os servos tenha sido confiada uma tarefa a ser realizada durante
a ausência de seu senhor, o vigia tem que se manter acordado e responder
à batida na porta, quando o dono da casa voltar, durante a noite. Na parábola
de Lucas, todos os servos esperam pelo regresso do senhor. São os únicos
que abrem a porta para ele, quando ele bate. Embora não possam saber ao
certo quando ouvirão a batida — a qualquer hora, entre as dez da noite e as
seis da manhã - , eles sabem que naquela noite seu senhor voltará para casa
vindo de um banquete de núpcias. Mas, por que devem todos os servos se
manter acordados? E por que devem todos eles atender à porta?11 A
resposta a esta pergunta é que Jesus queria retratar o relacionamento de

9. O Evangelho de Mateus não registra uma parábola semelhante à do porteiro. Mas há


versículos paralelos em Mt 24.42: ‘‘Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o
vosso Senhor”; e em Mt 25.13: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora.” Marcos
e Lucas não registram a parábola das dez virgens (Mt 25.1-13). Por causa da incorporação
dessa passagem, Mateus deve ter suprimido a parábola do servo vigilante.
10. Armstrong, Parables, p. 124; Dodd, Parables, pp. 161,162; Jeremias, Parables, p. 55; Mánek,
Frucht, p. 35. É Michaelis, em Gleichnisse, p. 82, que considera a possibilidade de as duas
parábolas, que diferem uma da outra, serem basicamente a mesma, por causa de sua
afinidade a um tema comum. Consulte-se Marsahll, Luke, p. 537.
11. Dupont, “Parabole”, p. 105.

138
O SERVO VIGILANTE

confiança que existia entre o senhor e seus servos. Nesta curta parábola, a
passagem: “bem-aventurados aqueles servos” (Lc 12.37,38) ocorre duas
vezes. Também, através da comparação, Jesus dcstaca o laço de amizade
existente entre ele e os discípulos.
12
Aos discípulos é dito que estejam vestidos e prontos para o serviço,
e que mantenham acesas as suas candeias. O uso dc candeias acesas sugere
um período de trevas durante o qual os discípulos devem permanecer
alertas, prontos para servirem a Jesus,13 quando ele voltar. A parábola
retrata o senhor fora da porta de sua própria casa, batendo e esperando que
os servos a abram e o recebam em sua própria casa. A imagem se repete na
carta endereçada à igreja em Laudicéia: “Eis que estou à porta e bato; se
alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e cearei com
ele e ele comigo” (Ap 3.20).
A parábola continua com uma recomendação: “Bem-aventurados
aqueles servos a quem o senhor quando vier os encontre vigilantes.” A
seqüência natural seria que os servos, após abrirem a porta, se ocupassem
em servir ao seu senhor. Entretanto, uma série inesperada de acontecimen­
tos tem lugar: o senhor se torna o servo.
Ele se veste para o serviço, seus servos tomam lugar à mesa e ele os
serve.14 Sem dúvida, o fato contraria o costume normal tão bem descrito na
parábola sobre a recompensa do servo (Lc 17.7-10). Entretanto, essa inver­
são de papéis está plenamente de acordo com o ensino e a conduta de Jesus.
Ele ensinou o papel do servo muito claramente, no cenáculo, quando lavou
os pés de seus discípulos.15 Resumindo, dentro do contexto da parábola dos
servos vigilantes, Jesus faz uma referência velada a si mesmo.

12. N o grego, é usado o particípio perfeito do verbo perizonnum i junto com o imperativo do
verbo eim i. Esse uso do perfeito significa conseqüência. Isto é, a ordem é que estejam sempre
vestidos para o serviço: estar prontos sempre!
13. Dodd, Jeremias, e outros colocam esta parábola na categoria das “parábolas da crise”. A
categoria inclui parábolas tais como a dos servos vigilantes, a do ladrão à noite, a do servo
fie! e do infiel, e a das dez virgens. Embora a observação seja correta, as assim chamadas
parábolas da crise não podem ser limitadas à morte de Jesus. Elas focalizam, também, a
segunda vinda. Morris, Luke, p. 216; I. H. Marshall, Eschatology and the Parables (London:
Tyndale Press, 1973), pp. 34,35.
14. Jeremias, Parables, p. 54 ne 18, chama Lucas 12.37b de secundário, pré-Lucas. Ele destaca
a palavra am en (que Lucas usa apenas seis vezes) assim como a redundância semítica de
pareHhon. Juntamente com outros estudiosos, ele considera esse versículo um detalhe
alegórico, o que pode ser verdade. Não obstante, não existe razão para que sejam questio­
nadas a historicidade e a autenticidade do que foi dito.
15. Jo 13.1-7; também Lc 22.27.

139
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Uma vez mais, os servos que haviam esperado seu senhor voltar são
elogiados. Os servos cumpriram o que deles era esperado: aguardar a volta
de seu senhor. Assim também, a todos os crentes, não apenas aos discípulos
de Jesus, é recomendado que permaneçam prontos, atentos e aguardando a
volta do seu Senhor. Se estiverem vestidos e prontos para o serviço, com suas
lâmpadas acesas e fulgurantes na noite escura, o Senhor, quando vier, não
negará sua recompensa.

140
19
O Ladrão

Mateus 24.42-44 Lucas 1239,40


•50 ,
42“Portanto, vigiai, porque “Sabei, porém , isto:
não sabeis em que dia vem o que, se o pai de família sou­
vosso Senhor. 4 Mas conside­ besse a que hora havia de
rai isto: Se o pai de família sou­ vir o ladrão, (vigiaria e) não
besse a que hora viria o ladrão, deixaria arrom bar a sua
vigiaria e não deixaria que fos­ casa. 40Ficai também vós
se arrombada a sua casa. ^ P o r ap e rce b id o s, p o rq u e , à
isso ficai também vós apercebi­ hora em que não cuidais, o
dos; porque, à hora em que não Filho do homem virá.”
cuidais, o Filho do homem
virá.”

N o Evangelho de Lucas, a parábola do ladrão vem em seguida à dos


servos vigilantes. Por ser tão breve, é considerada, antes, uma declaração em
forma de parábola que uma parábola propriamente dita. Enquanto a pará­
bola dos servos vigilantes mostra a promessa se transformando em recom­
pensa, a parábola do ladrão, que vem à noite, constitui uma advertência. A
primeira descreve um acontecimento jubiloso; a outra, um desastre iminen­
te.
O ensino dessa declaração em forma de parábola é muito simples.
Enquanto o dono da casa está dormindo, ladrões chegam à sua moradia.

141
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Cavam um buraco na parede de tijolos, arrombam a casa, e roubam todos


os bens do proprietário. Se o dono da casa soubesse a que horas viriam os
ladrões, vigiaria para impedir o roubo.
Esta declaração em forma de parábola se baseia em fatos da vida real,
pois assaltos acontecem freqüentemente, especialmente em tempos de re­
cessão econômica. A imagem do ladrão, à noite, se aplica ao dia da vinda do
Senhor, nas Epístolas e no Apocalipse. Paulo usa a imagem para o retorno
do Senhor:
“Vós mesmos estais inteirados com precisão do que o dia do
Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo:
Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição,
como vem a dor do parto à que está para dar à luz; e de nenhum
modo escaparão. Mas, vós, irmãos, não estais em trevas, para
que esse dia como ladrão vos apanhe de surpresa.” (1 Ts 5.2-4)
Pedro pinta um quadro semelhante: “Virá, entretanto, como ladrão, o
dia do Senhor, no qual os céus passarão com estrepitoso estrondo e os
elementos se desfarão abrasados: também a terra e as obras que nela existem
serão atingidas.” (2 Pe 3.10). No livro do Apocalipse, João registra a carta
endereçada à igreja em Sardes. O Senhor elevado e exaltado diz: “Lembra-
te, pois, de como tens recebido e ouvido, guarda-o, e arrepende-te. Porquan­
to, se não vigiares, virei como ladrão, e não conhecerás de modo algum em
que hora virei contra ti” (Ap 3.3). E, outra vez, diz: (“Eis que venho como
vem o ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia e guarda as suas vestes, para
não andar nu, e não se veja a sua vergonha.”) (Ap 16.15)
Jesus profetiza sua própria volta no contexto de seu sermão a respeito
dos últimos acontecimentos. Ele instrui seus seguidores a que estejam
atentos para o imprevisto de seu retorno. Ele compara o tempo de sua vinda
aos dias de Noé.
“Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio, co­
miam e bebiam, casavam e davam-se em casamento, até ao dia
em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, senão quando
veio o dilúvio e os levou a todos. Assim será também a vinda
do Filho do homem.” (Mt 24.38,39)
1. O Evangelho de Tom é registra a parábola do ladrão em duas de suas citações, mas não tem
aplicação cristológica: “Portanto eu vos digo: Se o dono da casa sabe quando vem o ladrão,
ele estará vigiando antes que venha (e) não deixará que arrombe a casa de seu reino para
levar os seus bens. Mas vós deveis estar alertas contra o mundo; cingi vossos lom bos com
grande poder, para que nenhum ladrão possa achar um m odo de chegar até vós” (Citação
21b). “Jesus disse: Bem-aventurado é o homem que sabe em que parte (da noite) virá o
ladrão, para que se levante e ajunte seu... e cinja seu lombo antes que venham” (citação 103).

142
O LADRÃO

Na parábola do ladrão, à noite, Jesus repete a mesma advertência: “Por


isso ficai também vós apercebidos, porque, à hora cm que não cuidais, o
Filho do homem virá.”2
Jesus está advertindo seus próprios discípulos a respeito de um perigo
iminente? Esperamos que os seguidores de Jesus aguardem o tempo de sua
volta como uma ocasião jubilosa. Aqueles que ouvem com atenção e obe­
diência as palavras de Jesus estarão preparados, quando ele vier. Para eles
seu retorno será um acontecimento feliz. Mas, para todos, mesmo para os
discípulos de Jesus, é colocada uma palavra de advertência contra a aposta­
sia. Afinal, entre os doze discípulos estavam Pedro, que negou seu Senhor,
e Judas, que o traiu.3
A parábola é dirigida àqueles que esperam o retorno glorioso de Jesus
e àqueles que estão ignorando as instruções de Jesus. Enquanto a imagem
da vinda do Filho do homem evoca alegre expectativa entre os fiéis, a imagem
de um ladrão à espreita cria ansiedade e tristeza naqueles que não estão
preparados.
O que a parábola ensina? Nos dias que precedem a vinda do Senhor,
muitas pessoas vivem ignorando totalmente o julgamento iminente. Sua
vinda acontecerá sem aviso. O inesperado do acontecimento para os que não
estão atentos pode ser comparado ao momento imprevisto quando um
ladrão chega para arrombar e roubar. Aqueles que se preparam e estão
prontos não serão surpreendidos quando o tempo do retorno de Jesus
chegar.

2. Alguns estudiosos afirmam que a expressão “Filho do homem” não pode ser original, mas
que deve ter sido introduzida pela igreja cristã primitiva. Jeremias, Parables, pp. 50,51;
Mánek, Frucht, p. 66; G. Schneider, Parusiegleichnisse im Lukas-Evangelium (Stuttgart:
1975), p. 22. Entretanto, “a predição da vinda do Filho do homem é uma parte consistente
do ensino de Jesus...” Marshall, Luke, p. 534. Veja-se R. Maddox, “The Function of the Son
o f Man”, NTS 15 (1968-9); 51.
3. Jeremias, Parables, p. 50, é de opinião que os discípulos não precisavam ser advertidos. A
parábola, então, se aplica à igreja primitiva, para advertir o povo quanto ao julgamento que
está para vir. Marshall, em Eschatology, p. 35, questiona seriamente esta opinião.

143
20
O Servo Fiel e Prudente
M ateus 24.45-51 Lucas 12.41-46

45“Quem é, pois, o servo fiel 41“Então Pedro pergun­


e prudente a quem o senhor tou: Senhor, proferes esta
confiou os seus conservos para parábola para nós ou tam­
dar-lhes sustento a seu tempo? bém para todos? 42Disse o
46Bem-aventurado aquele ser­ Senhor: Quem é, pois, o
vo a quem seu senhor, quando mordomo fiel e prudente, a
vier, ach ar fazendo assim. quem o senhor confiará os
47Em verdade vos digo que lhe seus conservos para dar-
confiará todos os seus bens. lhes o sustento a seu tem­
48Mas se aquele servo, sendo po? 43Bem-aventurado
mau, disser consigo mesmo: aquele servo a quem seu se­
M eu senhor dem ora-se, 49e nhor, quando vier, achar fa­
passar a espancar os seus com­ zendo assim. ^V erdadeira­
panheiros, e a comer e beber mente vos digo que lhe con­
com ébrios, 50virá o senhor da­ fiará todos os seus bens.
quele servo em dia em que não 45Mas se aquele servo dis­
o espera, e em hora que não ser consigo mesmo: Meu
sabe, 51e castigá-lo-á, lançan­ senhor tarda em vir, e pas­
do-lhe a sorte com os hipócri­ sar a espancar os criados e
tas; ali haverá choro e ranger as criadas, a comer, a beber
de dentes.” e a embriagar-se, 46virá o
senhor daquele servo em
dia que não o espera, e em

145
AS PARÁBOLAS DE JESUS

hora que não sabe, e casti-


gá-lo-á, lançando-lhe a sor­
te com os infiéis.”

A parábola do servo fiel está entre aquelas nas quais Jesus ensina a
necessidade da vigilância. Além de enfatizar a vigilância, Jesus, também,
reforça a característica da fidelidade. Em resumo, a parábola se refere a um
servo que recebe a responsabilidade de administrar a casa, na ausência de
seu senhor. Se cie provar ser fiel e prudente, o senhor o recompensará
generosamente ao regressar. Mas, se for preguiçoso, indigno e descuidado,
o senhor voltará quando não estiver sendo esperado e lhe infligirá severa
punição.

O Servo Fiel

Mateus e Lucas, ambos, mostram que Jesus se dirigia a seus discípulos


(Mt 24.1; Lc 12.22). Quando Jesus estava ensinando seus discípulos, foi
interrompido por Pedro que perguntou se a parábola se referia a eles ou a
todos.1 Isto é, o ensino de Jesus se aplicava especificamente a seus discípu­
los? Ou era para ser aplicado também aos outros? Foi Pedro, o porta-voz
dos doze, quem fez a pergunta. Ele estava sempre pronto a indagar (Mt
15.15). Perguntou Pedro: “Senhor, proferes esta parábola2 para nós ou
também para todos?” Jesus respondeu a Pedro contando uma outra pará­
bola: a história a respeito de um servo fiel.
O senhor de um determinado número de servos tinha que deixar sua
casa por algum tempo. Fez os planos necessários para sua viagem e chamou
um dos servos que, na sua opinião, seria capaz de administrar o dia-a-dia da
casa.3 Confiou-lhe a responsabilidade de cuidar dos outros conservos, de
alimentá-los no devido tempo, e de provar sua fidelidade e prudência,
durante a ausência de seu senhor. Se encontrar tudo em ordem quando

1. Jeremias, Parables, p. 99, considera Lc 12.41 com o uma “situação criada”, embora seu “uso
lingüístico mostre que se achava na fonte de Lucas”. N o entanto, por causa da referência
aos discípulos (Lc 12.22) como os que ouviam diretamente a Jesus, não é possível rejeitar o
caráter histórico da pergunta de Pedro (Lc 12.41).
2. A expressão “esta parábola” nâo deve ser tomada literalmente com o se referindo apenas à
parábola do ladrão. Tomada mais amplamente, ela inclui a parábola do porteiro. Esse uso
abrangente da palavra parábola é encontrado também em Lc 15.3 que inclui as histórias da
ovelha perdida, da moeda perdida e do filho pródigo.
3. O termo oikonom os pode significar: a) um escravo de confiança a quem se dá autoridade
na casa de seu senhor (Lc 12.42); b) um oficial público coletor de rendas (Rm 16.23); c) um
administrador (Lc 16.1), SB, 11:219.

146
O SERVO FIEL E PRUDENTE

voltar, o senhor tem a intenção de promover o servo passando-o a adminis­


trador de todos os seus bens.
O servo demonstra duas características indispensáveis: fidelidade e
prudência. Ele é digno de confiança porque quando diz sim, é sim, e quando
diz não, é não. Seus conservos sabem que ele não falta à sua palavra. Podem
confiar nele. Ele, também, é perspicaz, pois sabe antecipar os problemas, e
está sempre preparado para enfrentá-los e resolvê-los, efetivamente. Com
aparente facilidade, tem sempre o controle da situação.
Quando o senhor volta de sua viagem, inspeciona tudo e encontra tudo
em ordem. Fica contente com as referências elogiosas feitas a seu servo.
Como recompensa à sua fidelidade, o senhor promove o servo à posição de
administrador de todos os seus bens. Ele sabe, agora, que o servo passou no
teste, administrando sua casa com eficiência. Como prêmio, coloca-o na
segunda posição de comando.

O Servo Infiel

Quando um senhor coloca alguém como responsável por sua casa, ele
escolhe um servo em quem confia e de quem espera boa conduta. Quer
deixar sua casa em mãos seguras. Mas, nem sempre a natureza humana é
confiável, e o senhor pode cometer um grande erro quando faz sua escolha
por determinado servo, em quem pensa poder confiar. Em outras palavras,
o senhor nunca pode ter a certeza absoluta de que o servo corresponderá às
suas expectativas.
O servo pode aparentar confiabilidade, antes de ser escolhido, mas,
quando seu mestre parte, ele revela seu verdadeiro caráter. É ardiloso, cruel
e descontrolado. Com base em outras viagens feitas pelo seu senhor, o servo
calcula que ele vai demorar bastante. Na ausência do dono, o servo maltrata
os outros servos, seus companheiros. Ele se sente seguro ao fazê-lo, pensan­
do que o dia da volta de seu senhor está distante. Passa o tempo na
companhia de bêbados, com os quais se entrega a excessos de comida e
bebida.4
Seu senhor se apressa a voltar para casa, e aparece súbita e inespera­
damente. O que fará o senhor com o servo que foi irresponsável e infiel?
Ouve as histórias sobre seu comportamento, suas farras e sua indolência.
Nada lhe escapa. Ele toma conhecimento de tudo. O senhor agora é o juiz e
o executor da lei. Ele deve pronunciar o veredito e declarar culpado o
ofensor. Então, administrará a punição apropriada.
4. Na parábola do servo fiel e do infiel ecoa a história de Aicão. Veja-se R. H. Charles,
Apocrypha and Pseudepigrapha (Oxford: Clarendon Press, 1977), 2: 715.

147
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Jesus disse: “E castigá-lo-á, lançando-lhe a sorte com os hipócritas; ali


haverá choro e ranger de dentes” (Mt 24.51). Há uma versão em inglês que
diz: “Cortá-lo-á em pedaços.” Este texto é de difícil interpretação, pois se a
frase for tomada literalmente, como poderá ser lançado com os hipócritas?
É possível que o texto apresente uma expressão idiomática, que deva ser
entendida metaforicamente,5 como, por exemplo, a expressão “esfolar vivo”.
Os escritos de Cunrã lançam nova luz sobre o texto.6 A expressão “cortá-lo-á
em pedaços” é uma tradução mais literal de “cortá-lo fora”, tirá-lo do meio
de seu povo. Desse modo, está em harmonia com o ensinamento do Salmo
37, que afirma que o justo herdará a terra, mas o ímpio será exterminado.
O servo que falhou diante de seu senhor recebe o oposto da recompensa
recebida pelo servo responsável e fiel. Ele é separado, lançado fora e
extirpado de seu povo.

Interpretação

O relato da parábola é idêntico nos Evangelhos de Mateus e Lucas,


exceto na escolha das palavras da narrativa. Por exemplo, o servo fiel e
prudente no Evangelho de Mateus é um mordomo fiel e prudente no
Evangelho de Lucas; embora Lucas se refira a ele como “servo” no restante
da parábola. Mateus escreve que o servo mau passa a espancar os seus
companheiros, mas Lucas diz que ele passa a espancar os criados e as
criadas. Este servo terá seu lugar com os hipócritas, de acordo com Mateus,
e um lugar com os infiéis, segundo Lucas.8
Algumas outras pequenas diferenças podem, ainda, ser apontadas,
mas que importância têm? Naturalmente, o apóstolo Mateus, guiado pelo
Espírito Santo, se recordou de tudo que Jesus lhe havia dito (J o 14.26). Lucas
confiou nas informações que lhe foram dadas pelas testemunhas oculares e
pelos ministros da Palavra (Lc 1.2) ? Os dois escritores foram inspirados pelo

5. Bauer, et al, Lexicon, p. 200, admite o significado de “punir com a maior severidade”.
6. O. Betz, em “The Dichotomized Servant and the End o f Judas Iscariot”, RQ 5 (1964): 46, se
refere a 1QS2:16,17: “Deus ‘separará’ o hipócrita pela maldade, de m odo que será extirpado
do m eio de todos os filhos da Luz; ... ele terá a parte que lhe cabe no m eio daqueles
excomungados para sempre.” O verbo dichotom ein e a frase tithenai m eros tinos são hapax
legom ena, no N ovo Testamento, são, portanto, passíveis de várias interpretações. Consulte
Jeremias, Parables, p. 57 ns 30, 31.
7. Salmos 37.9a, 22b, 34b, 38b.
8. O uso de am en, característico de Jesus, em Mateus 24.47, é alethos, em Lc 12.44.
9. Os dois evangelistas podem ter tido acesso a uma fonte comum, quando escreveram seus
Evangelhos. É possível, também, que Lucas tenha consultado o Evangelho de Mateus,
quando escreveu o seu. W. C. Allen, The Gospel According to St. Matthew (ICC) (Edin-
burgh: T& T Clark, 1922), p. 262.

148
O SERVO FIEL E PRUDENTE

Espírito Santo, quando escreveram seus Evangelhos, embora cada um reflita


seu próprio estilo e propósito. Como judeu, Mateus procurou trazer o
evangelho aos judeus seus contemporâneos. Lucas, helenista, escreveu seu
Evangelho para aqueles que, naqueles dias, falavam grego.
Ao usar o termo mordomo, no começo de sua parábola, Lucas quer
chamar a atenção para o chefe dos servos que é o responsável pela casa de
seu senhor,10 com seus criados e criadas. Ao usar a palavra servo, em todo
o restante da parábola, Lucas mostra, claramente, que vê os responsáveis
pela administração de modo muito semelhante ao de Mateus. O uso de
palavras diferentes, portanto, pode ser atribuído ao estilo característico de
cada escritor. Isso é especialmente verdade com respeito ao uso da palavra
hipócritas que ocorre mais freqüentemente no Evangelho de Mateus.11
Lucas, por outro lado, usa o termo infiéis, que no contexto não difere em
sentido da palavra usada por Mateus, pois um hipócrita é, de fato, um infiel.12
A parábola pretende chamar a atenção para a responsabilidade que
recebem os seguidores de Jesus. Alguns desses seguidores recebem privilé­
gios maiores que outros, mas são investidos de responsabilidades, também
maiores. Porque cada um tem o seu próprio dever no serviço do Senhor;
ninguém está excluído ou isento. A parábola, na seqüência de Mateus, serve
de introdução à parábola das dez virgens e à dos talentos. Para Jesus todos
são responsáveis.
Jesus é representado pelo senhor da casa. Ele parte, com a promessa
de seu retorno. Na ausência de Jesus, seus seguidores recebem privilégios e
responsabilidades. Se o crente for fiel e prudente no desempenho de seus
deveres, Jesus o recompensará abundantemente, em sua volta. Mas, se for
infiel e agir irresponsavelmente, a volta de Jesus será para ele um aconteci­
mento inesperado, do qual resultará sua completa separação do povo de
Deus e conseqüente punição.
Enquanto Mateus conclui a parábola com a expressão conhecida: “ali
haverá choro e ranger de dentes” (Mt 24.51),14 Lucas termina a seqüência

10. Michel, T D N T, V:150.


11. A palavra é usada treze vezes no Evangelho de M ateus (6:2,5,16; 7.5; 15.7; 22.18;
23.13,15,23,25,27,29; e 24.51), uma vez em Marcos (7.6), e três vezes no Evangelho de Lucas
(6.42; 12.56; e 13.15).
12. Plummer, Luke, p. 333.
13. Michaelis, Gleichnisse, p. 74 e Jeremias, Parables, p. 56, por causa da pergunta de Pedro
(Lc 12.41), aplicam a parábola de Lucas aos apóstolos. Mas, esta interpretação significaria
que a parábola tem pouco ou nenhum significado em relação aos cristãos.
14. A expressão é registrada seis vezes por Mateus e uma vez por Lucas (Mt 8.12; 13.42,50;
22.13; 24.51; 25.30; e Lc 13.28).

149
AS PARÁBOLAS DE JESUS

das três parábolas sobre a vigilância (o porteiro, o ladrão e o servo fiel e


prudente) com palavras conclusivas de Jesus, registradas apenas por Lucas:
“Aquele servo, porem, que conheceu a vontade de seu senhor
e não se aprontou, nem fez segundo a sua vontade, será punido
com muitos açoites. Aquele, porém, que não soube a vontade
do seu senhor e fez coisas dignas de reprovação, levará poucos
açoites. Mas àquele a quem muito foi dado, muito será exigido;
e àquele a quem muito se confia, muito mais lhe pedirão” (Lc
12.47,48).

150
21
As Dez Virgens

Mateus 25.1-13
^ ‘Então o reino dos céus será
semelhante a dez virgens que, to­
mando as suas lâmpadas, saíram a
encontrar-se com o noivo. 2Cinco
dentre elas eram néscias, e cinco
prudentes. 3As néscias, ao toma­
rem as suas lâmpadas, não levaram
azeite consigo; no entanto, as pru­
dentes, além das lâmpadas, leva­
ram a z e ite nas v a silh a s. 5E,
tardando o noivo, foram todas to­
madas de sono, e adormeceram.
Mas, à meia-noite, ouviu-se um
grito: Eis o noivo! saí ao seu encon­
tro. 7Então se levantaram todos
aquelas virgens e prepararam as
suas lâmpadas. as néscias disse­
ram às prudentes: Dai-nos do vos­
so a z e ite , p o rq u e as nossas
lâm p adas estão-se apagando.
Mas as prudentes responderam:
Não! para que não nos falte a nós
e as vós outras; ide antes aos que o
vendem, e comprai-o. 10E, saindo
elas para comprar, chegou o noivo,
e as que estavam apercebidas en-

151
AS PARABOLAS DE JESUS

traram com ele para as bodas; e


fechou-se a porta. 11Mais tarde,
chegaram as virgens néscias, cla­
mando: Senhor, senhor, abre-nos a
1 “7
porta! Mas ele respondeu: Em
verdade vos digo que não vos co­
nheço. 13Vigiai, pois, porque não
sabeis o dia nem a hora.”

A p e n a s Mateus registrou a parábola das dez virgens. Ele, habilmente,


colocou a parábola após o sermão de Jesus sobre o finaldos tempos.N
última parte desse sermão, Jesus fala da divisão entre os que são eleitos,
atentos e fiéis, e aqueles que não o são. “Então dois estarão no campo, um
será tomado, e deixado o outro; duas estarão trabalhando num moinho, uma
será tomada, e deixada a outra” (Mt 24.40,41). O servo fiel e prudente será
responsável por todos os bens de seu senhor, mas o servo infiel terá seu lugar
com os hipócritas (Mt 24.45-51). Na parábola das dez virgens, cinco entram
na casa do noivo; as outras cinco encontram fechada a porta. Este tema da
separação entre os bons e os maus continua na parábola dos talentos (Mt
25.14-30), e na descrição de um pastor separando as ovelhas dos cabritos
(Mt 25.31-33).

As Bodas

Jesus conta a história de dez damas de honra que, de acordo com o


costume nupcial do lugar, naquela época, se preparavam para aguardar a
chegada do noivo. E uma história interessante que tem como objetivo ensinar
a lição da necessidade de se estar preparado.
Embora as informações a respeito sejam variadas e imprecisas, pode­
mos supor que nos dias de Jesus o casamento acontecia em idade precoce.
Porque a maturidade sexual se dá na adolescência, em Israel os casamentos
eram contratados nos seus primeiros anos.1 Era costume a noiva se cercar
de dez damas de honra,2 escolhidas entre suas melhores amigas e da mesma
idade que ela.

1. P. Trutza, “Marriage”, ZPEB, pp. 4, 96, indica que “os rabinos fixavam doze anos, com o a
idade mínima para as meninas se casarem e treze para os meninos.”
2. “A s damas de honra cercavam a noiva, toda de branco, e eram, usualmente, dez.” Daniel-
Rops, Daily Life in Palestina o f the Time o f Christ (London: 1962), p. 124. D o m esm o m odo
J. A. Findlay, Jesus and his parables (London: Epsworth Press, 1951), pp. 111-112, se refere
às dez damas vistas por ele numa cidade da Galiléia, a caminho da casa da noiva, para
fazer-lhe companhia enquanto esperava a chegada do noivo.

152
AS DEZ VIRGENS

A sentença introdutória: “Então o reino dos céus será semelhante a


dez virgens que, tomando as suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o
noivo”, descreve a cena.3 Isto é, dez moças adolescentes tomaram suas
lâmpadas e foram para a casa da noiva com o propósito de prepará-la para
o encontro com o noivo. A sentença introdutória, naturalmente, não se refere
ao encontro acontecido entre o noivo e as dez virgens, pois este acontece
mais tarde, no desenrolar da história (Mt 25.10).
Não devemos imaginar essas jovens sentadas em algum lugar, na
estrada, no meio da noite, vencidas pelo sono enquanto o óleo de suas
lâmpadas se acaba e estas se apagam. E melhor vê-las ocupadas, na casa da
noiva, enfeitando-a e cuidando dos últimos preparativos. Não podemos
afirmar com certeza que o texto também faz alusão à noiva, como algumas
versões bíblicas indicam em notas de rodapé.4 É fato, no entanto, que o
objetivo da parábola não se refere à noiva. Ela focaliza as damas de honra,
e, especialmente, as cinco néscias.5 As dez moças deviam acompanhar a
noiva à casa do noivo, ou de seus pais, onde, de acordo com o costume,
acontecia o casamento.6
Cinco das moças eram displicentes, cinco eram prudentes (ou previ­
dentes). As displicentes tinham apanhado suas lâmpadas, mas deixaram de
levar o óleo. Que tipo de lâmpadas eram essas que precisavam de freqüente
reabastecimento para continuarem brilhando? As pequenas lamparinas
usadas em casa não seriam apropriadas para uma procissão ao ar livre,
porque o vento apagaria sua chama. As lâmpadas do cortejo das bodas eram
tochas. Consistiam de uma longa vara com trapos encharcados de óleo no
topo. Quando acesos, esses archotes queimavam com grande brilho, ilumi­
nando o cortejo festivo, em sua caminhada até à casa do noivo. Entretanto,
por causa da brilhante chama ardente, a vasilha de cobre, que continha o
óleo, logo se esvaziava. De quinze em quinze minutos os trapos deviam ser
novamente encharcados, para conservar a tocha ardendo. Aquelas que
levavam as tochas deviam, pois, ter à mão um suprimento de óleo suficiente

3. Jeremias, “Lampades:, ZNW 55 (1964): 199.


4. A evidência textual para a inclusão das palavras, “e a noiva”, no final do primeiro versículo,
vem de uma combinação de testemunhos ocidentais e cesarianos. Metzger, Textual Com-
mentary, p. 62.
5. O esterley, Parables, p. 136.
6. Jeremias, TDN T, IV: 1100.
7. Jeremias, “Lampades”, p. 198. Também SB, I, 969 se refere a esta prática em Israel, quando
a noiva é trazida da casa de seu pai à de seu marido, durante a noite. Ela é precedida por um
cortejo que carrega dez tochas feitas de varas às quais são atados recipientes de bronze, onde
trapos ensopados de óleo são acesos e usados para iluminar o caminho.

153
AS PARÁBOLAS DE JESUS

para mantê-las acesas, especialmente se fosse esperado que as damas de


honra apresentassem sua dança, à luz das tochas, na chegada.
As cinco moças displicentes tinham chegado à casa da noiva comple­
tamente despreparadas; foram negligentes e não levaram consigo o óleo
extra. Porque não precisaram de suas tochas até ao começo do cortejo, elas
não tiveram, infelizmente, consciência de seu descuido.
O noivo estava atrasado para seu encontro com a noiva. A demora
pode ter sido causada pelos acertos relativos à questão do dote. Este antigo
costume, mencionado freqüentemente nas Escrituras,8 consiste na dádiva
de bens da parte da família do noivo para a família da noiva. A conversa a
respeito do dote podia tomar tempo considerável e levar a discussões
prolongadas.9 Quando tudo estava devidamente combinado, e as partes de
pleno acordo, a festa de casamento tinha início. O noivo não podia ir ao
encontro da noiva antes que o dote fosse pago e o contrato de casamento
assinado.10
Enquanto esperavam, as damas de honra ficaram sonolentas e acaba­
ram adormecendo. Tanto as prudentes quanto as néscias dormiram. O
tempo passou rapidamente. Mas, de repente, à meia- noite, ouviu-se um
grito: “Eis o noivo! saí ao seu encontro.” O noivo e seus acompanhantes se
aproximavam alegremente da casa da noiva. Dentro, as damas de honra
acordaram rapidamente, levantaram-se, se retocaram e puseram em ordem
as suas lâmpadas.11 Todas as dez tinham suas tochas ardendo brilhantemen­
te, mas cinco delas perceberam que sem óleo extra suas tochas estariam
completamente apagadas antes que o cortejo começasse. Tentaram contar
às outras o seu problema. Disseram: “Dai-nos do vosso azeite, porque as
nossas lâmpadas estão-se apagando.” Mas as cinco moças, que tinham
levado consigo as vasilhas de óleo, sabiam que a cada quinze minutos teriam
que reabastecer suas próprias tochas, e mantê-las acesas durante todo o
cortejo, bem como durante a dança à luz das tochas, ao chegarem. O bom
senso lhes dizia que o óleo que traziam consigo seria suficiente para cinco
tochas, mas não para dez. Delicadamente se recusaram a repartir o óleo.
Aconselharam as moças a irem aos que o vendiam para comprá-lo.
8. Gn 34.12; Êx 22.16; 1 Sm 18.25.
9. Daniel-Rops, Daily Life, p. 122.
10. Para um estudo mais pormenorizado, consulte-se H. Granqvist, Marriage Conditions in a
Palestinian Village (Helsingfors: 1931), pp. 132-55. “Se o preço pela noiva já tivesse sido
pago, as bodas podiam se realizar a qualquer tempo; podia acontecer que o fechamento do
contrato fosse adiado até ao dia do casamento, mas, em qualquer caso, o noivo não podia
levar a noiva antes que tudo estivesse estabelecido”, p. 155.
11. N o Novo Testamento, o sentido de “pôr em ordem, preparar”, dado a kosm eo, ocorre
som ente em Mt 25.7. H. Sasse, TDN T, III: 867.

154
AS DEZ VIRGENS

As cinco moças que tinham passado o tempo esperando e dormindo


tinham, agora, que correr até a um vendedor, acordá-lo e comprar o óleo
necessário. Nesse intervalo, o noivo chegou e o cortejo começou. Todos
foram à casa do noivo para participar da festa. A entrada do salão das bodas
foi fechada, na casa do noivo, e ninguém mais, que não tivesse feito parte do
cortejo, tinha permissão para entrar. Este era um procedimento costumeiro
entre os ricos daqueles dias.12
A parábola termina com a cena das cinco moças que encontraram a
porta fechada, pedindo: “Senhor, senhor, abre-nos a porta.” Seu insistente
chamado trouxe à porta o noivo, que disse às moças que não tinha nada a
ver com elas.13 Elas estavam muito atrasadas.

O Significado

A conclusão que Jesus dá à parábola é simples e direta: “Vigiai, pois,


porque não sabeis o dia nem a hora.” Ele, evidentemente, se refere a si
mesmo, e nessa parábola ensina a respeito de seu próprio retorno. Ele é o
noivo, é aquele que vem. Repetidamente, durante seu ministério, ele fez
referências ao noivo. À questão sobre por que seus discípulos não jejuavam,
Jesus respondeu: “Podem acaso estar tristes os convidados para o casamen­
to, enquanto o noivo está com eles? Dias virão, contudo, em que lhes será
tirado o noivo, e nesses dias hão de jejuar” (Mt 9.15). Além disso, o final da
parábola das dez virgens é um claro eco do ensino de Jesus, registrado em
Mt 7.21-23:14
“Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos
céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos
céus. Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: ”Senhor, Senhor!
porventura não temos nós profetizado em teu nome, e em teu
nome não expelimos demônios, e em teu nome não fizemos
muitos milagres? Então lhes ditei explicitamente-. Nunca vos
conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.”
O ensinamento óbvio é que Jesus exclui do reino dos céus todo aquele
que deixa de fazer a vontade de Deus, o Pai. No dia da volta de Jesus, eles
podem chamá-lo pelo nome e mostrar suas obras religiosas, mas porque não
fizeram a vontade do Pai não terão parte no reino.

12. Oesterley, Parables, p. 135.


13. Na literatura rab/nica a expressão: “não vos conheço” pode ser usada por um m estre para
suspender um aluno durante uma semana, SB, 1:469; IV:I, 293.
14. Marshall, em Eschatology and the Parables, p. 39, destaca que, com respeito a Mt 7.21-23
e Mt 25.11,12, “é difícil não ouvir neles o tom do Filho do H om em .”

155
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Cinco das virgens da parábola são chamadas deprudentes. São aquelas


que estavam preparadas. São sábias porque estavam completamente prepa­
radas para a situação e seguiram as instruções usuais cuidadosamente. As
Escrituras ensinam que uma pessoa prudente tem verdadeiro discernimento
da vontade de Deus.
As cinco moças chamadas de néscias ( = displicentes) e que são o
centro da parábola não parecem culpadas de nenhum mal. Tinham a melhor
das intenções, e desejavam à noiva c ao noivo muitos anos de felicidades.
Mas não fizeram a vontade dos noivos por causa de sua negligência ao
esquecer o óleo necessário. “Acaso se esquece a virgem dos seus adornos,
ou a noiva do seu cinto?” (Jr 2.32). A resposta é, naturalmente, que não. No
entanto, essas cinco moças se esqueceram de se preparar adequadamente
para a tarefa que lhes fora determinada. Chegaram despreparadas e por isso
não foram recebidas no salão das bodas.16
Nada na parábola indica que se esperava que as dez moças permane­
cessem acordadas. As prudentes, assim como as tolas, caíram no sono
enquanto esperavam. A vigilância não é, portanto, a característica marcante
ensinada nesta parábola. Antes, o que é predominante é a disposição de estar
preparado.
Como o noivo, na cultura e nos dias de Jesus, podia vir a qualquer hora
da noite, assim Jesus virá, subitamente, no dia de sua volta.

Interpretações

A parábola das dez virgens tem sido interpretada alegoricamente, de


inúmeras maneiras, desde a igreja primitiva até aos nossos dias. Em tais
interpretações, Jesus é o noivo e as dez virgens, a igreja. A igreja se constitui
de bons e maus, os eleitos e os rejeitados, os sábios e os displicentes. As
lâmpadas que eles carregam são as boas obras, porque os cristãos são
exortados a deixarem suas obras brilhar diante dos homens. O óleo é o
Espírito Santo, pois quanto Samuel ungiu Davi com óleo, o Espírito Santo
desceu sobre ele. Os mercadores de óleo são Moisés e os profetas. E o
alarme: “Eis o noivo!” é o chamado da trombeta de Deus, quando da volta
de Cristo.
15. G. Bertram, TD N T, IX:234.
16. O rabino Johanan ben Zakkai, contemporâneo dos apóstolos, contou a parábola de um rei
que convidou seus servos para um banquete, sem marcar a data. Os servos prudentes se
vestiram para a ocasião e ficaram à espera à porta do palácio. Os servos displicentes
continuaram trabalhando e tiveram que ir ao banquete com as roupas sujas. O rei se alegrou
com os prudentes, mas se zangou com os servos descuidados. Shabbath 153a, M oed I, The
Babylonian Talmud, (London: Soncino Press, 1938), p. 781.

156
AS DEZ VIRGENS

Este tipo de interpretação leva à confusão e, freqüentemente, termina


em absurdos. Alguns intérpretes entendem que o óleo significa alegria ou
amor, enquanto outros o vêem como boas obras ou como a ajuda prestada
aos necessitados. Outros, ainda, consideram o óleo como sendo a palavra de
ensino.17 Além disso, a falta de caridade na atitude das virgens prudentes,
em relação às cinco virgens em apuros, poderia ser questionada. A resposta
negativa — “Não vos conheço” — exigiria, também, uma avaliação crítica.
Interpretações alegóricas e o questionamento detalhado de partes da pará­
bola, no entanto, vão contra o espírito do ensino de Jesus.18 Na parábola das
dez virgens, o intérprete não deve perder de vista a floresta por causa das
proverbiais árvores. Deve buscar o sentido principal da parábola.
Quando o profeta Natã procurou o rei Davi e lhe contou a história de
um homem rico que tomou a cordeirinha que pertencia a um homem pobre,
Davi reagiu imediatamente e quis punir a principal figura da história — o
rico. Então, Natã dirigiu-se a Davi, e disse: “Tu és o homem” (2 Sm 12.1-10).
Natã transmitiu a mensagem principal da parábola com grande eficiência,
pois provocou uma resposta imediata de Davi. Se, por outro lado, a parábola
for interpretada alegoricamente, perde seu impacto. Então o homem rico é
Davi e o pobre é Urias; a cordeirinha se transforma em Bate-Seba, mas o
viajante em visita, de certo modo, não cabe na alegoria. Resumindo, inter­
pretar alegoricamente os detalhes de uma parábola desvia a história de sua
direção e, muitas vezes, resulta em disparates.
A mensagem central da parábola é dirigida aos seguidores de Jesus.
Os que são prudentes e estão constantemente buscando cumprir a vontade
de Deus são os que fervorosamente oram: “Maranata”, “Vem, Senhor
Jesus”. Mas os displicentes parecem não prestar atenção à volta iminente do
Senhor. A parábola é dirigida a eles para suscitar de suas bocas as palavras:
Quão tolo se pode ser!
A parábola das dez virgens deve ser vista no amplo contexto dos
ensinamentos de Jesus a respeito de sua volta. A conclusão: “Vigiai, pois,
porque não sabeis o dia nem a hora” (Mt 25.13) é uma repetição dos
versículos precedentes: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe”
(Mt 24.36), e, “Portanto, vigiai, porque não sabeis em que dia vem o vosso
Senhor” (Mt 24.42). É Jesus quem profere seu familiar: “Em verdade vos
digo” (Mt 25.12), indicando assim que fala a respeito de sua própria volta.

17. Tom ás de Aquino reuniu numerosos exemplos provindos de obras dos pais da igreja.
Commentary on the Four G ospels, I, ST. Matthew, (Oxford: p. 1842), pp. 844-50.
18. Jeremias, em Parables, p. 51, escreve que “Mateus viu na parábola uma alegoria à Parousia
de Cristo.” Entretanto, com o Michaelis, em Gleichnisse, p. 94, observa corretamente: a
parábola tem sido sempre uma parábola sobre a volta de Cristo. N ão há razão para
considerá-la uma alegoria.

157
AS PARÁBOLAS DE JESUS

São palavras de Jesus, não de um noivo adolescente. Isto é, por meio da


parábola, Jesus ensina claramente a seus seguidores que devem estar prepa­
rados para o seu retomo. Os que não estiverem preparados serão excluídos,
para sempre, do reino, quando Jesus voltar. Esses são os que ouvirão Jesus
dizer: “Em verdade vos digo que não vos conheço.” São os insensatos que
não têm lugar, em seu estilo de vida,19 para os pensamentos a respeito da
volta de Cristo. Para eles, o dia do Senhor virá inesperadamente, e estarão
completamente despreparados.20 Então será tarde demais para qualquer
mudança.
No contexto em que Jesus contou esta parábola, o tema da volta (vinda)
do senhor (noivo) predomina. O senhor do servo, a quem foi dada autorida­
de, volta no tempo apropriado; o noivo vem à meia-noite; e na parábola dos
talentos, o senhor volta depois de longo tempo (Mt 25.19). Dentro desta
composição, a parábola das dez virgens adquire sua verdadeira dimensão.
Na parábola do servo investido de autoridade, ele é caracterizado
como fiel e prudente; na parábola seguinte, cinco virgens são descritas como
prudentes; e na parábola dos talentos, dois dos servos são chamados de bons
e fiéis. Sem dúvida, pois, a primeira parábola ensina fidelidade e sabedoria;
a segunda sabedoria; e a terceira fidelidade?1

19. Schippers, Gelijkenissen, p. 114.


20. R. A. Batey, N ew T estam ent Nuptial Imagery, (Leiden: Brill, 1971), p. 47.
21. Lenski, St. Matthcw’s Gospel, p. 961.
22
Os Talentos
Mateus 25.14-30
14“Pois será como um homem
que, ausentando-se do país, cha­
mou os seus servos e lhes confiou
os seus bens. 15A um deu cinco
talentos, a outro dois e a outro um,
a cada um segundo a sua própria
capacidade; e então partiu. O
que recebera cinco talentos saiu
im ediatam ente a negociar com
17
eles e ganhou outros cinco. Do
mesmo modo o que 1 recebera
io dois,7
ganhou outros dois. Mas o que
recebera um, saindo, abriu uma
cova e escondeu o dinheiro do seu
senhor. 19Depois de muito tempo,
voltou o senhor daqueles servos e
ajustou contas com eles. 20Então,
aproximando-se o que recebera
cinco talentos, entregou outros
cinco, dizendo: Senhor, confiaste-
me cinco talentos; eis aqui outros
♦ y1
cinco talentos que ganhei. Disse-
lhe o senhor: Muito bem, servo
bom e fiel; foste fiel no pouco, so-
159
AS PARÁBOLAS DE JESUS

bre o muito te colocarei: entra no


gozo do teu senhor. E, aproxi­
mando-se também o que recebera
dois talentos, disse: Senhor, dois
talentos me confiaste; aqui tens
outros dois que ganhei. 3Disse-
lhe o senhor: Muito bem, servo
bom e fiel; foste fiel no pouco, so­
bre o muito te colocarei: entra no
gozo do teu senhor. 24Chegando,
por fim, o que recebera um talento,
disse: Senhor, sabendo que és ho­
mem severo, que ceifas onde não
semeaste, e ajuntas onde não espa-
lhaste, ^receoso, escondi na terra
o teu talento: aqui tens o que é teu.
26Respondeu-lhe, porém, o se­
nhor: Servo mau e negligente, sa­
bias que ceifo onde não semeei e
77
ajunto onde não espalhei? Cum­
pria, portanto, que entregasse o
meu dinheiro aos banqueiros, e eu,
ao voltar, receberia com juros o
que é meu. 28Tirai-lhe, pois, o ta­
lento, e dai-o ao que tem dez.
29 i
Porque a todo o que tem se lhe
dará, e terá em abundância; mas ao
que não tem, até o que tem lhe será
tirado. 30E o servo inútil, lançai-o
para fora, nas trevas. Ali haverá
choro e ranger de dentes.”

A parábola dos talentos ensina que os servos do Senhor devem ser


fiéis, administrando pronta e eficientemente o que lhes foi confiado, até ao
dia do ajuste de contas. Como se espera que as noivas aguardem a chegada
do noivo, assim também é esperado que os servos aguardem a volta de seu
senhor. Embora a parábola das virgens não mencione nada a respeito de
algum trabalho feito durante sua vigília noturna, a parábola dos talentos
ensina que os servos devem se ocupar durante a ausência de seu senhor.1 As
duas parábolas mostram que tanto as mulheres como os homens devem estar
alerta enquanto esperam a volta do Senhor.
1. Plummer, St. Matthew, p. 347.

160
OSTALENTOS

De acordo com Mateus, Jesus dirigiu-se aos seus discípulos, ao falar


sobre o final dos tempos (Capítulo 24), e prosseguiu com algumas parábolas
relacionadas com a sua volta. Tudo isso aconteceu dois ou três dias antes da
celebração da Páscoa (Mt 26.2). Por sua vez, Lucas registra no capítulo
19.12-27, que Jesus ensinou a parábola das dez minas depois de ter deixado
Jericó, e ao se aproximar de Jerusalém, pouco antes ou no próprio Domingo
de Ramos. Essa parábola se assemelha à dos talentos, embora as duas não
sejam idênticas. Mas com base na estrutura e no assentamento histórico
dados a elas pelos evangelistas, além da própria finalidade das parábolas,
cremos que Jesus as ensinou em duas diferentes ocasiões.3
A parábola dos talentos é a mais longa registrada no Evangelho de
Mateus. Relata de maneira pormenorizada a conversa havida entre o senhor
e seus servos. A conclusão, um tanto longa, liga-a às outras parábolas.

O Dinheiro Confiado

A palavra talento, como a usamos hoje, se refere a um dom natural.


Assim, se uma pessoa possui talento artístico e é criativa, geralmente é muito
admirada. Mas, no Novo Testamento, talento se refere a uma moeda de uso
corrente na época, e representa determinado valor em dinheiro. Nesta
parábola devemos pensar em termos de um salário anual recebido por um
trabalhador. As quantias que o senhor confiou aos servos eram grandes, mas
não exageradamente vultosas.
Uma pessoa de posse reuniu seus servos e comunicou-lhes que se
ausentaria do país por um longo período de tempo. Ele tratou com seus
servos, não em base comercial, mas à maneira oriental, como sócios em uma

2. Muitos comentaristas pensam que Jesus, ao ensinar, usou mais que uma vez a idéia básica,
expressa nas duas parábolas, Morris, Luke, p. 273. Veja-se, também, Geldenhuys, Luke, pp.
476-77; Plumer, SL Luke, p. 437; Th. Zahn, D as Evangelium des Lucas (Leipszig: A.
Deichert, 1913), p. 628, na 23; Lenski, Matthew’s Gospel, p. 971. Outros, entre eles, Manson,
Sayings, p. 313, vêem duas versões de uma parábola original. Jeremias, Parables, p. 58,
afirma que a parábola dos talentos aparece em três versões: Mt 25.14-30; Lc 19.12-27; e no
trecho 18 do Evangelho dos Nazarenos. Na verdade, entretanto, é questionável afirmar que
três versões derivam de uma parábola original especialm ente quando o trecho do Evangelho
Nazareno parece se basear no relato de Mateus. D e fato, P. Vielhauer conclui “que o
conteúdo (do Evangelho dos Nazarenos) tinha semelhança grosseira com o de Mateus, e
conseqüentem ente era (o Evangelho dos Nazarenos) apenas uma forma secundária de
M ateus”. New Testam ent Apocrypha, ed. E. H ennecke e W. Schneemelcher (Philadelphia:
W estminster Press, 1963), 1:140.
3. J. Ellul, em “du texte au sermon (18). Les talents. M atthieu 25/13-30", Ktudes Théologiques
et R eligieuses 48 (1973): 125-38, questiona se é possível descobrir a forma mais antiga da
parábola. A mensagem da parábola é por demais complexa.

161
AS PARÁBOLAS DE JESUS

empreitada.4 Sua reserva de caixa importava em oito talentos, que ele


confiou a seus três servos. O senhor conhecia seus servos muito bem. Ele
tinha aprendido a reconhecer a capacidade deles e sabia que podia confiar-
lhes sua riqueza. Esperava que empregassem bem o dinheiro, de modo que,
quando voltasse, pudesse recompensá-los por incrementarem seus lucros.
Assim, deu ao primeiro servo cinco talentos, ao segundo dois, e ao terceiro
apenas um talento.
Com certeza, contratos foram feitos acertando as condições combina­
das entre as partes. O capital, naturalmente, pertencia ao senhor.5 Em troca,
o senhor poderia recompensar os servos adequadamente, e eles poderiam
esperar novas participações na sociedade.
O primeiro servo investiu bem os cinco talentos, e logo havia dobrado
a quantia. Assim fez, também, o servo que recebera dois talentos. Aquele a
quem fora dado um talento, no entanto, teve medo de investir. Talvez se
sentisse diminuído pelo fato de ter sido confiada aos outros servos uma
quantia maior de dinheiro. Sabia que seu senhor era um homem rigoroso, e
que exigiria o lucro. Mas o lucro conseguido com um talento seria pequeno
em comparação com o obtido com os cinco talentos, ou mesmo com os dois
talentos do outro servo. Então, não fez nada com o dinheiro, apenas o
enterrou.6 Assim ficaria em segurança. Por ocasião da volta de seu senhor,
poderia devolver-lhe a soma original de um talento.

Dois Servos

Depois de um longo tempo, o senhor voltou e chamou seus servos para


o acerto de contas.7 O dia do ajuste chegara. Os livros foram abertos e cada
servo prestou contas do dinheiro que lhe havia sido confiado.
O primeiro servo apresentou não apenas os cinco talentos recebidos,
mas, também, os outros cinco que havia conseguido. Devolveu a seu senhor
o capital e o lucro, totalizando dez talentos. Ele entregou a seu amo uma
grande quantia de dinheiro, que provava, sem dúvida, que tinha sido digno
4. J. D. M. Derrett, “The Parable o f the Talents and Two Logia”, ZNW 56 (1965): 184-95,
publicado em Law in the New Testam ent, pp. 17-31. Veja-se especialmente a p. 18.
5. SB, 1:970. D os ensinos dos rabinos fica evidente que tanto o capital como o lucro pertenciam
ao senhor dos servos. Entretanto, se o servo fosse hebreu, podia acumular o lucro para si
mesmo.
6. D e acordo com os rabinos, “o dinheiro só pode ser guardado (colocando-o) na terra”, Baba
M ezia 42a, Nezikin I, The Babylonian Talmud, 250-51.
7. M ateus 18.23.

162
OSTALENTOS

da confiança que nele fora depositada. Sem chamar atenção para si mesmo,
com simplicidade, fez seu senhor notar os cinco talentos adicionais.
A resposta do senhor foi equivalente à fidelidade do servo. Foi gene­
roso ao exaltá-lo e recompensá-lo. Primeiro, exclamou: “Muito bem”, elo­
giando o excelente desempenho do servo. A seguir, chamou-o de servo “bom
e fiel”. E, em terceiro, o colocou como responsável por muitas coisas. Ainda,
em quarto lugar, convidou-o a se assentar à sua mesa e a celebrar com ele o
resultado obtido.9 Sentar-se à mesa com o senhor implica, obviamente, em
igualdade.
O segundo servo apresentou-se diante do seu senhor com os dois
talentos, bem como com os dois a mais que ganhara no investimento que
fizera com o dinheiro. Também este servo não procurou chamar a atenção
para si mesmo, mas para os talentos que conseguira. O senhor não foi menos
generoso com o segundo servo do que fora com o primeiro. Da mesma
maneira, as recompensas foram equivalentes à fidelidade demonstrada. O
senhor provou ser muito generoso.

Um Servo

Quando o terceiro servo se apresentou para prestar contas, a cena


mudou. Em vez de devolver o dinheiro que lhe fora confiado, como tinham
feito os dois primeiros, o servo começou a fazer um pequeno discurso. Não
louvou o senhor pela generosidade demonstrada. Antes, descreveu seu
senhor como um homem rigoroso, que ceifava onde não havia semeado, e
que recolhia onde não havia espalhado a semente. Porque teve medo de
arriscar, tinha cavado um buraco na terra e enterrado ali o dinheiro. Parecia
dizer a seu senhor: “Porque o senhor teve tão pouca confiança em mim,
entregando-me apenas um talento? O que eu poderia realmente fazer com
ele, levando-se em conta que, se tivesse algum lucro, eu pouco veria dele?
Por desforra decidi nada fazer com o dinheiro.”
Seu discurso foi caracterizado pela contradição. Ele falhou não enten­
dendo a bondade do senhor, mas vendo-o segundo sua própria natureza
invejosa e egoísta. Ele se sentiu diminuído, embora afirmasse que temera
fazer qualquer investimento com o dinheiro. Ele não usou o talento de modo
8. À luz de Lv 26.1-13 e D t 28.1-14, os judeus sabiam que D eus concede recompensa à obediência
fiel. Por causa dessas bênçãos, o judeu obediente estaria, econômica e politicam ente, sempre
em posição elevada.
9. A expressão “entra no gozo” do senhor é equivalente a “entra no reino” ou “entra na vida”.
J. Schneider, TDNT, 11:677. A felicidade ou a alegria fazem pensar em festa, Jeremias,
Parables, p. 60, ne 42; e pode significar um banquete, Smith, Parables, p. 166; G. Dalman,
The Words o f Jesus (Edinburgh: T. & T. Clark, 1902), p. 117.
10. Derrett, Law in the New Testament, p. 26.

163
AS PARÁBOLAS DE JESUS

lucrativo, mas parecia esperar palavras elogiosas por apenas tê-lo guardado
em segurança. 1 Queria que entendessem que não perdera nada do dinheiro
de seu senhor. Explicitamente, disse que o talento pertencia ao seu senhor.
Ele o conservara em segurança.
Por que o servo não guardou o dinheiro no banco, onde renderia juros?
Provavelmente não confiava nos banqueiros inescrupulosos que podiam
alterar ou invalidar o combinado.12 Talvez, o servo estivesse motivado por
um desejo de vingança contra o senhor e, por isso, tivesse decidido não
depositar o dinheiro num banco. Embora o investimento envolvesse algum
risco, ele sabia que o senhor, ao voltar, poderia recuperar o talento, com
lucro.13 Ao enterrar o talento privaria o senhor dos juros acumulados. Assim,
quando seu senhor voltasse, o servo poderia devolver-lhe o único talento.

O Senhor

Quando o senhor entregou a soma de oito talentos aos seus três servos,
ele mesmo se tornou dependente da honestidade e da lealdade dos servos.
Se eles perdessem o dinheiro em transações comerciais, seria um homem
arruinado. Compreensivelmente, pareceu bastante satisfeito quando o pri­
meiro e o segundo servos mostraram haver dobrado a quantia confiada a
eles. Ele os louvou pela diligência e os recompensou generosamente.
A chegada do terceiro servo com o único talento deixou claro ao
senhor que ele havia julgado mal o caráter de seu servo, que tinha se
equivocado ao depositar confiança nele, e que em vez de recompensá-lo
tinha que puní-lo.
A resposta do senhor à fraca desculpa do servo para sua indolência foi
o oposto da sua resposta aos outros dois servos. Primeiro, palavras de louvor
não podiam ser pronunciadas. Segundo, o senhor chamou o servo de mau e
negligente. Terceiro, criticou-o pela preguiça e falta de lealdade. E quarto,
mandou que retirassem o servo de sua presença, para sempre.
O servo foi julgado por suas próprias palavras. Sabia que seu senhor
esperava que seus servos se esforçassem ao máximo. De fato, o senhor era
um homem que queria colher onde não havia semeado e que agarrava a
oportunidade quando esta se apresentava. Por estas atitudes, se tornou um
homem duro aos olhos do servo indolente.
11. Michelis, G leichnisse, p. 110.
12. Daniel-Rops, em Palestine, p. 253, cita que os rabinos tentavam estabelecer regras para o
procedim ento nos negócios, mas que, nem sempre, essas eram observadas. Embora o
empréstimo com juros fosse proibido pela lei de Moisés, os rabinos conseguiram burlá-la
fazendo uma distinção entre empréstimo com juros e usura. A usura era condenada.
13. Bauer, et al., Lexicon, p. 443.

164
OSTALENTOS

“Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez”, disse o senhor.


Mesmo tendo afirmado explicitamente que o talento pertencia ao senhor, o
que o servo preguiçoso disse pôs fim à relação senhor-servo.14 A sociedade
com os outros dois servos continuou, enquanto o terceiro sabia que não era
mais um dos sócios. Agora era olhado como um devedor que tinha que pagar
juros sobre o dinheiro que tivera nas mãos. Se tivesse entregue o dinheiro
aos banqueiros, o senhor o teria exigido com juros. O senhor, então, voltan­
do-se para o servo, procurou recuperar o que, de direito, lhe pertencia, isto
é, os lucros esperados. “Ao que não tem, até o que tem lhe será tirado.”
Assim, todas as propriedades do servo lhe foram tomadas. O servo era inútil
para o seu senhor. Foi lançado fora, nas trevas (de acordo com as palavras
familiares de Jesus),16 onde “haverá choro e ranger de dentes”.

O Significado

A parábola dos talentos se insere no conjunto de ensinamentos de


Jesus a respeito de sua volta. As damas de honra esperavam o noivo; os servos
que receberam dinheiro de seu amo, trabalharam. A parábola ensina que,
durante a ausência de Jesus, espera-se que seus seguidores trabalhem
diligentemente com os dons a eles confiados, pois serão considerados res­
ponsáveis por eles, na ocasião de sua volta. Por causa de pronunciamentos
tais como “entra no gozo do teu senhor” e “o servo inútil lançai-o para fora,
nas trevas. Ali haverá choro e ranger de dentes”, Jesus deixa entender que
estas não são apenas as palavras do senhor. São suas próprias palavras
referindo-se ao dia do juízo.
Quando os discípulos primeiro ouviram a parábola, podem ter pensa­
do que ela se aplicasse não a eles, mas aos seus contemporâneos. Aos judeus
tinha sido confiada a verdadeira Palavra de Deus, como Paulo afirmou, anos
17
mais tarde. Eles podiam ver o paralelo do relacionamento do senhor com
seus servos e de Deus com Israel. Deus dera ao povo judeu a sua Palavra e
esperava que eles tornassem sua revelação conhecida em todos os lugares.
Mas, nos dias de Jesus, um judeu piedoso podia observar a Lei de Deus em
seus pormenores e, ainda assim, negligenciar ao repartir as riquezas da
revelação de Deus. Os discípulos de Jesus talvez tenham visto os fariseus
defensores da lei e os mestres da lei personificados no servo que enterrou o
14. Derrett, Law in the New Testament, p. 28.
15. Mt 25.29, exceto por pequenas variações, é idêntico a Mt 13.12 (e os paralelos, Mc 4.25; Lc
8.18). Também a conclusão da parábola do servo investido de autoridade tem enunciado
semelhante, Lc 12.48. Veja-se, também, Lc 19.26.
16. Mt 8.12; 13.42,50; 22.13; 24.51; 25.30; e Lc 13.28.
17. Rm 3.2. Em sua Epístola Pastoral a Tim óteo, Paulo o exorta a guardar o que lhe fora
confiado. 1 Tm 6.20; 2 Tm 1.14.

165
AS PARÁBOLAS DE JESUS
• 18
único talento que seu mestre lhe havia dado. Aos líderes religiosos de Israel
tinha sido confiado um depósito sagrado: muitos deles falharam, no entanto,
deixando de usá-lo de modo apropriado. Eles se sentiam satisfeitos de poder
devolvê-lo a Deus, dizendo: “Temos guardado a Lei.” Guardaram para si
mesmos o depósito. Fazendo isso falharam pois não o puseram para render.
Mas Deus, que lhes dera a guarda sagrada de sua revelação, um dia os
chamaria para o ajuste dc contas.
A parábola dos talentos foi primeiramente endereçada aos discípulos
de Jesus. Eles eram os únicos a quem o evangelho tinha sido confiado; a eles
fora dito que pregassem o arrependimento e o perdão, em nome de Cristo,
a todas as nações, começando por Jerusalém (Lc 24.47). Mas, o ensinamento
da parábola não se limitava aos discípulos. O autor da Epístola aos Hebreus
advertiu explicitamente os cristãos de seus dias, ao perguntar: “como esca­
paremos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (Hb 2.3). E, através
dos séculos, a parábola dos talentos tem falado, e continua a falar, a todos
os cristãos. Eles devem ser o canal por onde a mensagem da Palavra de Deus
flui para o mundo que os cerca.

Conclusão

O servo a quem foi confiado um único talento guardou o depósito em


segurança, em um lugar escondido. Temeu investi-lo, pois sabia que seu
senhor exigiria seu talento, ao voltar. O receio, portanto, sobrepujou o amor,
a confiança e a fé.19 O medo é o oposto da confiança.

O cristão que trabalha com fé colherá imensos dividendos. Ele não se


preocupa consigo mesmo ou com seus próprios interesses, pois o que quer
que tenha pertence ao Senhor, e o que quer que faça o faz pelo Senhor.
Nenhum seguidor de Jesus pode jamais dizer que lhe faltam dons para o
serviço, simplesmente por não ter a estatura de um Paulo, Lutero, Calvino
ou Knox. A parábola ensina que cada um dos servos recebeu dons: “segundo
a sua própria capacidade”. Jesus conhece a capacidade de cada cristão e
espera receber frutos.

18. Dodd, Parables, p. 151; Jeremias, Parables, p. 62; Smith, Parables p. 168; E. Kamlah, “Kritik
und Interpretation der Parabel von den anvertrauten Geldern: Matt 2 5 ,14ff.; Luke 1 9 ,12ff.”
Kerygma und Dogm a 14 (1968): 28-38; J. Dupont. La parabole des talents (Matt 25.14-30)
ou des minas (Lc 19.12-27), “Revue de Théologie et de Philosophie 19 (1969): 376-91.
19. Mãnek, Frucht, p. 73.

166
OS TALENTOS

Como em várias outras parábolas, não devemos realçar e aplicar


pormenores específicos. O que importa é a mensagem central. O ensino
básico da parábola dos talentos é que cada crente é dotado de dons diferentes,
quanto à sua habilidade, e que esses dons devem ser postos a serviço da obra
de Deus. No reino de Deus é esperado que cada um empregue plenamente
os dons que recebeu. No reino de Deus não há lugar para zangões — apenas
para as abelhas operárias!

167
23
O Grande Julgamento

Mateus 2531-46
31“Quando vier o Filho do ho­
mem, na sua majestade, e todos os
anjos com ele, então se assentará
no trono da sua glória; 32e todas as
nações serão reunidas em sua pre­
sença, e ele separará uns dos ou­
tros, como o pastor separa dos
cabritos as ovelhas; 33e porá as
ovelhas à sua direita, mas os cabri-
i 34 i« ✓
tos à esquerda; então dira o Rei
aos que estiverem à sua direita:
Vinde, benditos de meu Pai! entrai
na posse do reino que vos está pre­
parado desde a fundação do mun­
do. 35Porque tive fome e me destes
de comer; tive sede e me destes de
beber; era forasteiro e me hospe-
dastes; 36estava nu e me vestistes;
enfermo e me visitastes; preso e
fostes ver-me. 37Então me pergun­
tarão os justos: Senhor, quando foi
que te vimos com fome e te demos
de comer? ->ou
o
com sede e te demos
de beber? E quando te vimos fo­
rasteiro e te hospedamos? ou nu e
te vestimos? 39E quando te vimos

169
AS PARÁBOLAS DE JESUS

enfermo ou preso e te fomos visi­


tar? 40O Rei, respondendo, lhes
dirá: Em verdade vos afirmo que
sempre que o fizestes a um destes
meus pequeninos irmãos, a mim o
fizestes. 1Então o Rei dirá tam­
bém aos que estiverem à sua es­
querda: A partai-vos de mim,
malditos, para o fogo eterno, pre­
parado para o diabo e seus anjos.
2Porque tive fome e não me des­
tes de comer; tive sede e não me
destes de beber; 43sendo forastei­
ro, não me hospedastes; estando
nu, não me vestistes; achando-me
enfermo e preso, não fostes ver­
me. ^ E eles lhe perguntarão: Se­
nhor, quando foi que te vimos com
fome, com sede, forasteiro, nu, en­
fermo ou preso, e não te assisti­
mos? 45Então lhes responderá:
Em verdade vos digo que sempre
que o deixastes de fazer a um des­
tes mais pequeninos, a mim o dei­
xastes de fazer. 46E irão estes para
o castigo eterno, porém os justos
para a vida eterna.”

Estritamente falando, a passagem a respeito do juízo final é muito mais


uma profecia que uma parábola. Apenas a parte que fala das ovelhas e dos
cabritos pode ser considerada uma parábola. E essa breve comparação serve
perfeitamente ao propósito de Jesus, quando ensina a seus discípulos a
doutrina do último julgamento.1 Rapidamente, Jesus se refere a uma cena
bucólica comum em seus dias. O pastor reúne ovelhas e cabritos em um
1. Examinando a teologia de Mateus, G. Gray, em “The Judgment of the Gentiles in M atthes’s
Theology”, Scripture, Tradilion and Interpretation, Festschrift honoring E. F. Harrison
(Grand Rapids: Eerdmans, 1978), 199-215, conclui que “ó julgamento dos gentios não pode
decididamente ser o julgamento final de todos os hom ens”, p. 213. J. R. Michels, “Apostolic
Hardships and Righteous Gentiles: A study o f Matthew 25.31-46", JBL 84 (1965); 27-38; R.
C. Oudersluys, "The Parable of the Sheep and Goats (Matthew 25.31-46): Eschatology and
Mission, Then and Now", RefR 26 (1973): 151-61. Permanece o fato, no entanto, que a
parábola com o um todo diz respeito ao último julgamento, e o último julgamento inclui todos
os homens e é final.

170
O GRANDE JULGAMENTO

rebanho. Em áreas onde a grama é escassa por causa da seca, os cabritos


preferem comer as folhas e os rebentos mais do que pastar.2 Eles ficam no
mesmo rebanho com as ovelhas, mas nem os cabritos nem as ovelhas se
misturam. Ao entardecer, as ovelhas atendem ao chamado do pastor, mas
os cabritos, muitas vezes, o ignoram. Quando cai a noite, as ovelhas preferem
ficar ao ar livre, ao contrário dos cabritos, que não suportam o frio e precisam
se abrigar.3
O pastor põe as ovelhas à direita e os cabritos à esquerda. Ele não
separa os machos das fêmeas, e, sim, as ovelhas dos cabritos. Simbolicamen­
te, coloca as ovelhas à sua direita e os cabritos de seu lado esquerdo. As
ovelhas valem mais que os cabritos,4 e sua lã branca, que não se confunde
com a pele malhada dos cabritos, se destaca como símbolo de justiça. O
bode, há muito tempo, vem sendo associado com o mal. O Velho Testamento
retrata o bode como o portador do pecado, que é enviado para o deserto
(Lv 16.20-22). Mesmo nós, em nossa própria linguagem, usamos a passagem
registrada em Levítico. Além disso, o lado direito significa sempre o que é
bom, porém o esquerdo pode se referir a algo sinistro, sombrio, mau e vil.
Todas as nações do mundo são comparadas a ovelhas e cabritos que
são separados pelo pastor, no fim do dia. As nações serão reunidas diante
do Filho do Homem sentado em seu trono na glória celestial. Ao comando
divino, os anjos se adiantarão e reunirão os eleitos dos quatro ventos e os
apresentarão diante do trono do juízo (Mt 13.41,42; 24.31; 2 Ts 1.7,8; Ap
14.17-20). Todos os povos estarão diante do Juiz. Tanto os bons, quanto os
maus, os ímpios como os justos. Ninguém será excluído. O Juiz separará uns
dos outros, como o pastor divide seu rebanho de ovelhas e cabritos depois
de tê-los apascentado durante o dia.

O Lado Direito

O tema da separação e do juízo se desenvolve através de todo o


Evangelho de Mateus. O trigo é ajuntado no celeiro, mas a palha é queimada
em fogo que não se extingue (Mt 3.12); o joio é separado do trigo e atado
em feixes para ser queimado, enquanto o trigo é recolhido no celeiro (Mt
13.30). No final dos tempos, os anjos separarão os justos dos maus, e os
ímpios serão lançados na fornalha acesa (Mt 13.49,50). As cinco virgens
néscias encontram a porta fechada e ouvem a voz do noivo dizer: “Não vos

2. Cansdale, A nim ais o f Bible Lands, p. 44.


3. Armstrong, Parables, p. 191; Jeremias, Parables, p. 206.
4. Dalman, Arbeit und Sitte, VI:217.
5. Jeremias, Parables, p. 206; Mánek, Frucht, p. 76.

171
AS PARÁBOLAS DE JESUS

conheço” (Mt 25.12). O servo negligente, que enterrou seu único talento, é
lançado fora, na escuridão (Mt 25.30). Na parábola das ovelhas e dos
cabritos, o princípio da separação e do julgamento é claramente aplicado.
O Filho do homem, como Jesus se refere a si mesmo, vem em sua glória
e se assenta em seu trono celcstial, cercado por seus anjos. Passagens das
Escrituras, no Velho Testamento, reiteram esta verdade que, sem dúvida,
aponta para o último julgamento, como um julgamento universal.6 Na pará­
bola das ovelhas e dos cabritos, Jesus aceita todos aqueles trazidos diante
dele, que foram eleitos desde a eternidade. São aqueles que ouvem o Rei
dizer: “Vinde, benditos de meu Pai! entrai na posse do reino que vos está
preparado desde a fundação do mundo.” Eles são salvos, portanto, porque
Deus, o Pai, os tinha abençoado e lhes diz que tomem posse do reino que já
antes lhes havia sido preparado.7 A salvação dos justos não tem raízes em
suas boas obras, senão na vontade de Deus, o Pai. As boas obras, que os
justos praticam, não são a raiz, mas. sim, o fruto da graça? As boas obras não
são anuladas pela graça eletiva de Deus; são esperadas de seus filhos benditos
como uma efusão natural de obediência e amor.
De modo interessante, sem explicação, o evangelista muda da imagem
do Filho do homem para a do Rei. Por que Mateus usa estes dois títulos?
Certamente, a identificação de Jesus, como o Filho do homem, com a raça
humana, é evidente por si mesma. Mas, a transição do Filho do homem para
o Rei se torna significativa à luz da profecia de Daniel, onde a pessoa do
Filho do homem vem com as nuvens do céu. “Foi-lhe dado o domínio, a glória
e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem;
o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será
destruído” (Dn 7.13,14). O Filho do homem, incontestavelmente, é Rei, e no
dia do juízo fala como juiz soberano.9
As obras dos justos são atos de amor e misericórdia não intencionais
realizados para o próprio Cristo. Por seis vezes Jesus, ao falar com os justos,
usa o pronome da primeira pessoa singular — eu —, contrapondo-a a vós
que se refere a outros.

6. Zc 14.5; Mt 16.27; 19.28; 2 Ts 1.7; Jd 14,15; A p 3.21; 20.11,12. No trecho chamado “Parábolas”,
no Livro de Enoque 62.5, o ímpio “vê o Filho do homem sentado no trono de sua glória”.
Ele, que é o Messias, executa todos os pecadores pela palavra de sua boca. Charles,
Apocrypha and Pseudepigrapha, 2:228.
7. O tempo do verbo em “benditos” ( = eulogem enol) e em “preparados” (= h eto im a sm en en )
indica ação que, praticada no passado, tem significado permanente para o presente e o futuro.
8. Hendriksen, Matthew, p. 888.
9. Plummer, S t Matthew, p. 350; Mánek, Frucht, p. 75; Manson, Sayings, p. 249.

172
O GRANDE JULGAMENTO

(Eu) tive fome e me destes de comer;


(Eu) tive sede e me destes de beber;
(Eu) era forasteiro e me hospedastes;
(Eu) estava nu e me vestistcs;
(Eu estava) enfermo e me visitastcs;
(Eu estava) preso e fostes ver-me.10

Em todos os seus atos, os justos têm demonstrado responsabilidade


humana e genuíno interesse. Provaram ser cidadãos dignos do reino dos
céus. No dia do juízo, receberão o privilégio de tomar posse do reino. Em
suas atividades diárias mostraram fidelidade e diligência. No dia do julga­
mento, receberão sua recompensa. Nas pequenas coisas da vida, os justos
demonstraram seu amor e lealdade. No último dia, serão honrados pelo
próprio Deus.
As pessoas que permanecem à direita de Jesus, o Rei, ouvem-no dizer
que o alimentaram quando estava faminto, e lhe deram de beber quando
tinha sede; e foram os únicos que o convidaram a entrar, o vestiram,
cuidaram dele, e o visitaram. Eles se preocuparam com as pessoas com as
quais Cristo se identificou. Mas, quem são estas pessoas que se tornaram
recipientes do amor e da bondade dos justos? Esta é a questão que, sur­
preendidos, propõem a Jesus: “Senhor, quando foi que te vimos com fome?”
E a resposta do Rei é: “Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a
um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”. Mas, quem são esses
irmãos de Cristo?11
No Novo Testamento, o próprio Cristo se identifica e é identificado
com seus seguidores.12 A mais marcante ilustração do laço que há entre
Cristo e seus seguidores é o encontro de Paulo com Jesus, na estrada de
Damasco. “Por que me persegues?” — perguntou Jesus. Paulo, de fato,
10. N o Testaments o f the Twelve Patriarchs, Joseph 1.5,6, encontramos tênue eco dessa
passagem, embora reconhecidamente o pensamento divirja em muito do de Mateus.
“Eu fui vendido como escravo, e o Senhor me livrou;
Fui levado cativo, e sua forte mão me socorreu.
Fui cercado pela fome, e o Senhor mesmo me alimentou.
Estava só, e D eus me confortou;
Estava enfermo, e o Senhor me visitou;
Estava na prisão, e meu D eus foi benigno para com igo.”
Charles, Apocrypha, 2:346.
11. Para um exame amplo, veja-se G. E. Ladd, “The Parable o f the Sheep and the G oats in
Recent Interpretation”, New Dim ensions in New Testam ent Study, ed. R. N. Longenecker
e M. C. Tenney (Grand Rapids: Zondervan, 1974), pp. 191-99.
12. Mt 10.40,42; Mc 13.13; Jo 15.5,18,20; 17.10,23,26; A t 9.4; 22.7; 26.14; 1 Co 12.27; G12.20; 6.17;
Hb 2.17.

173
AS PARÁBOLAS DE JESUS
• 1^ •
estava perseguindo seus seguidores. Jesus é um com os seus seguidores,
pois cada cristão que crê 6 irmão ou irmã de Cristo. Por isso, perseguindo
os crentes, Paulo perseguia a Jesus.14
No Evangelho de Mateus, a expressão “meus pequeninos” se refere
aos discípulos de Jesus. Quando os doze discípulos são enviados dois a dois,
Jesus diz: “E quem der a beber ainda que seja um copo de água fria, a um
destes pequeninos, por ser este meu discípulo, em verdade vos digo que de
modo algum perderá o seu galardão” (Mt 10.42).15 Quando ele chama uma
criança e a coloca no círculo dos discípulos, exorta os doze a também se
tornarem crianças. Os pequeninos que acreditam em Jesus pertencem a ele
(Mt 18.5,6,10). Do mesmo modo, em Mateus 25.40, Jesus diz: “Em verdade
vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos,
a mim o fizestes.” Qualquer auxílio prestado a algum dos seguidores de
Cristo é, portanto, prestado ao próprio Cristo. Os cristãos são altamente
exaltados, pois servirão de referência aos atos de bondade que forem
praticados ou omitidos. Eles e Cristo são um!
O seguidor de Jesus é comissionado a ser uma testemunha viva dele.
E um representante do Rei, e a ele é dada autoridade para testificar do
Senhor. Um mensageiro pertence sempre àquele que o enviou. O que é
enviado deve representar sempre aquele que o enviou.
Os que recebem os mensageiros do Rei e os tratam bem, providencian­
do alimento quando têm fome, bebida quando têm sede, roupas que os
agasalhem quando têm frio, e que os confortem quando estão doentes ou na
prisão, estão fazendo isso, de fato, ao próprio Rei. Negar a esses mensageiros
amor e misericórdia é o mesmo que fechar as portas àquele a quem repre­
sentam (Mt 10.40).

O Lado Esquerdo

Dois textos são básicos na passagem sobre o último julgamento: Mt


25.40,45. “Em verdade vos afirmo que sempre que o fizestes a um destes
meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”; e, “Em verdade vos digo que
13. J. C. Ingelaire, “La ‘parabole’ du jugement dernier (Matthieu 25/31-46), ”Revue d’H istoire
et de P hilosophie R eligieuses 50 (1970): 52.
14. H. E. W. Turner, “The Parable of the Sheep and the Goats (Matthew 25.31-46)”, ExpT
(1966); 245, interpreta A t 9.4, dizendo: “Com certeza, é um misticismo, mas um misticismo
de auto-identificação mais que de unificação”. Veja-se, também, C. L. Mitton, “Present
Justification and Final Judgment — A Discussion of the Parable o f the Sheep and the
G oats.” ExpT 68 (1956): 46- 50.
15. J. A. T. Robinson, “The ‘Parable’ o f the Sheep and the Goats”, NTS 2 (1956): 225-37,
também publicado em Twelve New Testam ent Studies (Naperville: A. R. Allenson, 1962),
pp. 76-93, chama a atenção para esta passagem, mas por razões lingüísticas.

174
O GRANDE JULGAMENTO

sempre que o deixastes de fazer a um destes mais pequeninos, a mim o


deixastes de fazer.” São versículos paralelos com praticamente as mesmas
palavras. A omissão de “meus... irmãos” no v.45 pode ser devida ao estilo.
O primeiro dos textos é afirmativo c endereçado aos judeus; o segundo é
dirigido aos ímpios, em termos negativos.
Os ímpios não cometeram nenhum crime. Não mataram ninguém; não
cometeram adultério; não roubaram. Seus pecados não são de comissão, e,
sim, de omissão. O que deixaram de fazer é enumerado no dia do juízo. A
lista completa das necessidades atendidas pelos justos é repetida, mas,
agora, as flagrantes omissões são destacadas.
(Eu) tive fome, e não me destes de comer;
(Eu) tive sede, e não me destes de beber;
Sendo forasteiro, não me hospedastes;
Estando nu, não me vestistes;
Achando-me enfermo e preso, não fostes ver-me.

No julgamento, como descrito na passagem, nenhuma pergunta será


feita a respeito da fé ou do arrependimento em Cristo. Apenas perguntas
sobre conduta serão propostas.1 A lista de feitos pode ser cumprida por
qualquer um; não há necessidade de treino na fé cristã para se estar qualifi­
cado.
Quando os seguidores de Cristo, em necessidade, procuraram aqueles
que permanecerão à esquerda do Rei, foram rejeitados. Aqui se coloca,
realmente, a questão do ser a favor ou contra Cristo. Não há posição neutra
em relação a Jesus: o homem precisa escolher. Como Jesus, sucintamente,
colocou: “Quem não é por mim, é contra mim; e quem comigo não ajunta,
espalha” (Mt 12.30). Se um homem recusa os apelos do evangelho e rejeita
o seguidor de Jesus, ele rejeita o Cristo e escolhe ficar do lado do inimigo.17
Estão incluídas aí as pessoas que nunca conheceram a Jesus? Eles
serão julgados como todos os outros que no dia do juízo permanecerão
diante do Filho do homem. O apóstolo Paulo referiu-se a esta questão,
quando escreveu sobre o julgamento justo de Deus: “Assim, pois, todos os
que pecaram sem lei, também sem lei perecerão” (Rm 2.12). Apenas aqueles
que obedecem à lei de Deus são declarados justos.18

16. Plummer, St. Matthew, p. 350.


17. Manson, Sayins, p. 251.
18. “Há, portanto, uma correspondência exata entre o caráter de seus pecados com o ‘sem lei’
e a destruição final vinda sobre eles, também, ‘sem lei”’, J. Murray, The Epistle to the
R om an s (Grand Rapids: Eerdmans, 1959), 1:70.

175
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Por se recusarem a socorrer os seguidores de Cristo, os ímpios se


colocam fora da esfera das bênçãos de Deus. Estão sob maldição. Ouvem as
terríveis palavras: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, pre­
parado para o diabo e seus anjos.” São condenados e enviados para junto de
Satanás e de seu séquito.19 Os ímpios são separados de Cristo para sempre;
e são enviados para um lugar onde passarão a eternidade com Satanás e os
seus. E o lugar que as Escrituras descrevem como o inferno.
No tribunal, aqueles que estiverem à esquerda do juiz se surpreende­
rão e questionarão o veredito: “Senhor, quando foi que te vimos com fome,
com sede, forasteiro, nu, enfermo ou preso, e não te assistimos?” A resposta
a esta pergunta é que se recusaram a ver o Cristo quando seus seguidores
chegaram até eles. Fecharam seus olhos e endureceram seus corações,
quando os seguidores de Jesus estavam precisando de ajuda para suas
necessidades mais básicas. “Sempre que o deixastes de fazer a um destes
mais pequeninos, a mim o deixastes de fazer.” Jesus aponta para seus
seguidores, seus irmãos. São aqueles que crêem nele e constituem a igreja.
Quando são rejeitados, Cristo é rejeitado. Eles representam Jesus.
Diante do trono do julgamento, todas as nações estão reunidas: as
nações do mundo estão diante de Jesus. Embora cada pessoa seja julgada
individualmente, as nações também estarão diante do juiz, coletivamente. O
homem é considerado responsável por sua atitude e resposta para com Jesus,
sua Palavra e seu Reino, e recebe seu veredito como indivíduo. Mas ele faz
parte de sua comunidade e é um cidadão de sua nação. Juntamente com seus
compatriotas carrega a responsabilidade coletiva pelas ações postas em
prática e realizadas “contra o SENHOR e contra o seu Ungido...” (SI 2.2).
Durante o seu ministério terreno, Jesus denunciou as cidades de Corazim,
Betsaida e Cafarnaum, porque não se arrependeram apesar dos milagres
que ele ali realizara (Mt 11.20-24). No dia do juízo, haverá menos rigor para
Tiro, Sidom e Sodoma, que para as cidades do norte da Galiléia que não
responderam à mensagem de Jesus. Elas receberão julgamento coletivo.

Implicações

A parábola das ovelhas e dos cabritos é uma introdução à descrição


do último juízo. Como o pastor separa suas ovelhas dos cabritos, assim
também Jesus separa os justos dos ímpios no dia do juízo. Naquele dia, todas

19. O tempo verbal nos participios “malditos” (=kateram enoi) e “preparados” ( = hetoim as-
m en on) com o os de Mt 25.34, indica que, praticada no passado, tem validade no presente
e no futuro.
20. Por exemplo: Is 33.14; 66.24; Mt 5.22; 13.42,50; 18.8,9; Lc 16.19-31; Jd 7; A p 19.20;
20.10,14,15; 21.8.

176
O GRANDE JULGAMENTO

as nações do mundo permanecem diante do Filho do homem e são julgadas


com base na aceitação ou rejeição mostradas a ele, quando seus mensageiros
proclamaram o seu chamado.21 O que se deduz deste quadro é que o
julgamento só pode acontecer quando a ordem da Grande Comissão tiver
sido plenamente cumprida. “Ide, portanto, fazei discípulos de todas as
nações...” (Mt 28.19). Quando este comando tiver sido cumprido, o fim está
próximo. Os seguidores de Jesus devem proclamar fielmente a mensagem
do reino a todas as nações, pois quando esta tarefa estiver cumprida, o fim
virá (Mt 24.14).
Os mensageiros do evangelho de Jesus experimentam fadiga e sofrem
fome, sede, frio, doença, solidão e prisão. Paulo relata suas experiências e
fala das vezes em que passou fome e sede; esteve nu e com frio; nas vezes
em que esteve em perigo entre patrícios e entre gentios; e como esteve,
muitas vezes, nas prisões; como foi açoitado e enfrentou o perigo de morte
(2 Co 11.23-27). As pessoas que o ouviam e que cuidaram dele por ocasião
de seus julgamentos e de suas íribulações, demonstraram genuíno amor.
Esses atos, como Paulo diz aos Filipenses que lhe haviam ofertado dádivas,
eram “aroma suave, como um sacrifício aceitável e aprazível a Deus” (Fp
4.18). Mas, quando Paulo foi abandonado por todos, enquanto estava sendo
j ulgado, o Senhor estava ao seu lado, dando-lhe força. Àqueles que o haviam
desamparado, Paulo escreveu: “Que isto não lhes seja posto em conta” (2
Tm 4.16). Ele deixou o julgamento para o Senhor. Embora representante de
Jesus, não usou da autoridade daquele que o enviara. Jesus é o juiz, e ele
dará o veredito no dia do juízo. Paulo pode apenas orar para que o ato de
deserção não fosse imputado àqueles que deveriam tê-lo apoiado.
A auto-identificação de Jesus com seus irmãos não inclui todos os
pobres e necessitados do mundo. Ver na passagem sobre o juízo final uma
base para o amor cristão pelos pobres, considerados indiscriminadamente,
porque o pobre representa Cristo, é acrescentar algo ao texto. Ver o Cristo
na figura rejeitada do homem na estrada de Jericó, ou de Lázaro à soleira
da casa do rico, é aceitar uma exegese falha.23 A parábola das ovelhas e dos
cabritos e seu subseqüente quadro do dia do juízo final acentua a palavra
imião (Mt 25.40). Para Mateus o termo irmão não se aplica a todos, mas

21. L. Cope, “Matthew XXV.31-46. ‘The Sheep and the G oats’ reinterpreted”, NovT 11 (1969):
43.
22. J. Mànek, “Mit wem identifiziert sich Jesus? Eine exegetische Rekontruktion ad Matt.
25.31-46, "Christ and Spirit in lhe New Testam ent, ed. B. Lindars e S. S. Smalley (Cam-
bridge: University Press, 1973), p. 19.
23. Alguns comentaristas vêem o Cristo oculto nos confrontado, nos povos necessitados e
desafortunados do mundo. Por exemplo, Hunter, Parables, p. 118; Armstrong, Parables, p.
193.

177
AS PARÁBOLAS DE JESUS

apenas àqueles que aceitam Jesus como seu Senhor e Salvador.24 Em seu
Evangelho, Mateus fornece um significado para a palavra irm ãoP Para ele
a palavra significa um discípulo, um seguidor de Jesus. Portanto, a frase
“meus pequeninos irmãos”, em Mt 25.40, se refere às pessoas que acreditam
em Jesus. São membros de seu corpo, a igreja.
Naturalmente, as palavras de Jesus: “Os pobres sempre os tendes
convosco, mas a mim nem sempre me tendes” (Mt 26.11; Mc 14.7; Jo 12.8),
não significam que, em sua ausência, Jesus seja representado pelos pobres.
Suas palavras são uma exortação para que os pobres sejam cuidados, como
Deus ordenou aos israelitas: “Pois nunca deixará de haver pobres na terra;
por isso eu te ordeno: Livremente abrirás a tua mão para o teu irmão, para
o necessitado, para o pobre na terra” (Dt 15.11). Paulo era cuidadoso a
respeito desta mesma injunção, que recebera novamente ao se engajar na
missão aos gentios. Após ter recebido a destra de comunhão de Tiago, Pedro
e João, ele disse: “Recomendando-nos somente que nos lembrássemos dos
pobres...” (G12.10).
Ninguém pode, jamais, ignorar os pobres, porque a ordem de Deus:
“amarás o teu próximo como a ti mesmo”, é suficientemente clara. O
cumprimento da lei é o amor, e aquele que cumpre esta lei régia está agindo
bem (Tg 2.8). Assim, os cristãos têm a obrigação divina de mostrar amor
genuíno e sincero interesse pelos necessitados e rejeitados, não importando
a raça, origem, idade, sexo, ou religião. Qualquer um se qualifica como o
próximo e reclama amor, porém nem todos são chamados de irmão ou irmã
de Cristo. Apenas aqueles que crêem em Cristo e fazem a vontade de Deus
são irmãos e irmãs de Cristo (Mt 12.48).
Na parábola e na apresentação da cena do juízo, as seguintes pessoas
aparecem individual e coletivamente: (1) o Filho do homem, (2 todas as
nações, (3) um pastor, (4) o Rei, (5) o Pai do Rei, (6) os justos, (7) os irmãos
do Rei, (8) os ímpios. É óbvio que Deus é o Pai do Rei; embora Deus não
seja o Juiz. O Rei é o Juiz que é comparado a um pastor que separa as ovelhas
dos bodes. Além disso, o rei é também conhecido como o Filho do homem,
que é como Jesus se denomina. Os irmãos do Rei, também, estão presentes
no julgamento. Quem são eles? Jesus diz a seus discípulos que: “quando na
regeneração, o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também
vos assentareis em doze tronos para julgar as doze tribos de Israel” (Mt
19.28). O privilégio de julgar com Cristo não se limita aos doze discípulos.
Os santos julgarão o mundo, escreve Paulo à congregação de Corinto (1 Co

24. Mãnek, “Exegetische Rekonstruktion”, p. 22; Mánek, Frucht, p. 79.


25. Mt 5.47; 12.48; 18.15; 23.8; 28.10.

178
O GRANDE JULGAMENTO

6.2).26 O Juiz não está sozinho, porém fala pelos seus irmãos. Ele não julga
seus irmãos; porém todas as nações se apresentam diante de seu trono e são
separadas em dois grupos: os que estarão à direita do Juiz, porque ajudaram
os irmãos; e aqueles à esquerda, porque se recusaram a ajudar.
Nesta parábola, Jesus apresenta apenas um aspecto do quadro do
último julgamento. Outras passagens das Escrituras nos revelam cenas
adicionais do que acontecerá naquele dia.27 A parábola das ovelhas e dos
cabritos descreve uma divisão entre os que foram colocados à direita e
aqueles que foram colocados à esquerda. A descrição da cena do julgamento
acaba com uma referência ao destino permanente que terão. “E irão estes
para o castigo eterno, porém os justos para a vida eterna” (Mt 25.46). A
conclusão indica que o veredito, para ambas as partes, é final e irrevogável.
Os justos gozarão para sempre a plenitude da vida, e os ímpios receberão a
maldição da punição eterna.

26. Manson, Sayings, p. 217.


27. Por exemplo: Dn 7.9,10; Ap 20.11-15.

179
24
Os Dois Devedores
Lucas 736-50
^Convidou-o um dos fariseus
para que fosse jantar com ele. Je­
sus, entrando na casa do fariseu,
tomou lugar à mesa. 37E eis que
uma mulher da cidade, pecadora,
sabendo que ele estava à mesa na
casa do fariseu, levou um vaso
•50
de
alabastro como ungüento; e, es­
tando por detrás, aos seus pés,
chorando, regava-os com suas lá­
grimas e os enxugava com os pró­
prios cabelos; e beijava-lhe os pés
e os ungia com o ungüento. 3 Ao
ver isto o fariseu que o convidara,
disse consigo mesmo: Se este fora
profeta, bem saberia quem e qual
é a mulher que lhe tocou, porque
é pecadora. 40Dirigiu-se Jesus ao
fariseu e lhe disse: Simão, uma coi­
sa tenho a dizer-te. Ele respondeu:
Dize-a, Mestre. 41Certo credor ti­
nha dois devedores: um lhe devia
quinhentos denários, e o outro cin­
qüenta. 42Não tendo nenhum dos
dois com que pagar, perdoou-lhes
a ambos. Qual deles, portanto, o

181
AS PARÁBOLAS DE JESUS

amará mais? 43Respondeu-lhe Si-


mão: Suponho que aquele a quem
mais perdoou. Replicou-lhe: Jul-
gaste bem. ^ E voltando-se para a
mulher, disse a Simão: vês esta mu­
lher? Entrei em tua casa e não me
deste água para os pés; esta, po­
rém, regou os meus pés com lágri­
mas e os enxugou com os seus
cabelos. 45Não me deste ósculo;
ela, entretanto, desde que entrei
não cessa de me beijar os pés.
46Não me ungiste a cabeça com
óleo, mas esta com bálsamo ungiu
os meus pés. 47Por isso te digo:
Perdoados lhe são os seus muitos
pecados, porque ela muito amou;
mas aquele a quem pouco se per­
doa, pouco ama. 48Então disse à
mulher: Perdoados são os teus pe-
49
cados. Os que estavam com ele a
mesa, começaram a dizer entre si:
Quem é este que até perdoa peca­
dos? 50Mas Jesus disse à mulher:
A tua fé te salvou; vai-te em paz.

A parábola dos dois devedores é relativamente curta, pois se resume


em apenas três versículos (Lc 7.41-43). A circunstância histórica é a unção
de Jesus por uma mulher pecadora, na casa de Simão, o fariseu. A parábola
ensina a verdade simples, ou seja, que o grau de gratidão expressa por
alguém cuja dívida foi perdoada é diretamente proporcional ao total do
débito. Um agiota que perdoa uma dívida considerável receberá do devedor
maior reconhecimento e gratidão que de outro cujo débito cancelado seja
insignificante. Jesus pôs em prática esta verdade, na casa de Simão, o fariseu,
que estava visivelmente embaraçado com a presença de uma mulher de má
reputação. Mas Simão recebeu uma lição.

As Circunstâncias

Talvez tenha acontecido num sábado, quando Jesus pregara durante


o culto da manhã, na sinagoga local. Porque era considerado um privilégio

182
OS DOIS DEVEDORES

convidar um pregador visitante para o jantar,1 Simão, o fariseu, convidou


Jesus para ir à sua casa a fim de participar, com ele e com outros convidados,
da refeição do meio-dia do Sabá.
O anfitrião, porém, foi negligente, esquecendo-se das regras comuns
de cortesia, não beijando Jesus, nem lavando seus pés ou ungindo com óleo
perfumado sua cabeça.2 Chegou-se Jesus à mesa e, como os outros convida­
dos, tirou as sandálias.3 À maneira típica da época, os convidados se recli-
navam em divãs ao redor da mesa, apoiando-se sobre o braço esquerdo e
mantendo livre a mão direita para se servir da comida e da bebida, e seus
pés ficavam estendidos, afastados da mesa. Se não fosse inverno a refeição
acontecia no pátio, porque os judeus gostavam de comer ao ar livre.4
Durante a refeição, chegou uma mulher, que morava naquela cidade e que
era conhecida pela sua moral duvidosa. Ela caminhou rapidamente para
perto de Jesus, pretendendo lhe oferecer um vaso de alabastro, cheio de
ungüento perfumado.
Porque conhecia Jesus, ela queria presenteá-lo com aquele perfume
tão caro. Queria expressar-lhe sua gratidão por tê-la ajudado, provavelmen­
te ensinando-lhe a mensagem de salvação. Mas ela não conseguiu controlar
a emoção, e, antes que percebesse, suas lágrimas corriam e caíam sobre os
pés de Jesus. Ela não tinha uma toalha para enxugar seus pés. Então, soltou
seus cabelos para com eles secá-los. Beijou seus pés, tomou o frasco de
perfume e derramou-o sobre eles.
Do ponto de vista de Simão, aquele era um incidente muito embara­
çoso. Se a mulher tivesse comprado o perfume tão caro com o dinheiro ganho
na prostituição, o presente seria impuro. De acordo com Dt 23.18, Deus
abominava tais ganhos, que, portanto, não podiam ser trazidos à sua casa.
Presentes de pessoas sem moral eram considerados sujos e inaceitáveis por
qualquer pessoa respeitável. Além disso, a mulher desatara seu cabelo,
estando na companhia de homens; agindo assim, mostrara que espécie de
mulher era. Era contra os bons costumes que uma mulher soltasse seus
cabelos em público.5
O fariseu se admirava que Jesus permitisse que tudo isso acontecesse.
Ele começou a olhar Jesus com olhos diferentes. Se Jesus fosse um
1. Jeremias, Parables, p. 126.
2. O costume de ungir alguém com óleo vem da antigüidade. SI 23.5; 45.7; 104.15; Ez 23.41; Am
6.6. Daniel-Rops, Palestine, p. 208.
3. Um servo apanhava as sandálias dos hóspedes e as guardava até ao final da refeição. A . C.
Bouquet, Everyday Life in New Testam ent Tim es (New York: Scribner, 1954), p. 71.
4. Daniel Rops, Palestine, p. 207.
5. Derrett, Law in the New Testament, p. 268.

183
AS PARÁBOLAS DE JESUS

profeta,6 ele refletia, saberia que esta mulher era uma pecadora, e que seu
presente era maculado pelo pecado. Nenhum profeta que se desse ao
respeito permitiria que uma mulher de má reputação o tocasse, infamando-
o. Porque a mulher não apenas tocou seus pés — fez mais, continuou
beijando-os até que, finalmente, se retirou. Jesus não compreendia?
A Parábola

Jesus pregava o evangelho da salvação e conclamava o povo ao arre­


pendimento e à fé em Deus. Talvez, mais cedo, naquele dia, a mulher tivesse
ouvido a mensagem de Jesus, e, agora, respondesse positivamente à sua
palavra. Vencida pela culpa, mesmo sabendo que Deus a perdoaria, procu­
rou Jesus. Foi incapaz de reter a torrente de lágrimas que explodiu, expres­
sando tristeza pelos pecados cometidos e alegria pela graça recebida.
Mas Simão, o fariseu, não pôde ver que essa mulher pecadora experi­
mentava a alegria da regeneração. Não se lhe ocorreu que ela poderia ter
sido perdoada e que se sentisse plena de felicidade. “Jesus jamais deveria
permitir que a mulher o tocasse”, disse Simão a si mesmo.
Jesus sabia o que Simão pensava, e de modo gentil, mas corrigindo-o,
disse-lhe que apreciara o gesto da mulher, pois ela fizera o que seu hospe­
deiro deveria ter feito por seu hóspede. Mas, antes de Jesus dizer ao fariseu
o que tinha visto na mulher, propôs-lhe uma questão, em forma de parábola.
Começou a parábola dizendo a Simão que tinha algo a lhe falar. Simão estava
pronto a ouvir.
Jesus contou a pequena história de um agiota que tinha dois devedores.
Um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinqüenta. Um denário, naque­
les dias, era quanto valia o salário diário de um trabalhador rural. Nenhum
dos dois devedores, na história de Jesus, tinha fundos para pagar ao agiota.
Aconteceu, então, o inesperado. O credor cancelou a dívida de ambos. “Qual
deles, portanto, o amará mais?” — Jesus perguntou a Simão. Simão, meio
relutante, respondeu: “Suponho que aquele a quem mais perdoou.” De
repente, percebeu que a parábola o envolvia também. Ele sabia que Jesus
não tinha terminado a história. A aplicação, inevitavelmente, se seguiria para
explicar a presença da mulher, a atitude de Jesus em relação a ela, e o papel
de Simão como anfitrião.
“Vês esta mulher?” — perguntou Jesus. Naturalmente que Simão via
a mulher, mas Jesus queria que ele a visse em uma dimensão espiritual. Os
6. Alguns manuscritos apresentam o artigo definido antes de “profeta”. A expressão “o profeta”
se referiria, então, ao grande Profeta que Deus providenciaria (D t 18.15).
7. Marshall, Luke, p. 309. Calvin, Institutes of the Christian Religion, III. 4.33 (Grand Rapids:
Eerdmans, 1944), p. 722.

184
OS DOIS DEVEDORES

olhos de Simão estavam cegos, pois, enquanto a olhava apenas como peca-
dora, deixava de vê-la como alguém de quem os pecados haviam sido
perdoados. Sua auto-justificação bloqueava sua visão. Em sua opinião, a
mulher era apenas uma pecadora. Jesus, no entanto, não o repreendeu, nem
o censurou, mas, de maneira magistral, ofereceu-lhe uma perspectiva espi­
ritual do acontecido.
“Entrei em tua casa e não me deste água para os pés; não me saudaste
com um beijo, nem me ungiste a cabeça com óleo.” Mas, disse Jesus, “esta
mulher, com suas lágrimas, lavou meus pés, e por não ter uma toalha,
enxugou-os com seus cabelos. Ela demonstrou seu respeito mais profundo
por mim, beijando meus pés. Além disso, tomou um vaso de bálsamo
perfumado e ungiu-os”.
Jesus via a mulher como uma pecadora que tinha sido perdoada. Ele
não especificou seus pecados. Apenas se referiu a eles dizendo que eram
muitos. E porque seus muitos pecados lhe tinham sido perdoados, ela muito
amou.8 Ela queria expressar sua gratidão a Deus e se voltara para Jesus, que
fora enviado por Deus. Ele se tornara o vaso que recebia a gratidão da
mulher.9

A Mulher

A mulher não falou nada, durante o tempo em que esteve na casa de


Simão. Mas, seu gesto falou mais alto que palavras. Ela desmanchou-se em
lágrimas por causa de seus pecados. Como o devedor que ouviu de seu
credor que não lhe devia mais nada, assim a mulher experimentou a graça
misericordiosa de Deus. Por causa dessa graça, ela queria expressar sua
gratidão oferecendo a Jesus uma dádiva preciosa. Isto é, mostrando seu
amor a Jesus, ela provou que seus pecados já tinham sido perdoados. Não
10
foi por ela ter demonstrado seu amor que obteve o perdão dos pecados,
pois, sendo assim, ela teria merecido o perdão. Com esta parábola, Jesus
ensinou que o débito dos dois homens foi cancelado sem qualquer esforço
da parte deles. Do mesmo modo, a mulher, aliviada do fardo do pecado,
podia mostrar sua gratidão beijando e ungindo os pés de Jesus.

8. Jeremias, Parables, p. 127, destaca que o hebraico, o aramaico e o siríaco são línguas que não
têm palavras correspondentes para “obrigado” e “agradecimento”. O conceito se expressa
por m eio de palavras tais com o “amor” ou “bênção”.
9. H. Drexler, “D ie grosze Sünderin Lucas 7.36-50", ZNW 59 (1968): 166.
10. Católicos romanos interpretam que o texto (Lc 7.47) diz que o amor m erece perdão. A
versão N A B traduz o texto: “Eu vos digo porque seus muitos pecados são perdoados — por
causa de seu grande amor.”

185
AS PARÁBOLAS DE JESUS

“Mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama.” Queria Jesus dizer
que Simão, o fariseu, amava pouco porque os pecados, que lhe tinham sido
perdoados, eram poucos? Dificilmente.
Simão não mostrou amor ou gratidão a Jesus, além do convite para que
fosse jantar em sua casa. Ele não tinha sentido qualquer necessidade de ser
perdoado. Apesar de tudo, a comparação permanece. Jesus não elaborou o
assunto, mas, por implicação, pediu a Simão que reconhecesse e confessasse
seus pecados para, assim, experimentar a alegria que acompanha o poder
purificador da graça de Deus.
Jesus perguntou a Simão se ele tinha visto a mulher. Pelo contraste
exemplificado na parábola, Jesus, então, insinuou que Simão deveria olhar
para sua própria vida espiritual.
Depois de ter-se dirigido a Simão, Jesus voltou-se para a mulher e
disse: “Perdoados são os teus pecados.” Deus tinha perdoado seus pecados.
Jesus confirmou, então, a certeza da mulher de que ela recebera o perdão
dos seus pecados, dizendo-lhe que tinha sido redimida: “A tua fé te salvou;
vai-te em paz.” Ela já tinha professado sua certeza com seus atos de amor e
gratidão. Pela fé, ela expressara a Jesus sua gratidão. Seu amor era, portanto,
a conseqüência e não a causa de sua salvação.11 Com a paz de Deus em seu
coração, a mulher pôde enfrentar o mundo de novo, como um ser humano
regenerado. Com as palavras “vai-te em paz”, Jesus a abençoou na despedi­
da.

11. Morris, Luke, p. 149.

186
25
O Bom Samaritano

Lucas 10*25-37
'JC“E eis que certo homem, in­
térprete da lei, se levantou com o
intuito de pôr Jesus em provas, e
disse-lhe: Mestre, que farei para
herdar a vida eterna? 26Então Je­
sus lhe perguntou: Que está escrito
na lei? Como interpretas? 27A isto
respondeu: Amarás o Senhor teu
Deus de todo o teu coração, de
toda a tua alma, de todas as tuas
forças e de todo o teu entendimen­
to; e amarás o teu próximo como a
ti mesmo. 28Então Jesus lhe disse:
Respondeste corretamente, faze
• t . 2 9 r 'i
isto e viveras. Ele, porem, que­
rendo justificar-se, perguntou a
Jesus: Quem é o meu próximo?
30Jesus prosseguiu, dizendo: Certo
homem descia de Jerusalém para
Jericó, e veio a cair em mãos de
salteadores, os quais, depois de
tudo lhe roubarem, e lhe causarem
muitos ferimentos, retiraram-se
OI
deixando-o semimorto. Casual­
mente descia um sacerdote por
aquele mesmo caminho, e, vendo-

187
AS PARÁBOLAS DE JESUS

o, passou de largo. Semelhante­


mente, um levita descia por aquele
lugar, e, vendo-o também, passou
de largo. 33Certo samaritano, que
seguia o seu caminho, passou-lhe
perto c vendo-o, compadeceu-se
dele. E, chegando-se, pensou-
lhe os ferimentos, aplicando-lhes
óleo e vinho; e, colocando-o sobre
o seu próprio animal, levou-o para
uma hospedaria e tratou dele.
No dia seguinte tirou dois dená-
rios e os entregou ao hospedeiro,
dizendo: Cuida deste homem, e se
alguma coisa gastares a mais, eu to
indenizarei quando voltar. 36Qual
destes três te parece ter,sido o pró­
ximo do homem que caiu nas mãos
dos salteadores? 7Respondeu-lhe
o intérprete da lei: O que usou de
misericórdia para com ele. Então
lhe disse: Vai, e procede tu de igual
modo.”

A parábola do bom samaritano se tornou parte de nossa cultura e de


nosso vocabulário. É comum encontrarmos hospitais e instituições de cari­
dade usando esse nome. A estrada de Jericó é mencionada em hinos e
canções, e hoje os turistas podem encontrar a Hospedaria do Bom Samari­
tano a meio caminho de Jerusalém para Jericó.

Lugar e Povo

A caminho de Jerusalém, Jesus foi inquirido por um estudioso das


Escrituras do Velho Testamento a respeito de como fazer para herdar a vida
eterna. Esse teólogo, naturalmente, não fez a pergunta por ignorância, mas
porque queria testar Jesus e ouvir sua explicação sobre as Escrituras. Ele se
dirigiu a Jesus, chamando-o de “mestre”, reconhecendo, assim, sua autori­
dade em assuntos religiosos. Ele esperava de Jesus uma resposta para uma
pergunta muito comum.1

1. Mt 19.16. Consulte-se SB, 1:808, para fontes rabínicas.

188
O BOM SAMARITANO

Hábil e gentilmente, o Mestre instruiu seu aluno de teologia nos


ensinamentos e implicações da Palavra. Dirigiu-lhe outra pergunta: “que
está escrito na lei?” De fato, ele perguntou: “Como resumes a lei, quando
adoras na sinagoga?” O teólogo respondeu citando os dois mandamentos
ligados pela palavra amor. “Amarás o Senhor teu Deus...” e “amarás o teu
próximo como a ti mesmo.”2
Logo o doutor da lei compreendeu que Jesus linha o controle da
situação e que sabia a resposta. Ao comentário de Jesus: “Respondestes
corretamente; faze isto, e viverás”, ele apôs a questão: “Quem é o meu
próximo?” Esse era o ponto fundamental.
O judeu vivia num círculo: o centro era ele mesmo, cercado por seus
parentes mais próximos, então pelos outros parentes, e, finalmente, pelo
círculo daqueles que proclamavam descendência judaica e que se tinham
convertido ao judaísmo. A palavra próximo tinha um significado de recipro­
cidade: ele é meu irmão e eu sou irmão dele.3 Assim se fecha o círculo de
egoísmo e etnocentrismo. Suas linhas tinham sido cuidadosamente traçadas,
a fim de assegurar o bem-estar dos que se achavam dentro e negar ajuda aos
que estavam fora.
Nos dias de Jesus, havia uma marcada afluência de não-judeus para
Israel. Os samaritanos separavam os judeus do norte daqueles do sul.
As forças de ocupação romanas estavam presentes em todos os luga­
res, e viajantes helênicos visitavam Israel regularmente. Israel funcionava
como uma ponte entre as nações, e diariamente o judeu esbarrava em
estrangeiros. “Quem é o meu próximo?” — era uma pergunta comum.
O estudioso de teologia não via qualquer problema com relação ao
primeiro grande mandamento: “Amarás o Senhor teu Deus.” Mas o amor a
Deus não poderia se expressar separado do segundo mandamento: “Amarás
o teu próximo como a ti mesmo.” Ele via um problema no segundo manda­
mento e fez a pergunta, esperando que Jesus delineasse os limites. Mas, Jesus
se recusou a responder diretamente. Em vez disso, aplicou o princípio da
regra áurea: “Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós
também a eles” (Lc 6.31), e contou a história do bom samaritano. Ele queria
que seu ouvinte lhe perguntasse: “Quem devo tratar como meu próximo?”
A história que Jesus contou é tão real e verdadeira que pode muito
bem se refletir a um acontecimento atual relatado por alguém que foi

2. D t 6.5 e Lv 19.18.
3. B. Gerhardsson, The Good Sam aritan — The Good Shepherd? (Lund, Copenhagen:
Gleerup, 1958), p. 7. quando um soldado judeu morreu em conflito armado, a nação pranteia
a morte de um irmão.

189
AS PARÁBOLAS DE JESUS

assaltado e sobreviveu para contar o fato com todos os pormenores. Embora


nem a hora ou o local exatos sejam descritos, o incidente pode muito bem
ter acontecido naquele ano, não muito longe de Jerusalém.4
A estrada de Jerusalém para Jericó tem apenas 27 quilômetros ( = 17
milhas) de extensão, e ao longo desse trecho apresenta um declive de 1200
metros ( = 3300 pés). A área é praticamente deserta, sem vegetação e
marcada por penhascos de pedras calcáreas e barrancos, em ambos os lados
da estrada. Nos tempos bíblicos, a estrada era conhecida como “o caminho
(ladeira) do sangue”, muito provavelmente por ser considerada insegura.5
O trânsito de peregrinos e caravanas era bastante pesado por ali. De tempos
em tempos, eles eram assaltados por bandidos que se escondiam atrás das
rochas.
De acordo com a história contada por Jesus, um homem descia a
estrada de Jericó. Não nos é dito se era rico ou pobre. Ele foi assaltado, e,
porque reagiu, foi espancado. Em trapos, e quase morto, foi abandonado à
beira do caminho. Logo após o assalto, passou por ali um sacerdoíü, a
caminho de sua casa em Jericó.7 Ele olhou o homem ferido, e passou de lado.
Se estivesse montando um burrico, não teria se incomodado ao menos em
saltar. Negou ao homem qualquer ajuda ou esperança. Pouco depois, um
levita fez exatamente o mesmo: olhou-o e continuou seu caminho.
Mais tarde, veio um mercador, cujas roupas o identificavam como um
samaritano. Parou, e olhou para o homem, que, desam parado,' zia em seu
próprio sangue. O samaritano se encheu de pena. Se estivesse no lugar do
homem ferido, estaria também ansiando por ajuda. Aproximou-se e, cuida­
dosamente, ergueu o ferido. Rasgou em tiras um pedaço de linho para fazer
ataduras, aplicou azeite e vinho, limpando e tratando as feridas do homem.
Então o samaritano, por assim dizer, caminhou a segunda milha.
Colocou o homem sobre seu próprio animal e, firmando-o, levou-o à hospe­
daria mais próxima. Lá, cuidou dele o resto do dia e durante a noite. Tendo
negócios para cuidar, teve que deixar o ferido, no dia seguinte; mas, primeiro,
4. E. F. F. Bishop, “People on the Road to Jericho. The Good Samaritan — and the O thers”,
EvQ 42 (1970):2.
5. A expressão “subida de sangue” pode ser uma corruptela do hebraico “subida de Adumim ”.
Consulte-se Bishop, “People on the Road to Jericho”, p. 3. Veja-se, também, Js 15.7e 18.17;
Bishop “Down from Jerusalem to Jericho” EvQ 35 (1963): 97-102.
6. Histórias sobre assaltantes ao longo da estrada de Jericó têm sido registradas desde os tempos
antigos até ao presente. Por exemplo, veja-se o comentário de Jerônimo, Jr. 3.2.
7. Jericó era uma das cidades com alta concentração de sacerdotes, que tinham fixado residência
na “cidade das palmeiras”, SB, 11:66 e 182.
8. A p 6.6: “... e não danifiques o azeite e o vinho”. Azeite e vinho eram usados nos primeiros
socorros, nos tempos antigos. SB, I: 428. O azeite era paliativo e o vinho um antisséptico.

190
O BOM SAMARITANO

pagou ao hospedeiro duas moedas de prata e lhe deu instruções para cuidar
dele.9 Disse também ao dono da estalagem que se mais dinheiro fosse gasto,
ele lhe pagaria, quando voltasse de sua viagem.
Implicações

Jesus terminou a história perguntando: “Qual destes três te parece ter


sido o próximo do homem que caiu nas mãos dos salteadores?” O teólogo
teve que dizer: “O que usou de misericórdia para com ele.” Em outras
palavras, o samaritano provou ser um irmão do homem ferido. Com o
conselho: “Vai, e procede tu de igual modo”, Jesus o dispensou.
Na parábola, cinco pessoas são mencionadas (com exceção dos la­
drões). São, pela ordem: o homem assaltado e ferido, o sacerdote, o levita,
o samaritano e o dono da hospedaria. O ponto central não é tanto o homem
à beira da estrada, embora ele seja objeto de atenção. Depois de roubado,
ele foi primeiro negligenciado, mas depois cuidado com bondade. O objeto
da história não é o sacerdote, nem o levita, ou o dono da estalagem. A figura
central é o samaritano. Ele é o autor, o agente e o principal personagem. Por
isso a parábola é chamada parábola do bom samaritano e não parábola do
homem que foi assaltado e ferido. O ferido é uma figura sem rosto, cuja
ocupação, nacionalidade, religião ou raça são ignoradas.10 Talvez, sem suas
roupas, o homem não pudesse ser identificado pelo sacerdote, pelo levita ou
pelo samaritano. Resumindo, a identidade do homem não importa. Ele faz
apenas o papel do próximo — é só um vulto.
Os ladrões vêm e vão. Cometem o crime e partem. É inútil, portanto,
especular se eram zelotes, se tinham alguma queixa contra o homem — afinal
de contas, o sacerdote, o levita e o samaritano não foram atacados — ou se
eram moradores das redondezas e que viviam roubando os desventurados
que por ali passavam.
O sacerdote e, presumivelmente, o levita estavam a caminho de casa,
vindos do templo, em Jerusalém. Pela lei, estavam impedidos de tocar em

9. A s duas m oedas de prata eram dois denários, quantia suficiente para pagar a hospedagem
por vários dias. Na parábola dos trabalhadores na vinha (Mt 20.1-16), o salário diário dos
trabalhadores é de um denário.
10. C. Daniel, “Les Esséniens et Parrière — fond historique de Ia parabole du Bom Samaritan”,
NovT II (1969): 71-104, retrata a vítima com o um essênio que foi assaltado por zelotes. Os
zelotes odiavam os essênios. Assim também o sacerdote e o levita passaram de largo, porque
pertenciam a diferentes ordens religiosas. Entretanto, teria Jesus ensinado a lição apenas
para condenar o ódio entre facções religiosas rivais? Se fosse assim, ele teria sid o mais
explícito. É correto presumir que o homem era j udeu, porque assim entenderam aqueles que
primeiro ouviram Jesus. Veja-se, também, B. Reicke, “D er harmherzige Samariter”, Verbo-
rum V eritas, Festschrift honorig G. Stãhlin (Wuppertal; Brockhaus, 1970), p. 107.

191
AS PARÁBOLAS DE JESUS

um defunto.11 Se transgredissem a regra, estariam criando embaraços para


si mesmos: socialmente (se tornando impuros), financeiramente (pagando
o funeral) e profissionalmente (sendo suspensos de seus ofícios sacerdotais
e levíticos).1
Naturalmente, o homem assaltado e ferido não estava morto. Mas, iria
um sacerdote ou um levita desmontar de seu jumento, apanhar uma vara e
com ela tocar o ferido para verificar se estava vivo, e, então, por fim,
ministrar-lhe os primeiros socorros? Dificilmente. Na história, entretanto, o
homem estava vivo, e por isso não havia desculpa convincente a ser apresen­
tada pelos clérigos. Se tiveram medo de cair numa emboscada, ou se tinham
o coração empedernido, ou se acreditavam estar interferindo no julgamento
de Deus, que golpeava um pecador perverso, ou se eram vaidosos demais a
respeito de sua posição de líderes religiosos para desmontar e ajudar uma
vítima desafortunada, jamais saberemos.13 O fato é que nenhum dos dois,
nem o sacerdote nem o levita, mostrou misericórdia.
O samaritano, como é descrito, enternece o coração de todos. É a
figura preferida na história. Sabe o que deve fazer e o faz bem. Raça, religião,
diferença de classes não são importantes para ele. Vê um sei humano em
dificuldades e o ajuda.
Os samaritanos, para sermos exatos, não eram um povo muito simpá­
tico. Seu ódio pelos judeus explodia de diversas maneiras. Por exemplo, certa
vez, entre 9 e 6 A.C., tinham profanado a área do templo para evitar que os
judeus celebrassem a Páscoa. Fizeram isso espalhando ossos humanos pelos
pátios do templo.14 Aos olhos dos judeus, os samaritanos eram mestiços.
Tinham-se estabelecido na terra de Israel durante o exílio dos judeus, e sua
Bíblia consistia apenas dos cinco livros de Moisés. Tinham construído seu
próprio templo no monte Gerizim (Jo 4.20); os judeus o destruíram em 128

11. Lv 21.1; Nm 19.11.


12. Derrett, “Law in the New Testament: Fresh Light on the Parable o f the Good Samaritan”,
NTS II (1964-65): 22-37, publicado em Law in the New Testament (London: Longman and
Todd, 1970), pp. 208-27).
13. Os m otivos da atitude do sacerdote e do levita têm sido estudados por muitos exegetas. Mas
muitas explicações se baseiam em suposições, porque Jesus não especificou a razão por que
os clérigos se recusaram a ajudar. Omitindo-se, deliberadamente, de explicar a razão, ele
evitou que a parábola se tornasse um ataque frontal aos religiosos daqueles dias. Em vez
disso, ele criticou a falta de misericórdia. Veja-se Oesterley, Parables, p. 162; H. Zimmer-
man, “D as Gleichnis vom barmherzigen Samariter: Lukas 10.25-37, ”D ie Zeit Jesu, Fes-
tschrift honoring H. Schlier (Freiburg, Basel, Vienna: 1970), p. 69; Jeremias, Parables, pp.
203^1; Miachelis, G leichnisse, p. 208.
14. Josephus, Antiquities 18:30.

192
O BOM SAMARITANO

A.C. Por causa desse ódio profundo, os judeus não se davam com os
samaritanos.15
Ainda assim, esse viajante, reconhecido como um samaritano, por suas
roupas, seu modo de falar e suas maneiras, parou, desmontou c ajudou com
bondade o seu semelhante. Não perguntou se o ferido era judeu, romano ou
sírio. Para ele, aquela pessoa nua, ferida, meio morta, era um irmão preci­
sando de ajuda. Prontamente pagou ao dono da hospedaria o suficiente para
manter o homem na estalagem por alguns dias. Deve, também, ter providen­
ciado roupas.
O samaritano não praticou este ato de amor e caridade esperando
retorno. Ele podia ter pedido que o ferido ao se recuperar lhe pagasse o que
havia gastado. Mas, nem mesmo sabia se ele expressaria alguma gratidão,
quando soubesse quem o socorrera. O modo de agir do samaritano repre­
sentava um genuíno sacrifício de dinheiro, posses, risco de saúde, segurança
e muitas horas de cuidado e amor.16 Ele cumpriu a Regra Áurea.
A última pessoa mencionada na parábola, o dono da hospedaria,
recebe pouca atenção. Ele, possivelmente, conhecia o samaritano de outras
passagens por ali. Um relacionamento de confiança mútua se estabelecera
entre eles, o que é um testemunho eloqüente da conduta moral do samari­
tano. Ele era um homem em quem o hospedeiro podia confiar. “Cuida deste
homem, e se alguma coisa gastares a mais, eu to indenizarei quando voltar.”
Sua palavra valia ouro.

Paralelos do Velho Testamento

Embora a história possa se referir a um incidente recente, atual, Jesus


é o criador da parábola. Ao contar a parábola do bom samaritano, ele chama
a atenção de seu ouvinte versado em teologia para, pelo menos, dois para­
lelos do Velho Testamento. O intérprete da lei deve ter reconhecido as
alusões feitas a essas conhecidas passagens das Escrituras. Primeiro, há o
relato registrado em 2 Cr 28.5-15. Fala do povo de Jerusalém e Judá, durante
o reinando do rei Acaz, em 734 A.C., que foi levado cativo para Samaria. O
relato termina com estas palavras:
“Homens foram designados nominalmente, os quais se levan­
taram e tomaram os cativos e o despojo, e vestiram a todos os
que estavam nus; vestiram-nos, calçaram-nos e lhes deram de
comer e de beber, e os ungiram; a todos os que, por fracos, não
15. SB 1:538. Mt 10.5; Lc 9.52,53; Jo 4.9. Nos cultos nas sinagogasjudaicas, os samaritanos eram
amaldiçoados. Os judeus oravam a D eus que os excluísse da vida futura.
16. Mànek, Frucht, p. 87.

193
AS PARÁBOLAS DE JESUS

podiam andar, levaram sobre jumentos a Jericó, cidade das


palmeiras, a seus irmãos. Então voltaram paraSamaria.” (2 Cr
28.15)
Numerosas palavras-chave, naturalmente, reaparecem na parábola do
bom samaritano.
A segunda referência é o texto de Os 6.9: “Como hordas de salteadores
que espreitam alguém, assim é a companhia dos sacerdotes, pois matam no
caminho para Siquém; praticam abominações.”17
Ensinando a parábola de modo a fazê-la soar como passagem familiar
das Escrituras, Jesus demonstra que suas palavras são uma continuação das
próprias Escrituras e uma explicação da Lei e dos Profetas. Assim, sua hábil
exposição do segundo grande mandamento: “Amarás o teu próximo como
a ti mesmo” revela uma perspectiva mais profunda. Jesus se mostra como
intérprete da Lei.18 Ele diz ao teólogo: “Faze isto, e viverás.”19

Aplicação

Em seu ministério terreno, Jesus torna conhecida uma dimensão mais


ampla da exigência da Lei: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo.” No
Sermão da Montanha, o mandamento não se restringe ao próximo, mas
inclui, também, o inimigo: “Amai os vossos inimigos.” (Mt 5.44; Lc 6.27)
Para o sacerdote e o levita descritos na parábola, a palavrupróximo se
referia a um judeu que podia ser claramente identificado. Mas alguém
assaltado, espancado, nu e semimorto, simplesmente não se qualificava
como tal.
Para o intérprete da lei que inquiria Jesus, a questão era como traçar
o limite. Ele queria saber se o amor tem limites. Queria se auto-justificar e
se assegurar de estar cumprindo o que a Lei ordenava.
Se a Lei pudesse ser usada como uma barreira protetora, seria possível
viver em paz dentro desse abrigo, onde tudo já estaria interpretado e soaria
familiar. Mas, quando a Lei está em aberto — “Amarás o teu próximo”,
que inclui “Amai os vossos inimigos” —, uma visão toda nova se destaca
possibilitando um novo questionamento dessa Lei.
17. Mãnek, Frucht, p. 88, considera a parábola em Midrash, comentário ou sermão a respeito
da Palavra de Deus, registrada em Os 6.6: “Pois misericórdia quero, e não sacrifício...” D o
m esm o modo, Derrett, em Law in the New Testament, p. 227.
18. Derrett, Law in the New Testam ent, pp. 222-23, destaca que Jesus “tem um papel
sem elhante ao de M oisés”.
19. A s palavras de Jesus: “Faze isto, e viverás” recordam Dt 5.33; 6.24 e Lv 18.5.
20. Linnemann, Parables, p. 52.

194
O BOM SAMARITANO

Jesus não contou a história de um judeu que encontrou um samaritano


ferido, ao longo da estrada, e o ajudou, levando-o a uma hospedaria próxi­
ma.21 Tal história poderia provocar uma reação contrária, porque o judeu
seria considerado um traidor da causa judaica. Do mesmo modo, se Jesus
tivesse usado os três: o sacerdote, o levita e o israelita, o efeito teria sido
inteiramente diferente. Teria criado um contraste entre o clero e os leigos
com uma tendência decididamente anticlerical. Mas, a apresentação do
samaritano, na conjuntura apropriada, surpreende agradavelmente o ouvin­
te e não o predispõe a levantar objeções. O samaritano mostra como se deve
amar o próximo e ser como um irmão para ele.
Se o intérprete da lei tivesse quaisquer objeções teológicas, elas desa­
pareceram com o desenrolar da história. Jesus podia ter-se referido ao
estrangeiro que vivia entre os judeus e era tratado como um natural do
lugar. Também, podia ter mencionado os judeus convertidos e os que eram
chamados tementes a Deus, que, regularmente, assistiam aos serviços reli­
gioso na sinagoga. Mas, essas pessoas tinham como retribuir a bondade que
recebiam. Além disso, era considerados amigos e, em alguns casos, membros
da fé judaica.
Jesus, no entanto, focaliza não o próximo — “Q uem éom eupróxim o?”
—, mas o único que mostrou amor e compaixão. O próximo não é uma pessoa
atraente. Na parábola ele é mostrado sujo de sangue, nu e semimorto. Não
tem condições para retribuir o amor, o dinheiro e as roupas. Precisa de ajuda
e não tem como ressarcir. Deixar de atender esse próximo é incorrer na ira
divina, pois significa não apenas transgredir o segundo grande mandamento,
mas, também, deixar de praticar o primeiro.
A parábola do bom samaritano é atemporal. Podemos substituir ocu­
pações, nacionalidades e raças por equivalentes modernos, e nada mudou
desde o dia em que Jesus ensinou a parábola. Portanto, a parábola não é
uma história sobre alguém que, simplesmente, praticou uma boa ação. Ela
é uma denúncia contra qualquer um que tenha erguido barreiras protetoras
e construído com elas um abrigo.23
“Amarás o teu próximo como a ti mesmo” é uma ordem que alcança
além de nosso círculo de amigos e companheiros cristão. É um chamado
para que mostremos misericórdia aos desafortunados que jazem pela estra­
da de Jericó que é a vida humana. É um clamor às nações desenvolvidas para
que atentem ao sofrimento e pobreza sem fim experimentados pelos povos
subdesenvolvidos.
21. Armstrong, Parables, p. 165.
22. Lv 19.34. Veja-se, também, Michaelis, G leichnisse, p. 210.
23. Hunter, Parables, p. 111.

195
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Desde os primeiros tempos patrísticos ao tempo atual, os exegetas têm


tentado interpretar, simbolicamente, a parábola. Há variações numerosas e
algumas até engraçadas. A interpretação de Agostinho é clássica: o homem
espancado e assaltado é Adão; os ladrões são o demônio e seus anjos; o
sacerdote e o levita são os sacerdotes e ministros do Velho Testamento; o
samaritano é Jesus; o óleo é o conforto e o vinho a exortação ao trabalho; a
hospedaria é a igreja; as duas moedas são os mandamentos para amar a Deus
e ao próximo; e o dono da hospedaria é o apóstolo Paulo. 4
É muito comum ver Jesus como o bom samaritano, que é amigo e irmão
de pessoas vindas dos variados caminhos da vida, de qualquer nação e de
todas as raças. Entretanto, ainda que o próprio Lucas possa ter pensado
assim quando registrou a parábola, ele não nos dá a menor indicação de que
Jesus pretendesse transmitir essa mensagem. Nem o texto, nem o contexto,
aceitam tal interpretação.25
A mensagem que Jesus ensina através da parábola se resume na
expressiva exortação feita ao teólogo que provocou a história: “Vai, e
procede tu de igual modo.” Na linguagem de Tiago: “Tornai-vos, pois,
praticantes da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mes­
mos” (Tg 1.22).

24. Agostinho, Quaestiones Evangeliorum, II, 19. Dodd, Parables, pp. 11,12. Consulte-se
Mãnek, Frucht, pp. 88,89 para uma avaliação útil de modernas interpretações. Veja-se
Gerhardsson, Good Samaritan, pp. 1-31, para um estudo elaborado de possível derivados
verbais; J. Daniélou, “Le Bon Samaritain”, Mélanges Bibliques rédiges en l’honneur de A.
Robert (Paris, 1956), pp. 454-93; H. Binder, “Das Geheimnis vom barmherzigen Samariter”,
TZ 15 (1959): 176-94.
25. Morris, Luke (Grand Rapids: Eerdmans, 1974), p. 191. W. Monselewski, Der barm herage
Samariter. Eine auslegungsgeschichtliche Untersuchung zu Lukas 10.25-37 (Tübingen:
Mohr-Siebeck, 1967), p. 16.

196
26
O Amigo Importuno

Lucas 11.5-8
5“Disse-lhes ainda Jesus: Qual
dentre vós, tendo um amigo e este
for procurá-lo à meia-noite e lhe
disser: Amigo, empresta-me três
pães, 6pois um meu amigo, chegan­
do de viagem procurou-me, e eu
nada tenho que lhe oferecer. E o
outro lhe responda lá de dentro,
dizendo: Não me importunes: a
porta já está fechada e os meus
filhos comigo também já estão dei­
tados. Não posso levantar-me para
tos dar; 8digo-vos que, se não se
levantar para dar-lhos, por ser seu
amigo, todavia o fará por causa da
importunação, e lhe dará tudo o de
que tiver necessidade.”

L u c a s registra o Pai Nosso de forma mais breve que a encontrada no


Evangelho de Mateus. Ele continua a oração não com uma exortação aos
homens para que se amem uns aos outros, mas com uma parábola na qual
Jesus ensina àquele que pede, que seja persistente- O ensino da parábola
sobre o amigo importuno é reproduzido sucintamente na exortação do

197
AS PARÁBOLAS DE JESUS

apóstolo: “Orai sem cessar” (1 Ts 5.17). Apenas Lucas menciona a parábola


do amigo que vem à meia-noite. Em poucas e expressivas palavras, ele
descreve o quadro de um homem que não tinha pão — provavelmente usara
o último pedaço no jantar — e, então, recebe um amigo que chega de viagem,
à meia-noite.1 A cidade era pequena e não era possível obter pão, àquela
hora, a menos que procurasse um vizinho de boa vontade que lhe empres­
tasse alguns.
O viajante chegou à meia-noite, talvez para evitar o calor do dia.2
Cansado e com fome, procurou a hospitalidade do amigo. Mas, pelo incon­
veniente da hora, pôs seu hospedeiro numa situação embaraçosa: ou se
recusava a hospedá-lo, porque não tinha pão, ou ia procurar o vizinho para
pedir alguns pães. Que situação! Se se recusasse a alimentar seu amigo
viajante, faltaria às normas do bom receber; e se fosse procurar seu vizinho,
provavelmente o incomodaria.
A história contada por Jesus talvez se baseasse em um fato real e podia
ser classificada entre aquelas que se iniciam sempre com a pergunta: “Sabe
o que aconteceu...?” Fez sorrir discretamente todos aqueles que a ouviam
porque era tão igual à própria vida. Todos queriam saber como a história ia
acabar.
As casas em Israel, especialmente nas áreas rurais, eram pequenas,
consistindo de apenas um cômodo usado como sala de jantar e dormitório.
A casa tinha uma porta que permanecia aberta durante todo o dia. Mas, ao
anoitecer, quando o sol se punha, o chefe da família fechava a porta e fazia
correr uma tranca de maneira que se prendia nas laterais da porta, manten­
do-a fechada para evitar os intrusos.4 Esteiras eram espalhadas e usadas
como camas, nas quais a família toda dormia. Em tais circunstâncias, era
muito difícil levantar no escuro e procurar algo.
O hospedeiro, desejando cumprir as normas de hospitalidade, cami­
nhou até à casa de seu vizinho e despertou-o, pedindo-lhe: “Amigo, einpres-
ta-me três pães, pois um meu amigo, chegando de viagem, procurou-me, e
1. Traduções de Lc 11.5 diferem na maneira de considerar a palavra am igo. A versão NTV
traduz: “Suponhamos que um de vós tenha um amigo e vá procurá-lo à m eia-noite...” Mas
a versão NEB diz o seguinte: “Suponhamos que um de vós tenha um amigo que vem
procurá-lo no m eio da noite...” O amigo é o vizinho que empresta o pão, ou o viajante
faminto? Quem é amigo de quem?
2. A s viagens à noite eram comuns, nos dias de Jesus; as pessoas prudentes viajavam à noite,
com o fez José com Maria e o menino Jesus (veja-se Mt 2.9,14).
3. A cozinha ficava, comumente, do lado de fora, ou sob um telheiro. Veja-se Daniel-Rops,
Palestine, p. 220.
4. Dalman, Arbeit und Sitte VII:70-72, 178-79; Armstrong, Parables, p. 80; e Jeremias,
Parables, p. 157.

198
O AMIGO IMPORTUNO

eu nada tenho que lhe oferecer.” Ele chamou o vizinho de “amigo”, prova­
velmente para desencorajar qualquer resposta zangada, embora não fosse
próprio de um amigo acordar o outro no meio da noite. A questão é saber
quem merece o nome de “amigo”. Aquele que foi prestativo com seu vizinho
ou o que veio acordá-lo pensando em seu hóspede?
Um pão, naqueles dias, não era maior que uma pedra que se pudesse
segurar com uma das mãos. Assim, Mateus, no contexto paralelo registra:
“Ou qual dentre vós é o homem que, se porvenlura o filho lhe pedir pão, lhe
dará pedra?” (Mt 7.9). Três desses pães eram refeição suficiente para uma
pessoa. A longa explicação do que pedia emprestado era uma tentativa de
descrever ao vizinho a situação embaraçosa em que se achava e revela a
esperança de que o amigo o compreendesse. Naturalmente, o hospedeiro
estava perfeitamente ciente do problema que seu pedido causaria. Mesmo
assim, ele pediu, sabendo que era a única maneira de conseguir pão para
oferecer a seu amigo cansado e faminto.
Emprestar pão a um vizinho, cujo suprimento se esgotara, era costume
comum em Israel. Pela manhã, quando o pão fresco fosse assado, o que fora
emprestado era devolvido. O problema não era a quantidade emprestada;
era a hora.
A voz do vizinho estava longe de agradar. Numa reação bem humana,
de alguém cujo sono foi perturbado, ele respondeu: “Não me importunes: a
porta já está fechada e os meus filhos comigo também já estão deitados. Não
posso levantar-me para tos dar.” Ele mostrou má vontade, não falta de
condições para atender o pedido. Ele teria que se levantar, acordar os filhos
ao acender a lâmpada, achar o pão, e retirar a tranca para abrir a porta. Seria
muito mais fácil se o vizinho desaparecesse na escuridão.
Mas o vizinho não lhe deu descanso nem o deixou dormir. Não podia
voltar para casa, onde seu amigo estava esperando, com as mãos vazias.
Continuou pedindo até que seu vizinho se levantou, acendeu a lâmpada,
removeu a tranca, abriu a porta e lhe entregou os pães. O vizinho não fez isto
por causa da amizade, mas por causa da insistência daquele que estava
pedindo.
A palavra insistência é a palavra-chave na conclusão da parábola.5 Ela
retrata a atitude de um homem que se vê obrigado a mostrar hospitalidade
5. Em todo o N ovo Testam ento, a palavra anaideia ocorre apenas aqui. Pode ser traduzida
com o “falta de vergonha” para descrever a impertinência do homem que acordou o vizinho.
Jeremias, Parables, p. 158, e Marshall, Luke, p. 465, admitem que a falta de vergonha pode
ser atribuída, também, ao vizinho que se recusou a atender o pedido do amigo. A palavra
exprime, então, o sentido d e “manter a aparência”. O vizinho, portanto, atendeu o pedido,
porque não queria trazer vergonha para sua casa, com sua recusa.

199
AS PARÁBOLAS DE JESUS

a um amigo que o procurou à meia-noite. No contexto de sua cultura, ele sai


de seus hábitos para providenciar alimento para suprir as necessidades de
seu amigo. Está disposto a sacrificar a amizade com seu vizinho, a fim de se
mostrar um bom hospedeiro. Ele insiste. Sabe que seu pedido receberá
resposta apesar das circunstâncias adversas.
Nesta parábola, Jesus aplica claramente a regra judaica dos contras­
tes.6 É uma norma que destaca o maior ensinando o menor. Nesse exemplo,
chamando atenção para a insistência do hospedeiro, que tem certeza de que
o amigo lhe emprestará os pães, Jesus ensina que podemos procurar Deus
em oração, sabendo que ele vai nos atender. “Digo-vos que, se não se
levantar... por ser seu amigo... o fará por causa da importunação, e lhe dará
tudo o de que tiver necessidade. Por isso vos digo: Pedi, e dar-se-vos-á;
buscai, e achareis; batei, e abrir-se-vos-á” (Lc 11.8,9). Se o vizinho acorda à
meia-noite e se levanta para emprestar os pães a seu amigo, muito mais fará
Deus, o Pai, respondendo à oração de seu filho, que o procura em necessi­
dade!
O que a parábola ensina? Não ensina que, como o vizinho despertado
do sono, Deus não gosta de ser importunado. Antes, ela transmite a idéia de
que, como o hospedeiro continuou a pedir, sabendo que seu vizinho lhe
abriria a porta e lhe daria pão, assim o cristão deve continuar diligentemente
em oração. Pela fé, ele sabe que Deus atenderá seus pedidos, e lhe dará
muito mais do que necessita. Deus atende às orações em resposta à fé
manifestada pelo crente. Por isso, o cristão termina suas orações repetindo
a palavra amém. Nas palavras de um catecismo do século dezesseis, a
respeito do Pai Nosso:
Amém significa,
Assim será, com toda a certeza!
É muito mais certo
Que Deus ouça minha oração,
Do que eu estar realmente desejando
Aquilo pelo qual estou orando.

6. Esta tegra, chamada Kal W a-hom er (do menos importante para o mais importante), era uma
das sete regras de hermenêutica compiladas pelo Rabino Hillel (60 A.C. a 20 D.C .) H. L.
Strack, Introduction to the Tahnud and M idrash (New York: Meridian Books, 1969), pp.
93-94.
7. Catecismo de Heidelbergae, questão 129.

200
27
O Rico Insensato
Lucas 12.13-21
12“Nesse ponto, um homem que
estava no meio da multidão lhe fa­
lou: Mestre, ordena a meu irmão
que reparta comigo a herança.
14Mas Jesus lhe respondeu: Ho­
mem, quem me constituiu juiz ou
partidor entre vós? 15Então lhes
recomendou: Tende cuidado e
guardai-vos de toda e qualquer
avareza; porque a vida de um ho­
mem não consiste na abundância
dos bens que ele possui. 16E lhes
proferiu ainda uma parábola, di­
zendo: O campo de um homem
rico produziu com abundância.
17E arrazoava consigo mesmo, di­
zendo: Que farei, pois não tenho
18
onde recolher os meus frutos? E
disse: Farei isto: Destruirei os
meus celeiros, reconstruí-los-ei
maiores, e aí recolherei todo o meu
produto e todos os meus bens.
Então direi à minha alma: Tens
em depósito muitos bens para mui-
201
AS PARÁBOLAS DE JESUS

tos anos: descansa, come e bebe, e


20
regala-te. Mas Deus lhe disse:
Louco, esta noite te pedirão a tua
alma; e o que tens preparado, para
quem será? 21Assim é o que ente-
soura para si mesmo e não é rico
para com Deus.”

í4N ã o julgueis, para que não sejais julgados”, disse Jesus no Sermão
da Montanha. Ele estava plenamente consciente do significado do que dizia,
cercado por uma multidão. Alguém lhe pediu que fosse juiz numa disputa
de família. Dois irmãos vinham discutindo a respeito de uma herança. O pai
tinha morrido, e o irmão mais velho, na opinião do mais novo, não tinha
cumprido o que estava especificado no testamento. Talvez a herança não
tivesse sido dividida por motivos religiosos.1 Mas, o irmão mais novo fazia
objeção ao curso da ação e fez um apelo a Jesus. Dirigiu-se a ele como
“mestre”, que quer dizer “rabino”.2
Jesus, no entanto, negou-se a se envolver na disputa e a servir de juiz
e árbitro. Recusou-se a se tornar um outro Moisés, que tomou partido em
uma contenda e, como resultado, teve que deixar o país.3 Não se prestou a
ser usado por alguém movido pelos próprios interesses.
O irmão que pediu a Jesus para intervir parece ter ido, sozinho, até
Jesus. Não temos indícios de que o irmão mais velho tenha concordado em
ter uma terceira pessoa avaliando a situação. Nada é revelado, também, a
respeito dos pormenores da reclamação. O que fica evidente é que a pessoa
que se dirigiu a Jesus queria usá-lo como advogado, juiz e árbitro. Resumin­
do, queria empregá- lo como se emprega um servo. Deixou de ver Jesus como
um mestre. Porque os rabinos conheciam a Lei, e serviam duplamente como
mestres e advogados, o irmão, simplesmente, não conseguiu ver a diferença.
Por isso, depois de ter-se dirigido diretamente ao homem, Jesus passou
a ensinar à multidão uma lição espiritual, fazendo-lhes uma recomendação
geral, e contando-lhes uma parábola: “Tende cuidado e guardai-vos de toda
1. Sl 133.1. Josephus assinala que os essênios desistiam do direito à propriedade privada
morando juntos, com o fazem os irmão de uma família. Wars 2:122.
2. Os judeus apelariam aos rabinos e fariam referência às Escrituras: Nm 27.1-7: 36.2-10; Dt
21.15-17.
3. Êx 2.14; At 7.27,35. O Evangelho de Tomé, Citação 72, apenas descreve Jesus como um
repartidor: “U m homem disse a ele: Fala com meus irmãos para que dividam comigo os bens
de meu pai. Ele disse: Homem, quem me pôs como repartidor? Ele se voltou a seus discípulos
e lhes disse: Não sou um repartidor, sou?”

202
O RICO INSENSATO

e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância


dos bens que ele possui.” Como mestre, Jesus advertiu o povo contra o perigo
espiritual da avareza. A avareza é idolatria.4 É o culto à criatura em lugar
do Criador. Jesus foi direto à raiz do problema apresentado pelo homem.
Descobriu a origem do erro que o levou a pedir a Jesus que fosse seu
advogado. Pessoas avarentas não herdam o reino de Deus.5
As palavras de Jesus são elaboradas na primeira Epístola de Paulo a
Timóteo: “Porque nada temos trazido para o mundo nem coisa alguma
podemos levar dele; tendo sustento e com que nos vestir, estejamos conten­
tes” (1 Tm 6.7,8). Comida, roupa e um abrigo resumem as necessidades da
vida. Qualquer coisa a mais é abundância e deve ser repartida com os pobres.

A Parábola

A parábola do rico insensato deixa evidente que a vida, no verdadeiro


sentido da palavra, não depende de riquezas materiais. Há alguns anos atrás,
estavam muito em modo definições de felicidade: “Ser feliz é...” Mas entre
todas as definições, nenhuma mencionava riqueza. A riqueza não traz
felicidade. Antes, é, muitas vezes, causa de ruína e destruição.
Na parábola de Jesus, um fazendeiro muito rico teve um verão excep­
cional, porque na ocasião da ceifa tivera uma colheita abundante. O fazen­
deiro arrazoava consigo mesmo o que fazer com a colheita e onde guardá-la.
Ele resolveu: “Farei isto: Destruirei os meus celeiros, reconstruí-los-ei maio­
res e aí recolherei todo o meu produto e todos os meus bens.” Falando
consigo mesmo e usando os pronomes eu e meu repetidamente, ele revela
seu extremo egoísmo.6 Deus tinha prometido encher plenamente os celeiros
do homem se este o honrasse com os primeiros frutos de tudo que produzis­
se.7 Esse fazendeiro não levava em consideração a promessa de Deus. De
fato, mostrou seu desrespeito derrubando seus celeiros e construindo outros
maiores.8 Queria ter o controle completo da situação. Não se sentia seguro
dependendo de Deus. Mais que isso, jamais passou pela sua cabeça a idéia
de ajudar os pobres. Ao contrário, pensou em si mesmo, em seu próprio
prazer e segurança. Manifestou extrema desconsideração para com o resu­

4. Cl 3.5.
5 .1 Co 6.9,10. J. D. M. Derrett, “The Rich Fool: A Parable o f Jesus concem ing Inheritance”.
Studies in the New Testam ent (Leiden: Brill, 1978), 2:103.
6. Compare-se a parábola à história de Nabal que, com palavras e atos, mostrou-se escravo de
seus bens. 1 Sm 25.11.
7. Pv 3.10 e D t 28.8.
8. Derrett, “The Rich F ool”, p. 112.

203
AS PARÁBOLAS DE JESUS

mo básico da lei de Deus: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração,
de toda a tua alma, de todo o teu entendimento; e amarás o teu próximo
como a ti mesmo.” Deus e o próximo não existiam para ele. Pensava apenas
nele mesmo.
“Então direi à minha alma: Tens em depósito muitos bens para muitos
anos: descansa, come e bebe, e regala-te.” O homem rico mostrava apenas
auto-indulgência,9 o enriquecimento de sua própria vida não era ao menos
considerado. A auto-indulgência é feita de egoísmo. O círculo de sua vida
tinha se reduzido a um ponto. Ela não se caracterizava pelos pecados de
comissão, mas, sim, pelos pecados de omissão. Deixou de agradecer a Deus
as riquezas recebidas e foi negligente no cuidado ao próximo necessitado.
Sem Deus e sem o próximo, sua existência estava centrada nele mesmo. Só,
sem relação com Deus, queria garantir seu futuro. Tiago, em sua Epístola,
se dirige àquelas pessoas que dizem: “Hoje ou amanhã iremos para a cidade
tal, e lá passaremos um ano e negociaremos e teremos lucros.” Replica
Tiago: “Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois
apenas como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tg4.13,14).
Deus interveio chamando-o de louco,10 e dizendo-lhe que morreria
naquela noite.11 Perderia a vida e todas as suas riquezas. Deus o chamou
para prestar contas de seus bens. Queria fazer um balanço de suas posses
terrenas e espirituais.
O fazendeiro rico tinha empilhado sua colheita em celeiros e acumu­
lado riqueza suficiente para vários anos. Mas porque não repartira seus bens
com o próximo, nem havia ajustado contas com Deus, seu saldo no banco
espiritual estava a zero. Quando Deus chamtau o homem, a conta estava
encerrada e não podia ser alterada12
“Esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem
será?” A questão é retórica e implica que as riquezas do homem, na verdade,
pertencem a Deus. Ele as dá e tira no tempo devido.

9. Compare-se com Ec 11.19.


10. SI 14.1; 53.1.
11. A parábola do rico insensato, no Evangelho de Tom é, Citação 63, difere, em ênfase e
propósito, do relato canônico: “Jesus disse: Havia um homem rico que possuía m uitos bens.
Ele disse: usarei meus bens para semear e colher e plantar e encher meus celeiros com frutos,
para que nada me falte. Assim pensava consigo. E, naquela noite, morreu. Quem tem ouvidos,
ouça.”
12. Derrett, “The Rich F ool”, p. 114.

204
O RICO INSENSATO

Conclusão

Jesus não disse que o homem devia se privar de riquezas terrenas,


prazer e bem-estar. Nem tentou dizer ao irmão mais novo, que o procurou
com uma queixa a respeito de sua parte da herança, para se desprender de
bens materiais. O homem deve compreender que Deus c o dono de sua
grande criação, e que colocou o homem como despenseiro do mundo que
criou.13 Como despenseiro, o homem deve periodicamente prestar contas a
Deus. Quando deixa de fazê-lo e age como se fosse proprietário de seus bens,
transgride a lei de Deus e se condena como louco. Sempre que vive para si
mesmo, ele está espiritualmente morto.
Na presença de Deus, nossas mãos estão vazias. “Porque nada temos
trazido para o mundo, nem coisa alguma podemos levar dele” (1 Tm 6.7).
Apenas o que temos oferecido a Deus e a nosso próximo permanecerá. A
morte não pode tomar de nós nossas dádivas de amor e gratidão, porque têm
valor espiritual.
Só uma vida, que breve passará;
Só o que é feito para Cristo subsistirá.
Jesus termina sua parábola instando o homem a armazenar tesouro
nos céus e a ser rico para com Deus. Assim Jesus ensinou no Sermão da
Montanha: “Porque onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”
(Mt 6.21).14

13. SI 24.1.
14. O contexto geral aponta, obviamente, para o ensinamento do Sermão da Montanha.
Portanto, a parábola pode ser vista como uma elaboração da instrução de Jesus para que
não armazenemos tesouros na terra, e, sim, nos céus (Mt 6.19,20).

205
28
A Figueira Estéril

Lucas 13.6-9
6“Então Jesus proferiu a se­
guinte parábola: Certo homem ti­
nha uma figueira plantada na sua
vinha e, vindo procurar fruto nela,
não achou. 7Pelo que disse ao viti-
cultor: Há três anos venho procu­
rar fruto nesta figueira, e não acho;
pode cortá-la; para que está ela
ainda ocupando inutilmente a ter­
ra? 8Ele, porém, respondeu: Se­
nhor, deixa-a ainda este ano, até
que eu escave ao redor dela e lhe
ponha estrume. 9Se vier a dar fru­
to, bem está, se não, mandarás cor­
tá-la.”

O proprietário da vinha é tratado apenas como “certo homem”. Se


era rico ou não, pouco importa. O que conta não é o que ele é, mas o que
diz. Esse homem tinha uma figueira em sua vinha — coisa muito comum em
Israel. Depois de ela ter sido plantada, ele teve que esperar três anos até que
a árvore começasse a produzir. Então, de acordo com a lei de Moisés (Lv
19.23), teria que esperar outros três anos até que os frutos fossem conside­

207
AS PARÁBOLAS DE JESUS

rados puros. Passados os primeiros três anos, o proprietário foi procurar


frutos na árvore. Ano após ano, procurou e não encontrou fruto algum. A
árvore era estéril.
Por causa de sua localização, deduzimos que a árvore tinha sido muito
bem cuidada. Ocupava uma parte do terreno que podia ter sido usado para
as videiras. Cada ano que a árvore permanecia estéril significava prejuízo
para o lavrador. Ela absorvia umidade e nutrientes que serviriam para as
videiras. A figueira era como uma dívida que aumentava à medida em que
se passavam os anos. Outra árvore ou videira poderia ser plantada ali e,
dentro de alguns anos, produzir frutos. Há um tempo limite para a paciência
do fruticultor. Então basta!
O proprietário deu instruções ao homem que cuidava da vinha para
que cortasse a figueira. Mas ele pediu ao dono que tivesse ainda um pouco
mais de paciência. Queria dar mais um ano à árvore, durante o qual cavaria
o solo ao seu redor e a adubaria. “Se vier a dar fruto, bem está, se não,
mandarás cortá-la.”
A figueira tinha um papel muito importante na vida de um israelita.
Ele sabia que Deus a usava para indicar a prosperidade de Israel — cada
um vivendo em segurança, debaixo da sua videira e debaixo da sua figueira.1
O contrário também era verdadeiro. Quando Deus se desagradava de seu
povo por causa de sua infidelidade, tornava isso conhecido, referindo-se à
falta de fruto na videira e na figueira.2 Como nação, Israel era, muitas vezes,
representada por uma figueira. Tinha recebido lugar escolhido na vinha de
Deus e era, portanto, altamente privilegiada. Mas, o privilégio traz a respon­
sabilidade. Israel, no entanto, não correspondeu ao privilégio.3 O julgamento
de Deus não podia mais ser adiado, e a falta de figos na figueira simbolizava
o desagrado de Deus.4
A parábola que Jesus ensinou mostra, implícito, um contraste. Se o
homem que era responsável pela vinha dispensou cuidado especial a uma
figueira, durante um ano extra, quanto mais amor e consideração mostrará

1 .1 Rs 4.25; Mq 4.4.
2. Jr8.13; Os 9.10; Hc 3.17.
3. A parábola é uma reminiscência do que está registrado em Is 5.1-7. Vides escolhidas foram
plantadas numa vinha num outeiro fértil. Mesmo assim, após todos os cuidados dedicados às
vides, elas produziram uvas bravas. Veja-se, também, a história de Aicão. Um pai diz a seu
filho: “Meu filho, tu és como uma árvore que o dono é forçado a cortar porque não produz
frutos, embora esteja plantada junto da água. E ela lhe diz: Transplanta-me, e se, m esm o
assim, eu não der frutos, corta-me. Mas, seu dono lhe disse: junto da água não dás frutos,
como, então, frutificarás, estando em outro lugar?” Jeremias, Parables, p. 170; Charles,
Apocrypha and Pseudepigrapha, 2:775.

208
A FIGUEIRA ESTÉRIL

Deus para com o homem, e, certamente, para com seu próprio povo!5
Embora a parábola não diga se o dono colheu figos no ano seguinte ou se
figueira foi cortada, o ponto central da história é que a paciência tem um
tempo limite — um ano e nada mais. A misericórdia de Deus é grande, mas,
no fim, o dia do juízo virá. O tempo da graça concedido ao pecador deve ser
usado por ele para se arrepender e voltar para Deus.
Jesus ensinou a parábola da figueira estéril, no contexto histórico do
triste feito de Pilatos que misturara sangue de galileus aos sacrifícios que os
mesmos realizavam (Lc 13.1-5). Seriam esses galileus assassinados, pecado­
res que mereciam o castigo divino? A resposta de Jesus foi negativa. “Se não
vos arrependerdes”, disse Jesus, “igualmente perccereis.” “Ou cuidais que
aqueles dezoito, sobre os quais desabou a torre de Siloé e os matou, eram
mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém?”. De novo, Jesus
respondeu que não. Chamou outra vez seus ouvintes ao arrependimento, e
prosseguiu contando-lhes a parábola da figueira estéril.
O que, então, ensina a parábola? No contexto das calamidades que
tinham atingido os galileus e os dezoito habitantes de Jerusalém, Jesus
afirmou a seus ouvintes que a paciência de Deus resulta em julgamento se o
pecador não se arrepende. A quem muito se confiou, muito será exigido. O
mesmo sentimento se repete no autor da Epístola aos Hebreus, quando
adverte os cristãos, na segunda metade do primeiro século, a que prestem
atenção ao evangelho. “Se, pois, se tornou firme a palavra falada por meio
de anjos, e toda transgressão e desobediência recebeu justo castigo, como
escaparemos nós, se negligenciarmos tão grande salvação?” (2.2,3).
O ensino da parábola é que, quando o tempo designado para que
homem se arrependa tiver se esgotado, o juízo de Deus estará concluído. O
tempo permitido por Deus é um período de graça, e reflete sua misericórdia
para com o homem. Deus não caminha apenas a segunda milha. Anda a
terceira, e, se necessário, a quarta, a fim de salvar um pecador. Mas, quando
sua paciência se exaure e o chamado de Deus para que o homem se
arrependa continua negligenciado, então o julgamento é inevitável.6
Em nossas orações a Deus, em favor de pecadores impenitentes,
devemos pedir mais tempo. Como o jardineiro da parábola pediu mais um
ano ao proprietário da vinha, assim devemos pedir um pouco mais de
4. Is 34.4; Jr 5.17; 8.13; Os 2.12; J11.17.
5. Mánek, Frucht, p. 93.
6. A parábola pode ser vista como simbolicamente cumprida na maldição lançada à figueira
(Mt 21.18,19; Mc 11.12-14). É muito marcante que apenas Lucas tenha registrado a parábola
da figueira estéril e que dos evangelistas sinóticos ele seja o único que não registra o fato de
Jesus ter amaldiçoado a figueira.

209
AS PARÁBOLAS DE JESUS

paciência. Do mesmo modo, Paulo, em seu interesse por seus conterrâneos,


constantemente implorava a Deus por sua salvação: “Irmãos, a boa vontade
do meu coração e a minha súplica a Deus a favor deles é para que sejam
salvos” (Rm 10.1). Nossa preocupação é com o ganho7 eterno do homem e,
por isso, imploramos a Deus que exerça a paciência e conceda a graça.

7. J. Murray, The Epistle to the R om ans (Grand Rapids: Eerdmans, 1965), 2:47.

210
29
Os Primeiros Lugares
Lucas 14.7-14
“Reparando como os convida­
dos escolhiam os primeiros luga­
res, propôs-lhes uma parábola:
8Ouando por alguém fores convi­
dado para um casamento, não pro­
cures o primeiro lugar; para não
suceder que, havendo um convida­
do mais digno do que tu, 9vindo
aquele que te convidou e também
a ele, te diga: Dá o lugar a este.
Então irás, envergonhado, ocupar
o último lugar. Pelo contrário,
quando fores convidado, vai tomar
o último lugar; para que, quando
vier o que te convidou, te diga:
Amigo, senta-te mais para cima.
Ser-te-á isto uma honra diante de
11
todos os mais convivas. Pois todo
0 que se exalta será humilhado; e o
que se hum ilha será exaltado.
1 Disse também ao que o havia
convidado: quando deres um jan­
tar ou uma ceia, não convides os
teus amigos, nem teus irmãos, nem
211
AS PARÁBOLAS DE JESUS

teus parentes, nem teus vizinhos


ricos; para não suceder que eles,
por sua vez, te convidem e sejas
recompensado. 13Antes, ao dares
um banquete, convida os pobres,
os aleijados, os coxos e os cegos;
14e serás bem-aventurado, pelo
fato de não terem eles com que
recompensar-te; a tua recompen­
sa, porém, tu a receberás na res­
surreição dos justos.”

A p ó s o culto na sinagoga, aos sábados, os judeus costumavam ter uma


lauta refeição, para a qual, muitas vezes, havia vários convidados.1 Um dos
principais dos fariseus convidara Jesus para um desses almoços, com o
propósito de armar-lhe uma cilada. Lá, bem na frente de Jesus, estava um
homem hidrópico. Jesus curaria o homem, no Sábado, ou esperaria até à
noite, quando o sábado terminasse?
Jesus curou o homem e mandou-o para casa, porque os fariseus se
recusaram a responder à sua pergunta, se era ou não lícito curar no sábado.
Ainda lhes propôs outra questão, apelando para o seu senso de compaixão
e misericórdia: “Qual de vós, se o filho ou o boi cair num poço, não o tirará
logo, mesmo em dia de sábado?” Também a essa pergunta, que se referia a
coisas da casa, os fariseus não souberam o que responder.
Naquele ambiente hostil, onde alguns hóspedes tinham egoisticamente
tomado os melhores assentos junto à mesa, Jesus ensinou a parábola dos
convidados orgulhosos — uma lição de humildade. Ele usou a cena de uma
festa de casamento para a qual certo número de pessoas havia sido convida­
dos. Num banquete de casamento, os divãs eram dispostos na forma de uma
ferradura alongada ao redor de uma mesa retangular. À cabeceira da mesa
se colocava a pessoa de maior destaque, com o segundo e o terceiro lugares
à esquerda e à direita desta pessoa.2 Cada divã acomodava três pessoas,
cabendo à do meio a honra maior. O divã à esquerda da cabeceira da mesa
era o segundo em prioridade, e, depois, o divã da direita. Conseqüentemen­
te, os hóspedes judeus se orientavam pela etiqueta social da época para
encontrar o lugar certo à mesa. No entanto, se a escolha de lugares ficasse a
critério dos convidados, muitos demonstravam seu egoísmo, preconceito e

1. SB, 11:202.
2. A . Edersheim, The Life and Tim es o f Jesus the M essiah (Grand Rapids, Eerdmans, 1953)
2:207. Veja-se, também, Morris, Luke, p. 231. Plummer, S t Luke, p. 356; SB, IV: 2.618.

212
OS PRIMEIROS LUGARES

orgulho. Foi exatamente isso que aconteceu, naquele dia, na casa do fariseu
que tinha convidado Jesus. Os fariseus e os doutores da lei tinham criado
um clima de soberba e arrogância desprovido de amor e humildade. Nessas
circunstâncias, Jesus ensinou uma lição de auto-depreciação.
A parábola é encontrada apenas no Evangelho de Lucas, embora o
sentimento que ela expressa ocorra em outros lugares dos Evangelhos e
Epístolas.3 Naturalmente, nos lembramos de quando Jesus lavou os pés dos
discípulos, no cenáculo, na noite em que foi traído.

O Exemplo

Os fariseus e os doutores da lei estavam acostumados com os Provér­


bios de Salomão. Conheciam muito bem o trecho que diz: “Não te glories na
presença do rei, nem te ponhas no meio dos grandes; porque melhor é que
te digam: Sobe para aqui; do que seres humilhado diante do príncipe” (Pv
25.6,7). Jesus se referiu habilmente a esta passagem quando descreveu um
salão cheio de convidados para as bodas, assentados à mesa. Um convidado
mais importante chegou quando todos os assentos escolhidos junto da mesa
estavam já ocupados.4 O anfitrião não podia permitir que esse hóspede tão
ilustre tomasse um lugar inferior. Isso seria uma quebra imperdoável da
etiqueta. Em tal caso, o hospedeiro tinha apenas uma escolha: pedir à pessoa
que ocupava o lugar de honra, ao qual não tinha direito, que ocupasse um
lugar inferior, e, então convidar o visitante ilustre para ocupar o lugar de
destaque. O convidado, humilhado, aprenderia uma lição difícil de esquecer.
Ao chegar, não seria mais prudente ocupar o lugar de menor destaque,
à mesa? Se o anfitrião julgasse que o lugar ocupado era modesto demais,
convidaria o hóspede, dizendo: “Amigo, senta-te mais para cima.” Conse­
qüentemente, o convidado seria honrado na presença de todos os outros. Do
lugar mais humilde até ao mais honrado. As palavras de Jesus: “Pois todo o
que se exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado”, eram muito
familiares naquela época. Um contemporâneo de Jesus, o Rabino Hillel,
citava um provérbio judaico semelhante: “Minha própria submissão é minha
exaltação; minha própria exaltação é minha submissão.”5
Jesus não pretendia ensinar aos fariseus e teólogos apenas algumas
regras de boas maneiras à mesa. Ensinou uma lição de humildade e amor
dirigindo-se aos convidados que ali estavam, bem como àquele que o convi­
3. Por exemplo: Mt 18.4; 23.12; Rm 12.16; 1 Pe 5.6.
4. Os doutores da lei eram notórios por ocuparem lugares de honra nos banquetes. Veja Mt
23.6 e seus paralelos: Mc 12.39; Lc 20.46.
5. M idrash Rabbah Leviticus, 1,5 (London: 1961), p. 9.

213
AS PARÁBOLAS DE JESUS

dara. Jesus disse ao hospedeiro que este não devia convidar com interesse
de ser recompensado: “Porque, se amardes os que vos amam, que recom­
pensa tendes?” (Mt 5.46). Se o anfitrião convida seus parentes, amigos e
conhecidos para comerem com ele, com a intenção de que eles, depois,
também o convidem, estará pensando no quanto receberá de volta. Mas, se
convida pessoas que são financeira e socialmente impossibilitadas de retri­
buir o convite, sua recompensa será paga pelo próprio Deus, por ocasião da
ressurreição.
Quem promoveria um banquete e convidaria a mais baixa classe da
sociedade: os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos? Financeiramente, os
pobres dependem dos ricos, e aqueles que são aleijados, coxos e cegos,
muitas vezes, precisam da ajuda dos que são fisicamente capazes. Essas
pessoas não têm meios nem força para retribuir os favores.
Quando o convite é extensivo às pessoas que não têm acesso aos
prazeres da mesa, gozados pelos ricos, a bênção se torna merecida. Natural­
mente, Jesus não estava dizendo que 0 anfitrião deveria convidar apenas os
oprimidos. Ele ensina que os nossos atos devem ser praticados sem que
esperemos reciprocidade. Devem ser executados com espírito de humildade
e amor desinteressados. Tais atos recebem a aprovação divina, pois: “Sem­
pre que o fizestes a um destes meus pequeninos irmãos, a mim o fizestes”
(Mt 25.40). Este ensino universal não se limita ao oferecimento de banque­
tes, mas inclui também todas as dádivas que não podem ser retribuídas por
aqueles que as recebem.

214
30
A Grande Ceia
Lucas 14.15-24
15“Ora, ouvindo tais palavras,
um dos que estavam com ele à
mesa, disse-lhe: Bem-aventurado
aquele que comer pão no reino de
Deus. 1 Ele, porém, respondeu:
Certo homem deu uma grande
ceia e convidou a muitos.1 À hora
da ceia enviou o seu servo para
avisar aos convidados: Vinde, por-
18
que tudo já está preparado. Não
obstante, todos à uma começaram
a escusar-se. Disse o primeiro:
Comprei um campo, e preciso ir
vê-lo; rogo-te que me tenhas por
escusado. 19Outro disse: Comprei
cinco juntas de bois e vou experi­
mentá-las; rogo-te que me tenhas
por escusado. 20E outro disse: Ca-
sei-me, e por isso não posso ir.
21Voltando o servo, tudo contou
ao seu senhor. Então, irado, o
dono da casa disse ao seu servo:
Sai depressa para as ruas e becos
da cidade e traze para aqui os po-
215
AS PARÁBOLAS DE JESUS

bres, os aleijados, os cegos e os


coxos. 22Depois lhe disse o servo:
Senhor, feito está como mandaste,
e ainda há lugar. Respondeu-lhe
o senhor: Sai pelos caminhos e ata­
lhos e obriga a todos a entrar, para
cjue fique cheia a minha casa.
Porque vos declaro que nenhum
daqueles homens que foram convi­
dados provará a minha ceia.”

A o ensinar na casa de um dos principais dos fariseus, Jesus provocou


o comentário de um dos convidados que estavam com ele à mesa. Ele disse:
“Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus.” Falando assim,
deixava implícito que, a qualquer custo, ele estaria presente nas festas
celestiais. Mas, quando o convite para a celebração desta festa nos céus
chegasse, estaria ele disposto a aceitá-lo? Jesus quis testar a sinceridade do
homem e contou a parábola sobre uma grande ceia.

A História

Uma pessoa abastada, numa certa cidade, preparou cuidadosamente


uma grande ceia. Ele tinha falado a respeito com numerosos amigos que
receberam bem sua idéia de oferecer um banquete. Disseram-lhe que,
quando tudo estivesse pronto, o que tinha a fazer era falar, e eles iriam.
No dia da ceia, o homem mandou seu servo avisar os convidados que
já estava preparada a festa.1 Ele chegou à casa do primeiro convidado, e
disse: “Vinde, porque tudo já está preparado.” Infelizmente, o convidado
tinha um compromisso e, com tristeza, teve que recusar o convite. Disse ao
servo: “Comprei um campo, e preciso ir vê-lo.” Realmente, queria dizer:
“Sinto muito, mas não posso comparecer ao banquete. Os negócios vêm
antes do prazer. Rogo-te que me tenhas por escusado.” Mandou lembranças
ao anfitrião, e esperou que este o compreendesse.
O servo procurou o segundo convidado, e chamou-o para a ceia, pois
o anfitrião estava à espera: “Vinde, porque tudo já está preparado.” O
homem pareceu perplexo, ao ouvir o convite. Estava tratando de negócios.
Tinha acabado de pagar uma quantia razoável por cinco juntas de bois e se
preparava para experimentá-las. Não podia sair, pois os homens que condu­
ziam os bois dependiam dele. Era o único que podia tomar decisões. E ra o
1. Aprática de enviar servos para chamar os convidados era muito comum nos tempos antigos.
Ester 6.14 e SB, 1:880.

216
A GRANDE CEIA

chefe, ali. Sair de sua fazenda naquele momento, para tomar parte em um
banquete, seria muita irresponsabilidade. Ele expressou profundo pesar e
pediu ao servo que levasse suas saudações ao anfitrião. Tinha certeza de que
o outro entenderia sua situação embaraçosa.
O servo continuou, e bateu à porta do terceiro convidado. A esta altura
já estava preparado para receber resposta negativa ao convite de seu senhor.
Quando fez ao convidado, o chamado para o banquete, ficou sabendo que
este se casara durante aquela semana, e estaria ocupado com suas próprias
festas. Realmente, ele nem precisava se justificar. Ninguém estranharia o
fato de o noivo querer ficar ao lado de sua noiva.
Depois de ter falado com todos os convidados, o servo voltou ao
anfitrião e transmitiu-lhe todas as desculpas e lembranças enviadas. Com-
preensivelmente, o dono da casa não se sentiu satisfeito. Ficou muito zanga­
do. Não podia perder toda a comida preparada. Não tinha outra escolha
senão encher sua casa com outros convidados. Assim, ordenou ao servo que
fosse às ruas e becos da cidade e trouxesse para a ceia os mendigos, aleijados,
cegos e coxos, que encontrasse. O servo cumpriu as ordens do seu amo, mas,
quando os convidados já estavam assentados, ainda sobrava lugar. O senhor
o enviou, para que buscasse todos os marginalizados pela sociedade, que
encontrasse pelos caminhos e atalhos da cidade. O anfitrião queria que todos
os lugares do banquete fossem ocupados, de modo que se algum daqueles
que convidara antes chegasse atrasado, não poderia entrar, pois não haveria
mais lugar.

Interpretação

Um dos convidados presentes à casa do fariseu ilustre tinha dito:


“Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus.” Ele visualizava
o céu como o lugar onde não há mais morte, luto, lágrimas, ou dor (Ap 21.4),
onde os cegos vêem e os coxos andam. Que bênção se assentar em lugar
reservado, à mesa de Deus, como um filho seu, e participar com gozo da festa
e da comunhão celestiais.
Jesus ensinou a parábola da grande ceia para mostrar que mesmo
tendo intenção de honrar nossas obrigações em relação a Deus, quando os
cuidados e interesses da vida terrena fazem seus reclamos, nós os pomos em
primeiro lugar, e oferecemos nossas desculpas a Deus. Prometemos a Deus
amá-lo com todo o nosso coração, toda a nossa mente e toda a nossa alma.
Porém, a promessa prontamente se esvazia quando os interesses desta vida
exigem nossa atenção. Então, apresentamos nossas desculpas a Deus e
dizemos que ele deve compreender o acúmulo de nossas responsabilidades,

217
AS PARÁBOLAS DE JESUS

nossos compromissos, e que as oportunidades não se apresentam com muita


freqüência. Nossas obrigações, relacionamentos e conveniências contra­
riam, freqüentemente, a promessa de amar a Deus e de servi-lo. Satisfazemos
nossos próprios interesses e esperamos que Deus nos dê uma segunda
oportunidade.
As desculpas apresentadas pelos convidados simplesmente não se
sustentariam. Elas fazem referência a negócios e assuntos de família que
poderiam facilmente ficar em segundo plano em relação ao convite anterior­
mente aceito. O campo ainda estaria lá no dia seguinte, para ser vistoriado.
Os bois poderiam descansar por uma noite e os recém-casados poderiam
concordar numa separação ocasional.
A seqüência de desculpas atinge um limite. Na fala de Jesus, após o
almoço, percebemos uma nota de humor. Primeiro, o exemplo do homem
que tinha comprado um campo é despropositado — quem compra um
campo vai vê-lo antes de comprá-lo, não depois. Do mesmo modo, a segunda
desculpa não convence — as cinco juntas de bois podiam ser postas para
trabalhar no dia seguinte. Além disso, se o fazendeiro não tivesse experi­
mentado as juntas de bois antes de comprá-las, teria feito uma grande tolice.
O terceiro exemplo foi o ponto culminante das ilustrações. O marido recém-
casado, incapaz de deixar a esposa por uma noite, fornece excelente material
para inúmeras brincadeiras.4
Ao enumerar essas desculpas, o objetivo de Jesus era mostrar sua
inconsistência e fragilidade. Ninguém poderia levá-las a sério. Elas simples­
mente não resistiriam. Nos dias de Jesus todo mundo sabia da importância
de um convite para um banquete. Recusar-se a atender o segundo convite
constituía um insulto ao dono da casa — em tal grau que, entre as tribos
árabes, eqüivalia a uma declaração de guerra.5 O convite devia ser conside­
rado uma ordem.

2. Schippers, Gelijkenissen, p. 45.


3. O fazendeiro que comprou cinco juntas de bois devia possuir muita terra. Provavelmente,
mais de 45 hectares (111 acres). Jeremias, Parables, p. 177.
4. H. Palmer, “Just Married, Cannot Come”, NovT 18 (1976):241-57. Veja especialmente a
pagina 248. O Evangelho de Tom é, Citação 64, tem uma série maior de desculpas. A
primeira. Alguns comerciantes me devem dinheiro; virão me procurar esta noite; preciso
dar algumas ordens a eles. Peço para ser dispensado do jantar.” O segundo convidado disse:
“Comprei uma casa, estarei ocupado durante todo o dia.” O terceiro disse: “Meu amigo vai
se casar e eu vou ser responsável pela festa. Peço desculpas por não ir ao banquete.” O quarto
se desculpou, dizendo: “Comprei uma vila; tenho que receber o aluguel; não poderei ir. Peço
que m e tenhas por escusado.”
5. Plummer, SL Luke, p. 360.

218
A GRANDE CEIA

Os que ouviam Jesus, na casa do fariseu, compreenderam que a


parábola era endereçada a eles. O hospedeiro e seus hóspedes estavam
sendo convidados novamente para o banquete de Deus, ao qual já tinham
aceito comparecer. Eles viriam ou Deus deveria procurar outros, porque os
hóspedes convidados se recusavam a ir? Jesus disse aos fariseus e aos
doutores da lei que o banquete de Deus não é um acontecimento a ser
celebrado no final dos tempos. A festa já está pronta e Deus espera, então,
a resposta que têm para dar.6 Respondendo ao homem que tinha comenta­
do: “Bem-aventurado aquele que comer pão no reino de Deus”, Jesus falou:
“Sim. Vinde, porque a festa já está preparada. Os convidados devem vir
agora. Depois será tarde demais.” As instituições religiosas dos dias de Jesus
não estavam preparadas para aceitar a vinda do reino, apesar dos sinais e
maravilhas realizados por Jesus, diante de todos.
Pela parábola, Jesus deixou entrever que não haverá falta de cidadãos
no reino de Deus. Se os líderes religiosos de Israel rejeitassem o convite de
Deus para a entrada no reino, ele o estenderia aos marginalizados pela
sociedade, isto é, aos coletores de impostos, indecisos e gentios.7
A mensagem de salvação não foi aceita pelos líderes religiosos dos dias
de Jesus. Ela muitas vezes foi alvo de escárnio e desprezo. O povo comum a
aceitou com ardor. Marginais, ignorantes, samaritanos e gentios atenderam
prontamente ao chamado de Jesus.

Colocação

A parábola da grande ceia foi contada por Jesus após um almoço de


sábado, que se seguiu ao culto da manhã. A parábola sobre o banquete das
bodas foi contada por Jesus nos últimos dias de seu ministério terreno (Mt
22.1-14). As duas têm um tema comum, mas sua disposição é inteiramente
diferente. Em Lucas, a parábola é dirigida aos fariseus e doutores da lei. Em
Mateus, a parábola do banquete nupcial se volta contra os líderes religiosos.8
O relato de Mateus se refere à dura realidade de um rei que, provocado até
à ira, reaje com pronto castigo. No Evangelho de Lucas, o quadro apresen­
tado é o de um anfitrião que, se sentindo deliberadamente menosprezado,
extravasa seus sentimentos convidando a escória da sociedade.

6. Huner, Parables, p. 94. Linnemann, p. 91.


7. Talvez a diferença entre os desamparados que vivem na cidade e os que estavam fora, no
campo, se refira ao judeu errante, que “não está longe do reino”, e ao gentio destituído de
instrução religiosa.
8. Palmer, “Just Married”, p. 256.

219
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Os quatro Evangelhos mostram, repetidamente, que Jesus ensinava à


maneira dos rabinos daquela época. Para ele, ensinar significava repetir.^
Assim, ensinou a parábola da grande ceia na ocasião em que foi convidado
para um almoço de sábado na casa de um fariseu. Alguns dias antes de sua
morte, ele contou a parábola sobre o banquete de núpcias.10
Quando Jesus contou a parábola da grande ceia, aqueles que tinham
instrução religiosa e teológica puderam perceber a alusão a duas passagens
encontradas em Deuteronômio:
“Os oficiais falarão ao povo, dizendo: Qual o homem que
edificou casa nova e ainda não a consagrou? Vá, torne-se para
sua casa, para que não morra na peleja e outrem a consagre.
Qual o homem que plantou uma vinha e ainda não a desfrutou?
Vá, torne-se para sua casa, para que não morra na peleja e
outrem a desfrute. Qual o homem que está desposado com
alguma mulher e ainda não a recebeu? Vá, torne-se para sua
casa, para que não morra na peleja e outro homem a receba”
(Dt 20.5-7).
“Homem recém-casado não sairá à guerra, nem se lhe imporá
qualquer encargo; por um ano ficará livre em sua casa e
promoverá felicidade à mulher que tomou” (Dt 24.5).
Os teólogos sabiam que estas passagens eram válidas apenas em
relação à guerra e ao serviço militar e que não serviam de desculpa para
obrigações sociais.11
Eles conheciam, também, os costumes prevalecentes. Quando o pri­
meiro convite fosse feito, o hospedeiro poderia aceitar as desculpas apre­
sentadas. Recusar um segundo convite, quando tudo já estava preparado,
era não apenas faltar ao prometido, mas também insultar o hospedeiro. A
parábola, claramente, se dirigia e se aplicava aos fariseus e doutores da lei.
Se não aceitassem o convite para serem hóspedes de Jesus, no reino de Deus,
seriam deixados de lado, e outros, que não mereciam seu respeito, tomariam
seus lugares.

9. E. Schürer, A History o f the Jewish People in the Tim e of JeSus Christ, Division II, vol. I
(Edinburgh: T& T Clark, 1885), p. 324.
10. Palmer, “Just Married”, p. 255.
11. Morris. Luke, p. 234. P. H. Ballard, “Reasons for Refusing the Great Supper”, JTS 23 (1972V
345.

220
A g r a n d e c e ia

Aplicação

O hospedeiro é, às vezes, visto como vítima das circunstâncias. Seria


compreensível que um dos convidados declinasse o convite, mas o anfitrião
fica sabendo que todos se recusaram a ir.12 Talvez seja mais lógico ver
menosprezo deliberado no fato de que todos os convidados — c não temos
que nos ater a apenas três exemplos — se recusaram a ir. Ainda que não
tenham combinado ente si, o efeito foi o mesmo. Os convidados refletiam a
atitude da hierarquia religiosa.
Jesus envolveu a si mesmo na conclusão, quando disse: “Porque vos
declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a
minha ceia.” Quem fala já não é mais o hospedeiro dirigindo-se ao servo.
Jesus é a figura central, é ele quem fala “minha” ceia, e diz que nenhum dos
convidados insolentes provará da sua comida.13 Jesus é o anfitrião que,
através de seus servos, envia convites chamando o povo para a festa no reino
de Deus. Quando o convite é enviado por Jesus, com seus servos falando ao
povo, não deve ser entendido como um chamado que pode ser aceito ou
rejeitado, de acordo com a própria vontade. O chamado é equivalente a uma
ordem que deve ser cumprida.14 O povo de Deus, que é parte e parcela da
igreja, recebe o chamado para o serviço obediente. Já responderam ao
convite inicial. Agora, soa o chamado para o serviço. Será que o povo de
Deus vai responder à ordem de amar a Deus de todo o coração e ao próximo
generosamente?15 O homem que come do pão do banquete no reino de Deus
é chamado de bem-aventurado, porque obedece às leis do reino e cumpre
as ordens do Rei.
A lição da parábola é clara. Jesus está enviando seus servos com a
mensagem da vinda do reino de Deus. Os que ouvem a mensagem são
convidados a fazer parte desse reino. Não devem apresentar desculpas e se
demorar porque Jesus não reservará um lugar para eles.16 Ele preencherá
12. Jeremias, Parables, p. 179, afirma que “podemos pensar que o hospedeiro era um coletor
de im postos que, tendo-se tornado rico, tenha enviado convites com a esperança de ser
aceito nos mais altos círculos.” Ele se baseia na convicção de que Jesus tenha usado uma
história corrente, naqueles dias, de um rico publicano, Bar M a’Jan, registrada no Talmud
Palestino (J. Sanh. 6-23c par. J. Hagh 2.77d). É discutível, no entanto, se a parábola copia
a história. Linnemann, Parables, pp. 160-62; F. Hahn, “D as Gleichnis von der Einladung
Zum Festmahl, "Verborum Veritas“, p. 67; Derrett, Law In the New Testam ent, p. 143.
13. Derrett, Lawin the New Testament, p. 141, afirma que um hospedeiro enviaria porções da
comida a amigos que não pudessem comparecer ao banquete. Distribuindo a comida aos
pobres, o anfitrião recusou até mesmo “um sinal de reconhecimento e reciprocidade”.
14. Michaelis, G leichnisse, p. 158.
15. O. Glombitza, “Das Grosse Abendmahl Luk XIV 12-24, NovT 5 (1962):15.
16. Palmer, “Just Married”, p. 253.

221
AS PARÁBOLAS DE JESUS

os lugares de seu reino com outros, que virão daqui e dali. Ele quer que sua
casa fique repleta. Ele diz: “Obriga a todos a entrar.”
A parábola tem sentido obviamente missionário. Jesus reúne seu
próprio povo das ruas e becos da cidade, e das estradas e atalhos dos campos.
Ele não se envergonha de chamar de seus irmãos os pobres, os aleijados, os
cegos e os coxos (Hb 2.11). Estes são feitos santos e pertencem à família de
Deus. Numa época em que muitos que pertencem à igreja oferecem fracas
desculpas para não participarem da obra contínua do reino de Deus, os
servos fiéis de Deus devem sair às ruas e becos da vida, com o convite para
que todos aceitem a Jesus Cristo, o Salvador do mundo. Enquanto esses que
se recusam a tomar conhecimento do chamado de Jesus são preteridos e
perdem sua cidadania do reino, estranhos ao reino são convencidos a
responder, pela fé, ao chamado de Cristo.
O convidado precisa ter fé para aceitar o convite. Quando o servo
chega com o recado do hospedeiro: “Vinde, porque tudo já está preparado”,
o convidado vê apenas um homem.17 Quando um ministro da Palavra de
Deus proclama a mensagem de salvação, muitos que ouvem a Palavra vêem
apenas um homem. É preciso fé para que se possa ver e ouvir, através do
pregador, Jesus Cristo, o Salvador, que oferece, de graça, salvação plenária.
O carcereiro de Filipos procurou Paulo e Barnabé, e lhe foi dito: “Crê no
Senhor Jesus, e serás salvo, tu e tua casa” (At 16.31).

17. Wallace, Parables, p. 69.

222
31
O Construtor da Torre
e o Rei Guerreiro

Lucas 14.28-33

28“Pois, qual de vós, pretenden­


do construir uma torre, não se as­
senta primeiro para calcular a
despesa e verificar se tem os meios
para a concluir? 29Para não suce­
der que, tendo lançado os alicer­
ces e não a podendo acabar, todos
os que a virem zombem dele, ^ d i­
zendo: Este homem começou a
construir e não pôde acabar. Ou,
qual é o rei que, indo para comba­
ter outro rei, não se assenta pri­
meiro para calcular se com dez mil
homens poderá enfrentar o que
vem contra ele com vinte mil?”
32Caso contrário, estando o outro
ainda longe, envia-lhe uma embai­
xada, pedindo condições de paz.
33Assim, pois, todo aquele que
dentre vós não renuncia a tudo
quanto tem não pode ser meu dis­
cípulo.”

223
AS PARÁBOLAS DE JESUS

A s parábolas gêmeas sobre o homem que queria construir uma torre


e o rei que devia partir para a guerra são encontradas apenas no Evangelho
de Lucas. Foram contadas quando Jesus seguia da Galiléia para Jerusalém,
acompanhado por grandes multidões. O povo, de modo errôneo, via Jesus
como um governante terreno que caminhava para Jerusalém, a fim de
estabelecer seu reino, e queriam estar lá com ele e seus discípulos. Mas, em
Jerusalém Jesus não ocuparia nenhum trono secular. Seria, antes, aprisiona­
do, julgado e executado. Seus seguidores iriam perceber o custo do discipu-
lado antes mesmo de se decidirem a lançar sua sorte com Jesus.1 Deviam
saber que qualquer um que não aborreça seus parentes e até sua própria
vida por causa de Jesus, não pode ser seu discípulo (Lc 14.25-27).
Em termos semíticos, aborrecer significa amar menos alguém ou algu­
ma coisa. Significa que ninguém ou nada deve ter prioridade. Tudo mais deve
ser relegado a segundo ou terceiro plano. Apenas aquele que afirmar: “Jesus
é o primeiro em minha vida” pode ser seu discípulo. Ser discípulo de Jesus
significa carregar sua própria cruz e seguir Jesus onde quer que ele vá. O
único que disse; “Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarrega­
dos...” (Mt 11.28), disse também: “Qualquer que não tomar a sua cruz, e vier
após mim, não pode ser meu discípulo” (Lc 14.27). “Ninguém que, tendo
posto a mão no arado, olha para trás, é apto para o reino de Deus” (Lc 9.62).
O discipulado exige compromisso de entrega total a Jesus. “É preciso avaliar
o custo”, Jesus disse à multidão que o acompanhava, “e considerar o que
realmente representa me seguir”.

As Duas Parábolas

Para ilustrar o que queria ensinar, Jesus contou duas parábolas relati­
vamente curtas. A primeira é tirada do cenário agrícola daqueles dias, e a
segundo de um fato político. As duas parábolas ensinam a mesma lição e,
com simplicidade, vão direto ao objetivo.
Suponhamos, diz Jesus, que um fazendeiro resolva construir uma torre
em sua fazenda. Ele precisa de um lugar onde guardar suas ferramentas e
suas provisões. Quer proteger sua propriedade de estranhos e ladrões. Se
construir a torre obterá respeito na comunidade e sua propriedade aumen­
tará seu valor. Reconhece a necessidade da construção,2 mas não se assenta

1 .0 tema “o custo do discipulado” é estudado em livro do mesmo título, de Dietrich Bonhoeffer.


Neste trabalho, Bonhoeffer fala da auto-entrega e do auto-sacrifício dos quais deu pessoal­
m ente testemunho, quando foi executado em 9 de abril de 1945, numa prisão alemã.
2. Smith, Parables, p. 220, raciocina que, por causa da referência ao custo do alicerce, “algo de
maior valor que o simples erguimento de uma torre de vigia, em uma vinha, deve ser levado
em conta, talvez, uma construção rural.”

224
O CONSTRUTOR DA TORRE E O REI GUERREIRO

para calcular o total do custo do material e da mão de obra envolvidos.


Começa a construção da torre lançando os alicerces. Quando está ocupado
com a estrutura, o dinheiro acaba e ele tem que abandonar o projeto. Ali
fica a torre, inacabada, e, num certo sentido, sem valor. O fazendeiro perdeu
seu dinheiro investindo-o numa construção que não pode usar, inacabada
como está. Perdeu seu prestígio na comunidade, pois todos os que vêem a
estrutura incompleta o ridicularizam dizendo: “Este homem começou a
construir e não pôde acabar.” Ele se tornou motivo de riso no lugar.
Com seus exemplos, Jesus vai da fazenda para o palácio. Suponhamos,
ele diz, que um rei precise combater outro rei. Uma disputa territorial se
estabeleceu, paixões se inflamaram, palavras de retaliação e vingança se
fizeram ouvir. Como líder, o rei precisava decidir se partia ou não para a
guerra. Ele seria completamente louco se enviasse para a guerra seu exército
de dez mil homens para se confrontar com o dobro de soldados, no campo
de batalha. Então se assenta, antes, com seus conselheiros militares e calcula
o risco de partir para a guerra contra um inimigo superior em força. Se for
prudente, enviará alguns delegados para discutir os termos de paz com o
inimigo e evitar o derramamento de sangue.3
A ênfase é a mesma nas duas parábolas, embora variem os pormeno­
res. Na que fala sobre o construtor da torre, a mensagem é: avalie o custo,
antes de construir. Na do rei guerreiro, é: considere as possibilidades de
sucesso, antes de enviar seus soldados à batalha; esteja pronto, e disposto a
ceder. “Assim, pois, todo aquele que dentre vós não renuncia a tudo quanto
tem, não pode ser meu discípulo”, diz Jesus.

Conclusão

À primeira vista, o ensino das parábolas parece contrariar a mensagem


do evangelho de Cristo, de fazer discípulos de todas as nações (Mt 28.19).
Depois de refletir, no entanto, ninguém pode dizer que as parábolas preten­
dam desencorajar possíveis discípulos. Em conjunto, os dois exemplos usa­
dos por Jesus mostraram-lhes como se tornar verdadeiros discípulos. Jesus
não quer e nem precisa de seguidores cujos corações não estejam totalmente
comprometidos. Tais seguidores são como as sementes que caem nos lugares
rochosos. Ouvem a Palavra e a recebem imediatamente, com alegria. Mas,
porque não têm raiz, não permanecem. Quando vem a dificuldade e a
perseguição, por causa da Palavra, desistem (Mt 13.20,21).
3. O Evangelho de Tom é, Citação 98, tem um interessante paralelo à parábola do rei guerreiro:
“Jesus disse: O reino do Pai é semelhante a um homem que queria matar um outro homem
poderoso. Ele sacou sua espada dentro de sua casa e golpeou com ela a parede, até saber que
sua mão tinha força suficiente. Então, matou o homem poderoso.”

225
AS PARÁBOLAS DE JESUS

As parábolas põem em destaque dois pontos principais: (1) o discípulo


de Jesus deve ponderar tudo muito cuidadosamente; e, (2) deve estar
disposto a renúnciar tudo por causa de Jesus.4 O discipulado não se baseia
em emoções fingidas e entusiasmo superficial. Estes vêm e vão. Mas o
compromisso genuíno é o alicerce no qual o discípulo de Jesus constrói. Ele
tem que avaliar o custo, com cuidado, e analisar os riscos que corre ao seguir
Jesus. Deve renunciar prontamente a seus parentes e posses, a fim de tomar
sua cruz e seguir a Jesus.
Três vezes Jesus repete o refrão: “não pode ser meu discípulo” (Lc
14.26,27,33). Com toda a certeza, apenas aqueles que avaliaram o custo e
estão dispostos a renunciar a tudo por causa de Cristo são verdadeiramente
seus discípulos.

4. P. G. Jarvis, “Expouding the Parables. V. The Tower-builder and the King going to War
(Luke 14.25-33), ExpT 77 (1966): 197.

226
32
A Ovelha Perdida

Mateus 18.12-14 Lucas 15.4-7

12
“Que vos parece? Se um 4“Qual, dentre vós, é o
homem tiver cem ovelhas, e homem que, possuindo cem
uma delas se extraviar, não dei­ ovelhas, e perdendo uma
xará ele nos montes as noventa delas, não deixa no deserto
e nove, indo procurar a que se as noventa e nove e vai em
extraviou? 13E, se porventura a busca da que se perdeu, até
encontra, em verdade vos digo encontrá-la? 5Achando-a,
que maior prazer sentirá por põe-na sobre os ombros,
causa desta, do que pelas no­ cheio de júbilo. 6E, indo
venta e nove, que não se extra­ para casa, reúne os amigos
viaram. 14Assim, pois, não é da e vizinhos, dizendo-lhes:
vontade de vosso Pai celeste Alegrai-vos comigo, por­
que pereça um só destes pe­ que já achei a minha ovelha
queninos.” perdida. 7Digo-vos que as­
sim haverá maior júbilo no
céu por um pecador que se
arrepende, do que por no­
venta e nove justos que não
necessitam de arrependi­
mento.”

E n t r e as parábolas contadas por Jesus, a da ovelha perdida é a que


tem tido maior apelo entre as crianças. Elas conseguem visualizar a ovelha
227
AS PARÁBOLAS DE JESUS

perdida, o amor e a preocupação do pastor, e sua alegria e felicidade quando


a reencontra. Muitas canções e hinos têm sido escritos sobre o tema.
Tanto Mateus quanto Lucas registraram a parábola da ovelha perdida.
Em resumo, os dois relatos se mostram idênticos, embora haja variação nos
pormenores. É bem possível que Jesus tenha contado a parábola duas vezes,
em ocasiões diferentes.1 Além disso, histórias sobre pastores e ovelhas
tinham particular interesse e significado para a sociedade pastoril daqueles
dias.
Em Mateus, bem como em Lucas, Jesus começa a parábola com uma
pergunta de retórica que, em Lucas, envolve os ouvintes (“Qual, dentre
vós”): que, possuindo cem ovelhas... não deixa no deserto as noventa e
nove...?” Alguém que possuísse cem ovelhas não era um homem de muitos
recursos. Ele mesmo tomava conta do rebanho, conhecia-as pelo nome e as
contava pelo menos uma vez por dia.2
Quando o pastor se distraiu por momentos, uma das ovelhas se afastou,
abocanhando algo aqui e ali, até que estava completamente desgarrada do
resto do rebanho. O pastor deixou o resto do rebanho nos montes (Mateus)
ou no deserto (Lucas).3 Embora a parábola diga apenas que o pastor deixou
as noventa e nove ovelhas, não menciona que as deixou desprotegidas.4 Além
do mais, o objetivo da parábola não são as noventa e nove, e, sim, aquela que
se perdeu. As ovelhas são animais gregários; vivem juntas em grupo. Quando
uma ovelha se separa do rebanho, fica desnorteada.5 Deita no chão, imóvel,
esperando pelo pastor. Quando ele, afmal, a encontra, coloca-a sobre os
ombros, para caminhar de volta, mais depressa, até onde deixou o rebanho.6
Logo o pastor, a ovelha e o rebanho estão todos juntos outra vez.
Este poderia ter sido o final da história, mas não foi. A história cresce
em emoção no seu clímax com a alegria que toma conta do pastor. Jesus diz:
“... em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta, do que
pelas noventa e nove, que não se extraviaram” (Mt 18.13). Para ser verda­
1. Marshall, Luke, p. 600’; Plummer, St. Luke, p. 368. Para um estudo mais detalhado,
consulte-se J. Jeremias, “Tradition und Redaktion in Lukas 15", ZNW 62 (1971): 172-89.
2. E. F. F. Bishop, “The Parable of the Lost or Wandering Sheep”, ATR 44 (1962): 50.
3. M. Black. An Aramaic Approach to the G ospels and Acts, 3rd ed. (Oxford; Clarendon Press,
1967), p. 133, sugere que a palavra m ontes pode ter recebido a influência do aramaico tura,
“que no siríaco da Palestina tinha dois sentidos: ‘montanha’ e ‘campo’, o ‘campo aberto’ em
contraste com os lugares habitados.”
4. “D evem os imaginá-las em algum lugar cercado” Smith, Parables, p. 188 ns 2.
5. Armstrong, Parables, p. 185.
6. Jeremias, Parables, p. 134, e Brouwer, G elykenissen, pp. 225-26, descreve o pastor com uma
ovelha ao redor do pescoço, segurando suas patas dianteiras e traseiras com cada uma das
mãos. Veja-se também SB, 11:209.

228
A OVELHA PERDIDA

deira a felicidade precisa ser compartilhada. O pastor vai para casa, chama
seus amigos e vizinhos e os convida a se alegrarem com ele, porque, diz o
pastor: “... já achei a minha ovelha perdida” (Lc 15.6). A tensão que o pastor
sentira enquanto procurava a ovelha extraviada tinha desaparecido, dando
lugar à alegria.7 Ele comemora com seus amigos e vizinhos.

Aplicação

Os relatos de Mateus e Lucas diferem, obviamente, na aplicação, por


causa das circunstâncias históricas nas quais Jesus contou a parábola. No
Evangelho de Mateus, uma pergunta foi proposta pelos discípulos: “Quem
é, porventura, o maior no reino dos céus?” Ao responder, Jesus, de modo
muito significativo, colocou uma criança no círculo dos discípulos e lhes
disse: “Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo
algum entrareis no reino dos céus” (Mt 18.3). Prosseguiu advertindo-os a
não fazer “tropeçar a um destes pequeninos que crêem em mim”, nem a
desprezá-los. Jesus, então, contou a parábola da ovelha perdida e aplicou-a
às crianças. “Assim, pois, não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça
um só destes pequeninos.”

No contexto, a expressão se refere às crianças, mas, levando em conta


a demonstração visual feita por Jesus, colocando uma delas no círculo dos
discípulos, “estes pequeninos” passa a ter conotação espiritual. Jesus está se
referindo àqueles cuja fé mantém a simplicidade das crianças.8 Como um
pastor vigia suas ovelhas, e até mesmo sai à procura daquela que se extravia,
assim Deus cuida daqueles que acreditam nele, especialmente os ainda
crianças na fé.9 Se algum se extraviar, Deus irá em busca dele porque não
quer “que pereça um só destes pequeninos.”

7 .0 Evangelho de Tom é, Citação 107, mostra uma tendência gnóstica na parábola, acentuando
o am or do pastor pela ovelha, por causa de seu tamanho: “D isse Jesus: o reino é com o um
pastor que possuía cem ovelhas. Uma delas se extraviou; era a maior delas. Ele deixou as
noventa e nove e procurou aquela até encontrá-la. A pós o esforço, disse à ovelha: ”Eu te
quero mais que às noventa e nove."
8. Morison, SL Matthew, p. 317.
9. Jeremias, Parables, p. 39, traduz Mt 18.14 da seguinte maneira: “não é da vontade de D eus
que nenhum destes mais pequeninos se perca.” Ele aplica a expressão “mais pequeninos”
aos apóstatas que deveriam receber o cuidado pastoral por parte da comunidade cristã (p.40).

229
AS PARÁBOLAS DE JESUS

O Evangelho de Lucas relata que Jesus foi cercado por publicanos e


“pecadores”, que tinham vindo para ouvi-lo.10 Os fariseus e os escribas se
escandalizaram com isso e murmuravam: “Este recebe pecadores e come
com eles” (Lc 15.2). Cercado por aqueles que ainda eram crianças no
espírito, Jesus contou a parábola da ovelha perdida, e concluiu, dizendo:
“Digo-vos que assim haverá maior júbilo no céu por um pecador que se
arrepende, do que por noventa e nove justos que não necessitam de arre­
pendimento.” Jesus comparou os publicanos e as pessoas sem moral a uma
ovelha que se extraviou. Perdida, ela não respondeu mais ao chamado do
pastor. Não queria se mexer. Quando o pastor a encontrou, teve que erguê-la
e colocá-la em seus ombros para levá-la de volta ao rebanho.
Os coletores de impostos eram judeus empregados pelo governo
romano. O povo os considerava traidores e os afastava da sociedade. Per­
tenciam à mesma classe dos marginalizados moralmente. Um judeu não
devia ter qualquer contato com tais pessoas, e muito menos comer com elas.
Havia barreiras entre os judeus e os “pecadores”, mas estas não impediram
que Jesus ensinasse aos marginalizados a mensagem da salvação. Ele lançou
uma ponte sobre esse abismo e trouxe o pecador de volta para Deus.
Deus se alegra mais por um desses proscritos que se arrependem que
por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento.11 Ele está
genuinamente interessado na salvação do pecador. Como um pastor, ele vai
à procura do homem que é incapaz de fazer qualquer coisa por si mesmo.
Deus vai em busca do homem, não o homem em busca de Deus. Neste ponto,
o Cristianismo difere das outras religiões do mundo.12 Deus encontra o
homem que está perdido em pecado. Quando o pecador é encontrado, há
júbilo no céu. Naturalmente, há alegria por aquele que faz a vontade de Deus,
mas, quando um pecador volta para Deus, em arrependimento e fé, é
chegado o tempo da celebração. Um filho de Deus, que estava perdido, foi
achado.

10. K. H. Rengstorf, TDNT, 1:327-28, apresenta uma dupla interpretação da palavra pecador,
com o era entendida pela hierarquia judaica, (a) O pecador é “um homem que vive em
oposição, consciente ou intencionalmente, à vontade divina (Torá), diferentem ente do justo
que faz da submissão a esta vontade sua alegria de viver.” E (b) é o homem “que não se
sujeita aos rituais farisaicos”.
11. A s regras religiosas daquele século e do século seguinte falam mais sobre a alegria de D eus
na destruição do ímpio que sobre sua salvação. SB, 11:209.
12. Wallace, Parables, p. 52.

230
33
A Dracma Perdida
Lucas 15.8-10
o
“Ou qual é a mulher que, tendo
dez dracmas, se perder uma, não
acende a candeia, varre a casa e a
procura diligentemente até encon­
trá-la? 9E, tendo-a achado, reúne
as amigas e vizinhas, dizendo: Ale-
grai-vos comigo, porque achei a
dracma que eu tinha perdido. 10Eu
vos afirmo que, de igual modo, há
júbilo diante dos anjos de Deus
por um pecador que se arrepen­
de.”

L u c a s, muitas vezes, apresenta seus assuntos aos pares. Quando


menciona um homem, com muita probabilidade se refere, também, a uma
mulher. No primeiro capítulo de seu Evangelho, Zacarias e Isabel são
apresentados; e no capítulo seguinte, José e Maria, Simeão e Ana. Nos
capítulos que se sucedem, se refere à viúva de Sarepta e a Naamã, o siro. Nas
parábolas, coloca a do homem com o grão de mostarda junto à da-mulher
que adiciona o fermento à massa. A parábola do pastor que encontra a
ovelha perdida é seguida pela parábola da mulher que encontra uma das
suas moedas de prata.1 Essas duas parábolas formam um par, e transmitem,
1. Alguns estudiosos questionam a ordem em que as parábolas são apresentadas: Armstrong,
Parables, pp. 182,3; Linnemann, Parables, p. 68. Oesterley, Parables, pp. 176-77, se op õe a
qualquer inversão da ordem das parábolas, estabelecendo a diferença entre a m ente
ocidental, que busca a seqüência lógica, e a maneira oriental de pensar, que não leva em
conta a simetria lógica.

231
AS PARÁBOLAS DE JESUS

virtualmente, a mesma mensagem. Assim é alcançado o objetivo de Jesus ao


se dirigir aos fariseus e doutores da lei.
Esta história, em sua concisão, é de uma beleza cintilante. Revela toda
a emoção da ansiedade, preocupação, exaltação e alegria em uma ou duas
linhas. E é, ainda, uma história completa!
Jesus fala a respeito de uma mulher que tinha dez moedas de prata.
Faziam parte de seu dote e eram usadas para enfeitar seu penteado. O
equivalente atual seriam o anel de noivado e a aliança de casamento crave-
jados de brilhantes. A perda de um desses brilhantes causaria consternação,
ansiedade e tristeza. Quando ela percebeu que faltava uma das moedas,
sabia que devia ter-se soltado e caído. Era inconcebível que alguém a tivesse
roubado.2 Devia procurá-la em sua própria casa.
As casas mais pobres eram construídas sem janelas. Junto do teto, às
vezes, faltavam algumas pedras na parede para permitir a ventilação. Mas,
essa abertura, além da entrada, não fornecia muita luz para o interior da
casa. Era escuro, dentro de casa, mesmo durante o dia. A mulher teria que
acender uma lamparina para poder procurar a moeda no chão de pedra.3
Nas casas da zona rural, os animais eram, muitas vezes, guardados dentro
de casa, embora numa parte separada da habitada pela família.4 Na casa
eram, ainda, guardadas as provisões.
Em algum lugar da casa estava a moeda que a mulher tinha perdido.
Ela pegou uma vassoura e, com a luz de uma lamparina iluminando o
cômodo, varreu tudo cuidadosamente. Cada lugar onde a moeda poderia
estar foi vasculhado, até que avistou um brilho de metal, ou ouviu o tilintar
da moeda no chão duro. Sua ansiedade e preocupação desapareceram de
repente e deram lugar à alegria e ao júbilo. Queria repartir sua alegria com
as amigas e vizinhas. Chamou-as e disse: “Alegrai-vos comigo, porque achei
a dracma que eu tinha perdido.” Palavras de contentamento foram trocadas,
e quando o marido voltou do campo, também se alegrou com a mulher. “Eu
vos afirmo”, disse Jesus, “que, de igual modo, há júbilo diante dos anjos de
Deus por um pecador que se arrepende.” Como a casa da mulher se encheu
de riso e felicidade porque o que estava perdido foi achado, assim os céus
2. Bishop, Jesus o f Palestine (London: n p. 1955), p. 191 - Jeremias, Parables, p. 134.
3. J. Wilkinson, Jerusalém as Jesus Knew II (London: Thomas and Hudson, 1978), p. 28,
comenta sobre escavações em Nazaré, onde se encontram casas que foram, provavelmente,
visitadas por Jesus. Ele diz: “O chão era desnivelado, feito de grandes pedaços de basalto
com consideráveis fendas entre eles. M esmo com a luz do sol, podemos imaginar a mulher
da parábola de Lucas 15.18, procurando sua moeda perdida, especialmente num côm odo de
chão e paredes de pedra, e pequenas janelas. Não é de admirar que ela tenha usado uma
candeia.”
4. Dalman, Arbeit und Silte, VII:111-12.

232
A DRACMA PERDIDA

se rejubilam quando um pecador se arrepende e volta a Deus, com fé. Como


a mulher se alegrou com suas amigas e vizinhas, assim Deus se alegra diante
de seus anjos. Como a moeda pertencia à mulher que diligentemente
procurou por ela, enquanto estava perdida, assim o pecador que se arrepen­
de pertence a Deus. O amor de Deus está voltado para seu filho extraviado:
“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco, pelo fato de ter Cristo
morrido por nós, sendo nós ainda pecadores” (Rm 5.8).
Jesus mostrou o amor de Deus pelos “pecadores” de seus dias. Ensi­
nou aos publicanos e aos marginalizados, entrou na casa deles, comeu e
bebeu com eles, e foi chamado de “amigo de pecadores” (Mt 11.19). Por
causa disso, até mesmo Jesus era considerado um pecador, pelos fariseus.
As duas parábolas, a da ovelha perdida e a da dracma perdida, têm
uma verdade evangélica definida. A igreja, conhecida como o corpo de
Cristo, é chamada para estender seu amor e interesse aos homens, mulheres
e crianças que estão espiritualmente perdidos no mundo. Os membros da
igreja são convocados para procurar os que estão perdidos e para dizer aos
que vivem no pecado “que Cristo... morreu pelos ímpios” (Rm 5.6). O fervor
que Jesus mostrou, associando-se aos chamados “pecadores” de seus dias,
deve arder em cada um dos membros da igreja, irradiando o calor do zelo
evangelístico e se rejubilando com os “anjos de Deus por um pecador que
se arrepende”.

5. A . F. Walls, “In the Presence o f the Angels (Luke XV.10), NovT 3 (1959): 316; SB, 11:212.

233
34
O Filho Pródigo

Lucas 15.11-32

11 ♦
“Continuou: Certo homem ti­
nha dois filhos; 12o mais moço de­
les disse ao pai: Pai, dá-me a parte
dos bens que me cabe. E ele lhes
repartiu os haveres. 13Passados
não muitos dias, o filho mais moço,
ajuntando tudo o que era seu, par­
tiu para uma terra distante, e lá
dissipou todos os seus bens, viven­
do dissolutamente. 14Depois de ter
consumido tudo, sobreveio àquele
país uma grande fome, e ele come­
çou a passar necessidade. 15Então
ele foi e se agregou a um dos cida­
dãos daquela terra, e este o man­
dou para os seus campos a guardar
porcos. 16Ali desejava ele fartar-se
das alfarrobas que os porcos co­
miam; mas ninguém lhe dava nada.
17E n tão , caindo em si, disse:
Quantos trabalhadores de meu pai
têm pão com fartura, e eu aqui

235
AS PARÁBOLAS DE JESUS
1O
morro de fome! Levantar-me-ei
e irei ter com meu pai e lhe direi:
Pai, pequei contra o céu e diante
de ti; 1 já não sou digno de ser
chamado teu filho; trata-me como
70
um dos teus trabalhadores. E, le­
vantando-se, foi para seu pai. Vi­
nha ele ainda longe, quando seu
pai o avistou e, compadecido dele,
correndo, o abraçou e beijou. 21E
o filho lhe disse: Pai, pequei contra
o céu e diante de ti; já não sou
digno de ser chamado teu filho.
220 pai, porém, disse aos seus ser­
vos: Trazei depressa a melhor rou­
pa; vesti-o, ponde-lhe um anel no
dedo e sandálias nos pés; 23trazei
também e matai o novilho cevado.
C om am os e reg o zijem o -n o s,
24porque este meu filho estava
morto e reviveu, estava perdido e
foi achado. E começaram a regozi-
jar-se. 25Ora, o filho mais velho
estivera no campo; e, quando vol­
tava, ao aproximar-se da casa, ou­
viu a m ú sica e as d an ç as.
26Chamou um dos criados e per-
27
guntou-lhe que era aquilo. E ele
informou: Veio teu irmão, e teu pai
mandou matar o novilho cevado,
porque o recuperou com saúde.
Ele se indignou e não queria en­
trar; saindo, porém, o pai procura­
va c o n c iliá -lo . M as ele
respondeu a seu pai: Há tantos
anos que te sirvo sem jamais trans­
gredir uma ordem tua, e nunca me
deste um cabrito sequer para ale-
|ra r-m e com os meus amigos:
vindo, porém, esse teu filho, que
desperdiçou os teus bens com me-
retrizes, tu mandaste matar para

236
O FII HO PRÓDIGO

ele o novilho cevado. Então lhe


respondeu o pai: Meu filho, tu
sempre estás comigo; tudo o que é
meu é teu. Entretanto, era preci­
so que nos regozijássemos e nos
alegrássemos, porque esse teu ir­
mão estava morto e reviveu, estava
perdido e foi achado.”

As Circunstâncias

Jesus estava ensinando aos publicanos e àqueles considerados margi­


nais, por causa de sua conduta moral. Ensinava-lhes verdades espirituais que
diziam respeito ao reino de Deus, quando os líderes religiosos daqueles dias
manifestaram seu desagrado, murmurando contra Jesus: “Este recebe pe­
cadores e come com eles.” Aos olhos dos escribas e fariseus, os publicanos,
porque tinham-se vendido ao governo romano, e as prostitutas, pelo seu
pecado moral, estavam banidos da comunidade religiosa de Israel, e esta­
vam, espiritualmente, mortos. Embora procurassem ganhar convertidos, os
doutores da Lei e os fariseus não tinham interesse em receber tais conver­
tidos para um relacionamento mais expressivo com Deus (Mt 23-15). Não
podiam nem queriam entender que Deus deseja o arrependimento que,
quando demonstrado, causa imenso júbilo nos céus.
Jesus contou a parábola do filho pródigo. Talvez fosse melhor falar de
dois filhos e seu pai. Nestes três personagens, Jesus caracterizava seus
ouvintes. Cada um dos que o ouviam tinha que se mirar no espelho da
parábola e pensar: “Este sou eu.” O filho pródigo retratava aqueles que, por
sua moral e pela sua classe social, eram marginalizados. Seu irmão era o
judeu que se auto-justificava, e o pai era o reflexo de Deus.1 Jesus se dirigiu
diretamente aos que o ouviam. Chamou o pecador ao arrependimento e
exortou o justo a aceitar o pecador e a se alegrar com sua salvação. A
parábola descreve claramente o amor de Deus por seus filhos, tanto pelo
rebelde quanto pelo obediente. Os contemporâneos de Jesus tinham plena
consciência da paternidade de Deus.2 Das profecias de Jeremias eles sabiam
que Israel tinha sido o filho que se desviara. Efraim disse:

1. Jeremias, Parables, p. 128, afirma que a parábola não é uma alegoria, “mas uma historia
tirada da vida.” Veja-se, também, Linnemann, Parables, p. 74, e Mánek, Frucht, p. 103.
Hunter, Parables, p. 59, discorda porque “o pai e seus dois filhos... são uma representação
diretamente significativa.”
2. G. Quell, TDNT, V:972-74; e G. Schrenk, TDNT, V:978.

237
AS PARÁBOLAS DE JESUS

“Converte-me, e serei convertido, porque tu és o SENHOR


meu Deus. Na verdade, depois que me converti, arrependi-me;
depois que fui instruído, bati no peito; fiquei envergonhado,
confuso, porque levei o opróbio da minha mocidade” (Jr
31.18,19).

O Filho Mais Novo

Jesus contou a história de um homem rico que tinha dois filhos,


provavelmente no final da adolescência. Os dois trabalhavam com o pai na
fazenda da família, mas o mais jovem deles se tornou impaciente e queria
partir para longe da casa dos pais. Queria ser livre, para ir a outras terras e
viver como lhe agradasse.4 O pai notara que o filho queria partir, mas não
disse nada. Ele poderia ter feito ver ao filho sua posição na vida — ele e o
irmão, um dia, herdariam a fazenda toda. Eventualmente, o filho tomaria
conta da fazenda, dos servos e dos trabalhadores contratados. Em vez disso,
o pai esperou que o filho tomasse sua própria decisão.
Um dia, o mais jovem se aproximou do pai e disse: “Pai, dá-me a parte
dos bens que me cabe.” Ele, naturalmente, não podia pedir a divisão da
propriedade porque o patrimônio da família devia permanecer intacto
enquanto o pai fosse vivo. Pedindo sua parte, o filho mais novo confessava
que não permaneceria mais com o pai, que se aborrecia com a rotina diária
e queria a parte a que tinha direito para gastá-la como quisesse. O pai deu
ao filho o que era seu, provavelmente a nona parte da soma total.5 Ele teria
recebido um terço da herança, por ocasião da morte do pai (Dt 21.17).
Recebendo sua parte por antecedência, o filho perdia o direito de exigir
mais, quando realmente se desse a partilha dos bens. O pai, embora dividin­

3. Uma parábola remotamente semelhante à do filho pródigo vem do Rabino Meir: “Isto é
semelhante ao filho de um rei que tomou o caminho do mal. O rei enviou um tutor para lhe
fazer apelos, dizendo: ‘Arrepende-te, meu filho.’ O filho, no entanto, o mandou de volta a
seu pai com a mensagem: ‘Como posso ter a desfaçatez de voltar? Estou envergonhado
diante de ti.’ Então seu pai lhe mandou dizer: ‘Meu filho, como pode um filho, jamais, se
envergonhar de voltar para seu pai? E não é para teu pai que estarás retornando.”’ The
Midrash, Deuteronom y (London: n.p., 1961), p. 53. Consulte-se, também, em F. W. Danker,
Jesus and lh e New Age (St. Louis, Clayton Pub. House, 1972), p. 170, o texto de uma carta
em papiro que contém o apelo de um filho desviado, pedindo perdão a sua mãe.
4. Sair de Israel e fazer parte da diáspora era muito comum. Tem sido ensinado que havia cerca
de oito vezes mais judeus (quatro milhões) que viviam em dispersão, do que em Israel (m eio
milhão). Jeremias, Parables, p. 129.
5. Para um estudo mais detalhado, consulte-se Derrett, Law in the New Testam ent, p. 107.

238
O FILHO PRÓDIGO

do a propriedade, continuou administrando a fazenda. O pai, não o filho


mais velho, geria os bens da família.6
O filho mais novo recebeu sua parte e ajuntou “tudo o que era seu”.
Estava agora por conta própria e livre para ir. Pensava: “Tenho dinheiro,
vou viajar.” Poderia ir para a Babilônia, ao leste; à Ásia Menor, ao norte; à
Grécia e à Itália, ao oeste; ou ao Egito e África, ao sul. Tinha o mundo à sua
disposição. Diversos fatores influíram profundamente no futuro do filho
mais jovem. Seu idealismo juvenil, sua inexperiência e falta de discrição, sua
saída da fazenda para a cidade, o dinheiro à mão — tudo teve um papel
importante. Sua intenção de viver por sua própria conta logo se frustrou,
quando foi cercado por falsos amigos. Princípios de vida e conduta, apren­
didos em casa, foram postos de lado e esquecidos. Foi descuidado e perdu­
lário.7 A reprovação do irmão mais velho — “esse teu filho, que desperdiçou
os teus bens com as meretrizes” — não é mera acusação. Baseava-se em
informações que a família recebia, de tempos em tempos, de como o caçula
passava seus dias dissolutamente. A desobediência às leis da economia e da
moral não podia continuar. Ele teve que pagar um preço pela vida desregra­
da. Em relativamente pouco tempo, gastou tudo. Chegou ao fim da linha.
As notícias sobre a quebra da safra eram os principais comentários
naquela terra. A inflação levou os preços para os ares, os empregos eram
raros, e a economia indicava que tempos difíceis tinham chegado. O jovem
de vida devassa estava sem dinheiro e sem sequer um amigo que o ajudasse.
Em terrível necessidade, percorreu as ruas e arredores da cidade procuran­
do serviço, mas tudo que pôde achar foi a tarefa humilde de alimentar
porcos. Ele tinha chegado agora à degradação mais profunda, pois desde a
infância aprendera, como qualquer judeu, que o porco é um animal imundo
(Lv 11.7). Era agora empregado de um gentio e teve que abandonar o hábito
de guardar o Sábado. Nessa triste situação, estava alijado da religião de seus
pais espirituais.9 Ele estava desesperado. Seu empregador o fazia sentir que
aqueles porcos tinham mais valor para ele que um simples empregado.
Sentia falta de amizade e consideração, mas ninguém se importava com ele.
Por causa da escassez de comida, sua alimentação diária não era suficiente

6 . 0 pai deve ter seguido o costume daqueles dias, com o encontramos em Eclesiástico 33.22,23:
“Em todas as tuas obras conserva a tua superioridade. Não manches a tua reputação. D eixa
seguir o curso da tua vida e, no tempo da tua morte, reparte a tua herança” (NEB).
7. W. Foerster, TDNT, 1:507.
8. Os judeus estavam estritamente proibidos de criar porcos. “Não é permitido criar porcos,
onde quer que seja”; “Amaldiçoado seja o homem que criar porcos”. Baba Kamma 82b,
Nezikin I, The Babylonian Talmud, pp. 469,70.
9. Jeremias, Parables, p. 129, comenta que o homem foi “praticamente forçado a abandonar a
prática regular de sua religião”.

239
AS PARÁBOLAS DE JESUS

para acalmar suas dores de fome. Queria até mesmo comer da comida dada
aos porcos, as vagens da alfarrobeira.10
A falta de consideração mostrada para com um pastor faminto era
mais do que o rapaz podia agüentar. Esse foi para ele o ponto máximo.
Buscara a bondade humana e não a pudera achar.
As notícias a respeito da fome o fizeram pensar em sua terra natal.
Começou a pensar em sua casa. Devia voltar? Quando essa idéia lhe passou
pela cabeça, primeiro ele a afastou. Os servos e os contratados dificilmente
esconderiam seu escárnio. Seu irmão mais velho, de modo algum, o receberia
bem se voltasse para casa, para uma propriedade a que não mais tinha
direito. Seu pai veria seu segundo filho descalço e vestido como um pastor.
Voltando, assim, para casa, ele seria a figura abjeta de um mendigo.
O filho começou a pensar em seu pai — como o tinha magoado, como
seu pai lhe havia dado a parte da herança que ele, filho pródigo, tinha
esbanjado. Começou a falar consigo mesmo: “quantos trabalhadores de meu
pai têm pão com fartura, e eu aqui morro de fome!” Ele se comparou, não
com os servos que tinham emprego estável, mas aos trabalhadores ajustados
temporariamente. Assalariados, como ele era na ocasião, viviam regiamente
na fazenda de seu pai.
Ele sabia que o amor de seu pai se estendia a todos aqueles que
pertenciam ao amplo círculo de sua família. Sabia, também, que tinha
desobedecido o mandamento: “Honra a teu pai e a tua mãe, para que se
prolonguem os teus dias na terra que o SENHOR teu Deus te dá” (Ex
20.12). 1 Ele tinha pecado contra Deus.

Quando caiu em si, estava pronto para confessar seus pecados contra
Deus e contra seu pai. Ele disse a si mesmo: “Levantar-me-ei e irei ter com
meu pai e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti.”12 Sabia que tinha
transgredido o mandamento de Deus, e que, agindo assim, ofendera e
magoara seu pai. Queria se corrigir. Procuraria o pai e lhe diria: “Já não sou
digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus trabalhadores.”

10. Vagens e sem entes de locusta (alfarrobeira) são usadas com o forragem para o gado e para
os porcos e, às vezes, são comidas pelos pobres. Não há necessidade de dizer, com o alguns
estudiosos fazem, que o jovem roubava as vagens para satisfazer sua fome. A máxima
universal: “Não atarás a boca do boi, quando debulha” (D t 25.4), pode ser, certamente,
aplicada.
11. Derrett, Law in the New Testament, p. 111.
12. A palavra céu é um circunlóquio judaico para “D eus”. SB, 11:217.

240
O FILHO PRÓDIGO

Tudo que ousava pedir era um emprego temporário.13 Ansiava pela recon­
ciliação, sem esperar reintegração. Levantou-se e foi para casa.

O Pai

Jesus apresentou a parábola, dizendo: “Certo homem tinha dois fi­


lhos.” Mas, à medida que continuava, mostrou que esse homem tinha um
relacionamento extraordinário com os filhos: ele os amava de modo sábio,
com ternura e não possessivamente. Podemos imaginar um pai ainda sufi­
cientemente moço para se opor rigorosamente ao pedido de divisão dos
bens, feito pelo filho mais novo. O pai poderia ter recusado o pedido porque
o filho era muito jovem para receber sua parte dos bens. Nenhum argumento,
no entanto, foi usado. O pai consentiu que o filho se tornasse independente
e, embora ferisse seu coração vê-lo partir, sabiamente guardou para si o que
- 14
sentia.
Podemos presumir que o pai tenha tentado descobrir onde vivia o filho
e o que fazia longe de casa. As notícias sobre a fome, com certeza, chegaram
até ele. Deve ter sabido das condições miseráveis em que o filho vivia, e que
determinariam a sua volta, porque constantemente olhava ao longo do
caminho por onde esperava que ele regressasse.
Podemos perguntar por que os parentes próximos do rapaz não o
procuraram sabendo de sua situação tão degradante. Havia fartura na
fazenda. Teria sido carinhoso da parte deles enviar algo ao filho para aliviar
suas necessidades. O pai poderia ter enviado ao filho uma mensagem,
convidando-o a voltar. Tudo isso teria sido prova de amor.
Mas, aqui, nos deparamos com um contraste. O pai não procurou seu
filho para trazê-lo de volta à casa. Nas outras duas parábolas, o pastor
vasculhou os montes para encontrar a ovelha perdida, e a mulher varreu o
chão à procura da moeda. Mas o pai ficou em casa. Há uma diferença entre
uma ovelha e uma moeda, de um lado, e um filho, de outro. O pastor só pode
encontrar sua ovelha se sair à procura dela pelos montes. A única maneira
de a mulher recuperar sua moeda é varrendo a casa. O pai, no entanto, tinha
mais que uma opção. A primeira, seria visitá-lo e chamá-lo de volta à casa.
A segunda, era esperar paciente e prudentemente que o filho caísse em si,

13. Numa fazenda judaica havia três tipos de servos: primeiro, o escravo, que pertencia à família
de seu senhor e que gozava de inúmeros privilégios; depois a classe inferior de criados e
criadas (veja-se Lc 12.45); e, terceiro, os trabalhadores temporários. Consulte-se Oesterley,
Parables, pp. 185,86.
14. Michaelis, Gleichnisse, p. 138, pensa que o pai estava orgulhoso porque o filho partira para
terras estrangeiras.

241
AS PARÁBOLAS DE JESUS

confessasse seus pecados e buscasse a reconciliação. Assim, estaria restabe­


lecida a relação pai-filho. Então o que estava perdido seria encontrado.15
O pai tinha o controle da situação, não o filho. O pai olhava na direção
de onde esperava que seu filho viesse. Quando o viu, seu coração se compa­
deceu dele. Deixando de lado a dignidade e o decoro, correu ao encontro
do filho, descalço e maltrapilho, e, abraçando-o, o beijou.16 O pai aceitou o
filho como membro da família antes que ele pudesse atirar-se a seus pés para
beijá-los, como um escravo; ou, antes, que se ajoelhasse e lhe beijasse as
mãos. Abraçando-o e beijando-o, deixou que soubesse que era considerado
filho. Assim, não foi necessário que o jovem fizesse o discurso que já havia
preparado para dizer que gostaria de ser empregado como trabalhador na
fazenda de seu pai.17 O pai o impediu, beijando-o e tratando-o como filho.
O filho confessou seu pecado: “Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não
sou digno de ser chamado teu filho.” Ele falou a verdade. Já não era mais
digito por causa de seu passado. Tinha perdido o direito legal à sua filiação.
Mas, o pai o aceitou como filho, e isso pôs fim a qualquer idéia de trabalhar
na fazenda como contratado. Assim determinou o fazendeiro.
O longo período de espera chegara ao fim. O pai tinha seu filho de
volta. Portanto, era hora de comemorar. O pai ordenou aos servos que lhe
trouxessem as melhores roupas. Puseram-lhe um anel no dedo e sandálias
nos pés.18 O filho foi tratado com muita honra pelo pai, pois as melhores
vestes estavam sempre guardadas para hóspedes muito especiais. O anel era
símbolo de autoridade; e, assim, todos podiam ver que ele estava reintegra­
do. Naturalmente, as sandálias lhe foram dadas para indicar que era um
homem livre. Os escravos e os pobres andavam descalços. “Trazei também
e matai o novilho cevado”, disse o pai, “Comamos e regozijemo-nos.” Como
o pastor tinha chamado os amigos e vizinhos para festejarem com ele por ter
achado a ovelha perdida, e como a mulher celebrou a recuperação da moeda
com amigas e vizinhas, também o pai ordenou que houvesse músicas e
danças. Todos os membros da família e os servos foram chamados para a
festa. Era hora de celebrar e ser feliz.
15. Schippers, Gelijkenissen, p. 170; H. Thielicke, The W aiting Father (N ew York: Harper,
1959), p. 28; Mánek, Frucht, p. 101.
16. N o relato sobre Davi saudando Absalão no palácio real, o beijo paternal significava perdão.
2 Sm 14.33. Jeremias, Parables, p. 130: K. H. Rengstorf, Die Re-Investur des Verlorenen
Sohnes in der Gleichniserzáhlung Jesu Luk. 15.11-32 (Koln, Opladen: W estdeutscher
Verlag, 1967), p. 19.
17. Metzger, Textual Commentaiy, p. 164.
18. Compare-se com Gn 41.42, onde José recebe um anel de sinete, roupas de linho fino, e um
colar de ouro, de Faraó. Veja-se, também, 1 Macabeus 6.15.
19. Rengstorf, Re-Investitur, p. 29.

242
O FILHO PRÓDIGO

“Porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi
achado.” O pai se referia ao fato de que o filho, deixando de ter parte na
herança da família, e dando por acabada sua obrigação moral e material para
com o pai, tinha-se desligado, voluntariamente, de casa. Na prática, o filho
estava morto.20 Na verdade ele não tinha mais nada a reclamar sobre a
propriedade, quando o pai morresse. “Este meu filho estava morto e revi­
veu”, disse o pai.
A parábola não diz como foram resolvidos os aspectos legais dos
direitos envolvidos com relação à herança.21 Esse não é o objetivo. O ponto
importante é a volta do jovem e o fato de ter sido aceito plenamente como
filho.

O Filho Mais Velho

A parábola do filho pródigo poderia se encerrar com as palavras: “E


começaram a regozijar-se,”22 Mas, então, a sentença introdutória: “Certo
homem tinha dois filhos” seria de pouca ou nenhuma significância. A história
estaria incompleta sem outras referências ao filho mais velho.
O pai não era pai apenas do filho mais novo; era pai, também, do filho
mais velho. Seu primogênito tinha sido um filho leal, com interesse pessoal
na fazenda. Naturalmente, o filho sabia que era o herdeiro. Ele estava fora,
no campo, enquanto todos celebravam a volta de seu irmão. Ele servia bem
a seu pai, e seu pai aprovava o zelo do filho. Mas, como pai, conhecia também
as manifestações de inveja, e sabia que a atitude do filho mais velho, em
relação ao caçula, estava influenciada por ela. Não nos é contado por que
razão o irmão mais velho foi o último a saber da volta do caçula. Pode ter
sido porque naquele dia ele tinha ido inspecionar a parte distante da casa,
e, por isso, tenha voltado mais tarde, naquela noite. Ao chegar, ouviu a
música e as danças e perguntou a um dos servos o “que era aquilo”. Em
segundos ficou sabendo que o irmão mais moço tinha voltado e que o pai

20. Rengstorf, Re-Investitur, p. 22, se refere ao costume legal, chamado Kel.sat.sah. que é o
desligamento de um membro da comunidade judaica, por causa de conflito de interesse.
Derrett, Law in the New Testam ent, p. 116, faz notar que esse costume legal não se aplica
às circunstâncias do filho pródigo, porque ele não foi penalizado nem banido da famflia.
21. Consulte-se L. Schottroff, “D as G leichnis vom Verlorenen S ohn”, ZTK 68 (1971); 39-41.
22. Entre outros, J. T. Sanders, em “Tradition and Redaction in Lk XVG: 11-32,” N TS 15
(1968-69): 433-38, argumenta que há duas parábolas separadas. Veja-se, também , J- J-
0 ’Rourke, “Some N otes on Luke XV, 11-32, NTS 18 (1971-72): 431-33, e Jeremias, "Tradi­
tion und Redaktion in Lukas 15", NW 62 (1971): 172-89, que refuta o argumento.
23. Rengstorf, Re-Invetitur, p. 54, faz perguntas sobre a expressão “no campo”. Seria indício
de que o filho não convivia bem com o pai e permanecesse longe de casa?

243
AS PARÁBOLAS DE JESUS

mandara matar o novilho cevado, porque recebera de volta o filho, são e


salvo.
O filho mais velho simplesmente não podia entender por que seu pai
estava tão feliz com a volta daquele filho inútil.24 Ninguém, nunca, antes,
expressara alegria e felicidade por causa do primogênito; ninguém, nunca,
fizera uma festa para aquele que ficara em casa e que servia ao pai. O filho
mais velho se recusou a entrar em casa. Não tinha nada para tratar com seu
irmão irresponsável, que, ao voltar para casa, recebia a atenção de todos.
O pai tinha tido que sair de casa para ir ao encontro de um filho; saiu
de casa, outra vez, para encontrar o outro. Ele dera as boas-vindas ao
primeiro; saiu e fez o mesmo com o segundo. Tratou os dois da mesma
maneira. No entanto, o irmão mais velho não queria tratamento igual. Ele
censurou o pai, embora o pai continuasse a argumentar com ele. Ao se
justificar, o filho via a si mesmo como um dos servos, não como filho. “Há
tantos anos que te sirvo sem jamais transgredir uma ordem tua”, disse ao pai.
Ele não entendia o que significava ser filho, e, assim, não podia ver o que
estava implícito na paternidade.25 Acusou o pai de nunca lhe ter dado sequer
um cabrito para festejar com os amigos. Para seu irmão perdulário, ao
contrário, mandara matar o novilho cevado. Suas palavras eram cortantes e
amargas; se recusava a tratar o pai como “pai” e a se referir ao irmão como
“irmão”. Insolentemente, disse: “Vindo, porém, esse teu filho, que desper­
diçou os teus bens com meretrizes, tu mandaste matar para ele o novilho
cevado.” Com estas palavras magoou o pai tanto quanto o magoara o filho
pródigo, com sua vida de dissipações. O filho mais velho se afastava do pai,
tanto quanto o fizera o irmão mais moço. Aquele voltara para casa; o pai,
agora, procurava argumentar com o outro para que fizesse o mesmo.
Tanto o mais velho quanto o mais novo eram seus filhos, e o pai se
dirigiu ao mais velho com a mesma ternura com que se dirigira ao caçula.
Disse o pai: “Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu”.26
O pai ensinou-lhe o que significa ser filho: estar sempre na presença do pai,
como herdeiro. Mais ainda, mostrou-lhe as relações familiares de pai para
filho e de irmão para irmão. Ele estava dizendo: Porque és meu filho, eu sou
77
teu pai; e porque o pródigo é meu filho, ele é teu irmão. Como uma família,
disse o pai, “era preciso que nos regozijássemos e nos alegrássemos, porque

24. Thielicke, The W aiting Father, p. 32.


25. Morris, Luke, p. 244.
26. A palavra grega teknon ( = criança) é muito mais afetuosa que a palavra h uios ( = filho). A
Nova Bíblia Inglesa emprega o sentido de teknon na tradução, “my boy” ( = meu m enino).
27. Schippers, G elykenissen, p. 178.

244
O FILHO PRÓDIGO
28
esse teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado”. A
questão do relacionamento entre os filhos estava proposta. O filho mais
velho, que fielmente tinha servido o pai, na fazenda da família, aceitaria ficar
ao lado do pai quando este celebrava a volta do mais jovem?
A parábola termina com um refrão: “Porque esse teu irmão estava
morto e reviveu, estava perdido e foi achado.” Estas palavras repetem as
proferidas na conclusão da parte que focaliza o filho mais novo. As palavras
ligam, inseparavelmente, os irmãos um ao outro e ao pai.
Jesus não disse o que aconteceu depois. Parou ali, propositalmente.
Se tivesse mostrado a recusa do filho mais velho de entrar em casa, teria
fechado a porta. Deixando inacabada a história, indicava que a porta per­
manecia aberta. O pai convidou o filho a participar das festas; o filho tinha
que se decidir. Cabia a ele a decisão.

Aplicação

A intenção de Jesus era descrever a atitude dos fariseus e mestres da


Lei em relação aos coletores de impostos e às prostitutas. Ele tinha sido
acusado de receber aqueles pecadores e de comer com eles. Tinham-lhe
dado a entender que, associando-se com os proscritos, ele mesmo seria
banido. Jesus contou essa parábola na qual o pai manda matar o novilho
cevado e diz: “Comamos e regozijemo-nos.” Queria mostrar aos escribas e
fariseus por que comia com publicanos e meretrizes.
Na pessoa do filho pródigo, os ouvintes de Jesus viram o retrato dos
marginalizados daqueles dias. Os coletores de impostos e os “pecadores”
eram judeus de nacionalidade, porém, por causa de sua ocupação, tinham
sido banidos da comunidade religiosa. Estavam espiritualmente mortos, aos
olhos dos judeus que permaneciam na lei. O filho pródigo trabalhara para
um empregador gentio; assim como o coletor de impostos. O pródigo, no
entanto, caiu em si e voltou para casa de seu pai. Poderiam os publicanos
fazer o mesmo e voltar? A pergunta que Jesus propunha aos ouvintes era:
“O que acontece quando um publicano ou um ‘pecador’ se arrepende?”
Jesus retratou o amor do pai pelo filho para deixar bastante claro que
o amor de Deus é infinito. Seus ouvintes reconheceram Deus, na pessoa do
pai. Sabiam que o pecado é sempre primeiro contra Deus e depois contra o

28. Celebrar a volta do filho pródigo “era uma obrigação que o filho mais velho não quis
reconhecer.” Plummer, S t Luke, p. 379. Jeremias, Parables, p. 131, percebe um tom de
reprovação na voz do pai, quando diz a seu filho: “Devias te alegrar e festejar, pois é o teu
irmão que voltou para casa.”

245
AS PARÁBOLAS DE JESUS

semelhante. Como Deus perdoa um pecador e depois o reintegra como


membro da sua família? A atitude do pai, na parábola, representa o perdão
amoroso de Deus oferecido ao pecador que se arrepende. Como o pai disse
aos servos: “Comamos e regozijemo-nos”, assim Deus se alegra com seus
anjos por um pecador que se arrepende. Como nas parábolas da ovelha e da
dracma perdidas, todos os amigos e vizinhos se reúnem para festejar, tam­
bém na parábola do filho pródigo, o filho mais velho é convidado a festejar
e a alegrar-se.
Os fariseus e doutores da Lei não podiam deixar de entender a
pretendida identificação. Jesus tinha apontado seu dedo para eles, quando
contara a parte sobre o irmão mais velho. Jesus, entretanto, não os acusou,
de maneira alguma. Pela parábola, mostrou amor e zelo genuínos, não
apenas pelo pecador arrependido, mas, também, pelo filho obediente. Pediu
aos líderes religiosos daqueles dias para celebrarem e alegrarem-se quando
alguém social e moralmente marginalizado se arrependesse. Pediu-lhes que
aceitassem tais pessoas com amor fraternal e que os reintegrassem na
comunidade religiosa. Jesus fez a proposta. Os fariseus e os doutores da Lei
teriam que tomar a decisão.
A parábola do filho pródigo proclama as boas-novas do evangelho.
Todos aqueles que voltaram suas costas para Deus, que consideram a igreja
fora de moda e aceitam a permissiva sociedade atual, encontrarão um Pai
celestial amoroso, esperando por eles, no momento em que regressarem. Há
uma volta ao lar para eles, porque Deus é o lar. Embora o arrependimento
seja um mistério, o cristão que tem amado e obedecido a Deus deve regozi-
jar-se e alegrar-se, quando um pecador se arrepende. Para ele são dirigidas
as palavras: “Meu filho, tu sempre estás comigo; tudo o que é meu é teu.”
Esta é a mensagem para o justo que tem enfrentado batalhas pelo e com o
Senhor, que tem suportado o calor do dia e tem guardado a fé.
Do ponto de vista da economia, modernos filhos pródigos têm dissi­
pado milhões. Os pródigos de nossos dias esbanjam tempo e talentos como
se não tivessem valor. Não é de admirar que os justos digam: “Imaginem se
esses recursos fossem usados para difundir o evangelho e construir o reino
de Deus!” Ninguém pode discutir isso. Deus não está interessado em tempo,
energia e talentos gastos — embora não perdoe o mau uso e o desperdício.
Deus está interessado na salvação dos seres humanos. Quando um pródigo
moderno cai em si e volta para Deus, há alegria nos céus. Como o céu se
alegra, assim a igreja deve celebrar e regozijar-se quando alguém espiritual­
mente morto revive, e quando o que estava perdido é achado. Proclamar o

29. Thielicke, The Waiting Father, p. 29.

246
O FILHO PRÓDIGO

evangelho da salvação e ver pecadores serem salvos pelo conhecimento de


Cristo deve ser uma infindável celebração de vida para todos os que crêem.
E esta uma história na qual apenas a graça de Deus é revelada? A
parábola é uma história do Cristianismo sem Cristo?30 A resposta a estas
perguntas é que a parábola deve ser vista no contexto das Escrituras. Do
princípio ao fim, a Bíblia, desde a desobediência de Adão e Eva até à
descrição das multidões cercando o trono do Cordeiro, é um comentário
fluente a respeito desta parábola. É Jesus que fala sobre o amor do Pai, que
abre o caminho para a casa do Pai, e que chama o pecador de volta à casa.

30. Para estudo destas questões, veja, Jülicher, G leichnisreden, 2:364-65.


35
O Administrador Infiel
Lucas 16.1-9
1“Disse Jesus também aos discí­
pulos: Havia um homem rico que
tinha um administrador; e este lhe
foi denunciado como quem estava
a defraudar os seus bens.2 Então,
mandando-o chamar, lhe disse:
Que é isto que ouço a teu respeito?
Presta contas da tua administra­
ção, porque já não podes mais con-
tin u a r n ela. 3D iss e o
adm inistrador consigo mesmo:
Que farei, pois que o meu senhor
me tira a administração? Traba­
lhar na terra, não posso; também
de mendigar tenho vergonha. 4Eu
sei o que farei, para que, quando
for demitido da administração, me
recebam em suas casas. Tendo
chamado cada um dos devedores
do seu senhor, disse ao primeiro:
Quanto deves ao meu patrão?
6Respondeu ele: Cem cados de
azeite. Então disse: Toma a tua
conta, assenta-te depressa e escre-

249
AS PARÁBOLAS D E JESUS
7
ve cinqüenta. Depois perguntou a
outro: Tu, quanto deves? Respon­
deu ele: Cem coros de trigo. Dis-
se-lhe: Toma a tua conta e escreve
oitenta. E elogiou o senhor o ad­
ministrador infiel porque se hou­
vera atiladam ente, p o rq u e os
filhos do mundo são mais hábeis
em sua própria geração do que os
filhos da luz. 9E eu vos recomendo:
Das riquezas de origem iníqua fa­
zei amigos; para que, quando estas
vos faltarem, esses amigos vos re­
cebam nos tabernáculos eternos.”

D e todas as parábolas ensinadas por Jesus, a parábola do adminis­


trador infiel é a mais enigmática. Por esta razão, numerosas interpretações
têm sido dadas.1 Cada uma delas tentando explicar o ensinamento da
parábola à luz de suas implicações éticas. A dificuldade que se apresenta ao
leitor deve-se ao fato de a parábola estar colocada em um contexto judaico,
e por isso refletir as práticas judaicas. Essa composição, com todos os seus
fatores, deve ser reconstituída para que se obtenha um quadro claro e a
compreensão do ensinamento da parábola.2

1. Em ordem alfabética, a literatura representativa recente é a seguinte: J. D. M. Derrett, “Fresh


Light on St. Luke XVI:1. The Parable o f the Unjust Steward”, NTS 7 (1960-61): 198-219,
publicado em Law in the New Testam ent (London: Longman and Todd, 1970), pp. 48-77; J.
D. M. Derrett, “Take thy Bond... and write Fifty (Luke XVI.6) The Nature o f the B ond”,
JTS 23 (1972): 438- 40, pupblicado em Studies in lh e New Testam ent (Leiden: Brill, 1977),
1:1-3. J. A. Fitzmyer, “The Storyof the Dishonest Manager (Luke 16.1-13)”, TS 25 (1964):23-
42, publicado em Essays on the Sem itic Background of the New Testam ent (London: Society
of Biblical Literature, 1971), pp. 161-84. D. R. Fletcher, “The Riddle of the Unjust Stewart:
Is Irony the Key?” JBL82 (1963): 15-30. E. Kamlah, “D ie Parabel vom ungerechten Verwalter
(Luke 16:lff) in Rahmen der Knechtsgleichnisse”, Abraham Unser Vater Festschrift hono-
ring O. Michel (Leiden: Brill, 1963), pp. 276-94. F. J. Moore, “The Parable o f the Unjust
Steward”, ATR 47 (1965):103-5. R. G. Lunt, “Expounding the Parables, III. The parable of
the Unjust Steward (Luke 16.1-15)”, ExpT 77 (1966): 132-36. L. J. Topei, “On the Injustice
o f the Unjust Steward: Luke 16:1-13,” CBQ (1975): 216-27, F. E. Williams, “Is Almsgiving
the Point of the ‘Unjust Steward’?” JBL 83 (1964):293-97.
2. Oesterley Parables, pp. 192-203; Derrett, Law in the New Testament, p. 51. Numerosas
peculiaridades e expressões judaicas são evidentes na parábola. Permanece a questão se
ouvintes não-judeus entenderam a parábola nos dias de Lucas. A tradição oral paralela à
do Evangelho pode ter providenciado a chave para um entendimento apropriado da pará­
bola. Veja-se Marshall, Luke, p. 615.

250
O ADMINISTRADOR INFIEL

Composição

Repetidamente, Deus dissera aos judeus que não cobrassem de seus


concidadãos juros sobre dinheiro, comida, ou qualquer outra coisa. “Se
emprestares dinheiro ao meu povo, ao pobre que está contigo, não te haverás
com ele como credor que impõe juros” (Ex 22.25; veja-se, também, Lv 25.36;
Dt 15.8; 23.19). Deus ensinou a seu povo a responsabilidade social e proibiu
a usura, deixando implícito que o usurário devia ser considerado um ladrão.
Sendo a natureza humana como é, práticas se desenvolveram no
decorrer do tempo objetivando burlar a lei de Deus. Os ricos, por exemplo,
escolhiam uma pessoa de confiança como administrador. Ele recebia plenos
poderes para agir em nome de seu senhor. Respondia por seu senhor, mas
se usasse de usura, não seria o senhor, e, sim, o administrador que seria
levado ao tribunal. O rico sempre obtinha lucro das transações de usura
negociadas por seu administrador. Mas, se tal transação fosse contestada no
tribunal, o rico estaria livre e a responsabilidade cairia sobre seu adminis­
trador.
O administrador, no entanto, tinha meios de se proteger, aceitos até
mesmo pelos fariseus e doutores da lei, e contra os quais os magistrados nada
podiam fazer a não ser reconhecê-los como mal necessário. O administrador
e o tomador do empréstimo redigiam um acordo no qual o débito e os juros
eram declarados como um todo. De acordo com os líderes religiosos, a
seguinte nota era considerada exemplo de usura, e quem fosse responsável
por ela poderia ser levado aos tribunais: “Pagarei a Rubens 10 kor de trigo,
no primeiro dia do Nisã e se não o fizer, pagarei 4 kor de trigo a mais por
ano .”3 Mas, era considerada legal a seguinte: “Devo a Rubens 14 kor de
trigo.” O que a nota não explicava era que o tomador do empréstimo tinha
recebido apenas 10 kor e tinha que pagar a diferença em juros. Por exemplo,
em 33-34 A.D., Herodes Agripa I estava para falir e instruiu seu escravo
libertado, Márcio, para tomar empréstimo de alguém. Márcio foi procurar
um banqueiro que o forçou a assinar um título de 20.000 dracmas áticas. Na
realidade, entretanto, ele recebeu 2.500 dracmas a menos .5 Os juros estavam
somados ao capital, e o tomador do empréstimo teria que pagar o total,
mesmo que tivesse recebido uma soma consideravelmente menor. O título,
em si, não explicaria os detalhes.

3. Derrett Law in the N ew T eslam ent, p. 65.


4. Fitzmyer, Essays, p. 176.
5. Josephus, Antiquities, 18:157.
6. Derrett, Studies, 1:1-3.

251
AS PARÁBOLAS DE JESUS

A taxa de juros para empréstimo de trigo chegava a vinte por cento,


com um adicional de cinco por cento de seguro contra a flutuação dos preços
e depreciação do valor do produto. Se acontecesse de a mercadoria ser óleo
de oliva, a taxa de juros era de oitenta por cento acrescidos de mais vinte por
cento da taxa de seguro, totalizando cem por cento. O risco de tomar óleo
de oliva como empréstimo era muito grande. As colheitas de azeitonas são
imprevisíveis, e a qualidade do azeite varia de ano para ano, por causa do
tamanho e da qualidade das azeitonas. Óleos mais baratos, extraídos de
outras fontes, podiam ser adicionados ao óleo de oliva, e os métodos usados
para determinar sua pureza, eram ineficientes.7
O administrador tinha uma posição de confiança. Ele controlava os
bens de seu senhor e era considerado membro de sua casa. Representava
seu senhor e tinha plena autoridade para tratar com os devedores da maneira
que julgasse mais acertada. Os devedores, portanto, tinham que aceitar as
condições impostas pelo administrador. Estas eram apenas de sua respon­
sabilidade.
Se o administrador se mostrasse incompetente, ineficiente ou indigno
de confiança, o senhor o chamaria para prestar contas, e depois, sumaria­
mente, o despediria. O administrador não tinha como procurar ajuda exter­
na. Teria que deixar o emprego, estaria sem recursos próprios, e não seria
bem recebido pelos companheiros .8

A História

Jesus contou uma história que poderia muito bem acontecer nos dias
de hoje. Fala de um homem rico que escolheu um administrador para os seus
negócios. Ele tinha inteira confiança no escolhido, mas quando soube que
ele estava dissipando seus bens, chamou-o e disse-lhe para apresentar seus
livros e prestar contas de sua administração, pois estava despedido. Poderia
procurar outro emprego.
O administrador sabia que as acusações contra ele eram verdadeiras,
que tinha abusado da confiança de seu senhor, e que não poderia pedir
misericórdia.9 Sabia que um sucessor tomaria seu lugar. O que o futuro
7. Derrett, Law, p. 71.
8. Fitzmyer, em Essays, p. 177, é de opinião que o administrador recebia com issões nas
transações. Derrett, Law, p.74, mostra que o dinheiro envolvido em transações de em prés­
timo pertencia ao senhor. Além disso, o administrador da parábola de Jesus não tinha bens
próprios e, por isso, fazia reservas para o futuro.
9. A o contrário, o ministro das finanças, na parábola do credor incompassivo (M t 18.21-35),
ajoelhou-se e pediu a seu senhor que fosse paciente.

252
O ADMINISTRADOR INFIEL

reservava para aquele administrador? Tinha que depender de sua própria


engenhosidade. Não cra fisicamente capacitado para o trabalho braçal, e
mendigar estava fora de questão .10 Ele arrazoava consigo mesmo, conside­
rando possibilidades e alternativas. De repente, exclamou: “Eu sei o que
farei!” Controlaria os negócios de modo que os devedores de seu senhor
ficassem lhe devendo obrigações, para que, depois de sua demissão, o
recebessem em suas casas.
Chamou os devedores, um a um. Dois exemplos são dados. O primeiro
veio e o administrador lhe perguntou quanto devia ao senhor. Ele respondeu:
“Cem cados de azeite.” Era uma quantidade considerável de azeite, perto
de 868 galões, ou 3.946 litros.11 Uma oliveira produz cerca de 120 quilos de
azeitonas, ou 25 litros de azeite.12 O total de azeite devido viria de uma
plantação com 150 árvores ou mais. O administrador disse ao devedor para
apanhar a conta, que registrava o valor devido e que o reduzisse à metade.
Ao devedor seguinte, fez a mesma pergunta: “Tu, quanto deves?” E
ele respondeu: “Cem coros de trigos.” O equivalente a cem alqueires, que
correspondem ao que cem acres produziam, naqueles dias. O administra­
dor disse-lhe para apanhar sua conta e reduzir o total em vinte medidas.
Nos dois exemplos, largas somas de dinheiro estavam envolvidas.
Assim mesmo, com a permissão do administrador, que já tinha sido comu­
nicado de sua demissão, os devedores mudaram os números das contas.
Podemos presumir que outros devedores fizeram o mesmo.
Os devedores alteraram os totais porque sabiam que a taxa de juros
para o azeite emprestado era de cem por cento e para o trigo emprestado
vinte e cinco por cento. Satisfeitos, mudaram o total para a soma que,
realmente, deviam ao Senhor. Não falsificaram os números, antes, de próprio
punho, indicaram quanto tinham que pagar. Resumindo, porque os juros da
usura tinham sido retirados, prevaleceu a honestidade.
Quando o administrador apresentou os livros a seu senhor, que a seguir
tomou conhecimento das alterações, ele foi elogiado por ter agido com
astúcia .14 O administrador, não o senhor, manteve a situação sob controle.
10. Eclesiástico 40.28 adverte: “Filho, não leves vida de mendigo; é melhor morrer do que
mendigar” (NEB).
11. SB, 11:218, faz esse cálculo baseando-se em Josephus, Antiquities 8.57. Jeremias, Parales,
p. 181, arredonda para 800 galões, quantia adotada pelos tradutores do NIV.
12. Dalman, Arbeit und Sitte, IV:192.
13. Dalman, Arbeit und Sitte, 111:155,159. Veja-se, também, Jeremias, Parablcs, p. 181; SB,
11:218.
14. I. H. Marshall, “Luke XVI.8 — Who Commented the Unjust Steward?” JTS 19 (1968):
617-19.

253
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Palavras de louvor foram proferidas porque o administrador tinha assegu­


rado para si mesmo a hospitalidade e a generosidade dos devedores, tinha
preparado o caminho para seu sucessor, afastando qualquer má vontade da
parte dos devedores, e tinha dado a seu senhor a oportunidade de elogiá-lo
por ter retirado as taxas de usura e ter-se mostrado cidadão religioso e
cumpridor da lei. O administrador deve ter deixado seu senhor em posição
mais favorável, uma vez que este lhe dirigiu palavras de louvor.15
“E elogiou o senhor o administrador infiel porque se houvera atilada-
mente.” A palavra infiel não pode ser aplicada à atitude do administrador
em relação aos devedores, porque, então, a sentença “porque se houvera
atiladamente” seria contraditória .16 Ela se refere à vida anterior do admi­
nistrador quando ele esbanjava os bens de seu senhor. A caracterização é a
mesma daquela usada para o juiz que, com o correr do tempo, tinha
estabelecido a reputação de ser injusto. Quando julgou a causa da viúva, com
certeza não lhe fez injustiça.17 Do mesmo modo, o administrador, por sua
prévia carreira de negócios escusos, é chamado de desonesto, mesmo que
as instruções que mais tarde deu aos devedores fossem honradas e louváveis,
aos olhos do público. O senhor não podia ir aos devedores e aplicar as taxas
de usura que anteriormente o administrador tinha combinado, pois, então
agiria como um agiota e poderia ser levado aos tribunais. O senhor elogiou
o servo por sua esperteza.

Aplicação

O que ensina a parábola, precisamente? A história do administrador


desonesto, posta à luz das circunstâncias judaicas originais, ainda transmite
uma mensagem importante para os nossos dias. Qual é, então, a mensa­
gem ?18 Jesus a resumiu, afirmando: “Porque os filhos do mundo são mais
hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz. E eu vos recomendo:

15. Derrett, Law, p. 73.


16. H. Drexler, “Zu Lukas 16.1-7", ZNW 58 (1967): 286-288, sustenta que porque o senhor fora
injusto com o administrador, pedindo-lhe contas e o despedindo, este se vingou chamando
os devedores.
17. O artigo definido e o substantivo gregos (tes adikias), traduzidos adjetivamente em muitas
versões, são os mesmos em Lc 16.8 e Lc 18.6.
18. H. Preisker, “Lukas 16.1-7”, TLZ 74 (1949):85-82, contrasta a parábola do administrador
desonesto com a do filho pródigo. O administrador continuou escravizado ao poder do
dinheiro, enquanto o filho pródigo gastou seu dinheiro e se arrependeu.

254
O ADMINISTRADOR INFIEL

Das riquezas de origem iníqua fazei amigos; para que, quando estas vos
faltarem, esses amigos vos recebam nos tabernáculos eternos.”
O ponto que a parábola focaliza é o fato de que o administrador, que
tinha fama de desonesto, compreendendo que seu futuro estava em perigo,
procurou aprovação, sendo honesto e generoso com os devedores de seu
senhor. Não procurou riquezas do mundo, mas distribuiu-as àqueles que
deviam a seu senhor, embora o dinheiro não fosse seu, e, num certo sentido,
nem mesmo de seu patrão. Do mesmo modo, os filhos da luz não devem
colocar seus corações em bens terrenos. Devem ser generosos e repartir
parte do que possuem. Podem agir assim porque essas posses não lhes
pertencem, mas, sim, a Deus. Quando doam dinheiro aos pobres, estão
redistribuindo a riqueza que lhes for confiada por Deus .20Jesus repetiu essa
verdade quando disse: “Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a
terra... mas ajuntai para vós outros tesouros no céu” (Mt 6.19,20). O que
Jesus ensinou tem raízes, de muitas formas e maneiras, nos ensinamentos do
Velho Testamento. Davi, na presença do povo de Deus, orou: “Porque quem
sou eu, e quem é o meu povo para que pudéssemos dar voluntariamente estas
coisas? Porque tudo vem de ti, e das tuas mãos to damos” (1 Cr 29.14). Por
intermédio da parábola do administrador infiel, Jesus aconselha seus segui­
dores a dar de seu dinheiro tanto quanto possível para que possam receber
aprovação de Deus e serem bem-vindos à sua casa, para ali viverem eterna­
mente. 1
Aqui encontramos, implícito, um ponto de contraste. Indiretamente,
Jesus diz: o administrador infiel, reduzindo o total das dívidas, olhou para o
futuro; muito mais deve o povo de Deus repartir seus bens e olhar adiante,
para sua casa eterna. O povo de Deus deve usar suas posses materiais para
fazer um investimento espiritual, assim como o filho do mundo usa seu
dinheiro para obter lucros materiais. O tempo vem quando o dinheiro será
coisa do passado. Ao vir a morte, o espírito do homem volta para Deus, que
o deu (Ec 12.7). Deus recebe com alegria todos aqueles que não têm
colocado seu coração em tesouros da terra, mas têm ajuntado tesouros nos
céus .22

19. Traduções mais antigas, seguindo literalmente o texto grego, obscurecem, de algum modo,
o significado da passagem. A NEB traduz Lucas 16.9 quase do m esm o m odo que a N IV :
“Eu vos digo: Usai vossas riquezas materiais para fazer amigos para vós mesm os, de m odo
que, quando o dinheiro for coisa do passado, possais ser recebidos no lar eterno.”
20. Derrett, Law, p. 74.
21. SB, 11:221. Consulte-se, também, Willians, “Almsgiving”, p. 294; Lunt, “Parable”, p. 134.
22. Com base nos estudos dos textos de Cunrã, a expressão “riquezas materiais”, o m am om da
injustiça, deve ser contrastada com as riquezas celestiais. Marshall, Luke, p. 621.

255
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Os filhos do mundo sabem como usar suas posses terrenas e como


aplicá-las de modo materialístico. De repente, no entanto, podem abandonar
padrões desonestos sabendo que, a longo prazo, a honestidade compensa.
Por outro lado, cristãos que têm aprendido o padrão da lei de Deus, têm,
muitas vezes, a tendência de relaxar e modificar os princípios cristãos.
Querem o melhor dos dois mundos: querem ter a fé cristã no conforto de
uma sociedade abastada; querem ser amados por Deus e, ao mesmo tempo,
serem elogiados pelos homens. Jesus disse: “Os filhos do mundo são mais
hábeis na sua própria geração do que os filhos da luz.” Se aqueles que não
professam servir a Deus compreendem que seus padrões são fundamentais,
não deveriam os que professam ser seu povo manter a lei de Deus, praticar
o que pregam e mostrar por palavras e atos que o dinheiro, afinal, falha, mas
as riquezas celestiais são eternas? Em sua epístola pastoral, Tiago adverte
os cristãos que fazem opção por uma vida dupla. “Infiéis, não compreendeis
que a amizade do mundo é inimiga de Deus? Aquele, pois, que quiser ser
amigo do mundo, constitui-se em inimigo de Deus” (Tg 4.4).

256
36___________________________
O Rico e Lázaro

Lucas 16.19-31

19“Ora, havia certo homem rico


que se vestia de púrpura e de linho
finíssimo, e que todos os dias se
20
regalava esplendidamente. H a­
via também certo mendigo, cha­
mado Lázaro, coberto de chagas,
que jazia à porta daquele; 21e de­
sejava alimentar-se das migalhas
que caíam da mesa do rico; e até
os cães vinham lamber-lhe as úlce-
22
ras. Aconteceu morrer o mendi­
go e ser levado pelos anjos para o
seio de Abraão; morreu também o
rico, e foi sepultado. 23 No inferno,
estando em tormentos, levantou os
olhos e viu ao longe a Abraão e
Lázaro no seu seio. 24Então, cla­
mando, disse: Pai Abraão, tem mi­
sericórdia de mim! e m anda a

257
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Lázaro que molhe em água a ponta


do dedo e me refresque a língua,
porque estou atormentado nesta
chama. 25Disse, porém, Abraão:
Filho, lembra-te de que recebeste
os teus bens em tua vida, Lázaro
igualmente os males; agora, po­
rém, aqui ele está consolado; tu,
em tormentos. 26E, além de tudo,
está posto um grande abismo entre
nós e vós, de sorte que os que que­
rem passar daqui para vós outros
não podem, nem os de lá passar
para nós.27 Então replicou: Pai, eu
te imploro que o mandes à minha
casa paterna, 28porque tenho cin­
co irmãos; para que lhes dê teste­
munho a fim de não virem também
g a ra este lugar de torm ento.
Respondeu Abraão: Eles têm
Moisés e os profetas; ouçam-nos.
M as ele in sistiu : N ão, pai
Abraão; se alguém dentre os mor­
tos for ter com eles, arrepender -
s e -ã o . 31A b ra ã o , p o rém , lhe
respondeu: Se não ouvem a Moisés
e aos profetas, tão pouco se deixa­
rão persuadir, ainda que ressuscite
alguém dentre os mortos.”

A parábola do administrador infiel e a do rico e Lázaro têm algumas


coisas em comum. Primeiro, um ponto óbvio: asfrases introdutórias das duas
parábolas são idênticas: “Havia certo homem rico.” Segundo, o ensino da
parábola do administrador infiel é a advertência para que não ajuntemos
tesouros na terra, e, sim, nos céus. Este é, também, um dos temas da parábola
do rico e Lázaro. E, terceiro, nas duas parábolas encontramos o chamado
para o arrependimento, antes que seja tarde demais. Elas desafiam o ouvinte
a voltar ao ensinamento da lei de Deus a respeito do uso das riquezas, ao
exercício da honestidade e do respeito, e à prática da misericórdia e do amor.

258
O RICO E LÁZARO

A parábola do rico e Lázaro pode ser vista como um drama em dois


atos, seguidos de uma conclusão. A primeira cena apresenta a vida e a morte
na terra; a segunda retrata o céu e o inferno. A conclusão é dada na forma
de uma aplicação implícita.

Aqui e Agora

Jesus contou a história sugestiva de um rico e um pobre .1 O rico se


vestia de púrpura, ornamento de reis,2 suas roupas eram de linho finíssimo,
vindo do Egito. Dia após dia, ele gastava seu tempo em banquetes porque
não tinham nada para fazer. Passava sua vida em festas. Apesar de toda a
sua riqueza, o nome do homem não é conhecido .3 Tudo que sabemos é que
tinha cinco irmãos que, como ele mesmo, mostravam habitual menosprezo
pela Palavra de Deus revelada.
A segunda pessoa apresentada na história se achava no extremo oposto
do espectro econômico. Vivia em pobreza abjeta. Não podia nem mesmo
andar. Seus amigos tinham que carregá-lo e apoiá-lo junto ao portão da
mansão do rico. Por causa da falta de cuidados médicos e de higiene pessoal,
ele sofria de uma doença da pele e tinha o corpo coberto de feridas. Seu
corpo tinha definhado, a fome era sua companheira constante e seu olhar
ansioso se voltava para as sobras de comida que tinham sido varridas do chão
da sala de jantar 4 e reunidas para serem dadas aos cães e aos mendigos que
esperavam lá fora. Esse miserável ser humano só tinha a companhia dos cães
que vinham lamber-lhe as chagas. Embora tenha passado pela vida como se

1. A ntes dos dias de Jesus, uma história popular egípcia descrevia um rico vestido de fino linho
e um pobre numa esteira de palha, cujos papéis se invertiam após a morte. Veja F. L. Griffith,
Slories of the High Priests o f M em phis (Oxford: n.p. 1900), e H. Gresssmann, V om reichen
M an und arm en Lazarus (Berlin: n.p. 1918). Esse conto popular foi trazido a Israel pelos
judeus de Alexandria. Alterado, tom ou-se parte do folclore judaico. Na história modificada,
um rico coletor de im postos chamado Bar Ma’jan e um pobre mestre da lei foram sepultados.
A p ós a morte, o mestre da lei passeava ao longo dos riachos do paraíso, enquanto o coletor
de impostos, mesmo junto das águas, era incapaz de alcançá-las para mitigar sua sede. G.
Dalman A ram aische Dialektproben (Leipzig: Deichert, 1927), pp. 33-34.
2. A tinta púrpura era obtida do caramujo púrpura. SB, 11:220.
3. O nome Dives é o adjetivo latino para a palavra rico, em todas as versões latinas. A o rico
têm sido dados nomes como Amonofis, Finees, Finaeus, Nineue, e Neves, em vários
manuscritos. H. J. Cadbury “A Proper Name for D ives”, JBL 81, (1962):339^t02; H. J.
Cadbury, “The Name o f D ives”, JBL 84 (1965): 73; K. Grobel, “... W hose Nam e was N eves”,
NTS 10 (1963-64):373-82.
4. O s hóspedes, à mesa de um rico, usavam pedaços de pão para limpar a gordura de entre os
dedos. Esses pedaços não deviam ser colocados no prato da carne ou do m olho e não eram
com idos pelos convidados. Era costume jogá-los para debaixo da mesa. Oesterley, Parables,
p. 205; Jeremias, Parables, p. 184.

259
AS PARÁBOLAS DE JESUS

fosse ninguém, seu nome ficou registrado: Lázaro, forma abreviada de


Eleazar, que significa “Deus ajuda”.
Os dois homens eram judeus, mas o rico ignorava a ordem de Deus
para cuidar de seu compatriota abatido pela pobreza. O rico não podia ser
totalmente ignorante das Escrituras, pois os mestres da lei diligentemente
instruíam o povo acerca dos preceitos divinos. Além disso, conhecia Lázaro
e até mesmo sabia seu nome. O pobre homem, que nunca se queixava, nem
nunca se dirigia ao rico, confiava em Deus, que o ajudava.
A morte veio e pôs fim ao sofrimento de Lázaro. Seu corpo, que não
era mais que pele e osso, foi, rapidamente, removido. Porque não havia
ninguém para mostrar ou receber simpatia, seu funeral não foi, ao menos,
mencionado. Mas, Lázaro não estava sozinho na hora de sua morte. Os anjos
de Deus vieram e o levaram para um lugar de honra nos céus. Estava
assentado junto de Abraão, onde podia desfrutar do Banquete Messiânico .6
O rico morreu, também. Sua vida de comodidade, luxo, conforto,
prazer e pompa, subitamente terminou. Talvez tenha sofrido um ataque
cardíaco. Seu funeral foi bem cuidado. Seus cinco irmãos fizeram todos os
arranjos necessários. Tocadores de flauta e carpideiras vieram, e todos os
seus amigos compareceram. O falecido vivera com pompa; foi enterrado
com pompa. Mas, todos aqueles que vieram pranteá-lo, não podiam ver além
do túmulo. Continuavam a pensar nele como um homem rico, agora morto .7
Enquanto Lázaro foi levado pelos anjos para o seio de Abraão, o rico,
despojado de seus bens terrenos, foi para o inferno.

Então e Além

Tudo mudou no momento da morte. Lázaro recebeu um lugar da mais


elevada honra, junto do pai dos crentes. Os anjos o tinham levado para junto
de Abraão, onde gozava da companhia dos filhos de Deus. O rico, que na
terra vivia cercado de amigos, não era mais considerado rico no inferno.
Despojado de toda a sua riqueza, estava só.

5. Recentem ente, alguns estudiosos têm procurado explicar o nome Lázaro. Consulte-se R.
Dunkerley, “Lazarus” NTS 5 (1958-59):321-27; J. D. M. Derrett, “Fresh light on St. Luke
XVI: II. D ives and Lazarus and the Preceding Sayings”, NTS 7 (1960-1961): 364-480,
publicado em Law in the New Testam ent (London: 1970), pp. 78-99; C. H. Cave, “Lazarus
and the Lukan Deuteronomy”, NTS 15 (1968- 69):319-25.
6. O termo holpos ( = “seio”) pode ser entendido como uma expressão oriental significando
recostar-se ou reclinar-se em uma festa ou banquete (Jo 13.23). Pode, também, descrever
amizade íntima (Jo 1.18). Veja-se, T. W. Manson, The Sayings o f Jesus (London: SCM Press,
1950), p. 299; SB, 11:225-27.
7. Michaelis, G leichnisse, p. 217.

260
O RICO E LÁZARO

Do outro lado do túmulo, Lázaro mantinha silêncio em relação ao rico,


embora, compreensivelmente, conversasse com Abraão. Foi Abraão quem
respondeu aos pedidos do homem rico. Não foi Lázaro, e, sim, Abraão quem
o instruiu sobre as realidades dos destinos eternos. O rico estava em tormen­
tos, enquanto Lázaro gozava o prazer da companhia de Abraão. No tormen­
to do inferno estavam incluídas a sede extrema e a agonia do fogo.8
O rico, no tormento do inferno, viu Abraão à distância c Lázaro junto
dele .9 Reconheceu Abraão, o pai dos crentes. Sendo judeu, cie o conhecia
como pai. Esperava que sua raça fosse levada em conta, embora fosse muito
mais física que espiritualmente filho de Abraão. Mesmo no inferno, parecia
não compreender que sua completa indiferença às ordens dc Deus na terra
tinha posto fim a qualquer reclamo de herança espiritual.10Durante sua vida,
ele mesmo rompera os laços espirituais com Abraão, ignorando as necessi­
dades de seu próximo. Em vez de amar o próximo como a si mesmo, vivera
não para este, nem para Deus, senão para si mesmo. Buscara sempre a
satisfação própria. Agora, no inferno, estava entregue a si mesmo.
O rico não se encontrava no inferno porque tinha vivido de modo
perverso, na terra. Seus muitos parentes e amigos podiam testemunhar que
tinha sido cidadão proeminente e que dera provas de ser anfitrião muito
generoso, quando recebia seus convidados. Podiam falar dele com palavras
calorosas de elogio e reconhecimento. Entretanto, o rico não merecia os
tormentos do inferno por causa do que tinha feito na terra, mas, antes, pelo
que deixara de fazer. Tinha negligenciado o amor a Deus e ao próximo.
Menosprezara Deus e sua Palavra.
Mesmo no inferno, o rico continuava impenitente. Não pediu miseri­
córdia a Deus, mas a Abraão. Chamou Abraão de pai, e esperava que o
patriarca tivesse pena de um de seus descendentes .11 Instruiu Abraão a
como mostrar misericórdia e enviar alívio: “Manda a Lázaro que molhe em
água a ponta do dedo e me refresque a língua.” Pôs de lado os preconceitos.
8. A sede e a dor eram o quinhão daqueles condenados a morrerem separados de D eus. Veja-se
2 Ed 8.59; 2 Enoque 10.1,2.
9. Para descrever os indivíduos no céu e no inferno, Jesus usou imagens de corpos humanos e
suas funções, embora tanto o corpo de Lázaro com o o do homem rico estivessem sepultados
na terra.
10. Paulo, na Epístola aos Romanos, toca neste ponto, quando escreve: “E não pensem os que
a palavra de D eus haja falhado, porque nem todos os de Israel são de fato israelitas; nem
por serem descendentes de Abraão são todos seus filhos” (Rm 9.6,7).
11. O judeu se orgulhava do fato de ser descendente de Abraão — Mt 3.8,9 e Jo 8.33-39. Um
judeu excomungado não chamaria Abraão de pai. O judeu, com boas obras a seu crédito,
pertencia ao povo do pacto de Israel e podia chamar Abraão de pai. Veja-se Oesterley,
Parables, p. 208.

261
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Aceitaria prontamente ser servido por um antigo mendigo, se pudesse.


Ainda assim, seu tom de voz deixava implícito que considerava Lázaro como
um servo que devia ser enviado a seu pedido, com a aprovação de Abraão.
Na terra, o rico nunca tinha ajudado Lázaro; no inferno, entretanto, mostrava
necessidade de ajuda. Reconheceu Lázaro, mas não se dirigiu a ele, direta­
mente. Queria que Abraão o enviasse, como um servo humilde que respon­
desse prontamente às ordens de um rico. Em certo sentido, agia como se
ainda estivesse na terra.
Enquanto Lázaro gozava dos prazeres celestiais, provavelmente no
cenário de um riacho corrente, o rico sofria a agonia ardente do fogo do
inferno .12 Ele implorou por água para refrescar sua língua, e viu que Lázaro
poderia alcançá-la.
Abraão se dirigiu ao rico como “filho”, aceitando o parentesco físico.
Mesmo esse parentesco não devia trazer alívio ao homem, por duas razões:
(1) a lei da retribuição, e (2) o caráter irrevogável do veredito de Deus.
Primeiro, a lei da retribuição estipulava que a vida terrena de um homem,
em palavras e atos, permanecia em relação direta com seu destino na vida
futura. O rico escolhera uma vida de coisas boas na terra; no inferno sofria
agonia. Lázaro, pelo contrário, passara a vida na miséria, mas, depois, gozava
do conforto dos céus. Segundo, o irrevogável julgamento de Deus estava
confirmado pelo abismo intransferível existente entre o céu e o inferno.
Ninguém poderia ir do céu para o inferno e vice-versa.13 Deus pronunciara
seu julgamento sem possibilidade de apelo. O destino fora selado no mo­
mento da morte.
Lázaro foi para o céu, e o rico para o inferno. Entre os dois lugares,
Deus colocou um grande abismo para tornar impossível a passagem de uma
situação para outra .14
12. Fica evidente, pelas muitas referências ao fogo do inferno, nos Evangelhos, que Jesus
ensinou, em termos francos, a doutrina do inferno. Reconhecidamente, a palavra para
inferno, nestes textos, é a palavra G ehenna e não Hades. Jesus o descreveu como um lugar
de castigo, como também fizeram os apóstolos. Vejam-se, entre outras passagens: Mt
5.22,29,30; 7.19; 8.12; 10.28; 18.8,9; 22.33; 25.41; e versículos paralelos.
13. Oesterley, Parablcs, p. 209, vê a doutrina da condenação eterna com o anticristã. Pergunta
se Lucas 16.26 é uma interpolação e afirma que a passagem “fica mais suave sem o v. 26”.
Porque ele não apresenta evidência textual, tal questionamento é inadmissível e demonstra
uma recusa a lidar com a Palavra de Deus escrita. É C. F. Evans, "Uncomfortable Words
— V. (Luke 16.31)", ExpT 81 (1969-70):230, que escreve: “Hoje, a parábola é considerada
fundamento imperioso para a crença de que a posição e o status do indivíduo são irrevoga-
velm ente fixados no momento da morte.”
14. N o v. 26, o tempo perfeito do verbo grego sterizo indica estado resultante. Entretanlo, o
uso de hopos implica em propósito e não resultado de alguma coisa ocorrida. Morris, Luke,
p. 254, A . T. Robertson, A Gram m ar of lhe Greek New Testam ent (New York: Hodder &
Stoughton, George H. Doran Company, 1919), p. 896.

262
O RICO E LÁZARO

O rico compreendeu que sua situação era permanente. Seu próprio


quinhão foi fixado, mas o de seus cinco irmãos, na terra, não estava. Pode­
riam mudar a maneira de viver e, assim, evitar passar a eternidade no inferno.
Mais uma vez, ele chamou Abraão de “pai”, e outra vez queria usar Lázaro
como servo. Implorou a Abraão que enviasse Lázaro à casa de seus pais para
avisar seus irmãos, a fim de que não viessem para o lugar de tormento no
qual se encontrava. Estava ciente do grande abismo colocado entre o céu e
o inferno, mas pensava que alguém poderia, prontamente, ir do céu para a
terra. Pensava que Abraão tinha autoridade para enviar Lázaro. D e algum
modo, compreendia que ele mesmo não poderia deixar o inferno para voltar
à terra. Tinha que ficar onde estava.15
Durante sua vida na terra, assim como durante a conversa do rico com
Abraão, Lázaro permaneceu em silêncio. Nem uma palavra saiu de seus
lábios sobre a audácia do rico de dizer a Abraão o que fazer. O rico se dirigiu
a Abraão, que lhe respondeu.
Abraão se recusou a permitir que um sinal dos céus fosse enviado aos
cinco irmãos do homem rico. Não permitiu nada que vislumbrasse o oculto.
A revelação de Deus fora dada e era suficiente para a salvação. Abraão disse
ao rico que seus parentes tinham acesso aos cinco livros de Moisés, e aos
livros dos profetas. Isto é, tinham as Escrituras do Velho Testamento.
“Ouçam-nos.”
O rico sabia que seu pai e seus irmãos não levavam a sério as Escrituras.
Seus cinco irmãos solteiros viviam ainda na casa do pai (o número cinco é
arbitrário) e viviam uma vida semelhante à que ele levara na terra. Não eram
as riquezas que eles desfrutavam que o preocupavam ,16 e, sim, o seu menos­
prezo para com as Escrituras. Chamou Abraão de “pai” pela terceira vez,
assegurando-lhe que seu pai e seus irmãos se arrependeriam se alguém de
entre os mortos ressuscitasse e fosse ter com eles. Não pediu mais que Lázaro
fosse enviado. Qualquer um poderia fazê-lo.
Abraão respondeu que ninguém ressuscitado de entre os mortos seria
capaz de lhes falar a respeito da revelação de Deus mais claramente do que
podiam achar nas Escrituras. Se um homem rejeita a Palavra de Deus escrita,
não se arrependerá nem será persuadido por alguém que ressuscite. O rei
Saul viu Samuel trazido pela médium de En-Dor, e, ainda assim, não se

15. Michaelis, Gleichnisse, p. 264, na 151, sugere que Lázaro poderia aparecer, em sonho ou
visão, aos irmãos do rico. Entretanto, se este fosse o caso, o próprio homem rico poderia
fazer isso com muito mais eficácia.
16. A dedução não é que um crente deva viver na pobreza para entrar nos céus. Abraão, durante
sua vida na terra, era considerado rico. O ponto em questão é a relação com D eus e com o
próximo. Mánek, Frucht, p. 108.

263
AS PARÁBOLAS DE JESUS

arrependeu (1 Sm 28.7-25). Os fariseus viram Lázaro, irmão de M aria e


Marta, sair do túmulo. Não se arrependeram, antes, procuraram matá-lo (Jo
12.10). O fato de o nome Lázaro, na parábola, ser o mesmo do ressuscitado
em Betânia, surpreende. Leva-nos a perguntar até que ponto pode isto ser
mera coincidência.18 No entanto, porque não sabemos a circunstância his­
tórica precisa na qual a parábola foi contada, a tentativa de ligá-la ao relato
da ressurreição de Lázaro, em Betânia, embora bem intencionada, dificil­
mente convence. Por outro lado, a ressurreição de Lázaro e a ressurreição
de Jesus demonstram indubitavelmente que aqueles que se recusam a aceitar
o testemunho da revelação de Deus “tão pouco se deixarão persuadir, ainda
que ressuscite alguém dentre os mortos”.

Aplicação

Não há, na parábola do rico e Lázaro, introdução nem conclusão


específicas. A parábola pode ter sido contada em qualquer ocasião do
ministério terreno de Jesus. Mas, porque Lucas a registrou em seguida à do
administrador infiel, e porque ele revela a reação dos fariseus ao ensino de
Jesus: “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Lc 16.13), podemos deduzir
que os fariseus estavam presentes quando Jesus contou a parábola do rico e
Lázaro. Os fariseus eram, provavelmente, os que ouviam a parábola. O
contexto imediato mostra que, porque amavam o dinheiro, ridicularizavam
Jesus (Lc 16.14). Também porque se justificavam a si mesmos diante dos
homens, como Jesus afirmou (Lc 16.15). Deus, no entanto, conhecia seus
corações. Jesus via a contradição que havia em suas vidas e contou a história
de um homem que amava o dinheiro, vivia no luxo, e pensava que o fato de
ser descendente de Abraão lhe garantiria a salvação. O conteúdo da pará­
bola está ligado ao comentário dirigido aos fariseus a respeito de vícios como
o amor ao dinheiro e a auto-justificação .20
No contexto mais amplo da série de parábolas registradas por Lucas,
várias questões se impõem: “O que o rico e Lázaro representam?” e “Por
que Jesus não contou a história de um rico coletor de impostos e um pobre
mestre da lei?” Os fariseus olhavam os publicanos como “pecadores” que
corriam o risco de perderem o direito de ser chamados filhos de Abraão e
de pertencer ao povo da aliança de Deus. Na parábola, no entanto, Jesus
17. Plummer, SL Luke, p. 397.
18. Dunkerley, “Lazarus”, p. 322.
19. Manson, Sayuings, pp. 296-301, e Hunter, Parables, p. 114, sugerem que a parábola foi
endereçada aos saduceus porque negavam a ressurreição. Esta seria, na verdade, uma
interpretação útil, se o contexto, direta ou indiretamente, se referisse a eles.
20. Derrett, Law, p. 85, se refere à história de Dives e Lázaro como a “parábola da inversão”.
Veja-se, também, Oesterley, Parables, p. 203.

264
O RICO E LÁZARO

retrata dois homens, um rico e o outro pobre. O rico viveu uma vida
respeitável, chamava Abraão de pai, e foi viver a eternidade no interno. O
pobre jamais abriu a boca, na terra ou no céu, embora ocupasse lugar de
honra junto ao pai Abraão.
Os fariseus foram capazes de se reconhecer no homem rico. Reagiram
veementemente contra a afirmação de Jesus de que não poderiam servir a
Deus e às riquezas. Ridicularizando Jesus, ostensivamente revelaram que
eram aqueles que amavam o dinheiro. Eram, também, os únicos que pron­
tamente chamavam Abraão de pai e pensavam que seu parentesco com o
patriarca lhes assegurava o futuro. Três vezes o rico chamou Abraão de pai.
Mas, Abraão, embora aceitando a descendência física, chamando-o de
“filho”, na primeira vez, deixou claro, nas respostas subseqüentes, que um
parentesco físico era insuficiente.21 Portanto, os fariseus não podiam contar
com o fato de serem da linhagem de Abraão para terem garantido um lugar
no céu.
Além disso, os fariseus eram os que ensinavam a lei da retribuição, em
relação à vida futura. Essa doutrina, simplesmente, não é compatível com o
ensino de Jesus .22É estranha a ele. Mas Jesus pôs a doutrina dos fariseus na
boca de Abraão: “Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens em tua vida,
e Lázaro igualmente os males; agora, porém, aqui, ele está consolado; tu, em
tormentos.” Jesus aplicou a lei da retribuição aos fariseus, que ouviram sua
própria teologia dos lábios de Abraão. Eles tinham criado um grande abismo
entre eles próprios e os proscritos morais e sociais. Esses, banidos da
sociedade, viviam em completa pobreza religiosa e econômica. Ninguém da
comunidade judaica lhes fornecia alimento espiritual; estavam condenados
a morrer de fome. Se alguém, alguma vez, questionasse a atitude dos fariseus
em relação a esses marginalizados, ouviria como resposta que eles tinham
Moisés e os profetas, que ouvissem a lei e se arrependessem. Os fariseus
ouviam suas próprias palavras distinta e diretamente de Abraão. Estavam
retratados pelo rico, no inferno, e Lázaro representava os marginalizados.
Os fariseus, mais que uma vez, haviam pedido a Jesus que lhes desse
um sinal dos céus .23Pediam isso com o propósito de testá-lo. Provavelmente
não teriam acreditado nele, mesmo que lhes apresentasse um sinal sobrena­
tural. Agora, esses mesmos fariseus ouviam o rico da parábola pedir a
Abraão um sinal dos céus. Abraão recusou. Ele disse: “Se não ouvem a
Moisés e aos profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite
alguém dentre os mortos.” No pedido do rico, os fariseus ouviram o eco de
suas próprias palavras. A parábola era endereçada a eles._______
21. F. H. Capron, “Son in the Parable of the Rich Man and Lazarus”, ExpT 13 (1901): 523.
22. Schippers, G eiykenissen, p. 160.
23. Mt 12.38; 16.1; Mc 8.11; Lc 11.16; Jo 6.30.
24. Schippers, G elijkenissen, p. 161.

265
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Conclusão

A lição ensinada por Jesus é atemporal; é a regra permanente de como


ouvir, obediente e agradecido, a Palavra de Deus. As Escrituras nos ensinam
a amar o Senhor nosso Deus de todo o nosso coração, nossa alma e nossa
mente, e ao próximo como a nós mesmos. Este amor tem que ser material­
mente expresso na cuidadosa entrega de nossos dons ao Senhor e àqueles
que, próximos a nós, estão em dificuldade (SI 112.9; 2 Co 9.7). Este amor,
também, deve-se mostrar espiritualmente; primeiro, pelo crescimento na
graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2 Pe 3.18);
e, segundo, ensinando nosso próximo a conhecer o Senhor (Jr 31.34- Hb
8 .11).

Os ricos são realmente ricos quando repartem suas bênçãos materiais


e espirituais com os necessitados. Na verdade, são terrivelmente pobres se
guardam, para si mesmos, essas bênçãos. Qualquer que ajunte egoisticamen-
te riquezas materiais, acaba sofrendo bancarrota espiritual. Do mesmo
modo, qualquer igreja que deixa de evangelizar, morre espiritualmente.
Os cristãos das sociedades abastadas não podem deixar de ver e ouvir
as necessidades dos pobres na África, Ásia e América Latina. Pelas notícias
da mídia, encontram os necessitados junto à sua porta. Esses são os que
sofrem de fome física e espiritual, que anseiam pela comida que cai da mesa
do rico.
Em lugar algum as Escrituras ensinam que é pecado ser rico. Repeti­
damente, no entanto, elas advertem o povo de Deus que riquezas podem ser
cilada e tentação que “afogam os homens na ruína e perdição” (1 Tm 6.9).
Quando o homem coloca Deus e seu próximo necessitado em um plano
secundário, e trata as Escrituras com desprezo intencional, sua resposta
responsável ao chamado para o arrependimento pode não acontecer ja­
mais.
Na parábola soa uma nota de urgência para o homem que sábia e
obedientemente atenta para a Palavra de Deus. Ela o chama ao arrependi­
mento e à fé; diz-lhe que ele está vivendo no período da graça; instrui-o a
deixar de lado a auto-justificação; e fá-lo lembrar que o destino do homem
é irrevogavelmente selado no momento da morte. Resumindo, a parábola
reitera as palavras do salmista: “Oxalá ouvísseis hoje a sua voz! Não endu­
reçais o vosso coração” (SI 95.7,8).

25. O Glombitza, “D er reiche Mann und der arme Larzarus. Luk. X V I 19-31. Zur Frage nach
der Botschaft des Texts”, NovT 12(1970): 173.

266
37
O Fazendeiro e o Servo

Lucas 17.7-10
7“Qual de vós, tendo um servo
ocupado na lavoura ou em guardar
o gado, lhe dirá quando ele voltar
do campo: Vem já e põe-te à
mesa? 8E que antes não lhe diga:
Prepara-me a ceia, cinge-te e ser­
ve-me, enquanto eu como e bebo;
depois comerás tu e beberás?
9Porventura terá de agradecer ao
servo por ter este feito o que lhe
havia ordenado? 10Assim, também
vós, depois de haverdes feito quan­
to vos foi ordenado, dizei: Somos
servos inúteis, porque fizemos
apenas o que devíamos fazer.”

N o mundo materialista da sociedade ocidental, a parábola do fazen­


deiro e seu servo parece, de certo modo, fora de lugar. As disputas traba­
lhistas, de um tipo ou de outro, são comuns, hoje em dia. Salários mais altos
e jornadas mais curtas são parte das exigências da força de trabalho. Um
empregado de determinado setor não pode, simplesmente, passar para
outro. Cada trabalhador deve fazer a tarefa para a qual foi contratado.

267
AS PARÁBOLAS DE JESUS

A parábola contada por Jesus deixa entrever parte da relação empre-


gador-empregado, daqueles dias. Embora as circunstâncias atuais sejam
outras, a aplicação da parábola não tem limite no tempo. A mensagem
transmitida nesta pequena representação da vida agrícola da sociedade do
primeiro século é permanente e relevante ainda hoje.
Qual de vós , disse Jesus, “tendo um servo ocupado na lavoura ou em
guardar o gado, lhe dirá quando ele voltar do campo: Vem já e põe-te à
mesa? E que antes não lhe diga: Prepara-me a ceia, cinge-te e serve-me,
enquanto eu como e bebo; depois tu comerás e beberás? Porventura terá de
agradecer ao servo por ter este feito o que lhe havia ordenado? Assim,
também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos
servos inúteis, porque fizemos apenas o que deveríamos fazer .”1
O contexto da parábola é o relacionamento frio e impessoal do mundo
antigo, quando o que se esperava de um escravo era que obedecesse o que
quer que seu senhor ordenasse. Se o dono desse ordens ao servo para arar
o campo durante o dia e preparar o jantar, quando voltasse, ele, simples­
mente, obedeceria, pois sabia que esta era sua tarefa. Era simples assim. E,
por ter feito sua tarefa, o escravo não recebia agradecimentos, porque não
era costume agradecer-lhes.
O que Jesus está dizendo com esta parábola? Ele quer que seus
seguidores entendam o que significa ser servo. Seus próprios discípulos, que
viviam num clima religioso de méritos e deméritos^ perguntaram, mais de
uma vez, qual deles seria o maior no reino dos céus. Jesus teve que ensinar:
“Se alguém quer ser o primeiro, será o último e servo de todos” (Mc 9.35).
Ele mesmo deu o exemplo, quando lavou os pés dos discípulos (Jo 13.1-17)
e, depois de instituir a Santa Ceia, instruiu-os a agir como servos: “... o maior
entre vós seja como o menor; e aquele que dirige seja como o que serve. Pois
qual é maior: quem está à mesa, ou quem serve? Pois, no meio de vós, eu sou
como quem serve” (Lc 22.26,27).3
Constantemente Jesus tinha que ensinar a seus discípulos que não
deviam trabalhar para o reino de Deus pensando em recompensas. Deus não
emprega seus servos para recompensá-los por seus serviços. Nenhum servo
pode, jamais, dizer: “Deus está em débito comigo.” Deus não compra
serviços como um empregador que compra o tempo e a habilidade de seus

1. O adjetivo “inúteis”, na sentença “som os servos inúteis”, não tem o sentido de imprestável
ou sem serventia. E mais uma expressão de modéstia no sentido de falta de merecimento
“Som os servos, e não merecemos elogios” (NEB).
2. Mt 18.1; 20.21; Mc 9.34; 10.37; Lc 9.46; 22.24; e veja Mt 23.11.
3. Na parábola dos servos vigilantes (Lc 12.35-38), o senhor, quando chega, prepara a refeição
dos servos e os serve.

268
O FAZENDEIRO E O SERVO

empregados. E porque Deus não entra numa relação empregador-empre-


gado, ninguém pode, jamais, reclamar de Deus, alegando serviços presta­
dos .4
Para fazer seus discípulos entenderem o que significa servir, Jesus
contou-lhes a parábola do fazendeiro e seu servo. O fazendeiro podia fazer
as maiores exigências a respeito do tempo e da eficiência dc seu servo.
Legitimamente podia agir assim, para o seu próprio benefício e prazer. Se
isso era verdadeiro na relação entre o fazendeiro e o servo, Jesus perguntou,
quanto mais verdadeiro será para os servos dc Deus, que foram chamados
para amar a seus servos para serem santos, porque ele é santo, então,
ninguém pode reclamar dele recompensas por tarefas cumpridas. Ninguém
tem o direito de esperar dele palavras de elogio por ter feito o que devia. Se
Deus concede favores e recompensas, o faz pela graça dele e não pelo mérito
pessoal de cada um.

4. Comparem-se, entre outros, SI 62.12; Mt 16.27; 2 Co 5.10; A p 22.12.


5. M anson, Sayings, p. 302.

269
38
O Juiz Iníquo
Lucas 18.1-8

^ ‘Disse-lhes Jesus uma parábo­


la, sobre o dever de orar sempre e
nunca esmorecer. 2Havia em certa
cidade um juiz, que não temia a
Deus nem respeitava homem al­
gum. 3Havia também naquela mes­
ma cidade uma viúva, que vinha ter
com ele, dizendo: Julga a minha
causa contra o meu adversário.
4Ele por algum tempo não a quis
atender; mas, depois disse consi­
go: Bem que eu não temo a Deus,
nem respeito homem algum, t o ­
davia, como esta viúva me impor­
tuna, julgarei a sua causa, para não
suceder que, por fim, venha a mo­
lestar-me. 6Então disse o Senhor:
Considerai no que diz este juiz iní­
quo. 7Não fará Deus justiça aos
seus escolhidos, que a ele clamam
dia e noite, embora pareça demo­
rado em defendê-los? 8Digo-vos
que depressa lhes fará justiça.
271
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Contudo, quando vier o Filho do


homem, achará porventura fé na
terra?”

Esta parábola é conhecida, também, como a parábola da mulher


persistente. E companheira daquela do amigo à meia-noite (Lc 11.5-8).
Lucas apresenta as duas como relatos semelhantes: uma sobre um homem,
a outra sobre uma mulher (esta parábola é encontrada apenas em Lucas).
Embora pareça um tanto fora do contexto, sua conclusão: “Contudo, quando
vier o Filho do homem, achará porventura fé na terra?” (18.8) a relaciona
com o estudo escatológico do capítulo precedente. Além disso, o assunto
oração aparece na parábola do fariseu e do publicano (Lc 18.9-14) que vem
imediatamente a seguir.

A Viúva e o Juiz

Apenas duas pessoas representam os papéis principais: a viúva e o juiz.


O adversário da viúva é apenas mencionado. A parábola do amigo à meia-
noite também apresenta dois personagens centrais: o hospedeiro e o vizinho,
enquanto que o viajante é mencionado apenas de passagem.
Parece que as viúvas, em Israel, passavam por grande dificuldade; as
numerosas leis protetoras indicam que eram oprimidas e passavam grande
privação. O próprio Deus defende a causa da viúva (Dt 10.18) e amaldiçoa
o homem que perverter seu direito (Dt 27.19). A viúva tomava o lugar do
marido falecido e, no tribunal, era considerada como tendo os mesmos
direitos de um homem: “No tocante ao voto da viúva ou da divorciada, tudo
com que se obrigar lhe será válido” (Nm 30.9). Qualquer um que pervertesse
o direito da viúva teria que enfrentar Deus, o juiz das viúvas (SI 68.5).
Contudo, as viúvas eram maltratadas. O profeta Isaías queixa-se de
que os governantes da terra são rebeldes e ladrões. “Não defendem o direito
do órfão, e não chega perante eles a causa das viúvas” (Is 1.23). E Malaquias
afirma que Deus será testemunha veloz contra aqueles que oprimem a viúva
e o órfão (Ml 3.5).
Jesus contou a seus discípulos sobre uma viúva de certa cidade, que
não tinha ninguém para apoiá-la contra seu adversário, a não ser um juiz
iníquo .1 Seu adversário não tinha nem mesmo que comparecer no tribunal,
o que é indício de que se tratava de uma questão de dinheiro. Ela não podia
1. G. Schrenk, T D N T 1:375.

272
O JUIZ INÍQUO

pagar um advogado. Então, se dirigiu diretamente ao juiz e queria que ele


lhe servisse de advogado e juiz .2
Em vez de ir ao tribunal da comunidade, ela procurou o juiz, que era
conhecido por todos pela sua má reputação .3 Esse juiz não tinha princípios
religiosos e se mostrava imune à opinião pública. Simplesmente não dava a
mínima importância ao que falasse Deus ou o homem. Assim era o juiz que
a viúva procurou. Faltam-nos detalhes, pois não nos é dito nada sobre a idade
da mulher,4 se era rica ou pobre, e porque procurou um juiz que “não temia
a Deus nem respeitava homem algum”.
Viúva, ela é um retrato de vulnerabilidade. Seu único recurso é levar
sua causa ao juiz com o pedido: “Julga a minha causa contra o meu adver­
sário.” A expressão “julga a minha causa” é linguagem jurídica, e significa,
realmente, “aceita a minha causa”, ou “ajuda-me a obter justiça ”.5
Apesar da reputação do juiz de menosprezar esses assuntos, a viúva
pediu-lhe ajuda. Coerente com a própria fama, o juiz se recusou a agir.
Provavelmente dispensou a viúva, mandando-a para casa, com a observação
costumeira: “O caso seguinte, por favor.”
A única arma de que a mulher dispunha era procurar o juiz, dia após
dia, com o mesmo pedido: “Julga a minha causa contra o meu adversário.”
A viúva conseguiu irritar o juiz, que pensou: “Bem que eu não temo a Deus,
nem respeito homem algum, todavia, como esta viúva me importuna, julgarei
a sua causa, para não suceder que, por fim, venha a molestar-me.” Ele não
temia uma agressão física;6 o que estava acontecendo é que a persistência

2. Derrett, “Law in the New Testament: The Unjust Judge”, NTS 18 (1971-72): 188, publicado
em Studies in the New Testam ent (Leiden: Brill, 1977), 1:42.
3. D e acordo com a lei dos fariseus, o judeu estava proibido de procurar tribunais não judaicos.
Paulo revela que na igreja primitiva esta mesma regra devia ser seguida (1 Co 5.12 — 6.8).
Muitas vezes, o povo procurava juizes gentios “se por esse intermédio, apelando para algum
argumento político ou fiscal, pudessem ter frustrados os direitos de seus oponentes ou
pudessem forçá-los a fazer o que a lei ordinária deixara de fazer”. Derrett, “Law in the New
Testament”, p. 184, Consulte-se, também, Smith, Parables, p. 149.
4. Porque os casamentos eram contratados quando a moça tinha catorze ou quinze anos, uma
viúva podia ser bem jovem. Consulte-se SB, II: 374; Jeremias, Parables, p. 153.
5. Derrett, “Law in the N ew Testament”, p. 187, Schrenk, TDNT, II: 443.
6. A s traduções da palavra grega hypopiaze variam, e vão de um insulto ao com etim ento de
um ato de violência — “acertar um soco no olho”. Derrett, “Law in the New Testam ent”, p.
191, interpreta a palavra, como significando “perda de prestígio”. E, portanto, comparável
à palavra anaideia, de Lc 11.8, que pode ter o sentido de “não ser alvo de reprovação; manter
a aparência”. Veja-se D . R. Catchpole, “The Son o f Man’s Search for Faith (Luke XVIII
8b)” NovT19 (1977):89. 1 Co 9.27 é o outro lugar, no Novo Testamento, onde a palavra
hypopiaze é usada.

273
AS PARÁBOLAS DE JESUS

dela fazia aflorar o seu lado bom. Em lugar de ir embora, quieta, que era o
que ele esperava, ela voltava, sempre, com o mesmo pedido. O juiz não podia
suportar mais a insistência da mulher. Ele cede, investiga o caso e aplica a
justiça.

Aplicação

Na parábola do juiz iníquo, Jesus é muito mais específico que na do


amigo importuno. De fato, a interpretação e a aplicação da mensagem da
parábola, em Lc 11.5-8, devem ser buscadas no contexto geral, enquanto que
na parábola do juiz iníquo, encontramos tanto a mensagem quanto a aplica­
ção.
n
Jesus diz: “Considerai no que diz este juiz iníquo.” Ele quer que os
discípulos prestem atenção às palavras do juiz. Elas são importantes para a
compreensão correta da parábola. Como fez na parábola do amigo que veio
à meia-noite, Jesus usa a regra dos contrastes. Ele contrasta o pior que há
no homem com o melhor que há em Deus: “Considerai no que diz este juiz
iníquo. Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e
noite, embora pareça demorado em defendê-los?” Em outras palavras,
ninguém deve imaginar Deus como uma divindade inabalável que se com­
para ao juiz da parábola. O sentido é que se esse juiz grosseiro e mau
humorado, que, segundo suas próprias palavras, não teme a Deus nem aos
homens, se comove com os pedidos da viúva, quanto mais fará Deus justiça
a seu próprio povo que ora a ele, de dia e de noite?
Além disso, não existe nenhuma relação entre a viúva e o juiz, seja
social, comunitária ou religiosa. O juiz quer ficar livre dela para que até o
laço advogado-cliente tenha fim. E, mesmo assim, esse juiz inescrupuloso
atende à viúva e lhe faz justiça. Deus, ao contrário, escolheu seu próprio
povo. Ele tem interesse especial nesse povo, pois ele lhe pertence .8Quando
esse povo lhe pede, noite e dia, Deus toma para si sua causa e faz justiça.
Assim, se a viúva tivesse pedido a Deus, teria recebido justiça, porque Deus
ouve e responde às orações .9O juiz ouviu a mulher pelo motivo errado: para
livrar-se dela. Deus ouve seu povo porque o ama e defende sua causa. O juiz
age egoisticamente; Deus age em favor de seu povo.
7. A expressão “juiz iníquo” define o contraste entre a injustiça personificada pelo juiz terreno
e D eus, que ouve seus eleitos. Veja-se G. Delling, “Das Gleichnis von gottlosen Richter”,
ZN W 53 (1962): 14.
8. Delling, “Gleichnis”, p. 15.
9. A linguagem da parábola é reminiscência de Eclesiástico 35.12-20, que fala sobre a justiça de
Deus. “Porque o Senhor é um juiz”, diz Jesus Ben-Sirach. “Ele jamais ignora o apelo do órfão
ou da viúva” (NEB).

274
O JUIZ INÍQUO

Os filhos de Deus devem orar constantemente? A parábola ensina que


devem trazer sua causa diante de Deus, em oração contínua. Devem orar
sempre e não se tornarem ansiosos quando não obtêm uma resposta imedia­
ta. Jesus ensina o poder da oração. Por palavras e exemplos, ele demonstrou
que os filhos de Deus devem orar dia e noite, sem desanimar. Do mesmo
modo, Paulo, em suas Epístolas, repetidamente se refere ao fato de orar
continuamente (dia e noite) e com o máximo empenho, como, por exemplo,
no seu desejo de estar com a igreja em Tessalônica (1 Ts 3.10).
Se o povo de Deus clama a ele dia e noite, por que, às vezes, ele demora
a responder ?10Jesus continua: “Não fará Deus justiça aos seus escolhidos...
embora pareça demorado em defendê-los?” E a resposta implícita desta
pergunta de retórica é: Naturalmente que sim. Ele talvez faça seu povo
esperar, pode testar sua paciência, fortificar sua fé, mas, no tempo próprio,
Deus responderá às orações de seus eleitos.
Deus não é como o juiz iníquo que se recusa a atender os pedidos da
viúva. Deus pode fazer seu povo esperar, mas fará justiça incontinenti:
“Digo-vos que depressa lhes fará justiça.” Aparentemente há uma contradi­
ção na afirmativa de Jesus. Mas não é o que acontece se propusermos duas
simples questões e procurarmos suas respostas. Primeiro, Deus fará justiça
a seu povo? A resposta, obviamente, é que sim. O povo de Deus pode confiar
em sua fidelidade. Ele não é como o juiz iníquo, em cujo caráter não se pode
confiar. Segundo, o povo de Deus deve esperar até que suas orações sejam
respondidas? Ao contrário do juiz, Deus não se sente incomodado porque
seu povo ora a ele, de dia e de noite. Quando Deus ouve as orações, não
significa que cedeu em sua determinação de não respondê-las. Deus respon­
de às orações no tempo apropriado e de acordo com seu plano. E, quando
o tempo vem, a oração é prontamente atendida Deus não demora, pois seu
ouvido está sintonizado com a voz de seus filhos. Em tempos de tristeza, o
tempo de espera parece alongar-se, mas, quando o filho de Deus recebe
10. M uitos exegetas têm tentado uma explicação satisfatória para Lc 18.7b. A brusca mudança
do subjuntivo, no v.7a, para o indicativo, em 7b, pode significar que o versículo consiste de
duas sentenças independentes. A última parte do v. 7 é semelhante a Eclesiástico 25.19. Para
interpretações deste versículo, veja-se H. Riesenfeld, “Zu m akrothum ein (Lk 18.7) Neu-
testam entliche Aufsãtze, Festschrift honoring J. Schmid (Regensburg: Pustet, 1963), pp.
214-17; H. Ljungvik, “Zur Erklãrung einer Lukas-Stelle (Luk. XVIII7)”, NTS 10 (1963-64):
289-94; A. Wifstrand, “Lukas xviii:7", NTS 11 (1964-65): 72-74; C. E. B. Cranfield, "The
Parable of the Unjust Judge and the Eschatology of Luke-Acts", Scot J T 16 (1963): 297-301;
e Jeremias, Parables, p. 154.
11. Plumer, SI. Luke, p. 414, comenta que, embora o sentido exato não possa ser determinado,
o que é importante é suficientemente claro: “não importa o quanto a resposta possa parecer
demorada, a oração com fé e constância é sempre respondida.
12. Marshal, Luke, p. 676, Morris, Luke, pp. 263-64.

275
AS PARÁBOLAS D E JESUS

resposta às suas orações, e percebe o plano de Deus, admite que Deus


praticou a justiça em seu favor, sem demora.13
Jesus conclui a aplicação da parábola chamando a atenção para sua
volta: “Contudo, quando vier o Filho do homem achará porventura fé na
terra?” A pergunta, à primeira vista, parece não ter relação com o que a
precedeu. Mas, na última parte do capítulo anterior Lucas registrou o ensino
de Jesus sobre a vinda do Filho do homem, no último dia.14
Ao referir-se à sua segunda vinda, Jesus liga o conceito de justiça ao
dia do juízo, quando ele será o Juiz dos vivos e dos mortos (At 10.42). Jesus
lembra a seus seguidores o dia de sua volta. Ele vai encontrar, naquele dia,
a fé simples como a de uma criança?
A volta do Filho do homem não pode ser questionada; o evento se
cumprirá no tempo escolhido por Deus. Podemos estar certos da promessa
de Jesus sobre sua volta. O outro lado da questão é saber se o crente será
fiel em suas orações. O seguidor de Jesus orará continuamente pela vinda
do reino de Deus (Mt 6.10; Lc 11.2) e pela volta de Cristo (1 Co 16.22; Ap
22.17,20)? Jesus cumpre e, eventualmente, completa sua obra de redenção
através do corpo de crentes do qual ele é o Cabeça. Jesus faz a obra confiada
a ele. O crente, no entanto, será fiel a Jesus, comunicando-se com ele,
constantemente, em oração? Haverá fé perseverante, quando ele voltar?
*
Em certo sentido, a viúva persistente retrata a igreja em oração. 15 O
mundo oprime os seguidores de Jesus que não têm para onde se voltar, a
não ser para Deus. Eles esperam, em oração, a intervenção de Deus, sabendo
que ele ouvirá seus pedidos. A semelhança entre o hospedeiro insistente,
que tirou seu vizinho da cama, e a viúva que continuou insistindo com o juiz,
é clara. Nenhum dos dois tinha para onde ir. Os dois sabiam que, se
continuassem insistindo, acabariam sendo atendidos.
Por meio dessas parábolas. Jesus exorta seus seguidores a permanece­
rem fiéis, mesmo que sua volta exija espera paciente. As almas dos que
morreram por causa da Palavra de Deus podem gritar: “Até quando, ó
Soberano Senhor, santo e verdadeiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue
dos que habitam sobre a terra?” (Ap 6.10). A resposta que recebem é que
esperem um pouco mais até que se complete o número dos seus conservos
e irmãos.________________________________________________________
13. Veja Delling, “Gleichnis”, p. 20: C. Spicq, “La parabole de la veuve obstinée et dujuge inert
aux decisions impromptues (Lc xviii 1-8)”, RB 68 (1961): 82-83.
14. Linnemann, Parables, p. 121, ousadamente escreve que a parábola não é originalmente de
Jesus; antes, é a palavra do Senhor que ascendeu “falada em nome e espírito de Jesus para
a comunidade de crentes”. Catchpole, “Son o f Man’s Search”, p. 104, refuta o argumento
mostrando a interrelação da parábola e do contexto. Ele conclui que, na parábola, “ouvim os
a voz do Jesus histórico”.
15. Delling, “Gleichnis”, p. 24.

276
39
O Fariseu e o
Publicano

Lucas 18.9-14

9“Propôs também esta parábola


a alguns que confiavam em si mes­
mos por se considerarem justos, e
desprezavam os outros: Dois ho­
mens subiram ao templo com o
propósito de orar: um fariseu e o
outro publicano. fariseu, posto
em pé, orava de si para si mesmo,
desta forma: Ó Deus, graças te dou
porque não sou como os demais
homens, roubadores, injustos e
adúlteros, nem ainda como este
publicano. 12Jejuo duas vezes por
semana e dou o dízimo de tudo
quanto ganho. publicano, es­
tando em pé, longe, não ousava
nem ainda levantar os olhos ao
céu, mas batia no peito, dizendo: Ó
Deus, sê propício a mim, pecador!
14Digo-vos que este desceu justifi­
cado para sua casa, e não aquele;
porque todo o que se exalta será

277
AS PARÁBOLAS DE JESUS

humilhado; mas o que se humilha


será exaltado.”

O versículo introdutório desta parábola é propositalmente amplo em


seu escopo e não especifica um grupo determinado. Não obstante, existe a
tentação real de destacar os fariseus dos demais. Reconhecidamente, muitos
deles exibiam uma atitude de confiança na própria justificação e olhavam
com desprezo seus semelhantes. Seria um erro deplorável atribuir esta
atitude a todos os fariseus, pois Nicodemos e José de Arimatéia, por exem­
plo, não poderiam ser incluídos nesta categoria .1 Por isso, Lucas generali­
zou, no primeiro versículo.

O Fariseu

Nesta parábola, Jesus descreve a atitude de um fariseu em particular,


que em sua própria maneira de ver, excedia o restante de seus compatriotas
na observância dos detalhes da Lei de Moisés.2 Cheia do espírito de auto-
justificação e lançando olhares desdenhosos aos que estavam a seu redor, o
fariseu se encaminhou ao templo para orar. Em suas palavras e atitude,
mostrava que não precisava de Deus porque confiava em si mesmo .3 Sua
autoconfiança era tão grande que ele julgava ser capaz de manter o padrão
que se havia proposto. Conseqüentemente, menosprezava as pessoas que
não desejavam ou eram incapazes de manter esse padrão.
Ele foi ao templo de Jerusalém para orar. Deve ter sido no meio da
manhã, às 9 horas, ou no meio da tarde, às 15 horas — horas determinadas
para a oração. Dirigiu-se ao pátio externo, onde podia ser visto e ouvido
pelos homens, porque o pátio interno era acessível apenas aos sacerdotes.
Lá ele se postou e, olhando para os céus, orava a respeito de si mesmo .4 Sua
oração estava centrada nele mesmo, e pretendia que todos, ao seu redor, a
1. D. A. Hagner, “Pharisees”, ZPEB, 4:745-52.
2. Josephus, War, 1:110; Manson, Sayings, p. 309; SB, 11:239.
3. Jeremias, Parables p. 139 ne 38; Manson, Sayings, p. 309. Em sua carta aos Filipenses, Paulo
descreve sua vida passada, como fariseu: “Bem que eu poderia confiar também na carne. Se
qualquer outro pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais! Circuncidado ao oitavo dia,
da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto
ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensfvel” (Fp 3.4-6).
4. Os manuscritos gregos diferem na ordem precisa das palavras pros heauton. Estaria esta
frase ligada à expressão verbal “estar em pé” ou ao verbo “orar”? A tradução pode ser “de
pé, separado por si mesmo, orava” ou “posto em pé, orava para si mesm o”. Os tradutores
da NIV escolheram a segunda forma, com uma modificação. Entenderam a preposição pros
no sentido de “a respeito de”, embora na nota de rodapé traduzam com o “para”. The M odera
Language Bible (N ew Berkekey) traduz: “O fariseu pôs-se de pé e disse essa oração para si
m esm o.”

278
n FARISEU E O PUBLICANO

ouvissem. Foi uma oração curta: uma introdução, um elemento negativo e


um elemento positivo.
“Deus, graças te dou
Porque não sou como os demais homens —
roubadores, injustos e adúlteros —
nem ainda como este publicano.
Jejuo duas vezes por semana
e dou o dízimo de tudo quanto ganho.”
Na relativamente curta oração, a ênfase recai na primeira pessoa do
singular. O pronome eu ocorre, pelo menos, quatro vezes. O fariseu orou em
agradecimento. Nada pediu, porque confiava em si mesmo e em sua auto-
suficiência. Não tinha necessidade de se confessar, pois guardava os m anda­
mentos. As referências ao seu semelhante foram feitas em termos negativos.
Além disso, Deus deveria estar satisfeito porque um fariseu, cumpridor da
lei, se dirigia a ele em oração. Ele não se dava conta de que a graça de Deus
evitara que caísse em pecados tão medonhos como o roubo, a injustiça e o
adultério. Não podia entender o que significava viver com a consciência
culpada, como o publicano.
Para sua própria glorificação, enumerou dois feitos extraordinários
que costumava praticar. Primeiro, além e acima do que é exigido pela Lei,
jejuava duas vezes por semana. A Lei prescreve um dia de jejum por ano, no
Iom Kipur (= o Dia do Perdão ),5 mas dá permissão para o jejum voluntário,
em qualquer tempo. Os fariseus instituíram a segunda-feira e a quinta-feira,
como dias de jejum durante os quais são feitas orações pela nação.
Segundo, embora o dízimo sobre o produto comprado por ele já tivesse
sido entregue pelo produtor, o fariseu tornava a pagar, ele mesmo, o dízimo
de tudo o que se tornava seu .7 Queria ser ele mesmo a preservar a Lei de
Deus, embora as suas exigências já tivessem sido cumpridas pelos outros.
A oração do fariseu não era de todo incomum. Uma prece semelhante,
registrada no Talmude e proferida originariamente pelo rabino Nadhunya
ben H a Kana, por volta de 70 A.D., diz:
“Graças te dou, ó Senhor meu Deus, que me tens dado a minha
porção com aqueles que se assentam em Bete ha-Midrash
(= casa do conhecimento) e não tens colocado minha porção
com aqueles que se assentam nas esquinas, porque eu me
levanto cedo por causa das palavras da Torá e eles se levantam
5. Lv 16.29-31; 23.27-32; Nm 29.7; Jr 36.6.
6. SB, 11:24144; SB, IV: 1, 77-114. J. Behm, TDNT, IV: 924-35.
7 SB, 11:244-46; Jeremias, Parables, p. 140. D eus disse ao fazendeiro: “Certamente darás os
dízimos de todo fruto das tuas sementes, que ano após ano se recolher do campo” (D t 14.22).

279
AS PARÁBOLAS DE JESUS

cedo por causa de conversas frívolas; eu trabalho e eles traba­


lham, porém eu trabalho e recebo minha recompensa; eu corro
e eles correm, porém eu corro para a vida do mundo futuro, e
eles correm para a destruição .”8
O fariseu, olhando ao seu redor, no pátio do templo, viu um publicano.
Ele agradeceu a Deus por ser diferente dos outros homens, e, certamente,
diferente daquele coletor de impostos. Ele estava livre dos pecados cometi­
dos por aquele traidor. Como se atrevia, esse miserável, a entrar no templo?
Davi não perguntou: “Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem há de
permanecer no seu santo lugar? O que é limpo de mãos e puro de coração,
que não entrega a sua alma à falsidade, nem jura dolosamente” (SI 24.3,4).
As palavras de Davi, não condenavam esse publicano?

O Publicano

As sinagogas eram encontradas por todo o país e em numerosos


lugares de Jerusalém. O publicano não ousava entrar numa sinagoga. O que
ele procurava era um lugar onde pudesse orar a Deus sem ser perturbado.
Sendo judeu, tinha acesso ao pátio externo do templo e podia ir até lá na
hora de oração, pela manhã ou à tarde. Só desejava um lugar onde pudesse
permanecer afastado dos outros que ali vinham para orar.
O publicano ouviu a Palavra de Deus, que o convenceu de seus
pecados. Sua consciência o estava incomodando; precisava de ajuda espiri­
tual. Queria chegar até Deus, mas estava sobrecarregado pelo peso de sua
própria indignidade diante de Deus e do homem. Nem mesmo se atrevia a
erguer os olhos para os céus, apenas ergueu as mãos, em oração (1 Tm 2.8).
Sentia vergonha pelos pecados cometidos contra Deus e contra o próximo.
Empregado dos romanos, era objeto de desprezo e zombaria entre seu
próprio povo. Sabia que os tinha prejudicado, de tal modo que o viam como
ladrão e traidor. Não se surpreendia que os fariseus o considerassem peca­
dor e transgressor da lei de Deus.
A dívida que o coletor de impostos tinha para com o povo que ele
enganava era enorme. Ele não tinha possibilidade de pagá-la, e, além disso,
nem mesmo era capaz de se lembrar de quantos tinha enganado .9A Lei fala
claramente do pecado do roubo mediante fraude, quando diz: “Quando
alguma pessoa pecar, e cometer ofensa contra o SENHOR, e negar ao seu
próximo o que este lhe deu em depósito, ou penhor ou roubo, ou tiver usado
de extorsão para com o seu próximo... restituirá aquilo que roubou, ou que
8. Bcrakoth 28b, Zeraim, The Babylonian Talmud, p. 172.
9. Jeremias, Parables, p. 143.

280
O FARISEU E O PUBLICANO

extorquiu, ou o depósito que lhe foi dado, ou o perdido que achou, ou tudo
aquilo sobre que jurou falsamente; e o restituirá por inteiro, e ainda a isso
acrescentará a quinta parte; àquele a quem pertence, lho dará no dia da sua
oferta pela culpa” (Lv 6.2-5). O publicano não tinha coragem para aproxi­
mar-se do altar e dirigir-se ao sacerdote com sua oferta pela culpa. Ficou
distante do altar. Não tinha para onde ir a não ser para Deus, em oração.
Por causa de sua profissão tinha negligenciado a adoração a Deus, na
sinagoga e no templo. Agora, era chegado o momento de confessar seus
pecados diante de Deus, mesmo que não pudesse pensar em apresentar sua
oferta pelas suas culpas. Seus débitos para com o povo eram grandes e
variados demais. Pecara excessivamente para poder fazer uma oferta pela
sua culpa. Tudo o que podia fazer era orar a Deus. Mas, porque negligen­
ciara, por tanto tempo, sua vida espiritual, nem mesmo sabia orar. Faltavam-
lhe palavras de louvor, adoração e gratidão. O fardo do pecado o oprimia.
Queria expressar sua culpa e só conseguia clamar por misericórdia. Rogava:
“Ó Deus, sê propício a mim, pecador!” E, enquanto pedia, batia no peito
como querendo mostrar a fonte do pecado — seu coração.
O pecador, como o publicano chamava a si mesmo, chegou diante de
Deus com as mãos vazias. Não apresentava méritos, nem exigências. Não
usou desculpas ou explicações. Comparar-se a outros estava fora de cogita­
ção. Ele sabia que era o pecador implorando misericórdia. Seu grito: “O
Deus, sê propício a mim” era um pedido para que Deus perdoasse seus
pecados e afastasse dele a sua ira .10 Pedia misericórdia, e era tudo o que se
atrevia a pedir .11 Orou e esperou pela resposta de Deus.

Respostas

Na afirmação final, Jesus revelou como Deus respondeu às orações do


fariseu e do publicano: “Digo-vos que este (o publicano) desceu justificado
para sua casa, e não aquele (o fariseu)”. Deus ouviu e respondeu ao grito
angustiado do pecador em agonia espiritual.
As pessoas que cercavam o fariseu certamente o consideravam um
santo que se esforçava diligentemente para obedecer a lei de Deus. Acredi­
tavam que Deus ouviria sua oração porque era uma expressão de gratidão.
Por outro lado, a oração do coletor de impostos não estava acompanhada
da exigida oferta pela culpa e não poderia receber aprovação. Se alguém

10. Consulte-se o estudo sobre o verbo hilaskomai, de F. Büchsel, TDNT 111:316. The M od em
l^ n g n a g f Bible (N ew Berkeley) fornece uma tradução literal do texto grego: “D eus, tem
misericórdia de mim, pecador” (Lc 18.13).
11. M anson, Saylngs, p. 312.

281
AS PARÁBOLAS DE JESUS

fosse chamado a julgar as duas orações, provavelmente elogiaria o fariseu,


e condenaria o publicano .12
Deus ouviu as orações e sondou os corações dos dois homens. O do
fariseu era auto-suficiente, enquanto que o do publicano era completamente
vazio de autoconfiança. O fariseu se justificava diante de si mesmo e,
portanto, não tinha necessidade da misericórdia de Deus. Ele tinha obede­
cido à Lei e não tinha consciência de quaisquer pecados de comissão ou
omissão. O publicano, no entanto, se dirigiu a Deus usando a primeira linha
do Salmo 51, o salmo penitencial de Davi. Orou usando a própria linguagem
das Escrituras: “Compadece-te de mim, ó Deus...” (SI 51.1).13Ao seu pedido
acrescentou a palavra “pecador”, mas, mesmo nessa palavra ressoa o senti­
mento do salmo de Davi. Deus responde à oração feita segundo as Escritu­
ras.
O publicano voltou para casa justificado diante de Deus, disse Jesus.
O homem que se chamou de “pecador” confiou inteiramente na misericórdia
de Deus. Sua atitude em relação a Deus foi correta e, por isso, foi aceito
como filho de Deus, no reino dos céus. Confiou simplesmente em seu Deus,
que não desapontou sua fé. Diante de Deus, o publicano estava absolvido.
O fariseu, não. Um voltou santificado; o outro, como um pecador.
Jesus concluiu a parábola do fariseu e do publicano com as mesmas
palavras que usou para a parábola dos lugares à mesa: “Pois todo o que se
exalta será humilhado; e o que se humilha será exaltado” (Lc 14.11).
A aplicação da parábola não é limitada nem pelo tempo, nem pela
cultura. “Fariseus” e “publicanos” são encontrados nas igrejas de hoje. Se
olharmos no espelho da Palavra de Deus, podemos vislumbrá-los em nossa
própria vida. Jesus ensina que a verdadeira humildade leva à exaltação. Ele
nos diz que olhemos apenas para ele ao buscarmos a salvação. Quando
estamos conscientes de nossa própria insignificância diante de Deus e
pedimos misericórdia, Deus perdoa nossos pecados e nos salva através de
seu Filho. Nas palavras de Paulo: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar
os pecadores, dos quais eu sou o principal” (1 Tm 1.15).

12. Mánek, Frucht, p. 113; Linnemann, Parables, p. 61.


13. Jeremias, Parables, p. 144.
14. F. F. Bruce: “Justification in Non-Pauline Writings of the New Testament”, EQ 24 (1952):
68.

282
40
As Dez Minas
Lucas 19.11-27
^ “Ouvindo eles estas coisas,
Jesus propôs uma parábola, visto
estar perto de Jerusalém e lhes pa­
recer que o reino de Deus havia de
m an ifestar-se im ediatam ente.
12Então disse: Certo homem no­
bre partiu para uma terra distante,
com o fim de tomar posse de um
reino, e voltar. 13Chamou dez ser­
vos seus, confiou-lhes dez minas e
disse-lhes: Negociai até que eu vol­
te. 14Mas os seus concidadãos o
odiavam, e enviaram após ele uma
embaixada, dizendo: Não quere­
mos que este reine sobre nós.
15Quando ele voltou, depois de ha­
ver tomado posse do reino, man­
dou chamar os servos a quem dera
o dinheiro, a fim de saber que ne­
gócio cada um teria conseguido.
Compareceu o primeiro e disse:
Senhor, a tua mina rendeu dez.
17Respondeu-lhe o senhor: Muito
bem, servo bom, porque foste fiel
283
AS PARÁBOLAS DE JESUS

no pouco, terás autoridade sobre


dez cidades. 18Veio o segundo, di­
zendo: Senhor, a tua mina rendeu
19
cinco. A este disse: Terás autori­
dade sobre cinco cidades. 20Veio
então outro, dizendo: Eis aqui, se­
nhor, a tua mina, que eu guardei
embrulhada num lenço. 21Pois tive
medo de ti, que és homem rigoro­
so; tiras o que não puseste e ceifas
o que não semeaste. ^Respondeu-
lhe: Servo mau, por tua própria
boca te condenarei. Sabias que eu
sou homem rigoroso, que tiro o
que não pus e ceifo o que não se­
meei; 23por que não puseste o meu
dinheiro no banco? e então, na mi­
nha vinda, o receberia com juros.
E disse aos que o assistiam: Ti­
rai-lhe a mina, e dai-a ao que tem
as dez. 25Eles ponderaram: Se­
nhor, ele já tem dez. 26Pois eu vos
declaro: A todo o que tem dar-se-
lhe-á; mas ao que não tem, o que
tem lhe será tirado. 27Quanto, po­
rém, a esses meus inimigos, que
não quiseram que eu reinasse so­
bre eles, trazei-os aqui e executai-
os na minha presença.”

Q u a n d o Jesus estava indo para Jerusalém, as pessoas acreditavam


que o reino de Deus estava prestes a vir. Durante seu ministério de cura e
ensinamento, Jesus tinha curado cegos, limpado os leprosos e ressuscitado
Lázaro, além de pregar as boas-novas.1 Acompanhando Jesus a Jerusalém,
o povo esperava que o reino de Deus se tornasse uma realidade.
Jesus sabia que o povo não tinha entendido a vinda do reino, em termos
espirituais. Não puderam ver que ele não seria, nem poderia ser, um rei
terreno, no reino de Deus. Para ajudá-los a entender a implicação do reino,
Jesus contou a parábola das minas. Fez isso referindo-se indiretamente a
1. Mt 11.5,6; Lc 7.22.

284
AS DEZ MINAS

acontecimentos ocorridos há mais de trinta anos atrás e que estavam grava­


dos em suas memórias.

A H istória

O povo de Israel se lembrava com nitidez das calamidades infligidas


aos judeus durante os festejos da Páscoa do ano 4 a.C., no pátio do tempo
de Jerusalém. Herodes, o Grande, morrera não muito antes da festa da
Páscoa, e em seu testamento tinha determinado que Arquelau fosse o rei.
No entanto, o reinado de Arquelau não se tornaria efetivo até que César o
aprovasse. Antes que o novo escolhido pudesse viajar para Roma a fim de
ser oficialmente coroado rei — embora oficiais e soldados o aclamassem
como tal —, um distúrbio sem importância, no pátio do templo, degenerou
em um banho de sangue no qual três mil judeus foram mortos pelos soldados
de Arquelau. Em conseqüência, Arquelau ordenou que todos os judeus
voltassem para suas casas; eles deixaram a festa da Páscoa e partiram.
Enquanto Arquelau foi a Roma, seus oficiais ficaram no comando. Em
vista dos tumultos e da violência no país, Arquelau tinha pressa de se
apresentar diante de César para se defender. Cinqüenta deputados judeus
procuraram o imperador romano pleiteando a autonomia de Israel e acu­
sando Arquelau de assassinar três mil de seus compatriotas, no pátio do
templo, em Jerusalém. Esses cinqüenta deputados tiveram o apoio de mais
de oito mil judeus, em Roma .3 Pediram a César que seu país fosse entregue
a governadores, e não a Arquelau.
Depois de alguns dias de deliberação, César indicou Arquelau como
o etnarca da Iduméia, Judéia e Samaria, e prometeu fazê-lo rei se se provasse
capaz. Para o povo, no entanto, Arquelau, bem como seu irmão Antipas (ju e
governava a Galiléia e a Peréia, como tetrarca) eram considerados reis.
Arquelau deve ter passado tempo considerável em Roma, porque foi
envolvido em pelo menos dois litígios diante de César: um contra seus
parentes próximos, que queriam reclamar dele o trono, e outro contra os
cinqüenta deputados judeus que pleiteavam autonomia. Também em Jeru­
salém os judeus se revoltaram, durante a ausência de Arquelau. Por ocasião
da festa de Pentecostes, em 4 a.C., eles tentaram obter a independência
nacional.
2. Josephus, W ar 1:668; Antiquities 17:194.
3. Josephus, W ar 2:80; Antiquities 17:300.
4. José levou Jesus e Maria para Nazaré e não para Belém, porque Arquelau reinava (= b a s i-
leu ei) na Judéia, Mt 2.22. Em Mc 6.14,22,26 H erodes Antiquas é chamado de rei. M. Zerwick,
“D ie Parabel vom Thronanwãrter”, Bib 40 (1959): 662.

285
AS PARÁBOLAS DE JESUS

Quando Arquelau, afinal, voltou para tomar posse de sua etnarquia,


aplicou punição exemplar. Assim, o sumo sacerdote Joazar foi afastado de
seu posto por ter dado apoio aos judeus rebeldes. Arquelau foi extremamen­
te rude no trato não só com os judeus, mas também com os samaritanos.5
Por suas ações, ele se tornou o mais odiado dos governantes e, por causa das
queixas contra ele, foi afastado do cargo e banido em 6 a.D. Depois de seu
reinado, Iduméia, Judéia e Samaria passaram a ser administradas por gover­
nadores. Mas o povo tinha recordações bem vivas do reinado de Arquelau.
A Parábola

Ao se aproximar de Jerusalém, junto com numerosos peregrinos, para


a festa da Páscoa, Jesus tinha apenas que dizer: “Certo homem nobre partiu
para uma terra distante, com o fim de tomar posse de um reino, e voltar”, e
todo o povo sabia que ele se referia a Arquelau. Eles se recordavam do
massacre de três mil judeus, durante as celebrações da Páscoa, três décadas
atrás. Jesus continuou a chamar a atenção para esse incidente. Ele disse:
“Mas os seus concidadãos o odiavam, e enviaram após ele uma embaixada,
dizendo: Não queremos que este reine sobre nós. Quando ele voltou, depois
de haver tomado posse do reino, mandou chamar os servos.”
Jesus se referiu à história recente para estabelecer o cenário de seu
ensino sobre o reino de Deus. “Certo homem nobre”, Jesus disse, “chamou
dez servos seus, confiou-lhes dez minas e disse-lhes: Negociai até que eu
volte.” A quantia era equivalente a três meses de salário.6 Não era uma
quantia excessiva, o que cada um dos servos recebeu, mas era suficiente para
provar sua fidelidade ao rei. A instrução que cada um recebeu a seguir foi:
“Negociai até que eu volte.” O rei esperava que seus servos soubessem
administrar a relativamente pequena soma de dinheiro, para, assim, obter
lucro, por ocasião de sua volta. A ordem deve ser vista e entendida no
contexto da cultura oriental da época, quando o comércio e a barganha
faziam parte do dia-a-dia.
A ausência de quaisquer termos de contrato pode indicar a intenção
de ludibriar a lei divina contra a usura. Muitas vezes, Deus repetira a seu
povo que não cobrasse dos seus concidadãos juros de usura.7 Mas, numero­
sos meios de fraudar a injunção tinham sido postos em prática. Assim,
enormes lucros eram obtidos em alguns casos, principalmente quando o
dinheiro era investido em negócios que eram verdadeiras aventuras de alto

5. Josephus, W ar 2:111; Antiquities, 17:339.


6. Considerando as oscilações dos valores monetários, os tradutores expressam sua equivalência
em termos de um período de trabalho.
7. Ex 22.25; Lv 25.35-37; Dt 23.19,20; Ne 5.7; SI 15.5; Pv 28.8; Ez 18.8,13,17; 22.12.

286
AS D EZ MINAS

risco. O primeiro servo investiu o dinheiro e, quando seu senhor voltou,


estava apto a lhe mostrar um lucro de mil por cento. O segundo conseguiu
um lucro de quinhentos por cento.8 Embora a parábola não mencione os
lucros obtidos por outros servos, o contexto deixa implícito que experimen­
taram vários graus de sucesso. Do ponto de vista oriental, portanto, não era
comum alguém guardar seu dinheiro embrulhado num lenço em vez de pô-lo
para render. Negociar era parte da cultura.
Quando o rei voltou e convocou seus servos, se alegrou com a fideli­
dade daquele que ganhara outras dez minas. Elogiou-o pela sua diligência
e sabedoria; chamou-o de “bom” e o recompensou fazendo-o responsável
por dez cidades. O segundo servo, apos mostrar suas cinco minas adicionais,
recebeu proporcionalmente a mesma recompensa. Foi colocado como res­
ponsável por cinco cidades. O terceiro servo, ao devolver apenas a única
mina que tinha recebido, foi condenado.
Os três servos da parábola podem ser considerados como pertencendo
a três grupos. O primeiro, representa aqueles que obtêm imensos lucros; o
segundo, aqueles cujo lucro é considerável; e o terceiro, aqueles que não
obtêm lucro algum. O terceiro servo, portanto, é de um tipo completamente
diferente.10 Pode ser considerado um servo inútil.
Quando o terceiro servo compareceu diante do rei e devolveu a única
mina, fez saber que ela não lhe pertencia, mas, sim, ao rei e que ele a tinha
guardado em segurança, embrulhada num lenço. Ele não a gastara nem os
ladrões a haviam roubado. O medo o impedira de pô-la para render. Ele
conhecia a natureza exigente do rei e podia descrever minuciosamente suas
características. Ele disse: “Tive medo de ti, que és homem rigoroso; tiras o
que não puseste e ceifas o que não semeaste.” Sabia que seu senhor era
agressivo, que não hesitava em tomar o que não era seu. O servo tinha

8. Derrett, Law in the New Testam ent, p. 23, mostra que a cobrança de altas taxas de juros não
era incomum no mundo antigo. Como exemplo, se refere às taxas de empréstimos cobradas
por Catão, o Antigo.
9. A lguns estudiosos têm conjecturado se a palavra cidades entrou no texto por um engano da
palavra aramaica para talentos. Em aramaico, as duas expressões são bastante semelhantes:
cidades é kerakin e talentos é kakerin. E. Nestle sugere um possível erro de leitura do texto,
em um artigo publicado no Theologische Literaturzeitung, n2 22, 1985. M. Black, Aramaic
Approach, p. 2, defende a sugestão de Nestle, embora Dalman, Words o f Jesus, p. 67, tenha
destacado que no paralelo de Mt 25.21,23, os servos não recebem talentos, mas são colocados
responsáveis por muitas coisas. Lucas usa a palavra cidades para expressar o conceito geral
de muitas coisas. Além disso, um rei, tomando posse de seu reino, podia investir seus servos
de autoridade sobre cidades, o que não poderia (Mt 25) ser feito por um senhor.
10. Lucas usa o artigo definido masculino com heteros ( = outro) no sentido de “diferente”.
Plummer, SL Luke, p. 441.

287
AS PARÁBOLAS DE JESUS

consciência de sua própria timidez. Temia a dureza do rei. Esperava apenas


que, devolvendo a soma intacta, o rei o deixasse partir em paz.
O rei, no entanto, não ficou nem um pouco satisfeito com a insolência
do servo. Não entendeu o medo do servo e não teve paciência com sua
desculpa inepta. Podia-se ver refletido na descrição feita pelo servo, mas se
o servo acreditasse no que ele próprio dizia a respeito do rei, deveria, ao
menos, ter depositado, no banco, o dinheiro.11
O louvor e os elogios dirigidos aos dois primeiros servos se tornaram
escárnio e condenação para o terceiro. O rei, agindo agora como juiz, disse
ao servo que, com base em suas próprias palavras, ele seria julgado. Se o
servo sabia que seu senhor era um homem exigente, deveria ter tido confian­
ça na capacidade do rei de exigir dos banqueiros o seu dinheiro com os juros
devidos. Os banqueiros, com toda a certeza, deveriam ter conhecimento de
que o rei tirava o que não colocara e colhia onde não havia semeado. Mas,
embora reconhecesse que o rei saberia exigir bons lucros dos banqueiros, o
servo nem mesmo considerou a possibilidade de depositar o dinheiro no
banco. Prontamente, o rei o chamou de mau, querendo dizer que o servo era
incompetente, incapaz e inútil.12
A parábola é contada em tons fortes. O rei se dirige aos que assistiam
a cena: ‘Tirai-lhe a mina, e dai-a ao que tem as dez.” Eles expressaram sua
surpresa, ponderando ao rei: “Senhor, ele já tem dez.”13 A objeção à ordem
do rei se refere ao fato do primeiro servo já ter a maior soma de todos. Por
que deveria receber a mina extra? Esta ordem significa que o rico se tornará
mais rico, e o pobre mais pobre? Além disso, se o servo já tinha sido investido
de autoridade sobre dez cidades, iria se sentir recompensado recebendo a
relativamente pequena soma de uma mina? Afinal, todo o dinheiro que os
servos receberam do rei e aquele que ganharam negociando não seria
depositado no tesouro real? É fácil multiplicarmos as perguntas, mas a maior
parte delas se resolve se compreendemos o simbolismo que está implícito na
parábola.
O dinheiro confiado aos servos foi-lhes entregue como um teste. O rei
queria experimentar sua lealdade e recompensá-los adequadamente. Fez
11. Morris, Luke, p. 275.
12. G. Harder, TDN T, VI:547,554.
13. Pelo texto tom a-se difícil definir se este versículo faz parte da parábola ou se foi inserido
por copistas a partir de anotações feitas à margem. N o entanto, essas testemunhas (por
exemplo, D . W. 565 e algumas das versões latinas, siríacas e cópticas) que om item o versículo,
podem tê-lo feito por causa do paralelo de Mt 25.28,29 (que não o apresenta) ou por razões
estilísticas, a fim de providenciar uma ligação mais estreita entre Lc 19.24 e 26. Com base em
evidência externa e interna, entretanto, parece melhor conservar o v.25, Metzger, Textual
Com mentary, p. 169.

288
AS DEZ MINAS

isso colocando um servo responsável por dez cidades e o outro com a


responsabilidade sobre cinco. Como recompensa à sua lealdade ao rei, o
primeiro servo recebeu o dinheiro do terceiro. Agindo assim, o rei deixou
claro que seu relacionamento com o terceiro servo estava definitivamente
acabado.14 Mostrou, ainda, que punha total confiança no primeiro servo,
investindo-o da responsabilidade retirada do outro. O total do dinheiro deve
ser visto, então, em termos de responsabilidade.
O rei não respondeu diretamente aos que o cercavam. Usando uma
expressão um tanto proverbial,16 ele, implicitamente, disse-lhes por que eu
a mina ao servo que tinha as dez minas: “A todo o que tem dar-se-lhe-a; mas
ao que não tem, o que tem lhe será tirado.” A observação aponta para uma
prática comum no mundo dos negócios. Isto é, as pessoas prontamente
emprestam dinheiro para aqueles cujo retorno de capital mostra lucro
substancial. Confiam num negócio de sucesso porque sabem que o dinheiro
investido trará dividendos. Mas, quando os investidores sabem que a pessoa
que está tomando emprestado não consegue lucros sobre seu capital, de­
pressa retiram a quantia investida e reduzem, assim, ainda mais, o capita o
emprestador.17 O dinheiro é entregue ao homem que corteja o sucesso e
tirado daquele que enfrenta a bancarrota.
Jesus terminou a parábla chamando a atenção para os embaixadores
que tinham protestado contra a escolha daquele rei. Quando se apresenta­
ram diante dele, o rei ordenou que fossem executados. Nao ha registro de
que Arquelau, ao voltar de Roma, tenha mandado executar os cinqüenta
judeus que tinham intentado contra ele na corte de César. No entanto, e fato
conhecido que ele afastou do cargo o sumo sacerdote, por ter ajudado os
rebeldes. Ele, também, tratou o povo de modo mais cruel, depois de sua ida
a Roma.

Interpretação

Em certo sentido, a parábola das minas é uma parábola sobre o reino,


embora não seja apresentada pela frase familiar: “O reino dos céus é
semelhante...” A parábola, baseada em história verídica, foi contada na
ocasião quando o povo pensava que o reino de Deus estava prestes a vir. Da

14. D errett, Law in the New Testam ent, p. 28.


15 A afirmação sobre quem fala em Lc 19.26, o rei ou Jesus, depende da interpretação dada
ao versículo anterior. Plummer, SL Luta, p. 443. Por causa da expressão eu vos declaro ,
as palavras parecem refletir um comentário feito por Jesus, Marshall, Luke, p. 708.
16. D e m odo semelhante a expressão ocorre em Mt 13.12; 25.29; Mc 4.25; e Lc 8.18.
17. Derrett, Law in the New Testam ent, p. 30.

289
AS PARÁBOLAS DE JESUS

própria história recente, Jesus ensinou a seus contemporâneos uma lição a


respeito da vinda do reino.
A parábola pretendia ensinar ao povo que haverá um intervalo entre
sua primeira e segunda vindas. Como Arquelau partiu para Roma, mas
voltou, assim o Filho do homem partirá e, no tempo escolhido por Deus,
voltará. O rei deu a seus servos uma certa quantia de dinheiro, com a ordem
explícita de que a pusessem para render. Quando assumiu a responsabilida­
de de governar sua etnarquia, chamou os servos à sua presença, para
prestarem contas de suas atividades. Do mesmo modo, Jesus, ao partir da
terra para o céu, dotou seus seguidores com dons, e espera que eles operem
esses dons do modo mais fiel e fecundo durante sua ausência. Quando chegar
o tempo de seu retorno, ele convocará seus servos diante de si, para recebe­
rem palavras de louvor e recompensa, ou condenação e punição severas.18
O reino de Deus existe no presente, mas é, também, um estado de
expectativa a ser cumprido. Ele é, portanto, agora, mas, ao mesmo tempo,
ainda não. Jesus, embora eternamente rei, trará seu reino à realização plena,
somente após a sua volta. Então outorgará aos servos fiéis grandes oportu­
nidades de servi-lo, e, proporcionalmente, fará punir os servos indolentes e
maus. Durante sua ausência, Jesus dará ampla oportunidade para o serviço,
bem como para a rebeldia.
Aquelas pessoas que acompanhavam Jesus em sua jornada para Jeru­
salém não deviam ter pensado que o reiino traria, imediatamente, alegria e
felicidade a todos. Deviam, antes, ter pensado em termos de um intervalo
durante o qual seriam provados. Então, após o período de provação, os que
tivessem se rebelado, seriam punidos.
Ninguém, dos que ouviam Jesus, o identificaria com o cruel Arquelau
dos dias passados.20 Mas, seus ouvintes eram capazes de entender que o
intervalo da ausência de Arquelau, de certo modo, era um paralelo da
partida de Jesus e seu subseqüente retorno.
Simplesmente, a parábola não pode ser interpretada em todos os seus
detalhes, porque isso nos levaria a um absurdo total. O objetivo da parábola
é este: todos os seguidores de Jesus recebem dons e oportunidades para
servir. Ninguém pode dizer que, por não ter a habilidade de um teólogo
treinado ou a eloqüência de um orador talentoso, não pode servir ao Senhor.
Tais argumentos não prevalecem. A parábola ensina que todos os servos
18. Ridderbos, Corning o f the Kingdom, p. 515, comenta que é difícil explicar ‘A parábola das
minas’ de qualquer outro m odo que não como uma referência à partida de Jesus da terra
para o céu, e a vocação dos discípulos na terra”.
19. Plummer, St. Luke, p. 444.
20. Zerwick, “Thrononwárter”, p. 667.

290
AS D EZ MINAS

receberam uma mina e cada um respondeu pelo dinheiro a ele confiado. Do


mesmo modo, cada um dos seguidores de Jesus foi dotado com dons e com
oportunidades de usarem esses dons para servir. De cada um é esperado que
faça o melhor possível. Logo, o tempo concedido por Deus, em sua provi­
dência, estará findo, c, então, virá o juízo.
Eis que venho sem demora, e comigo está o galardão que tenho
para retribuir a cada um segundo as suas obras (Ap 22.12).

291
Conclusão
A s parábolas de Jesus são únicas no contexto das Escrituras. Embora
algumas parábolas tenham sido registradas no Velho Testamento, nos Evan­
gelhos o grande número de parábolas e de declarações em forma de parábola
é marcante. Alguns exemplos encontrados no Velho Testamento indicam
que o hábito de contar histórias não era desconhecido. O profeta Natã, por
exemplo, contou a Davi a história de um homem pobre cuja cordeirinha lhe
foi tomada por um homem rico. A aplicação: “Tu és o homem”, foi bastante
direta.1 Nos escritos dos rabinos, também encontramos o ensino em forma
de parábolas, mas é realmente difícil podermos atribuir mais que duas
parábolas a uma única pessoa.2 Entretanto, estima-se que um terço dos
ensinos de Jesus foi feito em forma de parábola. Contando as parábolas e as
ilustrações figurativas, alguns estudiosos chegaram a um total de sessenta
delas.3 Todas são chamadas de parábolas de Jesus.
Como, na conclusão de seu Evangelho, João escreve que nem tudo que
Jesus fez foi relatado (Jo 21.25), podemos presumir que nem todas as
parábolas contadas por ele foram registradas. Talvez algumas das histórias
atribuídas a Jesus, que encontramos em outras fontes que não o Novo
Testamento, sejam autênticas.4 Também, ensinando oralmente como os
mestres de seus dias costumavam fazer, Jesus repetia o que ensinava. Como
mestre, ele tinha toda a liberdade para contar determinada parábola mais
que uma vez, de formas diferentes, em cada caso. Quando viajou de Jericó

1 .2 Sm 12.1-4. Outros exemplos são a parábola da mulher tecoíta (2 Sm 14.4-7): e a mensagem


de Jeoás a Amazias (2 Rs 14.9).
2. Hunter, Parables, p. 15.
3. T. W. Manson, The Teaching of Jesus (Cambridge: University Press, 1951), p. 69, conta um
total de sessenta e cinco parábolas. A. M. Hunter, Interpreting the Parables (Philadelphia:
W estminster Press, 1960), p. 11, apresenta o número com o “cerca de sessenta”.
4. J. Jeremias, Unknown Sayings of Jesus (London: S. P. C. K., 1958), p. 2.

293
AS PARÁ KOI .AS DE JESUS

para Jerusalém, a fim de celebrar a Páscoa pela última vez, ele contou a
parábola das minas, baseando-a na circunstância histórica da ida de Arque-
lau para um país distante para ser escolhido rei. Alguns dias mais tarde, Jesus
contou a seus discípulos a parábola dos talentos. As duas, sem dúvida, têm
muito em comum, embora apresentem finalidade e propósito diferentes.
Jesus não apenas contou as parábolas; contou-as muito bem. Muitas
delas se destacam por serem breves, e, mesmo sendo curtas, são brilhantes.
Jesus buscou seu material em diversas fontes. Às vezes, voltava-se para o
Velho Testamento como fez na parábola da vinha e dos lavradores maus,
tomando seu tema do Cântico da Vinha”, registrado em Isaías 5. Em outras
ocasiões, tirava seus exemplos diretamente da época, cultura e meio ambien­
te em que vivia. Parábolas como a do semeador, da figueira estéril e do juiz
iníquo, são exemplos disto. Jesus, também, se baseava em acontecimentos
que eram bem conhecidos daqueles que o ouviam: o nobre que partiu para
um país distante, para ser escolhido rei, e o homem desventurado que caiu
nas mãos de salteadores, na estrada de Jericó. Jesus é o Grande Mestre de
todas estas parábolas. Embora os evangelistas as tenham transmitido, nas
parábolas nos deparamos como os ensinamentos de Jesus. Elas são suas. Isto
é, não tiveram origem na mente de um evangelista,5 e não foram criadas pela
comunidade cristã primitiva, que necessitava de uma história particular,
para com ela ilustrar o ensino de uma doutrina.6 As parábolas são original­
mente de Jesus.
Naturalmente, os evangelistas registraram as parábolas de Jesus, e, em
seu ofício de escrever os Evangelhos, mostraram sua própria individualida­
de. Diferenças de expressão, nos relatos paralelos das mesmas parábolas,
revelam, claramente, o seu trabalho individual. Além disso, o próprio fato
de Jesus ter contado suas parábolas em aramaico, enquanto que os Evange­
lhos as apresentam na língua grega, deixa claro que o restabelecimento das
palavras exatas de Jesus constitui um problema. A questão da origem, não
a autoridade, em relação à maneira específica de se expressar numa deter­
minada parábola, nem sempre é fácil de resolver. Se uma parábola foi
registrada apenas por um evangelista, a autenticidade das palavras de Jesus
não precisa ser discutida. Mas, quando uma parábola ocorre em relatos
paralelos do Evangelho e mostra variação na maneira de narrar, a questão

5. Jeremias, Parables, pp. 84-85, afirma que “é impossível deixar de concluir que a interpretação
da parábola do joio é do próprio Mateus”. Ele chegou a esta conclusão baseando-se em
considerações lingüísticas.
6. Jülicher, Gleichnisreden, 2:385-106, considera a parábola da vinha e dos lavradores maus,
uma criação da igreja primitiva. D o mesmo modo, R. Bultmann, The History o f the Synoptic
Tradition (New York: Harper and Row, 1963), p. 177.
7. Marshall, Eschatology and the Parables, p. 11.

294
CONCLUSÃO

do estilo do evangelista, em particular, se torna real. Mateus, Marcos e Lucas


exibem suas próprias características e tendências, ao registrar as parábolas
de Jesus.

Características Gerais

O Evangelho de Marcos tem apenas seis parábolas, e, por isso, não


podemos falar muito sobre suas características. Dessas seis, apenas uma é
peculiar a Marcos: a da semente germinando secretamente. As outras têm
paralelos em Mateus e Lucas. São as parábolas do semeador, do grão de
mostarda, da vinha e dos lavradores maus, da figueira e do servo vigilante.
A parábola do servo vigilante, que não está registrada no Evangelho de
Mateus, é a única das seis de Marcos que não diz respeito à natureza. De
todas as parábolas de Jesus, Marcos selecionou cinco que descrevem o
crescimento, na natureza. Esta evidência parece indicar que Marcos era uma
pessoa ligada à vida rural.
O mundo de Mateus é amplo, e abrange de reis a servos. Ele registra
parábolas que descrevem ministros das finanças, construtores, um fazendei­
ro que emprega trabalhadores temporários, arrendatários, pescadores, um
joalheiro, uma mulher assando pão, um pastor, um pai e seus dois filhos, um
ladrão, crianças brincando, damas de honra e convidados para um banquete
nupcial. Estas parábolas focalizam pessoas,8 e Mateus se revela um homem
interessado nelas.
Esse interesse é ainda mais pronunciado no Evangelho de Lucas.9 Nas
parábolas que são próprias de Lucas, as pessoas, como indivíduos, têm um
lugar central: o amigo que chega à meia-noite, o filho pródigo e seu irmão e
pai, a mulher que perdeu sua moeda e o pastor que encontrou sua ovelha, o
rico e Lázaro, a viúva e o juiz, o fariseu e o publicano e o samaritano cuidando
da vítima dos ladrões. Através destas parábolas, Lucas demonstra interesse
em gente, como indivíduos, a ponto de registrar nomes (Lázaro e Abraão),
nacionalidade (samaritano) e ocupação (coletor de impostos).
Lucas parece se movimentar entre pessoas comuns, particularmente
aquelas de recursos moderados. Os dois devedores devem ao agiota um total
de três meses de salário, o salário de seis semanas cada um, e cada um dos
dez servos recebe do senhor o equivalente a três meses de salário. O
fazendeiro tinha apenas um servo, que ara seu campo e prepara seu jantar.
Do mesmo modo, o homem que prepara um banquete tem apenas um servo
que chama os convidados, e que traz para dentro de casa os pobres e os

8. M. D . Goulder, “Characteristics o f the Parables in the Several G ospels”, JTS 19 (1968): 52.
9. Morris, Luke, p. 40.

295
AS PARÁBOLAS DEJESUS

coxos. Os ricos, nas parábolas apresentadas por Lucas, pertencem à classe


média alta.10 São um fazendeiro, que tem excelente colheita e precisou
construir celeiros maiores para guardá-la, o homem que se vestia de púrpura
e finos linhos e vivia no luxo, o rico cujo administrador atiladamente diminuiu
o débito dos que deviam a seu senhor, e o pai que repartiu a herança por
causa do pedido do filho caçula. As parábolas de Lucas retratam gente
comum: um samaritano e seu jumento, o mendigo lambido pelos cães, o
pastor e seu rebanho, a mulher e sua moeda, a viúva fazendo seu pedido e o
publicano batendo no peito.
Ao contrário, algumas das parábolas de Mateus retratam a grandeza,
o esplendor e a extravagância. O ministro das finanças deve ao rei uma
quantia que vai a milhões, um homem confia um total de oito talentos a três
de seus servos, um rei prepara um banquete de núpcias e envia servos para
chamar os convidados e soldados para puni-los quando se recusam a vir, e
o proprietário de uma vinha envia seus servos, em grupos, para recolher o
lucro dos arrendatários. Muitos são da mais alta classe social. Outros, como
o mercador de pérolas e o senhor que investiu seu servo de autoridade estão
entre os moderadamente ricos.
A seleção de parábolas peculiar a cada escritor dos Evangelhos traz à
luz algumas de suas características. Mateus trata de histórias de interesse
financeiro; Lucas é o homem voltado para os pobres e para o cidadão da
classe média; enquanto que Marcos, embora apresente poucas parábolas,
demonstra interesse pela natureza. Além disso, cada escritor dispõe as
parábolas mais ou menos em grupos. Em uma série (Mt 13), Mateus inclui
sete, que não são postas juntas por acaso. Essas sete revelam um padrão
definido.11 Após a parábola introdutória, a do semeador, as do trigo e o joio
e da rede formam um par. Entre essas duas, há dois conjuntos de parábolas
gêmeas: primeiro, a do grão de mostarda e a do fermento; então, a do tesouro
escondido e a da pérola. As parábolas que Mateus registra nos capítulos 24
e 25 de seu Evangelho têm perspectiva escatológica. As parábolas da figuei­
ra, do ladrão, do servo fiel e prudente, das dez virgens, dos talentos e a do
grande julgamento apontam nessa direção. Lucas, também, ordenou seu
material de tal modo que, com exceção das parábolas dos dois devedores e
das minas, as que lhe são peculiares se encontram na chamada narrativa da
jornada ou grande inserção de Lucas 9.51; 19.27. A parábola das minas, que
é a última das parábolas de Lucas, foi estrategicamente colocada para servir
de ponte entre a parte referente à jornada de Jesus para Jerusalém e a do
ministério de Jesus em Jerusalém.1
10. Goulder, “Characteristics o f the Parables”, p. 55.
11. B. Gerhardsson, “The Seven Parables in M atthewXIII”, NTS 19 (1972-73): 18.
12. Marshall, Luke, p. 401.

296
CONCLUSÃO

Algumas parábolas, que foram registradas por mais de um escritor do


Evangelho, refletem a situação de vida na qual foram escritas.13 Por exemplo,
na interpretação da parábola do semeador, especificamente sobre a semente
lançada em solo rochoso, Mateus e Marcos escrevem: “... em lhe(s) chegan­
do a angústia ou a perseguição por causa da palavra, logo se escandaliza(m)”
(Mt 13.21; Mc 4.17). Mas, em Lucas, achamos: “... na hora da provação se
desviam” (Lc 8.13). Cada um, à sua própria maneira, expressa a mesma
verdade: em tempos de dificuldade, as pessoas abandonam a fé. Semelhan­
temente, a parábola dos dois fundamentos é relatada por Mateus em versão
compreensível aos judeus que viviam na Judéia ou (Jaliléia, e, por Lucas,
numa versão apropriada aos helenistas que viviam no estrangeiro.

Características Literárias

O estilo dos evangelistas difere, notadamente, com respeito às pará­


bolas por eles registradas. Enquanto o estilo de Marcos é bastante simplista,
o de Mateus, especialmente nas parábolas mais longas, é marcado pelo uso
de contrastes. De fato, as parábolas mais longas, no Evangelho de Mateus,
se apresentam em preto e branco.14 Os construtores edificam sobre a rocha
ou na areia; o fazendeiro semeia trigo, e seu inimigo semeia o joio, no mesmo
campo; a rede apanha peixes apropriados para o consumo e os que não o
são; o rei se mostra misericordioso, mas seu ministro das finanças, não; os
trabalhadores da vinha, contratados primeiro, murmuram, os contrastados
mais tarde se regozijam; dos dois filhos apenas um obedece ao pai; o servo
em quem o senhor confia pode ser fiel ou mau; cinco virgens são prudentes
e cinco são néscias; dois servos põem seus talentos para render e um enterra
o seu; no banquete nupcial todos os convidados estão apropriadamente
trajados, só um não está. Mesmo nas parábolas mais curtas, o contraste fica
evidente. As crianças que brincam na praça são alegres ou tristes. Nas
parábolas de Mateus as pessoas são sábias ou tolas, boas ou más, fiéis ou
indolentes.
Enquanto Mateus filma em preto e branco, Lucas usa a cor. Seus
personagens são coloridos, pitorescos e bem construídos. O samaritano
personifica a compaixão; o amigo que bate à porta do vizinho no meio da
noite, e a viúva que faz periódicas visitas ao juiz retratam a arte da persis­
tência. Isso não significa que Lucas evite os contrastes. Ele coloca o sacer­
13. G. E. Ladd, “The Sitz im Leben o f the Parables o f Matthew 13: the Soils, Studia Evangélica,
ed. F. L. Cross (Berlin: 1964), 2: 204.
14. Goulder, “Characteristics of the Parables:, p. 56, quer incluir a parábola do semeador, mas
pode fazê-lo apenas baseando-se em sua interpretação nos capítulos seguintes. A parábola
em si não revela contraste.

297
AS PARÁBOLAS DEJESUS

dote c o levita em oposição ao samaritano; o rico em oposição a Lázaro; e o


fariseu em contraste com o publicano. Mas Lucas apresenta suas figuras com
mais cor e detalhes que os outros evangelistas. No Evangelho de Mateus, o
bom e o mau são convidados para o banquete das bodas. Na apresentação
que Lucas faz da parábola da grande ceia, os pobres, estropiados, cegos e
coxos são bem-vindos. Na parábola dos talentos, um dos servos enterra o
seu. Em sua descrição da parábola das minas, Lucas descreve um dos servos
enrolando sua moeda em um pedaço de pano. As pessoas que Lucas retrata
são reais: pensam, falam e agem. O mercador de pérolas não é descrito e,
de certo modo, não tem vida. O rico de Lucas, que obtém lucro numa colheita
excepcional, é um personagem que parece vivo. Ele fala consigo mesmo, faz
planos e se dispõe a agir. Mateus, geralmente, omite pormenores; apresenta
um mero esboço. É Lucas quem, por meio de sua pena ágil, acrescenta
profundidade e dimensão às parábolas.

Características Teológicas

Nas parábolas peculiares ao Evangelho de Lucas, o tema do arrepen­


dimento e salvação é relevante. Lucas mostra de modo muito mais claro que
Mateus que Jesus chamou para a salvação os marginalizados, os pobres, os
perdidos e os desprezados. 5
O tema apresentado em Lucas 19.10: “Porque o Filho do homem veio
buscar e salvar o perdido”, é exemplificado em várias parábolas de Lucas.
São os dois devedores, a ovelha perdida, a moeda perdida, o filho pródigo e
o fariseu e o publicano. A parábola dos dois devedores foi contada depois
do incidente do Sábado, quando uma mulher entrou na casa de Simáo, o
fariseu. Embora aos olhos do fariseu cumpridor da lei fosse considerada
desprezível, ela achou remissão de pecados e paz para o seu coração. O filho
desviado caiu em si numa pocilga imunda, voltou para casa e foi reintegrado
à família. O coletor de impostos, considerado um marginalizado social pelo
fariseu, bateu no peito, orou a Deus e foi justificado. Há alegria no céu
quando um pecador se arrepende; festa na casa do pai, quando o filho volta;
e paz no coração do proscrito, quando Deus o justifica.
E Lucas que desenvolve o tema do amor de Jesus pelos pobres e
oprimidos. Quando os convidados se recusam a participar do grande ban­
quete, os pobres, estropiados, cegos e coxos são trazidos. Quando ainda
restam lugares vazios na casa, o servo recebe ordens para fazê-los entrar. O

15. A . Wikenhauser, New Testament Introductíon (N ew York: Herder and Herder, 1965), p.
217.

298
CONCLUSÃO

pobre, que diariamente é carregado até ao portão da casa do rico, é carre­


gado por anjos até junto de Abraão, nos céus.
Lucas mostra que Jesus ama o pobre, mas adverte o rico para que se
arrependa e creia. A parábola do rico e Lázaro pretende retratar a miséria
da vida no além, do homem que na terra vivia no luxo sem se importar com
Deus e com o próximo. A parábola do rico que queria armazenar seus bens
materiais em celeiros maiores revela a pobreza nua do homem que confia
em suas riquezas e não em Deus. A parábola do administrador infiel nos
ensina a não dependermos de riquezas, mas a distribuí-las para com elas
fazer amigos e sermos bem-vindos nas moradas eternas.
O amor ao próximo é um tema muito mais definido no Evangelho de
Lucas que nos outros. Através da parábola do bom samaritano, Lucas indica
que o conceito é ilimitado e sua aplicação universal. A ordem para amar o
próximo, portanto, transcende barreiras de raça, cultura, idade, nacionali­
dade e língua.
Em pelo menos três parábolas próprias de seu Evangelho, Lucas
desenvolve o tema da fidelidade. O custo do discipulado é a lealdade
inabalável no cumprimento do dever. Na parábola do fazendeiro cujo servo
ara o campo durante o dia, prepara o jantar ao voltar para casa, e nem ao
menos recebe qualquer agradecimento, porque esta é a sua tarefa diária, fica
demonstrada claramente a devoção de todo o coração com que um seguidor
de Jesus o serve. A parábla do homem que queria construir uma torre e
aquela do rei que devia ir à guerra contra outro rei ilustram o custo do
discipulado. Seguir a Jesus significa desistir, voluntariamente, de tudo; nada
deve prevalecer ao discipulado.
Essa lealdade está expressa na parábola das dez minas. Nove servos
investem o dinheiro e cada um consegue receber algumas minas a mais. Mas
um déles guarda dentro de um lenço a sua mina e recebe condenação pública
por sua inutilidade. Os outros servos são elogiados e recebem, como recom­
pensa, grandes responsabilidades. O tema da fidelidade é tratado, também,
nas parábolas dos outros evangelistas. Isto é, Mateus o aborda nas parábolas
dos dois filhos, do ladrão, do servo fiel, das virgens e dos talentos. Marcos
se refere a ele na parábola do servo vigilante.
Por fim, mas não menos importante, o tema da oração é exposto em
três parábolas de Lucas. O amigo que bate à porta do vizinho, à meia-noite,
e a viúva que procura sempre pelo juiz, são relatos paralelos. As duas
parábolas ensinam a doutrina da perseverança na oração, que na comunida­
de cristã primitiva era resumida no preceito apostólico: “Perseverai na

299
AS 1’ARÁBOl.AS DE JESUS

oração.”16A parábola do fariseu e do publicano menciona a oração, embora


basicamente se refira à justiça.17
Exceto pelos paralelos sinóticos do grão de mostarda e do fermento,
Lucas não tem qualquer parábola que ele apresente como uma parábola
sobre o reino. Marcos apresenta duas: a da semente germinando secreta­
mente e a do grão de mostarda. É Mateus quem arrola as parábolas do reino.
Um total de dez parábolas apresentam o reino: a do trigo e do joio, a do grão
de mostarda, a do fermento, a do tesouro escondido, a da pérola, a da rede,
a do credor incompassivo, a dos trabalhadores na vinha, a das bodas e a das
dez virgens. Também a do semeador faz parte do contexto do “conhecimento
dos segredos do reino dos céus”, porque nela Jesus transmite um entendi­
mento básico a respeito da vinda do reino.18
Muitas das parábolas do reino, no Evangelho de Mateus têm, uma
perspectiva escatológica. A do trigo e do joio e a da rede são semelhantes
em sua conclusão: ambas falam da separação no juízo. Do mesmo modo, a
parábola das bodas termina com a expulsão do homem que não estava
vestido adequadamente. A das dez virgens e a dos talentos retratam cinco
moças tolas deixadas do lado de fora e um servo negligente que é lançado
nas trevas exteriores. Mateus conclui suas parábolas com a do juízo final, na
qual a separação das pessoas é comparada à separação feita pelo pastor, que
coloca as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
À sua maneira metódica, Mateus agrupou um total de sete parábolas
no capítulo treze. Quatro delas podem ser consideradas dois pares: a do grão
de mostarda e a do fermento são similares; e a do tesouro e a da pérola têm
a mesma mensagem. No primeiro par, o poder vitorioso da mensagem de
salvação se expressa exteriormente no crescimento da mostardeira e inte­
riormente no crescimento da massa levedada. No segundo par, ambas, a do
fazendeiro que vendeu tudo o que tinha para comprar o campo onde estava
escondido o tesouro e a do mercador que vendeu seus bens para comprar a
pérola valiosa, exemplificam a total submissão a Cristo e o valor infinito do
reino.
Pela escassez de parábolas, no Evangelho de Marcos, é difícil afirmar
se ele selecionou as suas com um propósito teológico. Duas delas têm motivo
escatológicos: a da figueira e a do servo vigilante. Nas outras, ele demonstra
a ação de Deus operando ou na natureza ou nas relações humanas. São as
parábolas do semeador, da semente germinando secretamente, do grão de

16. Rm 12.12; E f 6.18; Fp 4.6; Cl 4.2; 1 Ts 5.17.


17. P. T. 0 ’Brien, “Prayer in Luke-Acts”, TB 24 (1973): 118.
18. Ridderbos, Corning o f lh e Kingdom, p. 132.

300
CONCLUSÃO

mostarda e dos lavradores maus. De modo geral, podemos dizer que, em


todas as parábolas de Marcos, o poder e o governo de Deus ficam evidentes.

Destinatários e Resposta

Quem eram as pessoas que ouviam as parábolas quando Jesus as


contava em público, ou em particular? Elas podem ser classificadas em três
categorias: os discípulos, as multidões e os adversários de Jesus. A maior
parte delas foi endereçada às multidões ou aos discípulos.19 De acordo com
Mateus, as multidões ouviram a parábola dos dois fundamentos, a das
crianças na praça, a do semeador, a do trigo e o joio, a do grão de mostarda
e a do fermento. Os discípulos ouviram a do tesouro escondido e a da pérola,
a da ovelha perdida, a do credor incompassivo e a dos trabalhadores na
vinha. Além dessas, foram contadas aos discípulos, em particular, as pará­
bolas escatológicas das dez virgens, dos talentos e a do julgamento final. Os
principais sacerdotes e os anciãos do povo eram os adversários de Jesus. Eles
ouviram as parábolas dos dois filhos, dos lavradores maus e do banquete
nupcial, que se aplicavam a eles.
Lucas revela que Jesus, freqüentemente, enfrentava seus oponentes,
contando-lhes parábolas, até mesmo em suas próprias casas. Em pelo menos
cinco ocasiões diferentes, Jesus ensinou os fariseus, mestres da lei. Na
primeira vez, convidado para jantar na casa de Simão, o fariseu, ele contou
a parábola sobre os dois devedores. Em outra ocasião, durante um jantar
semelhante, um fariseu proeminente e seus hóspedes ouviram a parábola de
Jesus sobre o principal lugar à mesa, e sobre a grande ceia. Na terceira vez,
um doutor da lei pediu a Jesus que lhe explicasse o significado da palavra
próximo e ouviu como explicação a história do bom samaritano. Em uma
quarta ocasião, quando os fariseus e doutores da lei murmuravam contra
Jesus porque entrava na casa dos “pecadores” e comia com eles, foram
convidados a olhar no espelho das parábolas da ovelha perdida, da moeda
perdida e do filho pródigo, para verem, na perspectiva real, seu relaciona­
mento espiritual com os marginalizados. Uma vez mais, quando Jesus disse
aos fariseus: “Não podeis servir a Deus e às riquezas”, zombaram de Jesus
porque amavam o dinheiro, e, então, Jesus contou-lhes a parábola do rico e
Lázaro.
As multidões, escreve Lucas, se encantavam com as maravilhas que
Jesus operava, embora todos os seus adversários se envergonhassem (Lc
13.17). As multidões ouviram as parábolas dos dois construtores, do semea­
19. Linnemann, Parables, p. 35, apesar de todas as evidências, afirma: “Podem ser encontradas
apenas algumas poucas parábolas que Jesus dirigiu explicitamente aos discípulos. A maior
parte foi contada a seus oponentes, a homens que se ofendiam com seu comportamento, ou
se indignavam com o que ele dizia.”

301
AS 1‘AKÁHOLAS DE JESUS

dor, do rico tolo, do grão de mostarda, do fermento, do construtor da torre


e do rei guerreiro e a das minas. Os discípulos eram instruídos em particular,
através de parábolas, tais como a do amigo que veio à meia-noite, a do juiz
iníquo, a do servo vigilante, a do ladrão, a do servo fiel e prudente a quem o
senhor investiu de autoridade, a do administrador infiel e a do fazendeiro e
seu servo.
Três das parábolas de Marcos foram ouvidas pelas multidões: a do
semeador, a da semente germinando secretamente e a do grão de mostarda.
Duas foram contadas, em particular, para os discípulos: a da figueira e a do
servo vigilante. Por fim, a dos lavradores maus foi dirigida aos principais
sacerdotes, doutores da lei e anciãos.
As parábolas que têm paralelos geralmente têm os mesmos ouvintes,
embora um evangelista possa ser mais específico que outro. Assim, Mateus
conta que a parábola do grão de mostarda e a do fermento foram apresen­
tadas às multidões (Mt 13.34); Lucas indica que o povo se achava na
sinagoga, o que inclui muitos dos adversários de Jesus (Lc 13.10,17). A
parábola da ovelha perdida foi dirigida aos oponentes de Jesus (Lc 15.1), de
acordo com Lucas, e a seus discípulos (Mt 18.1), de acordo com Mateus.
Não é de todo impossível que Jesus tenha contado a parábola duas vezes,
para ouvintes diferentes.20 De fato, isso foi o que aconteceu quando Jesus
contou à multidão a parábola das minas, ao se aproximar de Jerusalém, para
sua última Páscoa. Alguns dias mais tarde, ele usou o mesmo motivo para
contar a seus discípulos a parábola dos talentos.
A maior parte das parábolas de Mateus tem um apelo indireto. Comu-
mente são apresentadas com a sentença: “O reino dos céus é semelhante...”
O reino é comparado a um semeador, à semente, a um tesouro, a um
mercador, à rede, a um rei ou dono de terras. Outras parábolas são muito
mais diretas, exigindo uma resposta pessoal. Jesus, por exemplo, aplica a
parábola sobre os dois fundamentos a “todo aquele, pois, que ouve estas
minhas palavras e as pratica”. A mensagem é — ouvir e, em resposta, agir,
Na parábola de Mateus sobre o credor incompassivo, é feito um apelo
individual: “Assim também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não
perdoardes cada um a seu irmão” (Mt 18.35). O mesmo apelo direto se
expressa nas parábolas dos dois filhos, da figueira, do ladrão, do servo fiel e
prudente e das dez virgens. Nessas parábolas, a resposta induzida aparece
em forma de um chamado à prontidão constante, e de uma exortação à

20. Jeremias, Parables, p. 41, admite a possibilidade de Jesus ter repetido suas parábolas a mais
de uma assistência. A o mesmo tempo, insinua que Mateus e Lucas se contradizem quando
apresentam as palavras de Jesus como dirigidas a uma multidão, em um exemplo, e aos
discípulos em outro. Esse juízo parece um tanto sem propósito à luz do ensinam ento oral
repetitivo usado por Jesus.

302
CONCLUSÃO

vigilância e ao arrependimento. A parábola dos lavradores maus provoca


imediata resposta negativa dos principais sacerdotes e fariseus; eles procu­
ravam prender Jesus.
As parábolas de Lucas, muito mais que as de Mateus, convidam a uma
resposta: a Simão, o fariseu, é feita uma pergunta sobre a parábola dos dois
devedores; ao mestre da lei, após ter ouvido a parábola do bom samaritano,
é dito: “Vai, e procede tu de igual modo.” Inúmeras parábolas são contadas
no contexto de situações que pedem respostas. São as do rico tolo, que Jesus
contou quando lhe foi pedido que dividisse uma herança; a da figueira estéril
que resultou de uma discussão a respeito do pecado dos galileus cujo sangue
Pilatos misturara com os sacrifícios que eles mesmos realizavam; as parábo­
las sobre os lugares de honra à mesa, e a grande ceia, que vieram em resposta
ao convite que Jesus recebera para jantar; as da ovelha, da dracma e do filho
perdido, que eram uma resposta aos fariseus e doutores da lei que desapro­
vavam o fato de Jesus comer com os marginalizados; e a das minas, dirigida
ao povo que pensava que o reino de Deus estava prestes a vir. Quando
ensinou sobre o administrador infiel, Jesus fez um apelo a seus discípulos
para que não ajuntassem tesouros materiais. Também, instou com eles para
que vissem o resultado da adoração ao dinheiro, na parábola do rico é
Lázaro. Na do juiz iníquo o apelo se refere à perseverança na oração; na do
fariseu e o publicano, à humildade diante de Deus. Em muitas parábolas de
Lucas, a mensagem básica é o arrependimento dos pecados. Isso acontece
nas da figueira estéril, da grande ceia e na tríade dos perdidos: ovelha, a
moeda e o filho pródigo.
As vezes, as parábolas de Lucas envolvem os ouvintes através da
introdução “qual de vós”. Desse modo, os ouvintes são parte direta da
parábola e cada um é compelido a responder. A do amigo que vem à
meia-noite começa com a pergunta: “Qual dentre vós, tendo um amigo...”
As do construtor da torre e do rei guerreiro, da ovelha e da moeda perdidas
e a do fazendeiro e seu servo têm introduções semelhantes. Quer a assistên­
cia consista de amigos ou adversários, a parábola que começa com uma
cláusula introdutória induz a uma resposta. Mateus usa a pergunta insinuan-
te: “Que vos parece?” como modo de apresentar as parábolas da ovelha
perdida e a dos dois filhos.

Representação

Em seu evangelho, Mateus apresenta Jesus a seus leitores, como o


Cristo, o Filho de Deus. Não é, portanto, de todo surpreendente que, em sua
seleção de parábolas, Mateus tenha coletado muitas, nas quais a repre­
sentação de Jesus fique evidente. Assim, na aplicação da parábola das

303
AS PARÁBOLAS DEJESUS

crianças brincando na praça, é o Filho do homem que vem, comendo e


bebendo, e que é chamado de glutão, beberrão e amigo de publicanos e
“pecadores”. Quando explica a parábola do trigo e do joio, Jesus se identifica
como o dono de terras. “O que semeia a boa semente é o Filho do homem”
(Mt 13.37). Na dos lavradores maus, o filho do dono de terras é enviado aos
arrendatários e é morto por eles. O banquete das bodas acontece porque o
filho do rei está se casando. A parábola das ovelhas e dos bodes é apresen­
tada pela descrição do Filho do homem vindo em sua glória, acompanhado
de seus anjos, julgando as nações e separando o povo.
Naquelas assim chamadas parábolas escatológicas, as referências a
Jesus são implícitas e explícitas. O porteiro tem que vigiar porque o dono da
casa pode voltar, à qualquer hora, durante a noite. A do ladrão é mais direta
em sua aplicação: “Por isso ficai também vós apercebidos; porque, à hora
em que não cuidais, o Filho do homem virá” (Mt 24.44). As parábolas das
dez virgens, dos talentos e das minas se referem à volta iminente de Jesus.
Deus é apresentado como Pai em várias das parábolas de Mateus. O
rei, na do credor incompassivo, é a personificação de Deus, o Pai. “Assim
também meu Pai celeste vos fará, se do íntimo não perdoardes cada um a
seu irmão”, diz Jesus em sua aplicação (Mt 18.35). Na parábola dos dois
filhos, um obedece e o outro desobedece o pai. A implicação é que os
publicanos e as prostitutas, obedecendo a vontade de Deus, o Pai, entram
em seu reino. Ambas as parábolas, a dos lavradores maus e a das bodas,
retratam o pai enviando seu filho e o pai preparando um banquete para o
filho.
Embora a figura do pai seja apresentada por Lucas apenas na parábola
do filho pródigo, o terceiro evangelista apresenta algumas parábolas nas
quais Deus é diretamente mencionado. Assim, a vida do rico tolo é exigida
por Deus. O nome de Deus é citado várias vezes na do juiz iníquo. E o fariseu
e o publicano se dirigem a Deus, em oração.
E característico do Evangelho de Mateus representar Jesus em muitas
das parábolas — o que não acontece em Lucas. Do mesmo modo, é Mateus
quem destaca o papel de Deus Pai em várias de suas parábolas. Lucas, ao
contrário, enfatiza os relacionamentos entre pessoas, como os exemplifica­
dos nas parábolas do bom samaritano, do amigo à meia-noite, do filho
pródigo e do rico e Lázaro.
Todos os escritores apresentam as parábolas de Jesus, mas cada um
emprega seu próprio talento, modo de ver e habilidade ao fazê-lo. No
entanto, a autoria das parábolas é de Jesus. Ele as criou, ele fala através delas,
e nelas se torna conhecido dos homens. Assim, as parábolas, ainda que
chegando até nós na forma apresentada pelos evangelistas, nos dão a certeza
de que, na verdade, ouvimos a voz de Jesus.

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