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Prefácio ou um Ponto de Par da

O conceito é irrepresentável, mas a imagem é inexplicável.


Entre eles há portanto uma distância irreparável. E por isso a
imagem vive da nostalgia do texto; e o texto, da nostalgia da
imagem (BAUDRILLARD, 2002, p. 8).

Contrariando aquilo que fomos habituados a conceber como a estrutura de uma


dissertação de mestrado, tomo a liberdade de iniciar este documento com algo que
par cularmente sinto falta na maior parte das introduções: um verdadeiro ponto
de par da. Talvez um prefácio – termo comum a publicações literárias e geralmente
desnecessário em documentos cien ficos –, para apresentar algo per nente e anterior
à problemá ca, ao escopo, aos obje vos e à jus fica va da dissertação. Deste modo,
embora estejamos situados perante o Design, especificamente frente à sua condição
acadêmica, julgo oportuno, antes de adentrar na dissertação em si, traçar algumas
premissas que considero essenciais: qual o sen do desta dissertação? O que há por
detrás das palavras acadêmicas que nela estão ar culadas?
“Todos os homens têm, por natureza, desejo de conhecer: uma prova disso é o
prazer das sensações, pois, fora até da sua u lidade, elas nos agradam por si mesmas e,
mais que todas as outras, as visuais” (ARISTÓTELES, 1979, p. 11). Essa inclinação natural
do homem ao conhecimento imagé co, a qual Aristóteles reconheceu há muito tempo
atrás, configura em linhas gerais a real inspiração deste trabalho. Mais do que isso,
defendo que existe uma espécie de anterioridade ao conhecimento humano – o que
é este conhecimento capaz de ques onar a si mesmo? Ou o que é o conhecimento do
conhecimento? –, pois o ser humano não apenas conhece, mas sabe que conhece. Sabe
de suas sensações e sen mentos; sabe especialmente de sua liberdade em imaginar, e
isso me parece fazer parte da própria possibilidade de ser da nossa espécie. Mas o que
é este sujeito que tem a capacidade de imaginar e tem conhecimento da sua própria
imaginação? Assumindo agora a primeira pessoa do plural, como esclarecer esta nossa
capacidade, enquanto designers, de imaginar o imaginado e até o não-imaginado por
outrem?
Retomando a citação de Baudrillard que inicia esta seção, a imagem reside em
nossa mente, ou seja, trata-se de uma idealização. Já o texto é aquilo que se lê, sendo
possível interpretá-lo, modificá-lo. A imagem é pura; o texto corrompe. A imagem, o
ideal, o puro, nos dá sempre um horizonte; o texto nos puxa para baixo, explica, tenta
nos deixar com os pés no chão. Consequência dessa “luta nostálgica” entre texto e
imagem é a inevitável “distância irreparável” que se alastra entre as diversas áreas do
conhecimento, cada qual direcionada a sua própria função, produzindo diferentes textos
16 | Ar culação Simbólica: Uma abordagem junguiana aplicada à Filosofia do Design

para as mesmas imagens. Trata-se de uma luta sem toque entre ideal e real, que marca
toda a história da filosofia ocidental. Mesmo que não tenhamos consciência suficiente
disso, é inegável que o próprio fato de estarmos vivos nos coloca nesta condição.
Portanto, os problemas referentes às questões do conhecimento, das suas condições e
possibilidades, da sua certeza ou incerteza, da verdade ou do erro, também fazem parte
do campo teórico do Design.
Porém, nossa pesquisa revela que há um verdadeiro descaso no Design com relação
àquilo que o filósofo alemão Karl Popper chama de essencialismo1: geram-se muitas 1. Nas palavras do
filósofo: “Nunca se
teorias acerca das palavras e seus significados, mas o fenômeno em si é deixado de lado: esforce demais em levar
a sério os problemas
sobre palavras e seus
significados. O que
As relações entre a teoria e as palavras usadas em sua temos que levar a sério
formulação são em diversas maneiras análogas às palavras são questões acerca de
escritas e as letras usadas para escrevê-las (POPPER, 1962, p. 16, fatos: teorias e hipóteses,
os problemas que eles
trad. nossa). resolvem e os problemas
que eles levantam”
(POPPER, 1962, p. 14,
O problema se torna mais sério e di cil porque não é só uma questão de explicar trad. nossa).

como se conhece, mas principalmente como se aplica. É preciso levar em conta que
o conhecimento humano enquanto conceito universal difere muito quando aplicado
às singularidades nas quais efe vamente acontece, isto é, nas diversas maneiras pelas
quais nós, seres humanos, nos relacionamos conosco mesmos e com o mundo no qual
estamos inseridos. Somos seres finitos jogados nesta tarefa infinita do conhecimento,
em situação constante de aprendizado e reflexão. Sendo assim, qualquer área de
conhecimento não deve se restringir apenas à criação de conceitos, mas principalmente
ao estudo crí co de outros conceitos já consolidados, “modificando-os ou ampliando-
os num movimento con nuo de retomada e deslocamento” (FOUCAULT, 2000, p. 8).
Não existe imagem sem a expecta va de um texto, assim como não existe texto sem
a lembrança de uma imagem. Tal relação de interdependência antecede o próprio
conhecimento, configurando a questão do sen do de se conhecer.
Um único sen do, contudo, pode ser visto sob diferentes perspec vas, assim como
uma única imagem pode manifestar-se em diversos textos. Sendo assim, o ponto de vista
adotado neste estudo provém dos Estudos do Imaginário, especialmente a perspec va
de Carl G. Jung. Nosso caminho, nossa via, nosso modo de fazer este caminho, será
portanto a ó ca fenomenológica da psicologia junguiana. Porém, o norte que direciona
nossa jornada é a questão do sen do na Filosofia do Design, sendo que nosso percurso
acontece no chão, num terreno pedregoso, árduo, di cil, com armadilhas e até com
convites tentadores para torná-lo mais fácil, mais plano, mais liso. Em nada se parece
com um voo bachelardiano; é antes a tenta va de abrir mais uma trilha nas sendas
infindáveis do conhecimento.
Conforme a afirmação de que um campo do saber pode apenas “se enraizar em
uma cultura quando passa a ser mero conjunto de ideias” (WUTHNOW, 1989, p. 262,
trad. nossa), isto é, quando se apresenta como paradigma, nossos primeiros passos
direcionam-se a uma tenta va de se esboçar uma imagem do percurso histórico e
Marcos Namba Beccari | PPG-Design UFPR | 2012 | 17

epistemológico no decorrer do qual o estudo do Design, até então difuso por entre
ideias e posturas de pensadores individuais, tem protestado cada vez mais por uma
a tude filosófica e unificada. Em um segundo momento, será como se es véssemos
transpondo um romance literário para uma adaptação cinematrográfica: a psicologia
junguiana representaria o romance, a Filosofia do Design cons tuiria um novo cenário
e um novo contexto, enquanto que o conteúdo desta pesquisa representaria o script,
sendo que o que se fala e acontece nesse filme deverá ser entendido, compreendido e
interpretado tanto por aqueles que conhecem a história original quanto por aqueles que
a desconhecem. Sem este cuidado em não distorcer o sen do da obra original, a história
não será a mesma. Noutras palavras, somente com uma análise preliminar sobre o que
é o “mito” do Conhecimento Ocidental – aquele da formiga e da cigarra, conforme
metaforiza Kirinus (1992) – que será possível levantarmos uma discussão que nos
ofereça os fundamentos necessários para a compreensão dos pressupostos junguianos
aplicados à Filosofia do Design. Com relação a nossa adaptação conceitual, embora se
trate de um texto disserta vo, também construiremos um plano de fundo metafórico,
tal como Ricoeur (1996, p. 104) descreve: “o desvelamento de um modo possível de
2. Segundo Ricoeur olhar para as coisas”2.
(1996, p. 104), “aquilo de
que importa aproximar- Acima de tudo, acreditamos que é somente no exercício da reflexão crí ca que ocorre
se é o sen do do próprio
texto, concebido de um o distanciamento e a reviravolta necessários para o crivo de um sen do significa vo. E o
modo dinâmico como a
direção do pensamento pensamento autocrí co se opõe à ideia de “solução” – objeto este que muitos veem como
aberta pelo texto. Por
outras palavras, aquilo de sendo a finalidade úl ma do Design –, pois a tarefa da reflexão não é solucionar nada,
que importa apropriar-
se nada mais é do que
antes disso é problema zar, no sen do de instaurar um diálogo permanente em nosso
o poder de desvelar um próprio pensamento e, sobretudo, no pensamento cole vo. Neste caso, a tenta va de
mundo, que cons tui a
referência do texto”. se discu r a Filosofia do Design sob a ó ca dos Estudos do Imaginário, par cularmente
a de Carl Gustav Jung, configura-se apenas como uma reflexão, provisória a priori,
que visa demonstrar que é possível desenvolver uma analogia inusitada e constru va.
Especialmente com as teorias do Imaginário, é possível estabelecer uma abordagem
metodológica que contemple múl plas disciplinas e, ao mesmo tempo, contrapõe-se
a eli smos cien ficos na medida em que ultrapassa valores estritamente racionais e
empiristas.
A par r disso, algumas questões podem surgir: como o campo do Design tem se
comportado frente às diferentes abordagens vindas “de fora” e quais as implicações
(problemas e contribuições) que tais abordagens podem nos trazer? Embora essas duas
questões provenham diretamente da postura interdisciplinar adotada neste trabalho,
elas serão deixadas em aberto para posteriores análises e desdobramentos. Por ora,
e reassumindo a primeira pessoa do singular, espero apenas que os resultados desta
pesquisa contribuam na forma de uma nova reflexão acerca do perfil inter, mul e trans-
disciplinar que o Design vem a cada dia assumindo em seu campo de pesquisa e atuação.