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Enquanto trabalha no projeto sobre a Paris do século XIX, Benjamin

concebe o programa de uma teoria materialista da arte que lhe permitisse situar
precisamente o momento de atualidade, no qual confluem aquelas tendências e
movimentos observados no século XIX. Da exposição deste programa resulta o
ensaio “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, cuja relação com
o projeto sobre Paris é explicitada em uma carta a Horkheimer de 18 de outubro de
1935: “Se o senhor Pollock me deu com sua presença o estímulo para redigir a
exposição do projeto, então a última carta do senhor foi a ocasião para colocar de
lado a imagem histórica da coisa, ora provisoriamente fixada, em favor de
considerações construtivas que determinarão a imagem geral da obra. Por mais
provisórias que possam ser estas considerações construtivas na formação em que
as fixei, ainda assim posso dizer que elas constituem um avanço na direção de uma
teoria materialista da arte, que conduz por seu turno bem para lá do projeto
conhecido pelo senhor. Desta vez trata-se de indicar o lugar preciso na atualidade,
para o qual apontará minha construção histórica como a um ponto de fuga. Se o
assunto do livro é o destino da arte no século dezenove, então este destino só nos
tem algo a dizer, porque está preso no tiquetaquear de um relógio, cuja hora ecoou
apenas em nossos ouvidos. Para nós, quero com isto dizer, soou a hora do destino
da arte, e registrei seus sinais em uma série de considerações provisórias que levam
o título de “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”. 1 p. 183

O ensaio “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”


apresenta ao mesmo tempo o registro da nova situação resultante dos
desenvolvimentos técnicos e sociais do século XIX e o desafio da refuncionalização
(política) da arte. p. 184

Num primeiro plano, temos o desenvolvimento das técnicas de


reprodução conflitando com as representações tradicionais sobre arte e cultura, o
que atrapalha a apropriação dos novos recursos pelas forças revolucionárias e
facilita seu uso na estetização da política fascista. p. 184

Tal como a fotografia no século XIX, o cinema introduz no século XX


uma nova realidade artística, a ser reconhecida e mobilizada em favor da revolução
1
BENJAMIN, W. Briefe II, p. 690.
proletária. E se as discussões sobre o valor artístico da pintura foram um equívoco
do século XIX, as discussões sobre o cinema como arte repetem no século XX o
equívoco de ler um novo material e uma nova técnica na perspectiva de uma velha
forma de expressão artística, no caso do cinema, o teatro, quando na verdade se
deveria em primeiro lugar registrar a mudança fundamental da função da arte
acarretada pelo desenvolvimento técnico: “Se antes se dedicou muita perspicácia
inútil à decisão da questão, se a fotografia é uma arte, sem ter colocado a questão
prévia: se com a invenção da fotografia a própria arte mudou – agora os teóricos do
cinema assumiram a interrogação correspondente e precipitada.” 2 p. 184.

O resultado deste uso da técnica cinematográfica era bem claro em


meados dos anos 30: uma construção mitológica da política fascista, em que
conceitos tradicionais como genialidade, criatividade, valor eterno, estilo e expressão
encontraram seu último refúgio. À sua maneira, o fascismo deu uma resposta às
massas modernas, o produto direto das relações de produção capitalista: “A
crescente proletarização dos homens de hoje e a crescente formação de massas
são dois lados de um e mesmo processo. O fascismo procura organizar as massas
proletárias recém-formadas sem tocar na ordem da produção e da propriedade, para
cuja abolição elas tendem. Ele vê sua salvação em deixar as massas chegar à sua
expressão (certamente não a seu direito)”3. p. 185.

A resposta alternativa, e que tem inicialmente a simpatia da


burguesia, é a do fascismo, que procura dar vazão às pressões desenvolvidas no
seio destas enormes massas modernas, dando-lhes uma expressão pela
estetização da vida política, na qual, sem que tenha sido alterada a causa de seu
infortúnio, as relações de propriedade, o homem da massa encontra oportunidade
de se identificar com alguma coisa, o duce, a nação ou a raça superior. Com esta
canalização das energias das massas humanas, o fascismo abre caminho para a
mobilização dos recursos tecnológicos no sentido da solução total, a guerra
moderna como expressão última e mais radical da técnica. p. 185

2
BENJAMIN, W. “A obra de arte...” p. ?
3
BENJAMIN, W. “A obra de arte...” p. ?
A politização da arte, sua refuncionalização a favor da revolução
proletária, exige naturalmente a apropriação das novas técnicas de reprodução,
somente com as quais é possível atingir as massas modernas. Tem-se, neste
sentido, o cinema, analisado pelo ensaio, mas também o rádio, para o qual Benjamin
escrevia programas no início dos anos 30, e mais tarde a televisão, um veículo de
comunicação de massa por excelência, mas que nos anos 30 ainda era um luxo
para poucos (primeiras transmissões públicas em 1936). p. 186

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