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HARLEY GOMES DE SOUSA

Fundamentos Metodológicos
e Prática de Alfabetização
Harley Gomes de Sousa

Fundamentos
Metodológicos e Prática
de Alfabetização

Sobral/2016
INTA - Instituto Superior de Teologia Aplicada
PRODIPE - Pró-Diretoria de Inovação
Pedagógica
Diretor-Presidente das Faculdades INTA Revisora de Português
Dr. Oscar Rodrigues Júnior Neudiane Moreira Félix

Pró-Diretor de Inovação Pedagógica Revisora Crítica/Analista de Qualidade


Prof. PHD João José Saraiva da Fonseca Anaisa Alves de Moura

Coordenadora Pedagógica e de Avaliação Diagramadores


Profª. Sonia Henrique Pereira da Fonseca Fábio de Sousa Fernandes
Fernando Estevam Leal
Professores Conteudistas
Harley Gomes de Sousa Diagramador Web
Luiz Henrique Barbosa Lima
Assessoria Pedagógica
Sonia Henrique Pereira da Fonseca Produção Audiovisual
Francisco Sidney Souza de Almeida (Editor)
Transposição Didática
Operador de Câmera
Adriana Pinto Martins José Antônio Castro Braga
Cileya de Fátima Neves Moreira
Evaneide Dourado Martins Pesquisadora Infográfica
Anacléa de Araújo Bernardo
Design Instrucional
Sonia Henrique Pereira da Fonseca

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 5


Sumário
Palavra do Professor-autor.................................................................................... 09
Sobre os autores...................................................................................................... 11
Ambientação............................................................................................................ 13
Trocando ideias com os autores............................................................................ 15
Problematizando .................................................................................................... 19

1 LER E ESCREVER: A HISTORICIDADE DA LÍNGUA


Viajando pelas cartilhas do ABC: e aprendia?..........................................................................22
Alfabetização, alfabetizado, analfabeto, alfabeto..................................................................26
Alfabetização e a construção de homens de consciência .................................................32
Alfabetização na pré-escola...........................................................................................................35
Alfabetismo e Letramento: a gênese e caminhos no Brasil...............................................36
Letramento ou Alfabetismo? A cultura escrita da alfabetização......................................42

2 APROCESSO
PEDAGOGIA DA LEITURA E DA ESCRITA NO
DE ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO

As diferentes maneiras de pensar a leitura e a escrita.........................................................52


A geração Y e o conhecimento tecnológico da língua escrita..........................................54
Os domínios da linguagem e os contextos sociais de letramento..................................56
Práticas Pedagógicas de Alfabetização e Letramento..........................................................60
Ler para aprender a escrever..........................................................................................................62
Que escrita cabe à escola ensinar?..............................................................................................64
Gêneros literais: lendo o mundo de formas diferentes.......................................................67
Leitura Obrigatória...........................................................................................71

Revisando............................................................................................................73

Autoavaliação....................................................................................................77

Bibliografia.........................................................................................................81

Bibliografia Web...............................................................................................82
Palavra do Professor

Prezado Estudante,

O material didático sempre foi considerado um valioso instrumento de trans-


missão de conhecimento. Mas hoje, com a facilidade de acesso à informação pelos
meios midiáticos, ampliando à comunicação e criando um conceito novo sobre a
arte de escrever através do suporte tecnológico, é possível dar aos materiais didá-
ticos maior qualidade, eficácia e estética para atender o leitor do mundo virtual. É
para você, estudante do curso em EAD, que oferecemos este livro, com intuito de
dialogar sobre Fundamentos Metodológicos e Práticas da Alfabetização.

Os conteúdos de aprendizagem propõem que você seja o construtor do seu


conhecimento. Para atender este objetivo, organizamos o livro em diversas etapas
de aprendizagem, cuja condução será feita através dos ícones que criamos para se-
rem as setas que guiarão você no processo de aquisição do conhecimento.

Ressalta-se que as leituras não se tratam de modelos, regras ou formas de


como ensinar a ler e escrever, ou de como executar o letramento. Espera-se que
todos sejam capazes de realizar uma metacognição e contribuir com a alfabetização
e letramentos de muitas crianças.

O autor!

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 9


Sobre o Autor

Harley Gomes de Sousa, mestre em Políticas Públicas e Socieda-


de pela Universidade Estadual do Ceará – UECE. Pedagogo, Psicopeda-
gogo, Sócio e Conselheiro da Associação Brasileira de Psicopedagogia
– Seção Ceará, registro 847. Tem experiência na área da educação, onde
atua como Psicopedagogo Institucional, Professor de Ensino Superior
e Palestrante, ministrando cursos, oficinas e workshops. Ex-Bolsista de
Iniciação Científica da Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento
Cientifico e Tecnológico-FUNCAP.

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AMBIENTAÇÃO À
DISCIPLINA
Este ícone indica que você deverá ler o texto para ter
uma visão panorâmica sobre o conteúdo da disciplina. a
Seja bem-vindo estudante!

Vamos iniciar a disciplina, Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização,


você terá a oportunidade de compreender melhor os caminhos que irão percorrer para sua
atuação pedagógica. Neste material se dá o processo de aquisição da leitura e da escrita, as
práticas sociais dessas áreas do conhecimento, considerando aspectos psicológicos, socio-
lógicos, históricos e linguísticos.

Entende-se por alfabetização, segundo Soares (2011) o processo pelo qual o sujeito
aprende o código escrito, ou seja, a habilidade de ler e escrever. Etimologicamente, estar
alfabetizado significa codificar e decodificar o alfabeto. Enquanto o conceito de letramento
vai além de apenas ler e escrever, diz mais respeito aos contextos de uso da tecnologia da
língua oral e escrita e, a seu domínio.

A disciplina Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização, tratam de refle-


xões acerca das práticas de leitura e escrita na atual sociedade brasileira, que apesar de uma
cultura grafocêntrica, ainda convive com o analfabetismo e suas variáveis, como o analfabe-
tismo funcional. No material, encontrará reflexões analíticas sobre as linguagens, seus usos
e os conhecimentos construídos na sociedade. Sobre os significados e os significantes da
língua na vida das pessoas.

Caro estudante, você terá a oportunidade de ler o livro Fun-


damentos Teóricos e Metodológicos da Alfabetização. As
autoras explicitam as etapas pelas quais as crianças passam
pensando sobre a língua escrita, até chegar a nível mais ele-
vado para que uma criança se considere alfabetizada, o nível
alfabético.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 13


ti
TROCANDO IDEIAS
COM OS AUTORES
A intenção é que seja feita a leitura das obras indicadas
pelos(as) professores(as) autores(as), numa tentativa de
dialogar com os teóricos sobre o assunto.
Trocando ideias com os autores

Agora é o momento em que você vai trocar ideias com os autores das
obras indicadas.

Caro estudante, sugerimos que leia a obra


Alfabetização e Letramento de Magda Soares. O
analfabetismo no Brasil permanece na atualidade.
Magda Soares especialista brasileira em alfabetização
nos propõe algumas possibilidades de respostas
para algumas perguntas pertinentes em relação
as verdadeiras causas do fracasso do processo
de alfabetização no Brasil. Ainda explana porque
as estatísticas de baixo desempenho escolar nos
primeiros ciclos revelam ainda índices preocupantes.
A quem cabe essa responsabilidade?

SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. 6. ed. São Paulo: Editora


Contexto, 2011.

Propormos também o livro Reflexões sobre


alfabetização de Emília Ferreiro, onde a autora faz uma
reflexão sobre a alfabetização para auxiliar os docentes na
sua prática escolar. Ela aborda a representação da Linguagem
e o processo de alfabetização enfatizando os dois lados
do processo de ensino e aprendizagem: do educador e do
estudante. Em suas palavras, a autora diz que é preciso de
inovação pedagógica para dar oportunidades de interação
com a linguagem e a escrita.

FERREIRO, Emilia. Reflexões sobre alfabetização. 25. ed. São Paulo: Cortez,


2010. 102 p. Questões da nossa época, 6.

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GUIA DE ESTUDO

Após a leitura das obras, escolha uma e realize a resenha crítica e disponibilize na
sala virtual.

16 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 17
PROBLEMATIZANDO
É apresentada uma situação problema onde será feito
um texto expondo uma solução para o problema
abordado, articulando a teoria e a prática profissional. PL
A escola desde a sua gênese, trata a alfabetização como um processo de aquisição
do alfabeto com um único objetivo: apropriar o sujeito do código escrito para ler, escrever,
contar, conhecer os processos sociais, históricos, artísticos e científicos de geração em ge-
ração. Foi assim até 1980.

A partir dessa década surgiu no Brasil o termo letramento como uma versão por-
tuguesa da palavra literacy da língua inglesa, que quer dizer, o sujeito que lê e escreve e
envolve-se em práticas sociais de leitura e de escrita, segundo Soares (2010). A palavra jun-
ta-se ao termo alfabetização para significar um pleno desenvolvimento da pessoa que lê e
escreve, especialmente fazer uso dessas habilidades em práticas sociais diárias.

E você caro estudante, o que percebe na relação entre a alfabetização e letramento?


Quais são as contribuições que o letramento traz para o processo da aquisição da leitura e
da escrita? Que práticas de letramento a escola pode desenvolver para favorecer a alfabe-
tização?

GUIA DE ESTUDO

Após a leitura, faça uma reflexão sobre os questionamentos acima e desenvolva um


texto transpondo suas ideias e disponibilize na sala virtual.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 19


APRENDENDO A PENSAR
O estudante deverá analisar o tema da disciplina
em estudo a partir das ideias organizadas pelos
professores autores do material didático.
Ap
1
LER E ESCREVER: A HISTORICIDADE
DA LÍNGUA
CONHECIMENTOS
Conhecer as concepções, os significados e os significantes da aquisição da leitura e
da escrita (alfabetização) e de seus contextos reais de uso (letramento), analisando
o processo de internalização da linguagem oral e escrita.

HABILIDADES
Identificar os marcos históricos do desenvolvimento do processo de ensino e
aprendizagem da leitura e da escrita, reconhecendo a sua importância para esta
área da educação na contemporaneidade.

ATITUDES
Refletir sobre práticas de alfabetização e letramento na atual conjuntura
educacional, sensibilizando aos educadores para romper com os paradigmas de
antigas práticas pedagógicas de leitura e escrita.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 21


Viajando pelas cartilhas do ABC: e aprendia?

O processo histórico do ensino e da aprendizagem da leitura e da escrita tem


como principio o aparelhamento do trabalho pedagógico sugerido por Comenius,
que sistematizou a aquisição da leitura e da escrita através da cartilha, um método
que perpassou gerações, principalmente nos longos anos da escola tradicional.
Atualmente, devido as tecnologias da informação e da comunicação, fruto de um
processo de expansão e globalização do capitalismo, as cartilhas foram extintas e
substituídas por livros didáticos, cadernos de atividades e até livros eletrônicos.

Comenius: Um bispo protestante da Igreja Moraviana, educador, cientista e


escritor checo. Como pedagogo, é considerado o fundador da didática moder-
na. Seu nome era Jan Amos Komenský (em latim, Iohannes Amos Comenius; em
português, Comênio; (nasceu em Nivnice, 28 de março de 1592 e morreu em
Amesterdão, 15 de novembro de 1670).

Mas conhecer um pouco da história desse instrumento de alfabetização é


importante para contextualizar as práticas pedagógicas de ensino e aprendizagem
da linguagem escrita. Em plena ascensão do capitalismo comercial ou mercantilismo
entre o século XV e XVIII, o trabalho manufatureiro ditava a nova ordem social da
burguesia europeia. Foi nesse período que era preconizado pelos reformadores
protestantes a importância da aquisição da leitura para conhecer a Bíblia. Dessa
forma, Comenius, enquanto pastor protestante e burguês, cria no século XVII os
fundamentos da escola moderna, cuja prática pedagógica se baseava em alguns
princípios do capitalismo. Sua ideia foi substituir as grandes obras científicas e
reduzir o trabalho docente num compêndio (livro didático), por isso criou-se a
cartilha para ensinar a ler.

Para Cagliari (1988), as cartilhas surgiram muito antes das salas de


alfabetização nas escolas, pois elas serviam de apoio impresso para quem queria
aprender a ler e escrever em casa. Somente após a Revolução Francesa, com o
surgimento das escolas, as cartilhas foram se transformando e se adaptando as
mudanças. Inicialmente, o alfabeto, as letras e as sílabas eram estruturados em
tabelas, depois veio exemplos de palavras e desenhos como suporte de leitura. Com
o tempo surgiram pequenos textos, e consigo exercícios estruturais de configuração
das palavras. O autor critica que as cartilhas não dispunham de exercícios de produção

22 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


textual, pois era tão forte o foco na avaliação e na fixação de aprendizagem, que elas
não priorizavam o que os estudantes precisavam de fato aprender, por exemplo,
ler. Era mais fácil o estudante decorar do que descobrir a magia e o caminho para a
leitura. E quando os estudantes surpreendiam a professora, a mesma não sabia agir,
pois estava presa a método cartilhesco.

Reforça o autor, que as cartilhas inicialmente foram criadas para colaborar


com a leitura, no entanto, passou a ser um instrumento de ensino de escrita, onde
a leitura ficou em segundo plano em decorrência das atividades de escrita como:
ditados, cópias, exercícios de análise fonética e roteiros de compreensão textual.

É óbvio que sua organização estava estruturada de tal forma que levasse o
aprendiz a conhecer as palavras com apoio de gravuras, bem como, as sílabas e as
letras do alfabeto. Além disso, a escola definida por Comenius era uma escola que
usava o lema “ensinar a todos”, ou seja, ao mesmo tempo, com o mesmo método,
desrespeitando a individualidade e as diferentes formas de aprender.

Basicamente, o método cartilhesco de fazer com que as crianças aprendessem


a ler, não cabe a nós o mérito de avaliação. No entanto, é preciso ressaltar que, as
técnicas e os métodos de ensino e aprendizagem da leitura e da escrita tiveram
cada uma em seu tempo sua utilidade, finalidade e objetivo, como tem hoje os
livros didáticos. A primeira cartilha que se tem notícia foi publicada em 1853 em
Lisboa, Portugal, pela Imprensa Nacional, denominado “Método Castilho” criado por
Antônio Feliciano de Castilho. Esse método de alfabetização era considerado rápido
e aprazível (agradável) de leitura, onde a cartilha tanto era usada pelas escolas como
pelas famílias. Passados dois anos, Antônio Feliciano veio ao Brasil para divulgar seu
método de alfabetização. Vejamos abaixo algumas imagens.

CASTILHO-1853 CENA DE SALA DE AULA - 1853

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 23


Pressupomos que uma das últimas obras do ensino cartilhesco, foi a cartilha
“Casinha Feliz” de 1987 das autoras Iracema e Eloisa Meirelles, cujo método adotado
é a concepção fônica do ensino da leitura, de forma efetiva, lúdica e criativa de
alfabetizar. Mas foi a Cartilha da Ana e do Zé, que alguns de nós, ou alguns de
seus pais, na década de 1980, aprenderam a ler e a escrever (imaginemos que sua
publicação se deu em 1985). Se o interessou parte dessa história do ensino das
cartilhas, recomendamos a visualizar algumas imagens (em anexo).

CARTILHA A CASA FELIZ


CARTILHA DA ANA E DO ZÉ
IRACEMA E ELOIA MEIRELES
1985
1987

Quando discutimos os instrumentos de alfabetização, paralelamente


debatemos os seus métodos. Segundo Ferreiro (2010), há uma tradição polêmica
sobre qual prática metodológica de alfabetização seria mais eficaz: analítico ou
sintético, fonético ou global.

Mas o que seria esses métodos: analítico ou sintético, fonético ou global?

Com o método sintético/fonético a criança aprenderá a fazer uma


correspondência entre o som e a grafia, ou seja, entre o que se fala e o que se
escreve (fonemas x grafemas), onde vai numa direção das partes para o todo: letra
por letra, sílaba por sílaba e palavra por palavra, até chegar as frases e por fim ao
texto.

24 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Já com o método analítico ou global, popularmente conhecido como
método “olhar-e-dizer”, a criança aprenderá a ler de maneira global ou audiovisual
(vendo o todo), na qual vai numa direção do todo para as partes, a partir de unidades
complexas (maiores) da linguagem, para depois decompor em unidades simples
(menores): textos, palavras, frases sílabas e letras.

O uso das cartilhas como ferramenta de alfabetização inclui-se no método


sintético ou fonético. No entanto, seu método é particular, foi e é considerado um
dos mais antigos sistemas de alfabetização, denominado de “método alfabético”
ou “método de soletração”, onde as crianças decoravam as letras do alfabeto, suas
combinações silábicas, e por fim as palavras, sentenças curtas (frases) e depois textos
(historinhas).

Seria, digamos um passo-a-passo (soletrar sílabas) até decodificar palavras,


por exemplo, a palavras BOLA, b-o, bo, l-a, la = bola.

“A cartilha, mais do que qualquer outro tipo de livro didático, por ser uma
obra simplificada e esquemática, pressupõe, por parte de
quem a usa, um conhecimento profundo do conteúdo da
obra e das técnicas de ensino e aprendizagem” (CAGLIARI,
1998, p.24). Depois das cartilhas vieram os livrinhos que pouco
contribuiu com o processo de aprendizagem das crianças.
Este instrumento segundo o autor foi confeccionado para
leitores com noções básicas de decifração da escrita, e aí
está uma das grandes dificuldades dos estudantes.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 25


Todo esse debate acerca dos métodos ou concepções ao longo dos anos,
segundo Ferreiro (2010) não levou em conta as concepções das crianças sobre o
sistema de escrita. É certo dizer segundo a autora que nenhuma prática pedagógica
é neutra, umas vão levar a criança acreditar que o conhecimento está nos outros
e deles vão receber algo; há outras em que o conhecimento já está estabelecido,
fechado, imutável; e umas em que a criança será mero espectador do conhecimento,
sem se quer questionar os seus porquês. Os métodos apresentados são formas
como os estudiosos/autores conceberam o processo e o objeto da aprendizagem,
se normais ou anormais, certas ou erradas, eles existiram, tiveram sua funcionalidade
e, hoje servem de reflexões epistemológicas para novas construções.

Alfabetização, alfabetizado, analfabeto, alfabeto

“A escrita não é um produto escolar, mas sim um objeto cultural, resultado


do esforço coletivo da humanidade. [...] existe um processo de aquisição da
linguagem escrita que precede e excede os limites escolares” (FERREIRO e TEBEROSKY,
2010, p.44-45). Iniciamos esta sessão com a fala dessas
renomadas estudiosas da psicolinguística, apenas para fazer
referência que a alfabetização como um processo de aquisição
(acesso) da leitura e da escrita, existe muito antes da criação
das escolas. Significa dizer que o local de aprender não é
privilégio apenas de um espaço instituído para tal fim (a
escola), mas que em casa, na rua e em quaisquer outros
espaços se aprende, como foi assim a concepção inicial
quando as primeiras cartilhas foram criadas (se alfabetizava
em casa) como instrumento de alfabetização.

A alfabetização é a aquisição da linguagem oral ou escrita através do


conhecimento e reconhecimento do código escrito, o alfabeto. Quando um sujeito
em idade escolar consegue codificar (transferir a oralidade para a escrita – ato de
escrever) e decodificar (ler o que está escrito), ele está alfabetizado. Para Soares
(2011, p.16) “a alfabetização seria um processo de representação de fonemas em
grafemas (escrever) e de grafemas em fonemas (ler) [...]”.

Sabendo disso, cabe destacar segundo a autora que a escrita não é uma
mera reprodução da fala, mesmo que em alguns casos esta correspondência faça
valer esta prerrogativa. Ler e escrever, para além da codificação e decodificação

26 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


também significam apreensão e compreensão de significados expressos na leitura
e na escrita.

Em seu sentido pleno, o processo de alfabetização deve levar à aprendizagem


não de uma mera tradução do oral para o escrito, e deste para aquele, mas
à aprendizagem de uma peculiar e muitas vezes idiossincrática relação
fonemas-grafemas, de um outro código, que tem, em relação ao código oral,
especificidade morfológica e sintática, autonomia de recursos de articulação do
texto e estratégias próprias de expressão/compreensão (SOARES, 2011, p.17).

Desse modo, o processo de alfabetização em termos técnicos deve se


dá quando um sujeito aprende o alfabeto e se torna autônomo e usa estratégias
próprias de leitura, expressão e compreensão. Além disso, para compreender como
o alfabeto funciona é preciso conviver com textos e analisar a composição das
palavras, ou seja, fazer uma análise metalinguística, com um olhar criterioso para o
som das palavras.

O debate acerca do conceito de alfabetização ultrapassa a técnica mecânica


da língua escrita e a compreensão/expressão de significados, pois esses aspectos
consideram a alfabetização como processo individual, como ressaltou a autora.
Soares (2011) aponta um aspecto social do conceito, que depende também de
predicados culturais, econômicos e tecnológicos.

A alfabetização tem muito mais haver com um processo de pensar sobre


a linguagem. “Mais que uma aprendizagem de habilidades, conceitos ou regras, o
alfabetizando deve conquistar uma consciência metalinguística [...] e construir uma
nova relação com a fala interior de modo a conciliar seus processos mentais às
exigências da escrita [...] (COLELLO, 2004, p.24). Como o autor coloca, se passarmos
a dar prioridade a escrita como elemento de expressão de ideias e a leitura como
forma de compreensão do mundo, não há como recusar a necessidade de sintonia
entre o pensamento e a linguagem, nem tampouco a mediação entre o falar e o
escrever.

Segundo ainda Colello (ibidem), “a capacidade de ler e escrever não depende


exclusivamente da habilidade do sujeito em “somar pedaços de escrita”, mas, de
compreender como funciona a estrutura da língua e o modo como é usada em
nossa sociedade”. Compreendendo que a evolução no sentido de desenvolver-se
bem a leitura e a escrita depende exclusivamente do sujeito, mas, quando se domina
os caminhos da leitura e da escrita, o sujeito lê para aprender, pois é lendo que se

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 27


aprende e é escrevendo que se evidencia o aprendizado.

Como já foi dito, a construção da escrita está absolutamente atrelada à


linguagem oral, apesar de Ferreiro e Teberosky (1985, p.24) apontarem “[...] que
nenhuma escrita constitui uma transcrição fonética da língua oral”. Para as autoras,
o ato de escrever conecta-se a pensar sobre a escrita e não simples representação
da fala. Essa afinidade escrita – fala é um recorte da teoria de Piaget, que as autoras
empregaram para assegurar que o estudante aprende, sobremaneira agindo sobre
as coisas do mundo, construindo suas categorias de pensamento e organizando seu
próprio mundo.

Sabendo que Ferreiro (2010) reforça a ideia de que a escrita é um sistema de


representação da linguagem e não uma transcrição gráfica das unidades sonoras,
ela aponta que a escrita espontânea é o que há de mais belo e produtivo, porque se
deve considerar mais os aspectos construtivos da escrita (o que se pensa quando se
escreve) do que os aspectos gráficos (qualidade do traço, espaço, forma, orientação
etc).

Apontando que do ponto de vista construtivo a escrita infantil segue


uma linha de evolução regular, Ferreiro (2010) distingue três grandes períodos
do pensamento da criança ao refletir sobre a escrita. O primeiro seria o ato da
criança em distinguir o que é desenho (representação icônica) e o que é escrita/
letras (representação não icônica); o segundo período (intrafigural), a criança busca
diferenciar a quantidade mínima de letra por palavra (três) para ser lida, bem como a
qualidade da escrita para ser interpretada (se as palavras têm as mesmas letras não
é interpretável); o terceiro período, diz respeito à diferenciação interfigural, ou seja,
o que a criança irá escrever na sequência precisa ser diferente do que aquilo que ela
escreveu anteriormente.

Quando Ferreiro e Teberosky (1985) realizaram o estudo da Psicogênese


da Língua Escrita em Buenos Aires entre 1974-1976, concluíram que, quando as
crianças estão no processo de aquisição da língua escrita, elas pensam e notam o
código, suas características formais gráficas e suas interpretações, principalmente
no que tange: a quantidade mínima e variedade de caracteres aceita pelo sujeito; a
relação entre desenho e texto; o reconhecimento e nomeação das letras; a distinção
entre letras e outros sinais gráficos e a orientação espacial da leitura e da escrita etc;
e dessa pesquisa resultou na definição pelas autoras dos cinco níveis sucessivos e

28 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


hipotéticos da escrita: grafismo; pré-silábico; silábico; silábico-alfabético; alfabético.
Abaixo, observemos as descrições e alguns exemplos:

Quadro 1 – NÍVEIS PSICOGENÉTICOS DA ESCRITA.

NÍVEIS CONCEITOS EXEMPLOS

Reprodução de modelo do que a


1. GRAFISMO
criança identifica da forma básica.

Escrita se aproxima de letras;


2. PRÉ-SILÁBICA hipótese de quantidade mínima de
letras e da variedade posicional.
(permuta da ordem linear)

Hipótese da tentativa de sonorização


das letras; cada letra vale uma
sílaba. Escrita ora distante das
3. SILÁBICA
letras, ora diferenciadas.

Hipótese de transição entre cada


letra que vale uma sílaba e a
sonorização das letras (conflito
interno conceitual e a realidade
4.SILÁBICO-ALFABÉTICA exterior do sujeito).

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 29


Hipótese de correspondência da
escrita e valores sonoros (menor
que a sílaba). Exige análise fonética
5. ALFABÉTICA antes de grafar.

Fonte: Figura 3-Hipósteses de Escrita (CARNEIRO, 2014, p.10).

Analisando o quadro acima percebemos que a capacidade de ler e escrever


não depende exclusivamente da habilidade do sujeito em “somar pedaços de
escrita”, mas, antes disso, de compreender como funciona a estrutura da língua e o
modo como é usada em nossa sociedade (COLELLO, 2004, p.24).

Neste sentido, “etimologicamente, o termo alfabetização quer dizer levar à


aquisição do alfabeto, ensinar as habilidades de ler e escrever, processo de aquisição
do código escrito, das habilidades de leitura e escrita” (SIMONETTI, 2007, p.17). E,
observando o quadro 1, pode-se apregoar que um sujeito cognoscente (aquele
que tem a capacidade de conhecer) para ser considerado alfabetizado, ele deve
no mínimo se enquadrar no nível psicogenético 5, onde pensar sobre a escrita é
refletir sobre sua própria escrita e analisar foneticamente cada articulação antes de
escrever. Dessa mesma forma, não se pode apontar que um sujeito alfabetizado é
aquele que sabe decodificar sílabas ou palavras isoladas, além daquele que não teria
capacidade de redigir um texto adequado ortograficamente.

A alfabetização tornou-se ao longo dos anos até sua atualidade, um processo


de aquisição de ensino e aprendizagem do alfabeto, cuja técnica de ler, escrever,
expressar e compreender a língua escrita e oral dará autonomia ao sujeito frente às
práticas sociais de leitura e escrita.

Longe de pensar que ler e escrever são apenas processos mecânicos, ou


simplesmente técnicas, Colello (2004) traz uma importante discussão sobre a relação
entre o que ela chamou de “educação do corpo inteiro” e o processo de aquisição da
leitura e da escrita. O que ela denomina de “corpo inteiro” diz respeito à integração

30 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


imprescindível de três dimensões (psicomotora, cognitiva e socioafeitva) para a
aprendizagem da linguagem oral e escrita.

Uma criança em idade escolar que frequenta a escola traz consigo não só
a fala, mas seu corpo, que é uma parte de sua linguagem, de sua comunicação.
Referente à alfabetização, quando há uma educação do corpo, esse aspecto influencia
positivamente na aprendizagem da leitura e da escrita, tanto em termos figurativos
(escrita propriamente dita) como no significado e compreensão da ação de escrever,
principalmente quando se registra a visão de mundo e o modo de ser das pessoas.

Segundo Soares (2011), as discussões epistemológicas em torno do


conceito de alfabetização não podem deixar de considerar algumas perspectivas
que delimitam a natureza do processo da aquisição da leitura e da escrita, por ser
um processo múltiplo, complexo, com diferentes facetas. Para ela, as perspectivas
são: psicológicas, psicolinguísticas, sociolinguísticas e linguísticas. No quadro 2,
discorremos informações sobre cada perspectivas.

Quadro 2 – PERSPECTIVAS DO PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO

PERSPECTIVAS ÊNFASE
● Relação entre inteligência (QI) e alfabetização;
● Relação entre aspectos fisiológicos, neurológicos
e psicológicos da alfabetização;
● Ideologia do dom (sucesso/fracasso na
PSICOLÓGICAS aprendizagem da leitura e escrita);
● Disfunções psiconeurológicas da leitura e da
escrita. (afasia, dislexia, disgrafia, disortografia,
disfunção cerebral mínima etc.)

● Abordagens cognitivas;
● Análise dos problemas linguísticos (maturidade
linguística para aprender as relações entre
PSICOLINGUÍSTICAS linguagem e memória, a interação entre a
informação visual e não visual no processo de
leitura etc).

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 31


● Usos sociais da língua;
● Problema dos diferentes dialetos (orais e
escritos);
SOCIOLINGUÍSTICAS ● Problema das diferentes funções de
comunicação, usadas em diferentes situações
sociais e com diferentes objetivos.

● Progressivo domínio de regularidades e


irregularidades (relação entre sons e símbolos
LINGUÍSTICAS
gráficos/fonemas-grafemas).

Fonte: Elaboração Própria

Enfim, o processo de alfabetização é complexo e multifacetado, por isso,


quando uma criança se encontra alfabetizada, ela não faz uso apenas de letras, sons
e escritas, mas de muitos aspectos que compõem um conjunto de habilidades em
linguagem. E uma das principais habilidades é a capacidade de ser sujeito de sua
própria educação, de ser capaz de conscientizar-se da importância de sua autonomia
para sua formação cidadã. A seguir discutiremos a luz de Paulo Freire, a relação
indissociável entre educação e transformação social.

Alfabetização e a construção de homens de consciência.

No inicio do século XX, por volta de 1932 no Brasil, os educadores Fernando de


Azevedo, Anízio Teixeira, Lourenço Filho e outros intelectuais lideraram o movimento
da Escola Nova, que consistia romper com uma escola de relações unilaterais, onde
o ensino era baseado na transmissão do conhecimento e o professor era o centro
do processo de ensino e aprendizagem. Na escola o estudante aprendia de forma
tradicional e por muito tempo se alfabetizava com cartilhas do ABC.

Escola Nova: Foi um movimento de mudança do ensino iniciado na Europa,


América e Brasil por volta da metade do século XX. No Brasil, o Movimento Pioneiro da
Escola Nova de 1932, teve seu desenvolvimento em decorrência das transformações
econômicas, politicas e sociais pelas quais passavam o país, num contexto da crescente
urbanização, ampliação da cultura do café, da industrialização e progresso econômico.
Em virtude disso, surgiram contradições e desordens político-sociais e consigo uma
mudança na visão intelectual brasileira.

32 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


A modernidade é palco de grandes mudanças e perspectivas. Surgem então,
as teorias construtivistas e sociointeracionistas de Piaget, Vygotsky e Henri Wallon,
que definiram em seus postulados como se dá o desenvolvimento cognitivo do
sujeito, num constante movimento de interações e construções, entre o sujeito e o
objeto do conhecimento dentro de um contexto histórico da busca pela autonomia
e liberdade. Podemos citar Paulo Freire, um grande educador brasileiro, quando
disse que a alfabetização é a forma de consciência política.

Seu método de alfabetizar tornou-se mundialmente conhecido por ter uma


carga ideológica e conscientização dialógica. Seu fundamento era a liberdade das
massas de um estado ou condição de ingenuidade para um estágio de criticidade,
cujo instrumento era o diálogo. Jamais reduziu a alfabetização ao “puro aprendizado
mecânico da leitura e da escrita, mas como ato político, [...] ao projeto global de
sociedade a ser concretizado [...]” (FREIRE, 1978, p. 14).

O lugar da escola precisa ser um espaço que valoriza o processo de


alfabetização como um ato de formar pessoas, conscientes de sua condição de seu
poder de transformação. A escola precisa para além da leitura e da escrita, atuar como
um agente de transformação, pois a alfabetização não é uma aprendizagem neutra,
é um ato ideológico, político e social. Na realidade a escola age na alfabetização
como se ela fosse um aprendizado neutro, sem relação com caráter político. O ato
de ler e escrever para a escola não passa do ato instrumental para ter conhecimento,
ou seja, a escola não reconhece na alfabetização um processo de construção de
saberes e uma forma de conquista do poder político.

O processo de transformação social passa necessariamente pela escola. O


vínculo entre educação e a mudança social tem sua gênese histórica na Revolução
Francesa (1789-1799), início basicamente na era moderna, cujos ideais de liberdade
e democracia deram também a escola um ar iluminista. “O homem deve ser sujeito
de sua própria educação. Não objeto dela. Por isso, ninguém educa ninguém”
(FREIRE, 1979, p.28).

Para isso é necessário que a educação e o processo de alfabetização deem


suporte ao homem para que ele mesmo se torne sujeito de sua própria história, como
forma de participar ativamente da vida em sociedade. A sua consciência linguística
mantém uma forte ligação com a consciência social, por isso “o domínio da língua
tem estreita relação com a possibilidade de plena participação social, pois é por

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 33


meio dela que o homem se comunica, tem acesso à informação, expressa e defende
pontos de vista, partilha ou constrói visões de mundo, produz conhecimento”
(BRASIL, 1997, p.21).

“A educação tem caráter permanente. Não há seres educados e não


educados. Estamos todos nos educando. Existem graus de educação, mas estes
não são absolutos. O homem, por ser inacabado, incompleto, não sabe de maneira
absoluta” (ibidem). Com isso, o professor exerce sobre o estudante uma influência
motivadora para que o alfabetizando torne-se sujeito de sua alfabetização, que o
permita passar por caminhos e meios que o leve a conhecer o conhecimento, isto é,
o papel do professor não é apresentar o objeto ao alfabetizando pronto e acabado,
mas proporcionar meios, o acesso, a motivação para curiosidade e o esforço da
busca, pois só assim o ato de conhecer/aprender torna-se valoroso.

Soares (2011) traz uma relevante contribuição acerca da relação entre


alfabetização e cidade, que inclusive escreveu em seu livro “Alfabetização e
Letramento”, um capítulo para desmistificar o lado negativo e positivo dessa relação.
O fato é que a alfabetização (o acesso a leitura e a escrita) não será condição única
para o exercício da cidadania, uma vez que a conquista deste direito, requer uma
série de outros como : políticos, econômicos, sociais, culturais etc.

No entanto, em uma sociedade como a nossa: moderna, grafocêntrica


(sociedade que é centrada na escrita), tecnológica, informativa e comunicativa,
segundo a autora, enquanto uns tem posse total desses domínios linguísticos e sendo
privilégios de determinadas classes sociais, assumindo com mais poder postos de
trabalho, áreas sociais, recreativas e culturais, por vezes, a leitura e a escrita torna-se
um instrumento de discriminação social. Por isso, que o acesso a todos a leitura e a
escrita, indiscriminadamente, como ferramenta indispensável à vida política, social,
profissional, econômica e cultural é condição necessária à cidadania, ultrapassando
a mera técnica mecânica de ler e escrever. Educação, leitura e escrita é direito de
todos, como arma de luta pela conquista da cidadania, e elemento imprescindível
ao exercício da cidadania.

A natureza da alfabetização supracitada anteriormente revela que sua


complexidade e múltiplas concepções (perspectivas) têm origem e condicionantes
diversos, bem como implicações na educação, como preconizou Soares (2011).
A autora nos mostra que tais implicações vão desde os métodos, passando pelo

34 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


material didático, até chegar à formação do alfabetizador. Atualmente o sistema
brasileiro de educação tem investido maciçamente na formação de professores,
especialmente da educação infantil ao ensino fundamental menor, onde está
localizada a alfabetização.

Essas questões acerca de métodos, materiais didáticos e práticas pedagógicas


serão tratadas na próxima unidade de estudo. Por hora, a alfabetização sinônimo de
leitura e escrita, mas também de conscientização social, é um estado ou condição
que está no mundo, não somente inserido num status de leitor ou escritor, mas
de ser gente, agente transformador social. Para tanto, é preciso que o sujeito seja
capaz de fazer uso de seu saber linguístico nas práticas sociais de leitura e escrita,
fundindo numa relação entre alfabetização e letramento, assunto do nosso próximo
tópico.

Alfabetização na pré-escola

Em nossa literatura brasileira ou na nossa legislação não há nenhum


indicativo, pelos menos a que temos acesso, que indica – criança na pré-escola é
para aprender a ler e escrever aos cinco anos de idade. Ferreiro (2010) aborda esta
discussão e busca desmistificar essa obrigatoriedade ou não.

A autora aponta para o fato que as escolas quando diz que criança nessa
idade não é pra ler e escrever ainda, ela incumbe-se de vasculhar e dar descaminho
de tudo que está na sala de aula que acesse os pensamentos das crianças para
a leitura e a escrita, é sumariamente escondido. Mas, há escolas que apoia esta
campanha de que criança aos cinco anos de idade é para aprender a ler e escrever.
Dessa forma, ela mesma cuida para que o ambiente escolar e a sala de aula seja
repleto de textos, cartazes, desenhos, números, etc.

Mesmo que esta decisão fique por conta da escola e da coordenação, as


crianças só aprenderão quando lhes é ensinado. Contudo uma situação é certa – as
crianças aprendem antes mesmo de chegar à escola. Assim, a autora conclui; “Com
base nas investigações realizadas podemos afirmar que nenhuma criança urbana de
seis ou sete anos de idade começa o primário com total ignorância da língua escrita”
(FERREIRO, 2010, p. 97).

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 35


Portanto, a autora complementa, a sala da pré-escola deveria permitir a liberdade de
experimentar os sinais escritos aos estudantes. E no lugar de estarmos preocupados
com a questão se pode ou não crianças de cinco anos aprender a ler e a escrever na
pré-escola, deveríamos dar a elas condições necessárias para aprender.

Alfabetização e Letramento: a gênese e caminhos no


Brasil

Alfabetização ou Letramento? Qual a melhor forma de usar o binômio


no que se refere os atos de ler e escrever?

Há uma diferença conceitual no uso dos conectivos entre as duas palavras,


nos dois usos. Ora eles parecem indicar alternativa e incompatibilidade, ou,
complementaridade. Bem, Colello (2004) nos traz a fala de Ferreiro (2003) quando
ela se refere ao termo Letramento, usado no Brasil, que a deixou surpresa, pois
começou a usar o termo como substituto da alfabetização, virando sinônimo de
decodificação, como sendo uma ação de contato com diferentes tipos de textos,
para se chegar a uma compreensão do que se lê. Para a autora, isso seria um
retrocesso na história da linguagem. Ela nega-se a aceitar que haja um momento
para decodificação anterior a percepção da função social do texto. Por fim, aceitar
tal argumentação é apoiar a velha razão da consciência fonológica.

Abrimos esta sessão com a discussão, não desprezando o trabalho de


Kato (1986) quando fez referência ao termo no seu livro - No mundo da escrita:
uma perspectiva psicolinguística, mas, apenas para delinear que ela foi uma das
primeiras a usar o termo no Brasil nesse período, e como disse: o uso do termo.

Emília Ferreiro refere-se à utilização do vocábulo letramento se dirigindo a


uso como retrocesso, uma vez que, como os textos até hoje trazem, alfabetização
em inglês é literacy, e letramento em inglês é literacy. A funcionalidade de ambos
os termos é a mesma: acesso a leitura e a escrita. Colello (2004) faz referência a
Magna Soares, como uma das autoras da área que defende a complementaridade e
o equilíbrio entre Alfabetização e Letramento.

Quanto ao primeiro uso do termo “letramento” apresentamos que, a escola


tem o papel de colocar a criança frente a frente com o mundo da escrita, fazendo com
que o sujeito torna-se funcionalmente letrado, ou seja, capaz de usar a linguagem

36 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


escrita para crescer e aprender individual e coletivamente. Podemos dizer que a
norma culta da língua surge do letramento, pois é função da escola desenvolver
no estudante a competência de dominar a linguagem falada, que é aceita pelas
instituições.

A autora apresenta o termo letramento como consequência da aprendizagem


individual da leitura e da escrita para uso social, ou seja, o uso da norma culta da
língua. A autora não explica o uso do termo e nem tampouco busca expor o conceito
do termo. Ela, apenas se refere que é função da escola inserir o sujeito no mundo da
escrita para que se torne letrado e consequentemente capaz de usar a linguagem
para comunicação.

Segundo Silva (2011), dois anos depois, Leda V. Tfouni distingue alfabetização
e letramento, dizendo que o primeiro se refere a um processo individual de aquisição
de leitura e escrita (está alfabetizado), enquanto o segundo refere-se ao âmbito
social da aquisição da escrita. No que diz respeito essa questão dual “a oposição
feita entre a “alfabetização” e “letramento” será tanto mais rica quanto ela puder
subsidiar o abandono de certas práticas pedagógicas que, durante anos, têm abafado
a criatividade e a comunicação infantil” (COLELLO, 2004, p.122).

Para concluir incialmente essa garimpagem pelo o uso do termo letramento,


Silva (2011) nos apresenta o conceito de Kleiman (1995)

Podemos definir hoje o letramento como um conjunto de práticas sociais


que usam a escrita, enquanto sistema simbólico e enquanto tecnologia, em
contextos específicos, para objetivos específicos [...]. As práticas específicas
da escola, que forneciam o parâmetro de prática social segundo a qual o
letramento era definido, e segundo a qual os sujeitos eram classificados
ao longo da dicotomia alfabetizado ou não alfabetizado, passam a ser, em
função dessa definição, apenas um tipo de prática – de fato, dominante – que
desenvolve alguns tipos de habilidades, mas não outros, e que determina
uma forma de utilizar o conhecimento sobre a escrita. (KLEIMAN, 1995, p.
19, apud SILVA, 2011, p.23-24)

De posse do conhecimento da leitura e da escrita, um sujeito pode-se


considerar apto ou competente para se comunicar com o mundo, ser interlocutor
e receptor de informações e comunicações. Segundo Cavazotti (2004), até certo
período escolar do ensino tradicional os métodos de ensino e o material utilizado
(a cartilha) deram conta das condições históricas próprias do aprendizado naquele
período. Hoje, com a globalização, as tecnologias e a rapidez das informações, o
mundo exige das pessoas e da escola novos métodos, recursos e patamares de

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 37


leitura e escrita, por isso que surge o termo letramento.

A apropriação das competências de leitura e escrita pelo sujeito para agir no


mundo, concorre para o conceito de letramento. Conforme Soares (2010), o termo
Letramento (o verbete apareceu pela primeira vez no Dicionário Houaiss no Brasil
em 2001), surgiu no Brasil na década de 80, usado pela primeira vez por Mary Kato
em seu livro No mundo da escrita – uma perspectiva psicolinguística, como uma
versão portuguesa da palavra literacy da língua inglesa (traduzida para o português
como alfabetização), que significa: situação ou qualidade daquele que aprende a ler
e escrever, que num plano individual seria estar alfabetizado e utilizar tal tecnologia
(ler e escrever) e envolver-se nas práticas sociais de leitura e escrita.

Para a autora, o mundo está se tornando cada vez mais grafocêntrico,


ou seja, uma sociedade centrada na escrita, exigindo das pessoas que sabem ler
e escrever práticas sociais que modifiquem seu estado ou condição de estar no
mundo, inclusive os aspectos linguísticos.

A alfabetização de um lado se encarrega de ensinar/aprender a ler e a escrever,


e por outro lado, o letramento dedica-se não somente em saber ler e escrever, mas
mobilizar o cultivo da leitura e da escrita que privilegiem as demandas sociais de
exercício dessas práticas. Embora, essas duas ações pedagógicas se distinguem no
seu fazer, elas se completam, de modo que ensinam a ler e escrever em situações
das práticas de leitura e escrita, tornando o estudante, tanto alfabetizado quanto
letrado.

Ficam evidentes as principais características que diferencia o letramento


da alfabetização, especialmente o uso das competências de ler e escrever em
contextos sociais de leitura e escrita. Por isso, se pressupõe que os termos não são
consequentes, isto é, mesmo sendo alfabetizado um sujeito não estará letrado se
este não fizer uso de sua capacidade de leitor e escritor, e assim, vice e versa.

O letramento, ou ser letrado, ou estar letrado é muito mais complexo do


que se imagina (apenas dizer que o letramento é uso da leitura e da escrita). É
mais que isso, pois envolve uma complexa rede de significados de discursos, seja
ele oral ou escrito. Segundo Cavazotti (2004) estar letrado é necessário o leitor ser
capaz de apreender o sentido dos discursos, interpretando os elementos históricos,
científicos e ideológicos que o instituem. Dominar os elementos da textualidade

38 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


que edificam o discurso oral e escrito, bem como os elementos materiais de sua
decodificação (letras e sons).

Neste sentido, junto à ideia de Soares (2010), afirma Rojo (1998), que o
processo de letramento tem indissociável ligação com a construção do discurso oral,
e optar por uma visão socioconstrutivista do letramento e da escrita, constitui re-
(pensar) às relações entre a linguagem oral e a escrita, porque “[...] o desenvolvimento
da linguagem escrita ou do processo de letramento da criança é dependente, por
um lado, do grau de letramento da instituição familiar [...], em seu cotidiano, de
prática de leitura e de escrita” (ROJO, 1998, p.123).

“Com maior ou menor intensidade, o processo de letramento geralmente


tem início muito antes do ingresso na escola e configura-se como saber fundamental
no processo de alfabetização, explicando muitas vezes as diferenças no ritmo de
aprendizagem dos alunos” (COLELLO, 2004, p.121). Ou seja, as práticas sociais de
leitura e escrita antes do contato com elas nos muros da escola, dão condições e
habilidades específicas aos estudantes que facilita sobremaneira o aprendizado da
linguagem em termos do processo de aquisição da leitura e da escrita (alfabetização).

Você sabe por que o letramento é um processo que se inicia antes da


escolarização e da alfabetização?

Porque a linguagem sendo uma forma comunicativa pessoal sua orientação


se dá e se realiza num processo de prática social em distintos grupos sociais, como
preconizou os estudiosos e professores que redigiram os Parâmetros Curriculares
Nacionais de Língua Portuguesa.

A linguagem é uma forma de ação interindividual orientada por uma


finalidade específica; um processo de interlocução que se realiza nas
práticas sociais existentes nos diferentes grupos de uma sociedade, nos
distintos momentos da sua história. Dessa forma, se produz linguagem
tanto numa conversa de bar, entre amigos, quanto ao escrever uma lista de
compras, ou ao redigir uma carta — diferentes práticas sociais das quais se
pode participar [...] (BRASIL, 1997, p.22).

Para Angela Kleiman (1995), o termo letramento se constituiu e é usado


pelos motivos que seguem: sua essência acompanha o desenvolvimento do uso
da escrita desde o século XVI; ampliou-se o poder de uso da escrita pelos grupos
minoritários em detrimentos dos majoritários; substituir a tradicional alfabetização
para explicar estratégias orais letradas de crianças que não são alfabetizadas, mas

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 39


são consideradas letradas. Por isso, segundo a autora, as práticas sociais que se
utilizam da escrita, como símbolo e tecnologia, especialmente na escola, como
principal agência de letramento, ela volta-se não para ação de letrar (prática social),
mas como uma prática de alfabetizar, enquanto processo de aquisição de códigos.

As práticas sociais de que fala a autora, é uma ação de participação integral


das pessoas que sabe ler e escrever na sociedade contemporânea, como reforça
Brito (2005). Para ele, saber ler e escrever é condição necessária para o letramento. A
participação para o autor é a capacidade de agir com autonomia intelectual, ou seja,
ser capaz de “[...] decidir, calcular, planejar, intervir, criticar, transformar, solucionar,
criar” (idem, p. 23). Essa capacidade tem um condicionante, ou mais de um – a
aprendizagem da língua escrita e oral. Por isso letramento é um ato resultado de
quem aprende a ler e escrever.

Letramento é o resultado da ação de ensinar e aprender a ler e escrever. O


estado ou a condição que adquire um grupo social ou um individuo como
consequência de ter-se apropriado da escrita. (...) Já alfabetizado nomeia
aquele que apenas aprendeu a ler e escrever, não aquele que adquiriu o
estado ou a condição de quem se apropriou da escrita, incorporando as
práticas sociais que as demandam (BRITO 2005, p.30, apud, SOARES, 1998,
p. 20).

Como diz a autora, citando Soares (1998) não basta saber ler e escrever
para ser letrado, é preciso fazer uso dessas habilidades, responder as demandas
sociais diariamente. Brito (2005) indica que após a década de 1980 houve uma
utilização indiscriminada com o conceito de letramento e semelhantes, que têm
causado conflitos conceituais nas pesquisas e estudos. Por isso, a autora diz existir
quatro termos conceituais em uso: letramento, alfabetismo, alfabetização e
cultura escrita, que são análogos na forma e no conteúdo, principalmente no que
equivalem no uso e na prática. Esclarece ainda que, o uso dos termos pode ser feito
de modo complementar, o que leva a compreensão do significado da alfabetização
em sua plenitude.

Atualmente, embora haja inúmeras definições para o binômio alfabetização


e letramento, seja como aspecto de oposição ou de complementaridade, o que
nos interessa aqui é configurar a nova tendência das práticas pedagógicas, usando
a junção dos termos, como sugere Colello (2004) com o Modelo Ideológico de
Alfabetização (opondo-se ao Modelo Autônomo), que chamou essa tendência de
Alfabetizar Letrando.

40 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Modelo Autônomo: Modelo que prima pela a continuidade do uso da
língua dominante, uma sociedade pauta no uso da norma culta da língua e prima
pela assimilação do uso das normas linguísticas, desconsiderando o aluno e
reforça o fracasso escolar.

Este modelo vincula-se as diversas formas das práticas de letramento, onde


valoriza a sua simbologia cultural e o contexto de produção, quebrando um paradigma
entre o momento de aprender e o momento de fazer uso da aprendizagem. Vale
salientar que, os estudos da linguagem propõem um dinamismo entre descobrir a
escrita (funções e manifestações) aprender a escrita (compreensão de regras e seu
funcionamento) e usar a escrita (cultivo de suas práticas a partir de um referencial
significativo para o sujeito).

O autor nos apresenta o Modelo Ideológico em um esquema gráfico,


vejamos:

ALFABETIZAR LETRANDO

DESCOBRIR A USAR A
ESCRITA ESCRITA

APRENDER A ESCRITA

Fonte: COLELLO (2004, p.113)

Para o autor, o principio alfabetizar letrando está relacionada a uma nova


condição cognitiva e cultural do processo de aquisição da língua escrita. Essa
aquisição vem ampliando seu campo de atuação (pluralidade de práticas sociais),
assim, vemos emergir letramentos, letramento social, escolar, científico, musical e
informático etc.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 41


E esses letramentos são possíveis porque a nossa linguagem é histórica, é
cultural e uma forma de estar no mundo. Segundo o PCNs de 1997, a nossa língua
por ser um sistema simbólico carrega consigo uma história, que possibilita a nós
significar o mundo e a realidade. Dessa forma, aprender a língua não é tão somente
aprender palavras, mas os seus sentidos culturais e com eles os modos pelos quais
as pessoas compreendem e interpretam os fatos e a si mesmas.

Enfim, se considerarmos a posição das autoras, que avaliam que o principio


básico da concepção de letramento é mais do que a simples aquisição da escrita
e seu código (alfabetização), mas que mantém forte ligação e indissociável com
o processo de alfabetização, estaremos admitindo que letramento de fato é uma
prática social, do uso das habilidades e competências de ler e escrever em sociedade,
para se comunicar e se informar, para ser alguém no mundo em que a língua escrita
e falada em sua quase totalidade domina as relações entre homens e mulheres.

Letramento ou Alfabetismo? A cultura escrita da


alfabetização
Estar alfabetizado e letrado é uma condição inerente à pessoa que
sabe ler e escrever com independência e faz uso social dessa
condição para melhor participar de sua vida em sociedade, uma vez
que, diariamente somos envolvidos mesmo que involuntariamente
em contextos de letramento e de alfabetização. Desde os primeiros
raios solares, já estamos vendo o horário do relógio, pegando nas
embalagens para preparar o café da manhã vendo letreiros, placas
e sinais no percurso do trabalho.

Um sujeito que é capaz de diferenciar o que são letras e símbolos, que


sabe distinguir o que são formas de comunicação escrita e falada, que faz uso
desses mecanismos da linguagem para se comunicar, é uma pessoa considerada
alfabetizada, mesmo aquelas que sabem minimamente registrar ou reconhecer
palavras, escrever seu nome ou se comunicar através de um bilhete, por pequeno
que seja.

42 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


A discussão chega num nível em que esse parâmetro de classificação a que
nos referimos diz respeito ao que conhecemos como analfabetismo funcional, que
consiste na condição daquele que consegue se comunicar muito pouco, segundo
o padrão da norma para se considerar alfabetizada (alfabetizado pleno). Às vezes
escreve apenas seu nome completo, lê palavras simples, sentenças curtas e pequenos
textos, e algumas situações nem conseguem.

Para o Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) do Instituo Paulo


Montenegro, é “considerada analfabeta funcional a pessoa que, mesmo sabendo
ler e escrever algo simples, não tem as competências necessárias para satisfazer as
demandas do seu dia a dia e viabilizar o seu desenvolvimento pessoal e profissional”.
Consideramos que essas pessoas que são classificadas nesse estágio de comunicação
certamente “perderam” a oportunidade de serem alfabetizadas na hora certa, seja
por questões pessoais, ou até mesmo por questões metodológicas. E o tempo
passou e não teve como recuperá-lo.

Com isso, indica-se que o ensino da leitura e da escrita para os analfabetos


funcionais pode ter sido levado em conta a escrita apenas como transcrição da
fala, ou até mesmo apenas como um ato mecânico e motor, sem levar em conta
o que eles pensavam sobre a escrita. Assim, [...] quando a escrita é considerada
um ato prioritariamente motor [...], a maior preocupação dos alfabetizadores recai
no treinamento das habilidades responsáveis pelos aspectos figurativos da escrita
(coordenação motora, discriminação visual e organização espacial) [...] (COLELLO,
2004, p.17). Segundo o autor, nos parece bem claro, que ao conceber a alfabetização
como um treinamento de habilidade (ler e escrever), o sujeito tem limitado sua
capacidade de pensamento e da ação no mundo.

Todos nós ao longo da vida aprendemos termos e palavras porque eles são
passados de geração em geração, pois esse ato é cultural, isso é educação. Mas
sobre alguns conceitos, precisamos nos aprimorar, especialmente quando muitos
são desconhecidos. O termo analfabeto, segundo os dicionários portugueses é a
pessoa que não sabe ler e nem escrever. Já o analfabetismo é o estado ou condição
do analfabeto.

E alfabetismo? Você sabe o que é? Qual a ideia você faz deste termo?
Você já ouvir falar algo sobre ele?

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 43


Bem, para responder a essas questões, primeiro tem-se que esclarecer um
ponto: o verbete alfabetismo não é tão comum entre nós, mas ele é o oposto
(positivo) do analfabetismo (negativo), que quer dizer estado ou condição de
alfabetizado. Segundo Soares (2011) é aquele que aprende a ler e a escrever. O
uso da palavra é bem recente, porque as mudanças que ocorreram continuamente,
e a realidade linguística, como diz a autora, não é suficiente saber ler e escrever,
além desse domínio se quer o uso dessas habilidades, incorporando-a a seu viver,
modificando seu estado/condição de sujeito numa sociedade alfabetizada e letrada,
isso como decorrência desses saberes.

É nesse sentido que o termo alfabetismo se aproxima do termo letramento,


ou até mesmo se assemelha, pois o sentido dos dois consiste na essência do uso
social da leitura e da escrita. Soares (2011) afirma que o alfabetismo admite duas
dimensões: a individual e a social. A primeira diz respeito à habilidade de um sujeito
ler e escrever, ou seja, a competência da pessoa com a leitura e a escrita. A segunda
faz referência a “[...] um fenômeno cultural, referindo-se a um conjunto de atividades
sociais, que envolvem a língua escrita, e a um conjunto de demandas sociais de uso
da língua escrita” (SOARES, 2011, p.30).

Britto (2005) nos alerta para o fato de que o termo letramento vem sendo
acompanhado da palavra letrado denotando o sujeito que tem letramento, e não
como uma pessoa culta, erudita como trazem alguns dicionários. Associar letramento
a tais conceitos tem dificultado a compreensão, além do mais, tem causado confusão
com vários termos como alfabetizado, escolarizado e culto. O autor no quadro
abaixo faz uma diferença conceitual de cultura escrita, letramento, alfabetismo
e alfabetização, justamente para organizar as nossas reflexões. Sua intenção foi
sintetizar os termos para que os mesmos se tornem de fácil compreensão.

Cultura escrita – modalidade de organização social de base escrita, com


implicações nas formas de produzir, viver, conhecer, representar.
Letramento – conjunto de práticas sociais de escrita e da leitura que
definem os modos privilegiados de participar e produzir na sociedade de cultura
escrita, tanto em ambientes escolares como em outros ambientes sociais.
Alfabetismo – conjunto de habilidades individuais de uso da escrita.
Alfabetização – processo de ensino e aprendizagem do sistema da
escrita.
Fonte: BRITTO, 2011, p. 32

44 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Revisando algumas literaturas disponíveis nesse contexto de classificação
– alfabetizado, não alfabetizado, alfabetizado pleno ou alfabetizado funcional,
verificou-se que o mais importante é indicar as práticas sociais desses grupos. Por
isso, Vera Masagão Ribeiro e Roberto Castelli Junior, que coordenam o Indicar de
Alfabetismo Funcional, do Instituto Paulo Montenegro, nos apresenta os níveis
de alfabetismo, sendo o primeiro o analfabeto (dividido em dois grupos), e os demais
alfabetismo 1(elementar) , 2 (intermediário) , 3 (proficiente), são eles:

INDICAR DE ALFABETISMO FUNCIONAL

Criado no ano 2001, pelo Instituto Paulo Montenegro em parceria com


a ONG Ação Educativa, é uma pesquisa que permite estimar os níveis de
alfabetismo da população entre 15 e 64 anos e compreender seus deter-
minantes. Avaliando suas habilidades e práticas de leitura, de escrita e de
matemática aplicadas ao cotidiano.

Quadro 3 – NIVEIS DE ALFABETISMO DO INAF


ANALFABETOS FUNCIONAIS

• Analfabeto - Corresponde à condição dos que não conseguem rea-


lizar tarefas simples que envolvem a leitura de palavras e frases ainda
que, uma parcela destes consiga ler números familiares (números de
telefone, preços etc.);

• Rudimentar - Corresponde à capacidade de localizar uma informação


explícita em textos curtos e familiares (como um anúncio ou um bilhe-
te), ler e escrever números usuais e realizar operações simples, como
manusear dinheiro para o pagamento de pequenas quantias ou fazer
medidas de comprimento usando a fita métrica;

FUNCIONALMENTE ALFABETIZADOS

Até a edição de 2011, este grupo era subdividido nos níveis Básico e
Pleno.
A partir de 2015, buscando aprimorar a interpretação dos resultados, os
respondentes passam a ser classificados em 3 níveis:

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 45


• Elementar - As pessoas classificadas neste nível podem ser considera-
das funcionalmente alfabetizadas, pois já leem e compreendem textos
de média extensão, localizam informações mesmo que seja necessário
realizar pequenas inferências, resolvem problemas envolvendo ope-
rações na ordem dos milhares, resolvem problemas envolvendo uma
sequência simples de operações e compreendem gráficos ou tabelas
simples, em contextos usuais. Mostram, no entanto, limitações quando
as operações requeridas envolvem maior número de elementos, etapas
ou relações;

• Intermediário – Localizam informações em diversos tipos de texto,


resolvem problemas envolvendo percentagem ou proporções ou que
requerem critérios de seleção de informações, elaboração e controle de
etapas sucessivas para sua solução. As pessoas classificadas nesse nível
interpretam e elaboram sínteses de textos diversos e reconhecem figu-
ras de linguagem; no entanto, têm dificuldades para perceber e opinar
sobre o posicionamento do autor de um texto;

• Proficientes - Classificadas neste nível estão às pessoas cujas habi-


lidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar
textos em situações usuais: leem textos de maior complexidade, anali-
sando e relacionando suas partes, comparam e avaliam informações e
distinguem fato de opinião. Quanto à matemática, interpretam tabelas e
gráficos com mais de duas variáveis, compreendendo elementos como
escala, tendências e projeções.

Fonte: sitio do Instituto Paulo Montenegro: http://www.ipm.org.br/

O Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF) divulgou o resultado da pesquisa


de 2015, apontando uma reflexão sobre as relações entre o alfabetismo e o mundo
do trabalho a partir de análises por setores da economia, níveis hierárquicos, tipo de
relação de trabalho e para algumas funções específicas. Para entendermos melhor
os resultados do INAF 2015 (tabela 1) é preciso conhecer a escala de proficiência do
estudo (quadro 4), no qual são divididos em grupos e seus intervalos de pontuação
nos testes práticos.

46 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Quadro 4 – Cortes dos grupos de alfabetismo e intervalo na escola de
proficiência do estudo especial INAF-2015

Fonte: Relatório INAF/2015

Tabela 1 – Distribuição da população pesquisada por grupo de alfabetismo

Fonte: Relatório INAF/2015

Conclui-se que, no Brasil em pleno século XXI, ano de 2015, a população de


15 a 64 anos, 27% são analfabetos funcionais, numa amostra de 2002 participantes,
545 pessoas, mais de ¼ tem poucas habilidades de leitura e escrita. Além disso,
quase 50% das pessoas pesquisadas estão no nível elementar de alfabetização,
ou seja, são capazes de ler uma ou mais unidades de um texto médio, realizando
pequenas inferências e resolvem problemas básicos das operações matemáticas.
E o mais surpreendente resultado, no sentido de desfavorável, apenas 8% dos
pesquisados (161 de um universo de 1.457 alfabetizados) apresentou-se proficientes
em compreender e interpretar textos em diversas situações cotidianas, e resolvem
problemas com múltiplas etapas, operações e níveis de informações.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 47


Parece-nos óbvio que quanto mais elevado o nível de escolaridade
certamente é maior o nível de alfabetismo. Engana-se. A pesquisa mostra ainda que
a relação entre a escolaridade e a distribuição nos níveis de alfabetismo não foi linear.
Observamos: dos 2002 participantes, 5% não frequentaram a escola, 16% pararam
ou concluíram no ensino fundamental - anos iniciais, 23% pararam ou concluíram
o ensino fundamental - anos finais, 40% cursam ou concluíram o ensino médio, e
17% cursam ou concluíram a educação superior. Ou seja, mesmo com pessoas tendo
chegado ao ensino médio ou a educação superior, elas não conseguem alcançar a
escala de alfabetismo proficiente.

Outros dados que faz toda diferença fazem-se necessário revelá-los. Dos
2002 participantes da pesquisa, 48% são homens e 52% são mulheres, sendo que,
54,5% dos analfabetos funcionais são do sexo masculino, mesmo as mulheres sendo
maioria. Mas no que tange o nível mais alto da escala do alfabetismo – a proficiente,
os homens ocupam o mesmo percentual – 54%. Sobre o quesito raça/cor, 46%
dos entrevistados declaram-se pardos, e somente 13% disseram que eram negros,
enquanto os brancos eram 38% e amarelos ou indígenas eram 2%.

E no que tange o foco da pesquisa – a relação entre alfabetismo e o


mundo do trabalho, 63% das pessoas pesquisadas estão trabalhando e, juntado
os desempregados, os que procuram o primeiro emprego e os que não estão
procurando, este percentual é de 18%. E como estudiosos indicam: quem tem menor
desempenho escolar, são necessariamente aqueles que estão desempregados,
justamente por não atender as exigências linguísticas do mercado. No entanto
como já citado, a pesquisa em questão mostra o contrário, pois 1.267 pessoas estão
trabalhando (67%).

Enfim, sabe-se que o princípio fundamental do alfabetismo é a aquisição


das habilidades de ler e escrever com eficiência e eficácia, o que torna o sujeito uma
pessoa consciente de suas práticas sociais de letramento, ou seja, do uso da língua
escrita e falada, da comunicação e expressão e informação, socialmente construída e
culturalmente edificada. Dessa forma, a partir do momento que se está alfabetizado,
de posse dos recursos comunicativos em pleno desenvolvimento, o sujeito precisa
apenas usá-lo de forma autônoma, como uma possibilidade de compreender
o mundo e estar no mundo e com as pessoas. Esse é o verdadeiro sentido do
alfabetismo e do letramento, o uso contínuo dos meios sociais de comunicação e
informação em sociedade.

48 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 49
50 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização
2
A PEDAGOGIA DA LEITURA E
DA ESCRITA NO PROCESSO DE
ALFABETIZAÇÃO E LETRAMENTO
CONHECIMENTOS
Compreender as práticas de linguagem oral e escrita, relacionando as habilidades
de ler, interpretar e compreender textos, produzir e reescrever textos, numa
perspectiva de informação e comunicação.

HABILIDADES
Identificar as diversas práticas e formas do uso da leitura e da escrita.

ATITUDES
Provocar reflexões e mudanças nas práticas pedagógicas de leitura e escrita de
educadores alfabetizadores no contexto educacional brasileiro.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 51


As diferentes maneiras de pensar a leitura e a escrita.

Quando algumas crianças começam a frequentar a escola a partir de dois e


três anos de idade, elas têm os primeiros contatos com a cultura escrita: desenhos,
letras, palavras e textos. A presença da escrita desde esse período até a fase da
alfabetização (entre 6 a 8 anos) se apresenta de diferentes formas e finalidades.

A “[...] escrita a mais adequada forma de expressão. O registro gráfico


concretizado no ato de escrever é a extensão de outras possibilidades comunicativas
(como, por exemplo, falar) que puderam ser adaptadas e organizadas numa nova
linguagem” (COLELLO, 2004, p.11). O mundo é gráfico, isso não se pode negar. Seja
sozinho, ou coletivo, as experiências com a escrita será particular para cada um de
nós, mas a prática social é bem mais rica do que individualmente. Aqui não se quer
negar os valores do conhecimento individual, mas de entendê-los nas práticas de
uso sociais, como ressaltou Britto (2005).

Por este entendimento, o autor nos apresenta as esferas de uso da leitura e


da escrita, que nada mais é do que os contextos de inserção social correspondente
as diferentes formas de utilização da linguagem, vinculados a cultura, a economia e
a política. São sete esferas: da vida doméstica, da vida pessoal, da vida social, da
informação e da participação, da vida profissional, da formação e instrução, e
do lazer e entretenimento.

A primeira esfera trata de ações domésticas em que se usa a leitura para ler
listas, catálogos, produtos, rótulos, receita, bula de remédios, manual de instalação
de um aparelho, etc. Quanto à escrita, se faz elaboração de lista de compras,
bilhetes, avisos, recados, copiar receitas, organizar pasta de contas a pagar e caixa de
documentos etc. Brito (2005) ressalta que este uso quando não é feito pela própria
pessoa, por vezes pode ser feito por um parente ou um vizinho.

Da vida pessoal, a leitura e a escrita se associa a produções individuais,


como escrita de diários, cadernos de anotações, cartas, bilhetes, cópias de poemas,
letras de músicas, fotografias e suas legendas. No que tange a leitura, os impressos
são os mais diversos como: recortes de jornais, revistas, folhetos místicos, santinhos,
poemas e mensagens.

52 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Britto (2005) comenta que na vida social, as atividades de leitura e escrita
estão vinculadas com as relações que as pessoas mantêm socialmente, seja nos
clubes, associações, círculos de amizade, igreja, sindicato etc. Dessa forma, as
habilidades de ler e escrever estarão sempre relacionados com a dinâmica social de
cada um.

Na esfera da informação e da participação, o autor expõe que as formas


como as pessoas se integram e se informam dos fatos do mundo são determinantes
para suas ações de ler e escrever, seja pelos jornais impressos ou telejornais, rádio e
revistas (leitura direta de textos escritos); seja através do diálogo com os familiares,
amigos e colegas (leitura indireta). Na esfera profissional, os usos são diversos e
referem-se à especificidade de cada trabalho. Porém, o autor ressalta que o uso da
escrita é delimitado tendo em vista modelos e burocracia rigorosa.

A esfera de formação e instrução, Britto (2005) diz que é pela educação


escolar, como processo formal de formação que as pessoas têm acesso à leitura e a
escrita, a uma diversidade de textos. Mas é nesta esfera que a formação também se
dá pelo investimento pessoal de cada um na aquisição de impressos.

Por fim, o autor nos fala sobre a esfera do lazer e entretenimento, em


que se aprende também pela brincadeira, lendo revistas, jornais, história em
quadrinhos, fazendo palavras cruzadas. Além disso, há pessoas que preferem ler
um romance, poesia etc. De qualquer forma, a leitura como produção e circulação
de conhecimento sempre será bem vinda, sendo ela um investimento pessoal, ou
coletivo (num projeto escolar ou na comunidade). Falar sobre as formas de produção
e circulação do conhecimento é para Britto (2005) uma dinâmica desordenada, do
ponto de vista que nem todo mundo produz conhecimento relevante, que vá ser
admitida como interesse público e que mereça publicização e circulação.

No entanto, o autor nos aponta algumas instâncias que privilegiam a


produção e a circulação de conhecimento, como: as universidades, os centros
de pesquisa, a escola, o poder público, as instituições sociais e a indústria da
informação. Todos os espaços buscam priorizar a produção do conhecimento como
mola propulsora para uma geração do futuro, a geração “Y”, a geração do milênio,
que a cada dia produz e faz circular conhecimento através das redes sociais, dando-
lhes autonomia e protagonismo.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 53


A geração Y e o conhecimento tecnológico da língua
escrita

“A língua escrita é um objeto de uso social, com uma existência social (e


não apenas escolar)” (FERREIRO, 2010, p.38). Ela não é de domínio privado, e assim
qualquer pessoa que seja alfabetizada pode escrever da forma que quiser, como
quiser e onde quiser, pois o jeito como se comunica não importa, o relevante é a
mensagem a ser transmitida, CERTO – ERRADO. Pois existem normas socialmente
construídas e culturalmente aceitas e passadas de gerações em gerações porque se
trata de um fato social – as regras da Norma Culta da Língua Portuguesa.

Norma Culta da Língua Portuguesa:


Entendida como um conjunto de padrões linguísticos rigorosos que definem o
uso correto de uma língua, no nosso caso – a Portuguesa. O estudo da gramá-
tica torna-se imprescindível para domínio perfeito de uma língua, para falar e
escrever de forma correta.

Quando nascemos não sabemos falar, aprende-se por meio do contato


social com a língua falada dos pais, irmãos, tios etc. Quanto maior e melhor o nível
de conversação no ambiente familiar, melhor será o desenvolvimento linguístico
(oral) da criança. Para aprender a escrever, mesmo que cheguemos a idade escolar,
algumas crianças tem acesso a escrita e a leitura antes mesmo de ingressar na
escola. Mas é na escola, que aprendemos através de ensinamentos periódicos e
sistemáticos a Norma Culta da fala e da escrita.

O debate acerca da escrita nas redes sociais está presente em muitos artigos
acadêmicos e trabalhos de conclusão de curso na atualidade, especialmente da área
da linguística, por uma única razão, as pessoas que usam as tecnológias digitais e
seus aplicativos estão desusando a Norma Culta da Língua Portuguesa. Diante dessa
realidade real, alguns pontos podem ser abordados: o desuso é voluntário – porque
os usuários não quererem perder tempo digitando longos textos e, por isso optam
por abreviar as palavras; o desuso é involuntário – para aqueles que não querem ser
classificados por analfabytes (analfabetos digitais) e serem ridicularizados em grupos
nas redes sociais por escrever demais; ou o desuso é parasitário – para aqueles que
vão de carona na moda da abreviação, mas na verdade não sabe escrever.

54 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


De qualquer modo, o desuso da linguagem correta pela geração “Y” é um
fato que não retrocederá. Mas os tipos apresentados são bem reais se analisarmos
os motivos pelos quais usamos as abreviaturas na comunicação dos aplicativos
ou apps (applications). É fato que essa nova linguagem internauta já denominada
de internetês ou netspeak – é uma linguagem simples e informal, tornando a
comunicação mais rápida (uso de códigos, abreviaturas, estrangeirismos) até mesmo
com o uso de carinhas como os emoticons e bordões. É fato que esta linguagem
por essas características, nada tem haver com o comprimento da Norma Culta da
Língua Portuguesa. No entanto, é preciso ressaltar que ainda há pessoas que usam
a linguagem correta, com direito a acentos e pontuações, especialmente porque há
smartphones que seus corretores são maravilhosos. Vejamos a figura abaixo, que
mostra como os internautas estão se comunicando por meio das abreviações e ao
lado a decifração (tradução)

Oi tudo bem?
Estou com saudades demais de
você!
Quando você vem pra cá?
Tem novidades?
O Gustavo casou. Não consegui ir
na festa. Qualquer dia vou te vê!
Me adicione no Messenger ! Ou me
segue no Twitter: @anapaula. Você
tem Facebook?
Beijos Renata

Fonte: https://digartmedia.wordpress.com/2013/05/28/a-linguagem-dos-
internautas/

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 55


Veja há uma clara diferença nas janelas que indicam a contagem das palavras
na figura e na decifração, ainda que, os caracteres sejam praticamente os mesmos.
Mas, destacamos que a quantidade de palavras é a mesma, muito embora estejam
abreviadas. Neste momento, o que nos preocupa é que essa nova modalidade de
linguagem seja transferida para os meios formais de escrita, uma vez que, o hábito
pode levar a uma rotina (de repente as pessoas esquecem que não estão no Facebook
ou Messenger, Whatsapp ou Instagram e escrevam um texto oficial, trocando as
palavras pelas abreviações), ou que a escrita formal seja de fato banalizada.

Vale destacar que, as pessoas que não são habituadas com esse tipo de
linguagem internetês, acabam sendo vítima de intolerância, porque escreve de
maneira correta como lhe foi ensinado. De maneira geral, o uso da linguagem pelos
internautas não pode comprometer a função social da escrita, que é de inseri-los
como um sujeito participativo em contextos sociais de leitura e escrita. E todos
devem precisamente repensar o uso do “internetês”, pois a sua utilização como
rotina pode causar prejuízos linguísticos e sociais.

Os domínios da linguagem e os contextos sociais de


letramento

Como já vimos a escrita não é a transcrição real da fala, apenas alguns


elementos representam a oralidade, portanto, a escrita por natureza é uma
representação simbólica que se codifica através dos sons da fala. Essa relação de
representação denomina-se de princípio alfabético, pois congrega as percepções

56 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


dos sons da oralidade na escrita, por isso que é comum quando uma criança começa
a escrever, ela confunde-se com a grafia das palavras por pensar que existe uma
exata relação entre a fala e a escrita.

Para Ferreiro (2010), uma prática que privilegia a escrita e coloca a criança
frente ao seu pensamento, é a escrita espontânea, no entanto, argumenta-se que
poucos professores revelam-se aptos a trabalhar essas atividades, por considerar que
as tentativas de escrever das crianças não passam de meras garatujas (rabiscos). A
autora argumenta que, ao escrever espontaneamente as crianças acionam esquemas
conceituais que não poderão ser vistos apenas como simples reprodução da escrita,
mas como esquemas de um processo construtivo, em que elas consideram no
pensamento às informações do meio, e suas próprias reflexões.

Outro dado interessante sobre o princípio alfabético é que a escrita não


pode dar conta de uma variedade linguística (dialetos), porque se não a escrita
teria inúmeras formas e se tornaria impraticável. “O que temos de perceber é a
funcionalidade da convenção ortográfica e que nós falamos de um jeito e escrevemos
de outro, mesmo que permaneça valendo o princípio alfabético” (BRITTO, 2005,
p.64-65). O autor ainda reforça que, a diferença existente entre a fala e a escrita está
num plano formal, que é na representação e na simples codificação.

Sobre alguns aspectos da escrita, Britto (2005) nos apresenta os listados


abaixo:

A escrita:
● É bidimensional [...] permite representações com dupla entrada, o que
significa formas adicionais de organização do pensamento;
● Pressupõe o afastamento espaço-temporal dos interlocutores, o que
implica reorganização da forma do discurso;
● Constitui-se como sistema discursivo, funcionando como um
complemento da oralidade [...];
● Tem função documental e legislativa, de registro e veiculação de valores
culturais e saberes científicos e de organização dos espaços públicos;
● Supõe um elemento intermediador – os suportes de texto, cuja
materialidade não pode ser desconsiderada, [...] não existe compreensão
do texto, qualquer que ele seja, que não dependa das formas através
das quais ele atinge o leitor (BRITTO, 2005, p.69).

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 57


No que tange os domínios de uso da linguagem, ou seja, as instâncias
onde se configuram as interações sociais, o autor se refere aos espaços em que se
propaga o trabalho de leitura e escrita. Esses espaços se dividem em dois: o público
e o privado. O primeiro relaciona-se a coletividade, atendendo aos objetivos
mediatistas de compreender o mundo, cujas interações acontecem a distância no
tempo e no espaço com interlocutores desconhecidos, que faz referência a um
sistema de valores com categorias abstratas ou mais sistemáticas, privilegiando a
modalidade escrita.

O segundo está no âmbito individual, atendendo aos objetivos imediatos


para satisfazer as necessidades básicas, cujas interações acontecem frente a frente,
implicando a presença de interlocutores conhecidos, que faz referência a um sistema
de valores com vínculos às experiências cotidianas, privilegiando a oralidade. Para
melhor compreender, temos como exemplo a ação da leitura de um texto em missas,
colação de grau, reuniões políticas ou audiências, noticiários de TV, textos de peças
teatrais. No plano individual, temos a intervenção do sujeito em seminários, aulas e
conferências.

Um sujeito capaz de ler e escrever, fazer uso oral em intervenções em


situações públicas, usar entre outras habilidades – participar da vida social, exercendo
sua cidadania, é uma configuração clara das práticas sociais de leitura e escrita, ou
seja, letramento. Neste sentido, a escola torna-se um espaço privilegiado para que a
formação de sujeitos letrados seja de fato universal. No entanto, há de concordamos
com Ferreiro (2010) que a aprendizagem e o desenvolvimento da leitura e da escrita
se iniciam antes mesmo da escolarização (do ingresso dos alunos a escola).

Nessa perspectiva, Britto (2005) nos apresenta a leitura de duas formas – a


leitura como valor e a leitura como comércio. A leitura como valor se constitui
como uma possível forma contínua de produção e circulação do conhecimento, por
um sujeito (ou coletivo) que pensam como são e como estão vivendo no mundo,
de viver e fazer-se humano. Quanto à leitura como comércio, ela se constitui na
produção, comércio e circulação de impressos (especialmente livros) e sua relação
com uso de leitura. O autor aponta para o fato de que mesmo que a leitura tenha
um valor, o comércio que gira em torno dela pouco tem haver com seu valor social.
No entanto, o agravante é que, vende-se o que se publica não pelo seu valor, mas
pelo que se tem de vender.

58 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Para você refletir:
Mas como promover leitura se no Brasil poucos de nós somos leitores?

Primeiro temos que admitir que por conta do pouco hábito de leitura, é
tardia a dimensão estética e ética da arte, e por consequente a literatura. Promover
leitura (ensinar leitura) significa uma ação política, onde o que se ensina e o que
promove não é leitura em si, mas valores, que são essenciais para constituição da
humanidade.

Numa visão holística das práticas sociais de leitura e escrita, especialmente


nesse mundo globalizado, a promoção de leitura (tornar um sujeito um leitor
habitual) por vezes nada na contramão dos impressos. A política de formação de
leitor em projetos sociais ou até mesmo na escola, não tem produzido efeitos como
esperados. Como se forma a identidade de um leitor? Bem, ser leitor para Britto
(2005), é mais que o simples ato de conhecer o código escrito e dominar os usos
sociais de base escrita. Ser leitor, é um modo de ser.

E esse modo de ser, o sujeito envolvido em leitura, faz reflexões sobre


seus próprios pensamentos e processos de aprendizagem – isso é metacognição
(motivação de si mesmo, regular seus processos psicológicos) dirigir seus objetivos
de modo consciente. Cabe ressaltar, o que o autor diz: “boa parte das atividades
metacognitivas são feitas com apoio da escrita e neste sentido, implicam o letramento
do indivíduo e, portanto, a posse de habilidades de leitura e escrita. A palavra-chave
nesse contexto é autonomia intelectual” (BRITTO, 2005, p.100).

A autonomia intelectual de que fala o autor diz respeito a uma organização


de leitura, delineado sobre alguns passos – planejamento, monitoração, revisão e
correção. Assim, o sucesso de uma leitura depende de alguns passos (organização
de leitura): sublinhar/marcar o texto; fazer comentário marginal; fazer recortes
e selecionar fragmentos; arquivar o texto, identificar palavras chaves; nomear
parágrafos com título síntese, reescrever tópicos, ou fragmentos do texto; elaborar
questões sobre o texto; reorganizar o texto em perguntas; elaborar destaques,
enumerar argumentos que chamaram à atenção; utilizar setas para indicar trechos
importantes, marcar com o ponto de interrogação parágrafos polêmicos, indicar
retomados nos textos e fazer referências. Enfim, seja estudar ou ler, requer do leitor
atitude coerente com as práticas de letramento que o conduza ao exercício da

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 59


cidadania.

Práticas Pedagógicas de Alfabetização e Letramento

Sabemos que o processo de ensino e aprendizagem requer alguns elementos


para que de fato ele se consolide, ou que pelo menos aconteça. Basicamente esses
elementos são três: o professor, o aluno e o objeto do conhecimento. O primeiro
atua como mediador, facilitando ou promovendo momentos de aprendizagem
sejam eles individuais ou integrados; o segundo atua em seu próprio espaço e
tempo do conhecimento, realizando a metacognição, buscando além de fatores
externos (mediação docente e integração com seus colegas), alguns internos, como
a reflexão sobre sua consciência cognitiva. O terceiro elemento atua como principio
modificador das estruturas mentais dos estudantes, deixando-se ser assimilado e
acomodado aos conceitos já existentes.

Esses dados nos permite pensar sobre o conceito e ao mesmo tempo sobre
as práticas que envolvem a alfabetização e o letramento na escola (especialmente)
ou em qualquer outro lugar. Considerando que alfabetizado é todo aquele que
consegue codificar e decodificar os signos linguísticos da nossa linguagem materna,
e que a partir desse domínio o sujeito permite-se evoluir (usar as habilidades de
ler e escrever) para práticas sociais de uso em contextos reais de leitura e escrita,
seja, lendo um texto em público, fazendo um discurso oral, redigindo uma carta,
participando de seminários, estudos ou palestras, etc.; este mesmo sujeito se
enquadra no que os teóricos denominam “letrado”.

Podemos indicar que o letramento nada mais é do que um processo


evolutivo da alfabetização, que atesta o sujeito (aprendeu a ler e escrever de modo
alfabético) como um cidadão do mundo, porque o conhecimento linguístico não
lhe faz melhor do que os outros, mas o diferencia de alguns poucos, porque sabe
participar ativamente dos processos sociais dos quais lhe dignifica como cidadão
(sabe reivindicar seus direitos e se compromete com seus deveres).

O uso da palavra como técnica de intercâmbio entre os homens é,


indubitavelmente, a mais fantástica invenção da humanidade (COLELLO, 2004,
p.11). Nesse sentido, a linguagem ainda é uma das formas mais concretas de
informação e comunicação. Cavazotti (2004) afirma que o processo de alfabetização
implica a compreensão de determinados pressupostos em relação ao ensino da
língua que orientam quatro práticas pedagógicas da alfabetização que são: leitura

60 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


e interpretação, produção de textos orais e escritos, análise linguística e
sistematização do código.

No que tange a leitura e interpretação, a autora recomenda o trabalho


com vários tipos e gêneros textuais, desde os narrativos, informativos, descritivos,
argumentativos, literários, contos, os lúdicos entre outros. O professor deve promover
situações de leitura em que o estudante conheça a função social e elementos
constitutivos de cada texto. Quanto à quantidade de prática de leitura e qualidade
dos textos, isso é essencial para o ensino da língua escrita. Além disso, o professor
em suas práticas de leitura deve distinguir atividades que buscam com objetivo
apenas a fruição (o prazer de ler), com leitura que tem a finalidade de intervenção
pedagógica.

Ler por fruição requer um preparo do ambiente, inúmeras e variadas


opções de impressos, tipos e suportes textuais, bem como um clima aprazível e
principalmente estudantes motivados pela curiosidade da leitura, sem que sejam
interrompidos nesse momento de deleite, com perguntas de interpretação ou
cobranças de escrita (fazer um resumo ou uma redação do texto que foi lido). No
segundo caso, a leitura com intervenção pedagógica, consiste numa estratégia
vinculada a objetivos do ensino e da aprendizagem, onde o texto antecipadamente
escolhido determina o conteúdo o qual o professor deseja estruturar um conteúdo.

Quando as crianças passam a frequentar a pré-escola ou o 1º ano do


ensino fundamental, as leituras devem ser realizadas pelo professor, para que os
pequeninos se sintam motivados e encantados com as histórias e continuamente
possam sentir prazer em ler.

Com relação a prática de interpretação textual é preciso que se quebre


paradigmas. Não é produtivo no nível de aprendizagem que esta atividade seja feita
apenas de modo a localizar informações explicitas. É preciso que o exercício seja
inferência, de localização de informações nas entrelinhas, bem como reconhecer a
intenção e posição dos autores.

Quanto à prática de produção de textos, Cavazotti (2004) indica uma


série de modelos, que vai desde a escrita de textos simples até os dissertativos.
Pode escrever individual ou coletivamente. Quando os estudantes pequenos não
conseguirem escrever, o professor pode servir de escriba. No entanto, estudiosos

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 61


como Emília Ferreiro (2010) aponta que a escrita espontânea é um ótimo exercício
para a criança pensar sobre a escrita e assim tornar-se autônoma nessa atividade.

A análise linguística como a terceira prática de alfabetização, constitui-


se como uma atividade simultânea a atividade de leitura e interpretação, uma vez
que sua finalidade é a compreensão dos mecanismos que compõe o sentido do
texto (concordância, regência, organização, ambiguidade, entre outros). Reescrever
o texto é uma estratégia para o desenvolvimento da análise linguística. Por fim, o
autor nos apresenta a quarta e ultima prática a – Sistematização para o domínio
do código – que nada mais é do que atividades próprias que auxiliem os estudantes
a compreender melhor as relações entre grafemas e fonemas, através de uma série
de exercícios a partir de uma palavra já trabalhada (comparar grafia e som com
outras palavras, decompor e combinar vocábulos etc.).

Enfim, as quatro práticas de alfabetização contribuem de modo substancial


para o desenvolvimento da leitura e da escrita, permitindo ao estudante a consciência
de sua alfabetização para um continuo processo de letramento.

Ler para aprender a escrever

Para Colello (2004, p.52) “[...] tanto a leitura como a escrita são portadoras
de expressão e de ideias, e não exercícios de pura decodificação”. Concordamos
quando o autor aponta nas entrelinhas que alfabetizado não é aquele que sabe ler e
escrever, mas aquele que faz uso dessas habilidades para esta ser gente no mundo.

Quando Ferreiro (2010) diz que a escola não é um espaço privilegiado do


ensino e aprendizagem da leitura e da escrita, e que muito antes de chegar a escola,
as crianças já tem percorrido muitos caminhos num processo gradual e sistemático
de letramento, ela quer dizer que a leitura é cultural e não escolar. A leitura é um
produto do mundo, mas é na escola que ela é sistematizada porque possibilita a
interação entre as leituras e com os contextos desta prática. Como diz Cavazotti
(2004), quando o sujeito sistematiza a leitura na escola, ele se encontra com uma
variedade de textos, em situações significativas e diferenciadas, cujas interações e
reflexões sobre a língua escrita se dão não somente pela decodificação, mas pelos
significados marcados pelo processo de produção textual e da leitura.

Quanto à prática pedagógica da leitura e da interpretação a autora

62 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


complementa: “Ler é uma prática de natureza social, ou seja, é um processo de
interação verbal entre pessoas que estão determinadas pelas relações sociais de seu
tempo: seu lugar na estrutura social, suas relações com o mundo e com os outros”
(ibidem).

Falando em prática abriremos um parêntese para a importância do professor


nesse processo. Ele deve primeiro ser um leitor para motivar os estudantes o hábito
pela leitura, e dizer que seu papel é muito importante no estudo, na fruição e nos
conteúdos oferecidos pela leitura, a escolha de bons livros, de bons suportes, e o
olhar critico para com a formação de leitores na sala de aula é indispensável para
um contexto de letramento exitoso.

Vale lembrar que na escola os estudantes devem ter acesso a todos os tipos
de impressos, gêneros, e suportes textuais, para que seu repertório seja imenso ao
ponto de conhecer a função e as características de cada um dos textos. No processo
de alfabetização e letramento, segundo Cavazotti (2004), é fundamental a utilização
de livros segundo a tradição cultural, específicos do mundo infantil, como cantigas
de rosa, parlendas, trava-línguas, poesias, lendas, fábulas, contos, textos literários
etc.

Uma vez falando em leitura, queremos concluir apresentando algumas


condições básicas como formar leitores na escola, delineados pelos MEC (Ministério
da Educação), nos Parâmetros Curriculares Nacionais – Língua Portuguesa de 1997,
quando especialista da época colocam que formar leitores não basta ter livros,
requer muitas outras condições favoráveis, principalmente propostas didáticas
próprias para este objetivo.

Para formarmos bons leitores a escola necessita de disponibilizar uma boa


biblioteca com uma variedade de livros, organizar momentos de leitura tanto para
professores como para estudantes, uma vez, o professor exercendo o ato da leitura
despertará no estudante o desejo de realizar a leitura. A escola pode também planejar
as leituras e os estudantes podem ter a liberdade de escolha de seu tema, sem
interrupções por parte dos professores fazendo indagações como, por exemplo, se
estão entendendo. (BRASIL, 1997). Não se faz um país só com homens e livros, como
disse um dia Monteiro Lobato, mas com livros, espaços apropriados, motivação,
beleza e principalmente com vontade de ler por prazer.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 63


Que escrita cabe à escola ensinar?

Escrever é uma forma de libertar a alma e nos levar para um novo plano
do qual somos donos e criadores livres! Esse plano interliga muitos outros
planos, dos quais dividimos informações com outros escritores e aumenta
nossa capacidade de criação a um nível extraordinário.
(Trecho da Crônica – O que é escrever? Carlos Eduardo M. Magalhaes,
2014).

Redigir não é uma tarefa fácil para iniciante. E para quem já escreve há algum
tempo é uma tarefa prazerosa. Para uns é um tédio, para outros uma obrigação. Na
verdade, o ato de escrever é tão antigo quanto os primeiros homens das cavernas
na pré-história, aliás, a escrita surge após este período, por isso, a partir da invenção
da escrita é que de fato é História.

Quando uma pessoa escreve ela faz uma ação transitiva ou intransitiva, ou
seja, escreve alguma coisa para alguém e até para ela mesma. Escrever é um ato
que expressa sentimentos e emoções, argumentos, críticas, narra acontecimentos,
faz descrições, cria e imita sons, imagens, fábulas e até contos de fadas; como
Magalhaes (2014) afirma: escrever é uma forma de libertar a alma e levar para um
novo plano.

No período que estão sendo alfabetizadas as crianças já tem domínio de sua


oralidade, principalmente no que diz respeito a forma de expressar-se verbalmente
através de palavras e sons. Até que elas se tornem boas oradoras e até mesmo
pensem sobre a escrita para escrever, isso demora um pouco mais. Mesmo assim,
elas conseguem produzir bons textos orais e até arriscam-se em rabisco em suas
escritas espontâneas (que são valiosos para o processo de aprendizagem da escrita
e da leitura).

É bem verdade que de acordo com as situações comunicativas as crianças


vão se ajustando ao modo como se fala. Ora de maneira formal, ora informal. E esse
aprendizado ainda que seja sistematizado na escola, está presente em casa, na rua,
no clube, na praça, etc. Dessa forma, é de suma importância que o professor planeje
atividades bem como exercícios de produção de textos orais, para ajudar a criança: a
melhorar articular as palavras (os fonemas), a eliminar erros recorrentes próprios de
vícios linguísticos, o emprego de uma boa entonação e ritmo do discurso oral, o uso

64 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


do domínio vocabular, a clareza nas ideias em exposição oral, e por fim, falar com
concordância verbal e nominal apropriada, conjugando de forma correta os verbos
em discursos diretos e indiretos.

Com relação à produção textual escrita, temos dito inicialmente que a escola
tradicional deixou algumas marcas de que a escrita nada mais era do que a simples
transcrição da fala, onde a escola empenhava-se em ensinar o modelo sintético ou
alfabético: das letras as sílabas, e algumas palavras e, no máximo o que as crianças
produziam era textos nos moldes das cartilhas, sem nexo e contexto.

Dessa forma, [...] a evolução na aprendizagem da escrita não é linear nem


tampouco controlável pelos diferentes tipos de alfabetização [...] trata-se, conforme
demonstrou Emília Ferreiro (1986a), de um processo de elaboração pessoal
psicogeneticamente ordenado. (COLELLO, 2004, p.32). Por isso, o desenvolvimento
nesse ramo das habilidades de letramento, está muito mais relacionado à vontade
do sujeito em aprimorar-se, do que com os tipos, quantidade e/ou qualidade de
produtos oferecidos.

Atualmente as escolas tem se empenhado em promover momentos de


produção textual bem diferente daquele período, onde a escrita espontânea é
valorizada. Essa escrita é didaticamente denominada de “escrevendo do seu jeito”,
um espaço que a escrita ganhou na escola e, passou a ser valorizada, onde as
crianças escrevem como pensam e sobre suas próprias reflexões. Pois, esse exercício
se sustenta no conceito de que a escrita se configura como representação da fala, e
nesse sentido pressupõe-se uma dupla consciência.

Nessa dupla consciência, primeiro é preciso esclarecer que, inicialmente, o


sujeito deve compreender a relação entre a oralidade e a escrita, e, segundo entender
a diferença entre os sistemas de linguagem (oral e escrita), pois descartamos a ideia
de que a escrita não é a transcrição fiel da fala.

Tendo essas concepções já assimiladas, o sujeito em processo de


alfabetização evolui para um nível de escrita praticamente alfabética, podendo
redigir textos coerentes e com poucos erros ortográficos, mesmo que estes tendem
a ser considerados normais na lógica pedagógica.

Mas o que nos interessa aqui são as práticas de produção textual escrita. A

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 65


primeira delas é a promoção na sala de aula de debates, discussões e exposições
acerca do assunto a que foi solicitada a escrita, tendo como objetivo assegurar ao
escritor coerência na organização das ideias, ou seja, saber previamente sobre o que
irá escrever.

A segunda estratégia é propor ao grupo uma exposição dos elementos e


características do texto a ser redigido, para que o escritor tenha conhecimento das
regras que irão orientá-lo na condução da escrita. Por exemplo, o tipo de texto e o
tipo de linguagem (se formal ou informal). De posse dessas informações o escritor
irá conduzir sua escrita com mais segurança, no entanto, se persistirem alguns erros,
seja de qualquer ordem, a atividade de reescrita do texto foi criada para isso, dando
possibilidade do escritor revisar o texto e adequá-lo as orientações ou até mesmo
aos objetivos propostos inicialmente.

Mas, falando em erro no processo pedagógico, se fosse há algum tempo


atrás, uma criança seria ridicularizada pela professora e pela sala inteira. Seria até
hostilizada e consequentemente estereotipada por algum tempo. Atualmente, o
erro não é só um erro, é uma possibilidade de rever conceitos, avaliar aspectos e/ou
elementos que contribuíram direta ou indiretamente para o erro acontecer. Dessa
forma, deve-se considerar que [...] do ponto de vista da invenção, um erro corrigido
pode ser mais fecundo que um êxito imediato, porque a comparação da hipótese
falsa e suas consequências proporcionam novos conhecimentos e a comparação
entre erros dá lugar a novas ideias (PIAGET, 1987, p.60-61 apud COLELLO, 2004,
p.35).

Outro ponto que deve ser ressaltado – é que o erro somente é considerado
um erro, se o professor não cuidar para que ele venha ser um erro, pois o papel
docente no processo de alfabetização é de extrema importância. Ao professor
alfabetizador, cabe o papel de:

● Oportunizar o “ciclo do conhecimento” pela testagem das hipóteses


ou concepções infantis, promovendo sempre a abertura de novos ciclos
possíveis de conhecimento e o fechamento dos necessários;
● Equilibrar o nível de dificuldade das atividades propostas a partir do
que o aluno já conquistou: experiências ricas, diferenciadas, conflitivas e
desestabilizadoras;
● Aproveitar o erro cometido pala criança como oportunidade
pedagógica para a evolução do conhecimento;
● Garantir, ao longo desse processo, condições para a descoberta e para

66 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


a escrita vinculação entre o fazer e o compreender. (COLELLO, 2004, p.50).

Em suma, o papel do alfabetizador é criar oportunidades de aprendizagem,


ser o mediador para que as dificuldades sejam superadas e a criança vença mais
uma etapa e sua busca pelo conhecimento seja infinito, especialmente se o vínculo
entre o fazer e o compreender representa de fato o êxito do caminho percorrido.
Portanto, a escrita será para nós uma forma particular de expressão e comunicação,
que segue gerações, pois seus registros aos longos dos anos tornam-se documentos
históricos e, cada um deles carrega uma simbologia cultural.

Gêneros literais: lendo o mundo de forma diferente

Na concepção de que a leitura é um produto cultural, mas também um


processo construído na escola, a formação de leitores competentes na perspectiva
de ler e compreender o que leu, é facilitar o seu olhar no mundo do letramento.
É buscar dar suporte para aquilo que não está explícito. Que possa estabelecer
relações do que já leu, perceber os sentidos das leituras, seus objetivos e finalidade,
bem como, os elementos que compõe cada texto.

Um trabalho que se realize nessa linha de prática pedagógica leitora, deve


ser feito através do uso de uma variedade de gêneros textuais, entendidos como
produção escrita, que tem uma estrutura, uma organização, características e até,
intenção comunicativa.
Mas reflita o que é leitura? Como se processa? Quais seus fundamentos?
Quem é o leitor?

Leitura é um processo em que o leitor constrói o significado do texto, a partir


dos seus objetivos, assunto, caraterísticas do gênero etc. Ler não é tão somente
extrair informação da escrita e decodificá-la. Leitura implica a compreensão de
sentidos antes mesmo da própria leitura.

O autor ainda coloca quando um leitor é experiente e consegue analisar


sua própria leitura, ele verifica que a decodificação é apenas um dos meios que ele
se utiliza para ler. Além desses procedimentos o leitor pode selecionar, antecipar,
fazer inferência entre outros, que o possibilite rapidez e proficiência na leitura. O

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 67


trabalho que se realiza atualmente na alfabetização é muito rico e desafiador, pois
as crianças estão tendo maiores chances de conhecer inúmeros gêneros textuais,
compreendendo seus significados e características, se apropriando de tal modo, até
que produza textos semelhantes, porque todo texto tem uma história, uma intenção
comunicativa (objetivo).

As intenções comunicativas, como parte das condições de produção dos


discursos, geram usos sociais que determinam os gêneros que darão forma
aos textos. É por isso que, quando um texto começa com “era uma vez”,
ninguém duvida de que está diante de um conto, porque todos conhecem
tal gênero. Diante da expressão “senhoras e senhores”, a expectativa é
ouvir um pronunciamento público ou uma apresentação de espetáculo,
pois se sabe que nesses gêneros o texto, inequivocamente, tem essa
fórmula inicial. (BRASIL, 1997, p.23).

Portanto, os gêneros textuais são peças importantes na construção do


processo de alfabetização e letramento das crianças, tornando imprescindível
o trabalho do professor com eles e suas diversidades: de tempos, espaços, de
personagens, de fantasias e realidades.

68 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 69
LEITURA OBRIGATÓRIA
Este ícone apresenta uma obra indicada pelos(as)
professores(as) autores(as) que será indispensável
para a formação profissional do estudante.
L
e
Sugerimos que você leia a obra de Magda Soares, cujo
tema é “Letramento: um tema em três gêneros”. Neste livro
a autora trata da relação entre letramento e alfabetização, das
habilidades e práticas sociais de leitura e escrita, bem como
da análise discursiva das práticas de produção de texto e de
leitura, e busca compreender as relações autor - texto - leitor,
e suas consequências na produção de diferentes práticas
discursivas e diferentes gêneros discursivos.

SOARES, Magna. Letramento: um tema em três gêneros. São Paulo: Autêntica,


2007 (Coleção Linguagem e Educação).

GUIA DE ESTUDO

Após a leitura da obra, sugerimos que faça um texto comparando


letramento e alfabetização e disponibilize na sala virtual.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 71


Rs
REVISANDO
É uma síntese dos temas abordados com a
intenção de possibilitar uma oportunidade
para rever os pontos fundamentais da
disciplina e avaliar a aprendizagem.
Vimos em nossa primeira unidade que as cartilhas surgiram muito antes das
salas de alfabetização nas escolas e serviam de apoio para quem queria aprender a
ler e escrever em casa. Somente após a Revolução Francesa, com o surgimento das
escolas, as cartilhas foram se transformando.

Historicamente os métodos de alfabetização são o método sintético/fonético


a criança aprenderá a fazer uma correspondência entre o som e a grafia, a partir das
partes para o todo: letra por letra, sílaba por sílaba e palavra por palavras, até chegar
às frases e por fim ao texto. O método analítico ou global, a criança aprenderá a
ler de maneira global ou audiovisual (vendo o todo em direção as partes). Já o uso
das cartilhas como ferramenta de alfabetização inclui-se no método sintético ou
fonético. No entanto, seu método é particular, foi e é considerado um dos mais
antigos sistemas de alfabetização, denominado de “método alfabético” ou “método
de soletração”, onde as crianças decoravam as letras do alfabeto, suas combinações
silábicas, e por fim as palavras, sentenças curtas (frases) e depois textos (historinhas).

A aquisição da linguagem seja oral ou escrita através do conhecimento e


reconhecimento do código escrito, o alfabeto, é chamado de alfabetização, que
ultrapassa a técnica mecânica da língua escrita e a compreensão/expressão de
significados. A alfabetização tem muito mais haver com um processo de pensar
sobre a linguagem. Ao aprender as habilidades de leitura e escrita um sujeito está
num estado ou condição de alfabetizado, e partir desse momento quando o uso da
escrita ele não transcreve o som da fala, mas representam a fonética em grafia.

Em idade escolar, as crianças pensando sobre a escrita, vão evoluindo em


níveis da escrita. Ferreiro e Teberosky (1985) definiram cinco níveis sucessivos e
hipotéticos da escrita: grafismo; pré-silábico; silábico; silábico-alfabético; alfabético.
O processo de alfabetização é complexo e multifacetado, por isso, quando uma
criança se encontra alfabetizada, ela não faz uso apenas de letras, sons e escritas,
mas de muitos aspectos que compõem um conjunto de habilidades em linguagem.

A escola precisa para além da leitura e da escrita, atuar como um agente de


transformação, pois a alfabetização não é uma aprendizagem neutra, também é um
ato ideológico, político e social. A alfabetização é sinônimo de leitura e escrita, mas
também de conscientização social, é um estado ou condição que está no mundo,
não somente inserido num status de leitor ou escritor, mas de ser gente, agente
transformador social.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 73


Quanto à questão: é obrigatório as crianças da pré-escola aprender a ler
e escrever antes do ensino fundamental? Depende do olhar do adulto, mas a sala
da pré-escola deveria permitir a liberdade de experimentar os sinais escritos aos
estudantes. E no lugar de estarmos preocupados com a questão se pode ou não
crianças de cinco anos aprender a ler e a escrever na pré-escola, deveríamos como
disse a autora, dar a elas condições necessárias para aprender.

Vimos que o termo Letramento (o verbete apareceu pela primeira vez no


Dicionário Houaiss no Brasil em 2001) surgiu no Brasil na década de 80, usado pela
primeira vez por Mary Kato no seu livro No mundo da escrita – uma perspectiva
psicolinguística, como uma versão portuguesa da palavra literacy da língua inglesa
(traduzida para o português como alfabetização). Letramento é um conjunto de
práticas sociais que usam a escrita, enquanto sistema simbólico, enquanto tecnologia.
Enquanto Angela Kleiman e Magda Soares apontam uma complementaridade entre
Alfabetização e Letramento, Leda V. Tfouni distingue alfabetização e letramento,
dizendo que o primeiro se refere a um processo individual de aquisição de leitura
e escrita (está alfabetizado), enquanto o segundo refere-se ao âmbito social. Em
suma, letramento são todas as práticas sociais que se utilizam de maneira consciente
a leitura e a escrita em contextos sociais.

Há uma nova tendência das práticas pedagógicas, usando a junção dos termos
em questão, como sugere Colello (2004) como Modelo Ideológico de Alfabetização,
que chamou essa tendência de Alfabetizar Letrando, que consiste numa articulação
dinâmica e reversível entre “descobrir a escrita” (conhecimento de suas funções e
formas de manifestação), “aprender a escrita” (compreensão das regras e modos de
funcionamento) e “usar a escrita” (cultivo de suas práticas a partir de um referencial
significativo para o sujeito).

O alfabetismo não é tão comum entre nós, mas ele é o oposto (positivo)
do analfabetismo (negativo), que quer dizer estado ou condição de alfabetizado, é
aquele que aprende a ler e a escrever. O uso da palavra é bem recente, porque as
mudanças que ocorreram continuamente, e a realidade linguística, não é o suficiente
saber apenas ler e escrever. É nesse sentido que o termo alfabetismo se aproxima do
termo letramento, ou até mesmo se assemelha, pois o sentido dos dois consiste na
essência do uso social da leitura e da escrita.

74 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Na segunda unidade, vimos que as práticas pedagógicas de leitura e escrita
acontecem em esferas da vida social, como: esfera doméstica, da vida pessoal, da
informação, profissional, entre outras. Todas elas de algum modo são contextos de
práticas de leitura e escrita, atos que vão desde a redação de textos como a leitura
deles.

Discutimos o quanto a geração “Y” (os internautas) está fazendo o uso da


língua escrita de forma abreviada nas redes sociais, desconsiderando as normas
cultas (a ortografia) em detrimento do mundo rápido e não há tempo a perder
escrevendo de forma correta. De maneira geral, o uso da linguagem pelos internautas
não pode comprometer a função social da escrita, que é, inseri-los como um sujeito
participativo em contextos sociais de leitura e escrita.

Quanto aos domínios da linguagem e os contextos sociais de letramento, há


duas instâncias – o público e o privado, primeiro as interações e as práticas de leitura
e escrita acontece no âmbito coletivo, já o segundo, acontece no plano individual.
Observamos ainda a leitura como valor (produção e circulação do conhecimento,
por um sujeito ou coletivo, que pensam como são e como estão vivendo no mundo,
de viver e fazer-se humano) e a leitura como comércio (ela se constitui na produção,
comércio e circulação de livros e sua relação com uso de leitura).

Assinalamos o caminho que se deve seguir para a organização de uma leitura:


planejamento, monitoração, revisão e correção. E ainda falamos das quatro práticas
pedagógicas da alfabetização que são: leitura e interpretação; produção de
textos orais e escritos, análise linguística; sistematização do código. Na primeira
recomenda-se o trabalho com vários tipos e gêneros textuais e que a interpretação
não fica só nas questões explícitas, que se trabalhe com as duas formas de leitura –
a fruição (por prazer) e com intervenção pedagógica (cobrança literal). Na segunda,
indica-se que a produção de textos siga uma série de modelos, que vai desde a
escrita de textos simples até os dissertativos; Na terceira, consiste em reescrever o
texto como uma estratégia para o desenvolvimento da análise linguística. Na quarta,
compreender melhor as relações entre grafemas e fonemas.

Enaltecemos a atitude de escolas da atualidade que dão valor a prática de


produção textual, longe do vínculo com as velhas e rotineiras redações. E reforçamos
a relevância do trabalho com as diversas tipologias e gêneros textuais, para facilitar
a comunicação dos estudantes, onde os gêneros textuais são peças importantes na
construção do processo de alfabetização e letramento das crianças.

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 75


AUTOAVALIAÇÃO
Momento de parar e fazer uma análise sobre o que o
estudante aprendeu durante a disciplina. Av
1. Ler o link abaixo para a discussão das questões e as responda na sequência:
Letramento e ensino de gêneros < www.ufjf.br/revistaedufoco/files/2012/08/
Texto-011.pdf>

a) Qual o significado usado na frase: “[...] na linguagem, pela linguagem e com a


linguagem que o homem produz mundos e nele se produz [...]”?
b) Você vê alguma relação entre o letramento e o exercício da cidadania? Qual é
a sua percepção?
c) Diante do que Kato (1986), Tfouni (1988) Kleiman (1995) Soares (1998-2002)
afirmam sobre letramento – que conceito você formularia?
d) Lendo o tópico 3 – você distinguiria Letramento de Alfabetização, ou eles são
complementares? Justifique.
e) Em que consiste o processo de alfabetização?

2. “De modo geral, o analfabeto é considerado aquele que não domina o código
da escrita. Entretanto, os termos analfabetismo e analfabeto, muitas vezes,
costumam ir além do acesso ou não do código escrito da língua, denotando
ignorância [...]” (SILVA, 2011, p.27). Quais são os estereótipos pejorativos
atribuídos aos analfabetos?

3. “[...] Quando nossas escolas brasileiras promovem o letramento, elas estão, na


verdade, promovendo a inclusão social e dando ao aluno condição para o pleno
exercício da sua cidadania [...]” (SILVA, 2011, p.28). De que forma podemos
promover letramento para se configurar como participação na vida em sociedade?

4. Observe o quadro do analfabetismo no Brasil de 1920 a 2000 (contando com a


população a partir de 15 anos de idade) e responda estas questões: Que motivos
levam uma pessoa a vir a ter a condição de analfabeta? O que você apontaria
para eliminar o analfabetismo?

Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 77


5. “Na Grécia Antiga, se observarmos o campo da Literatura, o termo gênero
literário foi usado para fazer distinção entre três categorias de enunciado, a
saber, o épico, o dramático e o lírico. No século XX, o termo gênero tornou-
se um conceito teórico de grande valia no campo da Linguística Textual, que
faz referência a gêneros textuais” (SILVA, 2011, p.35). Que gêneros textuais
você conhece e qual a importância do trabalho com eles para o processo de
alfabetização e letramento?

78 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 79
BIBLIOGRAFIA
Indicação de livros e sites que foram utilizados para a
construção do material didático da disciplina. Bb
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COLELLO, S.M.G. Alfabetização em questão. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2004.

FERREIRO, Emília. Reflexões sobre Alfabetização. 25 ed. São Paulo: Cortez, 2010
(Coleção questões da nossa época; v.6).

FERREIRO, Emília & TEBEROSKY, Ana. Psicogênese da língua escrita; trad.: Diana
Myriam Lichtenstein, Liana Di Marco e Mário Corso. Porto Alegre: Artes Médicas,
1985.

FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. Tradução de Moacir Gadotti e Lilian Lopes


Martin. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979 (Coleção Educação e Comunicação; vol.1).

SIMONETTI, Amália; et al. O desafio de alfabetizar e letrar. 2 ed. Fortaleza: IMEPH,


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SOARES, Magda. Alfabetização e letramento. 6 ed. 1ª impressão. São Paulo:


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82 Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização


Fundamentos Metodológicos e Práticas de Alfabetização 83

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