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Tribunal Superior Eleitoral

PJe - Processo Judicial Eletrônico

20/12/2020

Número: 0600594-40.2020.6.19.0029
Classe: RECURSO ESPECIAL ELEITORAL
Órgão julgador colegiado: Colegiado do Tribunal Superior Eleitoral
Órgão julgador: Ministro Sergio Silveira Banhos
Última distribuição : 15/12/2020
Assuntos: Inelegibilidade, Impugnação ao Registro de Candidatura, Cargo - Prefeito, Eleições -
Eleição Majoritária
Objeto do processo: RRC de RUBENS JOSÉ FRANÇA BOMTEMPO ao cargo de prefeito impugnado
pelo MPE e com Notícias de Inelegibilidades apresentadas por André de Carvalho Reis e por Paulo
Pires de Oliveira.

- Improbidade Administrativa.

DRAP: COLIGAÇÃO UNIDOS POR PETRÓPOLIS - TRABALHO, EXPERIÊNCIA, E ESPERANÇA

Processo referência: RRC 59440


Segredo de justiça? NÃO
Justiça gratuita? NÃO
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
MINISTÉRIO PÚBLICO ELEITORAL (RECORRENTE)
RUBENS JOSE FRANCA BOMTEMPO (RECORRENTE) JOSE RUI CARNEIRO (ADVOGADO)
THIAGO MESQUITA GIBRAIL (ADVOGADO)
KAROLINE VICTORIA CERQUEIRA DOS SANTOS
(ADVOGADO)
TANIA APARECIDA PEREIRA CUSTODIO (ADVOGADO)
MATHEUS FRANCA SOUZA (ADVOGADO)
LUIZ PAULO DE BARROS CORREIA VIVEIROS DE CASTRO
(ADVOGADO)
GLORIA REGINA FELIX DUTRA (ADVOGADO)
MARCUS VINICIUS DE S THIAGO (ADVOGADO)
RAFAEL DE ALENCAR ARARIPE CARNEIRO (ADVOGADO)
CAIO VINICIUS ARAUJO DE SOUZA (ADVOGADO)
FELIPE SANTOS CORREA (ADVOGADO)
Ministério Público Eleitoral (RECORRIDO)
Procurador Geral Eleitoral (FISCAL DA LEI)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
67497 19/12/2020 14:15 Decisão Decisão
088
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL

RECURSO ESPECIAL ELEITORAL Nº 0600594-40.2020.6.19.0029 – CLASSE


11549 – PETRÓPOLIS – RIO DE JANEIRO

Relator: Ministro Sérgio Banhos

Recorrente: Rubens José Franca Bomtempo

Advogados: Felipe Santos correa – OAB: 53078/DF e outros

Recorrido: Ministério Público Eleitoral

DECISÃO

Rubens José Franca Bomtempo interpôs recurso especial (ID 65236088)


em face do acórdão do Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (ID 65234388)
que, por maioria, deu provimento ao recurso do Ministério Público, para, reformando
a sentença do juízo de primeiro grau, indeferir o registro de candidatura do
recorrente ao cargo de prefeito do município de Petrópolis/RJ, por entender que o
candidato teve os seus direitos políticos suspensos, não preenchendo a condição de
elegibilidade prevista no art. 14, § 3º, II, da CF.
Eis a ementa do acórdão recorrido (ID 65234388):

RECURSOS ELEITORAIS. REGISTRO DE CANDIDATURA.


ELEIÇÃO 2020. IMPUGNAÇÃO.

1. Sentença de deferimento do pedido de registro.

2. Condenação em Ação Civil Pública, com trânsito em julgado, a


suspensão dos direitos políticos por 8 (oito) anos.

3. Direitos políticos suspensos. Inteligência do art. 20 da Lei de


Improbidade. Contagem de prazo a partir do trânsito. Precedentes
TSE e TRE/RJ.

4. Ausência de condição de elegibilidade presente no art. 14, §2º,


inciso III da Constituição Federal.

Assinado eletronicamente por: SERGIO SILVEIRA BANHOS - 19/12/2020 14:15:39 Num. 67497088 - Pág. 1
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Número do documento: 20121914153925400000066595684
5. Não conhecimento do recurso de Paulo Pires de Oliveira e
Provimento do Recurso do Ministério público Eleitoral para
INDEFERIR o registro de candidatura de RUBENS JOSÉ FRANÇA
BOMTEMPO.

Opostos embargos de declaração, foram eles acolhidos parcialmente por


meio de acórdão assim ementado (ID 65235238):

EMBARGOS DE DECLARAÇÃO. RECURSO ELEITORAL.


REQUERIMENTO DE REGISTRO DE CANDIDATURA INDEFERIDO.
ELEIÇÕES 2020. ERRO MATERIAL. PROVIMENTO PARCIAL.

I. Cuida-se de dois embargos de declaração. No primeiro, o


embargante alega que a decisão que inadmitiu seu Recurso Eleitoral
não foi fundamentada. Improcedência. Decisão fundamentada de
forma clara e suficiente, onde se verificam com nitidez as razões que
ampararam o não conhecimento do recurso.

II. Alegação do segundo embargante de que o julgamento teria sido


extra petita por ter adotado como ratio decidendi a ausência de
condição de elegibilidade, enquanto a impugnação do Parquet
Eleitoral teria se restringido à incidência da hipótese de inelegibilidade
insculpida no art. 1º, I, alínea “l” da Lei Complementar nº 64/90.
Improcedência. O Parquet, tanto em sua impugnação quanto em seu
Recurso Eleitoral, expressamente imputou ao candidato a suspensão
dos direitos políticos decorrentes de decisão judicial transitada em
julgado. O mero fato do Ministério Público não ter utilizado a
expressão condição de elegibilidade não transmuda a substância da
imputação, que, por fim, foi adotada por esta Corte como razão de
decidir.

III. Alegação de erro material na ementa e fundamentação do Acórdão


no ponto pertinente à ausência de condição de elegibilidade que faz
menção ao “art. 14, § 2º, inciso III” da Constituição Federal”.
Procedência. Devem ser retificadas a fundamentação e a ementa do
Acórdão para que o trecho “art. 14, § 2º, inciso III” passe a constar
com a seguinte redação: “art. 14, §3º, inciso III da Constituição
Federal”.

III. Demais alegações que não merecem prosperar, em que se


vislumbra de forma clara o objetivo de revolver matéria já decidida, por
estar o embargante inconformado com o resultado do julgamento, que
lhe foi desfavorável.

Desprovimento dos primeiros embargos, provimento parcial do


segundo Embargos de Declaração tão somente para sanar erro
material, restando mantidos os demais termos do Acórdão e,
consequentemente, o indeferimento do registro de candidatura do
embargante.

Assinado eletronicamente por: SERGIO SILVEIRA BANHOS - 19/12/2020 14:15:39 Num. 67497088 - Pág. 2
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O recorrente sustenta, em síntese, que (ID 65236088):

a) foi eleito em primeiro e segundo turno para o cargo de Prefeito do


município de Petrópolis/RJ;

b) o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro ajuizou AIRC,


alegando que o recorrente estaria inelegível em razão da incidência da
hipótese de inelegibilidade prevista no art. 1º, I, l, da LC 64/90, por ter
sofrido condenações por improbidade administrativa;

c) o pedido de registro de candidatura foi deferido pelo juízo de 1º grau


de jurisdição, pois não restar configurado enriquecimento ilícito, porém
o TRE, dando provimento ao recurso do Ministério Público,
indeferiu-lhe o registro de candidatura ao fundamento de que teve os
direitos políticos suspensos por decisão transitada em julgado;

d) o acórdão regional padece de nulidade, por negativa de prestação


jurisdicional, em afronta ao art. 1.022 do CPC, pois o TRE omitiu-se
quanto aos arts. 11, § 7º, da Lei 9.504/97 e 28, § 2º, da Res.-TSE
23.609, que definem o modo de comprovação das condições de
elegibilidade, no sentido de que basta a certidão de quitação eleitoral;

e) o TRE violou os arts. 10, 489 e 492 do CPC e 5º, LV, da CR, pois
reconheceu condição de inelegibilidade não articulada pelo Ministério
Público em suas razões recursais, consistente na suspensão dos seus
direitos políticos;

f) não teve a oportunidade de se defender quanto ao fundamento


invocado pelo TRE para indeferir-lhe o pedido de registro de
candidatura;

g) o pleno exercício dos direitos políticos se comprova mediante


certidão de quitação eleitoral, nos termos do art. 11, § 7º, da Lei n.
9.504/97, oportunamente juntada aos autos;

h) “não havendo incidência de qualquer hipótese de inelegibilidade


ao caso em tela, verifica-se que o aresto combatido perpetrou
verdadeira cassação de direitos políticos” (ID 65236088).

Requer o provimento do apelo a fim de que seja declarada a nulidade do


acórdão regional, com a determinação do retorno dos autos para que o TRE sane a
omissão apontada. No mérito, pretende que seja deferido o seu registro de
candidatura.
Foram apresentadas contrarrazões (ID 65236438).
A douta Procuradoria-Geral Eleitoral emitiu parecer (ID 66257588), no
qual opinou pelo desprovimento do recurso especial.
É o relatório.

Decido.

Assinado eletronicamente por: SERGIO SILVEIRA BANHOS - 19/12/2020 14:15:39 Num. 67497088 - Pág. 3
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O recurso especial é tempestivo. O acórdão regional foi publicado em
sessão de 8.12.2020 (ID 65235188) e o apelo manejado em 10.12.2020 (ID
65236038), por advogado habilitado nos autos (ID 65227188, ID 65232538 e ID
65233588).
De plano, registro que se trata de recurso especial interposto por
candidato a prefeito eleito.
Como relatado, o TRE/RJ, por maioria, dando provimento ao recurso
ministerial, reformou a sentença, indeferindo o pedido de registro de candidatura do
recorrente. Confira-se a fundamentação do voto vencedor (ID 65234388):
[...]

VOTO DIVERGENTE VENCEDOR

O recurso do Ministério Público deve ser conhecido, já que presentes


os requisitos de admissibilidade a tanto necessários. Dada a ausência
de questões preliminares, passa-se, desde logo, à apreciação do
mérito.

Conforme se depreende dos documentos juntados aos autos (id


15325759, 15325809 e 15325859), o ora recorrido foi condenado nos
autos da Ação Civil Pública de numeração
0030554-30.2013.8.19.0042 pelo Juízo da 4ª Vara Cível da Comarca
de Petrópolis, com trânsito em julgado em 12/03/2019, havendo
imposição de suspensão de direitos políticos, cujo teor do dispositivo
transcrevo a seguir:

Ante o exposto, JULGO PROCEDENTE O PEDIDO, resolvendo o


mérito da demanda, nos termos do inciso I do art. 487 do CPC,
para:

(i) suspender os direitos políticos do réu RUBENS JOSÉ


FRANÇA BOMTEMPO pelo prazo de 08 (OITO) anos;

(ii) condenar o réu ao pagamento de multa civil no valor


correspondente a 50 (cinquenta) vezes sua última remuneração;

(iii) proibir o réu de contratar com o Poder Público ou receber


benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios, direta ou
indiretamente, ainda que por intermédio de pessoa jurídica da
qual seja sócio majoritário, pelo prazo de três anos;

(iv) condenar o Réu SÉRGIO EDUARDO MELO GOMES a


restituir ao Município de Petrópolis os valores acrescidos,
decorrentes da mora, pelo não repasse das contribuições
previdenciárias ao INPAS, cujo valor deverá ser apurado em
futura liquidação de sentença, mediante prova pericial contábil,
nos termos da fundamentação supra;

(v) condenar o réu ao pagamento das custas processuais.

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Pois bem. Cinge-se, portanto, a controvérsia em se aferir se a
condenação do recorrido ainda surte efeitos na esfera eleitoral.

A Lei de Improbidade Administrativa, em seu art. 20 dispõe


expressamente que “a suspensão dos direitos políticos só se efetivam
com o trânsito em julgado da sentença condenatória.”

Nessa linha, in casu, houve o trânsito em julgado de um dos


processos que foram objeto da AIRC, a saber Ação Civil Pública nº
0030554-30.2013.8.19.0042, em 12/03/2019. A partir desta data,
conta-se o prazo cominado de 8 anos de suspensão de direitos
políticos, encontrando-se o recorrido inelegível para o pleito de 2020.

Isso porque o candidato recorrido não preencheu condição de


elegibilidade prevista no artigo 14, §2º, inciso II, da Constituição
Federal, a saber, o pleno exercício dos direitos políticos.

Nesse mesmo sentido é a jurisprudência da Colenda Corte Eleitoral:

ELEIÇÕES 2016. RECURSO ESPECIAL. REGISTRO DE


CANDIDATURA INDEFERIDO. CARGO. PREFEITO.
CONDENAÇÃO PELA PRÁTICA DE IMPROBIDADE
ADMINISTRATIVA. ALEGADA AFRONTA AO ART. 275 DO CE.
AUSÊNCIA DE OMISSÃO. INELEGIBILIDADE PREVISTA NO
ART. 1º, I, L, DA LC Nº 64/90. REGRAS INTRODUZIDAS E
ALTERADAS PELA LC Nº 135/2010. APLICAÇÃO ÀS
SITUAÇÕES ANTERIORES À SUA VIGÊNCIA. ADCs Nº 29 E Nº
30 E ADI Nº 4.578/STF. EFICÁCIA ERGA OMNES E EFEITO
VINCULANTE. MANUTENÇÃO DO SUBSTRATO JURÍDICO
QUE LASTREOU O PRONUNCIAMENTO DA SUPREMA CORTE
EM SEDE DE FISCALIZAÇÃO ABSTRATA E CONCENTRADA.
VEDAÇÃO AO REJULGAMENTO DA MATÉRIA PELOS DEMAIS
ÓRGÃOS JUDICIAIS QUANDO NÃO SE VERIFICAR A
MODIFICAÇÃO DAS CIRCUNSTÂNCIAS FÁTICAS E
JURÍDICAS QUE AUTORIZAM A ANTICIPATORY
OVERRULING. ALEGADA OFENSA AO ART. 23 DA
CONVENÇÃO AMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. NÃO
CARACTERIZAÇÃO. CONDENAÇÃO POR ATO DOLOSO DE
IMPROBIDADE. SUSPENSÃO DE DIREITOS POLÍTICOS.
DANO AO ERÁRIO E ENRIQUECIMENTO ILÍCITO. ANÁLISE IN
CONCRECTO PELA JUSTIÇA ELEITORAL, A PARTIR DA
FUNDAMENTAÇÃO DO DECISUM CONDENATÓRIO DA
JUSTIÇA COMUM. DESVIO INTEGRAL DE RECURSOS
PÚBLICOS ORIUNDOS DE CONVÊNIO. VERBAS NÃO
APLICADAS EM QUALQUER FINALIDADE PÚBLICA.
REQUISITOS DEMONSTRADOS. PRAZO DA
INELEGIBILIDADE. 8 (OITO) ANOS APÓS O CUMPRIMENTO
DA PENA. AFERIÇÃO. EXAURIMENTO/ADIMPLEMENTO DE
TODAS AS COMINAÇÕES IMPOSTAS NO TÍTULO

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CONDENATÓRIO. INOBSERVÂNCIA. DIVERGÊNCIA
JURISPRUDENCIAL NÃO DEMONSTRADA. AUSÊNCIA DE
SIMILITUDE ENTRE OS JULGADOS CONFRONTADOS.
RECURSO ESPECIAL A QUE SE NEGA SEGUIMENTO.

1. O art. 275 do Código Eleitoral não resta ultrajado sempre que


inexistente vício de fundamentação que enseje a nulidade do
julgado. 2. O Plenário da Suprema Corte, no julgamento das
ADCs 29 e 30: (i) assentou categoricamente que a inelegibilidade
ostenta natureza jurídica de requisito negativo de adequação do
indivíduo ao regime jurídico do processo eleitoral; (ii) rechaçou
veementemente o caráter sancionatório ou punitivo das hipóteses
de inelegibilidade veiculadas na Lei Complementar nº 64/90; e (iii)
afirmou que as regras introduzidas e alteradas pela LC nº
135/2010 aplicam-se às situações anteriores à sua edição e não
ofendem a coisa julgada ou a segurança jurídica. 3. A decisão
proferida na Lei da Ficha Limpa condiciona a atuação das demais
instâncias judiciais, por ter sido emitida em ação de fiscalização
abstrata de constitucionalidade, de eficácia erga omnes e efeitos
vinculantes. 4. In casu, não se constata a superveniência de
circunstâncias que autorizariam a cognominada anticipatory
overruling e teriam aptidão para propiciar a mudança no
entendimento sedimentado pelo Supremo Tribunal Federal nas
ADCs nº 29 e nº 30, razão pela qual a sua aplicação é medida
que se impõe, sob pena de (i) amesquinhar-se a segurança
jurídica e a isonomia, bens jurídicos legitimadores da necessidade
de estabilização das decisões proferidas em fiscalização abstrata,
e, no limite, (ii) comprometer-se a própria supremacia e
efetividade constitucional. 5. As hipóteses de inelegibilidade no
ordenamento jurídico pátrio são fixadas de acordo com os
parâmetros constitucionais de probidade, moralidade e de ética, e
veiculadas por meio de reserva de lei formal (lei complementar),
nos termos do art. 14, § 9º, da Constituição da República, razão
por que, a prevalecer a tese segundo a qual a restrição ao direito
de ser votado se submete às normas convencionais, haveria a
subversão da hierarquia das fontes, de maneira a outorgar o
status supraconstitucional à Convenção Americana, o que, como
se sabe, não encontra esteio na jurisprudência remansosa do
Supremo Tribunal Federal que atribui o caráter supralegal a
tratados internacionais que versem direitos humanos (STF, RE nº
466.343, Rel. Min. Cezar Peluso). 6. O reconhecimento da causa
de inelegibilidade descrita no art. 1º, I, l, da Lei Complementar
64/90, segundo a jurisprudência do Tribunal Superior Eleitoral,
reafirmada nas Eleições de 2016, demanda a condenação à
suspensão dos direitos políticos, por meio de decisão transitada
em julgado ou proferida por órgão colegiado, em razão de ato
doloso de improbidade administrativa que importe,
cumulativamente, dano ao erário e enriquecimento ilícito. 7. A
análise da configuração in concrecto da prática de enriquecimento

Assinado eletronicamente por: SERGIO SILVEIRA BANHOS - 19/12/2020 14:15:39 Num. 67497088 - Pág. 6
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ilícito pode ser realizada pela Justiça Eleitoral, a partir do exame
da fundamentação do decisum condenatório, ainda que tal
reconhecimento não tenha constado expressamente do
dispositivo daquele pronunciamento judicial. 8. Para efeito da
aferição do término da inelegibilidade prevista na parte final da
alínea l do inciso I do art. 1º da LC nº 64/90, o cumprimento da
pena deve ser compreendido não apenas a partir do exaurimento
da suspensão dos direitos políticos e do ressarcimento ao erário,
mas a partir do instante em que todas as cominações impostas no
título condenatório tenham sido completamente adimplidas,
inclusive no que tange à eventual perda de bens, perda da função
pública, pagamento da multa civil ou suspensão do direito de
contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos
fiscais ou creditícios, direta ou indiretamente. 9. A divergência
jurisprudencial exige, para a sua correta demonstração, similitude
fática entre o acórdão objurgado e os julgados paradigmas.
Precedentes. 10. O desvio de finalidade do convênio - aplicação
dos recursos em fim social totalmente diverso do pactuado - e o
desvio de objeto do convênio - execução de ações diversas das
previstas, respeitando, porém, o fim social a que se destinam os
recursos - não se confundem com a hipótese em que o gestor do
convênio não comprova a aplicação do correspondente recurso
em qualquer finalidade pública, isto é, quando o dinheiro
simplesmente desaparece. 11. In casu, a) O Recorrente foi
condenado, por decisão transitada em julgado da Justiça Comum,
à proibição de contratar com o poder público, além de suspensão
dos direitos políticos pelo prazo de 3 (três) anos, por ato doloso
de improbidade administrativa, consubstanciado no desvio das
verbas oriundas de convênio (0974) firmado com o FNDE para
reforma de escolas municipais, tendo sido condenado ao
ressarcimento integral dos valores relativos ao convênio nº
0974/96 e ao pagamento de multa civil pelo dano, no valor de R$
162.082,72 (cento e sessenta e dois mil, oitenta e dois reais e
setenta e dois centavos) ? atingindo o montante de R$
532.363,38 (quinhentos e trinta e dois mil, trezentos e sessenta e
três reais e trinta e oito centavos) em valores corrigidos até o dia
22 de fevereiro de 2016, ainda não ressarcidos. b) Diante das
premissas fáticas assentadas pela Justiça Comum e transcritas
no acórdão Regional, o ato doloso de improbidade administrativa
praticado pelo Recorrente consistiu na não aplicação de recursos
públicos oriundos do convênio em finalidade pública, dando-lhes
destinação desconhecida, bem como no fato de o Recorrente e
seu irmão, únicos gestores do referido convênio, terem levado
toda a documentação a ele referente ao deixarem a
administração municipal, na tentativa de inviabilizar a fiscalização;
c) As condutas consignadas no decisum condenatório da Justiça
Comum viabilizam a conclusão da prática dolosa de atos que
importam dano ao erário e enriquecimento ilícito, na medida em
que restou reconhecida não apenas a aplicação irregular das

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verbas oriundas dos convênios firmados com o FNDE de nos
2952/95, 3329/96 e 3350/95, mas também o desvio integral dos
recursos relativos ao convênio nº 0974/96; d) A decisão
condenatória proferida no âmbito da ação civil pública por
improbidade administrativa transitou em julgado em 3.9.2010, não
tendo havido, ainda, o adimplemento da cominação de
ressarcimento do dano ao erário, constante daquele título judicial,
o que inviabiliza o início da contagem do prazo de inelegibilidade
previsto no art. 1º, I, l, da LC nº 64/90; e) Os atos de improbidade
narrados nos paradigmas indicados no especial não revelam
desvio integral de verbas oriundas de convênio, como ocorreu no
presente caso, mas, sim, aplicação irregular dos recursos
públicos em decorrência de desvio de finalidade ou de objeto, o
que denota a ausência de similitude fática necessária ao
acolhimento do recurso pelo dissídio jurisprudencial. 12. Recurso
especial a que se nega provimento.

(Recurso Especial Eleitoral nº 23184, Acórdão, Relator(a) Min.


Luiz Fux, Publicação: DJE - Diário de justiça eletrônico, Tomo 49,
Data 12/03/2018, Página 109-111)

ELEIÇÕES 2014. REGISTRO DE CANDIDATURA.


GOVERNADOR. CONDENAÇÃO. AÇÃO DE IMPROBIDADE.
ÓRGÃO COLEGIADO. CONDIÇÃO DE ELEGIBILIDADE.
INELEGIBILIDADE. LEI COMPLEMENTAR Nº 64/90. ARTIGO 1º.
INCISO I. ALÍNEA L. DANO AO ERÁRIO.ENRIQUECIMENTO
ILÍCITO. PRAZO. INCIDÊNCIA. SEGURANÇA JURÍDICA.
FIXAÇÃO DE TESE. PLEITO 2014.

1. Os conceitos de inelegibilidade e de condição de elegibilidade


não se confundem. Condições de elegibilidade são os requisitos
gerais que os interessados precisam preencher para se tornarem
candidatos. Inelegibilidades são as situações concretas definidas
na Constituição e em Lei Complementar que impedem a
candidatura.

2. No processo de registro de candidatura, a Justiça Eleitoral não


examina se o ilícito ou irregularidade foi praticado, mas, sim, se o
candidato foi condenado pelo órgão competente.

3. A Justiça Eleitoral não possui competência para reformar ou


suspender acórdão proferido por Turma Cível de Tribunal de
Justiça Estadual ou Distrital que julga apelação em ação de
improbidade administrativa.

4. A suspensão dos direitos políticos por condenação decorrente


de ato de improbidade somente ocorre com o trânsito em julgado
da decisão condenatória.

Assinado eletronicamente por: SERGIO SILVEIRA BANHOS - 19/12/2020 14:15:39 Num. 67497088 - Pág. 8
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Número do documento: 20121914153925400000066595684
5. Para a caracterização da inelegibilidade decorrente de
condenação por ato doloso de improbidade (LC nº 64/90, artigo
1º, inciso I, alínea l), basta que haja decisão proferida por órgão
colegiado, não sendo necessário o trânsito em julgado.
Precedentes.

6. Não há confundir fato público e notório com fato publicado. "A


circunstância de o fato encontrar certa publicidade na imprensa
não basta para tê-lo como notório, de maneira a dispensar a
prova. Necessário que seu conhecimento integre o comumente
sabido, ao menos em determinado estrato social por parcela da
população a que interesse" (STJ, REsp nº 7.555, rel. Min.
Eduardo Ribeiro, DJ de 3.6.1991).

7. Presença de todos os elementos necessários à configuração


da inelegibilidade prevista na alínea l do artigo 1º, I, da LC nº
64/90, que incide a partir da publicação do acórdão condenatório.

8. A notícia do julgamento pelo órgão colegiado foi certificada


pela própria secretaria do TRE, no primeiro momento que os
documentos apresentados para o registro de candidatura foram
examinados. O acórdão condenatório foi juntado aos autos antes
da apresentação das defesas. A sua presença nos autos foi
constatada no despacho que encerrou a instrução, determinou
que fosse certificada a data da publicação e abriu vista para as
partes apresentarem alegações finais.

9. A alegada ofensa ao princípio da segurança jurídica não se


configura, seja em razão das características próprias do processo,
seja em razão do pouco tempo de análise da legislação
complementar e da existência de precedente em sentido contrário
ao defendido pelos recorrentes, a demonstrar, no mínimo, que a
matéria não é pacificada.

10. É perfeitamente harmônico com o sistema de normas vigentes


considerar que os fatos supervenientes ao registro que afastam a
inelegibilidade devem ser apreciados pela Justiça Eleitoral, na
forma prevista na parte final do § 10 do artigo 11 da Lei nº
9.504/97, sem prejuízo de que os fatos que geram a
inelegibilidade possam ser examinados no momento da análise
ou deferimento do registro pelo órgão competente da Justiça
Eleitoral, em estrita observância ao parágrafo único do artigo 7º
da LC nº 64/90 e, especialmente, aos prazos de incidência do
impedimento, os quais, por determinação constitucional, são
contemplados na referida lei complementar.

Recursos desprovidos. Mantido o indeferimento do registro da


candidatura para o cargo de Governador do Distrito Federal.
Votação por maioria.

Assinado eletronicamente por: SERGIO SILVEIRA BANHOS - 19/12/2020 14:15:39 Num. 67497088 - Pág. 9
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Número do documento: 20121914153925400000066595684
FIXAÇÃO DE TESE A SER OBSERVADA NOS REGISTROS DE
CANDIDATURA DO PLEITO DE 2014: As inelegibilidades
supervenientes ao requerimento de registro de candidatura
poderão ser objeto de análise pelas instâncias ordinárias no
próprio processo de registro de candidatura, desde que
garantidos o contraditório e a ampla defesa. Votação por maioria.

(Recurso Ordinário nº 15429, Acórdão, Relator(a) Min. Henrique


Neves Da Silva, Publicação: RJTSE - Revista de jurisprudência
do TSE, Volume 25, Tomo 3, Data 26/08/2014, Página 556)

Por todo exposto voto pelo provimento do recurso do Ministério


Público Eleitoral, para reformar a sentença e indeferir o requerimento
do registro de candidatura de RUBENS JOSÉ FRANÇA BOMTEMPO
e não conheço do Recurso de Paulo Pires de Oliveira.

[...]

Opostos embargos de declaração, foram eles rejeitados aos seguintes


fundamentos (ID 65235188):

[...]

In casu, os referidos aclaratórios possuem como primeira alegação um


suposto julgamento extra petita por parte desta Corte Regional
Eleitoral. Em síntese, o embargante alega que a imputação feita pelo
Parquet Eleitoral se resumiria à hipótese de inelegibilidade insculpida
no art. 1º, I, alínea “l” da Lei Complementar nº 64/90.

Nesse passo, destaca o candidato: “(...) salta aos olhos que nas 23
laudas do recurso eleitoral apresentado pelo Ministério Público não há
qualquer alegação de eventual “ausência de condições de
elegibilidade”.

Conclui o seu raciocínio, pontuando que o Acórdão vergastado, ao


adotar como razão de decidir a ausência de condição de elegibilidade
do recorrente, teria incidido em uma série de vícios, quais sejam, na
violação ao princípio da adstrição, na ofensa aos princípios
constitucionais do contraditório e da ampla defesa, assim como no
descumprimento dos arts. 10 e 492 de nosso diploma processual civil.

No entanto, a despeito da alegação expendida pelo embargante, no


caso sub examinen não houve qualquer julgamento para além do
pedido.

O ponto é que, tanto na impugnação ao Registro de Candidatura,


quanto no Recurso Eleitoral interposto, o Parquet Eleitoral
expressamente apontou que o candidato havia sido condenado à
suspensão dos direitos políticos por decisão transitada em julgado,
proferida no bojo de ação de improbidade administrativa.

Assinado eletronicamente por: SERGIO SILVEIRA BANHOS - 19/12/2020 14:15:39 Num. 67497088 - Pág. 10
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Número do documento: 20121914153925400000066595684
Para que não pairem dúvidas, colaciono trecho da referida
impugnação:

Com efeito, verifica-se, pela leitura do dispositivo legal que


existem duas hipóteses diversas para a inelegibilidade: (a) a
suspensão dos direitos políticos em decisão transitada em
julgado; ou, (b) a suspensão dos direitos políticos por órgão
judicial colegiado, neste caso não se exigindo o trânsito em
julgado. Além disso, a hipótese deve configurar (a) lesão ao
patrimônio público; e/ou (b) enriquecimento ilícito, próprio ou de
terceiro

(...)

No caso específico do requerido existem contra ele diversas


condenações por improbidade administrativa, sendo que em três
o MPE conseguiu identificar a perda dos direitos políticos:

Proc. 0030554-30.2013.8.19.0042 – Dano ao erário público pelo


não repasse de verbas ao INSS, entre os anos de 2001 a 2008
tendo sido o requerido condenado à perda de seus direitos
políticos, decisão esta com trânsito em julgado em 12/03/2019,
cujos termos são os seguintes:”

Como se percebe de forma clara, o Ministério Público desde o início


do processo imputou ao candidato à suspensão de seus direitos
políticos em decorrência de decisão judicial transitada em julgado. A
eventualidade do Parquet não ter feito uso da expressão condição de
elegibilidade, usada por esta Relatora na fundamentação de meu voto
condutor, não altera em nada a substância desta imputação feita pelo
órgão ministerial que, repiso uma vez mais, consistia na suspensão
dos direitos políticos por decisão judicial transitada em julgado.

De igual modo, trago à baila o excerto do Recurso interposto pelo


Ministério Público em que esta questão é trazida à apreciação deste
Tribunal Regional Eleitoral:

“Trata-se a presente de AIRC e de duas notícias de


inelegibilidade propostas em face do impugnado, por diversas
condenações à perda dos direitos políticos, seja por parte de
órgão colegiado, seja com trânsito em julgado.

Na impugnação do ora recorrente foram demonstrados três


processos em que o recorrido teve seus direitos políticos
suspensos por decisão judicial, a primeira delas com trânsito em
julgado:

1 – Proc. 0030554-30.2013.8.19.0042 onde o recorrido foi


condenado com trânsito em julgado à perda dos direitos políticos

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pelo prazo de 8 (oito) anos por ausência de repasse de verbas do
INSS entre os anos de 2001 a 2008.”

Como se vê, não há como conceder razão ao requerente pois a


quaestio iuris foi colocada nos autos na peça inicial da impugnação ao
registro e, de igual maneira, foi reiterada na peça recursal, tendo o
recorrente diversas oportunidades de se manifestar sobre o teor da
imputação.

Dito isso, passo às demais alegações. Sustenta o candidato que o


Voto condutor da decisão colegiada teria se omitido em apreciar a
informação, id 15329059, exarada pelo cartório eleitoral que em seu
entender teria constatado que o recorrente preencheria todas as
condições de elegibilidade.

Na mesma linha, sustenta que “essa Corte omitiu-se por completo


quanto à Certidão de Quitação Eleitoral ID n. 15327309 integrante dos
autos, a qual, por expressa disposição legal, atesta a 'plenitude do
gozo dos direitos políticos” do candidato.'”

Com efeito, nestes pontos não assiste razão ao embargante. Ora, só


haveria como concordar com o candidato, se no âmbito do Direito
Eleitoral brasileiro vigorasse a denominada “prova tarifada”, cuja
valoração é previamente definida pelo legislador. No entanto, vigora
no processo pátrio o convencimento motivado do Magistrado que deve
valorar o conjunto de provas carreadas aos autos.

Nesse sentido, não há qualquer dúvida que se encontra provado no


processo a existência da condenação judicial transitada em julgado
determinando a suspensão dos direitos políticos do candidato.

Logo, não se vislumbra como os dois documentos citados pelo


recorrente possam contradizer ou desconstituir a sua condenação à
suspensão dos direitos políticos proferida pela justiça comum.

Ultrapassada estas alegações, prossigo na análise dos demais


argumentos expendidos nos aclaratórios.

O candidato aduz, ainda, que o julgamento dos Acórdãos seria


absolutamente nulo, pois na ocasião foi dada a palavra ao causídico
que representa o Senhor Paulo Pires de Oliveira que seria mero
noticiante de inelegibidade, e não parte processual.

Acrescenta que sob o pretexto do argumento de “pela ordem” o


referido advogado teria feito verdadeira sustentação oral, ocasião em
que trouxe ao processo a suposta ausência de condição de
elegibilidade do embargante.

Ocorre que, consoante já apreciado de forma minudente no presente


voto, não há que falar em inovação no âmbito do processo, pois a

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Número do documento: 20121914153925400000066595684
alegação de suspensão dos direitos políticos do embargante consta da
Petição Inicial acostada pelo Parquet em sua ação de impugnação ao
registro de candidatura.

Ademais, não há qualquer vício processual na concessão da palavra


ao supramencionado advogado, pois este na ocasião representava o
recorrente Paulo Pires de Oliveira, cujo juízo negativo de
admissibilidade recursal somente foi efetivado no decorrer da sessão
de julgamento.

Prosseguindo, o embargante alude à suposta violação à regra de


competência no julgamento dos embargos de declaração opostos no
bojo da ação de improbidade administrativa que ocasionou a
suspensão dos seus direitos políticos.

Quanto a esta alegação, imperioso reconhecer que esta transborda


completamente da competência desta Justiça Eleitoral. De certo, é de
todo inviável se imiscuir em suposto vício processual ocorrido em
processo que tramitou na Justiça Comum e cuja decisão final se
encontra acobertada pelo manto da coisa julgada.

Por último, pontua o candidato a existência de erro material no


Acórdão, tanto em sua fundamentação quanto em sua ementa,
quando o decisum aborda a suspensão de direitos políticos e
menciona o “art. 14, §2, II, da CF/1988”.

Aqui a irresignação merece prosperar. Efetivamente, subsiste o erro


material, pois o dispositivo correto a ser mencionado seria o art. 14, §
3º, II, da Constituição Federal. Nesse sentido, deve ser retificado o
Acórdão para que, em sua ementa e fundamentação, onde está
escrito “art. 14, §2, II, da CF/1988” passe a constar “art. 14, §3º, II, da
CF/1988”.

Nesse quadra, a despeito do erro material que foi sanado a contento e


que não tem aptidão para alterar o resultado julgamento, vislumbra-se
que o embargante pretende, a bem da verdade, revolver matéria já
decidida, por estar inconformado com o deslinde da causa que lhe foi
desfavorável.

Por fim, mesmo que o embargante queira ultrapassar a barreira


imposta pelos verbetes sumulares nºs 282 e 356, do Egrégio STF,
para, eventualmente, propor novos recursos com o questionamento
previamente tratado nos autos, verifica-se que o acórdão dispensa
complementação integrativa.

De toda a sorte, não há impedimento de que as Cortes Superiores


apreciem os elementos suscitados, uma vez que, a teor do art. 1.025
do novo CPC, estariam acobertados pelo prequestionamento ficto.

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Número do documento: 20121914153925400000066595684
Pelo exposto, voto pelo desprovimento dos primeiros embargos e
pelo parcial provimento aos segundos Embargos de Declaração,
para tão somente sanar erro material, restando mantidos os
demais termos do Acórdão e, consequentemente, o indeferimento
do registro de candidatura do recorrente.

[...]

Insurgindo-se em face do decidido, alega o recorrente que o acórdão


regional padece de nulidade, por negativa de prestação jurisdicional, sob a alegação
de que houve omissão quanto aos arts. 11, § 7º, da Lei 9.504/97 e 28, § 2º, da
Res.-TSE 23.609, que definiriam a forma de comprovação das condições de
elegibilidade, de modo que a certidão de quitação eleitoral prevaleceria sobre os
demais documentos que supostamente comprovariam a suspensão dos seus direitos
políticos.
Ocorre, porém, que o TRE, por ocasião do julgamento dos embargos de
declaração, enfrentou expressamente a matéria, rejeitando a tese do recorrente, ao
fundamento de que não existe no direito eleitoral a chamada “prova tarifada”.
Veja-se (ID 65235188):
[...]

Ora, só haveria como concordar com o candidato, se no âmbito do


Direito Eleitoral brasileiro vigorasse a denominada “prova tarifada”,
cuja valoração é previamente definida pelo legislador. No entanto,
vigora no processo pátrio o convencimento motivado do Magistrado
que deve valorar o conjunto de provas carreadas aos autos.

Nesse sentido, não há qualquer dúvida que se encontra provado no


processo a existência da condenação judicial transitada em julgado
determinando a suspensão dos direitos políticos do candidato.

Logo, não se vislumbra como os dois documentos citados pelo


recorrente possam contradizer ou desconstituir a sua condenação à
suspensão dos direitos políticos proferida pela justiça comum.

[...]

Nesse contexto, não se vislumbra ofensa ao art. 1.022, VI, do CPC, pois
a Corte Regional examinou, detalhadamente, todas as questões apresentadas pela
parte para a solução da causa.
Por outro lado, não há falar em afronta aos arts. 10, 489 e 492 do CPC e
5º, LV, da CR, sob a alegação de que o fundamento adotado pelo TRE para indeferir
o registro de candidatura do recorrente, concernente à suspensão dos seus direitos
políticos, não teria sido alegado pelo Ministério Público em suas razões recursais.
Com efeito, consta expressamente do acórdão de embargos de
declaração que a matéria foi suscitada pelo Ministério Público, tanto na AIRC como
no seu recurso eleitoral. Confira-se: “o ponto é que, tanto na impugnação ao
Registro de Candidatura, quanto no Recurso Eleitoral interposto, o Parquet Eleitoral
expressamente apontou que o candidato havia sido condenado à suspensão dos

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Número do documento: 20121914153925400000066595684
direitos políticos por decisão transitada em julgado, proferida no bojo de ação de
improbidade administrativa” (ID 65235188).
Ademais, o TRE reproduziu as alegações do órgão ministerial nos
fundamentos do acórdão de embargos de declaração, na AIRC, bem como no seu
recurso eleitoral. Colho do acórdão (ID 65235188):
[...]
“Para que não pairem dúvidas, colaciono trecho da referida impugnação:

Com efeito, verifica-se, pela leitura do dispositivo legal que


existem duas hipóteses diversas para a inelegibilidade: (a) a
suspensão dos direitos políticos em decisão transitada em
julgado; ou, (b) a suspensão dos direitos políticos por órgão
judicial colegiado, neste caso não se exigindo o trânsito em
julgado. Além disso, a hipótese deve configurar (a) lesão ao
patrimônio público; e/ou (b) enriquecimento ilícito, próprio ou de
terceiro

(...)

No caso específico do requerido existem contra ele diversas


condenações por improbidade administrativa, sendo que em três
o MPE conseguiu identificar a perda dos direitos políticos:

Proc. 0030554-30.2013.8.19.0042 – Dano ao erário público pelo


não repasse de verbas ao INSS, entre os anos de 2001 a 2008
tendo sido o requerido condenado à perda de seus direitos
políticos, decisão esta com trânsito em julgado em 12/03/2019,
cujos termos são os seguintes:”

[...]

De igual modo, trago à baila o excerto do Recurso interposto pelo


Ministério Público em que esta questão é trazida à apreciação deste
Tribunal Regional Eleitoral:

“Trata-se a presente de AIRC e de duas notícias de


inelegibilidade propostas em face do impugnado, por diversas
condenações à perda dos direitos políticos, seja por parte de
órgão colegiado, seja com trânsito em julgado.

Na impugnação do ora recorrente foram demonstrados três


processos em que o recorrido teve seus direitos políticos
suspensos por decisão judicial, a primeira delas com trânsito em
julgado:

1 – Proc. 0030554-30.2013.8.19.0042 onde o recorrido foi


condenado com trânsito em julgado à perda dos direitos políticos
pelo prazo de 8 (oito) anos por ausência de repasse de verbas do
INSS entre os anos de 2001 a 2008.”

Assinado eletronicamente por: SERGIO SILVEIRA BANHOS - 19/12/2020 14:15:39 Num. 67497088 - Pág. 15
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Número do documento: 20121914153925400000066595684
[...]

Submetida, portanto, a quaestio iuris à apreciação do Poder Judiciário,


por meio da peça inicial da impugnação ao registro de candidatura e, de igual
maneira, pelas razões recursais, teve o recorrente a oportunidade de se defender a
respeito da matéria, não havendo se falar em afronta aos arts. 10, 489 e 492 do CPC
e 5º, LV, da CR.
Por fim, alega o recorrente que o pleno exercício dos direitos políticos se
comprova mediante certidão de quitação eleitoral, nos termos do art. 11, § 7º, da Lei
9.504/97.
No entanto, o referido dispositivo não eleva a certidão de quitação
eleitoral à condição de prova tarifada ou única capaz de atestar a presença ou
ausência de plenitude do gozo dos direitos políticos.
De fato, tal documento não elide o livre convencimento motivado a que
estava submetido o órgão julgador, cuja convicção resulta do cotejo de todas as
provas produzidas nos autos.
Em outras palavras, a instância ordinária, soberana na análise
fático-probatória, pode levar em consideração todas as circunstâncias e provas
produzidas durante a instrução que entender relevantes para a solução da
controvérsia.
Desse modo, concluindo o TRE, a partir “dos documentos juntados aos
autos (id 15325759, 15325809 e 15325859)”, que o recorrente teve os direitos
políticos suspensos pelo prazo de oito anos por força de sentença “com trânsito em
julgado em 12/03/2019”, (ID 65234388) não lhe socorre a certidão de quitação
eleitoral, cuja presunção de veracidade restou afastada, no caso, diante dos demais
elementos de prova.
Reforça, ainda, tal entendimento a circunstância de o recorrente, nas
suas razões recursais, não negar que tenha sofrido a suspensão dos seus direitos
políticos, por força de decisão judicial transitada em julgada, limitando-se a
insurgência à eficácia probatória do documento de quitação eleitoral.
Por essas razões, nos termos do art. 36, § 6º, do Regimento Interno do
Tribunal Superior Eleitoral, nego seguimento ao recurso especial interposto por
Rubens José Franca Bomtempo.
Publique-se em mural.
Intime-se.

Ministro Sérgio Silveira Banhos


Relator

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