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A RACIONALIDADE ARGUMENTATIVA DA FILOSOFIA E

A DIMENSÃO DISCURSIVA DO TRABALHO FILOSÓFICO


TESE, VERDADE, ARGUMENTO, VALIDADE E SOLIDEZ

1. TESE
Uma tese é uma resposta a um problema que está em aberto.
Por seu turno, um problema está em aberto quando, devido à sua
dificuldade, não dispõe de soluções consensuais, impedindo que o debate
se encerre.

Uma tese filosófica é então, uma resposta a algum problema filosófico.


Devido ao seu carácter geral e fundamental, os problemas da filosofia não
têm respostas consensuais, permanecendo SEMPRE em aberto.
Vejamos: Não é consensual que nunca devemos mentir;
Não é consensual que não há justiça social sem igualdade.
Geralmente, as teses articulam-se com outras teses que as suportam
ou complementam, formando TEORIAS.
É habitual as TEORIAS serem identificadas pela sua tese principal, que é
normalmente expressa por uma frase declarativa.

Os filósofos costumam chamar proposições ao que é expresso pelas frases


declarativas.

Apenas estas servem para os filósofos, uma vez que, as frases


interrogativas, imperativas, exclamativas ou compromissivas, não servem
para descrever ou transmitir informação sobre o que pensamos ser o
mundo.
Perguntar (interrogativas), ordenar (imperativas), exprimir emoções
(exclamativas) e fazer promessas (compromissivas) não servem para
informar sobre como são ou não as coisas.
Frases declarativas como:

Lisboa é a capital de Portugal;


Mentir é sempre errado;
Todas as nossas ações são livres;
Os gatos são felinos…

descrevem e transmitem ideias (por vezes erradamente) das


coisas, pelo que, independentemente da sua VERDADE ou
FALSIDADE, uma proposição é uma ideia expressa por uma
frase declarativa.
A declaração é, pois, um item linguístico (formado por sons
articulados), sendo a proposição (o que é expresso pela declaração), o
seu significado ou conteúdo.

Vejamos a seguinte frase declarativa:


O gato Tobias está a comer – Esta frase informa que um certo gato está
a comer.

Se esse gato estiver de facto a comer, a frase será verdadeira.


Se, pelo contrário, o gato não estiver a comer, será falsa.

Deste ponto de vista, dizer que uma frase é verdadeira ou falsa


equivale a dizer que a proposição por ela expressa é verdadeira ou
falsa.
Mas, FRASE e PROPOSIÇÃO não são as mesma coisa.
Para tornar mais clara a diferença entre frases e proposições, basta pensar que
frases diferentes podem exprimir a mesma proposição.

Vejamos as seguintes frases:


Paris é a capital da França;
A capital da França é Paris;
Paris is the capital town of France.

Estas frases são todas diferentes mas dizem a mesma coisa, têm o mesmo
significado, isto é, exprimem a mesma proposição exprimindo, neste caso,
uma proposição verdadeira.

Ora, as discussões filosóficas nunca são acerca das frases, mas das ideias
verdadeiras ou falsas que elas veiculam.
2. VERDADE
O que se espera de uma tese é que seja verdadeira.

A verdade de uma tese (ou de qualquer proposição) é a característica de


ela representar as coisas tal como elas realmente são.

Caso isso não aconteça, essa tese ou proposição é falsa.

Vejamos:
A proposição de que há extraterrestres só é verdadeira se realmente eles
existirem, independentemente de nós o sabermos ou não.

Do mesmo modo, a tese filosófica que defende a arte como representação


de algo só é verdadeira se houver obras de arte que representem algo,
caso contrário, é falsa.
À VERDADE ou FALSIDADE das PROPOSIÇÕES dá-se o
nome de VALOR DE VERDADE.
As proposições são ou verdadeiras ou falsas, mas NUNCA as
duas coisas.
Como as teses filosóficas são respostas a problemas em
aberto e estão sujeitas a discussão, isso significa que não há
maneira de provar inequivocamente que uma dada tese é
verdadeira (ou falsa).
Vejamos:
Ou se defende ou se refuta a existência de Deus
Espera-se, por isso, que o filósofo proponente de
uma determinada tese, seja capaz de defender a sua
verdade, apresentando boas razões que sustentem e
justifiquem a CRENÇA de que a sua tese é verdadeira.

Assim, apresentar razões que sustentem uma tese é


argumentar a seu favor, de modo a persuadir os
outros.
3. ARGUMENTO

Um argumento é um conjunto variável de proposições (ou afirmações) articuladas


entre si, com o intuito de uma delas ser apoiada pelas outras.

A proposição que se procura defender é a conclusão do argumento e as proposições


que visam apoiar a conclusão são as premissas do argumento.

Ex: P1 - Todo A é B;
P2 - Todo B é C;
P3 - Todo C é D;
Conclusão - Todo A é D

O número de premissas de um argumento é variável, mas a conclusão é só uma.


É comum, num texto, haver vários argumentos e é importante avaliar e
identificar cada um deles, pois tanto podem ser bons como maus.

Como identificar um argumento?


A partir da sua conclusão, isto é, o que se está a defender.

Expressões indicadoras de conclusão:


Logo, então, portanto, consequentemente, por isso, daí que, por
conseguinte, infere‐se que, como tal, assim.

Expressões indicadoras de razões ou premissas:


Porque, se, pois, dado que, visto que, devido a, já que, a razão é que.
Exemplo A:

Exemplo B
Importante:
Uma vez identificados os argumentos a favor de uma
dada tese ou contra teses rivais, é ainda preciso
averiguar se tais argumentos são aceitáveis ou não.

Como?
Averiguando dois aspetos:
1. A relação entre as premissas e a conclusão;
2. A credibilidade das premissas.
4. VALIDADE
Um argumento é válido quando ele não passa de premissas verdadeiras para
uma conclusão falsa.

Dito de outro modo, quando as premissas apoiam de maneira forte uma


conclusão isso significa que não há maneira da conclusão ser falsa.

As premissas implicam, portanto, a conclusão ou, para falar ainda de outra


maneira, significa que a conclusão segue-se logicamente das premissas.

Vejamos:

P1 – Todo o homem é mortal

P2 – Sócrates é homem

C – Sócrates é mortal
Como vimos, num argumento válido, a verdade
das premissas garante a verdade da conclusão.

Dito de outra maneira:


Num argumento válido:

a) É impossível todas as premissas serem verdadeiras e a


conclusão falsa;
b) A conclusão não pode ser falsa, se todas as premissas forem
verdadeiras;
c) A conclusão tem de ser verdadeira, se todas as premissas
forem verdadeiras.
Contudo,
Um argumento tanto pode ter premissas verdadeiras como conclusão falsa, como até
premissas e conclusão falsa.

Vejamos:
P1 - Todo o homem é imortal (Falsa)
P2 - Sócrates é homem (Verdadeira)
C - Logo, Sócrates é imortal (Falsa - Inválida)

Neste caso, raciocinamos corretamente mas a nossa conclusão é falsa, logo, INVÁLIDA.

Ora e porquê?
Precisamente porque alguma das premissas de que partimos é falsa.

A VALIDADE do argumento depende, portanto, da ligação que se estabelece entre as


premissas e a conclusão.
5. SOLIDEZ
Vimos que um argumento válido (do ponto de vista do raciocínio)
pode ter premissas falsas.

Precisamos, por isso, que, além de válidos, os nossos argumentos


tenham efetivamente premissas verdadeiras.

Um argumento será, portanto, SÓLIDO sempre que seja válido e com


premissas que sejam mesmo verdadeiras.

Isto é fácil de compreender - Se queremos que os nossos argumentos


sejam aceites pelos outros, não basta que as premissas de que partimos
possam ser verdadeiras; é preciso que elas sejam realmente
verdadeiras.
Ninguém estará disposto a deixar-se convencer por raciocínios
corretos que partam de premissas duvidosas.

P1 – Todo o ator é norte-americano

P2 – Joaquim de Almeida é ator

C – Joaquim de Almeida é norte-americano

Precisamos, portanto, que as premissas sejam mesmo verdadeiras,


para que os nossos argumentos sejam sólidos.
A SOLIDEZ das Teorias Filosóficas
As teorias filosóficas, para além de válidas, sólidas e cogentes (forçosamente – as premissas têm que
ser mais credíveis do que a própria conclusão) são formadas por encadeamentos de argumentos, em que
algumas teses secundárias convergem para apoiar a tese principal.

Vejamos:
Assistimos hoje em dia a inúmeras discussões sobre a moralidade das touradas.
Ocorre ocasionalmente os seguintes argumentos, pró e contra:

P1- Os animais não humanos não têm quaisquer direitos morais, pois também não têm deveres.
P2- E só tem direitos quem tem deveres.
Conclusão - Como os animais não têm deveres, logo, não têm direitos

Podemos recorrer a um argumento válido, sólido e cogente para refutar este argumento:

P1 - Se só possuísse direitos morais quem tem deveres morais, então os bebés não teriam direitos, pois não têm
quaisquer deveres.
P2 - Ora, os bebés possuem direitos, mas não têm deveres morais.
Conclusão - Logo, é falso que só possui direitos quem tem deveres.
O processo argumentativo aqui esboçado nem sempre é
transparente, pois as teorias filosóficas incluem
frequentemente muitos outros aspetos - de carácter
histórico, de contextualização filosófica, de explicitação
de conceitos, de referência a perspetivas rivais e outros.

Mais do que argumentar a favor de uma tese, alguns


filósofos optam antes por desenvolver modelos teóricos
explicativos, procurando basear esses modelos em
suposições filosóficas fundamentais.
O QUADRADO DA OPOSIÇÃO
Uma característica notória da História da Filosofia é que os filósofos discordam entre
si, chegando mesmo a defender teses opostas.

Muitas vezes os filósofos defendem teses universais várias, como:


- Todo o conhecimento tem origem nos nossos sentidos;
- Nenhuma ação motivada apenas pelo interesse pessoal é moralmente correta;
- Outros ainda negam que as coisas sejam mesmo assim, considerando falsas essas
teses.

Mas não chega dizer que não se concorda. É preciso saber discordar, isto é, saber
como se nega uma dada proposição e o que se segue dessa posição.
Por vezes, temos dificuldade em saber o que se segue da negação de uma dada
tese ou proposição e não é raro pensarmos que discordamos sem, afinal,
discordarmos realmente.

Vejamos o seguinte exemplo:

1. O Sérgio defende que alguns doces não fazem bem à saúde e a Sofia discorda.

2. Para mostrar que a afirmação do Sérgio é falsa, a Sofia alega que alguns doces
fazem bem à saúde e até consegue dar vários exemplos.

Será que a Sofia discorda mesmo do Sérgio?

A resposta é que aquilo que a Sofia diz, não nega o que o Sérgio afirma, pois
pode perfeitamente ser verdadeiro o que ambos defendem.
Ora precisemos:

1. Se duas afirmações forem simultaneamente verdadeiras, NUNCA serão


a negação uma da outra.

2. Se duas afirmações forem a negação uma da outra, então não podem ter
ambas o mesmo valor de verdade: a verdade de uma implica a
falsidade da outra e vice-versa.

Assim, a negação de que “alguns doces não fazem bem à saúde” não é
“alguns doces fazem bem à saúde”.

Vejamos, então, como se negam teses ou proposições.


Há várias maneiras de classificar proposições.

Uma das mais comuns tem em conta o uso de QUANTIFICADORES.

Como o próprio termo indica, os quantificadores quantificam.

Vejamos:
Quando falamos de portugueses, tanto podemos estar a referir a totalidade dos
portugueses ou apenas uma parte deles. Tudo depende dos quantificadores
usados.

Assim, se juntarmos os termos “todos” ou “qualquer” aos portugueses, estamos


mesmo a referir a totalidade dos portugueses – Quantificadores UNIVERSAIS.

Mas se, em vez disso, usarmos “alguns”, “há”, “certos”, “muitos”, estamos a referir
apenas uma parte do universo dos portugueses – Quantificadores PARTICULARES.
Mas as proposições costumam também ser distinguidas pela sua QUALIDADE, ou
seja, por afirmarem ou negarem uma dada qualidade ou predicado a um certo
sujeito.

Exemplo:
1. Dizer que os filósofos são inteligentes é atribuir aos filósofos o predicado de ser
inteligente;
2. Por seu turno, dizer que os minhotos não são espanhóis é negar o predicado de
ser espanhol aos minhotos.

Daqui resultam mais dois tipos de proposições: as AFIRMATIVAS e as NEGATIVAS.


As proposições podem combinar QUALIDADE e QUANTIDADE, o que
dá origem a quatro tipos de proposições:

(A) Universais afirmativas;


(E) Universais negativas;
(I) Particulares afirmativas;
(O) Particulares negativas.

É o que se encontra no chamado “QUADRADO DA OPOSIÇÃO”


tradicionalmente aplicado apenas a coisas que realmente existem
deixando, por conseguinte, de fora, termos vazios como
“marcianos”, “sereias”, “lobisomens”, “vampiros”, etc.
Este quadrado permite-nos compreender melhor a relação entre
esses quatro tipos de proposições e é especialmente útil para
aprendermos a negar proposições quantificadas.
Uma vez que já sabemos o que temos em cada uma das pontas do quadrado,
interpretemos as setas que se observam, começando pela descrição associada a cada
uma.

1. As setas que se cruzam indicam uma relação de contraditoriedade entre proposições com diferentes quantidades e
qualidades.
2. Por sua vez, a seta que se observa no topo do quadrado indica uma relação de contrariedade, que se verifica apenas
entre proposições universais.
3. Por último, a seta que se observa na base do quadrado indica uma relação de subcontrariedade, que se verifica
apenas entre as proposições particulares.
Mas o que são
exatamente proposições
contraditórias, contrárias
e subcontrárias?
Vejamos a seguinte tabela:

Tipo de relação Descrição da relação Observações


Duas proposições contraditórias não São a negação uma da outra.
Contraditória podem ser nem verdadeiras nem Algum rico é feliz
falsas ao mesmo tempo. Nenhum rico é feliz

Duas proposições contrárias não Podem ser ambas falsas e, por isso, não são
Contrária podem ser ambas verdadeiras ao a negação uma da outra.
mesmo tempo. Todo rico é feliz
Nenhum rico é feliz
Duas proposições subcontrárias não Podem ser ambas verdadeiras, logo, não
Subcontrária podem ser ambas falsas ao mesmo são a negação uma da outra nem há entre
tempo. elas uma relação de oposição.
Algum rico é feliz
Algum rico não é feliz
Relações entre as proposições
Através das proposições e das setas do quadrado, podemos ver as varias relações que se podem
estabelecer entre A,E,I,O.

Vejamos:

Proposições contraditórias (A ↔ O e E ↔ I):


São proposições que diferem quanto à quantidade e qualidade.
Exemplo:
Todos os homens são brancos (A) e Alguns homens não são brancos (O);
Nenhum homem é branco (E) e Alguns homens são brancos (I).

Proposições contrárias (A ↔ E):


São proposições universais que diferem só pela qualidade (negação ou afirmação).
Exemplo:
Todos os homens são brancos (A) e Nenhum homem é branco (E).

Proposições subcontrárias (I ↔ O):


São proposições particulares que diferem só pela qualidade.
Exemplo:
Alguns homens são brancos (I) e Alguns homens não são brancos (O).
Posto isto, torna-se agora bastante mais
fácil determinar qual a negação de uma
dada proposição.

Assim, a negação de “Todos os ricos são


felizes” é “Alguns ricos não são felizes” e
vice-versa.

Em síntese:
A negação de uma proposição
quantificada é um proposição com os
mesmos termos mas com diferente
quantidade e qualidade.

Isto significa, por exemplo, que se uma


proposição é particular afirmativa, a sua
negação é universal negativa.
Exercícios:

Recorrendo à tabela do Quadrado da Oposição apresenta:

1. O contrário de Nenhum número é par


2. O contraditório de alguns números são pares
3. O contraditório de todo o número é par
4. O subcontrário de algum número não é par
5. O contraditório de os matemáticos não são atrapalhados
6. O subcontrário de alguns corpos graves não tendem para
cima
Resolução:

1. O contrário de Nenhum número é par


TODO…
2. O contraditório de alguns números são pares
NENHUM…
3. O contraditório de todo o número é par
ALGUM NÃO É…
4. O subcontrário de algum número não é par
ALGUM É…
5. O contraditório de os matemáticos não são atrapalhados
ALGUM É…
6. O subcontrário de alguns corpos graves não tendem para cima
ALGUNS TENDEM…
FORMAS DE INFERÊNCIA VÁLIDA

Inferir é concluir a partir de algo.

As INFERÊNCIAS são raciocínios ou argumentos que


tanto podem ser válidas como inválidas.

Merecem atenção por serem muito comuns na


nossa argumentação.
Conectivas proposicionais

As proposições podem ser simples ou complexas;

Uma proposição será simples sempre que não contenha


qualquer uma das cinco conectivas que iremos estudar, como
a conjunção (“e”).

Assim, “Marcelo Rebelo de Sousa gosta de fado” é simples,


ao passo que “Marcelo Rebelo de Sousa gosta de fado e de
rock” é complexa.
À exceção das proposições complexas que resultam exclusivamente da
negação, todas as outras são no fundo compostas por mais de uma
proposição.

Neste caso, temos duas:

A expressa pela frase:

Marcelo Rebelo de Sousa gosta de fado

E a expressa pela frase

Marcelo Rebelo de Sousa gosta de rock”, estando ambas ligadas pela


conectiva “e”, ficando:

Marcelo Rebelo de Sousa gosta de fado e de rock


As conectivas são muito importantes, pois o mesmo par de
proposições simples ligadas por uma dada conectiva pode ter um
valor de verdade diferente do que teria se estivessem ligadas por
qualquer outra conectiva.

Vejamos:
A ponte da Arrábida fica em Lisboa ou no Porto - é verdadeira.
Mas, A ponte da Arrábida fica em Lisboa e no Porto - é falsa.
A chamada lógica proposicional é a teoria lógica que trata dos
argumentos que resultam do uso das conectivas.

A maioria dos argumentos que usamos habitualmente são deste


género.

As conectivas são cinco: Negação (“não”), Conjunção (“e”),


Disjunção (“ou”), Condicional (“se”) e Bicondicional (“se e só se”).
A única que não liga duas proposições é a negação,
havendo por isso quem considere não se tratar de
uma verdadeira conectiva como as outras.

Cada conectiva tem um símbolo próprio, como


adiante indicaremos.
Para determinar a validade dos argumentos, o que interessa é a sua
forma lógica, e não tanto o seu conteúdo, pelo que se recorre a uma
linguagem lógica, de modo a representar com clareza a estrutura dos
argumentos — e das proposições que os constituem.

Daí que se usem também as letras P, Q, R, etc., para representar


proposições simples — sendo, por isso, chamadas letras ou variáveis
proposicionais.

As proposições simples serão então as proposições que não


contenham qualquer ocorrência de qualquer uma das cinco
conectivas.
Vejamos:
Designação Exemplo Dicionário Formalização

Proposição simples P: Sócrates é filósofo.


Sócrates é filósofo. P

Negação Sócrates não nasceu no Porto. P: Sócrates nasceu no Porto. ¬P

Conjunção P: Sócrates é grego. P∧Q


Sócrates é grego e filósofo. Q: Sócrates é filósofo.

Disjunção P: O Rui compreendeu a matéria.


O Rui compreendeu ou Q: O Rui decorou a matéria. P∨Q
decorou a matéria.

Condicional Se a arte é bela, então tem valor. P: A arte é bela.


Q: A arte tem valor. P→Q

Bicondicional A arte tem valor se e só se for bela. P: A arte tem valor. P ↔Q


Q: A arte é bela.
Como se pode ver, a formalização é a representação da forma
lógica de uma proposição ou de um argumento.

A formalização é, uma espécie de radiografia da estrutura lógica


da proposição ou do argumento, revelando apenas o que interessa.

Ao processo inverso — de partir de uma fórmula para


reconstruímos a proposição expressa na linguagem natural
— chama-se interpretação de fórmulas.
Se prestarmos atenção ao quadro anterior também
ficamos a compreender que as letras P, Q, etc., são variáveis
proposicionais;

Elas podem representar qualquer proposição,


cabendo a nós estabelecer a correspondência.

Por sua vez, os símbolos ¬, ∧,∨,→ e ↔ são constantes,


representando cada um deles sempre a mesma conectiva.
É importante realçar que as conectivas não representam
apenas aquelas palavras que ilustramos no quadro anterior,
mas qualquer palavra ou expressão que operem do
mesmo modo.

Assim, uma conjunção tanto pode ser expressa na


linguagem natural pela palavra “e” como pela palavra “mas”
ou por expressões como “tanto... como...” e outras.
Proposição Dicionário Formalização

A arte não tem utilidade. P: A arte tem utilidade. ¬P


Não é verdade que a arte tem utilidade.

Platão e Aristóteles são filósofos.

Tanto Platão como Aristóteles são filósofos. P: Platão é filósofo. P∧Q


Q: Aristóteles é filósofo.
Quer Platão quer Aristóteles são filósofos.

Platão é filosofo, mas Aristóteles também.

Platão é filósofo, embora Aristóteles também o seja.


Camões ou Bocage eram de Setúbal. P: Camões era de Setúbal. P∨Q
Q: Bocage era de Setúbal.
Camões e Bocage, um deles era de Setúbal.

Se Sócrates era filósofo, então era grego. P: Sócrates era filósofo. P→Q
Q: Sócrates era grego.
Se Sócrates era filósofo, era grego.

Sócrates era grego, se era filósofo.

Deus perdoa se e só se for bom. P: Deus perdoa. P↔Q


Deus perdoa se e apenas se for bom. Q: Deus é bom.

Deus perdoa se for bom, e vice-versa.


Esta linguagem proposicional tem a vantagem de
permitir representar proposições bastante mais
complexas.

Apenas é preciso recorrer aos parêntesis para


representar adequadamente proposições com
duas ou mais conectivas.

Vejamos o que se segue…


Conectivas Exemplo Dicionário Formalização

Negação e Não é verdade que, se a Ana estuda, tem P: A Ana estuda.


condicional. boa nota no teste. Q: A Ana tem boa nota no teste. ¬ (P → Q)

Condicional e negação Se a Ana estuda, não terá problemas. P: A Ana estuda.


Q: A Ana terá problemas. P→¬Q

Conjunção, P: Sócrates é grego.


conjunção Sócrates é grego, filósofo e muito Q: Sócrates é filósofo. P∧Q∧R
inteligente.
R: Sócrates é muito inteligente.

Conjunção, condicional P: A Ana estuda.


e negação A Ana estuda e, se estiver com atenção, não Q: A Ana está com atenção. P ∧ (Q → ¬ R)
terá problemas com o teste. R: A Ana tem problemas com o teste.

Bicondicional, P: A arte tem valor.


conjunção e negação A arte tem valor se e só se emocionar e Q: A arte emociona. P ↔ (Q ∧¬ R)
não for feia.
R: A arte é feia.

Disjunção, conjunção P: Trabalhas muito.


e condicional Trabalhas muito ou tens talento e, se (P ∨ Q) ∧ (R → S)
Q: Tens talento.
tiveres sorte, terás sucesso. R: Tens sorte.
S: Tens sucesso.
Os parêntesis indicam qual o âmbito (ou alcance) da conectiva que
imediatamente os antecede.

Na primeira coluna indica-se a negrito a conectiva que tem maior âmbito.

Há casos em que não é tarefa fácil decidir, na língua portuguesa, qual a


conectiva com maior âmbito, mas, na maior parte dos casos, isso é
razoavelmente claro.

Note-se também que o dicionário apenas inclui frases declarativas


gramaticalmente completas e que estas surgem geralmente no presente do
indicativo, dado que a lógica proposicional clássica é insensível aos tempos
verbais.
Exercícios

1 “Florbela não gosta de Raimundo nem é estudiosa”.


2 “Não é verdade que Raimundo seja trabalhador e divertido”.
3 “Raimundo não é trabalhador mas é divertido”.
4 “Raimundo não é honesto ou ele gosta tanto de Flor como de Beatriz”.
5 “Raimundo gosta de Florbela ou de Beatriz, mas não de ambas em
simultâneo”.
6 “Raimundo vai convidar Florbela, a não ser que tenha de trabalhar”.
7 “Se Florbela admira Platão ou Aristóteles, então não admira Descartes”.
8 “Raimundo admira Platão se, e apenas se, não admira Aristóteles nem Hume”.
9 “Platão e Aristóteles são ambos filósofos, mas Aristófanes não é”.
10 “A inflação vai subir, a menos que o desemprego se mantenha acima do
10%”
Recordando :
Conectivas proposicionais Linguagem natural Símbolos das conectivas
“não…”,
Negação “não é verdade que…”, ¬
“é falso que…”
“… e…”,
“tanto… como…”,
Conjunção mas… também…”
Ʌ
“… ou…”,
“… a não ser que…”,
Disjunção “… a menos que…” V
“… ou…ou”
“... ou…, mas não ambos”
“se… então…”,
Condicional “… desde que…”, →
“… só se…”
“… se e só se…”,
Bicondicional
“se e somente se…”, ↔

“… condição necessária e suficiente…”,


“Florbela não gosta de Raimundo nem é
estudiosa”.

Dicionário:
• p = “Florbela gosta de Raimundo”.
• q = “Florbela é estudiosa”.

Formalização:
• ¬p ∧ ¬q
“Não é verdade que Raimundo seja trabalhador
e divertido”.

Dicionário:
• p = “Raimundo é trabalhador”.
• q = “Raimundo é divertido”.

Formalização:
• ¬(p ∧ q)
“Raimundo não é trabalhador mas é divertido”.

Dicionário:
• p = “Raimundo é trabalhador”.
• q = “Raimundo é divertido”.

Formalização:
• ¬p ∧ q
“Raimundo não é honesto ou ele gosta tanto de
Flor como de Beatriz”.

Dicionário:
• p = “Raimundo é honesto”.
• q = “Raimundo gosta de Flor”.
• r = “Raimundo gosta de Beatriz”.

Formalização:
• ¬p ∨ (q ∧ r)
“Raimundo gosta de Florbela ou de Beatriz, mas
não de ambas em simultâneo”.

Dicionário:
• p = “Raimundo gosta de Florbela”.
• q = “Raimundo gosta de Beatriz”.

Formalização:
• (p ∨ q) ∧ ¬(p ∧ q)
“Raimundo vai convidar Florbela, a não ser que
tenha de trabalhar”.

Dicionário:
• p = “Raimundo vai convidar Florbela”.
• q = “Raimundo tem de trabalhar”.

Formalização:
• ¬q → p
“Se Florbela admira Platão ou Aristóteles, então
não admira Descartes”.

Dicionário:
• p = “Florbela admira Platão”.
• q = “Florbela admira Aristóteles”.
• r = “Florbela admira Descartes”.

• Formalização:
• (p ∨ q) → ¬r
“Raimundo admira Platão se, e apenas se, não
admira Aristóteles nem Hume”.

Dicionário:
• p = “Raimundo admira Platão”.
• q = “Raimundo admira Aristóteles”.
• r = “Raimundo admira Hume”.

Formalização:
• p ↔ (¬q ∧ ¬r)
“Platão e Aristóteles são ambos filósofos, mas
Aristófanes não é”
Dicionário:
• p = “Platão é filósofo”.
• q = “Aristóteles é filósofo”.
• r = “Aristófanes é filósofo”.
Formalização:
• (p ∧ q) ∧ ¬r
“A inflação vai subir, a menos que o desemprego
se mantenha acima dos 10%”

Dicionário:
• p = “A inflação vai subir”.
• q = “O desemprego mantem-se acima dos 10%”.

Formalização:
•p∨q
TABELAS DE VERDADE

São diagramas lógicos que listam todas as possíveis


combinações de valores de verdade para cada variável
proposicional (letra) existente nas fórmulas proposicionais.

Mostram, se essas fórmulas proposicionais são verdadeiras ou


falsas em cada uma das possíveis combinações de valores de
verdade.
TABELAS DE VERDADE

Para quê formalizar proposições numa linguagem simbólica


diferente da linguagem natural?

A resposta é simples – para facilmente calcular em que


circunstâncias uma dada proposição é verdadeira e em que
circunstâncias ela é falsa.

Comecemos pela mais fácil, que é a negação.


NEGAÇÃO

Imaginemos a fórmula proposicional ¬P, em que P significa “Portugal é uma monarquia.”


Em que condições a fórmula ¬P é verdadeira e em que condições é falsa?

Vejamos a tabela: P ¬P
Portugal é uma monarquia Portugal não é uma monarquia
V F
F V
A tabela apresenta todas as circunstâncias possíveis na coluna da esquerda:
Neste caso, são apenas duas: P é verdadeira ou P é falsa.

Assim:
Quando P é verdadeira, a sua negação (¬P), é falsa;
Quando P é falsa, a sua negação (¬P), é verdadeira, como se verifica na coluna da direita.
A tabela mostra-nos, então, que a negação de uma proposição altera o valor de verdade da proposição da qual partimos:

Se esta é verdadeira, a sua negação é falsa e se for falsa, a sua negação é verdadeira.

Vejamos como se processa na CONJUNÇÃO:

O Mónaco é um estado e uma cidade

Neste caso, encontramos duas proposições simples, que podem ser representadas pelas variáveis P e Q, respetivamente, as
quais estão ligadas por uma conectiva de conjunção.

Consideremos então as 04 combinações possíveis de valores de verdade de P e Q:


PQ P∧Q
P: Mónaco é um estado Mónaco é um estado e uma
Q: Mónaco é uma cidade cidade
Resumindo:
VV V A tabela mostra que uma
conjunção só é verdadeira
VF F quando as duas proposições
componentes são verdadeiras.
FV F
FF F
Passemos agora para a DISJUNÇÃO (INCLUSIVA) e consideremos a seguinte proposição:

O Mónaco é um estado ou uma cidade

Neste caso, encontramos também duas proposições simples, que podem ser representadas pelas variáveis P ou Q,
respetivamente, as quais estão ligadas por uma conectiva de disjunção.

Consideremos então as 04 combinações possíveis de valores de verdade de P ou Q:

PQ P∨Q
P: Mónaco é um estado Mónaco é um estado ou uma cidade
Q: Mónaco é uma cidade
VV V
VF V
FV V
FF F

Resumindo:
- A disjunção é verdadeira desde que uma das proposições que a compõem seja também verdadeira;
- Será falsa quando duas proposições componentes forem falsas.
No entanto, nas ditas disjunções exclusivas, o cenário pode ser ligeiramente diferente.

Vejamos:

O Ricardo nasceu em junho ou em julho

Nesta proposição exclui-se a possibilidade de ele ter nascido em ambos os meses pelo que, sendo a conectiva
diferente, apresenta as seguintes condições de verdade:
PQ P⩒Q
Resumindo:
P: O Ricardo nasceu em junho O Ricardo nasceu em junho ou A tabela mostra
Q: O Ricardo nasceu em julho em julho que uma
VV F disjunção
exclusiva só é
VF V verdadeira
quando uma
das duas
FV V
proposições
componentes
FF F for verdadeira.
Consideremos agora uma CONDICIONAL / IMPLICAÇÃO:

Se a Ana tirar onze valores no exame de Filosofia, então passa de ano

Numa condicional chama-se antecedente à proposição que está associada ao “SE” e consequente à proposição
associada ao “ENTÃO”, mesmo que este esteja subentendido e independentemente de qual surge em primeiro
lugar.
PQ P→Q
VV V
VF F
FV V
FF V

NOTA: O facto de a antecedente ser falsa, NÃO implica que a condicional seja falsa também.
Atendendo ao exemplo, a Ana pode ter tirado uma nota diferente de 11 e ter passado na mesma.

Resumindo: uma condicional só é falsa quando a antecedente (a que vem antes de →) é verdadeira e a
consequente (a que vem depois de →) é falsa.
Finalmente, vejamos a tabela da BICONDICIONAL / CO-IMPLICAÇÃO.

Consideremos o exemplo seguinte:

A Ana passa de ano se e só se tiver pelo menos onze valores no exame de Filosofia

PQ P↔Q

VV V
VF F
FV F
FF V

Resumindo: uma Bicondicional só é verdadeira quando ambas as proposições coincidem em valor de


verdade
RECORDANDO:

Negação Conjunção

P Q P ^ Q
P ¬ P V V V
V F V F F
F V F
F V F F F
Disjunção Inclusiva Disjunção Exclusiva

P Q P V Q P Q P V Q
V V V V V F
V F V V F V
F V V F V V
F F F F F F
RECORDANDO:

Condicional / Implicação Bicondicional / Co-implicação

P Q P ↔ Q
P Q P → Q
V V V
V V V

V F F V F F

F V V F V F

F F V F F v
Parece, portanto, relativamente simples determinar em que condições uma dada
proposição é verdadeira (ou falsa), mesmo sem fazermos qualquer tabela de verdade.

Contudo, há proposições mais complexas do que as apresentadas, em que as tabelas


são uma grande ajuda.

Pensemos, por exemplo, na seguinte proposição:

A arte tem valor se e só se emocionar e não for feia

Formalização:
P ↔ (Q ∧¬R)

Uma tabela de verdade dá-nos a solução, não só nesse caso mas em todos os casos
possíveis.
Vejamos a tabela, que tem agora três variáveis (P, Q, R) e as combinações possíveis que aumentam para oito, em
vez de quatro:

Formalização: Metodologia:
P ↔ (Q ∧¬R)
1. Copiar da coluna Esquerda os valores
P Q R P ↔ (Q ∧ ¬ R) da variável P;

V V V V F V F F 2. Trabalhar o valor das variáveis entre


parêntesis de menor âmbito (¬),
V V F V V V V V negando R, em obediência à fórmula;
V F V V F F F F 3. Copiar da coluna Esquerda os valores
V F F V F F F V da variável Q;

F V V F V V F F 4. Trabalhar os valores da Conjunção que


está entre parêntesis (Q∧¬ R).
F V F F F V V V
5. Trabalhar os valores determinados
F F V F V F F F pela Bicondicional entre P e os
F F F F V F F V resultados extraídos de (Q∧¬ R).
Relação entre o NÚMERO DE VARIÁVEIS e o NÚMERO DE PROPOSIÇÕES (combinações)

Exemplos:

Nº VARIÁVEIS ------------------ 01 ---------- 02 ---------- 03 ---------- 04

Nº COMBINAÇÕES ----------- 02 ---------- 04 ---------- 08 ---------- 16


Assim, esta tabela permite-nos concluir que as
proposições deste exemplo só serão verdadeiras
quando ambas as proposições coincidem em valor
de verdade.

As tabelas são úteis porque nos ajudam a decidir


que condições têm que se verificar para uma dada
afirmação ser verdadeira.
Tabelas de verdade e teste de validade de formas
argumentativas

Apesar do que foi dito, a utilidade das tabelas revela‐se


quando precisamos de testar a validade de argumentos.

O método das tabelas de verdade serve para testar a validade


de argumentos, pois ainda que eles sejam válidos ou inválidos,
são constituídos por proposições (premissas e conclusão), que
são verdadeiras ou falsas.
Uma vez que já sabemos que um argumento válido não pode ter premissas
verdadeiras e conclusão falsa, podemos então colocar lado a lado as tabelas
de verdade das premissas e a da conclusão, de modo a ver se alguma vez se
verifica aquelas serem verdadeiras e esta falsa.

Se tal acontecer, uma vez que seja, ficamos a saber que o argumento é
inválido.

Vejamos o seguinte argumento:


P1 - O Universo é fruto do acaso ou foi intencionalmente criado por um ser

inteligente.

P2 - Porém, o Universo não é fruto do acaso.

C - Logo, foi intencionalmente criado por um ser inteligente.


Para determinar se é válido ou não, começamos por representar a
forma lógica de cada uma das proposições, depois de compor o
dicionário:

P: O Universo é fruto do acaso.


Q: O Universo foi intencionalmente criado por um ser inteligente.

Formalizamos, de seguida, a forma argumentativa escrevendo cada


premissa numa linha diferente e a conclusão, precedida pelo respetivo
símbolo - “∴”, na última:

P1 P ∨ Q
P2 ¬P
C ∴Q
O que fazemos agora é uma sequência de tabelas de verdade, uma para cada

premissa e outra para a conclusão, a que se chama também Inspetor de


circunstâncias.

PVejamos:
Q P∨Q ¬P ∴Q
1P 2P C
VV V F V
VF V F F
FV V V V
FF F V F
Cada linha da tabela corresponde a uma circunstância
possível.
Examinemos este Inspetor para ver se há alguma
circunstância em que as duas premissas sejam verdadeiras
e a conclusão falsa.
Ora, só na terceira circunstância as duas premissas são
verdadeiras.
Mas nessa mesma circunstância a conclusão também é
verdadeira. Logo, a forma argumentativa é válida.
Vejamos agora outro argumento:

P1 - Se Deus existe, a vida faz sentido;


P2 – Porém, Deus não existe;
C --- Logo, a vida não faz sentido

Usando o dicionário:
P: Deus existe
Q: A vida faz sentido

Formalização:
P→Q
¬P
∴ ¬Q
Vejamos agora a tabela:
1P 2P C

PQ P→Q ¬P ∴ ¬Q
Circ. 1 VV V F F
Circ. 2 VF F F V
Circ. 3
FV V V F
Circ. 4
FF V V V
Como se vê, agora temos duas circunstâncias em que as duas premissas são verdadeiras.

Contudo, numa delas a conclusão é falsa.

Logo, a forma argumentativa é inválida.


É incorreto dizer que esta forma
argumentativa é válida na quarta fila e
inválida na terceira.

Um argumento ou é válido ou não; é


incorreto afirmar que é válido nalgumas
circunstâncias e inválido noutras.
Ser válido é não haver circunstância em
que as premissas sejam verdadeiras e a
conclusão falsa.

Basta haver uma circunstância em que as


premissas são verdadeiras e a conclusão
falsa para que o argumento seja INVÁLIDO.
É preciso também notar que a validade de um argumento NÃO depende daquilo
que nele se afirma, isto é, do seu conteúdo, mas da sua forma lógica.

Para sabermos se um argumento é válido nada mais temos de fazer senão atender à
forma como está estruturado.

É por isso que um argumento pode ser válido mesmo que nele se afirmem as
coisas mais inverosímeis do mundo.

Vejamos:

Se as bananas têm asas, a água é uma estrela.

Acontece que as bananas têm asas.

Logo, a água é uma estrela.


Não é suficiente portanto um argumento ser válido para termos de o
aceitar, mostrando assim que nem todos os argumentos válidos são
bons.

Queremos também que um argumento seja sólido, i.e. que, além de


ser válido, tenha premissas verdadeiras.

Assim, se um argumento for válido e tiver premissas verdadeiras somos,


racionalmente, obrigados a aceitar a sua conclusão.

Se não quisermos aceitar a conclusão de um argumento válido, só nos


resta, então, mostrar que alguma das premissas é falsa.
Exercícios:
Determina, com recurso a Inspetores de Circunstância, se as seguintes
fórmulas argumentativas são válidas ou inválidas:

a) Se César conquistar a Gália, triunfa em Roma; Não conquista a Gália.


Logo, não triunfa em Roma.
b) Se Cícero é um orador persuasivo, então utiliza um discurso sedutor e
cativa o auditório; Cícero é um orador persuasivo. Logo, Cícero cativa o
auditório.
c) Se Deus existe, então não há mal no mundo; Há mal no mundo. Logo,
Deus não existe.
d) Se os cavalos têm asas, o ouro é azul; Acontece que as cavalos têm asas.
Logo, o ouro é azul.
Resolução:
a)
Se César conquistar a Gália, triunfa em Roma;
P→Q
Não conquista a Gália.
¬P
Logo, não triunfa em Roma.
∴ ¬Q 1P 2P C
PQ P→Q ¬P ∴ ¬Q
Circ. 1 VV V F F
Circ. 2 VF F F V
Circ. 3 FV V V F
Circ. 4 FF V V V
Forma argumentativa INVÁLIDA porque não pode ser
válida numa circunstância e inválida noutra.
b)
Se Cícero é um orador persuasivo, então utiliza um discurso sedutor e cativa o auditório;
P→(Q∧R)
Forma argumentativa VÁLIDA porque não há a
Cícero é um orador persuasivo. possibilidade das premissas serem verdadeiras e
P a conclusão falsa
Logo, Cícero cativa o auditório.
1P 2P C
∴R
PQR P → (Q∧R) P ∴R
Circ. 1 VVV V V V V
Circ. 2 VVF F F V F
Circ. 3 VFV F F V V
Circ. 4 VFF F F V F
Circ. 5 FVV V V F V
Circ. 6 FVF V F F F
Circ. 7 FFV V F F V
Circ. 8 FFF V F F F
C)

Se Deus existe, então não há mal no mundo;


P→ ¬Q
Há mal no mundo.
Q
Logo, Deus não existe.
∴ ¬P

1P 2P C
PQ P → ¬Q Q ∴ ¬P
Circ. 1 VV F F V F
Circ. 2 VF V V F F
Circ. 3 FV V F V V
Circ. 4 FF V V F V
Forma argumentativa VÁLIDA porque não há a possibilidade
das premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa
d)
Se os cavalos têm asas, o ouro é azul;
P→Q
Acontece que os cavalos têm asas.
P
Logo, o ouro é azul.
∴Q 1P 2P C
PQ P→Q P ∴Q
Circ. 1 VV V V V
Circ. 2 VF F V F
Circ. 3 FV V F V
Circ. 4 FF V F F
Forma argumentativa VÁLIDA porque não há a possibilidade
das premissas serem verdadeiras e a conclusão falsa
Regras de Inferência
Há muitos casos em que podemos dispensar o teste de validade
das tabelas de verdade, pois há formas de inferência válida
muito comuns e que são facilmente reconhecíveis.

Trata-se de formas argumentativas em que a verdade das


premissas, sejam elas quais forem, garante a verdade da
conclusão.

Apesar de o número de formas argumentativas válidas ser


infinito, algumas são tão comuns que têm nome próprio e são
consideradas regras de inferência.
Dupla negação
Na lógica proposicional, a dupla negação é o teorema que afirma que:

Se uma declaração é verdadeira, então não é o caso de que a declaração


não é verdadeira.

Isto é expresso ao dizer que uma proposição P é logicamente


equivalente a não (não-P)

Exemplo:
P A riqueza vem do trabalho
∴ ¬ ¬P Logo, não é verdade que a riqueza não vem do trabalho.
Modus Ponens & Modus Tollens
Duas inferências válidas muito usadas na argumentação são o
MODUS PONENS (modo de afirmação) e o MODUS TOLLENS
(modo de negação).

Modus Ponens
Se amo, então sou feliz P→Q
Afirmo o antecedente… (amo) P
∴ Afirmo o consequente (então sou feliz) ∴Q
Modus Tollens
Se amo, então sou feliz P→Q
Nego o Consequente… (Não sou feliz) ¬Q
∴ Nego o antecedente… (então, não amo) ∴ ¬P

As variáveis P e Q presentes podem ser substituídas por


qualquer proposição, sejam simples ou complexas.

Vejamos o seguinte:
Exemplo de Modus Ponens

¬P→(Q→R) ---------------- Se é verdade que Deus não existe, isso


implica que ser bom é ser estúpido

¬P) --------------- Afirmo o antecedente como ele se apresenta na


proposição
É verdade que Deus não existe

∴ Q→R ---------- Afirmo o consequente como ele se apresenta na


proposição
Então, ser bom é ser estúpido
Exemplo de Modus Tollens

¬P→(Q→R) ---------------- Se é verdade que Deus não existe, isso


implica que ser bom é ser estúpido

¬(Q→R) --------------- Nego o consequente da proposição


Não é verdade que ser bom é ser estúpido

∴ ¬¬P ------------------- Nego o antecedente da proposição


Então, não é verdade que Deus não existe
Silogismo Hipotético

No silogismo hipotético, se uma proposição P implica uma


proposição Q, e se essa proposição Q implica uma proposição R,
segue-se, transitivamente, que a proposição P implica a proposição
R.

Exemplo:

Se a arte agrada, então é bela P→Q


Se é bela, tem valor Q→R
Logo, se a arte agrada, tem valor ∴P→R
Silogismo Hipotético

Outro Exemplo:

Não é verdade que se tivermos transporte e tivermos dinheiro,


optaremos por ficar em casa e não ajudar o pai
¬ (P ∧ Q) → (R ∧ ¬S)
Se optarmos por ficar em casa e não ajudar o pai isso implica ficar de
castigo e não receber a mesada
(R ∧ ¬S) → (T ∧ ¬ U)
Logo, se não é verdade que se tivermos transporte e tivermos
dinheiro, isso implique ficar de castigo e não receber a mesada
∴ ¬ (P ∧ Q) → (T ∧ ¬ U)
Silogismo Disjuntivo (Aplica-se a ambas formas de disjunção)

No silogismo disjuntivo, a primeira premissa apresenta uma


disjunção.
A segunda premissa nega uma das disjuntivas.
A conclusão afirma a outra disjuntiva.

Vejamos:
P V Q – Paulo compra um carro ou guarda o dinheiro
¬P ------ Paulo não compra um carro
∴ Q ----- Então, Paulo guarda o dinheiro
Silogismo Disjuntivo

Outro Exemplo:

Não é verdade que teremos férias e teremos dinheiro, ou ficaremos


em casa e faremos grandes petiscos
¬ (P ∧ Q) V (R ∧ S)
Não é verdade que ficaremos em casa e faremos grandes petiscos
¬ (R ∧ S) - Negação da 2ª Premissa
Logo, não é verdade que teremos férias e teremos dinheiro
∴ ¬ (P ∧ Q)
Equivalências lógicas – Leis de De Morgan & Contraposição

Duas fórmulas proposicionais com os mesmos valores de


verdade em quaisquer circunstâncias são fórmulas equivalentes.

Se tivermos fórmulas equivalentes poderemos, de uma dada


fórmula, inferir a outra, mantendo os mesmos valores de
verdade e fazer inferências válidas.

Augustus de Morgan formulou equivalências importantes a


partir dos seguintes princípios:
1. A negação da disjunção (P V Q) é igual à conjunção (¬P ∧ ¬Q)
¬(P V Q) = (¬P ∧ ¬Q)
Exemplo:
Não é verdade que há sol ou chuva
∴ Não há sol e não há chuva

2. A negação da conjunção ¬(P ∧ Q) é igual à disjunção (¬P V ¬Q)


¬(P ∧ Q) = (¬P V ¬Q)
Exemplo:
Não é verdade que pinto e escrevo
∴ Não pinto ou não escrevo
Uma outra equivalência lógica a partir da qual podemos fazer
inferências é a Contraposição.

Vejamos:
P→Q Se amo então sou feliz
∴¬P→¬Q Não amo, então não sou feliz

¬P→¬Q Se não tenho dinheiro, não posso trocar de carro


∴ P→Q Tenho dinheiro, então posso trocar de carro
Exercícios:
Indicar a inferência presente em cada um dos seguintes argumentos
Nome Exemplo Forma lógica

Não é verdade que o conhecimento não vem da experiência. ¬¬P


Logo, o conhecimento vem da experiência. ∴P
Se Deus existir, a vida tem sentido. P→Q
Deus existe. P
Logo, a vida tem sentido. ∴Q
Se Deus existir, a vida tem sentido. P→Q
Dado que a vida não tem sentido, ¬Q
∴ ¬P
segue‐se que Deus não existe.
Se Deus existir, a vida tem sentido. P→Q
Portanto, se a vida não tiver sentido, Deus não existe. ∴ ¬Q → ¬P
Deus existe ou a vida é absurda. P∨Q
Ora, Deus não existe. ¬P
Daí que a vida seja absurda. ∴Q
Se a arte agrada, então é bela. P→Q
Se é bela, tem valor. Q→R
Logo, se a arte agrada, tem valor. ∴P→R
Não é verdade que a arte é bela ou provocatória. ¬(P ∨ Q)
Logo, a arte não é bela nem é provocatória. ∴ ¬P ∧ ¬Q

Não é verdade que a democracia e a ditadura sejam boas. ¬(P ∧ Q)


Assim, ou a democracia não é boa ou a ditadura não é boa. ∴ ¬P ∨ ¬Q
Soluções:
Nome Exemplo Forma lógica

Não é verdade que o conhecimento não vem da experiência. ¬¬P


Logo, o conhecimento vem da experiência. ∴P
Dupla Negação
Se Deus existir, a vida tem sentido. P→Q
Deus existe. P
Modus Ponens Logo, a vida tem sentido. ∴Q
Se Deus existir, a vida tem sentido. P→Q
Dado que a vida não tem sentido, ¬Q
Modus Tollens ∴ ¬P
segue‐se que Deus não existe.

Se Deus existir, a vida tem sentido. P→Q


Contraposição Portanto, se a vida não tiver sentido, Deus não existe. ∴ ¬Q → ¬P

Deus existe ou a vida é absurda. P∨Q


Silogismo disjuntivo Ora, Deus não existe. ¬P
Daí que a vida seja absurda. ∴Q
Se a arte agrada, então é bela. P→Q
Silogismo hipotético Se é bela, tem valor. Q→R
Logo, se a arte agrada, tem valor. ∴P→R

Negação da Não é verdade que a arte é bela ou provocatória. ¬(P ∨ Q)


Disjunção Logo, a arte não é bela nem é provocatória. ∴ ¬P ∧ ¬Q
Leis de De Morgan
Negação da Não é verdade que a democracia e a ditadura sejam boas. ¬(P ∧ Q)
Conjunção Assim, ou a democracia não é boa ou a ditadura não é boa. ∴ ¬P ∨ ¬Q
PRINCIPAIS FALÁCIAS FORMAIS

Uma falácia é um argumento que parece bom mas não é.

Dado que um argumento tem de ser válido para ser


bom, uma das maneiras de parecer bom sem o ser é parecer
que tem uma forma válida sem a ter.

Uma falácia formal é precisamente um argumento que


parece ter forma válida sem a ter.
As falácias também podem ser chamadas
sofismas - raciocínios elaborados
maliciosamente a fim de enganar o
interlocutor - ou paralogismos -
raciocínios meramente falsos.
Nas falácias os erros são sempre
intencionais.
Em filosofia, as falácias fazem parte da lógica,
sendo definidas, como erro de argumentação ou
de raciocínio, aplicando-se àqueles argumentos
que, apesar de incorretos, podem parecer
convincentes, de modo que apenas um exame
cuidadoso é capaz de revelar seu erro.
As Falácias formais são erros que dizem respeito à forma de um raciocínio, independentemente de

seu conteúdo, violando, alguma regra formal das diversas que são tratadas no campo da lógica.

Vejamos o seguinte exemplo de falácia formal:

Messi é craque;

Cristiano Ronaldo é craque;

Logo, Messi é Cristiano Ronaldo

Este exemplo é um tipo do que chamamos de inferência lógica e pode ser logicamente apresentado

da seguinte maneira:
A=B
C=B
C=A
Falácias formais são, portanto, aquelas que podem
ser identificadas através da análise da forma lógica
de um argumento.

As falácias formais são encontradas apenas em


argumentos dedutivos com formas identificáveis.

Uma das coisas que fazem esses argumentos


parecer razoáveis é o fato de que eles se parecem
com argumentos logicamente válidos.
Afirmação do consequente

Afirmar o consequente é uma falácia formal que ocorre


quando se conclui de uma declaração condicional
verdadeira, o seu contrário.

Vejamos:

Se Mariana estudar muito, entrará na universidade.


Mariana entrou na universidade.
Portanto, Mariana estudou muito.
Esse argumento é falacioso porque?

Porque mesmo que as premissas sejam verdadeiras, a


conclusão pode ser falsa.
Supondo que Mariana tenha entrado na universidade, não
podemos concluir disso que tenha estudado muito. Ela pode ter
copiado na prova, tido sorte, ter poucos candidatos
concorrentes etc.
A forma lógica desse argumento é a seguinte:

Se P, então Q.
Q é verdadeiro.
Então P é verdadeiro.
O que torna esse argumento convincente muitas vezes é sua
semelhança com uma forma dedutivamente válida chamada de
Modus Ponens.

A forma lógica desse argumento é a seguinte:


Se P, então Q.
P é verdadeiro.
Então Q é verdadeiro.

Se chover, o chão ficará molhado. P→Q


Choveu. P
O chão ficou molhado. ∴Q
Negação do antecedente

A falácia negação do antecedente ocorre


quando se confunde condição suficiente com
necessária.

Se João ganhar no Euromilhões, tornar-se-á


rico.
João não ganhou no Euromilhões.
Portanto João não se tornará rico.
Esse argumento é falacioso porque?

Precisamente porque ganhar no Euromilhões é uma


condição suficiente, mas não necessária para ficar rico.

Uma pessoa pode ficar rica de outras maneiras (inclusive


ganhando em outra loteria).

Portanto, é uma falácia concluir que, pelo fato de não ter


ganho no Euromilhões, João não ficará rico.
Recapitulando:

Nome Exemplo Formalização

Falácia da afirmação Se Deus existir, a vida tem sentido. Dado P→Q


da consequente que a vida tem sentido, segue-se que Deus Q
existe.
∴P

Falácia da negação Se Deus existir, a vida tem sentido. Dado P→Q


da antecedente que Deus não existe, segue-se que a vida ¬P
não tem sentido.
∴ ¬Q
• Apesar de a primeira ser muito parecida ao modus ponens, a sua forma é
diferente, pois enquanto no modus ponens temos a afirmação da antecedente,
nessa falácia temos a afirmação da consequente, o que não impede que as
premissas possam ser verdadeiras e a conclusão falsa, ao mesmo tempo.

• Por sua vez, a segunda é parecida ao modus tollens. Mas, ao passo que o
modus tollens consiste na negação da consequente, a falácia consiste na
negação da antecedente, o que também não impede que as premissas sejam
verdadeiras e a conclusão falsa, ao mesmo tempo.
Vejamos:
Falácia da afirmação da
consequente
Modus Ponens Formalização Formalização
Se Deus existir, a vida
Se Deus existir, a vida P→Q tem sentido. Dado que
tem sentido. Deus P a vida tem sentido, P→Q
existe, segue-se que a ∴Q segue-se que Deus Q
vida tem sentido. existe. ∴P
Falácia da negação da
antecedente
Modus Tollens Formalização Formalização

Se Deus existir, a vida Se Deus existir, a vida


P→Q
tem sentido. Dado que a tem sentido. Dado que P→Q
¬Q
vida não tem sentido, Deus não existe, segue- ¬P
∴ ¬P
segue-se que Deus não se que a vida não tem ∴ ¬Q
existe. sentido.
Falácia da afirmação da consequente
Esta falácia deriva da confusão entre condição suficiente e condição necessária.

Por exemplo, vejamos as proposições:

P = Hitler levou com a bomba H.

Q = Hitler morreu.

Se admitir que P é verdadeira, concluirei que Q é verdadeira.


P é suficiente para Q.
Q é necessária para P (não há P sem Q). Mas, do facto de Q ser verdadeira, não posso
concluir que P o seja (Q não é suficiente para P).
Logo, todo o argumento com a seguinte forma é inválido:

Se P, então Q.
Ora, Q.
Logo, P.
• Exemplos:

1.
Se jogamos bem, ganhamos.
Ora, ganhámos.
Logo, jogámos bem.

(De facto jogámos mal, mas o adversário jogou pior e


o árbitro ajudou)
2.
Se estou em Faro, estou no Algarve.
Ora, estou no Algarve.
Logo, estou em Faro.

(Claro que posso estar em Olhão ou em


Sagres.)
3.
Se a fábrica estivesse a poluir o rio, então
veríamos o número de peixes mortos aumentar.
Há cada vez mais peixes a morrer.
Logo, a fábrica está a poluir o rio.

(É obvio que a morte dos peixes pode ser


provocada pela aplicação de pesticidas e não
pela fábrica).
Falácia da negação da antecedente

Nesta falácia confunde-se a condição suficiente com a condição necessária.

Com uma frase condicional (Se P, então Q) dizemos que se P for verdadeira,
Q também é;
Mas não dizemos que a recíproca é verdadeira.

Por isso, os argumentos com a seguinte forma são inválidos:

Se P, então Q.
Não-P.
Logo, não-Q.
• Exemplos:

1.
Se fores atingido por um carro quando tiveres 6 anos, morres
jovem.
Mas não foste atingido por um carro aos 6 anos.
Portanto, não vais morrer jovem.

(Claro que ele poderá ser atingido por um comboio com a


idade de 6 anos e, nesse caso, morre jovem)
2.

Se estou em Faro, então estou no Algarve.


Não estou em Faro.
Logo, não estou no Algarve.

(Mas pode estar em Olhão...)


Lógica Informal

Até aqui estivemos sempre a falar apenas de um tipo de


argumentos - argumentos dedutivos - cuja validade depende, em
geral, apenas da sua forma lógica, pelo que são estudados pela
chamada lógica formal.

Mas o universo da argumentação é bastante mais vasto, havendo


outros tipos de argumentos, cuja validade não depende da sua
forma lógica, mas de aspetos informais.

O ramo da lógica que trata deste tipo de argumentos chama-se


lógica informal.
O esquema seguinte dá uma ideia do universo da lógica informal aqui abordado:
Indutivos
Argumentos não dedutivos
Por analogia
De autoridade
Generalização precipitada
Amostra não representativa

Lógica informal
Falsa analogia
Apelo ilegítimo à autoridade

Apelo à ignorância

Falso dilema
Falácias informais Falsa relação causal
Boneco de palha

Derrapagem
Petição de princípio
Ad hominem
Ad populum
Quando um argumento é dedutivamente
válido, é impossível que tenha
conjuntamente premissas verdadeiras e
conclusão falsa.

P1 – Todo homem é mortal


P2 – Sócrates é homem
C – Sócrates é mortal
Mas quando um argumento é não-dedutivamente
válido, é possível que tenha premissas verdadeiras
e conclusão falsa, tornando-se improvável.
Vejamos o argumento indutivo:
(A conclusão é mais geral do que as premissas)

P1 - Ronaldo é alto e é jogador


P2 - Mantorras é alto e é jogador
C - Todos os altos são jogadores
Recapitulando:

A diferença é que enquanto…

Na validade dedutiva exclui-se a possibilidade da


conclusão ser falsa se as premissas forem
verdadeiras.

Na validade não-dedutiva não se exclui esta


possibilidade, mas torna-se o argumento,
improvável.
Vejamos um exemplo da diferença entre a
impossibilidade e a improbabilidade:

Não é impossível que uma pessoa ganhe


dez vezes seguidas o primeiro prémio do
Euromilhões, mas é muitíssimo
improvável.
Dito de outro modo…

Não é impossível que as premissas de


um bom argumento não-dedutivo sejam
verdadeiras e a sua conclusão seja falsa,
mas é muito improvável.
Face ao que se acaba de expor, parece ser
mais adequado falar de força do que de
validade para os argumentos não dedutivos,
sejam eles:

1. Generalizações e previsões indutivas;


2. Argumentos por analogia;
3. Argumentos de autoridade.
A lógica formal é adequada para captar a validade
dedutiva quando esta resulta da forma lógica dos
argumentos.

Contudo, no caso dos argumentos não-dedutivos, a


validade não resulta da forma lógica, razão pela qual
não temos uma lógica formal para este tipo de
argumentos.

Mas existem critérios informais que ajudam a avaliar


argumentos não-dedutivos.
1. Generalizações e Previsões Indutivas
Pensemos no seguinte argumento – generalização:

Todas as mulheres observadas até hoje são simpáticas;

Logo, todas as mulheres são simpáticas.

Temos aqui uma generalização indutiva ou argumentação a partir de exemplos.

Comparemos agora com um tipo diferente de indução - a previsão:


Todas as mulheres observadas até hoje são simpáticas;
Logo, a próxima mulher que observarmos será simpática.
Como avaliar estes dois tipos de indução?
Critérios de avaliação Exemplos Violação do critério

O número de casos observados


tem de ser relevante e não se Concluir que as mulheres são simpáticas Falácia da
1 encontrarem contraexemplos, depois de se conhecer três mulheres e de generalização
depois de ativamente procurados. estas serem simpáticas. precipitada

Os casos observados têm de Concluir que as mulheres são simpáticas,


2 representar adequadamente o com base nas respostas das pessoas à Falácia da amostra
universo em causa. entrada da igreja. não representativa

Uma pessoa que conclui que as


mulheres são sempre simpáticas porque
Não pode haver informação de
até agora as viu assim, está a
fundo que ponha em causa a
desconsiderar o conhecimento de fundo
validade do argumento.
da psicologia feminina de que todas as
mulheres têm os seus momentos.
2. Argumentos por analogia

Os argumentos por analogia estão, juntamente com os argumentos


dedutivos, entre os mais usados pelos filósofos.

São aqueles que se baseiam na semelhança (ou analogia - daí o


nome) entre coisas diferentes.

A ideia é que se duas coisas são semelhantes em vários aspetos


relevantes, serão também semelhantes noutro aspeto ainda não
considerado.
Vejamos:

Os argumentos por analogia têm geralmente a seguinte forma:

Os cavalos têm as propriedades Força, Beleza, Sensibilidade, Doçura.


As zebras, tal como os cavalos, têm as propriedades Força, Beleza, Sensibilidade, Doçura.
Os cavalos têm ainda a propriedade Elegância.
Logo, as zebras têm também a propriedade Elegância.

Podemos resumir assim:

Os cavalos são Elegantes.


As zebras são como os cavalos.
Logo, as zebras são Elegantes.
Como avaliar os argumentos por analogia?

Critérios Exemplos Violação do critério

Uma pessoa que conclui que um cavalo é


As semelhanças têm de igual a uma zebra porque tem força, Falácia da falsa
1 ser relevantes com beleza, sensibilidade, doçura e elegância, analogia
respeito à conclusão. viola este critério.

É preciso que o número Uma pessoa que conclui que um cavalo é


de semelhançasigual a uma zebra porque tem Falácia da falsa
2
relevantes com respeito à
características comuns, viola este critério. analogia
conclusão seja suficiente.
Esta semelhança é relevante, mas são
precisas outras.
É preciso que não Uma pessoa que conclui que as zebras
3 existam diferenças são velozes porque são os cavalos o Falácia da falsa
relevantes com respeito são, viola este critério. analogia
à conclusão.
3. Argumentos de autoridade

Os argumentos de autoridade são usados quando


defendemos ideias que as pessoas, em geral, não estão
habilitadas a justificar por si próprias, sendo necessário confiar
na reconhecida competência técnica de outrem.

Nesses casos, nada melhor do que invocar o que pessoas mais


bem colocadas ou especialistas na matéria em causa afirmam.

A sua forma costuma ser:

O Presidente disse que acabou a crise .


Logo, acabou a crise.
Mas, apesar de grande parte dos argumentos de autoridade serem bons, eles também são
frequentemente utilizados de forma abusiva.
Como distinguimos um uso correto de um uso incorreto dos argumentos de autoridade?
Vejamos quatro critérios:
Critérios Exemplos Violação do critério
Deve-se indicar o nome da
autoridade e a fonte (documento, Não basta referir que o Presidente disse que a crise acabou; é Falácia do apelo ilegítimo à
autoridade
1 etc.) em que tal autoridade preciso indicar onde ele defendeu tal coisa.
manifestou essa ideia. (autoridade anónima)

Falácia do apelo ilegítimo


A autoridade invocada tem de ser Invocar Marcelo Rebelo de Sousa para defender a ideia do termo à autoridade
2 realmente uma autoridade na da crise pode ser um problema porque ele não é conhecido como (autoridade não
área. economista). reconhecida)

A ideia de que a crise terminou proferida por Marcelo R. Sousa Falácia do apelo ilegítimo
O que é afirmado deve ser
pode ser consensual entre os políticos portugueses; mas a EU à autoridade
largamente consensual entre as
3 poderá estar longe da perspetiva portuguesa. (ausência de consenso)
autoridades da área.

A autoridade invocada não deve Se é invocada a opinião do Presidente sobre o termo da crise
ter fortes interesses pessoais ou económica, ele não deve ter interesses económicos objetivos Falácia do apelo ilegítimo
de classe no assunto. no estímulo ao consumo de um eventual produto produzido por à autoridade
4 (falta de imparcialidade)
alguma empresa em que ele possa ter participação.
FALÁCIAS INFORMAIS

Como vimos, uma falácia formal é uma dedução inválida que parece válida. Mas
há também as informais.

Uma falácia informal é um erro de argumentação que não depende da forma


lógica do argumento - o que significa que, com a mesma forma, tanto pode haver
argumentos bons como argumentos maus.

Temos, por isso, de olhar para outros aspetos como o próprio conteúdo do
que se afirma.
Algumas falácias informais já foram apresentadas, em
especial, as que constituem violações diretas dos critérios
de avaliação dos diferentes tipos de argumentos não
dedutivos:

- As falácias indutivas da generalização precipitada e da


amostra não representativa;
- A falácia da falsa analogia;
- A falácia do apelo ilegítimo à autoridade.
Vejamos mais algumas muito comuns:

1. Apelo à ignorância

A falácia do apelo à ignorância faz quase o oposto do apelo à


autoridade.
A ideia é estabelecer algo como falso / verdadeiro por
ninguém ter conseguido mostrar que é verdadeiro / falso.

No caso do apelo à ignorância apela-se ao desconhecimento


de todos sobre uma dada ideia para concluir o oposto dessa
ideia.
A forma do apelo à ignorância é a seguinte:

Não se sabe (desconhece-se, ignora-se, não se provou,


demonstrou, etc.) que Paulo roubou.
Logo, é falso que Paulo roubou.

Não se provou (desconhece-se, ignora-se, não se sabe,


demonstrou, etc.) que é falso que Paulo roubou.
Logo, é verdadeiro que Paulo roubou.
Nota:

A ideia deste tipo de argumento é concluir algo com base na


inexistência de prova em contrário.

Ora, é falacioso argumentar deste modo porque nem


sempre a inexistência de prova é prova de inexistência.

Se isso fosse correto, teríamos de aceitar que antes de


Galileu provar o heliocentrismo, este era falso.

Mas sempre foi verdadeiro que a Terra gira em torno do Sol,


mesmo quando ninguém conseguia provar tal coisa.
2. Falácia da falsa relação causal

Também conhecida pelo seu nome latino post hoc ergo propter hoc - depois disso;
logo, causado por isso - é um erro indutivo que consiste em concluir que há
uma relação de causa-efeito entre dois acontecimentos que ocorrem sempre em
simultâneo ou um imediatamente após o outro.

Um exemplo desta falácia é:

O trovão ocorre sempre depois do relâmpago.

Logo, o trovão é causado pelo relâmpago.


Nota:

Esta inferência é falaciosa porque não se pode excluir, por exemplo, que ambos os eventos sejam
causados por um terceiro.
Neste caso, tanto o relâmpago como o trovão resultam de uma descarga elétrica.

Do mesmo modo, o carteiro toca à campainha da porta da Sara sempre que ela tem correio,
mas não é por causa do carteiro tocar à campainha que ela tem correio, mas sim porque
alguém decidiu escrever-lhe.

Noutras situações, o facto de dois acontecimentos ocorrerem sempre juntos pode ser meramente
acidental, sem que um seja causado pelo outro.

Por exemplo:
Sempre que viaja de avião o Carlos reza e este não cai.
Ora, não estamos autorizados a concluir que o avião não cai por causa da reza do Carlos.
3. Petição de princípio

A petição de princípio (ou falácia da circularidade) ocorre num


argumento quando, de modo mais ou menos disfarçado,
pressupomos nas premissas que a conclusão é verdadeira.

É o que acontece no seguinte caso:

As pessoas nunca agem de forma desinteressada porque, na


verdade, são todas egoístas.
4. Falso dilema

A forma lógica da falácia do falso dilema é a seguinte:


P ou Q.
Mas não P.
Logo, Q.

Esta forma lógica é válida. Contudo, se a disjunção da primeira premissa (P ou Q) for


falsa apesar de parecer verdadeira, o argumento é falacioso.

Vejamos um exemplo:

Andorra é um reino ou uma república.

Andorra não é uma república.

Logo, é um reino.
5. Derrapagem
A falácia da derrapagem (ou bola de neve) baseia-se numa forma lógica válida:
Se P, então Q.
Se Q, então R.
Se R, então S.
Se S, então T
Logo, se P, então T.

Vejamos:
Se as Condicionais forem realmente falsas (apesar de parecerem verdadeiras), acabamos com uma
falácia:

P1 - Se passamos muito tempo a jogar no computador, tornamo-nos pessoas frias.


P2 - Se nos tornamos pessoas frias, acabamos por desprezar os outros.
P3 - Se desprezamos os outros, acabamos por odiá-los.
P4 - Se odiamos os outros, tornamo-nos assassinos.
C - Logo, se passamos muito tempo a jogar no computador, tornamo-nos assassinos.
6. Boneco de Palha / Espantalho

A falácia do boneco de palha (ou espantalho) não tem uma


forma lógica característica; ocorre sempre que
distorcemos ou caricaturamos as ideias do nosso
interlocutor para que pareçam mais implausíveis, ridículas
ou obviamente falsas.

Vejamos:

Os professores que mandam trabalhos para casa aos


alunos são maus porque não querem ser eles a ensinar as
matérias nas aulas.
Nota:

Esta falácia do boneco de palha atribui uma intenção que não existe e, ainda
que, por hipótese, existisse, isso não se poderia generalizar.

Para que a falácia do boneco de palha seja eficaz, é preciso que as pessoas
com quem estamos a discutir tenham um conhecimento muito superficial do
tema em causa.

Caso contrário, as pessoas limitam-se a negar que tenhamos apresentado


corretamente a posição que desejamos rejeitar
7. Ad hominem / Ataque à pessoa

A falácia ad hominem é um ataque pessoal, ou ao homem (daí a designação latina),


que tem a seguinte forma lógica:

A pessoa a afirmou P.

Mas a não é credível.

Logo, P é falso.

Vejamos um exemplo:

O Carlos é um jovem mimado, pelo que a sua opinião sobre qual o melhor dia para realizar a
festa de finalistas é errada.
Este argumento é falacioso porque não há relação entre o facto do Carlos ser ou não mimado e a
verdade ou falsidade acerca do melhor dia para realizar a festa de finalistas.
8. Ad populum

Esta falácia consiste em apelar à opinião da maioria (ou ao povo, do nome latino) para defender que uma
dada afirmação é verdadeira.

A forma do argumento é a seguinte:

A maioria das pessoas diz que P.

Logo, P.

Vejamos o exemplo:

A maioria das pessoas pensa que comer carne é bom para a saúde.
Logo, comer carne é bom para a saúde.

Nota:
A verdade ou falsidade desta afirmação depende da opinião das pessoas.
Porém, mesmo que assim seja, é injustificado considerar que a opinião dos que assim não pensa
é falsa.

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