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Justiça Federal da 1ª Região

PJe - Processo Judicial Eletrônico

19/12/2020

Número: 1050517-11.2020.4.01.3400
Classe: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL
Órgão julgador: 21ª Vara Federal Cível da SJDF
Última distribuição : 09/09/2020
Valor da causa: R$ 12.000.000,00
Assuntos: Tratamento Médico-Hospitalar, Unidade de terapia intensiva (UTI) ou unidade de
cuidados intensivos (UCI), Fornecimento de Medicamentos
Segredo de justiça? SIM
Justiça gratuita? SIM
Pedido de liminar ou antecipação de tutela? NÃO
Partes Procurador/Terceiro vinculado
G. A. M. (AUTOR) FRANCISCO RODRIGUES DE SOUSA JUNIOR
(ADVOGADO)
LIONEDIA ALVES RODRIGUES MONTALVAO (AUTOR) FRANCISCO RODRIGUES DE SOUSA JUNIOR
(ADVOGADO)
UNIÃO FEDERAL (REU)
CAROLINE DA CUNHA DINIZ (PERITO)
Documentos
Id. Data da Documento Tipo
Assinatura
40583 18/12/2020 21:04 Decisão Decisão
1389
PODER JUDICIÁRIO
JUSTIÇA FEDERAL
Seção Judiciária do Distrito Federal
21ª Vara Federal Cível da SJDF

PROCESSO: 1050517-11.2020.4.01.3400
CLASSE: PROCEDIMENTO COMUM CÍVEL (7)
POLO ATIVO: GABRIEL ALVES MONTALVAO e outros
REPRESENTANTES POLO ATIVO: FRANCISCO RODRIGUES DE SOUSA JUNIOR - DF54451
POLO PASSIVO:UNIÃO FEDERAL

DECISÃO

Trata-se de ação ajuizada por GABRIEL ALVES MONTALVÃO, menor impúbere representada
por sua genitora LIONEDIA ALVES RODRIGUES MONTALVÃO, em face da UNIÃO, objetivando o
recebimento gratuito e imediato do fármaco denominado Zolgensma.

A parte autora alega ser portadora de Atrofia Muscular Espinhal (AME) do Tipo 1, doença
genética degenerativa do sistema nervoso central.

Sustenta que o fármaco postulado tem a capacidade de introduzir um gene ausente SMN1
humano ou de corrigir o DNA danificado que causa a referida doença.

Foi determinada a realização de prova pericial médica (Id 325883924).

Deferida a gratuidade da justiça (Id 342383883).

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A Sra. Perita formulou requerimento de dilação de prazo para a entrega do laudo (Id
363687407).

Contestação apresentada (Id 376088347).

A Sra. Perita requereu a intimação da parte autora para apresentar nos autos o resultado do
exame de sorologia do vírus AAV9 (Id 394429370).

A parte autora apresentou manifestação no sentido de que “a realização do exame sorológico


AAV9, é condicionada à autorização da compra e autorização da infusão no autor do medicamento
Zolgensma”, que tal exame é custeado pela AveXis e que é enviado ao laboratório ViroClinics, localizado na
Holanda, bem como que ele deve ser realizado no máximo 30 (trinta) dias antes da infusão da terapia gênica
(Id 396422869).

Os autos vieram conclusos para análise do pleito de tutela provisória de urgência.

É o breve relatório. DECIDO.

Pretende a autora o fornecimento do medicamento ZOLGENSMA, por ser portadora de Atrofia


Muscular Espinhal Tipo 1.

O direito à saúde está previsto, entre outros diplomas, na Declaração Universal dos Direitos do
Homem (artigo 25.º, n.º 1) e na Constituição Federal (artigos 6.º e 196).

Qualifica-se, portanto, como direito humano e direito fundamental.

Na classificação tradicional de gerações de direitos fundamentais (ou dimensões, conforme


alguns preferem), o direito à saúde enquadra-se como de segunda geração (ou dimensão), na medida em que
claramente outorga “ao indivíduo direitos a prestações sociais estatais” (SARLET, Ingo Wolfgang. A Eficácia
dos Direitos Fundamentais).

A Constituição Federal de 1988 trata o direito à saúde como direito social (artigo 6.º), sendo
“direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do
risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua
promoção, proteção e recuperação” (artigo 196).

É verdade que a extensão do direito à saúde e do dever correspondente do Estado comporta


debates acalorados, especialmente diante do permanente conflito entre a reserva do possível e o mínimo
existencial.

Por isso, convém que cada caso seja apreciado de forma criteriosa, de modo a assegurar o
mínimo existencial em matéria de saúde das pessoas, atendendo à máxima efetividade e eficácia desse
direito e, naquilo em que for factível, com o menor comprometimento da reserva do possível, numa
atividade de ponderação difícil de se realizar abstratamente.

Sobre a questão, já decidiu monocraticamente o eminente Desembargador Federal JIRAIR


ARAM MEGUERIAN:

[…] o princípio da reserva do possível deve ser relativizado em face do princípio do mínimo
existencial quando se trata do acesso à saúde, pois, citando o eminente Ministro Celso de

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Mello, ao julgar prejudicada a ADPF nº 45, da qual foi relator, a cláusula da reserva do possível
não pode ser invocada pelo Estado com a finalidade de exonerar-se do cumprimento de suas
obrigações constitucionais, notadamente quando, dessa conduta governamental negativa, puder
resultar nulificação ou, até mesmo, aniquilação de direitos constitucionais impregnados de um
sentido de essencial fundamentalidade [...]1 (AGRAVO 00046018820174010000,
DESEMBARGADOR FEDERAL JIRAIR ARAM MEGUERIAN, TRF1, 17/02/2017).

Nessas circunstâncias, o Tribunal Regional Federal da 1ª Região vem impondo à União a


obrigação de fornecer o medicamento necessário ao doente, desde que:

1) seja imprescindível;

2) não haja outras opções eficazes;

3) a atual situação clínica do paciente e o grau de evolução da doença justifiquem seu


fornecimento;

4) o enfermo seja hipossuficiente.

Sobre o assunto:

AGRAVO DE INSTRUMENTO. PROCESSUAL CIVIL. TRATAMENTO MÉDICO.


FORNECIMENTO DE MEDICAMENTO DEFERIDO. MULTA. EXCLUSÃO. LOCAL DE
ENTREGA DA MEDICAÇÃO. DECRETO 7.508/2011. RECURSO PROVIDO EM PARTE.

1. Cinge-se a questão em torno da discussão acerca da concessão do medicamento MYALEPT


(METRAPTINA), para o tratamento de uma doença denominada SÍNDROME DE
BERARDINELLI - SEIP (CID E 88.1).

2. Inobstante entendimento de que a análise do fornecimento de medicação pelo poder público


deva ser criteriosa - em que se verifiquem (I) a imprescindibilidade do medicamento; (II) a
ausência de outras opções; (III) a atual situação clínica do paciente e o grau de evolução da
doença; e (IV) a hipossuficiência financeira do enfermo, - o quadro fático dos autos, em abono à
manutenção do deferimento, demonstra que a decisão impugnada, além de considerar o
medicamento almejado como o único disponível, registrou a existência de hipossuficiência do
paciente.

3. Ademais, considerando que a toda evidência o tratamento já se iniciou, vislumbra-se na


espécie o risco inverso da medida no sentido de que não é recomendada a sua suspensão,
mormente em sede de cognição perfunctória, sob pena de acarretar o agravamento da patologia
do(a) paciente ou até mesmo o seu óbito, o que denota um panorama fático-jurídico
consolidado.

4. A orientação jurisprudencial adotada por essa E. Corte acerca da imposição de multa


(astreintes), no procedimento de fornecimento de medicamento a pacientes, é firme no sentido
de que seria cabível a sua fixação acaso comprovada recalcitrância do agente responsável pelo
cumprimento da medida, hipótese não verificada na espécie.

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5. Tendo em conta o que dispõe o art. 28, IV, do Decreto 7.508/2011, que regulamenta a Lei
8.080/1990, a entrega da medicação deve se efetivar em unidade da rede pública de saúde
escolhida pela direção do SUS. Anotando apenas que tal escolha, à luz da dignidade da pessoa
humana, deve se dar em local próximo ao domicílio do (a) paciente.

6. Agravo de instrumento conhecido e parcialmente provido, para excluir a determinação ao


pagamento da multa e para que o fornecimento da medicação seja realizado em unidade
pública de saúde escolhida pela direção do SUS, nos termos do item anterior. (AGRAVO
00180842520164010000, DESEMBARGADOR FEDERAL KASSIO NUNES MARQUES, TRF1 -
SEXTA TURMA, e-DJF1 DATA:16/08/2016.)

É verdade que o eg. STJ concluiu, em 25/04/2018, o julgamento do recurso repetitivo


relacionado ao REsp 1.657.156, fixando os seguintes requisitos para a imposição judicial de fornecimento de
medicamentos não incorporados em atos normativos do Sistema Único de Saúde – SUS, conforme Informativo
divulgado pelo referido Tribunal (http://www.stj.jus.br):

“1 - Comprovação, por meio de laudo médico fundamentado e circunstanciado expedido por


médico que assiste o paciente, da imprescindibilidade ou necessidade do medicamento, assim
como da ineficácia, para o tratamento da moléstia, dos fármacos fornecidos pelo SUS;

2 - Incapacidade financeira do paciente de arcar com o custo do medicamento prescrito; e

3 - Existência de registro do medicamento na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).”

No entanto, o STJ modulou os efeitos do repetitivo de forma que “os requisitos acima
elencados sejam exigidos de forma cumulativa somente quanto aos processos distribuídos a partir da
data da publicação do acórdão embargado, ou seja, 4/5/2018” (EDcl no REsp 1657156/RJ, Rel. Ministro
BENEDITO GONÇALVES, PRIMEIRA SEÇÃO, julgado em 12/09/2018, DJe 21/09/2018)

Assim, considerando que a presente ação foi ajuizada em 08/09/2020, os requisitos para a
concessão judicial de medicamento não incorporado pelo SUS, nos aludidos moldes fixados pelo STJ,
se aplicam a este processo.

Nessa perspectiva, não obstante a gravidade da doença informada na peça de ingresso, o fato
de que o medicamento postulado é registrado na ANVISA e estar demonstrada sua hipossuficiência da parte
autora, no momento, considerando que o laudo pericial ainda não foi apresentado nos autos, não há como ser
deferida a medida de urgência requerida.

Além disso, comungo do mesmo entendimento manifestado na Decisão Id 325883924, no


sentido de que em causas da espécie, há evidente interferência judicial no campo das políticas públicas
(judicialização do direito à saúde) e, em tais casos, em princípio, deve ser privilegiado o tratamento
eventualmente ofertado pela rede pública.

Nessa linha de intelecção, existe uma medicação denominada Nusinersena (Spinraza®) que,

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embora a parte autora argumente não ser o ideal porque não cura, é oferecida gratuitamente pelo SUS e o
autor ainda não fez uso dela.

Desse modo, não se pode ignorar o fato de que a imediata concessão da tutela ora requerida
implicaria a adoção de opção mais gravosa ao orçamento da saúde pública, em um momento extremamente
crítico de suspensão de arrecadações combinado com necessidades de aquisições extraordinárias de
equipamentos e materiais médicos de primeira necessidade (respiradores mecânicos, luvas, máscaras,
aventais etc.), além de disponibilizações imediatas de leitos de UTIs com todo suporte necessário para suprir a
demanda de internações de doentes, entre outras tantas medidas de urgência exigidas do Poder Público diante
do atual estado de calamidade pública gerada pela pandemia do novo Coronavírus.

Vai daí, levando-se em conta a experiência do juízo em outros processos como o que ora se
analisa, no sentido de que ficou demonstrada a ausência de superioridade do tratamento postulado em relação
à terapêutica disponibilizada pelo SUS, o custo do medicamento pleiteado (em torno de 11 milhões de reais)
em face da notória realidade de escassez de recursos disponíveis para as políticas públicas de saúde voltadas
a toda uma coletividade carente de tratamentos básicos, leitos de UTI, e a falta de serviços e insumos mínimos
para os casos de atendimento em prontos socorros, o deferimento do tratamento não padronizado e sem
demonstração de que é capaz de trazer a almejada cura (o que se defende na inicial) viola o princípio da
dignidade da pessoa humana de uma coletividade e o direito de acesso igualitário à saúde, de forma flagrante
e inquestionável.

Assim, de tudo que foi exposto não identifico, por ora, o atendimento do requisito da
probabilidade do direito deduzido na inicial.

Diante do exposto, INDEFIRO o pedido de tutela provisória de urgência.

Considerando a informação apresentada pela parte autora na petição Id 396422869), indefiro o


requerimento formulado pela Sra. Perita na petição Id 394429370), devendo ser apresentado o laudo
pericial independentemente do documento solicitado e de acordo com as determinações contidas na Decisão Id
325883924, sobretudo quanto ao prazo de entrega do referido documento.

Apresentado o laudo pericial, encaminhe-se o processo imediatamente ao MPF, tendo em vista


que se trata de interesse de incapaz.

Em seguida, retornem os autos conclusos.

Intimações necessárias.

Intime-se a Sra. Perita.

BRASÍLIA, (data da assinatura eletrônica).

(assinado digitalmente)

FLÁVIA DE MACEDO NOLASCO

Juíza Federal em auxílio na 21ª Vara da SJDF

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