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Frederico Celestino Barbosa

Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

1ª ed.

Piracanjuba-GO
Editora Conhecimento Livre
Piracanjuba-GO
Copyright© 2020 por Editora Conhecimento Livre

1ª ed.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Barbosa, Frederico Celestino


B238M Medicina e Enfermagem: as ciências da vida
/ Frederico Celestino Barbosa. – Piracanjuba-GO
Editora Conhecimento Livre, 2020
297 f.: il
DOI: 10.37423/2020.edcl105
ISBN: 978-65-5898-017-9
Modo de acesso: World Wide Web
Incluir Bibliografia
1. Saúde 2. Cuidados 3. Enfermagem 4. Medicina I. Barbosa, Frederico Celestino II. Título

CDU: 610

https://doi.org/10.37423/2020.edcl105

O conteúdo dos artigos e sua correção ortográfica são de responsabilidade exclusiva dos seus
respectivos autores.
EDITORA CONHECIMENTO LIVRE

Corpo Editorial

Dr. João Luís Ribeiro Ulhôa

Dra. Eyde Cristianne Saraiva-Bonatto

MSc. Anderson Reis de Sousa

MSc. Frederico Celestino Barbosa

MSc. Carlos Eduardo de Oliveira Gontijo

MSc. Plínio Ferreira Pires

Editora Conhecimento Livre


Piracanjuba-GO
2020
SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 .......................................................................................................... 10
SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM PARA UM PACIENTE ONCOLÓGICO:
RELATO DE EXPERIÊNCIA
Lídia Rocha de Oliveira
José Erivelton de Souza Maciel Ferreira
Lílian Brena Costa de Souza
Manuela da Silva Moreira
Talita da Silva Nogueira
Lívia Suiany da Costa Bento
Eysler Gonçalves Maia Brasil
DOI 10.37423/200902800

CAPÍTULO 2 .......................................................................................................... 27
SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE ENFERMAGEM PARA UMA PACIENTE COM
TRANSTORNOS DE ANSIEDADE E COMPORTAMENTAIS: RELATO DE EXPERIÊNCIA
José Erivelton de Souza Maciel Ferreira
Lídia Rocha de Oliveira
Nathanael de Souza Maciel
Diego da Silva Ferreira
Raquel Lucas Costa
Raiane Martins da Silva
Carolina Maria de Lima Carvalho
DOI 10.37423/200902803

CAPÍTULO 3 .......................................................................................................... 43
O DESENGAJAMENTO ITINERANTE NA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA
Marisa Martinelli
Luiz Antonio Bettinelli
Marilene Rodrigues Portella
DOI 10.37423/200902823

CAPÍTULO 4 .......................................................................................................... 60
LESÕES DO MANGUITO ROTADOR EM JOGADORES DE TÊNIS: UMA LIÇÃO DE ANATOMIA
Vitória Freitas Silva
Leonardo Cortázio Boschini
Leticia Fiuza Lopes
Agustin Miguel Rodrigues de Lima
Vitoria Braziellas Justiniano
João Victor Wutkovesky Almada de Angelis
Rafael Vinicius Londero Quintino dos Santos
DOI 10.37423/200902828

SUMÁRIO
CAPÍTULO 5 .......................................................................................................... 69
SÍNDROME DE WALLENBERG: ALTERAÇÕES ANATÔMICAS E REPERCUSSÕES CLÍNICAS
EM UM ESTUDO DE CASO.
FREDERICO AUGUSTO RIBEIRO CLEMENTE
Michelline Ribeiro Rodriguez
DOI 10.37423/201002857

CAPÍTULO 6 .......................................................................................................... 74
DO LIVRO PARA IN VIVO – CONSOLIDANDO A ANATOMIA EM UMA IMERSÃO CIRÚRGICA
NO MUTIRÃO DE RECONSTRUÇÃO MAMÁRIA
Guilherme Gomes Gil de Menezes
Túlio Ribeiro dos Santos
Bernardo Machado Veloso Nery
RENATA BRAGA LINHARES DE ALBUQUERQUE
Amanda Ferreira Carvalho Novaes
Thais Fagundes Barreto
DOI 10.37423/201002859

CAPÍTULO 7 .......................................................................................................... 77
ÚTEROS GIGANTES
Marcos Danilo Azevedo Matos
João Augusto Cigarra Quintiliano
Naiana Mota Araújo
Arthur Valido Déda
Maria Bernadete Galrão de Almeida Figueiredo
Sônia Oliveira Lima
DOI 10.37423/201002860

CAPÍTULO 8 .......................................................................................................... 83
ANGIOARQUITETURA COMO TÉCNICA FACILITADORA DA APRENDIZAGEM EM ANATOMIA
Maísa Maria Spagnol Trento
Christopher Nedel Christofoletti
Thiago Medeiros Rocha
DOI 10.37423/201002861

CAPÍTULO 9 .......................................................................................................... 90
VISÃO ARTÍSTICA FEMININA SOBREVIDA E MORTE NA DISSECAÇÃOFETAL
Ana Beatriz Sousa Brito
Rafael Alvarenga dos Santos
DOI 10.37423/201002874

SUMÁRIO
CAPÍTULO 10 .......................................................................................................... 95
ESCOLAR COM ISOMERISMO ATRIAL ESQUERDO, COMUNICAÇÃO INTERVENTRICULAR E
PERSISTÊNCIA DE VEIA CAVA SUPERIOR ESQUERDA: ESTUDO DE CASO.
Heronides Nogueira Silva
Josiherbethy Rodrigues de Oliveira
Dário José de Macêdo
Ronaldo Cavalcante de Santana
Luciana Karla Viana Barroso
DOI 10.37423/201002881

CAPÍTULO 11 .......................................................................................................... 98
AURÍCULOTERAPIA URGÊNCIA HIPERTENSIVA : RELATO DE EXPERIENCIA
Regina Célia Damasceno
DOI 10.37423/201002890

CAPÍTULO 12 .......................................................................................................... 101


UTILIZAÇÃO DE UMA ÁREA TRIANGULAR NA FACE PARA ESTIMATIVA DE SEXO E IDADE
EM CRÂNIOS SECOS ADULTOS.
Veida Borges Soares de Queiroz
Samir Vasconcelos Lima
David Martins da Silva Mello
Viviane Silva Vieira
Edizia Freire Mororó Cavalcante Torres
Erasmo de Almeida Júnior
DOI 10.37423/201002894

CAPÍTULO 13 .......................................................................................................... 103


A DOR EM PREMATUROS DURANTE O TEMPO DE HOSPITALIZAÇÃO EM UMA UNIDADE DE
TERAPIA INTENSIVA NEONATAL
Laryssa Marinna Madeira de Andrade
Laiane Medeiros Ribeiro
Vanessa Pereira Alves
Gabriela de França Costa
Ludmylla de Oliveira Beleza
Aline Oliveira Silveira
Alecssandra de Fátima Silva Viduedo
Juliana Machado Schardosim
DOI 10.37423/201002900

SUMÁRIO
CAPÍTULO 14 .......................................................................................................... 121
HEMATOMA EPIDURAL: ASPECTOS EPIDEMIOLÓGICOS E TRATAMENTO
Vítor Ferraz Silva Tacconi
Luciana Karla Viana Barroso
Nicole Bruna da Costa Azevedo
Tayná Rodrigues de Souza
Cíntia Thaís Duarte Matias
DOI 10.37423/201002901

CAPÍTULO 15 .......................................................................................................... 135


PROJETO DE INTERVENÇÃO: - AÇÃO EDUCATIVA DE ESTÍMULO À AUTONOMIA DE UM
GRUPO DE IDOSOS
Diana Nunes Pavão Menezes
Juliane Dourado Alves de Lima
Rodrigo Pereira Costa[
Neuci Cunha
Magali Olivi
DOI 10.37423/201002904

CAPÍTULO 16 .......................................................................................................... 139


A MONITORIA COMO UMA OPORTUNIDADE PARA A PRÁTICA DOCENTE EM ENFERMAGEM
Wanderlei Barbosa dos Santos
Jeferson Caetano da Silva
Marianne Buarque de Gouveia
Heubert de Lima Guimarães
Rossana Teotônio de Farias Moreira
DOI 10.37423/201002905

CAPÍTULO 17 .......................................................................................................... 144


MONITORIA DE ANATOMIA HUMANA PARA ALÉM DO CONHECIMENTO ESPECÍFICO NA
ÁREA DA ANATOMIA
TAINARA MÜHL BREITENBACH
CAROLINA GIL FELTES
MAUREEN KOCH
MARCELO MARQUES SOARES
LUCAS MIGNONI
DOI 10.37423/201002906

SUMÁRIO
CAPÍTULO 18 .......................................................................................................... 150
A ANATOMIA SINGULAR REPRESENTADA POR SALVADOR DALÍ
Laila Guimarães Souza
Ciro Pereira Sá de Alencar Barros
Julia Maria Salgado Carvalho
Marcos Vinicius da Silva (in memoriam)
DOI 10.37423/201002907

CAPÍTULO 19 .......................................................................................................... 157


DIFERENÇAS ENTRE OS TERMOS “APARELHO” E “SISTEMA” USADOS NO ENSINO DE
ANATOMIA HUMANA.
Julia Maria Salgado Carvalho
Laila Guimarães Souza
Ciro Pereira Sá de Alencar Barros
Marcos Vinícius da Silva (in memorian)
DOI 10.37423/201002911

CAPÍTULO 20 .......................................................................................................... 165


O USO DE EPÔNIMOS E A TERMINOLOGIA NA ANATOMIA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE
LITERATURA
Andressa Emanuelle Cardoso Dantas
George Harley Cartaxo Neves Filho
Alinne Beserra de Lucena Marcolino
DOI 10.37423/201002917

CAPÍTULO 21 .......................................................................................................... 168


ANÁLISE DO GERENCIAMENTO E DA QUALIDADE DOS SERVIÇOS PRESTADOS AOS
PACIENTES, EM UM HOSPITAL PARTICULAR ACREDITADO NA CIDADE DO RECIFE-PE
Cristina Albuquerque Douberin
Diná Lyra da Trindade Silva
Adriana Maria dos Santos
Lívia Maria Almeida de Oliveira
Bruna Kathiely Meneses da Silva
Andressa Karolina da Silva Carvalho
DOI 10.37423/201002922

CAPÍTULO 22 .......................................................................................................... 173


OPERACIONALIZAÇÃO DO PROGRAMA PROFICIÊNCIA - COFEN :UMA PRÁTICA DE
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NA ENFERMAGEM
Carmen Lucia Lupi Monteiro Garcia
DOI 10.37423/201002936

SUMÁRIO
CAPÍTULO 23 .......................................................................................................... 179
CUIDADOS DE ENFERMAGEM NA MANIPULAÇÃO DO CATETER DE DVE E PIC ATRAVÉS DO
RELATO DE UM CASO CLÍNICO
Julia Maria Pacheco Lins Magalhães
Camila Feitoza Maciel
Carla Danielle Botelho Silva
Janinne Santos de Melo
Karulyne Silva Dias
Kleinn de Oliveira Silva
Mayra Villiany Siqueira Damasceno
Suzana Maria de Oliveira Costa Meneses
DOI 10.37423/201002939

CAPÍTULO 24 .......................................................................................................... 186


CICATRIZAÇÃO DE UMA LESÃO TUMORAL EM UM PACIENTE IDOSO: ESTUDO DE CASO.
Elizabeth Moura Soares de Santos
Paulo Sergio Gomes da Silva
Linda Djeyme Santos
Marilinda Gonçalves da Silva
DOI 10.37423/201002949

CAPÍTULO 25 .......................................................................................................... 195


TÉCNICA DE PREENCHIMENTO POR VINILITE EM ARTÉRIAS CORONÁRIAS CADAVÉRICAS
DO LABORATÓRIO DE ANATOMIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS - UFAM
VIVIANE SANTOS FERREIRA
QUELLY CHRISTINA FRANÇA ALVES SCHIAVE
JOÃO GABRIEL LINHARES PULNER
KLEBER PRADO LIBERAL RODRIGUES
DOI 10.37423/201002991

CAPÍTULO 26 .......................................................................................................... 209


ARTIGO DE REVISÃO: IMPLANTES HORMONAIS A BASE DE GESTRINONA
Sonila Carvalho da Rocha
Cecília Paula Valadares
Letícia Maria Barbosa Pinto
Danyella Fernanda de Sá Oliveira
José Helvécio Kalil
Gustavo Marques de Souza Safe
Amanda Lopes Dias Coelho
Felipe Pueyo Magalhães
DOI 10.37423/201002993

SUMÁRIO
CAPÍTULO 27 .......................................................................................................... 216
O PROCESSO DE REFORMA PSIQUIÁTRICA NA REGIÃO DO SERIDÓ-RN: DO MODO
MANICOMIAL À CONSTRUÇÃO DO MODO PSICOSSOCIAL
Dulcian Medeiros de Azevedo
João de Deus de Araújo Filho
Andreza Maria de Oliveira
Tiago Rocha Pinto
DOI 10.37423/201003005

CAPÍTULO 28 .......................................................................................................... 235


SAÚDE SEXUAL MASCULINA E ATENÇÃO PRIMÁRIA À SAÚDE: O QUE PENSAM OS
HOMENS?
Jozeane SEABRA
A. D. F. ARAUJO
A. S. MENESES
A. F. AHMAD
Cláudia Regina RIBEIRO
Adriana LEMOS
DOI 10.37423/201003012

CAPÍTULO 29 .......................................................................................................... 246


ORGANOCLORADOS E SUAS CONSEQUÊNCIAS PARA OS SERES HUMANOS
Bárbara Luane da Luz Cardoso
Ana Paula e Silva Rabelo
Dayene Ketlley Borges de Andrade
Railâna Fagundes Andrade
DOI 10.37423/201003013

CAPÍTULO 30 .......................................................................................................... 252


SINAIS DE ALERTA PARA O DIAGNÓSTICO PRECOCE E TRATAMENTO DO TRANSTORNO
DO ESPECTRO AUTISTA
LOUISE BOGÉA RIBEIRO
JUSSARA DA SILVEIRA DERENJI
MANOEL DA SILVA FILHO
DOI 10.37423/201003015

CAPÍTULO 31 .......................................................................................................... 259


DIFICULDADES MOTORAS E DE MOVIMENTO ENFRENTADAS POR CRIANÇAS COM
TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA
Louise Bogéa Ribeiro
JUSSARA DA SILVEIRA DERENJI
MANOEL DA SILVA FILHO
DOI 10.37423/201003016

SUMÁRIO
CAPÍTULO 32 .......................................................................................................... 266
O USO DE TECNOLOGIAS PARA O DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DO TRANSTORNO DO
ESPECTRO AUTISTA
Louise Bogéa Ribeiro
JUSSARA DA SILVEIRA DERENJI
MANOEL DA SILVA FILHO
DOI 10.37423/201003017

CAPÍTULO 33 .......................................................................................................... 272


A PENOSIDADE NO TRABALHO DE ENFERMAGEM
Diego Colaca de Brito
DOI 10.37423/201003021

CAPÍTULO 34 .......................................................................................................... 275


A HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS SOB A ÓTICA DA INTERDISCIPLINARIDADE
Hadassa Bastos Moreira
Mariani de Jesus Santos
Jessica Miranda Costa
Tainah Silva Santos
Aretusa de Oliveira Martins Bitencourt
Ricardo Matos Santana
Nayara Mary Andrade Teles Monteiro
Myria Ribeiro da Silva
DOI 10.37423/201003022

CAPÍTULO 35 .......................................................................................................... 293


ENFRENTAMENTO DO ERRO DA PRESCRIÇÃO, DISPENSAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO DE UM
MEDICAMENTO NA EMERGÊNCIA DE UMA INSTITUIÇÃO PUBLICA: RELATO DE
EXPERIÊNCIA.
Camila Foresti Lemos
DOI 10.37423/201003032

CAPÍTULO 36 .......................................................................................................... 296


RELATO DE CASO: CONDUTA DE UM CARCINOMA PAPILÍFERO EM AMBULATÓRIO
ACADÊMICO
Mariana Ladeira Ferreira
Isabella Barbosa Coelho
Isabela Silveira de Resende
DOI 10.37423/201003033

SUMÁRIO
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 1
10.37423/200902800

SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE
ENFERMAGEM PARA UM PACIENTE
ONCOLÓGICO: RELATO DE EXPERIÊNCIA

Lídia Rocha de Oliveira Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

José Erivelton de Souza Maciel Ferreira Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Lílian Brena Costa de Souza Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Manuela da Silva Moreira Universidade Federal do Ceará

Talita da Silva Nogueira Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Lívia Suiany da Costa Bento UniFanor

Eysler Gonçalves Maia Brasil Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira
Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

Resumo: Introdução: O câncer de intestino incorpora os tumores que tem início na parte do intestino
grosso chamada cólon, no reto (final do intestino, imediatamente antes do ânus) e ânus. Também é
conhecido como câncer de cólon e reto ou colorretal. A maioria desses tumores se inicia a partir de
pólipos, lesões benignas que podem crescer na parede interna do intestino grosso. A Metástase é a
infiltração de um foco tumoral à distância do tumor original, cujo decorre da disseminação do câncer
para outros órgãos. Sendo assim o presente estudo tem por objetivo descrever a experiência de
acadêmicos de enfermagem acerca da implementação da Sistematização da Assistência de
Enfermagem (SAE) a um paciente com diagnóstico médico de câncer de colorretal com metástase.
Materiais e métodos: Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência vivido por
acadêmicos de enfermagem no estágio da disciplina de Internato de Enfermagem Hospitalar de uma
universidade federal. O estágio ocorreu em um Hospital do interior do estado do Ceará, período de
setembro a dezembro de 2019, em um Hospital do interior do estado do Ceará. Resultados e
discussão: Observou-se achados clínicos importantes devido o processo de adoecimento da paciente
e com base nesses achados foi traçado a SAE, utilizando como instrumento metodológico o Processo
de enfermagem. Conclusão: A utilização da SAE foi essencial para o planejamento do cuidado de
enfermagem para o paciente, visto que possibilitou a identificação dos diagnósticos de enfermagem
prioritários e assim os discentes conseguiram proporcionar um cuidado de enfermagem mais
direcionado e eficaz.
Palavras-Chave: Enfermagem; Cuidados de Enfermagem; Neoplasias Intestinais; Metástase Neoplásica

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

1.INTRODUÇÃO

O câncer surge a partir de uma alteração no DNA das células. Estas passam a receber instruções erradas
para realizar as suas atividades. Tais modificações, por vezes podem acontecer em determinados
genes, denominados proto-oncogenes, que a princípio são inativos em células normais. Quando são
ativados, os protooncogenes tornam-se oncogenes, responsáveis por transformar as células normais
em células cancerosas (INCA, 2020).
O câncer de intestino incorpora os tumores que tem início na parte do intestino grosso chamada cólon
e no reto (final do intestino, imediatamente antes do ânus) e ânus. Também é conhecido como câncer
de cólon e reto ou colorretal. A maioria desses tumores se inicia a partir de pólipos, lesões benignas
que podem crescer na parede interna do intestino grosso. Em grande parte dos casos é tratável e
curável, considerando que seja diagnosticado precocemente, antes de se espalhar para outros órgãos,
condição essa conhecida como metástase (INCA, 2020).
A Metástase é a infiltração de um foco tumoral à distância do tumor original, cujo decorre da
disseminação do câncer para outros órgãos. O surgimento de metástases acontece quando as células
cancerígenas se desprendem do tumor primário e entram na circulação sanguínea ou no sistema
linfático, podendo circular pelo organismo e se estabelecer em outros órgãos, como nos pulmões,
ossos, fígado, cérebro, entre outros (INSTITUTO ONCOGUIA, 2019).
Dentro desse contexto, a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) pode ser utilizada para
promover o cuidado de forma mais direcionada ao paciente oncológico. A SAE é conceituada como um
método de prestação de cuidados para a obtenção de resultados que sejam satisfatórios na
implementação da assistência, no intuito de reduzir complicações durante o tratamento, de forma a
facilitar a adaptação e recuperação do paciente (LEFEVRE, 2002).
Como instrumento da SAE, se insere o processo de enfermagem (PE) o qual é formado por cinco etapas,
inter-relacionadas, interdependentes e recorrentes, a saber: histórico de enfermagem, diagnóstico de
enfermagem, planejamento de enfermagem, implementação de enfermagem e avaliação de
enfermagem (COFEN, 2009).
Dessa forma, o objetivo deste trabalho é relatar sobre a experiência de acadêmicos de enfermagem
acerca do desenvolvimento da sistematização da assistência de enfermagem para um paciente
diagnosticado com câncer de reto + metástase pulmonar.

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

2.METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, do tipo relato de experiência, traçado a partir da prática vivenciada
por acadêmicos de enfermagem na disciplina de Internato de Enfermagem Hospitalar, do curso de
graduação em Bacharelado em Enfermagem, da Universidade de Integração Internacional da Lusofonia
Afro-brasileira (UNILAB), no período de setembro a dezembro de 2019, em um Hospital do interior do
estado do Ceará.
A coleta de dados para a elaboração do plano de cuidados do paciente foi realizada através da consulta
de enfermagem, composta por entrevista, exame físico e consulta ao prontuário do paciente, durante
dois encontros. No primeiro encontro foi realizada a coleta de dados e no segundo encontro foram
implementadas as intervenções de enfermagem propostas.
A SAE foi elaborada a partir de consultas as taxonomias de enfermagem de Diagnósticos de
Enfermagem: NANDA Internacional; Intervenções de Enfermagem: NIC e Resultados de Enfermagem:
NOC (BULECHEK et al, 2010; HERDMAN; KAMITSURU, 2018; MOORHEAD, 2016).
Foi realizada a apresentação dos acadêmicos para a paciente, sendo solicitada sua contribuição para o
estudo. Assim, o paciente foi informado sobre o objetivo da coleta de dados e questionado ao mesmo
se ele permitiria essa coleta. Após o aceite, procedeu-se a coleta de dados de enfermagem e demais
etapas propostas pelo PE.
3.RESULTADOS E DISCUSSÃO
De acordo com COFEN (2009), a coleta de dados de enfermagem se caracteriza por ser um processo
deliberado, sistemático e contínuo, o qual é realizado através de métodos variados, tendo por objetivo
a obtenção de informações sobre a pessoa, família ou coletividade humana e sobre suas respostas em
um dado momento do processo saúde e doença. Um dos instrumentos para sua realização é o processo
de enfermagem.
Portanto, a partir do PE, procedeu-se a coleta de dados da paciente. Foram obtidas informações com
o consentimento da mesma, observadas pelos discentes e evidenciadas no prontuário da mesma. A
partir destas tomou-se conhecimento que ela era paciente colostomizada, estando no momento com
complicações do estoma (prolapso) e que já vinha a 6 anos lutando contra o câncer colorretal,
descobrindo recentemente que estava também com metástase pulmonar.
Conforme INCA (2020), o câncer colorretal pode ser tratável e curável, ao ser detectado de forma
precoce, quando ainda não se espalhou para outros órgãos. Desta forma, sabe-se que o câncer pode
ser in situ ou câncer não invasivo, o qual é o primeiro estágio em que o câncer não originário das células

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

do sangue pode ser classificado. Neste, as células cancerígenas estão somente na camada da qual elas
se desenvolveram e ainda não se espalharam. A maioria dos cânceres in situ é curável, se for tratada
antes que progrida para a fase de câncer invasivo. Pois, nesta fase, o câncer desenvolve a capacidade
de invasão para outras camadas celulares do órgão e bem como se disseminar para outras partes do
corpo, a qual constitui a metástase. Porém, a partir da situação clínica observada, percebe-se que a
paciente já estava com metástase pulmonar, ou seja o câncer já estava em estágio avançado.
Após constatar que não há medidas de cura para um câncer, procede-se aos cuidados paliativos, os
quais têm por objetivo promover a qualidade de vida do paciente e de seus familiares através da
prevenção e alívio do sofrimento, da identificação precoce de situações possíveis de serem tratadas,
da avaliação cuidadosa e minuciosa e do tratamento da dor e de outros sintomas físicos, sociais,
psicológicos e espirituais (INCA, 2020).
Percebeu-se durante a coleta de dados, estado geral ruim, face hipocorada, fáceis de dor,
principalmente quando a paciente realizava algum esforço físico, sendo que a mesma encontrava-se
em decúbito dorsal, durante todo o processo, pois não suportava movimentar-se. Sua cuidadora, a
qual no momento estava acompanhando-a, também relatava que a mesma queixava-se
constantemente de muita dor. A paciente encontrava-se em uso de algumas medicações conforme
apresentado pelo Quadro 1.
Outros estudos também relatam essas percepções acerca de pacientes oncológicos, pois o processo
cancerígeno desencadeia reações orgânicas e emocionais, as quais provocam sentimentos e conflitos
internos (THEOBALD et al, 2016).
Durante o exame físico, percebeu-se fáceis de dor decorrente de excreção de secreção fétida,
amarelada (sugestiva de fístula reto-vaginal), liberada pela vagina e anûs. Relata que a saída dessa
secreção dificulta o ciclo sono-vigília. A paciente também apresentava manchas hipercrômicas em face
e restante do corpo. A ausculta cardíaca apresentou bulhas normofonéticas, ritmo cardíaco regular e
dois tempos, sem sopros. A ausculta pulmonar apresentou murmúrios vesiculares, sem ruídos
adventícios. A palpação abdominal apresentou abdome doloroso, na região dos flancos, mesogástrica
e hipogástrica, e fossa ilíaca direita e esquerda, a palpação superficial e na ausculta presença de ruídos
hidroaéreos. Colostomia à esquerda, na região do flanco esquerdo, pele periestoma preservada,
porém com prolapso intestinal.
Essas características chamaram atenção dos discentes, pois tem-se conhecimento que o profissional
de enfermagem é aquele que atua constantemente mais próximo do paciente, no seu processo de
nascer, viver e morrer. Dessa forma, deve-se estar apto para lidar com o paciente nas mais diversas

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

doenças, buscando sempre oferecer apoio e conforto, pois, sabe-se que no estágio em que a paciente
se encontrava, a taxa de sobrevida era mínima (INSTITUTO ONCOGUIA, 2019).
Dando seguimento, são apresentados no Quadro 1 as medicações as quais a paciente fazia uso
constante.
Quadro 1: Lista de Medicamentos que o paciente se encontrava em uso elencadas de acordo com a
sua função.

Medicamentos Função

Ceftriaxona 2g Este medicamento é usado para tratar infecções causadas por


microrganismos sensíveis à ceftriaxona. A ceftriaxona pertence a um
grupo de medicamentos denominado antibióticos. Sua substância
ativa - ceftriaxona é um antibiótico capaz de eliminar uma grande
variedade de microorganismos/bactérias responsáveis por diversos
tipos de infecções.

Fosfato de Dalacin® C (fosfato de clindamicina) solução injetável é um


Clindamicina 600 mg antibiótico indicado no tratamento de diversas infecções, entre as
6/6h quais infecções do trato respiratório superior e inferior (empiema,
pneumonia anaeróbica e abscessos pulmonares, que são infecções nos
pulmões e no espaço entre as membranas que os envolvem),
septicemia bacteriana (disseminação de bactérias a partir de um foco
de infecção através do sangue); infecções da pele e partes moles
(tecido subcutâneo, músculos, tendões, etc.); infecções
intraabdominais (peritonite – infecção da membrana que envolve os
órgãos internos abdominais - e abscesso intra-abdominal); infecções
da pelve e do trato genital feminino (endometrite – infecção de uma
das camadas de tecido que forma o útero, abscessos tubo-ovarianos
não gonocócicos – coleção de pus dentro das trompas uterinas e do
ovário causadas por bactérias diferentes da Neisseria gonorrheae,
celulite pélvica – infecção da pele e dos tecidos abaixo dela na região
pélvica e infecção vaginal após cirurgias) e infecções dentárias.

Tramadol 50 mg VO É indicado para o alívio da dor de intensidade moderada a grave. É


8/8h um analgésico que pertence à classe dos opioides que age no sistema
nervoso central. Desta forma alivia a dor agindo nas células nervosas
específicas da medula espinhal e cérebro.

O butilbrometo de escopolamina + dipirona solução injetável é


indicado para o tratamento sintomático de estados espástico-
dolorosos e cólicas do trato gastrintestinal, das vias biliares, do trato
geniturinário e do aparelho genital feminino (dismenorreia). O

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

Dipirona 500 mg EV butilbrometo de escopolamina + dipirona solução injetável é uma


(2+18 AD) 6/6h associação medicamentosa para uso oral e injetável, composta de um
antiespasmódico butilbrometo de escopolamina e um analgésico,
dipirona. O butilbrometo de escopolamina exerce um efeito
espasmolítico na musculatura lisa do trato gastrintestinal, das vias
biliares e geniturinárias. Como um derivado de amônia quaternária o
butilbrometo de escopolamina não atravessa o sistema nervoso
central. Portanto não ocorrem efeitos colaterais sobre o sistema
nervoso central. A ação anticolinérgica periférica resulta de uma ação
bloqueadora ganglionar na parede visceral e de sua atividade
antimuscarínica. A dipirona apresenta importantes propriedades
analgésicas, antipiréticas, espasmolíticas e antiflogísticas.

Fonte: ANVISA.

Uma informação que chama atenção, no Quadro 1 é que apesar de a paciente estar fazendo uso de
medicações fortes para o controle da dor, como Tramadol, este não estava mais realizando seu efeito
de analgesia, esta informação foi repassada para a equipe médica responsável pelo acompanhamento
da paciente.
Segundo o INCA (2020) o preparo adequado de enfermeiros é fundamental para o controle da dor e
sintomas que são frequentemente observados em pacientes com câncer avançado sob cuidados
paliativos. Sabe-se que os profissionais de enfermagem são aqueles que na equipe multiprofissional,
mais frequentemente avaliam a resposta a terapêutica e a ocorrência de efeitos colaterais. Dessa
forma, colaboram na reorganização do esquema analgésico, propõem estratégias não farmacológicas
auxiliam no ajuste de atitudes e expectativas sobre os tratamentos, preparam os doentes e treinam
cuidadores para a alta hospitalar.
Diante desse achado, destaca-se a relevância deste relato de experiência, pois poderá auxiliar os
profissionais de enfermagem na elaboração do plano de cuidados para o paciente oncológico,
especialmente o paciente em cuidado paliativos, como era o caso em questão.
Considerando também a importância do enfermeiro conhecer os cuidados no preparo e administração
medicamentosa, também formulou-se a Quadro 2 apresentando as medicações segundo os cuidados
em seu preparo e administração e interações medicamentosas.

6
16
Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

Quadro 2: Distribuição das medicações utilizadas pela paciente segundo os cuidados no preparo e
administração e interações medicamentosas.

Medicamento Cuidados no preparo e administração Interações medicamentosas

Ceftriaxona 2g A ceftriaxona IV é constituída de pó Recomenda-se o monitoramento


cristalino branco a amarelo alaranjado dos níveis de aminoglicosídeos e
contido em frasco ampola de vidro da função renal, quando
incolor. A ampola de diluente contém administrados em combinação
água para injetáveis, que é uma solução com a ceftriaxona dissódica. Em
incolor, inodora e isenta de partículas. estudos in vitro, efeitos
Após a reconstituição a solução contendo antagônicos foram observados
ceftriaxona é uma solução levemente com o uso combinado de
amarelada, límpida isenta de partículas ou cloranfenicol e ceftriaxona. O uso
fibras. concomitante de ceftriaxona
Diluentes que contêm cálcio não devem dissódica com antagonistas da
ser utilizados para a reconstituição de vitamina K pode aumentar o risco
ceftriaxona dissódica ou para diluições de sangramentos.
posteriores de soluções reconstituídas
para administração intravenosa, pois pode
ocorrer a formação de precipitado. A
ceftriaxona IV deve ser administrada na
veia de modo lento (2 a 4 minutos), após
a diluição de ceftriaxona IV 2 g em 20 mL
de água para injeção. Após preparo,
manter no refrigerador, entre 2 e 8 °C, por
até 24 horas ou manter a temperatura
ambiente por até 6 horas.

Fosfato de Deve ser administrado com um copo Foi demonstrado antagonismo in


Clindamicina cheio de água (200 mL) para se evitar a vitro entre a clindamicina e a
600 mg 6/6h possibilidade de irritação do esôfago. A eritromicina. Devido ao possível
VO duração do tratamento depende do tipo significado clínico, os dois
(local e agentes causadores) e gravidade fármacos não devem ser
da infecção, devendo ser definido pelo seu administrados de forma
médico conforme o seu diagnóstico. a concomitante. Estudos
dose diária recomendada é de 600 - 1800 demonstraram que a clindamicina
mg, dividida em 2, 3 ou 4 doses iguais. A apresenta propriedades de
dose máxima recomendada é de 1800 mg, bloqueio neuromuscular que
divididos em 2, 3 ou 4 doses diárias. podem intensificar a ação de outros
Proteger da luz e conservar em fármacos com atividade
temperatura ambiente entre 15-30ºc. semelhante. Portanto, Dalacin® C
deve ser usado com cautela em
pacientes sob terapia com tais
agentes.

Tramadol 50 Deve ser administrado junto com uma O cloridrato de tramadol pode
mg VO 8/8h quantidade suficiente de água para aumentar a atividade das

7
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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

deglutição, com ou sem alimentos. A dose medicações psicotrópicas (que


deve ser ajustada a intensidade da dor, agem no sistema nervoso central) -
podendo chegar até a 400mg/dia. O efeito especialmente dos antidepressivos
dura de 4-8 horas. O cloridrato de tricíclicos e inibidores da
tramadol deve ser mantido em recaptação da serotonina e dos
temperatura ambiente (15˚C a 30˚C). neurolépticos – inclusive
Proteger da luz e manter em local seco. aumentando o potencial risco de
essas medicações desencadearem
convulsões.

Dipirona 500 A princípio, a dose depende do efeito A dipirona pode causar redução
mg EV (2+18 analgésico desejado e das condições do dos níveis plasmáticos de
AD) 6/6h paciente. A diluição será realizada ciclosporina. As concentrações da
conforme prescrição médica. Geralmente ciclosporina devem, portanto, ser
é realizada a diluição em soro fisiológico monitoradas quando a dipirona é
a 0,9% ou água para injeção. Deve ser administrada concomitantemente.
mantida em temperatura ambiente (entre A administração concomitante da
15 e 30°C), proteger da luz e umidade. dipirona com metotrexato pode
aumentar a hematotoxicidade.
Fonte: ANVISA.

Como apresentado no Quadro 2, devem ser seguidos os passos corretos no preparo e administração
dos medicamentos, bem como armazená-los em local e temperatura adequada, para conservar o
medicamento. É preciso que o enfermeiro também esteja atento as possíveis interações
medicamentosas, visto que é ele quem realiza os aprazamentos dos horários de administração das
medicações. Portanto, ao perceber o uso concomitante de algum medicamento que pode causar a
interação medicamentosa deve comunicar a equipe médica para modificação da terapia.
Após a coleta de dados, dando sequência as etapas do PE, procedeu-se a elaboração dos diagnósticos
de enfermagem, identificados a partir das respostas humanas observadas na paciente.
O diagnóstico de enfermagem é a etapa do processo de enfermagem de interpretação e agrupamento
dos dados coletados na primeira etapa, que corrobora para a tomada de decisão sobre os conceitos
diagnósticos que representam de forma mais fidedigna as respostas da pessoa, família ou coletividade
humana em um dado momento do processo saúde e doença; sabendo que estes são a base para a
seleção das ações ou intervenções com as quais se objetiva alcançar os resultados esperados (COFEN,
2009).
Dessa forma, o Quadro 3 apresenta os diagnósticos de enfermagem prioritários identificados na
paciente.

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

Quadro 3: :Diagnósticos de enfermagem conforme a NANDA-I 2018-2020.

Domínios e Classes Características Fatores Diagnóstico de


da NANDA-I (2018- definidoras relacionados Enfermagem
2020)

Domínio 12: Alteração no padrão Agente lesivo; Dor crônica


Conforto de sono;
Alteração no padrão
Classe 1: Conforto
Expressão facial de de sono;
físico
dor;
Código: 00133 Sofrimento
Representante relata emocional.
comportamento de
dor/alterações nas
atividades.

Domínio 11: Alteração na Excreções; Integridade da pele


Segurança/Proteção integridade da pele; prejudicada
Secreções;
Classe 2: Lesão
Dor aguda;
física Umidade.
Código: 00046 Hiperemia.

Domínio 4: Capacidade Assincronia Privação de sono


Atividade e repouso funcional diminuída; circadiana;
Classe 1: Sono e
Ansiedade; Desconforto
repouso
prolongado
Código: 00096 Maior sensibilidade a
dor.

Como evidenciado no Quadro 3, foram identificados três diagnósticos de enfermagem prioritários na


paciente. A partir disso, posteriormente realizou-se o planejamento das intervenções de enfermagem,
para compor o plano de cuidados da paciente, a partir da Classificação das Intervenções de
Enfermagem (NIC), conforme o Quadro 4.

9
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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

O Diagnóstico de Enfermagem é um processo de suma importância do PE, que engloba a utilização de


capacidades sensoriais e cognitivas, de raciocínio clínico, que consequentemente apresentam grandes
desafios em relação à sua compreensão e descrição (MARTINS, 2014).
Após a elaboração dos diagnósticos de enfermagem, deu-se sequência ao planejamento dos cuidados
de enfermagem, o qual se conceitua como a determinação dos resultados que se espera alcançar; e
das ações ou intervenções de enfermagem que serão realizadas face às respostas da pessoa, família
ou coletividade humana em um dado momento do processo saúde e doença, identificadas na etapa
de Diagnóstico de Enfermagem (COFEN, 2009).
Dessa forma, o Quadro 4 apresenta as intervenções de enfermagem propostas para cada diagnóstico
de enfermagem elaborado com base nas necessidades de saúde da paciente.
Quadro 4: Intervenções de Enfermagem propostas.

Diagnóstico de Enfermagem Intervenções de Enfermagem

Realizar um levantamento abrangente da dor


de modo a incluir o local, as características, o
I- Dor crônica relacionada a agente lesivo,
início/duração, a freqüência, a qualidade, a
alteração no padrão de sono e sofrimento
intensidade ou a gravidade da dor e os fatores
emocional, evidenciado por expressão facial
precipitantes;
de dor e representante relata comportamento
de dor/alterações nas atividades. Observar indicadores não-verbais de
desconforto;

Assegurar ao paciente cuidados precisos de


analgesia;

Usar estratégias terapêuticas de comunicação


para reconhecer a experiência de dor e
transmitir aceitação da resposta à dor;

Avaliar com o paciente e a equipe de cuidados


de saúde a eficácia de medidas de controle da
dor que tenham sido utilizadas;

Avaliar experiências anteriores de dor de


modo a incluir a história individual ou

10
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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

familiar de dor crônica ou incapacidade


resultante, quando adequado;

Auxiliar o paciente e a família a buscar e


oferecer apoio e escuta ativa;

Determinar a freqüência necessária para fazer


um levantamento de conforto do paciente e
implementar um plano de monitoramento;

Oferecer informações sobre a dor;

Controlar os fatores ambientais;

Ensinar o uso de técnicas não-farmacológicas

II- Integridade da pele prejudicada relacionada Avaliar presença de sinais flogísticos (dor,
a secreções, excreções e umidade, evidenciado calor, rubor, edema) em incisões cirúrgicas e
por alteração na integridade da pele, dor aguda em locais de inserção de sondas, drenos e
e hiperemia. cateteres;

Orientar sobre os cuidados com a pele


periestoma;

Monitorar temperatura da pele do paciente;

Observar as extremidades quanto a cor, calor,


inchaço, pulsos, textura, edema e ulcerações;

Monitorar características da pele;

Monitorar fontes de pressão e atrito;

Monitorar ocorrência de infecção;

Instituir medidas de prevenção de mais


deterioração (p. ex., colchão sobreposto,
agenda de reposicionamento);

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

III- Privação de sono relacionada a assincronia Determinar o padrão de sono/vigília do


circadiana e desconforto prolongado paciente;
evidenciado por capacidade funcional
Aproximar o ciclo regular de sono/vigília do
diminuída, ansiedade e maior sensibilidade à
paciente no planejamento dos cuidados;
dor.
Determinar os efeitos dos medicamentos do
paciente sobre o padrão do sono;

Monitorar/registrar o padrão de sono e o


número de horas de sono do paciente;

Adaptar o ambiente (p. ex., iluminação, ruído,


temperatura, colchão e cama) para promover
o sono;

Iniciar/implementar medidas de conforto,


como massagem, posicionamento e toque
afetivo;

Ajustar os horários de administração de


medicamentos em apoio ao ciclo de
sono/vigília do paciente;

Conversar com o paciente e a família sobre


técnicas que melhorem o sono.

Após o planejamento das intervenções de enfermagem (Quadro 4), também foram estabelecidas
através Classificação dos Resultados de Enfermagem (NOC), as metas que a paciente alcançaria a partir
da implementação das intervenções prescritas. Sendo estas: a paciente deverá apresentar controle da
dor, através da utilização das medidas farmacológicas e não farmacológicas; deverá apresentar
integridade da pele preservada e conhecer os cuidados para mantê-la íntegra; deverá apresentar
padrão de sono preservado e a família deverá mostrar apoio e estar junto da paciente durante todo o
processo da doença.
Após a implementação das intervenções de enfermagem, procedeu-se a avaliação de enfermagem, a
qual consiste em um processo deliberado, sistemático e contínuo de verificação de mudanças nas
respostas da pessoa, família ou coletividade humana em um dado momento do processo saúde

12
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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

doença, para determinar se as ações ou intervenções de enfermagem alcançaram o resultado


esperado; e de verificação da necessidade de mudanças ou adaptações nas etapas do Processo de
Enfermagem.
No contexto vivenciado pelos discentes, não foram observadas melhoras significativas na cliente após
a implementação da SAE, visto o estágio avançado da doença que a mesma se encontrava. Porém,
procurou-se repassar para ela e familiares todas as medidas que poderiam auxiliá-los no processo do
adoecimento.
Assim, ao passo que a doença avança, mesmo em vigência do tratamento medicamento, a abordagem
paliativa deve ser ampliada visando também cuidar dos aspectos psicológicos, sociais e espirituais
(INCA, 2020).
Na fase terminal, quando o paciente já tem pouco tempo de vida, o tratamento paliativo se torna
prioritário como uma forma de garantir qualidade de vida, conforto e dignidade. A transição do
cuidado curativo para o cuidado paliativo é um processo contínuo e sua dinâmica difere para cada
paciente (INCA, 2020).
Em suma, nota-se a importância da realização da Sistematização da Assistência de Enfermagem no
contexto da assistência ao paciente, pois possibilita o cuidado mais direcionado, e dessa forma, pode
torná-lo mais eficiente.
4.CONSIDERAÇÕES FINAIS
A partir das experiências discentes relatadas, evidencia-se a importância da implementação da SAE, na
prática clínica, pelos profissionais de enfermagem, independente do contexto onde atuam, seja na
Atenção Básica ou Hospitalar, pois este é fundamental para orientar o cuidado ao paciente.
A experiência vivenciada possibilitou o aprimoramento dos conhecimentos teóricos dos discentes
acerca da SAE, agora então vivenciados na prática. Portanto, também foi muito importante nesse
quesito por possibilitar observar e aplicar na realidade aquilo que apenas tinha sido visto em sala de
aula.
Diante disto, destaca-se a importância da abordagem da SAE e taxonomias de enfermagem, a saber:
NANDA, NIC e NOC, durante a graduação em enfermagem, visto que incentiva os alunos a se
apropriarem dessas tecnologias de baixo custo e possibilitam o desenvolvimento do raciocínio clínico
diagnóstico e terapêutico.
Dessa forma, salienta-se a importância de que trabalhos futuros também tragam a SAE vivenciada na
prática discente, docente e também dos profissionais assistenciais. Visto que os enfermeiros devem se

13
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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

empoderar diariamente das taxonomias de enfermagem para promover o cuidado ao paciente


baseado em evidências.

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

5.REFERÊNCIAS

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.br/datavisa/fila_bula/index.asp. Acesso em 7 de agosto de 2020.

BULECHEK, G. M.; BUTCHER, H. K. ; DOCHTERMAN, J. M.Classificaçãodasintervençõesdeenfermagem.


Organização Alba Lucia Bottura Leite de Barros. 5. ed. Tradução de Jacqueline Cesar Thompson, Regina
Garcez, Soraia Imon de Oliveira e Tatiana Ferreira Robaina. Rio de Janeiro: Elsevier, 2010.

CONSELHO FEDERAL DE ENFERMAGEM. Resolução COFEN n◦ 358, de 15 de outubro de 2009. Dispõe


sobre a Sistematização da Assistência de Enfermagem e a implementação do ProcessodeEnfermagem
em ambientes, públicos ou privados, em que ocorre o cuidado profissional deEnfermagem,edáoutras
providências.RiodeJaneiro:ConselhoFederaldeEnfermagem;2009.Disponívelem:>http://www.cofen.g
ov.br/resoluo-cofen-3582009_4384.html. Acesso em 01 de setembro de 2020.

HERDMAN, T. H.; KAMITSURU, S. Diagnósticos de Enfermagem da NANDA-I: definições e classificação


2018-2020. Organização Alba Lucia Bottura Leite de Barros. 11. ed. Tradução de Regina Machado
Garcez. Porto alegre: Artmed, 2018.

INCA. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Como surge o câncer?. Rio de Janeiro:
2020. Disponível em: https://www.inca.gov.br/como-surge-o-cancer. Acesso em 7 de agosto de 2020.

INCA. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Tipos de câncer: Câncer de Intestino.
Rio de Janeiro: 2020. Disponível em: https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-intestino.
Acesso em 7 de agosto de 2020.

INCA. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva. Cuidados paliativos. Rio de Janeiro:
2020. Disponível em: https://www.inca.gov.br/tipos-de-cancer/cancer-de-intestino. Acesso em 7 de
agosto de 2020.

INSTITUTO ONCOGUIA. Instituto Oncoguia. Câncer avançado, metástase e metástase óssea. São Paulo:
2019.Disponívelem:http://www.oncoguia.org.br/conteudo/cancer-avancado-metastase-e-metastase-
ossea/13285/357/. Acesso em 7 de agosto 2020.

LEFEVRE, R. A. Aplicação do processo de enfermagem: promoção do cuidado colaborativo. 5ª ed. Porto


Alegre: Artmed; 2002.

MARTINS, S. A. G. A importância do diagnóstico de enfermagem para o acadêmico. Artigo científico


apresentadoaocursodeBachareladoemEnfermagem.FaculdadedeCiênciaseEducaçãoSenaAires,Valpara
ísodeGoiás,2014.Disponívelem:https://www.senaaires.com.br/wpcontent/uploads/2017/05/AIMP%C
3%82NCIA-DO-DIAGN%C3%93STICO-DE-ENFERMAGEM-PARA-O-ACAD%C3%8AMICO.pdf. Acesso em
7 de agosto de 2020.

MOORHEAD, S. et al. Classificação dos resultados de enfermagem: mensuração dos resultados em


saúde. Organização Alba Lucia Bottura Leite de Barros. 5. ed. Tradução de Alcir Fernandes, Carla
Pecegueiro do Amaral e Eliseanne Nopper. Rio de Janeiro: Elsevier, 2016.

15
25
Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Um Paciente Oncológico: Relato De Experiência

THEOBALD, Melina Raquel et al. Percepções do paciente oncológico sobre o cuidado. Physis: Revista
de Saúde Coletiva, v. 26, p. 1249-1269, 2016.

16
26
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 2
10.37423/200902803

SISTEMATIZAÇÃO DA ASSISTÊNCIA DE
ENFERMAGEM PARA UMA PACIENTE COM
TRANSTORNOS DE ANSIEDADE E
COMPORTAMENTAIS: RELATO DE EXPERIÊNCIA

José Erivelton de Souza Maciel Ferreira Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Lídia Rocha de Oliveira Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Nathanael de Souza Maciel Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Diego da Silva Ferreira Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Raquel Lucas Costa Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Raiane Martins da Silva Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira

Carolina Maria de Lima Carvalho Universidade da Integração Internacional da


Lusofonia Afro-Brasileira
Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

Resumo: Objetivo: descrever a experiência de acadêmicos de enfermagem acerca da assistência de


enfermagem a um paciente com diagnósticos sugestivos de Transtorno Ansioso não Especificado e
Transtorno Mental e Comportamental devido ao uso de Sedativos e Hipnóticos. Método: trata-se de
um estudo descritivo, do tipo relato de experiência vivido por acadêmicos de enfermagem no estágio
da disciplina de Processo de Cuidar em Saúde Mental de uma universidade federal. O estágio ocorreu
em um Centro de Atenção Psicossocial da capital do estado do Ceará. Resultados: observou-se a
presença de achados clínicos importantes que estavam intrinsecamente associados a fisiopatologia e
também ao déficit de conhecimento acerca dos distúrbios sugestivos. Elaborou-se um plano de
cuidados, no qual foram elencados sete diagnósticos de enfermagem prioritários que levaram à
elaboração de um plano de cuidados mais direcionado. Conclusão: evidenciou-se a importância de
uma significativa participação e comprometimento dos acadêmicos e tutores, de maneira reflexiva e
crítica, no processo de cuidar em saúde mental. A implementação da Sistematização da Assistência de
Enfermagem pode aprimorar a assistência à saúde ao paciente com transtornos biopsicossociais,
favorecendo a melhoria da atenção integral à saúde humana por meio da assistência holística.
Descritores: Saúde Mental; Enfermagem; Cuidados de Enfermagem; Saúde Pública.

1
28
Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

INTRODUÇÃO

Sabe-se que número de pessoas com transtornos mentais no mundo está aumentando,1 dentre eles
os Transtornos de Ansiedade e Comportamentais. Destaca-se a ansiedade como sintoma psiquiátrico
ou reação emocional relacionada a inúmeros contextos de vida. Contudo, ela apresenta-se como
transtorno quando exprime emoção desconfortável e inconveniente, revelando-se na inexistência de
estímulo nítido ou demasiadamente justificável e manifestando intensidade, constância e regularidade
desmedida.2
Comprovou-se em 2015 que a proporção da população global com transtornos de ansiedade é
estimada em 3,6% e que assim como a depressão, esses distúrbios são mais comuns entre mulheres
quando comparado com o acometimento do sexo masculino (4,6% comparado a 2,6% no nível global).
Na Região das Américas, um quantitativo de 7,7% da população feminina é estimado sofrer de
transtorno de ansiedade, ao passo que para homens se estima 3,6%.1
Notabiliza-se que as manifestações da ansiedade provocam sofrimento e prejuízo nas relações
humanas. Pessoas que vivem com transtorno de ansiedade possuem mais pensamentos de
preocupações, de forma periódica, e que podem estar relacionados à sentimentos, como tensão.
Ademais, há a presença de sintomas físicos, como hipertensão arterial, sudorese, taquicardia,
tremores e tontura.3
Verifica-se, nessa perspectiva, que quando as relações sociais são interferidas em razão do elevado
sofrimento do paciente, a farmacoterapia deve ser considerada de maneira consoante à abordagem
psicoterápica.4 Todavia, o uso desses medicamentos pode elevar os riscos de dependência e de
intoxicações, além dos vários efeitos adversos.5
Expõem-se, os transtornos mentais decorrentes do uso de drogas psicoativas, um relevante infortúnio
de saúde no Brasil, compreendendo ambos os sexos e todas as faixas etárias. Além disso, são
determinantes negativos na qualidade de vida das pessoas e não em mortalidade, tornando-se invisível
aos gestores em saúde.6
Alerta-se que dentre os fármacos psicoativos, os sedativos são capazes de deprimir a atividade do
sistema nervoso central, enquanto os hipnóticos produzem sonolência e facilitam iniciar o sono. 7 Os
Transtornos Mentais e Comportamentais devido ao uso de Sedativos e Hipnóticos são classificados,
em nove especificações diagnósticas. São elas: intoxicação aguda; uso nocivo para a saúde; síndrome
de dependência; síndrome de abstinência; outros transtornos mentais ou comportamentais; e
transtorno mental ou comportamental não especificado.

2
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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

Tem-se fomentado, em decorrência do uso de substâncias psicoativas, uma ampla atenção global em
razão do número de usuários existentes e ao seu impacto, a nível individual e coletivo. Nota-se uma
distribuição do uso dessas substâncias que abrange os mais diversos segmentos, dos mais pobres aos
mais ricos, compreendendo jovens, adultos e idosos.8
Destaca-se que uma das ideias desenvolvidas e implementadas na atualidade com fins ao atendimento
especializado a essas pessoas é a Rede de Atenção Psicossocial (Raps).9 Mostra-se imperioso fomentar
que os processos de trabalho resultem em cuidados, tornando-se essencial a aplicação de tecnologias
leves, dos afetos, dos vínculos e da corresponsabilização, com o intuito de instigar o acordo de
diferentes atores na construção do cuidado.10
Ressalta-se, assim, que os enfermeiros, por terem o cuidado como essência do ser e do próprio ofício,
necessitam cuidar e desenvolver suas ações através da Sistematização da Assistência de Enfermagem
(SAE) de forma a atender as necessidades do sujeito de modo holístico e integral, para isso precisam
unir a competência técnica com a sensibilidade, a afetividade e o respeito.11
Frisa-se que a SAE é um processo metodológico que organiza e orienta o cuidado, o trabalho
profissional quanto ao método, pessoal e instrumentos, tornando possível a operacionalização do
processo de enfermagem evidenciando a contribuição da enfermagem na atenção à saúde da
população, aumentando a visibilidade e o reconhecimento profissional através de ações racionais e
embasadas cientificamente.13 Buscou-se, assim, no campo de estágio, investigar qual a contribuição
que acadêmicos de enfermagem munidos de conhecimento científico podem oferecer a pacientes com
distúrbios mentais.
Por fim, o objetivo desse estudo foi descrever a experiência de acadêmicos de enfermagem acerca da
assistência de enfermagem a um paciente com diagnósticos sugestivos de Transtorno Ansioso não
Especificado e Transtorno Mental e Comportamental devido ao uso de Sedativos e Hipnóticos.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo, tipo relato de experiência, construído a partir da prática vivenciada
por acadêmicos de enfermagem na disciplina de Processo de Cuidar em Saúde Mental da Universidade
de Integração Internacional da Lusofonia Afro-brasileira (UNILAB), no período de abril a maio de 2018.
O estágio ocorreu em cinco encontros, cada qual com cinco horas de duração, distribuídos em cinco
semanas em um Centro de Atenção Psicossocial da cidade de Fortaleza-Ceará, sob supervisão direta
de um professor.
Compreende-se este estudo em três momentos. O primeiro momento versou-se sobre a solicitação da
permissão do coordenador do Centro de Atenção Psicossocial para a realização do estágio nessa

3
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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

unidade. O segundo momento tratou-se da escolha de um paciente adulto devidamente cadastrado e


assíduo que participasse das atividades propostas pelo CAPS às segundas feiras pelo turno da manhã,
independentemente do diagnóstico médico ou de sugestões diagnósticas. A escolha do paciente deu-
se por indicação da equipe de saúde da unidade. Foi indicado um paciente do sexo feminino.
Enfocou-se, por fim, no terceiro momento sobre a construção e implementação do processo de
enfermagem, que constitui a SAE, compreendendo as cinco etapas. Seguiu-se as quatro fases
sequenciais do relacionamento terapêutico para a realização da primeira etapa do processo de
enfermagem: fase de pré-interação, fase introdutória ou de orientação, fase de trabalho e fase de
encerramento.13
Elaborou-se e aplicou-se um instrumento estruturado por questões específicas e direcionadas à
paciente com distúrbio psíquico, ou seja, em variáveis sociodemográficas, clínicas e funcionais no
âmbito neurológico. Percebeu-se, mais tarde, a necessidade de aplicar outros dois instrumentos: Mini
Exame do Estado Mental14 e o Instrumento de Avaliação da Qualidade de Vida de WHOQOL-BREF
(World Health Organization Quality of Life).15 Alcançaram-se informações adicionais sobre a paciente
por meio do prontuário e dos profissionais de nível superior da instituição que acompanhavam o
paciente.
Traçaram-se, na segunda etapa do processo, os diagnósticos de enfermagem, que é o processo de
análise e junção dos dados coletados na primeira etapa que culmina com a elaboração dos conceitos
diagnósticos de enfermagem que representam, com mais exatidão, as necessidades do cliente em um
dado momento do processo saúde e doença, além de nortear a seleção das ações ou intervenções com
as quais se objetiva alcançar os resultados esperados.12
Determinou-se, na terceira etapa, o planejamento de enfermagem, o qual é definido como a
determinação dos resultados que se espera alcançar e das ações ou intervenções de enfermagem que
serão realizadas, identificadas na etapa de diagnóstico de enfermagem.12
Realizou-se, na penúltima etapa a implementação das ações ou intervenções determinadas na etapa
de planejamento de enfermagem. Fez-se, por fim, na quinta etapa, a avaliação de enfermagem, tido
como um processo deliberado, sistemático e contínuo de verificação de mudanças nas respostas da
pessoa, família ou coletividade humana em um dado momento do processo saúde doença, para
determinar se as ações ou intervenções de enfermagem alcançaram o resultado esperado; e de
verificação da necessidade de mudanças ou adaptações nas etapas do processo de Enfermagem. 12

4
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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

RESULTADOS

Realizou-se a consulta de Enfermagem após transcorrido o estabelecimento de vínculo entre os


acadêmicos, tutores e a paciente, realizou-se a consulta de enfermagem. Percebeu-se e coletou-se,
durante a fase de coleta de dados de enfermagem, algumas informações importantes que subsidiaram
à construção do plano assistencial de enfermagem.
Observou-se, a partir da análise crítica de todas as informações cedidas pela paciente, registradas no
prontuário e percebidas pelo acadêmico, que a paciente não possuía conhecimento suficiente sobre
os seus distúrbios sugestivos visto que ela nunca ouviu falar sobre eles ou não conseguia relacionar a
sua sintomatologia com tais diagnósticos, além de acreditar ser depressiva. Viu-se ainda ao consultar
o prontuário da cliente que os diagnósticos sugestivos presentes para a cliente eram Transtorno de
Ansiedade não Especificada (F 41.1) e Transtorno Mental e Comportamental devido ao uso de
Sedativos e Hipnóticos (F 13.2).
Percebeu-se, ademais, que a paciente relatava com detalhes toda a sua história de vida, explanando
cada acontecimento que lhe marcou positiva e negativamente da infância à vida adulta, como abuso
sexual e exploração de trabalho na adolescência, internação após tentativa de suicídio há 15 anos,
morte da mãe no ano de 2007 e do filho mais velho em 2013 e a separação do cônjuge. Percebeu-se
que a cliente associa alguns desses acontecimentos como desencadeantes do distúrbio, contudo
acredita que a sua doença é fruto sobretudo da relação conturbada com a mãe e padrasto. Notou-se
que ela pareceu não conseguir associar as perdas que sofreu como fatores que intensificaram as suas
crises, embora tenha-se notado que há uma relação intrínseca entre ambos.
Instigaram-se sobre as queixas principais da cliente, observaram-se que muitos dos relatos acerca da
própria sintomatologia iam de encontro as informações registradas no prontuário. Comparou-se as
informações cedidas e as registradas, isso proporcionou uma maior segurança para refletir e relacionar
as queixas relatadas aos diagnósticos atribuídos a paciente. Considerou-se importante: as queixas de
alucinações auditivas e visuais, insônia, medo de tentar suicídio, nervosismo, tristeza profunda,
inquietação, angústia, receio de sair de casa e de perder um ente querido.
Consideraram-se ainda outras queixas, como as mudanças no padrão de evacuação intestinal e vesical
(1x a cada 3 dias e 2x ao dia, respectivamente), padrão de sono leve, cefaleia, dor na região inguinal e
na mão esquerda sem motivo aparente. Buscou-se compreender essas queixas dentro da óptica dos
diagnósticos levantados, tornando-se, pois, um desafio para os acadêmicos.
Sublinha-se ainda que a paciente apresentou um conhecimento deficiente em relação aos efeitos
terapêuticos dos medicamentos os quais faz uso, embora saiba memorizado o nome comercial de cada

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

um. São eles: cinetol, haloperidol, fluoxetina, longactil, amitriptilina e diazepam, todos via oral.
Percebeu-se, ainda nesta etapa de coleta de dados, que o controle da devida ingestão dos
medicamentos prescritos para a cliente é geralmente feito por ela mesma e as vezes por seu filho-
vizinho. Demonstra-se insatisfeita com a redução da dosagem de dois medicamentos sedativos e
hipnóticos, do amitriptilina e diazepam.
Explana-se adiante (Tabela 1) os principais Diagnósticos de Enfermagem de acordo com a classificação
taxonômica internacional NANDA-I16 que estavam presentes na paciente, para que posteriormente
fosse traçado um plano de cuidados à paciente.
DIAGNÓSTICO FATORES RELACIONADOS CARACTERÍSTICAS DEFINIDORAS
Ameaça à condição atual,
Ansiedade Hipervigilância e medo
conflito de valores e estressores
Dor aguda Agente lesivo desconhecido Autorrelato de dor
Hábitos de evacuação
irregulares, transtorno
Constipação Redução na frequência das fezes
emocional e hábito alimentar
inadequado
Dificuldade para iniciar e manter o sono e
Insônia Ansiedade, medo e pesar
insatisfação com o sono
Sensação de medo e foco direcionado
Medo Separação do sistema de apoio
para a fonte do medo
Desempenho de Baixa autoestima e expectativas
Autocontrole insuficiente
papel ineficaz não realistas a respeito do papel
Baixa autoestima Subestimação da capacidade de lidas com
Enfrentamento ineficaz de perda
crônica a situação
Tabela 01 - Diagnósticos de Enfermagem de uma paciente com diagnóstico
psiquiátrico sugestivo de Transtorno Ansioso não Especificado e Transtorno Mental
e Comportamental devido ao uso de Sedativos e Hipnóticos. Fortaleza-CE, 2018.
Observa-se então que foram elencados sete diagnósticos de enfermagem prioritários que necessitam
de um plano de cuidados mais direcionado, foram eles: ansiedade, dor aguda, constipação, insônia,
medo, desempenho de papel ineficaz e baixa autoestima crônica. Prescreveu-se, posteriormente, após
análise e conclusão dos diagnósticos de enfermagem da paciente, um plano de cuidados de
enfermagem a partir da Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC),17 conforme a tabela 2.

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

INTERVENÇÕES DE ENFERMAGEM

Esclarecer dúvidas sobre as doenças e os tratamentos para a paciente e família.

Potencializar conhecimentos de controle pessoal, orientando no reconhecimento dos sintomas individuais.

Incentivar a participação nas atividades grupais sobre autocuidado e nas atividades propostas pelo CAPS.

Incentivar prática de exercícios físicos no domicílio junto da neta.

Estimular ingesta de alimentos ricos em fibras e água.

Reorganizar junto da paciente sua escala alimentar.

Orientar a família sobre necessidade de ter alguém responsável por gerenciar no domicílio as medicações
nos devidos horários e quantidades prescritos.

Orientar a família sobre a necessidade de se aproximar e de respeitar a paciente.

Orientar a paciente sobre a necessidade de sono regular de pelo menos oito horas por noite (evitar
luminosidade ao dormir e ouvir músicas relaxantes).

Ensinar técnicas para diminuir irritabilidades e crises de ansiedade (respirar profundamente da maneira
correta – intercostal-diafragmática – e pensar em coisas boas; meditar).

Ensinar técnicas de enfrentamento dos sintomas de síndrome de abstinência e de dependência de fármacos


sedativos (tomar muita água; comer pequenas porções de alimentos não calóricos como castanhas;
meditação; passeio).

Investigar e comunicar ao profissional médico da unidade as queixas atuais de cefaleia e dor na mão
esquerda.

Tabela 02 – Plano de Cuidados de Enfermagem voltado para uma paciente com


diagnóstico psiquiátrico sugestivo de Transtorno Ansioso não Especificado e
Transtorno Mental e Comportamental devido ao uso de Sedativos e Hipnóticos.
Fortaleza-CE, 2018.
Salienta-se que as intervenções de enfermagem selecionadas para este caso estão em harmonia com
a Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC), sendo algumas destas voltadas para a paciente
e familiares.
Estabeleceram-se, a partir da Classificação dos Resultados de Enfermagem (NOC)18, as metas que a
paciente alcançaria a partir da implementação das intervenções prescritas, quer seja a curto ou longo
prazo. Foram elas: a paciente deverá mostrar-se mais tranquila, menos triste e com pensamentos
positivos elevados, disposta para cuidar da própria saúde psicológica, com padrão de sono regular,
disposta para realizar as atividades de vida diárias e exercícios físicos e disposição para hábitos
alimentares saudáveis, livre de dores e interessada para interagir socialmente; a família da paciente
deverá mostrar-se mais acolhedora e respeitosa para com ela e, também, atenciosa quanto ao
gerenciamento correto das doses e horários dos fármacos que a paciente faz uso, sobretudo dos
sedativos e hipnóticos.

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

Referindo-se ao Mini Exame do Estado Mental, a paciente pontuou 17 escores, não perpassando o
escore mínimo de 28 pontos para pacientes que possuem o ensino médio completo. A paciente deixou
de pontuar nas seguintes variáveis do exame mental:14 registros, atenção e cálculo, lembranças
(memória de evocação) e no comando 10 que exigia da paciente um desenho geométrico. Nos demais
comandos a paciente pontuou, dentre eles Orientações Temporal Espacial e Linguagem.
Percebeu-se, outrossim, que ao aplicar o Instrumento de Avaliação da Qualidade de Vida baseado em
como a paciente se sente a respeito da própria qualidade de vida, saúde e outras áreas de sua vida, o
resultado geral dessa avaliação da paciente é ruim. Depreendeu-se, por tanto, que em nenhuma das
áreas da sua vida que o instrumento explora a paciente sentiu-se satisfeita e feliz.
DISCUSSÃO
Exprime-se que a experiência e troca de conhecimentos nesse campo de estágio foi muito válida, tanto
para os acadêmicos de enfermagem, professor preceptor, equipe de saúde da unidade, quanto para a
paciente que recebeu os devidos cuidados de enfermagem a partir da construção e implementação da
SAE.Ressai-se dentre as dificuldades encontradas pelos acadêmicos, no que refere-se a realização da
construção da SAE para a usuária do CAPS, o fato de que os diagnósticos atribuídos pelo médico
psiquiátrico para ela são apenas sugestivos. Notou-se, contudo, que dificuldades como esta estimulam
o acadêmico, exige que ele se debruce mais sobre a literatura no intuito de adquirir mais conhecimento
sobre as doenças psíquicas para prestar uma assistência de enfermagem qualificada.
Apreende-se que diagnosticar um paciente com sofrimento psíquico é um grande desafio para os
profissionais da saúde, pois os sinais e sintomas apresentados pelos pacientes estão relacionados com
diversos fatores, dentre eles a história pregressa e familiar, bem como acontecimentos estressantes,
tornando complexo a elaboração de um diagnóstico fechado, e isso muitas vezes levam-se anos para
ser feito.19
Discutiu-se com a equipe de saúde do serviço, a partir de reflexões profundas acerca dos diagnósticos
sugestivos atribuídos à paciente, que a causa do transtorno de ansiedade dessa paciente pode ter se
originado das inúmeras separações inesperadas que surgiram ao longo dos últimos 15 anos. Pesquisas
retrospectivas têm indicado que a presença de ansiedade de separação na infância é um fator de risco
para o desenvolvimento de múltiplos transtornos de ansiedade na vida adulta, entre eles, o transtorno
de pânico e de humor.20 Notou-se que a discussão em grupo ampliou consideravelmente a magnitude
de compreensão dos acadêmicos de enfermagem.
Aponta-se, ademais, a abordagem a esses pacientes como um desafio para todos os profissionais da
saúde.19 Percebeu-se, entretanto, que parte desse desafio pode ser superado a partir do seguimento

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

das quatro fases sequenciais – fase de pré-interação, fase introdutória ou de orientação, fase de
trabalho e fase de encerramento do relacionamento terapêutico,13 visto que elas foram cruciais para
o estabelecimento de uma relação de confiança mútua acadêmico-cliente.
Deve-se assim, quer seja dentro ou fora desse contexto, que o enfermeiro perceba o paciente de forma
holística e humanizada, buscando priorizar a comunicação terapêutica. 21 Identificou-se a partir dessa
comunicação informações importantes cedidas pela cliente que não estavam registradas no prontuário
e tampouco eram de conhecimento da equipe de saúde do serviço especializado que lhe
acompanhava. Destacou-se como preocupante, dentre as informações reveladas pela paciente, a
informação de que a paciente já havia induzido a sua neta a cometer suicídio por envenenamento por
medicamentos psíquicos.
Considera-se importante, destarte, que o profissional enfermeiro priorize a comunicação terapêutica
durante a realização do processo de cuidar em saúde mental. Refletiu-se, enquanto acadêmicos de
enfermagem juntamente dos tutores e equipe de saúde, sobre a tamanha importância no
estabelecimento de vínculo profissional-cliente e do registro para a continuidade da assistência pelos
demais profissionais da instituição.
Apontam-se, por alguns estudos, que dentre os aspectos associados à tentativa de suicídio estão a
ansiedade, síndrome psicótica22,23 e o abuso de psicofármacos,24. Com isso, os aspectos associados ao
suicídio vão de encontro aos diagnósticos sugestivos da paciente. Considera-se a reflexão sobre a
associação dos diagnósticos sugestivos com os sinais e sintomas apresentados pela cliente foi
relevante, contribuindo para uma melhor análise crítica do problema apresentado.
Concernindo-se aos sinais e sintomas detectados na coleta de dados, percebeu-se que uma relação
direta deles com os diagnósticos médicos atribuídos à paciente, embora ainda estejam em processo
de análise diagnóstica. Insônia, medo, nervosismo, tristeza profunda, indisposição para realizar as
atividades de vida diária, inquietação e angústia relacionam-se com o Transtorno de Ansiedade.25
Relaciona-se o fato dessa paciente sentir fortes dores de cabeça à ansiedade, pois um estudo
observacional transversal evidenciou que existe uma relação estatisticamente significativa entre
cefaleia e ansiedade.26
Relacionam-se com o Transtorno Mental e Comportamental devido ao uso de Sedativos e Hipnóticos
a insônia, tristeza profunda, medo de tentar suicídio e indisposição para as atividades rotineiras, visto
que as mulheres que abusam de substâncias psicoativas podem apresentar, com maior frequência,
episódios depressivos, psicóticos, ansiedade e transtornos de personalidade.27

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

Constatou-se que os instrumentos adotados para a realização da coleta de dados auxiliaram o


entrevistador na detecção mais apurada dos diagnósticos de enfermagem, uma vez que exploraram
variáveis importantes que não podem passar despercebidos pelo profissional enfermeiro que atua
realizando diversas atividades dentro de um serviço substitutivo como o CAPS. Tornaram-se assim, os
fatores relacionados e as características definidoras existentes para cada diagnóstico, mais claros após
a aplicabilidade dessas ferramentas, fortalecendo o raciocínio crítico para a elaboração do plano de
cuidados centrado no paciente e familiares.
Constitui-se, o trabalho do enfermeiro dentro dos CAPS, na reabilitação psicossocial que inclui a
reinserção do ser humano nas atividades diárias, no mundo do trabalho e nos espaços comunitários.
Assume-se este desafio cotidianamente nas atividades sociais, de cuidado, de acompanhamento, nas
oficinas e grupos, enquanto espaços terapêuticos e de socialização.28 Incentiva-se, por isso, uma das
mais importantes intervenções não farmacológicas, a participação desses pacientes em atividades
grupais que abordem o autocuidado e a atividades que despertem o prazer, como a dança, a arte e
outras meios como ferramentas para terapia cognitiva.
Objetiva-se com os grupos terapêuticos possibilitar que os indivíduos tornarem-se capazes de
utilizarem-se da sua tomada de consciência como ser social a partir de atividades educativas ou de
informação, reflexão e suporte.29 Notou-se que durante os encontros e as atividades grupais a paciente
sentia-se inclusa naquele ambiente, e por conseguinte, ela relatou que depois de sua inserção nos
grupos terapêuticos desenvolvidos no CAPS passou a inserir-se com mais facilidade na sociedade,
apoiando a colocação dos estagiários.
Entende-se que a abordagem psicoterápica para ambos os transtornos discutidos pode se dar por meio
das mais diversas modalidades, uma delas é a terapia cognitivo-comportamental, que consiste
basicamente em provocar mudanças na maneira alterada de perceber e raciocinar sobre o
comportamento.30
Reforça-se que das diversas atividades realizadas em um CAPS, os grupos se constituem em um dos
principais recursos terapêuticos no contexto de atendimento e acompanhamento, como regulamenta
a portaria n. 224/199231, sobretudo na modalidade de psicoterapia de grupo, grupos operativos,
atividades de suporte social e oficinas terapêuticas. Contudo, a temática grupo é ainda pouco
trabalhada no currículo do curso de Enfermagem, tanto no âmbito da graduação como na pós-
graduação, o que corrobora as dificuldades enfrentadas pelos acadêmicos na prática assistida,
interferindo assim também na prática profissional dos recém-formados.

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

Denotou-se que a SAE planejada e implementada contribuiu significativamente na melhoria da


qualidade de vida da paciente e promoção do seu bem-estar. Mostrou-se ao término do estágio,
diferentemente do primeiro dia de coleta de dados, contente com os resultados alcançados durante e
após o plano de cuidados, demonstrando conhecimento sobre a sua condição clínica, sentindo-se
encorajada a aderir ao tratamento e agradecida pela assistência prestada durante esse período.
Aponta-se, pois, que as atividades de Enfermagem devem estar acima da cientificidade técnica,
cabendo-lhes utilizar seus conhecimentos e recursos da área, como SAE, e também pessoais como
meio para a manutenção de uma relação terapêutica profissional-paciente eficaz.
Externa-se que embora os acadêmicos deste estudo não tivessem experiência na área de saúde mental
naquele período, muito menos construído e implementado um processo de enfermagem para clientes
deste público, é importante enfatizar que o conhecimento prévio e adquirido na universidade para
depois colocá-lo em prática no campo foi um desafio tão logo superado. Vivenciar tal experiência foi
de extrema importância para a construção de um processo formativo de qualidade enquanto
profissionais enfermeiros assistenciais no âmbito da saúde mental.
CONCLUSÃO
Depreende-se, diante do exposto, que a implementação da Sistematização da Assistência de
Enfermagem é essencial para o êxito das intervenções oferecidas para a pessoa com sofrimento
mental, em virtude de sua capacidade de metotização e orientação das práticas de enfermagem. Para
os acadêmicos, o entendimento do cuidado, visto com ênfase na sistematização, propicia a explanação
de um plano de cuidados eficaz, bem como a oferta da assistência qualificada, viabilizando que os
resultados alcançados sejam avaliados.
Possibilitou-se com a experiência vivenciada aprimorar o conhecimento teórico-prático adquirido na
instituição de ensino, tornando possível o confronto entre ambas as realidades: a da prática
profissional atuante no campo com aquela descrita na literatura. O conteúdo teórico ministrado a nível
de sala de aula/laboratório não estava longe do que foi vivenciado na prática, sobretudo quanto a
construção da SAE ao paciente com distúrbios psicológicos.
Nesta perspectiva, salienta-se a significativa participação e comprometimento dos acadêmicos, de
maneira reflexiva e crítica, no processo de cuidar em saúde mental, onde a aplicação da SAE pode
aprimorar a assistência à saúde ao paciente com transtornos biopsicossociais, favorecendo a melhoria
da atenção integral à saúde humana por meio da assistência holística.

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

Fica a sugestão para que sejam produzidos trabalhos na área de saúde mental que explorem a relação
do Transtorno Ansioso de separação na vida adulta como fator para o desenvolvimento de Transtornos
Mentais e Comportamentais devido ao uso de Sedativos e Hipnóticos.

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Sistematização Da Assistência De Enfermagem Para Uma Paciente Com Transtornos De Ansiedade E Comportamentais: Relato De
Experiência

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15
42
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 3
10.37423/200902823

O DESENGAJAMENTO ITINERANTE NA VIDA


RELIGIOSA CONSAGRADA

Marisa Martinelli Hospital Regional Jurua

Luiz Antonio Bettinelli Universidade de Passo Fundo

Marilene Rodrigues Portella Universidade de Passo Fundo


O Desengajamento Itinerante Na Vida Religiosa Consagrada

Resumo: A vivência da itinerância, para os religiosos consagrados é a expressão do modo de viver e


da missão no mundo. Objetivou-se descrever os significados e repercussões da itinerância no processo
viver e envelhecer de idosas religiosas consagradas. Pesquisa do tipo exploratório descritivo de
abordagem qualitativa. Participaram do estudo 28 idosas de uma congregação religiosa do norte do
Estado do Rio Grande do Sul. A coleta dos dados foi realizada no período de abril a julho de 2013.
Emergiram as categorias: escolha vocacional: uma missão designada, norteamento familiar na escolha
vocacional, decisão construtiva/salutar e sofrimento inevitável, desengajamento itinerante na vida
religiosa consagrada. O processo do desengajamento itinerante é sentido e percebido de forma
ambígua pelas idosas e com o envelhecimento se torna mais difícil. Há o desejo de investimento no
envelhecimento da vida religiosa consagrada para que seus dons capacidades sejam reconhecidos e
desenvolvidos.
Descritores: Velhice; Desengajamento; Vida religiosa; Cuidado.

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INTRODUÇÃO

No período de 2015-2020, uma pessoa com 65 anos, em geral, deverá viver, em média, mais 17 anos.
Em 2045-2050, esse número terá aumentado para 19 anos. Em 2050, a expectativa de vida aos 65 anos
é projetada para variar entorno de 24 anos, em países como a Austrália e Nova Zelândia (1). As mulheres
continuam em vantagem em relação a sobrevivência, pois tem uma expectativa de viver 18 anos a
mais, enquanto os homens com a mesma idade, de acordo com as estimativas, viverão 16 anos a
mais(1).
O envelhecimento populacional ocorreu associado às melhorias nas condições gerais de vida, sem
tempo para uma organização adequada dos países em desenvolvimento, tanto na área social, quanto
na da saúde, havendo dificuldades para atender às novas demandas emergentes. Em 50 anos, o Brasil
passou de um perfil de mortalidade típico de uma população jovem, para um quadro com
enfermidades complexas e onerosas, próprias das idades avançadas(2).
À medida que o processo de envelhecimento for avançando ocorre uma mudança do equilíbrio, dando
lugar há certo distanciamento da sociedade, pela diminuição das relações sociais e do desempenho de
papéis, pela modificação no tipo de relacionamentos, podendo levar o indivíduo ao afastamento
progressivo da vida social. A estrutura de personalidade se desenvolve nas relações instituídas entre o
sujeito e o sistema social, onde se desliga gradativamente das atividades em favor de um estilo de vida
mais tranquilo e sem muitos compromissos(3).
Nas congregações religiosas, os idosos estão superando o número de jovens e adultos, sendo que
algumas são constituídas quase que exclusivamente por religiosos da terceira idade. Neste sentido, o
ingresso na terceira idade demanda a assimilação de um novo papel social. Muitos religiosos
compreendem o afastamento de suas funções como um descarte da congregação, um atestado de
nulidade institucional e adoecem ou acabam manifestando o declínio característico da velhice como
reação a uma suposta perda de importância na estrutura institucional. Por outro, lado é notável que
as religiosas tendam a preservar sua funcionalidade em nível acima da média populacional. Este fato
está atrelado ao estilo de vida, suporte institucional, vivência comunitária, espiritualidade e exercícios
das funções cognitivas, conforme o estudo longitudinal norte-americano que investigou a relação de
envelhecimento e doença de Alzheimer, através da pesquisa com 678 religiosas de Kentucky nos EUA,
durante 61anos(4-5).
A itinerância tem sido compreendida na vida religiosa consagrada (VRC), como um sinal de fidelidade
a missão, de liberdade para cultivar o desapego a lugares, a pessoas e acolher os apelos do espírito.
Algumas religiosas dão continuidade a tarefas apostólicas, outras acolhem este novo tempo como uma

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possibilidade dedicar-se a atividades agradáveis, que em outros tempos não era possível. Elas têm
possibilidades de adotarem outro estilo de vida, mais recolhida e contemplativa, dedicando-se à tarefa
de rezar pelas pessoas, pela congregação e pela Igreja. Outro traço característico da missão dos idosos
religiosos aponta para a importância da espiritualidade, um meio pelo qual a idosa religiosa continua
seu apostolado contribuído com aqueles que permanecem na ativa(4).
Dentre as escolhas das pessoas que optam pela vida religiosa consagrada feminina está o processo de
itinerância. Ela faz parte da vida consagrada ativa, onde os membros se colocam à disposição da
congregação, sendo deslocados de um local para outro, conforme a necessidade da missão e/ou as
condições físico-psíquicas apresentadas. A pessoa que opta pela vida religiosa consagrada já é
sabedora desta itinerância. Em média a religiosa habita uma residência por seis anos, sendo transferida
para outra moradia, onde assumirá outras atividades pastorais e profissionais.
Com o avanço da idade, as oportunidades e engajamentos diminuem, a começar pela interrupção das
atividades. Ao desengajar-se o indivíduo passa por um processo e adequação da vida, que se apresenta
à medida que se defronta com dificuldades crescentes e novas limitações. Essas adequações são
marcadas pelo abandono de algumas atividades e relações. No entanto, podem ser reduzidas e/ou
substituídas por outras que exijam menos esforço e que mantenham o processo de adequação da
existência e reconversão das atividades. Desse modo, as pessoas idosas criam estratégias de conversão
que podem ser classificadas como adaptação à nova realidade, abandono ou substituição de uma
atividade e a volta por cima, onde ocorre a retomada de uma atividade, o envolvimento de uma
atividade nova e até o aumento no envolvimento numa atividade já praticada(6).
Olhando para esta realidade do envelhecimento na VRC percebe-se a necessidade de repensar os
significados e as repercussões da itinerância no processo de viver e envelhecer das pessoas que optam
pela VRC. Dentro dessa perspectiva um dos aspectos que sempre suscitaram questionamentos é como
as idosas religiosas enfrentam a itinerância, além de buscar informações a cerca do significado deste
processo e as suas implicações para suas vidas. Outro aspecto que contribuiu é a falta de dados
relacionados ao envelhecimento de pessoas que escolhem a vida religiosa consagrada feminina. Sem
os dados se torna difícil dimensionar a atual situação dessas idosas, sendo este um dos motivos que
me estimula a ampliar o conhecimento e me desafia a buscar novas informações sobre as percepções
e significados da itinerância na vida de pessoas que optam pela à VRC.
Dentro desse panorama têm-se como questão norteadora: quais os significados e as repercussões da
itinerância, no processo de viver e envelhecer na vida das idosas religiosas? Sendo que, o objetivo geral

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é descrever os significados e repercussões da itinerância no processo viver e envelhecer de idosas


religiosas.
MÉTODO
Trata-se de um estudo descritivo de abordagem qualitativa, desenvolvido com idosas de uma
congregação religiosa do norte do Estado do Rio Grande do Sul. Participaram do estudo 28 religiosas,
sendo que os dados foram coletados através de entrevista individual, contendo sete questões abertas,
com duração aproximada de 60 minutos. O período de coleta de dados ocorreu entre abril a julho de
2013. As entrevistas foram gravadas com anuência das participantes após o agendamento prévio e a
assinatura do TCLE.
Para preservar o anonimato e o sigilo as participantes receberam uma sigla de ordem sequenciais
correspondente à entrevista (E1 a E28). A abertura do dialogo ocorreu a partir da seguinte questão:
Quais os significados sobre o desengajamento itinerante na sua vida religiosa consagrada? Que
implicações ocorram na sua vida? A entrevista possibilitou que as religiosas a falassem sobre sua
história de vida, as motivações que as levaram a escolha da VRC, sua experiência nas diversas
comunidades onde foram transferidas, sobre as adaptações e sentimentos, aspectos favoráveis e
desfavoráveis da itinerância, como estava acontecendo o processo e a preparação para o
envelhecimento e a importância da Vida Religiosa Consagrada para a qualidade de vida na velhice.
As entrevistas elas foram transcritas através da leitura e releitura, da extração das unidades temáticas
e da organização das categorias. Os depoimentos foram analisados e interpretados conforme preconiza
a análise temática de conteúdo, cuja finalidade é desvelar os significados que que existe na
comunicação no sentido em que presença ou frequência possibilita maior compreensão acerca do
objeto analítico(7).
A análise constitui-se de três etapas. A primeira etapa, a pré-análise consiste na leitura das entrevistas
após a transcrição literal, com a intenção de agrupá-las de acordo com as ideias convergentes conforme
cada pergunta realizada na entrevista. A partir da leitura dos dados brutos foram ordenadas as
unidades de significados, ou seja, as frases que subsidiaram a análise (7).
A segunda etapa, a exploração do material iniciou por meio da codificação realizada a partir dos dados.
Os semelhantes foram agrupados criando-se as categorias. Por fim, realizou-se a terceira etapa, o
tratamento dos resultados para alcançar o objetivo do estudo. Optou-se por preservar todas as falas
relevantes para cada categoria, com o intuito de reforçar a ideia que estava sendo discutida. A partir
daí, fez-se a inferência e a argumentação, fundamentada e comparada à literatura(7).

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O projeto foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa pela Universidade de Passo Fundo (Protocolo
nº15663413. 2.0000.5342), em observância à Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 466/2012.
RESULTADOS
As 28 participantes da pesquisa são do sexo feminino, pertencentes à mesma instituição religiosa, com
idades entre 63 a 88 anos e o tempo de VRC entre 43 e 68 anos. A escolaridade varia entre ensino
fundamental incompleto e terceiro grau. Sendo que, das 28 entrevistadas, 57,14% (16) delas tem
3ºgrau completo, 39,28% (11) com ensino médio mais cursos técnicos e 3,57% (1) com ensino
fundamental.
A parir da análise temática foi possível construir as categorias: Escolha vocacional: uma missão
designada, norteamento familiar na escolha vocacional, decisão construtiva/salutar e sofrimento
inevitável e desengajamento itinerante na vida religiosa consagrada. Descreve-se a seguir as categorias
construídas, o digrama, a análise e discussão dos dados. Figura 1: Diagrama das categorias

Fonte: Diagrama das categorias sistematizadas. Elaborado pelos autores. 2014.

ESCOLHA VOCACIONAL: UMA MISSÃO DESIGNADA


Nesta primeira categoria está demonstrado que a vocação é uma motivação basilar e fundamental na
vida dos participantes do estudo. Na verdade, significa o atendimento a um chamado divino em que a
religiosa se coloca à disposição para o desempenho de uma missão designada por Deus. Missão esta,
de humanizar o divino e divinizar o humano.

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Assim se manifestaram as participantes do estudo, é uma opção de vida, mas ela vem de uma vocação,
acho só pode ser religiosa quem sente realmente este chamado (E12). É ter uma vida mais dedicada
ao serviço de Deus e a gente está mais disponível para se doar (E11). Uma benção e uma graça de Deus
e eu não me canso de agradecer pelo presente da vocação (E2). Ser mais de Deus, tornar-me
propriedade de Deus (E28). É seguir Jesus Cristo, cumprindo uma missão da congregação (E24).
Esta escolha faz parte de um projeto vocacional que está presente na vida humana. Este projeto tem
um sentido mais forte, quando é feito para sempre, para uma vida inteira, onde a pessoa viverá sua
escolha vocacional.
As participantes também mencionam que a gente procurava uma perfeição maior e encontrei dentro
da VRC um caminho. Dentro da congregação se falava mais de santidade e uma vida de oração, de
amor a Deus e aos irmãos (E5). É a doação, ajudar a quem precisa a exemplo de Jesus (E13). Significa
ser consagrada a Deus pelos votos (E1).
A compreensão do chamado de Deus para ser religiosa consagrada nem sempre foi tão clara para os
sujeitos do estudo, mas foi ganhando um significado maior na medida em que avançavam no processo
formativo, na purificação dos desejos e no amadurecimento vocacional.
Hoje a motivação é mais forte, compreendo melhor o que é ser irmã, é seguir Jesus Cristo, fazer o que
ele fazia ser o que ele foi e também cumprir a missão da congregação (E24). Com o passar do tempo
você vai gostando cada vez mais e vai tendo outro entendimento das coisas, das leituras, do evangelho
e da vivência (E6).
Para estas religiosas, o envelhecimento proporcionou o desenvolvimento do dom vocacional, trouxe
solidez da opção vocacional, trouxe uma clareza do sentido de ser irmã religiosa e de encarnar o
próprio ser de Jesus para tornarem-se suas testemunhas. Para as idosas, ser religiosa é uma benção e
uma graça de Deus e eu não me canso de agradecer pelo presente da vocação (E2). É uma doação
total para Deus e para o povo, isso que me encanta. É tornar o Bom Deus conhecido e amado por todos
os que nos cerca, isso é a alegria da vida religiosa (E10).
A vocação a VRC passa pela adaptação às adversidades do viver, pela doação exclusiva ao reino de
Deus, pelo despojamento e exercício da solidariedade. É uma escolha que exige desprendimento,
superação, oração e foco no essencial e por isso, é um desafio. A vocação é uma graça muito especial
(E3). Pois ser religiosa é um desafio, muito gratificante porque a gente tem esta vocação por causa de
Jesus Cristo (E19).
As religiosas sentem-se, na sua grande maioria, felizes na escolha vocacional por não terem sido
obrigadas a optar pela vida religiosa consagrada, historicamente sabe-se que na mesma época de sua

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adolescência e juventude muitos casamentos eram arranjados pelos pais e nem sempre com o
consentimento dos filhos. Então poder fazer uma escolha e ser respeitada nesta escolha e ainda ser
feliz, as torna mais fecundas e realizadas na missão. Manifestam-se dizendo que é muito bom ter essa
vida de consagrada, e fazer o possível para dar testemunho daquilo que a gente optou, porque ninguém
me obrigou (E 8).
NORTEAMENTO FAMILIAR NA ESCOLHA VOCACIONAL
A participação e o apoio familiar foram vistos, pelas religiosas consagradas, como fundamentais e
decisivos na escolha vocacional, de modo especial o incentivo e apoio de suas mães. Por ser
considerado um momento importante a pessoa sente a necessidade de ter o apoio da família e de seus
pares durante o processo de escolha.
Assim se manifestaram as idosas religiosas, a escolha para a Vida Religiosa teve influência de minha
mãe ela sempre falava que era bom (E3). Minha mãe sempre falava muito bem da vida religiosa (E21).
Mãe eu quero ser irmã, no mesmo dia, aí ela me perguntou: você gosta de rezar? Eu gosto mãe –
respondi. Então tu podes ser irmã (E10).
O pensamento positivo e o cultivo da espiritualidade através da oração pessoal e em família, a
participação da comunidade cristã e o convite direto tanto por parte dos pais quanto pelas próprias
religiosas, colaboraram para que esta opção fosse efetivada. É muito importante, porque sem a oração
a nossa vida é uma lata vazia, só faz barulho. Esse encontro com Deus, essa espiritualidade profunda
é que faz com que a gente possa estar em pé. Outra se manifestou dizendo, o segredo é que eu nunca
fui pessimista, cultivo o espírito de fé e esperança que vai dar certo e isso que me ajuda, neste sentido,
a espiritualidade é muito importante. Sempre que vou fazer algo importante peço as luzes do Espírito
Santo (E20). A espiritualidade é a principal e se ela faltar as coisas não tem valor e nem sentido. Tudo
o que sentimos na velhice em relação às perdas, a solidão, o sofrimento é sustentado pela
espiritualidade (E24).
O desejo intrínseco de ser religiosa consagrada esteve presente desde a infância, designado como
chamado de Deus. Este chamado foi sendo desvelado e entendido de forma progressiva na medida em
que a jovem ia crescendo e amadurecendo na sua opção vocacional. As participantes acreditam que
essa vocação surgiu desde criança: desde pequena eu pensava ser irmã (E16). Foi na catequese que
descobri a vocação antes da primeira comunhão e de lá sempre quis ser irmã (E 9). Eu acho que a
vocação a RC já nasceu comigo desde o berço (E5). Eu tinha vocação desde criança (E19). Desde
criança quando me dei conta de mim mesma eu queria ser irmã e no dia da minha primeira eucaristia
eu pedi para Jesus para ser uma irmã santa e para cuidar dos doentes (E13).

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Parentes e amigos que já seguiam a VRC influenciaram positivamente na escolha vocacional os quais
despertaram, nas participantes do estudo, admiração e desejo de seguir esta vocação. As influências
foram de minha irmã veio no convento, e eu vim várias vezes visita-la, participei da celebração do seu
ingresso no noviciado, e comecei a me interessar e fique bem animada para vir (E17). Eu tenho uma
tia, irmã de meu pai que foi religiosa (E23). Na família já teve muitos religiosos e a gente foi crescendo
com essa vontade de ser religiosa (E 8).
Porém, houve também oposição dos pais na escolha vocacional também influenciaram a vida e a
tomada de decisão das religiosas e por vezes, foram causa de sofrimento e do ingresso tardio na
congregação, porém, normalmente um dos dois acabava cedendo e apoiando a filha.
Disseram-me: filha o que é isso, e me seguraram e fui fazer o 3º ano. O pai se opôs totalmente e a mãe
conseguiu fazer as tramitações (E18). Falei para minha mãe, mas ela não queria, então falei com meu
pai e ele me deu todo o apoio (E16). Pedi ao meu pai que queria ser irmã e ele achou que eu era muito
nova, tinha 10 anos, pedi então para minha mãe e ela disse a mesma coisa (E19).
DECISÃO CONSTRUTIVA/SALUTAR E SOFRIMENTO INEVITÁVEL
A categoria três descreve o significado e as repercussões da decisão de tornar-se religiosa, sendo
manifestado pelas participantes como um processo longo, difícil e até mesmo sofrível. Por outro lado
também possui momentos gratificantes e de possibilidades construtiva e salutar para o processo de
viver e envelhecer dessas pessoas.
As manifestações foram, eu não concordo com muitas estruturas que não deixam a gente ser livre e
feliz, mas não dá para deixar de investir porque é uma resposta de valores para a sociedade. É viver
uma forma diferente que dá sentido à vida, uma projeção de futuro, existe algo além e eu acredito que
a vida religiosa vale a pena viver, se atualizar e estar aberto ao novo todos os dias, porque os novos
paradigmas estão aí, eu sinto que ela vai passar por muitas transformações. Eu não posso ficar me
ligando a estruturas antigas e ultrapassadas (E18).
Depreende-se da manifestação de que optar pela vida religiosa consagrada é uma missão muito linda,
traz alegrias e questionamentos, no entanto é um constante desafio que traz sofrimento além da
exigência de proporcionar bons exemplos à sociedade. Ser religiosa é uma missão muito linda, mas
questionaste também, tem que dar bom exemplo para todos, é um desafio constante. É uma opção
que traz alegrias, mas também sofrimento (E19).
O desafio da velhice, na vida religiosa, é encontrar e aceitar um significado na vida vivida pela pessoa;
isto dá ao indivíduo a integridade do ego auxiliando na adaptação e no enfrentamento da realidade do
envelhecimento e da mortalidade(14).

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O amor com que as religiosas exercem sua missão, embasada na oração e na percepção da presença
de Deus agindo, faz com que elas sintam alegria em servir, em sentirem-se úteis e valorizadas. Neste
sentido, a vivência religiosa se torna construtiva e salutar. Na vida religiosa, o que nos ajuda muito é a
oração. Pelo encontro com Deus podemos percebê-lo na missão. Quando estive no Amazonas, fiquei
sozinha na saúde, pois não tinha médico, me entreguei muito a Deus e a presença Dele era visível junto
comigo e com as pessoas. A gente fazia por amor (E8). Eu sempre falo com Deus na minha vida e
missão. Gosto muito da vida pastoral e ser intermediária entre a pessoa, a Igreja e Deus (E16).

DESENGAJAMENTO ITINERANTE NA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA

As pesquisadas ao referir-se ao desengajamento itinerante assim se expressam: Minha dificuldade é


sair do lugar, sempre saio com muitas lágrimas, custa demais, parece que eu estou deixando um pedaço
de mim, ou deixando pedaços (E02). Eu sempre sofri, para mim é muito difícil esta perda, largar o lugar
e começar tudo de novo (E07). A transferência sempre é uma morte (E8). Sempre exige uma renúncia
(E9). Não gosto de ser mexida e desestabilizada (E18). No começo é um choque, é sempre uma dor
(E25).
No processo de itinerância chega um momento em que pela sobrecarga de trabalho, avanço da idade,
limitações físicas e ou mentais torna-se necessário o desengajamento de algumas atividades que antes
eram tidas como habituais e ao mesmo tempo, redimensionar o trabalho e a missão. Podemos
perceber nas falas das participantes que é difícil sair de algo muito intenso e sentir que encolheu o
leque, mas é possível (E27). Quando fui transferida para cá eu pensei, estou indo para o fim, para o fim
da linha, percebo que minhas funções vitais estão começando a me escapar, então eu tenho que me
retomar e pensar, a gente perde amizades, se distancia dos familiares e amigos e de repente está se
sentido só (E7). Porém outra se manifesta dizendo, a gente tem que aprender a viver a vida e sentir que
não somos mais capacitadas a fazer aquilo que a gente fazia (E8).
Por outro lado, há um desejo de investimento no envelhecimento da vida religiosa consagrada de
modo que seus dons e capacidades sejam reconhecidas e desenvolvidas, mantendo sua autonomia,
bem como às irmãs que sentem suas capacidades físicas e intelectuais ainda produtivas desejam que
elas sejam mantidas e/ou redimensionadas. Nos últimos anos estou sentido as perdas, não participar
ativamente na vida da província, e meio deixada de lado. Eu sei que não estou mais nestas atividades,
mas penso que poderia fazer ainda alguma coisa e acho que a província poderia fazer mais encontros
para estas irmãs. Atividades, até tenho demais, mas antes eu tinha mais oportunidades, mais
compromissos, (perda de cargo importante), sinto estas perdas (E24).

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Com o envelhecimento, as idosas sentem maior dificuldade para adaptarem-se as novas realidades, e
as exigências da missão. Eu sinto que com o passar doa anos se tornou mais difícil. Quando era mais
jovem até era bom, eu gostava sempre um lugar diferente, uma coisa nova, queria aprender outra
coisa, ver outra gente, então era bom, mas depois com o passar do tempo tem se tornado mais difícil
(E17). No inicio quando eu era irmã mais novinha, era mais fácil a adaptação nos lugares, porque a
gente se adaptava mais ligeiro, mas agora a adaptação é mais cruel, mais difícil, porque a mudança
sempre traz uma coisa amarguinha (E3).
No desengajamento itinerante também aparecem elementos favoráveis que as tornaram mais felizes
e realizadas no desempenho da missão. Quando você fica mais tempo numa comunidade você conhece
todo mundo, se adapta, vê as necessidades é sempre uma nova experiência e sempre tem
oportunidades (E10). Conheci outros povos e culturas, fiz amizades, me sinto muito bem e feliz em
trabalhar com a fé do povo (E4). Desinstalar-se, faz com que a gente se desacomode e possa ver novas
possibilidades de crescimento, conhecer novas pessoas. Vejo como muito positivo e coloco fé acima de
tudo (E26).
Outros elementos primordiais para sua vida e missão, também favoreceram a itinerância, eles
perpassam pelo espírito de fé e consciência de ser peregrino, pela crença em Deus providente, pela
escolha vocacional, pelo sentido de pertencer a uma família religiosa e pelo apoio comunitário. Sempre
foi uma graça, porque toda vez que você deixa um lugar e vai para outro é como que um peregrino,
está a caminho e você se dá conta que optou por esta vida (E13).
Percebe-se, enfim, que a itinerância na VRC pode ser compreendida como uma missão ou sinal de
fidelidade e de liberdade para cultivar o desapego a lugares e a pessoas.
DISCUSSÃO
Percebe-se pelas falas que as religiosas descrevem esta escolha como uma opção de vida, um
chamado. Descrevem também como uma benção que é recebida a cada dia. Dentro dessa perspectiva
a vocação pode ser descrita como uma motivação básica da vida de alguns seres humanos. Dentro
deste entendimento, a escolha vocacional caracteriza a vida cristã e passa pelo discernimento dos
sinais e da vontade de Deus. Ela vem da liberdade da pessoa e não tem um caminho pré-fixado, mas é
fruto de um convite para colaborar no plano de Deus o qual modifica os valores em relação ao mundo,
a maneira de pensar e de agir, fazendo com que a pessoa opte pelo caminho do bem e do amor
fraterno(8).

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A VRC surge na história como uma alternativa evangélica de vida cristã. Os consagrados adquirem um
destaque permanente no meio da sociedade, através deste olhar as pessoas são atraídas para o
mistério do reino de Deus que já atua na história e aguarda a sua plena realização no céu (9).
Essas idosas religiosas vivem para o trabalho. A congregação a que pertencem dificilmente permite
outra atividade que não esteja vinculada direta ou indiretamente à missão. Muitos dos projetos de
vida comunitária 95% do tempo é dedicado ao trabalho e somente 5% ao lazer ou coisas do gênero.
Não é de hoje que o ativismo se faz presente na vida religiosa consagrada (10).
Na família o jovem encontra o suporte para a realização do sua escolha vocacional. A família é um entre
os vários facilitadores no processo de escolha, mas antes de tudo tem um papel importante na
realidade da pessoa e deve ser levada em consideração quando se trata de projeto de vida (11).
A família torna-se o primeiro grupo de inserção social, ao mesmo tempo um espaço privado do
indivíduo. É a família que se atribui a função de amar, cuidar e educar. É através dela que o indivíduo
se protege, se separa dos conflitos sociais e aprende uma forma peculiar de se relacionar e enfrentar
as situações do dia-a-dia(12).
A espiritualidade é apontada como o elemento primordial para a vida, sendo sustento nas limitações
e nas perdas do envelhecimento, dando um novo sentido ao ser e estar no mundo. A espiritualidade
gera e fomenta novas motivações, ajuda a encontrar linguagens atualizadas e inovações no exercício
da missão consagrada(4-13).
O significado de ser religiosa consagrada é bastante amplo e complexo e nem sempre esteve claro no
momento da decisão, porém ele se constrói através do estudo, da oração, da meditação e dos debates
existentes durante a formação. Ser religiosa depende do olhar, das ações, do carinho, do testemunho
e do modo como acontecem às relações interpessoais.
A família constitui uma dimensão fundamental para o desenvolvimento vocacional. Esta base sólida,
que ocorre a partir das transformações das relações com os pais e da vinculação significativa entre
eles, sustenta o desenvolvimento da identidade e da autonomia dos adolescentes e jovens adultos(11).
Percebe-se na fala que a decisão de ser religiosa é um processo construtivo e salutar embora muitas
vezes difícil. Esta decisão pode trazer alguns sofrimentos decorrentes de uma liberdade limitada e de
estruturas pesadas e pouco flexíveis. Mas, no cotidiano as pessoas buscam dar um sentido à vida no
sofrimento com vistas ao crescimento como ser humano e como consagrada.
O fato de ser religiosa, segundo ela, a fez encontrar-se com Deus em oração e experimentar a presença
de Deus providente nas mais diversas situações de vulnerabilidade social. A missão não é fruto de
vaidade pessoal, ou de desejo de projeção, mas do amor a Deus e ao próximo.

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O desengajamento itinerante na vida religiosa consagrada versa sobre como o indivíduo se ajusta ao
processo das várias transferências durante a vida ativa na instituição. Para esta teoria, o
envelhecimento é um processo no qual a sociedade e o indivíduo se retiram ou se desengajam
gradualmente um do outro(14).
Dentro do desengajamento itinerante na VRC um dos elementos apontados quase pela maioria das
participantes da pesquisa, é o fato de que há um sofrimento de perda semelhante à morte ao sair do
local onde estão inseridas, deixando amigos, casa, trabalho, missão e começar tudo de novo em um
local pouco familiar. O itinerante é a pessoa que se desloca sucessivas vezes para vários lugares
diferentes a fim de exercer certa função como, por exemplo: pregador itinerante. É alguém que vive
uma mobilidade residencial, fluidez e trânsito, isto é, que troca constantemente de lugar (15).
Na medida em que a idade avança, as oportunidades e engajamentos diminuem, a começar pela
interrupção das atividades. Ao desengajar-se a pessoa passa por um processo e adequação da vida,
que se apresenta à medida que se defronta com dificuldades crescentes e novas limitações. Essas
adequações são marcadas pelo abandono de algumas atividades e relações. No entanto, podem ser
reduzidas e/ou substituídas por outras que exijam menos esforço e que mantenham o processo de
adequação da existência e reconversão das atividades(15).
Parece que deixar de ter um cargo, um trabalho reconhecido causa uma crise de identidade, uma
perda, onde a pessoa não mais se reconhece como tal. Traz presente elementos introduzidos em sua
educação desde a infância de que a pessoa é enquanto produz e o fato de não produzir a tonaria menos
importante. Há um sentimento de compromisso com Deus em relação ao valor do trabalho.
A pessoa realiza seu ajustamento mediante afastamento voluntário e gradual das atividades habituais,
num desinvestimento gradual e bilateral entre o indivíduo e o meio que o cerca. Um processo de
mudança irreversível é necessário, ao se aposentar tanto abre espaço para as pessoas jovens e
eficientes, ao passo que ganha tempo para se preparar para o desengajamento total – a morte(3).
Assim, o desengajamento é visto como pré-requisito funcional para a estabilidade social, de maneira
que essa acontece de forma inevitável e universal a todos as idades(16).
O desengajamento é fundamentado em três as características básicas. A primeira se refere à
diminuição do espaço de vida, isto é, à medida que envelhecemos interagimos cada vez com menos
pessoas e desempenhamos cada vez menos papéis. A Segunda está ligada a individualidade
aumentada, na qual, os indivíduos mais velhos estão cada vez menos sujeitos a regras e expectativas
restritas. A terceira fase é a de aceitação. O adulto de terceira idade saudável desvincula-se ativamente
dos papéis e relações tornando-se progressivamente voltado para si, caminhando para a interiorização

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e o afastamento progressivo da vida social. A estrutura de personalidade se desenvolve nas relações


instituídas entre o sujeito e o sistema social, onde se desliga gradativamente das atividades em favor
de um estilo de vida mais tranquilo e sem muitos compromissos(3).
Correlacionando esta visão com as religiosas idosas, há as que na velhice administram seus conflitos,
suas perdas e a realidade do envelhecimento do corpo com tranquilidade. Estas, normalmente viveram
seu compromisso de escolha vocacional de uma forma bem elaborada atualizada e criativa e mesmo
com limitações dedicam-se à missão fazendo o que ainda é possível. Enquanto outras têm nesta fase
da vida, o surgimento de conflitos adormecidos. Muitas vezes, motivados pela proximidade da morte
regridem, porque estão desanimadas e não encontram criatividade para reinventar a suas vidas com
as possibilidades que dispõem(17).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao buscar descrever os significados e repercussões da itinerância no processo viver e envelhecer de
idosas religiosas percebeu-se diferentes concepções e formas de interpretar e perceber esta realidade,
dependendo do olhar de cada uma. Percebeu-se o papel fundamental da família na escolha vocacional,
onde as religiosas encontraram suporte para realizar-se como pessoa e concretizar seu projeto de vida.
O cultivo de uma vida de oração em família e a herança espiritual as fortalece, mantendo-as
perseverantes na missão e na vocação escolhida.
O processo para tornar-se religiosa consagrada é longo, por vezes difícil e até mesmo sofrível causado
por estruturas pouco flexível, mas cada uma em seu ser procura dar um sentido novo a vida, colocando
o sofrimento e as dificuldades em outras esfera, isto é, na fé, a qual as deixam menos vulneráveis e
mais confiantes.
O estudo aponta que a itinerância/saída, causa dor e sofrimento às participantes. Da mesma forma
traz dificuldades e oportunidades de estudo, possibilidades de conhecer novos lugares e de
crescimento pessoal. Porém, com o passar dos anos as idosas sentem dificuldade para se adaptarem
às novas realidades, e às exigências da missão.
O desengajamento (fechar o leque), deixar algumas atividades que antes eram habituais e adequar à
vida baseada nas limitações e nas novas possibilidades torna-se um desafio constante e está ligada a
redefinição da identidade. Há um sentimento de fragilidade, de ser deixada de lado e um desejo de
investimento no envelhecimento da vida religiosa consagrada de modo que seus dons e capacidades
sejam reconhecidos e desenvolvidos e que sua autonomia seja mantida, bem como às irmãs que
sentem suas capacidades físicas e intelectuais ainda produtivas desejam que elas sejam mantidas e/ou
redimensionadas.

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56
O Desengajamento Itinerante Na Vida Religiosa Consagrada

A itinerância também é uma escolha vocacional, norteada e fortificada pela espiritualidade,


perpassada pelo espírito de fé e pela consciência de ser peregrino no seguimento da sua crença, no
caso a matriz cristã. A espiritualidade é apontada como o elemento primordial para a vida, sendo
sustento nas limitações e nas perdas do envelhecimento e velhice, dando um novo sentido ao ser e
estar no mundo.

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57
O Desengajamento Itinerante Na Vida Religiosa Consagrada

REFERÊNCIAS

1.United Nations, Department of Economic and Social Affairs, Population Division (2020). World
PopulationAgeing2019(ST/ESA/SER.A/444).[Internet].[citado2020set29].Disponívelem:https://www.u
n.org/en/development/desa/population/publications/pdf/ageing/WorldPopulationAgeing2019-
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2. Goldemberg M. Corpo, envelhecimento e felicidade. Organização de Mirian Goldemberg. p.7-19.Rio


de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.

3. Doll J, Gomes A, Hollerweger L, Pecoits RM, Almeida ST Atividade, desengajamento, modernização:


teorias sociológicas clássicas sobre o envelhecimento. Estudo interdisciplinar de envelhecimento,
Porto Alegre, v. 12, p. 7-33, 2007.

4. Guimarães EDF. Desejo que todo mundo seja idoso: o processo e envelhecimento na vida religiosa
consagrada marista [dissertação]. Brasília (DF). Universidade Católica de Brasília, 2012. [Internet].
[citado2013fev17].Disponívelem:http://repositorio.ucb.br/jspui/bitstream/10869/775/1/Eder%20DA
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Tratado de Geriatria e Gerontologia. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2011. p.1461-1475.

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Goldemberg M. (Org). Corpo, envelhecimento e felicidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2011.
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7. Minayo MCS. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 12ed. São Paulo: Hucitec,
2010

8. Tenda Franciscana. Discernimento vocacional [Subsídios]. [Intenet]. [citado 2012 dez 12]. Disponível
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9.Vita Consecrata. Exortação apostólica pós- sinodal [documento]. [Internet]. [citado 2013 fev 25]
Disponívelem:http://www.vatican.va/holy_father/john_paul_ii/apost_exhortations/documents/hf_jp
-ii_exh_25031996_vita-consecrata_po.html

10. Almeida P. Da necessidade do lazer na vida religiosa. Revista Convergência. Revista mensal da
Conferência dos Religiosos do Brasil – CRB, Ano XLVI, nº. 440, abril, p.152 – 155, 2011.

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sistêmica. Revista brasileira de orientação profissional. Vol.11, nº1, p.83-94. jan-jun , 2010.

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descalços[Dissertação].[Internet].[citado2013ago15].Disponívelem:SP.http://www.sapientia.pucsp.br
//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=4155

13. Oliveira JLM. Viver em comunidade para a missão- um chamado a vida religiosa consagrada. 1ªed.
São Paulo: Paulus, 2013.

14. Eliopaulos C. Enfermagem gerontológica. 7ªed. Porto Alegre: Ed. ARTMED, 2011.

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58
O Desengajamento Itinerante Na Vida Religiosa Consagrada

15. Dicionário Online de Português. Significado de itinerante. [Internet]. [citado 2013 mar 14].
Disponível em:http://www.dicio.com.br/ Dicionário online de português

16.Siqueira MEC, Neri AL (org). Desenvolvimento envelhecimento: perspectivas biológicas, psicológicas


e sociológicas. 3ª ed . Campinas, SP: Papirus,2007.

17. Dias MS. Idosos na Vida Religiosa Consagrada. In: PereiraWCC (org). Análise Institucional na vida
Consagrada. Belo Horizonte: ed. CRB, 2005.

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59
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 4
10.37423/200902828

LESÕES DO MANGUITO ROTADOR EM


JOGADORES DE TÊNIS: UMA LIÇÃO DE
ANATOMIA

Vitória Freitas Silva UNIFESO

Leonardo Cortázio Boschini UNIFESO

Leticia Fiuza Lopes UNIFESO

Agustin Miguel Rodrigues de Lima UNIFESO

Vitoria Braziellas Justiniano Unifeso

João Victor Wutkovesky Almada de Angelis Unifeso

Rafael Vinicius Londero Quintino dos Santos Unifeso


Lesões Do Manguito Rotador Em Jogadores De Tênis: Uma Lição De Anatomia

Resumo: Introdução:Oombroéumaarticulação complexa, com uma ampla variedade de movimentos e


demandas funcionais. As lesões que atingem o membro superior em atletas são freqüentes, sendo no
caso do Brasil, três esportes apresentam destaque em termos de números de lesões acometidas: tênis,
voleibol e handebol. Uma vez que esses esportes exigem uma alta atividade biomecânica (as
articulações citadas anteriormente são muito utilizadas e no saque, por exemplo, pode se realizar uma
rotação angular em 7000 graus por segundo na aceleração), além de ser necessário um conhecimento
da anatomia supracitada para um melhor tratamento da região por um ortopedista (SILVA, 2010).
Objetivo: Realizar revisão sobre os músculos do manguito rotador e anatomia envolvida, relacionando
à prática de tênis e caracterizando lesões associadas. Metodologia: Revisão de literatura realizada a
partir de livros referência em anatomia como Moore e Netter e artigos de revistas renomadas
encontrados nas bases de dados: SCIELO, LILACS, e PUBMED. Serão incluídos artigos a partir de 2000
até 2018, sendo excluídos aqueles cujo foco não seja dado na anatomia do manguito rotador ou
lesões provocadas pela prática de tênis. Descritores empregados: “epidemiologia lesões relacionadas
ao tênis”, “manguito rotador” e “lesão manguito rotador e prática de tênis”; tendo todos sido utilizados
tanto em português quanto em espanhol e inglês. Resultados: A articulação do ombro é a articulação
menos congruente do corpo humano, assim envolve uma ampla amplitude de movimentos nas
atividades diárias. Esses movimentos resultam de uma complexa interação entre as estruturas ósseas
(escápula, cabeça do úmero e clavícula) e tecidos moles adjacentes, envolvendo cápsula do ombro,
ligamentos estabilizadores e músculos (BÄCKER,2018). A extensa amplitude de movimento permite ao
atleta a capacidade de participar de uma série de atividades esportivas, porém não é isenta de riscos.
Se algum dos estabilizadores estáticos ou dinâmicos são atingidos por trauma ou uso excessivo, o
ombro tem maior risco de lesão.Em atletlas, 8 a 20% das lesões são no ombro (TERRY,2000). As lesões
que acometem os músculos do manguito rotador podem se tornar complicada em tenistas,
principalmente profissionais ou amadores regulares. A cirurgia do reparo do tendão do manguito
obteve bons resultados, sendo realizada pela via aberta ou artroscopica. Independente da via utilizada,
o sucesso depende de sua realização bem feita (VIEIRA, 2015). Conclusão: Conclui-se que a
importância do conhecimento da anatomia e cinesiologia do corpo, a fim de entender a origem das
lesões que acometem os membros superiores. Tendo destaque para as lesões que ocorrem no
manguito rotador, devido a sua alta incidência. As principais lesões do tenista são por redução da
função dos rotadores internos. Levando em conta outros fatores, como idade, sexo, tempo de prática,
recorrência de lesões e grau de atividade.

Palavras-Chave: Manguito rotador; Tênis; Lesões associadas ao tênis.

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Lesões Do Manguito Rotador Em Jogadores De Tênis: Uma Lição De Anatomia

1| INTRODUÇÃO

O ombro é uma articulação complexa, com uma ampla variedade de movimentos e demandas
funcionais. Pode ser entendido como um trabalho intrínseco de ossos, ligamentos e componentes
neurovasculares de forma a identificar e diagnosticar patologias no ombro (BÄCKER,2018).
A avaliação de um paciente que refere queixas no ombro é largamente dependente do exame físico.
Como qualquer exame, baseados em inspeção, palpação, amplitude de movimento, força e integridade
neurovascular devem ser seguidos. Em função de um grau de complexidade associado à anatomia do
ombro, levam a utilização de manobras específicas durante o exame físico para diferenciar as
patologias (BAKHSH,2018).
As lesões que atingem o membro superior em atletas são freqüentes, sendo no caso do Brasil, três
esportes apresentam destaque em termos de números de lesões acometidas: tênis, voleibol e
handebol. Uma vez que esses esportes exigem uma alta atividade biomecânica (as articulações citadas
anteriormente são muito utilizadas e no saque, por exemplo, pode se realizar uma rotação angular em
7000 graus por segundo na aceleração), além de ser necessário um conhecimento da anatomia
supracitada para um melhor tratamento da região por um ortopedista (SILVA, 2010). No caso de
adolescentes, temos algumas lesões mais freqüentes: Lesão da epífise distal radial, lesão da epífise
proximal umeral, osteocondrite do capítulo umeral, instabilidades de ombro (menores), instabilidades
de ombro (multidirecionais), hiperfrouxidão articular generalizada e discinesia escapular. Em adultos,
temos: Fratura por estresse do úmero distal, instabilidades do ombro, síndrome do pinçamento, lesões
do manguito rotador, lesão das articulações acromioclaviculares, discinesia escapular, epicondilite
medial e lateral, tendinite triceptal, lesão condral do capítulo umeral, síndrome compressiva do
interósseo posterior, sinovite do cotovelo, lesão da fibrocartilagem triangular, tendinite do extensor
ulnar do carpo, sobrecarga óssea do carpo, fratura por estresse da ulna (SILVA,2010).
2| OBJETIVO
Realizar revisão sobre os músculos do manguito rotador e anatomia envolvida, relacionando à prática
de tênis e caracterizando lesões associadas.
3| METODOLOGIA
Revisão de literatura realizada a partir de livros referência em anatomia como Moore e Netter e artigos
de revistas renomadas encontrados nas bases de dados: SCIELO, LILACS, e PUBMED. Serão incluídos
artigos a partir de 2000 até 2018, sendo excluídos aqueles cujo foco não seja dado na anatomia do
manguito rotador ou lesões provocadas pela prática de tênis. Descritores empregados: “epidemiologia

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Lesões Do Manguito Rotador Em Jogadores De Tênis: Uma Lição De Anatomia

lesões relacionadas ao tênis”, “manguito rotador” e “lesão manguito rotador e prática de tênis”; tendo
todos sido utilizados tanto em português quanto em espanhol e inglês.
4| RESULTADOS
A articulação do ombro é a articulação menos congruente do corpo humano, assim envolve uma ampla
amplitude de movimentos nas atividades diárias. Esses movimentos resultam de uma complexa
interação entre as estruturas ósseas (escápula, cabeça do úmero e clavícula) e tecidos moles
adjacentes, envolvendo cápsula do ombro, ligamentos estabilizadores e músculos (BÄCKER,2018).
A arquitetura da articulação glenoumeral, envolve uma grande cabeça umeral articulada e superfície
glenoidal relativamente pequena, com ligamentos e músculos para estabilizar todo o arco do
movimento (em oposição a articulação do quadril com sua congruente “ball-in-socket”) (TERRY,2000).
A extensa amplitude de movimento permite ao atleta a capacidade de participar de uma série de
atividades esportivas, porém não é isenta de riscos. Se algum dos estabilizadores estáticos ou
dinâmicos são atingidos por trauma ou uso excessivo, o ombro tem maior risco de lesão. Em atletlas,
8 a 20% das lesões são no ombro (TERRY,2000).
Em relação à cintura escapular, examinamos seus componentes, envolvendo anatomia óssea (úmero,
clavícula e escápula) \articulaçõs ósseas e musculares
(glenoumeral,acromioclavicular,esternoclaviculareescapulotorácica);estabilizadores estaticos (cápsula
e ligamentos) e músculos ou estabilizadores dinâmicos (manguito rotador, deltóide e estabilizadores
escapulares).Esses elementos funcionam em um contexto dinâmico, como unidade inter-relacionada
(TERRY,2000).
O úmero é o maior e mais longo osso nos membros superiores, sendo a sua parte proximal formada
por cabeça, tubérculo maior e menor, sulco biccipital e haste umeral proximal. O tubérculo maior é o
local de inserção do supraespinhal, infraespinhal e redondo menor, e o tubérculo menor do
subescapular, completando o manguito rotador. O colo cirúrgico do úmero está situado distalmente
aos tubérculos (NETTER,2008).
A escápula é um osso triangular grande e fino, situado pósterolaeralmente ao tórax, servindo como
local de fixação muscular. A espinha da escápula separa os músculos supra e infra espinhal, além disso
temos nesse osso a inserção de parte do músculo trapézio e a origem do deltóide posterior
(MOORE,2006).
O acrômio da escápula atua como um braço de alavanca para o deltóide e articula com a extremidade
distal da clavícula, formando a articulação acromioclavicular. Além disso, o acrômio forma uma parte
do teto para o espaço do manguito rotador. Tendinite e bursite são o resultado do impacto da cabeça

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Lesões Do Manguito Rotador Em Jogadores De Tênis: Uma Lição De Anatomia

do úmero e o manguito rotador contra o arco coracoacromial (acrômio, ligamento coracoacromial e


processo coracóide) (MOORE,2006).
O processo coracóide serve como origem de 2 ligamentos coracoclaviculares, que juntamente com o
ligamento acromioclavicular, estão relacioanado com a articulação acromioclavicular. O nervo
supraescapular passa abaixo desses ligamentos para inervar os músculos supraespinhal e infraespinhal
(MOORE,2006).
A cavidade glenoide repesenta a articulação com a cabeça do úmero, sendo a sua superfícia articular
de apenas um terço a um quarto da cabeça do úmero e, portanto, fornece apenas uma pequena
contribuição para a estabilização glenoumeral. A cabeça do úmero fornece a base óssea para a
movimentação do ombro (TERRY,2000).
A clavícula serve como único suporte ósseo que liga o tronco a cintura escapular por meio da
articulação esternoclavicular medialmente e a acromioclavicular lateralmente. Serve como local para
fixação de músculos, barreira para proteger estruturas neurovasculares e estabilizar o complexo do
ombro. A clavícula previne a migração da cintura escapular através dos ligamentos coracoclaviculares
(TERRY,2000).
A articulação glenoumeral é adequada para extrema mobilidade; sendo que a qualquer momento,
apenas 25 a 30% da cabeça do úmero está em contato com a fossa glenóide. O ombro normal
restringe a cabeça do úmero para dentro de 1 a 2 mm em relação a cavidade glenóide, sendo
resultado de uma interação de força estática (não requer energia ativa, ou seja, cápsula, lábio e
ligamentos) e dinâmica (muscular) (TERRY,2000).
Em relação aos estabilizadores dinâmicos, temos o manguito rotador. Um grupo de músculos
consistindo em: subescapular, supraespinhal, infraespinhal e redondo menor. Nesse sentido de
estabilizador, são realizados movimenos tridimensionais ou rotações da cabeça do úmero como
resultado de sua interação com estabilizadores estáticos. Como grupo são menores em relação a área
e tamanho, quando comparados ao deltóide, peitoral maior, latíssimo do dorso e trapézio
(TERRY,2000).
A contração dos músculos do manguito rotador resultam em compressão da concavidade e a
contração assimétrica age para causar a rotação da cabeça do úmero durante o movimento do ombro.
O supra espinhal se origina na fossa supraespinhal e se insere no tubérculo maior do úmero. Estabiliza
a articulação glenoumeral, realiza abdução de braço e auxilia o deltóide na elevação de braço. O
infraespinhal origina-se na fossa intraespinhal e se insere na face média do tubérculo maior do úmero.
Realiza rotação lateral e estabiliza a articulação glenoumeral contra subluxação posterior (TERRY,2000).

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Lesões Do Manguito Rotador Em Jogadores De Tênis: Uma Lição De Anatomia

O redondo menor se origina das regiões média e superior da borda lateral da escápula e se insere na
parte mais inferior do tubérculo maior. Em conjunto com o infraespinhal, realiza rotação lateral e
estailiza a articulação glenoumeral. A inervação é pelo nervo axilar (MOORE,2006).
O músculo subescapular reprensenta a porção anterior do manguito rotador, tendo origem na fossa
subescapular e se insere no tubérculo menor do úmero. Funciona como rotador medial e é inervado
pelos nervos subescapular superior e inferior (MOORE,2006).
O úmero é o maior e mais longo osso nos membros superiores, sendo a sua parte proximal formada
por cabeça, tubérculo maior e menor, sulco biccipital e haste umeral proximal. O tubérculo maior é o
local de inserção do supraespinhal, infraespinhal e redondo menor, e o tubérculo menor do
subescapular, completando o manguito rotador. O colo cirúrgico do úmero está situado distalmente
aos tubérculos (MOORE,2006).
A escápula é um osso triangular grande e fino, situado pósterolaeralmente ao tórax, servindo como
local de fixação muscular. A espinha da escápula separa os músculos supra e infra espinhal, além disso
temos nesse osso a inserção de parte do músculo trapézio e a origem do deltóide
posterior(MOORE,2006).
O acrômio da escápula atua como um braço de alavanca para o deltóide e articula com a extremidade
distal da clavícula, formando a articulação acromioclavicular. Além disso, o acrômio forma uma parte
do teto para o espaço do manguito rotador. Tendinite e bursite são o resultado do impacto da cabeça
do úmero e o manguito rotador contra o arco coracoacromial (acrômio, ligamento coracoacromial e
processo coracóide) (TERRY,2000).
Compreender a anatomia funcional e as frequentes fontes associadas a lesão do ombro permitem que
os esportes apresentem uma estrutura voltada para o cuidado de lesões no ombro atlético. A avaliação
da lesão do manguito rotador, instabilidade do ombro ou colisões orientam a decisão clínica e
informam opções terapêuticas (BAKHSH ,2018).
O saque no tênis coloca altas exigências sobre o ombro, requerindo grandes amplitudes de movimento
de articulação glenoumeral e escapulotorácica, produzindo grandes velocidades rotacionais e forças
na articulação (KIBLER,2007).
Um estudo de coorte com tenistas de alta perfomance avaliou o sequenciamento e ativação de
grupamentos musculares por eletromiografia, revelando início médio de ativação do serrátil anterior,
deltóide anterior e trapézio superior no início do movimento de saque. Seguido pela ativação do
redondo menor, deltóide posterior, parte inferior do trapézio e supraespinhal.O infraespinhal foi
ativado em desaceleração. No decorrer do movimento houve desativação precoce do deltóide e

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Lesões Do Manguito Rotador Em Jogadores De Tênis: Uma Lição De Anatomia

serrátil anterior; o trapézio superior e infraespinhal foram desaivados no meio do processo; e de forma
tardia o supraespinhal, deltóide posterior, trapézio inferior e redondo menor (KIBLER,2007).
Em relação a fase de armação para o saque, o primeiro músculo desse grupo foi o serrátil anterior,
seguido do trapézio superior de forma a estabilizar a escápula para elevação do acrômio. Com a
ativação desse par de músculos, têm-se elevação do acrômio e posicionamento da escápula em
rotação lateral e inclinação posterior em relação ao úmero (KIBLER,2007).
A ativação da parte inferior do trapézio vem em seguida para completar a estabilização escapular e
elevar o acrômio. A contração concêntrica desse múscula fornece o substrato para ativação dos
músculos do manguito rotador.Quando a escápula gira de 45 a 60 graus, o trapézio inferior é
mecanicamente eficiente para elevação do acrômio, diminuindo o impacto sobre o manguito rotador
(KIBLER,2007).
O deltoide anterior é ativado e armazena energia elástica, que facilita a geração de força para a fase
de aceleração. O supra espinhal é ativado, de forma a atuar junto com o deltóide para deprimir a
cabeça do úmero e controlar a rotação lateral da escápular após estabilização da escápula. Nesse
estudo, o redondo menor foi ativado ao invés do infra espinhal. No tênis, parece que o músculo infra
espinhal não tem importância significativa (KIBLER,2007).
As lesões que acometem os músculos do manguito rotador podem se tornar complicada em tenistas,
principalmente profissionais ou amadores regulares. A cirurgia do reparo do tendão do manguito
obteve bons resultados, sendo realizada pela via aberta ou artroscopica. Independente da via utilizada,
o sucesso depende de sua realização bem feita (VIEIRA, 2015).
5| CONCLUSÃO
Para compreender as ações do ombro na prática do tênis, é imprescindível analisar aspectos que
contribuem para o exercício desta modalidade, o que inclui a composição do movimento (função da
escápula), além de toda estática e dinâmica dos estabilizadores do ombro. Assim, a escápula tem papel
central na função do ombro, pois estabiliza a cabeça do úmero na cavidade glenoide e estabiliza a base
dos músculos intrínsecos e extrínsecos que controlam os movimentos dos braços, pela ação integrada
do trapézio e do serrátil anterior.
A dinâmica dos ligamentos do ombro em atletas torna a articulação susceptível a lesões,
possivelmente por microtraumas na cápsula articular anterior, além de alongamento dos ligamentos,
trazendo maior instabilidade. Assim, caso o tubérculo maior do úmero e os tendões dos músculos do
ombro se movam para a parte posterior da cavidade glenoidal acarretam impactos internos. Achado
comum entre tenistas é a mudança no arco rotacional do ombro, com acréscimo na função dos

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Lesões Do Manguito Rotador Em Jogadores De Tênis: Uma Lição De Anatomia

rotadores externos (músculos infraespinhal e redondo menor) e decréscimo na dos rotadores internos
(músculo subescapular), esta, por contração na cápsula póstero-inferior, é a lesão essencial do tenista.
Os tendões do manguito rotador se unem para reforçar a cápsula articular, aumentando a proteção e
estabilização da articulação esferoidea do ombro por limitar a amplitude dos movimentos. As
principais lesões do tenista são por redução da função dos rotadores internos.
A partir do trabalho supracitado, se pode concluir a importância do conhecimento da anatomia e
cinesiologia do corpo, a fim de entender a origem das lesões que acometem os membros superiores.
Tendo destaque para as lesões que ocorrem no manguito rotador, devido a sua alta
incidência.Levando em conta outros fatores, como idade,sexo, tempo de prática, recorrência de lesões
e grau de atividade.

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Lesões Do Manguito Rotador Em Jogadores De Tênis: Uma Lição De Anatomia

REFERÊNCIAS

MOORE, Keith L.; DALLEY, Arthur F.; AGUR, Anne MR. Anatomia orientada para a clínica. Guanabara
koogan, 2006.

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Medicine and Arthroscopy Review, v. 26, n. 3, p. e10-e22, 2018.

NETTER, Frank H. Atlas de Anatomia Humana. Elsevier Brasil, 2008.

BÄCKER, Henrik Constantin et al. Biomechanics of posterior shoulder instability-current knowledge and
literature review. World Journal of Orthopedics, v. 9, n. 11, p. 245-254, 2018.

TERRY, Glenn C.; CHOPP, Thomas M. Functional anatomy of the shoulder. Journal of athletic training, v.
35, n. 3, p. 248, 2000.

SILVA, Rogerio Teixeira Da. Lesões do membro superior no esporte. Revista Brasileira de Ortopedia,
2010.

KIBLER, William B. et al. Muscle activation in coupled scapulohumeral motions in the high performance
tennis serve. British Journal of Sports Medicine, v. 41, n. 11, p. 745-749, 2007.

VIEIRA, Fabio Antonio et al. Rotator cuff injuries: current perspectives and trends for treatment and
rehabilitation. Revista Brasileira de Ortopedia (English Edition), v. 50, n. 6, p. 647-651, 2015.

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Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 5
10.37423/201002857

SÍNDROME DE WALLENBERG: ALTERAÇÕES


ANATÔMICAS E REPERCUSSÕES CLÍNICAS EM
UM ESTUDO DE CASO.

FREDERICO AUGUSTO RIBEIRO CLEMENTE Centro Universitário UNIFACISA

Michelline Ribeiro Rodriguez Governo do Distrito Federal


Síndrome De Wallemberg: Alterações Anatômicas E Repercussões Clínicas Em Um Estudo De Caso.

INTRODUÇÃO
O resultado de um Acidente Vascular Encefálico (AVE) na região dorsolateral do bulbo, porção
intracraniana irrigada pela Artéria Vertebral ou pelo seu ramo Cerebelar Posterior Inferior pode
acarretar em uma isquemia vertebro basilar lateral também conhecida como Síndrome de Wallenberg
(SW) ou Síndrome Cerebelo Bulbar Lateral. Tal síndrome resulta da lesão de uma área lateral
cuneiforme, retro olivar e cujo ápice, aprofundando-se em direção posterior e medial, aproxima-se do
feixe solitário, na porção superior do bulbo. Esta área abrange os feixes espinocerebelares ventral e
dorsal, o feixe espinotalâmico, os núcleos dos nervos vago e glossofaríngeo, parte das formações
reticulares inclusive as vias simpáticas, a raiz descendente do nervo trigêmeo, e o polo superior da
oliva bulbar. Quando há uma obstrução completa, as manifestações iniciais na SW são: ataxia dos
membros, náuseas, vertigens, vômitos, nistagmo, dificuldades no equilíbrio e na marcha, disartria,
disfonia e disfagia orofaríngea.

Figura 1. Tomografia computadorizada mostrando oclusão total da artéria vertebral direita e parcial
da artéria vertebral esquerda.

MATERIAL E MÉTODOS

Foram utilizados exames clínicos de imagem, para apresentar as alterações morfofiológicas em um


paciente diagnosticado com Síndrome de Wallenberg, atualmente com 72 anos, sexo masculino, com
impressão diagnóstica obtida através do exame de ressonância magnética. Foram identificados

1
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Síndrome De Wallemberg: Alterações Anatômicas E Repercussões Clínicas Em Um Estudo De Caso.

diminutos focos microangiopáticos isquêmicos crônicos na coroa radiada bilateralmente, lesão


isquêmica aguda no aspecto póstero-lateral direito do bulbo, duas lacunas isquêmicas agudas
respectivamente no hemisfério cerebelar esquerdo e no lobo occipital direito, de etiologia embólica
(exame realizado em 16 de abril de 2012). Outro achado foi a obstrução completa do segmento V3 da
artéria vertebral direita, não sendo observado o enchimento da artéria cerebelar posterior inferior
ipsilateral (exame realizado em 23 de abril de 2012).

Figura 2. Tomografia computadorizada da irrigação encefálica de um paciente com Síndrome de


Wallenberg.

RESULTADOS

Diante das alterações na morfologia nas artérias vertebral direita e artéria cerebelar posterior inferior
direita, observamos uma adaptação das artérias carótidas direita e esquerda para o suprimento
sanguíneo do polígono de Willis e demais estruturas do encéfalo fazendo com que o paciente, apesar
de apresentar algumas sequelas características da Síndrome de Wallenberg como disfagia, e

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71
Síndrome De Wallemberg: Alterações Anatômicas E Repercussões Clínicas Em Um Estudo De Caso.

dificuldades no equilíbrio e marcha, tem independência para realização das atividades da vida diária
(AVD`s), bem como manteve a integridade intelectual e de suas funções cognitivas.

Figura 3. Imagens que mostram irrigação encefálica com alterações decorrentes de Síndrome da
Wallenberg.

CONCLUSÕES

Apesar das alterações morfológicas nas artérias vertebral direita e artéria cerebelar posterior inferior
direita, o paciente apresentou uma adaptação morfológica das artérias não comprometidas além de
contrariar o prognóstico clínico da maioria dos casos de pacientes acometidos com a Síndrome de
Wallenberg.

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72
Síndrome De Wallemberg: Alterações Anatômicas E Repercussões Clínicas Em Um Estudo De Caso.

REFERÊNCIAS

•COSENZA, Ramon M. Fundamentos de Neuroanatomia. 4ª ed. Rio de Janeiro, Guanabara Koogan,


2012.

•MACHADO, Ângelo B. M; HAERTEL, Lúcia Machado. Neuroanatomia Funcional. 3ª ed. São Paulo:
Atheneu, 2014.

•PROSDOCIMI; SCHMIDT. Manual de Neuroanatomia Humana - Guia Prático. São Paulo: Roca, 2014.

•DÂNGELO, José Geraldo; FATTINI, Carlo Américo. Anatomia básica dos sistemas orgânicos. 1ed.
Atheneu. 2005

•NETTER, Frank H; BARROSO, Carlos Romulado Rueff. Atlas de anatomia humana. 4ed. Elsevier. 2008

4
73
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 6
10.37423/201002859

DO LIVRO PARA IN VIVO – CONSOLIDANDO A


ANATOMIA EM UMA IMERSÃO CIRÚRGICA NO
MUTIRÃO DE RECONSTRUÇÃO MAMÁRIA

Guilherme Gomes Gil de Menezes Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

Túlio Ribeiro dos Santos Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

Bernardo Machado Veloso Nery Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

RENATA BRAGA LINHARES DE ALBUQUERQUE Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

Amanda Ferreira Carvalho Novaes Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública

Thais Fagundes Barreto Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública


Do Livro Para In Vivo – Consolidando A Anatomia Em Uma Imersão Cirúrgica No Mutirão De Reconstrução Mamária

Resumo: Face ao processo de transformação que o estudo da anatomia está sendo exposto nos últimos
anos, caracterizado pela dificuldade crescente em se obter cadáveres para fins didáticos e a
consequente supervalorização dos livros e ilustrações para o estudo da matéria, fica evidente que o
contato com estruturas anatômicas in vivo se configura como uma experiência fundamental para o
pleno compreendimento da disposição dos componentes do organismo humano. Nesse contexto, o
trabalho apresenta um relato de experiência de cinco acadêmicos da Escola Bahiana de Medicina e
Saúde Pública (EBMSP). O relato de experiência aborda o processo de compreendimento da anatomia
da região mamária através de uma metodologia teórico-prática parcamente utilizada no canário
acadêmico atual, além de relatar as experiências dos alunos frente ao desenvolvimento das etapas de
construção do conhecimento.

1
75
Do Livro Para In Vivo – Consolidando A Anatomia Em Uma Imersão Cirúrgica No Mutirão De Reconstrução Mamária

INTRODUÇÃO

Desde o período da Escola de Alexandria, a teoria dos limites do corpo humano sempre caminhou de
mãos dadas com suas técnicas práticas de dissecação e manipulação. Dessa forma, o pleno
compreendimento de uma estrutura necessita não apenas do seu ensinamento teórico através dos
capítulos e aulas, mas também através de uma imersão vivencial que convide o aluno a extrapolar o
mundo bidimensional dos livros e cadernos para alcançar a tridimensionalidade e variâncias de
texturas da anatomia que será encontrada na prática médica.

2
76
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 7
10.37423/201002860

ÚTEROS GIGANTES

Marcos Danilo Azevedo Matos Universidade Tiradentes

João Augusto Cigarra Quintiliano Universidade Federal de Sergipe

Naiana Mota Araújo Universidade Tiradentes

Arthur Valido Déda Universidade Federal de Sergipe

Maria Bernadete Galrão de Almeida Figueiredo Universidade Tiradentes

Sônia Oliveira Lima Universidade Tiradentes


Úteros Gigantes

INTRODUÇÃO

Os leiomiomas são neoplasias benignas do músculo liso que com frequência originam-se no
miométrio, referidos como miomas uterinos ou fibromas uterinos, sendo os tumores pélvicos sólidos
benignos mais frequentes do aparelho genital feminino na mulher em idade reprodutiva. É a quinta
causa mais frequente de internamento hospitalar por causa ginecológica não relacionada com a
gravidez, em mulheres dos 15 aos 44 anos. Sugere-se que ocorram em 20 a 40% das mulheres em
idade reprodutiva, contudo a sua prevalência exata não é conhecida, sendo subestimada. Os miomas
uterinos acometem o útero em suas mais diversas partes, e pode ser classificado em submucoso,
intramural ou subseroso, dependendo da região acometida. Essas tumorações benignas, em muitas
mulheres, podem ser clinicamente insignificantes. Contudo, seu número, tamanho e localização
dentro do útero podem provocar diversos sintomas. Este estudo tem por objetivo apresentar
leiomiomas uterinos de grande tamanho que, por consequência, configuraram úteros gigantes.
MATERIAL E MÉTODOS
Descrição da técnica cirúrgica utilizada em dois casos de leiomiomas gigantes diagnosticados em
pacientes atendidas em um hospital público da cidade de Aracaju – Sergipe.
RESULTADOS
Paciente de 26 anos de idade, parda, do lar, gesta 1, com metrorragia há 5 meses e outra paciente de
48 anos, parda, agricultora, gesta 2, com metrorragia há 3 anos. Apresentavam anemia e volumosas
tumorações que ocupavam grande parte da cavidade abdominal, causando desconforto (Figura 1).

1
78
Úteros Gigantes

Figura 1. Imagem de abdome globoso da paciente de 26 anos devido ao leiomioma uterino gigante.
Nos exames laboratorial e ultrassonográfico da primeira paciente, a hemoglobina foi de 9,6 g/dl, sendo
verificada massa sólida heterogênea com dimensões 26,8 x 12,5 x 14,1 cm nos seus maiores diâmetros
e volume de 2.500 cm³. Na segunda paciente, a hemoglobina foi de 3,8 g/dl e observou-se massa
uterina ocupando os compartimentos abdominal e pélvico com dimensões de 38,2 x 17,3 x 15,4 cm e
volume de 4.500 cm³ (Normal: 25 a 90 cm³). Esta última, em virtude da anemia grave, foi submetida à
transfusão sanguínea no pré-operatório, recebendo 7 bolsas de concentrados de hemácias. As duas
pacientes foram submetidas a procedimentos cirúrgicos, após várias tentativas de atendimento pelo
Sistema Único de Saúde (SUS). Durante o ato operatório confirmou-se a presença de leiomiomas
gigantes (Figura 2). Foram realizadas histerectomias totais com anexectomias, em que ambas
evoluíram bem (Figura 3). Receberam alta hospitalar no segundo dia de pós-operatório.

2
79
Úteros Gigantes

Figura 2. Exposição intraoperatória de útero com leiomioma uterino gigante.

3
80
Úteros Gigantes

Figura 3.Peças anatômicas de leiomiomas uterino gigantes pós histerectomia total.

CONCLUSÃO

A importância desse relato se deve à significativa epidemiologia do leiomioma uterino, que é um dos
principais motivos de internação ginecológica e, apesar disso, essas pacientes encontraram dificuldade
de atendimento pelo SUS. Quando operadas, os miomas já apresentavam um grande crescimento
com sintomatologia exacerbada.

4
81
Úteros Gigantes

REFERÊNCIAS

•HOFFMAN, Barbara L; SCHORGE, John O.; HALVORSON, Lisa M; BRADSHAW, Karen D.;
CUNNINGHAM, F. Gary. Ginecologia de Williams. 2ed. 2014.

•FARIA, Joana; GODINHO, Cristina; RODRIGUES, Manuel. Miomas uterinos – revisão da literatura. Acta
Obstet Ginecol Port; 2(3):131-142. 2008.

5
82
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 8
10.37423/201002861

ANGIOARQUITETURA COMO TÉCNICA


FACILITADORA DA APRENDIZAGEM EM
ANATOMIA

Maísa Maria Spagnol Trento Universidade Federal de Santa Catarina

Christopher Nedel Christofoletti Universidade Federal de Santa Catarina

Thiago Medeiros Rocha Universidade Federal de Santa Catarina


Angioarquitetura Como Técnica Facilitadora Da Aprendizagem Em Anatomia

Resumo: Introdução. A disciplina de anatomia é desafiadora para os acadêmicos em muitos aspectos.


Um deles é a visualização e a identificação das estruturas anatômicas na sua total extensão em
determinada topografia. Nesse sentido, a técnica de angioarquitetura torna-se uma importante
facilitadora do processo de ensino e aprendizagem. O seu benefício inclui melhor visualização dos
vasos, das ramificações no decorrer do trajeto e das estruturas adjacentes, além de auxiliar na
dissecação, promovendo maior resistência e durabilidade. Objetivos. O presente trabalho tem como
objetivo relatar a experiência na dissecação de uma perna injetada com látex pré vulcanizado em
relação a outra não manipulada por técnicas anatômicas, a fim de avaliar se a angioarquitetura é
vantajosa. Método. Este estudo é parte do projeto de extensão “O uso de técnicas anatômicas para o
aperfeiçoamento do processo de ensino e aprendizagem em Anatomia”, aprovado em colegiado,
durante 2016 e 2017. Os cadáveres foram doados por convênio com o Instituto Médico Legal. Após
completar a dissecação de uma perna, não exposta à angiotécnica, na disciplina de anatomia
topográfica, iniciou-se a dissecação de uma perna direita submetida à secção no terço inferior da coxa
e à angioarquitetura prévia com látex pré-vulcanizado, através da cateterização da artéria femoral.
Prosseguiu-se a dissecação rebatendo a pele, tela subcutânea e a fáscia, com a exposição dos músculos
do compartimento anterior e posterior, assim como feito na dissecação da outra perna. Houve
separação do músculo sóleo e gastrocnêmio e das cabeças lateral e medial deste último, expondo as
artérias musculares da região e a fossa poplítea. Nesse nível, facilmente pode-se encontrar a artéria
poplítea e acompanhar seus ramos terminais: artéria tibial posterior e artéria tibial anterior. Com a
técnica identificou-se a artéria inferior lateral do joelho, responsável pela irrigação do joelho.
Resultados. Comparando a experiência na dissecação de uma perna submetida à angioarquitetura em
relação a outra não manipulada, é notável a superioridade promovida pela técnica descrita. Obteve-se
maior segurança durante a dissecação, facilitada pela repleção dos vasos devido ao látex.
Adicionalmente, foi possível uma melhor visualização do trajeto dos vasos, um detalhamento maior
dos vários ramos para os músculos da região, bem como da vasta distribuição das artérias em locais
de difícil observação, como a articulação do joelho. Conclusão. A partir deste relato de experiência,
demonstra-se que a angioarquitetura pode ser uma ferramenta auxiliar no estudo mais detalhado da
anatomia e para facilitar a dissecação, em especial quando há maior enfoque no sistema circulatório.
Incluir peças submetidas à angioarquitetura em aulas de anatomia pode facilitar o estudo, o que gera
mais motivação no processo de aprendizagem. Além disso, devido à presença do látex no interior dos
vasos há um aumento na resistência à manipulação e na durabilidade do material cadavérico.
Descritores: Anatomia. Angioarquitetura. Técnicas anatômicas. Dissecação.

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Angioarquitetura Como Técnica Facilitadora Da Aprendizagem Em Anatomia

INTRODUÇÃO

A disciplina de anatomia é desafiadora para os acadêmicos em muitos aspectos. Um deles é a


visualização e a identificação das estruturas anatômicas na sua total extensão em certa topografia.
Essa é uma dificuldade comumente presente no estudo do sistema circulatório, já que os vasos têm
trajetos extensos, ramificações e anastomoses, bem como variações anatômicas. Nesse sentido, a
técnica de angioarquitetura torna-se uma facilitadora do processo de ensino e aprendizagem. O seu
benefício inclui melhor visualização dos vasos, das ramificações e estruturas adjacentes, além de
auxiliar na dissecação, promovendo maior resistência e durabilidade.
MATERIAL E MÉTODO
Este estudo é parte do projeto de extensão “O uso de técnicas anatômicas para o aperfeiçoamento do
processo de ensino e aprendizagem em Anatomia”, durante 2016 e 2017. Os cadáveres foram doados
por convênio com o Instituto Médico Legal. Após completar a dissecação de uma perna, não exposta
à angiotécnica, na disciplina de anatomia topográfica do curso de medicina, iniciou-se a dissecação de
uma perna direita submetida à secção no terço inferior da coxa e à angioarquitetura prévia com látex
pré-vulcanizado.
Prosseguiu-se a dissecação rebatendo a pele, tela subcutânea (figura 1) e a fáscia, com a exposição dos
músculos do compartimento anterior (figura 2) e posterior, assim como feito na dissecação da outra
perna não submetida à angioarquitetura.
Já no compartimento posterior, a veia safena parva e o nervo sural foram dissecados até o nível da
fossa poplítea, conforme destacado na figura 3, contudo não foi possível encontrar os nervos cutâneos:
sural medial e sural lateral. Houve a exposição e isolamento da veia safena magna e do nervo safeno
até a parte superior medial da perna (figura 4).

2
85
Angioarquitetura Como Técnica Facilitadora Da Aprendizagem Em Anatomia

Figura 1. Imagem de acervo pessoal. Observa-se Figura 2. Imagem de acervo pessoal:


compartimento anterior de perna direita
a dissecação da pele e da tela subcutânea.
submetida à angioarquitetura. 1- M. tibial
anterior 2- M. extensor longo dos dedos 3- M.
fibular longo 4- Tela subcutânea.

Figura 3. Imagem de acervo pessoal: compartimento posterior de perna direita submetida à


angioarquitetura. 1- V. safena parva 2- N. sural.

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86
Angioarquitetura Como Técnica Facilitadora Da Aprendizagem Em Anatomia

1
7
3 2
6
5
4

Figura 4. Imagem de acervo pessoal: compartimento posterior de perna direita submetida à


angioarquitetura. 1- M. gastrocnêmio seccionado 2- M. sóleo seccionado 3- A. poplítea 4- A. Fibular
5-A. tibial posterior 6- N. tibial 7- N. sural 8- V. safena magna.
Na sequência, houve separação do músculo sóleo e gastrocnêmio e das cabeças lateral e medial deste
último, expondo as artérias musculares da região e a fossa poplítea (figuras 5 e 6). Nesse nível,
facilmente pode-se encontrar a artéria poplítea e acompanhar seus ramos terminais: artéria tibial
posterior e artéria tibial anterior, destacados na figura 3. Além disso, graças a técnica pode-se
identificar a artéria inferior lateral do joelho, responsável pela irrigação do joelho (figura 6).

4
87
Angioarquitetura Como Técnica Facilitadora Da Aprendizagem Em Anatomia

Figura 5 e 6. Imagem de acervo pessoal: fossa poplítea de perna direita submetida à


angioarquitetura. 1- A.poplítea 2- Tronco tibiofibular 3- A. tibial anterior 4- A. inferior lateral do
joelho.
Na outra perna, não submetida à técnica, não foi possível observar com tanto detalhamento a irrigação
da região da fossa poplítea. Ainda, parte da fáscia dos músculos da região do joelho e o ligamento
patelar foram dissecados. Por fim, Retirou-se a pele e tela subcutânea da região do joelho, deixando
apenas uma faixa de pele de cerca de 3 cm e o coto foi nivelado.
RESULTADOS
Comparando a experiência na dissecação de uma perna submetida à angioarquitetura em relação a
outra não manipulada, é notável a superioridade promovida pela técnica descrita. Obteve-se maior
segurança durante a dissecação, facilitada pela repleção dos vasos devido ao látex. Além disso, foi
possível uma melhor visualização do trajeto dos vasos, um detalhamento maior dos vários ramos para
os músculos da região, bem como da vasta distribuição das artérias em locais de difícil observação,
como a articulação do joelho. Em alguns locais houve extravasamento da solução, o que limitou a
dissecação tornando-a um pouco mais lenta devido ao enrijecimento das estruturas musculares.
CONCLUSÃO
A partir deste relato de experiência, observou-se que a angioarquitetura é uma ferramenta auxiliar no
estudo da anatomia com maior detalhamento e para facilitar a dissecação, em especial quando há
maior enfoque no sistema circulatório. Incluir peças submetidas à angioarquitetura em aulas de
anatomia pode facilitar o estudo dos alunos, o que gera mais motivação no processo de aprendizagem.
Além disso, devido à presença do látex no interior dos vasos há um aumento na resistência à
manipulação e na durabilidade do material cadavérico

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Angioarquitetura Como Técnica Facilitadora Da Aprendizagem Em Anatomia

REFERÊNCIAS

1.RODRIGUES, Hildegardo. Técnicas anatômicas. 4ed. Vitória-ES: GM Gráfica e Editora 2010.

2.NETTER, Frank H; BARROSO, Carlos Romulado Rueff. Atlas de anatomia humana. 4ed. Elsevier. 2008.

3.MOORE, Keith L.. Anatomia Orientada para a Prática Clínica. 4ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.
2001.

6
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Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 9
10.37423/201002874

VISÃO ARTÍSTICA FEMININA SOBREVIDA E


MORTE NA DISSECAÇÃOFETAL

Ana Beatriz Sousa Brito Centro Universitário de Brasília

Rafael Alvarenga dos Santos Centro Universitário de Brasília


Visão Artística Feminina Sobre Vida E Morte Na Dissecação Fetal

INTRODUÇÃO
A Anatomia, enquanto ciência do estudo das formas, produz profundo saber no que tange a arte e a
compreensão de quem somos. Vida e morte são dois conceitos que o ser humano adotou para
representar seu nascimento e sua partida, os quais lhe deram força para caminhar e se desenvolver
intelectualmente. Registros do ato de dissecar pessoas começaram já no século II a.C como uma forma
curiosa de compreender o ser humano tanto em seu âmbito intelectual, físico, espiritual e artístico.
Tais dissecações ajudaram não só a compreender a morte, mas também na eternização do corpo
orgânico. A arte também se apropriou dos estudos anatômicos como bem representado no quadro ¨A
Lição de Anatomia do Dr. Tulp¨, pintado por Rembrandt em 1632. A arte da dissecação não é só
representada por pinturas, mas também na própria manipulação do cadáver, no manuseio dos
instrumentos cirúrgicos e nas técnicas aplicadas. O corpo é visto como arte até mesmo pós morte.
OBJETIVO
Expor pela arte a importância do cadáver na construção íntima do ser humano, possibilitando que o
expectador reflita e reflexione a sensibilidade feminina, descaracterizando o cadáver como um simples
objeto de estudo.

Figura 1. Crânio dissecado.

1
91
Visão Artística Feminina Sobre Vida E Morte Na Dissecação Fetal

MATERIAL E MÉTODOS

Selecionou-se um feto masculino, de aproximadamente 30 semanas, sem deformidades aparentes.


Construiu-se um plano de dissecação por estratos, da região da cabeça, em conjunto com plano de
enquadramento para iluminação e fotos objetivando apelo emocional e artístico. A dissecação iniciou-
se com um corte sagital continuo na região interparietal do crânio. Partindo deste corte divulsionou-
se por estratos. Utilizou-se os seguintes materiais: com o auxílio de uma pinça anatômica e um bisturi
número 3 com lâmina número 15 ao longo de 28 horas, durante 7 dias com pausas diárias de
15minutos - garantindo uniformidade no trabalho. Durante este processo, a artista/acadêmica
avaliava resultados estéticos e auto resposta afetiva. Concluída a etapa da dissecação, os contornos
artísticos finais foram dados pelo enquadramento fotográfico e iluminação.
RESULTADOS
As imagens fotográficas finais apresentam a obra artística que resume a região dissecada, junto a
composição de luzes e cores que representam um ambiente visual leve e reflexivo. Instigando a
avaliação paradoxal da maternidade e da morte fetal, as fotografias, organizadas em pôster, atraem o
olhar e expõem ao observador a visão feminina que a artista demonstra durante a dissecação.

Figura 2. Crânio dissecado em posição lateral.

CONCLUSÕES

A dissecação de um feto, sob o olhar feminino, visa não ser uma dissecação comum e sim um momento
de reflexão- não só acerca de vida e morte- mas também, da gestação e do afeto incondicional físico

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92
Visão Artística Feminina Sobre Vida E Morte Na Dissecação Fetal

e químico entre a mulher e feto. As reflexões a respeito do período gestacional de uma mulher que
tem a possibilidade de experimentar o contato com a dissecação fetal provoca um certo desconforto
inicial, todavia desperta curiosidade para compreender os mecanismos da dissecação e os
conhecimentos que permeiam essa experiência. Dessa forma, o trabalho apresentado expõe o feto
dissecado de maneira artística em meio a uma visão holística de vida e morte. Conjuntamente as
observações femininas que desencadeiam reflexões introspectivas de arte e anatomia, perante uma
dissecação fetal na construção íntima do ser humano.

Figura 3. Face fetal em posição frontal.

3
93
Visão Artística Feminina Sobre Vida E Morte Na Dissecação Fetal

REFERÊNCIA

•NABAIS, João Maria. Rembrandt–o quadro “A lição de anatomia do Dr. Tulp” e a sua busca incessante
pelo autoconhecimento. Revista da Faculdade de Letras, p. 279-296, 2008.

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94
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 10
10.37423/201002881

ESCOLAR COM ISOMERISMO ATRIAL


ESQUERDO, COMUNICAÇÃO
INTERVENTRICULAR E PERSISTÊNCIA DE VEIA
CAVA SUPERIOR ESQUERDA: ESTUDO DE CASO.

Heronides Nogueira Silva Centro Universitário Unifacisa

Josiherbethy Rodrigues de Oliveira Centro Universitário Unifacisa

Dário José de Macêdo Centro Universitário Unifacisa

Ronaldo Cavalcante de Santana Instituto de Medicina Integral Professor


Fernando Figueira

Luciana Karla Viana Barroso Centro Universitário Unifacisa


Escolar Com Isomerismo Atrial Esquerdo, Comunicação Interventricular E Persistência De Veia Cava Superior Esquerda: Estudo De
Caso.

Introdução. Cardiopatias congênitas (CG) são anormalidades estruturais macroscópicas do coração ou


vasos intratorácicos, que possuem consequências funcionais significantes ou potencialmente
significantes. CGs são detectadas em 3 a 5% dos recém-nascidos, sendo principal causa de mortalidade
na primeira infância em países desenvolvidos, e, em 2008, foi a segunda causa mais frequente de morte
em crianças com até 1 ano de idade no Brasil. Dentre as cardiopatias congênitas está o isomerismo
atrial esquerdo, comunicação interventricular (CIV), e a persistência da veia cava superior esquerda
(VCSE). O isomerismo atrial esquerdo é caracterizado pela presença de um único átrio de arranjo
semelhante a um átrio esquerdo bilateral, sendo uma anomalia presente em 0,1% dos cardiopatas. A
CIV do paciente é classificada como subaórtica perimembranosa, perfil de 70% das CIVs. A VCSE
persistente do paciente drena para o seio coronário, situação encontrada em 1,5-10% dos pacientes
com insuficiência cardíaca (IC). Objetivos. Este estudo objetivou relatar a evolução anatômica do caso
de um paciente pediátrico, escolar, com persistência da veia cava inferior, isomerismo atrial esquerdo
e conexão interventricular, além da evolução de características cardiovasculares dos 5 dias aos 5 anos
de idade. Método. O paciente KRL é uma criança de 6 anos, masculino. Foram analisados os laudos e
exames de ecocardiogramas com doppler, pediátricos, e transtorácico do paciente do período de 2012
a 2017, associados a anamnese do paciente. Resultados. Aos 5 dias de vida, o paciente realizou
ecocardiograma com doppler no qual foram detectadas as seguintes anormalidades: isomerismo atrial
esquerdo, VCSE drenando para o seio coronário, interrupção da veia cava inferior, CIV subaórtica
perimembranosa com presença de Shunt, dilatação do átrio direito e seio coronário, e dos ventrículos
direito e esquerdo, defeito no septo atrioventricular com 2 orifícios bem diferenciados, hipoplasia
tubular do segmento proximal da aorta torácica, dupla via de saída do ventrículo direito e refluxo
através da valva atrioventricular direita. No ecocardiograma realizado em 2014, paciente apresentou
o ventrículo direito com dimensões normais, septo interventricular de 12mm, valvas tricúspide, mitral
e pulmonar delgadas - com coaptação incompleta-, tronco pulmonar e ramos confluentes com calibre
aumentados, hipertensão pulmonar severa e manutenção dos achados do ecocardiograma anterior.
Em 2015, observou-se o aumento do diâmetro da aorta, dilatação apenas das câmaras atrial direita e
ventricular esquerda, CIV medindo 1cm, e dilatação do seio coronário. No ecocardiograma de 2017
observou-se dilatação do átrio esquerdo, ventrículos direito e esquerdo, artérias pulmonares dilatadas,
e artéria aorta dextroposta e cavalgando a comunicação interventricular em mais de 50%. Conclusão.
Mesmo com o prejuízo funcional causado pelos defeitos valvares e pelas CCs, o paciente consegue
sobreviver e deve ser acompanhado até que ganhe massa suficiente para poder passar por tratamento
cirúrgico.

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Escolar Com Isomerismo Atrial Esquerdo, Comunicação Interventricular E Persistência De Veia Cava Superior Esquerda: Estudo De
Caso.

Descritores: Veias cavas. Comunicação interventricular. Átrios do coração. Cardiopatias congênitas.

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97
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 11
10.37423/201002890

AURÍCULOTERAPIA URGÊNCIA HIPERTENSIVA :


RELATO DE EXPERIENCIA

Regina Célia Damasceno Secretaria Municipal de Saúde de Natal/RN


Auriculoterapia Urgencia Hipertensiva: Relato De Experiência.

Resumo: Introdução: relatamos a experiência vivenciada pelas autoras da Estratégia Saúde da Familia
(ESF) no município do Natal/RN, na prática da Auriculoterapia em usuários com crise hipertensiva.
Auriculoterapia é um ramo da medicina chinesa, trata inúmeras doenças funcionais e orgânicas,
incluindo hipertensão, com estimulação de pontos do pavilhão auricular com agulhas, sementes ou
esferas de cristal para obter efeitos terapêuticos a distancia. A ESF, vigilância a saúde no território de
abrangência, identificação perfil epidemiológico, cadastro dos hipertensos, não conseguimos a adesão
ao tratamento dos portadores dessa patologia. Entretanto, recebemos usuários em crise hipertensiva
caracterizada por aumento da pressão arterial sistêmica, não correndo risco imediato de vida ou dano
agudo aos órgãos alvos. Terapêutica recomendada nestes casos é a redução da pressão arterial
gradativamente. Objetivos: Atendimento humanizado evitando a ida ao pronto atendimento. Método:
Os usuários com pressão elevada identificado é encaminhado para as especialistas na USF, atendidos
com sangria no ápice da orelha e escuta qualificada, após 20min é aferida a PA, aplicamos a
auriculoterapia e agendamos o retorno para 7 dias. Resultados: Dentre os relatos ao retornarem,
expressão: melhora da PA, tranqüilidade, melhora do sono, adesão a medicação antipertensiva.
Conclusão: Por todo o exposto, obtivemos resultados satisfatórios evolutivamente , concluímos que a
terapêutica de Auriculoterapia traz benefícios de imediato na crise, contribui para a adesão ao
tratamento e o monitoramento dos casos. Contribuições para enfermagem: Uma práxis com visão na
clinica ampliada com o cuidado centrado na pessoa singular e sua subjetividade, utilização de
tecnologias leve de baixo custo e resolutiva.
Palavra-Chave: Medicina Chinesa; Hipertensão Arterial, Tecnologia.

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Auriculoterapia Urgencia Hipertensiva: Relato De Experiência.

REFERENCIAS:

KAPLAN NM. Clinical hipertension, 7thed, Willians and Wilkis, Baltimore, p. 265-280, 1998.

MACIOCIA, G. (2007). Os fundamentos da medicina chinesa: um texto abrangente para acupunturista


e fitoterapeutas. (E. I. Souza Martins, Trad.). São Paulo: Roca.

2
100
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 12
10.37423/201002894

UTILIZAÇÃO DE UMA ÁREA TRIANGULAR NA


FACE PARA ESTIMATIVA DE SEXO E IDADE EM
CRÂNIOS SECOS ADULTOS.

Veida Borges Soares de Queiroz Universidade Tiradentes

Samir Vasconcelos Lima Universidade Tiradentes

David Martins da Silva Mello Universidade Tiradentes

Viviane Silva Vieira Universidade Tiradentes

Edizia Freire Mororó Cavalcante Torres Universidade Tiradentes

Erasmo de Almeida Júnior Universidade Tiradentes


Utilização De Uma Área Triangular Na Face Para Estimativa De Sexo E Idade Em Crânios Secos Adultos.

Introdução. A Medicina Legal tem grande importância no processo de identificação, principalmente


quando os profissionais da área recebem para análise apenas a porção cefálica do corpo, ou até mesmo
parte dela ou de outros ossos, exigindo assim a utilização de métodos mais precisos para a resolução
destas tarefas (KIMMERLE; ROSS; SLICE, 2008). Objetivo. O presente estudo é uma tentativa de
verificar o dimorfismo sexual e estimar a idade, examinando crânios secos de adultos através de
medidas lineares. Métodos. Foram utilizados para o estudo 232 crânios secos, sendo 90 do sexo
feminino e 142 masculinos, todos maiores de 20 anos de idade, pertencentes ao Laboratório de
Anatomia Humana da Universidade Tiradentes – UNIT. Neste estudo foram tomadas as seguintes
medidas lineares: distância násio-espinha nasal anterior (n-ena), distância zigomático orbital
esquerdo-zigomático maxilar direito (zoe-zmd), distância zigomático orbital esquerdo-zigomático
orbital direito (zoe-zod), distância zigomático orbital direito-zigomático maxilar direito (zod-zmd) e área
triangular (at). A amostra foi estatisticamente tratada utilizando-se os seguintes métodos: para
predição do sexo foi utilizado o teste t, para comparação das médias e intervalo de confiança, regressão
logística, análise de função discriminante e o método da regressão linear múltipla, este último para
estimativa da idade. Em todos os testes estatísticos adotou-se o nível de significância de 5% e as
análises foram conduzidas com base no sistema SAS (SAS Institute Inc. The SAS System, release 9.3,
Cary: NC. 2010). Resultados. A análise de variância dos dados mostrou que os indivíduos do sexo
masculino apresentaram médias das variáveis maiores que as do sexo feminino, exceto na variável at.
De acordo com o teste t, ocorreu diferença significativa entre as médias de todas as variáveis
(p:<0,0001). Os intervalos de confiança de todas as variáveis se apresentaram desconexos, ou seja, não
houve interposição de faixas, indicando que estas variáveis apresentam bons indícios para
discriminação do sexo a partir das medidas realizadas. Através da Análise Discriminante houve índice
de acerto da ordem de 74,44% para o sexo feminino e 67,61% para o sexo masculino, apresentando
uma taxa total de acertos de 71,03%. Pela regressão logística, foi atingido um índice de concordância
de 77,1%. A estimativa da idade foi realizada através de um modelo de regressão linear múltipla. De
acordo com os dados, constatou-se que o modelo preditivo da idade não foi significativo para todas as
variáveis (p: 0,0664). Conclusões. A partir da interpretação dos dados expostos conclui-se que é
possível obter êxito em processos de identificação sexual e da idade dentro da Medicina Legal. Assim
estes estudos, associados ou não a outros métodos de identificação e determinação da idade e sexo
podem ser de extrema valia para esse campo de estudo.
Descritores: Crânios. Identificação humana. Medicina legal.

1
102
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 13
10.37423/201002900

A DOR EM PREMATUROS DURANTE O TEMPO


DE HOSPITALIZAÇÃO EM UMA UNIDADE DE
TERAPIA INTENSIVA NEONATAL

Laryssa Marinna Madeira de Andrade Hospital da Criança de Brasília

Laiane Medeiros Ribeiro Universidade de Brasília

Vanessa Pereira Alves Universidade de Brasília

Gabriela de França Costa Universidade de Brasília

Ludmylla de Oliveira Beleza Hospital Materno Infantil de Brasília

Aline Oliveira Silveira Universidade de Brasília

Alecssandra de Fátima Silva Viduedo Universidade de Brasília

Juliana Machado Schardosim Universidade de Brasília


A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

1.INTRODUÇÃO

A prematuridade é definida como os nascimentos ocorridos antes das 37 semanas de gestação e


estima-se que, anualmente, há cerca de 15 milhões de nascimentos prematuros no mundo (OMS,
2018). Segundo dados oficiais do Ministério da Saúde, na base de dados DATASUS, em 2018 nasceram
323.676 bebês prematuros no Brasil, este dado corresponde a 11,15% do total de nascimentos,
desconsiderando aqueles com idade gestacional ignorada (BRASIL, 2018).
Os cuidados nas Unidades de Terapia Intensiva Neonatais (UTINs) proporcionaram melhorias
significativas e de importante interesse no cuidado ao recém-nascido (CHRISTOFFEL, 2016; SILVA;
BALDA; GUINSBURG, 2012). Esses importantes avanços trouxeram o aumento na sobrevida dos recém-
nascidos (RN) de risco, em especial aos prematuros, os quais são submetidos a inúmeros
procedimentos necessários para sua sobrevivência que podem ser dolorosos, estressantes e
decorrente de sua longa internação hospitalar (SOUSA et al., 2006; CAPELLINI et al., 2014).
As unidades neonatais são essenciais para o cuidado e proteção dos recém-nascidos prematuros. As
singularidades desses locais são importantes, devendo sempre haver uma reflexão sobre o os fatores
de risco ambiental e ao desenvolvimento dos prematuros. Muitos dos cuidados dispensados aos
recém-nascidos incluem intervenções invasivas e dolorosas, podendo, inclusive, resultar em danos ao
sistema nervoso ainda em formação (CONG et al, 2017), e também em diversas alterações
comportamentais e de desenvolvimento (VALERI, 2015).
A dor foi definida em 1994 pela International Association for the Study of Pain (IASP) como “uma
experiência sensorial ou emocional desagradável associada a lesão tecidual, real ou potencial, ou
descrita em termos de tal lesão” (IASP, 1994). Porém, o manejo do sintoma em RNs, especialmente em
prematuros, é complexa sendo um desafio devido a incapacidade de verbalização, sendo assim, eles
dependem de seus cuidadores e de ferramentas para sua avaliação e controle (Costa, 2016).
Nessa perspectiva, no ano de 2011, a IASP adicionou ao conceito a seguinte ressalva: “a inabilidade
para comunicar a dor não exclui a possibilidade de que o indivíduo esteja vivenciando-a; incluindo a
recém-nascidos, bebês e crianças em estágio pré-verbal ao conceito de dor” (IASP, 2011).
Hoje sabe-se que o desenvolvimento das vias anatômicas responsáveis pela dor, ocorrem por volta da
sétima semana de gestação e já estão distribuídas pela superfície corporal após a vigésima semana de
gestação. Ao nascimento, mesmo que prematuro, os marcadores fisiológicos, metabólicos e hormonais
de resposta ao estresse já podem ser associados à estimulação dolorosa. Por fim, a mielinização das
vias nociceptivas apresenta-se completa após as 30 semanas de gestação, contrariando os

1
104
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

pressupostos apesentados no passado de que a ausência de mielina impedia a sensação de dor


(NAZARETH; LAVOR; SOUSA, 2015) e reforçando que os prematuros são capazes de sentir dor.
Em uma UTI Neonatal, inúmeros procedimentos dolorosos são necessários para fins terapêuticos e
diagnósticos, por promoverem a estabilidade e a recuperação do RN prematuro (MACIEL et al., 2019).
Durante a internação hospitalar, o bebê prematuro pode ser submetido diariamente a cerca de 50 a
150 procedimentos dolorosos, chegando a mais de 500 ao longo da internação. Estudos foram
desenvolvidos a fim de dimensionar os procedimentos dolorosos, aos quais os prematuros são
submetidos, sendo os mais recentes realizados no Canadá (STEVENS et al., 2011) e no Brasil
(CAPELLINI, 2012; BONUTTI, 2017).
Devido ao caráter subjetivo da dor, métodos multidimensionais de avaliação devem ser utilizados.
Esses métodos incluem as escalas de dor (ALVES et al., 2013). A utilização desses meios, além de
facilitar sua identificação em intensidade, reduz a interpretação errônea da dor no RN (ELIAS et al.,
2016; AMARAL et al., 2014). No entanto, uma revisão bibliográfica realizada por Campos (2018)
mostrou que apesar da utilidade das escalas elas pouco são utilizadas como ferramenta vista para
trazer mais conforto e bem estar aos RNs, e proporcionar uma analgesia mais eficaz.
Diante disso e atrelado a falta de comunicação verbal dos RNs, a dor pode ser avaliada por meio de
sinais comportamentais, contextuais e físicos, como a mímica facial, movimentação corporal, choro,
alteração nos sinais vitais, dentre outros. Sendo assim, foram criados diversos instrumentos de
avaliação quantitativa e qualitativa da dor que permitem não só identificá-la, mas também analisar a
evolução e a necessidade de intervenção para seu tratamento por meio de medidas de alívio e conforto
(RISSI et al., 2018).
Além disso, tem-se que a avaliação da dor do recém-nascido pré-termo (RNPT) é um fenômeno
subjetivo e difícil de ser avaliado. Porém, hoje há evidências científicas e métodos para a avaliação e o
tratamento da dor em prematuros, com o objetivo de minimizar seus efeitos deletérios, tanto em curto
como em longo prazo (BRASIL, 2011; HALL, 2014; WATTERBERG, 2016). A curto prazo, os efeitos são
alterações nos parâmetros fisiológicos (hemodinâmicos, respiratórios, imunitários) e comportamentais
e a longo prazo, os efeitos são alterações no desenvolvimento neuropsicomotor e cognitivo da criança
e que podem persistir até a idades posteriores (GAÍVA, 2014; MORGANHEIRA, 2018).
A dor deve ser avaliada como quinto sinal vital. Assim poderia ser incorporada a rotina de verificação
de sinais vitais, com o intuito de manter uma avaliação constante e periódica. Dessa maneira, seriam
aplicadas intervenções para o manejo da dor, de acordo com as necessidades de cada um (MONFRIM
et al., 2015; NASCIMENTO et al., 2016).

2
105
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

Assim, as escalas de avaliação da dor são métodos que permitem a sistematização e a padronização da
identificação do sintoma e, atualmente, há diversas escalas disponíveis para a dor neonatal. As escalas
multidimensionais adequam-se bem ao cenário neonatal por abarcarem aspectos fisiológicos e
comportamentais (SPOSITO, 2016).
O Conselho Nacional dos Direitos da Criança e Adolescente (CONANDA), por meio da resolução
nº41/95, prevê que a criança hospitalizada tem o direito de não sentir dor (BRASIL, 1995), revelando
assim que condutas devem ser tomadas para evitar, minimizar ou dirimir esse sintoma. Com isso,
medidas farmacológicas e não farmacológicas devem ser tomadas a fim de evitar a dor, sendo de
responsabilidade da equipe multiprofissional o seu alívio (ARAÚJO, 2015).
Atualmente, existem uma gama de intervenções farmacológicas e não farmacológicas que tem sua
eficácia comprovada, podendo ser aplicadas com segurança reduzindo a dor e o estresse causados por
procedimentos dolorosos nos prematuros (MORGANHEIRA, 2018). Dentre a medidas farmacológicas
conhecidas e aplicáveis em neonatologia temos os medicamentos anti-inflamatórios não esteroidais e
os opioides, que são responsáveis pela cessação do fenômeno doloroso (PARRY, 2014; MARQUES,
2016). Já as medidas não farmacológicas abarcam uma gama de estímulos visuais, auditivos, táteis e
gustativos e que tem grande eficácia comprovada na prevenção e alívio da dor aguda. Além de serem
seguras e de baixo custo, estas estratégias podem ser utilizadas individualmente em estímulos
dolorosos leves, devendo ser associados a medidas farmacológicas quando há estimulações
moderadas ou severas (TAMEZ, 2017; MARQUES, 2016), são elas: solução de sacarose 25%, sucção não
nutritiva, amamentação, contato pele a pele, contenção facilitada ou enrolamento, posicionamento e
controle da luminosidade (MACIEL et al., 2019).
Mesmo com todos as recomendações existentes para o adequado manejo da dor neonatal, o
subtratamento do sintoma ainda é muito comum. O reconhecimento e a avaliação da dor ainda
consistem em um dos maiores obstáculos e contribuem para esse cenário a falta de conhecimento de
uso das escalas, da indicação de métodos farmacológicos e não farmacológicos, bem como os seus
efeitos. Para que isso seja evitado, é necessária a padronização da utilização de métodos de avaliação
(MARQUES, 2018; SCOCHI, 2006; PRESTES, 2005). Um estudo espanhol mostra que, nesse país, a
maioria dos RNs admitidos em UTINs, durante o período em que o estudo foi realizado, não recebeu
avaliação da sua dor e que muitas unidades ainda não fazem uso das escalas (AVILA-ALVAREZ et al,
2016).
Com base no exposto, verifica-se a necessidade de uma reflexão acerca da real exposição e manejo da
dor em recém-nascidos prematuros durante a internação em Unidade de terapia Intensiva Neonatal.

3
106
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

Diante disso, este estudo teve como objetivo analisar a exposição dos recém-nascidos prematuros aos
procedimentos dolorosos durante a hospitalização bem como as intervenções utilizadas e seus
registros pelos profissionais de saúde para alívio da dor aguda.
2.METODOLOGIA
Trata-se de estudo do tipo coorte retrospectiva. Os participantes do estudo foram todos os prematuros
encaminhados para a realização do exame de fundoscopia no ano de 2018 com informações da
internação hospitalar registradas no sistema TrakCare® e que ficaram internados em uma Unidade
Neonatal da Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES-DF).
Os prematuros que apresentaram alguma má formação/infecção congênita, nascidos a termo e/ou
que não apresentaram registro do período de internação no sistema TrakCare® foram excluídos do
estudo.
As variáveis de exposição do estudo foram: idade gestacional (IG) e peso de nascimento; data de
nascimento. Já as variáveis de desfecho foram número de procedimentos doloroso, relato de avaliação
da dor durante o procedimento e medidas analgésicas. Os dados foram coletados em um formulário
construído pelas pesquisadoras.
A coleta de dados foi realizada pela pesquisadora e por duas assistentes de pesquisa no período de
novembro de 2018 a março de 2019. Estas receberam um treinamento prático de 4 horas em relação
ao preenchimento do banco de dados e busca destes no prontuário eletrônico.
Os dados tabulados no Excel® foram exportados para o programa estatístico RStudio®, versão 1.2.1335
e IBM SPSS Statistics versão 22, para realização de análise das variáveis descritas. Os dados foram
estratificados de acordo com a classificação da prematuridade, considerando-se a idade gestacional
dos participantes do estudo. Os prematuros extremos correspondem a IG de 25 semanas (175 dias) a
28 semanas (196 dias). Os muito prematuros apresentam uma IG de 28 semanas e 1 dia (197 dias) a
32 semanas (224 dias). Já os prematuros tardios correspondem aos bebês com 32 semanas e 1 dia (225
dias) a 36 semanas e 6 dias (258 dias).
Para as variáveis quantitativas, utilizou-se a estatística descritiva (média e desvio-padrão), e, para as
variáveis qualitativas (ou categóricas) fez-se a distribuição das frequências. Inicialmente utilizamos o
teste de Levene para testar a homogeneidade das variáveis.
O teste de Lilliefors foi realizado para averiguar a normalidade das variáveis. Para as variáveis: a
quantidade de procedimentos, tempo de internação e peso PN obteve-se uma distribuição não normal
e foi utilizado o teste não paramétrico de Spearman para averiguar a existência de um relacionamento
entre duas variáveis (peso ao nascer x IG ao nascer; peso ao nascer x tempo de internação; peso ao

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107
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

nascer x total de procedimento) e assim com as demais variáveis. A interpretação de cada coeficiente
é o seguinte: correlação bem fraca (p= 0.00 a 0.19); correlação fraca (p= 0.20 a 0.39); correlação
moderada (p=0.40 a 0.69); correlação forte (p= 0.70 a 0.89); correlação muito forte (p=0.90 a 1.00).
A variável idade gestacional apresentou uma distribuição normal e foi utilizado o Teste T para amostras
independentes quando comparado se havia diferença significativa das médias entre o sexo feminino e
masculino. O nível de significância adotado foi de 5%.
Esta pesquisa foi aceita pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Fundação de Ensino e Pesquisa de Ciências
da Saúde do Distrito Federal sob o CAAE nº 69437117.2.0000.8093. E por se tratar de estudo sem
intervenção direta na população estudada, foi concedida a dispensa do Termo de Consentimento Livre
e Esclarecido (TCLE). Mesmo que não haja contato direto com os participantes do estudo, o sigilo, o
anonimato e o acesso aos resultados da pesquisa serão protegidos pelos pesquisadores. Somente as
pesquisadoras e assistentes de pesquisa têm acesso aos instrumentos de coleta de dados preenchidos,
e os mesmos serão mantidos em local seguro por um período mínimo de cinco anos, sendo
posteriormente incinerados.
3.RESULTADOS
Os dados analisados são referentes a todos os RNPTs nascidos em hospitais da SES-DF e encaminhados
para o serviço de Oftalmologia. Foram recrutados, inicialmente, 428 bebês. Destes, 75 foram excluídos
por não apresentarem dados referentes a internação hospitalar no Prontuário Eletrônico do Paciente
(PEP) e 157 foram excluídos por nascimento a termo.Dessa forma, foram analisados os dados de 196
RNPTs, que foram agrupados de acordo com a sua classificação por idade gestacional.
A classificação dos prematuros foi dada em dias de gestação e variou de 175 dias (25 semanas) e 257
dias (36 semanas e 5 dias).
A correlação entre o peso de nascimento e idade gestacional é positiva e apresentou um valor de
p=0,000 e uma correlação positiva de 0,840. Ou seja, quanto maior o peso, maior a idade gestacional.
Quanto ao tempo de internação, os prematuros extremos apresentaram um tempo médio 96,6 dias (±
30,37) maior em relação aos muito prematuros 50,6 dias (±20,04) e aos prematuros tardios 24,6 dias
(±14,56). A classificação dos prematuros, dada pela idade gestacional mostra que quanto mais
prematuro, maior é o tempo de internação. Este dado pode ser notado pois os Prematuros extremos
apresentam e uma média de idade gestacional muito superiores em comparação aos Muito
prematuros e os Prematuros tardios.
Dos 196 prematuros participantes da pesquisa, todos foram submetidos a procedimentos dolorosos
durante a internação hospitalar. Na coleta de dados foram identificados 35 procedimentos dolorosos

5
108
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

durante a internação que são apresentados na Tabela 1 de acordo com a classificação de


prematuridade.
Os procedimentos mais comumente realizados nos prematuros são a punção venosa, passagem de
sonda gástrica e injeção intramuscular realizados em 96%, 95% e 94% dos prematuros.
Tabela 1. Distribuição dos procedimentos dolorosos e classificação dos prematuros. Brasília-DF, 2019.

Classificação dos prematuros


Procedimentos Total Geral %
Prematuro Extremo Muito Prematuro Prematuro Tardio

Aspiração por Vias Aéreas Superiores 39 80 48 167 85%


Aspiração Traqueal 34 39 17 90 46%
Dissecção Venosa 8 6 3 17 9%
Estímulo Retal 12 11 4 27 14%
Exame De Fundo De Olho 33 45 21 99 51%
Extubação Traqueal 33 48 16 97 49%
Flebotomia 25 28 19 72 37%
FleetEnema (Clister) 3 5 0 8 4%
Herniorrafia Inguinal 2 1 0 3 2%
Injeção Intramuscular 39 75 71 185 94%
Inserção De Cateter Umbilical 37 78 55 170 87%
Inserção De Dreno De Tórax 1 4 0 5 3%
Intubação Traqueal 34 48 19 101 52%
Passagem De PICC 35 58 22 115 59%
Passagem De Sonda Oro/Naso Gástrica Ou Entérica 39 82 65 186 95%
Passagem De Sonda Vesical 5 2 4 11 6%
Punção Arterial 20 12 5 37 19%
Punção De Calcâneo 8 33 28 69 35%
Punção Do Abdome 5 0 0 5 3%
Punção Lombar 16 17 6 39 20%
Punção Venosa 36 80 72 188 96%
Realização De Ponto Para Fixação 0 3 0 3 2%
Remoção De Adesivo 35 57 21 113 58%
Retirada De Acesso Venoso 16 25 27 68 35%
Retirada De Cateter Umbilical 37 76 50 163 83%
Retirada De Dreno De Tórax 1 3 0 4 2%
Retirada De Picc 33 54 21 108 55%
Retirada De Oro/Naso Gástrica Ou Entérica 36 78 51 165 84%
Retirada De Sonda Vesical 4 2 4 10 5%
Tração De CVU 13 22 9 44 22%
Tração De Dreno De Tórax 0 1 0 1 1%
Tração De PICC 21 34 14 69 35%
Tração De Oro/Naso Gástrica Ou Entérica 25 24 5 54 28%
Tração/Introdução De TOT 27 13 4 44 22%

Procedimentos 712 1.144 681 2.537

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A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

Analisando a distribuição dos procedimentos realizados por classificação de prematuridade tem-se que
os prematuros extremos foram submetidos a um maior número de procedimentos em relação aos
Muito prematuros e os Prematuros tardios. O gráfico 1 ilustra essa análise, onde os prematuros
apresentam uma média maior de número procedimentos, assim como uma maior mediana e uma
maior variabilidade no número de procedimentos.
Gráfico 1- Valores médio e mediana da quantidade de procedimentos dolorosos em relação a
classificação dos prematuros. Brasília-DF, 2019.

Correlacionando o tempo de internação com o número de procedimentos, tem-se que quanto maior
a estadia no hospital, maior o número de procedimentos realizados. As correlações entre idade
gestacional e peso ao nascer com a quantidade de procedimentos, são negativas -0,557 e -0,612,
respectivamente. Já tempo de internação é positiva, ou seja, quanto maior o tempo de internação
maior é a quantidade de procedimentos 1,00.
Para alívio da dor nos procedimentos dolorosos, foram aplicadas algumas medidas farmacológicas e
não farmacológicas. A tabela 2 apresenta essas medidas, bem como sua distribuição entre os
prematuros dentro de cada faixa de classificação.
As medidas não farmacológicas foram mais comumente relatadas para prevenção e analgesia, sendo
o aleitamento materno e o contato pele a pele os mais utilizados nos Muito Prematuros e nos
Prematuros tardios. Já nos prematuros tardios, as medidas de alívio mais utilizadas foram a sacarose
oral utilizada em cinco e e o contato pele a pele realizado em seis prematuros.

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110
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

Tabela 2- Distribuição dos prematuros quanto sua classificação e medidas de alívio da dor
farmacológicas e não farmacológicas. Brasília-DF, 2019.
Classificação dos prematuros
Total
Medidas de Alívio Prematuro Muito Prematuro %
Geral
Extremo Prematuro Tardio
Não Farmacológicos
Aleitamento Materno 3 29 18 50 26%
Pele A Pele 6 24 18 48 24%
Contenção Facilitada 1 1 1 3 2%
Ofurô 2 15 8 25 13%
Sacarose Oral 5 6 5 16 8%
Compressa 2 10 1 13 7%
Sucção Não Nutritiva 1 4 4 9 5%
Farmacológicos
Fentanil Endovenoso 12 6 1 19 10%
Midazolam Endovenoso 3 1 3 7 4%
Ibuprofeno 3 0 0 3 2%
Paracetamol 8 5 6 19 10%
Anestésico Local 2 0 0 2 1%
Dipirona 17 14 3 34 17%
Medidas de Alívio 65 115 68 248
Os usos de medidas de alívio não estavam totalmente associados a realização de procedimentos.
Algumas estavam associadas a avaliação de dor isoladamente. Porém foram identificados que em 49
procedimentos realizados, houve o registro de realização de alguma medida de alívio.
4.DISCUSSÃO
Este trabalho analisou a exposição dos recém-nascidos prematuros que realizaram o exame de fundo
de olho quanto aos procedimentos dolorosos. A coleta de dados realizada nesse estudo foi diferente
de outros estudos que também tiveram como objetivo analisar a exposição de prematuros a
procedimentos dolorosos. Neste estudo os dados foram obtidos mediante análise de prontuário
eletrônico enquanto nos demais foi beira leito. (CARBAJAL et al., 2008; CAPELLINI, 2012; BONUTTI,
2017). A coleta beira leito não foi possível neste estudo porque a finalidade era recrutar apenas
aqueles prematuros que realizarem o exame de fundo de olho, excluindo-se os RNs a termo.
Em relação ao perfil dos prematuros a idade gestacional prevalente deste estudo foi que 84 (43%)
eram Muito Prematuros 73 (37%) eram Pré-termos tardios e 39 (20%) eram prematuros extremos.
Esses achados foram semelhantes a outros estudos: em Sposito (2016), dos 150 neonatos
participantes da pesquisa, 78 eram prematuros, sendo 9 prematuros extremos, 47 com IG entre 28 e
33 semanas e 31 prematuros tardios. O estudo de Bonutti (2017) apresentou um percentual um pouco

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111
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

maior de prematuros extremos (n=20) de 22,5%, porém este valor não superou o percentual de muito
prematuros (48,3%) e prematuros tardios (29,2%).
O estudo realizado por Carbajal et al. (2008) teve como objetivo analisar os dados epidemiológicos
sobre a dor neonatal em 13 Unidades de terapia intensiva de Paris, na França, de um total de 430
recém-nascidos nos primeiros 14 dias de internação hospitalar. Os resultados indicaram que foram
realizados 42.413 procedimentos dolorosos, onde cada recém-nascido foi submetido a uma mediana
de 75 (3-364) durante a internação hospitalar, sendo 10 procedimentos (0-51) a cada dia. Dos
procedimentos dolorosos, 2,1% receberam analgesia farmacológica única, 18,2% receberam alguma
medida analgésica não farmacológica e 20,8% receberam a combinação de ambos os métodos. 79,2%
dos procedimentos não receberam nenhuma medida analgésica. Foi encontrada uma diferença
estatisticamente significativa (p< 0,001) no número de procedimentos dolorosos associados ao uso de
analgesia. Os autores concluíram que foram realizados um número grande de procedimentos
dolorosos, sendo que a maioria não houve o uso de analgesia.
O nosso estudo teve uma exposição muito inferior ao estudo de Carbajal et al. (2008), que apresentou
uma média de 98 (noventa e oito) procedimentos por recém-nascido nos 14 (catorze) dias de
internação pesquisados. Mas, vale ressaltar que o estudo de Carbajal et al. (2008) foi realizado com
todos os prematuros internados independente se realizaram o exame de fundo de olho,
diferentemente do nosso. Neste estudo, foram encontrados os registros de 35 procedimentos
dolorosos realizados em prematuros, entre procedimentos diagnósticos como o exame de
fundoscopia e procedimentos rotineiros, como aspiração de vias aéreas e de tubo orotraqueal, punção
venosa e flebotomia, entre outros. O procedimento com maior número de registros no maior número
(188) de prontuários (96%) foi a punção venosa, utilizada principalmente para a coleta de sangue para
exames laboratoriais. Orovec et al. (2018) registraram em seu estudo que o procedimento mais 49
frequentemente realizado foi a flebotomia, ou seja, a punção venosa para inserção de cateter.
No presente estudo foram relatados a realização de 2.537 procedimentos dolorosos nos 196
prematuros da amostra, sendo que estes dados foram obtidos pela análise dos prontuários de toda a
internação hospitalar. Com isso tem-se uma média de 12,93 procedimentos em cada RNPT.
A punção venosa foi o procedimento mais realizado no maior número de RNPTs do presente estudo.
Sua realização foi identificada em relatos de coleta de sangue para exames. A aspiração traqueal foi
um procedimento muito realizados nos RN intubados. Sua realização foi descrita em 90 vezes em 46%
dos participantes da pesquisa. Gonçalves, Tsuzuki e Carvalho (2015), em sua revisão integrativa,
descrevem a aspiração traqueal como uma técnica mecânica para remoção de secreções em

9
112
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

indivíduos que não conseguem remover adequadamente as secreções pulmonares,


traqueobrônquicas e/ou orofaríngeas, rotineiramente utilizada em indivíduos que necessitam de via
aérea artificial e ventilação mecânica (VM), cujo objetivo é favorecer a ventilação e a oxigenação
através de uma via aérea pérvia. Embora necessário, é descrito como procedimento muito doloroso.
Em relação a medidas de alívio da dor somente 49 (quarenta e nove) estavam associadas a realização
de algum procedimento. As medidas analgésicas mais utilizadas foram as não farmacológicas como o
aleitamento materno, o contato pele a pele e o furô. Acerca do assunto Cruz et al (2016) em uma
revisão sistemática que objetivou determinar a frequência de procedimentos dolorosos e as
intervenções para o manejo da dor e seus preditores, concluiu que procedimentos dolorosos foram
realizados procedimentos dolorosos com frequência e frequentemente com manejo inadequado.
Apontou que fatores organizacionais podem ser modificados a fim de promover um cuidado favorável
ao manejo da dor, revelando assim a necessidade de definição de estratégias educacionais para
melhor abordagem e tratamento da dor neonatal.
Um estudo realizado por Oliveira et al (2020) objetivou identificar o manejo da dor neonatal na
perspectiva de profissionais líderes da equipe de saúde de uma maternidade de risco habitual. Foi
realizado um estudo qualitativo que evidenciou que a avaliação da dor era realizada de forma
subjetiva, apontou que há divergências quanto ao momento para se realizar a avaliação, além de
relatos de dificuldades para avaliar a dor. Embora os métodos não farmacológicos tenham sido
apontados, foi observado um conhecimento superficial sobre a técnica. Os participantes do estudo
apontaram a necessidade de treinamentos e implantação de protocolos acerca do assunto.
Outro estudo realizado por Christoffel et al (2019) com os profissionais de saúde de uma Unidade de
terapia intensiva neonatal, descreveu as barreiras encontradas por eles na avaliação, manuseio e
tratamento da dor. O estudo descritivo exploratório evidenciou que as barreiras mais encontradas
foram a ausência de treinamento sobre a dor neonatal, a falta de utilização de escalas para avaliação
da dor, ausência de protocolos e rotinas assistenciais para o seu tratamento e a insegurança dos
profissionais em relação ao assunto. Concluiu-se que há necessidade de programas educacionais para
a melhoria da prática clínica no alívio da dor neonatal.
Em relação ao aleitamento materno Bembich et al. (2018) estudaram a resposta cerebral cortical a 4
(quatro) tipos de analgesia não farmacológica, isoladamente ou combinadas. O estudo objetivou
avaliar o efeito diferencial das soluções orais com a relação do recém-nascido com a mãe (no colo ou
durante a amamentação). Foram selecionados 80 (oitenta) RNs que foram submetidos a punção de
calcâneo e estes foram aleatoriamente divididos em 4 (quatro) grupos: O Grupo 1 recebeu a solução

10
113
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

de glicose, sendo os RNs acomodados em uma mesa; o Grupo 2 recebeu o leite materno acomodado
na maca; o Grupo 3 recebeu a solução de glicose oral no colo materno e o Grupo 4 foi amamentado
por suas mães. A avaliação cortical foi realizada por meio de espectroscopia de infravermelho e,
paralelo a isso, também se realizou a expressão de dor dos RNs durante o procedimento. Como
resultado encontrou-se que a glicose oral isolada ou associada ao colo materno não demonstrou
nenhuma ativação cortical durante a punção de calcâneo. O leite materno foi responsável pela
ativação bilateral dos córtex somatossensorial e motor (p0,01). A expressão da dor foi menor com o
colo materno (p=0,007). Concluiu-se que a glicose oral isolada ou combinada com o colo materno
pareceu bloquear ou enfraquecer o processamento da dor cortical. O uso do leite materno está
associado a ativação cortical localizada, enquanto a amamentação está relacionada a ativação cortical
extensa. A glicose oral, o colo materno (isolados ou em combinação e a amamentação revelaram maior
efeito analgésico, porém apresentam padrões neurais diferentes.
O contato pele a pele, também conhecido como cuidado canguru, pela semelhança com a posição do
marsupial no ventre materno, foi medido por meio não farmacológico utilizado para o controle e
prevenção da dor. Johnston et al. (2014) investigaram o seu efeito em isoladamente em comparação
com nenhuma intervenção, uso de sacarose ou outros analgésicos, e do contato pele a pele simples
ou com balanço. Os autores concluíram que o método pareceu ser eficaz e seguro em se tratando de
apenas uma intervenção dolorosa (CORDERO et al., 2015). Sobre o furô, embora sua utilização seja
bem difundida na Neonatologia, não há muitas pesquisas relacionando o seu uso como método não
farmacológico para o controle da dor, e no presente estudo sua utilização foi relatada 25 (vinte e cinco)
vezes, porém não estava relacionado a nenhum procedimento doloroso.
5.CONCLUSÃO
Por meio do estudo foi possível a identificação dos procedimentos dolorosos realizados nas Unidades
Neonatais, bem como as medidas adotadas para o alívio da dor decorrente desses procedimentos e a
avaliação. Muitos procedimentos dolorosos foram identificados durante toda a internação hospitalar,
sendo que muitos são imprescindíveis para o cuidado e tratamento da condição de saúde do
prematuro e passíveis de prevenção da dor, uma vez que já se sabe que causam dor quando realizados.
A realização desses procedimentos deve ser planejada, de forma a viabilizar a utilização de métodos
que visem o alívio da dor sofrida pelos prematuros, assim como a diminuição de suas consequências
para o crescimento e desenvolvimento deles.
A avaliação da dor foi muito pouco relatada nas anotações dos procedimentos realizados e este é o
primeiro passo para prevenção deste sintoma. O uso sistemático de escalas deve ser padronizado e

11
114
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

incentivado. Afinal, sem o reconhecimento de sua existência, como reduzir a dor? Além disso, deve-
se ter como prioridade o uso do máximo de medidas possíveis para inibir a dor resultante da realização
de procedimentos realmente necessários para a manutenção da vida.

12
115
A Dor Em Prematuros Durante O Tempo De Hospitalização Em Uma Unidade De Terapia Intensiva Neonatal

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17
120
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 14
10.37423/201002901

HEMATOMA EPIDURAL: ASPECTOS


EPIDEMIOLÓGICOS E TRATAMENTO

Vítor Ferraz Silva Tacconi Universidade Potiguar

Luciana Karla Viana Barroso Universidade Federal de Campina Grande –


UFCG

Nicole Bruna da Costa Azevedo Centro Universitário UNIFACISA

Tayná Rodrigues de Souza Centro Universitário UNIFACISA

Cíntia Thaís Duarte Matias Centro Universitário UNIFACISA


Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

Resumo: O Hematoma Epidural (HED) é um evento que pode resultar em mortalidade e morbidade.
Entendê-lo é fundamental para um diagnóstico rápido que permite um gerenciamento bem-sucedido.
Nessa perspectiva, a proposta de estudo foi realizar um levantamento da literatura que aborda o tema
HED; apresentar os aspectos epidemiológicos no Brasil; e as formas de tratamento do HED. Os
resultados mostraram que os riscos envolvidos na ocorrência de um HED vão muito além de impactos
físicos, lesões tumorais e infecções, estendendo-se aos casos de hemorragia pelo uso de
medicamentos. Com base no DataSUS, não há variações significativas nas internações por hemorragia
intracraniana ou trauma intracraniano nos últimos anos. Para o tratamento, a cirurgia minimamente
invasiva é uma das melhores alternativas para tratar pacientes com HED devido às pequenas incisões,
tempo cirúrgico reduzido, risco reduzido de anestesia e para evitar craniotomia. Conclui-se que o
hematoma epidural requer um diagnóstico precoce para que a intervenção cirúrgica evite a ocorrência
de outras complicações. Além disso, o sistema público de saúde precisa ter estrutura adequada,
estratégias eficazes de prevenção e atenção aprimorada ao HED.
Palavras-Chave: Epidural Hematoma. Hemorragia epidural não traumática. Trauma intracraniano.
Hemorragia intracraniana.

1
122
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

1.INTRODUÇÃO

Segundo Ahn e Proctor (2019)¹, o hematoma epidural é uma hemorragia no espaço entre a calvária e
a dura-máter e quase sempre resulta de um trauma. Além disso, o HED também pode ser denominado
hematoma extradural. A remoção da dura-máter do crânio é causada devido ao efeito de massa no
cérebro à medida que o hematoma cresce resultando em mortalidade e morbidade. O manejo bem-
sucedido do hematoma epidural depende do diagnóstico imediato.
Esses mesmos autores descrevem que, em geral, as linhas de sutura do crânio não se cruzam no
hematoma epidural, pois a dura-máter é menos aderente ao crânio no centro da tábua óssea, região
em que ocorre a reabsorção e remodelação do osso e, portanto, é mais aderente nas linhas de sutura,
onde a atividade osteoblástica é mais intensa.
Os seios venosos da dura-máter e as artérias meníngeas médias são geralmente cortados durante as
fraturas associadas, que são geralmente lineares. Além disso, o sangue geralmente se acumula em
ambos os lados do osso adjacente à fratura. Portanto, o HED está frequentemente associado ao
hematoma subgaleal (Ahn; Proctor, 2019)¹.
No HED agudo alguns achados na TC são clássicos, como: massa extra-axial, formato biconvexo ou
lenticular, aspecto homogêneo e hiperdenso (60-90 HU – Unidade de Hounsfield). HED hiperagudo é
tipicamente observado como um padrão de TC heterogêneo ou misto de hiperdensidade e
hipodensidade. Essas diferentes densidades representam uma mistura de sangue líquido e coagulado
Além disso, a hiperdensidade pode representar o estado sólido do sangue coagulado e pode aumentar
durante os primeiros 3 dias (REN et al., 2018)2.
O conhecimento do hematoma epidural é fundamental no que diz respeito às suas consequências, por
isso o diagnóstico imediato é extremamente importante para o manejo bem-sucedido do hematoma
epidural. Segundo McBride (2019)3, a morte do paciente ou lesão irreversível do tecido cerebral por
pressão intracraniana elevada, herniação cerebral e hematoma expansivo são sintomas agudos de
HED, considerada uma emergência neurológica que frequentemente requer tratamento cirúrgico. No
entanto, alguns pacientes selecionados com HED de pequeno volume, boa apresentação clínica e que
permanecem estáveis podem ser tratados com procedimento não cirúrgico.
Nessa perspectiva, a proposta de estudo foi realizar um levantamento da literatura que aborda o tema
HED; e especificamente apresentar os aspectos epidemiológicos no Brasil e as formas de tratamento
do HED.

2
123
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

2.MATERIAIS E MÉTODOS

O presente artigo é um estudo bibliográfico que tem caráter de revisão bibliográfica realizada entre os
meses de agosto de 2019 a outubro de 2020. Para tanto, foi realizada uma busca sistemática de artigos
publicados, nos últimos 5 anos, com os filtros texto completo de aceso livre, pesquisa em humanos e
os melhores artigos de correspondência foram usados para o PubMed. Outros periódicos indexados
nas bases de dados Scielo, LILACS, Google Scholar, Biblioteca Cochrane, Capes também foram utilizados
na pesquisa por meio do filtro de texto completo de acesso livre. Textos completos pagos na plataforma
Up to Date sobre o tema Hematoma Epidural também foram utilizados na pesquisa. Bem como a
pesquisa foi desenvolvida na página DataSUS para a coleta de dados secundários relacionados à
epidemiologia associada à hemorragia intracraniana, trauma intracraniano e hemorragia epidural não
traumática.
A elaboração da tabela 1 foi desenvolvida a partir do levantamento realizado na plataforma do
Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e Promoção da Saúde (DANTPS
/ SVS / MS)4, acessando o “Centrais de Conteúdo” e escolhendo o “Painel de Monitoramento”,
acessando o “Painel de Monitoramento de Mortalidade”, e por fim selecionando o item “Painel de
Monitoramento de Mortalidade CID - 10”, disponível em: http://svs.aids.gov.br/dantps/centrais-de-
conteudos/paineis-de-monitoramento/mortalidade/cid10/.
As tabelas 2 e 3 foram elaboradas com os dados encontrados na plataforma do Sistema de Informações
Hospitalares - SIH/SUS5, acessando o site do DATASUS, na aba “Informações Epidemiológicas e
Morbidade”, acessando a seguir “Morbidade Hospitalar do SUS (SIH/SUS)”, no item “Geral, por local
de internação - a partir de 2008”, passando a selecionar também a cobertura geográfica “Brasil por
RegiãoeUnidadedaFederação”.Asinformaçõesestãodisponíveisem:http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/de
ftohtm.exe?sih/cnv/niuf.def.OInstitutoBrasileirodeGeografiaeEstatística(IBGE)6 .
(https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9103estimativasdepopulacao.html?=&t=con
ceitos-e-metodos) foi utilizado para o levantamento dos dados populacionais e geográficos, com
informações como número de habitantes por região.
Os descritores utilizados para a busca seguiram a descrição dos descritores em Ciências da Saúde
(DeCS)7. As palavras-chave foram combinadas pelos operadores booleanos OR e AND, sem restrição
linguística utilizando as seguintes palavras: “Epidural Hematoma”, “Intracranial Trauma” “Intracranial
Hemorrhage” e “Nontraumatic Epidural Hemorrhage” para artigos nacionais e internacionais.

3
124
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

3.RESULTADOS
3.1 EPIDEMIOLOGIA
De acordo com a Tabela 1, hemorragias epidurais não traumáticas são a causa da morte de 82 pessoas
de 2015 a agosto de 2020. Isso indica que os médicos devem estar sempre atentos a essa possibilidade
de diagnóstico mesmo sem histórico de trauma, por se tratar de uma condição que pode ser fatal.

Tabela 1 – Mortes por Hemorragia Extradural Não-Traumática no Brasil por ano e região – por local
de registro: Mortes por Ocorrência - CID-10 categoria: Hemorragia Extradural Não-Traumática -
I62.1

Mortes por período

2015 2016 2017 2018 2019* 2020*


Região

15 11 15 23 14 4
Brasil/Total
Norte 1 0 0 1 0 1

2 3 3 5 2 0
Nordeste

8 3 5 16 7 3
Sudeste

3 3 7 1 1 0
Sul
Centro- 0
1 2 0 0 4
Oeste
Os anos apresentados com * são preliminares.

Fonte: Ministério da Saúde. Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e


Promoção da Saúde – DANTPS/SVS/MS4.

Conforme a Tabela 1, de 2015 até agosto de 2020, a região do Brasil que mais acumulou mortes por
hemorragias epidurais não traumáticas foi a Sudeste com um total de 42 óbitos, seguida da Sul e
Nordeste, ambos com 15 casos. A região com menor número de casos nesse mesmo intervalo de
tempo foi o Centro-Oeste. No entanto, conforme o IBGE (2018)6 a região Sudeste é a mais populosa do
Brasil e a região Centro-Oeste é a menos populosa, ou seja, o número de casos aumenta de forma
proporcional ao número de habitantes.
A Tabela 2 mostra o número de internações no Brasil por trauma intracraniano nos anos de 2016 até
2020 (julho).

4
125
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

Tabela 2: Morbidade Hospitalar do SUS – por local de internação no Brasil – Lista de Morbidade -
CID - 10: Trauma Intracraniano.
Internações por ano

Região 2016 2017 2018 2019 2020*

Brasil/Total
106.497 104.872 102.428 102.727 54.539
Norte
8.559 8.249 8.036 7.760 3.556
Nordeste
29.016 28.015 28.033 27.545 13.460
Sudeste
43.811 42.158 41.230 42.700 23.518
Sul
17.877 19.206 17.787 16.902 9.946
Centro-Oeste
7.234 7.244 7.342 7.820 4.059
* Até julho de 2020

Fonte: Ministério da Saúde. Sistema de Informações Hospitalares – SIH/SUS5


De acordo com a tabela 2, as internações foram superiores a 100 mil casos por ano nos últimos 4 anos
consecutivos, desde 2016. Além disso, a maior concentração desses casos ocorre nas regiões Sudeste
e Nordeste, que segundo o IBGE (2019)6 são as regiões mais populosas do país. O trauma craniano é
uma das principais causas de hematoma epidural, sendo importante ressaltar que esses eventos
podem levar óbito, além dos custos de internação.
A morbidade hospitalar do SUS devido a hemorragia intracraniana dos últimos anos pode ser
visualizada na Tabela 3.

5
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Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

Tabela 3: Morbidade Hospitalar do SUS – Por local de internação no Brasil - Lista de Morbidade:
CID -10: Hemorragia Intracraniana.
Internações por ano

Região 2016 2017 2018 2019 2020*

Brasil/Total 28.453 15.978


27.493 27.216 27.539
Norte 2.074 1.203
1.638 1.660 1.706
Nordeste 5.818 3.091
5.994 5.967 6.118
Sudeste 13.285 7.448
12.298 12.304 12.764
Sul 5.141 2.969
5.411 5.354 5.027
Centro-Oeste 2.135 1.267
2.152 1.931 1.924
* Até julho de 2020

Fonte: Ministério da Saúde. Sistema de Informações Hospitalares – SIH/SUS5.

Por meio da Tabela 3 verifica-se a gravidade dessa situação e alertam não só para o risco de morte por
hematoma epidural, que se constitui em hemorragia intracraniana, como também para o risco de
outros hematomas, como o hemorragia subaracnóidea e o hematoma subdural.
3.2. TRATAMENTO
De acordo com Rosi Jr. et al. (2015)8, hematomas grandes e pequenos apresentam o risco de causar
danos irreversíveis ao tronco encefálico ou compressão de estruturas. Esses autores afirmam que os
HED pequenos devem ser operados se estiverem localizados na fossa posterior ou média, e os HED
grandes devem ser operados, independentemente de sua localização. A técnica cirúrgica mais utilizada
nesses casos é a craniotomia. O tempo até a realização da cirurgia é fundamental e deve ser reduzido,
pois há fortes evidências de que o atraso na excisão do HED pode comprometer o prognóstico.
A Figura 1 mostra um HED que se estende do nível da segunda vértebra cervical até a sexta vértebra
cervical.

6
127
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

Figura 1. A ressonância magnética cervical mostrou um hematoma epidural dorsal longitudinal (A:
ponderado em T2, B: ponderado em T1) estendendo-se do nível de C2 a C6. (Fonte: Li et al., 2017: 2)9
De acordo com Fang et al. (2018)10, mau prognóstico e lesão permanente podem estar associados ao
manejo inadequado do hematoma epidural espinhal (HES), sendo essa patologia uma complicação
emergente. Esses autores sugerem que a cirurgia exploratória é uma boa opção em pacientes que
sofrem lesão medular durante a vertebroplastia porque os déficits neurológicos ocorrem secundários
ao HES agudo. Além disso, esses autores afirmam que a recuperação neurológica é multifatorial, e a
chave para o sucesso pós-cirúrgico é o momento da cirurgia, e a descompressão oportuna e a cirurgia
de transferência têm uma função especial para encurtar o tempo de recuperação do paciente.
A cirurgia minimamente invasiva apresenta-se como uma das melhores alternativas para tratar
pacientes com HED devido às pequenas incisões, tempo cirúrgico reduzido, risco reduzido de anestesia
e evitar craniotomia. Esse procedimento é utilizado de forma eficaz em hemorragias de até 50 ml
(WANG, 2016)11.
4. DISCUSSÃO
Os riscos envolvidos na ocorrência de um HED vão muito além de impactos físicos, lesões tumorais e
infecções, estendendo-se aos casos de hemorragia decorrente do uso de medicamentos. O relato de
caso de uma mulher de 39 anos de idade no Instituto de Neurologia de Curitiba demonstra o risco
associado aos anticoagulantes e ao HED. No estudo, foi relatado que o princípio ativo Rivaroxabana
causou um hematoma epidural espontâneo secundário na paciente (RUSCHEL et al., 2016) 12.
Conforme a Tabela 2, não houve mudanças significativas no número de internações por hemorragia
intracraniana nos últimos 4 anos consecutivos. No entanto, essa morbidade é uma causa preocupante
de internações no Brasil, sendo o hematoma epidural um dos componentes que integram a hemorragia
intracraniana. De acordo com esses dados, nos últimos anos, a região Sudeste e a região Nordeste

7
128
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

contabilizaram mais de 60 mil casos de internação por ano nos últimos 4 anos devido a trauma
intracraniano, o que representa mais da metade dos casos de todo o país. Como mostra a Tabela 3,
mais de 27 mil casos de internação por ano desde 2016 no Brasil representa os perigos e os custos de
internação da hemorragia intracraniana que pode ocorrer por muitos tipos de hematomas sejam eles
devido a traumas ou não.
Chen et al. (2018)13 em seu estudo descreveu que o prognóstico de HED é excelente se o diagnóstico
precoce for feito em conjunto com a descompressão cirúrgica. Além disso, o autor destaca que o HED
espontâneo é uma condição rara, que pode ter alguns gatilhos incomuns, como choro e
hiperventilação, a presença de cefaleia com sinais de aumento da pressão intracraniana precedida de
hiperventilação e sugere que seja feito o exame de tomografia computadorizada.
De acordo com Ren et al. (2018)2, o hematoma epidural pós-operatório (HEDPO) é caracterizado por
alguns achados de tomografia computadorizada como coleção hiperdensa sob o crânio, hematoma
com formato de lente biconvexa e aspecto homogêneo. Além disso, a maioria dos HEDPO são
encontrados dentro de 3 dias após a cirurgia. Ainda segundo os autores, os HEDPO pequenos e HED
grandes podem ser tratados de maneiras diferentes. Pacientes com HEDPO pequenos geralmente são
assintomáticos ou apresentam apenas dores de cabeça ou pequenos déficits neurológicos e podem
ser tratados de forma conservadora. Por outro lado, o grande HED pode ser uma ameaça à vida, pois
este hematoma pode apresentar um efeito de massa e induzir uma herniação cerebral.
Moreira, Adry e Pereira (2017)14 utilizaram o exemplo da craniectomia descompressiva para expressar
o procedimento cirúrgico como método resolutivo para tais eventos, sendo mais utilizada no
tratamento da hipertensão intracraniana refratária por lesão cerebral grave, porém, este
procedimento pode ocasionar complicações graves, como o hematoma epidural contralateral. Nesses
casos, o reconhecimento dessa lesão em tempo hábil pode influenciar na realização precoce das
tomografias pós-operatórias e, quando diagnosticada a presença de HED, uma intervenção imediata
promoverá melhores resultados. O edema cerebral intraoperatório inexplicável ou a presença de
alterações pupilares no pós-operatório destacam-se como um bom indicador do desenvolvimento do
hematoma contralateral.
Bulstrode et al. (2017)15 enfatizam a importância de uma abordagem rápida e eficiente para a
descompressão de um hematoma epidural antes do manejo neurocirúrgico definitivo, obtendo uma
melhora significativa no prognóstico. Em pacientes com alteração de nível de consciência com HED
confirmado por Tomografia Computadorizada, eles propõe a temporização por craniotomia e
drenagem parcial da coleção com agulha intraóssea, enquanto são feitos os preparativos para a

8
129
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

transferência. Eles descrevem a aplicação dessa técnica com um exemplo prático do início do
procedimento na sala de anestesia enquanto o paciente está sendo estabilizado para uma craniotomia
de emergência.
O hematoma epidural ainda pode ser consequência de outro procedimento cirúrgico, como a
cranioplastia, usada para reconstruir defeitos cranianos em pacientes após craniectomia
descompressiva. De acordo com Peng et al. (2018)16, a cirurgia repetida compromete a segurança do
paciente e retarda a recuperação, então a terapia fibrinolítica pode ser considerada um tratamento
opcional para hematoma epidural pós-operatório associado à cranioplastia, especialmente em
pacientes que recusaram tratamento cirúrgico adicional ou que não são candidatos ideais para uma
segunda cirurgia. Os autores demonstraram o uso desse cateter temporário na primeira operação,
juntamente com a injeção de uroquinase (UK) pelo cateter de dreno subgaleal, aumentou a taxa de
drenagem do hematoma.
A injeção UK poderia dissolver fibrina e fibrinogênio e converter plasminogênio em plasmina, portanto,
o UK pode ser um bom candidato para dissolver hematomas. A principal desvantagem de UK é o
aumento do risco de ressangramento. Desse modo, a escolha da dose apropriada de UK pode ser
importante na prevenção de ressangramento. Porém, esse procedimento ajudou a evitar uma segunda
operação e as complicações associadas.
Yao, Li e Sun (2018)17 analisaram o caso de uma paciente submetida a intervenção cirúrgica em até 80
horas para tratamento de hematoma epidural e obteve recuperação quase total. Esses autores
levantam a hipótese de que existe uma janela maior para terapia em pacientes com paralisia induzida
por hematoma epidural. Além disso, esses autores descrevem que o uso da laminectomia, para
descompressão da medula espinhal devido ao hematoma epidural, continua sendo uma opção de
tratamento viável, mesmo que o diagnóstico seja estabelecido oito horas após o início do hematoma
induzindo sintomas.
Ren et al. (2018)2 levanta a hipótese de que o orifício trepanado via tubo e posterior drenagem de
sucção poderia ser uma alternativa de tratamento eficaz, podendo evitar procedimentos mais
agressivos como a cirurgia aberta com anestesia geral. No entanto, esses autores reforçam a
necessidade de mais estudos sobre esse procedimento para subsidiar a tomada de decisão. Por outro
lado, esse procedimento com drenagem por sucção também pode apresentar algumas desvantagens,
como risco de infecção, evacuação incompleta e permanência hospitalar prolongada (REN et al.,
2018)2.

9
130
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

5. CONCLUSÃO
Portanto, o levantamento demonstrou que o HED traumático é rápido, súbito e potencialmente fatal,
necessitando de diagnóstico precoce para que a intervenção cirúrgica, que vem apresentando bons
resultados nos artigos analisados, evite a ocorrência de complicações. O diagnóstico adequado e a
escolha da melhor técnica cirúrgica podem salvar vidas, sendo essencial que o sistema público de
saúde, que recebe muitos pacientes com esse diagnóstico tenha estrutura adequada, estratégias
eficazes de prevenção e atendimento aprimorado aos HED.
Com relação a epidemiologia, as hemorragias epidurais não traumáticas são responsáveis por casos de
mortes no Brasil, mesmo não sendo uma causa muito frequente de morte, ainda é importante se
atentar para a possibilidade de HED, mesmo sem histórico de trauma.
O trauma intracraniano é responsável por muitos casos de HED, apresentando mais de 100 mil casos
anuais de internação no Brasil e a região Sudeste apresenta maior número de internações, sendo mais
de 40 mil casos por ano. No entanto, é importante ressaltar que a região Sudeste apresenta maior
concentração populacional do país, o que pode explicar essa maior concentração de casos.
Outro fator importante é que a Hemorragia Intracraniana que inclui outros tipos de hematomas,
incluindo o HED são causadores de mais de 27 mil internações por ano, com destaque para a região
Centro-Oeste que mesmo sendo a região menos populosa do país, ainda possui mais de 1.900 casos
de internação por ano.
As formas de tratamento vão depender do tamanho e da localização da lesão. Os HED grandes devem
ser operados, independentemente de sua localização e os HED pequenos devem ser operados se
estiverem localizados na fossa posterior ou média. A recuperação neurológica é multifatorial, e a chave
para o sucesso pós-cirúrgico é o momento da cirurgia para encurtar o tempo de recuperação do
paciente. Uma das melhores alternativas de tratamento é a cirurgia minimamente invasiva devido às
pequenas incisões e o tempo cirúrgico reduzido. Além disso, os HEDPO pequenos geralmente são
assintomáticos ou podem apresentar pequenos déficits neurológicos e/ou dores de cabeça que
podem ser tratados de forma conservadora.
AGRADECIMENTOS
Os autores gostariam de agradecer à Liga Acadêmica de Anatomia Orientada para a Clínica Cirúrgica -
LAAOCCI pela oportunidade de desenvolver esta pesquisa, e agradecer à UNIFACISA pelo acesso
completo aos artigos da plataforma Up to Date.
FINANCIAMENTO
O presente estudo não teve patrocínio.

10
131
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

CONFLITOS DE INTERESSE
Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

11
132
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

REFERÊNCIAS

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pathophysiology. Post TW, ed. UpToDate. Waltham, MA: UpToDate Inc. https://www.uptodate.com
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epidural hematomas after neurosurgical procedures. Med. 2018; 97:30.

3.McBride W. Intracranial epidural hematoma in adults. Post TW, ed. UpToDate. Waltham, MA:
UpToDate Inc. https://www.uptodate.com (Accessed on july 02, 2019.).

4.Ministério da Saúde.Departamento de Vigilância de Doenças e Agravos não Transmissíveis e


Promoção da Saúde – DANTPS/SVS/MS. http://svs.aids.gov.br/dantps/ (Accessed on october 10,
2018) .

5.Ministério da Saúde. Sistema de Informações Hospitalares – SIH/SUS. http://datasus.saude.gov.br


(Accessed on october 10, 2018).

6.IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Estimativas da população. Disponível em:


https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9103estimativasdepopulacao.html?=&t=con
ceitos-e-metodos. Acesso em: 22 mar. 2020.

7.Health Sciences Descriptors: DeCS. *. rev. and enl. ed. São Paulo: BIREME / PAHO / WHO, 2017.
Available from: <http://decs.bvsalud.org/I/homepagei.htm>. Access on 22 June 2017.

8.Rosi Jr. J, Andrade AF, Yeng LC, et al. Epidural Hematoma: A Prospective Analysis of Morbidity and
Mortality in 173 Patients. Arq Bras Neurocir 2015; 34: 20–24.

9.Li C, He R, Li X, Zhong Y, Ling L, Li F. Spontaneous spinal epidural hematoma mimicking transient


ischemic attack. Med 2017; 96: 1-4.

10.Fang M, Zhou J, Yang D, et al. Management and outcomes of spinal epidural hematoma during
vertebroplasty. Med 2018; 97:1-3.

11.Wang W. Minimally invasive surgical treatment of acute epidural hematoma: case series. Bio Med
Research International 2016; 1-8.

12.Ruschel LG, Rego FMM, Milano JB, Jung GS, Silva Jr LF, Ramina R. Spontaneous intracranial epidural
hematoma during rivaroxaban treatment. Rev Assoc Med Bras 2016; 62 (8): 721-724

13.Chen CT, Lai HY, Chang TW, Lee CY. Repeated Spontaneous Intracranial Epidural Hemorrhage After
Hysterical Crying. World Neurosurg. (2018) 114:34-36.

14.Moreira MM, Adry RARC, Pereira CU. Characteristics of Contralateral Epidural Hematoma After
Decompressive Craniectomy in Patients with Severe Traumatic Brain Injury. Systematic Review. J Bras
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12
133
Hematoma Epidural: Aspectos Epidemiológicos E Tratamento

15.Bulstrode H, Kabwama S, Durnford A, Hempenstall J, Chakraborty A. Temporising extradural


haematoma by craniostomy using an intraosseous needle. Injury, Int. J. Care Injured 2017; 48:1098–
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16.Peng A, Qi W, Cao D, et al. Fibrinolytic Therapy Improves Outcomes in Patients with Epidural
Hematomas Following Cranioplasty: A Pilot Study. J Neurol Surg A Cent Eur Neurosurg 2018; 79(01):
039-044.

17.Yao YX, Li MX, Sun LJ. Good outcomes after the delayed removal of an epidural hematoma. A case
report. Med 2018; 97:1-3.

13
134
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 15
10.37423/201002904

PROJETO DE INTERVENÇÃO: - AÇÃO EDUCATIVA


DE ESTÍMULO À AUTONOMIA DE UM GRUPO DE
IDOSOS

Diana Nunes Pavão Menezes Universidade Federal do Mato Grosso

Juliane Dourado Alves de Lima Universidade Federal do Mato Grosso

Rodrigo Pereira Costa[ Universidade Federal do Mato Grosso

Neuci Cunha Universidade Federal do Mato Grosso

Magali Olivi Universidade Federal do Mato Grosso


Projeto De Intervenção: - Ação Educativa De Estímulo À autonomia De Um Grupo De Idosos

Introdução: A Enfermagem é uma ciência e uma arte em construção, revisitando e inovando suas bases
filosóficas e epistemológicas, por meio de teorias e modelos conceituais destinados a oferecer ações
seguras para o desenvolvimento do ensino e das atividades dos profissionais comprometidos com o
outro em sua condição e em sua essência₍ ₁ ₎ . Sabe-se que nos próximos anos a população brasileira
será uma população idosa. Em 2050 pela primeira vez haverá mais idosos que crianças menores de 15
anos. Em 2012, 810 milhões de pessoas tinham 60 anos ou mais, constituindo 11,5% da população
global. Projeta-se que esse número alcance 1 bilhão em menos de dez anos e mais que duplique em
2050, alcançando 2 bilhões de pessoas ou 22% da população global₍ ₂ ₎ . No bairro Novo Colorado II
existe uma população atual de aproximadamente 150 idosos, porém nem todos participam do
programa Hiperdia. Ao observarmos a realidade na primeira fase na UBS do Novo Colorado II
evidenciou-se nos que estavam sendo assistidos, carência de recursos e necessidades de obterem mais
informações sobre qualidade de vida. Na segunda fase no Centro Comunitário do bairro Parque
Amperco, evidenciou- se a presença de 11 hipertensos no programa hiperdia. Os presentes chegaram
como um ponto de encontro não somente para pegarem medicamentos ou receberem cuidados
necessários, mas para desabafarem sobre suas angústias vivenciadas e perceptível falta do
conhecimento sobre seus direitos. Entendendo que promover a educação popular em saúde é uma
ação fundamental no dia a dia do idoso, é preciso salientar a importância das relações familiares que
o mesmo necessita. Essas relações promovem uma inter-relação entre os membros e uma
descontração para assim aproximar os componentes familiares e trazer esperança diante do
conhecimento de seus direitos. Os eventos de lazer abertos para o público em nossa cidade pode
ajudar no relacionamento familiar do idoso, onde servem de ferramenta para fazer novas amizades
que o acompanhem e realizem passeios em comum, objetivos de lazer e/ou tratamentos e unir a
família. Objetivo: Apresentar e avaliar o desenvolvimento do projeto de intervenção: do tipo descritivo
de acadêmicos do sexto semestre de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso acerca da
elaboração e execução de tal intervenção. Esta foi realizada em dezembro de 2014 durante a prática
de educação em saúde da disciplina de Enfermagem em Fundamentos em Educação em Saúde, na
modalidade de grupo fechado e homogêneo com duração de duas horas e meia. A proposta foi ofertar
ao idoso e seu acompanhante, uma tarde de diversão e integração com direito a cinema, exposição de
artes, palestra sobre o estatuto do idoso e um lanche para finalizar, demonstrando que é possível ter
lazer sem gastos financeiros. O evento foi organizado para que tudo ocorresse conforme o previsto. O
grupo dividiu o seu tempo e correu atrás de parceria para alimentação, transporte, folders, convites e
uma pequena lembrança para satisfação dos usuários presentes fossem alcançados de forma positiva.

1
136
Projeto De Intervenção: - Ação Educativa De Estímulo À autonomia De Um Grupo De Idosos

Por meio de Oficio assinado pela coordenação do curso de enfermagem da UFMT de Cuiabá - MT
conseguimos patrocínio para: a alimentação (podendo ser oferecido suco natural de melancia, acerola
e laranja, com pão recheado com frango e salada); e para o ônibus que foi cedido pelo comando geral
da polícia militar de Cuiabá- MT que acordou estar as 13:00 horas do dia 18 de dezembro de 2014 no
Centro Comunitário do parque Amperco para levar e trazer os mesmo de forma segura. Resultados:
Buscamos incentivar essa inclusão social, para que eles se sintam capazes de transformar um pouco o
seu cotidiano que às vezes só se resume em medicação e solidão, pois muitos moram ou ficam sozinhos
a maior parte do tempo, não são respeitados pelos seus próprios familiares, não recebem o seu real
valor diante da família, causando sentimento de tristeza e abandono. Percebemos como o vínculo da
comunidade é frágil, pois a quantidade de idosos convidados e os presentes no dia da intervenção
foram poucos. Conseguimos alcançar o nosso objetivo que foi proposto desde o início, que era a
socialização através de laços afetivo-familiares, integrar a comunidade e passar uma tarde agradável,
mesmo não comparecendo a maior parte dos idosos. Conclusão: Iniciamos a atividade curricular
utilizando a teoria da problematização, com o objetivo de observar uma realidade esquematizando as
fases da teoria e concluir com um projeto de intervenção e diante do resultado obtido, ficou evidente
que o profissional de saúde além de utilizar os recursos disponíveis para desenvolver um projeto de
intervenção, é necessário planejar estratégias que motivem a integração da sociedade nos projetos
planejados pela UBS. Pois desenvolver um projeto para intervir em uma realidade de uma determinada
comunidade no prazo curto evidencia-se tal resultado, mas com a forma de se construir o projeto não
há justificativa de não se projetar ou até mesmo planejar em pouco tempo.

2
137
Projeto De Intervenção: - Ação Educativa De Estímulo À autonomia De Um Grupo De Idosos

REFERÊNCIAS:

1.CARNEIRO, ADC; COSTA, SFG da; PEQUENO, MJP. Disseminação de valores éticos no ensino do cuidar
em enfermagem: estudo fenomenológico. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2009; 18(4): 722-30.

2.PRESIDÊNCIADAREPÚBLICA.DadossobreoenvelhecimentonoBrasil.Disponívelem:<http://www.sdh.
gov.br/assuntos/pessoa-idosa/dados- estatisticos/DadossobreoenvelhecimentonoBrasil.pdf

3
138
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 16
10.37423/201002905

A MONITORIA COMO UMA OPORTUNIDADE PARA


A PRÁTICA DOCENTE EM ENFERMAGEM

Wanderlei Barbosa dos Santos Universidade Federal de Alagoas

Jeferson Caetano da Silva Universidade Federal de Alagoas

Marianne Buarque de Gouveia Universidade Federal de Alagoas

Heubert de Lima Guimarães Universidade Federal de Alagoas

Rossana Teotônio de Farias Moreira Universidade Federal de Alagoas


A Monitoria Como Uma Oportunidade Para A Prática Docente Em Enfermagem: Relato De Experiência

INTRODUÇÃO: A monitoria como instrumento para a melhoria do ensino de graduação possibilita ao


aluno monitor novas práticas e experiências pedagógicas, preparando-o a atuar como um futuro
docente, ao tempo que melhora suas habilidades em sala de aula1. Consiste numa atividade acadêmica
de natureza complementar, na qual o aluno tem a oportunidade de desenvolver e ampliar os
conhecimentos adquiridos na academia por meio do apoio ao docente na condução da disciplina. O
projeto de monitoria visa propiciar a interdisciplinaridade e unir teoria e prática durante as atividades
desenvolvidas, auxiliando o docente, facilitando e maximizando o aprendizado dos alunos,
despertando o interesse na importância da disciplina acadêmica.4 Além de promover o enriquecimento
da vida acadêmica do educando, possibilita, por meio da relação de cooperação existente entre
docente e monitor, o aprimoramento da qualidade de ensino da disciplina, uma vez que favorece a
adoção de novas metodologias de ensino, bem como impulsiona o exercício da pesquisa acadêmica,
permitindo uma contínua associação entre teoria e prática.4 O Programa de Monitoria da Universidade
Federal de Alagoas (UFAL) é uma ação institucional direcionada à formação acadêmica do discente e à
melhoria do processo de ensino-aprendizagem dos cursos de graduação, envolvendo professores e
discentes na condição de orientadores e monitores, respectivamente, é desenvolvido através de planos
de monitoria propostos pelas respectivas unidades acadêmicas.3 A monitoria poderá ser exercida com
ou sem bolsa, de acordo com os recursos disponibilizados pela UFAL. São objetivos do Programa de
Monitoria: I-despertar no segmento discente o interesse pela docência, estimulando o
desenvolvimento de habilidades relacionadas ao seu exercício; II - promover a melhoria do ensino de
graduação através da interação dos monitores com os segmentos docente e discente; III - compreender
a Ética como princípio que perpassa a formação da docência; IV - criar condições para o monitor
aprofundar seus conhecimentos na disciplina/área, objeto do processo seletivo, em conformidade com
o projeto pedagógico de cada curso; V - auxiliar o professor em suas atividades acadêmicas de ensino,
associadas com a pesquisa e a extensão.3 OBJETIVO: Oportunizar o desenvolvimento do processo de
ensino- aprendizagem, visando à qualificação técnica cientifica do discente, despertar o interesse pela
docência, aprofundar conteúdos, superar dificuldades em relação à atividade curricular desenvolvida
e proporcionar uma experiência acadêmica diferenciada. MÉTODO: Relato de experiência, realizado a
partir da monitoria do 2º semestre, do componente curricular de Primeiros Socorros, da Escola de
Enfermagem e Farmácia/UFAL. As atividades foram desenvolvidas semanalmente no laboratório de
Enfermagem, tanto as aulas teóricas quanto as aulas práticas, com recurso ao método expositivo,
dinamização de debates, seminários e realização de atividades práticas individuais e em grupos. Os
monitores tinham como responsabilidade auxiliar o docente em suas atividades teórico-práticas, além

1
140
A Monitoria Como Uma Oportunidade Para A Prática Docente Em Enfermagem: Relato De Experiência

de observar e promover treinamento dos alunos. RESULTADOS: Os monitores proporcionaram aos


alunos noções básicas de primeiros socorros, treinamento de procedimentos básicos do primeiro
atendimento, conhecimento de quais medidas devem ser aplicadas, bem como o que não deve ser
realizado, evitando-se assim, o agravo da vítima. Fornecendo aos alunos capacitação para atuarem
com eficiência nas situações de urgência e emergência definidas no conteúdo programático, e que para
uma boa atuação além de estar cursando a graduação de enfermagem possuíam bom
condicionamento físico, paciência e sabiam trabalhar em equipe. O conteúdo programático foi divido
em três unidades, sendo a primeira unidade voltada para a avaliação inicial da cena, focando em avaliar
a segurança do local, a utilização de equipamentos de proteção individual e a solicitação de apoio
especializado (SAMU e Corpo de Bombeiros), a desobstrução das vias aéreas com a utilização da
técnica adequada (Chin lift para vítimas de caso clínico e Jhaw thrust para vítimas de trauma) e
reanimação cardiopulmonar, identificando a parada cardiorrespiratória, solicitando apoio
especializado e a execução das compressões e ventilações de maneira correta para um procedimento
mais eficaz, também com aulas práticas; a segunda unidade deu ênfase nos diversos tipos de
traumatismos, como, cranioencefálico, raquimedular, torácico e abdominal; choques, como o
anafilático e o hipovolêmico; e imobilização de extremidades, reconhecendo a importância para a
imobilização, os imobilizadores e suas formas de utilização de acordo com o tipo de lesão; a terceira
unidade foi apresentação de seminários sobre cinemática do trauma com os mecanismos básicos de
lesão por movimento; transporte de vítimas conhecendo formas de remoção e fatores que influenciam
o tipo de manipulação e transporte; intoxicação e envenenamento, identificando as vias de ingresso
do agente nocivo no organismo e os principais sinais e sintomas; animais peçonhentos, com suas
principais espécies; prevenção de acidentes em crianças e idosos; queimaduras e suas classificações
de acordo com sua profundidade e extensão; afogamento e sua fisiopatologia; convulsão, desmaio e
infarto, definido-os e mostrando suas possíveis causas; após os seminários, foi dada uma aula
expositiva sobre parto emergencial e avaliação dos alunos. As atribuições desempenhadas pelos
monitores enfatizaram a assistência aos alunos, estar presente em todas as aulas ministradas pelo
docente, estar disponível para auxiliar ou orientar o aluno quanto as suas possíveis dúvidas, elaborar
e ministrar aulas de revisão, ajudar na correção de provas e seminários apresentados, participar,
juntamente com o docente, do planejamento das atividades, na orientação dos alunos, na avaliação
da disciplina, no controle de frequência, entre outros. CONCLUSÃO: Portanto, concluímos que a
monitoria é um serviço de apoio pedagógico oferecido aos alunos interessados em aprofundar
conteúdos, bem como solucionar dificuldades em relação à matéria trabalhada. Além disso, desperta

2
141
A Monitoria Como Uma Oportunidade Para A Prática Docente Em Enfermagem: Relato De Experiência

no discente o interesse pela docência, preparando-o para uma futura experiência profissional nesta
área, daí porque o programa de monitoria na universidade se constitui em uma importante ferramenta
para conceber os alicerces de uma formação voltada para a docência. CONTRIBUIÇÕES PARA A
ENFERMAGEM: A partir deste estudo, evidencia-se a importância da prática de monitoria pelos alunos
do curso de Enfermagem. A monitoria de primeiro socorros oportuniza ao acadêmico o treinamento
das atividades práticas, favorecendo o esclarecimento de dúvidas, elaboração de atividades práticas
com valorização de dinâmica de situações de urgência e emergência simuladas; busca pelo
conhecimento científico com consequente estabelecimento de melhor desempenho e confiança o que
leva à melhoria na prestação5.
Descritores: Docentes em Enfermagem, primeiros socorros, aprendizagem baseada na experiência.

3
142
A Monitoria Como Uma Oportunidade Para A Prática Docente Em Enfermagem: Relato De Experiência

REFERÊNCIAS:

1.Linard AG, Martins LC. Avaliando a disciplina de primeiros socorros sob o ponto de vista do discente.
Rev. Cent. Ciênc. Saúde, Fortaleza, v. 15, n.2, p. 49-52, abr./jun. 2002.

2.Soares MAA, Santos KF. A monitoria como subsídio ao processo de ensino- aprendizagem: o caso da
disciplinaadministraçãofinanceiranoCCHSAUFPB.Disponívelemwww.prac.ufpb.br/anais/xenex_xienid/
xi_enid/monitoriapet/ANAIS/Area4/4CCHSAD CSAMT04.pd f.

3.Universidade Federal De Alagoas – UFAL. Secretaria Executiva dos Conselhos Superiores – SECS/UFAL.
RESOLUÇÃONº55/2008CONSUNI/UFAL,de10denovembrode2008.Disponívelem:<http://www.ufal.ed
u.br/estudante/graduacao/normas/documentos/resolucoes/rco_55_2 008_consuni>

4.Koppe S, Isarael VL. A monitoria como possibilidade de ampliação na formação acadêmica inovadora
emfisioterapia.IXXCongressoNacionaldeEducação,EDUCERE.IIIEncontroSulBrasileirodPsicopedagogia,
26a29Out,2009,PUCPR.Disponívelem:http://www.educ.fc.ul.pt/recentes/mpfip/pdfs/carlosceia.pdf.

5.Haag, Guadalupe Scarparo, Kolling, Vanessa, Silva, Elisete, Melo, Silvana Cláudia Bastos, & Pinheiro,
Monalisa. (2008). Contribuições da monitoria no processo ensino- aprendizagem em enfermagem. Rev.
Bras.deEnf.61(2),215220.RetiradoJunho08,2014,Disponíveemhttp://www.scielo.br/scielo.php?script=
sci_arttext&pid=S003471672008000200011&l ng=en&tlng=pt. 10.1590/S0034-71672008000200011

4
143
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 17
10.37423/201002906

MONITORIA DE ANATOMIA HUMANA PARA ALÉM


DO CONHECIMENTO ESPECÍFICO NA ÁREA DA
ANATOMIA

TAINARA MÜHL BREITENBACH Universidade FEEVALE

CAROLINA GIL FELTES Universidade FEEVALE

MAUREEN KOCH Universidade FEEVALE

MARCELO MARQUES SOARES Universidade FEEVALE

LUCAS MIGNONI Universidade FEEVALE


Monitoria De Anatomia Humana Para Além Do Conhecimento Específico Na Área Da Anatomia

Resumo: A experiência da atividade de monitoria promove inúmeros benefícios para o aluno monitor,
desde oportunidade para aprofundar conhecimentos específicos da área de atuação a desenvolver
habilidades e técnicas necessárias para a promoção do ensino. O presente estudo visa relacionar,
através de um questionário, os impactos das experiências vividas por alunos monitores que exerceram
atividades de monitoria em anatomia humana na Universidade do Vale dos Sinos-RS, no período de
1999-2017. A prática da monitoria de anatomia no contexto pesquisado possibilitou experiências
ampliadas no processo de ensino- aprendizagem, assim como marcou positivamente a formação
integral do acadêmico, pois torna real a experiência da atividade de docência.
Palavras Chaves: Aluno Monitor. Aprendizagem. Formação.

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145
Monitoria De Anatomia Humana Para Além Do Conhecimento Específico Na Área Da Anatomia

INTRODUÇÃO

A anatomia humana é uma das ciências médicas mais antigas estudadas e de suma importância para
a área da saúde como um todo. A partir dela é possível criar uma base de conhecimento sobre o corpo
humano para então aprimorá-la com conceitos mais complexos no decorrer da formação acadêmica.
As cadeiras que requerem aulas práticas para melhor entendimento necessitam de mais dedicação e
tempo do aluno. Contudo, muitas vezes não existe uma relação boa entre aluno e professor capaz de
fazer o acadêmico absorver tudo aquilo que ele poderia. Nesse momento entra o monitor como uma
ponte entre o professor e o aluno tornando possível uma visão diferente sobre os conteúdos e uma
forma mais acessível de tirar as dúvidas, uma vez que a interação se dá de maneira mais extrovertida
e desinibida.
A Monitoria de Anatomia Humana constitui-se em uma proposta que auxilia, de forma expressiva, o
professor e o aluno em suas atividades em todas as etapas do processo pedagógico, ao tempo em que
proporciona ao aluno-monitor a possibilidade de ampliar o conhecimento sobre o corpo humano e
despertar o interesse para a docência. Acredita-se que a vivência da monitoria também possibilite o
desenvolvimento de aptidões e habilidades que possam contribuir, não apenas na formação
acadêmica, mas também na trajetória profissional e pessoal do aluno-monitor, após a conclusão da
Graduação.
O fato de um aluno ensinar outro aluno cria bases para o monitor de paciência e empatia, pois muitas
vezes é preciso explicar o conteúdo de diferentes formas levando em consideração não apenas as
dificuldades especificas, mas também o estado emocional do aluno. Esses desafios do dia a dia tornam
os monitores pessoas capazes de enfrentar situações e dilemas que envolvem tanto o raciocínio lógico
quanto as diferenças sociais de cada indivíduo. Com essa premissa, esse estudo objetiva analisar as
contribuições advindas com a vivência da monitoria de anatomia humana em âmbitos pessoal e
profissional, após o período acadêmico, apontadas pelos ex-monitores.
MATERIAL E MÉTODOS
Estudo quantitativo, descritivo observacional, com amostra não probabilística, por conveniência, que
contou com 42 participantes que exerceram atividades de monitoria em anatomia humana em uma
Universidade do Vale dos Sinos-RS, no período de 1999-2017. Como instrumento de pesquisa, utilizou-
se um questionário online de perguntas fechadas, de múltipla escolha, com o propósito de
padronização e obtenção da frequência das respostas. Os dados foram analisados através do
Programa SPSS versão 25 e a confecção dos gráficos através do programa Excel.

2
146
Monitoria De Anatomia Humana Para Além Do Conhecimento Específico Na Área Da Anatomia

RESULTADOS

A amostra caracterizou-se como sendo a maioria do sexo feminino (n=32), com idade média de 30,12
anos, estado civil casado (n= 30), que não possui filhos (n=33). Sobre o grau de instrução, predominou
aqueles que têm a graduação concluída (n=21), seguido de pós- graduação (n=10), mestrado (n=8) e
doutorado (n=3). As áreas de formação predominantes foram Fisioterapia (n=20) e Quiropraxia (n=12),
já as áreas de atuação foram a clínica (n=17), hospitalar (n=7) e docência (n=7). Em relação às
atividades de monitoria, todos participantes (n=42) recomendam aos estudantes o ingresso na
atividade, assim como afirmam que a vivência contribuiu - extremamente (n=21) e muito (n=21) - na
formação pessoal e profissional dos mesmos (n=42).

Figura 1 Este gráfico demonstra a quantidade de alunos interessados nas atividades de docência
após a experiencia da monitoria.

Figura 2 Neste gráfico, constatamos os motivos pela desistência da atividade de monitoria.

3
147
Monitoria De Anatomia Humana Para Além Do Conhecimento Específico Na Área Da Anatomia

Figura 3 Neste gráfico, elucidamos os principais motivos da busca pela atividade de monitoria.
CONCLUSÕES
O aluno monitor possui um importante papel como facilitador do processo de ensino- aprendizagem
aos discentes, pois esclarece incertezas que não puderam ser sanadas em sala de aula, consegue
elaborar metodologias de ensino diversificadas que compreendam as demandas do aluno, desenvolve
atividades na dissecação e no preparo de peças anatômicas. A prática da monitoria de anatomia no
contexto pesquisado, possibilitou experiências ampliadas no processo de ensino-aprendizagem, assim
como parece ter marcado positivamente a formação integral do acadêmico, visto que 100% da
amostra sugere a experiência aos estudantes e reconhece as contribuições advindas com a monitoria.
Além do conhecimento adquirido, aspectos como comunicação e relações pessoais foram
privilegiadas, contribuindo para o desenvolvimento pessoal e profissional dos participantes.

4
148
Monitoria De Anatomia Humana Para Além Do Conhecimento Específico Na Área Da Anatomia

REFERÊNCIAS

CUNHA, Fernando Rezende. Atividades de monitoria: uma possibilidade para o desenvolvimento da


sala de aula. Educ. Pesqui., São Paulo, v. 43, n. 3, p. 681-694, jul./set., 2017.

FRISON, Lourdes Bragagnolo. Monitoria: uma modalidade de ensino que potencializa a aprendizagem
colaborativa e Autorregulada. Pro-Posições, v. 27, n. 1, p. 133-153, jan./abr. 2016.

SALBEGO, Cléton et al. Percepções Acadêmicas sobre o Ensino e a Aprendizagem em Anatomia


Humana. Revista Brasileira de Educação Médica, 2015.

TAVARES, Jardene Soares et al. Contribuições da anatomia humana na formação acadêmica de


estudantes de enfermagem: relato de experiência. Rev enferm UFPE on line., Recife, 2017.

VICENZI, C. B. et al. A monitoria e seu papel no desenvolvimento da formação acadêmica.Rev. Ciênc.


Ext. v.12, n.3, p.88-94, 2016.

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149
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 18
10.37423/201002907

A ANATOMIA SINGULAR REPRESENTADA POR


SALVADOR DALÍ

Laila Guimarães Souza Universidade Federal de Sergipe

Ciro Pereira Sá de Alencar Barros Universidade Federal de Sergipe

Julia Maria Salgado Carvalho Universidade Federal de Sergipe

Marcos Vinicius da Silva (in memoriam) Professor Adjunto I da Universidade Federal


de Sergipe
A Anatomia Singular Representada Por Salvador Dalí

Resumo: Muito se fala acerca das obras do grande artista surrealista Salvador Dalí, principalmente
quando se trata dos quadros os quais retratam figuras humanas objetificadas, com animais acoplados,
partes do corpo incompletas e todo um leque de imagens que representam o funcionamento do
pensamento e do sonho, sem se ater a realidade ou lógica, tal como este funciona. Por se tratar de
uma figura autentica, livre e marcante, muitos amantes da anatomia se encantam com suas
representações, e buscam compreender e identificar as estruturas que foram representadas em cada
quadro ou escultura produzida. Foram realizadas pesquisas acerca das obras de Salvador Dalí, as quais
continham estruturas anatômicas, identificando-as. Utilizou-se como base o TCC de Priscila Martini
Pedó de 2016, em Português. Foram escolhidas cinco obras: “Metamorfose de Narciso” – 1937, “O
grande Masturbador” - 1929, “O Espectro do Sex Appeal” - 1934, “Galarina” - 1945 e “Girafa em
Chamas” - 1937. A partir das análises realizadas, percebeu-se a mistura realizada entre anatomia
distorcida e anatomia bela realizada por Salvador Dali, o que torna fascinante analisar os aspectos
anatômicos e o significado por trás de suas obras.
Descritores: Anatomia artística; Medicina na arte; Ilustração Médica.

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151
A Anatomia Singular Representada Por Salvador Dalí

INTRODUÇÃO

Muito se fala acerca das obras do grande artista surrealista Salvador Dalí; desde sua trajetória de vida
intrigante, seus poemas, seu relacionamento com Gala e até a criação do método crítico- paranoico,
de grande contribuição ao estilo surrealista. Quando se trata dos quadros, encontra- se retratos de
figuras humanas objetificadas ou com objetos e animais acoplados, partes do corpo incompletas e
modificadas, rostos deformados, estruturas geométricas e indefinidas formando um mosaico, e todo
um leque de imagens que representam o funcionamento do pensamento e do sonho, sem se ater a
realidade ou lógica, tal como este funciona. Por se tratar de uma figura autentica, livre e marcante,
muitos amantes da anatomia se encantam com suas representações. Estes buscam compreender as
associações realizadas, traduzir o que está por trás de cada figura que compõem cada obra, bem como
identificar as estruturas que foram representadas em cada quadro ou escultura produzida (PEDÓ,
2016). Assim, o presente estudo tem como objetivo analisar acerca do retrato surrealista da Anatomia
do Corpo Humano por Salvador Dalí em suas obras.
METODOLOGIA
Foram realizadas pesquisas acerca das obras realizadas por Salvador Dalí as quais continham
estruturas anatômicas, identificando-as; bem como a relação deste artista com o surrealismo e as
características representadas por tais obras, usando como base o TCC de Priscila Martini Pedó de 2016,
em português. Não foram encontrados trabalhos relacionados ao tema.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Foram analisadas 5 obras de Salvador Dalí, encontradas na Internet e no site da Fundação Gala–
Salvador Dalí, e realizadas correlações com as estruturas anatômicas conhecidas e identificadas em
atlas de Anatomia Humana de Netter. A partir do conteúdo encontrado da análise de algumas obras,
percebe-se a estruturação das imagens e do corpo humano, bem como sua mescla e exclusividade já
que Dali utilizava do processo criativo crítico-paranoico. Em sua obra “Metamorfose de Narciso” de
1937 (Figura 01), observa-se a união de rochas apoiadas, com formatos de dedos segurando um ovo
do qual sai uma flor; em outra parte da obra, se observa o reflexo destes objetos formando uma figura
anatômica humana nua encolhida, com estrutura física real; ao mesmo tempo, se observam imagens
de corpos nus ao fundo. Na obra “O Grande Masturbador” de 1929 (Figura 02), tem-se a união de
objetos e partes do corpo de modo abstrato, incoerente e nítido, de modo que se identifica o busto e
a face de uma mulher bem delineada, com parte do musculo peitoral maior definido; parte dos
membros inferiores de um homem, do Quadril até metade da Perna, em um corte transverso, no qual

2
152
A Anatomia Singular Representada Por Salvador Dalí

é ressaltadas também os órgãos sexuais masculinos por baixo da cueca, e machucados n região do
joelho e da coxa esquerda; estas se misturam a figura de um grilo e um rosto deformado gigante, com
olhos, nariz e osso zigomático proeminente que representava o artista em questão. Já em “O Espectro
do Sex Appeal” de 1934 (Figura 03), tem-se uma composição de elementos identificáveis, como uma
estrutura rochosa ao fundo, que forma a lateral esquerda de uma face craniana com detalhes de uma
estrutura óssea; além de um corpo humano feminino nu central, na qual as extremidades como mãos
e pés estão incompletas ou inexistentes, as pernas e coxas se encontram com a pelve, da qual saem
glúteos, continuando com o que se identifica como abdome, tórax e dois sacos fechados proeminentes
no lugar dos seios, sem presença de face; o corpo é sustentado por uma estaca á cintura e uma ao
braço direito; encontra-se também uma criança, na lateral direita do quadro, com o que parece ser
uma estrutura óssea em mãos. Tais obras nos levam a perceber que Dalí tinha domínio artístico para
o surrealismo e para o realismo, já que este sabia retratar imagens anatômicas concretas e o belo.
Como exemplo, em sua obra “Galarina” de 1945 (Figura 04) há o retrato de Gala, sua esposa, no qual
é visto a descrição anatômica e realista perfeita de sua mulher: mama exposta e detalhada, a feição
séria, antebraço e braço, pescoço e face completas; musculatura do antebraço e mãos tensionadas e
delimitadas. Em contraposição, na obra “Girafa em Chamas” de 1937 (Figura 05), há o exótico, na qual
se observa a figura anatômica do sexo feminino, vestida, com gavetas abertas na parte anterior da sua
coxa esquerda, até a altura da patela; uma gaveta grande saindo da região do diafragma; ossos da
pelve e da clavícula bem delimitados, face indefinida e inexpressiva e estacas que aparentam sustentar
a postura; ao fundo uma girafa pegando fogo e outra estrutura corporal feminina, de forma corporal
delimitada, e estacas saindo de cada processo espinhoso vertebral até a face posterior do crânio.
CONCLUSÃO
A partir das análises realizadas, percebeu-se a mistura de anatomia distorcida com a anatomia bela
realizada por Salvador Dalí. Este conseguia unir dois extremos em uma única obra, associar a anatomia
com a psicologia a partir da representação de sonhos e imagens irreais, o que torna fascinante analisar
os aspectos anatômicos de suas obras, deduzir o significado por trás delas e encontrar detalhes e
características próprias desse exímio artista.

3
153
A Anatomia Singular Representada Por Salvador Dalí

REFERÊNCIAS:

•PEDÓ, PRISCILA MARTINI. Surrealismo e Salvador Dalí: Reflexões de uma pesquisa. Tese (Licenciatura
em Letras) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre. 2016.

•As11telasmaismemoráveisdeSalvadorDali.CulturaGenial.Disponívelem:https://www.culturagenial.c
om/obras-salvador-dali/. Acesso em: 2 julho de 2018.

•Fundação Salvador Dalí. Disponível em: https://www.salvador-dali.org/en/. Acesso em: 07 de maio


de 2018

•SalvadorDalí:entreorealeodelírio.CartaCapital.Disponívelem:https://www.cartacapital.com.br/revist
a/802/salvador-dali-entre-o-real-e-o-delirio- 2796.html. Acesso em: 2 de julho de 2018.

•Virus da Arte & cia. Disponível em: <http://virusdaarte.net/>. Acesso em: 7 de maio de 2018

•NETTER, F. H. Atlas de Anatomia Humana. 6 ed. Rio de Janeiro: Elsevier, 2015.

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154
A Anatomia Singular Representada Por Salvador Dalí

ANEXOS:

Figura 01: Pintura em tela “La Metamorfosis de Narciso”.

Fonte: DALI, Salvador. La Metamorfosis de Narciso. 1937. Óleo sobre tela. 50,8x78,3 cm. Londres,
Tate Gallery. Imagem de licença livre (Google).

Figura 02: Pintura em Tela “Rostro del Gran Masturbador”.

Fonte: DALÍ, Salvador. Rostro del Gran Masturbador. 1929. Óleo sobre tela. 110x115 cm. Espanha,
Museu Reina Sofia. Imagem de licença livre (Google).

Figura 03: Pintura em tela “The Spectre of Sex-Appeal.”

Fonte: DALÍ, Salvador. The Spectre of Sex-Appeal. 1934. Óleo em painel de madeira. 17,9x13,9 cm.
Espanha, Dalí Theatre-Museum. Imagem de licença livre (Google).

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155
A Anatomia Singular Representada Por Salvador Dalí

Figura 04: Pintura em tela “Galarina”.

Fonte: DALÍ, Salvador. Galarina. 1945. Óleo sobre tela. 64x50 cm. Espanha, Dalí Theatre-Museum.
Imagem de licença livre (Google).

Figura 05: Pintura em tela “Girafa em Chamas”.

Fonte: DALÍ, Salvador. Girafa em Chamas. Óleo sobre tela. 1937. 35x27 cm. Basileia, Museu das Belas
artes.
Imagem de licença livre (Google).

6
156
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 19
10.37423/201002911

DIFERENÇAS ENTRE OS TERMOS “APARELHO” E


“SISTEMA” USADOS NO ENSINO DE ANATOMIA
HUMANA.

Julia Maria Salgado Carvalho Universidade Federal de Sergipe

Laila Guimarães Souza Universidade Federal de Sergipe

Ciro Pereira Sá de Alencar Barros Universidade Federal de Sergipe

Marcos Vinícius da Silva (in memorian) Universidade Federal de Sergipe


Diferenças Entre Os Termos “Aparelho” E “Sistema” Usados No Ensino De Anatomia Humana.

Resumo: No estudo de Anatomia Humana, existem termos que geram dúvidas entre os docentes e
discentes, como “aparelho” e “sistema”. Apesar de muitos considerarem os dois sinônimos, existem
notáveis diferenças de conceito que devem ser analisadas para a correta aplicação. O presente estudo
teve como objetivo definir as diferenças entre os termos “sistema” e “aparelho". Foi realizada uma
pesquisa bibliográfica exploratória de definições dos termos. Com base na coletânea de obras
pesquisadas, encontrou-se que o termo aparelho diz respeito a um conjunto de órgãos associados para
exercerem uma mesma função; sistema, por sua vez, é um conjunto de estruturas ou de órgãos
semelhantes, constituídos pelos mesmos tecidos ou células. Um exemplo é o aparelho locomotor,
formado pelos sistemas ósseo, articular e muscular. Assim, os termos “sistema” e “aparelho”
apresentam diferenças conceituais que influenciam no entendimento do estudo de Anatomia. É
necessário que haja uma uniformização das publicações com o intuito de evitar o caráter dúbio de suas
definições. Além disso, é importante que o docente opte por uma ou outra abordagem para maximizar
o aprendizado dos seus alunos.
Palavras-Chave: Anatomia. Ensino. Nomenclatura.

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158
Diferenças Entre Os Termos “Aparelho” E “Sistema” Usados No Ensino De Anatomia Humana.

INTRODUÇÃO

No ensino de Anatomia Humana, disciplina geralmente ofertada no primeiro ano dos cursos superiores
nas áreas da saúde e biológica, existem termos que geram dúvidas entre os docentes e discentes. Com
o intuito de evitar esses conflitos, há uma norma que possibilita à sociedade científica uniformizar
essas nomenclaturas, a Terminologia Anatômica, definida por um comitê internacional, o Federative
Committee on Anatomical Terminology (FCAT)1. O intuito dessa organização é apresentar as definições
dos termos utilizados na Anatomia, mas, por vezes questiona-se o significado de alguns. O
conhecimento científico não pode ser administrado numa perspectiva de simples transmissão, mas
numa abordagem crítica2, e essa abordagem contribui na formação do profissional, que enfrentará
situações complexas e diversificadas no cotidiano dos serviços de saúde3. Nesse sentido, os estudantes
precisam ter senso crítico para entender e questionar a utilização de certos termos em seu estudo. É
o caso da utilização das palavras “aparelho” e “sistema”. Apesar de muitos considerarem as duas
sinônimas, existem notáveis diferenças de conceito que devem ser analisadas para a correta aplicação4.
A disciplina de Anatomia Humana disponibiliza um conteúdo absolutamente indispensável para os
estudantes da área da saúde, porém apresenta um índice de reprovação extremamente alto5. Existem
muitas dificuldades relacionadas ao ensino e à aprendizagem da Anatomia Humana, como o conteúdo
programático da disciplina que costuma ser muito extenso e a formação inadequada dos alunos, que
dificulta a aprendizagem significativa de conceitos da disciplina6. Assim, a prática pedagógica da
disciplina é por vezes objeto de reflexões, as quais visam sempre a uma formação sólida do
profissional6. A definição dos termos “aparelho” e “sistema”, e o subsequente estabelecimento de
abordagem de ensino por um dos dois pode ajudar na superação de algumas dificuldades encontradas
pelos alunos. Assim, o presente estudo tem como objetivo definir as diferenças entre os termos
“sistema” e “aparelho" utilizados no ensino de Anatomia Humana.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo exploratório, no qual foi realizada uma pesquisa bibliográfica de definições,
baseando-se na etimologia das palavras “sistema” e “aparelho” e da sua aplicação no estudo de
Anatomia, através da análise de livros de Anatomia Humana, dicionários de termos médicos e artigos
provenientes de buscas nas bases de dados Scielo e Biblioteca Virtual em Saúde (BVS). Foram
visualizados também cortes histológicos de diferentes sistemas, cedidos pelo Departamento de
Morfologia da Universidade Federal de Sergipe.

2
159
Diferenças Entre Os Termos “Aparelho” E “Sistema” Usados No Ensino De Anatomia Humana.

RESULTADOS

Foram analisados quatro livros de Anatomia Humana (“Anatomia Orientada para a Clínica”7,
“Anatomia Humana Sistêmica e Segmentar”8, “Princípios de Anatomia e Fisiologia”9 e “Anatomia
Humana”10), um dicionário de termos médicos4 e artigos científicos indexados nas bases de dados
analisadas. Com base na coletânea de obras pesquisadas, foi encontrado que o termo “aparelho” diz
respeito a um conjunto de órgãos associados para exercerem uma mesma função; “sistema”, por sua
vez, é um conjunto de estruturas ou de órgãos semelhantes, constituídos pelos mesmos ou muito
semelhantes tecidos ou células, de acordo com o Dicionário de Termos Médicos, de Freitas e Costa 4.
Ao analisar os cortes histológicos, pode-se observar as diferenças entre as células e a organização dos
tecidos dos diferentes sistemas (Figuras 1, 2 e 3). Além dessa diferenciação, é possível a reunião de
dois ou mais sistemas para constituir um aparelho, como assumido pelos autores Dangelo e Fattini8.

DISCUSSÃO

A disciplina Anatomia Humana é uma disciplina obrigatória em todos os cursos de graduação em


Ciências da Saúde. Exige memorização de uma grande quantidade de estruturas com nomes
complexos, o que pode tornar o estudo uma tarefa monótona e desestimulante11,12. Além disso,
apresenta altas taxas de reprovação5. O volume de conteúdo apresentado na disciplina de Anatomia é
desproporcional ao tempo no qual deve ser ministrado, geralmente de seis meses a um ano, e os
alunos enfrentam dificuldades em compreender e integrar os conceitos13. Dessa forma, é importante
que o professor seja claro e objetivo no seu ensino e que o aluno seja ativo e crítico. A preparação das
aulas, independentemente da metodologia aplicada, cria condições para que o docente se sinta seguro
quanto ao seu desempenho e possibilita uma sequência lógica na formulação de conceitos,
racionalizando a ação educativa14. Assim, o docente pode orientar sua aula tanto pela abordagem por
“sistemas” quanto por “aparelhos”, desde que esteja clara a diferença entre ambos e que isso seja
repassado aos alunos. Uma maior organização didático-metodológica está relacionada com um maior
aprendizado por parte dos alunos15.
Seguindo a definição apresentada pelos autores Dangelo e Fattini8, e sustentada por outros autores,
como nos livros “Princípios de Anatomia e Fisiologia”9 e “Anatomia Humana”10, o aparelho locomotor
é formado por três sistemas: o sistema esquelético, o articular e o muscular. Histologicamente 16, o
sistema esquelético é formado principalmente pela matriz óssea e por osteócitos, osteoclastos e
osteoblastos (Figura 1). O sistema articular é formado basicamente por cartilagem hialina (Figura 2). Já
o sistema muscular do aparelho locomotor é formado por músculo estriado esquelético, que possui

3
160
Diferenças Entre Os Termos “Aparelho” E “Sistema” Usados No Ensino De Anatomia Humana.

como característica a presença de vários núcleos e periféricos (Figura 3). É importante ressaltar que
existe outros tipos de tecidos musculares em outros sistemas. Moore et al, em seu livro “Anatomia
Orientada para a Clínica”7, muito utilizado no ensino e no estudo de Anatomia Humana considera que
o aparelho em questão também pode ser chamado de Sistema Locomotor, o que é discutível, uma vez
que para constituir um sistema as estruturas devem ser formadas pelo mesmo tecido ou similar.
Vale salientar que essa definição de aparelho pode ser empregada não apenas no demonstrado por
esse estudo, como também em outros casos, como no aparelho genitourinário, que é formado pelos
sistemas excretor, urinário e genital8,9,10. Além disso, um mesmo órgão pode fazer parte de mais de um
sistema e mais de um aparelho. As definições servem para orientar o ensino, deixando-o mais claro e
objetivo, mas não devem ser observadas de forma isolada e rígida.
CONCLUSÃO
A partir do exposto pelo presente estudo, os termos “sistema” e “aparelho” apresentam diferenças
conceituais que influenciam no entendimento do estudo de Anatomia. Sistema está associado a
órgãos que possuem semelhanças teciduais, celulares e funcionais; ao passo que aparelho apenas
indica um grupo de órgãos questão ligados a fim de exercer uma função. Dessa forma, é necessário
que haja uma uniformização das publicações, especialmente daquelas de cunho didático acadêmico,
com o intuito de evitar o caráter dúbio de suas definições. Além disso, é importante que o docente
opte por uma ou outra abordagem para maximizar o aprendizado dos seus alunos.

4
161
Diferenças Entre Os Termos “Aparelho” E “Sistema” Usados No Ensino De Anatomia Humana.

REFERÊNCIAS

1. Federative Committee On Anatomical Terminology (FCAT). Terminologia anatômica. Stuttgart, Georg


Thieme Verlag, 1998.

2. Delizoicov D, Angotti JA. Metodologia do ensino de Ciências. 2. ed. São Paulo: Cortez; 1994.

3. Marin MJS, Gomes R, Marvulo MML, Primo EM, Barbosa PMK, Druzian S. Multiprofissional health-
related graduate courses: results from experiences using active methodologies. Interface –
Comunicação, Saúde, Educação. 2010; 14(33):331-344.

4. Costa, MF. Dicionário de Termos Médicos. 1ª ed. Porto: Porto Editora; 2005.

5. Silva-e-Oliveira J, Furtado F. Quais Fatores Influenciam a Taxa de Aprovação na Disciplina de


Anatomia Humana?. Revista Brasileira de Educação Médica. 2015; 39(4):574-585.

6. Montes MAA, Souza CTV. Estratégia de ensino-aprendizagem de anatomia humana para acadêmicos
de medicina. Ciênc Cogn. 2010; 15(3):2-12.

7. Moore, KL, Dakey II AF. Anatomia orientada para a clínica. 7ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan;
2014.

8. Dangelo JG, Fattini CC. Anatomia sistêmica e segmentar. 3.ed. São Paulo: Atheneu; 2007.

9. Tortora GJ. Princípios de anatomia e fisiologia. 14ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2016.

10. Martini FH, Timmons MJ, Tallitsch RB. Anatomia Humana. 6ª ed. Porto Alegre: Artmed, 2009.

11. Lima VM, Ferreira KF. Métodos de Ensino-Aprendizagem em Anatomia Humana e Comparativa. 25º
Congresso de Educação do Sudoeste Goiano (Conade).

12. Reis C, Martins MM, Mendes RAF, Gonçalves LB, Sampaio Filho HC, Morais MR, et al. Avaliação da
Percepção de Discentes do Curso Médico acerca do Estudo Anatômico. Rev Bras Educ Méd. 2013;
37(3):250-8.

13. Lujan HL, Di Carlo SE. Too much learning, not enough learning: what is the solution? Adv Physiol
Educ. 2006; 30(1):17-22.

14 Fornaziero CC, Gordan PA, Carvalho MAV, Araujo JC, Aquino JCB. O ensino da anatomia: integração
do corpo humano e meio ambiente. Revista Brasileira de Educação Médica. 2010; 34(2):290-297.

15 Callegaro AM, Rocha KM. Organização didático-metodológica das aulas de Anatomia e Fisiologia
Humana: comportamento e percepção dos estudantes. Educar em Revista. 2016; (59):251-262.

16. Junqueira LC, Carneiro C. Histologia básica. 12ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2014.

17. Soares, RC. Cortes Histológicos. Departamento de Morfologia, Universidade Federal de Sergipe;
2018.

5
162
Diferenças Entre Os Termos “Aparelho” E “Sistema” Usados No Ensino De Anatomia Humana.

ANEXOS

Figura 1. Corte histológico de um tecido ósseo. Mais ao centro, de coloração roxa, pode-se ver a
matriz óssea com seus tipos celulares: osteócitos, osteoclastos e osteoblastos.

Fonte: Cortes Histológicos, Departamento de Morfologia, Universidade Federal de Sergipe17.

Figura 2: Corte histológico de tecido cartilaginoso. Em A, pode ser vista a cartilagem hialina. Em B,
fibras musculares que fazem parte do sistema muscular.

Fonte: Cortes Histológicos, Departamento de Morfologia, Universidade Federal de Sergipe 17.

6
163
Diferenças Entre Os Termos “Aparelho” E “Sistema” Usados No Ensino De Anatomia Humana.

Figura 3. Corte histológico de tecido muscular, composto por fibras estriadas esqueléticas
multinucleadas.

Fonte: Cortes Histológicos, Departamento de Morfologia, Universidade Federal de Sergipe 17.

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164
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 20
10.37423/201002917

O USO DE EPÔNIMOS E A TERMINOLOGIA NA


ANATOMIA: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DE
LITERATURA

Andressa Emanuelle Cardoso Dantas Faculdade Ciências Médicas da Paraíba

George Harley Cartaxo Neves Filho Faculdade Ciências Médicas da Paraíba

Alinne Beserra de Lucena Marcolino Faculdade Ciências Médicas da Paraíba


O Uso De Epônimos E A Terminologia Na Anatomia: Uma Revisão Integrativa De Literatura

Introdução: A Anatomia é um ramo da Morfologia que trata da forma e da estrutura dos seres vivos,
sendo definida como a ciência que descreve a forma externa do corpo humano, seu desenvolvimento,
arquitetura, situação e as relações dos órgãos, além de estudar a morfologia do todo e de suas partes,
sendo crucial o uso correto da terminologia para seu (re)conhecimento. Uma das características da
comunicação médica é o uso habitual de terminologias construídas sobre nomes próprios, sendo
denominados como epônimos, sejam estes nomes reais ou apenas fictícios. Assim, frequentemente,
se mencionam sinais do exame físico, síndromes, doenças e partes anatômicas com o uso do nome de
uma pessoa, cidade ou instituição em homenagem a importância de sua contribuição na
invenção/descoberta da entidade (sinal, síndrome, doença ou manobra). Desta forma, os epônimos
são utilizados para nominar alguma coisa, sendo, na anatomia, geralmente uma homenagem aos
pioneiros na descrição da estrutura anatômica. Embora alguns autores defendam que esses devem ser
banidos do ramo anatômico, outros levam à tona sua importância histórica. Sua utilização é, muitas
vezes, deixada de lado, pois é considerado um motivo de confusão e de difícil aprendizado, visto que,
para a mesma estrutura, utilizam-se vários epônimos diferentes, além do fato de julgarem que é inútil
para anatomia, pois não descrevem as características localizadoras ou descritivas das mesmas. Desta
forma, torna-se importante identificar, a partir da produção científica, o que vem sendo criticado ou
defendido quanto ao uso de epônimos na terminologia ,da anatomia, o que justifica este trabalho.
Objetivo: Analisar a produção científica acerca do uso de epônimos no ensino anatômico no período
entre 1998 a 2017. Método: Revisão integrativa da literatura que buscou artigos nacionais e
internacionais nas bases de dados: LILACS, SCIELO e PUBMED, sendo utilizados como descritores as
palavras: epônimos (eponyms), anatomia (anatomy) e ensino (teaching). Resultados: Dos 398 artigos
encontrados nestas bases, foram excluídos estudos duplicados, artigos de revisão e os que não fizeram
referência ao objeto de estudo. Desta forma, o corpus foi constituído por 19 artigos, sendo identificado
dois (02) eixos temáticos que serviram de guia da discussão: Uso de epônimos em Medicina e
Etimologia anatômica na aprendizagem de Medicina. Percebe-se que o uso dos epônimos transcende
o ambiente médico, sendo utilizado por pessoas de fora da área de saúde que fazem uso de
nomenclaturas já comuns no dia a dia, como Síndrome de Down ou doença de Parkinson. Os estudos
que defendem seu uso se baseiam na concepção de que facilitam a comunicação entre os profissionais,
além de homenagear a capacidade de seus descobridores. Já os que recriminam sua utilização se
fundamentam por traduzirem “pobremente” a forma como foi descoberta ou como se dá a estrutura,
além de serem, por vezes, difíceis de memorizar, imprecisos e etnocêntricos, além de redundantes,
pois a mesma estrutura é renomeada diversas vezes, dependendo do país. Conclusão: A tendência é

1
166
O Uso De Epônimos E A Terminologia Na Anatomia: Uma Revisão Integrativa De Literatura

de que os epônimos entrem em desuso com o passar dos anos, a fim de se buscar uma precisão
científica e universalização dos termos. Porém, no ambiente estudantil, o uso da terminologia
anatômica ainda é utilizado, mas está sendo erradicado gradativamente ao longo do tempo, sendo
substituído pelas nomenclaturas habituais.
Descritores: Epônimos. Anatomia. Ensino. Revisão integrativa da literatura.

2
167
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 21
10.37423/201002922

ANÁLISE DO GERENCIAMENTO E DA QUALIDADE


DOS SERVIÇOS PRESTADOS AOS PACIENTES,
EM UM HOSPITAL PARTICULAR ACREDITADO NA
CIDADE DO RECIFE-PE

Cristina Albuquerque Douberin Universidade Federal de Pernambuco - UFPE

Diná Lyra da Trindade Silva Universidade Federal de Pernambuco


Campus Vitória de Santo Antão - UFPE / CAV

Adriana Maria dos Santos Fundação de Ensino Superior de Olinda -


FUNESO

Lívia Maria Almeida de Oliveira Centro Universitário Brasileiro - UNIBRA

Bruna Kathiely Meneses da Silva Centro Universitário Brasileiro - UNIBRA

Andressa Karolina da Silva Carvalho Fundação de Ensino Superior de Olinda -


FUNESO
Análise Do Gerenciamento E Da Qualidade Dos Serviços Prestados Aos Pacientes, Em Um Hospital Particular Acreditado Na Cidade Do RECIFE-
PE

Introdução: A missão essencial das instituições hospitalares é atender a seus pacientes da forma mais
adequada. Por isso, todo hospital deve preocupar-se com a melhoria permanente da qualidade de sua
gestão e assistência, buscando uma integração harmônica das áreas médica, tecnológica,
administrativa, econômica, assistencial e, se for o caso, de docência e pesquisa. O incremento de
eficiência e eficácia nos processos de gestão é necessário para assegurar uma assistência melhor e
mais humanizada à saúde dos seres humanos que procuram os hospitais, necessitados de cuidados e
apoio. Existem indicadores da qualidade da assistência e dos serviços que servem para ajudar a
descrever a situação atual de um determinado fenômeno ou problema, fazer comparações, verificar
mudanças ou tendências e avaliar a execução das ações planejadas durante um período de tempo, em
termos, também, de quantidade das ações de saúde executadas. O Programa de Acreditação
Hospitalar é parte importante desse esforço para melhorar a qualidade da assistência prestada pelos
hospitais brasileiros. A sequência de diretrizes a ser seguida durante o processo de Acreditação é:
Inscrição da Organização Prestadora do Serviço de Saúde no processo de avaliação da Instituição
Acreditadora; Solicitação, pela Instituição Acreditadora, à Organização Prestadora do Serviço de Saúde,
de informações necessárias; Contratação da Instituição Acreditadora pela Organização Prestadora do
Serviço de Saúde; Preparação da avaliação; Visita dos avaliadores propriamente dita; Término da
avaliação. Objetivo: Expor a experiência evidenciada no tocante à análise do gerenciamento e da
qualidade dos serviços prestados aos pacientes pela equipe de Enfermagem em um hospital particular
acreditado na cidade do Recife-PE. Descrição Metodológica: Este trabalho foi realizado no dia 19 de
março de 2012, mediante visita técnica no horário de 9:00 às 10:30 h, totalizando, portanto, uma hora
e meia de duração. Tratou-se de um relato de experiência elaborado com base nos dados coletados
em uma entrevista com a Enfermeira Gerente e com a Analista de Planejamento do referido hospital.
Tal atividade foi desenvolvida pela acadêmica do sétimo período do curso de Graduação em
Enfermagem da Universidade Federal de Pernambuco, na época, devido ao cumprimento do estágio
curricular obrigatório como atividade prática da disciplina “Administração Aplicada à Enfermagem”.
Resultados: A gestão e a promoção da qualidade dos serviços prestados aos pacientes são baseadas
em um manual com 1100 itens da JCI/CBA (Joint Commission International/Comissão Brasileira de
Acreditação) em cima do conceito de qualidade total, que se consiste na busca dos profissionais de
toda a escala hierárquica para um atendimento de qualidade, por meio da otimização do trabalho.
Outras características são tomadas como base para a aplicabilidade do gerenciamento e da qualidade
desses serviços, sendo mais generalizadas, como de qualidade geral, de moral, de dimensão, de custo,
de segurança e entrega. Tais características são aplicadas por meio de seis passos: o primeiro consiste

1
169
Análise Do Gerenciamento E Da Qualidade Dos Serviços Prestados Aos Pacientes, Em Um Hospital Particular Acreditado Na Cidade Do RECIFE-
PE

na Educação; o segundo, na Avaliação Externa Diagnóstica, realizada pela Comissão Brasileira de


Acreditação; o terceiro, no Início dos Planos de Melhoria; o quarto, na Implementação e gestão das
ações de melhoria; o quinto, na Avaliação Externa; e o sexto e último, na Auditoria de Acreditação. Os
indicadores da qualidade são os de rotina e os do comitê de qualidade. Os indicadores de rotina são
feitos em todos os setores do hospital como: berçário, bloco cirúrgico e obstétrico, urgência adulto e
pediátrico, pediatria, CME, hospital dia, UTI geral, educação continuada e ordenha. Todos os
indicadores são feitos em planilhas pelo supervisor de cada área e depois avaliadas pelos diretores do
hospital. Conclusão: Constatou-se que o hospital considerado revela excelente controle da gestão e da
qualidade de seus serviços, uma vez que três exigências importantes, no tocante à aquisição da
acreditação, são seguidas à risco. Na primeira exigência, o hospital consegue contemplar o
atendimento aos requisitos básicos da qualidade na assistência prestada ao cliente, nas especialidades
e nos serviços da organização de saúde a ser avaliada, com recursos humanos compatíveis com a
complexidade, qualificação adequada (habilitação) dos profissionais e responsáveis técnicos com
habilitação correspondente para as áreas de atuação institucional. Na segunda, por sua vez, consegue
contemplar evidências de adoção do planejamento na organização da assistência, referentes à
documentação, corpo funcional (força de trabalho), treinamento, controle, estatísticas básicas para a
tomada de decisão clínica e gerencial, e práticas de auditoria interna. Já na terceira, consegue
contemplar evidências de políticas institucionais de melhoria contínua em termos de: estrutura, novas
tecnologias, atualização técnico-profissional, ações assistenciais e procedimentos médico-sanitários.
Evidências objetivas de utilização da tecnologia da informação, disseminação global e sistêmica de
rotinas padronizadas e avaliadas com foco na busca da excelência. Contribuições para a Enfermagem:
O trabalho da equipe de Enfermagem torna-se, indubitavelmente, melhor com o cumprimento de cada
uma dessas exigências, respectivamente, pois, ao cumprir a primeira delas, fica evidente que o serviço
possa a possuir um responsável técnico habilitado; os procedimentos e controles dos pacientes
internados são registrados no prontuário; e a distribuição da equipe consta de escala de acordo com a
habilitação requerida, ajustada às necessidades do serviço; ao cumprir a segunda, o serviço passa a
dispor de manual (is) de normas, rotinas e procedimentos documentado(s), atualizado(s) e
disponível(is); desenvolve as suas ações baseadas em protocolos clínicos; dispõe de um programa de
educação e treinamento continuado e melhoria de processos; as ações são auditadas através de
registros no prontuário; e, ao cumprir a terceira, seu modelo assistencial passa a basear-se no enfoque
multiprofissional e interdisciplinar; integra o programa institucional da qualidade e produtividade, com
evidências de ciclos de melhoria; dispõe de sistema de aferição da satisfação dos clientes internos e

2
170
Análise Do Gerenciamento E Da Qualidade Dos Serviços Prestados Aos Pacientes, Em Um Hospital Particular Acreditado Na Cidade Do RECIFE-
PE

externos e de avaliação do serviço, em comparação com referenciais adequados e de impacto junto à


comunidade.

3
171
Análise Do Gerenciamento E Da Qualidade Dos Serviços Prestados Aos Pacientes, Em Um Hospital Particular Acreditado Na Cidade Do RECIFE-
PE

REFERÊNCIAS:

1. Organização Nacional de Acreditação – ONA - Diretrizes do Sistema e do Processo de Acreditação;


Normas Técnicas, Norma Orientadora, NO1; Manual da Organização Nacional de Acreditação. Brasília:
ONA; 2001. Disponível em: URL: http://www.ona.org.br/ 2. Organização Nacional de Acreditação –
ONA - Manual das Organizações Prestadoras de Serviços Hospitalares, Versão 2001. Manual Brasileiro
de Acreditação – ONA, Volume 1. Brasília: ONA/Educat; 2001.

4
172
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 22
10.37423/201002936

OPERACIONALIZAÇÃO DO PROGRAMA
PROFICIÊNCIA - COFEN :UMA PRÁTICA DE
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NA ENFERMAGEM

Carmen Lucia Lupi Monteiro Garcia Conselho Federal de Enfermagem


Operacionalização Do Programa Proficiência – COFEN: Uma Prática De Educação A Distância Na Enfermagem.

INTRODUÇÃO

Em tempos de interdisciplinaridade, o Conselho Federal de Enfermagem (Cofen) em 2007 criou o


Programa Proficiência (PP), uma política pública de atualização e aprimoramento profissional por meio
da educação a distância1 . Essa modalidade educacional é caracterizada pela mediação didático-
pedagógica realizada por meios de tecnologias de informação e comunicação, e os estudantes e
professores desenvolvem suas atividades em espaços e tempos diversos2 . Essas características
atendem os pressupostos do PP, uma vez que possibilitam a atualização dos conhecimentos dos
profissionais de enfermagem, de forma democrática, em larga escala e em todo território nacional.
Ressalta-se que essa iniciativa representa o resgate inicial do processo de aprimoramento profissional,
mediante a ausência anterior de políticas públicas voltadas a esse aspecto, e para a complementação
da formação básica, com vistas ao aperfeiçoamento dos profissionais1 . Anualmente são ofertadas 50
mil vagas gratuitamente ao profissional regularmente inscrito no Conselho Regional de Enfermagem,
em dez temas de atualização com 30 horas cada. Foram desenvolvidas três fases, a primeira (agosto
de 2007 a março de 2009) envolveu 24.680 profissionais de enfermagem, na segunda (abril de 2009 a
agosto de 2010) participaram 28.601 profissionais. A terceira fase do programa se iniciou em outubro
de 2010 e está em andamento. Os cursos são desenvolvidos em 35 dias, integralmente pela internet,
por meio de um sistema de e-Learning+LMS (Tecnologia da Informação e Comunicação – TIC)
denominado Plataforma Jornada, com metodologia especialmente desenvolvida para os requisitos do
PP, visto que a melhor tecnologia a ser utilizada na educação a distância depende do contexto de
aplicabilidade e das necessidades dos estudantes3 . A operacionalização de cursos nessa modalidade
prevê a articulação de mecanismos de acompanhamento permanente dos estudantes, a fim de
identificar as dificuldades e esclarecê-las durante o processo de ensino aprendizagem3 .
OBJETIVO
Descrever a prática de operacionalização da terceira fase do Programa Proficiência no atendimento ao
profissional de enfermagem.
METODOLOGIA
Estudo descritivo, documental, de abordagem qualitativa, realizado no período de 25 de outubro de
2010 a 28 de fevereiro de 2011. Os dados foram coletados por meio de relatórios de andamento da
equipe de operacionalização do PP, e por relatórios disponíveis no LMS (Learning Management System)
da Plataforma Jornada, referentes as 18.173 vagas ofertadas no período do estudo, entre enfermeiros,
técnicos e auxiliares de enfermagem. Os aspectos éticos foram respeitados, uma vez que ao realizarem

1
174
Operacionalização Do Programa Proficiência – COFEN: Uma Prática De Educação A Distância Na Enfermagem.

a inscrição no PP os profissionais manifestam ciência de que os dados globais podem ser utilizados em
pesquisas científicas.
RESULTADOS
A operacionalização do PP está localizada na cidade de Curitiba – Paraná, no Instituto Base de
Conteúdos e Tecnologias Educacionais (Ibac). A entrada de alunos é quinzenal e são ofertadas em
média 3.300 vagas por ingresso. Entende-se por ingresso o período de 45 dias que compreende da
inscrição a conclusão do curso. Os dados analisados compreendem os seis primeiros ingressos da
terceira fase do PP. Nos cinco meses avaliados foram ocupadas 18.173 vagas, com 14.928 cursos
concluídos, o que totalizou 82,14% de aproveitamento. O profissional de enfermagem inscrito no PP é
atendido por três serviços: secretaria acadêmica, monitoria e setor de atendimento ao cliente (MAC).
A secretaria acadêmica é responsável pela gestão administrativo acadêmica dos ingressos.
Inicialmente, ocorre a oferta de vagas por ingresso, as inscrições são realizadas no site do PP, e ficam
armazenadas em um banco de dados. A secretaria analisa os dados dos inscritos, e, em até cinco dias,
o profissional recebe, no e-mail cadastrado, o login e senha para acesso a Plataforma Jornada. Os dados
cadastrais são encaminhados aos Conselhos Regionais de Enfermagem para confirmação da inscrição
do profissional. Em casos de divergência entre os dados, ou irregularidades, a inscrição é considerada
‘provisória’ até esclarecimento, na identificação de não atendimento aos critérios do PP, a inscrição
pode ser cancelada. Nas ativações das matrículas, a secretaria distribui os profissionais em turmas, as
quais serão atribuídas a um monitor para acompanhamento. Ao longo do ingresso, a secretaria
esclarece as dúvidas administrativas dos profissionais, no que se refere, principalmente, à confirmação
da inscrição e certificados. As mensagens recebidas diretamente do aluno sobre assuntos diversos
totalizaram 4.520. A secretaria retornou aos profissionais 6.158 mensagens, que incluíram auxílio a
dúvidas administrativas e informes sobre inscrições. Ao término do período de estudos, a secretaria
processa os relatórios do LMS e realiza o fechamento das turmas, por meio de status que descrevem
a situação final do profissional, para posterior emissão de certificados aos inscritos e aprovados. As
mensagens programadas de operacionalização dos ingressos, tais como login e senha, 2453 Trabalho
590 confirmação de participação em fóruns e da conclusão do curso, totalizaram 206.884 no período
do estudo, (média 34.480 mensagens por ingresso). A monitoria é responsável pelo acompanhamento
direto dos profissionais de enfermagem no desenvolvimento dos cursos, de forma a contribuir para o
desenvolvimento dos processos de ensino e de aprendizagem. É composta por uma enfermeira tutora,
que supervisiona os monitores (estagiários de enfermagem). O estágio tem duração de seis meses com
24 horas de jornada semanal de trabalho. Cada monitor atende a cinco ingressos, cada um com uma

2
175
Operacionalização Do Programa Proficiência – COFEN: Uma Prática De Educação A Distância Na Enfermagem.

média de 300 alunos, distribuídos em seis turmas. Desde 2007, participaram 152 acadêmicos de
enfermagem, dos quais 60 integraram a terceira fase do PP no período de estudo. No período, foram
enviadas 118.479 mensagens por e-mail (média 14.457 por ingresso) e recebidas 8.607 (média 1.434
por ingresso). Pelo correio eletrônico da Plataforma Jornada foram enviadas 86.742 mensagens (média
14.457 por ingresso) e recebidas 4.627 mensagens (média de 717 por ingresso). As mensagens via e-
mail e correio eletrônico são coletivas (textos padrão contidos no cronograma de andamento dos
ingressos) e individuais (atendem as necessidades do aluno). Foram realizadas 16.572 ligações (média
2.762 por ingresso), das quais 8.764 alunos atenderam (53%). Desses, 949 alunos relataram problemas
com o computador, 661 problemas com login e senha e 1.363 haviam se esquecido dos prazos dos
cursos ou estavam desmotivados em fazê-lo. Ao MAC é atribuído o atendimento ao profissional via site
do PP, com as opções ‘fale conosco’ (contato para atendimento de serviços em geral) e ‘certificados’
(chat de atendimento específico de assuntos relacionados a certificados). No período de estudo, o site
do PP recebeu 310.269 visitas, que geraram 945.322 visualizações de páginas do site. Os visitantes
foram de 752 cidades brasileiras e 41 países de origem. No período do estudo foram recebidas 5.460
mensagens por meio do fale conosco, com 100% de retorno aos profissionais. Foram realizados 1.478
atendimentos por chat, sendo que a maioria se restringia a esclarecimentos sobre certificados. A
política do MAC contempla o encaminhamento das dúvidas dos profissionais aos setores responsáveis
quando se identifica essa necessidade.
CONCLUSÃO
O atendimento aos profissionais de enfermagem demonstra a dinâmica de apoio ao desenvolvimento
dos cursos adotado pelo Programa Proficiência. Desde o momento da inscrição até após a conclusão
do curso, o profissional é acompanhado no esclarecimento de dúvidas. Os dados denotam que os
serviços de atendimento ao profissional de enfermagem encaminham quantidade significativa de
mensagens em contraponto ao número reduzido de mensagens recebidas. Acredita-se que isso esteja
relacionado ao plano operacional empregado, no qual as orientações para o desenvolvimento dos
cursos são definidos em tutoriais que o cursista recebe no início do ingresso.
Além disso, o número de participantes de cada fase do PP demonstra que a maioria dos profissionais
faz mais de um curso do PP e por isso, conhecem a metodologia de ensino empregada. Ressalta-se a
preocupação em manter a individualidade do atendimento e o respeito ao processo de ensino
aprendizagem dos profissionais inscritos no PP, com vistas ao cumprimento dos pressupostos
pedagógicos do programa.

3
176
Operacionalização Do Programa Proficiência – COFEN: Uma Prática De Educação A Distância Na Enfermagem.

Nesse sentido, destaca-se que a operacionalização do PP é considerada uma prática de educação a


distância, pois considera um universo significativo de profissionais em constante aprimoramento e em
busca de atualização, o que fortalece a ciência da Enfermagem e a busca pelo ‘aprender a aprender’.
Ao longo de sua trajetória, o PP assumiu como identidade a democratização do acesso à atualização
dos conhecimentos na área da saúde e enfermagem, e hoje é reconhecido como uma das mais
importantes inciativas da história do COFEN e dos Conselhos Regionais para a valorização, promoção
e bem estar dos profissionais de Enfermagem.
Palavras-Chave: Enfermagem; Educação a Distância; Prática Profissional. ÁREA TEMÁTICA: Políticas e
Práticas de Educação e Enfermagem EIXO TEMÁTICO: Ciência da Enfermagem em tempos de
interdisciplinaridade

4
177
Operacionalização Do Programa Proficiência – COFEN: Uma Prática De Educação A Distância Na Enfermagem.

REFERÊNCIAS

1. Garcia CLLM, Alves F, Crozeta K, Melo M, Sousa TC. Processo de trabalho do Programa Proficiência –
Cofen: inserção dos acadêmicos de enfermagem. Enfermagem em Foco 2010; 1(2):69-72.

2. Brasil. Decreto nº 5.622, de 19 de dezembro de 2005. Regulamenta o art. 80 da Lei no 9.394, de 20


de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.

3. Ministério da Educação. Secretaria de Educação a Distância. Referenciais de Qualidade para


Educação Superior à Distância. Disponível em: Acesso em: 04 abr. 2011.

5
178
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 23
10.37423/201002939

CUIDADOS DE ENFERMAGEM NA MANIPULAÇÃO


DO CATETER DE DVE E PIC ATRAVÉS DO
RELATO DE UM CASO CLÍNICO

Julia Maria Pacheco Lins Magalhães Hospital Universitário Professor Alberto


Antunes – HUPAA – UFAL – EBSERH-
Maceió-AL
Camila Feitoza Maciel Hospital Memorial Arthur Ramos – Maceió-AL

Carla Danielle Botelho Silva Hospital Memorial Arthur Ramos – Maceió-AL

Janinne Santos de Melo Hospital Memorial Arthur Ramos – Maceió-AL

Karulyne Silva Dias Hospital Memorial Arthur Ramos – Maceió-AL

Kleinn de Oliveira Silva Santa Casa de Misericórdia de Maceió –


Maceió- AL

Mayra Villiany Siqueira Damasceno Hospital Memorial Arthur Ramos – Maceió-AL

Suzana Maria de Oliveira Costa Meneses Hospital Universitário Professor Alberto


Antunes – HUPAA – UFAL – EBSERH-
Maceió-AL
Cuidados De Enfermagem Na Manipulação Do Cateter De DVE E PIC Através Do Relato De Um Caso Clínico

Resumo: Introdução: o cateter de Derivação Ventricular Externa (DVE) com o cateter de monitorização
da Pressão Intracraniana (PIC) acoplado pode ter complicações graves como infecções do sistema
nervoso central, que podem ser prevenidas com medidas simples através dos cuidados de
enfermagem. Objetivo: relatar através de um caso clínico os cuidados de enfermagem na manipulação
do cateter de DVE e PIC. Metodologia: estudo observacional, descritivo, exploratório, do tipo estudo
de caso. Coleta de dados realizada durante o internamento do paciente na UTI Neurológica do Hospital
Memorial Arthur Ramos de Maceió, no período de abril a junho de 2017. Resultados: DBT, sexo
masculino, 30 anos, estudante, solteiro, vítima de queda de moto sem capacete, diagnóstico médico
de TCE grave com contusões bifrontais. Paciente foi abordado cirurgicamente para drenagem de
hematoma e colocação de DVE com cateter de PIC acoplado devido a evidência de hidrocefalia. Os
cuidados de enfermagem realizados para esse paciente em virtude do sistema DVE/PIC foram:
cabeceira do leito elevada entre 30 a 45 graus; sistema DVE/PIC em um suporte exclusivo; checagem
do sistema a cada 6 horas; zerar o cateter de DVE no conduto auditivo externo, evitando o
tracionamento do mesmo, em caso de obstrução não desobstruir e/ou reposicionar; nunca aspirar ou
ejetar solução no cateter; não esquecer de abrir o cateter de DVE depois da realização de qualquer
procedimento; cuidados no esvaziamento da bolsa coletora da DVE; avaliação do aspecto e volume do
débito; realização do curativo. Conclusão: A equipe de enfermagem manipula o cateter de DVE e PIC,
assim, torna-se fundamental o conhecimento técnico científico no cuidado desses dispositivos.
Contribuições ou implicações para a Enfermagem: a participação do profissional da enfermagem na
monitorização invasiva com cateter de PIC e DVE promove uma assistência segura, livre de erros,
focada no cuidado individualizado do paciente.
Descritores: Cateteres. Enfermagem. Neurocirurgia.

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Cuidados De Enfermagem Na Manipulação Do Cateter De DVE E PIC Através Do Relato De Um Caso Clínico

INTRODUÇÃO

Os cuidados de enfermagem com o paciente neurocrítico, em que são instalados cateteres para
Derivação Ventricular Externa (DVE) e cateter de monitorização da Pressão Intracraniana (PIC),
envolvem competências de alta qualidade científica, técnica e humana. Tais competências são
requisitos para o manejo de processos que contribuam para estabelecer diagnósticos de enfermagem
e intervenções para o monitoramento de técnica invasiva que ajudam a identificar as melhores
alternativas (VIANA, TORRE, 2017). Diante da evolução e das diferentes intervenções e opções para o
monitoramento da PIC e dos cuidados com a DVE, nota-se a inevitável relação das práticas de
enfermagem frente a tomada de decisão relacionada a estas tecnologias, visto que o conhecimento
técnico-científico e a prática do cuidado preciso e rigoroso podem influenciar no prognóstico do
paciente, no sentido de poder diminuir o risco de infecção e eventos adversos (SAKAMOTO, 2018).
A DVE constitui-se como uma ferramenta tanto diagnóstica quanto terapêutica considerada padrão-
ouro para pacientes neurológicos graves que necessitam de cuidados intensivos após um Traumatismo
Cranioencefálico (TCE). Além de monitorizar a PIC, a DVE pode ser utilizada em casos de Hipertensão
Intracraniana (HIC), hidrocefalia ou até em situações de hemorragia intraventricular, visto que
possibilita a drenagem de Líquido Cefalorraquidiano (LCR). Como o risco de infecção é considerado
alto, o manuseio inadequado desta tecnologia pode causar infecções no sistema nervoso central, como
meningite e ventriculite, podendo aumentar as taxas de mortalidade desses indivíduos (GRILLE, et al.,
2007). Assim, recomenda-se manipular o sistema da DVE o mínimo possível a fim de prevenir o
aumento de infecções relacionadas à manipulação do cateter e do sistema (SAKAMOTO, 2018).
O cateter de DVE é instalado no corno frontal do ventrículo lateral e conectado a um transdutor que
emite o sinal a um monitor em que se realiza a medição contínua da pressão intracraniana (PIC). Os
valores normais da PIC estão entre 10 e 15 mmHg. O cateter é um dispositivo cuja finalidade é
descomprimir o cérebro quando existe aumento do líquido cefalorraquidiano (LCR). A monitorização
da PIC, por sua vez, ocorre por meio da inserção, realizada pelo neurocirurgião, de um cateter no
crânio. Esse procedimento pode ser realizado no espaço epidural, subdural, subaracnóide,
intraparenquimatoso ou intraventricular, e adaptado a um transdutor de pressão (VIANA, TORRE,
2017).
O cateter de Derivação Ventricular Externa (DVE) com o cateter de monitorização da Pressão
Intracraniana (PIC) acoplado pode ter complicações graves como infecções do sistema nervoso central,
que podem ser prevenidas com medidas simples através dos cuidados de enfermagem (CCIH-UFRJ,
2013; VIANA, TORRES, 2017). Quanto as complicações na inserção e manutenção do cateter de PIC, as

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181
Cuidados De Enfermagem Na Manipulação Do Cateter De DVE E PIC Através Do Relato De Um Caso Clínico

principais são: Infecção; Risco de hemorragia por lesão cerebral; Aneurisma Cerebral; Edema Cerebral;
Convulsões; Hematomas; Aumento da produção de líquor; Hemorragia intracraniana (VIANA, TORRE,
2017).
Os guidelines da Brain Trauma Foundation, publicados em 2016, recomendam que a PIC seja
monitorada em todos os casos de Traumatismo Cranioencefálico que permanecem com escore entre
3 e 8 na Escala de Coma de Glasgow e tomografia de crânio que contenha anormalidades, visto que o
TCE é uma lesão que provoca alterações no crânio, meninges, encéfalo ou vasos intracranianos,
podendo ocasionar, temporária ou permanentemente, comprometimento cognitivo ou funcional. A
abordagem do atendimento dependerá da gravidade do TCE e os critérios de indicação cirúrgica
incluem a localização, tamanho e volume da lesão, lesões associadas e quadro neurológico (BLENNOW
et al., 2016).
Uma alta proporção de sobreviventes de TCE grave requer reabilitação prolongada e pode sofrer
distúrbios físicos, cognitivos e psicológicos de longo prazo, podendo reduzir drasticamente a qualidade
de vida. Por outro lado, algumas consequências crônicas, a exemplo da síndrome pós-concussiva e da
encefalopatia crônica traumática, também foram identificadas numa proporção de casos previamente
classificados como moderados ou leves (VIEIRA et al., 2013).
Os profissionais buscam realizar seus cuidados com qualidade e excelência diante do paciente em uso
de DVE/PIC, contudo, ainda se faz presente a carência de protocolos assistenciais baseados em
evidências científicas (SAKAMOTO, 2018). Assim, o objetivo deste estudo é relatar através de um caso
clínico os cuidados de enfermagem na manipulação do cateter de DVE e PIC.
METODOLOGIA
Trata-se de um estudo observacional, descritivo, exploratório, do tipo estudo de caso. Realizado após
o consentimento do paciente e da instituição hospitalar. A coleta de dados foi realizada durante o
internamento do paciente na Unidade de Terapia Intensiva Neurológica (Neurointensiva) do Hospital
Memorial Arthur Ramos, localizado em Maceió, Alagoas, no período de abril a junho de 2017. Os dados
para os estudos foram obtidos através da assistência direta ao paciente: exame físico, cuidados de
enfermagem com a manipulação do sistema de DVE/PIC e levantamento das informações no
prontuário.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Paciente DBT, sexo masculino, 30 anos, estudante, solteiro, vítima de queda de moto sem capacete,
diagnóstico médico de TCE grave com contusões bifrontais. Foi abordado cirurgicamente para

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182
Cuidados De Enfermagem Na Manipulação Do Cateter De DVE E PIC Através Do Relato De Um Caso Clínico

drenagem de hematoma e colocação de DVE com cateter de PIC acoplado devido a evidência de
hidrocefalia.
Observa-se neste caso clínico o paciente vítima de TCE, essa patologia, por acometer, na maior parte
dos casos, a população com faixa etária ativa, e por ser considerado uma das principais causas de
morbimortalidade no país, sabe-se do impacto na saúde pública brasileira, havendo a necessidade de
buscar ações de conscientização que sejam efetivas na diminuição das causas mais frequentes de TCE:
os acidentes de trânsito (MAGALHÃES et al., 2017; GENTILE et al., 2011).
A gravidade do TCE pode ser classificada de acordo com os valores da Escala de Coma de Glasgow
(ECG), sendo considerado leve, quando de 13 a 15, moderado de 9 a 12 e grave quando ≤8 (REITH et
al, 2017). A ECG atribui pontos ao desempenho do paciente baseado em três fatores: na abertura dos
olhos (4 pontos), nas respostas verbais (5 pontos) e nas respostas motoras (6 pontos). A escala atinge
valores que variam de 3 a 15 pontos, sendo 3 correspondente a um estado de coma e 15 ao estado
normal de um paciente sem trauma ou sem déficits neurológicos (LESUR, NISHIDA, RODRIGUES, 2017).
Os cuidados de enfermagem realizados para esse paciente do estudo em virtude do sistema DVE/PIC
foram: cabeceira do leito elevada entre 30 a 45 graus; sistema DVE/PIC em um suporte exclusivo;
checagem do sistema a cada 6 horas; zerar o cateter de DVE no conduto auditivo externo, evitando o
tracionamento do mesmo, em caso de obstrução não desobstruir e/ou reposicionar; nivelar a DVE de
acordo com a orientação médica assistencial e neurocirúrgica; nunca aspirar ou ejetar solução no
cateter; não esquecer de abrir o cateter de DVE depois da realização de qualquer procedimento;
cuidados no esvaziamento da bolsa coletora da DVE; avaliação do aspecto e volume do débito;
realização do curativo; avaliação pupilar constante; aferição dos sinais vitais em 2/2 horas.
Um cuidado muito importante na mensuração da PIC é o posicionamento do paciente no leito. O
enfermeiro deve sempre verificar o correto posicionamento do transdutor de pressão, nivelado ao
forame de Monroe (localizado aproximadamente na altura do forame auricular interno). Quando o
paciente estiver em uso de sistema de DVE, deve-se mantê-lo com nível zero da bolsa de drenagem
fixado na altura do forame de Monroe e comunicar drenagem excessiva, anotando o volume, o aspecto
e a coloração do LCR. Caso o paciente se encontre em uso do sistema transdutor de pressão, é
necessário realizar a medida zero do sistema (VIANA, TORRE, 2017).
Após calibração do sistema, aguardar o registro no monitor da curva e do valor da PIC. Observam-se
os aspectos característicos da curva de PIC, o registro na tela do cálculo automático da PPC e as
alterações de curva no caso de complacência cerebral diminuída. Se a PIC se mantiver com valores
acima da normalidade e for monitorada em sistema de DVE, será necessário realizar a drenagem de

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Cuidados De Enfermagem Na Manipulação Do Cateter De DVE E PIC Através Do Relato De Um Caso Clínico

forma gradativa, abrindo o three-way para a bolsa coletora do sistema fechado para a via do transdutor
de pressão da PIC. É importante registrar o valor drenado e o aspecto do liquor, assim como
acompanhar a efetividade da intervenção (VIANA, TORRE, 2017).
Viana e Torre, 2017, reforçam ainda os cuidados essenciais como a garantia e fidedignidade das
informações de monitorização: Registro com calibrações periódicas; Checagem de todo o sistema nos
diferentes turnos; Manutenção das conexões do sistema de monitorização e drenagem firmemente
unidas; Realização de inspeção do sítio de inserção do cateter; Avaliação da presença de sinais
flogísticos; Troca de curativos a cada 24 horas com solução antisséptica; Cuidados com a mobilização
no leito; Controle de temperatura corporal; Monitorização hemodinâmica. Importante o enfermeiro
compreender o manuseio adequado dos dispositivos de monitorização da PIC, bem como capacitar
sua equipe sobre os cuidados e intervenções recomendadas.
CONCLUSÃO
A equipe de enfermagem manipula o cateter de DVE e PIC, assim, torna-se fundamental o
conhecimento técnico científico no cuidado desses dispositivos. A busca pela qualificação das práticas
assistenciais deve ser constante, almejando diminuir as taxas de infecção hospitalar e,
consequentemente, as taxas de mortalidade ou o tempo de permanência em leitos de cuidados
intensivos (SAKAMOTO, 2018).
As contribuições ou implicações para a Enfermagem deste estudo é a participação do profissional na
monitorização invasiva com cateter de PIC e DVE promovendo uma assistência segura, livre de erros,
focada no cuidado individualizado do paciente.

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Cuidados De Enfermagem Na Manipulação Do Cateter De DVE E PIC Através Do Relato De Um Caso Clínico

REFERÊNCIAS

BLENNOW, K., et al. Traumatic brain injuries. Nature Reviews Disease Primers, v. 17, n. 2, 2016.
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GRILLE, P., et al. Manejo del drenaje ventricular externo en la unidad de cuidados intensivos. Guía
práctica.RevMédUrug,v.23,n.1.p.505,2007.Disponívelem:<http://www.scielo.edu.uy/scielo.php?scrip
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LESUR, G.R.; NISHIDA, M.B.; RODRIGUES, J.M.S. Necessidade de tomografia computadorizada em


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MAGALHÃES, A.L.G., et al. Epidemiologia do traumatismo cranioencefálico no Brasil. Rev Bras Neurol,
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PIDEMIOLOGIA%20DO%20TRAUMATISMO%20CRANIOENCEF%C3%81LICO%20NO%20BRASIL>.Acess
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REITH, F.C.M., et al. Differential effects of the Glasgow Coma Scale Score and its components: an
analysis of 54,069 patients with traumatic brain injury. Injury, v. 48, n. 9, p.1932-43, 2017. Disponível
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SAKAMOTO, V.Y.M. Derivação ventricular externa: desenvolvimento de protocolo assistencial de


enfermagem direcionado ao paciente adulto. Dissertação (Mestrado)-Programa de Pós-Graduação em
Enfermagem, Fundação Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, 2018. Disponível
em: <http://repositorio.ufcspa.edu.br/jspui/handle/123456789/670>. Acesso em 01 de out. 2020.

VIANA, R.A.P.P.; TORRE, M. Enfermagem em Terapia Intensiva. Barueri, SP: Manole, 2017.

VIEIRA, R.C.A, et al . Quality of life of victims of traumatic brain injury six months after the trauma. Rev.
Latino-Am. Enfermagem, Ribeirão Preto , v. 21, n. 4, p. 868-875, ago. 2013 . Disponível em
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010411692013000400868&lng=pt&nrm=i
so>. Acesso em: em 06 out. 2020.

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185
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 24
10.37423/201002949

CICATRIZAÇÃO DE UMA LESÃO TUMORAL EM


UM PACIENTE IDOSO: ESTUDO DE CASO.

Elizabeth Moura Soares de Santos Universidade Federal de Enfermagem

Paulo Sergio Gomes da Silva Hospital Universitário Professor Alberto


Antunes

Linda Djeyme Santos Residencia Multiprofissional da Universidade


Federal de Alagoas

Marilinda Gonçalves da Silva Residencia Multiprofissional da Universidade


Federal de Alagoas
Cicatrização De Uma Lesão Tumoral Em Um Paciente Idoso: Relato De Caso

Resumo: Introdução: Estima-se cerca de 520 mil novos casos de câncer para 2012 e 2013. Entre os
pacientes com doença oncológica, cerca de 5% a 10% deles desenvolvem feridas, sobretudo em
pessoas com mais de 70 anos de idade, seja em decorrência de um tumor primário ou por
disseminação das células malignas. Com a formação da lesão, não ocorre apenas mais um agravo na
vida do idoso, pois, progressivamente, desfiguram o corpo, tornam-se dolorosas, secretivas, liberam
odor fétido e muitas vezes concorrem para mutilações; estas feridas afetam fatores psicológicos e
sociais, os quais podem interferir nas relações interpessoais com a equipe médica, os próprios
familiares e até o social. Objetivo: apresentar a evolução da cicatrização de uma ferida, utilizando
cobertura de Polihexametil-biguanida (PHMB) gel e Alginato de Cálcio. Casuística e Métodos: Paciente
idoso, 76 anos, com diagnóstico médico de tumor de partes moles na região dorsal. O mesmo foi
escolhido por estar sendo acompanhado pela comissão de pesquisa, prevenção e tratamento de
feridas, de um hospital público de alta complexidade Resultado: No decorrer do tratamento,
aproximadamente cinco meses, foi possível observar que a ferida evoluiu progressiva e
satisfatoriamente. As dimensões mostravam-se diminuídas, com bordas contraídas, presença de tecido
de granulação e epitelial em ascendência. Conclusão: Durante todo o tratamento, não foi observado
nenhum problema com a aplicação dos produtos. O tratamento de feridas recebe atenção especial da
equipe multiprofissional da área de saúde, destacando a atuação dos enfermeiros, que muito têm
contribuído para o avanço e sucesso do tratamento dos portadores de feridas.
Descritores – Cicatrização de feridas, Idoso, Enfermagem.

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187
Cicatrização De Uma Lesão Tumoral Em Um Paciente Idoso: Relato De Caso

INTRODUÇÃO

Câncer é o nome dado a um conjunto de mais de 100 doenças que têm em comum o crescimento
desordenado (maligno) de células que invadem os tecidos e órgãos, podendo espalhar-se (metástase)
para outras regiões do corpo. Dividindo-se rapidamente, estas células tendem a ser muito agressivas
e incontroláveis, determinando a formação de tumores (acúmulo de células cancerosas) ou neoplasias
malignas.¹
Estima-se cerca de 520 mil novos casos de câncer para 2012 e 2013. Em 2011, estudos apontaram sete
localizações da doença que entraram no ranking dos tumores mais frequentes do País, com destaque
para a bexiga, o ovário, o útero, a tireoide (nas mulheres), o sistema nervoso central, a laringe (nos
homens) e o linfoma não Hodgkin. Entre os pacientes com doença oncológica, cerca de 5% a 10% deles
desenvolvem feridas, sobretudo em pessoas com mais de 70 anos de idade, seja em decorrência de
um tumor primário ou por disseminação das células malignas2.
As feridas neoplásicas são formadas pela infiltração das células malignas do tumor nas estruturas da
pele. Ocorre quebra da integridade do tegumento e, em decorrência da proliferação celular
descontrolada que o processo de oncogênese induz, ocorre a formação de uma ferida evolutivamente
exofítica3.
Saber o comportamento da célula tumoral frente a um produto cicatrizante é um fato inexplorado,
mas intrigante à luz dos princípios da carcinogênese. Observa-se, na prática, que os pacientes
portadores destas feridas, sob tratamento pela radioterapia e quimioterapia, têm considerável
resposta à involução do processo desfigurante que elas ocasionam, fato que fala a favor da utilização
de produtos cicatrizantes. Mas, considerando que a recidiva do tumor pode ser consequência de uma
única célula alterada, questiona-se o uso dos produtos cicatrizantes, visto que eles induzem a divisão
celular para fins de reparação tecidual3.Os pacientes excluídos da fase de tratamento curativo, à
medida que o quadro clínico se agrava, caminham para o aumento progressivo da ferida neoplásica,
nesta fase a cicatrização da lesão não é a meta. Neste momento o objetivo é alcançar o controle da
secreção e do odor, sangramento, dor e prurido e a meta é o curativo confortável, funcional e
estético3.A oncologia tem tido grande evolução nas técnicas diagnósticas e terapêuticas, o que tem
possibilitado a sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes com câncer. Cabe à enfermagem
acompanhar o desenvolvimento dessa especialidade pelas investigações científicas, que são os
principais recursos para a atualização do conhecimento para o cuidado ao paciente oncológico 4. Este
desenvolvimento científico, na área do cuidado aos portadores de feridas, obteve-se uma ascensão
quanto aos produtos e métodos utilizados, sendo necessário uma seleção associada a um processo de

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Cicatrização De Uma Lesão Tumoral Em Um Paciente Idoso: Relato De Caso

avaliação crítico e contínuo, devendo atentar não apenas para a lesão em si, mas ter a sensibilidade
para planejar holisticamente o cuidado de modo a contemplar o ser humano em sua plenitude 5. Com
a formação da lesão, não ocorre apenas mais um agravo na vida do indivíduo, em especial do idoso,
pois, progressivamente, desfiguram o corpo, tornam- se friáveis, dolorosas, secretivas, liberam odor
fétido e muitas vezes concorrem para mutilações; estas feridas afetam fatores psicológicos e sociais,
os quais podem interferir nas relações interpessoais com a equipe médica, com os próprios familiares
e até o social6.
Neste sentido, os cuidados planejados devem fornecer além do alívio dos sintomas, um olhar de apoio,
atenção, zelo, carinho e que seja percebido não como uma pessoa que têm ferida neoplásica, mas
como um ser de possibilidades7.
Para a enfermagem, é desafiador prestar assistência a um paciente que possui feridas neoplásicas, pois
exige do profissional a utilização de estratégias que melhorem a qualidade de vida desse paciente, uma
vez que os aspectos sociais e psicológicos também estão envolvidos no tratamento. Desse modo, exige-
se um cuidado individual e ao mesmo tempo integrativo, capaz de inserir o paciente no processo e
torna-lo participativo no plano de cuidados. A partir dessa reflexão é relevante salientar a importância
do tratamento não só pautado na abordagem técnica e cientifica, mas também nas ações do processo
humanístico de valorização interpessoal entre o profissional e o paciente. Em relação aos cuidados de
enfermagem é imprescindível prover um atendimento individualizado e uma aproximação entre o
enfermeiro e esse paciente, como forma de identificar as necessidades afetadas e proporcionar melhor
qualidade de vida ao mesmo. Portanto, o objetivo desse relato é apresentar a evolução da cicatrização
de uma ferida tumoral em um paciente idoso, utilizando cobertura de Polihexametil-biguanida (PHMB)
gel e Alginato de Cálcio.
O trabalho foi realizado após submissão e aprovação do Comitê de Ética e Pesquisa da Universidade
Federal de Alagoas, com o número do CAAE: 58686816.6.0000.5013.
RELATO DE CASO
J.G.S, 76 anos, sexo masculino, agricultor, residente no município de São Luis do Quintude – AL, não
apresenta comorbidades. Nega HAS, DM, etilismo e tabagismo. Internado na clínica cirúrgica de um
Hospital Público de alta complexidade do Estado de Alagoas com tumoração cutânea em região dorsal
há cerca de 5 anos, diagnosticado com carcinoma basocelular que foi retirado cirurgicamente.
Após o aparecimento da ferida, ocorrido ainda durante a internação, o paciente idoso passou a ser
atendido pela comissão de feridas, que realizava diariamente o curativo. A ferida era avaliada segundo
os seguintes aspectos: tempo de lesão, dimensões (largura, altura e profundidade), característica da

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189
Cicatrização De Uma Lesão Tumoral Em Um Paciente Idoso: Relato De Caso

pele perilesional, do leito da ferida, a presença de exsudato, odor, também era observadas a presença
de dor durante o procedimento e a conduta realizada. Na primeira avaliação, ocorrida um dia após o
procedimento cirúrgico, o paciente apresentava ferida incisiva na região dorsal com dimensões 20 cm
X 14cm X 4cm, com bordas regulares e desniveladas, pele adjacente íntegra, leito com presença de
tecido de granulação com pontos de fibrina e pouca necrose, exsudato de coloração esverdeada em
grande quantidade, com odor forte e muito dolorosa ao toque (Figura 1). A conduta realizada no
curativo foi: limpeza, com solução fisiológica 0,9% no leito da ferida, seguida da aplicação da cobertura
de Polihexametileno-Biguanida (PHMB) gel e Placa de Alginato de cálcio (Figura 2) e limpeza na área
perilesional, com solução fisiológica 0,9%. A ferida foi ocluída com gaze estéril, atadura e esparadrapo.
Este procedimento foi realizado diariamente, durante 30 dias.
Após a troca do curativo, foram realizadas orientações fundamentais para o sucesso do tratamento,
como: repouso, higiene, proteção contra traumas em relação a área da lesão, observância da dieta
recomendada e do uso sistemático da terapêutica medicamentosa para reduzir o risco de infecção.

Figura 1 – Ferida na primeira avaliação, presença de tecido de granulação, esfacelo e ponto de


necrose.
Fonte: Arquivo pessoal do autor (2016).

Figura 2 – Ferida na primeira avaliação com a cobertura de escolha:


Polihexametil-biguanida (PHMB) gel e Alginato de Cálcio.
Fonte: Arquivo pessoal do autor (2016).
Na avaliação seguinte, realizada 1 mês após o procedimento cirúrgico, a ferida apresentava bordas
regulares e desniveladas, área perilesional íntegra, o leito da ferida com presença de tecido de

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Cicatrização De Uma Lesão Tumoral Em Um Paciente Idoso: Relato De Caso

granulação em toda sua extensão, permanecendo o crescimento de biofilme na porção central, áreas
laterais com tecido de granulação mais avivado, exsudato esverdeado em grande quantidade e
diminuição do odor, expressão de dor discreta durante a realização do curativo (Figura 3). A conduta
foi a mesma descrita anteriormente.
O paciente foi questionado a respeito das orientações realizadas, e o mesmo referiu estar seguindo
corretamente o que lhe foi passado. Todas as orientações de cuidados com a lesão e com o bem estar
do paciente foram reforçadas e as dúvidas esclarecidas.

Figura 3 – Ferida com presença de tecido de granulação, biofilme, redução do odor e da dor.
Fonte: Arquivo pessoal do autor (2016).
Na avaliação seguinte, realizada 40 dias após o procedimento cirúrgico, a lesão apresentava bordas
regulares em progressiva contração e pele perilesional íntegra, com tecido de granulação recobrindo
totalmente o leito da lesão e biofilme na porção lateral, com presença de exsudato esverdeado e odor
moderado. Foi realizado curativo como descrito anteriormente, a conduta portanto, se mantinha.
Observada evolução satisfatória da ferida (figura 4). Neste momento, o idoso não mais se queixou de
dor e recebeu alta hospitalar, sendo orientado o retorno para o acompanhamento, duas vezes por
semana.

Figura 4 – Ferida com presença de tecido de granulação, biofilme, diminuição do odor, ausência de
dor.
Fonte: Arquivo pessoal do autor (2016).

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191
Cicatrização De Uma Lesão Tumoral Em Um Paciente Idoso: Relato De Caso

Na avaliação seguinte, 3 meses após o procedimento cirúrgico, a ferida media 10,5 cm x 8,5 x 0,0 cm,
apresentava bordas irregulares, pele perilesional íntegra com presença de tecido epitelial. No leito da
lesão há a presença de tecido de granulação(hipergranulação) e alguns pontos de biofilme. Presença
de exsudato esverdeado, sem odor, e sem queixa de dor (figura 5). O desbridamento autólico da
fibrina e do biofilme provocado pelo PHMB gel avançava progressivamente, sem provocar
desconfortos ao paciente.

Figura 5 – Ferida com tecido de granulação, alguns pontos com biofilme e tecido de epitelização.
Fonte: Arquivo pessoal do autor (2016).
Finalmente, após cinco meses (Figura 6), embora a cicatrização não estivesse totalmente concluída,
apresentava progressão satisfatória evidente. A ferida encontrava- se medindo apenas 3 cm de
comprimento e 2 cm de largura, com bordas irregulares e pele perilesional com presença de tecido de
epitelização e com um processo de contração e neoformação tecidual adequado, favorecendo a
cicatrização da mesma. No leito da lesão havia a presença de tecido de granulação em toda extensão,
com ausência de exsudato e odor. O idoso mantinha-se sem dor.
A conduta realizada no curativo foi: limpeza, com solução fisiológica 0,9% no leito da ferida, seguida
da aplicação da cobertura de Polihexametileno-Biguanida (PHMB) gel e limpeza na área perilesional,
com solução fisiológica 0,9%. A ferida foi ocluída com gaze estéril, atadura e esparadrapo.
Orientações foram realizadas acerca dos cuidados com a cicatriz para a prevenção de trauma, bem
como sobre a higienização e alimentação recomendada.

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Cicatrização De Uma Lesão Tumoral Em Um Paciente Idoso: Relato De Caso

Figura 6 – Ferida com tecido de granulação, tecido de epitelização, sem odor e dor.
Fonte: Arquivo pessoal do autor (2016).
No decorrer do tratamento, foi possível observar que a lesão apresentava evolução progressiva e
satisfatória. As dimensões da ferida mostravam-se diminuídas, com bordas contraídas, tecido de
granulação e epitelial em ascendência. Durante todo o tratamento, não foi observado nenhum
problema com a aplicação dos produtos. A dor referenciada pelo paciente no início do tratamento foi
desaparecendo progressivamente, assim como o odor e o nível de exsudato. É de grande importância
ainda, mencionar que o seguimento das orientações ofertadas ao paciente foram de extrema
relevância para o sucesso do tratamento.
CONCLUSÃO
Foi possível observar a melhora progressiva da lesão, trazendo para o grupo de pesquisadores
reflexões de como tratar o portador de lesão, considerando todas as dimensões do cuidar, bem como
de buscar alternativas de tratamento através de estudos que investiguem as respostas às coberturas.
Apesar da obtenção de um ótimo resultado com a utilização desses produtos, o estudo não é suficiente
para atestar as generalizações da eficiência dessas coberturas, mesmo que não tenha sido evidenciada
nenhuma complicação nesse caso estudado.
O tratamento de feridas recebe atenção especial da equipe multiprofissional da área da saúde,
destacando a atuação dos enfermeiros, que muito têm contribuído para o sucesso do tratamento dos
portadores de lesão. A evolução positiva de lesões contribui para uma visível assistência de
enfermagem qualificada, que além de fortalecer o vínculo entre profissional e paciente, favorece a
autoestima do mesmo. Fator esse, relevante na vida social e pessoal do sujeito.

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193
Cicatrização De Uma Lesão Tumoral Em Um Paciente Idoso: Relato De Caso

REFERÊNCIAS

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194
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 25
10.37423/201002991

TÉCNICA DE PREENCHIMENTO POR VINILITE EM


ARTÉRIAS CORONÁRIAS CADAVÉRICAS DO
LABORATÓRIO DE ANATOMIA DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DO AMAZONAS - UFAM

VIVIANE SANTOS FERREIRA UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS

QUELLY CHRISTINA FRANÇA ALVES SCHIAVE UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS

JOÃO GABRIEL LINHARES PULNER UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS

KLEBER PRADO LIBERAL RODRIGUES UNIVERSIDADE FEDERAL DO AMAZONAS


Técnica De Preenchimento Por Vinilite Em Artérias Coronárias Cadavéricas Do Laboratório De Anatomia Da Universidade Federal
Do Amazonas - UFAM

Resumo: Tendo em vista a importância do estudo das artérias coronárias no meio científico-
acadêmico, é imprescindível sua devida preservação e conservação para viabilizar a análise das peças
anatômicas como metodologia de ensino nos cursos da área da saúde. Nesse contexto, o acetato de
vinila tem se apresentado com grande aceitação por parte dos anatomistas, por possuir alta resistência
e durabilidade, manter a angioestrutura e permitir evidenciar estruturas internas de órgãos como os
de sistemas vasculares. O presente estudo observacional, foi motivado a partir da dificuldade na
obtenção de informações pormenorizadas acerca da técnica de vinilite, com o objetivo de sistematizar
seu processo de moldagem para estudo da anatomia das artérias coronárias em corações de cadáveres
presentes no laboratório de Anatomia Humana da Universidade Federal do Amazonas. Dessa forma, o
estudo, focado na anatomia coronariana, atesta o acetato de vinila como técnica de melhor custo
benefício, maior aproveitamento e segurança para o estudo da anatomia topográfica dos vasos.

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Técnica De Preenchimento Por Vinilite Em Artérias Coronárias Cadavéricas Do Laboratório De Anatomia Da Universidade Federal
Do Amazonas - UFAM

1.INTRODUÇÃO

As artérias e veias coronárias compreendem os vasos responsáveis pela manutenção do adequado


funcionamento do coração, por meio da irrigação do miocárdio e o epicárdio (29). O estudo morfológico
das artérias coronárias é de grande interesse por parte da anatomia, radiologia e cardiologia, devido
ao reconhecimento de uma extensa variabilidade em sua distribuição, bem como as correlações
anatomoclínicas decorrentes de tal variação (19).
A anatomia das artérias coronárias aceita como padrão, é descrita a partir de seu tronco que se origina
dos respectivos seios aórticos anteriores direito e esquerdo. A partir desse ponto, a artéria coronária
direita (ACD), emite um ramo do nó sinoatrial e segue no sulco coronário emitindo o ramo marginal
direito, que irriga a margem direita do coração, enquanto segue em direção ao ápice do órgão. A ACD
após emitir esse ramo se dirige em direção à esquerda e continua no sulco coronário até a face
posterior do coração, chegando na região denominada crux cordis, ponto de encontro entre os quatro
sulcos da região posterior do coração.
Na face anterior desse ponto, a ACD origina o ramo do nó atrioventricular e prossegue até o ponto de
origem da artéria interventricular posterior, presente em 75% dos casos, sendo denominado padrão
de dominância direita. A artéria interventricular posterior se origina da artéria coronária esquerda
(ACE). A ACE se apresenta como um pequeno tronco que percorre o espaço delimitado pelo tronco
pulmonar e aurícula esquerda até atingir o sulco coronário, onde se bifurca em artérias
interventriculares anterior e circunflexa, sendo responsáveis pela irrigação da maior parte do
ventrículo esquerdo anteriormente (17, 29, 36).
Segundo Moore (2014), os óstios das artérias coronárias direita e esquerda se localizam na
centralidade da cúspide da valva aórtica de lado respectivo (29).Qualquer alteração nesse padrão, seja
na posição do óstio coronariano, bem como diâmetro da artéria e padrões de ramificação e trajeto,
pode afetar diretamente as características hemodinâmicas, o que representa um maior risco a
desenvolver cardiopatias e sintomas clínicos relevantes (9, 23).
Angelini et al. (2007) classificou como anomalias de origem das artérias coronárias aquelas cujos óstios
se encontram em localização anômala (2). Apesar de raras, encontradas em menos de 1% da população,
essas anomalias são apontadas como as principais definidoras de fatores prognósticos (2, 21, 32). A
origem de artéria coronária em seio aórtico oposto é estimada de 0,03 a 0,17%, sendo mais
comumente representada pela ACD que emerge do seio aórtico esquerdo, outros menos comuns são:
origem alta, artéria coronária única, ausência de tronco coronariano esquerdo e óstio coronariano fora
do seio aórtico (5, 27, 30).

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Técnica De Preenchimento Por Vinilite Em Artérias Coronárias Cadavéricas Do Laboratório De Anatomia Da Universidade Federal
Do Amazonas - UFAM

Ainda em 1904, a partir de estudos acerca de anatomia e fisiologia cardíaca, Banchi (4) reconheceu a
importância de identificar as variações das artérias coronárias e correlacioná-las às suas consequências
hemodinâmicas (4, 19). O conhecimento do padrão anatômico e a identificação de anomalias são
imprescindíveis para a determinação de riscos patológicos, correta interpretação de exames
imaginológicos e o devido sucesso dos procedimentos de revascularização (1, 5, 23, 40).
As primeiras descrições relacionadas ao estudo das artérias coronárias são datadas de 1706, por
Raymond Vieussens (20) e, desde então, técnicas de conservação cada vez mais eficazes têm viabilizado
o estudo morfológico da vascularização cardíaca (23, 32). O objetivo dos métodos de conservação é
manter a morfologia e as características intrínsecas da peça,como coloração, flexibilidade e
consistência, semelhantes às estruturas in situ (14, 23).
A formalização (uso do formaldeído) na concentração de 5-20% como fixador e conservador, é o
método mais utilizado atualmente (14), apesar das desvantagens e nocividade do produto, tais como
irritação das mucosas, cefaleia, sonolência, náusea e irritação cutânea por contato frequente e
exposição prolongada (7, 8, 39), aumento do risco de câncer de nasofaringe e cérebro (27), além de seu
efeito mutagênico e teratogênico (8, 11, 35) . Em alternativa ao uso do formaldeído, técnicas como
diafanização, corrosão, injeção de substâncias radiopacas, corantes ou mercuriais também são eficazes
na conservação de peças anatômicas (11, 20, 24, 34).
O acetato de vinila, também conhecido como vinilite ou vinil, é um polímero incolor encontrado na
forma de líquido ou pó, cuja preparação necessita de um catalisador ou diluente, como a acetona, para
sua devida solidificação (41). A técnica promove a corrosão do tecido orgânico, mantendo sua estrutura
inalterada e evidencia sistemas vasculares de modo resistente e de alta durabilidade, pois, apesar de
não possuir resistência mecânica de estiramento, é resistente à pressão, absorvendo choques, o que
pode ser benéfico a longo prazo com o frequente manuseio da peça em laboratório (13, 28, 33, 34).
No que concerne a angioarquitetura, a técnica de vinilite apresenta ótima qualidade e aplicabilidade,
por não alterar a espessura e não causar retração ou dilatação dos vasos, pois, a partir de sua
adaptação, percorre todo o sistema circulatório (25, 32, 33). Segundo Rodrigues (1998), a administração
da injeção de acetato de vinila propicia uma excelente otimização dos estudos angiológicos, sendo de
suma relevância para pesquisas científicas e exposição de aulas (33), o que contribui para a melhor
compreensão da morfologia das artérias coronárias (33, 34, 35).
No Laboratório de Anatomia Humana (LAH) da UFAM, há um notório déficit no número de peças
destinadas ao ensino das artérias coronárias e muitas delas encontram-se em estado de conservação
precário, o que prejudica a qualidade do aprendizado dos alunos. Por conseguinte, torna-se necessário

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Técnica De Preenchimento Por Vinilite Em Artérias Coronárias Cadavéricas Do Laboratório De Anatomia Da Universidade Federal
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o desenvolvimento de um material didático, de fácil manuseio, seguro e que possibilite o


entendimento e as relações anatômicas de diversas estruturas (15, 16, 30, 31, 38).
Para obter êxito no estudo anatômico, principalmente nas artérias do coração, o acetato de vinila, ou
vinilite, é ótima alternativa para o uso do formol, pois é financeiramente mais acessível, de fácil
manipulação, possibilita ambiente menos insalubre e mais confortável para o processo ensino-
aprendizagem e permite peças anatômicas de qualidade superior comparadas às resultantes da fixação
com formaldeído, que serão incorporadas ao acervo do LAH-UFAM, para uso e benefício da
comunidade acadêmica. Como pode ser aplicado em vasos sanguíneos, linfáticos e biliares, vias
urinárias, reprodutoras e brônquios, permite o entendimento amplo e tridimensional dessas
estruturas (14, 18, 38) .
A dificuldade na obtenção de informações pormenorizadas sobre detalhes da técnica de vinilite nos
estudos de moldes vasculares motivou a presente investigação, com o objetivo de sistematizar a
técnica de moldagem com vinil para estudo da anatomia das artérias coronárias. Ademais, é
imprescindível que os alunos dos cursos da saúde, sobretudo da Medicina, tenham um bom
conhecimento das artérias coronárias, pois assim, estarão aptos a correlacionar os achados anatômicos
e fisiológicos aos processos patológicos (10, 12, 31) . A partir deste estudo, visa-se angariar técnicas atuais,
de melhor custo benefício e segurança para fins científico-acadêmicos, que melhorem a qualidade de
ensino da Anatomia Topográfica na Universidade Federal do Amazonas.
2.METOLOGIA
O estudo observacional foi realizado em um coração de cadáver presente no laboratório de Anatomia
Humana da Universidade Federal do Amazonas. Para a execução do estudo, primeiramente, cumpriu-
se a Lei n. 8.501/92 (6). Baseado nessa Lei e respeitando o cadáver como um objeto para estudo e
pesquisa, a coleta de dados pelos pesquisadores iniciou-se após a aprovação pelo Comitê de Ética e
Pesquisa – CEP, sob o CAAE: 13498519.4.0000.5020.
A primeira etapa da pesquisa compreendeu o registro fotográfico da estrutura anatômica e, em
seguida, foram realizadas as medidas topográficas das artérias e suas relações com outras estruturas,
tendo como base, livros e atlas de anatomia, utilizando uma régua flexível de 20 cm.
Para facilitar a administração da técnica de conservação, com o auxilio de um bisturi, abriu-se um
retângulo de medidas 5 cm x 2 cm na região proximal anterior da artéria aorta, que proporcionou
completa visualização das cúspides aórticas, além de facilitar a identificação dos óstios coronários.
A peça foi colocada em álcool a 80% por 24 horas e em seguida mantida durante 12 horas sobre a mesa
de dissecção, para que as substâncias conservantes voláteis em que foi submersa previamente

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Técnica De Preenchimento Por Vinilite Em Artérias Coronárias Cadavéricas Do Laboratório De Anatomia Da Universidade Federal
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pudessem evaporar. Após esse processo, com o coração devidamente seco, foi aplicada a técnica de
preenchimento com vinil.
Para a fixação foi produzida uma corrente de ar contínua na vascularização do coração por um tubo de
silicone a partir dos óstios coronários. O acetato de vinila em pó foi preparado por diluição com a
acetona e agitado até atingir um aspecto viscoso, sendo posteriormente injetado com o auxilio de uma
seringa no tronco vascular até preencher completamente as artérias coronárias e seus ramos.
O coração foi mantido na capela de exaustão por 48 horas, visando garantir a completa secagem do
material no interior dos vasos. Após esse período, verificou-se quais ramos não haviam sido
preenchidos por completo pela vinilite, quando, com o uso de uma seringa e agulha, buscou-se
aprimorar a integralidade do preenchimento.
Após essa etapa, a peça retornou à submersão em água por 24 horas, para auxiliar na solidificação do
vinilite. Posteriormente, seguiu-se uma pré- lavagem para retirar todo o material desnecessário,
quando se evidenciou um sistema vascular mais íntegro.
Durante 24 horas, a peça anatômica foi alojada na capela de exaustão de gases para que secasse, de
modo a permitir a pintura das estruturas pretendidas. Para que as artérias coronárias e seus ramos
fossem ainda mais ressaltados, o processo de pintura iniciou-se com a aplicação de 3 camadas
subsequentes de tinta acrílica branca e posteriormente, a peça retornou à capela, onde se aguardou a
secagem por 24 horas.
Após esse período, o coração foi submerso em água onde se manteve durante 3 meses para a devida
hidratação das estruturas orgânicas que não receberam a aplicação da técnica de conservação.
Passados 90 dias, a peça recebeu uma demão de tinta acrílica vermelha e, em seguida, colocada na
capela de exaustão de gases, onde ficou por 1 semana. Após esse período, a peça foi analisada por
completo com o intuito de se verificar a eficácia da técnica.
3.RESULTADOS
O reconhecimento do coração cadavérico e estruturas anatômicas cardíacas podem ser observadas
nas Imagens 1 e 2. Nota-se que, devido a presença do pericárdio, fina membrana serosa que envolve
externamente o coração (apontado pela seta na Imagem 2), não é possível identificar com clareza e
precisão os limites e trajetos pertencentes às artérias coronárias e seus ramos. O que apontou para a
necessidade de se remover a membrana previamente à administração do vinilite.

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Técnica De Preenchimento Por Vinilite Em Artérias Coronárias Cadavéricas Do Laboratório De Anatomia Da Universidade Federal
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Imagem1:Representação das estruturas Imagem 2: Representação das estruturas


anatômicas-Face Esternocostal Cardíaca anatômicas - Face Diafragmática (Posterior)
(Anterior) Fonte: Arquivo Pessoal
Fonte: Arquivo Pessoal

A partir da abertura na região proximal anterior da artéria aorta, os pesquisadores identificaram o óstio
coronário esquerdo – apontado na Imagem 3 - localizado na centralidade da cúspide esquerda da
válvula aórtica, o que segue as literaturas vigentes acerca da anatomia convencional (29). Observou-se
ainda que o óstio coronariano esquerdo encontrava-se a nível da linha intercomissural, que se refere
a uma linha imaginária que mede a distância entre as extremidades de uma mesma cúspide. Esse
achado corresponde à localização de 9 a 15% dos orifícios coronarianos esquerdo, segundo a literatura
(9).

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Imagem 3: Pinça apontando para o óstio da Imagem 4: Vista de cima do seio aórtico
artéria coronária esquerda seguindo o padrão destacando a variação anatômica
anatômico. Fonte: Arquivo Pessoal
Fonte: Arquivo Pessoal

Os pesquisadores encontraram considerável dificuldade em identificar o óstio da artéria coronária


direita, visto que esse não se encontrava em seu local anatômico – seio aórtico direito, centralizado à
cúspide direita da valva aórtica (29). Partindo do ponto de encontro das cúspides direita e esquerda
seguindo superiormente, localizou-se o óstio coronário direito, cuja dimensão é facilitada pela linha
tracejada apresentada na Imagem 4. Até o presente momento, não foram encontradas quaisquer
literaturas que reconhecem ou identifiquem o óstio coronário direito entre as cúspides direita e
esquerda da valva aórtica, o que representa um achado inédito e a importância científico- acadêmica
do estudo.
Para viabilizar uma melhor noção espacial da variação, o coração foi disposto conforme sua posição
anatômica (Imagem 5) e o orifício em questão foi apontado com o auxílio da pinça, o que expõe sua
posição mais anteriorizada, divergindo da anatomia elucidada anteriormente (9, 29, 40).

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Imagem 5: Posição anatômica do coração – Imagem 6: Vista anterior – Artérias Coronárias e


visão espacial da variação seus ramos em branco
Fonte: Arquivo Pessoal Fonte: Arquivo Pessoal
Com o auxílio de uma régua, mediu-se a altura do ponto de encontro das cúspides direita e esquerda
até o óstio coronário direito – linha tracejada visualizada na Imagem 4 – medindo 16 milímetros.
Conceitualmente, a origem do óstio coronariano é considerada alta quando o orifício se localiza mais
de 10 milímetros acima da junção sinotubular, transição entre os seios de valsalva - por onde emergem
os óstios coronarianos anatomicamente - e porção tubular da aorta ascendente. Assim, ao considerar
o ponto de emergência da artéria coronária direita a 16 milímetros da junção sinoatrial, depreende-se
que se trata de um óstio de origem alta. Tal variação corresponde a 0,1% de todas as anomalias
coronarianas e embora não repercuta clinicamente, pode dificultar o procedimento de cateterismo (3).
A partir do exposto, afirma-se que o presente estudo apresenta três variações anatômicas
consideráveis: 1) orifício coronariano direito localizado entre a cúspide esquerda e a cúspide direita da
valva aórtica; 2) origem alta do óstio coronariano direito, acima da linha intercomissural; 3) trajeto
anteriorizado da artéria coronária direita.
Através do orifício de entrada dos óstios coronários direito e esquerdo, realizou-se a administração da
técnica de conservação com vinilite a partir dos métodos descritos. Notou-se imediato ingurgitamento
dos vasos a medida que a substância percorria o trajeto arterial, o que ressaltou os ramos desde sua
emergência proximal à sua extremidade terminal. O intumescimento e vistosidade observados nas
artérias podem ser observados na imagem 5, sendo possível reconhecer o trajeto arterial, em
contraposição à imagem 1, que representa um período em que os vasos se apresentavam colabados.
Durante a aplicação da tinta acrílica branca, observou-se que a injeção prévia do acetato de vinila
favoreceu a pintura, pois ressaltou as estruturas vasculares e as enriqueceu, o que promoveu melhor

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superfície de pintura pela maior tração do pincel, em comparação à superfície umedecida e esponjosa
do tecido arterial habitual. O resultado após 3 camadas de tinta pode ser observado na imagem 6.
A peça retornou para a capela de exaustão de gases, onde foi mantida por 24 horas. Posteriormente,
foi submersa em água, onde se manteve durante 3 meses para a devida hidratação das estruturas
orgânicas que não receberam a aplicação da técnica de conservação. Após 90 dias, iniciou-se o
processo de pintura das artérias coronárias com tinta acrílica vermelha (imagens 7 e 8).

Imagem7:Vista anterior ampliada – Artérias Imagem 8: Vista ínfero posterior ampliada –


Coronárias e seus ramos em vermelho Artérias Coronárias e seus ramos em vermelho
Fonte: Arquivo Pessoal
Devido a base enrijecida proporcionada pelo material de conservação, notou-se novamente plena
facilidade no manuseio e aplicação da tinta vermelha, somado a isso, a base uniforme de tinta branca
garantida pelas 3 camadas favoreceram a aplicação de demão única. A pintura com tinta acrílica
vermelha ressaltou ainda mais o trajeto das artérias coronárias e seus ramos, que podem ser
identificados facilmente ao manuseio da peça, permitindo o aprendizado acessível do sistema arterial
coronariano por parte dos alunos.
A peça seguiu para a secagem na capela de exaustão de gases, onde ficou por 1 semana. Após esse
período, a peça foi analisada por completo, sendo confirmado que a técnica de injeção de vinilite
preencheu todo trajeto coronariano, o que ressaltou e facilitou a identificação dos ramos coronários,
desde sua emergência proximal à sua extremidade terminal. Verificou-se ainda que a pintura colorida
ocultou falhas e imperfeições, que o rigor mortis não trouxe retrações prejudiciais à peça quando
armazenada por tempo prolongado, bem como reafirmou a resistência da técnica empregada.
5.CONCLUSÃO
Durante o estudo da técnica de preenchimento de acetato de vinila em artérias coronárias, foi
confirmada a eficácia, qualidade e aplicabilidade do material, em consonância com a literatura (13, 25,

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28, 32, 33, 34). Baixo valor oneroso, fácil manipulação e maior biosustentabilidade, propiciam favorável
custo- benefício e permitem que a técnica se faça mais presente no LAH- UFAM. Somado a isso, em
comparação ao uso do formaldeído, a técnica se mostrou como uma alternativa menos insalubre,
frente à nocividade da formalização, tornando o processo ensino-aprendizado mais confortável e
seguro. Ademais, no que tange a angiotécnica, o polímero valorizou o sistema arterial coronariano de
forma satisfatória, o que otimiza os estudos angiológicos, além de instigar o aprendizado e interesse
do corpo discente.
Ressalta-se ainda que o presente estudo é de extrema relevância no meio científico- acadêmico, uma
vez que pode ser material para estudos comparativos com outros métodos de conservação em
laboratórios de outras universidades. Além disso, as variações anatômicas encontradas representam
achados raros e, até mesmo, inéditos, a julgar que as informações obtidas possuem valor ímpar para a
anatomia, radiologia e cardiologia, podendo contribuir para o aprimoramento de métodos
diagnósticos e no tratamento de diversos agravos clínicos decorrentes de tais variações in vivo.

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13
208
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 26
10.37423/201002993

ARTIGO DE REVISÃO: IMPLANTES HORMONAIS A


BASE DE GESTRINONA

Sonila Carvalho da Rocha Faculdade de Medicina de Minas - FAMINAS


BH

Cecília Paula Valadares Faculdade de Medicina de Minas - FAMINAS


BH

Letícia Maria Barbosa Pinto Faculdade de Medicina de Minas - FAMINAS


BH

Danyella Fernanda de Sá Oliveira Faculdade de Medicina de Minas - FAMINAS


BH

José Helvécio Kalil Médico ginecologista e obstetra

Gustavo Marques de Souza Safe Médico ginecologista e obstetra

Amanda Lopes Dias Coelho Médica ginecologista e obstetra

Felipe Pueyo Magalhães Faculdade de Medicina de Minas - FAMINAS


BH
Implantes Hormonais A Base De Gestrinona

Resumo: Os implantes hormonais são intitulados na mídia como “chips da beleza”, razão pela qual
discutiremos sobre esse termo demasiadamente polêmico. No Brasil, os implantes despontaram
através do Dr. Elsimar Coutinho junto ao Laboratorio Elmeco, que realiza a sua manipulação e vem
fornecendo os hormônios, principalmente, a Gestrinona, administrada de acordo com a necessidade
de cada paciente.
Discutiremos os principais públicos alvos, os pontos positivos e negativos desses implantes, assim
como as outras formas disponíveis da Gestrinona no mercado, como a de uso vaginal. Devido aos
implantes hormonais, no geral, não possuirem aprovação da ANVISA, órgão que regulamenta o
laboratório, procuramos mostrar o posicionamento da FEBRASGO sobre a manipulação de hormônios.
O objetivo principal do artigo é trazer conhecimento ao público alvo para que tenham capacidade de
questionar e analisar a viabilidade dos implantes hormonais para os diferentes tipos de paciente diante
do seu custo beneficio.
Palavras Chaves: Implantes hormonais subcutâneos; gestrinona; chip da beleza; tratamento da
endometriose; terapia de reposição.

1
210
Implantes Hormonais A Base De Gestrinona

1.INTRODUÇÃO

Os Chips podem ser definidos, de acordo com a língua portuguesa, como um circuito eletrônico
miniaturizado construído sobre uma fina superfície, que contém materiais semi condutores e outros
tipos de componentes. Há muitos anos, já se esperava a utilização dos chips para substituir algumas
funções específicas de determinados objetos. Na medicina eles já foram adotados por meio da
implantação subcutânea com o objetivo de regular a liberação de hormônios. No entanto, os
funcionamentos desses chips, que eram influenciados por aparelhos de telefone, devido a facilidade
de manuseio, trouxeram diversos problemas, visto que as doses eram modificadas facilmente pelos
usuários, podendo gerar uma super dosagem hormonal. Hoje, temos disponível no mercado o Chip da
Beleza, termo que é usado de forma errônea, isso porque ele não é um chip, mas na verdade um tubo
de silicone com cerca de 3 à 5 centímetros, que é implantado de forma subcutânea, mas devido aos
seus efeitos off-label ficou conhecido como Chip da Beleza.
As mídias sociais impulsionaram ainda mais a busca das mulheres pelo padrão de beleza ideal dos anos
2000, estas sonhavam com um corpo magro e longilíneo. Atualmente, desejam baixo percentual de
gordura e ganho de massa magra. É importante ressaltar que, após os 40 anos, as mulheres sofrem
alterações hormonais, as quais desencadeiam inúmeros processos em seus organismos, como a
redução da massa magra, perda de energia e diminuição da libido. Diante dessas alterações, as
mulheres almejam cada vez mais soluções para reduzir esses efeitos, sendo portanto, os implantes
hormonais uma das alternativas adotadas por elas.
A Elmeco foi fundada na Bahia em 1993 com o objetivo de investigar o desenvolvimento e a produção
dos implantes hormonais subcutâneos criados pelo Dr. Elsimar Coutinho. Hoje, ela atende
indiretamente cerca de 35 mil pessoas, conta com uma rede de 400 médicos associados e produz em
seu próprio laboratório de manipulação mais de 200 mil unidades de implantes por ano, sendo eles o
Etradiol, Testosterona,Gestrinona, Nestorone, Levonorgestrel e Acetato de Nomegestrol¹.
Foi utilizada a plataforma Scielo, juntamente com os sites da Febrasgo, Elmeco e o Jornal of
Reproductive Medicine & Infertility com os descritores: Implantes hormonais subcutâneos,
gestrinona, chip da beleza, tratamento da endometriose, terapia de reposição. Incluiu-se artigos
escritos em língua portuguesa e inglesa. Foram excluídos artigos e publicações que não abrangiam
sobre a reposição hormonal com gestrinona e o posicionamento da Febrasgo.

2
211
Implantes Hormonais A Base De Gestrinona

3.DISCUSSÃO
3.1HORMÔNIOS
O estrógeno possui muitos benefícios como alívio de sintomas vasomotores e sudorese da
menopausa, prevenção de doenças crônicas, manutenção da massa óssea, prevenção de fraturas,
melhora de sintomas urogenitais como bexiga hiperativa, incontinencia urinária, infecção recorrente
do trato urinário, atrofia vaginal, além de reduzir risco de câncer cólon. Porém, em doses muito altas
podem ocasionar dor nas mamas, ganho de peso, inchaço ou até mesmo dificultar a gravidez.²
A progesterona, por si, reduz o risco de câncer de cólon e mama, restaura a libido normal, promove
manutenção da massa óssea, facilita ação de hormônios tireoidianos, auxilia na perda de peso e
melhora os sintomas pré-menstruais. A associação estroprogestativa confere proteção endometrial,
porém o estrógeno sem oposição da progesterona induz estímulo endometrial, aumentando risco de
câncer e hiperplasia do mesmo. Além disso, aumenta também o risco detromboembolismo.2
O androgênio exerce diversas funções importantes no organismo feminino e, ao sofrerem redução da
produção ou ação em decorrência do envelhecimento, afetam a libido, reduzem a massa óssea,
energia, humor, geram sintomas vasomotores (fogacho ou ondas de calor), diminuem a lubrificação
genital e produção de muco. É importante ressaltar também os efeitos da baixa concentração de
androgênio sobre a diminuição da massa magra em decorrência da diminuição do metabolismo basal
e de gasto energético, ocasionando um conjunto de fatores que alteram a qualidade de vida da
mulher.²
2.METABOLISMO DA GESTRINONA
A Gestrinona, um dos principais hormônios adotados na formulação dos chips hormonais, ao ser
implantada subcutânea, sofre efeito de primeira passagem hepática. Com isso, grande parte do
fármaco vai para a circulação porta, onde se torna susceptível a metabolização hepática,reduzindo sua
biodisponibilidade.
Apesar de a principal indicação ser o tratamento para a Endometriose, Mioma e Adenomiose, existem
outros inúmeros benefícios associados ao uso da Gestrinona diante aos seus efeitos androgênicos,
anti- estrogênico e anti-progesterona que, ao bloquear os hormônios femininos, aumentam a libido,
inibem a menstruação, impedem a concepção, diminui drasticamente os efeitos da TPM, além de
proporcionar efeitos estéticos positivos como diminuição da gordura corporal, celulite e aumento de
massa magra. Devido a esses efeitos, é banido o seu uso para atletas por ser considerado doping. É
importante ressaltar que, assim como todo método hormonal, ele possui efeitos colaterais, como
surgimento de acne, queda de cabelo, aumento da oleosidade e piora do perfil lipídico. 3

3
212
Implantes Hormonais A Base De Gestrinona

A Gestrinona foi utilizada, primeiramente, por via oral, porém apresentou muitos efeitos adversos –
principalmente os efeitos androgênicos - a via vaginal começou a ser estudada, sendo uma alternativa
para diminuir esses efeitos, isso porque ela apresenta a primeira passagem uterina, o esteroide
aplicado na mucosa vaginal circula diretamente da veia para a artéria, atingindo órgãos-alvo pélvicos
em grandes concentrações e com reduzida circulação sistêmica.4 Estudos compararam a eficácia da
substância por via vaginal em relação a via oral, porém com níveis séricos 10 vezes inferior e redução
dos efeitos adversos androgênicos. Outros estudos demonstram o uso da Gestrinona com o
Pentravan® - biolipídeo que aumenta a permeação cutânea de hormônio e fármacos- por via vaginal,
associada ao uso oral de Resveratrol e foram obtidos resultados significantes, pois além da
amenorréia, houve redução dos efeitos androgênicos, da dor pélvica e das lesões endometrióticas. 4,5
3.POSICIONAMENTO DA FEBRASGO
Tendo em vista que não há estudos comprobatórios a respeito de sua eficácia publicados na literatura
médica e a não aprovação pelo órgão regulador ANVISA, a FEBRASGO não recomenda o uso de
implantes subcutâneos compostos por outros hormônios que não sejam o de etonogestrel. Esse
posicionamento da FEBRASGO é justificado também pelo fato de substâncias manipuladas não terem
um controle de qualidade efetivo.6 A Sociedade Americana de Menopausa (NAMS), no ano de 2017,
emitiu, em sua última declaração sobre medicamentos manipulados, o que segue:
"O hormônio manipulado apresenta problemas de segurança, como regulamentação e
monitoramento governamentais mínimos, superdosagem ou subdosagem,presença de impurezas ou
falta de esterilidade, falta de eficácia científica e dados de segurança, e falta de um rótulo descrevendo
os riscos!".
Portanto, apesar do posicionamento da FEBRASGO contra os implantes em termos de eficácia, existem
estudos cientificos que comprovam a eficácia da Gestrinona no tratamento da Endometriose e do
Mioma.
De acordo com um estudo realizado sobre o Tratamento de endometriose com gestrinona: estudo
clínico prospectivo / Treatment of endometriosis with gestrinone: a prospective clinical study, foi
possível constatar que, segundo a pesquisa disponível pela BIREME:
“Vinte pacientes com diagnóstico prévio de endometriose, feito por laparoscopia ou laparotomia,
foram tratadas com gestrinona. A dose usada foi de 2,5 mg três vezes por semana, durante seis meses.
Todas as pacientes realizaram laparoscopia pós-tratamento. Os casos foram de endometriose estádio
I (15), estádio II (1) e estádio III (4). Foi obtida amenorréia em todos os casos, com taxas acumuladas
de ocorrência de "manchas" em 55 por cento. As principais queixas foram acne e seborréia e observou-

4
213
Implantes Hormonais A Base De Gestrinona

se um aumento médio de peso de 4,2 Kg durante o tratamento. De 13 pacientes que referiram dor
pélvica, todas apresentaram ausência de sintomas após o segundo mês de tratamento. Houve melhora
ou cura das lesöes endometrióides em 80 por cento dos casos. A gestrinona mostrou bons efeitos na
melhora da dor pélvica e sobre as lesöes endometrióide, com efeitos colaterais suportáveis”
4.CONCLUSÃO
Como tudo em Medicina gira em torno do bom senso e individualização de cada caso, faz-se necessário
realizar uma boa anamnese, um bom exame físico e exames de sangue e saliva para dosagem
hormonal, com a finalidade de analisar os fatores de risco relacionados a Implantação do “Chip”.
Existem contra indicações do implante para pacientes que apresentam diabetes, hipertensão, doenças
cardíacas e problemas com colesterol, que podem ser agravadas com a medicação, faltando estudos
que elucidem melhor os benefícios e malefícios com relação aos implantes hormonais de gestrinona.7
Os beneficios, como já citado, são inúmeros e vão além do tratamento de Endometriose, Mioma e
Adenomiose, trazendo também diversos efeitos estéticos, possibilitam reposição hormonal quando
indicado, contracepção e interrupção da menstruação. Os malefícios envolvem o aumento de pêlos,
acne, oleosidade, mudanças hepáticas, queda de cabelo, engrossamento da voz e aumento do clitóris.
Outro ponto a ser analisado é o custo benefício. A via vaginal é uma via alternativa, pois apresenta
metade do custo da via subcutânea. Além disso, essa via gera menos efeitos adversos, pois sua ação é
local e não ocorre a segunda passagem hepática como nos medicamentos administrados via oral. Ou
seja, a via vaginal possui os mesmos benefícios pela metade do preço, no entanto, deixando a desejar
quanto a comodidade para a paciente, uma vez que deve ser introduzida 3 vezes por semana,
enquanto a via subcutânea dura 1 ano.
É importante ressaltar durante a consulta as necessidades estéticas e ginecológicas de cada paciente.
Abordar se ela optou pelo implante devido ás necessidades estéticas, ou se está aproveitando as
necessidades ginecológicas para obter os efeitos estéticos.
Portanto, para colocação do implante é preciso avaliar o que a paciente deseja. Se ela optar pelo
implante, devemos analisar, em segundo lugar, se ela pode implantar o objeto, através da realização
de exames, análise de riscos de câncer e história familiar. Se ela estiver apta deve-se analisar se ela
consegue arcar com o procedimento, desde o seu custo até os efeitos adversos resultantes da
implantação dos “Chips”.

5
214
Implantes Hormonais A Base De Gestrinona

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implante-de- gestrinona?highlight=WyJnZXN0 cmlub25hIl0=

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de Ginecologia e Obstetrícia(FEBRASGO) [homepage na internet]. 2017, Nov. [citado em: 06 de Mar.
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para-ficar-em-forma- preocupa- medicos?highlight=WyJnZXN0c mlub25hIl0=

6
215
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 27
10.37423/201003005

O PROCESSO DE REFORMA PSIQUIÁTRICA NA


REGIÃO DO SERIDÓ-RN: DO MODO MANICOMIAL
À CONSTRUÇÃO DO MODO PSICOSSOCIAL

Dulcian Medeiros de Azevedo Universidade do Estado do Rio Grande do


Norte

João de Deus de Araújo Filho Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Andreza Maria de Oliveira Prefeitura Municipal de Santa Luzia-PB

Tiago Rocha Pinto Universidade Federal de Uberlândia


O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

Resumo: Introdução: Com a reforma psiquiátrica, o modelo de assistência centrado no hospital é


desfeito, ocorrendo a substituição paulatina por serviços substitutivos abertos e comunitários:
Hospitais-Dia, Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais Terapêuticos (SRT),
Ambulatórios e Urgências Psiquiátricas, entre outros. Objetivo: Resgatar o processo de reforma
psiquiátrica na região do Seridó, estado do Rio Grande do Norte, a partir do fechamento de um hospital
psiquiátrico. Métodos: Estudo documental, realizado no primeiro semestre de 2018, a partir de
reportagens na mídia, sobre o funcionamento e extinção do manicômio, pesquisas realizadas nos
serviços substitutivos, além da vivência dos autores como sujeitos (aluno, professor e profissional de
saúde) deste processo. Resultados: Após a extinção do hospital, vários serviços substitutivos surgiram:
Centros de Atenção Psicossocial (tipos I, II, III e álcool e outras drogas), Serviço Residencial Terapêutico
e Leitos Psiquiátricos em Hospitais Gerais. Mesmo com avanços, destaca-se muito a se fazer pela
efetivação e consolidação da Reforma Psiquiátrica na região, sobretudo a implementação da Rede de
Atenção Psicossocial. Conclusão: Este resgate histórico cria perspectivas de entendimento de como o
modo manicomial consolidou suas raízes, e de como o psicossocial ainda se apresenta em construção.
Serve como instrumento potencializador de ensino e formação em saúde, planejamento e gestão do
cuidado em saúde mental.
Descritores: Serviços de saúde mental; Desinstitucionalização; Saúde mental; Políticas Públicas de
Saúde.

1
217
O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

INTRODUÇÃO

A loucura enquanto fenômeno humano conhecido desde os primórdios tem repercutido de diferentes
formas no imaginário social, sempre atrelada ao contexto histórico, cultural e econômico. No século
XVII, passou a ser silenciada na medida em que a liberdade individual tornou-se incompatível com a
subordinação, a um processo de trabalho estritamente vigiado e racionalizado. As medidas legislativas
de repressão complementaram-se à criação de instituições destinadas a limpar as cidades, num
movimento de ‘saneamento’ e ‘higienização’ do espaço público, promovendo o trabalho para os
desocupados, punindo a ociosidade e reeducando para a instrução religiosa e moral1.
Na década de 1790, o médico francês Philippe Pinel quebrou as correntes que prendiam estes
‘desviantes’ nos asilos e porões de casas de tratamento, época considerada de grande avanço para a
descrição das doenças mentais, dada a substituição destes espaços pelos hospitais psiquiátricos.
Depois de eras de misticismo, religiosidade, isolamento social, preconceitos e estigmas, a loucura
passa a ser vista com outros olhos, entendida como uma doença1,2. A invenção da doença mental
representa o objeto fundador do saber e da prática psiquiátrica, que ao conferir a loucura status de
doença mental, pôde administrá-la e medicalizá-la3.
Deste modo, em nome da razão, da reeducação e cura dos chamados alienados, os hospitais
psiquiátricos se configuraram por séculos como locais de sofrimento, castigo, maus tratos, mortes e
genocídios. Métodos de tratamento utilizados nos hospitais, apesar de considerados atuais numa dada
época, aproximavam-se da barbárie humana, a exemplo da insulinoterapia, malarioterapia,
lobotomia, isolamento, camisa de força, convulsoterapia por cardiazol, uso de cubículos e celas fortes,
eletrochoque2,4.
O Brasil importou este modelo por influência da colonização portuguesa, sendo da própria coroa a
ideia e fundação do primeiro hospital5. Em 1940, predominavam os hospitais públicos, responsáveis
por 80,7% dos leitos psiquiátricos do país, onde os famosos asilos para os loucos, como o Juqueri em
São Paulo, o Hospital Nacional dos Alienados no Rio de Janeiro e o São Pedro em Porto Alegre,
exerciam um papel orientador e difamatório da assistência psiquiátrica, consolidando a política de
submissão do louco à sociedade, enquanto principal instrumento de intervenção sobre a doença
mental6.
Não demorou muito tempo, e as críticas ao ‘hospitalocentrismo’ ganharam expressão em 1978, com
o Movimento dos Trabalhadores de Saúde Mental (MTSM) e o apoio do Centro Brasileiro de Estudos
em Saúde (CEBES), aliança que fortaleceu um dos primeiros movimentos organizados em torno do que
seria a luta antimanicomial no país1-7.

2
218
O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

Em 1989, a intervenção da Secretaria de Saúde do Município de Santos na Casa de Saúde Anchieta,


hospital psiquiátrico privado com inúmeras atrocidades no tratamento dos internos, assume caráter
nacional e importância definitiva, traduzindo-se anos mais tarde na pioneira experiência de reversão
do modelo de assistência psiquiátrica no país8,9.
Esta intervenção culmina no fechamento do único manicômio do município, criando assim as
condições para a implantação de um sistema psiquiátrico completamente substitutivo ao manicômio,
que se dará com a redefinição do espaço do hospício como local de atendimento e criação do Núcleo
de Atenção Psicossocial (NAPS). Eis a mais importante experiência da psiquiatria pública nacional,
marco da Reforma Psiquiátrica (RP) brasileira, sob total influência da psiquiatria democrática italiana
de Franco Basaglia1-8.
Dois anos depois, dá entrada no Congresso Nacional um Projeto de Lei que propõe uma assistência
qualificada à pessoa com transtorno mental, respeito aos direitos, cidadania e autonomia do usuário,
além da extinção progressiva dos hospitais psiquiátricos em todo país. Somente onze anos mais tarde,
este Projeto se transforma na Lei 10.216, que versa sobre a proteção e direitos de pessoas com
transtornos mentais, além de redirecionar o modelo assistencial em saúde mental vigente8.
Com a RP, dentro outras mudanças importantes, o modelo centrado no hospital é desfeito, ocorrendo
a substituição de leitos manicomiais por serviços substitutivos abertos e inseridos na comunidade:
Moradias Assistidas, Hospitais-Dia, Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), Serviços Residenciais
Terapêuticos (SRT), Ambulatórios e Urgências Psiquiátricas, entre outros.
O conceito de desinstitucionalização assume papel central dentro da Política Nacional de Saúde
Mental, defendendo-se que tal processo ocorra para fora do manicômio. Um movimento
emancipatório de vida subjetiva, comunitária e funcional do sujeito, que vive e habita num meio social
plural, intercambiado por múltiplos condicionantes, antes negado pelo Estado e pela Psiquiatria
Clássica3,10.
Em 2011, enquanto organização da atenção de saúde no país, são instituídas pelo Ministério da Saúde
as Redes de Atenção à Saúde (RAS), objetivando a reorganização dos serviços e melhoria da assistência
à saúde. No campo da saúde mental, é criada a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) que, entre outras
finalidades, pretende desenvolver entre os serviços existentes uma rede de saúde integrada,
articulada e efetiva nos diferentes pontos de atenção, atendendo a pessoas com sofrimento mental
ou com demandas decorrentes do consumo de álcool, crack e outras drogas 11.
Para se ter noção do quantitativo de serviços criados, em 2002 existiam 424 CAPS, 75 SRT e pouco
mais de 51 mil leitos em hospitais psiquiátricos no país. Passada uma década, em 2014, eram 2.209

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CAPS, 610 SRT e cerca de 25 mil leitos em hospitais psiquiátricos, percebendo-se a clara inversão do
modelo de atenção12.
Atualmente, a Política Nacional de Saúde Mental vive sérios riscos de desmonte, mesmo após 30 anos
de construção do movimento antimanicomial e reformista, através de medidas adotadas pelo governo
federal desde 2016.
Em 2017, a Resolução Nº 32 e da Portaria Nº 3.588 oficializaram e estabeleceram as diretrizes que
desconfiguraram a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), como também aprovaram a criação de
"Equipes Multiprofissionais de Atenção Especializada em Saúde Mental", e recriação do ambulatório
de especialidade e o hospital-dia, ligado aos hospitais psiquiátricos, contribuindo para a volta de um
modelo desterritorializado13.
No mesmo ano, o Ministério da Saúde em conjunto com o Ministério do Trabalho, Ministério do
Desenvolvimento Social e Ministério da Justiça, publicaram a Portaria Interministerial Nº 2, que
corrobora para o inicio de um anacronismo nas políticas de drogas, baseada no financiamento e na
ampliação das comunidades terapêuticas, favorecendo a disjunção entre a saúde mental e a política
de álcool e outras drogas; e a condenação das estratégias de redução de danos14.
Contudo, no Brasil, assim como em muitos outros países, esta rede de serviços ainda está em
desenvolvimento. Assim, diante de um cenário complexo e preocupante no campo da saúde mental,
no ano de 2019, a publicação da Nota Técnica Nº 11 marca oficialmente a escalada de retrocessos e
risco real de volta ao modelo manicomial.
A Nota Técnica apresenta uma RAPS “ampliada” que passa a contar com hospitais psiquiátricos
especializados, hospitais-dia, unidades ambulatoriais e CAPS IV AD, além dos antigos serviços já
existentes; e traz que a política de álcool e outras drogas passam à gestão do superministério da
Cidadania, que incorpora Desenvolvimento Social, Cultura e Esporte13. Tais mudanças são alvo de
críticas por várias entidades de direitos humanos e de defesa ao movimento antimanicomial e RP
nacional.
Buscar o resgate de antecedentes históricos de transformação do modelo de atenção em saúde
mental parece um caminho importante para se chegar a um entendimento aprofundado da realidade
local e regional de saúde. No caso da Região do Seridó, no interior Rio Grande do Norte/Brasil, tal fato
tem suas particularidades, como a de ser a única região de saúde do Estado a ter o desmonte de um
manicômio.
A RP nesta região inicia em 2001, após 11 anos do surgimento do primeiro hospital psiquiátrico, com
a criação do primeiro serviço substitutivo (NAPS) de Caicó-RN. Membros da equipe técnica deste

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

serviço, que mais tarde seria o primeiro CAPS tipo I da região, denunciaram casos de maus tratos,
negligência e omissão da então Casa de Saúde Milton Marinho (CSMM), hospital psiquiátrico mantido
por uma fundação social.
O presente artigo tem por objetivo resgatar o processo da RP na região do Seridó potiguar, a partir do
fechamento da CSMM.
MÉTODOS
Estudo documental15, realizado a partir de um levantamento bibliográfico no primeiro semestre de
2018, através de reportagens na mídia escrita e eletrônica, pesquisas científicas publicadas a partir do
cenário mencionado, além de outros estudos e artigos científicos com enfoque na RP e reversão do
modelo de atenção em saúde mental. Também foram usados textos ministeriais da área como forma
de subsidiar a construção e discussão.
Diante dos poucos registros e literaturas disponíveis sobre este processo histórico na Região do Seridó
potiguar, não foi objeto de arte dos autores a realização de estudo de revisão sistemática ou
integrativa, mas tão somente apoiar-se num material documental capaz de auxiliar esta construção.
Além disso, reflete-se a experiência destes no ensino, pesquisa e extensão em saúde mental, a partir
da inserção dos Cursos de Graduação em Enfermagem e Medicina no município de Caicó-RN e Região
do Seridó potiguar, nos serviços substitutivos existentes.
A pretensão deste artigo não é denunciar ou ofertar um dossiê, mas tão somente tencionar
informações e elementos que ofereçam visibilidade ao processo histórico, contribuindo para uma
formação em saúde crítica, sobre as práticas do passado e a necessidade de construir uma rede de
cuidados em saúde mental, com base nos pressupostos do modo psicossocial e da política nacional de
saúde mental com enfoque antimanicomial e reformista.
MODO MANICOMIAL: A FUNDAÇÃO DA CASA DE SAÚDE MILTON MARINHO
A CSMM de Caicó-RN, primeiro e único manicômio da região, surgiu em 1990 com a perspectiva de
ofertar tratamento psiquiátrico a pacientes que antes iam buscar assistência na capital do estado
(Natal-RN), na região Oeste potiguar (Mossoró-RN), ou ainda em município do estado vizinho
(Campina Grande-PB).
Com o passar de alguns anos, o hospital foi reconhecido por seus serviços especializados na área de
psiquiatra, mas também noticiado como espaço de violência e abandono de seus pacientes, além de
várias mortes, como se pode constatar na Tabela 1, a partir da cronologia de alguns marcos
significativos ocorridos na CSMM.

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

Tabela 1 – Cronologia de eventos relacionados à assistência psiquiátrica na Casa de Saúde Milton


Marinho, Caicó-RN, 2016.

Descrição dos Eventos Ano


Fundação da Casa de Saúde Milton Marinho (CSMM) 1990
Paciente morre no pátio da CSMM, vítima de violência física 1998
Paciente morre por “inanição” em uma cela forte 2000
Paciente perde membro inferior em decorrência de necrose (“gangrena”), após
2000
alguns dias de internação
Paciente Sandro Fragoso é encontrado carbonizado numa enfermaria de
2002
contenção mecânica
Repercussão do caso Sandro Fragoso ganha patamar nacional, através de
2003
reportagem na “Revista Isto É”
Avaliação do PNASH/Psiquiatria da CSMM tem resultado negativo 2003
Dois pacientes cometem suicídio por superdosagem de medicamentos 2003
Último registro de óbito de paciente interno 2004
CSMM sofre intervenção da Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do
2005
Norte (SESAP), após seu descredenciamento do SUS
I Encontro Regional sobre Reforma Psiquiátrica (RN, PB e PE) 2005

Fonte: Dados da pesquisa.


A CSMM foi por 15 anos o único local de tratamento hospitalar de pessoas com transtorno mental
e/ou usuárias de substâncias psicoativas na Região do Seridó, abrangendo 25 municípios e quase 290
mil habitantes. Não se pretende negar a “assistência” que a CSMM ofertou à região, mas como toda
instituição manicomial, é importante diferenciar o que era, em certos momentos, tratamento,
cuidado, castigo ou punição. Como vemos na Tabela 1, os casos de violência e omissão contra
pacientes eram recorrentes.
Valendo-nos do clássico estudo de Goffman16 sobre os asilos, que recriminou as características das
instituições autoritárias frente as suas promoções nos indivíduos, é possível identificar que a CSMM
também edificou suas práticas pautadas no modo manicomial, marcado entre outros aspectos pelo(a):
perda do contato com a realidade externa; ócio forçado; submissão a atitudes autoritárias de médicos
e corpo técnico; sedação medicamentosa; perda de propriedades e amigos; perda de perspectiva de
vida fora da instituição.

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

Neste processo, a morte do paciente Sandro Fragoso representou a situação de óbito institucional
mais obscura e negligenciada, alcançando repercussão nacional. Sandro foi achado morto, queimado
e amarrado pelas mãos e pés em uma cama de cela forte, curiosamente chamada pela instituição de
‘apartamento individual’17-19.
Os resultados da perícia realizada no caso indicaram indícios de incêndio criminoso, apesar da
precipitada e absurda conclusão no atestado de óbito apontaram como causa mortis: queimadura
generalizada, asfixia e suicídio. Este caso possui semelhança ao ocorrido com Damião Ximenes (1999),
morto por maus tratos no hospital psiquiátrico Casa de Repouso Guararapes, em Sobral-CE, situação
denunciada à Corte Interamericana de Direitos Humanos18,20.
Ainda em 2000, no interior de uma das celas da CSMM, já proibidas pelas regras de credenciamento
do Sistema Único de Saúde (SUS), outro paciente morrera. Igualmente à Sandro, foi contido/amarrado
no leito e sedado, passando oito dias sem hidratação e alimentação, morto por ‘esquecimento’. O
último registro de óbito ocorreu em oito de outubro de 2004, quando uma interna de 25 anos,
cometeu suicídio depois de ingerir um excedente de comprimidos à base de benzodiazepínicos e
antibióticos, misturados à pó de vidro de lâmpadas elétricas21,22.
Neste mesmo ano, a CSMM foi descredenciada do SUS através da fiscalização do Programa Nacional
de Avaliação dos Serviços Hospitalares-PNASH/Psiquiatria que encontrou diversas irregularidades,
entre as principais: falta de médicos e enfermeiros; aplicação de elevadas doses de remédios; e má-
alimentação dos pacientes, com quantidades de calorias inferiores às necessárias 23.
Importante destacar, nesta mesma época, a realização do I Encontro Regional sobre RP envolvendo
três estados circunvizinhos (RN, PB e PE), idealizado a partir da experiência exitosa em Campina
Grande (PB) que também vivenciava intervenção e descredenciamento de um manicômio privado, o
Instituto Campinense de Neuropsiquiatria e Reabilitação (ICANERF)23, ou popularmente conhecido por
hospital Dr. João Ribeiro, alcunha de seu fundador.
Profissionais de saúde mental da Região do Seridó potiguar participaram deste importante evento,
subsidiando a discussão e implementação dos serviços substitutivos existentes ou a ser implantados.
Cabe destacar a presença de um dos autores deste artigo neste importante evento, ainda como
estudante de graduação.
De fato, no contexto de Campina Grande-PB e municípios circunvizinhos, as visitas e ações da
Coordenação Nacional de Saúde Mental no ICANERF, com apoio incondicional da Secretaria Municipal
de Saúde deste município, deflagraram o movimento de partida para a RP24. A história de

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

desconstrução manicomial e de reversão do modelo manicomial nestas duas regiões nordestinas


(Seridó potiguar e Agreste paraibano) são muito próximas e temporalmente semelhantes.
Assim como aconteceu nestas regiões, o advento da RP proporcionou a diminuição na quantidade de
leitos e de hospitais psiquiátricos em todo país, abrangendo uma porção cada vez menor em relação
ao total de serviços substitutivos. Em 2002, 30% dos leitos psiquiátricos pertenciam a hospitais de
grande porte (acima de 400 leitos) e 25% aos de pequeno porte (até 160 leitos). Em 2014, 48,6% dos
leitos já estavam em hospitais de pequeno porte e 9,27% naqueles com mais de 400 leitos12.
Atualmente, o Estado do Rio Grande do Norte possui três hospitais psiquiátricos credenciados ao SUS,
com 480 leitos, além de três serviços residenciais terapêuticos e 39 CAPS, com uma relação habitante
por leito considerada boa (0,92 para 100 mil habitantes)12.
MODO PSICOSSOCIAL: O SURGIMENTO DOS CAPS NA REGIÃO DO SERIDÓ POTIGUAR
Em oposição ao modo asilar/manicomial como paradigma das práticas dominantes, Costa-Rosa25
designou como modo psicossocial o novo modelo que se configura com base nas práticas da RP, a
partir da existência de um deslocamento fundamental de mudanças: do indivíduo para a instituição e
do indivíduo para o seu meio. A loucura e o sofrimento psíquico não devem mais ser removidos a
qualquer custo, e sim reintegrados como parte da existência, enquanto elementos componentes do
patrimônio inalienável do sujeito.
Torna-se necessário forjar um novo conceito no lugar de doença, um novo objeto que reavalie o
fenômeno da loucura, sem escamotear sua complexidade ao mesmo tempo em que impeça ser ela, a
loucura, capturada na doença. O trajeto que compreende a saída da condição de sujeitado, marcado
por exames clínicos e diagnósticos psiquiátricos, até a transformação em um usuário do sistema de
saúde que luta para produzir a cidadania para si e seu grupo, passa necessariamente pelo aspecto
central da autonomia, ao invés da cura, incitação à emancipação e desconstrução da relação de
tutela26.
Assim, os CAPS foram eleitos como o dispositivo psicossocial oficial do país, em contraposição ao
aparato manicomial, possuindo valor estratégico para a RP nacional, e atualmente na RAPS, pois é a
partir de seu surgimento que se observa a possibilidade de organização de uma rede efetivamente
substitutiva e de base comunitária12.
Possuem diferentes modalidades, respeitando especificidades de demanda e composição da equipe
técnica: CAPS I (até 70.000 mil habitantes); CAPS II (até 200.000 habitantes); CAPS III (acima de
200.000 habitantes e funcionamento 24 horas); CAPSi II (infância e adolescência); CAPSad II (álcool e

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

drogas); e CAPSad III (álcool e drogas, com funcionamento de 24 horas)12,27. A partir da intervenção e
descredenciamento da CSMM, novos serviços surgiram na região Seridó potiguar.
A Tabela 2 apresenta uma cronologia de surgimento dos serviços substitutivos, eventos e iniciativas
psicossociais, a partir de 2001.
Tabela 2 – Cronologia dos eventos relacionados ao processo de reformação psiquiátrica em curso na
região do Seridó-RN. Caicó-RN, 2016.

Descrição dos Eventos Ano


Criação do Núcleo de Atenção Psicossocial (NAPS), Caicó-RN 2001
Criação do CAPS II, Currais Novos-RN 2005
Criação do CAPS I de, Jucurutu-RN 2005
Criação do CAPS I, Parelhas-RN 2006
Criação do Serviço Residencial Terapêutico (SRT), Caicó-RN 2008
Criação de Leito Psiquiátrico em Hospital Geral, Parelhas-RN 2008
Semana de Intervenção Artístico-Cultural em Saúde Mental para Região
2009
Seridó
Criação de Leito Psiquiátrico em Hospital Geral, Lagoa Nova-RN 2009
Mudança de CAPS I para CAPS III, Caicó-RN 2009
Criação de Leito Psiquiátrico em Hospital Geral, Jucurutu-RN 2011
Criação de Leito Psiquiátrico em Hospital Geral, Caicó-RN 2011
Oficina Regional SESAP (IV URSAP), para implantação da RAPS 2013
I Fórum Municipal de Saúde Mental 2014
Criação do CAPS ad, Caicó-RN 2014
Aprovação pela SGTES/MS de proposta Pet-Saúde/GraduaSUS com foco
2016
em Saúde Mental
I Semana da Luta Antimanicomial do Seridó 2016
I Semana de Prevenção/Combate ao Suicídio, Caicó-RN 2016
Fórum Intersetorial Sobre Drogas 2016

Fonte: Dados da pesquisa.


O primeiro serviço substitutivo foi criado em setembro de 2001, ainda com a nomenclatura de NAPS,
movimento semelhante em todo território nacional para os primeiros serviços de base comunitária.
Dois anos mais tarde, o Ministério publica a portaria 336 que regulamenta o funcionamento dos CAPS
no país2,28. Seguiu-se a abertura de CAPS nos municípios potiguares de Jucurutu, Parelhas e Currais
Novos, todos pertencentes à 4ª Região de Saúde do Estado.

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

Na capital potiguar, pioneira nos serviços substitutivos do Estado, o primeiro NAPS surgiu em 1994,
com capacidade para atender 60 usuários, objetivando a reestruturação da assistência e uma proposta
formal de reorganização da atenção em saúde mental em Natal-RN, consequências da 1ª Conferência
Municipal de Saúde Mental (1992)29.
No interior do estado, a portaria GM nº 2.103 de 19 de novembro de 2002 homologou a autorização
para cadastramento de cincos CAPS no RN, tendo destaque a cidade de Caicó-RN, como único
município do interior a possuir serviço substitutivo (CAPS I), além de três CAPS em Natal e um no
município de Parnamirim30.
O CAPS I de Caicó manteve suas atividades até o ano de 2009, quando houve a
habilitação/transformação de CAPS I para CAPS III, localizado na estrutura física da CSMM, sendo o
primeiro CAPS III do Estado. Atualmente, todos os CAPS criados respondem à lógica de consórcios
intermunicipais, com consultoria técnica da 4ª Regional de Saúde, localizada em Caicó-RN, sendo
referência especializada em saúde mental para outros municípios menores localizados no mesmo
contexto regional.
Destaca-se o CAPS III de Caicó, com dez leitos para acolhimento, como único serviço de atenção 24
horas na região, com retaguarda a 290 mil habitantes. Nesse ponto, a região ainda é frágil na
elaboração e efetivação de uma região de saúde capaz de dar respostas num nível de assistência em
saúde mental coesa e resolutiva.
Para se ter uma ideia desta fragilidade, Caicó conta hoje com um CAPS III, um CAPS ad, um SRT e oito
Leitos Psiquiátricos em Hospital Geral (LPHG’s), além de mais de 20 equipes da Estratégia de Saúde da
Família (ESF). Mesmo com a existência desses serviços, observa-se fragilidades nos casos de
referência, contrareferência, matriciamento de casos, fluxo de pacientes definido interserviços,
delineando a existência de uma RAPS como algo quase impossível.
O SRT nunca recebeu habilitação junto ao Ministério da Saúde, onde vivem oito moradores num
espaço físico inapropriado; o CAPS ad somente após dois anos de funcionamento recebera habilitação
do Ministério da Saúde, possuindo uma quantidade ínfima de usuários em tratamento; e os LPHG que
após sua criação receberam recursos da ordem de 250 mil, nunca foram acessados pela gestão do
hospital, e a partir de 2012 com a habilitação específica para Serviços Hospitalares de Referência em
Saúde Mental, Álcool e outras Drogas12, torna-se impossível passar a receber recursos sem a definição
municipal de uma RAPS.
Nos hospitais onde foram criados os LPHG (Caicó, Parelhas, Lagoa Nova e Jucurutu) nunca houve
capacitação específica e permanente para profissionais destes serviços, acarretando o uso inadequado

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

deste dispositivo em toda região: sujeito com histórico psiquiátrico ou de uso/abuso de substância
psicoativa é internado com enfoque exclusivamente psicofarmacológico; ou este mesmo leito é usado
por eles numa condição clínica (trauma, cirurgia, doença infecciosa, etc), invertendo a finalidade do
leito, que seria a de (re)inserção e não segregação, separação entre pacientes internos no hospital
geral.
A leitura que se faz, a respeito desta cronologia de eventos no cenário da assistência em saúde mental
seridoense, é que houve uma efervescência clara de um movimento antimanicomial a nível regional,
a partir da intervenção em 2005 da CSMM. Tal movimento não recebia influência direta da luta
antimanicomial nacional, partindo somente das lideranças militantes que fizeram as primeiras
denúncias de maus tratos e descaso com o tratamento no antigo manicômio.
A partir de 2009, a despeito da vivência acadêmica de um dos autores deste artigo, quando da
instalação do CAPS III, parece existir um “esfriamento” do processo reformista em curso. Na vigência
da RAPS como política de ordenamento do atendimento integral no âmbito da saúde mental, este
esfriamento se comprova diante da quantidade de serviços substitutivos regionais, e a inexistência de
uma rede de serviços conectada, com fluxos de atendimento definidos.
O ano de 2016 parece se apresentar como o de retomada em defesa da valorização dos serviços
substitutivos existentes na região e dos profissionais que neles trabalham. A aprovação pela Secretaria
de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES/MS), de dois grupos tutoriais (Enfermagem e
Medicina) com foco em saúde mental, pelo Programa de Educação pelo Trabalho para a Saúde (Pet-
saúde/GraduaSUS) propiciou perspectivas de mudanças neste cenário.
Esta iniciativa foi uma parceira entre os Cursos de Graduação em Enfermagem, da Universidade do
Estado do Rio Grande do Norte (UERN/Campus Caicó), e Medicina, da Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN/EMCM), ambos com sede em Caicó.
O Pet-Saúde Mental, formados por estudantes e professores destes cursos, preceptores do CAPS III,
atenção básica e NASF, capitaneou dois eventos na área em 2016: I Semana da Luta Antimanicomial
do Seridó e a I Semana de Prevenção/Combate ao Suicídio de Caicó-RN. Além disso, contribuiu para a
produção de folders, cartilhas e informativos sobre temáticas no campo da saúde mental, utilizadas
em inúmeras ações de educação em saúde desenvolvidas nos diferentes níveis de atenção à saúde,
feiras livres, escolas do ensino médio, assim como nas próprias disciplinas e eventos realizados no
âmbito das duas instituições de ensino superior.
Reconhece-se que o Pet-Saúde representou uma potente iniciativa de mobilização, num processo de
retomada de discussões, atividades conjuntas e de pactuações de diversos níveis, em condições de

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forjar novos arranjos e possibilidades assistenciais no campo da saúde mental em Caicó e Região do
Seridó.
Entre estas, ressalta-se a criação de espaços de educação permanente voltados aos profissionais da
saúde do município, permeados por troca de saberes entre universidades e serviços, permitindo maior
reflexão e instrumentalização para o trabalho assistencial e formação em saúde, com atores capazes
de reconhecer e intervir frente às problemáticas no campo da saúde mental.
DESAFIOS ATUAIS DA REFORMA PSIQUIÁTRICA LOCAL E UMA “POSSÍVEL” RAPS
A trajetória RP na Região do Seridó demonstra um percurso semelhante ao da maioria da regiões de
saúde no país, ora com avanços inestimáveis, ora com dificuldades e obstáculos que parecem nunca
ter fim.
Pesquisa realizada com profissionais do SRT de Caicó-RN mostrou que a principal dificuldade no
serviço, no tocante ao processo de trabalho, era a falta de incentivo para a construção da autonomia
dos usuários enquanto sujeitos ativos29. Tal constatação parece ter relação com a difícil tarefa para os
trabalhadores e serviços de saúde mental que é o rompimento com o modelo manicomial, uma vez
que envolve questões sociais, econômicas, geográficas e, principalmente, culturais32.
Os serviços substitutivos em Caicó-RN passam por diversas dificuldades, seja por questões estruturais
(físicas e organizacionais) dos serviços, seja pelo processo de trabalho e reabilitação psicossocial
propriamente ditos. O CAPS III e SRT não possuem sede própria, funcionando a partir de imóveis
alugados que, via de regra, a cada gestão municipal mudam de endereço. Não existe projeto
terapêutico singular (PTS) para os usuários, agenda semanal de atividades, oficinas terapêuticas com
enfoque às demandas dos usuários, técnico de referência ou matriciamento com a atenção básica33.
O matriciamento é um dos mais importantes componentes da assistência à saúde, pois surge como
proposta de integração de uma ou mais equipes interdisciplinares na prevenção e promoção à saúde,
não só em nível de atenção básica, mas também no campo colaborativo de atuação entre a atenção
básica e os serviços de saúde mental11.
Estudo realizado em Parelhas-RN, com foco no conhecimento de profissionais de saúde sobre o
matriciamento e a RP na atenção básica, traz como resultados fragilidades importantes no
entendimento e reconhecimento dos serviços de saúde mental que compõem a RAPS. Houve
discordância sobre a terapêutica ofertada pelo CAPS e alguns participantes admitiram que o
fechamento/diminuição de leitos nos hospitais psiquiátricos não representa uma das principais lutas
da RP34.

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Noutra cidade estado do Rio Grande do Norte, em São Miguel, o único CAPS da cidade passou por uma
avalição do seu funcionamento na perceptiva do profissional, familiar e usuário, também
apresentando fragilidades no funcionamento. Pequenos percentuais na execução das atividades
terapêuticas35, não participavam das atividades do CAPS36 e ausência da implementação clara do
PTS37.
A experiência de RP, na cidade de São Carlos-SP, mostra que o baixo conhecimento de saúde mental
evidenciam consequências negativas e provocam a sensação, em alguns profissionais, de estarem
consertando erros do passado e não realizando avanços na área com as propostas da RP 38.
Os conceitos arraigados acerca da loucura podem reduzir as chances do estabelecimento de vínculos
sociais da pessoa com transtorno mental. O enfermeiro tem papel fundamental ao interferir no
processo de estigmatização da pessoa com transtorno mental, explicitando as formas de tratamentos
atuais e a importância da sociedade enquanto colaboradora desse processo de reinserção social39.
Os desafios da implantação e efetivação da RAPS, não somente na Região Seridó do RN, mas em todo
cenário brasileiro, envolvem mudanças nas condições estruturais/físicas dos serviços, de materiais e
equipamentos e, principalmente, no que diz respeito à modificação no processo de trabalho em saúde
mental. Ao invés de trabalhar com semelhança ao modelo manicomial, é desejável uma assistência
pautada no acolhimento, estímulo à convivência social, quebra de estigmas, valorização das
potencialidades e atividades que envolvam, também, os familiares e a população em geral 40.
O desafio da formação profissional para a saúde mental, intencional e efetiva, com proposta curricular
alinhada à Política Nacional de Saúde Mental é também importante, pois conceitos arraigados
culturalmente; desconhecimento das práticas em saúde mental; e precarização dos serviços
prevalecem e dificultam o processo formativo na área.
Nesse sentido, não parece suficiente responsabilizar o conjunto de profissionais de saúde mental
engajados no cotidiano dos serviços, ou mesmo na inexistência e/ou premência destes. A saúde
mental e a cultura psicossocial devem estar na agenda de saúde de cada gestão municipal e estadual,
para que possa ser internalizada e disseminada comunitariamente.
CONCLUSÃO
Assim como em muitas regiões do Brasil, o Seridó Potiguar tem acompanhado nas duas últimas
décadas uma série de mudanças e transformações no campo da saúde mental, as quais demonstraram
a hegemonia do paradigma asilar, tendo no hospital psiquiátrico o espaço privilegiado de tratamento.
Num contexto marcado por embates e resistências, também pôde-se acompanhar a criação de

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serviços e dispositivos substitutivos, equipamentos estes inseridos na comunidade, com equipes


multiprofissionais e propostas terapêuticas direcionadas às particularidades de cada sujeito.
Apesar dos significativos avanços e conquistas, é preciso salientar que ainda há muito por se fazer na
efetivação e consolidação dos preceitos balizadores da RP local e regional, principalmente no que
concerne à articulação e interlocução entre os diversos entes envolvidos na conformação de uma
RAPS, resolutiva e continente às demandas e necessidades dos usuários e suas famílias. Some-se a
isso, as recentes investidas do governo federal em descontruir os ganhos reformistas e instaura uma
“nova/antiga” onda manicomial, revestida sobretudo pelas comunidade terapêuticas e na
“assistência” com problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas, e da
eletroconvulsoterapia como procedimento legal no SUS.
Este resgate histórico amplia as possibilidades de compreensão sobre como o modo manicomial
materializou suas raízes e de como o modo psicossocial ainda se faz em construção, com novos
desafios e bandeiras de luta na manutenção e ampliação dos direitos e conquistas na área.
Por fim, reconhece-se as limitações do estudo no que tange às idiossincrasias do contexto e
singularidade dos aspectos abordados, diante do pouco material científico disponível. Antes de tudo,
ele serve como instrumento potencializador de ensino e formação em saúde, planejamento e gestão
do cuidado em saúde mental.

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

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O Processo De Reforma Psiquiátrica Na Região Do Seridó-RN: Do Modo Manicomial À Construção Do Modo Psicossocial

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18
234
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 28
10.37423/201003012

SAÚDE SEXUAL MASCULINA E ATENÇÃO


PRIMÁRIA À SAÚDE: O QUE PENSAM OS
HOMENS?

Jozeane SEABRA Universidade Federal do Estado do Rio de


Janeiro

A. D. F. ARAUJO Enfermeiro, mestrando PPGENF da


Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro.
A. S. MENESES Enfermeiro, mestrando PPGENF da
Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro.
A. F. AHMAD Enfermeira, mestranda PPGENF da
Universidade Federal do Estado do Rio de
Janeiro.
Cláudia Regina RIBEIRO Doutora em Saúde coletiva, Professora do
programa de Pós-Graduação em
Enfermagem UNIRIO.
Adriana LEMOS Doutora em Saúde coletiva, Professora do
programa de Pós-Graduação em
Enfermagem UNIRIO.
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

Resumo: Objetivo: Conhecer as demandas do campo da saúde sexual dos homens atendidos na
Atenção Básica de Saúde. Métodos: Estudo descritivo com abordagem qualitativa realizado com 10
usuários de uma Unidade de Estratégia de Saúde da Família da Coordenação de Área do Programa.
2.1, localizado na Zona Sul do Município do Rio de Janeiro. Utilizou-se um roteiro de entrevista
semiestruturado e utilizou-se análise de conteúdo para análise do material coletado. Resultados: As
demandas sexuais dos homens atendidos na Unidade Básica de Saúde referem-se a testes de infecções
sexualmente transmissíveis (IST) e ejaculação anormal. Considerações Finais: A saúde sexual dos
homens tratados na Atenção Primária à Saúde está diretamente relacionada às Infecções Sexualmente
Transmissíveis e à medicalização do corpo masculino, demonstrando a desvalorização dos homens às
práticas de prevenção e promoção da saúde.
Descritores: Saúde do homem; Sexualidade; Atenção Primária à Saúde.

1
236
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

INTRODUÇÃO

Os homens, de forma geral, não estão acostumados a cuidarem dos outros e nem de si mesmo, sendo
o cuidado visto, na maioria das vezes como sendo algo do feminino. (1) Esse modelo cultural
compromete a saúde do homem fazendo com que ele procure o serviço de saúde apenas em situações
extremas, sendo possível que essa procura seja ainda menor em relação a suas demandas sexuais e
reprodutivas.(²)
Uma das dificuldades de inserção dos homens na atenção primária se encontra relacionada ao aspecto
da socialização do homem criada pelo patriarcalismo e pelo machismo, gerando a negligencia do seu
próprio cuidado.(3) Sendo a principal porta de entrada dos homens nos serviços de saúde a atenção
secundaria ou terciaria.(4) Outro fator importante é a identidade de gênero que ao longo dos anos
construiu nos homens a falsa ideia de invulnerabilidade, fazendo com que eles não reconheçam as
suas próprias necessidades de cuidados. Esse padrão de comportamento perigoso comprova a falta de
atenção que os homens tem em relação às medidas preventivas e de promoção da saúde disponíveis
nas Unidades Básica de Saúde (USB) aumentando a morbimortalidade por causas muitas vezes
evitáveis(4).
Em Agosto de 2009 foi instituída a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde dos Homens –
princípios e diretrizes – PNAISH.(5) A presente política objetiva nortear as ações e serviços de saúde
para a população masculina. A PNAISH(5) considera primordial que os serviços de saúde sejam
organizados de modo a acolher e fazer com que o homem sinta-se parte integrante do serviço, visto
que, a grande maioria não se considera pertencente a esses serviços (5,6).
O sociólogo John H. Gagnon(7) foi um dos pioneiros a abordar a sexualidade como algo construído ao
longo do tempo e criou a Teoria dos Roteiros Sexuais, que são as experiências sexuais vivenciadas por
cada individuo que são apreendidas. Os roteiros sexuais permitem que cada indivíduo exerça a
sexualidade do seu jeito. Essa teoria se estrutura em três níveis de roteirização sendo na dimensão
subjetiva (roteiros intrapsíquicos), dimensão das interações sociais e sexuais (roteiros interpessoais) e
a dimensão dos cenários culturais. Dessa forma, podemos entender as particularidades com que cada
homem vivência a sua sexualidade com seus roteiros específicos que foram construídos através das
suas experiências sexuais ao longo da vida.
A sexualidade além de ser construída socialmente, é um tema de difícil discussão, devida a dificuldade
que os homens possuem em cuidar de si mesmo e falar sobre suas questões sexuais, pois esse ato é
visto como uma fraqueza ou ausência da sua masculinidade.(8) Nesse contexto, a PNAISH(5) aborda a
Saúde Sexual e Reprodutiva buscando sensibilizar toda a população para reconhecer os homens como

2
237
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

sujeitos de direitos sexuais e reprodutivos, os envolvendo nas ações e implementando estratégias para
aproximá- los desta temática. Em 2009, o Ministério da Saúde lançou o Caderno de Direitos sexuais,
direitos reprodutivos e métodos anticoncepcionais,(9) que em relação ao planejamento reprodutivo
masculino, aborda a camisinha masculina e a vasectomia como métodos anticoncepcionais.
Se questões do âmbito da saúde reprodutiva, que estão ligadas à prevenção de gravidez, pré-natal,
paternidade etc. são de certa forma, pouco discutidas, questão do âmbito da saúde sexual estão ainda
mais distantes do cuidar, pois envolve exercício direto da sexualidade, masculinidade. Nesta seara a
preocupação com as infecções sexualmente transmissíveis e a disfunção erétil pode estar presente no
real e imaginário masculino. Estudo multicêntrico realizado com homens entre 23 e 67 anos em
municípios do Nordeste, Sul e Sudeste identificou que a “prevenção como uma ideia e uma prática
ainda é estranha aos homens”.(1:47) Os problemas com a próstata e a disfunção erétil foram
apontados como uma preocupação para os homens, no entanto não falam na perspectiva da
prevenção.(1) Logo não demandam aos serviços de saúde cuidados no campo da saúde sexual, a não
ser quando já possuem algum sintoma específico como por infecção de IST, disfunção erétil.
Considerando o exposto, o objetivo da pesquisa é conhecer as demandas do campo da saúde sexual
de homens que são atendidos na atenção primária a saúde. Para este estudo, definimos demanda, de
acordo com Iunes,(10) como quantidade de bem ou serviço de saúde que os homens desejam consumir.
MÉTODO
Consiste em um estudo descritivo, que visa descrever as características de determinadas populações
ou fenômenos estudados(11) com abordagem qualitativa(12), que busca explicar o porquê de
determinado evento através da interpretação dos sentindos que os sujeitos da pesquisa atribuem ao
fenômeno que está sendo analisado.
O cenário da pesquisa foi uma Unidade de Estratégia Saúde da Família da Coordenação de Área
Programática 2.1, localizada na Zona Sul do Município do Rio de Janeiro, e os critérios de inclusão
foram usuários do sexo masculino com idade de 25 à 59 anos que estivessem na unidade no momento
da coleta de dados.
Para coleta de dados foi utilizado um roteiro de entrevista semiestruturado, que trata- se de uma lista
de tópicos elaborada previamente com as questões que o entrevistador considera pertinentes ao
estudo, porém, ele está livre para formular novas perguntas durante a entrevista, para ter mais
informações e/ou para obter mais clareza nas respostas e torná-las mais completas.(11) O roteiro foi
dividido em quatro blocos, com questões referentes ao perfil do usuário; de conhecimentos gerais
sobre saúde sexual e a PNAISH;(5) questões específicas de saúde sexual e a utilização da unidade para

3
238
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

tratar essas questões e um item referente à saúde reprodutiva dos homens e a utilização da unidade
para tratar assuntos relacionados a este tema, respectivamente. Antecedeu a pesquisa de campo a
entrevista piloto e contatos telefônicos e presenciais com a unidade.
Após a abordagem dos homens, foi realizada uma apresentação sobre a pesquisa e seus objetivos,
assegurando a cada participante a confidencialidade dos dados e anonimato. Após todos os
esclarecimentos, foi entregue o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido – TCLE para os homens
que aceitaram participar e foi dado a eles um código, a letra “E” de entrevistado, seguida de um
número de acordo com a ordem de realização das entrevistas (E1, E2, E3...) garantindo assim, o sigilo
e o anonimato. É importante salientar que no momento da entrevista só havia o entrevistado e o
entrevistador na sala. Uma dificuldade encontrada foi em relação à desistência dos usuários. Após
explicação sobre a pesquisa, os usuários desistiam de participar mesmo depois da garantia do
anonimato. Foram abordados 21 usuários, mas somente 10 aceitaram participar da pesquisa. Isso
ocorre muitas vezes devido a sexualidade ser considerada um tabu por uma boa parte da população e
ser pouco discutida em todas as faixas etárias e grupos sociais.(8)
As entrevistas ocorreram no período de Agosto de 2017 a Outubro de 2017 e foram gravadas em um
aparelho de áudio digital após a autorização dos participantes e sendo transcritas na íntegra em um
período máximo de até dois dias após a entrevista visando garantir a clareza da transcrição. Foi
utilizada a técnica de amostragem por saturação para justificar a finalização da coleta de dados. (12)
Dessa forma foram realizadas 10 entrevistas e foi constatada a saturação a partir da entrevista 05.
Para a análise do material coletado, utilizou-se a análise de conteúdo(13) que contém a pré-análise que
é uma fase de organização dos dados coletados, que envolve a leitura flutuante e a transcrição das
entrevistas e o conjunto delas formará o corpus da pesquisa. A segunda fase é a exploração do material,
onde são escolhidas as unidades de codificação com a escolha das Unidades de Registro (UR),
levantamento das Unidades de Significação (US) e categorização. Dessa forma, foram encontradas
nesta pesquisa 6 UR que foram organizadas em 2 US e originaram 2 categorias, explicitadas a seguir:
Exames e demandas sexuais diretas. Sendo predominante a categoria exames (66,67%), seguida pelas
demandas sexuais diretas (33,33%). A terceira fase é o tratamento dos resultados: a inferência e
interpretação, onde o pesquisador pega os resultados da pesquisa e procurara dar significado à eles e
torná-los válidos(13).
A pesquisa atendeu a Resolução N° 466/12 do Conselho Nacional de Saúde aprovada pelos Comitês de
Ética em Pesquisa/CEP-UNIRIO e SMS/RJ com os respectivos pareceres nº541.462 e nº527.958.

4
239
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

RESULTADOS

Dos 10 participantes apenas 30% referiram procurar a UBS para tratar de questões relacionadas a
saúde sexual. Dentre essas demandas encontram-se a realização de exames referentes a infecções
sexualmente transmissíveis (IST’S) e ejaculação anormal. Apenas um entrevistado quando questionado
diretamente se já havia procurado a unidade para tratar questões referentes à saúde sexual respondeu
que sim e apresentou a demanda. O segundo, quando questionado negou procurar, porém, no
decorrer da entrevista acabou relatando que já havia procurado. E o terceiro usuário que apresentou
a demanda, relatou procurar antes mesmo de ser questionado diretamente sobre o assunto.
CATEGORIA TEMÁTICA: EXAMES
Em relação aos exames, observou-se através da análise das entrevistas, características imediatistas e
curativista, ou seja, o homem procura o serviço de saúde sendo mais pontual e objetivo procurando
atendimento rápido e resolutivo.
“Eu procurei a médica que me encaminhou pra fazer exame de DST, HIV hepatite e Sífilis, e depois voltei
à médica. [...] Só questões de DST’s mesmo, fazer exames e DST’s. Só essas questões. As únicas coisas
foram essas. [...] Foi tudo resolvido.” (E 05)
Vale ressaltar a falta de conhecimento dos usuários em relação aos exames disponíveis na unidade.
Talvez esta lacuna ainda esteja aberta porque os profissionais não passam as informações adequadas
ou porque o usuário não vai até a unidade para cuidar de sua saúde e consequentemente, não é
informado sobre os exames disponíveis.
“Como tem campanha em dezembro, todo dezembro eu costumo fazer exames que tem aqui gratuito.
HIV, sífilis, faço anualmente.” (E 07)
CATEGORIA TEMÁTICA: DEMANDAS SEXUAIS DIRETAS
Ao analisar as demandas do campo da saúde sexual dos homens, apenas um dos entrevistados referiu
ter levado uma demanda ao serviço de saúde.
“Um caso que eu tive relação sexual anal com a minha namorada sem preservativo, e ter como
resultado disso uma coloração estranha na ejaculação depois, mas nada grave, graças à Deus. Fui
tratado.”(E 02)
Ao decorrer das entrevistas, apenas um participante referiu dúvida em relação ao preservativo
masculino, quando questionado sobre quais demandas referentes à saúde sexual o usuário levou até
a UBS.

5
240
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

“Eu nunca tive dúvidas com isso não, uma vez que eu perguntei ao médico sobre camisinha, se
estourava ou não e ele me explicou.” (E 04)
DISCUSSÃO
Apesar do grande conhecimento acerca das Infecções Sexualmente Transmissíveis (IST’S) existente
atualmente, ainda acorre uma grande exposição à essas doenças.(14) O protocolo clínico e diretrizes
terapêuticas para atenção integral às pessoas com infecções sexualmente transmissíveis (15) de 2015,
relata que mais de um milhão de pessoas adquirem uma IST diariamente e estima-se que 500 milhões
de pessoas adquirem uma das IST curáveis (gonorreia, clamídia, sífilis e tricomoníase) a cada ano.
O padrão de comportamento imediatista e curativista encontrado nos homens pode gerar dificuldade
em relação ao vínculo com o serviço de saúde.(16) Pela sexualidade ser um tema considerado um tabu,
para se discutir tal assunto é preciso ter o vínculo pré-estabelecido. No entanto, para que ocorra o
vínculo podemos verificar que não depende apenas que os profissionais de saúde se mostrem
disponíveis a ouvir as demandas dos homens.(17) É necessário que as práticas de saúde sejam
construídas visando mudar os paradigmas, fazendo com que os homens se sintam parte do serviço.
Atividades alternativas e um cuidado centrado no usuário são fundamentais para poder garantir que o
usuário volte ao serviço e ouvir a opinião do usuário sobre a qualidade do serviço é uma estratégia
para a aproximação do homem e a UBS (17).
A falta de conhecimento dos usuários em relação aos exames também foi verificada ao longo das
entrevistas. Em nível nacional, a disponibilidade de testes rápidos na atenção básica para a detecção
de HIV e sífilis, assim como outros testes rápidos para gestantes no pré-natal e suas parcerias sexuais,
passou a ser preconizadas sem ter a necessidade de esperar os momentos em que há campanhas. (18)
Nenhum dos entrevistados referiu a busca para realizar o toque retal e a dosagem sérica do antígeno
prostático específico (PSA), que servem para a identificação de alteração na próstata e para a detecção
de prováveis neoplasias de próstata. Vale ressaltar que o Instituto Nacional de Câncer (INCA) não indica
o rastreamento do câncer de próstata, visto que os danos ao realizar o exame, superam os possíveis
benefícios. O toque retal e o PSA são indicados quando existam os sinais de alerta. Dessa forma, é
necessário que os profissionais de saúde estejam atualizados quanto aos protocolos para que ao
surgimento dos sinais de alerta, realizem o encaminhamento para a investigação diagnostica (19).
O câncer de próstata é apresentado por alguns autores(20) como o sexto tipo de câncer mais comum
no mundo e o segundo mais prevalente entre os homens no Brasil. Por motivos culturais, uma visão
“machista”, o medo da violação, da possibilidade de ter uma ereção e o medo da dor, muitos homens
tem se recusado à realização do toque retal, sendo criado dessa forma, uma forte resistência da

6
241
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

população masculina para a realização do exame quando indicado, aumentando a vulnerabilidade aos
agravos relacionados à doença (16,20,21).
Apenas um dos entrevistados referiu ter levado uma situação da saúde sexual ao serviço de saúde.
Corroborando com um estudo que diz que a procura por assistência em saúde pode ser ainda menor
quando se trata da saúde sexual e que a saúde sexual dos homens ainda é pautada nas IST’s.(2) Verifica-
se que a pratica do sexo inseguro e o consequente aparecimento da sintomatologia das distintas IST’s
existentes atualmente são demandas frequentemente apresentadas pelos usuários do sexo masculino,
optando pelas práticas curativas, articuladas à medicalização, desvalorizando as práticas de prevenção
e de cuidados com a saúde. É necessário reconhecer que adoção desse comportamento perigoso e
não saudável que coloca o homem em risco, tem influência direta da construção social das
masculinidades, que infere a falsa noção de invulnerabilidade, força e virilidade (4,6).
Atualmente mudanças progressivas nas atitudes dos homens em relação às demandas por serviço de
saúde podem ser observadas, porém ainda se encontra resistência a essa procura, principalmente nas
camadas populares mais baixas onde os traços culturais são marcantes e o acesso às informações em
saúde limitadas.(4) Apesar da distribuição gratuita do preservativo masculino nas UBS, ainda há dúvidas
sobre a sua utilização, como foi relatado por um dos participantes da pesquisa. Os métodos
contraceptivos deveriam ser discutidos desde a escola para alcançar maior proporção de adolescentes
com informações capazes de melhorar e divulgar o conhecimento dessa população sobre contracepção
(22,23).

Um dado importante encontrado na pesquisa foi referente à utilização do preservativo masculino, 80%
dos usuários que apresentam parceiras fixas relataram não utilizar o preservativo masculino com
frequência. É importante salientar que alguns estudos apresentam que em relacionamentos estáveis,
a utilização do preservativo masculino é deixada de lado, pois os homens que possui apenas um(a)
parceiro(a) tem a noção de que estão livre de qualquer contaminação de IST. A proteção no ato sexual
remete os participantes a uma questão de libertinagem e promiscuidade, pois aquele que precisa de
proteção não possui uma parceira fixa.(24) Com isso podemos inferir que relacionamentos
extraconjugais estão diretamente relacionado às IST’s.
A sexualidade é mais do que simplesmente matéria corporal. Com isso, apenas dois entrevistados
afirmaram que sua religião tem influencia direta na sua prática sexual. Dentro das religiões, a
sexualidade sempre foi questão de reflexão. Se distanciada do contexto da reprodução, ela passava a
ser tratada como algo não natural e proibido, como se a sexualidade não fizesse parte da natureza
humana, ou se o ato sexual tivesse apenas como único objetivo, a reprodução da espécie. (25)

7
242
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pode-se concluir através desse estudo, que a saúde sexual dos homens atendidos na Atenção Primária
à Saúde se encontra diretamente relacionada às Infecções Sexualmente Transmissíveis e medicalização
do corpo do homem. Sendo as demandas por assistência caracterizadas como imediatista e curativista
visto que os usuários desvalorizam a importância e a necessidade das ações de prevenção e promoção
da saúde.
A partir disso, podemos dizer que o Sistema único de saúde possui um grande desafio que é o de
reintegrar os homens aos serviços de saúde, com ações direcionadas a esse objetivo. Um maior
investimento na saúde do homem seria de grande valia, visto que, a capacitação dos profissionais
geraria uma melhor assistência a essa população.
Para cuidar da saúde sexual de homens em sua integralidade é necessário ampliar o entendimento que
atualmente tem-se sobre sexualidade para um olhar além das doenças, considerar os aspectos de
gênero na construção da masculinidade que influenciam os homens em sua relação com os serviços
de saúde.
Discutir sexualidade de forma mais leve e sem proibições nos lares e nas escolas, desde a adolescência,
retirando todo o peso que é colocado em cima deste tema desde muito antes da iniciação da vida
sexual, seria de grande importância para que tenham-se adultos que entendam a sua sexualidade em
seu significado mais amplo, como forma de prazer e todos os sentidos, valores e significados que esse
assunto pode assumir para os homens. Este é um caminho que a enfermagem precisa fazer para
melhor cuidar.
CONFLITO DE INTERESSE
Todos os autores declaram que não existe conflito de interesse.

8
243
Saúde Sexual Masculina E Atenção Primária À Saúde: O Que Pensam Os Homens?

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10
245
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 29
10.37423/201003013

ORGANOCLORADOS E SUAS CONSEQUÊNCIAS


PARA OS SERES HUMANOS

Bárbara Luane da Luz Cardoso Centro Universitário Metropolitano da


Amazônia (UNIFAMAZ)

Ana Paula e Silva Rabelo Centro Universitário Metropolitano da


Amazônia (UNIFAMAZ)

Dayene Ketlley Borges de Andrade Centro Universitário Metropolitano da


Amazônia (UNIFAMAZ)

Railâna Fagundes Andrade Centro Universitário Metropolitano da


Amazônia (UNIFAMAZ)
Organoclorados E Suas Consequências Para Os Seres Humanos

1.INTRODUÇÃO

A utilização de agrotóxicos é cada vez maior na sociedade atual e esse fato vem trazendo maiores
discussões acerca de suas ações tóxicas no meio ambiente e nos seres humanos. Embora o controle
químico de pragas tenha incrementado a produção agrícola, os agentes químicos presentes nos
compostos utilizados podem permanecer ativos no meio ambiente por longos períodos, e os efeitos
desses agentes ao longo do tempo representam um grande risco para a saúde dos humanos e do
ecossistema (BAHIA; GUIMARÃES; ASMUS, 2014).
Os agrotóxicos organoclorados (OC) são compostos lipossolúveis e tal característica os garante a
capacidade de bioaculmular nos tecidos adiposos, o que os torna tóxicos para os seres humanos, cujo
organismo é rico em gordura. Os OC são utilizados irregularmente no Brasil como pesticidas na
agricultura para o extermínio de pragas, viabilizando a produção agrícola, e, após a utilização,
permanecem ativos, contaminando solos, alimentos, água, ar, além de poderem ser transportados pela
chuva para rios e lagos e se infiltrar no solo, contaminando o lençol freático (CAMPOS et al., 2015).
A absorção de compostos organoclorados pelos seres humanos pode ser feita de várias formas, como
pela ingestão de alimentos contaminados, pela pele, pela respiração ou por meio do contato direto,
decorrente de trabalhos na indústria ou exposição diária a materiais que contenham essas substâncias.
Se absorvidos em doses elevadas em um curto período de tempo (exposição aguda), os sintomas são
imediatos, podendo ser reversíveis ou não, e se absorvidos em doses pequenas durante um longo
período (exposição crônica), podem ser mais perigosos, pois os sintomas não se apresentam e os danos
são irreversíveis (HERRERA et al., 2018; MARTÍNEZ-VALENZUELA et al., 2017).
Dito isso, a problemática exposta neste trabalho tem o objetivo de conscientizar a sociedade sobre as
consequências do uso irregular de OC para os seres humanos, a fim de tomar medidas preventivas
para reduzir ou eliminar a exposição aos compostos, como por exemplo, por meio do incentivo a
utilização de alimentos orgânicos.
2. REVISÃO DE LITERATURA
2.1. HISTÓRICO
A história da humanidade é marcada por prejuízos causados por pragas agrícolas, e para combate-las
foi introduzido o uso de certos produtos químicos conhecidos como pesticidas ou agrotóxicos. O baixo
custo e eficácia desses produtos fez com que sua utilização aumentasse ao longo dos anos, mas apesar
de seus benefícios, tais compostos são considerados um dos principais fatores de risco para a saúde
humana (CAMPOS et al., 2015).

1
247
Organoclorados E Suas Consequências Para Os Seres Humanos

Os organoclorados foram os primeiros praguicidas sintetizados em 1874 por Zeidler, começando pelo
DDT (diclorodifeniltricloroetano), mas somente em 1940 Paul Mueller descobriu a propriedade
inseticida desse composto. Tal propriedade, associada à sua baixa solubilidade em água e alta
persistência, propiciou resultados notáveis e seu uso expandiu rapidamente. O DDT foi amplamente
utilizado durante a Segunda Guerra Mundial, para combater o mosquito transmissor da malária e
outras doenças, como a febre amarela (AMARAL; ASSIS; FRANÇA, 2015).
Novos organoclorados foram então sintetizados, como o BHC (hexaclorobenzeno), porém ao longo dos
anos, os compostos passaram a perder sua eficácia, exigindo o aumento cada vez maior de suas
dosagens, e esse fato, aliado à sua alta toxicidade e persistência no ambiente por até 30 anos, levou à
proibição de seu uso para fins agrícolas em diversos países, incluindo o Brasil, pela Portaria n.°329, de
2/9/85, que permitiu sua utilização somente no controle de formigas e em campanhas de saúde
pública. No entanto o seu uso ainda é feito de forma irregular, e em decorrência de seu efeito a longo
prazo, ainda são encontrados atualmente prejuízos decorrentes de sua utilização (AMARAL; ASSIS;
FRANÇA, 2015).
2.2.ORGANOCLORADOS
Os organoclorados são compostos orgânicos sintetizados pelo homem, derivados do petróleo, que
apresentam átomos de cloro em ligações covalentes e são por isso classificados como hidrocarbonetos
clorados. São substâncias com grande poder de biomagnificação na cadeia alimentar, de toxicidade
crônica na maioria dos casos, devido à manifestação lenta de seus efeitos no organismo, pouco solúveis
em água e altamente lipossolúveis, tornando-os mais tóxicos aos seres humanos, que possuem alta
reserva de gordura no organismo (AMARAL; ASSIS; FRANÇA, 2015; CAMPOS et al., 2015).
De acordo com sua estrutura química, os OC podem ser classificados como derivados clorados (DDT),
ciclodieno e cicloexanos e podem ainda ser divididos em dois grupos: baixo e alto peso molecular.
Segundo Appelt:

Os organoclorados de baixo peso molecular são constituídos pelos solventes


industriais(dicloroetano, cloreto de vinil, etc) e pelos freons,
clorofluorcarbonos (CFCs). Os mesmos possuem baixa acumulação na biota
e seu impacto direto está associado à atmosfera. Já os organoclorados de
alto peso molecular (pesticidas e bifenilos policlorados) como já visto
anteriormente fazem parte do grupo dos POPs, e provocam impacto direto
e são acumulados na biota (APPELT, p. 21-22, 2011).
Os derivados clorados (DDT) possuem diferentes metabólitos de acordo com seu isômero, pois sofrem
transformações por duas vias: uma oxidativa e outra redutiva. Na via oxidativa, a molécula do DDT
perde um átomo de cloro e outro de hidrogênio transformando-se em DDE (dicloro-difenil-

2
248
Organoclorados E Suas Consequências Para Os Seres Humanos

dicloroetileno), e na via redutiva ocorre a perda de um átomo de cloro, formando o DDD (diclorodifenil-
dicloroetano), sendo esses os principais substratos desses agrotóxicos (APPELT, 2011).
Os pesticidas organoclorados fazem ainda parte de um grupo de compostos classificados como
poluentes orgânicos persistentes (POPs) e tal atribuição deve-se a três características principais:
persistência ambiental, bioacumulação e alta toxicidade. A persistência é relacionada à sua baixa
degradação por processos bióticos e abióticos, o que garante a esses compostos uma elevada meia-
vida no ambiente que pode chegar a anos ou até mesmo décadas. Por possuir uma lipofilicidade, são
absorvidos pelo organismo principalmente por meio da alimentação, respiração e pele, devido ao
contato direto com lugares e alimentos contaminados (GUIMARÃES; ASMUS; BURDOF, 2013).
A toxicidade dos pesticidas e suas respectivas consequências para o organismo humano é altamente
complexa e específica para cada tipo de composto, dependendo de sua toxicocinética e
toxicodinâmica, podendo ser influenciada por fatores externos como a dose, o tempo de exposição e
o estado de saúde do indivíduo contaminado (HERRERA et al., 2018).
2.3.CONSEQUÊNCIAS PARA OS SERES HUMANOS
A utilização de organoclorados em produções agrícolas pode contaminar solos, água, ao serem
transportados pela chuva para rios e lagos, e ar, por meio das partículas residuais dessas substâncias
que ficam dispersas no mesmo. Os animais são afetados ao ingerir alimentos que tenham sido feitos
com produtos contaminados e tais animais serão posteriormente incluídos na dieta dos humanos, com
um aumento da concentração da substância devido à sua capacidade de biomagnificação
(GUIMARÃES; ASMUS; BURDOF, 2013).
Os seres humanos podem, portanto, absorver os organoclorados pelas vias cutânea, oral e respiratória.
A eficiência da absorção cutânea varia de acordo com o composto, mas a maior contaminação ocorre
pela via oral, com a ingestão de alimentos contaminados, principalmente os que contém elevado índice
de gordura. A absorção por via respiratória ocorre pelo contato com partículas de pó de pesticidas no
ar (HERRERA et al., 2018; MARTÍNEZ-VALENZUELA et al., 2017).
A intoxicação no homem pode ocorrer de duas formas. A primeira forma ocorre por meio da absorção
de uma única dose elevada, o que faz o organismo reagir rapidamente, manifestando os sintomas, que
podem ser fatais ou permanecer por um certo tempo, pois dependendo do produto e da dose, o estado
clínico pode ser revertido. Esse tipo de intoxicação é classificada como aguda. A outra forma de
intoxicação é a crônica que é mais agressiva e preocupante, pois não ocorre manifestação imediata dos
sintomas e é resultante do acúmulo gradual da substância no organismo (APPELT, 2011).

3
249
Organoclorados E Suas Consequências Para Os Seres Humanos

Nos seres humanos o mecanismo de ação dos OC ocorre principalmente no sistema nervoso central,
pois são capazes de atravessar a barreira hematoencefálica, podendo resultar em mudanças de
comportamento, distúrbios de equilíbrio, sensoriais e da atividade da musculatura involuntária. Podem
causar também a depressão dos centros vitais, principalmente da respiração e das funções hepáticas
e renais, ocasionando sérias lesões no fígado e nos rins, pois são, em altas doses, indutores das enzimas
microssômicas hepáticas. Atuam ainda nos canais de sódio, alterando seu fluxo, e alguns compostos
podem lesar o cérebro, ou o coração, a medula óssea, o DNA, entre outros. Além disso, eles podem
prejudicar o sistema reprodutivo, trazendo outros efeitos adversos à saúde, como óbito fetal e aborto
espontâneo, diminuição de peso e tamanho do recém-nascido, pois atravessam também a barreira
placentária (HERRERA et al., 2018).
As mulheres são mais prejudicadas, por possuírem maior quantidade de gordura corporal e maior
variação hormonal, podendo por isso serem afetadas por câncer de mama, fibromialgia, fadiga crônica,
entre outras patologias, alterando também a atividade estrogênica, estimulando a testosterona e
propiciando a puberdade precoce. As pessoas que consomem carne e leite são também altamente
prejudicadas, devido à alta concentração do composto no tecido animal e no leite, decorrente das
rações ingeridas pelos animais que são feitas da soja contaminada (CANO-SANCHO et al., 2018).
As manifestações clínicas podem se apresentar na forma de náuseas, vômitos, diarreia, fraqueza,
desorientação, convulsões generalizadas, contrações palpebrais, tremores musculares, entre outras. O
tratamento, quando possível, pode ser feito por medidas de descontaminação como lavagem gástrica
com carvão ativado em doses repetidas, assistência respiratória e medidas de suporte (JAYARAJ;
MEGHA; SREEDEV, 2016).
Diante do exposto é de extrema importância o estudo de medidas técnicas que reduzam os impactos
que ainda são causados por resíduos de organoclorados, mesmo com sua proibição, por meio do
tratamento de efluentes industriais, utilização de microrganismos que possuem a capacidade de
transformar organoclorados em espécies menos tóxicas, medidas políticas para proibir completamente
a utilização desses compostos, não apenas na agricultura, e até mesmo medidas individuais como a
ingestão de alimentos orgânicos, a fim de evitar os efeitos tóxicos desses compostos no organismo
humano e no meio ambiente (KASEMODEL, 2012).

4
250
Organoclorados E Suas Consequências Para Os Seres Humanos

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blood serum and adipose tissue. Revista Internacional de Contaminación Ambiental, México, v. 33, n.
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5
251
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 30
10.37423/201003015

SINAIS DE ALERTA PARA O DIAGNÓSTICO


PRECOCE E TRATAMENTO DO TRANSTORNO DO
ESPECTRO AUTISTA

LOUISE BOGÉA RIBEIRO UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

JUSSARA DA SILVEIRA DERENJI UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

MANOEL DA SILVA FILHO UNIVERSIDADE FEDERAL PARÁ


Sinais De Alerta Para O Diagnóstico Precoce E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

Resumo: O Transtorno do Espectro Autista (TEA) se refere a uma condição comum para um grupo de
desordens implexas do neurodesenvolvimento, antes, durante ou logo depois do nascimento. Estes
distúrbios se diferenciam pela dificuldade na comunicação social e condutas recorrentes. Todavia,
apesar de todos os indivíduos portadores de TEA partilharem destas dificuldades, a sua condição irá
afetá-los com magnitudes distintas. Assim sendo, o objetivo do presente estudo é apresentar os
principais sintomas em crianças de alto risco de TEA e os mais recentes métodos de diagnóstico
utilizados para o distúrbio. Notou-se que, apesar dos esforços, há ainda uma importante limitação no
diagnóstico precoce para o tratamento do TEA. Portanto, mais estudos são necessários para promover
a elucidação de métodos precisos sobre os padrões comportamentais apresentados por indivíduos
com TEA em suas diferentes áreas do neurodesenvolvimento afetadas.
Palavras-Chave: Transtorno do Espectro Autista; Diagnóstico precoce; Comunicação; Inclusão.

1
253
Sinais De Alerta Para O Diagnóstico Precoce E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

INTRODUÇÃO
O Transtorno do Espectro Autista (TEA), conforme denominado pelo mais recente Manual de
Diagnóstico Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), publicado pela Associação Americana de
Psiquiatria, é considerado enquanto condição comum para um grupo de desordens implexas do
neurodesenvolvimento, antes, durante ou logo depois do nascimento (RIBEIRO; DERENJI; DA SILVA
FILHO, 2019). Estes distúrbios se diferenciam pela dificuldade na comunicação social e condutas
recorrentes.
O TEA comumente acomete as habilidades sociais e de linguagem, acarretando, frequentemente, no
surgimento de desajustes sociais, ocupacionais e interpessoais, além de maior risco de
desenvolvimento de quadros psiquiátricos secundários a estes desvios comportamentais. Desordens
na aquisição de linguagem, construção de vocabulário e alfabetização acarretam em atrasos globais de
desenvolvimento (RIBEIRO et al., 2019; RIBEIRO, 2020).
Crianças portadoras de TEA podem ou não buscar uma interação social, entretanto, possuem em geral
dificuldades em interpretar e aprender as capacidades da interação social e emocional com os demais,
além de apresentarem limitada capacidade imaginativa, afetando a sua habilidade de se colocar no
lugar do outro. Todavia, apesar de todos os indivíduos portadores de TEA partilharem destas
dificuldades, a sua condição irá afetá-los com magnitudes distintas (RIBEIRO; ZAFERIOU; SILVA FILHO,
2020).
Estas barreiras podem ser percebidas enquanto sinais de alerta para pais e educadores para a
identificação da presença do transtorno, a partir da observação comportamental de crianças com
apenas meses de idade; caso contrário, os sintomas podem se tornar mais perspicazes no transcorrer
do desenvolvimento se a criança não for devidamente diagnosticada o quanto antes.
É importante diagnosticar a criança portadora de TEA o mais precocemente possível visando melhorar
a qualidade de vida do indivíduo e da sua família. O diagnóstico precoce se mostra enquanto o primeiro
passo do adequado tratamento atualmente disponível a autistas para atenuar sintomas e facilitar o
dia-a-dia de quem enfrenta e convive com TEA.
Desta forma, o objetivo do presente artigo é apresentar os sintomas em crianças de alto risco de TEA,
incluindo principais sinais considerados de alerta, em prol do diagnóstico precoce e tratamento do
transtorno, além dos mais recentes métodos de diagnóstico utilizados para TEA. A metodologia
utilizada para o desenvolvimento do presente estudo trata-se de revisão bibliográfica, do tipo
exploratório-descritiva, caracterizando-se como qualitativa.

2
254
Sinais De Alerta Para O Diagnóstico Precoce E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

REVISÃO DE LITERATURA

O TEA se trata de um grupo de transtornos do neurodesenvolvimento de começo precoce, com causas


genéticas e/ ou da epigenética, podendo ser assinalado por comprometimento das habilidades sociais
e de comunicação, além de condutas estereotipadas e interesses específicos.
Apesar de definida por esses principais sintomas, o fenótipo dos pacientes com TEA pode ter uma
variação ampla, compreendendo desde pessoas com deficiência intelectual grave e baixo desempenho
em habilidades comportamentais adaptativas, até pessoas com Quociente de Inteligência (QI) normal
ou mais alto que a média, que induzem em uma vida adulta independente (OLIVEIRA; SERTIÉ, 2017).
No TEA, pode-se encontrar, portanto, uma ampla variabilidade, intensidade e maneira de expressão
sintomatológica. A classificação dentro do espectro do TEA leva em consideração o impacto do
transtorno frente ao nível de interação social e comunicação do paciente e pode ter diferentes níveis
de severidade (CUNHA, 2015). Assim, cada indivíduo portador do espectro é único, necessitando de
diagnóstico e tratamento individualizado e de acordo com as suas necessidades específicas.
Aproximadamente por volta dos 9 meses, começam a ser desenvolvidas as habilidades
sociocomunicativas do bebê, no qual ocorrem mudanças de relacionamento perante os demais ao seu
redor, objetos e até com ele mesmo. A habilidade de compartilhar as descobertas, através da atividade
gestual ou até mesmo através do olhar e de expressões faciais (comunicação não-verbal), representa
o início desse desenvolvimento. Portanto, a ausência de quaisquer destes indícios comportamentais
pode ser uma importante informação para o diagnóstico do TEA (PINTO et al., 2016).
Entre os sinais precoces que podem auxiliar no diagnóstico do TEA estão: dificuldade no contato ocular,
a ausência da atenção compartilhada, coordenação entre gestos e expressões faciais, na comunicação,
brincadeira simbólica diminuída, ou não existente, comportamentos repetitivos com o corpo. A
linguagem costuma apresentar ecolalia; e com os objetos apresentam ações como girar e enfileirar,
também há alterações sensoriais como hiposensibilidade ou hipersensibilidade a sons, luzes e
movimento (STEYER et al., 2018).
Nota-se, frequentemente, a existência de comorbidades conexas ao TEA. Como exemplo, ressalta-se a
deficiência intelectual, que é assinalada pela constituição de déficit na área social, cognitiva e
adaptativa, que pode abranger mudanças de comportamento e/ ou comportamentos estereotipados.
É pertinente citar também outras comorbidades, tais como: hiperatividade, distúrbios de sono,
depressão (ansiedade), Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) gastrintestinais,
epilepsia (CUNHA, 2015).

3
255
Sinais De Alerta Para O Diagnóstico Precoce E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

Comportamentos anômalos,recorrentes e estereotipados podem ser notados e precisam ser


analisados por parte dos familiares e especialistas, já que, embora estejam presentes igualmente em
demais quadros clínicos, podem sugerir a presença do TEA (MIELE; AMATO, 2016).
De acordo com os critérios diagnósticos do DSM-5, as manifestações iniciais do TEA precisam
despontar antes dos 36 meses de idade. Entretanto, dados empíricos evidenciam que a grande parte
das crianças exibe problemas no desenvolvimento entre os 12 e 24 meses, sendo que determinados
desvios qualitativos no desenvolvimento surgem e precisam ser identificados antes mesmo dos doze
meses (OLIVEIRA; SERTIÉ, 2017).
Desse modo, torna-se essencial que haja um planejamento da maneira como será revelado à família
este diagnóstico, conservando-se a relação dialógica complacente para facilitar o fluxo de informações
dadas, assim como viabilizar uma melhor aquiescência por parte da família, com o objetivo de que
essa constitua as estratégias de enfretamento das barreiras impostas à criança (PINTO et al., 2016).
Até o momento, tem-se uma importante limitação no diagnóstico precoce do TEA, devido às inúmeras
particularidades comportamentais que possam estar inseridas, e pelo fato de que o que consta nos
manuais de classificação e de critérios diagnósticos, fundamentam-se, especialmente, em sintomas
que são frequentes em crianças e adultos, e dificilmente os que possam ser observados bebês de fato
(STEYER., et al. 2018). No Brasil, o diagnóstico ocorre tardiamente, em média, apenas por volta dos 6
anos de idade.
É necessário que a intervenção seja feita de forma precoce, devido à plasticidade cerebral em que
crianças mais novas apresentam, trazendo assim benefícios com o intuito de melhorar o quadro clinico
do TEA, gerando ganhos significativos no desenvolvimento da criança a longo prazo (MIELE; AMATO,
2016).
CONCLUSÃO
O presente estudo evidenciou que o TEA se trata de um transtorno invasivo do neurodesenvolvimento,
causando barreiras principalmente ligadas à interação social, o que acaba gerando respostas
socialmente inadequadas, dificuldades em processar a comunicação não-verbal e de igualmente
expressar emoções, além de dificuldades de ajustamento a proximidade física e de lidar com quaisquer
tipos de mudanças.
Incluem-se também comportamentos recorrentes e estereotipados, interpretação rígida da
linguagem,interesses particulares e limitados ou preocupações com um tema em detrimento de outras
atividades e descoordenação sensório-motora.

4
256
Sinais De Alerta Para O Diagnóstico Precoce E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

Conclui-se que se faz necessário um amplo esforço em conjunto para atingir o diagnóstico precoce do
TEA, envolvendo desde os pais e responsáveis até profissionais da saúde e educadores, além da
colaboração do próprio indivíduo portador de TEA para o seu devido tratamento que deve ser
altamente individualizado.
Assim, será possível conduzir o autista à fase adulta com menos sofrimento e mais autonomia, nos
mais variados ambientes como na escola e faculdade, trabalho até a gestão de relacionamentos,
formação de família e independência financeira.

5
257
Sinais De Alerta Para O Diagnóstico Precoce E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

REFERÊNCIAS

CUNHA, E. Autismo na escola: um jeito diferente de aprender, um jeito diferente de ensinar – ideias e
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MIELE, F. G. C; AMATO, A de la H. Transtorno do espectro autista: qualidade de vida e estresse em


cuidadores e/ou familiares – Revisão de literatura. Universidade Presbiteriana Mackenzie CCBS –
Programa de Pós-Graduação em Distúrbios do Desenvolvimento. Cadernos de Pós-Graduação em
Distúrbios do Desenvolvimento. São Paulo, v. 16, nº 02, 2016.

OLIVEIRA, K. G; SERTIÉ, A. L. Transtornos do espectro autista: um guia atualizado para aconselhamento


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6
258
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 31
10.37423/201003016

DIFICULDADES MOTORAS E DE MOVIMENTO


ENFRENTADAS POR CRIANÇAS COM
TRANSTORNO DO ESPECTRO AUTISTA

Louise Bogéa Ribeiro UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

JUSSARA DA SILVEIRA DERENJI UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

MANOEL DA SILVA FILHO UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


Dificuldades Motoras E De Movimento Enfrentadas Por Crianças Com Transtorno Do Espectro Autista

Resumo: Observa-se que atrasos e deficiências motoras no Transtorno do Espectro Autista (TEA) são
extremamente comuns e frequentemente anunciam o surgimento de um desenvolvimento atípico
generalizado. Neste contexto, os relatos clínicos de TEA e medidas padronizadas da função motora
identificaram déficits em múltiplos domínios motores. Portanto, este presente artigo teve por objetivo
abordar o TEA focando nas principais dificuldades motoras e de movimento enfrentadas por crianças,
para que se possa, então, favorecer o diagnóstico, tratamento e o estabelecimento de intervenções. A
metodologia utilizada para o desenvolvimento do presente estudo se trata de revisão bibliográfica, do
tipo exploratória-descritiva, caracterizando-se como qualitativa. É imprescindível que anormalidades
motoras específicas e sutis sejam identificadas precocemente em crianças de alto risco ou com
diagnóstico já fechado de TEA. Avaliações padronizadas têm sido valiosas na identificação de alguns
déficits motores centrais no TEA, mas geralmente não conseguem capturar a variabilidade nos padrões
motores, o que pode fornecer dados sobre mecanismos subjacentes que afetam esta função. Conclui-
se que medidas objetivas e quantitativas da função motora em portadores de TEA devem ser mais
enfatizadas em pesquisas futuras nesta temática.
Palavras-Chave: Diagnóstico precoce; Dificuldades Motoras; Transtorno do Espectro Autista; Inclusão.

1
260
Dificuldades Motoras E De Movimento Enfrentadas Por Crianças Com Transtorno Do Espectro Autista

1.INTRODUÇÃO
Sabe-se que o Sistema Nervoso Central (SNC) controla as habilidades motoras finas e grossas: as
habilidades motoras finas incluem pequenos movimentos, como escrever e desenhar; já as habilidades
motoras grossas incluem movimentos maiores, como caminhar e jogar bola (RIBEIRO, 2020). De tal
modo, o desenvolvimento motor em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é objeto de
estudo há anos.
O TEA é uma condição neurológica sem nenhuma característica física definidora (RIBEIRO; DERENJI;
DA SILVA FILHO, 2019). O neurodesenvolvimento atípico nestas crianças não é fácil de detectar.
Portanto, os profissionais costumam observar e analisar padrões comportamentais nestes indivíduos
para fins de diagnóstico e tratamento. Contudo, o comprometimento motor não está devidamente
enfatizado nos critérios de diagnóstico ou avaliação do TEA.
Isso reflete, ainda, a falta de estudos em larga escala, demonstrando a relevância de incentivar
pesquisas neste sentido e mudar este quadro atual (RIBEIRO; ZAFERIOU; SILVA FILHO, 2020). Observa-
se que atrasos e deficiências motoras nos distúrbios do TEA são extremamente comuns e
frequentemente anunciam o surgimento de um desenvolvimento atípico generalizado.
Os profissionais de saúde podem observar o desenvolvimento motor em crianças com TEA, podendo
ser medido ao longo do tempo e os resultados dos testes podem ser facilmente reproduzidos. A
observação das habilidades motoras pode ajudar os profissionais a descobrir diferenças no
funcionamento do cérebro, mesmo em casos de TEA de alto funcionamento.
Neste contexto, os relatos clínicos de TEA e medidas padronizadas da função motora identificaram
déficits em múltiplos domínios motores. No entanto, a literatura que descreve avaliações motoras
padronizadas frequentemente usadas em crianças com TEA, bem como suas propriedades de teste e
limitações, ainda são escassas, principalmente quando comparadas a estudos que avaliam habilidades
intelectuais (RIBEIRO; ZAFERIOU; SILVA FILHO, 2020).
Portanto, este presente artigo teve por objetivo abordar o TEA focando nas principais dificuldades
motoras e de movimento enfrentadas por crianças, para que se possa, então, favorecer o diagnóstico,
tratamento e possíveis intervenções. A metodologia utilizada para o desenvolvimento do presente
estudo trata-se de revisão bibliográfica, do tipo exploratório-descritiva, caracterizando-se como
qualitativa.

2
261
Dificuldades Motoras E De Movimento Enfrentadas Por Crianças Com Transtorno Do Espectro Autista

2.REVISÃO NA LITERATURA
2.1. DIFICULDADES MOTORAS ENQUANTO SINAIS DE ALERTA EM CRIANÇAS COM ALTO RISCO DE
TEA
Problemas motores são atualmente relatados como características associadas que fundamentam o
diagnóstico de TEA. Até o momento, deficiências foram destacadas em vários domínios motores,
incluindo as áreas motora grossa e fina, coordenação motora, controle postural e equilíbrio de pé
(RIBEIRO; ZAFERIOU; SILVA FILHO, 2020).
A alta variação nos achados pode sugerir um amplo espectro de comprometimentos motores. No
entanto, deve-se notar que várias abordagens metodológicas em diferentes estudos podem
desempenhar um papel na heterogeneidade dos resultados (BIANCOTTO et al., 2017).
Primeiramente, diferentes estudos examinaram as habilidades motoras através de vários
instrumentos, incluindo a análise de vídeo caseiro, relatórios dos pais, testes de desenvolvimento,
baterias de motor específicas como a Bateria de Avaliação de Movimento para Crianças e o teste
Peabody Developmental, análise cinemática durante o movimento de caminhada ou preensão, e
balança eletrônica (BISHOP; FARMER; THURM, 2015).
Em segundo lugar, as diferenças observadas nas características clínicas e demográficas dos indivíduos
com TEA entre os estudos devem ser mencionadas. De fato, alguns estudos incluíram bebês e crianças
pequenas, enquanto outros envolveram crianças, adolescentes e adultos em idade escolar. Além
disso, alguns estudos envolveram crianças sem deficiência intelectual, enquanto outros alistaram
crianças com uma ampla gama de funções cognitivas (BREMER; BALOGH; LLOYD, 2015).
Nesse sentido, foi relatado que o funcionamento intelectual poderia estar relacionado às habilidades
motoras, com baixos desempenhos associados a habilidades motoras reduzidas. No entanto, a maior
meta-análise sobre esse assunto até o momento foi incapaz de afirmar inequivocamente o impacto
do funcionamento intelectual nas habilidades motoras dos indivíduos, considerando que alterações
na linguagem e comunicação são frequentes no espectro, capazes de ocasionar atrasos globais no
neurodesenvolvimento no portador do transtorno (RIBEIRO et al., 2019). Analogamente, a relação
entre comprometimentos motores e habilidades de linguagem em crianças com TEA ainda não foi
totalmente esclarecida (ESPOSITO et al., 2011).
A observação de deficiências motoras em crianças com baixa capacidade de linguagem tem sido
relacionada à coexistência de comprometimento intelectual. No entanto, deve-se notar que estudos
em bebês com alto risco familiar para TEA (bebês que têm um irmão mais velho com diagnóstico de

3
262
Dificuldades Motoras E De Movimento Enfrentadas Por Crianças Com Transtorno Do Espectro Autista

TEA) revelaram que o nível de habilidades motoras finas nos primeiros anos de vida foi capaz de prever
o desenvolvimento da linguagem (FOURNIER et al., 2010).
Neste contexto, alguns estudos mostraram que crianças com TEA possam ter graus variados de
dificuldade com habilidades motoras finas e grosseiras (RIBEIRO; ZAFERIOU; SILVA FILHO, 2020); já
outros estudos sugerem que crianças com TEA podem ter seis meses de atraso nas habilidades
motoras grossas em comparação com seus pares e um ano de atraso nas habilidades motoras finas.
Essas são dificuldades que podem ser superadas, mas se acredita que elas existam devido às diferenças
neurológicas em crianças com TEA e seus desafios com o processamento sensorial (FULCERI et al.,
2015).
As dificuldades com habilidades motoras grosseiras podem envolver atividades que dependam de
equilíbrio, consciência corporal e controle motor. Isso pode incluir praticar esportes, andar de bicicleta
ou simplesmente carregar livros para a aula; já as dificuldades com habilidades motoras finas podem
incluir qualquer coisa que dependa do uso de pequenos músculos nas mãos, que podem ser as mais
variadas possíveis (GIMA et al., 2018).
As crianças com TEA não são todas desafiadas pelo desenvolvimento de habilidades motoras no
mesmo grau. Algumas têm dificuldade pronunciada com habilidades motoras finas, algumas são mais
desafiadas por habilidades motoras grosseiras, enquanto outras apresentam dificuldades com ambas.
Sendo assim, esses desafios com o desenvolvimento motor podem ser tratados se detectados com
antecedência. Para tanto, depois que um profissional observa as dificuldades únicas de uma criança
com o desenvolvimento de habilidades motoras, um plano de tratamento precisa ser desenvolvido
para atender às suas necessidades específicas (BREMER; BALOGH; LLOYD, 2015).
Frente a isto, os pais devem estar familiarizados com o plano de tratamento projetado para seus filhos
e ter um papel ativo em ajudá-los com as terapias prescritas. Também, é recomendável que os pais
sejam proativos para garantir que o desenvolvimento das habilidades motoras seja abordado no início
da vida dessa criança, tendo em vista que muitas vezes é negligenciado nos programas de terapia
(BIANCOTTO et al., 2017).
De tal maneira, no ponto de vista das intervenções por parte dos profissionais, tem-se que avaliações
motoras padronizadas podem ser utilizadas se atenderem a todos os seis critérios pré-determinados:
devem ser referenciadas e validadas por norma (descritas em dois ou mais estudos publicados) e
incluir exame motor direto (o relatório do cuidador é insuficiente), analisando, pelo menos, domínios
motores finos; e fazer testes em crianças entre a idade de nascimento e os 4 anos, com diagnóstico de
TEA ou status de alto risco para TEA (GIMA et al., 2018).

4
263
Dificuldades Motoras E De Movimento Enfrentadas Por Crianças Com Transtorno Do Espectro Autista

Assim, as avaliações motoras permitem que médicos e pesquisadores obtenham uma compreensão
inicial das várias anormalidades motoras que se manifestam em crianças com TEA. Essas avaliações
padronizadas diretas da função motora vão além das observações clínicas indiretas precoces de
anormalidades motoras descritas no TEA e fornecem quantificação da capacidade motora suficiente
para comparar e contrastar com crianças em desenvolvimento típico (FOURNIER et al., 2010).
No entanto, ainda existem lacunas significativas na capacidade de avaliar a função motora em crianças
com TEA, dada a heterogeneidade encontrada, e essas lacunas estão enraizadas nas limitações
individuais e globais dessas avaliações (RIBEIRO; ZAFERIOU; SILVA FILHO, 2020). Espera-se que a
identificação dessas lacunas estimule práticas cada vez mais precisas e aprimoradas nessa importante
área de avaliação (BISHOP; FARMER; THURM, 2015).
CONCLUSÃO
A avaliação do desenvolvimento motor precoce é importante para médicos e pesquisadores. As
anormalidades motoras são difundidas no TEA, onde geralmente correspondem ao primeiro sinal de
desenvolvimento atípico e estão intrinsecamente ligadas a outros domínios do desenvolvimento.
O desenvolvimento motor é observável, podendo ser medido de forma precisa e ter seus resultados
analisados. Assim, medidas objetivas e quantitativas da função motora devem ser consideradas
enquanto prioridade para pesquisas futuras na temática.
Com esses esforços, pode-se começar a estratificar a heterogeneidade da função motora em todo o
espectro deste transtorno e as condições genéticas associadas à TEA, talvez revelando endofenótipos
únicos da função motora e desenvolvendo intervenções mais direcionadas que, em última instância,
melhoram múltiplos domínios de desenvolvimento em indivíduos com TEA.
Existem intervenções atuais que permitem a modificação e melhora de anormalidades motoras e, por
sua vez, provável melhora da função geral do portador de TEA. Portanto, é imprescindível que desvios
motores e de movimento específicos e sutis sejam identificados precocemente em crianças de alto
risco ou já diagnosticadas com TEA. Isso pode ajudar no desenvolvimento de intervenções motoras
que visem suavizar os principais prejuízos envolvidos pelo diagnóstico.

5
264
Dificuldades Motoras E De Movimento Enfrentadas Por Crianças Com Transtorno Do Espectro Autista

REFERÊNCIAS

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Peabody Developmental Motor Scales. 2nd Edn. Austin, TX: Hoghrefe, 2017.

BISHOP, S. L. FARMER, C; THURM, A. Measurement of nonverbal IQ in autism spectrum disorder:


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BREMER, E; BALOGH, R; LLOYD, M. Effectiveness of a fundamental motor skill intervention for 4-year-
old children with autism spectrum disorder: a pilot study. Autism, 19, 2015.

ESPOSITO, G; VENUTI, P; APICELLA, F; MURATORI, F. Analysis of unsupported gait in toddlers with


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FOURNIER, K. A; HASS, C. J; NAIK, S. K; LODHA, N; CAURAUGH, J. H. Motor coordination in autism


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FULCERI, F; CONTALDO, A; PARRINI, I; CALDERONI, S; NARZISI, A; TANCREDI, R. Locomotion and


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In Proceedings of 7th International Conference on Movement and Computing, Jersey City, NJ USA, July
2020 (MOCO '20), 4 pages.

6
265
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 32
10.37423/201003017

O USO DE TECNOLOGIAS PARA O DIAGNÓSTICO


E TRATAMENTO DO TRANSTORNO DO
ESPECTRO AUTISTA

Louise Bogéa Ribeiro UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

JUSSARA DA SILVEIRA DERENJI UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ

MANOEL DA SILVA FILHO UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


O Uso De Tecnologias Para O Diagnóstico E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

Resumo: A prevalência global do Transtorno do Espectro Autista (TEA) aumentou de vinte a trinta vezes
nas últimas cinco décadas, muito em razão da mudança de critérios de diagnóstico, aumento da
conscientização e transformação biopsicossocial. Os celulares estão desempenhando um papel
fundamental entre essas intervenções tecnológicas. No entanto, intervenções baseadas em tecnologia
são implementadas por meio de sistemas complexos de assistência à saúde, nos quais mais partes
interessadas estão envolvidas e vários fatores imprevisíveis podem levar um projeto-piloto promissor
a falhar. Sendo assim, este presente estudo teve por objetivo apresentar a viabilidade e benefícios do
uso e aproveitamento de tecnologias para crianças portadoras de TEA, visando o estabelecimento de
diagnóstico precoce e tratamento desta população. Concluiu-se que o crescente desenvolvimento de
tecnologias robóticas e de computador na última década está dando esperança de realizar diagnósticos
cada vez mais precoces do TEA e tratamento mais eficaz, consistente e com menor custo.
Palavras-Chave: Diagnóstico; Tecnologia assistiva; Transtorno do Espectro Autista.

1
267
O Uso De Tecnologias Para O Diagnóstico E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

INTRODUÇÃO
A prevalência global do Transtorno do Espectro Autista (TEA) aumentou de vinte a trinta vezes nas
últimas cinco décadas, muito em razão da mudança de critérios de diagnóstico, aumento da
conscientização e transformação biopsicossocial (RIBEIRO; ZAFERIOU; SILVA FILHO, 2020).
É um fenômeno global que afeta pessoas de todos os estratos, de países desenvolvidos e em
desenvolvimento. No entanto, os países em desenvolvimento são afetados ainda mais severamente
por essa rápida escalada devido à falta de preparação, recursos e diversos problemas socioculturais
(RODRIGUES; ALVES, 2013).
Estes países passaram pelo crescimento explosivo das Tecnologias da Comunicação da Informação
(TICs) na última década. Neste contexto, o uso da tecnologia vem sendo aplicado no tratamento de
transtornos do neurodesenvolvimento como o TEA. Há aplicativos para celular utilizados para auxiliar
profissionais de saúde na triagem, fornecendo intervenções e acompanhando a pessoa enquadrada
no espectro (RODRIGUES; ALVES, 2013).
As tecnologias e celulares, portanto, desempenham, cada vez mais, um papel fundamental entre essas
intervenções tecnológicas (RIBEIRO et al., 2019). Como, por exemplo, provou-se que o serviço de
mensagens de texto baseado em dispositivos móveis é eficaz para melhorar a adesão ao tratamento
das várias condições e distúrbios de saúde física e mental. Além disso, a tecnologia pode aumentar a
comunicação como um dispositivo auxiliar e ajuda na adaptação e modificação de dificuldades de
habilidades motoras (RIBEIRO, 2020).
No entanto, intervenções baseadas em tecnologia são efetivadas por meio de sistemas complexos de
assistência à saúde, nos quais mais partes interessadas estão envolvidas e vários fatores imprevisíveis
podem levar um projeto-piloto promissor a falhar. O sucesso inicial de um programa não garante que
a replicação desse estudo resulte também em sucesso em outro cenário devido aos diferentes fatores
socioeconômicos e culturais locais envolvidos.
Sendo assim, este presente estudo teve por objetivo apresentar a viabilidade e benefícios do uso e
aproveitamento de tecnologias para crianças portadoras de TEA, visando o estabelecimento de
diagnóstico precoce e tratamento desses indivíduos. A metodologia utilizada para o desenvolvimento
do presente estudo trata-se de revisão bibliográfica, do tipo exploratório-descritiva, caracterizando-se
como qualitativa.
REVISÃO DE LITERATURA
A tele-saúde é uma técnica que utiliza as TICs para transferir informações básicas do paciente, a fim de
prestar serviços de saúde à distância, incluindo diagnóstico e tratamento. As tecnologias de tele-saúde

2
268
O Uso De Tecnologias Para O Diagnóstico E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

têm sido usadas, desde os anos 90, para aumentar significativamente o acesso aos cuidados de saúde
em áreas e populações carentes de assistência médica (SILVA; GAIATO; REVELES, 2012).
Por exemplo, a escrita à distância, uma intervenção psicológica mediada por computador, tem sido
usada em disciplinas de saúde mental há mais de uma década como uma maneira complementar e
econômica de aumentar a "terapia de conversa" presencial, bem como para alcançar aqueles antes
inacessíveis por meio de abordagens terapêuticas mais tradicionais (RODRIGUES; ALVES, 2013).
Neste contexto, a tele-saúde síncrona inclui videoconferência em tempo real entre um provedor e um
paciente, ou uma consulta em tempo real entre os provedores. Já a tele-saúde assíncrona captura
informações médicas eletronicamente e depois as encaminha para um provedor (ORRÚ, 2012).
Portanto, armazenar e encaminhar têm sido uma tecnologia de tele-saúde voltada para o diagnóstico
e tratamento do TEA, pois muitas vezes é difícil amostrar com precisão comportamentos relevantes
para os sintomas, como autolesão, convulsões, obstinações ou agressões em tempo real (SILVA;
GAIATO; REVELES, 2012).
A apresentação precisa desses comportamentos por meio de modalidades de imagem de vídeo
melhora a compreensão sobre os desafios da criança nos ambientes naturais e cria um extenso registro
médico baseado em vídeo para avaliações de diagnóstico e tratamento, por exemplo, quando um
medicamento é prescrito (RODRIGUES; ALVES, 2013).
O uso da tele-saúde para TEA é promissor em várias disciplinas clínicas, como aconselhamento,
neurologia, psiquiatria, assistência social, fala e linguagem, terapia ocupacional e fisioterapia. A
integração de tecnologia e assistência médica, no entanto, tem demorado a se desenvolver na prática
clínica convencional, dificultada em parte por barreiras legais, financeiras e regulatórias, incluindo
ambiguidades na cobertura de reembolso por terceiros de aplicativos de tele-saúde e preocupações
com a confidencialidade, privacidade e segurança das informações de saúde (SCHWARTZMAN, 2014).
Atualmente, o diagnóstico do TEA envolve vários profissionais de saúde especializados. A observação
por longos períodos de tempo, bem como uma série de testes, está envolvida até fechar o diagnóstico
de uma criança com TEA. Os custos e o tempo associados ao diagnóstico podem ser impressionantes.
É extremamente difícil diagnosticar uma criança pequena, o que impede intervenções precoces
(RODRIGUES; ALVES, 2013).
Diante disto, tem-se uma nova tecnologia que pode diagnosticar uma criança a partir dos cinco meses
de idade para TEA,o que permite intervenções precoces, suavização de sintomas, além da
tranquilidade aos pais. O fornecimento de imagens diagnósticas precisas permite que os médicos
tenham conhecimento sobre as áreas cerebrais de ativação afetadas. Com uma precisão em torno de

3
269
O Uso De Tecnologias Para O Diagnóstico E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

94%, os erros em potencial são minimizados. O teste reduz os custos associados à administração de
uma bateria de outros testes para profissionais de saúde especializados (SCHWARTZMAN, 2014).
Muitas crianças com TEA podem apresentar uma variedade de sintomas que podem causar desafios
na sala de aula. A maioria delas terá alguma dificuldade com interações sociais, incluindo a leitura de
expressões faciais e a conversa (RIBEIRO; DERENJI; SILVA FILHO, 2019). Isso representa um problema
para os profissionais, mas há muitas opções de tecnologias assistivas que podem ajudar no diagnóstico
(BEE; BOYDE, 2017).
O talk light e aplicativos organizacionais compõem uma tecnologia assistiva que vem sendo utilizada
como instrumento de acessibilidade e inclusão, o qual visa integrar tecnologia em uma ferramenta
capaz de atender e diagnosticar alunos com necessidades educacionais especiais (BAGENHOLM;
GILLIBERG, 2017).
CONCLUSÃO
Concluiu-se que o rápido desenvolvimento de tecnologias robóticas e de computador na última década
contribui significativamente na elaboração de diagnósticos mais precisos e precoces do TEA, além do
tratamento mais eficaz, consistente e com menor custo. Somado ao custo reduzido, o principal
benefício do uso de tecnologias para facilitar o tratamento é que os estímulos produzidos durante cada
sessão podem ser controlados, o que não apenas garante consistência em diferentes sessões, mas,
também, possibilita o foco em um único fenômeno, que representa ainda um desafio mesmo para um
profissional treinado executar e entregar os estímulos de acordo com o plano de tratamento.
Todos os sistemas facilitados por tecnologias usados para estudos de TEA podem ser modelados como
sistemas interativos entre máquina e humano, onde um ou mais participantes constituem o
componente humano enquanto que o sistema baseado em computador ou robótico representa o
componente da máquina.

4
270
O Uso De Tecnologias Para O Diagnóstico E Tratamento Do Transtorno Do Espectro Autista

REFERÊNCIAS

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5
271
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 33
10.37423/201003021

A PENOSIDADE NO TRABALHO DE
ENFERMAGEM

Diego Colaca de Brito Faculdade Nordeste - DeVry | Fanor – Dunas


A Penosidade No Trabalho De Enfermagem

Resumo: Introdução: A profissão de enfermeiro (a) é uma das mais acometidas pelo estresse, devido
aos inúmeros transtornos fisiológicos e emocionais. Trata-se da penosidade mais relevante.
Considerando que se trata de uma temática muito discutida na atualidade, onde no cenário mundial o
fenômeno do estresse atinge cerca de 95% da população, torna-se de suma importância o
esclarecimento e o enfrentamento dessa penosidade, o qual tem sua relevância quanto ao rendimento
e qualidade de vida deste profissional acometido pelo stress (ALVES, 2011; COSTA, 2003).Entre os
fatores de risco que predispõem aos distúrbios psiquiátricos podem-se citar, sobrecarga de tarefas,
estresse ao lidar com o público, falta de perspectiva de crescimento profissional, dificuldade de
relacionamento com os colegas de trabalho e a chefia, entre outros (BRASIL, 2005). Objetivo: Analisar
a literatura brasileira acerca da penosidade no trabalho no enfermeiro. Métodos: Foram utilizados
como critérios de inclusão dos estudos para esta revisão integrativa: trabalhos publicados em
periódicos nacionais, que abordassem a temática deste estudo, durante o período de 1990 a
2016.Como critérios de exclusão foram utilizados: estudos que estivessem incompletos; sem resumo
e que não respondam aos objetivos propostos da revisão.Em virtude das características específicas
para o acesso das bases de dados selecionadas (LILACS, SCIELO e BDENF), as estratégias utilizadas para
localizar os artigos foram adaptadas para cada uma, tendo como eixo norteador as perguntas, que
atendessem aos objetivos e aos critérios de inclusão da revisão integrativa, previamente estabelecidos
para manter a coerência na busca e validação dos artigos e evitar possíveis vieses.
A busca foi realizada pelo acesso online e, utilizando os critérios de inclusão, a amostra final desta
revisão integrativa foi de 11 artigos. Resultados e Discussão: A penosidade no trabalho do enfermeiro
acontece por múltiplos fatores e está bem evidenciada nos trabalhos selecionados. Os enfermeiros
sofrem penosidade nas relações de trabalho, em relação aos horários, turnos, má postura, carga,
excesso de trabalho. os profissionais de enfermagem apresentaram sentimentos de desprazer e
monotonia no trabalho, associado a relação ruim com a chefia relação ruim com os clientes, revelando
a gravidade dos problemas nas relações interpessoais nas equipes. Dentre as causas que tornam o
processo de trabalho estressante os trabalhadores consideram a carga de trabalho, a falta de tempo
para lazer e para o cuidado consigo mesmo e qualidade de vida relacionado aos hábitos de sono,
repouso, alimentação e atividade física; dupla jornada de trabalho, falta de condições de trabalho e
ambivalência relacionada ao tempo trabalho(LIMA, 2010). Conclusão:A penosidade no trabalho de
enfermagem significa o esforço que causa doença e dor no trabalhador, além de efeitos psicológicos,
prejudicando seu desenvolvimento profissional e sua interação com a família e a sociedade. É

1
273
A Penosidade No Trabalho De Enfermagem

proveniente do esforço físico, do trabalho por turnos, às vezes, longos demais, da falta de interação
com a equipe, salários e condições de trabalho ruins.
Palavras-chave: Penosidade, Enfermagem, Trabalho.

2
274
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 34
10.37423/201003022

A HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS SOB A ÓTICA DA


INTERDISCIPLINARIDADE

Hadassa Bastos Moreira Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia

Mariani de Jesus Santos Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia

Jessica Miranda Costa Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia

Tainah Silva Santos Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia

Aretusa de Oliveira Martins Bitencourt Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia

Ricardo Matos Santana Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia

Nayara Mary Andrade Teles Monteiro Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia

Myria Ribeiro da Silva Universidade Estadual de Santa Cruz-Bahia


A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

Resumo: A prática interdisciplinar é extremamente importante e contribui de modo significativo para


a formação integral do educando. Desse modo, partindo do pressuposto que uma das vertentes da
enfermagem é a educação em saúde, e o enfermeiro, por conseguinte, exerce o papel de educador, foi
proposta a realização de uma intervenção educativa no Restaurante Universitário (RU), pelos alunos
do 3° semestre da graduação em Enfermagem, sob o prisma da interdisciplinaridade. A ação foi
pautada na prática de higienização correta das mãos e sua relevância para a manutenção da saúde dos
manipuladores de alimentos que ali trabalhavam, e consequentemente, das pessoas que usufruíam
dos serviços oferecidos por eles. Para tanto, os alunos foram submetidos a um Curso Básico de
Higienização das Mãos, promovido pelo Laboratório de Infectologia do Núcleo de Estudo, Pesquisa e
Extensão em Metodologias na Enfermagem – NEPEMENF da Universidade Estadual de Santa Cruz,
através da articulação com a disciplina de Vivências Interdisciplinares III. No intuito de responder as
questões que nortearam a sua elaboração. O presente trabalho teve como objetivo geral: Discutir as
vivências interdisciplinares dos discentes do 3º semestre da graduação de enfermagem da UESC; e
como objetivos específicos: Descrever conhecimentos adquiridos nas disciplinas estudadas durante o
semestre que se relacionam com as atividades desenvolvidas pelo Laboratório em conjunto com a
disciplina de vivências interdisciplinares III; Relatar os sentimentos que emergiram durante as vivências
interdisciplinares dos discentes do 3º semestre da graduação de enfermagem da UESC; Refletir sobre
a relevância dos conhecimentos adquiridos nas disciplinas estudadas para o processo de trabalho do
enfermeiro. Por fim, levando em consideração que o processo de enfermagem, enquanto método
científico está dividido em cinco momentos, a saber: investigação, diagnóstico, planejamento,
implementação e avaliação, a ação educativa desenvolvida está pautada nos cinco momentos citados.
Dessa forma, as experiências aqui descritas ocorreram a partir de um momento de investigação, onde
foram coletados dados que subsidiaram a elaboração do processo de enfermagem educacional
utilizado para a construção da ação educativa posteriormente realizada no RU.
Palavras-Chave: educação em saúde; processo de enfermagem; higienização das mãos.

1
276
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

INTRODUÇÃO

A lavagem das mãos, de modo geral, pode ser entendida como um ato cultural de representatividade
da limpeza. Para alguns povos esse ato ganha um sentido de cunho religioso, todavia, para a ciência
seu significado atinge proporções extremamente complexas.
Muito se tem discutido na literatura a respeito de termos como lavagem das mãos e higienização das
mãos, ações que podem ser consideradas a mesma coisa para pessoas cujo conhecimento a respeito
da temática é insuficiente. Contudo, tem sido constatado que a divergência entre eles está à além da
terminologia, fato que pode ser comprovado cotidianamente na prática hospitalar, pois o ato de
higienizar as mãos, por si só, é suficiente para prevenir doenças infecciosas originadas por
microorganismos existentes na pele (CARVALHO, 2017).
A prática de higienização das mãos e objetos inanimados teve início no século XIX, quando precursores
da infectologia e enfermagem, o médico Ignaz Semmelweis e a Enfermeira Florence Nightingale,
respectivamente, desenvolveram várias técnicas de assepsia, desinfecção e esterilização com o intuito
de evitar a proliferação de bactérias. O primeiro, por demonstrar em seus estudos que a higienização
adequada das mãos era eficaz na prevenção e contra infecções puerperais, e contribuía para
diminuição significativa das mortes de parturientes (HUGONNET; PITTET, 2000; RODRIGUES, 1997 apud
SOUSA et al 2016) e a segunda por, atendendo ao convite para exercer atividades de enfermagem na
Guerra da Criméia, organizar a enfermaria que encontrava-se em condições lastimáveis e implantar
além das medidas de cuidados e higiene dos pacientes e utensílios, preparo de alimentos e serviços
de lavanderia, outras medidas básicas que ajudaram a reduzir a taxa de mortalidade (RODRIGUES, 1997
apud SOUSA et al 2016). Desde então, muito se tem feito para que a população de um modo geral
passe a aderir à prática cotidiana de higienização das mãos e cuidados com o ambiente.
Partindo do pressuposto que esta prática está diretamente atrelada à manutenção do estado de saúde,
este trabalho tem como recorte do objeto a prática correta de higienização das mãos sob um prisma
interdisciplinar, onde serão descritas experiências vivenciadas durante uma intervenção educativa
realizada por estudantes do 3º semestre de graduação em enfermagem, depois de submetidos a um
Curso Básico de Higienização das Mãos promovido pelo Laboratório de Infectologia do Núcleo de
Estudo, Pesquisa e Extensão em Metodologias na Enfermagem – NEPEMENF da Universidade Estadual
de Santa Cruz, através da articulação com a disciplina de Vivências Interdisciplinares III, que por sua
vez, segundo o Projeto Político Pedagógico - PPP da referida instituição, “tem a finalidade de prover
meios de articular as disciplinas de cada semestre, orientando a construção de atividades pedagógicas
interdisciplinares de pesquisa e extensão” (2014, p. 23 apud LAVINSKY et al, 2017. p. 13).

2
277
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

Sabendo-se da importância da prática interdisciplinar e sua contribuição para a formação integral do


educando, foram elaboradas as seguintes questões que nortearam a construção do presente trabalho:
Quais os conhecimentos adquiridos nas disciplinas estudadas durante o semestre que estão
diretamente relacionados com as atividades desenvolvidas pelo laboratório em conjunto com a
disciplina de vivências interdisciplinares III? Quais foram os sentimentos emergentes durante as
experiências vivenciadas pelos discentes do 3º semestre da graduação de enfermagem da UESC? Qual
a relevância dos conhecimentos adquiridos nas disciplinas estudadas para o processo de trabalho do
enfermeiro?
No intuito de responder às questões norteadoras o presente trabalho teve como objetivo geral:
Discutir as vivências interdisciplinares dos discentes do 3º semestre da graduação de enfermagem da
UESC; e como objetivos específicos: Descrever conhecimentos adquiridos nas disciplinas estudadas
durante o semestre que se relacionam com as atividades desenvolvidas pelo Laboratório de
Infectologia em conjunto com a disciplina de vivências interdisciplinares III; Relatar os sentimentos que
emergiram durante as vivências interdisciplinares dos discentes do 3º semestre da graduação de
enfermagem da UESC; Refletir sobre a relevância dos conhecimentos adquiridos nas disciplinas
estudadas para o processo de trabalho do enfermeiro.
Apesar de a prática de higienização das mãos ser um recurso bastante significativo na prevenção e
controle de infecções, sua adesão tem sido relativamente baixa, dado a importância de se fazer deste
uma prática corriqueira. Segundo Henriques (2016, p. 7):
Estudos sobre o tema mostram que a adesão dos profissionais à prática da
higienização das mãos de forma constante e na rotina diária ainda é baixa,
devendo ser estimulada e conscientizada entre os profissionais de saúde,
bem como em qualquer indivíduo [grifo nosso].
Assim, levando em consideração que uma das vertentes da enfermagem é a da educação em saúde,
por conseguinte, o enfermeiro exerce o papel de educador, a intervenção educativa realizada pelos
estudantes do 3º semestre da graduação foi fundamental tanto na contribuição para a promoção da
saúde quanto para a formação integral do próprio estudante, justificando a relevância do projeto.
2. METODOLOGIA
Como recurso metodológico, foi elaborado um relato de experiência, dissertando sobre as vivências
interdisciplinares dos discentes do 3° semestre da graduação de Enfermagem da UESC.
O relato de experiência é “um método de observação sistemática que promove o diálogo entre as
evidências emergentes da realidade e arcabouços teóricos” (Dyniewicz 2014, apud Pinheiro et al.

3
278
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

2016). Sob a ótica do mesmo, o relato de experiência é construído como uma dissertação narrativa
que expõe experiências vivenciadas pelos autores.
O relato aqui apresentado mostra o processo de construção de uma prática educacional que procurou
associar as teorias que fundamentam o processo de higienização das mãos e a execução desse
processo, com a finalidade de levar ao aprendiz a importância dessa conduta, sem a intenção de
conscientizá-los, porém com o propósito de fazê-los enxergar a relevância dessa higienização como
rotina no contexto da saúde ao qual estão inseridos.
Ademais, buscou-se estabelecer relações entre as disciplinas estudadas durante o semestre, para que,
por meio dessa associação, fosse possível contemplar a vertente epistemológica que é proposta pela
disciplina “Vivências Interdisciplinares”, onde a junção de vários conhecimentos dá suporte para o
desenvolvimento de novas compreensões (THIESEN, 2008 apud MACHADO, 2013).
O estudo foi desenvolvido a partir de um processo de investigação com os funcionários do Restaurante
Universitário (RU) da Universidade Estadual de Santa Cruz, situada no município de Ilhéus-BA, tendo
como base metodológica uma entrevista em que foram contempladas questões especificas sobre os
sujeitos da intervenção educativa, necessidades de aprendizagem, entendimento sobre higienização
das mãos e entendimento sobre os conceitos de saúde.
A instituição em que a ação foi desenvolvida conta com 15 funcionários, dos quais apenas seis
responderam/participaram da entrevista. Todavia, no dia da implementação do projeto, toda a equipe
estava presente e participou ativamente do processo.
3. RESULTADOS
As experiências aqui descritas ocorreram a partir de um momento de investigação, onde foram
coletados dados que subsidiaram a elaboração do processo de enfermagem educacional utilizado para
a construção da ação educativa posteriormente realizada no RU.
O processo de enfermagem, enquanto método científico está dividido em cinco momentos, a saber:
investigação, diagnóstico, planejamento, implementação e avaliação (LAVINSKY et al, 2017), assim, a
ação educativa desenvolvida está pautada nos cinco momentos citados.
3.1. MOMENTO DE INVESTIGAÇÃO
O primeiro momento, denominado investigação, foi destinado ao conhecimento dos sujeitos da
intervenção educativa, o território educativo que a ação seria realizada, as necessidades de
aprendizagem, as experiências educativas anteriores pelas quais passaram os sujeitos da intervenção,
e o tempo e período disponíveis para intervenção educativa.

4
279
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

Os sujeitos da intervenção educativa eram indivíduos adultos, um grupo formado por quatro mulheres
e dois homens, num total de seis pessoas que participaram da entrevista, dentre as quais, duas
afirmaram ser beneficiárias de algum programa social. No quesito religioso, cinco pessoas relataram
possuir religião e de uma não respondeu. As seis pessoas entrevistadas afirmaram não participar de
grupos sociais, e questionadas a respeito de participação em movimentos de cunho étnico-racial,
quatro sinalizaram negativamente e duas se abstiveram. No que diz respeito a aspectos culturais, todos
os indivíduos entrevistados relataram gostar de músicas e ter acesso às redes sociais mais comuns.
No que diz respeito às necessidades de aprendizagem, Bastable (2010) afirma que o enfermeiro
enquanto educador deve atentar-se constantemente aos sinais que afetam o nível de aprendizagem
do indivíduo, bem como às condições especiais do aprendiz, para a partir de então classificar os
determinantes da aprendizagem que precisam de uma avaliação, que subdivide-se em necessidade do
aprendiz, estado da prontidão para aprender e estilos de aprendizagem.
Dos três determinantes, as necessidades de aprendizagem precisam ser
identificadas primeiro, de modo que um plano instrucional possa ser
estruturado para atender quaisquer deficiências nos domínios cognitivo,
afetivo ou psicomotor. Uma vez descobertas quais necessidades precisam
ser supridas, é possível determinar quando e como a aprendizagem pode
ocorrer da maneira mais apropriada (BASTABLE 2010, p. 119).
Nesse sentido, para que uma ação educativa seja efetiva, faz-se necessário conhecer as necessidades
de aprendizagem e as condições especiais de cada aprendiz. Questionando o público alvo a esse
respeito, cinco pessoas afirmaram não apresentar necessidades especiais e doenças crônicas, e uma
pessoa afirma possuir transtorno de comunicação de cunho auditivo, o que se reflete no
comportamento de saúde desses aprendizes, pois, cinco dos indivíduos entrevistados além de não
procurar atendimento de saúde, não participam de atividades que incentivam a sua promoção.
Ao serem arguidos a respeito de participações anteriores em atividades de capacitação sobre
higienização das mãos, quatro, das seis pessoas, afirmaram já haver participado. Todavia, no que se
referem à compreensão a respeito do assunto, três disseram que precisavam aprender sobre como
realizar a lavagem correta, uma sinalizou precisar aprender tudo e duas afirmaram não precisar
aprender nada. Essa divergência de opiniões a cerca da necessidade de aprender pode ser explicada,
pois “não são todos os indivíduos que percebem uma necessidade de educação. Frequentemente, os
aprendizes não estão conscientes do que não sabem ou do que querem saber” (BASTABLE, 2010, p.
119), mas, ainda assim, todos os entrevistados responderam que costumavam lavar as mãos.
Uma vez conhecidas as necessidades de aprendizagem e partindo do pressuposto que educar é uma
das funções mais simples e fundamentais que o enfermeiro deve saber, “para cumprir bem o papel de

5
280
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

educador, esse profissional deve identificar a informação de que os aprendizes precisam e considerar
a prontidão e os estilos de aprendizagem” (BASTABLE, 2010, p. 117).
Relacionado ao estilo de aprendizagem, cinco pessoas deram preferência ao estilo cinestésico, com o
desenvolvimento de atividades práticas, e uma pessoa preferiu o estilo auditivo, em que precisa ouvir,
discutir e formar grupos de estudos.
Para finalizar a entrevista, a última pergunta a ser realizada foi a respeito da durabilidade da
intervenção educativa, em que os participantes sinalizaram dispor de 1 hora para a realização da
mesma, com início às 14h30min e término às 15h30min, pois era o momento em que todos os
funcionários da instituição estariam presentes, tanto os que trabalham no período da manhã quanto
os da noite.
Assim, a partir das respostas obtidas no momento de investigação, procedeu-se a síntese dos dados
coletados, a elaboração de uma árvore de problemas e possíveis diagnósticos/problemas de
enfermagem que serão detalhados no momento de diagnóstico.
3.2. MOMENTO DE DIAGNÓSTICO
Após a coleta dos dados, realizada no momento de investigação, deu-se início ao segundo momento
do processo de enfermagem, denominado momento de diagnóstico, em que os dados foram
sintetizados e possibilitaram a elaboração da árvore de problemas abaixo.

Uma vez elaborada a árvore de problemas, cujo foco do diagnóstico é Higienização das mãos ineficaz,
procedeu-se à conversão do mapa conceitual em enunciados de diagnósticos/problemas de
enfermagem formalizados conforme linguagem documentária, segundo a Taxonomia da NANDA-II,
onde foram obtidos os seguintes diagnósticos:

6
281
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

•Técnica de higienização das mãos ineficaz r/à aprendizagem deficiente, possivelmente causada por
desatenção ou dificuldade de aprendizagem, e por um conhecimento insuficiente sobre a importância
e/p relato dos sujeitos da intervenção.
•Disposição para conhecimento melhorado r/à aprendizagem anteriormente deficiente e/p relatos
no momento da investigação.
•Risco de infecção r/à técnica de higienização das mãos ineficaz.
•Risco de contaminação r/à técnica de higienização das mãos ineficaz.
Após identificados os diagnósticos/problemas educativos, foi possível perceber que o objeto da
intervenção educativa, o tema central da ação que seria realizada era a técnica de higienização das
mãos ineficaz, atrelada à necessidade de conhecimento melhorado a respeito do assunto.
Desse modo, posteriormente a identificação dos diagnósticos/problemas de enfermagem, procedeu-
se a busca por indicadores na Classificação dos Resultados de Enfermagem – NOC que subsidiassem e
confirmassem os diagnósticos, e o estabelecimento metas a serem cumpridas durante a intervenção.
Assim, foram identificados os seguintes indicadores:
00161 - Disposição para conhecimento melhorado

META: Aumentar para 5.


Não apresentarão comprometimento no reconhecimento de mensagens recebidas após realização
da intervenção educativa.

META: Aumentar para 5.


Não apresentarão comprometimento na interpretação de mensagens recebidas após realização da
intervenção educativa.

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282
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

00180 - Risco de contaminação

META: Aumentar para 4.


Reconhecerão o risco de doença de forma frequente após realização da intervenção educativa.
00004 – Risco de infecção

META: Aumentar para 4.


Frequentemente buscarão informações atualizadas sobre os riscos à saúde após realização da
intervenção educativa.
Cada resultado encontrado possui uma escala de mensuração, do tipo Likert de cinco pontos, com
descrição específica das condições em que se encontram os sujeitos da intervenção. Assim, os
números em vermelho representam o estado atual e os números em roxo, a meta que se pretende
alcançar ao final da intervenção educativa.
Dessa forma, após a identificação dos diagnósticos, levantamento de seus respectivos indicadores e
traçado das metas que se pretendiam atingir com a intervenção educativa deu-se início ao
planejamento da ação.
3.3. MOMENTO DE PLANEJAMENTO
Uma vez identificados os diagnósticos, deu-se início ao terceiro momento do processo de
enfermagem, denominado momento de planejamento, em que foram projetadas as finalidades da
intervenção educativa, identificado o tipo de intervenção que seria realizada bem como as teorias que
a subsidiariam, escolhidos os elementos que iriam auxiliar na comunicação verbal e não verbal no
cenário educativo, traçadas as técnicas e estratégias de ensino aprendizagem na saúde que seriam
utilizadas no desenvolvimento da ação e, elaborado o cronograma educativo.
Dessa forma, para atender aos diagnósticos levantados, a intervenção educativa foi projetada com as
seguintes finalidades:

8
283
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

•Objetivo geral: Instruir sobre a higienização das mãos, mostrando sua importância na promoção à
Saúde.
•Objetivos instrucionais: Proporcionar o conhecimento técnico sobre a forma correta de higienização
das mãos.
•Objetivos comportamentais: Demonstrar a melhoria da qualidade de higienização das mãos e o
entendimento sobre a importância da higienização constante das mãos.
A escolha do tipo de intervenção educativa foi baseada nas finalidades projetadas e no cenário
educativo em que seria desenvolvido, neste caso, o Restaurante Universitário da UESC. Assim, a
intervenção realizada foi uma ação de educação em serviço e em saúde, pois estava relacionada tanto
à aprendizagem organizacional quanto a educação em saúde dos usuários.
Partindo do pressuposto que, para que a aprendizagem em serviço aconteça e novos conhecimentos
sejam produzidos, a ação foi desenvolvida “considerando-se os princípios da aprendizagem
significativa e de construção da autonomia dos sujeitos, evitando-se a mera transmissão de
conhecimento” (BRASIL, 2014).
Para tanto, a intervenção educativa foi projetada com base nos ideais preconizados pela Teoria
Cognitiva da Aprendizagem, cuja chave para o aprendizado está na capacidade cognitiva do indivíduo,
ou seja, na tríade percepção, pensamento e memória (BASTABLE, 2010); pela Teoria Social da
Aprendizagem, em que a aprendizagem perpassa por três processos distintos – a saber: processo
externo, em que há um modelo de comportamento a ser percebido pelo aprendiz; processo interno,
ou autoregulação e controle do aprendiz, que se subdivide em atenção, retenção, reprodução e
motivação; e, processo externo, em que o aprendiz, possivelmente, desempenhará o comportamento
percebido inicialmente (BANDURA, 1977 apud BASTABLE, 2010); – pelas Abordagens teóricas da
Comunicação na Saúde e Enfermagem e pela Política Nacional de Promoção à Saúde.
Com o objetivo de documentar o planejamento da ação educativa utilizou-se o Plano de Ensino
Aprendizagem - Programa Educacional (Ciclo de Aprendizagem) que contempla quatro, dos cinco
momentos do processo de enfermagem, a saber: momento de investigação, planejamento,
implementação e avaliação.
Dessa forma, o planejamento da intervenção educativa lançou mão das seguintes estratégias de
ensino:
•Dinâmica da maçã – 10 min;
•Dinâmica da caixa preta – 10 min;
•Instrução sobre a prática correta sobre higienização das mãos – 5 min;

9
284
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

•Aplicação da técnica de higienização das mãos – 10 min;


•Mesa redonda: Importância da higienização das mãos – 25 min;
•Avaliação.
Para cada momento da intervenção foi estabelecido um tempo máximo de realização, pois “a
organização do tempo, ou seja, o ponto em que o ensino deve acontecer é muito importante.
Qualquer coisa que afete o conforto físico ou psicológico pode afetar a habilidade e a disposição para
aprender” (BASTABLE, 2010, p. 128), dessa forma é fundamental que o facilitador esteja atento ao
tempo dedicado a cada atividade realizada, sendo sensível, é claro, àquelas que necessitam de um
tempo maior para que a aprendizagem efetiva aconteça.
Nesse sentido, o planejamento se faz imprescindível, para que cada atividade realizada numa ação
educativa não seja feita de forma solta, antes tenha sentido e fins específicos, interajam entre si e
sejam de cunho significativo para o aprendiz, para que este a todo o momento seja um participante
ativo do processo, demonstrando prontidão para aprender, que de acordo com Bastable (2010, p.127)
“pode ser definida como o momento em que o aprendiz demonstra interesse em aprender a
informação necessária para manter uma ótima saúde ou para se tornar mais habilidoso em alguma
tarefa”.
Para subsidiar a intervenção foram usados os seguintes recursos: convites individuais; cartaz convite,
colado em pontos estratégicos do local em que seria realizada a ação; folder; panfletos ilustrativos da
ANVISA, que foram colocados posteriormente em pontos estratégicos; duas Maçãs; Antisséptico;
caixa-preta com luz negra; substância quimioluminescente; papel toalha; e certificados para os
participantes.
Encerrando o momento de planejamento, seguiu-se com a avaliação, que aconteceu sob duas formas
distintas, uma ao final da intervenção educativa realizada, em que um momento de conversa informal
foi aberto para que os participantes pudessem expressar os sentimentos emergentes da experiência,
trocar informações e possíveis sugestões e a outra durante todo o processo em que durou a
intervenção, desde sua construção, com a investigação, até o momento em que a ação deu-se por
encerrada.
3. 4. MOMENTO DE IMPLEMENTAÇÃO
O quarto momento do processo de enfermagem é denominado momento de implementação, onde
as atividades previamente planejadas, baseadas em diagnósticos identificados durante a investigação,
são postas em prática.

10
285
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

Dessa forma, de posse do planejamento, deu-se início à intervenção educativa no RU, com duração
total de 1 hora.
A primeira estratégia utilizada para captar a atenção do púbico e mantê-lo atento e participativo
durante toda a intervenção foi a “dinâmica da maçã”, cujo objetivo era demonstrar que ambientes e
superfícies podem estar contaminados mesmo que tal sujidade não seja perceptível a olho nu. Para
tanto, foram utilizadas duas maçãs, uma limpa e outra em que uma quantidade da substância
quimioluminescente foi depositada, de modo que, ao entrar em contato com a mão dos participantes,
estes percebessem a diferença da textura entre as duas, e o produto ali colocado aderisse em uma de
suas mãos para posterior visualização no decorrer da atividade.
Em seguida, utilizou-se a técnica de quimioluminescência, com uma substância apropriada, cujo
princípio ativo consiste na emissão de luz resultante de uma reação química, na dinâmica denominada
“caixa preta”. Segundo Câmara (2014), a energia gerada pelo rompimento de ligações fracas,
produzirá compostos intermediários eletronicamente excitados, que serão capazes de emitir luz ao
retornarem a seu estado de energia inicial, e uma vez associada a marcadores luminescentes, nesse
caso a substância quimioluminescente, torna esta técnica fundamental.
Dessa forma, quando os participantes colocaram as mãos, aparentemente limpas, para visualização
dentro da caixa preta, cuja única fonte de emissão de luz era uma lâmpada fluorescente de luz negra,
toda a superfície com a substância existente tornou-se visível. Este fato gerou uma sensação de frenesi
no público presente, e o deixou receptivo a toda e qualquer orientação que fosse ministrada na
intervenção, que por sua vez, contribuiria para a aprendizagem significativa, pois “a prontidão
acontece quando o aprendiz está receptivo, disposto e capaz de participar do processo educativo”
(BASTABLE, 2010, p. 127).
Nesse sentido, é papel do educador, vale ressaltar o enfermeiro enquanto educador, identificar o que
e quando ensinar, adaptando-se as necessidades e especificidades do aprendiz. Segundo Bastable:
O papel de educador desses profissionais está profundamente atrelado ao
crescimento e ao desenvolvimento de sua profissão. Desde a metade do
século XIX, quando a enfermagem foi reconhecida pela primeira vez como
disciplina independente, a responsabilidade pelo ensino é reconhecida
como um importante papel do profissional enquanto cuidador (2010, p. 26).
Partindo desse pressuposto, deu-se início à instrução sobre a prática correta de higienização das mãos
por um dos graduandos em enfermagem. Em seguida, baseando-se nos ideais preconizados pelas
teorias cognitiva e social da aprendizagem que subsidiaram essa intervenção, os participantes
procederam à aplicação das técnicas apreendidas. De acordo com o manual do Ministério da Saúde:

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286
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

A ação dá sentido e significado à prática. Ela pressupõe a participação ativa


do sujeito nos distintos processos de exploração, seleção, combinação e
organização de informações. Existem conteúdos que podem ser adquiridos
mediante mecanismos de observação e recepção, mas os aspectos
operativos do pensamento só se configuram a partir das ações e da
coordenação entre elas (2014, p.19).
Dessa forma, foi possível aos participantes fazerem uma interseção entre a teoria apreendida e a
aplicação efetiva dessa teoria, para que o processo de aprendizagem fosse significativo para eles.
Assim, após a aplicação da semiotécnica de lavagem das mãos, foi aberta uma mesa redonda
composta pelos graduandos em enfermagem, participantes da intervenção e uma convidada especial,
doutora em Imunologia pela Universidade de São Paulo, com experiência na área de ciências e ênfase
em Imunologia e Microbiologia. Na referida mesa, foram abordados temas como microbiota
transitória e residente, epidemiologia das doenças causadas por esses microrganismos e higienização
das mãos, como mecanismo de prevenção de doenças.
A discussão iniciou abordando os conceitos de microbiota transitória e residente. A primeira, adquirida
por contato direto indivíduo-indivíduo, superfícies e ambientes contaminados, coloniza a epiderme
pelo curto período de tempo em que ali sobrevive e pode ser removida a partir de fricção mecânica
com água e sabão. E a segunda, está alojada na derme, não é facilmente removível por água e sabão
e é menos passível de causar infecção por contato (CARDOSO e MIMICA, 2016).
De acordo com a ANVISA (Agencia Nacional de Vigilância Sanitária), a pele pode servir como local em
que os microrganismos se instalam e podem ser transmitidos por contato direto, ou indireto, e
também por meio de utensílios ou superfícies do ambiente. Por este motivo a higienização correta das
mãos, em que todos os passos são contemplados, é de fundamental importância por prevenir a
disseminação de doenças que vão desde simples infecções a infecções graves.
As doenças causadas por esses microrganismos fazem parte do grupo de doenças infecciosas
provocadas por bactérias gram-positivas que se apresentam de várias formas: cocos, diplococos e
principalmente estafilococos. Eles podem se replicar em temperatura que varia de 7,8ºC a 48,5ºC
(PINHEIRO, 2017). Faz-se necessário destacar que os estafilococos habitam as superfícies
cutaneomucosas da maioria das pessoas sadias, e se mostram infecciosos apenas em grande número.
Porém se forem estabelecidas e não forem tratadas, podem levar a um quadro grave, induzindo lesões
e morte celular (COTRAN, 1991).
Esse tipo de microrganismo é responsável por causar inflamações e invadir linfócitos produzindo
septicemia ou endocardite grave, além de lesar os tecidos por ação local – por meio da ação de suas

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287
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

enzimas – ou por ação a distancia – na ausência do agente – por meio das toxinas produzidas (COTRAN,
1991).
Os principais surtos de intoxicação alimentar, notadamente, estão relacionados à higienização
inadequada das mãos. Dos diversos tipos de microrganismos detectados em alimentos, o principal
gênero que se destaca, por ser encontrado na pele das pessoas, é o Staphylococcus aureus (TEIXEIRA,
2018).
Para tentar amenizar esse fato, a ANVISA, criada pela Lei nº 9.782 de 1999, através da Vigilância
Sanitária que exerce o papel do controle sanitário, procura garantir a qualidade dos produtos
consumidos em todas as estâncias, com ações de caráter regulamentador, fiscalizador, educativo e
punitivo.
Dentre as ações de cunho educativo realizada pela ANVISA, está a criação do Manual de Biossegurança
(2016), para o qual a iniciativa educativa deve seguir dois princípios básicos, a saber: “Que as ações de
educação sejam desenvolvidas enquanto processo” e “Que considere o contexto socioeconômico,
antropológico e cultural”.
Para subsidiar estas ações, a ANVISA disponibiliza manterias com caráter informativo, por exemplo, a
Cartilha de Boas Práticas para Serviços de Alimentação, que traz questões e orientações de suma
importância para a área, como: Doenças Transmissíveis por Alimentos (DTA); a Resolução da Anvisa n°
216/2004 — onde são estabelecidas normas que devem ser obedecidas por manipuladores, com
intuito de assegurar a não contaminação dos alimentos, estendendo-se da venda até o consumidor;
Contaminação; Microrganismos; Manipulação dos alimentos; Higienização das Mãos — foco deste
trabalho; além de Procedimentos Operacionais Padronizados (POP) de higienização dos recursos e
materiais.
A semiotécnica ensinada foi baseada nos 11 passos padronizados para higienização das mãos
preconizados pela ANVISA. Todavia, vale ressaltar que a lavagem das mãos por si só, não demonstra
eficácia contra todos os tipos de microbiotas, para muitas é necessário que antissépticos sejam
utilizados.
Dessa forma, no último ponto abordado na mesa redonda, higienização das mãos como mecanismo
de prevenção de doenças, foram levantadas questões a respeito do uso de produtos, como o álcool e
sabonetes simples, no procedimento de higienização das mãos, ambos escolhidos por serem tanto
relativamente eficientes quanto de fácil acesso e baixo custo para a instituição e funcionários
individualmente. O álcool, em especial os que são feitos a base de etanol, potente agente
antimicrobiano, por agir desnaturando e coagulando as proteínas, e possivelmente causando lise

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288
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

celular; e os sabonetes comuns, principalmente os líquidos, que são úteis tanto na remoção de sujeiras
aparentes, quanto de microbiotas transitórias, todavia, sua eficácia dependerá da técnica empregada
e do tempo gasto com a mesma (KAWAGOE, 2016).
Por fim, encerrando a ação, foi aberto um momento de conversa informal em que os participantes
expuseram seus pontos de vista a respeito do projeto que foi desenvolvido com eles, sua eficácia,
importância no cotidiano pessoal e no ambiente de trabalho, eliminaram possíveis dúvidas existentes
e deram sugestões sobre outras ações que poderiam ser realizadas.
3. 5. MOMENTO DE AVALIAÇÃO
Por fim, encerrando o processo de enfermagem que subsidiou a intervenção proposta, está o
momento de avaliação. Segundo Bastable, a avaliação pode ser entendida como um:
Processo que pode fornecer evidências de que nossas atividades como
enfermeiros e enfermeiros educadores são um diferencial que valoriza o
cuidado que fornecemos. Avaliação é definida como um processo
sistemático em que o valor ou o mérito de algo - nesse caso, e ensino e a
aprendizagem- é julgado (2010 p. 580).
Nesse sentido, a avaliação consiste em uma ferramenta fundamental, uma vez que perpassa por todos
os momentos do processo de enfermagem. Sendo assim, saber avaliar e como avaliar é de extrema
importância para o fazer do enfermeiro.
Dessa forma, é aconselhável que uma intervenção educativa possua três fases de avaliação:
diagnóstica, onde as necessidades do aprendiz são identificadas, para que o planejamento seja
baseado em tais necessidades; periódica, que possibilita ao educador a perceber se a ação e seus
participantes estão seguindo conforme o esperado; e a avaliação final, que lhe permite analisar se, e
até que ponto, foram supridas as necessidades inicialmente identificadas (BASTABLE, 2010).
Assim, a avaliação se fez presente em todos os passos da intervenção educativa, desde a investigação
até a realização da ação. Na primeira, foi empregada uma avaliação diagnóstica, onde os dados foram
coletados, resumidos, interpretados e usados para planejar a ação, e na segunda, essa ferramenta foi
usada para determinar o sucesso dessa ação.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar da prática de lavagem das mãos ter se tornado um hábito constante no cotidiano da população,
principalmente quando existe alguma sujidade aparente, ainda é possível perceber um déficit no
conhecimento da real importância de se higienizar corretamente as mãos, seguindo todas as técnicas
e tempo destinado a cada uma delas. Tal fato é bastante evidente principalmente nos âmbitos de
assistência à saúde e produção de gêneros alimentícios.

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289
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

Uma vez que as mãos são veículos de transmissão de microbiotas tanto transitórios quanto residentes
e que cada indivíduo manifesta resistência aos diversos tipos existentes de forma diferente, conhecer
os microrganismos mais encontrados nas mãos de manipuladores de alimentos em restaurantes
populares dando ênfase a sua causa (etiologia), os mecanismos de seu desenvolvimento (patogênese),
as alterações estruturais induzidas nas células e nos órgãos do corpo (alterações morfológicas), e as
consequências funcionais das alterações morfológicas (significado clínico) foi fundamental para o
público presente.
Partindo desse pressuposto, a intervenção educativa foi planejada seguindo os cinco momentos do
processo de enfermagem, baseada nos diagnósticos identificados no momento de investigação, de
modo que cada atividade visava a real necessidade dos aprendizes, para que estes fossem
participantes ativos do processo e que cada momento da ação lhes fosse significativo e a
aprendizagem efetiva acontecesse.
A capacitação pode não gerar resultados imediatos, uma vez que o processo de aprendizagem
acontece de forma gradativa. Todavia, pode ser considerado um marco inicial para um futuro, no qual,
a consciência plena da importância da higienização adequada das mãos é beneficente não somente
para os funcionários do Restaurante Universitário, mas também para toda comunidade acadêmica que
usufrui dos serviços prestados pelo estabelecimento.
Assim, a oportunidade propiciada aos estudantes do 3º semestre de graduação em enfermagem, pela
disciplina de Vivências Interdisciplinares III, de exercer uma das muitas faces do fazer do enfermeiro
que é a arte de educar, foi de extrema importância para sua formação enquanto futuros profissionais,
pois possibilitou-lhes fazer uma intersecção entre teoria e prática ao realizar uma intervenção
educativa em que os cinco momentos do processo de enfermagem foram percebidos, o que por si só
foi profundamente enriquecedor.

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290
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

5. REFERÊNCIAS

BASTABLE, Susan B. O enfermeiro como educador: princípios de ensino-aprendizagem para a prática


de enfermagem /Susan B. Bastable; tradução Aline CapeIli Vargas. - 3. ed. - Porto Alegre : Artmed,
201O. 688 p.; 25 cm.

BRASIL. Ministério da Saúde. Educação Permanente em Saúde: um movimento instituinte de novas


práticas no Ministério da Saúde: Agenda 2014 / Ministério da Saúde, Secretaria-Executiva,
Subsecretaria de Assuntos Administrativos. – 1. ed., 1. reimpr. – Brasília : Ministério da Saúde, 2014.
120p.:il.Disponívelem:http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/educacao_permanente_saude_m
ovimento_instituinte.pdf. Acesso em: 02/08/2017.

CARDOSO, C. L; MIMICA, L. M. J. ASPECTOS MICROBIOLÓGICOS DA PELE in SEGURANÇA DO PACIENTE:


Higienização das mãos. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (Ministerio da Saúde). Brasília- DF;
2016.

CARVALHO,M.T.M.Lavarasmãos:essehábitodevecontinuar.Disponívelem:http://www.nutricaoempau
ta.com.br/lista_artigo.php?cod=1947. Acesso em: 01/08/2017.

CÂMARA, B; Principais metodologias utilizadas em aparelhos no laboratório clínico. Biomedicina


padrão.Julho,2014.Disponívelem:http://www.biomedicinapadrao.com.br/2014/07/principaismetodo
s-utilizados-em.html. Acesso em: 05/08/2017.

COTRAN, Ramzi S.; KUMAR, Vinay; ROBBINS, Stanley L.: Robbins - Patologia Estrutural e Funcional. 4.
ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1991.

KAWAGOE, J. Y. PRODUTOS UTILIZADOS NA HIGIENIZAÇÃO DAS MÃOS in SEGURANÇA DO PACIENTE:


Higienização das mãos. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (Ministerio da Saúde). Brasília- DF;
2016.

LAVINSKY, A. E et al. Vivências Interdisciplinares na Enfermagem III: Plano de Ensinagem. 3ª ed. Ilhéus;
2017.

MACHADO, Vitor Barletta. O longo caminho da interdisciplinaridade. Revista Eletrônica de Educação.


São Carlos, SP: UFSCar, v. 7, no. 1, p. 416-432, mai. 2013. Disponível em http://www.reveduc.ufscar.br.

PINHEIRO,Pedro.DOENÇASCAUSADASPORBACTÉRIAS.2017.Disponívelem:http://www.mdsaude.com
/2011/05/doencas-bacterias.html. Acesso em: 05/08/2017.

SOUSA, F. C; RODRIGUES, I. P; SANTANA, H. T. Perspectiva Histórica in SEGURANÇA DO PACIENTE:


Higienização das mãos. Agencia Nacional de Vigilancia Sanitaria (Ministerio da Saúde). Brasília- DF;
2016.

TEXEIRA,A.F.M.Doençasmicrobianasdeorigemalimentar.Disponívelem:http://www.ciencianews.com.
br/arquivos/ACET/IMAGENS/revista_virtual/biologia_molecular/biomol06.pdf. 2018. Acesso em:
05/08/2017.

16
291
A Higienização Das Mãos Sob A Ótica Da Interdisciplinaridade

UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SANTA CRUZ (UESC). DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE.


COLEGIADO DE ENFERMAGEM. Curso de bacharelado em enfermagem: projeto político pedagógico.
Ilhéus, BA: UESC, 2014. 104 p. apud LAVINSKY, A. E et al. Vivências Interdisciplinares na Enfermagem
III: Plano de Ensinagem. 3ª ed. Ilhéus; 2017.

MOORHEAD, S; JOHNSON, M; MAAS, M. L; SWANSON, E. NOC Classificação dos Resultados de


Enfermagem. Tradução da 5ª ed. Rio de Janeiro: Elsevier Editora Ltda, 2016.

NANDA, International, Inc. Nursing Diagnoses: Definitions & Classification 2015 – 2017, Tenth Edition.
Edited by T. Heather Herdman and Shigemi Kamitsuru. NANDA International, Inc. Published 2014 by
John Wiley & Sons, Ltd.

17
292
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 35
10.37423/201003032

ENFRENTAMENTO DO ERRO DA PRESCRIÇÃO,


DISPENSAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO DE UM
MEDICAMENTO NA EMERGÊNCIA DE UMA
INSTITUIÇÃO PUBLICA: RELATO DE
EXPERIÊNCIA.

Camila Foresti Lemos Secretaria de Estado da Saúde do Distrito


Federal
Evento Adverso Em Uma Instituição Pública: Relato De Experiência.

Introdução: A política de segurança do paciente enfrenta o desafio da subnotificação de eventos


adversos na assistência médica e de enfermagem em pacientes hospitalizados. Objetivo: Apresentar a
vivência de um evento adverso num hospital público do Distrito Federal. Método: Relato de
experiência do enfrentamento da equipe no processo de notificação e de tratamento de um evento
adverso – dose errada de medicamento na emergência pediátrica de num hospital publico do DF em
2017. Resultados: Inicialmente, a notificação foi considerada pelos profissionais de enfermagem como
importante pela necessidade de redução de danos ao paciente, entretanto, após o relato no prontuário
eletrônico a equipe de enfermagem entendeu a notificação do evento averso como punição. Não
houve reunião multiprofisional para discutir o evento. O registro médico em prontuário
responsabilizou exclusivamente a enfermagem- que identificou o erro e rapidamente informou
buscando redução de danos. Conclusão: A exposição da equipe de enfermagem no prontuário
prejudicou o desenvolvimento de uma cultura de incentivo a notificação de eventos adversos, e o
medo dos profissionais acerca da punição, bem como a ausência de ação corretiva/investigativa após
a notificação, poderá estimular a subnotificação. A cultura institucional não incentivou a discussão
entre todos envolvidos (medicina, farmácia e enfermagem) apesar da instituição ter núcleo de
segurança do paciente. Contribuições para Enfermagem: Incentivar a construção de metas para
discussão multiprofissional de eventos adversos nas unidades públicas de saúde, bem como a
notificação destes, pode fortalecer a equipe multiprofissionalmente para a conquista de uma cultura
institucional com foco na qualidade e segurança da assistência ao usuário do SUS.

1
294
Evento Adverso Em Uma Instituição Pública: Relato De Experiência.

REFERÊNCIAS:

1.Oliveira, Maria Amélia de Campos. (Re)significando os projetos cuidativos d Enfermagem à luz das
necessidades em saúde da população. Rev Bras Enferm; 65(3): 401-405, maio-jun. 2012.

2.Nichiata, Lucia Yasuko Icumi; Bertolozzi, Maria Rita; Fracolli, Lislaine Aparecida; Takahashi, Renata
Ferreira.A utilização do conceito "vulnerabilidade" pela enfermagem: [revisão]. Rev Lat Am
Enfermagem; 16(5): 923-928, Sept.-Oct. 2008.

3.Bernardino, Elizabeth; Felli, Vanda Elisa Andres. Saberes e poderes necessários à reconstrução da
enfermagem frente a mudanças gerenciais num hospital de ensino. Rev Lat Am Enfermagem; 16(6):
1032-1037, Nov.- Dec. 2008.

4.Nascimento, Keyla Cristiane; Backes, Dirce Stein; Koerich, Magda Santos; Erdmann, Alacoque
Lorenzini. Sistematização da assistência de enfermagem: vislumbrando um cuidado interativo,
complementar e multiprofissiona. Rev Esc Enferm USP; 42(4): 643-8, 2008 Dec.

5.Santos, José Luís Guedes Dos; Lima, Maria Alice Dias da Silva; Pestana, Aline Lima; Colomé, Isabel
Cristina Dos Santos; Erdmann, Alacoque Lorenzini. Estratégias utilizadas pelos enfermeiros para
promover o trabalho em equipe em um serviço de emergência. Rev Gaucha Enferm; 37(1): e50178,
2016 Mar.

2
295
Medicina e Enfermagem: as ciências da vida

Capítulo 36
10.37423/201003033

RELATO DE CASO: CONDUTA DE UM


CARCINOMA PAPILÍFERO EM AMBULATÓRIO
ACADÊMICO

Mariana Ladeira Ferreira Centro Universitário Presidente Tancredo de


Almeida Neves

Isabella Barbosa Coelho Centro Universitário Presidente Tancredo de


Almeida Neves

Isabela Silveira de Resende Centro Universitário Presidente Tancredo de


Almeida Neves
Relato De Caso: Conduta De Um Carcinoma Papilífero Em Ambulatório Acadêmico

INTRODUÇÃO: O carcinoma papilífero de tireoide (CPT) é o tipo mais comum de câncer nessa glândula
e tem um bom prognóstico quando diagnosticado precocemente. OBJETIVO: relatar um caso de CPT,
a fim de orientar profissionais da importância do exame físico e diagnóstico precoce. METODOLOGIA:
análise qualitativa e descritiva de relato de caso. RESULTADOS: Paciente S.A.C.A., sexo feminino, 57
anos, em consulta no Centro de Especialidades Médicas (CEM), São João Del Rei, apresentou-se com
queixa de nódulo no pescoço. Na história relata quadro gripal em julho/2017 com concomitante
aparecimento súbito de edema em parte anterior do pescoço e surgimento de um nódulo volumoso.
Associado ao nódulo declara disfonia, disfagia e mal-estar geral. Ao exame físico, tireoide com
consistência pétrea e nódulo no lobo esquerdo medindo cinco centímetros. Os exames de sangue
demonstraram alteração em níveis de TSH (9,160 mU/L) e Anti-TPO (141,30 UI/ml). Na ultrassonografia
de tireoide observou-se formação nodular hipoecóica, heterogênea, com calcificação central,
vascularização central e periférica, ocupando quase todo o lobo esquerdo (5,7x2,9x3,1cm). Foi
solicitado punção aspirativa por agulha fina e dosagem de tireoglobulina no aspirado de linfonodo
suspeito (4.766,90ng/mL). Paciente foi submetida a tireoidectomia total e o resultado do
anatomopatológico evidenciou CPT em lobo esquerdo com invasão de cápsula, pequenos vasos e
metástase em linfonodos. Apresentou-se disfônica após cirurgia. Realizou terapia ablativa com
radioiodo e na pesquisa de corpo inteiro houve captação em região cervical anterior. Paciente
evoluindo com dosagem de tireoglobulina indetectável e queda nos títulos de Anti-TG. Foi relatado um
caso atendido no CEM e realizada uma revisão da literatura, através da expressão de busca “papillary
thyroid carcinoma” nas bases de dados do PUBMED e Scielo. Os nódulos tireoidianos são frequentes
na população geral. Apesar de maioria ser benigna, a preocupação na investigação de nódulos
clinicamente relevantes, ou seja, palpáveis ao exame físico, se faz necessária para detecção precoce
dos nódulos malignos. O câncer de tireoide atinge três vezes mais mulheres na faixa entre os 20 a 65
anos. O tipo mais comum é o carcinoma papilífero - pouco agressivo e de evolução lenta. Na maioria
das vezes é diagnosticado em exame de rotina e tem bom prognóstico com o tratamento adequado.
Quando ocorrem metástases os gânglios linfáticos costumam ser afetados. CONCLUSÃO: Essa paciente
poderia ter recebido um tratamento menos invasivo e a disfonia permanente poderia ter sido evitada
com uma cirurgia menor, caso o nódulo fosse detectado precocemente. Frente ao exposto, se torna
sobreeminente a avaliação médica diante de quaisquer anormalidades.

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