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PARA UMA EPISTEMOLOGIA DO DISCURSO E DA PRÁTICA ANTROPOLÓGICA

Adolfo Yañez Casal – Edições Cosmos, Lisboa, 1996

Introdução

O homem assume o papel de artesão do progresso e de todo o conhecimento. O homem, a sua


unidade e a sua diversidade tornaram-se um enigma pluridisciplinar. O problema da diferença e da
identidade culturais, tema antropológico por excelência, continua a polarizar as atenções dos cientistas
sociais, responsáveis políticos, maiorias e minorias étnicas, etc.. Como compreender e explicar a unidade
na diversidade e a diversidade na unidade?
A tensão intelectual característica da aventura antropológica no momento de transformar os
resultados da investigação etnográfica em contributos antropológicos, epistemologicamente validados. A
perspectiva comparativista, recomendada pelos mais prestigiados mestres desta disciplina, quer como
método, quer como objectivo e exigência da antropologia, permite descobrir grelhas culturais comuns,
traços de universalidade, denominadores constantes, ao mesmo tempo que identificava e esclarecia os
particularismos e as diferenças identitárias de cada sociedade. “O método comparativo deveria ser
reintroduzido na antropologia, recuperando as suas potencialidades científicas ... podemos ter perfeita
consciência das diferenças, mas quando pretendemos compreender e explicar a sua natureza, utilizando o
método comparativo, fazemo-lo conceptualizando-as em termos muito gerais, tais como a passagem do
mito à história, da magia à ciência, do estatuto ao contrato, do colectivo ao individual, do ritual á
racionalidade. Este movimento é expor inevitavelmente não só em termos de processo, mas também de
progresso.” (Goody, 1988).
Se a todas as “singularidades” do acto etnográfico-antropológico acrescentarmos os problemas da
própria inteligibilidade do ser humano como fenómeno bio-psico-sociocultural, apercebemo-nos
claramente que a antropologia é uma ciência desbordante de tenções, incómoda e comprometida por igual
com o particular e o global, o concreto e o plural, o teórico e o prático, o geral e o específico. O seu saber
não tem fronteiras, mas o seu estatuto epistemológico é precário e os seus métodos estão sujeitos a
reajustamentos e adaptações constantes face à infinidade, heterogeneidade e deslizamento dos seus
objectos de estudo.

Dualismo da Modernidade Sujeito/Objecto

“... à etnografia caberia compreender as diferenças e as variedades da experiência humana; à


antropologia caberia explicar o porquê dessas diferenças, tendo em conta a unidade universal do género
humano” (Dan Sperber). A observação participante continua a conservar a sua especificidade. (C. Geertz
e J. Clifford). Interessa reconstruir o debate fazendo apelo à interdisciplinaridade, identificando os
antecedentes, as clivagens e o fio condutor que privilegia o reencontro da antropologia com um dos
padrões epistemológicos da ciência: o padrão da “compreensão-intepretação”, hoje plenamente
desenvolvido e consolidado no equacionamento das questões metodológicas das ciências sociais.

Da Explicação à Compreensão

Processo do conhecimento segundo Kant:


- Componente empírica da experiência e dados sensíveis: fenómenos.
- Componente lógica das categorias mentais: os conceitos a priori.
- Componente da subordinação do objecto ao sujeito cognoscente: o primado do sujeito.

O Padrão Metodológico da Explicação: Emile Durkeim


Durkeim atribui à sociedade o que Kant atribuía à razão no que concerne á origem e fundamento
das categorias lógicas do processo do conhecimento sociológico. Para Durkeim, as representações
simbólicas ou mentais localizam-se na sociedade, mais precisamente na consciência colectiva. “Uma
articulação sociológica permanente entre as noções pelas quais tentamos perceber e interpretar a
experiência e as práticas sociais.” “As categorias do conhecimento são categorias sociais originadas na
sociedade, “representações colectivas” transformadas pelo cientista social em conceitos sociológicos.” A
sociedade é autónoma; as múltiplas interacções estabelecidas entre os indivíduos não alteram a sua
natureza social; e de ordem metodológica.” (Durkeim, 1895-97).
Durkeim baseia-se no positivismo de A. Conte e nos modelos de investigação utilizados nas
ciências naturais: objectividade, explicação causal e experimentação.
Um facto social, sublinha Durkeim, “é tudo o que exerce sobre o indivíduo um constrangimento
exterior.” Os factos sociais como coisas, não é uma coisa, mas um datum. Isto é, o estudo dos factos
sociais, isolados de todas as suas manifestações individuais. “A causa determinante de um facto social
deve ser procurada entre os factos sociais precedentes e não nos estados de consciência individual: a
função de um facto social reside na relação ou relações entre factos e fins sociais; a origem primeira de
todo o processo social deve se procurada na constituição do meio social interno.”
Durkeim recorre à experimentação indirecta, uma espécie de método comparativo, segundo o qual
podem ser demonstradas variações concomitantes entre factos sociais. As variações concomitantes
encerram sempre uma relação de causalidade directa ou indirecta. Durkeim aplicou assim um método
causal-funcional-comparativo. Ex: O Suicídio.

O Padrão Metodológico da Compreensão – Max Weber

Weber tal como Durkeim é um dos fundadores das ciências sociais modernas. O conhecimento
segundo Weber, não é algo puramente passivo ou receptivo; é uma actividade que impõe à experiência as
suas próprias estruturas cognoscitivas.
A compreensão a que Weber adere é no sentido da acção social e não da experiência simbólica. O
conceito de “vida”, não como valor metafísico, mas como fenómeno sujeito à inteligibilidade dos seus
processos.
- Interpretação: a captação do sentido de uma expressão;
- Compreensão: compreensão dos motivos de quem se exprime.
As ciências sociais ou ideográficas tentam conhecer aqueles aspectos da realidade que, em razão
do ideal lógico generalizante das ciências nomotéticas, não podem ser captadas pelo seu método positivo.
Trata-se de acontecimentos e fenómenos concretos e singulares cujo conhecimento necessita de meios
lógicos específicos, isto é, conceitos de pequena extensão e de grande conteúdo. O resultado é o
conhecimento compreensivo de fenómenos sócio-históricos, empiricamente validados.

Bases Epistemológicas do Método Compreensivo

Partindo de quase nada Weber tem a ambição de compreender quase tudo, a sociedade. No
entanto a concepção da infinidade do real condu-lo à pluridisciplinariedade das suas abordagens,
concretizada numa original estratégia metodológica, a construção dos tipos ideais. “Os conceitos, teorias
e métodos seleccionados para apreender a realidade mais não são do que instrumentos aptos a recortar
essa realidade, ordená-la e reconstruí-la para a tornar inteligível da única forma que o espírito humano
procede face ao desconhecido, por aproximações, analogias e hipóteses. A descrição do mais pequeno
fragmento da realidade nunca poderá ser pensado de forma exaustiva
Para Weber, as ciências sociais são ciências da realidade ao mesmo título que as ciências da
natureza; com elas procura-se compreender as peculiaridades da vida que nos rodeia “dentro e fora de
nós”, isto é, nas suas manifestações mais significativas e nos seus condicionalismos causais.
“... todo o conhecimento reflexivo da realidade tentado por um espírito humano se baseia na
premissa tácita de que somente um fragmento dessa realidade poderá constituir, de cada vez, o objecto de
compreensão científica e de que só ele será essencial no sentido de digno de ser conhecido.”
“... todo o objecto social de estudo é, entre muitos possíveis, um pequeno fragmento da realidade,
escolhido em função da sua significação, do interesse e do valor que os indivíduos lhe atribuem.”
Significação, interesse e valor, eis as três componentes a ter em conta na delicada operação com
que se deve iniciar o processo do conhecimento científico das ciências sociais.
- A importância significativa do objecto, a perspectiva conceptual;
- O conceito de cultura é um conceito de valor.
A realidade empírica é cultura. O que confere significação à realidade humana, transformando-a
em cultura, é a sua relação com determinados valores. O objecto e objectivo da análise das ciências
sociais será pois, identificar, compreender e “explicar” o sentido que os indivíduos atribuem às suas
acções e descobrir os motivos pelos quais os indivíduos as executam em determinado momento histórico.
Neutralidade Axiológica e Objectividade

Trata-se de uma metodologia com validade científica, constituindo uma condição da produção do
saber na área das ciências sociais. “A confusão permanente entre discussão científica dos factos e reflexão
axiológica é, uma das particularidades mais frequentes e nefastas nos trabalhos da nossa especialidade.”
A ciência não tem um valor absoluto, “não é um dado da natureza humana, mas um produto de
determinismos culturais.” A investigação científica nunca poderá legitimar juízos de valor. A referência
aos valores é um postulado do processo científico que permite compreender o real social. Os juízos de
valor pertencem à esfera da opinião, da convicção pessoal, da crença e da moral individual.

Preocupações Epistemológicas de Max Weber

1 – O plano da validade, onde residem os cânones da verdade científica;


2 – O plano do valor da verdade, onde se situam as premissas em que assenta a nossa crença – de
Ocidentais e Modernos, ou seja no valor da ciência.
3 – O plano das avaliações, onde qualificamos as coisas e os seres.
“Apenas existe um critério, o critério da eficácia para o conhecimento de fenómenos concretos,
tanto na sua relação como no seu condicionalismo causal e na sua significação.”

Método Compreensivo
A acção é entendida como “conduta humana”, como “acção social”, onde o “sentido pensado pelo
sujeito está referido à conduta dos outros.” O sentido é “o sentido pensado e subjectivo” dos indivíduos
que executam a acção, o sentido contido numa prática histórica, o sentido geral presente numa massa de
casos, ou o sentido construído num tipo ideal, mas nunca um sentido “objectivamente justo, verdadeiro ou
metafisicamente fundado.” A compreensão do comportamento humano, obtido por interpretação do
sentido atribuído, é um método lógico cuja meta é a “evidência”.

Formações Sociais como Entidades Individuais: Estado, Nação, Família


A acção social tradicional determina os hábitos e costumes dos indivíduos de um mesmo grupo.
“O processo de experiências e vivências fundamenta a compreensão dos diferentes “mundos”
constitutivos num espaço e num período determinados: o mundo dos contemporâneos, o mundo dos
antepassados, o mundo dos pares, o mundo dos outros; um todo que constitui “o mundo da vida” ou da
vivência, raiz de todas as situações societárias.”
“É em função da e na “experiência vivida” que se constitui o grupo social, o “nós fusional” a que
se adere por “necessidade vital”, um nós produtivo ou associativo de características racionais ou um
“nós” cultural identitário.”

Shutz
A teoria do conhecimento sociológico, na vertente da interpretação compreensiva da realidade
social, é sem dúvida valiosa e sugestiva, imprimindo uma nova dinâmica às tentativas metodológicas
posteriores, nomeadamente no interaccionismo simbólico e na etnometodologia.
“Comportamentos humanos são todos e sempre comportamentos interpretados por cada actor
social. O objectivo das ciências sociais consistia em reinterpretar objectivamente o sentido comum dos
quotidianos individuais-colectivos.

Interaccionismo Simbólico
Pensamento socioantropológico americano (George Mead e Herber Blumer); “... os
comportamentos humano-sociais de um indivíduo processam-se e constituem-se como respostas às acções
intencionais dos outros.”
“As acções sociais como actos e actividades construídas e protagonizadas por cada actor social
num processo social contínuo de interpretação de sentidos concretos de tempo e espaço.” “O self do
indivíduo.”
Blumer
Este afirma que a investigação empírica é de carácter indutivo e contém duas etapas: a da
“exploração” e a da “inspecção”. Pela exploração o cientista “levanta o véu” que cobre a realidade
particular que quer investigar, permitindo-lhe identificar problemas, formular questões e seleccionar
dados. Pela inspecção, desenvolve relações e correlações, elabora conceitos e interpreta os resultados.” A
abordagem metodológica exposta por Blumer privilegia determinados dispositivos técnicos de pesquisa,
tais como a observação directa, o trabalho de campo, os estudos de caso, as histórias de vida, etc., isto é,
com os que “o mundo da vida” pode ser captado na sua própria expressão, representatividade e realidade,
isto é, no vivido dos indivíduos.

Perspectiva Etnometodológica – Garfinkel


“... observar, estudar e analisar as actividades quotidianas dos membros de uma comunidade,
associação ou grupo social organizado a partir de eles próprios, isto é, a partir das formas que lhes
imprimem, dos valores com que eles as validam e dos conhecimentos com que eles as executam.” “...
estudar os métodos que os actores social utilizam com o fim de construir e interpretar “ a sua própria
realidade e racionalidade enquanto comunidade ou grupo no seu dia-a-dia.”
A vida quotidiana, objectos, valores, saberes – contém o sentido que o processo de interacção
social lhes atribui, possibilitando a interpretação dessa realidade construída e reconstruída por cada actor
social. As práticas sociais são o que os actores sobre elas sabem, compreendem e relatam. Ao cientista
social resta-lhe descrever e reinterpretar, tornando inteligível o que os actores sociais sabem fazer, dizem
e sabem dizer.

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