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ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR E SALAZARISMO:

O salazarismo, como esclarece qualquer bom dicionário, pode comportar três acepções: pensamento e
acção política de António de Oliveira Salazar (1889-1970); regime, conhecido por “Estado Novo”,
vigente em Portugal durante quatro décadas (1933-1974); adesão ou simpatia aos seus pressupostos e/ou
ao seu mentor, o António Oliveira. Deixando de parte, pelo seu carácter mais conjuntural ou mais
sentimental esta última acepção ( que reveste, hoje, sobretudo aspectos de saudosismo), consideremos
aqui as duas primeiras acepções.
Na bibliografia de Salazar não há nenhum tratado ou livro de ciência política nem uma síntese ou cartilha
do seu pensamento, que apenas há-de buscar-se nos seus numerosos escritos, artigos e conferências antes
da chegada ao Governo, discursos e notas oficiosas já no exercício do Poder. O próprio título por ele dado
às suas intervenções na vida nacional – Discursos e Notas Políticas – elucida sobre a natureza imediata e
pragmática de tais textos, apesar disso nunca deixados ao acaso da improvisão, mas longamente
elaborados e cuidadosamente escritos. Entendendo-se que “governar representa, afinal, uma actividade
empenhada numa realização política”, acreditando mais na eficácia dos resultados do que nas puras
construções intelectuais, há porém, na aprofundada reflexão de Salazar, uma filosofia ou doutrina política,
pois “o governo é por si mesmo uma doutrina de acção”. Trata-se fundamentalmente, de normas ou
directrizes para a acção, deduzidas da observação dos factos e da lição da História: as suas origens rurais
decerto o terão impregnado desse realismo que partia dos factos para as ideias. É essa posição de
observador que prevalece da experiência e é esse método empírico que caracteriza o salazarismo; isto é,
mais atento ao concreto das situações do que tentado pelo espírito da abstracção ou pelas “ficções
ideológicas”. Contra a sedução de modelos universais, reclama o direito de a nação se organizar segundo
as suas concepções próprias, as suas necessidades e índole.
Se o Estado é “uma doutrina em acção”, reflecte também a constituição natural da sociedade – família,
grupos profissionais, freguesia, município. No cepticismo salazarista, quanto às ideologias e quanto aos
homens, havia porém algumas certezas indiscutíveis: Deus, a Pátria, a Autoridade, a Família, o Trabalho.
Partindo do princípio de que “não há Estado forte onde o Governo o não é”, depreende-se que “só um
governo forte pode ser um Governo nacional”, advertia, porém, contra os abusos e as responsabilidades
da autoridade, dado que ela não é uma propriedade, é um ónus”. Se se define o Estado Novo como um
Estado de obras, não se esgota aí, em realizações materiais, ao menos no seu mentor, interessado em dar-
lhe um “suplemento de alma”. A doutrina política do salazarismo não é uma construção original, mas
uma hábil síntese de princípios acomodados às necessidades da governação de um estadista de notório
pendor reflexivo e vocação literária. Nas críticas do salazarismo ao liberalismo (predomínio do
económico sobre o social), à democracia (predomínio da política sobre a vida) e ao socialismo
(predomínio do social sobre o económico), revela-se a tendência e lição maurrasiana do primado da nação
e da ordem, subvertida, tal ordem pelos três RRR que destruíram: com a Reforma, a unidade religiosa;
com a Revolução o Antigo Regime; com o Romantismo, a disciplina clássica – e revela-se, ainda, o
influxo da Doutrina social da Igreja. E era a formação católica de Oliveira Salazar a temperar o
racionalismo, o positivismo, o agnosticismo do doutrinário da Action Française. Em reacção a um
liberalismo tido por intolerante e jacobino, entendia-se que era grave dever dos católicos organizarem-se e
actuarem politicamente, para não deixarem o terreno livre aos partidos e movimentos laicistas, às vezes
sectariamente anti-religiosos. Foi esse imperativo que levou por exemplo, à formação em Itália, do
Partido Popular (precursor da Democracia Cristã) e, antes daquele e em Portugal, do Centro Católico,
onde militou Salazar.
Desses movimentos e dessas correntes de ideias aproveitou o salazarismo o que convinha ao seu projecto
político antidemocrático, antiparlamentar, assente na autoridade e na solidariedade social. No confronto
que opõe capital e trabalho, a conflitualidade devia ser substituída pela colaboração e pela conciliação de
interesses, assumindo o Estado o papel de árbitro: “Para ser árbitro superior entre todos os interesses é
preciso não estar manietado por alguns.” O sincretismo do pensamento político-social salazarista adquire
maior dimensão pela singular coerência entre os últimos e os primeiros escritos, pelo rigor lógico e apuro
formal, pelo extremo cuidado em estabelecer distinções e afirmar o direito à diferença. Na maré alta dos
facismos dos anos 30, houve preocupação de sublinhar o que distinguia o regime português dessa
ideologia, à qual, com rigor conceptual discutível, pretendem equipará-lo. Num discurso de 1934, afirma-
se a necessidade de afastar «o impulso tendente à formação do que poderia chamar-se o Estado totalitário.
O Estado que subordinasse tudo sem excepção à ideia de nação ou de raça por ele representada, na moral,
no direito, na economia e na política, apresentar-se-ia como ser omnipotente, princípio e fim de si mesmo,
a que tinham de estar sujeitas todas as manifestações individuais e colectivas, e poderia envolver um
absolutismo pior do que aquele que antecedera os regimes liberais, porque ao menos esse outro não se
desligara do destino humano.» Contrariamente a certas interpretações redutoras, não se afigura que o
salazarismo seja uma versão portuguesa (mais branda portanto) do facismo enquanto não diviniza o
Estado ( que tudo e todos absorve, da economia à educação), mas reconhece e assegura o livre jogo das
actividades particulares, porque, onde está o monopólio aí começa o socialismo. A função do Estado
deve ser de um moderado intervencionismo e, no campo educativo, meramente supletiva em relação à
família e à Igreja. Por outro lado, constitucionalmente se consagrava (a. 4º da Constituição Política de
1933) que o Estado “só reconhece como limites, na ordem interna, a moral e o direito.” Num discurso de
1942, proclama-se que não se poderia aceitar que “a hipertrofia de autoridade desconhecesse os direitos
de consciência; nem que o Estado absorvesse toda a vida da nação e os agrupamentos naturais que
defendem a própria vida e as actividades dos homens; nem que as necessidades económicas sejam o
princípio básico da organização das nações ou da sociedade internacional; nem que a iniciativa individual
desapareça como órgão propulsor da actividade social e passe para a autoridade pública toda a iniciativa,
toda a riqueza e todo o comando da vida em sociedade”. O que (para além de meras concepções formais)
poderia aproximar o salazarismo do modelo facista europeu seria, contraposto a uma concepção
igualitária, o reconhecimento de desigualdades naturais e o fetichismo do povo substituído pelo culto do
chefe – um chefe que, no caso português, não recorre à eloquência e á demagogia nem se rodeia de
exterioridade e pompa. Um outro ponto de contacto seria a concepção pessimista acerca do homem,
segundo a qual ele não melhora (como pretende o optimismo progressista) pela melhoria das estruturas,
pois «entre tudo o que muda, o homem é o que menos muda”. No pessimismo salazarista converge a
filosofia cristã do homem como ser decaído e a observação dos defeitos naturais e dos vícios adquiridos
do Português: temperamentalmente, caracteriza-o o “desregramento passional” que faz dele um ser mais
emotivo que racional, mais imaginativo que realizador, mais fatalista que perseverante. Poder-se-á pois,
em síntese, caracterizar o salazarismo como uma específica doutrina autocrática, mais paternalista que
policial, dominada pela figura carismática do chefe, e que, em favor dos interesses gerais (unidade,
integridade, independência), sacrifica liberdades cívicas (de associação, de expressão), e que, em nome da
aurea mediocritas, ou da dignidade de uma vida modesta, trava o progresso que seja miragem de
enriquecimento indefinido.
O objectivo do salazarismo em criar um sistema que permitisse a eficácia governativa explica, juntamente
com o referido pessimismo antropológico, que o seu teorizador não tenha pretendido legislar para toda a
eternidade nem assegurar a continuidade do regime para além da sua morte física. Parecia entender, como
um senhor absoluto, que depois dele era o dilúvio e que tudo se dispersaria e perderia valor, tal como um
património delapidado por herdeiros ou delfins, pouco propensos a um estilo de parcimónia ou de
renúncia. Se, ainda mais que uma filosofia ou “uma doutrina em acção”, o salazarismo foi um método de
governar pessoal e intransmissível, aí se traçam as suas fronteiras. Não obstante o criador do sistema
haver advertido que outras poderiam ser as pessoas e, naturalmente, outros os princípios inspiradores, a
verdade é que o edifício pouco resistiu ao ocaso do arquitecto. Afinal, não eram apenas os princípios, mas
eram também as pessoas e os métodos que firmavam o edifício: dir-se-ia que os princípios só poderiam
vingar com a acção decidida e decisiva de quem, numa fórmula célebre, proclamara o imperativo de
estudar com dúvida e realizar com fé: «Ai do homem público cujo espírito fosse presa da eterna dúvida!»
Invertida aquela fórmula, verificou-se que não eram só os princípios, mas também os métodos que
precisavam de ser os mesmos para que o salazarismo – a seu modo, uma forma de voluntarismo –
sobrevivesse a Salazar.

Referências:

António Oliveira Salazar, Discursos e Notas Políticas (6 vols.), Coimbra, 1935-1967.


Manuel Braga da Cruz, As Origens da Democracia Cristã e o Salazarismo, Lx, 1980.
Marcello Caetano, Minhas Memórias de Salazar, Lx, 1985.

JÚLIO MENDONÇA
POESIA

SEXTA-FEIRA

À Sexta-feira os olhos das mulheres sabem a mel. Adivinha-se-lhes


O leite morno, o vagar do corpo de lavas contidas transbordando.
Pequenos peixes prateados de silêncio e algas desaguam no paladar
Dos sorrisos esquivos. À Sexta-feira as mulheres semicerram os olhos
Fixam-se no espaço da solidão sobre os espaços gárrulos dos jovens
Inocentes e aguardam que o leopardo do encontro afie as suas garras
E as agarre pelo dorso e lhes devore o ardor da floração, num fim-
-de-semana de imaginário sexo. Eu colho as mulheres à Sexta-feira
Pelo pé fragil de sua seiva, vou aos ninhos de seus corpos, sorvo a
Delinquência lúbrica de seus gestos, o hálito húmido das florestas
Virgens. Messalina sem risco nem punição é cada mulher à Sexta –feira
Corrida para o Week-end, para o pic-nic dos desejos, para o tricot falaz da
Emoção, para o encontro programado quando o sol se põe, quando o mar
Se cerra ao melancólico olhar, ou apenas a eterna espera de uma aventura.
Eu Casa-Nova da modernidade beijo-lhes a lepra furtiva da frustação
Enquanto ao meu lado um homem-gato retira do orifício virginal da
Fêmea a ambrosia ébria e fantástica da imaginação.

O RIO

Corria aquele já conhecido rio, caudal invernoso dos dias de chuva.


As gotas nas janelas batiam em staccato e luziam diamantes intermitentes
Sob a árvore estrídula-visual do néon. O cavaleiro dos dias abrigava-se
na montra obscura do medo, do frio, da perseguição. Eram assim os dias
do cavaleiro dos dias. Os carros passavam vorazmente inundando os passeios
com leques de lama. As casas mantinham um ressaibo morno a crianças
crescendo infâncias diversas, crescendo para a ordem única, a imposta ditadura
das leis ou da loucura. Depois, crescidas, as crianças emasculavam-se com
lâminas de barbear, armavam-se de revoltas, erguiam o vómito contra a banalização
do quotidiano. Então não existiam adagas que chegassem para travar a cascata
de ódio de quem se sente no meio da indústria do ludíbrio. Dormiam pombas
nos altos campanários até ao alvorecer dos sinos. Corria aquele já conhecido
rio. Eram assim os dias do embuçado cavaleiro dos dias – os dias.
A SOMBRA

Poderia o mundo reconverter-se


Tão interiormente que só pela palavra
Fosse possível dele fixar uma imagem
Que o desprendesse da teia de horrores
Que dentro de si pregavam a vinda
Do crepúsculo? Mesmo para a palavra,
Deixara que tudo no seu interior
Enegrecesse, ciente, talvez,
De que as sombras amortecidas
Levassem consigo os sons
Que o assolavam como
Uma memória do precipício.
Vastus quasi vastitus, lia no livro,
Ao referir-se a um lugar onde “l’eau
S’installe pour envahir la texture
Des choses, les déformer et les
Faire pourrire, projettant leurs
Membres mutilés à de lointaines
Distances?. Ao fim e ao cabo,
Tudo más-formações da alma
Em que a linguagem tropeça
No seu esforço para talhar
A matéria das emoções
Com o simulacro de luz
Que lhe vem do precipício.

DOS CONTOS DE ZEN

“O melodrama não se dá num momento preciso e imediato, mas na lentidão de uma temporalidade
sem origem precisa, para nos envolver no seu desenrolar e nos mergulhar no seu interior mais
profundo sem nos dar a perceber de como para aí fomos arrastados. Quando se dá pelo drama já lá
se está.
O ego não retira para encher o vazio, antes coloca para afirmar o vazio, partindo deste para
chegar a essa presença inefável das coisas. Daí que o seu lento drama em temporalidade não seja
acto de sacrifício nem de milagre, mas uma melancólica resignação do inexorável, ou uma paciente
abdicação sem fé.
Sobre o túmulo de Ozu escreveu-se a palavra mu, que significa “nada”. Mas na filosofia Zen o
“nada é tudo”, tal como o silêncio e o banal estão preenchidos do mais profundo, intenso e amargo
do drama humano.
Como poderei revelar-te o Zen, se antes não esvaziares a tua taça?
A felicidade é apenas uma esperança ou um sonho!”
PS: THE PLAYER