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CIÊNCIA E CEPTICISMO, John Watkins, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1990.

“Temos de tentar adoptar uma atitude altamente crítica em relação àquelas teoria que mais admiramos.”-
Karl Popper.
Popper tentou, formalizar as noções de grau de falsificabilidade e de grau de corroboração. A filosofia da
ciência de Popper sofreu um golpe rude quando se tornou evidente que o seu critério fundamental para
uma teoria ser mais testável de que outra tinha falhado, pelo menos nos casos em que uma teoria corrige
outra. Tenta-se reparar os estragos com a ajuda do conceito técnica de contrapartidas incongruentes. Duas
ideias inter-relacionadas, que foram supostas inanalisáveis por muita gente, foram as de uma teoria
científica ser mais profunda e mais unificada que outra. Esta investigação de ideias conduziu ao problema
de diferenciar axiomatizações “naturais” e “não naturais” duma teoria científica. É necessário tudo isto
para se dissiparem as névoas em torno da ideia do objectivo óptimo da ciência e para que ela surgisse à
luz clara do dia.
O cepticismo de Hume concede que cada um de nós tem uma boa dose de conhecimento egocêntrico
sobre as nossas próprias crenças, sentimentos e experiências perceptivas. Também concede que se podem
conhecer as verdades lógicas. Mas nega que se possa progredir por raciocínio lógico, partindo da
experiência perceptiva, até qualquer conhecimento genuíno de um mundo externo, se é que há algum
mundo. Como o seu alvo não é todo o conhecimento, mas apenas o conhecimento do mundo externo, o
cepticismo de Hume não é autodestruidor; não exclui a possibilidade que se possa saber (talvez sobre
fundamentos lógicos) que não pode haver conhecimento genuíno dum mundo externo.
O cepticismo de Hume, parece derivar da conjunção das três proposições seguintes: a) não há verdades
sintéticas “a priori” a respeito do mundo externo; b) qualquer conhecimento genuíno que tenhamos do
mundo externo, deve ser derivado, em última instância, da experiência perceptiva; c) só são válidas
derivações dedutivas.
Nada do nosso conhecimento do mundo externo é conhecimento. Senão reparemos na configuração do
nosso conhecimento factual nos níveis seguintes: nível 0: relatos de percepções na 1ª pessoa, de tipo aqui
e agora (ex: “No meu campo visual há agora um crescente prateado contra um fundo azul escuro”); nível
1: enunciados singulares sobre coisas ou acontecimentos observáveis (ex: “Há lua nova esta noite”); nível
2: generalizações empíricas sobre regularidades manifestadas por coisas e acontecimentos observáveis
(ex: “Uma lua nova é seguida por marés vivas”; nível 3: leis experimentais exactas sobre grandezas
físicas mensuráveis (ex: a lei de Swell da refracção ou a lei dos gases de Charles e Gay-Lussac; nível 4:
teorias científicas que são não só universais e exactas, mas ainda postulam entidades inobserváveis (ex: a
teoria dos campos de forçaa de Faraday-Maxwell). O cepticismo de Hume, também pode expressar-se
como a tese segundo a qual nenhum enunciado de nível 1 ou superior, possa ser justificado por
enunciados de níveis mais baixos. É uma teoria epistemológica de carácter muito negativo. Não é uma
teoria normativa que incite a duvidar de toda a preposição à qual falta uma justificação suficiente. Assim,
não pode ser eliminada com o fundamento de que filósofo céptico, deve ser psicologicamente incapaz de
duvidar de muitas das preposições, que sujeitou a análise céptica. “O cepticismo, declarou Russell, sendo
logicamente impecável, é psicologicamente impossível e há um elemento de falta de sinceridade frívola
em qualquer filosofia que tenha a pretensão de o aceitar.”
Com o conhecimento geral de que o apriorismo kantiano está defunto, o probabilismo é hoje a abordagem
mais séria e mais largamente aceite do problema posto por Hume. Sustentam alguns que, se o
probabilismo concede que todas as hipóteses com implicação não verificadas são incertas, então o próprio
probabilismo é apenas uma espécie de cepticismo. Mas isto parece um grande erro; certamente que
sairíamos do bosque céptico se fosse geralmente possível escolher de entre um conjunto de hipóteses
alternativas aquela que é mais provavelmente verdadeira, dada a evidência presente. Hume declarou que
as reflexões cépticas o autorizavam a não considerar nenhuma opinião sequer como mais provável ou
mais verosímil do que outras.
Entendo que não devemos esperar das nossas experiências e investigações mais do que uma grande
verossimilhança em graus de probabilidade que mereça um assentimento cheio de esperança. Em todo o
caso esta dose de desconfiança e incerteza não farão de mim um céptico. Quanto a eles (cépticos)
ensinaram que nenhuma coisa é mais provável do que a outra e assim recusam o assentimento ao que quer
que seja.
A aceitação racional ou grau de confiança de alguém numa hipótese incerta deve ser controlada pelo seu
grau de confiança sobre a base da evidência total conhecida por esse alguém nesse instante. Segundo
Lewis não há verdade provável sem alguma verdade certa. Agora temos o argumento segundo o qual
também não há verdade provável mesmo com alguma verdade certa. É uma teoria probabilística da
confirmação que tenho de dar um papel fulcral à possibilidade absoluta, é impraticável. Não pode haver
confirmação empírica de hipóteses científicas num sentido probabilista no que se verifica. Este resultado
negativo será ainda reforçado de uma ou mais das grande concessões feitas ao probabilismo forem
questionadas com sucesso, como pode muito bem suceder. Designemos por cepticismo quanto à
racionalidade a tese segundo a qual nunca temos nenhuma boa razão negativa para aceitar uma hipótese
científica. Por razão cognitiva quero significar uma razão articulada, por exemplo: com a verdade ou com
o poder unificante ou explanatório da hipótese. Se a aceitamos porque está na moda fazê-lo, ou porque se
adapta à nossa perspectiva política, a razão para a aceitar será não-cognitiva. O cepticismo quanto à
racionalidade é claramente uma tese céptica mais forte que o cepticismo quanto à probabilidade. A
ciência fica condenada a ser uma actividade irracional pelo cepticismo quanto à racionalidade. Pois, fazer
ciência envolve discriminar entre hipóteses. Pode ser razoável, nalguns casos, suspender o julgamento
entre hipóteses em competição, porque parecem de mérito aproximadamente igual; mas se nunca
tivéssemos boas razões cognitivas para preferir uma hipótese às suas rivais, a ciência ou teria de parar ou
teria de ser conduzida de algum modo irracional. Falando do “fim e intenção da ciência” Popper declarou:
“A escolha desta intenção certamente que deve ser, em última análise, uma questão de decisão, que
ultrapassa o argumento racional.” Isto parece sugerir que diferentes grupos de cientistas possam adoptar
objectivos diferentes, talvez até em conflito, para a sua ciência; mas se isso acontecer, não teríamos, em
lugar de uma república da ciência, diferentes tribos idolatrando outros deuses? Além de que se
desvaneceriam as nossas esperanças de derrotar o cepticismo quanto à racionalidade. O objectivo da
ciência deve ser coerente, praticável, servir de guia nas escolhas entre a teoria ou hipóteses rivais, ser
imparcial, envolver a ideia de verdade. Certamente insistimos em que a verdade é parte daquilo a que
aspiramos. E acrescentaríamos, penso que não só queremos alcançar a verdade, mas também queremos
saber que o conseguimos, de modo a não termos de temer que o erro se insinue de novo. Em resumo, uma
verdade certa é um dos componentes maiores do nosso objectivo. Mas uma verdade certa a respeito do
quê? Bem, há todas as espécies de factos singulares e de regularidades empíricas das quais queremos
descrições que sejam conhecidas com verdadeiras. Mas vamos directamente à nossa exigência suprema.
Cremos que já progredimos bastante na descoberta de factores subjacentes em termos dos quais as
regularidades empíricas se podem explicar. Mas, agora, esses próprios factores subjacentes necessitam de
explicação em termos de factores ainda mais profundos. E a nossa exigência suprema é que a nossa
ciência penetre cada vez mais fundo até que, eventualmente, alcance explicações supremas de todos os
fenómenos. Isto seria indubitavelmente acompanhado por outra exigência maior. No momento presente
(imaginando), as ciências a que nos dedicamos estão bastante compartimentadas. Esperemos que esta
compartimentação diminua à medida que penetramos em profundidade maior; e que quando chegarmos
ao nível das explicações supremas, as várias ciências particulares certamente certamente se juntarão numa
só ciência unificada. (Pois tentemos supor que no fim do dia nós tínhamos duas ciências disjuntas, uma
para fenómenos celestes e outra para fenómenos terrestres, sem possibilidade de as unir. Então o céu e a
terra constituiriam dois mundos independentes coexistentes; não haveria leis abarcando ambos os
mundos, governando as interacções entre eles.) Queremos que a nossa ciência desvende, eventualmente, o
plano da Criação, mas não dois ou mais planos sem coordenação para partes diferentes dela. Retomemos
a capacidade preditiva que queremos da ciência que planeamos. A faculdade de antecipar acontecimentos
futuros foi reverenciada pelo menos desde os tempos bíblicos e não queremos que a nossa ciência fique
atrás neste aspecto. Mas é claro que uma predição científica sobre um acontecimento singular requer dois
tipos de premissas: leis e condições iniciais. Ora, a omnisciência divina tem, presuivelmente, tanto uma
dimensão vertical (conhecimento da estrutura toda do mundo até ao seu nível ínfimo) como uma
dimensão horizontal (uma cobertura ponto a ponto de todos os factos singulares). E enquanto nós, com
audácia e optimismo, queremos que a nossa ciência lute por algo como a omnisciência vertical,
reconhecemos que seria absurdo, para nós humanos, aspirar, sequer, à omnisciência horizontal. E isso
significa que, por mais profundamente que a nossa ciência penetre, e mesmo que ela eventualmente
alcance o nível último, haverá ainda um número indefinido e grande de acontecimentos futuros que na
prática seremos incapazes de predizer porque nos falta cobertura detalhada e completa das condições
iniciais relevantes. No entanto, podemos ter a esperança de que a nossa ciência nos dê um poder preditivo
potencialmente completo, no sentido de podermos, em princípio, partindo duma descrição
suficientemente precisa e completa das condições iniciais relevantes em conjunção com as nossas leis,
deduzir, para qualquer acontecimento futuro possível, a predição de que irá ou não ocorrer.
Finalmente, insistiremos em que nada haja de vago ou pouco cuidado nas conexões entre as
preposições que constituirão a nossa ciência; tais conexões devem ser perfeitamente rigorosas. Este
objectivo utópico para a ciência pode resumir-se assim: tornar explicáveis ou previsíveis todos os
fenómenos empíricos, por dedução a partir de descrições verdadeiras de condições iniciais em conjunção
com princípios universais que sejam certamente verdadeiros, supremos e unificados. Podemos considerar
Bacon e Descartes como arautos filosóficos das altas expectativas que a ciência provocou no início do
séc. XVII, e eu, não penso que o nosso ideal parecesse excessivo a qualquer deles. Se o objectivo da
ciência é explicar o que até agora tem sido aceite como um explicans: por exemplo, uma lei da natureza.
Assim, a tarefa da ciência renova-se a si própria constantemente. Podemos continuar para sempre,
avançando para explicações de nível cada vez mais alto de universalidade – a não ser que de facto se deva
chegar a uma explicação suprema; isto é, a uma explicação que nem necessita duma explicação posterior,
nem pode tê-la. Mas haverá explicações supremas?
Embora eu não pense que alguma vez possamos descrever, pelas nossas leis universais, uma
essência suprema do mundo, eu não duvido que possamos rondar cada vez mais fundo da estrutura do
nosso mundo, ou dito de outra maneira, sondar as propriedades do mundo que são cada vez mais
essenciais, ou de profundidade cada vez maior.