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Henrique Barbosa, número USP 6852714

Primeiro exercício de escrita: Leitura de The Crisis in Education, de Hannah Arendt

A menção a uma crise na educação, e não da educação, sugere uma nuance determinante na
tese: trata-se de uma ruptura identificada no interior da realidade educacional, e não do fato e
da necessidade da educação. Quer se trate de uma cisão identificada nas práticas ou nos
princípios, Arendt observa que a educação tem dado respostas que não mais respondem à
perguntas. De fato, na terceira parte do ensaio, diz Arendt que a “educação está entre as mais
necessárias e elementares atividades da sociedade humana, que permanece como está mas
continuamente se renova por meio do nascimento, por meio da chegada de novos seres
humanos”. Arendt trata a prática educacional não como construtos sociais. A educação é um
fato natural para Arendt; poderíamos aventar, inclusive, que é uma decorrência necessária da
especificidade vital que a filósofa enfatiza para o ser humano. Crescimento e desenvolvimento,
para a vida animal e vegetal, seguiriam de formas que poderíamos chamar autóctones. As
formas de vida desses reinos podem inserir-se no mundo sem o intermédio necessário da
formação no espaço pré-político, na antecâmara da vida pública que é a educação.

Atestada essa necessidade - que Arendt fundamenta em uma necessidade biológica, natural,
específica do ser humano -, a autora identifica três aspectos da educação moderna que
instauram e demarcam a crise (a autora não especifica marcos temporais, mas podemos
suspeitar que moderno, aqui, se refere menos à era moderna em geral, desde fins do
Renascimento, e sim às práticas educacionais iniciadas em meados e fim do século XIX). Um
primeiro pressuposto é o da separação do mundo educacional no grupo da criança e no grupo
do adulto. O torneio crítico, aqui, seria a submissão da criança à tirania do grupo - seu próprio
grupo, o da criança -, em detrimento da consideração da criança individual. Um segundo
pressuposto é o da ausência de material ou conteúdo do aprendizado. O professor, além de
não autoritário, tampouco seria autoridade no domínio dos assuntos particulares. O terceiro
aspecto gerador de crise seria o pragmatismo sistêmico, a ênfase em fazer e praticar
habilidades específicas ao invés do ensino e do aprendizado. Um último aspecto ainda é
sinalizado: a ênfase no jogo e na brincadeira, em detrimento do trabalho. Essas ênfases no
brincar (no lugar do trabalhar) e no fazer (no lugar do aprender) manteriam as crianças mais
velhas no nível infantil.

Texto lido na edição em língua inglesa.

ARENDT, Hannah. The crisis in Education. In: _______. Between Past and Future: Six
Exercises in Political Thought. New York: The Viking Press, 1961. p. 173-196.