Você está na página 1de 206

Quando o tempo é uma longa distancia

Taças

Tereza Ferraz

Prefácio

Um límpido mergulho às entranhas mais recônditas da alma é vivido e


experienciado a cada pagina deste romance – Taças –, que Tereza Ferraz
faz transbordar em espiraladas incursões ao nosso interior perplexo.

Na dicotomia real – irreal, consciente – inconsciente, presente –


passado, lucidez – torpor, sanidade – loucura, formam-se tensões entre
dois universos que se rompem, conduzindo-nos ao limiar de estados que
se fundem, interpenetram-se e sintetizam, assim, a fragilidade
cristalina da essência do nosso “Eu” multitransformado e
multidimensionado.

A obra transcende da beleza estética a uma densidade psicológica poucas


vezes alcançada na nossa literatura. O amor humano, as paixões, a
insegurança e dúvida pelo desconhecido, temáticas universalmente
abordadas e exploradas quase à exaustão, ganham em Tereza uma nobre
peculiaridade pela elevada sensibilidade mística, cedendo, por vezes,
lugar à sua perspicaz intuição criadora.

Uma forte simbologia subjacente permeia também a obra, banhando-a de


componentes visuais e auditivos capazes de nos transportar a um mundo
sem barreiras e sem limites, onde apenas a verdade interior eclode.

Assim seriam, só para exemplificar, as tênues taças cristalinas


transformadas em pesados sinos de bronze a badalarem para o
subconsciente os misteriosos e tortuosos caminhos do supra-real mundo
“irreal” descortinado nesta maravilhosa obra, cuja incandescência leva-
nos às mais acuradas reflexões sobre a misteriosa natureza humana.
João Marcos Patrício de Carvalho.

Tudo há um motivo, levei muitos anos ate chegar o momento abrir à


escrita. O por que: No começo dos anos 90 houve muitos livros falando
de temas como almas gêmeas, mas a premissa do livro é o sentimento, é
onde o sentir nos leva.
Historia ou estória há o sentimento.
Por muitos anos e muitos rumos, sem, contudo sair do caminho.
Caminho que mostrou a minha mente racional que emoções e pensamentos
são passageiros, levando-a a se render a algo maior que ela. E a cada
render-se ao mesmo sentimento a realidade abriu-se a tantas
possibilidades. Consciente evidenciar que criamos nossa realidade,
afora os embasamentos dualistas que é a dita realidade, há a realidade
que chamo de maior, por grandeza? Por que ela nos coloca diante da
nossa própria essência. E damo-nos conta que a essência esta em tudo e
em todos. O que difere é sempre a consciência.
Sem prender-se as religiões, e tendo respeito por todos.
O corrimão para percorrer foi seguir coração, e nisso entraram ajuda de
muitos aqui como de Lá.
Portanto agradeço a todos que ajudaram-me e continuam ajudado-me.

***

Julho – 1988.
Noite estrelada.

Fui à loja de antiguidade do Sr. Ernesto. Lá, parece que o tempo parou.
A sensação começa com o sininho da porta de entrada: ele nos leva no
tempo. À primeira vista a impressão que se tem é de uma grande
desorganização: objetos e móveis amontoados, mas o todo é bonito.
O próprio Sr. Ernesto parece tão antigo quanto suas antiguidades. Usa
óculos minúsculos na ponta do nariz e seu cabelo é de branco amarelado;
até seu andar é arrastado, como se o andar o trouxesse ao presente
quando o seu mundo é o passado. Acho-o um velhinho carismático. Seus
olhos vivos brilham ao contar uma história ou estória de peças antigas.

Lembro-me que diariamente passava em frente à sua loja, sem ter tempo
para entrar. Minha loja de roupas femininas ficava na mesma galeria, e
só depois de alguns meses ali instalada é que passei a ir lá. Até
então, nunca comprara objetos antigos, apesar de achá-los bonitos ou
interessantes, principalmente ao ver um objeto que traz em si um
significado e uma história distantes. Sorria ao ouvir minha sócia
perguntar o que é que eu via de tão atraente.

No final da tarde, quando eu tinha tempo e disposição, ouvia as


histórias de um velhinho, que mais parecia fora do tempo. Era até
paradoxo ter uma loja de roupa feminina de vanguarda, com néon colorido
e uma clientela adolescente e, algumas lojas depois, um senhor, como
dizia minha sócia, e seu museu.

Ao entrar na loja tinha esperança de encontrar meu candelabro


restaurado, pois há mais de um mês o deixara ali. Somente hoje fui
pegá-lo.
Mas, em vez dele, o que tenho à minha frente são duas taças de bronze.
Conversava com Sr. Ernesto que, em sua grande mesa de madeira, limpava
algumas peças e explicava o motivo de o candelabro não estar pronto.
Não sei bem a explicação que ele me deu.
Vagando os olhos pela loja, vi as taças, que pareciam me atrair como um
ímã. Não conseguia desviar os olhos delas. Levantei-me e fui para perto
daquelas taças, e uma estranha emoção tomou-me quando as toquei. Veio-
me a sensação de propriedade... Existe isso?
Nunca me senti assim em relação a um objeto, apesar de já ter ouvido
algumas pessoas falarem sobre isso, como sendo uma espécie de fascínio.
E confesso que sempre achei ridículo e falta de criatividade um objeto
exercer tamanha influência.

Ridículo, falta de criatividade ou fascínio, nada tinha importância, só


as taças.
Primeiro, toquei-as nas bordas. Meu coração disparou, assustei-me e
retirei a mão. Olhei em volta. O Sr. Ernesto continuava a falar. Pensei
na bobagem que sentira e peguei uma delas...
Mas que emoção estranha: a sensação de propriedade voltou a assolar-me.
Quanto custam essas taças, Sr. Ernesto?
Não podia tê-las comprado, mas passei o cheque rápido com medo que a
sensatez voltasse.
Não perguntei nada referente a elas, ou ele pode até ter falado sobre o
assunto e eu não ter escutado, pois naquele momento todo referencial
era dirigido àquelas taças.

E agora, elas estão aqui na minha frente. No suporte está escrita uma
data: 1812, e algumas palavras que não dão para ler. Mas elas estão
aqui, e isso é tudo. Logo terão um lugar definitivo em casa, farão
parte do ambiente, e talvez deixem de ter esse atrativo.

Quarta-feira.
Manhã com sol – 8:30.
Um sonho, um nome: Badacsony.
Quinta-feira.
Noite estrelada.

Hoje, na biblioteca da Faculdade, procurei e encontrei: Badacsony,


cidade húngara às margens do lago Balaton, onde se fazem excelentes
vinhos.
Quase três horas pesquisando e tudo que achei foi isso.
Sonhar com um nome que nunca tinha ouvido, que mais parece um nome de
remédio. Ficar um tempão refletindo de onde surgira, a ponto de me
deslocar a uma biblioteca, e tudo que consegui foram duas frases na
enciclopédia! E afinal, o que mais queria eu achar? Que significado tem
essa cidade?

Sinto, no entanto, que isso tem relação com as taças.


Elas são como um convite, ainda não sei para quê.
As taças e uma cidade a milhares de quilômetros de distância se
intrometem na minha vida, a ponto de ligar para a Embaixada da Hungria,
em Brasília, pedindo dados; pois a cidade é tão pequena que não consta
no mapa da Hungria na enciclopédia, a única que achei que fala da
cidade. Falei com uma moça delicada chamada Jussara, que ficou de
mandar-me alguns folhetos sobre a tal cidade. Pena que não haja
consulado aqui na cidade.

Noite alta.

A casa está silenciosa; ouve-se, apenas, a música de Paganini.


Passei um bom tempo olhando as taças, elas chegam a incomodar-me.
Parecem-me tão conhecidas!
Estou com trinta anos, existem algumas realizações, algumas
frustrações, mas o saldo é positivo, pois procuro tirar lições de tudo
que me ocorre. Passei nove anos trabalhando com representação de roupas
e uma loja que, ante crises econômicas, pelos “planos econômicos” deste
nosso País, fechou. É esse meu lado profissional. Tenho uma família
equilibrada emocionalmente.
Ao fechar a loja, é claro que me abalei; mas, na verdade, o meu
interior não era realizado com ela.
O movimento profissional me faz falta; juntam-se a idade e a pergunta
concreta: o que irei fazer?
Sou fruto de uma safra onde trabalhar e ter resultados são uma
imposição, se não social, pessoal.

Sexta-feira.
Praia – sol.
Momento mágico.
O forte aroma do mar chega ao mais íntimo do meu ser.
Águas claras, céu limpo, as gaivotas dão um lindo espetáculo.
No horizonte, até onde vai a vista, não se consegue mais diferenciar o
céu e o mar.
Reluz o reflexo dourado do sol no mar. A claridade encandeia por um
instante, até os olhos se acostumarem com essa maravilha. Um brilho
intensamente colorido dança aos olhos...
E surge uma vontade enorme em tocar essa beleza natural, aguçando a
sensibilidade em fundir-se com o esplendor dessa luz.
E o mundo pára, não existe mais o tempo, mais diferença entre homem e
natureza.
O que existe, o que ocorre é uma junção entre duas coisas naturais.
É a entrega, o abandono físico diante do qual nenhum ser é capaz de
defender-se.
É esse fino, leve, mas palpável momento no qual se desmata a inibição e
emerge uma força maior. É esse dado momento em que a força luminosa
leva, eleva ou simplesmente transborda no ser. Êxtase, êxtase da
inspiração.
O ser e o momento mágico, levando-o pelas asas da inspiração.

As gaivotas estão indiferentes com a minha presença; voam, deslizam no


céu.
Existem pessoas que passam na vida, sem que esta as toque. São como
partículas ou folhas ao relento, levadas pela direção do vento.
As gaivotas inclinam-se para o mergulho. Nós humanos somos
interessantes: tememos aprofundarmo-nos em nosso íntimo, rasgar nossos
véus e acharmos nosso real significado de vida.
As gaivotas mergulham em vôos rasantes. Ao impacto na água, seus corpos
parecem frágeis!
Mas a busca ao alimento, à sobrevivência é mais forte... Até o medo,
existe o medo?
Existem pessoas que tocam a vida como as gaivotas em seus mergulhos.
Em mim existe o medo mudo. Como o mergulho: onde está meu significado
de vida? Creio que uma terapia me faria bem, rasgar meus véus.
E nesse belo momento mágico, vejo e observo, o que importa é a busca ao
alimento.

Tarde ensolarada.

Noite passada sonhei com um homem e uma mulher. Eles tinham as taças
nas mãos, estavam sorrindo um para o outro, uma cena familiar, tão
familiar. Como? Se nunca os vi. Até agora fecho os olhos e consigo
revê-los. Ela deve ter uns vinte e poucos anos, cabelos cor de mel até
a cintura. Seus olhos têm a mesma cor do cabelo: uma mulher bonita,
boca bem torneada. Usava um vestido antigo, parecendo que ia para uma
festa de fantasia do tipo cigano. Ele, como descrevê-lo? Pois assalta-
me uma forte emoção quando me lembro dele. Cabelos negros, queixo
quadrado, boca grande e sensual. Mas seus olhos, olhos negros como a
noite, que falam sozinhos... Sua pele tem o tom dourado: é o tipo da
pessoa que é notada, imponente. Ele é mais atraente que bonito. Meu
Deus! Aqui estou a descrever um homem e uma mulher que vi em sonhos, e
hoje passei parte do dia a lembrar-me deles. Principalmente dele.
Fui pela manhã à loja de Sr. Ernesto. Mas estava fechada. Senti-me
frustrada, pois queria ouvir dele alguma coisa sobre as taças.

Segunda-feira.
Entardece, o sol se põe.

Como vou parecer sensata e coerente diante do que vivi e vi?


- Vamos lá.
Sábado passado num um jantar com amigos.
Creio que o vinho fez um efeito estranho em mim, por mais que saiba que
só tomei uma taça e meia. Não sei bem a hora em que saímos da sala de
jantar para o jardim. Lembro-me, no entanto, que na sala de estar vi o
homem. O homem com quem sonhei. Fiquei parada, estática.
Ele tomou uma das taças de bronze na mão e, elevando-a como num brinde,
se dirigisse a mim. Seus olhos estavam presos nos meus. Meu sangue
sumiu!
Sei descrevê-lo nitidamente: calça preta, camisa branca com mangas, seu
cabelo é comprido, na altura da nuca, cabelo negro, grosso e liso. Não
consegui me mexer um centímetro. Não era medo. Meu ser inundou-se
novamente da mesma emoção estranha, não conseguindo retirar meus olhos
dele.

Quando senti meu sangue voltar, meu coração batendo loucamente, pensei:
- Vou morrer e não consigo nem gritar! Quando voltei a sentir meus pés,
bati-os no chão procurando a reação do meu corpo, mas ao voltar o
olhar, ele não estava mais lá. Corri ao banheiro, lavei meu rosto,
respirei fundo por diversas vezes e só então saí para o jardim. Tentei
contar o que vira, as palavras saíram atropeladas. Pensaram ser o
vinho. Quando todos saíram refleti: Pode ter sido fruto da minha
imaginação, em conseqüência do vinho. Mas eu sonhei com ele e, sendo
assim, ele pode estar registrado na minha memória e aí pensei tê-lo
visto. Deve, realmente, ser isso.
Fui novamente ao antiquário, mas estava fechado. Acho que Sr. Ernesto
está doente.

Terça-feira.
Manhã nublada, 9:40.

Voltei a sonhar com aquele casal. O homem e a mulher estavam molhando


os pés na água que parecia o mar. Vestiam roupas antigas. Depois
subiram correndo um grande morro e chegaram a uma enorme casa branca
meio barroca. Entraram rindo na casa, ela à frente e ele logo atrás,
chamando-a :
- Natasha!
Acordei assustada, ainda ouvindo-o a chamá-la. Meu corpo tremia, fiquei
quieta na cama por um longo tempo, tive vontade de ir ver as taças, mas
não fui. Deitada pensei em devolvê-las. Mas agora não mais; existe algo
selado, mudo.
Dentro de mim, o som grave da voz dele,
Dentro de mim, eu sei o nome dele. Que veio no momento em que ouvi sua
forte voz chamando:
- Natasha!
Peguei meu travesseiro, apertei-o contra meu rosto e falei num sussurro
seu nome.
Seu nome; a enorme emoção toma-me, envolve-me, leva-me além.
O que é isso?!
O que é, vai além, há um nome.

Tarde 17:50.

Acabo de chegar da loja de Sr. Ernesto. Graças a Deus o encontrei.


Levei as taças comigo, ele pegou sua lupa e um objeto que me pareceu um
bisturi. Levou uns bons minutos, depois foi à prateleira de livros,
pegou dois e os folheou. Fiquei inquieta, não conseguia ficar sentada,
vaguei pela loja impaciente. Aí ele ajeitou seus óculos e falou
pausadamente o quanto o fascinava desvendar uma peça, etc... etc...
As taças são de fabricação cigana datada de 1812. Foram usadas,
provavelmente, num casamento, pois têm dois nomes escritos: Igor –
Natasha.
Senti um alívio. Esta é a palavra: alívio.
O sonho tinha sentido. Perguntei-lhe de onde elas vieram, mas ele não
soube responder. Poderia investigar. Só sabia que tinham sido trazidas
da Europa, mas me garantiu que não era difícil descobrir o lugar e que
me telefonaria assim que conseguisse mais informação.
Senti alívio de que?!
Como falei, o sonho tinha sentido.
Alívio, pois é seu nome?
Eu senti seu nome. E minha mente pergunta: como saber seu nome? Eu
não estava mais sonhando, já estava acordada, ecoava em mim a grave voz:
- Natasha. E sentindo a forte voz, eu senti que sabia seu nome.
E num gesto coloquei o travesseiro no rosto e falei sussurrando: Igor...
Como escondendo de mim mesma, que sabia seu nome.
Como não querendo ter consciência de que sabia seu nome.
A imagem tão conhecida, como o nome.

Quinta-feira.

Consegui nesse dia olhar as taças mais naturalmente.


Vem-me uma sensação agradável ao vê-las. Porém, ao lembrar-me dele, é
tão forte o que sinto ou o que sua imagem me faz sentir. Não quero
pensar, nem muito menos sentir.
Acho que irei procurar um terapeuta.

Tarde.

Entardece, a terra parece acalmar-se para adormecer o sol.


O mundo toma um rumo silencioso, fica mudo.
Existe um mundo surdo e mudo onde mora a compreensão, onde o som
encantado do silêncio nos leva a parar e olhar dentro de nós mesmos.
O mundo surdo-mudo leva-nos a uma dimensão maior e mais simples. E
quantos param para observar a natureza ou a nos mesmos? Não existe
tempo para isso. Falta de tempo é a maior e melhor desculpa que criamos.
Nesta dimensão maior e mais simples, eu sinto como um chamado desta
emoção que vez por outra me assola.
Que me dá uma sensação viva de vida. E vem minha mente racional
falando: - Vida? Numa sensação emocional, desconhecida?
E rebato a minha mente. Há anos faço meditação. Procuro trabalhar
sempre em harmonia e com consciência meus processos emocionais e
mentais.
Não há como negar: há algo “novo” que vem através desta emoção, algo
dentro de mim.
Como este chamado, não seguir é perder o rumo da própria vida.
Lembro Jung: “Toda neurose vem de não se escutar o eu interior”.

Sábado.
Tarde bonita, com sol.

Hoje pela manhã, o dia nascia. Acordada na cama com os olhos fechados
me espreguiçava... Aconteceu! Vi Igor, ele andava só, de costas para
mim.
Assustei-me, abri os olhos com o corpo trêmulo. Como e por que alguém
que viveu em 1812 vem até aqui? Com que direito! Já estou ficando sem a
menor coerência e confusa: sonhos, visões, afinal o que é isso?
Estou levando longe demais o efeito dessas taças. Acho melhor devolvê-
las. Devolvê-las me traz a razão racional.

Segunda-feira.
Noite, é quase madrugada.

Não consigo dormir. O motivo é o mesmo: as taças e o homem. Não devolvi


as taças, não sei por quê. Cheguei a pegá-las e ir até perto da loja de
antiguidade. No caminho parei o carro em frente ao mar e perguntei a
mim mesma o motivo de querer devolvê-las.
Tenho sonhado e tenho visões com um fantasma. Honestamente, isso não me
assusta, o que me intriga é o motivo.

Da noite de domingo para segunda, sonhei com ele novamente. Estava


sério e seu olhar refletia uma tristeza profunda. Ouvi sua voz: - Por
que você parou?
Deus meu, a quem cabe essa pergunta, a Natasha ou a mim? Onde está a
resposta? Quanta dualidade, não sou do tipo sonhador nem alimento
desilusões para ficar pensando ou fantasiando um homem em minha vida.
Existe uma frustração no lado profissional, mas não emocional. Toda
essa história envolve discernimento, que não tenho – um homem que viveu
ou suponho que viveu em 1812 – surge acompanhado de uma mulher,
Natasha, em sonhos e visões, e lança esta pergunta, não sei se a ela ou
a mim.
Por que você parou?
O que significa isso? Onde anda a coerência?
Olhei o mar, sereno e tranqüilo. As taças, no banco do carro a meu lado.
Posso mergulhar, dentro de mim, como as gaivotas; um meio sorriso veio-
me aos lábios.
Acho que esta você ganhou, Igor!

Tenho uma amiga espiritualista e sensitiva que talvez possa ajudar-me.


Esta nova perspectiva fez meu meio sorriso aumentar e uma grande
alegria se apoderou de mim, e voltei para casa.
Só não consigo dormir, existe algo no ar que não consigo discernir.
Até o fato de descrever o sonho me perturba... Não, não e não, o que me
perturba, desnorteia-me é ele.
Descrevo-o de forma impessoal, seca.
E o que sinto não é isso. Ao ouvi-lo:
- Por que parou?
Do mesmo modo ou meio que surgiu, emergiu seu nome, sei que está dentro
de mim a resposta a sua pergunta, feita a Natasha ou a mim. Há uma
resposta, embora, como afirmei, não consigo discernir.
Comecei a procurar um terapeuta.

Quarta-feira.
Noite estrelada.

Conversei com minha amiga. Ela disse-me que tentasse falar com ele. Ri
um pouco incrédula. Não lhe falei muito, pois até falar sobre o assunto
me é estranho; constrange-me.

Mas, agora, talvez faça sentido; existe a sensibilidade.


E não nego esse fato. Ela, a sensibilidade, está em mim, está em todos.
Porém, tentar falar com Igor talvez implique mexer em casa de abelha.
Isso gera expectativa, e se há coisa que não gosto é ter de ficar na
expectativa. Senti-la é bloquear os sentidos e ficar tensa quanto ao
não esperado. Isso gera emoções confusas.
A expectativa gera o imediatismo, atos impensados. Creio que existem
dois tipos de expectativa: uma, basicamente física, deixa antever o que
vai acontecer; a outra é mais difícil e a gente só sente algo no ar.
Trabalhar a primeira é fácil: basta seguir a regra da eliminação,
juntando-se à razão. A outra não: tenta-se aguçar a sensibilidade, isso
excede aos cinco sentidos e nos dá amplitude; leva-nos a tomadas de
consciência.

Quinta-feira.

Chegou um pacote da embaixada da Hungria. Senti-me como uma criança


abrindo-o. Veio um livro sobre o lago Balaton, com muitas fotos, quatro
folhetos ilustrados, além de um livro sobre a história da Hungria,
outro sobre economia e alguns folhetos turísticos.
Ao folhear o primeiro, minhas mãos tremiam. Esse, como os outros, são
escritos em espanhol e inglês. E, apenas folheando todo material,
distingui exatamente qual fotografia era de Badacsony.
Olhava e sentia. Incrível ver que a Hungria é uma grande planície,
tendo como uma das elevações o monte de Badacsony. O mesmo que vi Igor
e Natasha subirem! E, mais adiante, fiquei perplexa: um casarão
barroco, que aparece numa foto de hoje, um ponto turístico, datando de
1806.

Era dia, quando abri o pacote, mas só voltei a mim quando bateram na
porta do quarto de estudos. Já era noite!
Volte o tempo...
Ouvi dezenas de vezes.
Volte o tempo...
Emoções confusas: Hungria, Badacsony, 1812, que agora pula um ano,
Badacsony 1813.
Volte o tempo...
É a voz forte e grave de Igor, ouço-a distintamente:
- Volte o tempo.
Ecoa no meu ser por inteiro, e surgem cenas...

Terça-feira.
Fim de tarde.

Estou na praia.
O que posso falar, o que tenho a dizer?!!!
Saí de casa e vim ver o mar. Andei, tentando pensar melhor. Sou uma
pessoa equilibrada, ou fui.

Folheei diversas vezes os livros. O mar que vi em sonho é o lago


Balaton, que é o maior da Europa Central. O monte onde fica Badacsony,
a casa branca... A emoção é mais forte que eu, exala na pele. Tento ser
analítica, e de repente, vem uma nostalgia, uma saudade. Uma vontade de
correr até lá. Não a Hungria de hoje e sim a Badacsony de 1813.

Molhei meus pés na água do mar, sentindo a água do lago e ando já nesse
quase anoitecer, vago na verdade, como são vagos meus pensamentos:
- O que ocorre comigo? Estaria ficando louca?
Nostalgia e saudade de quê?
No íntimo, eu sei. O que não quero e não posso é admitir, pois admitir
é assumir essa insanidade, essa emoção louca que me assola.
Estou numa corda bamba, numa divisória: de um lado existe a real
existência e do outro um fantasma me pede:
- Volte o tempo.
Voltar para quê? Voltar por quê?
Essas palavras ressoam em todo meu ser, são como um eco.
O que você está fazendo comigo, Igor? Eu não posso viver assim. Você me
escuta? Se você é uma fantasia da minha mente fértil, o que faço com as
cenas, sonhos que se tornaram fato.
Tenho que colocar meus pés no chão, estou em 1988, moro no Brasil.
Porém, o tempo é um Deus mágico, e o pedido é contínuo:
- Volte o tempo...

Segunda-feira.
Tarde, chove.
Marquei uma terapeuta para o mês que vem, pois sua agenda está completa.

A decisão tomada na semana passada: não pensar em Igor. Resolvi


simplesmente. Resolvi não meditar mais. Pois é loucura, quando não
existe razão palpável; quando, até então, sou uma mulher equilibrada.

Sábado. Julho.
Noite.

A minha amiga espiritualista veio conversar comigo: perguntou-me o que


tinha, achava-me distante.
Contei-lhe, superficialmente, o que se passava comigo. Ela falou: - Por
que você não se dá um tempo para ver o que é isso.

É, poderia ser, se isso não estivesse me atormentando. De qualquer


maneira, é um fato a pensar.
Apenas pensar, pois se deixo o sentimento chegar, ele leva-me e chego à
frente dele, Igor.

Segunda-feira.
Amanhece com chuva.

Refleti que seria muito bom sentir, realmente, o que se passa comigo.
Como uma maneira de compreender. Tentar soltar-me.
Ouço palavras, surgem cenas. Cria-se um mundo distante mais palpável,
absurdamente palpável.
Estava no banho quando ouvi a voz que já me é conhecida. Para explicar
o que aconteceu, ficou-me a impressão de que o mundo havia parado, o
tempo parou.
Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros... Posso tocar tua alma, teu
ser; pois o amor pode com tudo. Amor sem limite, sem tempo e distância.
Que irá perdurar para sempre.

Embeveci-me e entrei em cada palavra, senti o seu sentido e perguntei:


- Você é algum mago?
A voz ecoou forte e quente: - Um mago? Talvez. Um mago e um sentimento,
além do horizonte.

Queria ir além, mas voltei a sentir os pingos de água no meu corpo.


Sendo sincera, não importa se faz sentido ou não, pois realmente não
faz.
Importa sim, o que sinto quando ouço a voz dele.
É algo tão grandioso, tão conhecido; não posso negar a mim mesma!
Meu coração acelera, pulsa. E a mim parece que uma parte minha vai ou
está com ele.
Terça-feira.
5:10 da manhã.
Sonhei com ele.

Ele estava sentado num banco de pedra.


- Vem.
Levantou-se e estendeu sua mão.
- Venha. Não tenha medo, estou com você.
Neste instante ele deu um leve sorriso. Mas muito além do sorriso foram
seus olhos.
Eles brilham e sorriem sozinhos. Um brilho intenso e forte.
Acordei. O dia nascia, os pássaros cantavam, um suspiro saiu de mim.
Existe uma guerra travada com a lógica, com a coerência.
E nesta altura o sentido se perde, e o que fica é o sentimento.

Noite.
Céu estrelado.

Fui à casa da minha amiga espiritualista. Ela falou ser Igor uma pessoa
ligada a mim numa vida passada, termos uma ligação. Começo a desatar o
nó que se formou na minha cabeça.
O marido dela, um grande amigo também, me ofereceu a casa de praia
deles, que fica a uma hora daqui. É um lugar de veraneio, e agora, como
é inverno, está vazia. Isso me daria, além de um excelente cenário
relaxante, tempo para refletir, de achar-me. É uma proposta tentadora.

Quinta-feira.
Noite com chuva.

Como os pingos da chuva, daqui da janela vendo, caindo no jardim, no


jasmim, o perfume doce presenteia toda a casa. Como os pingos da suave
chuva, cai em mim a história, ela toma forma. Estou feliz, feliz como
esse doce perfume que penetra em mim.
A realidade é dual: solto-me e sinto uma historia, tão distante e eu
tão dentro dela. As cenas são fortes, e geralmente me perco em tentar
ter coerência com o que está me acontecendo. Nesse momento vou ver as
taças, mas o que impera é Igor.

Sexta-feira.
9:45 manhã nublada.
Não fui à academia de ginástica, andava na praia, o mar lindo e sereno.
É sempre assim quando chove.
O pensamento corria solto, sem forma, abstrato, aí senti:
A tenger hullamáinak moroja. Abril 1813.

Estamos no final de julho.


Liguei para a Embaixada da Hungria. No íntimo, sabia exatamente a
tradução. A secretária da Embaixada riu ao ouvir meu pedido: - Por
favor gostaria de falar com alguém que fale húngaro.
Logo ouvi a voz de um homem que traduziu: - O murmúrio das ondas do mar.
A decisão foi tomada, vou para casa de praia da minha amiga.
Como também, na volta, já marquei a terapeuta.

Noite.

Tudo organizado. Terça-feira vou para a casa de praia. Minha previsão


de estada é pouco tempo, mas isso é modulável de acordo com minha
tentativa de compreensão, parece-me mais um retiro onde eu possa chegar
à razão. E o tempo será um grande fator.
Divinizo tempo?
O tempo numérico, etário, contado aos dias, meses e anos.
O tempo do sol ou chuva.
O tempo pessoal, indeterminado.
Ele é tão fictício. Hoje choveu e, agora, a noite está linda. Quando
estamos bem não contamos, o tempo voa, nem é percebido. Se existe
ansiedade ou angústia, ele se arrasta como um prisioneiro que leva ao
pé uma corrente com bola de ferro.
Muitas vezes, em fração de segundo, obtemos respostas que valem horas
ou dias de reflexão. E muitas vezes, o próprio tempo nos poupa;
noutras, é como um inquisidor que nos leva a alto grau de
questionamento. Esse tempo pessoal parece seguir uma cronologia
encantada de pessoa a pessoa. Ele é o elo do impossível ao possível? E
ele que nos gera a esperança do logo mais...

Segunda-feira.
Anoitece.

Como um mergulho.
Mergulho solitário, busca-se compreensão...
Excede, busca-se consciência.
Mergulho solitário no tempo.
Lembro-me das gaivotas. O mergulho em busca de alimento.
É a esse tempo que vou recorrer? O tempo pessoal – indeterminado?
O tempo do não tempo. Não sei, e jogo no tempo a pergunta.
O mergulho em busca do alimento.
No mergulho, de antemão sei que existem surpresas; algumas agradáveis,
outras não.
O mergulho, rasgar o véu: 1813. E um pedido mágico:
- Vem, solte-se.
Esse processo me faz acionar a vontade. A vontade de quem sabe tocar o
impossível.
O céu está belo, um tom avermelhado se espalha junto ao azul Royal,
parece que o Grande Pintor faz mistura em sua tela.
Uma alegria invade meu ser, o espírito torna-se crescido, sinto-me como
se pudesse tocar o infinito. Sorrio, lembro-me do que Igor falou:
- Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros, posso tocar sua alma, o
seu ser.
Esse mago pode mesmo!
Noite passada eu falava com ele.
- Estou indo passar esses dias nessa casa de praia, soltar-me. Sinto
aqui dentro de mim, algo quente, é o teu chamado.
Real ou irreal, você já existe. Ajude-me, pois estou no limiar. Ouça-me
mago, começo a respirar você, começo a ter consciência de que tenho um
sentimento por você.
Que loucura!

Sonhei com ele, o que já é natural.


Vi-o numa colina, seu cabelo negro elevava-se ao vento.
Pude observá-lo melhor, sua altura é mediana, porém sua presença é
forte, sua pele tem um tom moreno de sol. Seu rosto é de formato forte,
com queixo quadrado. Tem as sobrancelhas grossas, quase são unidas, seu
nariz é bem feito, sua boca um tanto grande e seus olhos são negros
como a noite sem lua. Eles me fascinam, existe neles um comungar
comigo, algo mudo e selado.
Não existe como verbalizar isso.
Interessante é que eu o via, mas não me via no sonho, só em alguns
momentos ouvi minha própria voz.
Ele falou: - Estou esperando.
Perguntei: - Esperando o quê?
Ele ficou sério, franziu as sobrancelhas, demorou um pouco e falou, com
sua voz grave e pausada: - Espero você, e você sabe disso.
Fiquei atordoada, lembro-me que nesse momento tive a sensação que ia
acordar. Mas o sono, o sonho ou sei lá o quê foi mais forte, pois
continuei a sonhar, e perguntei:
- Por que você espera?
Ele abriu um sorriso.
Isso você também sabe, mas vou repetir, porque amo.
Meu corpo tremeu, entrei num sono confuso, vi Natasha e ele, e era ele
que falava:
Mesmo que me cale, que fique mudo; mesmo que morra, você ouvirá sempre
minha voz. Sabe por quê? Porque você está em mim e eu em você, onde
existe um, existe o outro.

O sol nascia quando acordei, a casa era de total silêncio. As palavras


de Igor repercutem até agora. O sentido delas eu não entendo, ou não
quero pensar agora, o que me assola é a emoção, é tão grande quanto a
tela do Grande Pintor.
***

Terça-feira.
Noite.

Enfim aqui estou!


É uma casa gostosa. Estou na sala e daqui vejo o mar. Ela tem três
quartos, uma pequena cozinha, sala de estar, e de jantar, e um grande
terraço na frente. É cheia de altos e baixos, sobem-se dois degraus
para sala de estar, em qualquer posição vê-se o mar à frente. Os móveis
são de alvenaria, tudo simples e bonito.
Trouxe pouca bagagem, na verdade, a bagagem está em mim.
Ainda há pouco minha mãe telefonou-me, e perguntou o que estaria a
fazer no inverno numa praia de veraneio.
O que vou responder?
Olha mãe, estou vendo um homem extremamente atraente que pede para eu
voltar o tempo e encontrá-lo lá pelos anos de 1813.
Se eu assim respondesse à minha mãe, ela me levaria ao médico, com
certeza. Mas ainda acredito na minha sanidade. A resposta é: preciso
estar sozinha.

Quarta-feira.
Manhã dourada.

Andei muito na praia.


Existe um sentimento real pelo irreal.
Igor toma o espaço qual a vastidão do mar.
Por mais que minha mente resista, ele rompe a resistência ou o que
sinto referente a ele.

Essa noite sonhei com uma caravana cigana, eu estava nela.


Ouvi tiros, tiros de canhões e via tudo branco pela neve.
Fiquei até tarde tentando ler os dados de Badacsony. Ver as fotos me
faz bem, é como se estivesse vendo um lugar muito conhecido. Essa
estada está me fazendo bem.
Depois de um mergulho no mar, estou aqui na varanda.
A natureza abençoada à minha frente, uma brisa suave e o pensamento
longe.
11:40

Sinto-me levada...
Ouvi Natasha gritar:
Ouço, Mikail, Igor gritando por mim! Existe desespero em sua voz, eu
ouço, ouço!

Quem é Mikail?

15:20

Como num estalo, tomo consciência.


É isso! Tiro de canhão. Em 1812 Napoleão invade a Rússia.

17:12

Que explicação teria uma promessa,


um voto na convicção de duas pessoas,
duas almas tão ávidas de amor, amando-se tanto!
A permanência afetiva é a convicção da alma quanto ao amor, ele ama,
ele permanece e espera, é isso? Por isso você permanece e espera?
- É com você Igor, que estou falando!
Você permanece onde? Em 1813?
Droga! Não consigo afastar isso da minha mente.

Onde anda a razão?

18:50

Novamente andei na praia, tinha que sentir meus próprios pés.


A vontade é correr, correr...
E assim, quem sabe, varar o próprio tempo e chegar a 1813.
Mesmo sabendo do impossível, corri. Corri até não agüentar mais.
Existe uma profunda nostalgia. Existe saudade.

Estou em busca da razão!

2:20

Só pode ser loucura!


Chorei como criança, chorei até dormir.
Ouço a voz dele:
- Aproxime-se mais. A busca é a razão, e a razão é o nosso amor. Amor
eterno... Eterno, afirmo. Ter consciência do seu significado
é ter a certeza da nossa realidade: onde existe um, existe o outro.
Amo você, amada.
Quinta-feira.
9:45.

Acordei tarde.
Tento, às vezes, diluir toda essa vivência, mas o mais forte é a
lembrança dele, é como um marco.
Fechos os olhos e retrato-o, tateio tentando alcançá-lo mais e mais,
mas às vezes vem o vazio...
A vontade de entender é mais forte, ou mais forte é a saudade, assim
como a vontade de estar, de ir.
E o que mantém tudo isso é a busca até você. Você falou que a busca e a
razão estão em 1813, foi isso?
Por isso quis varar o tempo. Meu ato de buscar a razão é ir ao
encontro. Estar com você é a razão. É tudo que mais quero. Aí você
afirma que a razão é o amor, eterno como o tempo? 1813 - 1988. Ter
consciência do significado do amor é ter a certeza da nossa realidade.
Essa nossa realidade.

Sinto-me como um balão, mas para que lado sopra o vento?

21:30

À distância do tempo.
À distância de um tempo.
A lua quase cheia ilumina o mar, o mar está baixo. Lá em frente um
ponto luminoso, algum pescador sem dúvida. Falo a outro pescador:
- Lanças-te a rede e estou nela, vem me buscar!

O horizonte enorme, a imensidão do céu, mil estrelas brilham.


E eu aqui, em meio à natureza revestida de uma bela noite. Uma noite
bela!
Onde tudo é tão vasto, sem limites: é o mar, é o céu.
Mas, apesar de toda essa visão ilimitada, sinto-me presa.
E onde está minha prisão? Que grades me prendem?
Meu corpo é minha prisão. Sem essa prisão, meu ser voaria e alcançaria
o impossível.

Sexta-feira.
Amanhece.

Dou-me conta de que meu vôo é muito alto, alto demais para um simples
mortal.
Ele elevou meu sentimento e pensamentos ao inatingível.
Levou-me a terras distantes, e estou lá. Nada atual povoa meus
pensamentos.
Estou no topo de uma montanha, numa profunda solidão.
Olho para baixo, e dá vontade de descer, ser normal, sou humana, não é?
Olho o céu, o abstrato, talvez as respostas. A morada dos imortais.
O grito de extrema angústia está preso na garganta.
Aonde vou chegar?
Queria ser acalentada, queria um colo. Tenho medo de perder os pontos
referenciais.

Segunda-feira.
Amanhece.

Cheguei a querer ir embora, fiz as malas


A minha realidade: é o hoje.
A minha luta interna de uma realidade sem tato, sem corrimão.
Só que é tão forte, tão viva e tão sentida que ao anoitecer, senti que
não poderia voltar. Estaria fugindo.
Meu interior acalmou-se numa paz tão visível.

9:25

Livros no chão, a paisagem do lago Balaton ao meu redor. Sorrio ao


levantar a vista para o mar à minha frente: - Adoro você mar, mas é o
lago que me chama.
Leio um escrito de Pongrac Galsai que fala do lago e suas cidades.
Badacsony, um friozinho percorre minhas costas. É linda a cidade,
pequenina e florida.
As colinas e os bosques parecem surgidos dos contos de fadas, o Balaton
com suas águas brilhantes e o mago!
Como você estará agora?
Se você é passado que hoje é presente, aonde quer que eu chegue?
Se é presente, se não mora em um mundo físico e me visita, por que não
é mais perceptivo?

Doce e imponente, dono do meu dia, da minha noite, dos meus pensamentos
e sentimento.
Excede, é dono de minha alma.
Hoje sou eu que ergo um brinde.

Vendo-me no espelho, acho-me bonita. Meus olhos têm brilho, um sorriso


vem-me aos lábios.
Suspiro. Retrato uma mulher apaixonada, sorrio!
Se alguém perguntar onde está a coerência?
Fica a frase: aos entendidos.
A mim, neste exato momento, o que importa é ele. Por mais estranho e
absurdo que pareça, esta é minha realidade. O cenário é sempre o mesmo;
o tempo é móvel, oscila entre 1813 – 1988.
Como um passado, uma vivência pode ser tão forte?
Vêm imagens, cenas.
Boquiaberta vejo, nessas cenas a força de um sentir.

Noite linda!

Há nuvens no céu. O sentimento se alastra, e sobrevém a vontade de


tocar o impossível. Ele, o mago, já é um caso obsessivo. Seus cantos
são tão antigos, no entanto, sua voz está em mim, seu rosto é tão meu
como meu próprio corpo. Rompe a irrealidade e vive o real através de
mim, do sol à lua, da lua ao sol.
Aonde isso me leva?

Cena

É noite, o lago Balaton está sereno. Depois da chuva, a relva úmida, o


cheiro da terra que fora molhada se mistura ao perfume das flores. Uma
colcha de pele no chão. Igor tem no olhar mais brilho que a lua cheia.
Sua voz é rouca:
Abrimos o caminho.
Natasha senta-se: - Não o entendo. Que caminho?
Ele sorri: - Você irá entender com o tempo.
Fale-me agora, abrimos que caminho, Igor?
O nosso caminho. Passado, presente e futuro. Abrimos nosso caminho ao
permanente: ao estado de amor permanente. Se assim o desejarmos, se
assim o quisermos. O amor é a maior força do universo. Para ele não
existe o impossível: nem o tempo, nem a distância, nem a morte. Ele
exige a plenitude, o eterno. Ele é nosso elo. É nele, com ele e por
meio dele que atravessaremos tudo. Amo você, amada, hoje e sempre.

Cena.

Anoitece, o pôr-do-sol no lago é esplendoroso demais. Relatá-lo, de tão


magnífico e valioso, é correr o risco da imperfeição. Igor, sentado à
frente do lago, num movimento deita a cabeça no colo de Natasha. Antes,
encosta seu ouvido em seu seio.
Ouço seu coração, sabe o que ele fala?
O que ele fala?
Que me ama, infinitamente.
Presunçoso, mas verdadeiro. É tão simples para você, Igor, falar do
sentimento?
Falar dos meus sentimentos, nem tanto. Mas é fundamental falar a você.
Falar do sentimento que sinto e tenho por você é um ato. Por si já o é.
Quero viver e morrer falando: amo você. Eu a amo sob mil formas ou por
mil representações. O que importa é que fique claro: amo você! Que o
Balaton adormeça ao som do “amo você”. Que o dia nasça com o murmúrio
do meu sussurro “amo você”.
Cada vez que a olho, em cada gesto: amo você. Se houver distância, você
sentirá, esteja onde estiver, aconteça o que acontecer. Por um único e
simples motivo: a imensidão, a grandeza desse amor que tenho por você.

Cai o silêncio.

- Não existirá distância, Igor...


Se existir, você entenderá o que estou lhe falando. Meu sentimento é o
sopro da própria vida. Sem o sopro não há vida! Amo você de tal forma
que nada, nada fará você não sentir. Nem a distância, nem o tempo ou a
própria morte.
Por que falar em morte ou distância. Estamos juntos e juntos ficaremos
até envelhecermos, sempre e sempre.
Compreenda-me, por favor, muitas coisa existem além da nossa visão, do
nosso alcance deste agora. E se por ventura existir uma dessas
situações, quero que procure entender o que lhe falo. Mesmo que me
cale, você sentirá, ecoará em seu ser o sopro da vida, do amor que
sinto e tenho por você.
Não fale nisso, sinto-me mal... Eu não viveria sem você.

Ele senta-se, sério, o olhar que atinge a alma, e fala: - Viveria, pois
meu amor por você é sentimento, e sentimento não morre. O sentimento é
vivo. Se o sentimento é vivo tudo o é. Viveria, pois meu sentimento
estaria vivo através de você.

Noite alta. Faz frio aqui na varanda, sopra o vento, acho que vai
chover.
Começo a não ter noção do tempo. Diabo! O que importa.

A verdade cai como uma pedra num lago limpo e claro, as ondas
repercutem quando a pedra toca no lago. São essas ondas, é a pedra. A
pedra lançada há tanto tempo, e as ondas a repercutirem.
Vejo a pedra no lago e as ondas continuam, vão de um pequeno a grandes
círculos.
Ajuda-me, Igor! Já não sei onde me sustentar, já não sei onde me
segurar. O que faço com tudo que estou sentindo? Quero estar com você!
Maldito tempo, maldita distância.

3:40 – madrugada.

Estou congelada de frio. Dormi lá fora, meu corpo dói.

Sabe o que trago dentro de mim? Você sabe, Igor? Não! Com certeza você
não sabe! Existe uma guerra - não! Guerra não! Ela já está sendo
travada há algum tempo, o que existe são bombas, estou sob um
bombardeio. Santo Deus, por um único motivo: quero estar com você. Isso
dói, isso machuca, tal qual uma ferida aberta. Ajude-me, eu não estou
agüentando mais!
Não sei que horas são, há uma tempestade lá fora. Tenho febre, febre
alta.
Estou cansada, deitada no quarto. Lá fora é só vento e chuva.
Como posso fazer o tempo voltar?

14:20

A febre continua. Sinto Igor perto.


Seria muito pedir a você: Venha buscar-me, leve-me! Por que você não
responde?
Tenho que chegar a 1813, é lá que se encontram as respostas. Está me
ouvindo?
Por favor, responda-me. Onde está você? Foi você que começou toda essa
loucura. Eu não agüento mais... Eu preciso de você. Eu preciso. Talvez
mais do que você imagina, talvez mais do que eu própria imagine.

16:50

Minha febre está alta, já tomei dois antitérmicos. A tempestade


continua, o quarto está escuro, parece noite.
Em meio a um sono:
De que você tem medo? Solte-se mais, venha a mim!
Sinta o amor que temos, vem amada!

- Ao inferno, Igor! Esteja onde estiver.


Meu ser só quer você. Como verbalizar isso? Não existem palavras, elas
ficam sem sentido diante do que passo. Porém, mago, ao sentir o que
sinto, quero estar – estando, eu necessito. Mas eu não sei o caminho.

18:50

Meu corpo treme, é a febre, é a vontade de estar com você!


Meu corpo dói, minhas costas queimam, respiro mal. Queria, não, quero
você aqui, comigo!
Se você não aparecer mais, se sumir!
Você não faria isso. Levar-me a essa loucura e sumir.
Claro que não: Se o sentimento existe, então tudo existe.

Mago do sentimento, leve-me além do horizonte, quero estar com você,


quero tocar você, quero sentir você. Como pode ser tão forte?
Apaixonei-me por você, meu caro Igor, estou embevecida.

Ao diabo a coerência: apaixonei-me por você, é isso que você quer


ouvir? Entranha em mim seu pedido para voltar no tempo.
Leve-me Mago, leve-me, você impera sozinho. No início teimava em ser
notado, notado hoje é o vento, você está em mim, faz parte do meu ser.
Mas mesmo assim somos sol e lua. O sol que busca a lua, a lua que busca
o sol.

21:40.

Não consegui comer hoje, a febre persiste. Acho que preciso de um


médico, médico de alma.
Os tremores continuam, já tomei mais antitérmicos. A febre, o
sentimento, a chuva, e ele...
Sei que preciso relaxar, mas não tenho conseguido. Adormeci, sonho ou
não, já nem sei mais, porém, senti a mão de Igor na minha testa e a sua
grave voz pausada:

Relaxe, amada. Solte-se e venha a mim.


O tempo não existe, o que existe é o amor, é o nosso amor.
Vindo do passado, repercute no presente.

Sua mão acariciava meu rosto, sentir seu toque é a bênção que buscava.
Sussurrei: - Estou morrendo, Igor?
Não, amada, você terá simplesmente que ter consciência do que fomos, e
hoje somos. Pois, assim prometemos. Temos nosso trato e selo.

Perdoe-me se eu não conseguir, vida...

Você irá conseguir. Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros, posso
tocar tua alma, teu ser. Sabe por quê? Porque eu a amo, e como amo!
Relaxe, respire o sentimento.
Solte-se, você irá conseguir.
Não tema, estou com você a todo momento, em todo momento que você se
permite sentir o nosso sentimento. Portanto sinta: eu amo você. Solte-
se.

Acordei com meu próprio grito, chamando por ele. Minhas lágrimas caem
como a chuva lá fora.
A fórmula está no tempo?
Não fosse essa febre, eu poderia raciocinar melhor, mas o corpo dói,
dói minha cabeça.
O tempo; é nele que está a porta?
Não, claro que não, pois não existe nem o tempo nem a distância.
A fórmula está no sentimento, no amor!
Ele ama, por isso espera.
E eu? E eu?
Igor! Você está aqui? Ouça-me, busco por querer estar com você.
O tempo une a quem quer se unir. O tempo sempre foi a alma da vida em
terra, e hoje, a alma da vida é o sentimento que tenho por você.
O sentimento... A busca... Amo você!
Eu amo você.
A busca ao alimento.
O mergulho.
A razão: eu amo você!
Meu coração dispara, meu corpo treme: Eu amo você, eu amo!
Dou-me conta de que eu amo você.
Do momento que te vi, a estranha sensação era amor!
Você me escuta? Sente? Ouça-me, eu amo você.
E ao escutar minha própria voz, meu coração bate acelerado.
Tenho que relaxar, serenar.

Farei o relaxamento indiano do auriga. Existe uma charrete com três


cavalos. Quem guia a charrete é o auriga – é o Ser, o espírito. A
charrete é a vida, os cavalos: a força física, mental e emocional. O
auriga controla os cavalos com as rédeas, que são os pensamentos.
O meu cavalo emocional está disparado. Imagino-o diminuindo sua
carreira. Puxo as rédeas, murmurando: mais devagar, devagar.
Respiro fundo, minhas costas doem, continuo respirando fundo e
lentamente.
Eu tenho um corpo. Meu corpo é meu instrumento preciso de experiência e
de ação. Mas meu corpo é apenas um instrumento. Tenho um corpo, mas eu
não sou esse corpo, faço parte dele, mas eu não sou ele.
Respiro lentamente.
Eu tenho emoções, elas são contraditórias, mutáveis. Todavia, sei que
sempre permaneço. Tenho emoções, mas eu não sou as minhas emoções.
Eu tenho um intelecto, às vezes indisciplinado. Ele é indispensável,
pois é responsável pelo conhecimento com relação tanto ao mundo
exterior como ao interior. Tenho um intelecto, mas eu não sou o meu
intelecto.
Respiro mais suavemente.
Eu sou o centro da verdade, capaz de dirigir, comandar e utilizar todo
meu processo psicológico e meu corpo físico.
Sou o constante e imutável EU.
Eu sou Luz. Eu sou harmonia.

Sinto sono, estou relaxada, serena e tranqüila.


Chove, os pingos da chuva no vidro da janela escorrem.
O quarto está escuro e silencioso.
Silêncio na escuridão, meu mergulho.
Mergulho silencioso, os pingos que escorrem no vidro da janela brilham.
Mergulho na luz,
Luz que trago comigo, a luz do sentimento.
Luz que trago em vida, morte, vida.
Sinto a luz do sentimento me abranger, respiro, sinto tudo amplo.
O tempo é vasto, pulsa.
O tempo universal se alastra, e envolve-me como o sentimento.
Mergulho... O tempo... O sentimento.
O sentimento leva-me. O sentimento: qual o nosso lugar?

O nosso lugar está dentro do nosso amor. Seu lugar é comigo, amada.
Mergulhe neste lago de luz. Venha, mergulhe!

O calor do sentimento faz soprar a areia do tempo.


Segue cronologia encantada: o calor e a areia do tempo.

Sopro a brisa do tempo e deixe o calor do sentimento subir.


Vem amada, estou aqui!
Vê a plantação de uvas, os nossos vinhedos!
Que flores mais perfumadas você sente, senão as nossas.
Ali, o bosque, nosso bosque!
Que águas mais cintilantes você vê! O Balaton, águas que tanto nos
banharam, é nosso lago.
A planície que se estende sob sua vista daqui do alto da nossa casa lhe
parece que o mundo está a seus pés. E pergunto: e não está? Aqui está
nossa parte da história, percorra.
Uma história onde existiu um começo e não terá fim. De duas vidas, que
se tornaram uma, de um amor que nem o tempo, nem a distância calou.
Reviva, ressinta, entenda e colha o que fomos para assim compreender o
que somos.
Pois a essência da vida, o seu sentido, está onde e como atribuímos o
nosso sentimento. Aqui ele reinou.
O infinito está com você. E meu ser palpita, alastra-se e encobre o
brilho do próprio sol e o ofusca. O amor que sinto e tenho por você
precede a esta vida, o amor que trago entrou pela eternidade e provou:
é o sempre, o eterno.
E, portanto, a espero, espero amando. Espero o seu acordar, para assim
você realizar nosso trato, promessa, selo de almas!
Amada minha, minha alma se expande na luz do amor que temos. Saem de
mim mil estrelas sobre mil noites. E vem o sol que encobre a lua, vem a
lua para adormecer o sol. E eu a espero. A ponte está a sua frente! O
mundo que vivemos está nas suas mãos, aí está nossa realidade. Siga em
frente, vá até o fim, pois só assim você entenderá.
E sinta: amo você, e é justamente isso que você terá que entender, amo
você!

O tempo, o tempo, tempo.


***

A tenger hullamáinak moroja

Avô, onde o senhor está deve estar vendo melhor que eu. A visão dos
imortais deve ser tão ampla! Não é o mar, é um lago. Um lago lindo e
enorme, que mais parece o mar. Lembra, avô?
Estou encantada! É difícil ver num só local tanta beleza mágica.
Este lugar toca todos os meus sentidos, minha sensibilidade aflora à
pele.
A cor das águas do Balaton em junção com o sol parece deixar as árvores
translúcidas.
E os pássaros? São uma quantidade e uma variedade que nunca tinha
visto. Eles cantam, e meu coração também, parece festa.
Sabe avô, creio que o Balaton enfeitiçou o próprio demônio para não
entrar aqui, pois a paz que invade a alma é uma bênção.
Queria que o senhor estivesse aqui para partilhar comigo esta beleza,
esta felicidade e principalmente esta paz. Estou num dos pontos altos
da colina de Badacsony. À minha direita fica a cidade. Vejo os telhados
das casas. À esquerda está o nosso acampamento, num vale, entre
bosques. Sinto-me no céu!
Só mesmo aqui posso refazer a vista, livrar-me da angústia, adoçar a
garganta, aguçar os ouvidos e afastar os gritos e gemidos de dor.
O que leva os homens à loucura da guerra?
Olhando toda essa maravilhosa natureza, tudo ela nos dá; o que leva os
homens à guerra?
Se o senhor estivesse aqui, teria uma resposta certa, uma resposta
certa para mim.

(Hungria, Abril 1813, lago Balaton).


Verão 1812.

“O exército francês de Napoleão, no verão de 1812, com 600.000 homens,


ruma para Moscou.
Os russos, sem oferecer resistência, atraíam os franceses cada vez mais
para o interior do seu território. Somente quando o inimigo estava nas
cercanias de Moscou foi que ofereceram batalha em Borodine.
Derrotados nesse encontro, permitiram que Napoleão ocupasse a capital.
Na mesma noite da entrada dos franceses, a cidade é incendiada. Quando
as chamas finalmente declinaram, pouco restava mais do que paredes
tisnadas do Kremlin para abrigar as tropas invasoras. Na esperança de
que o Czar acabasse por se render, Napoleão deixou-se ficar durante
mais de um mês, e só em 22 de outubro resolveu iniciar a marcha de
regresso. Essa demora foi um erro de conseqüências fatais. Muito antes
de ter alcançado as fronteiras, o terrível inverno russo caiu sobre os
franceses. Rios engrossados, montanhas de neve e lamentação sem fundo
retardaram e quase detiveram a retirada. Além das calamidades de um
frio insuportável, das doenças e da fome, guerrilhas de cossacos
surgiam dentre nevascas para atacar as tropas já exaustas. Cada manhã,
o miserável remanescente a se arrastar na fuga deixava para trás
círculo de cadáveres à volta da fogueira da noite anterior.
300.000 franceses morreram feridos de fome ou frio.”

1812. Abertura oficial da feira de Nijmí Novgorod – Rússia.

1812. Nas imediações campestres de Dantzig – Prússia.

A fogueira está acessa no acampamento de Istvan. A temperatura está


fria, mas agradável, o tempo estável. Isso dá uma certa tranqüilidade.
Seus olhos percorrem as carroças, dentro delas sua gente dormia. Uns
poucos homens arrumavam mais lenha para as fogueiras. A seu lado,
também sentado no chão, sobre uma colcha, está Andrei. Vez por outra
Istvan olha para o filho.
Preocupado, pai?
Não, só pensando na feira.

Ambos são claros, puxaram ao velho Andrei, pai de Istvan, austríaco de


nascimento, cigano por opção.
Penso na longa caminhada que teremos até Nijmí, é bem distante. Lá,
está a nossa chance de vender todo o nosso trabalho.

O inverno passado tinha mudado um pouco seus planos; a neve castigou as


estradas e uma das carroças ficara bastante danificada, o que atrasou a
viagem. Provavelmente não daria tempo para verem a abertura da feira,
mas em Nijmí a feira é permanente.
Às vezes é difícil ter a decisão final para com o grupo.
Os pensamentos de Istvan são interrompidos com a chegada de Lorna, sua
esposa.
Istvan, andei pensando, será prudente entrarmos na Rússia agora? Temos
ouvido tantas coisas.
Mãe, os russos são hospitaleiros, sempre nos receberam bem. Somos
ciganos, não fazemos parte desta guerra.

Istvan admirava a objetividade de seu filho.


Em Nijmí Novgorod existe de tudo. Você vai gostar, Lorna, é uma cidade
de mercado, tem lojas, igrejas, teatros. Não estaremos na abertura
oficial da feira, o que é uma pena, pois será uma bela festa, mas a
feira perdura o ano todo. A cidade é cortada pelo rio Volga. Era um
porto protegido por um castelo. Apesar de não conhecer, dizem que é um
bonito lugar.

Lorna ainda se admirava com o marido. É culto. Somente ele e Natasha


liam, no grupo.
Não sei, sinto algo no ar. Você me conhece.
Lorna, vamos entrar na Rússia. Caso venhamos a sentir que as coisas não
estão bem, sairemos. Andrei falou certo, não fazemos parte desta guerra.

Lorna concordou com a cabeça, acariciou o filho e levantou-se falando:


Andrei, não demore a deitar-se, Belle está indisposta, vá ajudá-la com
as crianças, pois com Gaspar, só mesmo você. Onde está Nat? Não estava
com Belle.

Deve estar sonhando. Falei-lhe que ao voltar da feira iremos ao lago


Balaton. Acalme-se Lorna, não me olhe assim.

Você deve estar brincando, Istvan, irmos ao lago?!


Lorna, sente-se e escute-me, o destino, como você diz, é traçado. Onde
podemos interferir? Ela, agora, já é uma moça. Da última vez concordei,
pois ela era uma menina. Talvez aos nossos olhos continua a ser, mas
agora, Lorna, ela está com vinte anos! Além de tudo, é o local ideal
para um bom descanso e recomeço de trabalho. Sei como se sente, sinto o
mesmo. Mas esse medo pode ser fruto da nossa imaginação, e não vamos
passar o resto da vida a evitar um lugar. Às vezes vemos fantasmas onde
não existe. Vá deitar e tente se acalmar.
Muito bem, Istvan, você pode estar certo!

Lorna beija o filho, faz um afago no marido e vai para carroça. Eles
ficam a olhá-la. Ela ainda é uma bela mulher, seus cabelos continuam
negros, seus olhos ninguém sabe decifrar o que dizem: tem estatura
baixa. Sempre está bem disposta, parece reter uma força incomum no
falar, no andar, no agir. Seu todo é um tanto orgulhoso como todo
húngaro. Jamais poderia esconder sua nacionalidade e sua alma cigana.
Lorna entra na carroça, senta-se num banco perto da janela. Não há
necessidade em acender a lamparina, a noite está linda, estrelada.
Quase igual a vinte anos atrás. As lembranças voltam, lembranças de
1791.

Julho 1791, imediações do Lago Balaton.

O som do violino do velho Andrei é ouvido em todo acampamento. Um som


mágico, que só o cigano sabe tirar.
Lorna, com 35 anos, tinha acabado de ajeitar a cabeça do filho no seu
colo, e ouvia o sogro tocar. Música que toca o coração, onde dizem
residir a razão cigana.
O barulho de uma charrete é ouvido, Andrei pára de tocar. Lorna pensa
em quem poderia ser, seu marido não seria, pois não daria tempo de ele
ter ido à cidade e já estar de volta.
A charrete parou a poucos metros das fogueiras. Nela, estava uma moça e
uma senhora que guiava os cavalos. Andrei levantou-se e dá as boas-
vindas. Lorna, sentada, observava a moça que falava com seu sogro.

Boa noite, senhor. Soube, por um empregado, que vocês chegaram e


resolvi vir até aqui.
Trouxe-lhes algumas galinhas.

- Ah! A senhorita é filha do proprietário das terras, claro!


Desculpe não tê-la reconhecido. É a idade, já não tenho bons olhos.
Lorna, venha cá. Lorna é minha nora.

Ela ajeita o filho, que dorme, acomodando sua cabeça numa almofada. Vai
à charrete, dá as boas-vindas e, por formalidade de educação, oferece
um chá. A jovem, para surpresa de Lorna, aceita. Pede a sua ama para
pegar o cesto com as galinhas. Lorna se encaminha para a fogueira. A
jovem olha para o menino adormecido, pergunta se é filho de Lorna, ela
afirma, e ela pergunta a idade do menino, Lorna responde que ele fará
dez anos na próxima lua nova, pede licença para pegar canecas na
carroça. A jovem pergunta se pode acompanhá-la e segue Lorna. Lá
dentro, Lorna ofereceu-lhe um banco, a moça sentou-se, mas, antes, foi
a janela, deu uma olhada lá fora. Seu nervosismo era notado.
Meu nome é Elizabeth. Aqui é tudo tão alegre, tão cheio de vida.
Lorna sabia que ela rodeava a conversa sem saber como começar. Ofereceu
o chá. Elizabeth acenou com a cabeça, aceitando. O violino de Andrei
novamente enche a noite. Lorna serviu a caneca de chá, as mãos de
Elizabeth tremiam. Lorna a observava: seus cabelos eram da mesma cor
que seus olhos, cor de mel. Tão bonita, uma beleza fina, delicada, e
tão angustiada!
A senhora tem quantos filhos?
Só a criança que dorme lá fora.
É tão difícil falar-lhe. Mas vou direto ao assunto. Passei a noite
anterior acordada, como falei, meu empregado viu vocês chegarem ontem.
E pensei, quem sabe, aí não está a solução dos meus problemas.

Elizabeth fez uma pausa, bebeu o chá e colocou a caneca na mesinha e


continuou.
Estou aqui na casa de campo dos meus pais, por uma razão bastante óbvia.
Lorna já, evidentemente, notara a gravidez da moça, porém permaneceu
calada.
Meus pais não sabem, ou fingem não saber, não sei ao certo.
Aleguei estar adoentada e pedi para ficar uns tempos no campo. Às vezes
acho que eles sabem, mas também sabem a seqüência lógica de tudo isso.
Entende-me, senhora? Não posso ficar com a criança. Tenho uma vida na
corte, e, mais que isso, tenho um casamento marcado.
Meu plano era dar a criança a algum casal de camponês, mas existe um
grande risco, pelo fato de morarem por aqui. Quando soube que vocês
estavam aqui.
Elizabeth parou um instante para medir as palavras.
Não sei como a senhora vê tudo isso. É tão difícil. Meus pais nunca
aceitariam essa criança por perto. Entenda, senhora, meu pedido é para
a senhora ficar com essa criança.

Lorna levantou-se e foi ao bule para pegar mais chá, olhou de lado para
ver melhor. A jovem deveria ter uns dezoito anos. Jovem e insegura.
Sentiu compaixão da moça, devia ser uma situação difícil. Mas, também,
era difícil Lorna aceitar o fato de uma mãe recusar um filho.
Na vida cigana as coisas são bem mais simples.
Isso chega a ser constrangedor. Lorna tinha um filho, um único filho e
só ela e Deus sabiam como ela queria outra criança. E, ali à sua
frente, uma jovem oferecendo uma criança; mais parecia um mercado,
pensou Lorna. Ofereceu-lhe mais chá e falou:
Senhorita, essa decisão não pertence somente a mim. Terei que conversar
com meu marido, e como sabe, ele não está... Mas céus! Santa Sofia
abençoou-lhe com um filho.

O que eu posso fazer? Minha vida, meus pais. Nunca me passou na cabeça
ficar com essa criança, estou sendo honesta com a senhora. No início da
gravidez tomei algumas ervas, mais não adiantou. Como a senhora acha
que me sinto? Não é fácil, nada é fácil nem o fato de estar aqui agora
conversando com a senhora. Tem horas que digo que estou sonhando, isso
não está acontecendo. Mas está! Essa barriga a cada dia pesa mais, como
também aumenta minha angústia. Se não forem vocês a ficar com a criança
serão outras pessoas. A vantagem é que, com vocês, não a terei perto.
Sei que passam anos sem visitarem o mesmo lugar.

Lorna observa, pensativa. Olha pela janela, vê o sogro com o pequeno


Andrei, sente o orgulho de sua gente e principalmente dele. Um homem
que veio do meio igual ao da jovem Elizabeth, aderindo à cultura
cigana,seus princípios e sempre segue isso como lei. Seus princípios,
suas verdades são passadas para todos aceitarem o destino. Lorna
acreditava no destino como a única força existente, e foi Andrei que
ensinou a todos que dentro de cada um existe uma outra força, tão
forte quanto o destino, que é a escolha. Uma escolha de caráter e de
moral.
Sim, somos ciganos, pensa Lorna, temos orgulho do sangue em nossas
veias; mas também temos um homem culto que nos deu inúmeras lições de
vida.
Volta a olhar para a jovem e afirma que irá conversar com o marido.
Elizabeth agradeceu-lhe, levantou-se e saiu da carroça. Andrei já não
tocava mais, estava sentado junto ao neto.
Essa foi a primeira e última conversa que Elizabeth teve com Lorna.

Dias depois, chegou ao acampamento a senhora que acompanhara Elizabeth.


Chegou com pressa, à procura de Lorna, a criança estava para nascer.
Lorna olhou incerta para Istvan, e este lhe deu um leve aperto no braço
como um consentimento.
Lorna foi à casa da moça. No enorme quarto estava Elizabeth, meio
torcida pela dor e, ao seu lado, uma senhora de meia idade que lhe
passava água no rosto suado. Ao vê-la, Elizabeth tentou sorrir e
agradeceu sua chegada.
Os minutos se arrastam para horas. O primeiro parto é sempre
imprevisível, pensava Lorna, enquanto olhava pela janela. Qual a
sensação de uma moça tão bonita, rica, ter seu primeiro filho e dá-lo.
Quase três horas depois nascia a criança e foi Lorna quem a pegou. Se
existia alguma dúvida em Lorna, esta se dissipou ao olhar a pequena
menina. Enquanto a limpava, ela sentia uma doce emoção. Pairou um
encantamento. Ouviu Elizabeth pedir alguma coisa, mas ela só tinha
olhos para a criança, uma menina! Istvan iria ficar feliz, o velho
Andrei também. E para ela era a realização de um sonho.
Os pensamentos de Lorna foram interrompidos pela ama de Elizabeth, que
pedia para ver a criança. Ela pegou a menina no colo e parecia
emocionada ao devolvê-la a Lorna. Pegou um bauzinho e o estendeu a
Lorna, dizendo: - Isso é da criança, eu mesma fiz.
Lorna enrolou a menina com uma manta, foi junto de Elizabeth e
perguntou:
Como sabia que eu viria?
Simplesmente, sabia. Você será uma boa mãe, Lorna, eu sei. Deixe-me vê-
la.
Lorna não conseguiu decifrar o que se passava no íntimo de Elizabeth,
se tristeza ou alívio. Elizabeth entregou a menina a Lorna, que ao
dirigir-se à porta ouviu Elizabeth perguntar-lhe:
Qual o nome que você dará a ela?
Lorna virou-se: - Natasha.

No acampamento, Istvan estava ansioso e ao ver a charrete chegar foi em


sua direção. Lá estava Lorna com o bebê nos braços. Istvan a olhava com
expressão de candura. E sua expressão aumentou quando soube que era uma
menina e falou: - Bem-vinda à vida. Que Santa Sofia lhe dê saúde e
felicidade, Natasha.
Tuthy, que acompanhara Lorna até o acampamento, olhava a menina. Lorna
pediu para o marido pegar o baú.
Cuide bem dela, - disse Tuthy despedindo-se.
Não tema, sempre quis ter outro filho, só uma coisa me preocupa: diga a
sua senhora que não procure ou queira saber sobre a criança. Hoje eu
estou assumindo a menina e a partir de agora eu sou sua anya. Honramos
e amamos nosso povo. Ela agora faz parte de tudo isso.
A senhora não tem com o que se preocupar, não há motivo para isso. A
senhorita está de casamento marcado para outubro próximo e irá morar na
corte austríaca. Agradeço-lhe por tudo, cuide bem da menina Natasha.
Adeus!
Nós ciganos nunca dizemos adeus. – falou Lorna acenando.

As lembranças viajaram no tempo. Relembrava os primeiros anos de


Natasha. Desde pequena encantava a todos, embora não tivesse o tipo
cigano. Seus cabelos claros, sua pele alva e seu sorriso eram por
demais leves.
Mas Lorna passava muita coisa para a filha, era a magia dos ciganos
húngaros, que Lorna trazia em si, como também uma determinação maior. E
os grandes olhos amendoados da menina observavam a mãe, e aprendiam.
O amor era dado por igual a Andrei e a Natasha por todos. O pequeno
Andrei cuidava da menina como a um pássaro, e a chamava de Madar
(pássaro em húngaro).
O velho Andrei tinha um carinho especial pela pequena e delicada Madar,
ficava horas contando-lhe histórias, lendo ou conversando com ela, e
nelas ele sempre contava como Natasha chegara ao acampamento, como um
pássaro.

Um leve barulho faz Lorna voltar a si: - Natasha?


Desculpe-me, tentei não fazer barulho. Vi-a tão pensativa, tão
distante, olhando o céu.
O que a senhora vê nas estrelas, anya?
Lorna volta-se para a filha: - Sente-se, quero vê-la.
Natasha beijou-a na testa. A claridade da carroça vem de fora, da lua e
das fogueiras.
Os olhos de Lorna se fixaram no rosto de Natasha. O que Lorna poderia
dizer-lhe! Nela própria existe um medo surdo, mas em Natasha existe
alegria, alegria diz tudo. Seus olhos amendoados e grandes brilhavam,
sua boca bem feita trazia um sorriso, o nariz afilado e meio
arrebitado, a pele branca e lisa.
Natasha tem uma beleza serena e notada. Seus cabelos vão até a cintura,
parecem uma cascata cor de mel. Seu corpo é mais para magro, mas bem-
feito. Ela tem uma graça natural.
Anya! Em que pensa?

Em você. Por que é tão importante o lago Balaton?

Não vou conseguir falar bem o que sinto, pois simplesmente sinto.
Admiro-a tanto, anya. A senhora é sempre tão prática, tem o raciocínio
rápido, sua mente parece ter a resposta para tudo, seus olhos enxergam
além, e ninguém consegue mentir para a senhora. Tento analisar que
felicidade é essa que me cerca toda vez que penso no Balaton, só que
ela me excede. Deve ser curiosidade.

De que?!!! Você estava tão doente quando esteve lá, com uma febre tão
alta que, ou estava delirando, ou dormindo.

Anya, uma tarde acordei, olhei pela janela da carroça, o mundo parecia
encantado, ouvi os pássaros cantarem tão alto, o verde do bosque era
diferente. Existiu algo que não consigo atinar... Eu sei que existiu,
eu sinto que existiu.
Anya, a senhora contou-me tudo que se passou lá?

Claro que sim!


Você chegou no lago já doente, sarampo brabo, desses que só dá por
dentro. Ficamos loucos de preocupação. O dono das terras levou um
médico para vê-la, e assim que você melhorou um pouco, viajamos. Isso é
tudo!

Como é esse homem?

Ah! Já não lembro mais. Por quê?

Nada... Só curiosidade, apenas isso.

- Nat, você esteve doente, bastante doente, foram dias de cama, febre
e delírios. Nada mais lógico que quando você melhorou ou voltou a
si, o que viu primeiro a encantou. Isso é natural.
Natasha levantou-se e foi à porta, olhou o céu estrelado: - Pode ser.
Acho que tenho muito do avô, ser afetada por acontecimentos tão sutis,
mas de uma grandeza que invade a alma.
Durante todo esse tempo, sempre sonhei em voltar ao lago, são mais que
dois anos. Não sou mais criança que fica criando fantasias. Devo ter
realmente ficado impressionada com o local. Sempre que penso nele, meu
coração dispara, invade-me algo desconhecido. É como se ele chamasse
por mim... Sinto isso anya, por mais imaginação que tenha, por mais
sensibilidade que traga em mim, isso é real e está em mim. Só não sei
por quê, e não quero evitar sentir.

Vá dormir, Nat, amanhã cedo partiremos, é uma longa viagem.


Anya, Belle está preocupada com esse clima de guerra. Vi-a tão aflita
conversando com Andrei.
Tenho que dizer que essa preocupação não é só da sua cunhada. Mas seu
pai sabe o que faz. Vá dormir, vou chamar seu pai.

A chuva fina começou no momento em que as carroças começaram a sair.


Natasha acomodava as crianças junto com sua cunhada Belle. Ao todo, na
carroça, estavam sete crianças; duas eram de Andrei e Belle: Erno e
Gaspar, um com cinco anos e o outro com quase três.
Estavam a cantar, assim parecia que o tempo corria mais rápido, Lorna
seguia em outra carroça com outras senhoras do grupo, geralmente
fazendo colchas de retalhos ou roupas. Todo serviço é dividido. Em
outras duas carroças vai o material de trabalho, como as peças de
bronze. Ao todo são doze carroças. Natasha vê, pela janela, Andrei e
dois homens passarem a cavalo, eles devem ir à frente, guiando.
Ela e Belle falam sobre a feira, como também da preocupação em entrarem
na Rússia. E Belle completa:
Falei com Lorna, ela também está preocupada em entrar na Rússia.
Anya supera tudo, sua preocupação é voltarmos para o lago Balaton. Não
me pergunte porque eu não sei.

Todos esses anos, que convivo com Lorna, nunca a vi ter uma preocupação
sem motivo.
Natasha conconda e fala que talvez deva ser recordações ao voltar para
Hungria. Pois ate pouco tempo, os ciganos da Hungria podiam ser
escravos e que sua anya saiu de lá e perdeu pessoas queridas. Lorna não
contara esta historia a ela e sim seu avó. Em 1782 os ciganos foram
libertados. Continua a contar a Belle:
- Nasci nove anos mais tarde. Acho que, para ela, que perdeu gente
sua com essa escravidão, por mais amor que tenha à terra, as
recordações doem.
Seu grupo cigano ficou quase todo lá, ela e uns poucos conseguiram
fugir e se juntaram ao grupo do meu avô na fronteira da Áustria. Assim
ela conheceu meu pai, assim se juntaram os grupos. Meu avô contava que
esses poucos fugiram e seguiram anya. Quando eles chegaram ao
acampamento, estavam mortos de fome e cansaço, mas anya, com seu
orgulho danado, deu comida a todos e os acomodou. Só depois de ajeitar
sua gente, foi a meu avô e agradeceu, sentou-se e comeu. Ela nunca
tinha saído da Hungria, os ciganos húngaros sempre se fixam, tem raízes
e amor à terra.

Mas seu avô adorava viajar, afirmou Belle.


Sim, adorava, e esse é o motivo de ele ter se tornado um cigano,
percorrendo novos horizontes. Ele falava que teve que fugir de sua
cidade. Seria ficar e morrer ou sair e descobrir o mundo. Mas tenho
certeza que não foi algo tão dramático assim, meu avô teve uma boa
educação, teve estudo, pois seus pais tinham uma boa situação
financeira, eram comerciantes. Mas ficar na cidade, a meu ver, era dar
adeus ao mundo que tanto ele queria conhecer. Seria a morte no sentido
de vivência, de conhecimento.
Anya, quando chegou ao acampamento, meu avô já era viúvo, ela e meu pai
se apaixonaram e logo casaram. Foi ela quem deu ordem ao grupo. Ela diz
que meu avô tinha as rédeas soltas, brigavam bastante. Ele dizia que
sempre ganhava nas brigas, mas tenho minhas dúvidas. Ele a adotou como
filha, e ela, a ele, como pai. Sabe Belle, o avô foi o homem mais
notável que conheci, sinto por você não o ter conhecido.

Seu irmão diz que ele tinha muito conhecimento e um coração enorme como
o do seu pai.
Meu pai tem muito do meu avô, uma ingenuidade que nada tem dos ciganos.
Já Andrei é um equilíbrio, fisicamente parece com o pai, mas tem a
agudeza cigana.
E você?
As crianças adormecem, Natasha acomoda Gaspar.
Quando nasci, Andrei já tinha dez anos, o amor dos meus pais sempre foi
bem distribuído. Um amor manso e sentido. Mas, às vezes, umas poucas
vezes eu me sentia como estivesse fora daqui ou não fosse daqui. Não
sei se você me entende, eu nunca falei isso a ninguém, só ao avô. Era
algo em mim, não que me passassem isso. Aí, então, meu avô pegava-me
pela mão e falava: - Madar, olha o céu, veja as estrelas, olhe dentro
de você, o mundo é imenso, grandioso e, às vezes, nos sentimos
estranhos diante de coisas tão grandes, sentimo-nos pequeninos, mas o
mundo é como o vemos, se quisermos fazê-lo feliz o faremos. Eu ficava
feliz.

Você, às vezes, fala coisas que eu não entendo; acho que é porque você
é letrada. Você fala estranho e meio difícil, mas a admiro muito, Nat.
Ah Belle, deixa de bobagem, o que vale é o que trazemos dentro do
coração. Você e Andrei se dão tão bem sem saber o que tem nos livros,
simplesmente vivendo. Veja anya, seu poder de observação vale mais que
uma leitura.
Belle, tenho algo a lhe perguntar: no lago Balaton, assim que chegamos
nasceu Gaspar, mas o que achou de lá?

Ah Natasha, é um lugar muito bonito, se fosse por mim, eu ficaria


sempre lá.
O que ocorreu, mal lembro de como chegamos.
Sei muito pouco, Nat, estava de resguardo. Além do mais era sarampo e
você ficava isolada, por causa das crianças.
Você chegou a ver o dono da propriedade onde estávamos acampados?
Sim, vi.
Fale-me dele.
Sei que ele apareceu logo depois que chegamos. Nesse mesmo dia trouxe
um médico. Daí, todo dia, ele vinha ao acampamento. Às vezes, mais de
duas vezes ao dia, passava um bom tempo na sua carroça.
E como ele é?
Como ele é, como? O que você quer saber?
Belle! Se é velho ou torto, sei lá! Como ele lhe pareceu?
Quer saber mesmo? Que fique entre nós, pois você me conhece, nunca fui
leviana.
Eu sei Belle! Fale-me como ele é.
Vi-o de perto só uma vez. Ele foi com o médico à minha carroça, ver as
crianças. Natasha, é um homem de virar a cabeça de qualquer mulher. Ele
deveria ter uns vinte oito anos, mais ou menos, cabelos negros como os
olhos. Muito sério, mas o ouvi diversas vezes rindo com seu pai. Tem
aquela risada solta, sincera... Que homem!
Por que essa pergunta?
Por nada. Às vezes penso por que saímos tão repentinamente do lago
Balaton, se esse homem não teria gostado de nossa presença lá. Mas como
você e todos falam, ele me ajudou, não tem sentido.
As carroças estão parando, devemos cuidar da comida.
***

Avô, se existe uma ocasião em que agradeço o senhor não está aqui entre
nós, este é o momento. O senhor, com toda sua sensibilidade, não
gostaria de ver o que vimos, não gostaria de estar onde estivemos.
A guerra é a coisa mais desumana que existe na terra. O que leva os
homens a isso? Eu jamais vou entender. É pelo poder? Pela soberania? O
homem, às vezes, se torna uma besta por demais poderosa, cruel demais.
Ao entrarmos na Rússia, encontramos os franceses de Napoleão, eles
destruíam tudo, acabavam com tudo. E por quê? Por um homem louco que
quer ter o mundo como seu! É loucura. Vi tantas cenas tão amargas,
tanta crueldade. Onde estaria a humanidade, o ser humano, a natureza
humana. Vi gente morrer de fome. De fome, avô. Soldados famintos, e por
um ideal de grandeza territorial. Naquelas terras não tinham o que
comer. Vi mulheres chorando, buscando os seus maridos ou filhos que
deveriam ter retornado com as tropas. Avô, quero apagar isso da
memória. É terrível, e não há razão que explique e convença o motivo da
guerra.
Queimaram Moscou, a Rússia está vazia, chegamos lá e já estavam os
franceses e vimos sua retirada.

Acampamos uma noite e tudo parecia quieto, o mundo parado. A noite


estava linda, uma noite como o senhor falava: para sentir-se dono da
vida, do universo.
Sentei-me perto do pai. Tremia de frio e já não tínhamos mais certeza
se deveríamos seguir viagem. Não víamos ninguém. Muitas vezes ouvíamos
movimentos na folhagem, perto de nós, pareciam esquilos assustados,
escondidos. Nos primeiros dias cheguei a pensar que era por nossa
causa. O medo, que alguns sentem dos ciganos, que ingenuidade! Era um
medo de algo maior, centenas de vezes maior.
Sentada junto ao pai, na escadinha da carroça, juntinhos tomávamos chá.
Pai, o que está se passado aqui?
Esta terra está na expectativa, filha. Os russos estão esperando não
sei o quê. Escondem-se, distanciam-se, isso não é deles. Deixaram os
franceses entrar em seu território, os próprios russos queimaram
Moscou. Existe algo muito sério, algo no ar. Ontem, eu, Andrei, Friggs
e Pal avistamos Moscou. Não entramos na cidade, chegamos perto. As
estradas estão vazias e a cidade também.
Não sabia que vocês tinham ido à cidade.
Não quisemos causar preocupação.
A Rússia está quieta, está tudo parado. Onde estaria aquele contingente
francês que vimos passar ao longe? Onde estão os russos? Está tudo
deserto e Moscou destruída.
Pensei encontrar alguém para explicar-me como está a situação em Nijmí.
Não vimos ninguém, não existe a quem perguntar. Ficamos num monte,
olhando a cidade queimada e vazia. Quando montamos os cavalos e saímos,
alguns soldados franceses nos detiveram, eles não nos entendiam, nem
nós a eles, só quando viram nossos trajes, entenderam que éramos
ciganos, apontaram seus fuzis nos mandando embora.
Por tudo isso, acho que é mais prudente voltarmos. Amanhã reúno todos e
falarei.
Não sei se existirá a feira ou não. Se formos em frente, além de
imprudência, não sei como estarão as estradas. A cidade parece uma
cidade fantasma. Russos, não vimos um; só alguns franceses, e o que
eles esperam?
Se formos em frente é penetrar no escuro, pura imprudência.
Moça, creio que vamos estar no Balaton antes do previsto.

Neste momento não penso mais em nada, somente na emoção de logo estar
no Balaton.
Desfrutei ali uma paz, o lago Balaton. Dormi naquela noite com os
anjos, tenho certeza. Ao acordarmos, o pai conversou com todos e foram
unânimes em sair o quanto antes da Rússia.
Ainda acho engraçado ver essas decisões finais, com os mais velhos
sentados em círculo, as mulheres atentas. Anya é uma que pergunta tudo,
mostrando que está presente, opinando.

O vento forte fez com que a reunião acabasse mais rapidamente. Voltamos
às carroças para nos preparar para viagem.
O frio insuportável, a neve começa a cair. Seguimos estrada afora.

O mundo estava todo branco, terra e céu se uniam com o vento frio. E
que frio! Até os ossos doíam. Os cavalos deveriam gostar de cavalgar,
assim se esquentavam.
Vez por outra olhava pela janela, tudo branco, o vento gemia. Andrei
passou a cavalo para acompanhar e verificar as carroças. Pal seguia à
frente para dar rumo à caravana. A neve era tanta que as rodas, ao
passar, deixavam sulco como um marco.

As peles eram poucas para tanto frio, as crianças dormiam bastante, o


que era uma sorte, Por muitas vezes paramos, mas não podíamos descer,
o vento cortante nos impedia e quanta neve! O pai ou Andrei eram os que
traziam a comida, sempre sopa e pão. Ficávamos, Belle e eu, a pensar
como o pessoal estaria se virando para cozinhar com os movimentos das
carroças.
Tentei, uma das vezes, chegar à carroça de anya. A neve batia no joelho.
A marcha era lenta, o cenário de um branco infinito. E em meio àquela
paisagem silenciosa, ouvimos, todos ouvimos, tiros, tiros de canhão!
Não sei por quanto tempo reinou aos ouvidos aquele som infernal. Os
cavalos assustados, as crianças chorando.
Num ímpeto abri a porta. Vi Andrei acalmando os cavalos, que,
assustados, queriam erguer as patas. Ouvi seu grito: - Natasha! Feche a
porta da carroça! Não saia. Ouviu? Não saia!
O mundo parecia desabar e eu olhando.
Feche a porta, Natasha!
Tranquei a porta. Senti meu coração bater rápido. Erno e Gaspar
abraçaram-me. Belle encolhida num canto, acalmando as crianças. Os dois
meninos escondiam suas cabecinhas no meu ombro. Minhas mãos suavam
apesar do frio. Juntamo-nos. Existia calor, não pelo fogareiro, não
pelas peles. Os tiros de canhão pareciam atingir minha cabeça. De fato,
estavam muito próximos. Seriam os franceses atacando os russos, ou os
russos atacando os franceses?
Que importância teria, era um monte de homens se matando.
Aí caiu um silêncio mortal.
As crianças levantaram suas cabecinhas.
Foi, então, que ouvimos o pior, eram gritos desesperados, gritos de dor.
Por quanto tempo isso vai durar? – perguntava Belle, com desespero.
Não sei Belle.

Não sei por quanto tempo ficamos parados só ouvindo os gritos.


Passavam-me tantas coisas na cabeça. Vinha a vontade de ver se todos
estavam bem; vinha a vontade de ajudar e vinha a maior vontade de sair
desse pesadelo.
Os gritos se distanciavam mais e mais.
As crianças gritaram aterrorizadas quando a porta se abriu. Era Andrei.
Os meninos correram em sua direção.
Depois de acalmar a todos nós, ele chamou-me com Belle para irmos lá
fora e incumbiu as crianças da limpeza da carroça.
Fica aqui, pai!
Estou aqui fora com sua mãe e sua tia, é só olhar pela janela. Mas
varram e arrumem toda essa bagunça.

Fora, o sol brilhava, mas o frio, apesar da trégua da neve, era


intenso. Belle abraçou Andrei e eu perguntei o que estava acontecendo.
Uma batalha. É a guerra. Não podemos ficar parados, estamos expostos.
Há uma aldeia a mais ou menos 20 Km daqui. Temos que chegar lá.
Existe alguém nessa aldeia?
Sim, vimos luzes nas casas. Chegamos perto, porém ouvimos os tiros e
voltamos o mais rápido possível. Quando você me viu, Nat, tínhamos
acabado de chegar.
Sei que foi um ataque de surpresa. E quem foi surpreendido bateu em
retirada para aqui perto. Como, também, não deve haver mais ninguém por
aqui.
Como você sabe? – perguntei.
Estamos numa planície, e quem foi pego deve ter ido até aqueles montes
em busca de maior proteção. Com certeza foram os franceses, pois os
tiros foram se distanciando da aldeia. De qualquer maneira, não podemos
ficar parados por mais tempo, expostos num campo aberto. E os cavalos
têm que se movimentar.

Tinha perdido a noção do tempo e perguntei: - Andrei, há quanto tempo


estamos parados?
Sua resposta: - Há quase cinco horas.
Certifiquei-me de que meus pais estavam bem e fui para a carroça. As
crianças tinham arrumado tudo. Logo chegou mais sopa, seus rostinhos
ficaram desanimados: – Mais sopa!
Meus pensamentos estavam na conversa de Andrei. Tínhamos visto muitos
franceses a pé: olhei a janela e vi os montes, a essas alturas eles
devem estar lá. Deus permita!
Seguimos viagem, qualquer barulho maior assustava a todos.
Não fazia muito tempo que estávamos viajando, quando paramos.
Agradeci a Deus, pois devíamos estar chegando à aldeia.
Fui à janela, e o que vi até agora está em mim: eram dezenas de corpos
pelo chão, a neve ficara vermelha de sangue, muito sangue.
Fiquei petrificada. Quantos homens? Parecia uma infinidade. Senti a mão
de Belle no meu ombro, com a outra mão ela cobria o rosto horrorizada.
Vi o pai e Andrei, correrem para onde estavam os corpos.
Vi anya e mais pessoas correrem para lá.
Que cena horrível!
O que está acontecendo, Nat?
A inocência das crianças se chocava com a brutalidade da cena. Empurrei
Belle contra a janela e falei: - Tome conta deles, está me ouvindo,
Belle?! – ela, estática, encobria a janela com o próprio corpo.
Saí, eu não andava, corria, como se correndo pudesse trazer vida.
Via o pai e anya debruçados em alguém. Via nossa gente estarrecida.
Eram tantos cadáveres ao chão! Era tanto sangue!
Foi quando ouvi um gemido do meu lado direito. Passei os olhos,
angustiada, por entre os corpos sem vida. Meu coração batia forte; foi
então que vi, junto de dois corpos mutilados, um rapaz.
Aproximei-me dele. Ele gemia deitado na neve; sua barriga era só sangue.
Agachei-me. Meu Deus! Quantos anos teria? Parecia um garoto.
Toquei sua testa, ele olhou-me.
Seus olhos estavam desesperados. Ele falava baixo, e eu não o entendia.
Segurei sua mão, era só sangue. Desesperada, passava a mão em sua testa
e falava-lhe: - Você vai viver... Está me entendendo, você vai viver,
estamos aqui. Você vai ficar bom, cuidaremos de você.
O que ele falava eu não entendia, só via que seus olhos se acalmavam.
Alisava sua testa fria, segurava sua mão. Sua expressão se suavizava,
sua mão apertava tanto a minha que chegava a doer, e eu só repetia:
Você vai viver, cuidaremos de você, entende-me!
Sua voz era baixa. Eu não o entendia. Sua mão apertou-me mais e depois
a largou.
Olhei em seus olhos, seus olhos estavam parados. Não tinham mais vida.
Alisei sua testa: - ele vive, pensei.
Peguei novamente sua mão apertando-a e pensei: - ele vive...
Nada! Ele estava morto.
Debrucei-me nele e chorei, chorei com tamanha dor. Chorei pela vida de
um garoto, que morrera de tanto sangrar. Um garoto que deveria ter uma
família, um lar, e estava naquele chão gelado. Morreu só, tendo apenas
eu por perto, sem entender o que ele falava. Morreu cercado de
cadáveres mutilados. Meu Deus! Morto por uma guerra imbecil, onde não
há motivos que justifiquem uma morte assim. Quem é capaz de ferir um
menino e o deixar sangrando até morrer!
Senti alguém puxando-me, era Andrei.
Ele está morto. É só um garoto, veja! Ele morreu de tanto sangrar. Um
menino ainda. Ele estava vivo, falou comigo e agora está morto! Que
gente é essa, Andrei? Matar um garoto!
Ouça, Natasha, ouça-me! Não é ele. Olhe em volta. São, no mínimo, uns
duzentos!
Venha comigo. Vamos sair daqui.
Ele abraçou-me e saímos. Olhei em volta, só corpos espalhados, sangue e
neve. Anya juntou-se a nós e Andrei perguntou: - Alguém vivo?
Ela negou com a cabeça.
Meu estômago embrulhou.
Fui para a carroça de anya. O silêncio imperava, não se tinha o que
falar, cada um ruminava o que tinha visto: atrás ficavam trezentos
homens, trezentos cadáveres!

Lembrei-me daquele dia que vimos, o avô e eu, uma raposa morta. Ela
também sangrara até morrer: com a pata presa na armadilha, ela, em seu
desespero, mordeu a própria pata.
O avô ajoelhou-se perto dela e falou: - Pobre raposa, não teve a menor
chance. Antes, livre e viva, e, agora, presa e morta.
Assim, foram aqueles homens, não tiveram a menor chance.

Anoitecia, já via luzes na aldeia. Da janela ela parecia um lugar


morto, sem vida.
Em mim existia uma hostilidade àquela gente. Uma hostilidade pelo que
fizeram aos franceses.
As carroças pararam. O pai e Frigys partiram a cavalo até a aldeia.
Anya deu-me um chá, mas recusei: - Não tenho fome. Só consigo pensar no
que vi, na brutalidade dessa gente.
Natasha, olhe bem para mim. Estamos na Rússia, estamos para entrar em
uma aldeia russa. Não esqueça que os franceses invadiram a Rússia.
Deixe seus julgamentos para depois. Não seja precipitada, sabemos que
nada justifica a morte e o homem é o único animal que mata um de sua
espécie sem maiores motivos. Porém, trate de engolir seco e prepare-se
para estar com os russo logo mais. Eles estão mais assustados que nos.
Logo chegou o pai e dois homens, eles abriram uma a uma as carroças e
seguimos para a aldeia.
A aldeia era pequenina. Com a chegada das carroças, saíram das casas
mulheres e crianças, que pareciam assustados e vinham ao nosso
encontro. Algumas mulheres levaram nossas crianças para uma das casas.
Os dois homens ajudavam com nossos cavalos.
Nosso povo estava se espalhando, sendo levado por essas pessoas a suas
casas. Na porta de uma das casas uma jovem sorria para mim: Com um bebê
nos braços, chamava-me com a mão.
Fui ao seu encontro: ela abriu a porta da casa, um lugar modesto e
limpo.
Seja bem-vinda!
Você fala húngaro.
Meus pais eram húngaros. O que você quer primeiro, lavar-se ou comer?
Não se preocupe comigo. Quero dar uma olhada na minha gente, eles...
Eles estão, todos, bem amparados. Comer ou tomar banho?
Optei por um banho, e por mais que insistisse que eu mesma faria, ela
foi esquentar a água. Fiquei com o lindo e rechonchudo bebê nos braços.
A noite chegou fria, mas caía menos neve que na noite anterior. Comemos
e fomos para um grande celeiro. As crianças brincavam, os adultos
tentavam disfarçar suas ansiedades, Pal toca violino numa tonalidade
suave. Pairava uma homogenia entre nossa gente e aquele povo.
Larissa aproximou-se de mim com o bebê dormindo, tranqüilamente em seus
braços.
Está com sono, Natasha?
Não, mas caso queira ir deitar-se, não se incomode comigo.
Não, depois da invasão dos franceses ninguém dorme cedo. Ademais, quem
sabe, pode chegar alguma noticia de nossos homens.
Seu marido está lá?
Está. Estão todos lá. Só ficaram Leon e seu irmão para nos dar
assistência. Faz mais de uma semana que ele partiu. Era noite, quando
nosso exercito chegou, recrutando mais homens.
Preparavam um ataque aqui por perto. Todos quiseram ir, até vovô Ivo,
mas é claro que os mais velhos ficaram.
A cena dos franceses mortos vieram à minha mente. Não queria falar
sobre o ataque e mudei o rumo da conversa: - Larissa, pode parecer uma
pergunta tola, mas por que eles foram?
Ela olhou-me curiosa e falou: - Não procuramos a guerra, estávamos aqui
quietos. Não é fácil você ver sua terra invadida. É nossa terra, é
nosso lar, isso é nossa vida. Não só a aldeia, a Rússia é nossa. Temos
uma unidade. Nas nossas lavouras usamos nossas sementes e não sementes
francesas. Foi a custo de muito suor que construímos tudo isso, onde
vivemos e amamos. Como pode vir alguém de fora, de outra terra, querer
tomar o que é nosso. É como se alguém chegasse a sua casa e falasse: Vá
embora que isso é meu; se não for, eu tomo e, se resistir, eu mato.
Com que direito? – continuou Larissa:
Foram eles que jogaram a semente na terra, que suaram como condenados,
enquanto aravam? Foram eles que fizeram a Rússia? Nós temos uma longa
historia, ela foi erguida com muito sacrifício. Não pedimos esta
guerra, não fomos a terras francesas insultar ninguém, estávamos aqui,
e aqui estamos a defender o que é nosso, o que nos é de direito, e
amamos.

Era estranho ver alguém falar da terra como sendo sua, falar de sua
Pátria com tanto amor. É difícil entender que se pode dar a vida por um
pedaço de terra. Que sentimento é esse?
Fomos dormir tarde naquela noite, mas não apareceu ninguém para trazer
notícias. As notícias vieram trazidas pelo vento: ouvimos tiros. Era o
pesadelo novamente, só que, para nós ciganos, um pesadelo distante, e
para o povo que nos acolheu: uma tortura lenta.
O dia amanheceu com sol, ainda deitada refletia sobre a guerra. Ao
levantar, Larissa já estava no fogão e o lindo bebê Vladimir brincava
com os próprios pés. Experimentei algo delicioso: kasha, isto é, trigo
sarraceno, leite e passas, como também o pão negro de farinha de
centeio, de sabor forte.

Percorrendo a aldeia, via a interação do nosso povo com os moradores.


Na aldeia só ficaram os mais velhos. Vi Andrei com o rapaz russo, Leon.
Consertavam o pavimento superior de uma casa. É lá onde se guardam os
mantimentos, em todas as casas a que fui, observei a mesma coisa. Era
uma visão bonita, uma união silenciosa e partilhada. Apesar da
dificuldade de nos expressarmos em idiomas diferentes – só o pai sabia
comunicar-se em russo –, a compreensão era à base da comunicação, as
crianças brincavam com igualdade. Os adultos trabalhavam em harmonia.
Vi costumes tão interessantes. No chá, eles usam calda de doce para
adoçar. Vi a “troika”, são três cavalos: o do centro marcha entre dois
varais, enquanto os outros dois galopam com as cabeças voltadas para
fora. O arco de madeira sobre o cavalo do meio era pintado de azul e
enfeitado de estrelas de prata, dos arreios pendem sonoros guizos.
À noite, ouvíamos, além dos violinos, Marusia tocar a balalaica. Dentro
do grande celeiro – nas noites existia trégua entre o medo e a
ansiedade –, riamos e brincávamos. Andrei e Belle mostraram nossa
dança, e Marusia tentou ensinar Pal a dança russa.
E nesta noite, quando todos estavam mais descontraídos, observava
Larissa, que sorria; mas, vez por outra, olhava a estrada que dava para
a aldeia. Afirmei, preocupada:
Acho que a espera é por demais demorada.
Ele vai voltar, Larissa.
É sua intuição cigana que diz?
Acho que sim. Apeguei-me a vocês e com toda minha fé, sinto que
Vladimir irá voltar.
Que o Senhor Deus a ouça.
Fomos dormir tarde.
Já estava amanhecendo, quando ouvimos barulho de cavalos. Larissa pulou
da cama e abriu a janela. Seu grito foi ouvido: - Eles estão voltando!
Acordem, eles estão voltando!
Essa cena marcou-me muito.
O sol estava nascendo, fui à janela. As pessoas saíam correndo de suas
casas – idosos, mulheres e crianças –, chamando o nome dos maridos,
pais, irmãos ou filhos. Chegaram primeiro os homens a cavalo, outros
vinham a pé, e outros em macas arrastadas por cavalos.
Nossa gente estava toda parada nas janelas e portas. O momento era
deles e o que fazíamos era olhar. Torcia minhas mãos, nervosa. Dentro
de mim, um pedido: Fazei, Deus, que todos tenham voltado.
Acompanhava Larissa. Assustada, ela olhou os homens a cavalo. Parou
alguns segundos, ele não estava a cavalo, ela correu para um homem que
vinha a pé, que apontou para trás. Ela correu para ver os que chegavam
nas macas.
Os cavalos pararam. Perdi-a de vista por um instante. Quando a
reencontrei com os olhos, ela estava debruçada sobre uma das macas,
sorrindo e chorando. Fechei os olhos e agradeci aos Céus, ele estava
vivo. Abri-os com um grito, era Marusia, vi Pal ir a seu encontro e
abraçá-la.

Depois foi uma loucura, alguns riam outros choravam. Os homens


terrivelmente cansados, alguns de farda, se misturavam ao povo da
aldeia. Os feridos foram levados para o celeiro.
O que é a guerra senão dor?
Marusia perdeu seu irmão, a única família que ela tinha. Vladimir
ferira sua perna direita, uma ferida feia. O filho mais novo do casal
que hospedou o pai e anya não resistiu aos ferimentos. Como ele, mais
cinco soldados.
Qual o resultado da guerra senão seqüelas para o resto da vida? Como
Vladimir, que ficará curado, mas usará muleta.
E os tantos que morreram.
Se tentasse julgar pelo que vi, aqueles franceses mortos e o garoto,
seria injusta para com essa gente boa e hospitaleira. Que falam de um
sentimento que até então desconhecia: o amor ao lugar em que se vive; a
terra que se tem como sendo nossa.
Com quem estaria a verdade?
Lembro-me do rapaz morrendo, eu segurando sua mão, a lhe falar de vida,
que ele ia viver, e ele sentindo a morte. Vi Marusia chorar a morte de
seu irmão, que lutou e morreu para, segundo ela, garantir-lhe a
liberdade.
Onde estaria a verdade? Julgar seria insensatez.

Os dias que se seguiram foram de mais tranqüilidade. A recuperação dos


doentes corria bem, a vida tentava seguir seu rumo. A tranqüilidade
aumentou quando chegou um mensageiro trazendo a notícia de que os
franceses já estavam muito distantes. O alivio foi geral, a aldeia
acalmou-se: o perigo se distanciara.
Ao cair da tarde o pai comunicou que partiríamos no dia seguinte. O
jantar foi por nossa conta.
Foi uma noite bonita, não digo que tenha sido alegre, era impossível,
foi uma noite de comemoração. Comemorou-se a saída dos franceses,
comemorou-se uma amizade, comemorou-se uma decisão difícil, Pal
decidira ficar com Marusia. Sentimo-nos felizes pela felicidade deles,
mas já sentimos a saudade dele. Já esperava por isso, os olhos de quem
está apaixonado não dão para esconder.
Há quase dois anos ele dissera estar apaixonado por mim. Foi uma
situação meio constrangedora, vendo-me obrigada a falar-lhe que gostava
dele como amigo, como um irmão. Ele passou uns dias triste. Mas não era
amor e sim carinho, o que ele sentia por mim.
Estava tão entretida vendo Marusia e Pal, que nem percebera Larissa
chegar.
Está feliz em partir, Natasha?
Por um lado, vou sentir saudades de todos vocês, nosso amigo e irmão
vai ficar. E, por outro lado, fico feliz porque vamos para o lago
Balaton.
E esse lago, é um lugar tão especial assim?
Deve ser, com certeza deve ser...
Não tive tempo de responder a Larissa, Andrei puxou-me para dançar.
Fomos dormir muito tarde e, ao amanhecer, já estávamos prontos para
partir. Foram tantos abraços. Pal e Marusia, além do abraço amoroso,
ficou o desejo de eles terem toda a felicidade do mundo.
Parti com a certeza de que a dor une as pessoas. A única coisa que
aprendi com a guerra.
Foi ali que comecei a entender o amor a uma terra.
Que sentimento tenho referente ao Balaton? Um amor ao lago, àquela
terra tão distante e tão presente em meus pensamentos? Amar um lugar
onde só estive uma vez, ter sempre a lembrança, e no coração um pedido
enorme, de voltar, de estar nele. Foge à minha razão. É um encantamento
que me chama e que, logo, me dará a resposta.

***

Abril 1813 – Hungria – Lago Balaton.

Eis o lago! Enfim estou aqui.


Majestoso e extenso, até onde vai a vista. Paraíso encantado!
Não era imaginação, não era febre; é real, tão real. Exala pelo meu
ser, a vontade é gritar alto: - Estou feliz, por que aqui estou!
É primavera, a terra está verde. E em cima deste monte, sentada, há o
mundo a meus pés. Desfruto cada detalhe. Vejo as flores, seus perfumes
me entorpecem.
Badacsony, mesmo vendo-a um pouco distante, é uma cidadezinha tão
encantadora. Estende-se pelo monte, com algumas casas espalhadas, uma
ali, mais duas adiante, fora da cidade.
Descendo para o lago, um enorme e amplo vinhedo. Belo! E o lugar em que
estamos acampados, um vale, com bosques a sua volta!
Sabe o que fiz?
Fugi, do acampamento, para contemplar o tão esperado lugar. Tomei um
banho no lago, ele tem uma praia como o mar. Sua água é transparente e
cristalina, como este dia de sol; tem uma tonalidade azul esverdeada
que se inteira com a cor da primavera.
E subi até aqui. A brisa toca meu corpo, seca meus cabelos.
Suspiro como um gemido de pura satisfação. Minha alma e meu coração,
unidos por esta beleza natural, tão natural a mim.
Todos estão alegres, anya está solta. Deve ser a emanação do lugar.

Ouço um cavalo, deve ser alguém de passagem.


Nem me viro para ver quem é. O lugar toma-me toda a atenção.
Eu gostaria de saber pintar para, assim, retratar o que vejo. Tenho
certeza de que foi o próprio Artista Divino quem fez toda esta
maravilha.

O cavalo parou, será que alguém veio buscar-me?


Viro-me, dando as costas para o lago. Não consigo enxergar quem é. A
luz do sol ofusca.
A pessoa está de costa para o sol.
É um homem, está parado a observa-me, olhar-me.
Salta do cavalo e vem se aproximando.
Sinto algo estranho, coloco a mão na testa para ver melhor, a luz não
me deixa vê-lo.
Vem o vento fazendo meus cabelos encobrirem meu rosto, prendo-os com a
mão.
Levanto-me e vem leve uma tontura.
Ele vem se aproximando com as rédeas nas mãos.
Consigo vê-lo enfim!
Seu olhar detém os meus.
Vem se aproximando, cada passo dentro dos meus olhos, dentro de mim.
Eu o conheço... Conheço esse homem.
Homem, de onde eu o conheço?
Minha respiração se acelera.
Seus cabelos negros.
Ela solta as rédeas; seu olhar penetra-me. O olhar, seus olhos negros.
Eu o conheço.
Está a um passo de mim, frente a frente - olhar mantido, mantém os meus.
É você?!!! Você voltou!
Sua voz grave e forte leva-me e me dá a certeza de que o conheço.
- Sim, voltei...
Ouço-me responder, uma onda de emoção toma conta de mim. Só consigo
olhá-lo, olhá-lo estarrecida. Cabelos negros, na altura da nuca,
cabelos negros grossos e lisos. Pele morena,
Sua boca é grande e bem feita... Os olhos, olhos negros, olhos que
brilham. Sua voz:
Natasha!
Meu coração vem à boca e responde: - Sim! Respondo.
Seus olhos fixos nos meus; olhar intenso, profundo. Olhar que sai a
percorrer-me vagarosamente.
Você não mudou muito. Está mais bonita, mais mulher.
O sangue sobe ao rosto. A brisa levanta meus cabelos; seguro-os. Ele
não tira os olhos dos meus, nem eu consigo tirar dos dele. Como é
bonito! Mas não é sua beleza que me toca, excede a tudo que senti, mas,
mesmo assim, já está em mim.
Faz, exatamente três anos, era Maio. O cabelo está quase do mesmo
tamanho, você não mudou... Sabe quantas vezes passei por aqui pensando
encontrá-la, como agora? Tinha a certeza que você voltaria. Quando
chegaram?
A pergunta pega-me de surpresa, o tempo, é como um confronto.
Ontem à tarde... Tenho que ir embora. Minha gente deve estar preocupada
comigo, saí sem avisar logo depois do almoço. Eu tenho que ir.

Mas não me mexi. O magnetismo dele me deixa sem ar! Pior, sem
raciocínio ou razão! Mas existe razão para o que estou sentindo? Meu
bom senso pede para eu sair, correr.
Minha alma, entretanto, ordena-me ficar. Existe uma paralisação no meu
corpo, meu corpo, nem ele estou sentindo. Todos os meus sentidos estão
voltados a ele, este homem mágico, um mago.
Que parece já existir na minha vida e em mim. Teu olhar me é conhecido,
tão conhecido como tua voz: - Você não casou, não é?! - Ele
praticamente não pergunta, afirma.
Nego com um gesto.
Ele sorri. Um sorriso sereno e a voz grave e forte:
Por que você tem que ir? Todos sabem que você está nas redondezas.
Fique mais um pouco.
Não chego a responder, ele segura minha mão e me faz sentir... Sentir
sua mão segurando a minha, foi o mesmo como se tivesse colocado no
calor do fogo.
Sento-me na relva; à frente, o lago e desvio o olhar. Ele se senta ao
meu lado.
Foi você quem me ajudou, quando estive aqui doente?
Sei que ele olha para mim, mas continuo a olhar o lago.
Sim.
Obrigada! - que coisa mais tola de se dizer, penso.
Por que partiram tão rápido? Cheguei numa manhã ao vale onde estavam e
nada, tinham partido. Tentei achá-los, saí a cavalo, perguntei e
ninguém sabia, sumiram, por quê?
Não sei. Também perguntei o porquê de sairmos daqui, mas ninguém me deu
uma resposta concreta.
Como está seu pai?

Virei meu rosto e ao olhar para ele, vem a emoção que me toma por
completo. Busco o ar em mim, e sinto que esta em ti. Pergunto:
Qual o seu nome?
Olha-me intrigado, franzindo a sobrancelha, aperta os olhos. Como fica
difícil sustentar seu olhar, ele parece ir dentro da minha alma.
Ninguém lhe falou meu nome? Chamo-me Igor.
Igor! Claro que seu nome é Igor. Existe a certeza do nome, mas de
onde?!!!
Igor, vai bem em você.
Por quê?
É um nome pequeno, contudo imponente.
Aí ele sorri, sorri só não, ele dá uma sonora risada. Um riso solto e
aberto. O lugar enche-se do seu riso. Desvio-me do olhar dele.
A noite começa a chegar, um tom avermelhado se espalha no céu, os
pássaros cantam mais forte, vejo-os voarem.
Bonito, não? Gosta daqui?
Respiro fundo e continuo a olhar o cenário.
Gostar é pouco para o que sinto. Amo este lugar, amo. Não me pergunte
por quê. Estive aqui doente, inconsciente. E todo esse, em todo esse
tempo sonhava em voltar para cá. É algo tão forte que não sei explicar.
Tudo aqui parece encantado, é mais que bonito... O céu, não existe
outro igual. Os bosques são lindos. A minha alma cresce, sinto-me
feliz. Veja a cor do lago, existe algo tão lindo?
Volto o olhar para ele, mas ele não olha o lago, olha-me.
Paro de falar, não é necessário, ele sabe exatamente o que sinto.
Dentro de mim, há como uma certeza de que ele sente algo assim.
Aonde teus olhos me levam? O que eles me falam? A emoção é tanta!
Meu coração dispara.
A vontade é tocar teu rosto, tocar-te os olhos, tua boca, sentir tua
pele.
Igor, como você se sentiria se tocasse você?
Desvio o olhar e abaixo o rosto. Seja sensata, Natasha!
- O que você está sentindo, Natasha?
Sua voz grave e rouca. Respondo:
Não sei, eu não sei, nunca senti isso antes. Por favor, eu tenho que ir
embora, é quase noite, saí do acampamento sem ninguém ter-me visto.
Minha gente deve estar preocupada.
De que você tem medo?

Seus olhos se perdem nos meus, levam-me.


Lentamente ergue a mão e toca meu rosto, fecho os olhos...
Teu tocar suave, um calor envolve-me. Seu dedo percorre minha testa,
retira uma mecha de cabelo do meu rosto, o calor toma-me.
Seu dedo percorre minha face, toca meus olhos...
Teu tocar leva-me, o calor presente. Toca meus lábios, segue seu
contorno...
Teu tocar é o calor, leva-me ao paraíso.
Não tenha medo de mim, por favor, jamais te faria algum mal.
Abro os olhos e minha voz sai baixa.
Não tenho medo. Só que preciso, realmente, ir.
Ele retira a mão do meu rosto, respira fundo e olha o lago.
Está bem.
Meu Deus, queria que ele continuasse a me tocar, estou embevecida.
Levanta-se e pega minha mão.
Levo você ao acampamento.
Não é preciso.

Ele não responde, dirige-se para o cavalo. Observo-o: ombros largos,


calça preta, camisa branca, botas. Retorno a olhar o lago, está mais
bonito agora, ao anoitecer. Em Badacsony, já se acendem as lamparinas
nas casas: são como pontos luminosos. Um bando de pássaros dá uma
revoada, eles parecem em festa.
Sinto a mão de Igor no meu ombro; e um sorriso suave lhe cai nos
lábios. Você é um mago, com certeza o é. Nossos olhos estão perdidos,
novamente. Céus, essa é a maior emoção que já senti.
Pega-me pela cintura, e me põe no cavalo, em seguida monta. Estou a
menos de um palmo de suas costas, a vontade é tocá-las, seguro a cela
para me conter.
Ele fala, como adivinhando: - Segure-se em mim.
Incerta, passo os braços na sua cintura, um arrepio percorre meu corpo
e tremo. Ele dirige o cavalo para o lago. Por alguns instantes, ficamos
a ver a noite chegar. Ele se volta para mim e fala:
- Não fuga mais de mim.
Não lhe respondo. Começamos a cavalgar, acho que, por pura necessidade,
chego-me mais a ele e encosto o rosto nas suas costas... Ele treme,
também! Uma das suas mãos tocam as minhas, entrelaça seus dedos nos
meus. Fecho os olhos. Sinto seu perfume, meu corpo junto ao dele, sua
mão aperta a minha.
Cavalgo nas nuvens, tenho certeza; por mim, ficaria o resto da vida
assim. Igor, é mágico estar com você, sentir você. Você sente o mesmo?
Sente essa fogueira dentro de você? Sente esta imensa vontade de ficar
assim por não sei quanto tempo?
O tempo! Dou-me conta de que paramos, abro os olhos situando-me:
chegamos. O acampamento a pouca distância, à nossa frente. E sua mão
aperta por entre meus dedos, tiro a cabeça das suas costas, ele está
voltado para mim: - Não fuja mais.
Será necessário falar? - Não fugirei. Respondi.
Volto a mim com anya falando alto. Igor continua a olhar-me, a segurar
minha mão.
Igor, minha anya está acenado.
Claro. Vamos lá.
Uns poucos passos mais a cavalo e chegamos ao acampamento. Ele pula do
cavalo e pega-me, e lhe vem um olhar e um sorriso maroto, e a doce
emoção se apodera de mim, ha o partilhar, sorrio.
Conde Igor! Que prazer enorme em revê-lo.
É o pai dando um abraço caloroso em Igor... Conde? Um Conde?!
Essa descoberta me constrange, não me faz ficar bem.
Chega Andrei, e fala animado com Igor.
Onde você andava, Nat, lhe procuramos?
Volto-me a anya, que está a meu lado e respondo:
Estive no lago.
Esse tempo todo? – já fala sem o tom de preocupação.
Sim, fui ver o que por tanto tempo esperei. Já no final da tarde
encontrei Igor, conversamos um pouco e ele me trouxe aqui.
Conde Igor, Natasha, ele é um Conde e seu titulo é usado.

Abaixo a cabeça, afasto-me de anya e vou à carroça, vejo o olhar de


Igor seguindo-me, estou confusa.
Dentro da carroça, pego uma escova e penteio os cabelos.
Encontrei um homem que mexeu totalmente comigo, um mago que fez com
que, pela primeira vez na vida, me rendesse por completo. Como numa
entrega, onde não há resistência.
Olhando para seus olhos, encontrei algo... Olhando em seus olhos me
achei! E esse homem é um Conde! Um Conde. Abre-se uma enorme distância
agora entre mim e ele.
Natasha! Venha nos ajudar no jantar, o Conde ficará para jantar conosco.
Já vou, anya.
Inferno! Quero pensar. Por que ele não me falou que era um Conde, que é
um Conde. Com certeza deve achar que sou uma cigana tola, ou pior, que
sou uma qualquer. Olhá-lo como o olhei, encostar-me nele sem ao menos
conhecê-lo, ser tocada – porém, foi a vontade que senti, e como negar,
a melhor sensação do mundo!
Um Conde! Por que não é um homem comum, sem titulo, sem nobreza? Conde
Igor!

Belle chama-me para ajudá-las, e respondo que estou indo.


Sou uma tonta, deve ser a energia do lugar, que esperei por tanto
tempo, e me fez sentir tudo que senti, só pode ser isso. Claro que deve
ser exatamente isso.

Saio da carroça, percorro a vista e vejo-o sentado junto à fogueira com


os homens. De repente, ele inclina a cabeça para trás e dá aquele riso
que enche a noite, parece fazer parte do grupo de tão inteirado que
está. Deixa de besteira Natasha, o homem é um Conde, não esqueça.
Aqui, Nat, venha pegar os pratos.
Já vou, Belle.
Então ele olha-me, meu sangue sobe, fico corada. O que diabo esse homem
tem de tão especial? Que basta olhar-me e deixa-me assim.
Vou para junto de Belle, que mexe o caldeirão.
Então, Nat, o que achou?
Achou o quê?
Dele, é claro!
Nada demais. Belle, por que não me contou que ele é um Conde?
Não sei. O que achou dele?
Não lhe respondo, tomo a colher de sua mão e mexo o caldeirão.
- Veja só, Nat, ele conversa, conversa, mas não tira os olhos de você.
Ergo os olhos, ele parece saber o que se passa comigo, sorri e ergue a
caneca, como um brinde!
Ei, chega! Você colocou tanta comida neste prato, que transbordou.
Desculpe-me, Belle. Leve a comida para os homens, eu vou levar para as
crianças.
Elas já comeram.
Então, vou ver se elas querem alguma coisa ou se estão com sono.
Natasha! Venha cá, filha.
É o pai. Belle ri; dirijo-me ao grupo, sinto o olhar de Igor, do Conde.
Sim, pai?
Pegue mais vinho e junte-se a nós.

Vou à carroça, pego dois botijões de vinho e volto. Todos estão


sentados; Igor, ao lado do pai, ouve o som dos violinos. A noite está
linda. Hungria, que céu você tem!
Sente-se aqui, filha. O Conde me falou que a encontrou estarrecida
vendo o lago.
Ainda em pé, respondo sem olhar para ele, o Conde: - Foi.
Nunca vira meu pai com tanta camaradagem com um estranho, muito menos
com um nobre ostentando um titulo. Até anya é só simpatia. O pai
afasta-se para junto de anya, e indica o lugar para me sentar. Sento-me
e fico a olhar a fogueira; a conversa é sobre a plantação de uvas e a
fabricação de vinhos. Ele tem o dom de tudo ser muito natural; o da
plantação de suas uvas à sua fábrica de vinhos.
Olho em volta, ninguém parece afetado com a condição do titulo dele,
que aí está sentado no chão a tomar vinho, bem à vontade e solto.
Observo-o pelos cantos dos olhos.
Soube que você, Natasha, sabe dançar muitíssimo bem.
É ele quem fala comigo, acho para me provocar. Viro-me a ele.
Quem lhe falou superestimou-me, Sr. Conde.
Arrependo-me da minha ironia ao ver seu olhar admirado, mas logo eles
voltam a brilhar.
Como posso avaliar, sem ver. Istvan, você permite que sua filha nos
prestigie dançando?
Claro, ela dança muito bem. Andrei dance com Nat.
Caí na minha própria armadilha, se existisse um buraco eu me enterraria
nele.
Andrei estende sua mão e levanto-me, não ouso olhar para Igor. Os
violinos recomeçam a tocar.
Respiro fundo. Tenha calma, Natasha, você já dançou na frente de tanta
gente, e não vai ser agora, na frente dele, que irá se intimidar. Vamos
lá, deixe a magia cigana chegar a você.
Bato palma, Andrei se aproxima, meu irmão sabe exatamente o que fazer
quanto estou tensa. Envolvo-me no ritual de nossa dança. Andrei está
solto e leve pelo vinho, ri ora e meia, entrego-me a seus encantos, e
seguimos a música. Ouço palmas e só quando Andrei levanta-me nos
braços, olho para Igor... O mundo pára!
É ele, somente ele, com os olhos repletos de carinho e de calor, fogo
que me deixa tonta. Mordo meus lábios, para abrandar a explosão que ele
me faz sentir. Ele – observo – também morde seus próprios lábios. O
sangue sobe ao meu rosto, abaixo a cabeça.

Homem, o que estais fazendo comigo?

Sento-me mais distante dele, olho a fogueira; ouço-o falar da guerra,


de Napoleão; o pai relata o que vimos e vivemos na Rússia; acende as
cenas que trago em mim - uma guerra não entendida.
Ergo o olhar para o céu, noite estrelada, as estrelas cintilam. Volto o
olhar para ele, nossos olhos se encontram, olhos que brilham, um brilho
tão intenso e partilhado! Não, não é a magia do lugar, é ele.
... Bem, já é tarde, e tenho que ir embora. Amanhã, mandarei trazer
vinhos. Foi uma noite inesquecível. Espero que tenhamos outras.
Não vá, fique mais, eu diria. Gostaria que você ficasse até o dia
raiar, gostaria de ficar a vê-lo, de estar a seu lado, senhor Conde.
São esses meus pensamentos, mas ele levanta-se e o pai fala:
Claro, desde já esperamos o senhor amanhã, Conde Igor.
Igor. Chame-me de Igor.
Ele não olha o pai ao dizer isso, e sim a mim.
Foi um prazer estar com vocês, façam daqui sua casa.
Despede-se de todos e sorrindo chega a mim:
Seu xale está no cavalo.
Fico sem jeito, e acompanho-o.
- Por que não me falou que é um Conde? - falo tão rápido que repito.
Ele pára de andar e olha-me.
Isso importa?
Claro!
Não sabia que gostava de títulos, se soubesse teria dito.
Ia responder, quando percebi que brincava comigo.
Você tem esposa esperando-o? - Santo Deus! Como estou sendo
indiscreta, mas tenho que saber. Ele franze as sobrancelhas, seu olhar
travesso.
Por quê? - Sua voz grave e forte.
Por quê, Natasha?
Abaixo a vista e continuo a andar.
Por nada. Curiosidade, apenas.

Chegamos ao cavalo, ele pega meu xale e entrega-me. Ao pegá-lo, ele


segura minhas mãos. Vem o entorpecer; ao apertá-las:
Você é casado, Conde Igor?
Ao diabo o Conde.
Leva minhas mãos a seus lábios. Beija meus dedos. Prende o anular com
os dentes, mordendo. O contato de sua boca nas minhas mãos, sentir o
dedo preso entre seus dentes, o leve, mas sentido toque de sua língua.
Vôo como os pássaros.
Ouça-me. Existe Igor, que por casualidade ou destino tem um titulo de
Conde. Igor, chame-me de Igor, entende-me?
Como posso pensar ou entender, sentindo o que estou a sentir?
Não existe esposa. Existe uma cigana, uma mulher que mexeu comigo há
três anos. Ela, sim, existe. Só ela povoa meu coração e mente. Só
existe você, só você, apenas você.
Meu coração dispara, aperto suas mãos, levo uma delas a seu rosto.
Sentir-lhe é necessário. Lentamente toco sua pele morena...
Ele fecha os olhos. Desço a mão a seu pescoço... Ele treme, como se
tivesse com frio. Subo a seu cabelo.
Tocar-lhe é um convite, sentir-lhe é uma pura necessidade. Toco-lhe os
lábios macios, quentes.
Ele abre-os e prende meus dedos. Um arrepio sobe por minhas costas.
Abre os olhos negros, parecem o sol quente que me queima.
Estou no céu ou no inferno? Que importância teria onde estou, se estou
com ele.
Natasha!!! Está tarde, venha!
Oh! Anya, esta é a primeira vez que não a queria ouvir.
Retiro a mão do seu rosto, mas ele rapidamente a segura.
Tenho que ir, Igor. Boa noite.
Ele respira profundamente, e a contragosto solta minha mão e sorri.
Venho vê-la amanhã, não fuja.
Sorrio serena.
Não fugirei, esteja certo, disso. Boa noite!
Ele monta o cavalo, e fica a olhar-me.
- Hoje vou dormir tranqüilo, pois você voltou, está aqui. Boa noite,
vida minha!
Dizendo isso saiu, fiquei olhando até ele desaparecer. Que bela noite!
Abençoado lugar, seu encanto estende-se a seus moradores, ou um morador
tem tamanho encanto, que transborda de si e atinge todo o lugar.
Natasha! Venha, já é muito tarde.
Volto para o acampamento, acho que não ando, flutuo.
Minha gente se ajeita para dormir.
Lorna, com esse céu, vou dormir aqui fora.
Passo pelo pai, que contempla as estrelas, desejo-lhe uma boa noite.
Istvan, você não é mais tão novo, aliás, não tem mais idade para se
expor assim.
Deixa de bobagem Lorna! Por que não vem, você, também apreciar esta
maravilha?
Já na carroça, troco de roupa, lavo-me, deito, e fico vendo a lua pela
janela.

Igor!...
Só em pronunciar seu nome, meu coração dispara.
É uma emoção enorme, enorme e transbordante. É enorme e nova...
Nova? Estar com Igor é como se já o conhecesse, faz parte de mim. Como
compreender isso!
Tenho um sentimento por um homem que acabo de conhecer; é como se eu o
estivesse esperando.
Parece bobagem ou sonho, mas é verdade. Parece justificativa, mas é
verdade.
Estive três anos a esperá-lo. Não sei como isso é possível, nem sei
explicar - mas é verdade. Não posso negar isso a mim.
Estive aqui doente e não me lembro dele, por mais que me esforce, não
lembro.
Porém, quando o vi, senti: o conheço. Minha alma o conhece. É uma
sensação tão forte que perdura até agora.
Igor... Quantos anos tem? Uns trinta. Parece um homem que trabalha no
campo, suas mãos são fortes e ásperas. Tem a pele queimada do sol,
veste-se despojadamente.
Igor... Cabelos negros, grossos e lisos. Voz grave e forte, que me é
conhecida! Um mago que, com os olhos, olhos negros brilhantes, levam-
me. Falam-me tantas coisas. E por mim ficaria a olhá-lo, olhá-lo.
Esse homem, que é um Conde, sente o que sinto?
O meu sentir - como é maravilhoso sentir o que sinto. A sensação é
nova, mas a intensa emoção, não. Eu o conheço!
Já não vejo a lua. É noite alta.
Logo, estarei com ele novamente, suspiro.

O sol já está alto, como dormi.


Vem a lembrança do sonho que tive. Algo tão estranho: sonhei com uma
casa que nunca vi, que tinha um quarto; a mobília era estranha, e, da
janela, via-se o mar. Foi, então que vi Igor. Ele andava pelo aposento
e ia até uma janela e ficava a olhar o horizonte.
Igor! Volta a emoção.

Bom dia, moça! Pensei que não ia mais acordar.


Bom dia, anya.
Está uma linda manhã e seus olhos brilham como nunca! Belle e Miriam
estão no lago lavando algumas roupas, você pode ir ajudá-las?
Claro!
Levanto-me e me troco rapidamente, anya trouxe meu desjejum. Como
algumas frutas. Os olhos de anya acompanham-me.
O que acha do Conde Igor?
Minhas mãos tremeram, não adianta disfarçar nada de anya.
É um homem simples, educado e bonito.
E...
Só isso que sei. E a senhora o que acha dele?
Um homem simples, educado, bonito, e que tem os olhos voltados para
você o tempo todo.
A senhora acha? - um calor sobe-me ao rosto, fico ruborizada.
Que é isso, Natasha, sabe muito bem. Vá ajudar as outras na lavagem de
roupa. Quando você voltar, temos muito o que conversar. A propósito,
pedi a Belle para estender seu vestido rosa ao sol, para você poder
usá-lo logo mais.
Abraço anya e saio rumo ao lago.
No lago, Belle e Miriam já tinham lavado quase toda a roupa. Havia
roupa estendida por tudo lugar. O dia está lindo, o sol presente, o céu
limpo.
Tudo está belo! Cumprimento as duas que se entreolham e sorriem.
Olho o lago e suspiro, agacho-me e lavo o rosto.
O que achou do Conde, Nat?
Levanto o rosto e sorrio diante da fisionomia das duas.
Simples, educado e bonito.
Ele é muito mais que isso, e você sabe muito bem. Ele é gentil e
extremamente atraente, seu porte é indiscutivelmente viril, tem o olhar
mais bonito que já vi. É, Natasha, você corou; é lógico que concorda
comigo - falou Miriam.
Acho melhor vocês trabalharem.
Oh! Quer mudar de assunto. Então, o caso é sério. Imagine, Miriam,
Natasha é tida por todos nos como de uma beleza ímpar. Não formariam um
belo par! Está bem, Nat, não precisa olhar-me assim. Mas que é sério, é.
Abrem o sorriso e dão altas risadas, e até eu sorrio.
Afora as brincadeiras delas, está tão visível o que sinto?

Lavamos bastantes roupas. Paramos só para o almoço, e, mesmo assim, nos


levaram a comida. Lavei quase todos os meus vestidos, pois estavam com
cheiro de mofo. Temos bastante roupa, roupa até demais. Porque ganhamos
bastante dinheiro com nosso trabalho. Isso nos orgulha bastante: o
trabalho, a educação, a higiene de nossa gente, o que nos diferencia de
outros grupos. A mim parece que temos outra cultura, com outros
valores. Sem desmerecer os outros grupos e sim, termos tido o avô, com
todo seu conhecimento.

Ouço os gritos das crianças, e lá vem Belle com todas elas para o
banho. Eles são uma festa; jogam-se nas águas claras do Balaton. As
crianças chamam-me. Não resisto, tiro a roupa de cima e fico com minhas
roupas intimas e vou para água. Que algazarra esses pequenos fazem! E
como é gostoso brincar com eles. Miriam e Belle foram pegar toalhas,
levando as roupas que secaram. A água a uma temperatura ótima, damos
mergulhos e mais mergulhos, como nossos risos.
Quantos anos você tem, Natasha?
Meu sangue foge, o coração bate rápido.
Não preciso virar-me para ver quem é. Agacho-me na água transparente e
volto-me a ele. Ele está a cavalo e sorri com a cena. As crianças à
minha volta, param.
Diabos! O que ele está fazendo aqui a essa hora. Queria que me visse à
noite arrumada.
- Quantos anos. Hem Natasha?
A resposta não me chega aos lábios. Ele está na margem do lago - o
sol está forte. A água cintilante e transparente - eu envolvida por
ela.
Erno lhe responde, e ele indaga.
Você acha sua tia bonita? Mesmo assim toda molhada!
Os meninos riem e ele também.
Por favor, pode sair daí! Tenho que tirar as crianças.
Ele fica sério, faz um gesto com o braço.
Saia, não a estou impedindo.
Ele olha a transparente água, meu sangue sobe.
Não posso sair com você aí!
É? E por quê?
Faz um ar de inocente, seus olhos continuam brilhantes como o sol.
Ora não posso sair assim, por favor!
Ah! Você está em trajes impróprios. Está bem! Espero você no
acampamento. Não demore.
Ele dá a volta no cavalo e galopa, o cabelo negro ao vento, como está
bonito! Calça preta justa, botas, camisa branca.

Chegam Belle e Miriam, perguntando se Igor me viu assim.


Aceno com sim e elas riem.
Tiram as crianças da água, enxugam-nas e mudam suas roupas.
Visto o vestido rosa e Belle penteia meus cabelos e finalizou com um: -
Está linda!
No acampamento, Igor conversa com anya. Está de costas para mim. Quando
me aproximo mais, ele pára de falar e vira-se; seus olhos parecem duas
contas negras.
Natasha, o Conde Igor pediu-me para deixar você ir ver a sua plantação
de uvas com ele. Seu pai e seu irmão foram no começo da tarde. Pode ir,
mas não demore.
Beijo anya e vou à carroça trocar os meus sapatos. Olho-me no espelho,
enquanto me perfumo. Anya tem razão, meus olhos têm um novo brilho.
Quando saio da carroça vejo Andrei conversando com Igor, meu irmão
passa o braço no meu ombro.
Você vai ver como é bonita a plantação, Nat.
Despeço-me de Andrei e vou à frente de Igor. Olho em volta à procura de
nossos cavalos, mas não vejo um só. Só o cavalo negro de Igor, à frente.
Olho para Igor. Ele abre os olhos, com um olhar travesso e, num gesto,
pega-me pela cintura e coloca-me na cela; em seguida, sobe rápido.
Como você é bonita.
Saímos a galope. Numa certa altura, ele pára e puxa meus braços para
ficar mais perto dele. Sinto, novamente seu perfume. Cavalgamos mais um
pouco e chegamos às vinhas. Observo como é bonito, fileiras e fileiras
de plantação, parece um desenho, tudo bem certinho. Seguimos por entre
elas, é extensa a plantação. Carreiras e mais carreias de madeiras
tocas sustentam as vinhas, parece-me um túnel natural onde as folhas
das uvas, em alguns momentos, chegam a tocar em nos. O sentido contato
com as folhas aliado ao aroma, dá-me a sensação de interação; mesmo
sendo esta a primeira vez que esteja dentro de uma plantação de uvas.
Passamos perto de alguns trabalhadores e constrangida, me afasto um
pouco de Igor. Eles o cumprimentam. E, Igor torna a me puxar para mais
junto de si.
Aceita provar nosso vinho?
Aceno que sim. Saímos da plantação, e pouco depois estávamos à frente
de uma grande construção de pedra, quase toda tomada de musgo verde. Ao
seu redor, um gramado bem cuidado de um verde bonito. Ele desce do
cavalo e pega-me devagar. Nossos corpos estão tão próximos; seus olhos
me chamam, fazem o meu ser ficar a sua mercê.
Conde!
Coloca-me no chão, minhas pernas estão trêmulas. Ele volta-se para o
homem.
Fale.
Já coloquei os vinhos que o senhor mandou separar, na charrete. E agora?
Leve ao acampamento. Sabe onde fica?
Sim senhor!
Venha, Natasha. – ele fala.
Conde!
Fale Val!
A senhora sua mãe mandou-lhe um recado.
Sim. Qual o recado? - ele, observo, fica impaciente.
Ela quer vê-lo. Disse que precisa falar-lhe, para o senhor ir a
Badacsony, ainda hoje.
Na volta do acampamento, vá à cidade e fale à Condessa que só posso
estar com ela amanhã, vamos Natasha.
Sorrio para o simpático senhor, e ele retribui.

Entramos na grande construção, e a cena à minha frente é engraçada: um


grande tanque de madeira e seis homens com calças na altura do joelho,
descalços pisam as uvas. A voz de Igor a explicar o processo para se
chegar ao vinho... O vinho, é a voz de Igor que me deleita. Estar com
ele é um ato contínuo de bem-estar. Meus olhos se detêm, a maioria do
tempo, nele.
Chegamos à adega, onde o aroma é forte. É escuro lá dentro, estamos à
porta. Ergo meu olhar a este homem, que tem em si algo que me
entorpece. Ele olha para mim e para a escura adega; sorri sereno.
Saímos de lá, entramos numa saleta, onde há uma escrivaninha com vários
papeis, três cadeiras, umas prateleiras com livros e uma enorme janela
que dá para o lago.
É aqui que você trabalha?
Sim, onde passo uma parte do dia, mas gosto de estar na plantação.
Ele vai à prateleira, pega uma garrafa de vinho enche dois pequenos
cálices e me oferece um.
Um brinde! A você, tão esperada; ao tempo, que colaborou comigo e a
trouxe!
Em seus olhos cintilam: sinceridade e calor, abaixo o rosto e vou à
janela.
Grata.
Do lado direito, subindo mais o monte e pouco distante, uma bonita casa
branca com um primeiro andar, onde se viam grandes janelas em forma de
arcos; no andar térreo, também, há janelas com esse formato ao que
podia ver, e a beirar as janelas, jardineiras floridas.
- Sua casa.
Sinto que ele está nas minhas costas.
- Sim. Gosta?
Sua voz vinha perto do meu ouvido, o calor invade meu corpo. Céus,
estar perto dele é arrebatador.
É aí que você mora?
Sim. Gosto do campo, dos bosques, do lago e das pessoas daqui, onde
tudo é muito simples, as coisas são o que são.
E sua família, também mora aqui?
Ele se afasta de mim; coloca seu cálice na mesa.
Não. Moram na cidade, e, muito raramente, vêm aqui. A realidade deles é
diferente da minha. Eles gostam do brilho das cidades e de suas festas.
Mas certos comportamentos não se enquadram comigo.
Vejo que ele se torna arredio, mas em poucos segundos sorri ternamente.
Quero mostrar-lhe a casa. Vamos conhecê-la?
Seu ar travesso está de volta.
Não tema, sei me portar, e além disso tem a Misca.
Fico corada. Não o temer? Em verdade, eu temia a mim.
Quem é Misca?
É minha segunda mãe.
Pega-me pela mão e leva-me.
Já fora, ele pega as rédeas do cavalo e saímos andando.
Uma estradinha saindo de lado esquerdo da fabrica leva à casa de Igor.
A nossas costas, o Balaton. Como um impulso natural nos voltamos a ele:
majestoso! A plantação de uvas descendo da fábrica até quase o lago. Ao
lado o bosque delimita a vinha, a vinha; suas largas folhas –
parreiras, paralelam o bosque. Ah! Hungria...
A subida é silenciosa. Silenciosa e partilhada. Sinto sua presença; uma
presença forte e máscula; a atração de uma força suprema.
E eis a casa, ao longe ela parece maior.
Igor amarra o cavalo numa arvore, fico a olhar o jardim bem cuidado.
Sinto sua mão na minha, olho para ele que sorri. O sorriso - seu
sorriso começa no olhar e cai nos lábios serenamente. Uma expressão
bela de se ver; uma sincronia perfeita.
Entramos na casa. Uma gostosa sensação me atinge, como de aconchego.
Tudo é tão simples. Há flores por toda a casa; um grande tapete na
sala, uma lareira, dois sofás, móveis simples de madeira, uma
cristaleira, mesa e cadeiras. E muitos quadros na parede. Chego mais
perto, lindos quadros com a paisagem do lago, das arvores floridas com
um colorido misto, dos pássaros, das vinhas.
Lindos! Quem os pintou?
Mikail, um amigo meu. Vou levar você até a casa dele, amanhã ou depois.
Ele é um grande artista, pintar é sua vida. Misca!
Quantos arranjos bonitos de flores. A simplicidade da casa condiz com
Igor.
Misca! Onde você está?
Estou aqui, espero que... Desculpe-me pensei que estivesse só.
Misca, gorda, baixinha, cabelos meio grisalhos presos num coque, com um
enorme avental, e as mãos sujas de massa.
Venha cá Misca, quero lhe apresentar Natasha.
Ela me olha intrigada e se aproxima. Fico envergonhada, existe em mim a
timidez.
- Muito prazer, Misca; não queria incomodá-la.
Aí veio seu sorriso.
Que é isso menina, estou fazendo uns pãezinhos. Aceitam com um chá?
Alguns já estão prontos e quentinhos.
Igor abraça a senhora. Indaga-me com o olhar e aceno que sim.
Aceitamos, mas tem que ser rápido.
Importam-se de ser na cozinha?

Ela olha para mim e me apresso em dizer:


Claro que não, a senhora quer ajuda?
Senhora? Chame-me de Misca.
Entramos na cozinha, onde o cheiro do pão toma o ambiente.
Uma grande mesa de madeira escura, dois bancos compridos, um de cada
lado da mesa, o grande fogão de lenha, prateleiras repletas de tachos e
panelas, e outra cristaleira.
Sentamos no banco; ele, ao meu lado; Misca, à nossa frente, nos dá as
costas para fazer o chá.
Misca, pelo cheiro delicioso dos pães, você deve usar alguma erva;
incomoda-se de dizer qual?
Ela começa a falar, e eu coloco minhas mãos sobre a mesa. Igor chega
mais perto, leva a mão a meus cabelos e os coloca de lado, sobre meu
ombro esquerdo. O leve toque de seus dedos na minha nuca faz com que já
não ouça a receita de Misca. Olho para ele, meus cabelos tocam a mesa e
ele toca suas pontas, e as enrola nos próprios dedos.
Sua casa é muitíssimo agradável.
Ele encosta seu rosto perto do meu e fala a meu ouvido.
O quê?
O arrepio percorre as costas, abro a boca para respirar melhor; um
calor forte envolve-me. Não falo, sussurro:
- Sua casa é agradável, aconchegante.
Com o dedo, ele percorre meus lábios; a outra mão puxa meus cabelos,
faz meu rosto ficar mais perto do dele. Fecho meus olhos, pois o
entorpecer me invade com o olhar dele e respiro fundo. Com o movimento
leve dos seus dedos nos meus lábios, sou induzida a abri-los. Beijo,
então, seus dedos, abrindo os olhos... Como é extasiante estar junto
dele. Estou apaixonada por você, Igor e rendo-me a isso. Ele parece ler
meus pensamentos, chega a meu ouvido e fala.
Sempre esperei estar com você como agora, vida.
Ei, olhem o chá e os pães.
Fico sem jeito. Igor sorri alto e Misca, também.
A senhorita é mais bonita do que imaginava.
Olho espantada para ela e, depois, para Igor. Este, por sua vez, toma o
chá com ar inocente. Sinto, no entanto, que ele chega mais perto de
mim. Agora, nossos corpos estão lado a lado, juntos; sinto sua perna ao
lado da minha, meus quadris batendo nos dele. Como poderia ao menos
tomar o chá?
Há muito que queria conhecê-la, desde o tempo que esteve aqui doente.
Por que Misca? - Indago.
É bom vê-la. Tirei minhocas da minha cabeça.
Tomo um pouco do chá e já ia perguntar, quando Igor o fez.
Que minhocas?
Ah! Besteira de gente velha! Gostei de você senhorita e sou sincera.
Aliás, todos nós que moramos nesta casa: o senhor, Val, meu marido e
eu, todos somos, e acho que é por isso que vivemos aqui. Tenho a boca
grande e não tenho papa na língua, sempre falo o que acho, e na cidade
tenho que engolir certas besteiras. Não é, senhor?
É Misca. Mas você não falou o que tinha na cabeça.
Misca leva o avental à boca e dá uma risada, Igor a olha intrigado.
Primeiro, eu pensei que o senhor tinha imaginado a senhorita; depois,
quando falei com o doutor Lajos, soube que ela realmente existia.
Desculpe-me, tinha que saber. Lembra-se do dia que a caravana partiu?
Só eu sei o estado em que chegou aqui. Ele bebeu, como nunca o fez e
não deixou um jarro de planta inteiro, quebrou tudo.
Olho para Igor e pele primeira vez vejo-o sem jeito.
Para mim foi difícil vê-lo assim, o tenho como um filho. Ele quebrou
tudo, dormiu no tapete. Depois seguiram-se os dias, em que saía de
manhã e só voltava à noite, estando a perguntar a Deus e ao mundo se
tinham visto vocês.
E agora a vejo na minha frente, linda e delicada. Isso me deixa muito
feliz!
Aceitam mais chá?
Nego com a cabeça. O que quero é ouvir de Igor o que se passa ou
passou. Agradeço a Misca e lhe explico que está ficando tarde e minha
anya ficará preocupada.
Entendo, senhorita.
Igor levanta-se e fala a Misca que quando voltar terão uma conversa.
Ela sorri e nos acompanha até a porta.
Foi um prazer conhecê-la.
Ela me dá um abraço sem jeito. Igor olha espantado e nos dirigimos ao
cavalo.
Você deve ser mesmo um ser encantado, agora tenho certeza. Conquistar a
Misca? E no primeiro encontro!
No cavalo, toco seu ombro.
Igor, preciso falar com você.
Daqui a pouco.
Saímos, encosto-me a ele, o pensamento estava nas palavras de Misca e
na frase dele: - Sempre esperei estar com você.
Agora, tudo parecia tomar forma, mas é necessário ouvir dele mesmo a
historia para, assim, compreender.

Chegamos a um lugar perto daquele onde nos encontramos ontem. Árvores,


arvoredos, e alguns, por ser primavera, estão floridos. O verde impera
da relva às folhas das árvores. Creio que, por ser entardecer, as águas
do Balaton refletem belas tonalidades do verde ao dourado do sol que se
vai.
Esse lugar é especial para mim. Bem, moça, o que quer falar-me?
Já não sei mais o que dizer; só o tenho à minha frente... Como alguém
pode ser tão envolvente.
Natasha... Não me olhe assim.
Como?
Como você está me olhando, agora.
Desvio o olhar desconcertada.
Por que não posso olhá-lo?
Só existimos você e eu aqui, e você tira todo meu raciocínio. A vontade
é senti-la, entende-me?
E, como entendia, fecho os olhos e tento pensar.
O que Misca quis dizer com tudo que falou?
Ele vai para junto de uma árvore, encosta-se nela, pega um graveto e
fica com ele nas mãos.
Ela disse exatamente o que viu.
Pára de falar, olha o graveto por uns instantes e continua.
Fiquei fora de mim quando vocês partiram, quando você foi embora. Não
conseguia ficar calmo, pois não entendia a razão da súbita partida.
Dou alguns passos me aproximando mais a ele.
Por quê, Igor?
Por que? Natasha, não é visível o que sinto? Quando a vi pela primeira
vez com febre e doente, senti-me estranho. Entrei na carroça com Lorna
a falar preocupada e quando a vi, fiquei a olhá-la; era a doença, era
você. Saí de lá angustiado, fui para casa, mas você não me saía da
cabeça. Fui à casa do médico, ele já estava dormindo e o arrastei ao
acampamento. Fiquei a observá-la enquanto o médico a examinava; naquela
hora pedi ao Pai para você não morrer. Pedi ali na carroça, implorei em
casa. Algo me incomodava e pela manhã fui ao acampamento, e passei a ir
toda vez que vinha essa sensação forte. Era como se você me chamasse.
Seguiram-se alguns dias. No começo, eu tinha a desculpa: Ela precisa de
mim, está doente. Mas aos poucos entendi: quem precisava era eu.
Precisava vê-la, estar perto; uma necessidade real e vital... E o pior
foi quando cheguei ao local onde estavam acampados e não vi mais nada,
nem ninguém. Deus Pai, fiquei louco. Por que partiram? Por que você
tinha me deixado...O resto você ouviu de Misca.
Chego perto dele, meu coração bate rápido.
O que posso lhe falar? O que posso lhe dizer, Igor? Quando o vi o mundo
parou.
Em todo esse tempo sonhava - é mais que isso - vivia a pensar em
estar aqui, em voltar ao lago. Perguntava-me o porquê. E quando o vi,
aconteceu. Só existe você antes, agora. Nunca tinha sentido algo assim,
tão forte; algo que me excede, e que, no intimo, esperava; não me
pergunte por quê. Simplesmente esperava você, apenas você, por ser
você...
Seus olhos chamam-me, ele joga o graveto no chão.
Vem cá.
Um sussurro, um pedido.
Chego perto dele, puxa-me pela cintura, meu corpo encosta ao dele. Ergo
a mão, toco-lhe o rosto, ele puxa-me mais a ele, vem-se chegando com os
lábios entreabertos, sinto seus lábios nos meus, lentamente, abro meus
lábios... Passo os braços no seu pescoço por puro medo de cair. Minha
respiração é acelerada, ele pára de beijar-me, abro os olhos, ele está
a me olhar, fala:
Como pensei neste momento, nestes anos. Sonhei em estar com você.
Chamei-a no tempo. Tudo que eu mais queria, que eu mais quero, está
aqui nos meus braços.

Encosto a cabeça em seu ombro, mas ele levanta meu rosto; fecho os
olhos, sinto sua boca quente sobre a minha; abraça-me e aperta-me,
puxando-me mais para si. Com a mão, levanta meus cabelos, seus lábios
saem dos meus, e passam o meu pescoço suavemente, mas minha pele
queima, minha respiração é acelerada. Passo os dedos por entre seus
cabelos, beija-me os lábios, um beijo forte. Nossos corpos parecem um
só...
De repente pára de beijar-me, sinto-o afastar-se de mim; não entendo,
abro os olhos.
Temos que ir embora.
Estou atordoada.
Se ficar mais um pouco aqui com você, posso fazer com que você se
arrependa de estar comigo, e isso eu não quero.
Como, Igor?
Quero amá-la, quero tê-la.
Volto a mim. Ter-me?! Claro. O sangue vem ao rosto, dou-me conta de que
estou quente. Coloco a mão no meu rosto.
O que é, Natasha?
Estou quente, parece que estou com febre.
Ele tenta manter-se sério, porém não se contém e solta seu riso. Pega-
me e abraça-me rindo.
Quer dizer que você está com febre? Não sabe o que é isso, vida? Essa
febre?
Não.
É febre de amor.
Como você sabe?
Vejo nos seus olhos, você me quer como eu a quero.
E só eu a sinto?
Ele ri novamente e fala:
Não, toque em mim.
Minhas mãos ainda tremem, passo-as no seu rosto... Quente, pego sua
nuca, quente. Seus cabelos estão suados, passo a mão na minha nuca,
meus cabelos também estão suados. Ele os levanta e sopra, fecho os
olhos. E ao voltar a abri-los, vejo o intenso e penetrante olhar dele.
Ele puxa-me, nossos corpos juntos, e vem o beijo sedento. Sede um do
outro. Abro os olhos, é quase noite e falo.
- Igor, já está tarde, anoitece, temos que ir.
Ele abre os olhos como se tivesse acordando.
Sua febre passou?
Tenha a certeza que ela nunca passará com você por perto. Só em vê-lo,
o meu coração dispara. Ontem, senti como se o conhecesse, meu coração,
pulsava tão rápido, como pulsa agora. Sinta, não estou mentindo.
Ele empurra-me um pouco, balança a cabeça.
Acho melhor não tentar senti-lo. A não ser que você queira ser amada
aqui na grama.

Estou louca? Pedir para Igor sentir meu coração! Porém, ao estar com
ele, tudo é natural. E ao contrario do que sinto, falo:
Vamos, Igor.
Sim, venha. Do contrário não serei tão bem recebido por seu pai.
Pega-me pela mão e vamos para o cavalo. Levanta-me e, em vez de
colocar-me na cela, olha-me longamente, abraça-me e sussurra: - Vida
- beijando-me lentamente.
Coloca-me na cela e monta. Chego-me para junto dele e o envolvo com
meus braços, num abraço.
Saímos do bosque. Algumas estrelas já no céu, simplesmente as
observo.... Meus sentidos estão voltados a ele e ao que acabo de viver
e continuo a sentir.
Igor, como eu gostaria de saber o que está a sentir. Num gesto toco os
seus cabelos. Sinto-o pegar minha mão, a encaminha para seu peito.
Sinto seu coração!
O pulsar rápido. O calor do seu peito, o coração pulsa acelerado.

Homem, sei o que está sentindo.

No acampamento as fogueiras já estão acesas, e sente-se o cheiro de


comida. Não tenho fome, a fome é estar com ele, é algo novo, porém, ao
mesmo tempo, é como se sempre tivesse existido.
O som dos violinos vem do acampamento, que está colorido. Descemos do
cavalo.
Vocês são sempre assim, alegres?
A maior alegria do cigano é a vida. A celebração da vida. Viver a vida
o mais que possa.
Seu ar travesso, os olhos vivos me fazem sorrir. Anya veio até nós. Seu
ar denota preocupação. Igor desculpa-se e explica que fomos conhecer a
fábrica e sua casa. Ela arregala os olhos, e ele fala sobre Misca. Só
assim ela se tranqüiliza.
Anya, anya, o perigo, se é que se pode chamar de perigo, não está na
casa de Igor, está dentro de nós mesmos; e isso não é perigo, anya.
Isso é o melhor evento que já me aconteceu.

Igor junta-se aos homens, e eu vou ajudar no jantar. Vez por outra,
nossos olhos se encontram e meu coração bate mais forte, celebra o
comungar.
Você está corada, Nat.
É mesmo. - respondo, sorrindo para Belle.
Sim. Vai me contar o que se passa? É ele, claro é o Conde.
Estou feliz, cunhada, muito feliz.
Demos o jantar. O vinho da noite é de Igor, ele está sentado junto ao
pai, e a conversa é boa, vou sentar-me junto a Andrei, encosto a cabeça
em seu ombro, antes ele me olha e sorri.
Você tomou vinho? Seus olhos estão brilhantes.
Não o respondo, olho para Igor.
Este lugar, realmente, é um lugar abençoado. Natasha, o Conde gosta de
você.
Fico surpresa ao ouvir Andrei dizer isso, não é bem da pessoa dele.
Por que você fala isso?
Simples, percebo quando um homem está interessado numa mulher,
principalmente quando este alguém é minha irmã. Vejo como ele a olha.
Aliás, não é de agora. Desde que estivemos aqui da outra vez, ele
passava um tempo enorme a olhar para você. Sempre arranjava uma
desculpa para vê-la. Anya sentiu, e acho que foi por isso que nos fez
sair daqui tão depressa. Ela a via como uma criança.
Imagine! Nessa idade, Belle e eu já estávamos casados.
Conheço você - continua Andrei. Conheço você muito bem, e sei que
está apaixonada por ele. Nem precisa me responder, eu sei. E, também,
já estou tonto de tanto vinho; falando demais. Mas preocupo-me com
você, adorada irmã. Existe uma grande diferença entre você e ele. Ele é
um Conde, e nos ciganos, Natasha. Sei que ele é um homem simples. Hoje,
quando fomos ver sua plantação e sua fábrica, admirei-o. Ele nivela as
condições sociais; mas ele é um Conde, e existe a diferença. Quero que
pense nisso, não quero vê-la sofrer, pois a amo. Tenha cuidado. Ah!
Creio que bebi demais.

Sei que Andrei está certo, existe uma diferença entre nós. Só que
quando estamos juntos, só existe ele e eu, e mais nada. Sim, meu irmão,
terei que pensar nisso, mas agora é impossível estando ele a alguns
metros de distância de mim.
Andrei levanta-se e vai ajudar Belle levar as crianças à carroça, pois
há algum tempo que dormem.
Olho o fogo, poderia essa diferença nos afastar?
O que a faz pensativa?
Igor senta-se a meu lado, o calor da fogueira se estende por mim.
Está preocupada com alguma coisa, Natasha? O que se passa?
Seu olhar aprofunda-se nos meus olhos, abaixo a vista.
Não, estava olhando a noite que está bonita, apenas isso.
Mentira! Aliás, você mente muito mal. Em que pensa?
Realmente, eis aí uma verdade: eu não sei mentir. Fico sem jeito e falo.
A verdade, é que penso em você ser um Conde, Igor.
Ele fica impaciente.
Sim, e aí?
Existe uma diferença entre nós. Sei que você é um homem simples, mas é
um Conde.
Você quer que exista essa diferença? Por acaso o que sentimos hoje há
tarde é diferente um do outro. Sou um homem e você uma mulher. Até aí
tudo bem, existe uma diferença. E no que mais? Sou um Conde e você uma
linda cigana, e aí? Faria diferença, se fosse o contrário, você uma
Condessa e eu um cigano? Responda-me, hem! Olhe para mim, quero ver
seus olhos.
Não, não faria.
Ótimo! Também não conheço essa diferença, a não ser que você crie.
Estou no seu mundo, estou bem dentro dele. Posso não saber tudo sobre
ele, mas saberei se isso for importante. Você esteve na minha casa, e
se sentiu bem. Não importa um título externo, e sim, o que tenho aqui
dentro.
Falou, batendo no seu peito.
Se você começar a pensar assim, colocará uma barreira entre nós, e se a
colocar estará dificultando tudo. E mesmo que você a coloque, tenha
certeza, eu a derrubo, pode estar certa. Sou um homem consciente do que
quero e quero você. E se você continuar a me olhar assim, levarei você
agora e lhe mostro que a única diferença que temos é você ser mulher e
eu ser homem. Só está.
Também quero você, e muito.

Vida, você sabe que o que existe entre nós não é algo de agora. Chamei
você no tempo, você veio e ficará, ficará para sempre; é para sempre
Natasha, está me ouvindo? Esperei, é verdade, mas em mim existia a
certeza de que você viria. E eis você, aqui, agora. Não pense você que
vou ser tolo para perdê-la, não mais.
Seu olhar é de uma intensidade, mas não entendo a profundidade de suas
palavras.
Como você me chamou no tempo, Igor?
Natasha, logo você compreenderá, tenha certeza. A única coisa que lhe
peço é para não colocar barreiras entre nós.
Talvez seja cedo para entender, o que sei é que você tem razão. Minha
ligação com este lugar, a eterna vontade de estar aqui, hoje sei por
quê. Não pode ser comum sentir o que senti quando o vi. É você, sempre,
foi você. E fico maravilhada por ser você, estou feliz, Igor!
Ele é por demais transparente, a emoção toma conta dele, com o dedo ele
acaricia meu braço; sorrio.
Sabe o que você parece, Igor? Uma caixa de surpresa que os mágicos
usam. Sério! Não ria, parece mesmo. Um mago! – ele está sorrindo e
pergunta:
E você gosta de caixa de surpresa?
Sendo você, pode estar certo que sim.
É bom saber. É bom saber tudo que se passa com você, saber sobre você.
O que você sabe sobre mim?
Ah! Muita coisa. Sei o quanto é amada por todos, o quanto seu avô foi
importante para você. Sei que adora ler, sei até alguns livros que já
leu... Deixe-me ver mais. Ama estar com as crianças.
Como sabe disto? Andou falando com quem?
Falei-lhe que me interessa saber sobre você. Sendo assim, sempre puxo o
assunto quando estou conversando com alguém. Ah! Sei que é péssima em
costura e faz um ensopado muito mal. Sei, também, que adora ficar
comigo. Mas é tarde e sua anya está olhando muito para nós dois. Acho
que tenho que ir embora.
Olho para anya e noto também que muita gente tinha ido dormir. Igor
levanta-se e vai falar com o pai e anya, fico onde estou, esperando.
Observo-o despedindo-se, a maneira como fala, é espontânea, parece bem
integrado. E vem chegado e falo;
Você vem aqui amanhã, não é?
Você quer? - Andamos na direção do cavalo.
Claro, e você sabe disso, por que pergunta?
Para confirmar o que sinto, você não pode mais ficar sem me ver.
Ele solta sua risada, que enche a noite.
Presunçoso!
Estou errado?
Não, está certíssimo.
Posso beijá-la?! – Paro de andar, há momentos que não sei se ele está
falando sério.
Se quiser tentar, tenha a certeza que amanhã não será tão bem recebido
por anya.
O que tenho que fazer para agradar sua anya e agradar a mim?
Pega minha mão e aperta, morde seus próprios lábios.
Acho que tenho que ir.
Sorrimos, ele fala.
Amanhã.
Até amanhã, Igor.
Beija minha mão e sobe no cavalo, chego junto a ele e acaricio sua mão.
Espero você. Durma bem!
Como dormir com você na minha cabeça?!!!
Vejo-o partir, Deus, como gostaria de ir com ele.
Volto para o acampamento, anya me espera, o pai deve ter ido deitar,
desta vez, na carroça.
Sente-se filha, vou fazer uma trança nos seus cabelos.
Sento-me, toda vez que anya quer falar a sério pede para fazer tranças
nos meus cabelos.
Você sabe que não sou de muita conversa, como seu pai.
Sei o que está se passando, sei também que você sabe, nunca tive muitas
preocupações com você. É sensata e inteligente, mas está apaixonada. -
permaneço calada, e ela continua: - Quando estivemos aqui há três anos
notei no Conde, desde o primeiro dia, como alguém especial. Sabia, por
intuição, que ele faria parte de nossas vidas, por um tempo. Vi como
ele a olhou, os dias que se seguiram serviram só para confirmar minhas
suspeitas. Existia nele algo forte por você.

Ela para de trançar meus cabelos e vem para minha frente.


Os olhos dele são como espelho, sincero demais com o que se passa na
alma, em seu coração. Ele ficava calado olhando-a; uma vez cheguei até
ele e perguntei o que sentia, ele continuou a olhar para você e disse:
‘’ – Não sei, é como se a conhecesse, sei o que se passa com ela, o
que ela está sentindo...”
Ele não mentia. Você sabe que acredito na existência de outras vidas,
vidas passadas.
E ele não mentia, ficava a observá-la, buscando, talvez, a resposta de
algo que ele próprio não sabia, continua anya.
Agi errado em sair o quanto antes daqui. Sei que agi errado.
Mas pensei em você.
Não era só o fato de achá-la nova, mas principalmente ele ser
um Conde e você uma cigana, e isso pesa, Natasha, pode
estar certa que sim. Gosto dele, vejo sua sinceridade, mas quis
protegê-la. Ele tem uma família, que pode não ser igual a ele.
Pensei que você poderia interessar-se por algum rapaz da nossa
gente.
Anya observa-me e continua.
- Enganei-me, mas no fundo sabia, como Istvan, também.

Fico espantada. Por isso o pai sempre me falava que voltaríamos ao


lago. Anya continua.
Ao voltarmos para cá, seu pai quis provar-me de que estava certo; de
que estávamos certos.
Só que acho que vocês não têm noção desta diferença, e você pode se
ma- chucar. Ele é aberto e sincero, mas e os outros? E sua
família?

Até então não tinha pensado nisso, porém é evidente! Ele tem família.
Anya continua.
Existe um elo forte entre vocês, que, para mim, vem do passado, algo
forte.
Mas meu lado prático mostra, claramente, a diferença entre uma cigana e
um Conde. Um homem simples que se senta no chão e come conosco. Um
homem aberto que, em sua doença, expunha o que sentia, que leva os
nossos para mostrar sua fábrica, que mora longe de sua nobreza. Mas a
nobreza faz parte dele, sei que ele é o mais velho da família, seu pai
já faleceu. Isso quer dizer que ele toma conta de tudo: da família, das
propriedades, e aí? Como você acha que a família dele vai recebê-la.
Como uma aproveitadora? Talvez.
Se fosse gente simples estariam morando todos juntos aqui no campo.
Veja bem, filha, estou só supondo, não quero errar novamente, posso
estar enganada.
Peço que pense no assunto, e partilhe comigo as suas conclusões.
Tudo que mais quero na vida é ver você e seu irmão bem e felizes, como
sou com seu pai. A felicidade existe quanto estamos ciente, e por isso
quero que pense. É melhor refletir do que ter um grande susto mais à
frente. Não digo com ele, pois vejo-o sincero. Mas é um Conde, e não é
um Conde solitário, pois tem família.
Não é meu objetivo perturbá-la e sim alertá-la. Você, filha, é para nós
um presente de Deus e não queremos que nenhum mal aconteça.

Entendo suas preocupações, anya, eu ainda não tinha pensado sobre a


família dele.
Prometo que irei refletir. Mas, quero entender mais o que acontece; por
que acha que ele e eu tivemos algo num passado?

O olhar de anya se distancia, sua voz sai lenta como se tentasse achar
a conexão do passado.
Como pode alguém se impressionar tanto com um doente, sem laços
afetivos, um homem jovem, bonito, rico, com tantas ocupações, ficar
tanto tempo a olhá-la.
Lembro-me quando ele trouxe o médico. Foi no mesmo dia em que o
conhecemos, seu pai o levou para vê-la. Ele chegou já noite alta,
entrou com o doutor na carroça. Estava inquieto e angustiado,
perguntava ora e meia: ela vai ficar curada?
Por que tamanha identificação, tamanha preocupação? Por uma jovem
cigana desconhecida. Poderia ser caridade. E, depois, ele chegava a vir
três vezes ao dia para vê-la. Não era mais caridade, não era simpatia,
pois você nem falava, era carinho, um carinho que transbordava de seus
olhos. Como ele poderia achar que conhecia, se nunca a vira antes?

Anya, ao vê-lo senti uma emoção tão grande que pensei que ia morrer.
Está emoção associada à morte, seria por ter ficado tão perto dela, da
morte? Mas o fato é que senti que o conhecia. Anya, você me conhece,
tão bem. Por quantos homens me interessei? Acho alguns bonitos, outros
interessantes, mas nada, além disso. Nunca tive esse sentimento por
ninguém.
Mas fique tranqüila, vou pensar no que me falou.

Quem dera, eu ficar tranqüila! Vejo algo muito forte todo esse tempo.
Anya, ele falou que me chamou no tempo. Eu não entendi.
Ela sorri, roça sua mão no meu rosto e fala:
Acho que o compreendo, ainda não saberia lhe explicar,
deixe-me chegar o entendimento.
Vá dormir, Nat; amanhã cedo, nossa gente irá à cidade, e também
vou.
Beijo-a, falando do meu sentimento por ela: a forte e intuitiva mulher.

Homem, és especial.
O que leva um homem a ser especial? Carisma, amplitude de visão,
atitudes autenticas.
O que faz com que duas pessoas se interessem uma pela outra?
Atração? Sim, ela existe e é tão forte como o ar que respiramos.
O que faz a gente querer partilhar mínimas coisas com alguém? Simpatia?
Afinidade?
E o desejo de permanecer juntos as vinte e quatro horas do dia?
E o que dá certeza de alguém ser importante na sua vida, mesmo que
conheça esse alguém há apenas dois dias? De onde vem isso? De um
passado, da minha inconsciência na doença?
Sentimento e emoção estão juntos.
Sei que anya está certa, mas Igor também está.
Ele é um Conde, um homem atraente, com o olhar mais belo que já vi.
Esse mago chama-me no tempo, e eu concordo, fala que me quer e eu o
quero.
Vamos lá, Natasha, já faz tempo que acordou, levante-se.
O sol está lindo, forte e brilhante, como a noite também será linda,
será quase lua cheia.
Vou ao lago tomar banho.

Na volta do lago, banho tomado, vestindo blusa branca bordada e saia


com bordado florido, pendendo o cabelo úmido no lenço. Vejo minha gente
já de volta de Badacsony. Estão todos entusiasmados.
Pai, o que de tão especial tem na cidade, vocês estão tão alegres.
Descobrimos como vender nosso trabalho que levaríamos a Nijmí, isso é
excelente filha.
Ah!!! Meu peito está apertado e doendo, e sei o motivo.
Existe uma cidade, chamada Tihany, que tem uma feria espetacular. Sendo
assim, seguiremos para lá. Não é longe, fica a um dia de viagem, e, na
volta, ficaremos um bom tempo aqui.

E, agora?
Sei da importância de vendermos, já faltam alguns mantimentos, e
precisamos de dinheiro. E Igor?
Não consigo pensar em ficar longe dele!
Egoísta!
Estou sendo egoísta, mas é a mais pura verdade.
Não consegui comer nada, e por isso vim para cá, ver o lago.
Creio que será pouco tempo, sei disso, sei da total necessidade da
nossa gente. Mas não consigo pensar em ficar longe dele! Só em pensar,
meu peito dói...
Natasha!
É ele, seu grito está um pouco distante.
Estou aqui, Igor, rumo ao lago!
Fique falando assim localizo você.
Está chegando perto. Está me ouvindo?
Igor? Está me ouvindo? Igor!
Lá está ele, meu coração dispara.
Igor!
Corro a ele. Ele pára o cavalo, mas não desce.
Como você está linda! Já falei com seus pais, pedi-lhes para você vir
comigo à casa de um amigo. Eles consentiram.
Vou para perto dele para montar no cavalo, só que ele pula antes. Chega
perto de mim, e eu o abraço; ele tira o lenço que prende meus cabelos,
olha-me por um tempo, e fecho os olhos.
Quer que a beije?
Sua voz grave, respondo com um sorriso.
Volta-me para diante de si, desce o rosto ao meu e beija-me. Um beijo
que me deixa sem ar, e plena do nosso ar; tento falar, mas ele não
deixa, continua a beijar-me. Entrego-me a seus lábios; passo a mão nas
suas costas, na sua nuca, seu beijo fica mais forte, ele me puxa para
mais perto; só existe uma respiração.
Eu quero você.
Ele fala sem tirar seus lábios dos meus.
- Também o quero.
A vontade é senti-lo mais e mais.
Um cavalo! Ouço um cavalo.
Ele se afasta um pouco, sua respiração está irregular, seus olhos em
chamas, eu falo.
- Vem alguém.
Ele respira fundo, como se controlando.
- Eu sei... Mas veja como você me deixa.
Ele me mostra suas mãos, elas tremem e as minhas, também. Ele, então,
pressiona minhas mãos nas suas, e fala.
- Você me tira do tempo.

O cavalo está próximo.


Igor! Onde diabos você está?
Franzo as sobrancelhas: quem é? Não conheço essa voz.
Aqui, você está bem próximo.
Igor já está mais controlado, passa as mãos nos meus cabelos, meu lenço
em sua mão e ao tentar pegá-lo, ele guarda-o no bolso e sorri para mim.
O que você está fazendo... Desculpem-me.
Um homem alto, com barda e loiro surge à nossa frente. Mais alto que
Igor. Pele branca, muito branca e olhos de um azul profundo; bonito,
uma beleza serena.
- Natasha, este é Mikail. Mikail, esta é Natasha.
O homem desce do cavalo. E Igor fala.
Íamos a sua casa.
Ótimo. Prazer, Natasha. Igor fala-me muito de você.
O prazer também é meu, Mikail. Parabéns, você pinta muito bem, vi seus
quadros na casa de Igor.
Pronto, fico vermelha e o bosque se enche da risada de Igor. Ele me
abraça e consola-me.
Ela viu o quadro?
Pergunta Mikail a Igor.
Ainda não.Vamos lá, espero que tenha um chá para nos.

Subimos no cavalo, Mikail galopou na frente e Igor o acompanha. Tinha


que me agarrar enquanto subíamos o monte. A casa de Mikail fica num
local bem mais alto.
É uma casa pequenina, meio desarrumada, por todo lugar viam-se telas em
esboço. Dois quadros estão prontos, são perfeitos. Elogio seu trabalho
e pergunto como ele consegue dar tanta vida. Ele aponta para os esboços
e explica que muitas vezes não consegue, tendo que esperar a inspiração.
A casa tem dois cômodos, um deve ser seu quarto. Várias prateleiras
cheias de tintas e pinceis, dois janelões dão para o lago.
Linda vista, pergunto se é ali que ele pinta. Ele diz que depende.
Quando o tempo está bom ele sai a buscar lugares novos ou novos ângulos.
O chá é servido e Igor pergunta se o chá é de ontem ou de anteontem.
Mikail sorri e responde se faz diferença. Sentamos. A conversa,
agradável, gira em torno das pinturas. Faço a pergunta de onde ele é,
pois seu sotaque é carregado. Ele me conta: é russo, de Odessa, mas faz
quinze anos que mora ali. Saiu de casa quando tinha dezoito anos,
passou um tempo a andar até chegar aqui, e fixar-se. Diz ele que é o
encanto do lugar. No começo pensava em só fazer algumas telas, mas foi
ficando, ficando. Sempre viaja, para outras regiões, mas sua casa é
ali. E hoje não pensa mais em sair, pois gosta da região e a Hungria,
que adotou como sua terra.
As telas de Mikail são belas, perfeitas. As tonalidades das cores me
dão a real impressão de ser um registro vivo da natureza.

É fim de tarde quando saímos da casa de Mikail. Foi uma tarde


deliciosa. Gostei dele. E, mesmo sem querer, comparei-o a Igor, mesmo
sendo ele mais bonito que Igor, pois suas feições são perfeitas. Igor é
notado por sua sinceridade, pela abertura dos seus gestos, do seu ser
e, evidentemente, pela sensualidade que dele emana. Mikail, sereno,
controlado, interiorizado.

Igor pára o cavalo e pergunta-me, enquanto desmonto, em que penso.


Gostei de Mikail.
Não me faça ter ciúmes.
Mas gostei mesmo dele.
Estou brincando, Mikail é um grande amigo, como um irmão.
Penso logo na família de Igor, mas não quero perguntar-lhe nada a
respeito, agora. Tenho que lhe falar de nossa ida a Tihany.

Estamos no bosque, Igor senta-se na relva, sento-me a seu lado; olhamos


o céu, uma revoada de pássaros desliza. Acompanho seus movimentos.
Viro-me para ele que está a observar-me. Ele toca meu rosto.
Tenho algo a falar-lhe; meu pai foi hoje à cidade.
Ele me falou.
O que ele falou?
Que foi a cidade. - falou ele sorrindo.
E daí?
Pergunto, na esperança de meu pai ter-lhe falado mais. Igor está
intrigado.
Só isso, Natasha. Por quê?
Na cidade ele ouviu certas coisas que o fizeram tomar uma decisão.
Que decisão?
De ir a Tihany vender nosso trabalho, ele disse que é perto daqui...
Não, completo a frase, ele está sério.
Não é tão perto.
E depois voltamos.
E você vai?
Ele está visivelmente irritado: sobrancelhas erguidas emoldurando o
olhar, a voz baixa e controlada. Tento fazê-lo compreender nossa
necessidade em vender.
Igor levanta-se, ergue a face para o céu. Pergunto-lhe o que posso
fazer; ele continua com o rosto levantado para o céu e fala: - Ficar.
Como, Igor? Vou dizer a meu pai: Olha pai, não podemos viajar, não
posso partir. Você, por acaso, acha que estou gostando da decisão?
Fique.
Quem fica nervosa sou eu.
Como posso ficar, Igor?
Levanto-me também. Desce seu olhar aos meus.
Comigo.
Ele me olha dentro dos olhos, e sinto que tenta manter a calma.
Comigo... Fique comigo, Natasha. Não consigo, não posso ficar mais sem
você.
Igor, para nosso povo as coisas não são bem assim.
Ele fala pausadamente:
Fique comigo.
Não posso chegar a anya e dizer simplesmente que vou ficar com você!
Diga a ela para ficar aqui com você e, comigo.
Ela não vai concordar, eu a conheço! Ela vai dizer-me que são poucos
dias e logo voltaremos.
Ele respira profundamente.
Não consigo ficar sem você, Natasha. Já não basta o que esperei. Fique
comigo.
Ele me abraça forte e sussurra a meu ouvido.
Fica comigo, preciso de você, vida.
Toco seu rosto e o beijo, beijo-o com todo sentimento que sinto. Beijo
sua nuca, seus cabelos, sua boca. Sua respiração se acelera. Ele se
senta na relva e me puxa. Deita-se na grama, levando-me para cima dele.
Fecho os olhos, sinto suas mãos nas minhas costas a me apertar, ele
puxa a blusa fora da saia e passa as mãos por dentro da blusa nas
minhas costas. A sensação é arrebatadora.
Num gesto rápido, rolamos na grama, ficando ele por cima de mim a
beijar-me com suavidade. Pára, abro os olhos, e ele me fala:
Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros, posso tocar tua alma, teu
ser, pois o amor pode com tudo...
Ele beija minha orelha, meus olhos, meu pescoço. Meu corpo estremece.
Ele sussurra:
Fica comigo.
Eu te adoro, Igor.
Abre os olhos, pérolas negras.
Repita.
Repito com a voz baixa, ele fala num gemido.
Beija-me, Natasha.
Beijo-o na boca intensamente. Sinto meu corpo trêmulo e um calor, o
dele, também. Ele pressiona mais seu corpo contra o meu e sussurra mais
uma vez a meu ouvido.
Eu quero você. Fica comigo.
Mas eu não posso ficar...
Ele pára de me beijar e olha-me.
Não posso ficar, Igor. Entenda-me...
Então ele se afasta de mim. Fico olhando o céu, meu corpo pede por ele,
meu ser pede por ele. Olho para ele sentado, olhando o horizonte, sua
respiração é cortada.
Entenda, Igor, eu não posso ficar.
E você pode partir?
Olha para mim, seus olhos estão mais negros que nunca.
Você pode partir, Natasha? Responda. Você pode partir... Se pode, vá!
Levanta-se e chuta uma pedra. Desabotoa mais a camisa, sente calor,
passa a mão nos cabelos.
Vamos embora.
Igor! Você está sendo incoerente.
Ao diabo, ao diabo sua coerência. É coerente ficar sem você?
São só alguns dias...
Ele balança a cabeça negando.
Ao inferno alguns dias, ao inferno algumas horas. Estou sendo sincero
com você, sei das minhas limitações. Se você quiser ir, vá. Mas não me
fale de coerência. Isso que sinto não é avaliado assim. Isso que sinto
é imenso e clama por você. Fique ou viaje, é com você, decida. Vamos
embora.
Estende a mão, ajuda-me a levantar. Sigo-o até o cavalo. Ele me coloca
na cela e saímos em disparada.
Logo, chegamos ao acampamento, ele pára perto, e não desce do cavalo,
eu pulo.
Você não vai descer?
Não. Ouça-me bem.
Desça, vamos conversar.
Não! Você tem duas escolhas. Duas, fica ou vai, é simples.
Faço tudo o que for possível para você ficar, chame sua anya, seu
irmão, sua cunhada, seus sobrinhos, o acampamento todo, se quiser.
Não sou eu que estou complicando, é você.
Todo mundo aqui sabe o que sentimos um pelo outro. Pode ficar alguém
com você.
Agora, é com você.
Você vem aqui mais tarde ou amanhã?
Você sabe onde me encontrar.

Dá a volta no cavalo e parte. Fico plantada e desnorteada, meu norte já


sumiu, por entre as árvores.
Ao diabo você também, sangue húngaro danado! Será que ele pensa que é
fácil chegar ao pai e dizer: pai resolvi ficar, não posso me afastar de
Igor, nem ele de mim.
O que você pensa que é, Conde Igor?
Pois não venha hoje, não venha amanhã...
E se ele não vier? Não ficou nem para conversarmos!
E lá vem o pai a perguntar por ele, e o Andrei, e anya, mas que diabo!
Digo a mesma coisa: - ele deve ter ido para casa.
Vou para carroça.
Não sei o tempo que fico a olhar o teto. Da janela vejo a lua, depois
de amanhã será lua cheia.
O que ele estará fazendo agora.
A porta da carroça abre: é anya. Senta-se a meu lado e pergunta o que
houve. Desvio o olhar dela e digo-lhe que estou indisposta. Ela fala:
Não minta, você nunca mentiu e não é agora que vai começar. Vocês
discutiram, não foi?
Confirmo. Ela me pergunta o por quê. E eu falo:
- Porque lhe falei que iríamos a Tihany.
Conto-lhe, por alto, nossa conversa; ela escuta quieta.
Ele talvez não venha aqui hoje. Nem amanhã. Quando eu tiver uma solução
que o procure.
Decidido, ele sabe o que quer. O admiro. Vamos pensar e chegaremos à
solução. Tente conversar com ele com calma.
Anya, ele não quer conversar, quer uma resposta, só isso. Posso lhe
dizer que vou ficar?!!!
O pai deixará, a senhora aceitará?
As coisas não são bem assim. Responde anya.
Mas é justamente assim que elas são. Para ele e, agora, para mim. Vou
ou fico, realmente, até que é simples.
Natasha, não ironize!
Anya, não estou ironizando, ele deu as cartas, isso é tudo. Ah! Deixa
para lá, amanhã eu penso, estou com uma dor de cabeça terrível.
Anya me trás um chá. Deito, mas o pensamento:Mago onde você esta?

***

O dia amanheceu nublado, à noite choveu.


Não consegui dormir direito. O sono não vinha, o pensamento: ele.
E quando dormi, tive outro sonho na casa estranha, só que vi uma pessoa
deitada, parecia doente. Sei que acordei chamando por Igor, para ele
não ir embora. Acordei molhada de suor. Vou tomar um banho.
O dia se arrasta, meus nervos estão à flor da pele. Chego a gritar com
Gaspar!
O que está me acontecendo? Nunca fui rude com as crianças.
Não consigo comer.
Ele não apareceu.
Como posso ficar assim?
É começo de tarde, vez por outra o sol tenta aparecer, mas há nuvens...
Meu Sol também não aparece.
O mundo perde o brilho, o colorido.
Sem ele parece não haver vida. Meu Deus! Com tão pouco tempo que o
conheço.
Ao diabo os dias, o que sei é o que sinto.
Sorrio, ouvi isso de Igor, e ele está certo! Pois é o que sinto.
É tão grande assim?
Imagine, se eu viajar, ninguém irá me agüentar, nem eu mesma!
Por que eu não iria agüentar?
Meu coração se acelera... Por um único motivo, motivo simples e óbvio.
Não posso viajar, pois amo você. Eu o amo!
Igor, eu amo você.
Isso é mais forte que tudo, quero ficar com você.
Meu coração disparara. Mago, amo você. É tudo que importa. E nós dois
juntos vamos achar uma solução.
Homem, me posicionas-te a decisão!
Preciso falar-lhe que quero ficar, pois o amo.
Vou procurá-lo, agora, já!

Saio da carroça.
Natasha, aonde você vai?
À procura de Igor, anya. Você tinha razão, ele não veio. E eu vou
procurá-lo para conversarmos e chegarmos a uma conclusão.
Tenha cuidado, filha.
Procuro o “gavião”, o cavalo mais rápido que temos. Coloco-lhe os
arreios e parto, veloz.
A tarde continua nublada.
Tenho pressa, uma pressa incontida em verbalizar o que sinto.
Amo você, caro Conde!
Chego à casa dele, mas não vejo seu cavalo. Quem sabe, ele deva estar
na fábrica. Melhor perguntar a Misca, ele pode estar na plantação ou na
casa de Mikail!
Bato à porta, e logo Misca aparece, fica surpresa e alegre ao me ver.
Explica que Igor foi à cidade, pois há alguns dias a Condessa mandará
chamá-lo e ele foi pela manhã. Depois acrescenta:
Hoje cedo ele acordou dando murros na parede, não sei o que houve.
Pergunto como chegar à cidade.
A senhorita toma esta estrada e não tem erro, sairá lá. Mas deixe-me
chamar alguém para acompanhá-la.
Não é preciso Misca, obrigada.
Tem certeza? Não custa nada. Então quando entrar na cidade verá uma
praça, Val, meu marido está lá, com toda certeza do mundo, jogando
gamão. Ele chamará ele para a senhorita. Vá com Deus.
Grata, Misca.
Dou-lhe um abraço e subo em gavião. Aproveito a estrada boa e faço-o
correr, mais e mais.
Quero estar logo com você, Igor; quero abraçá-lo e falar o que sinto:
Perdoe-me, é tão novo para mim. Nunca senti o que sinto agora. Amo
você, e como fui tola.
Como fazer-lhe querer esperar, se a vontade é estar.
Perdoe-me, tudo é novo para mim. Quero ficar com você, quero estar com
você.
Hungria, amada Hungria, hoje começo a ter orgulho de ter nascido aqui,
aqui encontrei o paraíso, e o homem que amo. E esse homem é que faz o
mundo virar o paraíso e tornar-se colorido. Sol da minha vida.

E eis a cidade. É pequena, ao que dá para notar. Muito arborizada e com


casarões bonitos. É bela. Há muitas pessoas circulando na rua.
Ali está a praça. Por que tanta gente na praça? É o jogo.
É melhor deixar o cavalo aqui, amarrado.
Agora vou a pé à procura de Val. Mulheres bem vestidas! Olho para
minhas roupas.
Ali está Val, acho que é ele, sim, vou pela calçada.
Olho para a minha direita e, ali de costas é ele, é Igor! Que bom, ele
terá uma surpresa.
Com quem está conversando? Não dá para ver, chego mais perto.
É uma senhora, será sua mãe?
Melhor chamar Val. Não é a Condessa, essa senhora não tem idade para
ser a anya de Igor.
E aí, Natasha onde está sua coragem?
Aproximo-me.
Ele continua de costas e ela está a falar, vou chegando mais perto.

... Não o entendo Igor, porque adiar esse casamento. Minha filha já
está inquieta. Afinal, vocês se conhecem desde crianças. Soube que tem
uns ciganos na região, e é normal você se divertir com uma ou outra
qualquer. Mas isso não tem nada a ver com seu casamento...

Minha vista escurece. O que está acontecendo.


Não é verdade, não pode ser verdade...
Sinto uma tontura! As palavras que ouvi, entranham por mim, tomam-me.
Que é isso, Natasha! Reaja, mexa-se. Saia daqui.
Como ele pode fazer isso comigo?
Senhorita, está passando bem?

Olho o rapaz a meu lado. Nesse instante vejo que ainda estou parada.
Igor vira-se, seu ar é de surpreso.
Nat?!
Afasto o rapaz e corro. Derrubo um cesto de laranjas.
Moça, por que não vê onde anda!

Tenho que sair daqui, tenho que sair...


Meu cavalo, onde o deixei?
Pense, Natasha; pense.
Escuto o homem das laranjas falando.
Sr. Conde, claro, depois a gente acerta...
Meu cavalo, ali está!
Corro e subo nele.
Nat! Espere! Por favor, espere-me!

Vamos gavião, vamos lá.


Eia! Eia! Vamos!
Onde é a saída daqui? Onde?
É ali! Vamos lá cavalo corra, corra tudo que você puder.
Tire-me daqui, pelo amor de Deus, tire-me daqui...
Casar?
Casamento marcado?
Você é uma imbecil, tola.
Como pôde ser tão ingênua, e ele tão cínico.
Natasha, espera.
Olho para trás, maldição! Ele vem a cavalo, seguindo-me.
Ele não vai me alcançar, quero chegar ao acampamento.
Deus! Foi esta a estrada por que vim?!!! Claro, ali está a casa dele.
Casamento marcado... Divertir-se...
O que fiz a ele? Por que tanta mentira!
Natasha!

Viro-me para ver se ele está perto.


Meu braço! Maldito galho, minha blusa está presa, há sangue!
Feri o braço.
Droga! Droga! O galho não sai da minha blusa.
Natasha! O que houve?
Não chegue perto de mim.
Calma, Natasha! Vou ajudá-la.
Cale-se Sr. Conde! Posso estar em suas terras, mas não quero ouvi-lo
falar. Não fale uma única palavra. Suma da minha frente.
Seu cavalo está ao lado do meu.
Natasha, deixe-me explicar. Seu braço está sangrando.
Ele pula do cavalo.
Não se aproxime mais de mim!
Posso ter sido tola, mais sei me defender. Você conseguiu me ferir mais
do que qualquer coisa na vida. Portanto suma! Eu posso ser tudo, uma
cigana ingênua, mas você foi um covarde. Você me toma por quê? Admito
que um homem ou uma mulher mesmo casados possa se apaixonar. Posso até
vir a ser outra na vida de alguém, mas por sentimento.
Ter uma mulher, caro Conde, é mais que um ato, é um desprender-se...
Mas você não sabe o que é isso.
Consigo livrar-me do galho.
Natasha, saia desse cavalo!
Quem você pensa que é? Você me dá pena. Uma pessoa que tem que mentir
para ter uma mulher.
Ser homem, Conde, é enfrentar situações criadas, vivenciadas ou mesmo
imaginadas por si mesmo.
Enfrentar não é um ato de coragem; é, antes, um ato de consciência, que
você não tem.
Realmente, você é muito pouco para mim...

Acabou?
Não! Agora vejo a distância que temos, existem léguas de distância de
mim, da minha gente, para você e seu meio desprezível. Hoje mesmo vamos
embora daqui. Não agüento vê-lo mais um segundo.
Calada, Natasha! Estou ficando fora de mim. Vou tirar você daí agora.
Por bem ou a força.

Não venha! Saia da frente. Este cavalo é bravo. Estou lhe avisando.
Saia da frente!

Você vai descer agora e me escutar!


Saia da frente do cavalo! Ele ataca quando vê algo à sua frente. Saia!
Oh! Oh! Cavalo! Calma!
O cavalo levanta as patas e bate nele. Ele cai no chão. Deve ser mais
um dos seus truques, uma de suas mentiras.
Faço o cavalo disparar.

O lago, estou perto.


Tenho que parar, não posso chegar assim ao acampamento.
Olho para trás, ele não está me seguindo mais.
Paro o cavalo. Melhor descer e me lavar.
Queria que a terra se abrisse no meio para eu entrar nela.
Como ele pôde fazer isso?
Chore, Natasha; chore tudo que tem vontade... Chore aqui, porque lá no
acampamento você não vai chorar. Chore, por ser tão tola em pensar que
um Conde a estaria amando.
O que lhe fiz?
Como pode mentir tão bem! Casamento marcado!
Devo admitir que foi brilhante a sua atuação. Perfeita.
Chore até suas lágrimas esvaziarem o que sinto aqui dentro de mim.
Dói meu peito, meu coração. Descobri que amo e, em seguida, não sou
amada.
Meu Deus, isso é dor, isso machuca... Corrói aqui dentro.
Amar leva a isso? Na desilusão, sentir tamanha dor?
Antes, não tivesse eu este sentimento.
Casamento marcado...

É noite.
O acampamento, meu lar, minha segurança.
Andrei vem ao meu encontro, perguntando o que houve, onde me feri.
Não me deixa responder, completando que estão todos aflitos por minha
demora. Olha meu braço e me coloca nos seus braços qual criança. Conto-
lhe foi só um arranhão, minha blusa se prendeu num ganho.
Anya chega assustada e a tranqüilizo:
Só um corte pequeno no braço. É que meu irmão me mima.
Vamos para a carroça!
Pronto, deixe-me ver. Andrei, avise a seu pai que ela chegou.
Anya cuida de mim, calada. Não sinto dor no braço, dói a alma, o
coração. Como alguém é capaz de mentir dessa maneira? E tudo que
vivenciei era uma farsa!
Pronto, foi só um arranhão. Agora, conte-me o que houve.
Olho para anya, até ela tinha sido enganada. Toda sua intuição, sua
percepção; na verdade somos todos ingênuos. Acreditando num caráter
nato, como falava meu avô; sim somos ingênuos: a raça humana não é
assim. Alguns não são.
Você está se sentindo bem, filha? Fale comigo, foi o Conde?
Nego com a cabeça e falo:
Fui à casa dele, lá Misca disse que ele estava na cidade, sua anya
tinha-o chamado. Fui até lá. - olhando para ela, continuo.
Na cidade deparei-me com a casa dele. Vi as pessoas que entravam
nela... Não é uma casa, é um palacete, aquelas pessoas, tão bem
vestidas. Fiquei algum tempo, ali parada.
Vi a diferença entre nossos mundos. Ao dar-me conta dessa diferença,
fugi. Vejo como tudo é diferente. Saí correndo de lá, fugindo mesmo.
Foi assim que feri o braço. Não quero mais ficar aqui, anya. Peça ao
pai para irmos embora.
Ficar significa me apegar mais a ele.

Foi, exatamente, isso que aconteceu?


Sim.
Não acha que está sendo precipitada?
O que a senhora quer? Que fique, e ele me convença que somos iguais? Eu
vi como é a casa dele na cidade e as pessoas que a freqüentam. Ele pode
morar aqui, mas ali, também, é sua casa. Sentir isso, machuca.
Anya levanta-se.
Durma, vou conversar com seu pai.

Que boa lição você me ensinou: mentir. Aprendi depressa, Sr. Conde.
Você me enganou, enganou anya, enganou a todos. E dizem que nós,
ciganos, é que somos mentirosos.
Casamento marcado. Conhecem-se desde crianças.
Vão formar um lindo par. Uma dama que irá compartilhar de toda a sua
sujeira.
Você me usou, usou meus sentimentos.
O que dói são suas mentiras, tantas palavras belas.
Mas você tem um grande mérito, Sr. Conde. Isso você tem.
Levou-me pelas asas da paixão.
Suas mentiras me fizeram aterrissar prematuramente, de uma maneira
violenta.
Estou machucada. Nunca tinha sentido o que sinto.
Nosso ponto de partida foi diferente.
Divertir-se com uma ou outra qualquer... É, acho que você se divertiu.
Mas tudo passa.
Tudo tem que passar. Hoje, vai passar. Amanhã, este hoje será passado.
E você, meu caro, uma mera recordação.
Uma bela e dolorosa recordação.

***

Amanhece chovendo muito, é a força da lua cheia.


Todos querem viajar. Viajar para vendermos nosso trabalho. Sei o quanto
gostaram daqui, e isso me alivia. Tihany é nossa esperança de, em curto
prazo, vendermos. Se a chuva passar, iremos à tarde.
Tive vontade de ir ao lago. Não fui e não vou.
Quero queimar qualquer lembrança dele. Pela manhã tive medo que ele
viesse aqui.
Depois, fiquei tranqüila. Ele não teria coragem, coragem de enfrentar.
Enfrentar, diante de tudo que fez, na verdade, diante de tudo que ele é.
É melhor assim. Ele, com certeza, já pensa que fomos embora.

A minha mentira foi a melhor coisa, se é que se pode dizer isso de algo
tão vil. Porém, como falar para meus pais algo tão desprezível, tendo
eles uma consideração, uma dívida de gratidão para com o Conde? Levá-
los a tomar uma satisfação, para quê? Iriam se expor.
Falei o que estava a preocupar anya e a Andrei. E o bom Deus permitiu
que ninguém me fizesse perguntas. Anya, com certeza, deve ter pedido
para ninguém tocar no assunto.
Sei que eles sabem da seriedade do meu sentimento, nunca tinha ficado
tão interessada por alguém.
Interessada?! A quem quero enganar? O que sinto é amor. Deparo-me com o
amor, o maior sentimento existente; o que de mais forte e intenso vivi!
Mas o que nasceu morrerá.
Um homem bonito e inteligente, bonito e atraente, cabelos negros, olhos
escuros e brilhantes.
Homem, por que fizes-te tudo isso comigo?
Não quero entendê-lo, levaria a quê? Saber que é pior do que é?
Como é difícil avaliar o caráter de uma pessoa.

Chega, Natasha! Chega!


Ocupe a mente para não pensar. Vou ficar com as crianças.
Tarde, a chuva continua.
A terra é só lama. No horizonte, só chuva e vento. Isso significa que
não iremos hoje.
O acampamento está improvisado, começa a faltar mantimentos, mas
estamos positivos, que venderemos bem em Tihany.
Ajudo o pai com as peças de bronze, pois é necessário estarem polidas.
Assim, na exposição, na feira, serão bem apreciadas. Acho magnífico o
nosso trabalho. Peço outra peça ao pai. Ele tira novas peças do baú,
são candelabros, jarros e taças.
Como são bonitas, pai, deixe-me poli-las.
Essas taças foram feitas por mim e Andrei, eu também gosto muito delas.
Tome-as, dê-lhes um polimento.
Pego-as, sinto um arrepio e surge uma cena: uma mulher pega as taças.
Ela usa roupas estranhas, usa calças de homem.
Natasha?
Tento ver meu pai, parece que estou saindo de um túnel. Me pergunta se
estou bem. Sua voz parece distante, mas estou chegando.
Está bem, filha?
Estou pai. Que coisa estranha que senti! Ao pegar essas taças tenho uma
sensação boa! Ao tocar nelas, vi uma cena, não é aqui, vi uma mulher
usando calças de homem! Ela tinha as taças na mão. Que coisa esquisita.
Mas a sensação é boa.
Não é um pressentimento? Indaga meu pai.
De que, não acontecia nada, a moça só tocava as taças, nada mais. Se
estas taças não forem vendidas, eu as quero.

Fique com elas filha, temos tantas peças, e mais algumas taças.
Não! Só as quero se elas não forem vendidas. Então, sei que elas estão
para ser minhas, certo?
Certo. Está anoitecendo, a chuva bem fina. Amanhã partiremos. Você vai
ver, amanhã teremos sol.
Veja Nat, já se vê a lua, venha ver como está linda.

Olho pela janela.


Bela lua! As nuvens escuras já estão longe. Sempre, depois de uma
tempestade o sol brilha mais forte...
O sol - Igor. Cheguei a falar, a sentir que ele era meu sol.
Mas no céu, agora é lua cheia, é ela que impera, e quando o sol voltar
a brilhar já estaremos na estrada.
É mesmo o que você quer? Você quer mesmo partir, filha? - volto a
mim e respondo:
Quero pai, não quero forçar ninguém a nada, mas já que temos a
necessidade de vender, como já estava previsto, ótimo, partiremos.
Acho que você está sendo precipitada. O Conde é um homem simples, pode
ter certeza disso.
Olho para o pai, o carinho que tenho por ele.
Gosta dele, não é pai?
Sim, é um homem em que confio.

Baixo a cabeça, meu pai também está enganado.


Passo os dedos nas taças.
Olho o céu novamente, quase não chove mais, amanhã estaremos longe
daqui.
Meu Deus, passar três anos da minha vida querendo estar aqui! Sim, era
tudo que mais queria.
E, hoje, tudo que mais quero é partir.
Dar as costas a tantas coisas.
Como poderia em tão pouco tempo minha vida se transformar.
O lugar que mais amei, que me fez amar, e depois, ver nesse amor o
sofrimento. Uma dor angustiante, que sufoca a razão.
O que é o destino, voltar a um lugar tão sonhado para sentir o maior
sentimento.
Mesmo que não se partilhe esse sentimento.
Você me pegou uma peça, destino, nunca temos certeza de nada.
Tenho orgulho de você filha.
Observo o pai, eu é que tenho orgulho da família que tenho.
Natasha!
Viro-me à porta. É anya, mostro-lhe as taças e falo da beleza delas.
Ela não olha as taças.
Filha. Tem uma senhora aí fora querendo vê-la. - franzo as
sobrancelhas e pergunto: - Quem é?
Misca.
Minhas mãos tremem, solto as taças.
O que ela quer?
Falar com você, ora. Vá lá, ela a espera.
Não tenho nada a falar com ela, anya
Natasha! Vá falar com ela. Vamos lá, vá.

Gosto de Misca, mas ela tem a ver com ele.


Será que ele a mandou aqui?
É mesmo um covarde. Ou a boa Misca veio se despedir? É mais provável, o
pai esteve com o Val, hoje.
Levanto-me e saio da carroça. Misca veio de charrete. Um xale cobre a
sua cabeça, protegendo-a da chuva fina.
Boa noite, Misca! Seja bem-vinda ao nosso acampamento.
Seus olhos estão angustiados.
Ah! Senhorita, como fico feliz em vê-la. Não cabe em mim minha alegria.
Deus ouviu minhas preces.
Não quero ser grosseira com ela. Ouço-a agradecer a todos os santos que
estão no céu por eu ainda estar aqui e lhe pergunto claramente:
O que houve, Misca?
A senhorita tem que vir. Precisa ver como ele está. Por favor,
senhorita. Ele tem a certeza que vocês já foram embora. Precisa vê-lo...
Misca, por favor, pare!
Ela pára de falar; olha-me como se me visse pela primeira vez.
Não pode fazer isso com ele. Será que me enganei tanto com a senhorita?
Eu é que me enganei com o seu senhor.
Respiro fundo, devo essa explicação a Misca.
Desça Misca, vamos conversar, então entenderá.

Não, venha comigo. Já falei com sua anya; expliquei-lhe o que estava
acontecendo. Ela concordou.
Misca, não quero ser rude, mas não vou. Não quero encontrar-me com ele,
está decidido. Não tenho mais nada o que dizer a ele. Não me force a
ser indelicada com você.

A senhorita não precisa vê-lo, posso lhe dar minha palavra.


Quero só mostrar-lhe uma coisa, uma única coisa, só isso. Será, assim,
tão dura comigo?

Por que não conversamos aqui, é bem mais simples. Tenho muito que
fazer. Amanhã partiremos.
Senhorita Natasha, eu lhe peço por tudo. Quero só mostrar-lhe algo.
Não tema, meu senhor pensa que vocês já partiram. Ele não vai descer.
Está no quarto desde ontem e o médico disse para ele ficar de repouso.
Mas é evidente o porquê que ele não desce. Não pelo repouso, porque é
teimoso como uma mula; nunca respeitou o que o médico falou. Lembro-me
quando...
O que ele tem? Pergunto, sentindo um aperto no peito.
Não soube?!!! Caiu do cavalo, Val o encontrou-o na estrada,
desacordado. Ele ficou desacordado por muito tempo, chamamos o médico
às pressas. Ele levou uma pancada na cabeça e um horrível corte no
ombro, profundo, sangrou muito.

Meu coração aperta, estômago girou, minhas pernas tremem; não pensei
que gavião... Meu Deus!
Como ele está, agora?
Não sei, ele não fala. Está no quarto, colocou uma cadeira na janela e
fica lá olhando a chuva. Mas não é bem a chuva que ele olha.
Logo que ele voltou a si, gritou seu nome, levantou-se e correu até o
estábulo. Ainda chegou a subir no cavalo. Corri atrás dele, pois Val
tinha ido chamar o médico. Mas ele caiu. Fiquei com ele, sangrava
muito. Estava desacordado. Quando chegaram Val e o médico, levaram-no
para cima. O homem parecia um louco quando retornou a si, parecia
delirar. Foi a custo que Val e Dr. Lajos deram-lhe um sedativo. Só
assim o doutor cuidou de seu ombro. Quando acordou, gritando, Val
disse-lhe que vocês tinham partido, para, assim, ele se aquietar. Foi
aí que ele se calou, e até agora está emudecido. A senhorita pode vir
tranqüila, ele não irá vê-la. Só quero mostrar-lhe algo, apenas isso.

Olho o céu. Igor, você é um pesadelo.


Sei que Misca não mentiria. O que fazer?
Misca, eu não quero vê-lo.
Não o verá, só se quiser.
O que tem para me mostrar?
Lá, a senhora verá.
Está bem, espere um pouco.

Vou à carroça, o pai e anya conversam sobre Igor. Disse-lhes que iria
com Misca e que não demoraria. O pai, muito serio, fala:
Demore o que for preciso, esse homem fez muito por nós e por você. Só
sairemos daqui quando soubermos que ele está bem. Se soubéssemos que
ele estava assim, já teríamos ido lá. Pensávamos em ir lá amanhã, para
nos despedirmos. Mas, agora, só partiremos quando ele estiver bem.
Natasha, atenta o que o destino lhe mostra! - fala, anya.
Beijo meus pais, pego meu xale e saio.
Estremeço, não é de frio e sim em pensar que logo estarei na casa dele.
Não quero vê-lo, mas rezo para ele não estar sofrendo.
Estou pronta Misca.

Seguimos rumo à casa dele.


A chuva passará, vê-se a lua.
Lua cheia. Cheia também está minha cabeça de informações.
Não quero me envolver em nada, nada referente a ele.
Sinto a culpa do ferimento dele.
Não quero me envolver, eu não posso me envolver.
Como alguém nos faz sofrer - e continuamos a sentir.
Como alguém pode ser um perfeito mentiroso - e continuamos a sentir.
Como comandar ou dominar o que sinto?
Não quero sentir. Eu não quero sentir!
E eu, que achava que usava a razão. Ajuda-me, razão! Ajuda-me a
dissipar essa magia que vem do mago.

Ouço Misca falar. Olho para ela como se estivesse acordando dos meus
pensamentos. Ela pergunta-me o que houve na cidade, pois Val vira-me.
Olho a estrada. Por que não contar a ela? Assim, esse episódio acabava
de uma vez.
Começo a relatar a Misca tudo que se passou, fui me soltando. Falo do
que ouvi, falo do que senti, conto tudo. Misca ouve calada, pouco
depois chegamos à casa.
Se ele estiver na janela, poderá ver. Relaxo, a estrada é lateral à
casa e o estábulo fica nos fundos. Val abre a porteira e entramos. Falo
com ele, Misca sai à frente e entramos pela porta da cozinha. Olho para
trás, Val fica no estábulo.
Sinto-me tensa, sento-me no banco comprido, lateral à mesa e ela coloca
chá numa xícara, sentando-se à minha frente. O fogão esquenta o lugar,
mas sinto frio.
Aquela senhora é a mãe de Krisztina...
Sinto dor no estômago, e falo com amargura:
Não me interessa saber quem é, Misca. Você não me trouxe aqui para
isso. Não quero mais falar nesse assunto. Por favor, vamos ao que me
trouxe aqui.

Escute-me. Tenho certeza de que ele iria contar-lhe, talvez não o


conheça tão bem quanto eu. Eu o vi nascer, é como um filho, e não
existe pessoa melhor!
Misca! Não vim aqui para ouvir as qualidades do Sr. Conde. Sei que ele
não é uma má pessoa. Só que estou ferida, ele me usou, e ele pode até
se achar no direito... Mas eu não vou ficar aqui a ouvir falar o quanto
ele é bom, ou seja, o que diabo for.

Deus meu! Tão cabeça dura quanto ele. A senhorita vai me ouvir, vai me
escutar nem que para isso chame Val e a amarre. Minha palavra é lei.
Garanti que só o veria se quisesse, isso é com a senhorita. Vim lhe
mostrar algo, e vou mostrar-lhe. Mas antes tenho que falar tudo que sei
e sinto. Tudo que presenciei.
A senhorita tem razão em uma coisa: é ingênua. Sabe tão pouco sobre o
amor. O amor que esse homem tem por você é a maior coisa que já vi.
Ele tem um casamento marcado. Sabe desde quando?
Há quatro anos. E há três anos ele a conheceu; há três, ele só pensa em
você.
Não era um casamento de amor, era de conveniência. Não pense que ele é
de aceitar conveniência. Ouça a historia:
O pai de Krisztina é um nobre, um nobre falido, que perdeu tudo no
jogo. A esperança da família é o casamento com o Conde, e desde jovem
que se falava nesse casamento, e ele achava graça. A Condessa é uma das
que mais quer esse casamento, pois se meu senhor não parece seu filho,
a senhorita Krisztina lhe parece. Gente fingida, que só pensa em
títulos, e ele nunca foi assim.
Moramos nesta casa há seis anos, pois ele não suporta essas pompas. E
quatro anos atrás a Condessa e a família da moça acertaram o casamento.
Ele nunca tinha amado e sentia muita compaixão das condições em que se
encontrava a família de Krisztina, e numa noite foi pego de surpresa em
meio à família toda. Ele não disse um sim; seguir a coisa ficou
subentendida.
E talvez até acontecesse; ele moraria aqui e ela na cidade.
Santo, ele nunca foi, - continua Misca - farra, algumas vezes, e
mulheres se apaixonaram por ele, mas nunca enganou a ninguém, todo
mundo sabia, inclusive a suposta noiva.
Até o dia que a conheceu. Lembro-me bem: no inicio ele ficou intrigado,
depois, ora zangado e azedo como um limão, ou pensativo. Era o
sentimento que se alojava no seu coração.
Um dia fiz-lhe um prato de sopa, ele estava tomando calado, aí de
repente empurrou o prato e falou alto: - “o que está acontecendo? Nem
fome tenho”.
Pegou o cavalo e foi vê-la, e cada vez que chegava, parecia sereno e
pensativo ou, às vezes, um furacão. Até o dia em que foram embora,
Santo Deus, ele vasculhou tudo, mandou alguns homem procurá-los. Foi
quando ele bebeu, e lhe contei sobre isso, aqui mesmo na cozinha. E
quando os homens voltaram dois dias depois dizendo que não tinham
noticias da caravana, ele ficou pálido e disse-me nessa noite: -
“Quando descubro que amo, eu a perco”.
Foram três longos anos de espera. Só saía de casa para resolver
negócios. À cidade, só ia quando era necessário. Farra? Nunca mais. E
sempre que falava: - “Tenho certeza que ela volta, Misca, tenho
certeza”.
Há um ano e pouco apareceu aqui uma caravana, não me lembro quem veio
falar-lhe. Ele sorriu como um menino. Pegou o cavalo e correu ao lugar,
quando voltou, seus olhos eram de tanta tristeza que naquela noite eu
rezei a Deus para ele se casar com Krisztina. E, vez por outra, tocava
no assunto. Ele só tinha uma resposta: - Ela vai voltar.
Não houve quem o fizesse casar, não houve quem o fizesse mudar de
idéia. Na minha cabeça eu pensava: fútil ou não, ela não é um fantasma
como a senhorita, e ele apenas sorria tranqüilo e afirmava que você
voltaria. A Condessa fez de tudo, pressão, chantagem, mas nada o fazia
mudar de idéia. No começo, todos pensavam que era algo passageiro. Eu
sabia que não. Conheço-o como minha própria mão; sabia que estava
decidido diante do amor que tinha, que tem.
Um amor enorme, um amor que o fez esperar todo esse tempo, que o fez
ficar sereno e certo do que queria. Sabe o que é esperar três anos por
amor? Um amor tão grande que fez expressar seu sentimento.
Venha comigo até a sala, venha. Mandei Val descer, escondido dele.

Misca levanta-se. Estou paralisada, respiro profundamente. Acompanho


Misca.
Minhas pernas tremem, minhas mãos estão suadas.
Sinto-me mal. Sinto náuseas de mim, da minha limitação.

Na sala, os candelabros chamuscam.


Não é possível! Não acredito!
Sou eu! É um quadro meu. Sou eu mesma!
Ele passou semanas e mais semanas instruindo Mikail. Não sei como
Mikail, teve paciência. Varias vezes, ouvia sua voz, dizendo a Mikail:
- “Não, os lábios dela não são assim, ou os olhos são diferentes”.
Tinha vezes que Mikail já chegava rindo a dizer: “– Vamos lá, veja se
seu fantasma está, agora, parecendo real”. Mas, afinal conseguiram.
Vê como ele a ama, o que falo é verdade.
No dia em que vocês se reencontraram, nunca vi tamanha felicidade, ele
entrou de manhã na cozinha como um raio luminoso, levantou-me no ar e
falou: “– Não lhe falei, ela voltou, voltou!”.
Loucura? Não, ele sempre acreditou nisso, nesse amor sem limites.

As lágrimas que até então eu escondera, escorrem livres pelo meu rosto.
Onde ele está?
Lá em cima.
Posso?
Claro.

Ao subir as escadas, minhas pernas tremem.


Como pude ser tão tola. Tão estúpida. Como o feri.
Eu é que não o mereço.
Qual o quarto?
Deve ser este de porta fechada.
Não lhe dei nem tempo de falar. Ele tem todo o direito de nem querer me
ouvir.
E o que tenho a lhe falar?
Que o amo, mas de uma maneira tão limitada.
Ajude-me, Deus.
Abro a porta, o meu coração está na boca.
Lá está ele, de costas para a porta, sentado, olhando a janela.
Fecha a porta, Misca, não quero comer!
Não consigo me mover. O homem que amo a minha frente.
Não consigo falar. Só sinto o pulsar do meu coração.
Você não me ouviu? Fecha essa maldita porta!
Quero chegar a ele, ele permanece na mesma posição.
Homem, o que te fiz? Te fiz sofrer.
Está surda? Fecha...
Ele se volta.
Seu olhar de surpresa.
Sinto as lágrimas correrem por meu rosto.
Como está abatido. O que fiz contigo? Está pálido em contraste com o
negro dos cabelos.
Você não viajou?
Respiro fundo, como tomando ar, necessito de ar. Falo baixo:
Como está se sentindo?
Ele abaixa a cabeça, e ao levantar os olhos, eles estão úmidos, seu
olhar é frio, tão frio como sua voz.
Como você acha?!
Amo você.
Seu olhar é estranho.
Amo você, Igor. Eu o amo - consigo respirar melhor, ao falar a
verdade: - Eu amo.
Ele, sério; olhos nos olhos.
O brilho conhecido vem surgindo e chega a seu olhar. O brilho quente e
intenso.
Seu rosto continua sério, porém o brilho vivo do seu olhar resplandece
e chega em mim, fazendo nascer o calor.
Repete.
Fecho a porta, e encaminho-me a ele.
Olhar penetrante que me chama, aquece-me.
Amo você, Igor... Eu o amo. Você é tudo, você...
Vem cá.
Chego a ele, à sua frente. Olheiras circundam o olhar mais belo do
universo.
Olhos negros que me dão vida. Olhar que me envolve inteiramente.
Ele levanta-se, num gesto rápido, puxa-me, como se tivesse receio que
eu fugisse.
Não vou embora, a menos que você me mande. Amo você, Igor.
Segura meu rosto, olhos nos olhos.
Perdoe-me, fui uma tola, eu não...
Não fale. Abrace-me o mais que puder. Abrace-me com força, mais... Mais
e mais...
Respiro num alívio e tomo consciência: Nos seus braços, estou em casa.
Ele coloca seu rosto nos meus cabelos e fala ao meu ouvido:
É você não é? Abraça-me mais, mais.
O calor, o envolvimento.
Meus lábios roçam sua nuca, beijo, falando:
Amo você. Em seus braços, estou em casa. Quero ficar com você o tempo
que você quiser.
Sua voz grave e forte: - Sempre... Sempre.
Volto o rosto. Seus lábios vêm se chegando, entreabertos, tocam os meus.
Beijo suave e lento. O sentimento impera, o calor do homem que amo
chega a meu ser.
Levanto sua camisa, acaricio suas costas, sussurra ao meu ouvido: -
Amada, vida minha.
Nosso beijo é forte, nossos lábios são a troca, nossa respiração única
e acelerada. Afasto o rosto para falar: - Misca pode en...
Ele não me deixa falar, beija-me. Como eu o quero.
Quero você, Igor.
Afasta-me, segurando meus quadris, olha-me.
Seu olhar intenso como chama que me chama.
Tem certeza?
Aceno com a cabeça.
Não, quero que pense, sei o que ouvi de você sobre um homem ter uma
mulher, portanto, quero que pense.
Afasto-me dele com o corpo trêmulo.

Não sou criança, sei o que quero, e ontem fui à cidade para lhe falar
isso.
Que você não é uma criança, eu tenho certeza. É impetuosa e, como tal,
tivemos um contratempo.
Como você é bonzinho. Causei uma briga, feri você. Cause-lhe um mal.
Você, consciente, não me causa mal. Você agiu na inconsciência.
Deixe-me falar. Ontem, eu ia falar com você e, depois, com seu pai. Não
fui ao acampamento pela manhã, pois tinha que tentar resolver nossa
situação, fui falar com o padre, e se você aceitasse, casaríamos o
quanto antes. Tudo, dependendo, apenas, de sua resposta. Não iria
deixá-la partir, a menos que você quisesse, que não é o caso.
Sendo assim, aceita casar-se comigo?

Claro que sim, amo você, Sr. Conde.


Ao diabo o Conde...
Envolvo suas costas, ele aperta os olhos, sente dor. Seu ombro! O
afasto, e falo: - Quero ver seu ferimento.
Ele, com algum sacrifício, tira a camisa.
E como fica belo, seu peito repleto de pelos negros e lisos, a pele
dourada.
Faço-o sentar-se para ver a ferida. Levanto o curativo. Meu Deus, é
grande, o formato da pata do cavalo, não tenho coragem de ver
totalmente, coloco o curativo em cima.
Ele está segurando minha cintura e fala.
Agora posso escutar seu coração.
Sua ferida está doendo?
Não. Como está tremendo, por que Natasha?
Ele morde seus próprios lábios.
Sangrou muito?
Não me lembro. Abraça-me, Natasha.
Beijo seus cabelos e acaricio sua nuca.
Ele levanta-se e nos abraçamos. Eleva-me, pois não sinto o chão. Sinto,
apenas, que sou empurrada, devagar. Caímos juntos na cama, passo a mão
por entre seus cabelos, ele beija-me, seu corpo faz pressão no meu, sua
mão entra por dentro da minha blusa. Um arrepio toma-me. Sinto-o
acariciar-me. Sussurro a seu ouvido:
Igor... O que é isso que estou sentindo?
Ele responde, rouco a meu ouvido:
Desejo de amor.
Seus dedos trêmulos desabotoam minha blusa, levanta o tronco. Seus
quadris pressionam meu corpo; olha-me, beija minha nuca...
Sr. Conde...
A porta! Estão batendo na porta. É a voz da Misca!
Ele olha-me sereno, eu aflita, ele fala:
O que é Misca?
A voz dela: - O médico está aqui.
- Não posso recebe-lo.
Afasto-o. Sento-me, tento pensar e digo a Misca:
- Só um momento.
E falo baixo para ele: - Você vai vê-lo, agora.
Levanto-me e abotôo a blusa com as mãos trêmulas. Olho para ele, que
permanece deitado na cama. Mas vou a ele e o faço levantar.
Você tem noção do seu ferimento, portanto é necessário o médico vê-lo.
Vou chamá-lo, lá embaixo.
Ele sabe qual é o meu remédio. Misca, - grita ele - mande o doutor
subir.
Não quero que me deixe só, nem para ir lá embaixo.
Tolo, você, que pensa que iria fugir.
Sei lá, por via das dúvidas. Sentiu a febre? - não o compreendo.
Febre?
Sim, a febre. - novamente, o sangue sobe-me ao rosto.
Ele dá uma sonora risada, que tenho certeza que toda redondeza ouviu.
Quer parar, fique quieto. O que vão pensar!
Que estamos nos amando.
Batem à porta, e abrem.
Boa noite, Conde! Fico alegre ao vê-lo tão bem. Boa noite, Natasha.
Impossível lembrar-se de mim, estava tão doente.
O médico tem um semblante simpático; agradeço-lhe pelo que ele fez por
mim. Ele sorri e diz que devo agradecer a Deus e a Igor.
Indica a cadeira para Igor sentar. Pergunto quando Igor ficará curado,
e se irá doer o curativo.
Doer vai; curado, ele já está.
Tenha a certeza - responde Igor olhando para mim.
Sento-me ao lado dele, que acaricia minha mão. Dr. Lajos tira o
curativo. Santo Deus, só agora vejo toda a ferida. Sinto-me mal.
Igor observa-me e indaga: - O que foi?
Minha culpa.
O remédio é você cuidar de mim. - não me alivia.
Conde, vai arder, prepare-se.
O médico derrama um pó branco em cima da ferida, Igor franze a testa,
gotas de suor escorrem por suas têmporas.
É tão tolo de dizer, mas, perdoe-me, queria voltar o tempo para não ver
isso. Não lhe ter causado tudo isso.
Ele fala, também, baixo:
- Aconteceu e, portanto, vida, cuide de mim.
Não me alivia.
Então, assim que estiver curado derrubo você de um cavalo.
Sorrio, ele é imprevisível.
Olho a ferida coberta do pó; ainda há sangue, sinto-me mal e encosto a
cabeça no ombro são de Igor.
Natasha, você esta pálida.
Olho para Dr. Lajos. Igor, com a mão, levanta meu rosto.
- Não gosto de ver ferimento, passo mal.
Igor aperta minha mão, e fala:
Quando posso casar, doutor Lajos?
O médico olha para ele, e responde achando graça: - Até amanhã se
quiser.
Esteja convidado, amanhã à noite. Acabou, doutor?
Sim, preste atenção, Conde, nada de comer carne de porco, nem montar a
cavalo por alguns dias. Tente descansar para a ferida cicatrizar,
conheço-o como é teimoso. Volto amanhã para fazer-lhe outro curativo.
Só se for cedo, não vou interromper minhas núpcias por causa de um
curativo. Esteja convidado, juntamente com sua família.
Olho espantada para ele. Amanhã?
Sério, Conde? – Indaga Dr. Lajos.
Já lhe menti?
Não, claro que não. Estarei aqui. Parabéns, permita-me dizer, Conde,
fez uma linda escolha. Boa noite, parabéns.
Dr. Lajos sai, fico a olhar para Igor. Casar amanhã?
Nosso primeiro convidado.
Igor, amanhã?
Pode ser hoje, teríamos que acordar o padre... Falo sério, Natasha:
esta ferida não me mata. Porém, ficar sem você... Vamos ao acampamento
falar com seus pais. Calma, iremos de charrete.
Está louco, ouviu o que o médico disse!
Montar a cavalo.
Corro à porta, desço as escadas correndo.
Encontro Dr. Lajos a se despedir de Misca e Val, explica-lhe o intuito
de Igor, ele afirma que não tem problema desde que não seja Igor que
guie a charrete, e que não adianta teimar com ele, pois é como um
touro, forte como o mesmo e teimoso como tal. E que é só ter cuidado
para ele não movimentar o ombro. Antes de sair, aperta-me a mão,
parabenizando-me, novamente.
Misca olha-me intrigada. Quando o médico sai, abraço-a e lhe agradeço.
Conto-lhe sobre o casamento, amanhã. Seu semblante é só alegria, e
repete: - Eu sabia, eu sabia!

Ouvimos o grito de Igor a chamar-me. Antes de subir, pergunto a Misca


se ele se alimentou. Ela diz que não e que tem uma sopa pronta. Peço
para ela providenciar e levar ao quarto.
Subo as escadas rapidamente. Chego junto dele.
Você está sentindo alguma coisa.
Puxa-me para junto de si. Toco seu rosto.
Falo-lhe de como me sinto... Casar amanha.
Temos muito a combinar, por que não trazer o pai e anya. Porém, ele
quer ir ao acampamento.
Ouço Misca pigarreando na porta.
O que agora você quer, Misca? – fala impaciente.
Sopa. Sopa quentinha.
Quem lhe disse que quero comer?
Eu. Fui eu que pedi a Misca para trazer sopa, e você vai tomá-la.
Misca, peça a Val para colocar a charrete lá fora e, por favor, prepare
um chá com leite para Igor, que tomará, lá embaixo.
Misca, satisfeita, coloca a bandeja na mesinha de cabeceira, sai rindo
e falando escada a baixo:
Estou gostando de ver.
Faço Igor sentar-se e coloco o prato de sopa nas suas mãos, ele fala:
Minha fome não é esta.
Espero ele tomar a sopa, e desço com os pratos e o espero na cozinha
enquanto ele se arruma. Argumento com ele, que poderia trazer o pai e
anya aqui, mas nada o fez mudar de idéia.
Pergunto a Misca por que ele é tão teimoso e ela me fala que ele sempre
foi assim, sendo o oposto de seu irmão, que é três anos mais novo que
ele. Aurel é seu nome, tem vinte e nove anos, nasceu para viver na
corte. Vive sob o que a Condessa acha certo ou errado.
Então, Igor tem trinta e dois anos.
Misca, Val já aprontou a charrete?
Viro-me para a porta, lá está ele.
Seus olhos, um chamado. Levanto-me, vou até ele e faço-o sentar no
banco.
Puxo a xícara de chá com leite, e fico nas suas costas acariciando seus
cabelos, úmidos do banho. Vejo Misca olhar para nós com ternura imensa.
Está emocionada, Igor olha para ela.
Pelo amor de Deus, Misca, não chore. Se ela chorar é capaz de acordar
Deus e todos os anjos.
Você ainda não me deu um abraço de parabéns, por nosso casamento.
Val entra na cozinha avisando que a charrete está pronta e, se
necessário, ele irá guiando.
Igor diz que não, olha para mim e balanço a cabeça, ele pede a Misca
uma pele, pois pode estar frio. Misca e Val nos acompanham até a
charrete, abraço Misca e subo na charrete, ele pede a Val para amanhã
cedo ir à cidade chamar o padre.
O céu está limpo, a lua reina sozinha.
Sente-se o cheiro de terra molhada.
Seguimos pela estrada, descendo rumo ao lago, rumo ao bosque.
Ele levanta o rosto, olha o céu.
Veja o céu. Há quem diga que choveu tanto?
Tudo é tão mutante, às vezes penso; hoje, o dia inteiro choveu, não
existia a luz do sol. E agora a lua está linda, o céu estrelado.
Algumas coisas passam, pequenas coisas ficam. Só o tempo é
permanente... Só ele é permanente, Igor?
Estamos no bosque, ele segura as rédeas, fazendo a charrete parar. Está
recostado no banco e fala:
O amor é permanente, Natasha.
Amo você, mas não o entendo. O amor é tão permanente quanto o tempo?
Ele que olhava o céu, olha para mim. A luz da lua sobre nós.
A permanência do amor é um estado de receptividade de nossa alma, nosso
ser interior. Se nossa alma é eterna, e a meu crer é, assim sendo, o
amor também o é.
Veja o lago e o reflexo da lua em suas águas. O que me diz?

É lua cheia. Sua luz brilha no lago que, passivo e enternecido, reflete
sua luz. A natureza fala por si, ela entra em nossos corações.
Ele sorri sereno e diz:
A lua é a mesma, o lago, o quadro é que nunca é o mesmo. Na lua cheia
do mês passado, aquela arvore ali não estava florida, o lago não estava
sereno como agora, e eu não estava completo, pleno.
Igor, fale-me como você se sente.

Por mais estranho que possa parecer, eu tinha a certeza de que você
viria, que voltaria. Desfrutar não é uma questão de vitória. A emoção
exala por minha pele, o sentimento toma conta de mim. Essa é minha
força maior, amada.

Você me ensina a tê-la, também?


Ele dá um sorriso sereno e bonito: seu olhar é terno e quente.
Você a tem, amada, talvez tenha só que aprender como usá-la. Mas você a
tem, você foi receptiva a meu chamado. Você ouviu meu chamado.
Amanhã, estaremos selando nosso sentimento, isto é, assumindo algo que
nós próprios já tínhamos estabelecido. É a força. Agora vejo que é.
Porém, ensine-me a usá-la corretamente e devidamente. Ontem, quando
briguei com você, fiquei fora de mim, do que sou. Porque sou serena,
sempre procuro compreender situações, mas ali, no que ouvi e senti: A
minha vida perdeu a cor, ficando sem luz, porque estar sem você seria
perder o sentido da vida. E eu tenho sede de vida.

Você nunca irá me perder, pois você é tudo que quero e que amo. E como
eu a amo! Um amor sem limite, que irá durar para sempre, pois existe o
permanente. E na minha vontade que gera a força, está: eu a amo, eu a
quero, sempre.
Desço a charrete e olho à lua.
Para você não existe a vitória, para mim existe a descoberta. Posso
tocar o céu, o sol... Ontem eu afirmava ser você o sol da minha vida,
sol e lua, lua e sol. Mundo, escuta-me: encontrei um homem encantado;
um mago, que é o sol da minha vida, que me deixa tonta de felicidade. O
homem que amo. Esse homem puxa-me em sonhos até aqui. E aqui estou ao
lado de meu amado. Isso é tudo, pois ele é tudo. É o sol da minha vida.
Ouço-o atrás de mim.
Senhora Lua, tão antiga e jovem, eternamente jovem, símbolo da minha
amada. Em tantas noites, que nem posso contar, meu coração pedia, meu
corpo ardia, o sentimento se alastrava, me tomava, ficava deitado na
relva a olhá-la e falava: leve à amada o meu sentimento, e faça-a
sonhar em estar aqui comigo. E quando o sol nascer, possa ela manter
viva a força em estar comigo.
E hoje, agora, estamos aqui juntos, em plena lua cheia, sendo a lua
feminina e a noite escura. Quem reina na noite é a lua, a amada. Sem
lua, a noite nada mais é que pura escuridão.

Viro-me para ele. Toco seu rosto e falo.

Você, que emerge dos meus sonhos como um sol brilhante repleto de força
e energia, com tanto ardor que queima minha pele, desperta coisas em
mim até então nunca sentidas. Faz-me suspirar e amar. Que o sol entre
na minha vida, dando-me vida.
Seus olhos negros cintilam úmidos. Sua voz quente.

Que a lua, amada, envolva-me em sua feminilidade tornando-me um ser


pleno.
Reina a lua, reina a amada... Eu rendo-me a tua luz.

Ele me envolve em seus braços, meu corpo pede por ele. Passa os lábios
úmidos na minha nuca. Meus braços o enlaçam, apertando-o. Suspiro; um
sussurro: Amo você.
Olha para mim e murmura:
Natasha, quero você. Quero senti-la, quero amá-la.
Sinta-me: quero amá-lo, também.
Ele morde seus lábios, franze as sobrancelhas... E seus olhos. Ah! Seus
olhos falam tudo...
Fique aí.
Ao não sentir seu corpo, parece que vou cair. Necessito dele.
Olho a lua, suspiro, ela clareia o bosque.
Amada, vem cá.

Sua voz, um convite. Dou alguns passos até ele. Puxa-me e beija minha
boca, intensamente. Sentamos na coberta de pele, nossos corpos estão
mais quentes que ela. Deito-me, ele tira sua camisa. Puxo-o pela nuca,
e o beijo. Ele se levanta, ficado de joelhos e eu entre eles, desabotoa
minha blusa. Fica a me olhar, sua respiração é acelerada. Ergue a mão,
toca meu colo. Toques leves, quentes.
Contorno seu rosto, meus dedos tremem. Contorno seus lábios, ele morde
meus dedos. Levanta-se, tira minhas sandálias, minhas roupas. Olha-me,
passa a mão, nervoso, em seus próprios cabelos. Tira suas botas, sua
calça. Como é belo. Seus olhos brilham:
Você é linda. Seus olhos me incendeiam. Amar você...
Quero ser tua, ama-me.

Debruça-se em mim.
Sinto seu corpo sobre o meu.
Seu rosto vem se chegando. Seus lábios, entreabertos, tocam os meus.
O calor é mais que uma sensação: é ser calor.
Os sentidos, um sentido.
Igor... O que estou sentindo?
Levanta o rosto para olhar-me e fala:
Sente a nossa vontade, desejo, de amor.
Nossos corpos estão febris, a vontade, que se torna pleno desejo, de
unirem-se, de ficarem mais e mais juntos, de se pertencerem, de
estarem. Como uma busca, numa busca.
A busca em estar mais e mais no outro.
Sussurra, a meu ouvido:
- Não tenha receio.
- Não tenho...
Estamos entrado num mundo que foge aos sentidos. Solte-se ao: eu amo
você. Sinta: eu amo você... Amo você.
Mordo seu ombro.
Sinto uma explosão no meu corpo, no meu ser.
Sinto que nada mais existe, além de um só corpo.

E o tempo... Quanto tempo?


Sorrio e o abraço, e escuto sua voz:
Como está se sentindo?
Passo a mão por entre seus cabelos, estão suados.
Posso tocar o céu... Eu o toquei. Agora, estou aterrissando. É sempre
assim?

Ele dá uma risada que enche a noite.


Sento-me, ele me abraça sorrindo.
Ele senta-se, alisa meus longos cabelos. Segura minha mão a coloca no
seu peito - sinto o pulsar do seu coração. Coloca a sua mão no meu -
sente o pulsar do meu coração. Pega minha outra mão e a coloca contra a
sua, entrelaçando seus dedos nos meus.
Olha o céu, ergo também o olhar para cima; as estrelas brilham. Fala
calmamente:

Nossos corpos se uniram, realizamos nosso desejo, sentimos no físico a


intensidade do nosso amor. Abrimos o caminho.
Ele desce o olhar e sorrir.
Não o compreendo, abrimos que caminho? O nosso?
Tenha calma, com o tempo você entenderá.
Fale-me agora, abrimos que caminho?
Ele desvia o olhar do meu. Olha o céu por uns instantes e volta a
olhar-me.
O nosso caminho: passado, presente e futuro. Abrimos nosso caminho, em
terra, ao estado de amor permanente. Se assim for nossa vontade, se
assim o quisermos.
O amor é a maior força do universo. Para ele não existe o impossível -
nem o tempo, nem a distancia, nem a morte. Ele exige sempre a união.
Tem em si a energia para o que bem entender. Ele é nosso elo. É nele,
com ele e por meio dele que atravessaremos tudo, até onde existe o
impossível. Amo você amada, hoje e sempre.

Olho-o, suas palavras ecoam em mim, seu real significado não está
diluído.
Atravessaremos o que, Igor?
Tudo que quisermos.
Puxa-me pelos cabelos, beija os meus lábios, e fala:
Quero amá-la mais, senti-la mais. Tocar, sentir, amar cada centímetro
de você.
Tocar você é um convite. Sentir você é uma necessidade...
Oh! Não. Seu ombro está sangrando... Veja!
Só um pouco. – ele tenta olhar o ombro e dar de ombros, falando que não
é nada.
Não é pouco, Igor!
Pego minhas roupas, e começo a vestir-me.
Não, agora...
Sorrio com ele, pego suas roupas e lhas dou. Fico a vestir-me
rapidamente, ele só a me olhar. Ajudo-o a vestir a camisa, meu coração
está apertado, a ferida sangra.
De mãos dadas vamos até a charrete. Ele sobe e olho o lugar que nos
amamos. O lago, a lua, o bosque... Hungria, minha terra.
Subo na charrete, Igor pergunta sobre o que penso.
Que vou morar aqui, será esta a minha terra. Fico feliz que seja aqui.
Amo meu país, Natasha, sou um patriota. Meus pais são austríacos, mas
nasci aqui. Sou daqui. Gosto da gente e dos costumes da minha terra.
Não aceito a interferência austríaca, não é necessária e nunca será! O
húngaro é um povo diferente do austríaco: esta união não nos leva a
nada, a não ser às vantagens para a Áustria. Existe um movimento
separatista, um movimento clandestino, é claro, que tudo faz pela
conscientização da nacionalidade de nosso povo.

Não tinha necessidade de perguntar o obvio, mas o fiz:

Você faz parte desse movimento?


Sim.
Sua família aprova?
Eles não têm o que aprovar ou não. São meus conceitos, meus valores. Na
orla do Balaton moram alguns aristocratas austríacos, usufruindo dos
tributos que não são seus.
Olho-o incerta.
Como é sua família, Igor?
Ele demora uns segundos para responder.
Tenho mãe, um irmão e uma irmã.
E como eles são? Como é seu relacionamento com eles?
Tenho um ponto de vista diferente deles. Meu pai morreu há seis anos.
Dávamo-nos muito bem, tínhamos um temperamento comum. Ele veio para cá
a mando do Imperador, como dizia, para disciplinar os ímpetos húngaros.
E o que aconteceu é que meu pai começou a amar tudo isso aqui: esta
terra, essa gente orgulhosa, mas com um coração de ouro. O tempo foi
passando e ele ficando. Depois, assumiu seus sentimentos. Isso foi
terrível para minha mãe, que adora a corte e sua pompa. O que ela fez?
Trouxe um pouco para Badacsony. Fez minha irmã casar-se com um velho
barão austríaco, só assim ela teria pretexto para ir à Áustria.

E sua irmã, quis esse casamento?

Sim. Relutei muito, falei com ela, mas não adiantou. Ela era encantada
com tudo o que minha mãe falava, e quis casar-se. Não fui à cerimônia.
O noivo era um homem que vivia bêbado as vinte quatro horas do dia. Mas
ela estava entusiasmada com as expectativas da vida na corte. Isso foi
há alguns anos. Hoje, não a vejo tão feliz, não tem filhos, sente-se
frustrada. Meu irmão é totalmente influenciado por minha mãe.

Qual o nome deles?

Aurel e Margit. Ele tem vinte e nove anos e Margit vinte e seis e eu
trinta e dois.

Como é sua anya?


O titulo é tudo para ela. Não digo que seja má pessoa, só que não nos
damos bem. Por isso, preferi viver aqui, gosto da simplicidade, do
sentido de liberdade, das reações sinceras. Se fosse obrigado a viver
em uma corte, morreria.

Você nunca seria obrigado a nada. Não você.


Ele sorri e continua.
Meus conceitos diferem daqueles que delineiam os costumes e modos de
vida dos aristocratas. Eles me acham excêntrico por causa disso. Mas,
vivo de acordo com o que acredito.
Penso um pouco antes de falar.
Como sua anya verá nosso casamento? Tenho a certeza de que ela não
aprovara.

O problema é dela, não meu. Tenho respeito a ela e pela sua opção de
vida. Exijo, apenas, que respeite o meu jeito de ser, o meu modo de
vida. Quanto a ela aceitar ou não, isso não me preocupa. Não vivemos em
uma corte onde os relacionamentos são forjados, onde os costumes
fomentam uma falsa educação, pela qual os reais preceitos de vida são
postos de lado. Nossa vida, amada, será aqui, nas vinhas, no bosque, no
lago.

Posso ser sincera com você? Tenho receio de sua anya.

Por quê?

Não sei lhe falar, ainda. Mas, também, posso lhe afirmar que nada e
ninguém irá afastar-me de você. Acho que ela representa o desconhecido,
simboliza o seu titulo, o seu ascendente. Mas o que importa é estar com
você e na sua vida.
Seus olhos brilham, um leve sorriso vem aos lábios.
Isso é tudo que preciso ouvir. Amo você, vida.

Chegamos ao acampamento.
Há algumas horas, tudo para mim estava diferente, existia uma dor
profunda e nada mais tinha sentido. Agora, porém, sinto-me a pessoa
mais feliz do mundo. A razão, na verdade: a causa, aqui a meu lado!
Paro a charrete, anya e o pai saem da carroça. Andrei se aproxima,
todos falam ao mesmo tempo. O sangue já manchara bastante sua camisa,
anya leva-o para a carroça. Lá dentro, ele fica com o pai e Andrei.
Fomos anya e eu bater as ervas para o curativo. Sabia que Igor iria
falar com o pai. Pegamos as ervas, anya machucando-as no pilão,
observa-me com um sorriso.
Você é toda felicidade, filha.

Relato a ela a conversa com Misca e a reconciliação com Igor e, por


fim, falo do casamento.
Ela me envolve num abraço demorado, fica espantada ao saber que o
casamento será amanhã e torna a me abraçar,
Voltamos para carroça. O pai, Andrei e Igor tomam vinho.
Ao ver-me, o pai levantou-se e abraçou-me, beijando minha testa, olhei
para Andrei, seus olhos falavam tudo, corri a seus braços, e perguntou-
me baixinho:
Está feliz, Madar?
Afirmo com a cabeça, e ele completa: - Isso é tudo que me importa.
Olho para Igor, sentado, sério e sereno.
O pai fala-me que primeiro teremos a cerimônia cigana, depôs o
casamento católico.
Anya faz Igor sentar-se, e ajuda a tirar a camisa, tira em seguida o
curativo e surpresa indaga:
Como conseguiu isso?
Caí do cavalo. – ele responde.
Não anya, foi gavião, ele o pisoteou-o.
O pai olha-me sério e pergunta-me:quando foi.
Ontem, à tarde.

Igor intervém na conversa.


Istvan, temos muito o que acertar, isso foi um acidente. E agora,
Lorna, o que vai fazer comigo?
Vai doer, Conde.
Chame-me de Igor.
Anya mexe as ervas e, em seguida, as coloca na ferida. Agacho-me ao
lado dele, que franze as sobrancelhas.
Queima, como queima! Vou sobreviver, Lorna? Amanhã tenho um compromisso
inadiável.
Amanhã estará seco, ainda queimará um pouco.
Andrei fala que, quando era criança, não sabia o que era pior, o
ferimento ou ter que tratá-lo.

Fica acertado que o casamento cigano será ao ar livre, ao lado da casa


de Igor, e o católico dentro de casa. Anya está entusiasmada por ser
primavera e o local ficará belo com vários arranjos. Misca, pela manhã,
virá pegar anya para, assim, verem o que será necessário da comida à
decoração.
O pai fica apreensivo, pois já não tínhamos mais tantos mantimentos,
mas anya fala a verdade, o pai tenta protestar, e Igor fala:
Temos tudo que é necessário na casa. Se faltar alguma coisa, alguém irá
à cidade. Istvan, nunca fui formal com você; sei que não será comigo. É
nosso casamento! Lorna, amanhã ao raiar do dia, Misca virá buscá-la
para verem o necessário.

Combinaram-se mais alguns detalhes, e num dado momento nossos olhos se


cruzam, meu coração bate acelerado, tenho vontade de tocá-lo e, em
pensamento, envio: amo você.
Ele parece entender, bate os olhos lentamente, como se estivesse
respondendo, confirmando.
Ato contínuo, levanta-se e fala:
Bem, já é bastante tarde. Sei que vocês têm muito o que conversar. Vou
embora.
Você não irá guiar a charrete.
Natasha, o trajeto é curto.
Não, eu o levo.

Diz Andrei levantando-se e completa dizendo que amarrará um cavalo à


charrete. Igor ainda teima, mas a maioria o convence. Despede-se do pai
e anya, e eu saio a acompanhá-lo.
Quer que eu vá, também?
Só se for para ficar comigo. Seus pais, ou melhor, Lorna, deve querer
conversar com você. Não seria justo tirá-la daqui. Espero amanhã.
Admiro a união de vocês.
Vou precisar muito de você, minha família sempre foi tudo para mim.
Eu compreendo. O que podemos fazer para eles ficarem aqui?
Obrigada Igor, mas creio ser meio difícil.
Posso tentar.
Tente.

Sinto suas mãos nas minhas costas vou a ele, toco seus lábios com os
meus.
Cuide-se, não faça esforço para essa ferida não abrir.
Vou vê-la, pela manha?
Não! Não pode, é nosso costume.
Só vou vê-la à noite! Se soubesse disso, teria ficado mais tempo. Como
está se sentindo?
Ansiosa, agora. Quero que o dia, amanhã, corra rápido, e que chegue a
noite para estar, o quanto antes, com você.
Chego-me a ele, sinto seu calor, seu cheiro. Passo os dedos por entre
seus cabelos. Ele me abraça e beija minha boca, o calor toma meu corpo.
Ouvimos o barulho da charrete, Igor se volta e fala:
Bela hora, cunhado!
Andrei dá um riso e pede desculpas.
Boa noite, amada. Espero-a amanhã, por favor, não me deixe esperando
muito tempo.
Beija-me e sobe na charrete.
Vou raptá-lo para uma boa despedida de solteiro. – diz Andrei.
Andrei, pare de brincadeira... Ei! Esperem.
Só ouço a risada de ambos ecoar na noite.
Volto para carroça.
Anya faz um chá, o pai tinha saído.
Qual vestido você usara amanhã?
Não sei, anya... Não pensei nisso. Aliás, não pensei em tantas coisas.

Ela vai a um dos baús, fica a remexer. Fico a observá-la curiosa, ela
vira-se.
Veja! O que acha?
Anya! É lindo! Lindo.
Corro a ela, toco o vestido.
Vista para vermos se é necessário algum ajuste.
Enquanto dispo-me pergunto de quem é, pois nunca o vira. Ela diz que
fez para mim, para uma ocasião especial. Visto-me, anya dá um passo
para trás.
Belíssima! Você está perfeita!
Olho, maravilhada, o vestido. É branco, duas saias rodadas de renda
francesa, uma renda delicada. Da cintura para cima é justo e de seda,
todo bordado com delicados ramos de flores douradas. Mangas compridas,
da mesma renda das saias, e nos punhos, detalhes dourados. O vestido é
belíssimo. Rodopio, encantada.
Olho para anya, que ri, abraço-a.
Enquanto tiro o vestido, conto a anya sobre a família de Igor e fico a
admirar meu vestido.
Anya me faz sentar a sua frente e fala:
Quero que preste atenção no que vou lhe dizer: Ouça-me atentamente.
O amor que o Conde traz por você é bem maior que o seu. Amor não se
equipara, mais eu não tenho outras palavras senão estas, para você me
entender.
Espere, ouça-me. Sei que você o ama, mas ele a ama mais, o que ele traz
consigo vem da alma. Ele tem total consciência do seu sentimento. É
como um lago limpo, de águas claras. O que ele tem em si é a plenitude
do sentimento. Portanto, aprenda com ele, não o faça sofrer, e sim se
esforce para entendê-lo. Dilua suas palavras, seus atos, pois ele é
movido por esta plenitude. Sou uma velha cigana, observo tudo. -
continua anya - O que ele traz é essência do sentir; são coisas já
plantadas.
Você é inteligente. Use sua inteligência a cada dia para obter este
estado. Regue sua semente, veja bem: ele é um Conde, um nobre rico. É,
no entanto, um homem simples, vivendo de maneira simples, amando uma
moça simples. Agora, eu o entendo, ele mora sozinho naquela casa porque
sua visão do mundo é diferente da família e de muitos.
Ele não está preocupado com a reação da família, pois ele tem total
certeza de seus sentimentos; tem valores enraizados. O que ele quer é
viver esse sentimento, e esse sentimento é você. Não deixe que coisas
externas venham confundir você.

E por que a senhora tem medo que eu possa feri-lo?


Você já o fez, ou estou errada?

Contei a anya tudo que aconteceu em Badacsony, e o mal-estar que isso


me causou e causa, ainda.
Está é sua primeira lição, filha. Seus julgamentos sempre foram justos,
mas, agora, você tem um sentimento novo que se aloja no seu ser. Seja
íntegra para com o sentimento. Trabalhe bem isso dentro de você, para
assim atingi-lo integralmente.

Sei da força do sentimento de Igor. Ele fala de coisas que não


compreendo, totalmente. Fala sobre o tempo e nosso caminho, fala que me
chamou no tempo, e sinto isso.

Anya sorri e fala:


Natasha, não se perca e sim siga; aí, então, terei plena certeza de que
você será muito feliz. Vá dormir. Amanhã, você será a noiva mais bonita
que essa redondeza já viu!

***

Avô, está me escutando? Sei que de onde está zela por mim.
O silêncio tem o dom de aproximarmo-nos.
Como o senhor está a me ver?
Pareço trazer a felicidade nas faces, meus olhos têm outro brilho.
Logo estaremos, Igor e eu, casados.
Seria a glória se estivesse aqui para participar...
A verdade é que tenho certeza de que está.
Veja a movimentação em todo acampamento.
É festa! Logo mais, à noitinha, rumaremos para casa de Igor.
É primavera! As guirlandas, repletas de flores, ficaram lindas, quem
ficou aqui no acampamento ajudou a fazê-las.
Sabe o que ele fez pela manhã?
Mandou-me flores por Misca, e um bilhete. Acordei com eles a meu lado.
O bilhete dizia: “Amada, mesmo não podendo vê-la posso senti-la”.
As crianças estão eufóricas, Erno beijou-me e perguntou se eu iria
ficar aqui.
Uma saudade pressionou meu peito, contrastando com a felicidade que
sinto.

O que Igor estará a fazer? Estou a olhar o lago tentando acalmar-me.


Ei! O que a noiva está pensando?
Está tudo quase pronto. A casa está linda! E lá fora está quase tudo
arrumado.
Viro-me a Belle e pergunto se ela o viu, ela sorrir na afirmativa.
Pergunto como ele esta.
Ele está organizando tudo, há homens com ele. Hoje, não houve trabalho
na fábrica.
O padre esteve lá. Sua anya e Misca estão na cozinha, não sei quem está
mais ansiosa. Vai ser lindo e eu estou tão feliz!

Belle, ele está nervoso?


Não. Seus olhos estão tão brilhantes, têm um sorriso sereno. Ele está
muito bonito. E você está nervosa?
Um pouco. Por isso vim para cá, não tinha mais o que fazer. Como está o
ferimento?
Lorna deu uma olhada, está bem. Ei, mocinha, sua roupa está passada.
Vou pegar a essência de jasmim para seu banho. Eu e Miriam já
planejamos o que faremos nos seus cabelos.

Já está na hora do banho? - pergunto a Belle.

Já! Tomar banho ainda com sol. Foi o que Lorna mais me lembrou. Será
uma grande festa! Sabe o que ouvi de um dos homens que trabalham com
ele? Que tinha certeza de que ele casaria com uma moça simples assim
com ele. Seu irmão chegou ontem à noite. Acordou-me para contar a
grande noticia, ele gosta muito do Conde, admira-o, mas seu coração
está preso de saudade. E quem não está? Vou sentir tanto sua falta...
Mas nada de tristeza, vamos a nosso rituais!

Abraço Belle. É uma saudade tão partilhada.

Belle, ajuda-me no banho de essência de jasmim, lava meus cabelos


cuidadosamente. Logo, Miriam junta-se a nos, discutiam o que fazer com
meus cabelos, enquanto eu os secava com a toalha. Chego a ficar
impaciente, a noite logo chegaria.
Homem, como estarás se sentindo?
Com o cabelo praticamente seco, elas começam a trabalhar nele.
Ouvimos o barulho dos cavalos.
Devem ser eles. Puxe um pouco mais Miriam, só essa mecha de cabelos.
Onde estão as fitas? Agora, prenda-as, só mais um pouco. Pronto!

Olho-me no espelho; à parte de cima dos cabelos elas prenderam e


fizeram uma trança com fitas douradas; o restante está solto. Está
bonito; só uma pequena parte presa.
Belle coloca um pequeno arranjo de flores naturais exatamente onde
começa a trança, parece uma tiara natural. Agradeço a ambas!
Agora vista-se, enquanto vou dar uma olhada no Andrei, se é que foi ele
quem chegou, e ver se as crianças estão prontas.
Miriam, ajuda-me a trocar de roupa. Minutos depois estou pronta, sem
falsa modéstia, acho-me bonita.
Santa Sofia! Você está linda, Nat. - abraço Miriam, agradecendo.
A porta abre-se, é anya.
Meu Deus! Como você está linda! Parece uma fada, uma deusa.
Os olhos de anya se enchem de lágrimas; ela tenta disfarçar mandando
Miriam se arrumar e ver se todos estão prontos. Diz que o pai foi se
banhar no lago, e, como ela diz, também está nervoso.
Anya, como Igor está?
Ela sorri.
Está tranqüilo, conversou com seu pai e seu irmão sobre a possibilidade
de ficarmos aqui. Em dezembro, estaremos aqui. Ei, que semblante é
esse? Dezembro está próximo, e, quem sabe, seu pai não resolve ficar
fixo num lugar. É, talvez, já estamos velhos, seu pai sabe o que fazer,
vamos dar tempo ao tempo, não é de agora que ele fala em se fixar, e
agora temos um motivo, mas isso requer tempo, pois não somos só nos.

Abracei-a, não há palavras para expressar a falta que farão a mim. Ela
se arruma com rapidez. Está bonita; uma mulher bonita, e já faz tempo
que não a vejo tão bem trajada, faço o elogio e ela retruca que não é
todo dia que se casa uma filha. Ouvimos a batida na porta, é o pai com
os olhos arregalados a me olhar.
Está na hora, as outras carroças irão à frente, estão já a sair. Você
está muito bonita, minha filha. Podemos ir?
Minhas mãos ficam úmidas, aceno concordando, chegam Belle e Miriam.
Irão conosco.
Sento-me junto da janela; a carroça começa a mover-se.
A noite cai, algumas estrelas já enfeitam o céu.
E lá está ela, esplendorosa, um círculo prateado perfeito.
Lua! Faz o amado sentir que estou chegando.

Anya aperta minhas mãos.


Suas roupas estão naquele baú; no outro, seus livros.
Agradeço, num afago em seu rosto.
Belle dá uma risada, falando que só tenho o pensamento em Igor.
Pergunta a anya se acha Igor um homem atraente. Até eu sorrio. A
conversa gira em torno dele.
Respiro profundamente ao sentir a carroça parar, Miriam encobre a
janela impedindo-me de olhar, Belle repete pela centésima vez o que
tenho que fazer.
Estou nervosa.
Minhas mãos tremem. Batem a porta. É o pai.
Está tudo pronto! As crianças estão aqui na porta, também, prontas. O
que estamos esperando?

Não sei quem abre a porta.


Vejo ali fora, vem a emoção!
Arcos de flores por onde eu vou passar.
Em cada arco, tochas de fogo.
As crianças, aos pares, irão à frente. Estão lindas!
Todo nosso grupo forma uma fileira ao lado dos arcos, as mulheres com
flores nas mãos.
Olho o céu, a lua...
Volto o olhar para os arcos, as guirlandas de fores, um túnel por onde
devo passar.
Sinto as lágrimas, alguém as enxuga, e colocam algo nas minhas mãos. É
um buquê de flores.
O pai me dá a mão e desço os degraus.
As crianças, dois, quatro, seis, duas a duas, à minha frente.
Respiro fundo, olho para Belle, sorrio.
Retorno a olhar, no final dos arcos... É ele!
Homem, como estais belo!
Falo para mim mesma, mas Belle ouve e, também, fala baixinho:
- Está mesmo.
Ele em pé, meio de costas em frente a uma mesa com toalha branca.
Ele fala com alguém. Está todo de branco, calças e camisa.
Parece um deus. Seus cabelos, acho que pelo contraste com o branco da
roupa, estão mais negros. Conversa com Mikail.
O violino começa a tocar.
Homem, estou aqui.
Ele volta-se, nossos olhos se encontram.
O que eles me dizem?
Eles me chamam. Como um sentimento pode ser tão forte?
O som dos violinos entra por mim.
As crianças começam a andar.
Eu começo a andar.
O perfume das flores me envolve.
Seus olhos e o calor suave que emitem me elevam.
Olho de lado, vejo minha gente.
Olho para frente, o mago, o homem que amo.
Chego devagar a ele, estamos frente a frente.
Mundo mágico, noite de lua, as tochas, o perfume das flores.
Ele à minha frente qual um marco.
Toca minha mão.
Linda! - sua voz sai lenta.
Imagina o que estou sentindo? - indago.
Ele responde baixo: - Amor e emoção.
O pai, a nossa gente, começa a cerimônia. Olho à minha direita: Misca,
que pisca o olho, e Val; atrás, o medico e uma senhora. Mikail...
sorrio para ele. À esquerda, está anya, Belle, Andrei, nossos olhos se
encontram, ele sorri.
Igor aperta minha mão. Estou entorpecida como se tivesse tomado muito
vinho.
Ele está concentrado no que o pai fala.
Meu pai pega duas taças. São as taças, minhas taças!
Enche-as de vinho e nos dá. Pego a minha, levo-a aos lábios e me vem o
pensamento transmitindo meu sentimento: - estou feliz, amo você.
Com a taça nos lábios vejo a moça: é a mesma! Ela toca as taças. Ela
chora, está triste? Não, como eu, também sente amor.
Repita Natasha!
Olho o pai, sua voz me traz ao presente, repito o que ele fala.
Ele passa para nossa frente com o punhal do avô nas mãos.
Trocamos de taça e novamente bebemos. Ele pega a taça da minha mão e
coloca-a na mesa.
Meu pai se aproxima, pega o braço de Igor e faz um corte acima do
pulso, logo, pega o meu, sinto o ardor da lamina afiada, jorra um
filete de sangue. Junta, depois, o meu pulso com o de Igor. E fala:
Vosso sangue será um só. Homem e mulher, um só sangue. Nada afastará um
do outro, o sangue de um é o do outro. Repitam comigo: Nossos sangues
se misturam; nossos corpos se unem. O sangue é vital, somos um do
outro, enquanto houver vida.

Igor acrescenta: - E na eternidade.


Eu o repito, olhando-o dentro dos olhos:
- E na eternidade...
Meu pai me abraça, afunda o rosto nos meus cabelos. Ele chora, vem
anya, Belle, Andrei, Misca, o doutor... Procuro Igor, mas não o vejo.
São tantas pessoas a falar comigo que me desnorteio. Alguém me puxa
pelo braço.
Igor!
Beijo-lhe a face, ele me envolve num abraço quente.
Casados, ciganamente, para eternidade, Sr. Conde! - Ele me aperta
mais.
Posso cumprimentar os noivos.
Padre Pal, Natasha!
É um prazer, padre. Que surpresa boa, não sabia que o senhor era
franciscano!

Entro com o pai na casa de Igor.


A sala está repleta de arranjos de flores e bem iluminada.
A cerimônia é simples e rápida, acompanho toda ela.
Igor coloca um anel no meu dedo, e o padre fala.
E eu os declaro marido e mulher.
Igor volta-se a mim com os olhos brilhantes, eleva-me e beija meus
lábios.
Amada é para sempre!
Fala alto, e todos sorriem. O padre nos cumprimenta, e todos que estão
na sala.
Lá fora, já se ouvem os violinos.
Olho a casa, está linda. Aqui será meu lar.
Não vejo Misca e vou à cozinha procurá-la. Encontro-a num canto
chorando.
Pareço uma velha boba, não é?
Claro que não. Dê-me um abraço.
Ela me abraça e diz o quanto está feliz, por ser ele, para ela, como um
filho.
O que se passa aqui? Está chorando, Misca? Seria impossível, pois todos
já estariam aqui com o som do seu choro.
Sua voz, meus sentidos despertam, Misca o abraça.
Estava procurando-a, Nat.- é meu irmão.
Andrei! Não consegui falar com você direto.
Ele me beija e eu o envolvo num abraço. E me fala que estão todos lá
fora, para começar a dança, pega-me pela mão. Vamos para o pátio, as
fogueiras estão acesas. Uma enorme mesa foi colocada num canto repleta
de comida; ao lado, vários barris de vinho.
Sabe dançar nossa dança, Igor?
Igor diz que não, Andrei diz, que irá dançar comigo e que ele observe,
porque, depois, me entregará a ele. É nosso costume nas festas de
casamento.
Andrei puxa-me para perto dos violinos, forma-se um círculo ao nosso
redor.
Começa o som dos seis violinos, o pai também está a tocar uma viola.
Andrei, parado, em pé, me esperando. Rodeio-o, lentamente, bato com o
pé no chão e bato palma: é o chamado. Ele dá um sorriso e pergunta:
Está pronta?
Prontíssima.
Começamos a dançar. E já no final da nossa dança, Andrei olha-me
carinhosamente e pergunta:
Posso rodá-la?
À vontade, senhor.
Ele me eleva e roda-me no ar, depois joga-me para cima, aparando-me
pela cintura.
O som das palmas, vejo Igor sorrir, Andrei chama-o com a cabeça, e lá
vem ele. Andrei passa minha mão para Igor, que balança a cabeça.
Não vou conseguir.
Aí fala alto.
Senhores e senhoras o que vão assistir é um grande evento, peço-lhes
paciência, principalmente a você, Natasha. Se acaso venha cair, doutor,
socorra-me, pelo amor de Deus!
Todos riram, ele tem sempre uma saída e está sempre à vontade em
qualquer situação, fala-me baixo: - Faço tudo que você mandar. Ajude-
me.
Siga meus movimentos.
Impossível, você mexe demais seu corpo, e seus quadris. - fico corada.
Observe o movimento, e deixe a musica o envolver.
Recomeçam a tocar.
Rodeio em torno dele, bato o pé, ele também bate, bato palma e ele
também.
O que ele está a fazer? Ronda-me, parece uma caçada, quem é o caçador
ou a presa, eu não sei? Seus olhos estão fixos nos meus. Abaixo-me um
pouco para ele pegar minha mão. E o que ele faz? Agacha-se mais, parece
um felino, como para dar o bote. Vejo-o pular para mim e me eleva,
roda-me no ar, e ao descer junta seu corpo ao meu e beija minha boca.
Coro até a alma.
Não era bem assim
Fica sendo.
Ouvimos os assobios.
Veja como estou corada. Você me tira de tempo.
Eu sei, e isso não é bom?

Várias pessoas se juntam a nós, Andrei pergunta que inovação era essa.
Alguns começam a dançar.
Quer vinho, vida?
Sim.
Ele leva-me à mesa e serve-me de vinho. Mostro a Igor Misca e Val: anya
e Andrei lhes ensinam a dança.
Conde!
Doutor Lajos. Natasha esta é a esposa de nosso doutor.
É um prazer conhecê-la, senhora.
O prazer é meu, Condessa.
O tom gelado chega a minha alma, aperto a mão da senhora, vejo a ironia
nos seus olhos. Neste instante, chega Mikail.
Natasha, você dança divinamente, não posso dizer o mesmo do seu
parceiro.
Igor ri e bate no ombro de Mikail.
O doutor despede-se e diz que seu filho caçula está adoentado. Dá-me um
aperto de mão caloroso, nos felicitando; o da sua esposa é totalmente
diferente.
Chego-me a Igor, enquanto os vejo partir. Ele coloca o braço na minha
cintura, percebe meu constrangimento.

- Você está muito bem, Mikail.


Falo, olhando seus trajes, ele está bonito, vestindo-se de preto,
contrasta com o loiro dos cabelos e os olhos azuis.
Não me diga que o intimidei Mikail?
Tenha certeza. - Responde Igor.
Juntam-se a nos Miriam e o padre, que elogia a festa e a comida. Igor
enche o copo do padre com mais vinho. Eu aperto seu braço.
Deixa, assim, o sermão de amanhã, ele fala menos.
O padre ri até engasgar-se.
Anya, ao longe, chama-me. Peço licença e vou até ela, que se dirige
para a carroça. Lá dentro, ela me diz que já mandou meus baús subir
para o quarto, e que pela manhã partiriam rumo a Tihany. Ao ver minha
tristeza, ela afirma que, na volta de Tihany, passarão um tempo conosco.
Chamei-a aqui para falarmos disso. Sei o quanto você sentirá nossa
falta, mas agora você é casada e tem uma vida pela frente...
Quanto tempo passarão em Tihany?- a interrompo, na visível saudade.
Se a feira for boa, passaremos o suficiente para vendermos uma boa
quantidade de peças. Quero que aprenda a ter paciência. Paciência,
Natasha, é algo que você terá que aprender. Não adianta argumentar,
você simplesmente não é paciente. E terá que aprender. Agora me abrace
e vamos lá para fora.

Saímos, o vento suave da primavera levanta meus cabelos, busco Igor com
os olhos.
E lá está ele, olhando-me, ergue o copo e toma vinho.
Sigo em sua direção, ele se encosta à mesa a me esperar.
Demorei-me?
O suficiente para sentir sua falta.
Puxa-me pela cintura, nossos corpos se tocam e ele fala a meu ouvido:
- Quero amá-la.
Ponho a mão na sua boca, tampando-a.
Quer que alguém o ouça?
Sou seu esposo, não é natural querer amá-la.
Igor comporte-se!
Impossível, com você por perto.
Abraça-me, sinto mais seu corpo, seu calor, seu cheiro. Sua mão sobe a
meus cabelos, minha nuca, puxando meu rosto para junto do seu, ele abre
mais suas pernas e me acomodo mais nele.
Vamos subir, por favor!
E toda essa gente?
Por favor, Natasha, vamos subir. Vamos!
Afasta-me, pega-me pela mão e puxa-me pelo pátio. Entramos em casa, ele
pega um candelabro e subimos as escadas, entramos no quarto ele fecha a
porta, coloca a trava, põe o candelabro na penteadeira, tira a camisa
de uma vez, puxando-a.
Igor há tanta gente lá fora.
Olha-me sério.
Nenhum deles sente o que estou sentindo.
Sorrio e pergunto: - E o que está sentindo?
Vontade de sentir-la, de tê-la, agora... Sinta meu coração.
Coloco a mão em seu peito: seu coração está acelerado.
Deslizo a mão em seu peito, sinto sua pele, seus pêlos. Pele morena e
quente.
Ele me olha e me abraça forte, tenta desabotoar meu vestido, atrás.
Ouço sua voz: - diabo!
Vira-me de costas e consegue desabotoá-lo, puxa-o ao chão. Tiro o
restante das minhas roupas e, só aí, volto-me a ele. Sua boca está
cerrada, seu olhar é intenso desejo. Meu corpo treme quando sinto suas
mãos na minha cintura puxando-me devagar até ele. Devagar suas mãos
sobem as minhas costas. Envolvo-o num abraço, sentir seu corpo é
necessário. Beijo-lhe a nuca. Suas mãos percorrem meu corpo, passa os
lábios na minha nuca. Leva-me devagar num abraço, e deitamos na cama.
Depois, num salto, põe-se de pé e despe-se.
Você fica bonito, sem roupa... Quer dizer você é bonito...
Ele, não me deixa completar a frase, solta sua risada.
Não ria assim, todo mundo pode ouvir!
E daí?

Ele se deita devagar sobre mim.


O que sente, Natasha?
É indecifrável... Abraça-me, Igor!
Não, o que sente?
Desejo de estar inteiramente unida a você.
Ele beija meu pescoço, e sobe a meus lábios, um beijo intenso, forte.
Sussurro;
Quero você, Igor...
Amada, sou teu há muito e muito tempo.
Sinto-o por inteiro, nossos corpos um só.
Ouço sua voz, nos meus cabelos.
O que sente, agora?
A eternidade sobre nós.
Meu corpo esmorece, como o dele, abraço-o, gotas de suor pingam no meu
ombro, pergunto:
Como você se sente?
Como você. Somos um do outro, para sempre, ontem, hoje, amanhã, depois
até a eternidade.
Como você sabe?
Sinto, daí sei. Você vive em mim, eu vivo em você. Nossas almas se
tocaram. Não há como nos separar, somos uma unidade. Onde existe um,
existe o outro. É o perdurar para sempre, entende?
Estou de bruços a olhá-lo, ele deita a meu lado enrola meu cabelo entre
seus dedos.
Entendo?... Não totalmente, mas entenderei.
Ele puxa meu cabelo, fazendo meu rosto ficar mais perto dele.
Sinta para assim compreender. - respondo: - Sabe que você é
presunçoso...

Não me deixa falar, rola comigo na cama, fico sobre ele, meus cabelos
cobrem seu rosto. Tento tirá-lo, mas ele segura minha mão. Isso não
importa, nos beijamos e começamos a nos amar novamente. A febre do amor
nos toma.
Ao deitar a seu lado, no seu ombro suado, passo a mão no seu peito,
que, também, está suado.
Igor!
Hum!
Explique-me o que você falou: onde existe um, existe o outro.
Ele passa a mão na minha cintura, continuo deitada no seu ombro.
Nos amamos, o sentimento por você vive em mim, em cada segundo, a cada
minuto. Ter consciência...
Meus olhos fechados. A voz amada a deliciar-me. Seu perfume...

Acordo com o sol batendo em mim. Respiro fundo e abro os olhos, perco-
me sem me dar conta de onde estou. Um bem-estar maravilhoso toma-me,
invade-me, espreguiço-me na cama. Sinto o braço de Igor na minha
cintura, volto-me a ele, que dorme sereno, chego pertinho, toco seu
rosto, como está belo. Lembro-me que dormi! Olho seu ombro, está seco.
Dou-me conta de que estou sem roupa.
Sento-me e olho em volta, vejo meu baú. Vou até ele buscando meu
vestido azul. Atrás do biombo, vejo a tina, está com água.
Tomo um banho, a água está fria, mas gostosa. Seco-me e me visto.
No espelho, penteio os cabelos e perfumo-me. Irei à cozinha trazer-lhe
leite. Antes de sair olho para ele, indago-me: por que tenho a vital
necessidade de olha-lo sempre.
Na cozinha, o silêncio é total, vou à janela, as carroças estão com as
portas fechadas, todos dormem, muito vinho.
Esquento leite, pego maçãs e uvas. E subo para nosso quarto. Nosso
quarto, é isso mesmo Natasha, dele e meu.
No quarto, abro um sorriso ao ver a bandeja que Igor trouxe à noite na
mesinha de cabeceira. Coloco a bandeja que trouxe ao lado da outra.
Sento-me na cama. Tento acordá-lo, beijo seu rosto, nada. Beijo sua
nuca, respira fundo. Beijo seus lábios, ele abre, lentamente, os olhos.
- Bom dia amado! Dormiu bem? Trouxe seu desjejum... Igor?
Sua mão puxa-me para ele.
Como está, amada?
Feliz. Perdoe-me não senti o sono chegar.
Você fica linda dormindo, fiquei um bom tempo olhando-a, ao mesmo
tempo, a pensar quantas noites, inquieto nessa cama, sem sono
lembrando-me de você. Querendo você, chamado por você.
E, agora, eu estou aqui. Amando você, junto a você, casada com você.
Eu vou banhar-me, para escutar tudo isso aqui na cama.
Levanta-se, vai atrás do biombo, aviso-lhe que me banhei com a água da
tina. Ele ri alto, e diz que então ela está melhor agora, terá meu
perfume, meu gosto.
Vem com a toalha envolta na cintura. Os cabelos molhados.
Um barulho lá fora, alguém chama por Igor. Ele vai a janela.
Fale Janos, o que o traz aqui?
Tenho em recado da senhora sua mãe. Ela pede para o senhor me
acompanhar.
Impossível.
Senhor, é urgente.
Diga-lhe que, assim que puder, irei vê-la. É só isso Janos?!!!
Sua voz é uma ordem, ouço o rapaz responder: Sim, senhor.
Então volte e dê meu recado ou se achar melhor coma alguma coisa antes
de ir. É com você.

Ele se volta sério, mas ao me olhar sorri tranqüilo.


Sua anya já deve saber do nosso casamento.
Com toda certeza. Natasha, não quero que se preocupe com isso.
Estou preocupada com você. Só quero lhe pedir para sempre me contar
tudo.
E por que não contaria? - pergunta ele, sentando-se a meu lado,
acariciando meu rosto.
Não sei, talvez para me proteger.
Nunca iria protegê-la com alguma mentira. A verdade é a maior proteção.
Sei que vamos passar alguns contratempos, mas não permito que ninguém,
ou alguns venham a interferir no que diz respeito a nós dois, tudo é
muito simples: ou eles aceitam, ou não. Minha escolha eu fiz, já há
algum tempo: e foi, é e será você. Não gosto de viver mal com ninguém.
Sempre fiz o possível para conviver bem, aceito seus modos de encarar a
vida; se eles não aceitam os meus, respeitem-nos.

Toco seu rosto, e vejo no meu dedo o anel, desço a mão para observá-lo:
é de ouro, com um grande rubi, tendo em volta brilhantes. Jóia bonita.
Igor observa-me, agradeço e elogio o anel. Ele conta que pertencera à
sua avó paterna, ela lhe dera depois que seu avô morrera. Só tinham de
filho o pai de Igor. E viveram muito em função do filho. Ela morrera em
Badacsony.
Lá fora, já se ouve a minha gente, devem estar se arrumando para
partirem.
Ele percebe o que sinto.
Levanta-se, vai a cômoda e tira uma calça preta e uma camisa de linho
branca, veste-se rapidamente. E chama-me: - Vem, vida.

Descemos para a cozinha, Misca já está com a mesa pronta para o


desjejum. Fala que estamos com uma fisionomia ótima.
Igor se apressa em ir chamar meus pais, mas Misca comunica, que já o
fez.
E chegam o pai e anya. Sentamos à mesa, pergunto por Andrei e Belle,
anya diz que logo virão, estão acabando de arrumar algumas coisas, após
o desjejum, partirão.
Igor insiste para partirem depois e o pai explica os motivos, Igor fala
da cidade, da melhor estrada. Não escuto, anya observa-me. Nunca tinha
me separado deles...

Andrei aparece na porta, dando-nos bom-dia. Beija meus cabelos.


Vocês nos dão licença por alguns instantes, vou lá fora com Andrei.
Não o deixo falar, puxo-o pela mão, pego a direção oposta das carroças
e subimos por uma estradinha.
Madar, você está bem?
Sim, por um lado sou a mulher mais feliz da face da terra, e por outro
lado, sinto uma tristeza enorme no meu peito, não quero falar isso com
nossos pais... Amo vocês, Andrei.
Abraço-o chorando, ele, alisa meus cabelos.
O que posso dizer-lhe? Sentiremos mais saudades, sabe por quê? Você tem
uma vida nova pela frente, nós continuaremos os mesmos, só que sem
você. Olhe para mim. Não torne as coisas mais difíceis. Nossa família é
por demais unida, é um amor vivo e comunicado.
Posso lhe dar uma boa noticia, na volta de Tihany passaremos um tempo
aqui. Ontem à noite, Igor conversou muito conosco, você estava
dormindo. Ele já tinha conversado esse assunto comigo e com o pai e
ontem reforçou a conversa, convidou-nos para nos fixar aqui. Você sabe
como sou desconfiado, e quando vi seu interesse por ele; colhi
informações de várias pessoas. Em resumo; ele é admirado e querido por
gente simples, como pelos proprietários de terra.
Gosto de viajar, Nat. Mas por inúmeras vezes olho meus filhos. Sei que
seria muito bom ter um lugar fixo, onde eles pudessem estudar. Acho que
herdamos isso de anya, Belle também tem essa necessidade.
E afinal quem não gosta daqui? Vamos só dar tempo ao tempo.

Abraça-me, consolando-me, enxugando as minhas lágrimas. Faço


recomendações sobre Erno e Gaspar, descemos pela estradinha. O pátio
está cheio de nossa gente. Val leva caixas para as carroças, sei que
são mantimentos que Igor deve ter mandado colocar nas carroças.
Anya veio para junto de mim, e ficamos os três a ver o grupo acabar de
arrumar-se para partir.
Anya pergunta-me se pode viajar tranqüila, afirmo que sim.
As crianças vinham com flores para me dar; vi Belle na carroça
enxugando o rosto. Abracei-as e beijei-as. Fiz minhas recomendações,
abraço novamente meu pequeno Gaspar, e ele diz: - Tá bom, tia.
Tento sorrir para eles. Vieram todos e foram abraços longos. Belle e
Miriam choravam.
Igor observa, de longe; ao falar com elas, tento prender o soluço, aí
ele veio para perto. Abraço, demoradamente Andrei, o pai e anya.
Vejo-os subir nas carroças.
Pai.
Meu pai pára de costa, corro e o abraço.
Não demore muito tempo.
Não posso demorar sem ver você, filha.
Ele chora, e anya pega-o, engolido seco, segurando o choro.
Igor chega e me abraça, limpo as lágrimas.
Chore, Natasha, solte-se e chore.
As lágrimas correm livres no meu rosto, soluço e ele me envolve, com o
braço acena para a caravana, afundo meu rosto no seu ombro e soluço.
Não sei quanto tempo fico assim, ele, alisando meus cabelos.
Posso lhe garantir que eles voltarão e, além do mais, podemos ir vê-los
em Tihany. O que você acha?
Levanto a cabeça.
Podemos mesmo?
Claro que sim. Compreendo seu sentimento, e não segure isso, partilhe
comigo. Venha, vamos lá para dentro. Seu nariz está vermelho como um
pimentão.

Na estrada não se vê mais a caravana, vamos andando em direção à


cozinha, ouço um som estranho, indago a Igor com o olhar.
Misca.
Ao entrar na cozinha está ela sentada no banco com o avental no rosto,
chorando. Ao nos ver, levanta o rosto e funga. Igor pede um chá.
Minha menina, imagino o que está sentindo, vou tomar conta de você.
E eu não tomo? - indaga Igor.
Não, da maneira que estou falando; vou ser como uma mãe.
Ah! Misca, você já me é muito cara.
Beijo-lhe o rosto gordo.
Tomamos o chá com queijo, Igor pergunta a Misca se já subiram com a
cômoda, ela faz uma afirmativa. Ele levanta meus cabelos e beija minha
nuca, um arrepio sobe pelas costas, Misca nos olha e fala que ele é
assim mesmo: aberto. Aceno confirmando. Ele pede a Misca para Val levar
água ao quarto e me faz subir até lá.
Uma cômoda foi colocada no nosso quarto.
É para você, abra.
Abro a gaveta: essências, perfumes, e tecidos.
Olho para ele.
Você, por acaso, não está me mimando demais?
Ainda é pouco, passei três longos anos esperando você.
Conde Igor!
Quem diabo será? - Ele respira fundo e vai à janela.
Fala Ferene.
A máquina emperrou.
Então, pare-a.
Não podemos, ela esta puxando a corda toda.
Esta bem, vou descer.
Volta-se para mim e diz que uma das máquinas da fábrica esta com
defeito, tendo que ir até lá. Ele tinha dito para ninguém mexer nela,
pois não tinha intenção de trabalhar. Saí do quarto correndo, vou à
janela e o vejo subir de uma vez no cavalo e sair em disparada. Colo o
rosto na janela, vejo-o sumir, pois as copas das arvores encobrem parte
da estradinha que vai a fabrica. Ver-se: parte do telhado, as vinhas
que quase chegam as margens do Balaton – majestoso e enorme!
Retorno o olhar para nosso quarto, vejo os tecidos que ganhei. Dou uma
arrumada no quarto e coloco as minhas roupas na cômoda.
Nosso quarto: dois grandes janelões, nossa cama, a mesinha de
cabeceira, as duas enormes cômodas espelhadas, uma cadeira de balanço,
um tapete, um biombo e, atrás dele, uma enorme tina para banho.
Na parede: meu quadro. Como lhe expressar Igor, o que sinto? Anya esta
certa, amor não se mede ou equipara...mas há em você o alcance pleno do
sentimento, e tenho que seguir você...e em mim, a há como certeza:
sempre foi assim.
Saio do nosso quarto e entro no outro, ao lado do nosso. Paro
maravilhada. Uma biblioteca! Estantes repletas de livros.
Uma escrivaninha com vários papéis.
Deve ser o lugar onde Igor trabalha quando está em casa. Na parede,
atrás da escrivaninha, três quatros de Mikail.
Este lugar me tomará grande tempo. Tantos livros! Leio os títulos: são
livros bem variados. Há muito o que ler. Há também um janelão que da
para o lago.
Vou ao outro quarto, duas camas de solteiro, uma cômoda, bacia para
toalete, duas cadeiras, um quarto simples.
Desço e ajudo Misca com a arrumação. Por mais que ela negue e fale que
tem uma moça que vem ajudá-la, mesmo assim insisto.
Subo para um banho merecido. Já estou na tina, quanto ouço Igor
chamando-me.
Natasha?
Estou aqui, tomando banho
Ele aparece no biombo, olha-me.
- Posso entrar na água?
- Sim.
Ele sai e volta com algo que joga na água e esta logo espuma, sais de
banho! Nunca tinha usado.
Tira as roupas e entra na tina, fica apertado, mas a sensação é
deliciosa.
Deixe-me massageiar suas costas.
Volto-me a ele, que retira meus cabelos das costas e massageia-as por
um tempo.
Depois me puxa e deito no seu peito.
Pergunto-lhe sobre a máquina, ele responde que conseguiram desemperrá-
la.
Em seguida viro-me a ele e molho seu rosto, ele mergulha na água, e eu
também.
Sorrimos, ele passa a mão no meu corpo; passo a minha, também, no dele.
Uma descoberta lenta, nos tocamos sem pressa, suavemente, sorrindo vez
por outra, e quando nossos corpos se tocam é um chamado mútuo.
Ao sairmos da tina, sinto frio, ele pega uma toalha e me enxuga.
Enquanto isso, olho seu ombro, que está seco.
O que foi?
Estou vendo seu ombro. Está seco, mas ficará a cicatriz.
Você não imagina a surpresa que tive ao ver no outro quarto tantos
livros. Eis uma das coisas que adoro: ler, Igor, no acampamento...
Paro de falar. Onde estaria meu povo, agora?
Igor olha-me e fala: - No acampamento?
Onde estarão, agora? Devem estar parados para a refeição. As crianças...
Levanto-me e vou pegar uma roupa limpa, Igor fica me observando.
Já lhe falei que toda vez que você tiver com vontade de falar deles,
fale. Eu estou aqui, gosto de ouvi-la falar sobre todos eles.
Concordo com ele; vestimo-nos e descemos para refeição. A mesa da sala
está colocada.
Fatányeros, eis o nome da comida, delicioso.

Vamos ao terraço. O sol está quente, e seu brilho se estende por toda a
região. Não pode existir um lugar assim em todo mundo. Seria impossível
Deus criar tamanha beleza duas vezes.
Lá embaixo, ao redor do lago, o colorido da primavera enche tudo.
Hungria, aqui nasci, aqui estou vivendo, aqui ficarei.
O tempo nos leva por caminhos que parecem estranhos, de repente nos
damos conta de outra realidade. Que nossa vida não é mais somente
nossa. É partilhada, dividida e unificada com alguém. Parece estranho
que no inverno passado, vi os homens da guerra na Rússia, e hoje estou
aqui. À frente, o lago, que tanto povoou meus pensamentos, que me fazia
sonhar, noite após noite, em estar aqui. E aqui estou; ao meu lado,
Igor; ele reina sozinho na minha vida e é ele, por ele que meu mundo
também está em plena primavera.
O sol esfria, vamos às vinhas e depois ao lago, sentamos junto a uma
árvore, Igor se encosta, e eu encosto-me nele. E ele pergunta-me como
era meu avô. Olho o lago...

O murmúrio das ondas do mar...


Uma frase encantada, como um bálsamo que ele repetia inúmeras vezes.
Falar do avô é falar da vida para mim. Meu pai se parece com ele; só
que ele, desde que me entendo por gente, tinha os cabelos brancos.
Sua fisionomia era sempre alegre, e estava de bem com o mundo e a vida.
Ele tinha o dom da palavra, no seu real sentido. Quando ele falava
todos se calavam, e ele não as desperdiçava. Ao descrever uma cena
qualquer, todos nós nos transportávamos a ela. Sempre tinha uma
resposta para tudo. Sempre. A seu lado eu sentia como se todo
conhecimento humano estivesse junto a mim.
A primeira vez que vi o mar fiquei decepcionada, o que ele falava era
muito mais bonito.

Avô: - eu perguntava, quando pequena - quem fez as flores, de onde


vinham? Ele parava para responder, não só a mim, mas a qualquer um. E
eis que Deus olhou o mundo, faltava algo, mas o que seria? Deveria
existir mais colorido e de onde viria? Ele, Deus, olhou o sol e viu seu
brilho, puxou-o com a mão e o estendeu à Terra, em forma de flores.

A mim, quando maior, ele dizia: - A natureza é Deus em sua forma, os


homens O buscam em altares e igrejas, mas Ele está aqui, diante de nos.
Veja as estrelas, o céu; olhe as árvores, os animais. Olhe para dentro
de si mesma: Deus está em tudo.

Foi um homem que estudou; tinha bons conhecimentos, que enriqueciam sua
cultura.
Deixou os pais ricos e foi para o mundo. Na busca de algumas verdades,
uma delas era muito marcante: a verdade da vida, qual o significado da
vida?

Por isso, não temos costumes totalmente ciganos.


É tradição cigana, no casamento, o uso do lençol branco, para provar a
virgindade da moça. Aos treze anos, assisti a essa cerimônia, e fiquei
impressionada. Ele pegou-me para uma conversa: - A pureza do homem
está no seu pensamento, nas suas ações. Como se comprovar uma
integridade? Mas não nos cabe julgar, cada povo tem seu costume, sua
tradição.
Sua filosofia tinha fundamento na realidade que o cercava. Essa visão
ele nos passou e viveu por ela. Ele procurava incorporar mais
conhecimentos a essa filosofia de vida. Conhecimento de livros,
conhecimento com outras pessoas, conhecimento de pesquisas.
Percorremos lugares onde viveram pessoas que ele admirava. Como foi
conhecer Assis. É clara a lembrança de nós dois andando por uma viela e
ele a me falar: - Madar, estamos pisando onde Francesco de Assis,
pisou!

Passávamos noites inteiras a conversar, muitas vezes até o raiar do dia.


Na véspera de ele morrer, ficamos até muito tarde da noite conversando.
Era verão, a noite estava quente. Estávamos a olhar o céu e ele passou
o braço no meu ombro e falou, olhando o céu. Falou, talvez não para
mim, mas para si mesmo: - Madar, todo conhecimento, todo poder e
vontade, o que há de bom ou ruim está dentro de nos. Podemos ser deus
ou demônio. Tudo está inserido dentro de nós; até a historia da
humanidade.
Fiquei a pensar como seria possível. Ele que buscou tanto. Não quis
perguntar, na hora, pois ele contemplava o céu, com uma felicidade.
Pensei em falar-lhe no dia seguinte.
Ele morreu, morreu dormindo, eu a seu lado. Não ouvi nada! Ele morreu
dormindo. Deixou um vazio... Não quero mais falar nisso.

Igor toca meu rosto e fala: - Natasha, não evita falar do que sentes.

Respiro fundo e falo: - Lembranças ricas, valiosas e vivas.


Igor fala: - Ao meu ver, ele está certo.
Viro-me para ele: - Então, explique-me. Já indaguei a algumas
pessoas, mas ninguém soube me responder. Explique-me.
Na minha concepção nossa essência é divina, Natasha. E tudo é uma
questão de consciência. Ao meu ver, os seres passam por vida opôs vida,
nisso têm experiências que incorporam a si, ou seja, tomam consciência.
É algo que se traz ou que se adquire. Na consciência estamos acordados
e cientes para vida ou algum aspecto dela. Cientes de que estamos aqui
em missão, de que estamos aqui a trabalho, isto não quer dizer que
deixamos se sentir; do contrario:sentimos mais e mais. Que não existe
maior, ou melhor, e sim, que existem missões e missões. Acho a
compreensão um ato encantado. Quando você afirma: eu compreendo, seu
ser se coloca diante da pessoa, da causa, do fato, ou seja, do que for.
Ao afirmar eu compreendo, transportamo-nos a uma determinada coisa.
Existe um partilhar e daí se comunga ou se discorda desse algo.
A compreensão é o melhor e mais pratico meio para a consciência. O ser
estando aberto a ela, é sem duvida uma maneira mais fácil, menos
dolorosa. Pois quando não, a vida nos colocada diante de fatos com que
temos que lidar. A consciência é a incorporação desses atos, seja pela
compreensão ou seja diante de fatos.

Olhe bem, amada, onde está o significado da vida?


Seu avô buscou e achou. Ele via Deus em tudo, pois, a meu ver, a
essência da vida está em tudo.
Ela a buscou junto ao conhecimento, e vivenciando isto, tornou-se um
sábio. Ou seja: vivenciando cada tomada de consciência.
E descobre, antes de morrer, que tudo está em nós.

Olho para o lago e em seguida para ele e falo:


Nessas andanças, deparávamos com uma imensidão de fatos e situações.
Nelas, via com clareza que Deus não colocaria um determinado homem em
situações tão adversas, enquanto outro tão privilegiado. A resposta, só
podia estar em vida, morte, vida. Que nossa essência é divina, eu
creio. Mas como tudo está inserido em nós?

Ele olha-me dentro dos olhos e fala:


Qual o sentido da vida, Natasha?
Para mim, não importa qual a religião, ou a condição de um ser. O que
diferencia é a consciência, e ela vem pela compreensão ou dor. Ela
sempre vem pelo sentir. Ao tomar consciência do meu amor por você, vi
que ele é capaz de tudo.
Qual o sentido da vida? Seu avô afirmou que tudo está em nos, somos
criadores ou destruidores; é tudo uma questão de consciência. E o que a
diferencia?

Vejo o por de sol no lago, a beleza presente e abrangente. Falo:


O que diferencia é o sentimento.

Ele sorrir sereno e fala:


A essência da vida está no sentido onde e como, aqui em terra,
atribuímos nosso sentimento.

***

A noite cai serena, o tempo está lindo.


Há duas semanas estamos casados.
Espero Igor para jantarmos.
Como estou feliz! Não pensei em adaptar-me tão rapidamente em um lugar.
Também, num lugar com este, quem não iria gostar. Excede, vivendo com
Igor.
É difícil verbalizar o que este homem é. Ele pré-existe a tudo.

Sorrio, a felicidade muitas vezes deixa a gente meio tonta, rindo à toa.
É um sorriso que cai nos lábios, sem que se perceba.
Dou-me conta de que o tempo passa. Estou na biblioteca, vou para a
janela. O céu tem o tom avermelhado.
Mikail poderia, ou até pode, estar registrando este momento. O vermelho
está mais intenso, vivo e tende a se alastrar, parecendo tomar conta do
céu.
Ouço um cavalo.
É ele!
E vem o sorriso.
A alma, pelo sentimento, se alastra, como a cor do céu, o sentimento
impera ao ver o amado.
E o entorpecer toma-me.
Colo o rosto à janela para vê-lo melhor.
O cabelo negro ao vento, sua camisa está aberta, ele está sério.
Pára o cavalo.
Olha em volta. Procura-me, pois estou sempre lá embaixo a esperá-lo.
Eleva o rosto.
Detemo-nos um no outro.
E vem o sorriso sereno.

Saio da janela, desço as escadas correndo, abro a porta à frente.


Jogo-me em seus braços, ele me envolve num abraço apertado e beija meus
cabelos.
Estava olhando o céu, já viu colorido mais bonito? Imagino que Mikail
deva está pintando, registrando essa maravilha... O que você tem?
Ele me olhava, e desvia o olhar para o céu.
Fui à cidade, estive com a Condessa...
Compreendo.
É, compreendemo-nos, ela é que não nos compreende.
Você poderia ter facilitado mais, se tivesse ido logo que ela o chamou.
Sinto angustia, baixo os olhos, Igor pega-me pela não para andarmos.
Ela deve me detestar.

Não, exatamente, a você. Você é, sim, a concretização de tudo. Ela


sempre abominou meu jeito de viver, o modo como vejo a vida e as
pessoas. Você representa a comprovação de tudo para ela. O motivo de eu
estar assim é pelo fato de ela não se esforçar para compreender ninguém.
Na sua visão, só existe ela e suas fórmulas fantásticas de uma vida
faustosa. Ela não vê; nem se apercebe que não é feliz monopolizando as
pessoas, utilizando-as como marionetes. O que ela diz ou deixa de dizer
não me afeta, nem me constrange.
O que sinto é um profundo vazio diante de tantas palavras e atos
vazios. Cedo você irá conhecê-la, ela deve querer vê-la.

Sinto como um soco no meu estomago; sei que o olho apavorada. Ele sorri
e me abraça.
Não me diga que está com medo! As coisas estão invertidas. Quem deveria
temer é a Condessa, não você.
Como assim?

Você está à procura de confusão ou discórdia? Você criou alguma


situação parcial? Você é responsável por eu amá-la?
Minha mãe, Natasha, quer que todos vivam segundo suas regras. Ela é que
vai procurar barulho; tentar fazer as coisas à sua maneira. O que você
tem a temer?

Igor. Ela é sua anya, é uma pessoa...

O quê? Influente, chantagista, que criou em torno de si uma redoma. Ora


Natasha, muito antes de conhecê-la não seguia sua cartilha. Sempre fui
livre, dono de mim e dos meus atos. Meus valores vêm de coisas em que
acredito. Amo minha terra, procuro compreender com quem convivo, gosto
do meu trabalho. E agora!...

Ele abre um sorriso e ri, fico a olhá-lo e indago:


E agora?
E agora! Estou com a mulher da minha vida. Estou vivendo contigo, amada.
Tudo que é fixo pode mudar, é mutável.
Exceto você - a sua presença - isso diz tudo.
Tudo, hoje, pode mudar para mim, exceto você.
Veja o céu, os pássaros. Se estivesse chovendo ou fosse
inverno, mas se estamos juntos.
O que você tem a temer, Natasha? Vou repetir: procuro viver bem com
todo mundo, muitas vezes sou duro em algumas coisas, mas procuro
compreender as situações; não vou permitir que ninguém invada nossa
privacidade. O que temos é sagrado. Sangrado e consagrado.
Tenho minhas responsabilidades com essa gente, com essa terra; sou
capaz de mover moinhos por elas. Isso sai de mim, de dentro de mim.
E o nosso caso. Ah! O nosso caso...

Ele, pára de falar, dá uma sonora risada.


Igor! Continue, nosso caso?
Ele morde os lábios, rindo, e fala.
É simplesmente amor.

Meus olhos se enchem de lágrimas, e afasto-me dele, que se senta no


chão.
Você precede a tudo. É mágico, o mago.
Tem o dom de iluminar minha vida. O brilho dos seus olhos, quando fala,
toca o próprio coração.
Vou para perto do lago, toco a água e falo:
Você talvez não entenda o que falo, pois é difícil verbalizar quando o
que impera é o sentir, e meu coração parece que cresce, parece que me
toma. Mas, esse sentimento é palpável, e sai pelos meus poros.
Quando olho nos seus olhos, encontro-me. Nos seus braços estou em casa.
Veja esta água. Você é tão cristalino e limpo quanto ela, eu necessito
de água para viver.
Eu necessito de você para viver.

Lá em casa, estava na janela vendo o entardecer, pensando na totalidade


da felicidade, sorrindo à toa: é minha alma que está a sorrir.
Quando olho nos seus olhos, o mundo pára, só existimos você e eu.
Você é um Homem encantado, realmente o é. Tudo que toca, faz ou pensa
tem - como dizer! - ha um objetivo ou história.
Não sei se você me compreende, nem sei se eu mesma compreendo. Mas um
dia compreenderei, tomarei consciência.
É como se a cada segundo unida a você, eu me fortalecesse, me
completasse.
Mesmo quando estou sozinha penso em você, eu me enriqueço. Sinto como
uma explosão dentro do meu ser, e isso é você... Eu sei que é.
Existe o supremo em tudo, existe esse ar em tudo, e, a todo momento,
sou levada a você. E pergunto-me: sou normal?
Fui ontem, lá fora, ao jardim. Ventava. Vi uma folha cair da árvore,
ela dança ao vento, caia suavemente... Aquele momento levou-me a você.
Isso me excede.

Olho para ele, olhos negros e falo: - Seus olhos me chamam.


Ele sorrir e fala:
Sim, chamam! Vem cá. Sente-se no meu colo. Agora abraça-me apertado.
Abraço-o e ele fala:
Quero sentir você. Senti-la toda: de corpo e alma.
Olha para mim, vida. Você começa a descobrir a força, você já está
compactuando com ela. Sinta meu coração. Bate rápido, existe a
felicidade em ouvi-la falar.
Seria loucura nossa querer viver todo esse amor?
Quem colocou barreiras em tal sentimento?
É insanidade querer mais e mais estar ligado à pessoa amada?
Insanos são aqueles que reprimem seus sentimentos.
Fantasioso é aquele que não o exprime. Ilusório é aquele que se esconde
da verdade de seus sentimentos. Nos somos livres para nos expressarmos,
vivermos, comungarmos.

Quando você tiver consciência dessa força não existirá mais receio como
o que sente referente à Condessa.

Você também tem medo? – pergunto incerta.

Claro que tenho. O medo nos impulsiona a agir ou retroceder, é uma


opção.
Olho para ele e falo.
Quero fazer-lhe uma pergunta: se naquele dia eu tivesse ido embora, o
que aconteceria?
Ele toca meu rosto e responde:
Meu sentimento continuaria. Iria atrás de você. E, se você não me
quisesse, o amor morreria? Não. O amor é livre. O que sinto por você
independe até mesmo do que sente por mim. Amo você, este amor existe!
É mais que evidente que o quero partilhado, comungado. Mas se você não
me quisesse, o que eu faria? Amo você. Amor que teria que passar de
alguma forma; de exprimi-lo, usando esta força de alguma maneira, fosse
trabalhando mais.

Quantas tardes, como esta, eu ficava aqui, sentindo essa força e falava
ao tempo: eu quero vê-la, eu quero tocá-la. Sentia a força do
sentimento por você, fechava os olhos, e te pedia: volte, volte para
mim...
É insano? Não, é uma força capaz de tudo. Amo você por ser você.
E, hoje, tudo está ampliado, como você falou, pois existe o
comungar.
A noite está chegando... Veja, já aparecem algumas estrelas no
céu, você e eu: aqui juntinhos compartilhando, vivendo esse
sentimento, nutrindo-nos.

Abre o sorriso e fala: - Vamos tomar um banho no lago!

Ele levanta-me, tira a camisa.


Igor, alguém pode aparecer.
Se aparecer alguém e nos vir, irá embora.
Tiro o vestido, com sua ajuda, e corremos para o lago.
Mergulhamos, está fria a água, ele percebe e pergunta: - Posso aquecê-
la?
Chego-me a ele. Mostro-lhe nossa casa, as luminárias já estão acesas. E
falo que Misca deve estar preocupada.
Não completo a frase, ele me beija. Nossos corpos têm o ritmo das águas
do Balaton.

Não havia mais pensado na Condessa; há uma semana que Igor estivera lá.
Estou atarefada, ajudando Misca para o jantar, Mikail viria com Igor.
Mikail é uma pessoa culta e sensível, e que, no mínimo, uma vez por
semana vem jantar conosco. É o oposto de Igor, que está sempre aberto
ao mundo, falando sempre francamente e por vezes irreverentemente.
Igor, mesmo sério, extravasa. Mikail tem uma serenidade inquieta; deve
ser o modo do artista. Gosto dele.
Ouvimos o som de cavalos, olho para Misca e indago:
Será que já são eles, tão cedo?!
Ela olha-me intrigada e responde: - Não, conheço esse ruído. Espere-me
um instante.
Continuo meu trabalho, essa massa é muito trabalhosa. Por que diabos
inventei de fazer esses pasteis?!
Natasha.
Volto-me para Misca e indago: - Quem era Misca?
A Condessa está na sala, quer falar-lhe.
Solto a massa na mesa, um frio percorre meu ser, sinto um aperto no
peito. Misca arruma meus cabelos e lavo as mãos.
Santo Deus! O que ela quer? Ainda há pouco, pensei nela.
Conhecê-la, só isso. E você é mais bonita e inteligente que qualquer
dama da corte.
Estou nervosa, Misca. Que diabo! Igor poderia estar aqui. Mas é claro,
ela quer ver-me sem a presença dele. Que seja. Como estou?
Muito bem e bonita, como sempre.
Respiro profundamente e saio da cozinha, indo para sala.

Vejo-a de costas, olhando pela janela. Estatura média, seus cabelos


ainda negros, porte elegante, espigada. Está vestida como se fosse a um
baile. Minhas mãos estão geladas. Olho meu vestido rosa. Penso em Igor,
respiro fundo.
Boa tarde, senhora Condessa!
Ela volta-se, olhando-me de cima para baixo. Sei que faço o mesmo com
ela. Não é feia nem bonita, imponente como um carvalho antigo. Não se
parece com Igor, só a cor dos cabelos e dos olhos. Sim, seus olhos são
penetrantes como os de Igor.
Aproxime-se. – Seu tom de voz é uma ordem.
Olho-a nos olhos, e vou para mais perto dela.
Agradavelmente bonita. Não condiz com a imagem que fazia da sua pessoa.
Uma beleza fina, nobre e notada. Realmente é muito bonita. Sabe o que
me trouxe aqui?
Ainda estou a olhá-la e respondo num impulso natural: - Curiosidade!
Seus olhos parecem querer me fulminar, depois se abrandam, e fala:
É sempre assim?
Como, senhora?
Tão sincera, ou aprendeu com meu filho?
Sempre o fui.
Mas você está correta. Estava realmente curiosa em conhecê-la. Por mais
que a tenham descrito, você superou a tudo. - ela dá um leve sorriso,
e continua.
Algumas pessoas quiseram descrevê-la colocando defeito onde realmente
não existe, é evidente que para me agradarem.

Seria indelicadeza minha perguntar-lhe quem me descreveu?


Isso não vem ao caso. A descrição do meu filho foi perfeita. Admito que
você é muito bonita, tem uma elegância que muitas de nós levaríamos
anos estudando, só que...

Não sou a pessoa certa para seu filho.

Touché! Não era bem isso que eu ia dizer, mas isso também é o que
penso. Posso sentar-me?
Aponto o sofá, deixo-a sentar-se para, depois, acomodar-me.
Vejo Misca na porta da cozinha.
Veja bem, menina. Agora, acho que pouco importa se você é a escolha
certa ou não, vocês já estão casados e eu sou extremamente católica.
Acreditava que ele pudesse casar com Krisztina. Ela seria minha
escolha. Sei que seria um casamento aparente. Igor, jamais, se
adaptaria à vida na corte, mas seria o ideal para seu futuro. Mesmo sem
ele confirmar tal casamento, eu o alimentei. A pobre moça só faz chorar.
Bem, águas passadas não movem moinhos. Queria conhecê-la, vê-la com
meus olhos.
E saber o que pensa sobre meu filho.

Estranho a pergunta, é dúbia. Como tudo nela parece-me assim: dúbio.


O que a senhora pensa sobre Igor, senhora Condessa?
Vejo-a sorrir, pela primeira vez.
Também é inteligente.
Não vim aqui questionar meus pensamentos de mãe, e sim os seus.
Vou modificar a pergunta. O que sente por meu filho?

Eu o amo, um amor sem limite. Amo-o de tal forma, que respeito o seu
amor, senhora Condessa.
Seus olhos crispam, ouço passos. Meu coração se abranda ao vê-lo, ele
me olha sereno e fala.
Quer felicidade maior, chegar em casa e ouvir uma declaração dessas.
Boa tarde, Condessa!
Ele se aproxima dela e beija-lhe a testa, senta-se ao meu lado e pega
minha mão. Uma segurança infinita invade-me. Ah! Amado, como é bom tê-
lo aqui.
Meu filho, você não me falou que ela é tão inteligente.
Não?!!! Devo, então, ter esquecido. - seu tom irônico.
Por que a senhora quer saber do sentimento de Natasha, não estou
compreendendo bem.

Conheço Igor o suficiente para saber que ele está em seu ponto de
irritação.
Igor, conversávamos a senhora Condessa e eu; é natural que ela esteja
preocupada. – contorno.
Novamente ela sorri, sem importar-se com a minha interferência.
Mês que vem, chegará aqui a Badacsony o Visconde Adolfo.
Igor olha para ela, indagando: - Quando chega?
Ele ficou de confirmar o dia certo. Mas deve ser lá para o final de
maio.
O que o trará aqui?
O motivo de sempre. – ela fala arrogante.
Convencer a todos do autoritarismo austríaco.
Trazer mais uma mensagem lamuriosa do Imperador. Quantas cidades ele
irá percorrer desta vez?

Quer parar com isso, Igor! – vejo-a perder a postura, mas rapidamente
retruca.- Ele vem como enviado do Imperador. Iremos recebê-lo como de
costume.

Senhora minha mãe, eu respeito seu amor ao Império Austríaco. O que não
é meu caso. Tenho boas relações com Adolfo, se ele vier aqui, como
sempre veio, terei imenso prazer em recebê-lo: “Como de costume”. -
ele está irônico, seu ar é maroto.

Conheço-o muito bem, por garantia, irei saber o motivo da vinda dele.
Ótimo! Faça isso, será bom para todos!
- Assim teremos oportunidade de apresentar sua esposa a todos. O
que me diz?
Ela dirige-se a mim.
A senhora sabe o que faz, Condessa. Será um prazer conhecer pessoas
amigas de Igor.
Se não fosse a circunstância, eu gostaria de conhecê-la melhor.
Posso afirmar-lhe que à primeira vista, nunca encontrei uma pessoa como
você, só meu próprio filho.

Agradeço o valioso elogio. Igor é uma das pessoas que mais admiro.
A senhora aceita um chá? – pergunto-lhe.
Não, muito agradecida; já cumpri com o que me trouxe. Agora, vou-me
embora, tenho algumas pessoas a me esperar. Igor, assim que chegar a
resposta de Adolfo eu lhe direi. Seu irmão deve chegar esta semana, e
nos trará noticias. Quando irá a cidade? Há alguns papéis para você
assinar.

Papéis? Por que não os trouxe?


Você pode ir à cidade ver-me, não pode?

Despedimo-nos, e a acompanhamos até a carruagem preta que estava à sua


espera.
Respiro normalmente, Igor passa o braço no meu ombro, e entramos em
casa, ele perguntando: Tudo bem?
Aceno que sim. Deito a cabeça no seu ombro pensando: como um homem é
tão pleno e ciente de si, dos seus valores, tão aberto como o sol de
verão. E ter uma mãe tão distante de sua realidade.

Jantamos e rimos muito nessa noite, Mikail estava falante e divertido.


A seriedade chega quando se falava na visita do Visconde, só então,
entendo plenamente o que deva ser o motivo da visita. Já devem ter
chegado à Áustria noticias sobre as opiniões divergentes de Igor quanto
à monopolização da Áustria na Hungria. Isso tem muito peso. Um Conde
jovem que, com suas idéias, leva aos húngaros consciência da sua
nacionalidade.

Isso me inquieta bastante, sei até onde Igor pode ir, seu sentido de
liberdade é tão extenso, seu amor pela Hungria é incontestável. Unindo
uma coisa à outra, só Deus sabe o que pode dar.
O que achamos é que o Visconde deve vir a título de conhecer a verdade,
e ao meu ver, se ele investigar, a verdade será desvendada pelo próprio
Igor.
Os húngaros estão sufocados com o Império, não existe nada em comum,
tudo é diferente, da língua aos costumes. É utópico demais querer esta
união, donde só uma das partes tira proveito.
A Condessa, devido a sua nacionalidade e seus próprios interesses, é
totalmente a favor do Império. Essa junção não é boa.

A alegria da noite foi marcarmos nossa viagem a Tihany. Convidamos


Mikail para ir conosco.
Será uma grande surpresa para todos.
A Hungria é um país abençoado.
Tihany não fica distante de Badacsony.
A minha alegria era transbordante.
A estrada estava toda colorida por vários tipos de flores.
A artemísia, florzinha amarela, fazia o sol parecer que está em todo
lugar.
Chegamos a Tihany à tarde. É uma cidade maior que Badacsony, fica na
península do lago.
Conheci uma linda igreja, uma das mais bonitas que já vi. Seu interior
é de madeira talhada, obra de Sebastyen Stulho, do ano de 1770.
Lá estão os restos mortais de Andrei, rei húngaro do século XI.
Os olhos de Igor brilhavam, ao contar a história. Mikail só tinha olhos
para obra artística. Artista é artista, em qualquer lugar.
Chegamos ao acampamento quando já era noite.
A surpresa de todos, ao nos ver, foi extremamente tocante e comovente.
Um misto de alegria, de saudade, que nos levou a uma felicidade
indescritível.
A primeira noite quase não dormimos de tanto conversar.

Foram dois dias bem vividos.


A família é um ponto de referência, de muito amor em toda extensão.
Hoje, aqui em casa, revendo toda nossa viagem, tenho uma saudade sadia.
Passa-me à lembrança a conversa com anya. Seu sexto sentido foi
dirigir-se para Mikail, alertando-me, pois, disse ela, que ele tem
muita admiração por mim.
Ela me falou dos cuidados que devo ter por causa dessa admiração.
Não deixá-la tornar-se algo mais profundo, pois admiração calada é
ambígua.
Tranqüilizei-a dizendo que ele é um grande amigo.
E ele, realmente, é um grande amigo, que, com certeza, deva ter
admiração, talvez não à minha pessoa e, sim, pelo que nós, Igor e eu,
vivenciamos.
Quem não teria? Chego a achar graça. A versatilidade em expressar um
sentimento deixa-me surpresa: um sentimento, duas vidas, onde, olhos
nos olhos, nos falamos.
Por vezes, são as palavras... São tantas as maneiras, há tanto o que
dizer, seja em um toque, ou nas palavras.
Eu, ainda, me detenho perplexa, mediante a grandiosidade do que sinto.
Não que seja novo, e sim, a grandiosidade, a potencialidade. É tão
intenso, forte e vivo que seguro-me.
Ele não! É solto, despojado, aberto como um dia de sol. Como um pássaro
em vôo, sem medo de cair, rumo ao horizonte infinito. E ele me leva
nesses vôos, céu afora.

Ontem, refeita da viagem de volta a Tihany, fui buscá-lo nas vinhas,


era tardinha, mas nos detivemos ao ver uns homens, ao longe, domando um
cavalo.
Sentamo-nos na grama para ver a cena. Ouço-o falar:
Do que o homem não é capaz? Cedo ou tarde o cavalo irá ceder.
O homem, com uma certa prepotência, subira em seu dorso e talvez cante
vitória.
Só que quem cedeu foi o cavalo, foi ele que permitiu.

O que o faz tão receptivo?


Muitas vezes tenho a real impressão e sensação, que ele está muito
distante da humanidade.
Aí, então, ele dá sua risada gostosa.
Maio.

Hoje, pela amanhã, Mikail apareceu cedo, com telas e alguns lápis.
Fomos os três para a beira do lago. Ele fez alguns esboços do lago, meu
e de Igor.
Mas é difícil reter Igor.

Agora, minha preocupação é com o jantar especial.


O irmão de Igor vem aqui para casa. Não estou tensa, e estou. Pois há
muita curiosidade sob minha pessoa, em toda cidade – comentário de
Misca. O que de fato, acho normal. O conhecido conde casar-se com uma
cigana. Deve ter despertado em muitos a tal “curiosidade”, que Misca
tanto fala. E como tanto fala Igor: nossa vida é aqui, nas vinhas, no
lago – em nosso sentimento!

“A essência da vida está no sentido onde e como atribuímos nosso


sentimento”.
A própria vida é o sentimento...
Vez por outra vem esta frase dele.
Tomo um gostoso banho, visto um vestido que Misca fez. Está bonito.
Ouço cavalos! Devem ser eles.
Desço as escadas.
Ao abrir a porta, deparo-me com Igor. Ele beija meu rosto, atrás dele
esta Aurel, que me olha; um olhar curioso!
Como ele é diferente de Igor!... Não parecem nem irmãos, sua pele é
alva, os cabelos são claros.
Natasha, meu irmão Aurel.
É um prazer conhecê-la.
O prazer é meu, vamos entrar?
Entramos em casa. Misca colocava a mesa e, ao vê-lo, vai falar com ele.
A conversa fica por conta de Aurel, que informa a chegada do Visconde
em uma semana.
O jantar é servido.
Observo os dois, uma diferença básica.
Igor é sempre seguro no que fala.
O objetivo da visita do Visconde, afirma Aurel, é de rotina.
Mas não é verdade, se eu sabia, quem diria Igor! Vejo-o ficar
impaciente.
Mudo de assunto, falamos sobre Margit, a irmã deles. Aurel fica
aliviado, e Igor me olha com ar travesso.
Existe um pedido contido no irmão de Igor: onde ele não quer se
envolver, nem mesmo falar no assunto.
Como podem ser tão diferentes?
Aurel inseguro, sempre justificando as atitudes da Condessa e,
indiretamente, as dele próprio.
A Condessa dará uma recepção ao Visconde, uma grande recepção.
A festa será marcada assim que o Visconde chegar, mas todos já estão
avisados.
Já convidaram Gyorgy Festetics?
Aurel fica vermelho.
Claro que não, Igor!
Pergunto curiosa: Quem é Gyorgy Festetics?
Um amigo meu, mora em Keszthely. Caso ele não possa comparecer, você
terá o prazer em conhecê-lo, Natasha.
Aurel olha-me e fala:
Ele, Gyorgy Festetics, é também um Conde. Um Conde progressista. Difere
do nosso, pois vive num castelo quase tão bonito quanto o de Versailles
ou o nosso Shonbrunn.
Nosso?!!! Shonbrunn, seu?
Meu irmão, quando você irá abrir seus olhos e ver que a única coisa que
a Áustria quer de nos são os impostos. Acorda, Aurel! Quantas vezes
você colocou os pés em Shonbrunn?
Algumas raras vezes e quantas vezes você remete nosso imposto a eles?
Você não enxerga que está pagando caro demais pelo prazer de ir lá ver
aquelas pessoas, que falam conosco como se estivessem fazendo um favor.
Ainda me lembro do noivado de Margit: conte-nos o que se passa, em
conviver com aquela gente da Hungria.
É muito para minha paciência. Aurel, é aqui que você vive, na Hungria.
E é essa gente que trabalha para dar, com o seu suor do rosto, a um
bando de desocupados, fúteis e vazios, requinte e luxo.

Chega, Igor!
Quando é que você ira criar juízo? Você não é dono do mundo. Você não
pode ir de encontro a regras tão antigas quanto à própria História.
Onde você quer chegar? O que você tem a lucrar? Não passa por sua
cabeça onde tudo isso pode levar você? Ser um traidor não é uma coisa
muito boa, e você é suficientemente inteligente.

Igor está calmo, meu coração vem à boca, e Aurel continua:


Você é visto como um aristocrata excêntrico. Só que existem rumores,
ainda não comprovados, mas são autênticos. O que você me diz?
Igor aperta os olhos e responde:
Ou você me conhece muito pouco, ou é um imbecil. Honestamente, descarto
as duas hipóteses.

Igor, meu irmão, até admito que realmente o admiro, você e suas
opiniões. - Aurel respira fundo e continua.
Só que quero saber, aproveitando esta oportunidade, esta nossa
conversa, aonde você pensa que vai chegar?

Chegar? Não estou entendendo. Não pretendo chegar a lugar algum. Eu já


estou.
Veja à sua volta, Aurel, o trabalho que fazemos se não é todo justo, é
pelo menos digno. Convivo com toda essa gente e gosto dela. Só isso, eu
não tenho maiores pretensões.
Até respeito aqueles que gostam de viver faustosamente desde que o que
tenham seja de maneira digna. Seria total estupidez da minha parte
tentar arrancar o Imperador do seu trono... Se bem que seria o ideal,
mas não chegamos a tanto. Agora, enquanto estiver vivo irei lutar pelos
direitos da Hungria, se não for possível a separação, que haja a
integridade.
Mas, meu irmão, se essa gente não tem a decência para com os seus, como
poderão ter com outros mais distantes?

E o que você vai fazer?


Igor brinca com os talheres da mesa para olha-me e pergunta irônico ao
irmão.
O que eu faço que o tanto incomoda?
Talvez seja exatamente isso. Por enquanto é o que você não faz. Você
não vai à corte, vive numa casa de campo comum, está sempre rodeado de
gente humilde, veste-se como tal. Só que as noticias que estão na corte
se agravam mais e mais. Dizem que você faz parte de um comitê ou
conselho para a separação da Hungria. E que sua nacionalidade só tem um
lado, o húngaro. São conversas.

Posso ir mais além que você, Aurel. Queriam, ou pelo menos tiveram a
idéia de tirar-me daqui, como uma transferência.

Como soube disso?

Existem meios.

Nossa mãe não sabe disso.

Aurel, não seja ingênuo. O que eles lucrariam em tirar-me daqui?


Aqui eles estão a par do que faço. Melhor deixar-me como estou.
Pela primeira vez, pergunto:
O que você acha que eles podem, então, fazer?
Mandar o Visconde aqui, saber a realidade dos fatos. Por enquanto só
isso. Aí, então a Condessa fará uma festa digna de Shonbrunn. Irá, com
certeza, confundir nosso amigo.

Ao dizer isso, ele dá uma de suas risadas.


Aurel levanta-se, dizendo: - Você é cabeça dura, mesmo.
Igor pergunta por Margit. Aurel diz que ela, em breve, virá a
Badacsony. Depois, olha-me e diz:

Natasha, você não imagina como queria conhecê-la. Meu irmão teve muito
bom gosto.
Você é muito bonita! Desculpe-me pela franqueza e liberdade.

Franqueza é uma das melhores qualidades humanas, e liberdade é um


estado que se adquire quando se quer.
Quero, Aurel, que se sinta franco e com liberdade aqui na nossa casa.

Aurel olha para Igor e sorri.


Igor olha-me ternamente e pergunta:
O que é liberdade para você, Natasha?
Liberdade é fundamental ao meu povo, comungo com Rousseau: “Todos
nascem homens e livres, a liberdade nos pertence, renunciar a ela é
renunciar à própria qualidade de homem”.
Ela, a liberdade, é, ao meu ver, um estado, e além de estado é um ato,
o ato de acreditar. Ela não é uma imposição, nem tampouco uma situação.
Se assim o fosse estaria limitando. O estado, creio, é adquirido pela
consciência. O ato de crer nela nos faz soltos, onde todos são iguais.
Temos a liberdade de escolher. Se temos a liberdade de escolher e somos
capazes do ato da escolha, como o homem a poderia tolher?!!!

Tudo começa a girar em torno dessa festa, soube por Val que o
comentário na cidade é este: a festa e a chegada do Visconde.
Aos tolos, a necessidade de uma aparição pública. Os de maior visão
irão ter uma confrontação de forças, austríacas e húngaras, e os
curiosos irão conhecer-me. Pessoas que freqüentam a casa da Condessa
estão ansiosas em conhecer a cigana.
Também ainda não fui à cidade e, sinceramente, não tenho vontade de ir.
Desfruto da harmonia que vivemos aqui.
Ainda é estranho a mim ver tanto amor do homem à pátria, à sua terra.
Concebo e comungo a idéia da liberdade, a Hungria livre, mas não
consigo entender o patriotismo.
Os homens que vieram aqui ontem à noite são movidos por atos de
liberdade a qualquer preço.
Mesmo o uso da violência talvez seja o melhor, segundo eles.
Mais tarde, Igor depois de tê-los acalmado, falou-me a razão da raiva
dos homens. São os impostos, a desigualdade.
Nós não concluímos a razão da vontade de usar meios violentos.

Tentar melhorar a condição de vida das pessoas, fazer as pessoas


conscientes dos seus direitos é, sem duvida, um grande efeito.
Compreendo tudo isso, mas me pergunto: o patriotismo, o que realmente
vem a ser?
Vendo o que vi na Rússia, onde jovens morreram sozinhos, de maneira
bárbara, por amor a seu país? Justifica perder a vida?

Sei o que Igor tem em mente, e isso é assunto bastante discutido por
nós dois: melhorar as condições de sua gente. Isso faz parte dele, como
seu próprio pulmão. Sua visão é de uma comunidade ativa. Por causa
disso, vamos construir uma escola aqui perto. E, apesar de todo esforço
de Igor, os pais fazem pouco caso.
Por mais que ele se esforce, em mostrar os direitos deles, o que vejo é
que todos têm uma verdadeira adoração pelo Sr. Conde.
Ontem, Misca e eu corremos à casa de um morador, sua esposa, veio nos
chamar. Seu filho ardia em febre. Tomamos a primeira providência: um
banho frio. Pedi a Val para chamar Igor e doutor Lajos. Perguntei há
quanto tempo a criança estava com a febre. A resposta: três dias.
Perguntei o porquê de não terem falado, principalmente o marido, que
está com Igor nas vinha o dia inteiro.
A resposta: para não incomodar.
Depois de doutor Lajos tranqüilizar a todos dizendo que se tratava de
caxumba, saí com Igor; ele amargurado a falar: - Você ouviu a
resposta a sua pergunta? Para não incomodar! Eles pensam que o que faço
é um favor. Como eles podem ser respeitados, se eles não se respeitam?

Acertamos, então, com ele que todos os dias faria uma visita às casas
da redondeza, para falar da escola.

O carisma dele brilha como o sol de verão.


É impressionante. Há quase uma semana estou indo às casas das
redondezas.
Eles vêem o mundo por um ângulo diferente, ouvindo suas histórias dá
para compreender.
São pessoas tão sofridas; a maioria veio de terras onde trabalhavam
como verdadeiros escravos.
Quando Igor se fixou aqui, na casa de campo, correu a noticia no lago
que existia um conde justo.
Essa gente veio, trazendo a esperança de melhoria, mas não acreditando
em si mesma, nem em seu trabalho e sim no Sr. Conde. Ao falarem de Igor
fica-lhes estampado no rosto a admiração.
Sempre falo no esforço conjunto, que Igor quer ajudar, mas o esforço
tem que ser de todos.
A escola fica como um exemplo real.
Vamos todos ajudá-lo a fazê-la.
Eles olham-me, incertos.
Hoje, sinto-me vitoriosa e estou a sorrir sozinha.
Entro em casa pela cozinha. E lá está ele, sentado no banco, vira-se.
Olhos negros, tão belo. Fala como o sol está quente, meu sol à minha
frente; que a máquina emperrou novamente.
Conto a ele o que acabara de ouvir da esposa de Ferene: “Acho que o que
o Sr. Conde quer é que sejamos capazes de ver o mundo por nossos olhos”.
Estamos no começo de uma caminhada.
O Visconde não chegará na data prevista.

Tarde bela.

Estou na biblioteca lendo, mas vez por outra meu olhar vai às taças.
Deixo o livro na escrivaninha e vou à estante, onde elas estão.
Toco suas bordas. O que vocês trazem?
Respiro fundo... E vejo a moça. É ela!
Está no lugar em que sonhei, está numa cama.
Ela está deitada e suada... Ela está doente.
Tem febre! Sei que é febre. Quem é ela?

Entardece.
Por que vejo essas coisas?
Quem é essa moça?
Já aconteceram outros fatos tocando fundo minha sensibilidade. Mas nada
assim. Minha sensibilidade leva-me a ela?
É só com pessoas chegadas a mim. Como explicar a aparição dessa moça?
Qual sua ligação comigo? Minha sensibilidade leva-me a ela?
Ela parece doente, muito doente. Talvez morra.
Sim, eu sinto que ela está muito doente, e que pode morrer!
Meu coração dispara... Posso viver sem Igor?
Diabo, Natasha! O que tem a ver uma coisa com a outra. Meus pensamentos
nesse momento se confundem.
Posso viver sem Igor?
Sinto várias respostas chegarem a mim. É evidente que sobreviveria sem
ele, mas ele é a vida, o colorido da vida. Qual a razão da vida sem
ele? Minha razão afirma, sobreviveria. Mas meu coração: sobreviveria?!
Tenho que saber!
É tão grande e tão forte esse amor. Este amor é o que sou.
Posso tocar o céu, posso tocar os pássaros. Posso tocar sua alma, seu
ser... Pois a amo. Um amor infinito que irá durar para sempre e sempre.

Posso viver sem Igor?


Vem-me uma angústia enorme que vai aumentando mais e mais! E por quê?
Por que estou a me perguntar isso? Por que estou a sentir isso?
Sinto minha fragilidade, meus temores.
Quero correr a ele, abraçá-lo. E por que não?
Corro pelas escadas.
Corro até a fábrica.
Igor está?
Boa tarde, senhora. O Conde está nas vinhas.
Obrigada.
Corro às vinhas, fico nas pontas dos pés para ver se o vejo.
Lá está ele, senhora.
Dou-me conta, então, de que o homem me acompanhou. Agradeço.
Vou andando, a vontade é de correr.
Lá está ele agachado olhando alguma coisa, corro até ele, ele se volta:
Natasha?
Levanta-se sorrindo, toco seu rosto e o abraço apertado.
- Aconteceu alguma coisa? Você está bem?
Ele me afasta, pela cintura, para me olhar.
O que houve?
Saudades.
Ele me aperta forte; a segurança me invade.
Acho que não é só isso. Quer falar-me?
Aceno com a cabeça.
Não sei se posso viver mais sem você.
Seus olhos, que mostravam preocupação, ficam estranhos.
Não sei se posso viver sem você. Você sabe o que é isso? Pode me
explicar.
Deu-me uma angústia, uma dor no peito e corri para cá. Por que estaria
a sentir isso?
Falei-lhe das taças e das impressões que sempre me assaltam ao vê-las e
tocá-las. E a sensação de perda. Excede: a perda de não estar com ele.
Seu olhar fica mais estranho, ainda.
Abaixo a cabeça, ele levanta meu rosto, fico a olhá-lo, e vem sua voz
grave:
De que você tem medo?
De não conseguir viver sem você. Sei que, talvez, seja uma bobagem. Mas
neste momento precisava vê-lo, senti-lo.Você pode me ajudar?
Ele beija meus dedos, um a um, depois aperta minha mão segurando-a e
saímos andando.
Entramos na fábrica, ele fala com alguém. Estou a observá-lo, ele está
sério.
Novamente, pega minha mão e saímos calados.
Minha angústia se dissipa pelo simples fato de estar com ele!
Sentamos no tronco de uma árvore; o sol morre, a noite chega.
Olhe para mim.
Volto-me para ele, sorrindo. Ele continua sério. Olha-me como se
quisesse ler meus pensamentos. Sua voz é grave:
Por que você tem tanto medo de me amar?
Pega-me de surpresa, meu sorriso some.
Eu? Medo de amá-lo? Não tenho medo de amá-lo.
Mas, por que essa pergunta?
Sua seriedade continua.
Responda-me, Natasha.
Estou lhe respondendo, Igor. Não tenho medo de amá-lo! O que você quer
dizer com isso?

Ele fica à minha frente; balançando a cabeça.


Tem. Você tem medo. Vou falar o por quê. Você perguntou a si mesma se
poderia viver sem mim. Você estabeleceu dois pólos: a vida e o amor.
Qual é o mais forte?
Existe em você uma diferença onde deveria existir uma união.

Espere, não é bem assim. Dei-me conta de que minha vida é você.

Onde está seu medo, Natasha?


Sua vida é sua vida. Embora eu afirme: Minha vida é você.

Olho para ele, confusa.


Igor... Se minha vida é minha vida, como você afirma que sua vida sou
eu?
Quem está colocando a diferença é você, não eu!
Seu olhar penetra no meu ser com uma intensidade que faz meu coração
acelerar.
- Natasha, quando um homem se rende ao sentimento, pois se vê
diante de algo ilimitado quando o homem vê dentro de si, perplexo,
este sentimento o impulsionar, nutrir e gerar a força; quando o homem
descobre que o amor é tudo, toma consciência de que o amor é vida, e
vida é amor.
Meu amor entrego a você, senhora da minha vida, pois a amo.
Se minha vida é você, por que eu me perguntaria se posso viver sem você?
Pelo óbvio, você ainda tem medo de me amar. E eu te pergunto, por quê?

Fecho os olhos. É claro! Existe em mim o medo, eu ainda temo.


Ele passa os dedos no meu rosto e fala suave:
O que ainda a faz temer?
Gostaria de saber. Porém senti uma angústia tão forte, ainda há pouco,
que só passou quando estava a seu lado. Você me faz ficar solta, livre.
Tenho consciência do meu amor, mas não no sentido amplo como você.
Há, dentro de mim, um pedacinho de medo, medo de me machucar.
Insegurança.
Sabe o que ocorre? Vejo e sinto a imensidão do nosso sentimento.
Constato: estou vivendo tudo isso. Não é um sonho, não é uma fantasia,
é um fato, que vivo dia após dia. Aí temo. Temo perdê-lo, temo que o
amor acabe.

Ele me envolve nos seus braços, calor amado, beija minha nuca e fala:
Eu jamais deixarei você, nunca! Você não acredita no eterno?
Afasto-o e olho para ele.
Quem me garante? O que sinto é vivo por demais, mas quem me garante que
é duradouro, que é eterno!

Você terá que se garantir.

Toco seu rosto, passo os dedos por entre seus cabelos.


Amado, a força é essa sensação que sinto? Sim, eu sinto que é. Eu tenho
que me render, não é?
Há tanto e tanto a aprender!

Não, vida, há muito a sentir. Mediante o que sente, a intensidade do


que se sente, aí sim, somos como forçados a admitir que existe uma
força maior, em nós mesmos.

Por que sinto o temor? Se vivo dia após dia o amor. Sim, vivo, a cada
momento, este imenso sentimento. Daí vem: é duradouro?
Ele dá um leve sorriso e fala: - Eu a amo, falo que o que sinto
perdurará, porque é assim que quero, é minha vontade.
Será assim sempre. Por que você iria me perder? Se eu não quero deixá-
la.
Como isso seria possível?
Natasha, o que quero é estar sempre, eu falo, sempre, eu afirmo, sempre
com você.
Se temos algo por demais valioso, onde estaria nossa sensatez para
perder.
Há tanto a partilhar. Até o medo faz parte da descoberta, só não o
deixe tomar grandes proporções. Focalize e sinta a força. A força
vinda do sentimento.Entraram emoções passageiras como os pensamentos;
sinta o amor.
Eu estarei com você e farei o que for necessário para você estar serena
e tranqüila.

Abraço-o, sorrindo, passo as mãos no seu pescoço e falo baixinho:


Você seria capaz de viver sem mim?
Ele sorri, balançando a cabeça:
Ah! Natasha, Natasha... Amor é vida, vida é amor.
Você é o ar que respiro.
Posso até passar sem sua presença física, mas sem o teor desse
sentimento que tenho por você, por ser você, sendo você, não!

E vem num beijo intenso, aperta-me num abraço.


Ficamos a ver o céu estrelado...

***

Junho.
Noite de lua cheia.

Estou à frente do espelho, meu vestido é lindo.


Nunca vesti algo tão luxuoso, está perfeito!
Misca tem mãos de fada. Ele é de cor champanhe; com rendas num tom mais
escuro. São várias saias. Estou bonita, seria falsa modéstia se
dissesse que não.
Meus cabelos estão penteados como no casamento, Misca fez um arranjo
com flores pequenas, cacheou as pontas do cabelo.
Dou uma volta para ver-me mais: nossa, Natasha, você está uma dama!
Minhas mãos tremem. Que é isso? É apenas uma festa.
Como ele me achará?
Foi à tarde para Badacsony, a pedido da Condessa. Foi de má vontade.
Natasha, você está muito bonita, espere até Igor vê-la. - falo comigo
mesma.
Vem-me aos lábios um sorriso.
Imagino a felicidade dele quando lhe contar que espero um filho.
Instintivamente passo a mão no ventre.
Um filho, Igor ficará louco de felicidade!
Queria tanto ter-lhe contado antes da festa, mas não podia imaginar que
sua mãe iria chamá-lo.
Bem, Sr. Conde, a notícia fica para depois da festa.
Ele vez por outra fala: - Quero ter muitos filhos, amada.
Homem, ficarás feliz!
Um filho, nosso filho. Vem o sorriso.
Nossa Senhora! - a admiração de Misca me assusta.
Está linda! Minha menina... Divina!
Sorrio para ela que me rodeia com a mão na boca.
Não exagere! Diga-me se estou de acordo com a ocasião. Você já viu
várias festas.
Se você está de acordo? Você vai deixar aquela gente nos seus pés, eles
vão ter o que falar para o resto de suas vidas. E quando ele a vir?
Você é a luz da vida dele. Foi até bom ele ir antes. Daria tudo para
ver o semblante dele quando for recebê-la. Nossa, isso eu queria ver! –
Misca continua:
Mas tenha cuidado! Existem víboras espalhadas nessa festa. Você, minha
menina, será a grande estrela da noite. Não permita que nada a
intimide. Krisztina está lá; ela é a réplica da Condessa. Seus lábios
podem sorrir, mas não seus olhos. Ela o quer de qualquer maneira. -
Misca se aproxima mais de mim, falando baixo, como se alguém pudesse
ouvi-la.
Vou lhe confessar uma coisa: naquele dia que a Condessa esteve aqui,
fiquei a ouvir tudo, pois tive receio de que poderia precisar de mim, o
que não foi o caso, pois você se saiu muito bem. Mas não acredite no
que a Condessa falou, que a pobre Krisztina só faz chorar. Ela deve
estar se mordendo de raiva, e com isso chega a chorar. Mas ela o tem na
mente. Portanto, cuidado! Não permita que tirem essa sua serenidade.

Olhando para ela pergunto: - Como ela é?


Uma beleza sem graça, típica da corte. De uma brancura cor de leite,
olhos cinza, cabelos loiros e é muito arrogante. Seu pai está falido,
mas, ela se comporta como se fosse riquíssima.
Muito bem, Misca, estou pronta. Igor ficou de mandar uma carruagem, já
chegou?

- Já, como também Mikail. Você não irá reconhecê-lo.


- Mikail?! Igor deve ter-lhe pedido para acompanhar-me.
Misca ri baixinho e balança a cabeça.
Ele sabe onde está pisando. Sabe que Mikail lhe dará segurança.
Ele pensa em tudo. Misca, amanhã tenho uma surpresa para lhe dizer. E
não adianta me perguntar agora!
Olho-me, novamente, no espelho. Aparentemente, tranqüila, mas as mãos
frias. Você está bonita, Igor irá se orgulhar de você. Ora, que
bobagem. Igor não iria se orgulhar de mim pelo meu traje, e sim por
minha segurança. É este o toque que me falta: segurança. Mas, ao passar
a mão no ventre me invade uma grande serenidade. Nosso mundo é aqui, e
esta festa somente um acontecimento social.
Ao descer as escadas, não acredito no que vejo: - Mikail! Você está
elegantíssimo!
Ele se volta, pois olhava um quadro seu na parede. Fica parado a olhar-
me.
Você está linda, linda como uma tarde de primavera!
Você, meu amigo, está muito bem vestido. Que bom irmos juntos. Temos
tempo para um chá?
Enquanto tomamos chá, pergunto a ele sobre o que se vê nessas festas.
Vamos ver várias pessoas estranhas, algumas interessantes, outras
inquietantes; uma grande mistura. O comando estará sob as rédeas da
Condessa e de Igor.
Como espectador, parece-me interessante. Sei do desagrado do meu amigo
nessas horas.
Você sabe o que é um leão enjaulado? É como estar vendo Igor
nessas ocasiões. E o alívio estampado no seu rosto quando as pessoas
estão se despedindo.

Penso comigo mesma, sei como ele fica: com ar irritado, enquanto seu
outro extremo brinca, ironicamente. Mikail continua:
Mas hoje a conotação é diferente, há uma seriedade com a presença do
Visconde.
Coloco um pouco mais de chá e falo:
Temo por ele. Por ser tão verdadeiro. Sei onde pode chegar se instigado.
Existem pressões contra Igor dos dois extremos. Gente da corte e os
nacionalistas húngaros. Mesmo tendo ele uma visão ampla e autoridade, é
também, sincero e bastante honesto, principalmente, se for provocado.

Natasha, temos dois motivos para esta festa: a chegada do Visconde, e


você. A cidade em peso quer conhecê-la. Você pode contornar a situação.
A Condessa irá colocar panos frios, só que frios demais. Ela passará
para o Visconde uma história irreal. Se ele for inteligente, não
acreditará. Ao mesmo tempo, a Condessa não convidou nenhum
nacionalista. Ela não correria esse risco.

Sei, Mikail, que a Condessa dará uma idéia que tudo corre às mil
maravilhas. E afirmará que nosso senhor é o Imperador. É inteligente
para desviar qualquer assunto comprometedor.
O amor de Igor pela Hungria é incontestável, mas de uma maneira sadia.
Seus princípios são fortes; ele é capaz de abrir a boca e falar de
coração, ou mesmo, é inteligente para saber que se falar demais poderá
comprometer todos os seus planos. Não sei, todavia, se ele irritado, é
capaz de ficar calado.

Mikail olha-me atento e fala:


É por isso que digo que você tem que estar perto. Você o conhece o
suficiente para saber quando deve interferir. Por sua vez, o Visconde
veio sondar, ele não veio comprovar. Irá ouvir um pouco daqui e dali.
Muito bem, está na hora de irmos.

Despeço-me de Misca, que faz mil recomendações.


Saímos, a carruagem preta está a nossa espera. O cocheiro vestido para
a ocasião, dá-me uma noção do que me espera. Entramos e aceno para
Misca.
Você está nervosa, Natasha?
Um pouco. Quero fazer-lhe uma pergunta. Como é Krisztina?
Mikail me olha sério e responde:
Nada que possa ameaçar você.
Misca fala dela como sendo uma pessoa fútil e venenosa. Mas sabemos o
quanto Misca, é exagerada.
Krisztina é assim. Mascara todos seus sentimentos num perfil angelical.
Se comparar, teremos uma natureza-morta, com um amanhecer vivo e
esplendoroso.
Sorrio e falo:
Sua visão das festas é totalmente diferente das de Igor. Criativo como
é, tudo pode ser motivo de inspiração. Uma visão de espectador, como
você mesmo colocou. Onde as cenas, e rostos ficam presos na sua mente
para uma análise, não é?
Ele ri e responde:
Quando falo que você é de uma sensibilidade e inteligência raras, eu
não minto. Você, também, analisa tudo, com muita sensibilidade. É
incrível, estou tentando acabar uma tela sua, aquela que você está
sentada às margens do lago. Mas falta um detalhe: no momento em que
pintava seu rosto, seus pensamentos estavam distantes, e seu olhar se
ausentou, sua fisionomia excedia.
Recordo-me bem, realmente meus pensamentos estavam longe. Recordava um
sonho, um lugar que nunca estive. Chegamos! Mikail.
A casa da Condessa está iluminada, olho pela janela, é realmente um
palacete. Sinto a mão de Mikail na minha e fala: - Vai dar tudo certo.
É o que espero, Mikail. Só mais uma coisa, não me deixe sozinha por
muito tempo.
Claro, pode contar comigo.

A porta da carruagem é aberta, um tapete vermelho vai da calçada até a


entrada da casa. Casa? Isso não é uma casa, casa é a nossa. À frente
desse palacete, grandes arranjos de flores. Desço da carruagem, Mikail,
em pé, me espera e me dá a sua mão.
Subimos alguns degraus até a entrada principal.
À porta... Pensei estar preparada para tudo. Nunca vira um lugar tão
luxuoso, tão rico.
Olho, espantada, para Mikail e tento voltar a mim.
Um lustre enorme de cristal com velas trabalhadas está acima de nossas
cabeças.
O teto é todo trabalhado, todos os contornos em dourado.
Sinto uma leve tontura em pensar: Este é o lugar da Condessa, e foi ou
é ainda, também, de Igor!
Um homem, vestido de vermelho, bate com um cajado prata no chão três
vezes, e nos anuncia.
Olho para baixo. Um imenso salão, também ricamente decorado.
Terei que descer alguns degraus. Mais de cem pessoas lá embaixo param
de falar e se voltam para nós. Não consigo distinguir ninguém. Que Deus
me ajude!
Os segundos são arrastados...
Volto o olhar para baixo, então o sangue volta a correr novamente.
Avisto Igor, é ele.
Estava de costas, mas voltou-se rapidamente. Nossos olhos se encontram.
Como está bonito! Veste-se, formalmente, de preto.
Ele sai do meio das pessoas e vem em direção às escadas.
O mundo pára, o tempo pára; só existe ele, o mago. O brilho intenso nos
olhos me esquenta, envolve-me.
Homem, é nos teus olhos que me acho, que há vida.
Ele chega a meu ouvido:
- Vida! Quer fugir comigo? Dividi-la, é puro desperdício... Está linda!
Sorrio, agora tranqüila.
Boa noite, Mikail, obrigado por ter vindo. Vamos descer.
Ele pega meu braço e descemos os degraus; a Condessa se aproxima.
Está lindíssima!
Obrigada, senhora!
Há muitas pessoas querendo conhecê-la, mas teremos tempo para
apresentações. Devo-lhe dizer que estou impressionada com o seu bom
gosto. Mikail é um prazer tê-lo conosco.
Não ouço a resposta de Mikail. Volto-me para Aurel, que fala
afetuosamente comigo; em seguida, sou apresentada ao Visconde, um homem
baixinho, jovem, ainda, com um enorme bigode.
Enquanto trocamos formalidades, sinto um forte olhar em mim. Krisztina,
tenho certeza que é ela.
Olho para o lado, a descrição confere; loira, seus olhos acinzentados,
contém hostilidade.
Mas não é dela que sinto o olhar: junto a Krisztina vejo a senhora que
estava com Igor na tarde em que brigamos. A mãe de Krisztina é que me
chama a atenção.
Alguma coisa, vida?
Pode ficar tranqüilo.
Qualquer coisa, chame-me.
Estou cercada de pessoas.
A Condessa me apresenta, não consigo sequer juntar o nome às pessoas.
Vejo Igor distanciar-se com o Visconde e sorrio para tranqüilizá-lo.
O salão em que estamos é enorme. O bom gosto é visível em todos os
detalhes, mas a sofisticação não condiz com Badacsony.
Músicos se instalam num tablado no momento em que homens,
uniformizados, começam a servir alguma coisa em bandejas ornamentadas.
As cenas são rápidas na minha cabeça.
É evidente que cada detalhe foi estudado pela Condessa.
Ao pensar nela, sinto sua mão no meu ombro.
Quero que conheça a senhorita Krisztina.
A minha frente, a moça num vestido azul. A cor dos seus olhos é
belíssima, mas a expressão do olhar, como a das faces, é de ansiedade e
de agressividade.
É um prazer conhecê-la.
Ela esboça um sorriso.
Esteja certa que o prazer é todo meu.
Krisztina, onde estão seus pais? Eu não os vejo.
Ah! Condessa, minha mãe foi para o jardim.
Então, dê-me licença que irei até lá. Natasha, Krisztina pode lhe dar
qualquer informação ou ajudá-la, pois é praticamente da família.
É a primeira vez que a Condessa pronuncia meu nome. Indago a mim mesma
se a mãe da moça está lá fora ou se realmente foi uma desculpa da
Condessa para me deixar sozinha com Krisztina. Que importância teria?
Está gostando de Badacsony?
Gosto de toda esta região do lago.
Deve ser muito difícil a uma pessoa que tanto viaja adaptar-se a um só
lugar, não é?

Sei aonde ela quer chegar.


As dificuldades existem para ser superadas. Posso lhe dizer que estou
bem adaptada.
É. Sua adaptação é mais fácil porque está no campo. Talvez mais difícil
fosse morando aqui, com pessoas civilizadas.
Acho Igor uma pessoa extremamente civilizada.
Ela fica vermelha. Que conversa sem sentido, mas ela continua.
Não falava de Igor, e sim das pessoas que o rodeia. Mas ele faz
determinadas coisas só para desagradar sua mãe. Sempre foi assim.
Não. Acho que ele faz “determinadas coisas” não somente para desagradar
a Condessa, mas porque é assim que ele pensa e quer. Ele é autêntico,
não o vejo com atitudes infantis para chamar atenção de ninguém.
Seus olhos perderam o tom cinza, e passaram a verde. Olho em volta,
como vendo um meio de sair dessa conversa desagradável. Mas ela toca no
meu braço e continua.
E o que me diz do seu casamento?
Não estou entendendo sua pergunta, senhorita, pode ser mais clara?
Seu casamento a todos parece uma forma de rebeldia dele contra os
valores da Condessa.
E para a senhorita, o que é?
Ela enche-se de ar. Espero que ela despeje logo sua raiva, pois estou
enjoada com esse tipo de conversa.
Igor é muitíssimo inteligente. Casando com você ele pode convencer sua
gente de que é um homem sem preconceitos, que tem suas próprias metas.
Veja que coisa mais convincente, senão o de casar-se com uma moça
humilde. Ele se alia aos humildes e se iguala. Não quero chocá-la com
minha opinião, mas deve entender que conheço Igor desde criança.
Conheço-o tão bem, que sei, exatamente, ter sido isso que ele planejou.

É muito interessante saber que essa é a visão que vocês têm dele: um
manipulador, usando as pessoas. Acho que deve fazer uma reavaliação
sobre seu conhecimento a respeito de Igor.

Passa uma bandeja com ponche, pego um copo e ela também, suas mãos
estão trêmulas. Ao pegar o copo, vejo Igor a minha direita. Ele sorri,
tenho certeza que ouvira nossa conversa, simplesmente por sua maneira
de olhar.
E ela continua a falar, só que em voz baixa e em tom ameaçador.
Natasha, você não me conhece. Sua vida será um inferno, tenho muitos
aliados, enquanto você é uma pessoa sozinha aqui.
Deus meu, esse assunto não acaba? Já não tenho a menor paciência.
Outro grave engano seu, o fato de estar sozinha aqui, não me intimida
em nada. E, quanto a aliados, eu tenho um, que para mim, vale por todos.
Sinto a mão de Igor no meu ombro.
Igor, você está de parabéns. Natasha é uma moça muito bonita.
A voz de Krisztina perde toda agressividade. Igor olha-me pelo canto
dos olhos.
Concordo plenamente.

Ouço a voz da Condessa, e, pela primeira vez, gosto de vê-la chegando,


pois não agüentava mais ouvir Krisztina. Ela chega com os pais da moça.
São feitas as apresentações, mas não escuto o nome deles, pois os
músicos começam a tocar. O pai da moça conversa alguma coisa com Igor,
viro-me para a mãe de Krisztina, ela tem o olhar insistente em mim. Não
existia raiva em seus olhos. O pai de Krisztina convida a Condessa para
dançar.
Igor, você poderia dançar essa musica comigo. Você não se incomoda, não
é Natasha?
De maneira alguma.
Sorrio ao ver seu rosto contrariado.
Desculpe-me, seria possível ir até o terraço, dos jardins, comigo? Não
me sinto muito bem em lugares com muita gente, faria questão?
Acho estranho, será que essa senhora quer deixar a filha sozinha com
Igor, sem minha presença? Mas eu, também, preciso de ar puro.
Solto uma exclamação involuntária ao chegarmos ao jardim, o terraço é
todo de mármore e termina num belíssimo jardim, com algumas estátuas
entre os bem cuidados canteiros.
O perfume das flores chega a mim. Olho para ela que, com ar simpático,
senta-se numa cadeira de ferro e acena para sentar-me a seu lado.
Você gosta da natureza, não é?
Muitíssimo, faz parte de mim.
Ela se mexe na cadeira e fala.
Desculpe o inconveniente da minha filha.
Eu digo-lhe que não tinha que se desculpar. Ela é uma mulher fina e
muito bonita, seus cabelos têm poucos fios brancos.
Natasha é um lindo nome, quem lhe deu?
Minha anya.
A senhora pega as pregas do vestidos e pergunta-me se sou feliz aqui.
Olho bem para ela e respondo que sou extremamente feliz.
E sua família?
Onde essa senhora quer chegar? Sondar-me para dar informações para sua
filha? Que o seja, eu não tenho nada a esconder.
Minha família, como a senhora deve saber, é cigana, e está em Tihany.
Viajaram todos logo depois do nosso casamento.
Você deve sentir muita saudade de seus pais, não é?
Muita. Somos muito apegados.
Ela respira profundamente, e pergunta.
Qual o nome de sua mãe, Natasha?
É a primeira vez que alguém pergunta o nome de anya. Chego a achar
engraçado.
Lorna, minha anya, chama-se Lorna.
A senhora tosse nervosa, seu olhar se perde no meu rosto e depois se
distancia e repete o nome de anya. Ela está pálida. E falo-lhe que irei
chamar alguém. Ela segura minha mão e nega com a cabeça e fala:
Não, por favor... Eu lhe falei que não me sinto bem em lugares com
muita gente. Fale-me da sua família. Você tem irmãos, avós?
O que vou falar-lhe; é visível que ela não passa bem, porém talvez, o
mal-estar passe logo.
Tenho um irmão mais velho que eu, chama-se Andrei, que era o nome do
meu avô...
Senhora... Por favor, vou chamar alguém! Espere-me um pouco.
Não lhe dou tempo para responder; levanto-me e vou ao salão, vejo
Mikail e aceno chamando-o.
Explico-lhe o que ocorre, ele vem ao jardim comigo. Encontramos a
senhora com um pouco mais de cor na face. Ela nos sorri, como
mostrando-nos que estava bem. Mikail oferecesse para chamar-lhe o
marido. Ela nega e pede-lhe, por gentileza, uma água. Sento-me a seu
lado.
Seus cabelos têm a mesma cor que seus olhos. Conheci alguém assim.
Ela levanta a mão trêmula e alisa meus cabelos, fico constrangida
embora seu gesto fosse carinhoso e gentil.
Você é muito bonita, Natasha; transmite muita serenidade. E de todo
coração desejo toda felicidade a você e Igor.
Ia responder-lhe, mas Mikail chega com a água. Por mais estranho que
pudesse parecer, sentia sinceridade nela. Observo-a, enquanto ela toma
a água. Delicada, gentil e bonita. Seu nome é Elizabeth.
Em seguida, chegam Igor e Krisztina, seguidos da Condessa, o pai de
Krisztina, e o Visconde que elogia a festa. A conversa ganha um sentido
banal, fico ouvindo-o falar da corte, Krisztina não consegue tirar o
olhar de Igor. Vez por outra, sou levada a olhar a senhora Elizabeth.
Que conserva um olhar carinhoso. É como Mikail falou: uma grande
mistura de pessoas, de intuitos.
É um mundo estranho para mim. Olho para Mikail, que sorrir; ele, sem
dúvida, faz o mesmo: observa.
É servido vinho, o Visconde ergue a mão e fala:
Pelo nosso Imperador, pelo Império Austro-húngaro!
Um frio percorre minha espinha, olho rapidamente para todos, que estão
em volta. Todos brindam, exceto Igor que fala: - Pela Hungria!
O Visconde faz que não ouve, o clima fica tenso. A Condessa chama o
Visconde para mostrar-lhe algo. Aurel chega-se a Igor e praticamente o
implora para não provocar nenhuma discussão política. Krisztina e seus
pais continuam sentados. Eu, Igor, Mikail e Aurel, em pé.
Logo em seguida, a Condessa volta com o Visconde que tem um olhar
intrigado. Além de atento, inverte o jogo puxando conversa comigo.
A senhora está gostando de morar aqui?
Muitíssimo Sr. Visconde.
É uma nação muito bonita, pena que não possa vir com mais freqüência
até aqui. O Império Austro-húngaro é de todo muito bonito, sua gente,
apesar da diferença de língua, é uma gente única. Somos uma nação
imponente, um único território, uma única visão, não é Igor?

Depende do ponto de vista, Adolfo.

A conversa tem outro rumo perigoso. Estrategicamente, o Visconde me


pergunta:
Qual o seu ponto de vista? Como nos vê. Pergunto isso por não ser daqui.
Está mais que claro que ele não queria uma confrontação direta com
Igor, por isso, está a me usar.
Ele sabe o que pensam a Condessa e Aurel. Pergunta a mim, eu poderia
ser ingênua o suficiente para entregar os conceitos de Igor ou levar o
próprio Igor a intervir na conversa. “Pense, rápido Natasha. Pense
rápido”.
- Sr. Visconde, o senhor, por ventura, já viu um pôr-do-sol aqui no
lago Balaton?
O homem balança a cabeça sem entender nada. Krisztina coloca a mão na
boca para conter um risinho. Os demais me olham intrigados, continuo:
Pois bem, tente vê-lo, é uma visão magnífica, onde ninguém fica imune.
A cor do céu é diferente, o lago reflete essa tonalidade. Pela primeira
vez, na minha vida, começo a ter um sentimento de amor a um lugar. Já
conheci diversos lugares e gostei de muitos, mas não a ponto de ter o
sentimento que hoje tenho. Existe o sabor de achar-me em casa. Admiro
esta terra e sua gente. Não posso falar o que não sinto, conheço a
Áustria e acho-a belíssima.
Mas ao abrir minha janela, a cada manha, respiro a Hungria e seus
costumes. Seu cheiro se torna rotina e é inconfundível.
Meu ponto de vista em relação a sermos um único território, uma única
gente, ou ao Império Austro-húngaro seria parcial, pois vivo numa
parte. Para um ponto de vista real teria que ser imparcial. Ao lhe
perguntar se o senhor já viu um pôr-do-sol no lago Balaton e o senhor
diz que não, fica difícil afirmar que somos uma unidade, se não se
conhece o todo.
Eu creio que o tocante de cada ser humano está no que sentimos, no
prisma de nossa visão. A mim, o pôr-do-sol é importante e, talvez, não
seja para os demais. Portanto, a meu ver, fica difícil colher uma
opinião sobre um assunto que suscita tanta divergência.

O Visconde fica a me olhar e tenta um sorriso. Nos olhos de Igor o


brilho é intenso. Mikail sorria e nossa troca de olhar reafirma o que
falamos no inicio da noite.
Está certíssima. O tocante de cada ser humano está no prisma de sua
visão. Muitas vezes temos uma visão distorcida, onde pensamos que
estamos certos, a fazer o correto ou o bem, mas na verdade, estamos
complicando.

Não entendo o que você quer dizer ou aonde quer chegar, Adolfo.
Pergunta Igor intrigado.
Simples, amigo, muitas vezes estamos imbuídos de altos ideais e estamos
fazendo o que pensamos ser melhor quando, na verdade, complicamos.
Igor solta seu riso e fala:

Se o Imperador o ouvisse, meu caro, você estaria em maus lençóis, não


sabia que seu julgamento era esse.

Olho, preocupada, para Igor. Ele sabia que não era isso o que o
Visconde, queria dizer.
Você sabe que não é sobre o Império que estou falando.
E sobre o que é?
A suposta ingenuidade de Igor não convence a ninguém. Aurel precipita-
se e convida a todos para irmos para o salão, a Condessa manobra
dizendo que tem que dar atenção aos convidados. No entanto, Igor
permanece no mesmo lugar, e o Visconde também fica imóvel. A Condessa
me chama para outra apresentação. Saio com o coração na mão. Suplico a
Igor com olhar, ele apenas sorri tranqüilo.

A Condessa me leva para junto de Dr. Lajos. Esta é, sem duvida, uma
agradável presença. Conversamos por alguns instantes, mas meu
pensamento está preso no terraço, onda ele está.
De onde estou, dá para vê-los. Vejo Igor balançar a cabeça...
Peço licença ao Dr. Lajos. Saio e três passos à frente a Condessa pede-
me para acompanhá-la.
Entramos numa saleta, ela aponta uma poltrona e senta-se na minha
frente.
O que ela quer comigo, não vê seu filho com o Visconde?
Devo dizer-lhe que você parece convincente.
Não estou entendendo, senhora.
Sua conversa com Adolfo. Mas já sei o quanto é inteligente, e isso não
há o que discutir.
Eis a grande diferença entre você e Krisztina. Ela não tem seu
raciocínio. Mas, depois de ver ambas, queria estar com você a sós para
dizer-lhe sobre o meu julgamento. Em resumo, você não é a pessoa certa
para meu filho.

Devo admitir, que você tem grandes qualidades. Mas beleza e


inteligência não fazem de você a escolha certa. Falei, na casa de
campo, de que não adianta discutir sobre a escolha dele, pois já
estavam casados. Até ainda há pouco eu só queria conhecê-la melhor e
agora estou apta a isso. E afirmo que você não é a pessoa adequada para
ele. Pegando pelo extremo, você só servirá para acentuar as idéias
rebeldes de Igor, e isso é o pior que poderá acontecer com ele.

Estou perplexa com tudo que ouço, e pergunto;


E o que a senhora pretende fazer?
Ela dá um pequeno sorriso e fala:
Até hoje ouvi as lamurias de Krisztina, ficando calada, pois queria
conhecê-la e depois ver seu comportamento junto a Adolfo. Tinha certeza
de que faria uma boa atuação.
A escolha certa é Krisztina. Sendo assim, vamos tentar nos acertar.
Você pode deixar meu filho de uma forma lucrativa. Qual o seu preço?

Sinto-me como esbofeteada. A vontade é levantar e sair, mas não consigo


mexer-me.
Quanto à senhora acha que valho? A senhora tem noção do que esta
fazendo?!!!
Plena. Tenho algo que você não tem, o poder. O poder pode com tudo, eu
posso acabar com uma pessoa ou fazê-la ser aceita em qualquer lugar.
Em síntese, posso acabar com você, mas estou lhe dando uma chance...
Espere, deixe-me falar.

Estou há anos vendo Igor seguir uma trilha que não é boa nem para ele,
nem para nenhum dos nossos. Tenho feito vistas grossas, só que isso
está indo longe demais. E, agora, penso em tudo que adquiri, está
ameaçado. Fui, inúmeras vezes, à corte consertar o que falam dele. Só
que isso é como um balão, que poderá estourar cedo ou tarde. E você não
é uma pessoa que posso ter como aliada. Tem raciocínio suficiente para
ter suas próprias idéias e concepções. Igor já é suficientemente
ideólogo; capaz de realizar tudo que se propõe. Aliado a você, só Deus
sebe aonde ele ira chegar. Sei o que está pensando, ele não precisa de
ninguém para seguir em frente. Mas se você fosse o tipo que o fizesse
mudar de idéia! Só que não é. Não que é uma coisa fácil, e eu, mais do
que ninguém, sei o quanto tudo isso me custará. Só que, o que está em
jogo, além dele, sou eu mesma. Minha vida é aqui. Aqui construí meu
domínio, e não quero ter no meu filho meu inimigo.

Tomo fôlego e pergunto:


Responda-me, senhora: como fará para Igor aceitar Krisztina, e o que
irá fazer para ele desistir de seus ideais.
Ela novamente ri e fala:
Não sou tola e não jogo no incerto, menina. Sei que Igor jamais amará
Krisztina, mas isso cabe a mim.
Não quero que me responda agora, pense em tudo o que estou lhe dizendo.
Posso fazer de você uma mulher rica e independente, até ser aceita.
Longe do meu filho, longe daqui. Posso realizar qualquer coisa que você
deseje, menos que fique ao lado dele.
Afirmo-lhe que não tenho nada contra sua pessoa. Acharia, até,
interessante tê-la conhecido por outros meios. Até mesmo se você fosse
a esposa de Aurel, mas não de Igor. É uma junção perigosa. E não posso
ficar indiferente a isso, principalmente, porque a grande prejudicada
serei eu.

Outro detalhe: não caia na tolice de comentar com Igor.


Por uma razão palpável eu usarei, em última instância, ou seja, no caso
de você insistir em ficar com ele, uma carta do próprio Igor, na qual
ele mostra todas suas idéias nacionalistas. Eu mesma a levarei ao
Imperador.
Você deve imaginar que sou uma desalmada, mas não sou. Prefiro meu
filho longe de mim, recluso por um tempo a perdê-lo como um traidor, ou
eu perder o que construí até hoje. É simples, chego ao Imperador
dizendo que Igor está sendo influenciado por essa corrente ideológica
daqui e peço a ele para extraditar meu filho, ou prendê-lo por um
tempo. E pode estar certa de que ele me ouvira. Não é à toa que vou à
corte várias vezes ao ano, ouvi-lo falar algumas futilidades, achar
graça de suas piadas. Se isso acontecer será por conta do amor que
tenho pelo Império e pela aliança Austro-húngara. Como também ele
entenderá o pedido não somente o de uma grande patriota, mas de uma mãe
que implora por seu filho. O exílio ou a prisão por um tempo. Igor,
então, poderá pôr sua cabeça no lugar. Mas essa é minha última cartada;
portanto, você ficara calada, pois, caso contrario, faço o que acabo de
lhe dizer. Estou no topo da minha paciência. Com Krisztina, terei
muitas coisas nas minhas mãos. Com você, meu filho só irá se distanciar
cada vez mais.

E o que conta é minha situação, não posso calar indefinidamente os


emissários de Imperador, nem tampouco esse movimento. E a grande força
desse movimento aqui é Igor. Quero que pense muito no que acabo de lhe
propor. Sei o quanto você o ama e quer o melhor para ele. Como também o
amo... Bem, cada uma à sua maneira. Sua escolha é simples: ficar com
ele significa vê-lo preso ou extraditado; ficar sem ele, mas tendo o
que você quiser e sabendo que ele estará bem. Você terá tempo para
pensar, aproveite esse tempo.
Já expus o que queria, tenho que voltar à festa senão todos poderão
sentir minha falta de atenção. Pense bem, minha querida. Dê-me licença.

Minha mente é um vazio, meu corpo está trêmulo.


Senhora Condessa, espere... Como pode ser tão maquiavélica. É seu
filho, são seus sentimentos, ele me ama...
Ela sorri e fala:
Meu anjo, você ainda é muito ingênua. O amor só serve para prejudicar
qualquer relação.
Veja, vivi tão bem com meu marido, e muitas vezes chegava a ter repulsa
por ele. Mas, em compensação, construímos nosso patrimônio. Sei que
Igor a ama. É provável que você seja o único amor na vida dele. Mas o
amor dele por você não é um amor construtivo, nem prático. Aonde você
acha que Igor poderá chegar tendo você a seu lado? Ah! Querida, você
ainda é jovem, tem muito o que aprender. O amor só serve para
estacionar as pessoas, ele só se dá bem com os poetas e artistas. Ele a
ama, mas você não é a pessoa certa para ele. Apenas isso. Agora tenho
que ir, fique um pouco aqui, você está muito pálida e não é bom que a
vejam assim. Até logo mais.

Mesmo que quisesse sair não conseguiria, meu corpo treme.


O que acabo de ouvir penetra no meu ser, impregna como uma doença.
Minha cabeça roda, os móveis à minha frente parecem balançar.
Sinto náuseas. Natasha, pense no seu filho.
Respiro profundamente. Como alguém pode ser tão odioso. Mãe e filho tão
diferentes.
Só agora entendo o que Igor sente, é aversão. Ele não a chama de mãe,
não toca nela, e ao beijá-la, é um leve e furtivo toque, como se ela o
pudesse machucar.
Tenho que melhorar... Dez ou quinze minutos.
Levanto-me e vejo-me no espelho: muito bem, Natasha, você está bem,
saia como se nada tivesse acontecido.

Sigo para o terraço, vejo-o, ainda, com o Visconde. No terraço, ouço


Igor:
... e como vê, Adolfo, os tempos são outros. A nossa vida aqui mudou
muito, ficando difícil tomar como certas as bases tão longínquas de nós.
Ele se chega a mim e indaga:
Onde você estava? Fui procurá-la e não a encontrei.
A senhora Condessa foi mostrar-me alguns aposentos da casa.
E está tudo bem com você?
Afirmo que sim. Pergunto ao Visconde se ele já dançou.
Ainda não tive tempo, nossa conversa está tão interessante que nem me
dei conta.
Divergente, mas interessante. O que chega a ser construtivo. Acredito
que é através das divergências que chegaremos a bons resultados.
Principalmente, quando os erros são apontados e aceitos. Nada no mundo
cresce ou se torna produtivo e positivo sem que, antes, não se
consertem ou se aceitem os erros.

Onde estão os erros, Igor? No Império?


Sem sombra de duvida é muito fácil estar há milhas de distância ditando
o que é certo ou errado a um povo que gostaria de ser ouvido.
E você faria o papel de falar sobre seu povo?

Papel? Você me toma por que Adolfo? Não faço teatro, onde os atores
precisam de um papel para representar. Isso aqui não é uma
representação, e aí está o grave engano de vocês. A Hungria existe, é
uma realidade. Dê-se o trabalho de conhecê-la. Saia às ruas e converse
com o povo. Aí você conhecerá e saberá o que pensam os húngaros. Mas
caso não se queira dar a tanto trabalho, que ao menos a veja, sinta o
que é nossa gente, o que somos. Não é a Hungria que precisa mostrar-se,
são vocês que devem ter o interesse, no mínimo, de conhecê-la. E você
sabe por quê? Pelo óbvio, são vocês que precisam da gente, foram vocês
que construíram o Império Austro-húngaro. Portanto, adubem o que
plantaram. Se é que ainda há tempo. A realidade não se encontra dentro
do palácio do Imperador, nem nesta casa. Ela está nas ruas, junto à
gente simples. São eles a realidade do país.

Você poderia ter uma conversa com o Imperador. Mas temo, amigo, que o
tomem por um traidor.
Igor sorri e diz:
Se você conseguir uma audiência com o Imperador, eu irei. E não tema
por mim. Se você se der o trabalho de sair às ruas da Hungria, verá
quem o povo pensa ser o traidor. Julgar é uma das artes mais difíceis
que o homem ainda não aprendeu. O que vem a ser um traidor? Uma pessoa
desleal. Não, meu caro, eu não sou um traidor.

- Queira ou não, é, provavelmente, assim, que o verão. Conhecemo-nos


há algum tempo. Conheço você, e por conhecê-lo fiz questão de eu mesmo
vir aqui. Mas me assustam suas idéias. Talvez, o melhor mesmo, seja eu
marcar uma audiência com o Imperador e, aí, você poderia defender-se.
Igor escuta sério e responde:
Fique ciente de que posso ir conversar como Imperador, mas não para
defender-me. Não tenho do que me defender. Por Deus, Adolfo, você crê
que posso ser tomado por um traidor? Por eu ter os olhos abertos, por
conhecer bem minha gente, minha terra. Seria traidor, sem duvida
alguma, se fosse um cego. Se não visse as necessidades do meu país,
isso me tornaria um traidor.
Igor você é um Conde, um Conde austríaco. Seu pai era austríaco, seu
titulo vem da Áustria. Seu pai construiu isso aqui, seu nome e sua
vida. São coisas que você não pode esquecer.

Não esqueço, em absoluto. Por que você acha que meu pai nunca quis
voltar para a Áustria? Porque ele amava tudo isso. Vou lhe repetir o
que já falei a uma pessoa há pouco tempo: nasci aqui, chamo-me Igor,
antes de existir o Conde existe minha pessoa.
Isso para mim é tudo. Gosto do que faço, gosto de onde moro, gosto da
minha gente, amo meu país.

Não tinha mais sentido estender a conversa. Já estava tudo tão claro
quanto água cristalina. Seja qual for o objetivo do Visconde, ele
obteve de Igor sua visão, se não toda, uma parte e, principalmente, no
tocante ao seu amor pela Hungria.
O Visconde convida-me para dançar.
Faço um esforço em parecer natural perante a Condessa. Em meio à dança,
faço um pedido ao Visconde, não comentar com a Condessa a idéia dele,
da audiência de Igor como o Imperador. Não é necessário expor muito, é
obvio que ele deve saber das facetas da Condessa. Ele, de imediato
aceita. Quem sabe, aí não está a solução para meu dilema. Se o próprio
Igor falar com o Imperador, não teria sentido uma carta, onde ele
próprio exporia sua visão.

Pela primeira vez, desde que cheguei a esta festa, sinto-me um pouco
tranqüila. Acabo de dançar com o Visconde e vou ao terraço, vejo o
jardim, olho o céu. As estrelas já estão altas...
Você é mais bonita que elas.
Mikail, você me assustou. Estava a pensar nesta festa, nessa gente.
Sinto-me tão distante de tudo isso aqui.
Mas, mesmo assim corre o risco de envolvimento. Tenho olhos clínicos,
não esqueça. Você não consegue ficar solta ao lado da Condessa,
cuidado, pois ela pode envolvê-la.
É, Mikail, a única pessoa que parece imune é Igor. Não posso negar que
ela, a Condessa, me incomoda. Que me é nociva. Mas, vamos mudar de
assunto, vim aqui respirar ar puro.
Seria incômodo, pedir-lhe um ponche; não gostaria de entrar no salão.
Mikail sorri e vai ao salão. Estou cansada, não fisicamente, a voz da
Condessa não me sai da cabeça. Respiro profundamente, como querendo
retirar esse peso repulsivo e desagradável.
Ouço a voz de Igor. Vem daquele lado do jardim. Sigo até lá. Está com
Krisztina, melhor sair...
Igor, sabe o que você sente por essa cigana? Nada! Eu não estou
brincando, é verdade. Você criou uma imagem e está apaixonado por essa
criação. Ama o sentimento que nutriu durante todo esse tempo. Mas, com
o tempo, acabará. Você é idealista em tudo, eu o conheço. Apaixonado
pela paixão, amando o amor. E, porventura conheceu essa moça que passou
a ser o foco se seus ideais afetivos. Saberei esperar. Já aconteceu em
outras vezes. E você voltou, essa, sem dúvida, é mais bonita que as
outras. Só não esqueça de duas coisas, foi no meu ombro que você chorou
quando seu suposto amor partiu. Segundo, é visível o abismo que existe
entre vocês, e quem cairá nele é a cigana, como tantas outras...

Basta! Não quero ouvir mais nada!


Saio do local às pressas.
Quero sair deste lugar. O que vim fazer aqui?!!!
Quero sair desta casa.
Natasha, já a procurei... O que aconteceu?
Leve-me daqui Mikail. Por favor, leve-me daqui, agora.
Espere só um pouco vou chamar Igor.
Não! Se você não pode me levar, posso ir sozinha. Tem alguma saída por
esse jardim.

Mikail acompanha-me a falar:


Espere Natasha. O que está acontecendo?
Apenas isso: não fico nem mais um minuto aqui!
Vou com você.
Saímos pelo jardim. Já na rua, respiro melhor. Tenho náuseas.
Como iremos para casa? De carruagem é que não é. Espere aqui um
instante só, que vou conseguir um cavalo.
Mikail! Se você entrar nesse covil e chamar Igor terei raiva de você
pelo resto dos meus dias.
Ele balança a cabeça e sai.
Encosto-me na parede, respirando fundo para a náusea passar.
Igor estaria amado o próprio sentimento, por ser ele um idealista...
Vamos lá moça! Chegamos de carruagem, voltamos a cavalo. Pobres plebeus
somos nos.
Mikail faz-me rir. Ele me dá a mão, subo no cavalo. Saímos de Badacsony.
Já na estrada, sinto frio, lágrimas correm pelo meu rosto. Sei que
Mikail percebe.
Mikail entre aí para o lago. Por favor, não quero chegar em casa assim.
Ele obedece e logo depois pára o cavalo. Pulo do animal, ando de um
lado a outro, a pensar: por que tinha que ser eu?
Sento-me na grama, abraço minhas pernas e soluço.
Sinto o braço de Mikail no meu ombro, solto meu choro.
Há dor pelas ameaças da Condessa, há dor pelo que ouvi de Krisztina, há
dor por me achar sozinha, há dor por amar um homem que é desse meio, e
por amá-lo tanto.
Levanto o rosto do ombro de Mikail, seus olhos estão angustiados.
Abomino aquela gente! Abomino, é a primeira vez que experimento esse
emoção. Mikail, eu tenho repulsa, sinto isso entrar em mim como um
veneno de cobra. Não nasci para estar junto dessa gente, não sou desse
meio, nem quero ser...
Caio no choro novamente, ele me abraça e fala.
Chore o que tem vontade, coloque para fora sua revolta. Se quiser falar
fale, você pode contar comigo.
Fui atropelando todas as palavras da Condessa até Krisztina.
Os olhos de Mikail ganham uma tonalidade escura. À medida que falo, vou
me acalmando, ele me pergunta o que vou fazer.
Não sei, ainda não sei, eu não tomei consciência de tudo que está
acontecendo! Esta tudo aqui na minha cabeça, sinto esta emoção
horrível, repulsiva, doentia. Que trás a minha boca um gosto amargo!
Veja como é a vida. Até há poucas horas eu me sentia nas nuvens. Agora
atada aos pés daquelas pessoas.

Natasha o que você falou é muito serio, é muito grave.


Mikail, você vai me prometer não contar nada a Igor. Nada! Até que eu
tenha chegado à razão!

Você não precisa me pedir isso, Nat. Quanto a Krisztina, não leve em
conta, ela é uma louca, não faz o menor sentido...
Não sei também, eu realmente, ainda não sei de nada, nem do que a
Condessa falou, nem do que Krisztina falou. Não sei de nada! Krisztina
pode se fazer de ingênua ou ser muito esperta. Mas existe uma verdade
no que ela falou, parece que existe mesmo o abismo entre mim e Igor; um
abismo de classe social, e como existe! Se eu fosse de uma família
nobre, jamais teria ouvido o que ouvi. Por que ele tem que ser um
Conde, ser filho de uma víbora, ter o que tem? Talvez não devesse estar
com ele, diz-me o bom senso...
Só que eu o amo, e o amor deixou-me cega a ponto de pensar que somos
iguais? Que não importa ele ter um título e ser o que é. As pessoas não
esquecem disso e expressam de várias maneiras. Poderia...Eu poderia ter
me apaixonado por tantos homens, por que justo ele?

Quem tem a explicação? Existe controle sobre o amor? Ele surge, Nat,
emerge espontaneamente por mais inconveniente que ele seja. Ele
transborda a sensatez.

Estou cansada e frágil, e pior, vulnerável. Estar vulnerável é abrir as


portas a tantas indagações. Obrigada por tudo.
Já lhe falei que pode contar sempre comigo, para tudo, a qualquer hora,
em qualquer momento.

No trajeto até a casa, minha cabeça parece oca, vazia. Uma dormência
toma conta do meu ser e, ao mesmo tempo, existe uma tempestade se
formando. Não é preciso ser vidente.
Não vejo a carruagem à porta de casa, como também está escura. Acho até
bom ele não ter chegado. Preciso e quero descansar, dormir e não pensar
em nada.
Quer que entre?

Mikail, ajuda-me a descer do cavalo.


Ouço a porta da frente abrir, viro-me e lá está ele, olho para Mikail.
Quer entrar Mikail? - sua voz é acida e grave.
Não, vou para casa, já é bastante tarde. Amanhã, ou melhor, logo mais
terei que devolver este cavalo muito cedo. Boa noite Natasha; boa noite
Igor.
Boa noite Mikail e obrigada!

Fico a ver Mikail sumir na escuridão da noite, Igor continua à porta,


viro-me e passo por ele entrado em casa. Ele bate a porta atrás de mim
com tanta força que penso tê-la rachado!
O que houve?
Continuo calada e ando na sala no sentido de subir as escadas.
Natasha, o que houve? - ele fala alto.
Nada!
Subo as escadas, ele me segue com o candelabro na mão. No meio da
escada me alcança e segura com tanta força meu braço que chega a doer.
O que houve?
Largue-me... Nada, não houve nada... Quero dormir! Solte meu braço, por
favor!
Muito bem! Quer dizer que você sai da festa, nem ao menos vem falar
comigo, por nada!
Um capricho! Muito interessante! - gritando.
Você vai me dizer o que diabo aconteceu. Vai me dizer agora. Já, neste
momento.
Quero saber o que houve!

Estou cansada, dê-me licença...


Onde você estava? Estou aqui há mais de uma hora.
Não me senti bem, Mikail trouxe-me para casa.

Ele começa a falar alto, novamente, mas se contém e fala grave.


Por que você chamou Mikail e não a mim? E onde diabo vocês estavam?!!!
Pode ter a certeza que estávamos num lugar mais decente que naquela sua
casa. Largue-me, que vou dormir.
Ele me encosta na parede e coloca o candelabro na mesinha em frente ao
quarto. Respira fundo e fala baixo:
Você sabe que aquela não é minha casa. Você sabia o que podia encontrar
lá.
Natasha, por que você não me chamou? O que aconteceu na festa?
Estou falando com você! Por que chamou Mikail?!
Ao diabo, você Igor! Ao diabo, toda aquela gente! Acho que chamei
Mikail porque ele é o único que não faz parte daquele lugar.

Eu não faço parte, Natasha... Espere, estou falando com você.


Responda-me onde você estava?
Puxo meu braço e entro no quarto, ele volta-se para pegar o candelabro,
aproveito e fecho a porta do quarto.
Abra a porta Natasha! Abra a porta!
Natasha, abra esta maldita porta!
Caio na cama e choro.
Ouço Igor gritar, bater na porta, por muito tempo.
Até que se calou.
O sono vem chegando, o quarto está escuro, escuro...

Que horas são?


Olho para meu lado, em busca de Igor.
Dou-me conta, então, do que aconteceu ontem.
Deito-me novamente; ainda estou com a roupa da festa. Maldita festa!
Maldita Condessa!
Minha respiração é ofegante.
Ouço uma batida na porta, é a voz de Misca.
Sem vontade, abro a porta.
Ela me olha intrigada, eu ainda com o vestido de gala.
Traz suco e pão, não diz nada e vai preparar meu banho.
Fica com a toalha na mão, enquanto estou no banho. Porém não se contém
e fala:
Ele saiu cedo. Encontrei-o na sala, o dia estava clareando. Tenho
certeza que ele não dormiu. Eu sabia, tinha quase certeza que ia dar
alguma confusão. Uma festa naquela casa, feita pela bruxa.
Abro um sorriso. Misca, só ela teria esse poder. Ela continua:
Só tomou chá e saiu feito louco a cavalo. Você sabe como ele é, mal
falou comigo. Só por que fui perguntar o que acharam de você. Sabe o
que ele disse?
“Ela deve saber melhor do que ninguém o sucesso que fez na festa!”
E, já saindo, perguntei se vinha almoçar, ele berrou um não, que deve
ter acordado até os anjos. E saiu em disparada, sei que não foi para as
vinhas.
Quando chegou, ontem à noite, bateu na porta a ponto de quase derrubá-
la gritando por você. Quando lhe disse que você não estava, ele sentou-
se e mandou-me dormir. Perguntei o que acontecera, ele disse que não
sabia, que você saíra sem avisá-lo, deu um murro na mesa e disse
baixinho: “eu tanto que pedi que se acontecesse alguma coisa me
chamasse”. Eu não consegui dormir até você chegar, isto é, quando vocês
pararam de gritar. Mas eu sei que foi alguma coisa que a bruxa fez com
você. Acho que ele também sabe, deve tê-la arrancado da cama.

Meu Deus! Será que ele foi lá? Se acaso foi, o que pode ocorrer? Só se
a própria Condessa falar!
Sei que está preocupada Misca, mas eu não quero falar nada agora.
Preciso de um tempo para pensar, esta bem? Ele tem todo o direito de
estar irritado.
Irritado? Claro que não. É muito pouco para ele, ele está igual a dia
de tempestade, de seus olhos saem raios que podem fulminar qualquer um.
Quer almoçar? É, já é bastante tarde, quase hora do almoço.

Troco de roupa, e mesmo em dizer que estou sem fome, ela diz que vai
fazer meu prato, pois fez algo que eu gosto.
Como para satisfazer Misca. Meus pensamentos estão longe.
Tento ter lógica, mas é tão difícil com a emoção tomando conta de mim.
Relembro toda a festa, revejo tudo. Mas é a memória que funciona, os
fatos soltos pairando na minha mente.
A única coisa que sei, a única verdade: é que amo esse homem.

Entardece, e eis o lago. Há nuvens no céu, provavelmente irá chover.


Só sinto a serenidade quando penso no meu filho.
Por mais que Krisztina seja descontrolada, penso nas suas palavras.
Não consigo reter a imagem de Igor lamentando-se com ela.
Ele é idealista demais, ama o próprio amor. Lembro-me das palavras
dele: “Meu amor independe do que você sente...”. Ele é idealista. Não
sendo eu o ser amado e sim o próprio sentimento, eu não teria sentido,
nada teria sentido. Estaria vivenciando o quê?
Um ideal criado por ele?!
Tanto Krisztina como a Condessa estão lutando por ele; por nossa
separação. Quanta loucura!
Uma com o objetivo de tê-lo; a outra, manter o poder. As duas têm um
amor doentio.
Sorrio, Krisztina tem boas razões para tanta luta, sendo ele quem é.
Um homem por demais atraente, sensual. Adoravelmente sensual e viril...
Natasha, pense no problema e não nele; nem no que sente por ele!
Mas ele me deixa tonta, meu ser pede por ele, meu corpo pede por ele.
É um grito surdo, quero estar com ele.
Nos seus olhos eu me encontro.
Vem o sorriso, aflora o brilho nos olhos.
O mundo pára! Só existe a luz do sentimento.
Só escuto o palpitar do meu coração.
Mergulho com um suspiro neste palpitar.
E o brilho emerge do meu ser, amo você. Como pode ser tão forte?
Não posso pensar em tirar conclusões se nem, ao menos, tiro você da
minha cabeça?
Como pode ser tão extenso? Forte e extenso, é um fato. Eis o que você
falou: render-se a uma força maior!
Você me excede...
É a verdade.
Amo-o de tal maneira que nem a sensatez tem lugar.
A incerteza do seu sentimento para comigo assola minha alma e gera uma
profunda agonia, angústia e dor.
Deus! A que ponto estou chegando!
Coisas precipitadas. E meu ser grita:
Amo você, mago. Amo você, é tudo que sei, pois é tudo que sinto.

Cai a noite, o sol morre, para renascer amanhã. Quem sabe mais forte.
Sopra o vento, irá chover.
Onde ele estará?
Sinto a insensatez de perto, a briga interior. Estou louca que ele
chegue, e, ao mesmo tempo, não o quero perto.
Janto sozinha. Mikail apareceu para saber se estava bem.
Seria por parte dele uma grande infantilidade querer preocupar-me.
Mas ele é tão imprevisível, arrebatadoramente imprevisível.
Ele mesmo pode estar se dando um tempo.
Estou na sala lendo, volta e meia Misca aparece, dou-lhe um sorriso
para tranqüilizá-la.
Ouço o pisar de patas de cavalo. Será ele?
O coração dispara, minha mão treme.
Fixo a atenção no livro, tentando ler. Não consigo.
Talvez não seja ele! Talvez seja Val.
Levanto-me e vou à cozinha pegar um chá. É isso, um chá pode me acalmar.
Sigo a cozinha com o pedido nos lábios.
Paro na porta. Ele! Entrando também na cozinha, joga o que esta nas
mãos na mesa, a olhar-me fixamente.
Que diabo de sensação! Só ao vê-lo meu corpo treme!
Misca olha para ele e para mim, e salva meu constrangimento,
perguntando-lhe: - Já jantou?
Não!
Ótimo! Então colocarei seu jantar, ou vai tomar um banho antes?
Ele não tira os olhos de mim, nem para responder a Misca.
Vou tomar um banho. Dê-me licença. Você já jantou, Natasha?
Afirmo com a cabeça, sem conseguir falar.
Ele passa por mim e sobe as escadas, peço o chá a Misca e volto para a
sala.
Pego o livro e sento-me. Ouço o barulho lá em cima. Misca traz o chá,
tomo-o rapidamente.
Onde estaria tudo que havia planejado falar?
É outra coisa que aprendo: não adianta programar o que se quer dizer
quando a emoção está descontrolada. Não, novamente estão juntas;emoção
e sentimento.
Ouço seus passos na escada. Pelo canto dos olhos vejo-o abotoar a
camisa, seus cabelos molhados. Entra na cozinha. Misca pergunta se ele
quer que ponha o jantar na mesa da sala. Ele diz que comerá na cozinha.
Viro a página do livro, sem ao menos ter lido! E esta maldita
inquietação.
Sabe o que é melhor fazer. Subir e tentar, digo, tentar dormir.
Levanto-me. Subo a escada.
Natasha?!!! - sua voz vem da cozinha,
Fale. - continuo na escada.
Onde você vai?
Dormir. Boa noite!
Ouço o arrastar do banco. Ele aparece na escada.
Espere-me, quero falar com você.
Estou com sono.
Espere-me.
Subo as escadas e entro na biblioteca. Sento-me na cadeira em frente à
escrivaninha e abro o livro novamente... Uma página, viro outra.
Ele chega, elevo os olhos do livro. Senta-se na escrivaninha à minha
frente, rosto baixo para me ver, desabotoa três botões da camisa. Suava
um pouco.
Está quente, vou abrir a janela.
Ele pega meu braço e me faz sentar.
Quero falar com você. Como foi seu dia?
Bem. – respondo.
Bem em que sentido?
Andei fazendo algumas avaliações, pensando na vida...
Natasha, seja objetiva, sem subterfúgios e evasivas!

Afinal, o que você quer saber? Um relatório do meu dia?


Ele respira devagar, como para se acalmar.
Quero saber de ontem. O que aconteceu em primeiro lugar; depois por que
você veio para casa sem falar comigo. Fiquei zonzo na festa procurando-
a. Foi quando fui à rua e me disseram, o cocheiro, que você saíra a
cavalo com Mikail. Estou esperando: o que houve?

Não me senti bem. Pedi a Mikail para trazer-me a casa. Não o chamei
porque era cedo, você deveria querer ficar mais algum tempo. Mikail não
queria me trazer, mas praticamente o forcei a isso.
Ele balança a cabeça, morde os lábios, pula da escrivaninha e fala
devagar.
Deixe-me ver se entendi direito. Então, quer dizer que você coagiu
Mikail a trazê-la. Coitado do rapaz! Não se sentia bem... Não me chamou
porque passou pela sua cabeça que eu poderia estar gostando da festa.
Você me toma por algum imbecil! - exclama ele num tom irado.
Primeiro você sabe que não gosto daquele tipo de festa. Depois, sabe
muito bem que não faria questão de trazê-la e ficar com você aqui em
casa.
O que está acontecendo Natasha? Por que Mikail?
Depois de sua saída, por causa do mal-estar, onde ficaram tanto tempo?

Perto do lago, conversando.


Ele encosta-se na escrivaninha, passa a mão nos cabelos, e,
ironicamente, repete.
No lago... Conversando. Conversando sobre o quê?
Sobre a festa. Sobre mim mesma.
E essa conversa deve ter sido muito produtiva, pois hoje passou o dia a
fazer avaliações. Posso saber que avaliações você fez?

Você passa o dia inteiro fora, não vem almoçar, e eu não estou lhe
pedindo qualquer relatório do que você fez ou deixou de fazer. Com
licença estou com sono.
Sente-se aí!
Ele me empurra de leve na cadeira, mas trava os dentes.
Não vai dormir! Quero saber que avaliações fez, sobre o quê?!!!
Olho bem para ele, que está tenso e irritado. Como, também me sinto
assim, e falo:
Avaliações sobre nós, nosso relacionamento, nosso casamento, nosso
sentimento.
Sua respiração é rápida e intercortada.
Qual a conclusão?
Ainda não sei, posso só lhe dizer que estou avaliando muitas coisas,
coisas minhas. Boa noite!
Levanto-me e vou para o quarto, ele chega à porta e fala:
Natasha, eu não sou criança, não engoli o que você falou.
Existiu alguma coisa naquela festa, e você não quer me contar.
Pensei hoje em ir à casa da Condessa e arrancar dela o que aconteceu.
Mas pensei melhor: Seria a pior coisa que eu poderia fazer.
Portanto quero a verdade!

Por que a Condessa, quem sabe Krisztina?


Você não é tola de acreditar nas conversas de Krisztina.

- É, você tem razão, talvez não, quem sabe, você. Saia do quarto
que quero dormir.
É meu quarto também. Estou calmo, mas estou perto de perder a paciência.
É mesmo? E o que você faria se perdesse a paciência? Porque já perdi a
minha.

Ele se senta na cama, coloca o rosto entre as mãos, fica um tempo


assim, volta-se a mim e fala:
Aceito, é claro, que aceito você ter Mikail como um amigo, como ele é...
Ah, Deus Pai! Você consegue tirar minha razão.
Um raio clareia nosso quarto, logo vem o barulho estrondoso do trovão,
mas os olhos de Igor estão pregados em mim.
O que houve a ponto de fazer você avaliar seus sentimentos? Você está
com dúvidas do que sente por mim? É isso? Seu sentimento está mudado? É
isso, Natasha?
Pego minhas roupas de dormir e saio do quarto. Ele me alcança no
corredor, seus olhos brilham. Encosto-me na parede. Olha-me tão
estranho. Encosta os próprios braços na parede, fico entre eles, sua
voz é baixa e lenta, seus olhos estão tristes. Fala então:
Pode ficar com o quarto. Eu durmo no outro. Só quero lhe pedir uma
coisa, uma única coisa. Se acaso, você tem algo em relação a nosso
sentimento, que me fale. Não tenha medo, só não me deixe ficar na
expectativa. Não consigo mais. Já esperei tanto tempo. Eu não
agüentaria mais, juro que não agüentaria...
Baixo os olhos, meu coração está apertado, meu peito dói.
Por que toda essa confusão? Por que não lhe conto a verdade. Orgulho,
raiva?
Pergunto baixinho:
Você não agüentaria o quê?
Seu olhar é profundo, a tristeza por demais evidente. Ele baixa os
braços.
Vá dormir Natasha.
E sai pelas escadas.
Meu Deus o que estou fazendo?
O que estou fazendo a ele? O que estou fazendo a nós?
A luz dos raios clareia o corredor. Ele está sofrendo, eu estou
sofrendo...
Vem o trovão, o grito no meu peito é maior: Eu o amo!
Igor!... Largo as roupas no chão, corro para escada.
Chego à cozinha, ele não está.
Será que saiu?
A angústia sufoca meu coração, mal consigo respirar.
Abro a porta da frente, não o vejo! No céu não se vê uma estrela, só
nuvens baixas, escuras e pesadas.
Corro ao jardim, nada!
Igor! Onde você está?
Um rasgo de luz clareia tudo. Meu peito dói. Como posso ser tão
infantil?
O rasgo de luz espalha-se no céu. O estrondoso trovão assusta-me. Não
me detenho: quero achá-lo.
Cai a chuva, pingos fortes.
Igor! Será que foi ao lago?
Minhas roupas já estão molhadas. Corro, corro.
Minha roupa pesa, levanto o vestido. A terra está encharcada.
Deus! Para onde ele foi, o que fiz?
Igor! Igor!
Tropeço, recupero o equilíbrio. Paro, tomo fôlego.
A escuridão é tomada por outros raios.
Natasha!
Ouço seu grito. Meu coração bate rápido, ele.
Volto-me. É ele a cavalo!
Grito seu nome, ele me vê.
O trovão faz o cavalo levantar as patas, ele o acalma.
Pula do cavalo, vem em minha direção.
Seu rosto sério.
Seu olhar intenso.
Pega-me e coloca-me na sela e sobe.
Sentir seu calor, mesmo com a chuva, é tudo que mais preciso, encosto-
me nele.
Poucos minutos depois estamos no estábulo, ele desce e pega-me. Volta-
se para tirar a sela do animal. Sem me olhar, fala:
Você não precisa fugir de mim. Já lhe falei para não temer, seja o que
for, que venha a me falar. Fui rude com você, desculpe-me.
Olho para ele, que ainda está de costas, enquanto torço meu cabelo.
Eu não estava fugindo de você. Estava procurando por você. Como não o
encontrei em casa, pensei que você estivesse saído.
Ele coloca a sela no chão e fala.
Eu estava aqui. Vim ver os cavalos. Eles se assustam com os trovões. Vi
você saindo, gritei e acho que você não me ouviu... Vá tirar essa
roupa, está ensopada!
E você?
Vou prender este cavalo.
Quer um chá quente? Vou fazer para nós.
Ele não responde, simplesmente me olha.
Entro na cozinha, coloco água no fogo. Deixo um rastro de água em toda
cozinha.
Igor entra e fala:
Vá tirar essa roupa, senão pode adoecer.
Logo a água irá ferver, você, também, está todo molhado.
Vá tirar a roupa que faço o chá.
Subo as escadas correndo, o frio começa a chegar, visto minha camisola,
mas o frio continua, pego o casaco dele e com ele me agasalho. Pego,
também, uma toalha e uma camisa para ele, penteio meus cabelos e desço.
Estou na porta da cozinha a olhá-lo, ele coloca o chá nas xícaras, e ao
ver-me abre um sorriso espontâneo.
Está muito elegante.
Tire sua camisa, trouxe-lhe outra.
Ele tira a camisa, os pingos de água descem por seu rosto. Como está
belo!
Pega a toalha, enxuga o corpo, depois os cabelos, balança-os para
enxugá-los melhor.
A camisa...
Não estou com frio. Você está?
Balanço a cabeça confirmando, sento-me no banco pegando o chá, minhas
mãos tremem. Mas não é de frio, é do efeito que ele causa em mim.
Ele se senta à minha frente, sua mão vem em direção à minha...
Mas ele pára e pega a xícara.
O silencio é total, só a chuva batendo nos vidros da janela.
O chá me aquece um pouco. Mas seus olhos negros olhando-me dizem tantas
coisas, que um tremor percorre meu corpo.
Ainda tem frio?
Tenho.
Ele levanta-se e vem para meu lado, passa a perna no banco comprido,
senta-se como quem monta a cavalo, chegando-se para junto de mim.
Posso aquecê-la?
Pode. - respondi com o rosto abaixado e enrubescido.
Então, envolve-me com os braços. Sua respiração é quente nos meus
cabelos. O calor vem chegando... Chegando... Não sei o que falar.
Quer chá?
Viro o rosto a ele, que está de olhos fechados. Abre-os como se
acordando e fala:
Não. Tudo que mais quero, que mais amo está comigo, agora. Nada mais
importa, só o que você tem a me falar.
São olhos nos olhos.
Eu nunca iria fugir de você. Por que pensou nisso?
Ele continua calado.
Quando lhe falei de avaliações, não foi me referindo ao meu sentimento,
mas ao seu para comigo. Quanto ao meu sentimento sei muito bem avaliá-
lo e tenho a certeza do que sinto, Igor. Amo-o, como nunca pensei amar.
Aí então, ele encosta sua cabeça no meu ombro, e me abraça forte e
demoradamente. Encosto a cabeça no seu peito.
Ontem ouvi tantas coisas ruins. Ouvi Krisztina falando com você no
jardim.
Ouvi-a dizer que você não me amava, que sempre voltava para ela depois
de uma desilusão. E o que me deixou mais aflita foi ela dizer que você
amava o próprio sentimento do amor e não a mim. Isso sim, teve uma
conotação forte.
Saí de perto e pedi para Mikail trazer-me para casa. No caminho pedi-
lhe para parar, e chorei, porque me veio o medo. Medo de realmente você
amar o sentimento e não a mim. E quanto mais eu avaliava, ate pensei:
como ficar com ele, pois, não é a mim que ele ama. Mas eu conseguiria
ficar sem você? Meu ser gritava que não. Lembrei-me, então da sua
frase: “meu sentimento independe do seu...”. Busquei a sensatez, não a
achei. A única coisa que permanecia era o sentimento de que eu o amo.
Tive raiva! Mas só me dei conta da realidade quando ouvi de você: “eu
não agüentaria mais...”. Corri atrás de você.

Ele me aperta com força, com o rosto no seu peito ouço seu coração.
Deus Pai! Veja o que aconteceu. Senti ciúme de você. Quando você falou
em avaliações de sentimentos, suas palavras caíram como água fria em
mim. Antes, eu queria saber o que tinha acontecido, mas eu não pensei
na possibilidade de seus sentimentos terem mudado. A vontade era
sacudi-la para você falar. E me ocorreu de repente! Se ela disser que
não quer mais ficar comigo? Não teria condições de ouvi-la falar isso.
Por isso saí. Precisava de um tempo para ver-me dentro dessa
possibilidade.
Posso suportar tantas coisas, mas não teria condições de ouvi-la dizer
que seus sentimentos por mim mudaram. Como o ser humano se torna
impotente, veio o medo ante a possibilidade de você deixar-me. E veio:
eu não agüentaria mais. Esperei por você tanto tempo, mas, é claro, não
teria como exigir para você ficar comigo. Fui para o estábulo e a vi
correndo na chuva, gritei por você e você corria. Pensei, fui rude,
assustei-a e ela está fugindo. Natasha, não podemos permitir que essas
coisas nos influenciem. Como eu poderia amar o sentimento do amor se
apenas o conheci quando a vi? Nunca o tinha sentido antes. Já lhe
afirmei que tive outras mulheres, porém, nunca amei ninguém. Muito
menos iria a Krisztina para lamentar-me. Todas as mulheres com quem
tive contato sempre as respeitei profundamente e jamais faria
comentários com outra pessoa.
Posso ter meu sentimento independente do seu, pois eu a amo, amo você.
E, hoje, tudo que mais quero na vida é partilhá-lo e comungá-lo com
você. E, por alguns instantes, vi esse mundo nosso ruir. Não podemos
permitir que esses falatórios tomem dimensão na nossa vida. Chegue a
mim ou eu a você, aí, nós dois teremos a total abertura para examiná-
los. Se você ouviu a conversa com Krisztina, deveria ter entrado e
falado. Você nem chegou a ouvir o que eu lhe respondi. Isso deu margem
a você ter mil pensamentos. Como, também, fiquei a pensar: por que ela
saiu com Mikail?
Não deixe que pessoas como Krisztina ou a Condessa venham a interferir
no que é sagrado a nós.

Meu pensamento vai à Condessa. Se eu falasse tudo a Igor!... Mas se ela


cumprir sua promessa? Tenho que pensar. São coisas tão sérias que dizem
respeito à sua liberdade. O homem que vivo e amo, que tem em si a
liberdade plena!
- Tenho algo mais a lhe dizer, desde ontem que era para lhe falar,
mas não deu tempo.
Viro-me de frente para vê-lo melhor.
Seus olhos estão serenos, ele os fecha e chega-se a mim, um beijo lento
explora minha boca.
O clima na cozinha é aconchegante, a lenha no fogão a clarear e a
esquentar.
A chuva, agora, é fina.
A fisionomia de Igor expressa tranqüilidade, bem-estar. Esse homem
mágico.
Estou esperando um filho, estou grávida.
Ele franze a sobrancelhas, aperta os olhos: não consegue deter o
espanto.
Um filho?... Nosso filho!
A idéia, associada ao fato, percorre rapidamente sua fisionomia, ele
vai assimilando, e vem um sorriso. Puxa-me e envolve-me em seus fortes
braços.
Faz-se um silencio, fruto da grande emoção que nos assalta. Vem-nos a
idéia do princípio da continuidade. O expressar é feito em gestos.
Encosto-me nele, que levanta meus cabelos e beija minha nuca.
O tempo...
A chuva lá fora se foi, como minha tempestade interna também se
dissipou.
O tempo...
Pela janela, observo três estrelas no céu que brilham timidamente;
nossa luz interior brilha muito mais.
O tempo...

A aurora está chegando.


Viro-me, extasiada. Lentamente, o céu começa a clarear.
No fogão existem mais cinzas que brasas.
A claridade do raiar do dia começa a tomar conta do ambiente.
Levanto-me e o convido a me acompanhar até a porta. Que cena
maravilhosa!
Igor fica atrás de mim, abraça-me.
A terra está molhada, chegando-nos aquele cheiro característico de
terra molhada.
O Balaton está sereno, cintilante; suas águas estão como que paradas de
tão tranqüilas.
Os pingos d’água caem da velha árvore com o rápido movimento do vento,
que chega a levantar meus cabelos e minha roupa.
O vento, ou o raiar do dia faz saírem da árvore vários pássaros, que
voam deslizando pelo céu.
Suspiro, num misto de alegria e êxtase!
Acho que o mundo acaba de acordar. A Hungria acaba de acordar. É uma
sincronia perfeita.
Viro-me para Igor, seu rosto está voltado para o alto: olha os
pássaros, ele os acompanha em suas acrobacias.
Devagar, ele vai descendo o olhar para mim, vindo-lhe um sorriso terno.
Seus olhos brilham de paixão. Fico na ponta dos pés e mordo seus
lábios, enlaço seu pescoço e ele beija-me.
Vem a certeza de que fazemos parte desse quadro; existe uma integração.
Ele puxa-me mais a ele e susurra: - vamos subir para nosso quarto.
Entramos em casa, mas volto a olhar para essa terra encantada, querendo
registrar na memória todo este belo amanhecer.
Nosso quarto já tem a claridade alaranjada da chegada do sol. Ele fecha
a porta e se encosta a ela. O sol a bater nele. Cena bonita, ele sem
camisa, a cor do raiar do dia a acentuar a beleza natural. Seu sorriso
sereno, também sorrio.
Queria, amada, que todo ser sentisse o que sentimos. Que respirassem o
que respiramos.
Nosso ar é um só: amor! Encontro-me, acho-me ao vê-lo, toca-lo, senti-
lo.
Sua voz:
Percorra-me. Meu corpo é seu, o seu é meu.
Sou seu caminho, você é o meu.
Deslizo minhas mãos em seu peito, fecho os olhos e sinto o beijo quente.
Caímos na cama, nossos corpos se buscam.
Adormecemos, depois, pensando em nosso filho.

No dia seguinte, sento-me na biblioteca e quando me dou conta, estou


frente às taças.
Tenho sono, pois dormi muito pouco.
Vem- me o sono, as taças.
Fecho os olhos: é ela, estou vendo, ela está doente. Febre alta. O
lugar é o mesmo. Ela está sozinha. O que faço? Ela está delirando de
tanta febre. Olho em volta, ela está só. Vem-me angústia. Está chegando
alguém. Alguém chega junto dela: É Igor! Ele alisa seus cabelos.
Meu corpo está dormente.
O tempo...
Escurece, acho que adormeci. A meu lado Igor acaricia meus cabelos.
Olho bem fundo nos seus olhos.
A tarde voou, a noite chegou. Posso ter sonhado, adormeci.
Ele está debruçado sobre a cadeira, toca meu rosto.
Quem é ela? - pergunto.
Ela quem?
Você sabe. A moça que tenho visto ou sonhado. Já não sei mais!
Por que você acha que eu sei, vida.
Não sei se você sabe. Estou perguntando, indagando. Acabo de sonhar com
ela, vi-a delirando de febre. Fiquei apavorada ao vê-la tão doente e
sozinha.
Ele me olha bem. Seu olhar se perde no meu e torna-se distante.
Ela estava só?!!!
Por instantes. Depois, vi alguém chegar e ficar ao lado dela. Deu-me um
grande alivio.
Principalmente quando esse alguém é uma pessoa que tem a capacidade de
ajudar.
Ele franze as sobrancelhas.
Você conhece a pessoa que chegou?
Sim. Era você.
Os seus olhos foram às taças e voltam para mim.
O que posso lhe dizer. Não sei quem é essa moça. Só sinto algo em
relação ao tempo, mas o quê, eu não sei. E você o que sentiu ao ver-me
chegar?
Um profundo alívio, como se você pudesse ajudá-la. Tudo isso é
estranho, mas sinto em mim, faz parte de mim. E me pergunto: Onde? Em
que tempo?
- Seja em que tempo for, sendo algo referente a você, eu estarei.
- Me promete?
- Preciso? O que sentimos é eterno.

A noite transcorre maravilhosa.


Ficamos na sala a falar sobre tantas coisas e, principalmente, do nosso
bebê.
É noite alta, ouço um barulho do lado fora da casa, mas Igor dorme e eu
não quero acordá-lo.
Como retorna o silêncio lá fora, meu sono volta.
Acordo cedinho. Igor acabara de acordar, está lavando o rosto.
Espreguiço-me na cama.
Bom dia amado!
Ele enxuga o rosto na toalha.
Bom dia, vida. Veja que dia bonito!
Dirige-se à janela e fica a olhar para baixo, vira-se, num sorriso
aberto para mim e fala.
Venha cá. Venha à janela! Venha ver como está colorido nosso jardim!
Ele está a rir, eu levanto-me da cama intrigada, ele me dá um beijo
rápido e vira-me para janela.
Santo Deus! Meu coração bate acelerado, colo meu rosto à janela: são
nossas carroças, é minha gente!
Nosso desjejum não podia ser melhor. O sorriso nos lábios de todos. E,
logo depois Igor serve vinho. Em meio ao espanto – vinho tão cedo: ele
anuncia a chegada de nosso bebê.
É a primeira vez na vida que me vejo analisando meus sentimentos por
minha gente, sem viver mais com eles. Fazendo parte deles, sem estar
mais com eles; fazendo parte, mas sem estar junto a eles. Isso faz
brotar em mim um profundo respeito por cada um. Analisando, como
espectadora, uma agradecida espectadora. Agradeço a Deus por ser fruto
dessa gente calorosa e aberta.

Os dias se seguem coloridos, e as noites, calorosas; ficamos até tarde


ao redor das fogueiras, numa conversa gostosa. Mikail tem vindo quase
todas as noites.
Nossas tardes são de visitas aos moradores; o pai ou Andrei me
acompanham. E nas longas conversas com Andrei, vem a certeza de que
Igor os convenceu a ficarem permanentemente aqui. Em dezembro, eles
virão para o natal e ficarão até nosso bebê nascer; depois, irão a
Nijmí e na volta, bem, na volta ficarão aqui. Há tanta felicidade.
Igor gosta da convivência, ele sente o carinho e o calor da nossa
gente. E isso ele aprecia e vivencia.
Anya não cabe em si de felicidade com a chegada de mais um neto.
As crianças estão soltas, a toda hora vão ao lago. Sempre que posso,
fico com elas. Faz quinze dias que estão aqui.
Minha gente está ajudando na obra da escola, existe uma expectativa
sadia, e vejo Belle com os olhos compridos, sei que é a vontade de ver
Erno e Gaspar na escola.

A construção da escola é funcional. O objetivo, além de ensinar a ler e


escrever, é levar o conhecimento da terra às crianças e aos adultos, no
sentido do desenvolvimento do potencial de cada um.
Saímos, eu e o pai, da escola e nos sentamos à sombra de uma árvore.
Ele absorve o nosso intuito de uma sociedade produtiva e consciente.
Filha, aonde Igor quer chegar?
Ele pensa numa Hungria liberta. Mas, o mais importante é que essa gente
tenha condições de saber o que quer. O mundo aqui gira em torno do
próprio Igor, e isso lhe faz mal. Ele quer que as pessoas tenham a
escolha e, acima da escolha, que elas descubram seu potencial. Quer um
exemplo: Ontem fomos à casa de Pal. Três semanas atrás, ele trabalhava
na fábrica, mas, conversando com ele, disse-me o quanto gosta de lidar
com a terra. Pediu-me, no entanto, por tudo, para não contar a Igor.
Disse-lhe, porém, que contaria a Igor e que era muito natural ele
gostar de uma coisa mais que outra. Isso mostra sua inclinação natural.
E foi feito um remanejamento, o resultado o senhor próprio vê, ele está
mais feliz e produzido mais.
E eles são, todos, praticamente assim. Admiram Igor, mas de
maneira, como dizer, prejudicial a eles mesmos.
Veja bem, pai, Igor está andando em uma corda bamba, o senhor sabe que
ele faz parte desse movimento de separação húngara.
Há alguns proprietários de terra por aqui, que estão cansados de pagar
impostos à Áustria e não recebem qualquer incentivo. São pessoas que
amam a Hungria, mas estão dispostos a tudo, até à violência. E eles
vêem em Igor uma representação dessa liberdade. Só que essa liberdade
corre além de suas próprias vistas, na hora que for proclamada ou
estabelecida a separação, grande parte dessa gente não saberá o que
fazer. Os proprietários querem a separação por patriotismo, também
revoltados com os impostos que lhe são cobrados.

O pai então indaga: - E essa gente que trabalha em suas terras?


Eles não sabem o que é isso.
Igor tem que pensar em tudo, sua visão vai além. Mais que qualquer
pessoa que conheço, quer a dissolução do Império Austro-húngaro, mas
ele não quer uma Hungria estagnada. Quer uma Hungria produtiva. São
inúmeras as vezes em que me deparo com ele com as mãos sujas de terra,
ou suadas a puxar as cordas das máquinas. O senhor já sentiu a aspereza
das mãos de Igor? São iguais aos dos camponeses. Mas o que ele faz, faz
por amor a seu trabalho, por acreditar no progresso e no resultado dos
seus esforços.
E sabe como ele é visto? Para a aristocracia, ele é um Conde
excêntrico, ou um ideólogo, um homem que pode ser perigoso para os
interesses da Áustria. Para os proprietários de terra daqui, é um
grande homem de negócios, que está à frente de suas causas. Para os
trabalhadores ele é um homem magnífico, simples e forte. E sabe o que
ele é, pai? A soma de tudo isso. Ele é o que diz; faz o que pensa. Ele
é autêntico demais e, conseqüentemente, sincero em demasia. Sua
sinceridade o faz amado, mas, também, odiado. Sua autenticidade o faz
receptivo, torna-o imperativo. Ah! Meu pai, conheço tão bem esse homem,
seu potencial.

O pai acrescenta que também o admira. O quanto é agradável a


convivência e que na volta de Nijmí, pretende permanecer aqui.

A noite desce lenta, tranqüila, bonita e quente!


Da janela de nosso quarto, enquanto penteio os cabelos, vejo o
movimento lá fora. Misca acaba de colocar uma grande travessa na mesa,
já estão chegando alguns moradores. Minha gente está vestida para festa.
Onde estará Igor?
Ele já deveria estar aqui. Na fábrica, não está. Capaz de ele ter
perdido a noção do tempo, conversando com alguém.
Batem à porta, mando entrar.
Da janela, vejo doutor Lajos chegar, sozinho. O pai vai ao seu encontro.
Está pronta, Nat?
Quase, Belle, você bem que pode ajudar-me com o cabelo.
Claro. Está enorme, pouco abaixo da cintura. O Conde ainda não chegou.
Ele é imprevisível. Não sabe a felicidade em saber que em dezembro
vocês estarão de volta. É maravilhoso estarmos todos juntos.
Em poucos minutos acabo de me arrumar, e Belle e eu descemos.
Onde andará Igor?
Chega Mikail, ele também não sabe onde está Igor. Tento mais
informações, mas ninguém sabe.
Todos os moradores já estão presentes, minha gente fez amizade com
todos, e a festa de despedidas é um ato de selar todos esses dias.
Os violinos tocam. Estou ao lado de anya, a fazer-me, pela centésima
vez, sua recomendação referente à gravidez. Beijo seu rosto. Viro-me
para a estrada, na esperança de avistar Igor e me deparo com o olhar de
Mikail, sorrio para ele. Anya observa e, lembra-me o que falou em
Tihany. E, novamente, a tranqüilizo. O pai a convida para dançar.
Vou para junto de Andrei, que passa o braço nos meus ombros. É
engraçada a afetividade; tentamos desfrutar até pequenas coisas numa
despedia. Encosto a cabeça no ombro do meu querido irmão.
Que diferença entre nossa festa e a da Condessa. Nesta, existe a
unidade, a integração. E muito carinho e calor humano.
A Condessa; acho que fiz bem em não comentar sobre o que ela disse e
fez. Isso só causaria preocupação a anya e ao pai. Eu chegarei a uma
solução.
Passo o braço na cintura de Andrei.
Ele... É ele, chegando a cavalo, chega como um raio.
Levanto minha cabeça do ombro de Andrei para vê-lo melhor.
Seus olhos percorrem a todos. Ele se eleva um pouco do cavalo, sério,
sobrancelhas erguidas.
E nossos olhos se encontram!
Ele deixa surgir o sorriso, seu sorriso terno. Seus olhos negros
brilham.
Pula do cavalo e fala com um, fala com outro.
Encosto-me, novamente, no ombro de Andrei.
Gostaria de ter um pouco desse magnetismo que vocês tem, um com o outro.
Que magnetismo, Andrei?
Você e Igor. É uma coisa que já observei por inúmeras vezes. Você e ele
se buscam num olhar. É um à procura do outro e quando se vêem, acalmam-
se, acham-se. Um buscando o outro. É forte e sutil ao mesmo tempo. A
primeira vez que notei foi no acampamento. Estávamos sentados perto da
fogueira. Lembro-me que pensei: é a caça e o caçador. Existe um
momento, um fino e leve momento, quando o caçador e a caça estão frente
a frente, ocasião em que não se sabe ao certo quem é a caça ou o
caçador. É olho no olho. Nessa hora, não se sabe se é dia ou noite! Se
estamos numa floresta ou na estepe.
É assim que vejo vocês nesses momentos. É interessante de se ver,
melhor deve ser sentir.
Andrei está certo, certíssimo, é assim que acontece, é assim que é.
Não é necessário confirmar, apenas sorrio para ele.
Desculpe a minha demora.
Olho-o e sorrio, ele continua.
Será que dá para tomar um banho rápido.
Claro, tem água na tina, sua roupa está em cima da cama. Não demore.
Não me demorarei.
Sua chegada traz mais brilho à própria noite.
Vários pares já dançam, toco Andrei e mostro-lhe Belle com o olhar. Ele
vai a ela, chamando-a para dançar. À minha frente, Mikail balança a
cabeça na conversa com padre Pal. Sei o que está acontecendo e chamo
Mikail com a mão. Ele pede licença ao padre e vem para junto de mim.
Não pude conter o riso ao ver o semblante de Mikail.
Obrigado, Nat, eu não sei até quando terei paciência de ouvir o padre.
É sempre a mesma história, ele não muda uma única palavra: “Meu filho,
venha ao menos uma vez ouvir meu sermão, e, quem sabe, sob o teto de
Deus, você não se converta!”.
Não brinque, Natasha, pois ele fala serio, e haja paciência.

Não é disso que estou rindo. É sua fisionomia de angústia a ouvir o


padre falar. Você precisava ver a si próprio e o alivio quando o chamei.
Meu olhar passa por nossa casa e se detém na janela de nosso quarto. Lá
está Igor, abotoando a camisa, aceno para ele que me faz entender que
já esta descendo.
Ele já vem vindo...
Mikail olha-me e acena com a cabeça.
Por que você não dança Mikail? Sei, por fontes seguras, que tem duas
jovens que estão ansiosas para dançar com você.
Ele fica vermelho, contrastando com sua pele branca.
Não gosto e nem sei dançar.
Então, está na hora de aprender, posso chamar Miriam, ela é excelente
professora.
Não, Natasha, já tomei bastante vinho. Quem sabe...
Honestamente, não foi por indelicadeza. Chega Igor, enlaça o braço na
minha cintura e beija meu rosto. Só ouço o final do que Mikail fala:
... outra oportunidade! Igor, caro amigo, onde você andava?
Conversando com Adolfo, inclusive o convidei para festa. Ele chegou
hoje de Keszthely, e chamou-me para uma conversa.

Meia hora se passa até o Visconde chegar. Ele chega meio desconfiado.
Conversa bastante com alguns moradores.
O resultado não sabemos.
A festa vai até amanhecer.

***

Agosto

O movimento de separação está tranqüilo.


A Condessa continua quieta, o que é bom para mim. Talvez, como ela
falou, dar-me-ia um tempo.
Nossa escola será inaugurada semana que vem. Já está quase tudo
preparado. Com esse evento haverá uma maior integração entre a gente de
nossa região. Ainda não encontramos nenhum professor, se até lá não
encontrarmos ninguém, darei aulas. E Mikail se propôs, também, a
ensinar, até encontrarmos alguém habilitado.
Há duas semanas abrimos a escola. No inicio, existiu uma grande
inibição, principalmente dos adultos. Pela manhã, as aulas são para
crianças, e no final da tarde, para os adultos. Estou me saindo bem
como professora. Nos primeiros dias, fiquei nervosa, mas agora, faço-o
com naturalidade. Gosto de ensinar-lhes mais que aos adultos; elas são
mais abertas, gostam do que lhes parece novidade. Pela manhã, eu e
Anita, uma jovem, que mora aqui perto, nos encarregamos das aulas. Ela
tem mais jeito que eu, precisando, apenas, de maior segurança, o que,
aos poucos, irá adquirindo.
À tardinha, Mikail é quem, praticamente, assume. Anita e eu vamos lá
dar-lhe uma mãozinha. Seu trabalho é muito maior e mais difícil.
Mas o principal ele já tem: os adultos estão querendo aprender, e isso
vem do trabalho que Igor vem fazendo ao longo dos anos.
Ontem, fui encontrar-me com ele nas vinhas e fomos juntos à escola.
Ficamos à janela, vendo o desempenho de Mikail. Honestamente, acho-o
ótimo, e sei que ele está gostando. Hoje, tive uma idéia: por que não
usar a escola, à tarde, para ensinar alguns ofícios? Se existe alguém
que tenha tempo e sabe determinado tipo de trabalho, poderia ensinar a
outros. Sei que isso ficará restrito às mulheres, pois os homens estão
no trabalho. E ele achou a idéia excelente.

Setembro.

Setembro já chegou. Estou com uma carta na mão, acabo de ler. É do


Visconde parabenizando a escola.
Isso dá satisfação. Tanto as crianças como os adultos estão indo bem. À
tarde existe de tudo, costura, bordado e artesanato. E o melhor: tudo
que é feito lá é levado para feira de Badacsony e vendido, sendo o
dinheiro revertido para a compra de mais material para escola. Logo a
escola estará se auto-sustentando.

Minha barriga começa a crescer. Fico no espelho a admirá-la; é tudo


novo e excitante. Quatro meses, estou com a mão no ventre, pois já o
sinto mexer.
E o homem mágico passa longo tempo a tocar meu ventre, para sentir o
bebê mexer.
Participa de tudo, no inicio era exagerado nos cuidados. Já o expliquei
que, para nossa gente, gravidez não é um estado anormal, e sim,
saudável.
Não engordei com a gravidez, mas Misca quer me ver obesa, inventa mil
novidades. Se não tivesse a criação de anya, estaria perdida com tantos
mimos, e nisso ela se junta a Igor a falarem: “Não suba tanto as
escadas”, “não se esforce demais”.
Misca está fazendo o enxoval, e ele quer ver cada peça que ela faz.
Interrompo?
Viro-me à porta.
Entre, Misca, estava só pensando.
Deve estar com o pensamento longe, pois não ouviu nem o som da
carruagem.
Meu sangue gela, a Condessa. Santo Deus, está tudo tão tranqüilo.
Você tem visita.
A Condessa?!!!
Não, senhora Elizabeth.
Meu alívio é instantâneo.
Desço as escadas; sinto o frescor do vento; é quase outono. Olho para a
sala e me invade um bem-estar; assim é nossa casa: aconchegante e
perfumada.
Vejo-a observando a tela na qual estou às margens do lago.
Boa tarde, senhora!
Ela se volta, e sai de seus lábios um sorriso tão bonito! Cumprimenta-
me, convido-a para sentar-se. Peço a Misca chá e bolo. Já sentada, ela
baixa a cabeça e sorrir, timidamente, pedindo desculpas por ter vindo
sem avisar. Fico constrangida diante do seu constrangimento.
Digo-lhe que não sou dada a essas cerimônias. Ela olha a minha barriga.
Você está muito bonita, grávida. Quando nasce o bebê?
Fevereiro.
Encontrei-me com Igor na cidade, ele não cabe em si de felicidade. E
você está muito feliz?
É a segunda vez que ela toca no assunto da minha felicidade.
Estou muito feliz. Como está sua filha?
Ela fica sem graça, arrependo-me da pergunta.
Não estou aqui por ela. Se estou a falar de sua felicidade, nada está
ligado a Krisztina.
Deixe-me esclarecer-lhe estas coisas. No inicio acreditei que Igor
poderia chegar a casar-se com Krisztina. Principalmente, pela Condessa,
pois ela vive a impor fantasias na cabeça dela. Porém, Igor jamais
alimentou nada, nem sequer gostava da minha filha. Foram, desde
pequenos, amigos, apenas amigos. Como lhe falei, cheguei a achar que
esse casamento pudesse ocorrer, cheguei a falar com Igor algumas vezes.
Mas ele em momento algum se pronunciou a favor. Isso vem da Condessa, e
ela nos levou a acreditar no casamento. Igor está certo, quando nos diz
que o que nos resta é sonhar. Realmente, com nosso tipo de vida, o que
nos resta é sonhar.
Há muito queria vir aqui. Tomei coragem e vim. Talvez, até, importuná-
la. Sou uma pessoa solitária, Natasha. Já gostei de conviver com a
aristocracia. Hoje não agüento, vou a algumas reuniões por obrigação e
não por prazer. Aqui, em Badacsony, nós temos dois pontos, uns poucos
aristocratas e pessoas simples. Tem certas ocasiões que tenho vontade
de sair à rua e conversar. Tentar algo novo. Mas sou muito fraca, e
isso iria de encontro a meu marido e a Krisztina, e não tenho coragem.

Olho-a com carinho e falo:


A senhora não está sendo inoportuna, e não quis ofendê-la. Talvez, me
seja difícil desassociar vocês duas. Desculpe-me.
Claro. Mas lhe afirmo que estou aqui por ter gostado de você. Mas se
isso lhe causa constrangimento.
Nego e peço para mudarmos de assunto, perguntando-lhe por que não faz o
que tem vontade, pois é uma senhora tão jovem e pode ter tantas
oportunidades, ela responde:
A covardia tomou-me uma vez, e isso me marcou a vida inteira. Na
verdade, mudou minha vida. Tive nas mãos a oportunidade de ser feliz e
fazer outras pessoas felizes. E joguei fora, pensando que, com essa
atitude, estaria eu a fazer um grande negocio. E a única pessoa a
perder fui eu mesma. Não me encontro em nada.
Fico a olhá-la. Misca traz a bandeja, coloca-a na mesinha e sai. Sirvo
chá e o bolo. Gosto dela, e isso sai de mim, de dentro de mim. Ela
pergunta se já escolhemos o nome do bebê. Respondo-lhe que não, são
tantas opções. Ela coloca o prato na bandeja e fala:
Um dos motivos que me trouxe aqui é a Condessa. Ontem à tarde ouvi-a
falando com Aurel. Ele discordava dela e o assunto era a seu respeito.
Ela estava pedindo para Aurel vir aqui fazer alguma sondagem. Não sei
bem de quê.
Olho para a senhora, lembro-me que comentei com anya sobre ela. Disse-
lhe que conhecera uma senhora que me parecia ser sincera. E vejo que
estava certa.
Por que a senhora veio me avisar?
Já lhe disse: gosto de você. Esta é toda explicação, estou sendo
sincera.
Eu sei que está, como, também, sei que a Condessa não me suporta.
Você representa a liberdade, Natasha, e ela a autoridade. Você tem o
amor do seu filho e ela tem o desprezo dele. Você é a maior rival que
ela tem, tenha muito cuidado.
Terei. E obrigada, sei que ela é capaz de tudo.
A senhora respira aliviada, e continua:
Também vim lhe falar sobre a escola. É o que se fala na cidade. Sei que
vocês dão aulas à tarde, onde se ensina o que se sabe. Há dias que
estou pensando nisso. Temos famílias carentes na região. E surgiu-me
daí a idéia de fazer roupinhas ou enxoval para essas crianças. Um dia
na semana poderia se tirar para fazer as roupinhas, ou enxoval para
mães carentes, posso conseguir os tecidos.
Acho uma excelente idéia. Hoje, a escola está quase se mantendo
sozinha. Segunda à tarde, fazem-se doces, que são vendidos na feira; na
terça é dia de aulas de costura e bordado; na quarta, são feitos os
arranjos de folhas e flores secas para, também, serem vendidos, e na
sexta-feira, perfumes e essências, já temos encomendas para Tihany. A
quinta-feira está aberta. Fazemos uma reunião para avaliações, mas
podemos fazê-la à noite. Tenho certeza de que aceitarão de bom grado.
Gostaria de vir, na próxima quinta-feira, para conversarmos todos
juntos?
Gostaria muito.
E por que não fica responsável por essas reuniões? Orientando.
Ela me olha pensativa, e depois, sorri.
Não sei se teria condições, mas posso tentar.
Nossa conversa é muito agradável e nem sinto o tempo passar. Fica
acertado, então, que na próxima quinta-feira ela virá.
Ao sair, ela parece mais revitalizada e alegre. Talvez seja trabalhoso
para ela, mas, sem duvida lhe fará bem.
E, sem querer, equiparo as vidas, dando-me conta de como a minha é
movimentada e participativa. Pela manhã é a escola, à tarde,
geralmente, dou uma passada lá e as aulas de perfumes são minhas, pois
aí uso a técnica cigana. E todas as tardes vou encontrar-me com Igor.
Algumas vezes, ficamos simplesmente a passear, a namorar, ou então
vamos à escola, de onde saímos os três, Igor, eu e Mikail, e este
geralmente janta conosco.
E, nos dias de avaliações, ficamos até mais tarde na escola. Alguém
sempre nos leva um chá com pães. Essas discussões são muito produtivas,
e sendo na escola, é como se fosse na casa de todos.
Anita já está segura, o que me dá mais folga. E disse-me que nós não
precisávamos mais procurar um professor. Deu-me uma alegria enorme, vê-
la tão segura. Acho que ela está apaixonada por Mikail.
Posso saber o motivo do abandono, amada?
Ainda estou na sala. E ele entra com seu jeito espontâneo.
Desculpe-me, tive uma visita hoje à tarde. Senhora Elizabeth saiu há
pouco.
Estamos passeando, conto-lhe nossa conversa e ele diz:
É muito interessante. Agora, ela vai comprar briga com algumas pessoas.
Vai, sim! Gosto de Elizabeth, sempre gostei, ela tem uma tristeza que
sensibiliza, e o interessante é que, mesmo triste, ela não é uma pessoa
amarga. Sabe quem chega semana que vem? Margit.
Eu já sabia. Mas o que na verdade queria saber de Igor era o que a
Condessa comentara sobre nosso filho.
É importante para você saber?
Talvez não, mas quero que me conte.
Ela foi fria, como sempre, e disse-me: - Parabéns seu herdeiro esta a
caminho, só espero que ao nascer, você não esteja numa prisão.
Amarga, fria e prepotente, e isso não nos atinge.

Atinge, amado, e como atinge-me; chego a ficar gelada. Ela manda seu
recado.
Encosto a cabeça na sua.
Não fique em conflito, Natasha! Ela é só uma mulher ambiciosa, que está
parada no tempo, sem se dar conta que o mundo à sua volta está mudando.
Ela, por puro egoísmo, está ficando num passado inexistente. Nada irá
nos atingir, pode estar certa disso.
Ah amado! Queira Deus que você esteja certo.

Anoitece, ele senta-se e encosta-se na velha árvore. Deito minha cabeça


nas suas pernas. Ele alisa meus cabelos. O céu está belo!
Lembro-me do avô, suspiro. E lembro das palavras de Igor: temos missão.
Vida, lembra o dia em que falávamos do avô? Você ali falou que temos
missão. O que significa?
Ele continua a alisar meus cabelos e fala:
Estamos aqui para um propósito. Se tivermos consciência deste
propósito, é bem mais fácil.
É como o trabalho na escola, de forma mais abrangente?
Em parte. Juntos colocamos em prática consciente: a escola. É um
trabalho, missão. Ela é em prática uma junção do que acreditamos, sua
força vai além e mostra que cada um que está ali dentro tem o
potencial, é só estar ciente.
Por isso ela corre tão naturalmente. Estamos cientes do que realizamos.
Sorrio e falo:
Creio que dentro da minha missão está meu aprendizado referente ao
sentimento.
Ele solta seu riso alto e fala:
Não vejo assim, você trouxe-me uma recordação nossa. Talvez eu só
esteja mais acordado que você, simplesmente isso. O seu potencial de
força é imenso, só que você é nova nessas aragens.
Suspiro e vou levantar-me, mas ele é mais rápido e beija meus lábios.
Amo você.
Sua frase se perde na minha boca.

Interrompo esses eternos enamorados?


Igor permanece de olhos fechados, respira e volta-se para Mikail.
Caro amigo Mikail, se não tenho educação manda-lo-ia para o inferno.
É o mesmo que diz o padre Pal. Devo ser um caso perdido...
Sente-se aí, Mikail, como foi a aula?
Obrigado, Nat. A aula foi boa! A turma está interessada. Quero combinar
algo com vocês. Estamos numa época bonita, o outono se aproxima e a sua
gravidez já é notada. Que tal fazer uma pintura de vocês?
Achamos a idéia ótima, ficamos de começar o quanto antes.
Subimos a colina, indo para casa, quando Mikail pára e, com o olhar,
mostra-nos um ninho de pássaros: a mãe alimenta seus filhotes, e
estamos os três a olhar.
Olho para Igor, moreno, sério, com os olhos a falarem por si. Olho para
Mikail, loiro, alvo, com barba, olhos azuis, difíceis de decifrar.
Desço o olhar para meu ventre: - é, bebê, você tem sorte, nascer aqui,
neste lugar abençoado, cercado de tanto amor e de gente tão amiga.
Vêm-me lágrimas aos olhos.
Igor capta tudo muito rápido e sussurra.
O que é, vida?
Olhe para mim. Acho que é a gravidez. Ela me torna mais emotiva e
sensível. Simplesmente estou feliz.
Ele me abraça e começamos a subir a ladeira para casa. Puxo a mão de
Mikail. Igor ri do embaraço dele e começa a cantar uma velha canção
húngara.

Cá estamos no lago.
Mikail começa a pintar.
Não sei onde ele arranja paciência com Igor.
Mikail grita: - Vou começar!
Essa é uma tentativa para Igor ficar quieto, não se mexer.
Correm alguns minutos, olho de lado para Igor. Tenho vontade de rir.
Igor olha para mim e pisca o olho. Puxa-me correndo para o lago, só
tenho tempo de jogar meus sapatos fora. E estamos tomando banho de
roupa e grito para Mikail vir, ele tira as botas e cai na água.
Meia hora de banho e estamos a subir para casa, molhados, ensopados,
rindo de Mikail.
Uma carruagem preta está à porta. É a carruagem da Condessa!
Fico gelada e olho para Igor.
Sua mãe?
Ele solta sua risada.
Imagine seu semblante, nos vendo assim. Quem sabe, ela não gostaria
também de tomar um banho no lago!
Cale-se Igor! Vamos entrar pela cozinha.
Imagina! De jeito algum. É nossa casa.
Meu coração se acelera, o mal-estar que ela me causa é incontrolável.
Igor abre a porta.
Na mesma posição em que estava Elizabeth, a ver meu quadro, está uma
moça. Igor franze as sobrancelhas.
Margit?!!!
Ela se vira sorrindo. Fico na porta a observá-los. Como ela se parece
com ele. Os dois se abraçam emocionados, trocam palavras de carinho.
Ele vira-se para mim e chama-me.
Natasha está é minha irmã Margit. Margit, está é a mulher da minha vida.
Aproximo-me.
É um prazer, Natasha, estava ardendo de curiosidade em conhecê-la.
À primeira vista, fiquei gostando dela. Igor chama Mikail para entrar e
o apresenta a Margit. Mikail se desculpa de estar molhado, e por mais
que insistisse para ele ficar para o jantar, desculpa-se dizendo que
tem muito o que fazer.

Margit tem uma parte de seu vestido molhado do abraço de Igor.


Pedimos licença e subimos para nos trocar.
Instintivamente, gostei dela, talvez por ser tão parecida com Igor.
Nosso jantar é muito agradável.
Ela é meiga e simples. Quando acabamos o jantar vou ajudar Misca a
tirar a mesa e vou à cozinha pegar um licor. Misca me pergunta se
gostei dela, digo-lhe que sim, e me diz.
Ela quando chegou, abraçou-me calorosamente. Trouxe-me até um presente!
É, ela mudou, a vida deve ter-lhe ensinado muita coisa.
Volto à sala num momento inoportuno. Margit está de cabeça baixa,
chorando. Coloco a bandeja de licor na mesa e faço menção de me retirar.
Pode ficar, Natasha, não tenho o que esconder. Se você é a esposa desse
irmão maravilhoso que tenho é porque deve ser uma pessoa muito especial.
Creio que vocês dois têm muito o que falar. Vou ajudar a Misca.
Ela pega minha mão e pergunta:
Quando o bebê nasce?
Fevereiro.
Gostei de você, Natasha.
Eu também de você, Margit.
Ela sai tarde, ficando de voltar na manhã seguinte. Na cama, Igor olha
o teto, e conta-me que o casamento dela está insustentável.
Seu marido, o velho barão, além de beber, agora, não esconde de ninguém
suas amantes. Fica a dar escândalos e já levou, por algumas vezes,
moças à sua casa. Pergunto a Igor o que ela pretende fazer, ele diz que
ela ainda não sabe, e, por isso veio passar uns dias para pensar
melhor. Para ver o que pretende fazer de sua vida. E indago o que ele
disse a ela.
Disse-lhe que pode contar comigo seja qual for a decisão que tomar.
Mas ela não pode ficar nesse casamento.
Ela já sabe quem ele é. Isso quem tem que decidir é ela. Ela tomou
consciência de forma dolorosa, por mais que tenha sido avisada. A
resolução, só ela terá que tomar. Ela precisa de apoio e carinho, aqui
ela tem.
O que a Condessa disse a ela?
Você é capaz de imaginar. Disse-lhe para ela agüentar mais um pouco,
pois o barão está velho e do jeito que bebe, logo morrerá e, aí, ela
irá usufruir tudo. Uma viúva jovem, bonita e rica, morando na corte,
essa é a melhor sorte que uma pessoa pode ter. Ela não tem nem a
capacidade de ver a angústia que Margit está passando. Para ela, tudo
isso é bobagem. O que importa é o futuro promissor. Ela é tão cega que
não vê que essa situação está destruindo Margit. Se seguir o raciocínio
da Condessa, esse homem dura mais uns quatro anos, mas, até lá, minha
irmã estará acabada.
Vejo Igor revoltado com a Condessa, até então as atitudes dela eram-lhe
indiferentes.

Acordo cedinho, Igor está, novamente, com o olhar no teto, pensando.


Depois puxa-me e abraça-me.
Por que as pessoas não buscam o melhor? Por que as pessoas não se acham
em condições de buscarem a felicidade? Por que existem pessoas que
interferem na vida do outro, sem dar chance de o outro achar a própria
vida? Por que não se permitem sentir.
Creio, Igor, que seja o que tanto falamos: consciência. E, a sua frase:
a essência da vida está onde e como atribuímos nosso sentimento. Onde
está a essência e o sentimento dessas pessoas? No externo? Nas
aparências? Meu avô sempre dizia que somos responsáveis por tudo que
plantamos e cultivamos. Cada pensamento terá ressonância no amanhã,
mesmo que esse amanha demore até a uma outra vida.
Você, amado, chamou-me no tempo, construiu uma fortaleza e aqui
estamos. Esta é, para nos, a maior felicidade: somos unidos e nos temos
um ao outro. Já para sua mãe, é o maior infortúnio. Margit terá que
mergulhar dentro de si, alcançar sua alma, para decidir o que fazer.
Você deu-lhe a luz ao dar apoio e carinho. Ela já foi muito
influenciada e agora ela precisa, por um tempo, de uma ajuda para
recomeçar a trilhar o seu verdadeiro caminho. Ela precisa ouvir seu
próprio coração.

Poucas horas depois, estou tendo a oportunidade de falar exatamente


isso a Margit. Ela, depois, beija meu rosto e apertando minha mão fala:
Sabia que seríamos amigas. Além de termos um grande amor pelo mesmo
homem, de maneira diferente, é claro. Admiro-a, Natasha, e imagino o
que você deve ter passado com minha mãe. Enfrentá-la, para mim, já é um
ato de coragem.
Sorrio para Margit, negando.
Nem tanto, Margit, Igor é que me dá muita força.
Ele nunca se influenciou, em nada, pelo que minha mãe fez ou pelo que
ela achava certo. Sempre fez o que acredita ser certo, dê no que der.
Não sei onde ele encontra tanta força.

Dentro dele mesmo, seus valores estão firmemente plantados. E sabe por
que ele não a teme? Por ser autêntico demais, cristalino como água da
chuva. É cheio de energia e luz. Ele, sozinho, é capaz de mudar o curso
do Balaton! Altruísta, por essência. É o que pensa, faz o que sente;
não existe meio-termo para ele.Tem a claridade e o calor do sol. Um
mago! Existe dentro dele a força e, talvez, por ele comungar com ela,
sua força vai além do normal. Sua visão também; seu pensamento limita-
se com o infinito.
E, muitas e muitas vezes, ele passa de mortal a imortal.
Tenho tanto o que descobrir nele! Seus olhos observam tudo e, ao mesmo
tempo, expressam o que está sentindo.

Ela me olha admirada e exclama: - Como você o ama!


Amo-o, ele é toda minha vida. Só que ele atingiu a plenitude do amor.
Não que possamos medir ou equiparar o sentimento, mas que se pode ter
uma visão plena dele é um fato.
Em mim, ainda existem temores e vacilações. Penso que o exterior pode
abater esse reino interno onde nosso sentimento reina. É por isso que
temo sua mãe. Temo ficar distante dele. Meu sentimento é sujeito às
vibrações humanas, o dele está acima da razão humana. Compreende-me?

Margit olha-me com carinho e responde:


Não, honestamente, não compreendi tudo. Exceto o quanto se amam!
É tocante por demais.Também, como poderia compreender, se nem por
sombra chego a sentir alguma coisa assim. Se nunca senti uma paixão. As
coisas, para mim, sempre foram por conveniência. Desculpe-me, mas chego
a ter uma inveja sadia do que vocês sentem e de como se nutrem. Sabia
que com ele seria assim, razão pela qual, também, sabia que a seu lado
estaria alguém muito especial. Este alguém é você. Já sabia, por
antecipação, que nos daríamos bem. Hoje, vejo como Igor estava certo
sobre meu casamento. Naquela ocasião, eu dei ouvido, como você falou,
ao exterior. Não posso condenar somente meu marido. Já sabia como ele
era. Agora não quero errar novamente, por isso estou nesta luta comigo
mesma. Tenho que realmente ouvir minha alma. Quero que saiba que terá
em mim uma aliada, esteja onde estiver em qualquer situação. Você foi
capaz de me compreender. Uma amiga, coisa tão difícil, quanto esse
sentimento que vocês têm.

Margit não só passa o dia conosco, como também fica para dormir.
Ficamos até tarde numa conversa gostosa.
O dia amanhece com o sol brilhante, irradiando perfume e vida.
Magnânimo!
Ao levantarmos, Margit já está na cozinha com Misca. Fazemos a refeição
e vamos à escola.
Após o almoço, ela volta para a cidade prometendo voltar no dia
seguinte. Convido-a para passar alguns dias conosco. E Igor fala:
Ótima idéia, aqui você não terá ninguém pressionando sua vida.
Se tiver coragem de enfrentar os por quês da mamãe, virei.
Estamos na varanda acenado para Margit, e converso com ele, que fica
atento às minhas palavras.
Sabe o que mais me encanta nela? Não! Existe um momento em que
aprofundamos em avaliações e reflexões sobre nossas vidas. Aí, tornamo-
nos aptos ao novo; como um reaprender. Ela tem a consciência de quem
quer acertar; a humildade em rever e reavaliar seus erros, sem culpa.
Tem, também, uma carência de ajuda ou carinho.
Ele olha-me sereno e fala:
- A cada dia você se solta mais e mais, e compartilhar deste ato é
magnífico!
Amada, você está certa, Margit tem a humildade e a carência. Que ela
enfrente a Condessa, principalmente porque deixou que sua vida fosse
por ela delineada.

Você nunca chama a Condessa de mãe, por que?


Ele me olha pensativo e fala:
Sempre chamei meu pai de pai. Mas ela sempre foi para mim, uma Condessa
e não uma mãe. Mãe foi e é Misca. Quando criança não entendia que cada
um só dá o que tem. Não existe mágoa, existe um carinho. Sei que ela
procurava saber se estávamos bem, confortáveis e saudáveis. Mas foi
Misca que nos assumiu, juntamente com meu pai e avós. Tenho um carinho,
não um sentimento por ela. Sou-lhe muito grato por ela ter me dado a
vida. Sempre a chamei de Condessa. Engraçado é quando meus ideais
passaram da cabeça para a ação ela chegou a pensar que era uma forma de
contestá-la. Ela sempre se vê como centro de tudo.

A chegada de uma carruagem interrompe nossa conversa. É Elizabeth,


cheguei a pensar que ela não viria. Tomamos um chá e seguimos para a
escola.
No inicio, ela ficou inibida, mas quando suas idéias foram aceitas, ela
foi se soltando. E, no final, estava relaxada, a combinar o que será
necessário para se iniciar o trabalho.
Ao subirmos para casa, ela está confiante e alegre. Ela é extremamente
carinhosa comigo.
À noite chega Margit, com suas malas. Já tínhamos jantado, e estamos a
ver a lua, quando ela chega.
Sorrimos ao ouvir dela que a Condessa ficou furiosa, depois fez um ar
de indiferença, dizendo que ela precisava de ar do campo. Margit lhe
disse que fazia muito tempo que não está com Igor e sentia saudades, o
que não é mentira.

Outubro.

Um mês se passa. Nossos dias estão repletos de uma alegria suave e


contagiante.
Rimos todos quando eu falei que a Condessa estava certa, pois Margit
está com nova cor.
Seus olhos ganharam vida, ela está solta como as folhas de outono.
Acompanha-me à escola todos os dias. Participa, ativamente, de nossas
vidas. Digo-lhe que ela chegou numa hora abençoada, pois, tanto ajuda
na escola, como a Misca no enxoval do nosso bebê. E é assim que ela
fala: - nosso bebê.
Outro dia, ela me perguntou se não estava atrapalhando, ficando conosco.
Fui severa, perguntando por que ela não se dava o direito de estar bem,
sem se punir com isso. E disse-lhe que, se fosse inconveniente, com
toda certeza não estaria conosco.
É bonito de ver uma pessoa se descobrindo, começando a amar a vida,
sentir que está bem e em paz. Emerge dela uma brilhante luz, e por
diversos momentos percebo essa luz brilhar mais quando ela está ao lado
de Mikail. Isso foi acontecendo naturalmente, ela tenta disfarçar da
melhor maneira possível. Mas se percebe quando alguém está apaixonado:
o sorriso aflora à toa, os olhos brilham mais. Mikail continua o mesmo,
até por respeito, talvez. Ela casada, irmã de Igor. Comento com Igor, e
ele dá uma sonora risada e balança a cabeça.
Sério? Você acha mesmo que ela está apaixonada por Mikail?
Acho.
Seria muito bom para os dois, ambos solitários, vamos torcer!
Depois, ele solta o riso novamente e fala ainda rindo:
Imagine a Condessa. Trazemos minha irmã para cá, e ela se apaixona por
um artista.

A paixão de Margit é serena. Acho que sei o que se passa no seu


interior; afinal, ela é casada.
E é a primeira vez que se apaixona. Mikail conseguiu, enfim, terminar
nosso quadro. Impulsivamente peço para ele retratar Margit. Ele aceita,
naturalmente. Ela fica sem jeito.
Não compreendo Mikail. Anita já não sabe o que fazer para ser por ele
notada, se bem que a tenho visto acompanhá-lo a sua casa.
Margit, duas vezes por semana, vai à cidade ver a Condessa. Igor quase
não a acompanha, o que acho ruim, pois temo que a adversidade dela se
interponha mais ainda em sua vida.

Outra pessoa com quem está sendo extremamente agradável de conviver é


Elizabeth. Sua docilidade, e sua sutileza me envolvem. Sinto como se
ela quisesse me conquistar. Honestamente, não a entendo, ela por si já
me é cara, gosto muito dela.

Novembro.

O tempo corre, entra mês, sai mês, estamos em novembro, mas, meus
pensamentos, vez por outra, vão à Condessa. Nosso elo não se desfaz.
Soube por Margit que ela tenta disfarçar, mas, faz perguntas a meu
respeito. Ao contrário de mim, se fosse possível, calaria a boca das
pessoas quando estão a falar nela. E vejo que nem eu nem ela
conseguimos esquecer uma da outra. Procuro por todos os meios esquecê-
la. E, mesmo não fazendo perguntas sobre ela, é como um fantasma que me
persegue até em sonhos. Já sonhei por várias vezes ela rindo a dizer:
- Não falei que conseguiria?
Por mais que tente dizer a mim mesma: ela não é forte o suficiente para
me afastar de Igor.
Eu, simplesmente, temo. Tenho medo dela, suas manobras são tão sujas
que a vejo com a capacidade de tentar tudo. Se hoje ela está quieta é
que alguma coisa está armando.
Vejo a ingenuidade de Margit, ela pensa que a mãe, ao perguntar por
mim, dá uma demonstração de interesse. O que, em certo sentido, não
deixa de ser.
Soube, por Val, que ela se refere ao nosso filho, como o filho da
cigana. Misca, ao ouvir, quis falar com Igor, mas lhe pedi para não
fazê-lo. Aonde levaria acirrar mais as divergências?

Vou à janela...
Nossa região está nua.
A maioria das árvores perdeu suas folhas. Restam uma ali e outra acolá.
O chão está como um tapete alaranjado. O vento faz seu trabalho.
É uma estação que nos convida à meditação. Estamos no fim do outono.
O mundo parece se preparar para uma estréia. É a nova estação que se
aproxima.
O vento começa a soprar frio.
Passo a mão na barriga. O nosso bebê mexe-se bastante. É uma gravidez
abençoada, não senti nada de anormal. Doutor Lajos vez por outra vem me
ver. Acho-me uma grávida bonita. Igor diz que estou extremamente
sensual. O meu sentido de ser mulher está mais ampliado. Meu cabelo
está mais sedoso, o tom de mel passa para alguns fios dourados, minha
pele limpa; meus lábios mais notados. Fazer amor com ele é, hoje,
suave, deliciosamente suave, nossos momentos são mais longos e
profundos. Creio que existe um ciclo encantado desde o bem-estar à
felicidade. Instalam-se as diferenças.
Continuo indo à escola exceto nos dias de muita chuva. A escola passa a
ser um grande orgulho de todos nós. Elizabeth continua vindo às
quintas-feiras. Suas idéias se concretizam.
Além dos enxovais, estão confeccionando colchas de retalho. Estas são
vendidas, o que representa mais entrada de dinheiro para a escola.
Mikail começa um curso de pintura. Elizabeth está cursando, como,
também, duas moças da cidade. São interessantíssimas as aulas. São
muitas as tentativas, poucos acertos, mas creio que lidar com arte é
aflorar a própria sensibilidade. “Com o conhecimento das técnicas, é só
deixar a inspiração surgir, crescer e tomar forma”. Palavras de Mikail.
Ouvi-lo falar da arte é sentir como ele vê o mundo, e como ele canaliza
sua energia vital.
Margit fica a ouvi-lo. Restam poucos dias para ela estar conosco. Ela
nos comunicou que semana que vem retornará á Áustria. Já sinto saudades
dela.

Ela foi à cidade visitar a Condessa, e eu estou no término da aula de


fabricação de perfumes. Mikail me espera para levar-me em casa. A
subida para casa está cheia de folhas úmidas. Não vejo necessidade de
tanto zelo, mas gosto, imensamente, de sua companhia.
Margit vai partir. Apeguei-me a ela como uma irmã; é como se ela
fizesse parte de nosso mundo, gostaria que ficasse aqui.
Cuidado com as pedras, Nat, estão escorregadias.
Acho que ela não terá mais condições de ficar com o marido. Não é a
corte que a encanta e sim a vida que temos aqui. O quadro que você fez
dela, está lindo. Também, ela é muito bonita, não é?
É.
Seguro seu braço, fazendo-o parar.
Posso lhe perguntar algo? Não precisa responder se não quiser, somos
amigos e eu saberei entender.
Pergunte.
Você é nosso amigo, meu grande amigo. É uma pessoa de poucas palavras,
mas é uma grande amizade. Amigo que a gente quer bem, a quem só se
deseja o melhor, por quem se pede a Deus que seus sonhos se tornem
reais. Você é muito caro para mim Mikail, e muitas vezes fico a me
perguntar se você é feliz, se está se realizando. Vive sozinho por
opção. Já notou que existem pessoas interessadas em você! Você já amou
alguém?
Ele passa a mão na barba, seus olhos tornam-se de um azul escuro.
Já.
Faz tempo? Por que não se interessa por mais ninguém?
Ele dá um meio sorriso.
Porque amo essa pessoa.
Seu amor está distante daqui, é isso?
Ele continua, de repente, a andar; segui-o.
Digamos que é a distância. Existe uma total distância entre mim e ela.
E por que você não vai ao seu encontro?
Ele pára de andar.
Porque isso não vem ao caso. Saí de casa muito cedo, aos dezoito anos.
Quando criança, ficava o dia a ver o mar. Odessa é uma cidade à beira
do mar, e eu pensava, algum dia, pegar um barco e conhecer o mundo.
Disse a mim mesmo que não quero ter família, que quero ser livre. Todo
mundo ria, coisa de criança. Meu pai era pescador, e eu via seu
fascínio pelo mar. Via, também, seu rosto quando chegava em casa e
encontrava diante de si sete filhos. Liberdade, para mim, era não ter
laços afetivos. Um dia, ele saiu ao mar e não voltou, minha mãe esperou
seis meses. Não foi o barco que afundou, ele sumiu. Nessa época tive
raiva do meu pai; via o sofrimento de minha mãe ter que alimentar sete
filhos à custa da piedade dos outros. Ao mesmo tempo, tinha inveja
dele, do pai. Saiu ao mundo; deu-se esse direito. Ele, para mim era uma
pessoa má e, ao mesmo tempo, um herói. Comecei a pintar cedo e nesse
período eu vendia meus trabalhos para ajudar em casa.
Um dia, chegou em casa um irmão da minha mãe, ele morava numa aldeia. E
nos levou para morar com ele na sua pequena fazenda. Foi um bom
período, voltei a ser criança, brincava, tirava leite das vacas. Havia
espaço para todos. Esse período foi dos doze aos quase dezoito anos. E,
um dia, retornou meu pai, chorando, pedindo perdão à minha mãe. Senti
uma revolta. Vira o que ela passou, como, também, a vi recebê-lo de
braços abertos. O homem que um dia chegou a ser herói para mim, chegava
destruído e passou a ser insuportável conviver com ele. Se antes o
invejava, passei a vê-lo como um grande perdedor, pois tudo que fez foi
malfeito: não foi bom marido; sonhou em ser um aventureiro e se
arrebentou.
Então, comuniquei a todos minha decisão em partir. Minha mãe sabia o
que se passava comigo, e ele dizia que eu era sua cópia fiel, que tinha
a aventura nas veias. Eles resolveram ficar na fazenda do meu tio, onde
meu pai, trabalhando, poderia dar à mãe e aos irmãos uma melhor
condição de vida. Fiquei aliviado, pois era mais seguro para minha mãe.
Foi assim que saí ao mundo, percorri longos caminhos e minhas revoltas
foram desaparecendo. Mas continua nítida a lembrança de família como
uma grande responsabilidade; e do casamento, uma faca de dois gumes.
Visito-os sempre que posso. Portanto, acho perigosas as ligações
amorosas.
Ele sorri e acrescenta: - Exceto raríssimas exceções.
Mas você ama alguém; esse amor ficou em alguma cidade distante?
Vejamos uma pintura, Natasha, minha dama vive num reino distante e
encantado.
Isso o faz feliz?
Digamos que sim.
E, por amar, você não gostaria de partilhar?
Ele fica sério e pensativo.
Não é possível. O que você está achando das aulas de pintura?
Por forçar o assunto a ser mudado, entramos em outro tipo de conversa.
Mas, então, esse amigo ama alguém. Isso fica mais difícil para quem
está interessado nele. Se, ao menos, ele fosse mais aberto. Mas não,
fecha-se, cala-se, é aberto apenas à nossa amizade, à escola e,
principalmente, a sua arte.

A chuva recomeça fininha e persistente; existe um friozinho.


Mikail e Margit estão lá embaixo.
Tomo um banho e troco de roupa. Escolho meu vestido verde novo.
Passo na sala. Eles estão tomando vinho e vou à cozinha ajudar Misca.
Igor chega no momento que estou a beliscar a comida na panela,
completamente molhado. Beijo-o. Subo para ajudá-lo a se trocar,
aproveitando o momento para estar a sós com ele. Contamos, um ao outro,
pequenas coisas; é o fazer parte, estar presente. Ele me fala que a
máquina deu novamente problema.
A lareira é, pela primeira vez, acesa, o que torna a sala mais
aconchegante.Tomamos vinho, Margit fica mais solta, fala de seus
planos, o que denota que ela é, agora, uma mulher que sabe o que
almeja, o que quer. Está a reencontrar-se com a própria vida.
Quero voltar para solucionar minha vida, embora saiba que não será algo
de imediato. Vejo o quanto minha vida foi dirigida, avalio o quanto me
deixei corromper. A corte dava-me uma idéia de ser uma grande festa. E
a festa acabou há muito tempo; a realidade é outra. Vivi sempre uma
vida irreal; nada sabia da realidade, nem queria saber. Hoje, sei que
posso buscar, tenho vontades. Afinal é minha vida.
Estar com vocês foi, é e será sempre valioso. Vim no momento certo. Se
estivesse aqui antes, talvez não tivesse condições de assimilar,
refletir e participar desse mundo.
Aqui, aconteceram tantos fatos, tive a liberdade de fazer o que queria.
Como, também, achar-me em casa, sem ser uma estranha. Um fato marcante
aconteceu nos primeiros dias, quando lá na escola, eu ensinava uma
senhora a fazer um arranjo. Ela me chamou e disse-me: por favor,
ensine-me, eu não sei e quero tanto aprender!...
Isso foi tão forte para mim, que me fez refletir toda minha vida e vi o
quanto não sabia e o quanto tinha e tenho que aprender quanto às
relações humanas. E, depois desse dia passei a tentar assimilar o
conteúdo dessas relações. Disse a mim mesma: eu não sei, pois tudo é
tão novo para mim. Você, Natasha, escutou-me e ajudou-me, indo além,
com toda essa serenidade que tem, deu-me carinho. É uma amiga e não é
só um presente para meu irmão, é para mim, também, uma irmã, de quem
tenho muito orgulho e amor. E foi importante eu ter me sentido em casa.
Na casa de mamãe freqüentei uma escola onde se faz aprendizado em
sofisticação, de como se portar, de como receber as pessoas com o único
intuito de ser uma dama da corte. E, em casa, eu não passava de um
objeto de decoração. Foi para isso que fui educada. Dentro de mim,
existia a necessidade de comprovar que deveria existir um mundo
autêntico, vinha sua imagem, Igor. Sua vida solta e livre. Ser o que é.
E aqui estou com vocês. E você, Mikail, soube, sutilmente, ensinar-me
como pequenas coisas têm grande valor. Observando você pintar, vi a
dimensão das coisas mínimas, e como o mundo pode tornar-se colorido!

Ele ri e baixa a cabeça. Ela continua:


Já discursei o bastante, o vinho adormeceu minha timidez, mas é
importante abrir-se aos amigos. Quero, num futuro próximo, estar aqui,
novamente.
Igor está sentado no tapete, puxa-me para junto de si. Deito a cabeça
no seu ombro e falo emocionada da saudade que sentiremos dela. Ela nos
olha e sorrir falando:
Na primeira vez que Nat e eu conversamos, ela me falou do sentimento
que tem por você. – continua Margit.
Honestamente, não entendi, mas ao vê-los dia a dia, comecei a ter uma
noção de como é esse sentimento. Exala de vocês essa cumplicidade, essa
necessidade que um tem do outro. Ainda não sei entender totalmente o
que me disse, Nat, simplesmente vejo e comprovo que é a vivência mais
bonita que já presenciei. Isso aflora dos seus olhos, e de suas vozes.
Existe alguma fórmula?
Todos rimos e Igor fala:
Estamos seriamente propensos a vendê-la. – todos rimos muito e ele
continua.
Sabe o que ocorre Margit? Damos vazão a tudo que sentimos. Tudo se
dificulta por causa das meias palavras, meios-termos. Ser sincero com o
que se sente é partilhar essa comunhão. A sinceridade do sentimento e a
participação têm sido nossa fórmula.
Há algum tempo, encontrei a mulher da minha vida, distanciamo-nos. Dia
e noite, no pensamento e no meu peito eu sentia a presença dela.
Chamava-a, vinha a força do sentimento. Respirava e segurava meu
pensamento nela, e vinha a vontade, pois o amor pode com tudo. E quando
eu não mergulhava no que sentia, ficava ao léu, qual um barco sem rumo.
Porque o amor que tenho por ela é tudo! Eu a chamava e a esperava. Em
abril, ela reapareceu, e aqui está ela junto a mim.
Eu necessito, preciso e quero estar a seu lado. Não é simples?
Necessito dela como o ar que respiro, preciso dela por ser ela o
sentimento, e quero estar a seu lado por querer, sempre e sempre,
partilhar.
Amo-a, e isso é tudo. - Volta-se para mim e fala.
Como pude ficar três anos a te esperar? Eu deveria ter corrido os
quatro cantos do mundo para te reencontrar.

A sala fica silenciosa, só o crispar do fogo na lareira é ouvido.


Aconchego-me a ele. Homem, sem meias palavras, joga o que sente,
abertamente.
Meu irmão, você é sempre uma surpresa para mim. Você já viu alguém amar
tanto assim, Mikail?
Não. Como ele, não.

É noite alta, quando Mikail vai embora. É noite de um amor profundo e


de buscas, onde a troca de energia é mágica e o adormecer é de mero
cansaço.

***

Dezembro.

O natal se aproxima. O inverno chega com seus ventos frios.


Acabo de receber uma carta de Margit. Ela garante que, em março, estará
aqui para conhecer nosso bebê. Seu mundo começa a clarear, sei que ela
quer a separação, mas de uma maneira que não seja tão dolorosa.
Uma temporada aqui é, para ela, como dar vazão a si mesma. Num trecho
da carta, ela diz: “... saiba que esta nova Margit está bem posicionada
e sabe o que quer. Estou sempre a seu lado, em todas as ocasiões, e a
defendo em qualquer situação, sem de antemão saber as causas...”.
Sei o que deve ter ocorrido. A Condessa viajou com ela, e deve ter
feito muitos comentários desairosos a meu respeito. É, Margit, você é
uma amiga e irmã para mim.
Existe a sensação agradável de saber que a Condessa não está aqui. Sei
que é infantilidade da minha parte, mas é pura verdade.
Minha barriga está enorme. Ontem doutor Lajos veio ver-me. Ele garante
que é para o final de fevereiro, mas nas minhas contagens creio que
não. Existe a expectativa de estar frente a frente com nosso bebê.

Começou a nevar. Tudo está branco, mas o lago não gelou.


A Hungria está linda! Toda de branco. A neve lhe dá um toque mágico.
Todo nosso horário na escola mudou, o frio faz a gente acordar mais
tarde. Na fábrica, só falta engarrafar uns poucos vinhos. A adega está
repleta de vinhos que serão vendidos o ano que vem. A fábrica, quase
que parada, intensifica, agora, as vendas. Como o vinho já é conhecido,
muitos compradores vêm de fora comprá-lo. Isso dá mais tempo a Igor, e
a sua participação, em casa, é como uma festa.
A escola só tem, agora, um turno. As atividades escolares estão
suspensas. Mas as outras atividades continuam.
Fizemos uma votação para ver se interromperíamos. Foi unânime a decisão
de continuarmos. Existe o costume de estarmos juntos. Mesmo com o
sacrifício dos que moram longe, algumas atividades continuam, até as
crianças aparecem para ajudar. O padre Pal está dando aulas de
catecismo aos sábados, a primeira comunhão será na noite de natal.
Os arranjos do natal estão sendo feitos na escola, mas a festa será no
galpão. Igor reformou todo ele para a chegada da caravana, e, no
próprio galpão, foi feito cozinha e alguns cômodos. Conto os dias para
a chagada deles...
Convidei Elizabeth para nossa festa. Ele me trouxe mais presentes para
o bebê.
Disse-me que não podia dar certeza. Achei-a um pouco hesitante, talvez
por ter que trazer Krisztina. Mas lhe assegurei que não existe
constrangimento para mim, e o quanto a sua presença é importante.

A caravana já devia ter chegado! Minha gente já deveria estar aqui.


Mas acho que as estradas cobertas de neve devem ter concorrido para
esse atraso. Estou ficando ansiosa!

O dia amanhece com um lindo sol, mas a terra está branca, coberta de
neve.
Estou na janela de nosso quarto, viro-me para nossa cama, meu sol ainda
dorme.
O lago resiste à neve, não está congelado, suas águas serenas.
Não existe mais tanto verde; ali as árvores estão nuas. A imagem é
bonita, mas parece ter havido um desvendar de fatos e folhas. Em
direção do lago corre uma corsa; seus pulos são altos, parece querer
voar.
Só falta uma semana para o natal, a família está me deixando ansiosa.
Vejo Mikail ao longe. Seu cavalo tem dificuldades de andar devido à
neve. Acho que ele vai à escola, e, com certeza, na volta passará aqui.
Volto o olhar para Igor, continua a dormir, suas feições serenas.
Ontem, ele chegou tarde. Foi com Val comprar mantimentos, sacas e sacas.
- Natasha?
Grita Mikail, aceno para ele, abrindo a janela.
Igor está aí?
Sim.
Chame-o, por favor.
Ele dorme, mas aguarde um instante vou chamá-lo. Desça do cavalo e tome
um chá. Misca está na cozinha.
Diga a ele que é urgente.
Que aconteceu Mikail?
A casa de George foi abalada pelo vento de ontem à noite.
Vou acordá-lo.
Fecho a janela, e vou a Igor: - Amado, acorda!
Ele se mexe, abre os olhos, protegendo-os com a mão devido à claridade,
envolve minha cintura atraindo-me para junto de si: - Esquente-me,
estou com frio.
Explico-lhe o que Mikail falou, ele pede-me para avisar a Mikail que
está descendo.
Na cozinha Mikail toma chá com pão e lhe dou o recado de Igor. Quero
saber os detalhes, mas ele não sabe. Igor chega em instantes.
Cumprimenta Mikail e Misca, pergunta o que houve.
Mikail diz não saber ao certo o que aconteceu, pois já fora informado
por terceiros. Igor come alguma coisa, rapidamente. Dá-me um beijo, diz
para não me preocupar e sai com Mikail.

A manhã transcorre lenta. O que teria acontecido?


Chega a hora do almoço e nem sinal deles. Peço a Val para ir até lá.
Estou inquieta e impaciente.
Sinto-me um bicho enjaulado.
Detesto esperar. Principalmente de ficar entre quatro paredes.
A impaciência está no limite. Já é de tarde.
E a família que não chega! Não consigo ficar parada.
Sabe o que vou fazer? Resolvo andar um pouco. Não agüento ficar parada
a esperar.
Posso ir até o lago, sem nenhum problema!

Vejo daqui, não é inseguro. Não neva.


Mas como vou sair? Se falar com Misca vai ser um deus-nos-acuda, e não
me deixará sair.
Santo Deus! Por mais que explique que minha gente é acostumada a tantas
coisas, e que, na gravidez, trabalha, e que no inverno saímos. Imagine,
se a neve detivesse os ciganos?! Belle com a barriga enorme, em pleno
inverno, saía, trabalhava.
Que bobagem. Posso sair pela porta da frente, Misca nem notará. Quero,
apenas, dar uma volta. Mas se ela me procurar? Faço um bilhete: “Misca.
Fui dar uma volta, não se preocupe. Volto logo, Natasha.”.
Vou deixá-lo aqui em cima da escrivaninha, ela pensará que estou aqui
na biblioteca e talvez nem note, posso sair e voltar e ela, talvez, nem
se dê conta. Pronto! Coloco o bilhete num lugar visível.
Coloco botas, pego um casaco e desço as escadas devagar. Lá está ela na
cozinha.
Abro a porta. A camada de neve é fina.
Respiro, o sol está lindo!
Desejo apreciar o lago. Vim olhando tanto para o chão que não prestei
atenção como tudo ficou tão mudado.
Lá de cima via o lago totalmente livre do gelo, mas constato que em
alguns trechos aparece uma camada de gelo. Quase invisível, e o sol ao
bater reflete o prisma, uma luz bela!
Ah Balaton, você está bonito, parece se enfeitar para a noite de natal.
Como estará o lugar em que encontrei Igor pela primeira vez!
Deve estar lindo! Gostaria de ver. E por que não?
Tomo cuidado ao andar. Vou devagar, a neve é de pouca espessura, só uma
pequena parte das minhas botas é que afunda, uns dois dedos. Meu filho
se mexe. Você está gostando do passeio, bebê?
Começo a subir o monte. Em algumas árvores existem folhas; noutras, só
galhos; existem gotículas de gelo, que o sol não degelou. Parecem o
arco-íris. Caem alguns pingos, com o ventinho leve que soprou. Puxo o
casaco de pele, e continuo.
Meu Deus!
Como tudo está mudado, daqui de cima é que se tem noção.
Lá está Badacsony, os telhados das casas estão meio embranquecidos. Das
chaminés sai fumaça. Parece outro lugar!
Que interessante! Nunca pude observar as transformações da natureza num
mesmo lugar, exceto em algumas cidades. E aqui, por ser um lugar tão
meu, é que vejo o quanto, com o inverno, tudo transforma.
Tiro a luva, limpo a água de uma pedra, assim, posso sentar-me.
A natureza é fantástica, incrivelmente fantástica. Como tudo está
visivelmente diferente!
Lá embaixo nossa velha árvore de namoro está quase nua. E foi lá que
Mikail nos retratou.
Ela estava florida! Agora parece carecer de vida.
A vida é mesmo a maior maravilha; por ela, essa árvore se nutre;
permanece firme, de pé mesmo sem folhas, mesmo parecendo morta. E,
quando chegar a primavera, estará ela, novamente, repleta de folhas.
As circunstâncias modificam as aparências, e o pulsar da vida corre
solto em cada pedaço da natureza...a essência divina em tudo! Aqui
agora é tão mais fácil vê-la na natureza.
Um bando de pássaros voa para leste; eles cantam. Ou melhor, acho que
gritam; é uma grande algazarra. Devem estar informando que só voltarão
na primavera, e, quem sabe, estão a chamar seus companheiros. Gostaria
de voar como eles. Como seria bom. O homem bem que podia voar!
Imagine poder ver todo esse espetáculo do alto, voar entre as nuvens,
dar esses rasantes no lago ou chegar perto das estrelas.
Seria o homem capaz de ter tamanha graça e leveza acaso voasse!
Se eu pudesse voar percorreria toda a Hungria, conhecê-la palmo a
palmo. Se eu pudesse voar iria bem alto e bem veloz. Sorrio sozinha,
imaginando-me voando. A verdade é que os pássaros sempre me encantam.
Madar, um apelido que podia ser meu nome.
E lá estão outros pássaros, esses são mais coloridos, porém voam mais
baixo.
Voar deve ser tão bom que até a imagem dos anjos tem asas.
As asas parecem ligar o ser ao divino. Seria por isso que o homem não
tem asas? Enquanto ele não descobrir sua real natureza, estará preso a
terra?

Estar aqui no alto engrandece a alma.


Aqui estou. Abaixo, os mortais; acima os imortais. Abaixo, o conhecido,
o palpável; acima, a grande incógnita, a continuidade, o desconhecido!
Como seria bom rasgar um pedacinho desse céu e deixar que meus olhos
vissem o que ora não enxergam!
Mas, a bem da verdade, consegui verdades que estão dentro de mim. A
existência dessa força sei, pois sinto que está dentro de mim.
O céu tem, agora, uma tonalidade alaranjada, e já sopra um vento frio.
Melhor começar a descer. Respiro profundamente, levanto-me. Tenho um
bom caminho pela frente, não que seja longe e sim por que tenho que ir
devagar.
Retenho a vista na paisagem, pois não sei se terei oportunidade de
rever o que vejo agora, daqui para frente deve nevar bastante, ficando
difícil chegar até aqui.
Devo ter passado muito tempo a observar a tarde, pois ela logo chegará
ao fim. Vamos lá, Natasha.
Sempre se diz que subir é mais difícil, mas não aqui, agora. A descida
é lenta, pois tenho receio de escorregar. O esforço aquece, mas agora
estou com frio. Condeno-me por ter passado tanto tempo lá em cima,
Misca deve estar preocupada. Mas que valeu a pena, valeu.
Ouço um tiro!
E mais outro. Quem estará caçando?
A caça, nesta época, está proibida! Latidos de cães, estão caçando
mesmo! Que diabo!
Os animais não têm a menor chance com a neve. Quero ver quando Igor
souber.
Ao longe ouço um grito:
Algum sinal?
E a resposta mais distante: - Não!
Como seria bom dar de cara com esses homens.
Chego na estradinha. Ainda bem, começava a me cansar. Encosto-me numa
árvore.
O som da nossa charrete! Sei que é, coloquei sinos nela.
Igor deve estar voltando agora. Que bom, assim não ficou preocupado.
Ficará admirado ao ver-me.
É nossa charrete! Mas não é Igor quem está nela, e, sim Mikail.
Ao ver-me pára a charrete, balança a cabeça e dá dois tiros para cima.
Na mesma hora, ouço a voz distante de Igor:
Está tudo bem?Mikail está tudo bem?
Está! – responde gritando Mikail.
Onde estão?
Venha no sentido da estrada!
Olho para Mikail, que ainda está sentado na charrete, coloca a
espingarda no banco.
Que está acontecendo Mikail? Já não bastam os caçadores aqui para
assustar os animais, e você fica a atirar! E Igor o que está fazendo a
pé?
Onde você estava?
Passeando. O que aconteceu? Por que Igor não está com você?
Ele pula da charrete, e vem na minha direção, perguntando se estou bem.
Claro que estou bem. Onde está Igor?
O vento veio forte, sinto frio. Fecho o casaco, os cabelos cobrem meu
rosto.
Ele, meio sem jeito, afasta meus cabelos, a olhar-me com carinho.
Por que Igor não está com você?
Seus olhos dirigiram-se para um certo ponto, ele inclina a cabeça.
Ele está chegando.
Viro-me, logo à frente vem Igor e Val e mais dois homens. Seu rosto
está queimado do frio, chega sério, está com pouca roupa para o frio
que faz!
Olha-me sério e contrariado, sorrio para ele, mas sua seriedade
continua, entrega a espingarda para Mikail, mas continua a olhar-me.
Onde você estava, Natasha?
Fui passear.
Com toda essa neve você foi passear? Por acaso perdeu o juízo, Natasha?
O que tem você? Não perdi o juízo. Deu-me vontade de sair, para dar um
passeio, então...
Ele não me deixa terminar a frase:

Passeio?! Com toda esta neve à sua volta!


Sim! Com toda esta neve à minha volta. A neve não é um obstáculo para
se dar um passeio. Passeei e aqui estou inteira.
Vamos para casa, venha.
Mikail já espera na charrete. Val e os homens já estão bem à frente, a
pé.
Vá você, eu vou andando.
Deixa de infantilidade, Natasha e venha na charrete.
O meu sangue esquentou, aborreci-me. Não sinto mais frio.
Vá você de charrete, eu vou andando. Melhor assim que junto a um adulto
tão mal-humorado. Suba na charrete senhor ajuizado. Continuo minha
caminhada que até bem pouco estava ótima!
Dou-lhe as costas e começo a andar no sentido de casa, a uns vinte
passos ouço o som da charrete a meu lado.
Suba! Vem!
Não, estou bem aqui! Pode continuar Mikail, leve esse ajuizado senhor
para casa, peça a Misca para lhe fazer um chá. Assim, quem sabe, até eu
chegar ele terá se acalmado.
Mikail sorri, com o olhar pede-me para subir, e olha para ele. Continuo:
Sabe que você é muito mal-acostumado? Tudo que você pede ou quer, é
sempre atendido. Quando estava lá em cima do monte...
Mikail olha assustado para Igor, ele, por sua vez, franze a testa.
Você estava no alto do monte?!!!
Sim.
Ele pula da charrete, dá um suspiro e fala:
Ontem houve um deslizamento no monte, chegando a derrubar uma parte da
casa de George. E você resolve dar um passeio? Um passeio! Em meio à
neve, há poucas horas houve um deslizamento.
Chego a casa e Misca, apavorada, não sabia se sairia à sua procura ou
se ficaria à sua espera. Sabe há quanto tempo estamos atrás de você?
Sabe quantas pessoas estavam a tentar achá-la? Sabe a preocupação, a
aflição em que me encontrava? Você tem idéia o que passou na minha
cabeça? Consegue pensar? Vê a inconseqüência de um passeio? Não seria
capaz de supor que eu estaria como um louco à sua procura? Passei essas
três horas num inferno.
Sua aflição é por demais evidente.
Que posso dizer para acalmá-lo! Não pensei e nem sabia o que tinha
ocorrido. O rosto de Igor está cansado, mas transparece raiva.
Perdoe-me, juro que não pensei...
Ele fecha os olhos por alguns segundos, e ao abri-los transmitem o
calor conhecido, sem deixar que eu termine a frase, ele me envolve com
os braços.
Não fale nada agora! Deixe-me sentir você.
Sinto Igor trêmulo, aliso suas costa: apesar do frio, ele está suado.
Ele me abraça forte. Depois de um tempo assim, calado, ele afasta-me e
olha minha barriga. Damo-nos conta de que Mikail espera. Subimos na
charrete e, Igor, cansado, fala:
Vamos para casa, amigo. Natasha, quando irá você crescer?

Véspera de Natal.
A neve deu trégua.
Dia encantado.

No galpão está a maior loucura; é minha gente e os moradores da região.


Mas há espaço suficiente. É um entardecer alegre, descontraído.
Nossas carroças dão um efeito colorido ao local. Alguns moradores se
despedem, irão se arrumar para nossa grande festa, festa de todos nós.
Uma celebração!
Belle e Miriam estão cuidando das crianças; o pai, Andrei e Igor foram
pegar mais vinho na adega; anya e Misca estão na cozinha.
Passo a vista em tudo. Não digo que esteja bonito, mas está agradável e
interessante. Vários arranjos foram feitos na escola, e dão graça ao
lugar. A beleza fica por conta da cooperação de todos.
Foi improvisado um altar, do lado direito do galpão, onde padre Pal
celebrará a missa e dará a primeira comunhão às crianças. E é Mikail
quem prega o crucifixo na parede, enquanto Anita arruma todo ambiente.
Mikail desce da escada e olha o efeito, vira a cabeça para um lado e
para outro, acho que está analisando o aspecto estético. Seria isso?
O que tanto o intriga, Mikail?
Ele continua a olhar o crucifixo.
Estou a pensar que hoje se comemora a véspera do seu nascimento, e o
que tenho à frente é Ele, na cruz. Estranho, não é?
Não diga que está convertido num bom católico, Mikail? - fala Igor.
Viro-me para Igor, que está bem atrás de mim.
Não, estou só achando injusto. Está no lugar certo, Igor?
A cruz ou o Homem?
Mikail sorri e balança a cabeça.
Igor, você não acredita que seu Deus está ali?!!!
Não, Mikail. Primeiro, ele não é Deus. Deus, para mim, está dentro de
cada um de nós, nossa essência é divina.
A imagem é uma imagem. Os homens constroem templos de adoração, são
erguidos monumentos para glorificar a passagem de um ser. Os homens
apegam-se ao que viram e criaram religiões e leis. Esquecem ou não têm
consciência de que esses seres são sentimento, dão sentimento, operam
através do sentimento. Na clareza do sentimento está a vontade, esta
gera a força que opera os ditos “milagres”. E os homens limitam-se aos
porquês, limitam-se até aonde seu pensamento os levam, são seus guias.
Têm no coração a vontade, e são conduzidos por pensamentos.
Os templos dentro do tempo, o sentimento está além do tempo. Alguns
templos ruíram, o Homem que, a meu ver, veio inspirar outros homens
permanece. Por que?
Minha crença é o sentimento, que faz com que comungue, por sentimento
com Homens que vieram exemplificar o sentimento, apenas isso. Homens
que resistem ao tempo por estarem além do tempo e por serem sentimento.

Cai o silêncio por um tempo indeterminado, e olhando a imagem falo:


Este Homem não criou religião nenhuma. E é mais fácil para nós,
adorarmos um Deus morto, e não o Homem vivo. Andando por Assis, era
fácil compreender Francesco, ele mostrava aos homens como era
importante a ligação com a natureza, a simplicidade do ser; a essência
está em tudo! Morre Francesco nasce um símbolo. O que temos à frente é
um símbolo, um grandioso símbolo do sentimento.
Igor acaricia minha nuca e fala:
Natasha, a meu ver, você está certa, Ele é um símbolo, como foram
outros. Ao prendê-lo na cruz, os homens se prendem. Seu martírio é
tudo. Soltá-lo da cruz é o salto. Porém isso gera responsabilidade.
Responsabilidade em encarar o mundo de outra maneira. É mais fácil
delegar essa responsabilidade a Ele e outros iguais a Ele. As leis
ditadas pelos homens são rígidas. Tolhem qualquer movimento de soltura
e conseqüente liberdade. As leis ditadas pelos homens ditam o que é
pecado. Por isso, na grande Lei da terra, nós próprios nos punimos pelo
que fazemos. É Lei terra: violá-la é repará-la. E, temos a outra
simples opção, a lei do amor. Complicamos, não é?

E ficamos os três a olhar e a sentir.

Chega a noite. É festa!


O galpão está repleto de gente, o movimento é contínuo; as crianças com
seu brilho especial parecem anjos vindos do céu.

Observo tudo, a integração, a troca. Observo.


A essência da vida está onde e como atribuímos nosso sentimento.
Penso na força interior, na consciência dela.
Quantas pessoas estão aqui?!!! Inúmeras.
E quantas sentem o que sinto. Viro-me em volta.
Só um homem aqui compreende este sentir. Só um homem aqui é a ponte do
visível com o invisível, só um homem aqui parece conhecer as leis
naturais que regem o próprio homem.
Essa certeza me dá uma serenidade aliada a uma intensa felicidade.

Meu olhar vai à porta. Por que tanto demora, Elizabeth? A estrada não
está ruim assim. Já chegaram varias pessoas da cidade. Notam-se alguns
do movimento de separação da Hungria.
Belle está na roda das crianças, como se fosse uma delas. Como eu gosto
de Belle, Andrei conversa com alguns moradores. É uma conversa
entrecortada de risos. Nossa gente, além de trazerem um colorido
especial, misturam estórias e histórias pouco comuns.
Anya e Misca, como sempre juntas, estão colocando comida nas mesas.
Mikail conversa com Anita. O pai, não o vejo.
A música torna o ambiente mágico.
Um estranho calor me invade, é um intenso calor,
invade minha alma. O calor se alastra por todo meu ser.
É a música cigana? É a noite de Natal?
Respiro fundo. O calor se alastra mais e mais... É meu avô?!!!
Busco o pai com os olhos. Lá está ele, sua expressão denota
embevecimento.
Seu olhar, enfim, se encontra com o meu, e lá vem ele ao meu encontro.
Passa o braço no meu ombro, e seus olhos são a expressão de muita
emoção.
Pai, o avô está aqui!
Ficamos calados sentindo.
Volto-me ao crucifixo. É Você?!!! O calor se estende numa amplitude que
não alcanço.
É Você também! Acima da minha capacidade humana, transcende um fluxo
vivo.
Tudo bem, meu velho?
O pai vira-se para anya e responde que tudo está maravilhosamente bem.
Instintivamente viro-me para o lado. E ali está ele, o mago. Eu sabia
que ele estava a nos observar, e com certeza, a partilhar deste
momento. Ele sorri e vem se aproximando de mim; pega minha mão e a
aperta.
Você sentiu, Igor! Sei que sentiu a emoção.
Não foi emoção, Natasha. E sim sentimento. A emoção vem do pensamento,
é humana. Experienciar o sentimento é ser.
O olhar de Igor vai à porta. Não consigo ver quem chega, fico na ponta
dos pés. É Krisztina, o pai... Ah! Elizabeth, e uma senhora idosa. Que
bom, ela veio!
Anya me pergunta e eu respondo que quem chegou foi à mãe de Krisztina.
Logo, terei oportunidade de apresentá-la.
Vou ao encontro deles.
Boa noite! Sejam veja bem-vindos, já estava preocupada.
Elizabeth não está bem. Está muito pálida, seu olhar perdido nas muitas
pessoas.
Seguro suas mãos geladas, fico assim, enquanto seu marido fala:
Ela não queria vir, de maneira alguma, mas tanto fiz que consegui.
Imagine, ficar sozinha na noite de Natal! Pois, eu viria de qualquer
jeito.
Olho para ela e pergunto: - O que a senhora tem?
Ela tenta um sorriso e responde:
Nada, é uma das minhas indisposições. Só isso. Você está linda, Nat.
Esta é minha ama Tuthy, está é Natasha.
Muito prazer, Tuthy; seja bem-vinda!
O prazer é meu, senhora.
Falo com Krisztina. Igor foi arranjar um lugar para acomodar Elizabeth.
Meu Deus! Seu semblante é de angústia viva. Seu marido e sua filha nem
se apercebem.
Depois de acomodados. Comento com Igor e falo que vou procurar anya;
quem sabe, com uma boa conversa, Elizabeth não melhore. Ele responde:
- Ótimo, faça isso. Não demore.
Seu ar é maroto.
Igor! Igor! Krisztina não é ameaça para mim, aliás, ninguém o é.
Presunçosa! É a mais pura verdade.
Encontro anya junto de Andrei. E falo o que ocorre, digo-lhe que ela
sempre sabe o que fazer, então nos ajude. Anya retruca que, nem sempre
há solução ou ajuda para tudo. Abraço-lhe e falo que se, ao menos,
pudermos levar a ela o sentido fraternal desta festa, quem sabe ela não
melhorasse.
Atravessamos o galpão.
Ao chegarmos perto de Elizabeth, observo ela estar mais pálida. Igor
pega anya pelo braço e a apresenta ao marido de Elizabeth e a outras
pessoas. Vou para junto de Elizabeth.
Esta melhor? Quer tomar alguma coisa?
As duas, ela e sua ama, olham na direção de Igor. Acho que nem me
escutam. Anya vem se aproximando com Igor, sorrindo com algo que ele
fala.
Elizabeth, apresento-lhe minha sogra Lorna.
O sorriso some do rosto de anya, que fica tensa. Dá dois passos à
frente e pára, ficando a olhar. Elizabeth levanta-se e estende a mão.
É um enorme prazer conhecê-la, Lorna. Sua filha fala-me tanto a seu
respeito. Esta é minha ama Tuthy.
Anya fala com as duas estranhamente. Pede-me um ponche.
Vou pegá-lo e peço para Misca servir. Assim, quem sabe, elas
conversando, Elizabeth melhora, e anya deve ter sentido algo com sua
aguçada intuição.

A missa começa, a união é visível e bonita. A primeira comunhão deixa


em mim a integração que é a escola.
O significado do natal é sentido e expresso fraternalmente nessa grande
mistura de pessoas, que, nessa noite, deixam de ser voluntariamente
“eu” para se tornarem “nos”.
Janeiro 1814

Começam as contrações. Calma, Bebê! Não é para ser agora.


Espere fevereiro chegar.
Respiro profundamente. Pego a carta da Condessa e rasgo. Uma carta
simples e objetiva.
“Não pense, nem por um segundo, que me esqueci do meu intuito. Quero
você fora da vida do meu filho, e faço tudo, tudo para vê-la longe
dele...”.
Novamente meu ventre se contrai.
Os minutos se arrastam... E as contrações continuam.
Quem sabe; se eu relaxar, elas não param.

Passa o tempo, entardece... Continuam as contrações.


Anya a meu lado sorri confiante. Olho para Igor, seu olhar tenta
tranqüilizar-me, embora sinta que ele está ansioso.
A contração... É noite.
Doutor Lajos pede a Misca mais água morna. Igor a meu lado.
A contração... Sabe, bebê, não pensei que podia demorar tanto. Sinto
dores. Lembro-me dos partos de Belle. Devido à expectativa, a
ansiedade, tudo parecia rápido.
Anya molha meu rosto.
A contração... Doutor Lajos pede para Igor sair do quarto.
Não! Necessito ver minha filha nascer. Quero vê-la chegar ao mundo!

Amanhece, mas ainda há estrelas no céu.


E, na ultima contração, olho para uma delas.
O céu clareia, surgirá o sol, uma a uma as estrelas desaparecem,
mas eu fico com uma nos meus braços.
Ainda sujinha, trazendo de sua viagem, a mais pura essência da vida,
anjo viajante, que chega em terra.
Seja bem-vinda, minha filha!
Igor mal consegue respirar, passa o dedo em seu rostinho,
como para ter certeza da nossa realidade: ele, eu e nosso fruto.
Uma trindade. É a magia da vida.
Excede às palavras, que aí ficam sem sentido...
Um gesto de Igor diz tudo.
Ao meu lado, um candelabro; ele sopra o fogo e olha para Ivy - o fogo
da vida, ao nosso lado!

Fevereiro.

À minha frente, a pequena Ivy. Por mais que a tenha esperado, imaginado
ou sonhado, ela agora é tocável. Solicita por estar com fome ou quando
está molhada. Não mede o tempo, se é noite ou dia. Muitas vezes fico a
olhá-la intrigada: uma recém-nascida, não parece com ninguém; que
nasceu com tanto cabelo, e agora está caindo. Tão pequena e tão repleta
de vida! Tão esperada e tão amada!
Essa magia que faz um pequeno ser sair do ventre e chegar à vida. O
nascimento é, em todos os sentidos, a maior maravilha humana.
Estar com Ivy é precioso. Ficamos Igor e eu sem qualquer noção do
tempo, a tocá-la, a senti-la. Os momentos nos quais estou a amamentar,
o simples ato reveste-se de tão tanto esplendor, é como lhe transmitir
toda nossa história.

Março.

O sol está forte.


Como nossa Ivy está gorducha! Seus olhinhos já têm uma expressão mais
definida, seus cabelos caíram quase totalmente. Os que nascem são
negros como os de Igor.
Minha família partiu para Nijmi, deixando comigo a saudade. Mas, há a
certeza de que quando voltarem se fixarão aqui. Eles estão seguros da
decisão e eu repleta de alegria.
Ontem, Elizabeth esteve aqui, ficou apaixonada por nossa pequena.
Não sei o que anya conversou com ela na noite de Natal, mas a verdade é
que de lá para cá vejo-a nitidamente mais segura.
A maternidade transformou um pouco meu corpo, com contornos mais
nítidos; estou mais mulher. E dentro de mim algo ganho; viver a
maternidade deu-me segurança, sentir que o que vivemos é um fato real.
Ivy é a prova. Além da sua individualidade, sua identidade, ela nos
mostra, a cada riso ou choro, que temos uma realidade onde o sentimento
está presente; permeia tudo, como ar que respiramos.

A escola está cada dia mais forte, entraram mais crianças e adultos, o
movimento é contínuo.

Abril.

Primavera! Um ano!
Estou na biblioteca. Olho a janela, tudo tem cor!
Um ano! Há momentos em que sito a eternidade se abrindo para nós.
E aí eu me pergunto: só um ano?
A eternidade cai sobre nós em momentos nos quais o tempo parece não ser
tempo; quando cada fração é ilimitada.
Existem momentos em que fazemos novas descobertas e deparamo-nos com
algo novo. Estar ao lado de Igor é ter, ao mesmo tempo, as duas coisas.
Isto é, desfrutar do lugar e do momento - do aqui e agora.
O sentimento por ele toma uma dimensão ilimitada e, quando estamos a
nos amar, essa dimensão toma forma que vai de pequenos gestos a total
integração. Dou-me conta, então, de que a descoberta é constante.

Volto-me às estantes de livros. E lá estão as taças, o coração dispara.


O que elas trazem, que mistério contém essa moça? Aquela moça.
Como podem trazer alguma coisa, se foram feitas por meu pai! E são como
registro de nosso casamento. O pai cravou nossos nomes nelas.
Qual o elo? Comecei a vê-la, quando peguei as taças? É através das
taças que chego a ela?
Por que não contei a anya, talvez ela pudesse me ajudar. Na verdade
ajudar a moça.
Todo esse tempo passou, ela deve estar boa, curada.
Não quero mexer nisso! Afirmo e vou à estante. Que contradição!
Toco as bordas. Igor e eu sempre tomamos vinho nelas. E o que ela tem a
ver com isso?
Qual sua participação?
Escute-me, moça, esteja onde estiver: se você é um sonho ou se você
existe a distancia. Compreenda-me, de todo coração espero que esteja
bem. Não conheço você, mas é como se a conhecesse e do fundo do meu
sentir, espero que você esteja bem. Espero que...

É dia, mas está escuro, já é noite? Vejo o quarto: a moça está, ainda,
deitada, estão lá suas roupas. O que vem a ser isso que ela está
usando? Sua fronte está encharcada de suor e ela balança a cabeça. Ela
delira. Como posso ajudá-la, é desesperador vê-la assim. Suas cobertas
estão no chão. Quero cobri-la, mas não consigo. Não consigo sair de
onde estou. Não existe ninguém por perto; olho em volta, uma grande
janela dando para o mar. Vem uma brisa. Sopra a brisa. Deus a ajude.
Faça aparecer alguém, ela não poderá agüentar muito tempo, eu sinto
isso! Sinto sua agonia.
A brisa é morna, fecho os olhos.
Calma! Tenha calma, você está bem, é o confronto com o tempo. O amor
une o possível ao impossível. Estou aqui com você, não tenha medo. O
tempo é um amigo...
Abro os olhos, não para confirmar o que sei. Mas para me inteirar de
que é Igor quem fala com ela!
Sai a noite, entra o dia.
Natasha! Fale comigo.
Sinto-me tonta, muito tonta. Abro os olhos, fecho-os. É dia, mas era
noite há pouco.
Natasha! O que você tem, fale comigo.
Igor! Onde você está?
Seus braços me envolvem.
A tontura vai sumido. Sinto seus braços me apertarem. Vou respirando
profundamente e lentamente.
O que você tem, amada? Você está suada. O que está sentindo?
Abro os olhos, olho em volta: a biblioteca. Igor abraça-me forte; falo
a ele:
- Quando entrou aqui?
Minha voz sai distante. Ele olha-me e fala:
Agora há pouco. Vi-a em frente à estante. Você parecia fora de si. O
que está sentindo?
Fale-me o que você ouviu?
Natasha, você está pálida. Vamos para nosso quarto.
Diga-me, Igor! Eu estou bem. Só quero saber o que você viu ou sentiu?
Já lhe falei! Entrei aqui e vi você branca parecendo fora de si, suada
e de olhos fechados. Quando os abriu seu corpo estremeceu.
Respiro fundo, a tontura passou, passo a mão nos meus cabelos, estão
suados. Sento-me na cadeira, ele se agacha à minha frente, seu olhar...
Você não está bem. Vou chamar o médico!
Igor, se não estivesse bem diria a você. Você não era para estar aqui,
por que veio?
Estava a cavalo já nas vinhas. Senti algo. Então, não segui para as
vinhas, corri para casa. Como se você me chamasse. Veio à minha cabeça
você e uma coisa vaga sobre o tempo. Conscientemente, senti que você
estava precisando de mim.
O que você pensou sobre o tempo?
Não sei, quando senti que você não poderia estar bem, fiquei nervoso.
O amor une o possível ao impossível. Seria isso?
Ele, mais tranqüilo, sorri:
Pode ser. Não sei ao certo, por quê?
Conto-lhe tudo que vira, tudo que sentira. Seus olhos se prendem entre
mim e algo distante, depois voltam-se às taças. Continua calado.
Que vem a ser isso, Igor? As taças, eu, você e essa moça. E, novamente,
a pergunta ecoa sem resposta, o que vem a ser isso? E, em mim existe
pressa. Pois, ela não está bem. Ela está muito, muito doente. Por mais
estranho que pareça, eu tenho uma ligação com ela, e, ao ver você junto
dela, acalmei-me. O que fez você sentir o que sentiu? Sentiu que eu não
estava bem, porém eu não estava bem por ela não estar bem. E por que
toda vez que falo nisso você se ausenta, fica distante? O que você
sente, Igor?
Ele respira fundo, fica calado por um tempo e fala.
O que eu sinto? Quando você me fala das cenas que vê, sinto-me sendo
puxado. Meu sentimento segue, e meu pensamento não acompanha. Por isso
fico ausente. Sinto sim, que tudo isso tem a ver com o futuro.
Olho para ele confusa:
Que futuro?!!! Tudo que vejo não é conhecido! Exceto minha
identificação com ela. Que futuro, Igor?
O nosso. Nosso futuro, Natasha.

Julho.
Lua cheia

A claridade da lua e da lamparina, o calor do verão.


E a bela cena à minha frente.
Igor levanta-se da cadeira de balanço com Ivy nos braços e a acomoda no
berço. Ele a contempla, acaricia seu rostinho. Chego junto deles, Igor
ergue o rosto e sorrimos.
Olho a janela, vou até ela.
O céu estrelado.
Penso como meu avô se sentiria com Ivy. Nossa filha é um presente das
estrelas.
Sinto Igor atrás de mim, abraça-me. Lua cheia, que noite linda!
Uma estrela cadente... Tento fazer um pedido. Não tenho o que pedir.
Tento pensar, o pensamento não acompanha, ela é mais rápida.
Lá está a estrela que Igor passa longo tempo a observar. Também já é
para mim um ponto de referência. Ela não é tão grande, porém seu
brilho, sua luz é um chamado.
O rosto de Igor está no meu ombro, não preciso olhá-lo para saber que
ele a olha.

Uma nuvem, transparente passa por ela. Igor abraça-me forte; um homem
como este deve ter vindo dela, da estrela.
Noite de lua cheia, repleta de uma ternura que a brisa espalha por toda
a região.
Brisa morna, lua cheia, nossa família e a estrela brilhante.
Final de Agosto.

Ivy está linda! Tem os olhos vivos e os cabelos do pai, a cor da pele é
a minha.
Embora Ivy tenha a expressão do olhar de Igor, o formato amendoado é
meu.
Tenho-a nos meus braços. Igor, deitado na relva, brinca com ela. Fico a
rir dos dois.
Ela faz barulho com a boquinha, babando a ele e meus braços.
Natasha, venha cá, vocês têm visita!
Olho para Igor a indagar; ele encolhe os ombros. Só ouvimos o grito de
Misca, Igor levanta-se, pega Ivy e ajuda-me a levantar. O dia está
quente, subimos o morro para casa.
À frete de nossa casa, a carruagem da Condessa, meu sangue gela.
Olhe para mim, Natasha. Quando você irá parar de temê-la? O que faz ela
lhe parecer tão forte? Amada, que mal ela poderia fazer?
Igor, como eu gostaria de lhe contar a chantagem que ela armou sobre
nós. Algo que não se pode esquecer. Não há como esquecer.
Estamos juntos, e nada, ninguém nos afasta. Confie em você mesma.
Confie em mim, somos uma unidade; uma forte unidade, e o que nos une é
a maior força que existe.
Amo você Igor, esta é minha verdade.
Chegamos em casa, Igor me entrega nossa filha como para dar-me
segurança, passa a mão nos meus ombros e abre a porta. E sou eu que
falo aos gritos:
Eu não acredito no que vejo!
Há poucos passos está Margit conversando com Misca, vira-se rapidamente.
Nosso abraço é demorado. Ela pega Ivy nos braços
Meu Deus! Como é linda! Você é linda minha princesa.
Não sei a que horas paramos de falar. Falávamos ela e eu ao mesmo
tempo, depois rimos. Ela, disse, então:
Vocês terão que agüentar-me aqui por um novo período.

A noite chega um pouco quente, e estamos no terraço a conversar.


Escutamos Margit dizer que sua posição no casamento mudou. Ela pergunta
sobre a escola e Igor explica-lhe que a escola está se autofinanciando,
já é uma realidade. Que é necessário ampliá-la, pois os trabalhos
feitos à tarde são grandes e o espaço é pequeno.
E Mikail?
Olho para Margit, ela continua com o brilho nos olhos quando fala nele.
Mikail continua o mesmo, como você o deixou.

O dia amanhece nublado.


Subimos para casa, vindo da escola, Margit e eu.
Gosto daqui, Nat, e, no fundo, vim comprovar isso. São quase duas
semanas que estou aqui e sinto-me relaxada e em paz.
Sentamo-nos embaixo de uma árvore. Margit fala-me:
Quando lhe falei que mudei em relação ao casamento é um fato. Hoje, ele
me respeita, mas não consigo mais viver na corte e todos os meus
pensamentos estavam aqui, onde quero viver. Vim comprovar isso a mim
mesma.
Aperto sua mão.
Fico feliz com isso, Margit, não é necessário dizer o bem que queremos
a você.
Eu sei, e você não imagina o bem que me faz essa amizade, pois ela é
verdadeira e viva. Nos meus planos quero estar definitivamente aqui em
dezembro, e isso já está decidido. Nada, ninguém mudará esta minha
idéia. Porém, só comunicarei ao barão perto de vir para cá, pois não
quero que nada interfira.
Sei a quem ela se refere, baixo a cabeça. Até na vida da filha a
Condessa é uma ameaça.
Você sabe de quem estou falando. Claro, que sabe. Os dias que ela
passou comigo foram torturantes, comecei ver minha mãe por outro
ângulo. E saber que ela, minha mãe, é uma pessoa egoísta, isso dói. Seu
egoísmo já é uma doença. Tivemos inúmeras discussões. Tenho até
vergonha de lhe dizer os argumentos usados por ela para eu continuar
esse casamento, que já começou falido. Depois, simplesmente, parei de
discutir com ela, é inútil. E, numa das vezes que falei com ela, fiz a
bobagem de lhe dizer a vontade que tenho de vir morar aqui no campo.
Meu Deus, você não imagina o que ouvi.
Toco seus cabelos e falo: - Imagino, pode ter certeza - Margit,
continua.
Sou sua filha, Nat, mas a ela isso não importa. Minha felicidade não
importa. O que tem importância é ter uma filha que mora na corte. Isso
machuca. E, mais do que nunca, entendo a posição de Igor e o admiro
mais. Vi ódio sair dela, ouvi ameaças.
Ela pára e olha-me, pergunto:
Essas ameaças assustaram você?
Margit responde:
Não, fizeram-me entender que tipo de mãe eu tenho. Agora, quero que
você se abra comigo. Que tipo de ameaça ela lhe fez?
Olho assustada para Margit.
Por que você me faz essa pergunta?
No dia que lhe falei que ela tinha incutido aquele casamento na minha
cabeça, e que não agüentava mais morar na corte, numa vida conjugal sem
sentido, e que, de fato, foi aqui onde me senti feliz, realizada,
produtiva, ela não gritava, falava com os dentes cerrados. Tinha ódio.
Falou de Igor, falou de você, que deveria ser coisa combinada para ela
perder a posição que ostentava. Ela não me ouvia, ela só falava e nisso
soltou uma frase: “Aquela cigana me paga, ninguém brinca comigo, eu a
tenho nas minhas mãos...”. Depois disso não toquei mais no assunto, e
até a fiz entender que continuaria com o casamento e, conseqüentemente,
na corte... E, agora, fale-me.
Meus olhos se desprenderam de Margit. Olho o céu, lembro-me da noite da
festa, e conto tudo a ela, tudo que a Condessa me falara. Quando acabo
o relato, vejo-a de boca aberta. Ela baixa os olhos e se cala por algum
tempo.
Deus. Não pensei que ela chegasse a tanto! Estou chocada, não tenho
palavras.
***

Início de Outubro.

Amanhece! O sol reina sozinho.


Não consegui dormir bem. Igor notou e aleguei ser a comida da noite.

Será que o plano de Margit dará certo?


Igor já saiu para as vinhas, ando de um lado para o outro. Ivy, no
berço, me acompanha com o olhar. Falo a ela: - Ivy, minha bela
estrela, mamãe está só um pouco agitada. Mas, fique serena que logo,
logo isso passa. Vou coloca-la no chão, assim você, minha amada
estrelinha, ensaia seus passinhos, vem!

Será que ela está a executar o combinado? E se essa carta não existir?
Melhor para todos nós. As horas parecem se arrastar.
Se Margit for surpreendida a mexer nos documentos da Condessa?
Mas Margit é inteligente. Porém, a Condessa também o é. E nós duas
envolvemos Elizabeth, logo ela, que é tão sensível!

Imagino a cena, Elizabeth conversando com a Condessa, tomando-lhe o


tempo, até Margit remexer tudo e encontrar a carta.
Bate o amor pelas duas. De Margit existe o vínculo, é a irmã que nos
ama. E, Elizabeth, uma amiga sem par. Não pensei que ela aceitaria,
quando Margit lhe contou, ela se expressou com uma frase que está no
meu coração: “Não é para sua felicidade? Eu faço tudo, tudo que estiver
no meu alcance”.

Olho para Ivy, já a amamentei. Ela , agora, adormeceu.


Meu Deus! A pior coisa é a espera.
Lembro-me de anya: - Filha, você terá que aprender a ter paciência!
Impossível anya; nesse momento é totalmente impossível.
Deus! Ajude a Margit e Elizabeth.
Vou à janela, nem sinal. Que diferença da minha pessoa, o lago está
sereno.
Um cavalo! É Mikail.
Abro a janela e balanço a cabeça.
Quer que vá até lá?
Não Mikail, prefiro que fique com Igor. Entretenha-o, ele está nas
vinhas, leve-o à escola.
Meu nervosismo é por demais evidente, não quero que Igor chegue antes
de Margit.
Mikail responde que irá até as vinhas, encontrar Igor.
Outro grande amigo, sei que ele também está tenso.
Misca chega no quarto perguntando com quem eu falava. Digo-lhe: é com
Mikail.
Vamos princesa, sua Misca já lhe preparou uma sopinha. Você está bem,
Natasha?
Estou só um pouco indisposta, logo estarei bem.
Ela me olha, pega Ivy e sai do quarto.
Por que tanta demora?
Com a carta na mão estaremos livres da Condessa, livres!
Um barulho lá fora. Corro à janela.
É ela, é Margit.
Não desço as escadas, eu as pulo.
Natasha! É você?
Sim, Misca, vou receber Margit, que acaba de chegar.
Margit está descendo da carruagem e se despede do cocheiro. Seguro a
respiração, que é ofegante. Dirijo-me a ela, que sorri cordialmente
para o cocheiro, tento um sorriso ridículo e aceno para ele que faz a
manobra para ir embora. Olho para ela, a carruagem parte, ela se volta
sério e abre um sorriso: - Nós conseguimos!
Subimos para a biblioteca.
Minhas mãos tremem ao abrir a carta. Ela conta como foi. Ontem ela
descobriu onde a Condessa guardava seus documentos, mas não mexera em
nada. Teve vontade de fazê-lo quando todos foram dormir. Mas pensou
bem: a Condessa ou algum criado poderia acordar e pegá-la. Durante a
noite, qual a motivo ou desculpa que ela daria. Pela manhã, logo cedo
chegara Elizabeth que ficou a entreter a Condessa numa conversa, o que
deu tempo a Margit. Ela continua, então:
Pensei que esta carta não existia, e juro que rezei por isso, que fosse
um blefe da minha mãe. E quando encontrei a carta, vi do que ela é
capaz. Guardar a carta do seu filho, como um documento contra ele
próprio. Natasha, essa carta é de dois anos atrás. Se ela fosse uma
pessoa que estivesse preocupada com Igor, teria falado com ele, mas,
não, guardou-a com que intuito? É terrível, monstruoso...
Leio a carta, é um registro, um documento de todas as idéias de Igor,
toda sua visão ideológica, todo seu intuito de lutar e ver a separação
da Hungria.
Estamos esquecendo de uma coisa, Margit. Como a Condessa conseguiu esta
carta? Como ela foi parar em suas mãos? A carta está endereçada a esse
tal senhor, e é uma resposta, veja ela estava lacrada... Existe alguém
que traiu Igor.
Margit arregala os olhos.
Não tinha pensado nisso. Você tem razão! Eu só pensava na minha mãe, em
sua loucura. Mas é claro, alguém traiu Igor. Conheci esse senhor, ele
morava aqui perto, era um grande proprietário de terras, ele morreu,
não sei quando ao certo. Mas ele está morto e se não me engano foi
coração. Quem teria traído Igor? Esse homem, o portador da carta, um
dos homens do movimento de separação. Quem? Natasha, isso é serio!
Existe um traidor, e essa pessoa está aliada à Condessa.
O que vamos fazer Margit? Será que devemos contar tudo a Igor? O que
vamos fazer?
Ela balança a cabeça.
Não sei, Nat. Contar a Igor? Nós o conhecemos! Ele ira querer colocar
tudo isso em pratos limpo. Ele vai querer a verdade. E, se existe essa
pessoa, poderia haver outros documentos! Vamos pensar, o que vamos
fazer. O certo é que ao menos a carta da Condessa já está conosco.
Vamos pensar.
No almoço, Igor me olha intrigado. Sei que nem eu nem Margit estamos à
vontade.
Assim que acabamos o almoço, ele puxa-me para darmos um passeio.

Descemos para o lago, o sol está quente. Sentamo-nos à sombra da velha


árvore.
O que está acontecendo, vida?
Olho para ele, que deita a cabeça no meu colo.
Você confia em mim, não é?
Preciso lhe responder?!
Seus olhos negros brilham mais que o sol, embora sejam tão negros como
a noite, posso a mão por entre seus cabelos.
Então aguarde mais, um pouco mais; Margit e eu estamos a resolver um
problema. Não posso lhe falar nada, por enquanto. Peço que tenha um
pouco de paciência.
Ele me olha bem nos olhos, continuo:
Não me agrada, nem um pouco, ocultar algo de você, mas neste momento as
circunstâncias assim exigem.
Ele silencia minha boca com a mão, e sorri:
Você não precisa se justificar. Confio em você, e isso é tudo.
Respiro mais aliviada.
Igor, você sempre me fala na força que o amor tem. Como faço para usar
essa força? Veja bem: eu sinto o sentimento, mas você a usou me
chamando no tempo; o que fazia? Como se opera essa força?
Ele se senta, ficando à minha frente. Surge um vento, algumas folhas
caem em cima de nós.
Retiro-as dos seus cabelos. A camisa aberta ao peito. Ele olha-me. Pega
minha mão e a coloca no seu coração.
Bate forte, também, o meu coração. Olho nos seus olhos...
Como você usa a força, amado?
Amo-a, Natasha. Quando ficava aqui, sozinho, meu pensamento ia a você.
Sente meu coração?
Aceno afirmativamente. Ele pega minha mão, beija-a demoradamente,
olhando-me.
Aqui, o pensamento ia a você. Falava: amo-a. Soltava-me por completo ao
que sentia. Fechava meus olhos. Sentia o amor por dentro de mim.
Respirava: eu a amo. Mergulhava em cada respiração. O pensamento
seguro, exclusivamente no: amo. Emerge a força. Quando a sentia como um
calor a invadir-me por dentro, eu falava ao tempo: necessito vê-la,
tocá-la; eu quero vê-la. A ti falava: volta, volta para mim.
É o soltar-se, sentir, respirar e segurar o pensamento. Nesse momento
nada, nada pode povoar a mente, se estamos usado-a para segurar o
pensamento, pois o sentimento se alastra e segue. O sentimento gera a
vontade, a emoção gera o desejo.
A força quando emerge é para ser usada, cabe a cada um o seu uso.
Toco-lhe o rosto amado, olhos que me acham e pergunto:
Como você descobriu? Como sabia que chegaria a mim?
Era fim de tarde, eu pensava: qual o propósito de sentir que a amo, se
ela não voltar mais? Sinto, e é tão forte. Olhei o céu, deitei na
relva, ardia por querer estar com você.
O que eu posso fazer? Perguntava-me, fechei os olhos e veio sua imagem.
A daí, emergiu a força e fez valer a minha vontade. Como saber que
chegava a você? Eu não sabia, eu sentia que de alguma maneira chegava.
O saber, como o entender, é mental; o sentir, como o compreender, é do
coração. Compreende? - pergunta sorrido.
Amo você, por ser você, hoje e sempre.
Sorrio, repetindo:
É soltar-se, sentir, respirar e mergulhar, segurando o pensamento.
Homem, você construiu nosso castelo. A chama dentro dele é permanente,
é quente e sagrada. Para mim é você um homem acima dos homens. E,
muitas vezes, pergunto-me: por que eu? Fecho os olhos e rendo Graças,
por ter o puro ouro a meu lado.
Ele sorri e toca meus lábios.
O sentimento teve a força por ser você o centro de tudo. A resposta
está acima de nós, pois a razão de um amor tão grande como o nosso foge
à capacidade racional humana. O que posso afirmar é que nada calará o
que sinto por você, senhora da minha vida. Olho nos seus olhos e nos
falamos, o amor atravessa um e chega no outro, e nós sentimos o que o
outro está a sentir, temos a receptividade mútua, uma sintonia nossa. E
quando nos amamos...
O bosque enche-se de sua risada, ele me abraça, falando:
Quando nos amamos, chegamos ao infinito. Nosso amor começa no físico,
nossas emoções passam a ser uma e nossas almas se fundem em uma só. Vem
cá.
Igor encosta a cabeça no meu seio.
Ouço seu coração, sabe o que ele diz?
O que ele diz?
Que você me ama... Que você me ama... Me ama...
Presunçoso! Porém, verdadeiro, e você vai cansar de tanto ouvi-lo: amo
você.

Não, fale-me sempre, como ter tamanha participação se não nos


expusermos? Quero morrer falando: eu a amo. Eu a amo sob mil formas ou
por mil representações.
Que fique claro: eu a amo. Que o Balaton adormeça ao som: amo você. Que
o dia nasça com o meu sussurro: amo você. Que fique certo e
compreendido que cada vez que a olho, em cada toque: amo você.
Expressar meu sentimento é dar vazão à plenitude do amor que tenho por
você.
Rondo você, por lhe querer. E quando vejo o sol, sorrio a ele. Lembra-
me você, brilhante e vivo. Quando vejo a lua, ela lembra-me você:
envolvente, suave e instável. Quando vejo o Balaton, suas águas,
quantas e quantas vezes me desnudei e mergulhei meu corpo nele por
querer que ele fosse você, necessito de você.
Quando olho no espelho, dentro dos meus olhos, o que vejo é você.
E, se um dia houver distância, você sentirá: amo você. Isso é tão real,
tão sério e tão vivo quanto minha própria vida, e você sentirá esteja
onde estiver, aconteça o que acontecer. Por um único e simples motivo:
eu amo você.
Paro de tocar seus cabelos e falo:
Não existirá distância, Igor...
Seu olhar se afasta, olhando o céu.
Se existir você compreenderá o que estou lhe falando.
Meu sentimento por você é o sopro da minha vida. Sem o sopro não há
vida, pois a essência da vida está no sentido que atribuímos ao nosso
sentimento. Amo você! E nada, nada fará você não sentir, nada! Nem a
distância, nem o tempo, nem a própria morte. Nada calará o que sinto
por você.
Um tremor percorre meu corpo. Seguro seu rosto e falo.

Estamos juntos e juntos ficaremos até envelhecermos, até morrermos.


Ele franze a testa e fala.
Compreenda-me, Natasha, muitas coisas existem além do nosso alcance, da
nossa visão. E se por acaso existir uma dessas situações, quero que
você compreenda o que falo.
Mesmo que me cale, que fique mudo, você sentirá. Ecoará em seu ser o
sopro da vida deste amor que tenho por você.

Não! Não fale assim. Você é tudo! Eu não viveria sem você.
Segura meu rosto entre as mãos, olha-me profundamente, bem dentro do
meu ser.
Viveria, pois o amor por você é sentimento. Sentimento não morre. O
sentimento é vivo. Se o sentimento é vivo tudo o é. Viveria, pois meu
sentimento estaria vivo através de você.
Coloco as mãos nos ouvidos e falo: - Não! Pare...Não estaria vivo
através de mim, por que só ha vida, falo, vida com você!
Ele retira minhas mãos dos ouvidos, olhando-me...teu olhar minha vida é
puro amor. E fala com sua voz grave e forte:
- Amada, atenta, lembra que ti falei que abrimos o caminho? Sou teu
caminho, você o meu! Escuta-me: você ou eu esteja onde estiver, somos e
seremos quem somos! Esteja onde estiver você sempre sentira nossa
verdade, o que somos, por que assim é minha vontade, como é a tua. Onde
esta um, existe o outro. E cedo ou tarde, como você ouviu:o tempo une a
quem quer se unir. Dentro da Lei Maior: Amor.

Suas palavras explodem dentro de mim.


É nesses momentos que você deixa de ser como os demais seres, passa a
ser imortal. Você tem muito o que me ensinar. A chama viva do
sentimento quer compreensão racional para expandir-se.
Ele sorri, toca meus lábios e fala:
A chama viva e sagrada repousa no lago, o lago é a vida. Ventos,
chuvas, calmarias mexem com a superfície do lago. A superfície e os
fatores externos fazem as emoções. As emoções são passageiras, mutáveis
e humanas. O sentimento reside no coração. Se o lago secar, se o
coração parar, o sentimento continuará, pois o amor precede a vida
terra. Nada calará o amor que temos.
Ele se aproxima, nossos olhos presos.
Cabelos negros. Camisa aberta ao peito. O terno sorriso.Toco seu rosto
e falo:
Sinta, Igor, sou sua; sempre e sempre.
Vem, estou solto a você. Respire o sopro da minha vida, que é o amor
que tenho por você. Respiro o sopro da sua vida. Busque-me, pois eu a
busco. Necessito sentir você. A razão é a comunhão, e nesta hora um é o
outro, os pensamentos se fundem num só: amor. Chegaremos juntos ao
lugar eterno, pois é eterno nosso amor...

O tempo!
Tempo...
Subimos rindo para casa.
Amanhã será um dia decisivo. Decisivo para todos nós.
Olho para ele, principalmente para você, minha vida.
Aqui agora, não sinto receio algum.

Não tenho mais o que pensar.


Aqui estou à frente da casa da Condessa. Deveria ter aceitado a
companhia de Margit.
Pensamos melhor, a Condessa desconfiaria. E isso é tudo que não
queremos.
Saí cedo de casa, logo que Igor saiu para a fábrica, há compradores de
vinho.
Que é isso, Natasha, vai ficar nervosa agora?
A casa é, realmente, bonita e impotente, subo os degraus. Respiro fundo
e bato à porta.
Espero ansiosa, abre a porta um criado.
Bom dia! Em que posso ser útil?
Gostaria de ver a Condessa!
Verei se é possível. Aguarde. Quem eu devo anunciar?
Natasha.
Ele faz uma reverência e entra. Fico na saleta que precede a escadaria
para o salão. Olho ao redor, que lugar bonito; a decoração é toda
dourada, até o porta-chapéus. Sorrio, ao imaginar Igor com um chapéu,
ele não teria paciência para usá-lo, seus trajes têm que ser muito à
vontade, sua camisa é meio aberta no peito. Livre como o vento.
Senhora, por favor, acompanhe-me.
Descemos a escadaria, não entendo por que um salão tão grade. É enorme.
Dirigimo-nos ao jardim, e a vejo, embaixo de uma grande árvore, sentada
numa cadeira branca. A seu lado, uma mesinha com seu desjejum. Olha
para mim.
Que prazer em vê-la!
Bom dia, Condessa!
Sente-se aqui a meu lado e acompanhe-me no meu desjejum. Não! Uma
xícara de chá, então? Ah bom.
Alguns segundos se passam, estou sentada com uma xícara de chá na mão.
E o pensamento preso no sentimento.
Já sei o que a trouxe aqui, meu silêncio. Mas já lhe falei que daria um
tempo junto ao meu filho, e, agora, que ele é pai. Mais alguns meses, é
o tempo que você tem junto ao meu filho, só mais esse tempo.
Coloco a xícara na mesa e falo.
Fico-lhe grata. Eu, realmente, pensei em tudo e avaliei o que a senhora
falou-me. Amo por demais seu filho, e sei que ele morreria sem ter a
liberdade, sem o seu trabalho. E por amá-lo irei deixá-lo. Vim aqui
para isso. Por mais que pense, e reflita, não sei como devo fazer. A
senhora começou a dar as cartas, eu estou no seu jogo.
Ela sorri vitoriosa.
Interiormente, eu sabia que você, por tanto amá-lo, iria pensar em
tudo. Sei que nesses meses você refletiu. Bem, tenho tudo em mente, mas
só irei expor no momento certo, não que ache que você irá mudar de
idéia, pois tenho as provas de Igor nas mãos.
Respiro fundo, ela toca no assunto que tanto quero.
Senhora, desculpe-me por interrompê-la. Essa carta, da qual a senhora
fala, tenho uma preocupação quanto a ela: é mesmo uma carta?
Seu olhar é persistente, continuo:
Uma carta, onde Igor expõe todos os seus ideais, como a senhora falou,
eu não entendo. E por que Igor, sendo tão inteligente, exporia suas
idéias numa carta, deixando-a vir parar nas suas mãos. Isso é tão
intrigante!

A irritação dela é visível, e eu mantenho o ar de preocupação.


Você estaria duvidando da existência dessa carta, é isso?
Não senhora, claro que não. Minha preocupação continua sendo Igor, ele
expor-se numa simples carta, e essa carta ter o destino que teve,
imagino que, como ele é muito aberto, saia a soltar suas idéias e é
isso que temo. Por esse motivo, irei deixá-lo, com medo que ele seja
preso. Mas outros documentos poderão existir a comprometê-lo. Esta
carta chegou à senhora, mas imagine se ela chegasse a outras mãos.
Seria o fim dele. Essa é minha preocupação.
Ela enche o peito, sorri e fala:
Noto sua preocupação, e vou mais além, passa na sua cabeça: “Se outras
pessoas tiverem provas quanto a Igor, não teria motivo para partir”.
Ouça-me bem, querida, meu filho é por demais inteligente. Jamais
arriscaria seus altos ideais e de outros, como ele. Essa carta ele
mandou a um proprietário de terras que fazia parte desse Movimento de
Separação da Hungria. Mas, esse senhor me devia um certo favor. Então,
deu-se a troca. Poucos dias depois, ele me procurou arrependido, mas já
era tarde a carta já estava comigo. Ameaçou contar tudo a Igor, e eu
simplesmente lhe disse que fora ele que me dera a carta. Ele era um
traidor. Coitado, morreu no dia seguinte, que Deus o tenha.
Portanto, só eu tenho provas quanto a Igor. Provas evidentes, e só eu
posso forçá-la. Seria muita tolice guardar uma carta, se houvesse
outras pessoas com documentos comprometedores. Você subestimou a
inteligência de Igor, minha cara, e, também, a minha.
Respiro num alivio tão imenso. Então, foi isso, não existem mais
provas. Só existimos eu, você, Ivy nessa terra abençoada. Sorrio para o
mundo.
Você tem, exatamente, quatro meses a contar de hoje. É todo o tempo que
lhe resta.
Olho para ela, e faço a pergunta que tanto quero saber.
A senhora tem mesmo a coragem de entregar seu filho, seu próprio filho?

Minha cara, eu faço qualquer coisa, qualquer coisa para não perder o
que tenho. Faço arranjos, alianças ou o que for necessário, mas perder
o que tenho nunca. Nunca! Entregaria Igor, sim, sem sentir culpa, pois
é ele ou eu. Com sua saída da vida dele, será terrível para ele ficar
aqui, no mesmo ambiente que viveu com você. Irá para casa de Margit, e,
lá, na corte, calará a boca da aristocracia. Você pode se perguntar por
que ele irá para casa de Margit. Estarei lá e, ficarei doente, quem
sabe se não estaria à beira da morte, e o chamarei, e meu bravo leão,
irá. Quero meu filho do meu lado. Se não for o caso, tê-lo-ei como
inimigo e inimigo nós eliminamos. Aproveite bem o resto de sua estada
aqui e, quando estiver perto de você partir, eu a chamarei. Até lá,
acho que não nos veremos mais. A propósito, sei o quanto Margit está de
amizades com você. Comece a cortá-la, isso será ruim para ela. Bem, já
falamos tudo que tínhamos para falar. Estou aguardando uma visita, se
me der licença...
Deus! Não pensei que pudesse existir alguém assim, ela é monstruosa,
levanto-me:
Esteja à vontade Condessa.
Ah, só mais uma coisa, não se exponha aqui em Badacsony com sua menina.
Sei que vocês estiveram na feira. É muito desagradável! Perguntarem a
mim sobre a menina, e eu tendo de dar mais uma desculpa! Portanto,
fique com ela longe da cidade. Aproveite seu tempo.
Todo esse tempo calada e com medo. Enfim acabou.
Irei aproveitá-lo até o final dos meus dias, “cara” Condessa. E quanto
à carta que compromete meu esposo. Agora está em boas mãos. Tenha um
bom dia, senhora.
Seus olhos se arregalam e me fulminam, passo por ela, ouço sua voz
atrás de mim.
Cigana, espere!
Não dou o trabalho de virar-me.
Se, porventura, você estiver me desafiando e não deixar meu filho, se
for isso, eu acabo com você... Natasha ... Natasha...
Subo as escadas, abro a porta da rua. Val espera-me na charrete.
Livre! O sorriso vem nos meus lábios.
Subo a charrete, é mais que alivio, é liberdade. Faço esforço para me
conter.
- Para casa, Val. Para nossa casa.

Acabamos o almoço, o semblante de Margit é triste, como tendo perdido


algo. Entendo o que ela passa, entendo sua revolta.
Ajudo Misca a tirar os pratos, Ivy está com Igor no quarto, minha
família salva, e livre das ameaças. Volto à sala, ela está a olhar a
janela pensativa.
Margit, queria poupá-la dessa tristeza. Você não sabe como me sinto, em
vê-la, assim.
Não, não quero ser poupada. Se não fosse por tudo isso eu não chegaria
a conhecer quem realmente é a Condessa. E ela, por ser tão forte,
poderia ainda me reprimir. Estou frente a frente à verdade. Perplexa!
Minha tristeza é ver como pude ser tão cega... Agora, entendo quando
meu marido chegava bêbado, em casa, e queria deitar comigo, ele
gritava: eu paguei por isso também. Ocultava a verdade, pensando que
ele se referia à vida faustosa da corte. No intimo, eu suspeitava, e
agora tenho a certeza. Uma mãe, que sabendo que esse filho ama a vida
livre, é capaz de levar seu filho à prisão para se manter numa suposta
posição... Fazer o que ela faz com Aurel... É muito mais que triste, é
revoltante!
Porém, tudo é uma grande lição. Afirmo, Natasha, sou dona de minha
vida, e não vou esperar um tempo para vir morar aqui. Eu vou ficar, sei
o quanto vocês me amam, e eu amo vocês.
Adoro a escola, nela sou gente, que vá a Condessa, pessoalmente dar
explicações ao barão...
Vamos conversar com Igor, à noite... Penso em chamar Aurel. Penso não,
vou mandar chamá-lo para jantar conosco. Assim, todos nós,
conversando, chegaremos a um propósito. Podemos esperar até a noite
para falarmos com Igor. Não se corre o risco de ele ir a ela. Para
quê?!!!
Evidente, que Igor vai estar frente a frente a ela. Mas, dentro do
senso...
Vocês adotam, não mais uma criança, mais uma mulher que sabe o que quer?

Abraço-a, não é necessário responder.


Olha lá a titia, está chamando você.
Viramos para Igor que está com Ivy nos braços. Pego-a nos braços, nosso
bebê linda e gorducha, aperto-a e a entrego para Margit.
Igor pede-me para irmos a fábrica para decidirmos o novo rótulo do
vinho. Acabaram de chegar, tínhamos escolhido três. Vamos ver qual
ficou melhor.

O sol está morno, andamos sem pressa.


É adorável esta estradinha para a fábrica, e parece mais bonita com a
chegada do outono.
Repleta de folhas amarelas no chão.
Observamos a natureza. Paro para ver um ninho, ele levanta meus cabelos
e beija minha nuca.
Entramos na fábrica. Vou a Frigys, pergunto-lhe se está gostando das
aulas, pois começou há pouco os estudos. Ele sorrir, sem graça, e fala
que deveria ter iniciado antes.
O aroma do vinho, nesta época, é forte.
Entramos na sala de Igor.
Sobre a mesa há algumas folhas de papel. Não chego a tocá-las, Val nos
interrompe e fala baixo com Igor. Este, por sua vez, pega minha mão e
puxa-me apressado.
Saímos da fábrica rapidamente, pergunto a ele o que houve.
Ele não responde.
O cavalo de Val está do lado de fora da fábrica. Ele coloca-me nele e
sobe rápido.
Sua respiração está irregular.
Saímos a cavalgar velozmente, e ouço:

Igor... Natasha...

Ouvimos os gritos!
Olho para Igor, os gritos continuam.
É Margit! – falo a Igor. - Estamos chegando. Está ouvindo?!!! -
respondo.
Venham correndo... Igor!
Ele pula do cavalo e retira-me às pressas.
Corre à frente e eu, logo atrás dele. Corremos em direção a Margit, ela
está pálida, está chorando... Ivy!
O que houve Margit?!!! Alguma coisa com Ivy?!!!
Ela balança a cabeça soluçando.
Coloquei-a lá fora de casa, como sempre fazemos... Em cima da colcha.
Entrei para pegar seu sopinha... Ela sumiu! Sumiu!
Sinto alivio.
Não se preocupe Margit, deve ter sido Mikail. Ele tem essa mania; leva-
a para escola. Tenho certeza que foi ele, outra vez... Vamos lá, é bem
capaz de ele já ter voltado. Muitas vezes pega Ivy para dar uma volta.
Venha.
Tem certeza, Natasha?
Olho para Igor, que está muito sério, e sobe à nossa frente. Sinto
alivio? Não, há algo aqui em mim, mas tento tranqüilizar Margit, como a
mim mesma.
Venha, Margit, ele já fez isso antes.
Misca está como louca. Fiquei apavorada. Ela já está andando, não teria
saído sozinha?

Igor chega bem antes do que a gente.


Misca está do lado de fora de casa. Meu coração dispara. Por quê?
Igor fala com Misca e corre para um lado da casa.
Não consigo respirar direito. Misca fala, fala.
Vejo Igor ir para o outro lado, Margit o acompanha.
Não consigo sair do lugar, sinto algo estranho! Aqui, bem aqui dentro
de mim.
Começa o cair da tarde.
Igor pega o cavalo e sai.
Onde, Ivy, onde você estará? Mikail não demora tanto tempo com ela.
Está na hora da sua comida.
Corro ao estábulo, pego outro cavalo e saio, Misca grita, Margit fala...
Disparo a cavalo. Sinto que corro, corro de algo que sinto, e não quero
sentir!!!
Rondo pelas redondezas. Minha filha, onde você está? Se fosse Mikail,
ele já a teria levado de volta. Ou já devem estar em casa. Sim, devem
estar todos em casa.
Subo o morro. Subo com uma dor estranha no peito.
O cavalo de Igor está na frente da casa.
- Igor! Misca! - grito.
Pulo do cavalo. Margit vem à porta, soluça. Não consigo respirar
direito.
Meu corpo treme. Minha voz suplica:
Onde está minha filha?
Margit à frente da porta.
O que houve Margit? Deixe-me passar... Onde está Ivy?
Espere, Natasha.
Passo por Margit. O que vejo no sofá da sala?
Não consigo respirar. O que é isso?
O que está acontecendo?!!!
Não sei a quem pergunto ou se pergunto.
Igor de joelhos diante de Ivy... Soluça. O grito, meu grito ecoa na
casa: - Ivy! Ivy!
Igor levanta-se. A mais profunda dor sai dos seus olhos, ele corre para
mim, e me abraça, soluçando. Procuro me afastar dele, mas ele me segura.
O instinto é mais forte, empurro-o.
Corro ao sofá. Ivy, deitadinha, suja de terra... Ela dorme... Sim, ela
está dormindo.
Ajoelho-me a seu lado. Toco seu rosto, chego junto do seu rostinho,
beijo-a... Ela dorme, sei que ela dorme. Pego-a... Ela está, Deus!...
Ivy!... Ivy!... Acorde! Acorde, Ivy...
Alguém tenta tirá-la dos meus braços. Seguro-a, no meu peito,
apertando-a.
Ivy! Acorda! Por favor, Senhor Deus, acorde minha filha.
Igor segura meu rosto.
- Igor? Igor, o que Ivy tem?!!! Igor, ela não acorda!
Ele chora. Cai em mim o sentir. Abraço Ivy, fecho os olhos.
Isso não está acontecendo... Isso é um sonho ruim.
Natasha!
Continuo de olhos fechados.
Natasha, por favor, olhe para mim... Por favor... Abra os olhos. Solte
Ivy. Por favor, ela não está mais aqui...
Mentira! Ela está dormindo. Sei que ela está dormindo.
Igor me abraça, um soluço sai dele.
Dói, Natasha... Arrebenta por dentro. Deus Pai, como dói.
Tiram Ivy dos meus braços, abro os olhos. Olho em volta: Misca aos
prantos, Margit também, Val calado, Mikail... Olho para Igor : - Eu
não agüento, Igor...
Saio correndo para fora de casa, corro, corro, corro...
Não é possível. Eu não acredito, eu não acredito!
Não estou vivendo isso, não está acontecendo.
Corro sem rumo. Sinto o vento frio de outono. Sinto o frio.
Minha filha, minha pequena Ivy...
Paro para respirar. Deus o que fez conosco?
Sinto os braços de Igor puxando-me. Abraça-me.
Solte o choro, Natasha. A dor é nossa, e como dói! Como dói. Vamos
senti-la juntos.
A explosão vem de dentro, como uma devastação, um grito e que sai num
tremor por todo meu corpo. Meu corpo treme por inteiro. Soluço.
Por quê, Igor?!!! Por quê?
Ele não consegue falar.
Choramos abraçados, soluçamos juntos.
Igor lentamente senta-se no chão, creio que por pura exaustão; levando-
me com ele...
Meu corpo treme muito. Ivy! Sinto a necessidade de tê-la, de senti-la
em meus braços.

É noite, o vento sopra frio...


É noite alta. Porém, mais alta é nossa dor.
Subimos para casa, abraçados...

Amanhece...
Igor e eu na cozinha, sentados no banco. Encostada no seu peito; ouço o
seu coração, a dor presente.

É dia, tem sol...


O outono leva a vida das árvores.
O outono leva a vida da nossa filha...
O outono e o vento.
O vento faz as folhas caírem.
O outono levou a vida de nossa filha.
Mikail coloca nossa Ivy numa cova.
Soluço e me abraço a Igor, fechando os olhos.
Ele, tenso, me aperta com muita força, fica a ver a cena.

Estamos agora na cozinha da nossa casa... Misca tirou tudo que é de


Ivy. Igor e eu temos nas mãos uma caneca de chá. Margit fala com
Mikail. Estou distante, tão distante.
Igor, com uma mão na testa, cotovelo na mesa, o outro braço em mim,
minha cabeça no seu ombro. Ele ouve Margit... Mikail fala...
Mikail foi quem encontrou Ivy. Caíra do morro... Minha pequena estrela,
plena de brilho e vida. Agora brilha em outro lugar. Soluço, Igor me
abraça. Margit conta, então, a história da Condessa. Margit sai. E
volta com um papel na mão; é a carta.
Igor respira rápido; lê a carta. Margit fala e fala, até que grita:
- Foi ela?!!! Pode ter sido ela?!!!
Horrorizada olho para Igor. Não, não seria possível?
Os seus olhos, em todo nosso convívio, nunca tinha o visto com esta
expressão: é raiva. É mais que raiva, é ódio!
Ele dá um soco na mesa com tal violência que as canecas caem no chão e
fala balançando a cabeça: - É terrível demais! Não é possível...
Encosto-me nele, abraço-o. Ele encosta a cabeça na minha.
Em mim: nada, nada de que fizermos irá trazê-la de volta.
Igor levanta-se e vai à sala, olha através da janela.
Margit senta-se a meu lado e me abraça. Não existem palavras. Ela sai e
vai a Igor. Ele está de costas, ela o acaricia, conversam. Baixo minha
cabeça sobre a mesa. Sinto alguém alisar meus cabelos.
Daria minha vida para não vê-la sofrer, assim.
Mikail, passa o braço no meu ombro.
Avô, falo ao senhor, sei que me escuta. Cuide de Ivy, pegue-a nos
braços. Diga-lhe que um dia estaremos com ela. Sei que o senhor fará
isso! Ela é nosso tesouro. Tão linda! Minha filha... Avô! Ela só dorme
com alguém cantando canções de ninar, cante avô!
O senhor adora crianças, que me ama, faça com ela o que eu não posso
mais fazer...
Soluço. Eu e Igor somos só dor. Não quero que ela sinta que estamos a
sofrer. Quero que ela esteja alegre, sorridente nos seus braços, avô.
Ame-a, faça com ela o que fez comigo. A seu lado fui a criança mais
feliz e mais amada... Entrego-lhe minha filha. E, de todo coração, sei
a quem entrego. Resta-me essa dor; que machuca, arrebenta meu peito;
arrancaram uma parte vital para mim, e dói, dói.
Mikail me abraça.
Olho a sala. O que Igor está a sentir com tudo que ouviu?
Levanto-me e vou a seu encontro. Seus olhos são um poço de dor e
angústia.
Envolvo meus braços nele, acalentando-o.
Se não fizer alguma coisa, Natasha, eu vou explodir. Não agüento, eu
não agüento! Vou à cidade, agora!
Seguro-o, abraçando-o; ele me aperta e fala:
Da mesma forma, com a mesma força que amo, agora sinto isso.
Igor, não vá até lá. Não agora! - é Mikail que fala e continua. -
Não vá. Vamos esperar mais um pouco.
Não! Se eu não colocar o que sinto para fora, esse ódio, eu extermino o
que tenho de melhor em mim.
Margit fala: - Vou com você.
Não, vou sozinho; quero vê-la a sós.
Abraça-me e sai. Meu pensamento se distancia, afloram as frases soltas:
“... não quero ter meu filho como inimigo... o que me interessa é o
poder... faço qualquer coisa, qualquer coisa...”
Igor! - Solto um grito de pavor. Ele corre perigo.

Olho em volta. Margit na porta vê Igor partir. Corro à porta; ele já


está distante. Corro para o estábulo, ela e Mikail me seguem.
Vou atrás dele! Não sei do que ele é capaz, mas sei do que é a Condessa.
Saio em disparada. Mikail pega outro cavalo, vem atrás de mim.

Dou-me conta de que já estou na cidade, entardece.


Mikail chega no momento que estou para descer do cavalo. Peço-lhe para
ele nos esperar.
Vejo o cavalo que trouxe Igor. Não bato na porta, entro. Ouço a voz de
Igor, ele fala alto; estão no jardim, corro ate lá.
Igor em pé fala:
Você não é um ser humano. Vou acabar com o que você mais ama: o seu
poder. Vou tirá-lo de você, pode estar certa disso. Vou a Áustria,
quando o dia raiar; conte seus dias aqui. Hoje, sou o maior inimigo que
você tem, e pode contar que vou arrancá-la daqui se não for por meios
legais, será por meus meios.
Meu filho, me escute. Eu...
Cale-se. Não sei como consegue me chamar de filho, não sabe o que é
isso... Não pense em mim como “um filho”, e sim como seu opositor. Pois
você para mim é, exatamente, isso, nada mais que isso... A única coisa
que sobrou dos meus sentimentos por você foi essa coisa horrível que
está no meu peito. Tenha raiva de mim, assim é de igual para igual, se
é que você não nutre isso há muito tempo. Perdi minha filha. A dor
dessa perda feriu minha alma. Você quis destruir tudo que amo, que
sou... Sua ganância é uma doença, seus meios são destrutivos.
Você não se atreva a ir à Áustria.
Já ouvi essa frase por diversas vezes, em outras circunstancias, se
naquela época eu sempre me “atrevi”, quem dirá agora! Minha vida sempre
foi aberta, sou sincero e jogo aberto. Prepare-se.
Ele lhe dá as costas e me vê, vou a seu encontro. Vejo a Condessa
lívida na cadeira.
Vamos embora daqui, Natasha.

***

È noite.
Estou no quarto. Igor está lá embaixo providenciando sua viagem, não há
como fazê-lo mudar de idéia, e nem quero tentar. Sei o que ele sente, e
sua força é tanta que se ele não fizer algo, esse outro sentir, ficará
instalado nele.
Misca e Margit me trazem um chá, não há o que falar.
A dor nos acompanha. Depois de um longo silêncio, ouço Margit:
Se eu não tivesse saído. Se tivesse ficado ao lado dela. Ah! Meu Deus.
Olho-a com carinho, toco seu rosto e falo:
Por favor, Margit, não coloque culpa onde não existe. Se fosse assim eu
poderia também dizer: por que Igor e eu saímos à tarde? Por que deixei
a Condessa saber que estava com a carta? Nada fará com que ela volte, é
essa a dor que sentimos.
As lágrimas escorrem por nossos rostos.
Igor entra no quarto, olha-me e suspira. Misca e Margit saem.
Olho a janela. A noite está estrelada. A estrela que Igor fica a olhar
brilha. Ivy deve estar nela.
Levanto-me e vou à janela. Igor senta-se na cadeira de balanço.
Ela está lá em cima. Meu avô a embala nos braços... Deus, como queria
tocá-la...
Soluço, Igor me abraça pelas costas, puxa-me para a cadeira de balanço,
senta-se e eu sento-me em seu colo. Embala-me como criança. Choro no
seu ombro. Sua voz sai contida:
Ivy! Por um tempo fomos abençoados por sua presença. Embora possamos
sentir, compartilhar com você.
Levanto o rosto.
Você fala coisas que não entendo. Eu quero Ivy aqui. Como? Como posso
estar com ela? Sim, pois para compartilhar terei que estar com ela.
Quando? Só quando morremos! Até lá esta dor, este vazio.
Não, Natasha.
Como não, Igor? Sinto a perda da minha filha.

Compreenda-me, Natasha, por favor, compreenda-me. Não tenho muito tempo


para fazê-la compreender. Se esforce, por favor... Tenho que viajar.
Portanto, compreenda-me.
Eu entendo a sua viagem. Claro que entendo.
Não, Natasha... Você não compreende totalmente.

Ele soluça e me abraça forte, tão forte. Acaricio seu cabelo e falo
mais para me mesma:

Homem, quando chegará o dia que eu tenha a compreensão que tanto me


pedes?
Ele levanta o rosto, seu olhar intenso, as feições abatidas.
Vida, o que tens a me dizer de tudo que somos?
Somos... Somos uma unidade. O amor que tenho por você é a maior coisa
que existe, você é o ar que respiro... Você, você... Fomos punidos,
Igor? Fomos punidos?
O choro chega, não consigo falar.
Como um Pai puniria o amor? Nenhuma forma de amor é punida! Não,
Natasha, não fomos punidos. Somos uma unidade. No momento que te vi,
meu coração pulsou, depois veio a consciência: eu a amo. Você tornou-se
meu caminho; e eu, o seu; quando temos consciência, arcamos com cada
pulsar do coração. Temos consciência deste amor. Este amor, vida, tem a
força, pois vem da vontade de nosso ser. Eis a força! Uma vez sentida e
compreendida, ela nos leva aonde nosso sentimento manda. Seja onde for,
por mais distante que nos possa parecer, pois a essência da vida está
onde atribuímos nosso sentimento... Você sente que Ivy está ali, chegue
até lá.
Olho atordoada para ele e murmuro:
É impossível, Igor.
Sua falta de fé no sentimento é que torna impossível.
Igor! Como chegar até Ivy? Como?

Ele toca meu rosto com tanto carinho e fala:


Solte seu sentimento, ele a levará até ela. Os homens criam templos de
adoração, investem nos templos que estão no tempo, e morrem dentro
dessas prisões. Rotulam o que é simples de fantástico, de impossível.
Uns poucos Homens que sentem são erguidos como santos, pois operam a
vontade do sentimento - tidos como santos, por operar a vontade - e
a vontade é vista como milagre. Outros homens seguem o que ouviram e
criam leis, normas. Prendem o que têm de mais caro: o sentimento. Não é
pela fé dogmática que se chega a alguém. É pela fé, certeza do que se
sente.
Você pode fazer. Chegar até ela?
Ele dá um leve sorriso.
Com o coração aberto, simplesmente sentido o amor que tenho por ela,
sim.
É por isso que você tem que viajar! No seu coração outro sentimento.

Ele afirma com um bater de olhos, e torna a me olhar forte.


Mesmo que me cale, que emudeça, ecoa e ecoará em você à vontade e a
vida do meu sentimento... Mesmo que vague, que viaje, permanece em você
à luz do sentimento. Não pense, simplesmente: sinta. Sinta, Natasha.
Entrego-te meu coração, senhora da minha vida, para assim estarmos
sempre em sintonia, sintonia: pulsa coração-amor. Não olhe o tempo como
um inimigo, simplesmente sinta o amor. E embora teus olhos não me vejam
- teu coração sente. Compreenda-me, ao entregar-te meu coração, pois
veio você a estas aragens por mim, estou e estarei sempre contigo.
Ele sobe o olhar para o céu.
Mil estrelas numa noite, o infinito a nossa frente. O que me liga a ti?
A única lei que conheço: o Amor.

O dia amanhece.
Igor e eu na cadeira de balanço.
Vimos todo amanhecer, as estrelas se foram. O sentimento permanece.

Os cavalos estão prontos. Vão Igor, Val e Fried. Margit se despede


dele. Mikail, Misca também... Serão só alguns dias, só alguns dias...
Ele vem ao meu encontro, puxa-me e me abraça. Fecho os olhos, estou em
casa; sentir-me nos seus braços é desfrutar tudo que um ser humano é
capaz de sentir.
Posso viajar tranqüilo? Desde que estamos juntos nunca nos separamos.
Teremos um tempo - um longe do outro - porém ao sentir e seguir o
sentimento:estaremos.
Tome cuidado, meu amado. E lembre-se de que não aprendi todas as
lições. Portanto, volte o quanto antes.
Abrace-me, Natasha. Com força.
Abraçamo-nos, seus lábios ao meu ouvido:
É soltar-se, soltar o sentimento que está no seu coração. Respirá-lo,
sem pensar em nada, mergulhar neste respirar. Então, estaremos-estando.
Solte-se a mim, pois estarei solto a você, sempre solto a você. Sinta
meu sopro: amo-a. Respire: amo. É simples.
Olho para ele. Tão belo, olhos que me chamam e me dão vida. O calor
desse meu sol aquece minha alma.
Igor, mesmo distante você poderá tocar minha alma?
Ele segura meu rosto entre suas mãos.
Eu sempre tocarei tua alma, sempre. Se assim for tua vontade.
Seus lábios tocam os meus.
Sempre, Igor.
Então deseje-me, necessite-me, suspire e imperará sua vontade. Esses
dias, esse tempo, mesmo não estando presente, estarei rondando você.
Pois para nós não existe nem o tempo, nem a distância.
Preciso de você... Acho-me nos teus olhos, nos teus braços estou em
casa. Abraça-me!
Ele me olha, sorri e fala.
Permita-me.
Longo abraço, longo e lento beijo.
Vê-lo partir é como se minha vida estivesse partindo...
Aceno para ele.
Um vento frio percorre meu copo, vento de outono.
Eu amo você, Natasha!
Margit sorri, eu grito:
Volte logo.Vida!
Encosto-me no portão do estábulo e fico a vê-lo cavalgar até sumir da
minha visão.
O vento frio toma-me. Vento de outono.

Sopra o vento frio do outono...


Margit dorme comigo. Mikail está no quarto dela. Igor pediu para ele
dormir aqui em casa.
Existe um ritmo na vida, mas a saudade é maior, faz-se presente. Está
estampada na face de todos.Em mim há um misto tão grande: a perda de
Ivy. O sentimento que tenho, esta aqui; mas a falta dela é enorme. Olho
o externo: é só vento de outono.

Entardece. Pela manha estava até melhor; agora, o que é isso que sinto?
Ando de um lugar para o outro.
Noite.
Estou na biblioteca... olho as taças...
O que sinto que me desnorteia?
Sento-me na cadeira. Onde está a força?
Solte-se, Natasha, solte-se. Sinta seu sentimento. Sim, eu sinto meu
amor.
Respiro e mergulho: amo você, Igor.
Respiro e mergulho no que sinto. Sinto o perfume de Igor... Mesmo que
me cale, ecoará em você: eu amo você...
Sentimento solto... É noite ele está junto à fogueira, ergue-se a
ouvir...
Grito! Ouço meu grito!
Mikail abre a porta.
Eu ouvi, Mikail, eu ouvi Igor! Ele chamou por mim!
Ele se debruça na cadeira e me abraça.
Misca me dá um chá. Quantos terei que tomar para me acalmar.
Eu ouvi sua voz, eu ouvi. Margit alisa meus cabelos...

A casa é silêncio.
Margit dorme a meu lado. Não consigo dormir. Estou oca, sinto só frio.
Não existem pensamentos. Talvez, não queira pensar.
Vida, volte logo, e me tire dessa agonia.
O dia começa a clarear.

Estou na cadeira de balanço, em frente à janela.


A claridade começa a chegar, sinto frio... Vejo meu reflexo no espelho,
tenho olheiras.
Sol, você que nasce tão forte, por que tenho tanto frio?
Ouço patas de cavalos...
Meu coração bate rápido. Levanto-me, olho para baixo. São eles, estão
de volta!
Margit! Chegaram... Acorda! Eles chegaram!
Abro a janela: - Igor!
Ouço Margit, atrás de mim: - Já?!
Olho para baixo, Val, Fried... Eles olham para mim.
Oh não! Eu não acredito.
Empurro Margit e corro para baixo, caio nas escadas, levanto-me. Abro a
porta...
Não! Não! Não!...
À minha frente Val e Fried carregam Igor. Sua camisa é só sangue...Não!
Não!
Não! Igor! Igor você não pode, não pode ser...
Foi uma emboscada, Natasha. Só acertaram nele.
Tampo os ouvidos. Fecho os olhos. Isso não está acontecendo.
Abro e vejo-os carregando Igor. Chegam Mikail, Margit e Misca que
grita...
Abraço meu próprio corpo.Tentado me segurar, abraço meu corpo. Deitam-
no na mesa.
Corro para ele.
Vida! Amo você, não pode me deixar sozinha. Você é toda minha vida.
Passo a mão no seu rosto... Beijo seus lábios...
Sua camisa é só sangue.
Deus! Por que faz isso conosco?!!! Deus! Ele toda minha vida. É minha
vida!
Sinto uma tontura. Vejo tudo turvo.

Onde estou?
É nosso quarto. Foi um sonho!
A meu lado Margit, doutor Lajos. É isso, estou doente. Doutor Lajos
fala:
Natasha, ouça-me, você está muito fraca. Não saia da cama.
Graça aos céus, foi um sonho, um sonho ruim.
Igor? Ele já chegou, alguma noticia dele?
Margit me olha apavorada, lágrimas escorrem por seu rosto.
Eu não sonhei... É verdade?
Margit me abraça, desesperada. O médico dá-me algo para beber. Vejo
Mikail na porta.
Mikail, fale-me a verdade! Ele está vivo?
Lágrimas no rosto de Mikail. Olho para ele, para Margit. Pulo da cama,
Mikail está na porta, vou a ele. Eu sinto, como já tinha sentido, com
aquele frio. Não foi sonho, é verdade.
Deixe-me passar Mikail, por favor!
Não, Natasha! Fique aqui deitada! - é Margit que fala.
Mikail, deixe-me passar. Quero vê-lo. Quero tocá-lo. Eu necessito,
preciso.
Ele me abraça e fala: - Venha comigo, Nat.
Desço parte das escadas. A casa está repleta de gente. Muita gente!
As pessoas se afastam. Muita gente. Há choro na sala.
Vejo o padre Pal orando. Pára ao me ver. Mikail afasta algumas pessoas.
E o vejo. Igor!
Aproximo-me e toco seu rosto, toco seus lábios, abaixo-me.
Você tem tanto o que me ensinar! Você sabe, sabe que é minha vida.
Perdoe-me, não saberei viver sem você. Como ter vida?
Beijo seus lábios, coloco meus dedos por entre seus cabelos.
Não sei o tempo. Meu amado à minha frente, sem vida.
Não existe mais brilho nos seus olhos, estão fechados. O belo rosto, o
cabelo negro.

Um barulho, algum tumulto. Um arrepio no meu corpo.


A Condessa. Ouço Margit:
O que a trouxe aqui Condessa? Ver se seu plano, se sua emboscada deu
certo?
Eis ai, Igor! Uma coisa que a senhora tem que saber e estar atenta. A
senhora pode ter acabado com a vida dele, mas não dos seus ideais, que
estão aqui em todos nós. E eu, enquanto vida tiver lutarei por tudo que
meu irmão lutou. E, agora, vai mandar matar-me também? Terá muito
trabalho, pois terá que fazer o mesmo com todos que aqui estão. Agora
saia! Não pense que ninguém vai fazer de conta que não sabe que fez
essa barbaridade! Os que estavam na cidade ouviram uma conversa que
veio da sua casa. Que Igor foi morto pelo Movimento, porque precisam de
um herói nacional. Pensa que só a senhora é inteligente, não é
Condessa? Suma dessa casa. Pois sua presença me dá nojo.
A Condessa se aproxima e a esbofeteia. Margit passa a mão no rosto,
vira-se e lhe dá um tapa, que ela balanceia.
Suma. Esta casa não é sua, nem tampouco este homem é seu filho!
Ela fica a olhar Margit, um pouco de sangue escorre pela boca da
Condessa, ela cospe no chão e sai.
O silêncio é total. Margit vem a mim, ficamos caladas a olhar para Igor.

Novembro.

Igor? Você ouviu o que aconteceu a nossa pequena? Ouviu?


Ela andou e caiu. Por alguns segundos, ou minutos. Margit desesperou-se
ao ouvir a esposa de Carl nos contar. Nem ela sabia que era Ivy, foi
pedir ajuda e ao retornar, não a encontrou. Mikail já a tinha pegado.
Sabemos que não há culpados, nem desatentos. Margit solve esta
compreensão. A mim parece que ela sabia que o pai não ficaria muito
tempo aqui conosco. Alguma fada lhe contou. E agora, vocês, estão
juntos.

É intenso o frio.
Daqui da janela vejo a terra já branca, é quase dezembro.
Natasha. Doutor Lajos está aqui.
Ele chega perto e fala com carinho:
O que posso fazer? Não sei mais. Você só tem ossos. Misca falou-me que
não tem comido nada. Natasha, você tem que reagir!
Admiro sua dedicação. Estou bem, fique tranqüilo.

É noite...

Nat?!!!
Entre Margit.
Pensei que estivesse dormindo. Trouxe-lhe leite. Vai tomar sim. A
escola está indo bem.
Fale-me, conte-me como foi seu dia...

Ouço-a. O pensamento vai a ele. Meu sentimento está com ele. Minha alma
também, minha vida...
... e, Elizabeth veio lhe ver, você estava deitada, Natasha? Você está
me escutando?
Ela alisa meus cabelos.
Você não consegue ficar sem pensar nele, não é?
Não... É mais forte que tudo.

Será que ele gostaria de vê-la assim, Nat?


Não, claro que não. Ele, sempre falou que estaríamos juntos. Como? Se
ele não está aqui. Quem pode responder-me? Só conheço um homem que pode
me dar a resposta. Ele não está aqui. Eu não tenho mais vida...
Claro que tem, a escola precisa de você, todos precisamos. Somos você,
eu, Mikail a continuidade dele, da força dele.

Margit, você disse tudo. Existe uma força, a força de Igor. Busco-a e
só encontro nele.

Amanhece.
O que você estará fazendo, Igor?
Como está nossa pequena Ivy?
Natasha.
Bom dia, Mikail.
Seu suco, por favor tome. Logo sua família estará aqui, já pensou nisso?
Claro! Será bom, não é?
Ele toca meu rosto, me alimento só para satisfazê-lo. Eu, realmente,
não sinto fome. O alimento está distante.

À tarde, sonho com ele. Está bonito. Seus cabelos negros; seus olhos
brilham em meio a um sorriso: amo você.
Acordo, olho nosso quarto...
Vou dar um passeio, não neva.
Pego o casaco de pele. Visto-o, estou mesmo magra.
Estão todos na escola. Misca foi levar um bolo até lá. Margit e Mikail
estão em plena atividade. A escola cresce de forma bonita!
O frio não é muito.
Subo o morro. Meu pensamento é nele, no mago.
Por que você fez isso comigo? O certo seria o contrário, você teria a
força para ficar. Tenho certeza. Embora, sempre afirmasse me achar uma
pessoa forte. Eu não sou.
Subo ao lugar onde nos encontramos pela primeira vez. Fiquei sem ar,
seu magnetismo tomou-me. Sorrio, relembrando-o: - É você? Você voltou?
E aqui sentimos nossos corpos. Olho morro abaixo; sorrindo: só aqui?!
Por todo esse vale, por entre bosque, nas águas do Balaton.

Imprevisível, sincero, despojado.


Gestos amplos.
A camisa sempre aberta ao peito, sede do coração. Sentindo um Amor que
os homens comuns não conseguem entender, ou temem sentir.
Em mim trago a certeza que você sabia o que iria acontecer, de certa
forma, você tinha consciência, se não plena, uma parte tinha.
Como foi sua vontade preparar-me. Como estar preparada, Igor? Quando me
abraçou e chorou, na cadeira de balanço... Como estar preparada, Igor?
Tudo de uma vez! Ivy e você. Existe um traçado na vida e eu não
assimilo! Eu não assimilo!
Eu vi o que aconteceu. Eu vi! Era noite, vocês estavam perto da
fogueira. Você estava sentado. Ouviu um barulho e levantou-se. O que
era para assustar, atingiu teu coração.
Por isso entregaste-me? Entregaste-me o que tens de mais sagrado.
E, naquele momento teu coração, chamou por mim, e eu fui.

Como também sei, pois sinto; a Condessa não tinha intenção de tirar tua
vida, e sim te assustar.Todos nós sabemos, e creio, que o sofrimento
dela é por demais terrível. Que o Alto tenha misericórdia. Se querias,
de certa forma, ensinar a Condessa; ela aprendeu, da forma mais
dolorosa.
Em mim: aqui na terra quem vence é o poder?

A receptividade do amor vem da alma, se a alma é eterna o amor também o


é.
Amo você Igor. Amo você. A saudade que tenho de você e Ivy me mantém
viva.
Elizabeth, quase todos os dias, vem me ver.
Ali está nossa árvore. A essência da vida está no sentido que
atribuímos ao nosso sentimento. Meu sentimento é você Igor, e, sem
você, não há vida.
Quem sabe em outra?!!!
Sopra o vento.
Começa a nevar.
Olho adiante, ali estão Ivy e você. Não, vocês não estão ali. Estão lá
no alto.
A minha alma está sozinha, não agüento mais...
No inverno passado, eu daqui de cima dizia que abaixo do monte estão os
mortais, e acima os imortais. É aí onde você e Ivy estão. Eu, aqui a
olhar para cima a dizer: amo você, Igor, amo você, Ivy.
Mais alguns dias deve chegar a família: anya, o pai, Andrei, Belle.
Todos! Menos você. Amo minha família, você sabe. Porém, já não agüento
viver sem você. Lhe falei um dia que meu medo era não estar com você,
eis-me aqui, sem você.
Ajude-me... Eu não agüento mais...
Ontem, vi a moça das nossas taças, ela não estava mais no quarto,
estava num lugar com algumas pessoas vestidas de branco. Pensei que era
o céu: o quarto todo branco, as três pessoas vestidas de branco, e uma
dessas pessoas dizia: - Ela vai viver!
A seu lado, na cabeceira da cama, tenho certeza, que era você. Só que,
desta vez, a emoção tomou conta de mim. E chorei...
Será que um dia, serei essa moça? E você, você não era físico. E sem
você nada tem sentido... Nada...
Poderia responder-me?
Homem, me prometes-te que estaríamos, cumpra!

Cai neve, acho melhor descer.


Cuide de Ivy, fale-lhe que a amo.
Desço devagar. Desço devagar, meu pé engancha...
Mikail? O que aconteceu?
Olho o céu, é quase noite... Tenho frio.
Estou nos braços dele. Acho que me leva para casa, sinto sono.
O que está fazendo, Natasha?!!! Sabe como a encontrei? Quase que
coberta de neve! Meu Deus, o que você quer?!!!
Abraço-o, e falo:
Podia ser você, Mikail, era mais simples. Se fosse você estaríamos
juntos.
Encosto a cabeça no seu ombro.
Minha dama...

Chega a noite.
Abro os olhos, e fecho-os, em seguida.
A voz de doutor Lajos. Está distante.
Não tenho mais o que fazer. Não há mais nada a fazer. É o pulmão, além
de ela estar muito fraca, não quer reagir. Não sabem como me sinto...

Durmo.
É Misca: - Minha menina, por Deus reaja... Você é como uma filha...
O sono é forte e abençoado.
Igor!... É você?!!!
Abro os olhos, Mikail e Margit ao meu lado.
Natasha, você tem que...
Não entendo a frase. Ele não está aqui.

Abro os olhos, amanhece... A claridade, um contorno... Não consigo


enxergar... É ele! Sinto que é ele. Escuto sua respiração, a sua voz:
- o amor que tenho por você é eterno. O sentimento é o mesmo. Eu a
amo, o sentimento não muda, eu a amo.
Igor! Volte!

Abro os olhos e vejo Mikail, falo: - Mikail, cuide de Margit, de


Misca. A escola é necessária. Fale ao pai a anya que os amo... Como amo
vocês...

Durmo.
Acordo com Elizabeth, ela chora, grita, não a entendo, mas falo: -
Elizabeth eu tenho um imenso carinho por você, é tão forte... Margit
minha amiga e irmã... Mikail, Misca... Está tudo tão longe... Misca
faça anya e o pai entender...

Abro os olhos... Abro bem os olhos...


É fim de tarde... Sol... Luz.
É ele! Vejo-o junto à janela, encosta-se nela. Sorrindo, balança a
cabeça... Levanta o braço, chama-me, o gesto conhecido...
Olhos negros que me dão vida chamam-me. E a voz grave e forte, tão
conhecida:

Amada! O amor é eterno, é vivo e igual. Amo você!


Venha a mim. Estais para deixar teu corpo, tudo fica mais registrado
neste momento. Ouça-me: ao acordar lá, não estarei ao teu lado,
busque-me. Ao entregar-te meu coração, dei-te quem sou. E só conheço
alguém que poderá me reconhecer. Por que estaremos juntos sim, no tempo
certo!
É nosso trato, nossa promessa, nosso selo; que não é de agora e não é
daqui. Um trato selado e consagrado. E plenamente vivido! E bem vivido.
Selado por nós e pelos Seres que são amor.
Sempre e sempre, meu sentimento está contigo. Pois amo você, amo você.
Vem, minha vida. Vem!

A vida chega, sorrio e falo:

Estou indo, Igor...Sim, estou indo...


***

O tempo... Tempo... Tempo.

Igor! Onde você está?!!! Igor!


Abro os olhos.
Olho em volta. Onde estou?
Ela acordou! Veja mamãe ela acordou.
Olho para quem fala... Quem fala é minha irmã! Vejo minha mãe e meu pai.
Ouço meu grito ecoar no quarto:
Igor! Onde você está? Venha buscar-me! Igor!
Mamãe fala, meu pai também.
Estou em 1988! Eu estou em 1988... E ele? E ele?

É noite... 1988.
Olho de lado. Numa cama, a meu lado, minha irmã dorme.
Olho o teto do quarto do hospital.
Pneumonia, febre e delírio.
Amanhã terei alta.
O médico perguntou por que eu não queria reagir. Sim, por que?
O porquê eu não sei dizer, nem explicar!
Fecho os olhos. As lágrimas escorrem pelo meu rosto. O que aconteceu
comigo?
A vida não faz sentido...
O mundo é preto-e-branco...
Final de julho.

O que se passa comigo?


Sempre achei a vida a maior maravilha e agora estou a fazer as coisas
mecanicamente.
Ouço, por diversas vezes: Ei! Estou falando com você.
Desculpo-me, a verdade é que o pensamento está longe. Tão longe!

Agosto.

Nunca tive depressão. Lógico, que vivi momentos deprimida. Porém, não
isso que sinto. Corrói-me por dentro.
Penso, tento analisar. Não consigo, vem uma pressão nas têmporas.
Minha amiga esteve aqui. Disse que revi minha ultima encarnação.
Rever quer dizer reviver? E o que vem a ser isso que existe dentro do
meu peito?
Amo minha família!
Mas o sentido da vida se perde.
Decidi: vou fazer análise, terapia de apoio. Seja o que for. Preciso
ser quem sempre fui, ser levada para casa. Casa? Levar-me para casa...
Hungria? Hungria.
Por mais que aja, no meu dia-a-dia é tudo forçado.
Levar-me para casa; meu coração está fechado, fechado e ferido.

Voltei ao médico e ele disse ser stress. Quem dera isso me convencer.
Como seria bom se existisse o efeito físico e eu desconhecesse a causa.
Como lidar com essa absurda causa?
É tanta dor e a olhos vistos não existem motivos.

Tarde de agosto.

Estou na praia, olho o mar.


Hoje - agora, não tenho medo da vida, pois ela está ali e eu aqui...
Uma barreira grossa e alta nos separa.
Se me perguntarem: O que você mais queria?
Sem dúvida responderia: Achar-me.
Achar uma mulher que cultuava um deus lindo, que morava no seu interior.
Achava a vida um reflexo do arco-íris. Que absorvia do silêncio, o
mundo surdo e solitário, era o mundo onde mora a paz, a harmonia e a
compreensão. Que se deslumbrava ao olhar o céu, numa contemplação que a
levaria aos limites do infinito!
Essa mulher deve existir ainda.
Hoje olho em volta, vejo escombros e ruínas. Chega a dúvida e a
incerteza: vale a pena recomeçar?
Onde posso me segurar? No fundo, uma voz: em mim mesma.
Por mais portas que possa bater, por mais amigos que queiram me ajudar.
É dentro de mim que está a solução.
Meu ser sutil morre.
Olho o mar, sinto o tempo... O mago.
A tempestade de anos cai como um raio.
Destruí meu castelo. A ponte que lhe dava acesso ruiu.
Olho o céu - entardece.
Tenho preso em mim um grito: quero você, quero estar com você. A
essência da vida está sem alimento.

Acabo de chegar do médico, ainda com os resultados dos exames nas mãos.
Pois ontem a pressão nas têmporas fez com que caísse no chão do
supermercado.
Os exames não mostram nada. Nada! Ou seja, volta-se a pensar em stress.
O médico passou-me um relaxante. Sinto muito, não quero paliativo.

Início de Setembro.

Amanhã irei a uma terapeuta. Dizem ser ela uma pessoa que acredita na
sensibilidade sensitiva. Vamos ver no que dá.
Sorrio sozinha em pensar o que irei disser-lhe: olha tive uma febre e
fui parar em 1813.
Ontem houve um jantar aqui em casa. E um amigo nosso perguntou-me: o
que sentia com a depressão?
Falei que ao estar no delírio da pneumonia, tive um sonho.
Ao falar do sonho, o sentimento me tomou.
E ele então fez uma pergunta: - O que é mais forte: a depressão ou o
sentimento?
Fiquei o olhá-lo, não soube como lhe responder.
Aqui agora, a pergunta do caro amigo ressoa em mim.
Meu coração dispara! Sinto o sentimento, sinto o sentimento que tenho
por ele.
Respiro esse absurdo sentimento... Suspiro... Sinto-me leve. Muito
leve, como se retirasse uma roupa pesada. Leve, muito leve, como a
voar. Voando rumo ao alimento...
Que é isso?
Que coisa mais tola!
É impossível - acorda!
Foi um sonho...
Deixe-me sonhar!
Por que deixaram-me viver?!!! Não consigo viver assim. Eu não consigo!
É o nada, é o preto-e-branco. O colorido está longe como a vida.

Fui à terapeuta.
Ouvindo-me falar, vejo que da minha pessoa anterior restou muito pouco.
A mulher que sempre estava de bem com a vida, que sentia uma força
interior enorme e inesgotável, que trazia um bom humor constante. Como
gostava de rir! Não sorrio mais... Ficou tudo naquela casa de praia.
Ela falou: - Desde que você chegou aqui, fala em lógica. E quando não
a encontra, o que faz?

Aqui sentada, vendo esta chuva cair, chuva fininha, penso no que ela
falou.
Cai a chuva nesta noite estranha, noite bela. “Quando não encontro o
lógico o que faço?”.
Antes, bem antes eu jogava no tempo. O que eu não entendia, eu jogava
no tempo.
Agora me angustia. Mentalmente tento comandar o que sinto. Porém, o que
sinto é algo enorme, a mente não responde. E por vezes não controla.
A chuva cai sutilmente.
Lentamente exponho minha mão para sentir a chuva...
Fecho os olhos e sinto os leves pingos da chuva. Sinto o contato suave.
Sinto o envolvimento desta estranha noite. Sinto e respiro
conscientemente: o contato e o envolvimento suave...
Retiro a não da chuva - não quero ter consciência deste sentir.

Manhã com sol.

A terapeuta: - Você acha que teve um sonho. Um sonho tão registrado e


nítido, que a deixa assim, como você fala: sem vida. Um mero sonho?

Dentro de mim uma tempestade: há uma quase incontrolável agitação.


Tentei, ontem à noite, lavar meu cérebro, erradicar dele todo o irreal.
Como se fizesse uma lavagem com muita água, sabão e desinfetante.
Lavei figuras e imagens que teimam em se fixar. Fui dormir, na certeza
de ter conseguido...
Mas, ele resistiu. Sobreviveu!
Por que essa teimosia em sobreviver? Por quê?
Seria a glória ter um vislumbre, a clareza de vê-lo. Um segundo, por um
segundo, apenas.
Uma única visão. Assim, quem sabe, eu me acalmaria, eu me acharia.
Vê-lo, como para comprovação da sanidade.
Vê-lo, como para ter a certeza que existe um sentimento, uma real
grandeza de sentimento.
E o irônico é que embora não vendo, o sentimento sobrevive.

Outubro.

A terapeuta:

A sua pressão nas têmporas é o grito de seu eu interior. Por que você
não se permite.
Eu: - permite o quê?

Estou no jardim, é noite.


Olho o céu estrelado, estrelas cintilam, brilho, luz.
Um homem acima dos homens. Meu coração dispara.
Não permito meu sentimento!
É exatamente isso. Embora não consiga sufocá-lo.
Dá para compreender?
Ter uma vida normal.
Amo e como amo os que estão ao meu lado. E ter um sentimento enorme por
um homem que em sonho ou passado ensinou-me, excede... Que tinha uma
luz ampla e abrangente. Que emergiu do meu arquivo interior tão vivo.
Olho as estrelas no céu. Elas estão ali, bem ali. O brilho delas as faz
notadas.
O brilho dele permanece em mim.

A terapeuta:
Qual o nome dele?
Olho para ela. Reluto, mas falo: - Igor! Seu nome é Igor.
Ela: - Muito bem, o que você sente por Igor?

Um grito preso na garganta. Olhei para ela. Peguei minha bolsa e sai.
Um grito preso na garganta. Peguei um táxi e pedi ao motorista para
rodar sem rumo.
Na minha cabeça a voz dela: - O que você sente por Igor?
As lágrimas escorreram e não conseguia controlá-las.
Por que Lu, você me fez essa pergunta? Sem ao menos me preparar!
Creio que passei um bom tempo rodando, até que parei na praia, paguei o
motorista, que, delicadamente, perguntou se eu ficaria bem. Respondi
que sim.
O que você sente por Igor?
O grito preso na garganta: Eu o amo!
Por mais loucura que seja, eu o amo... Mas que sentido tem!

Noite - Linda!

Penso em você, Igor!


Várias frases se soltam: “A essência da vida está no sentido a que
atribuímos nosso sentimento”. “Mesmo que me cale, que fique mudo,
mesmo que morra; ecoará em você meu sentimento, pois a amo”.
Deus! Como queria vê-lo!
Destruí meu castelo, e a ponte que dava acesso ruiu. O castelo...
Lembro-me, recordo-me de que você, Igor, construiu um castelo para nós,
nele está a chama de nosso sentimento... Eu me lembro.
Era assim, não era, Igor?
Escuta-me: Mesmo assim sei andar, e terei força para reconstruir. Vou
reconstruir. Você o construiu, ele ruiu, agora irei reconstruí-lo.
Sabendo, desde de já, que a antiga pedra angular continua firme e
intacta. Esculpida por um artista: tão antigo quanto o tempo. Ela pode
estar empoeirada diante dos escombros, porém, ainda tem luz e sua luz
me chama.
Perdoe-me, o juiz mais algoz sou eu mesma.
Vem a brisa morna. Estou me achando.

Final de Outubro.

A terapeuta: - Se foi um passado? Sua lógica não irá responder.

Amanhece. Não foi sonho.


Sua voz, levantei a ouvi-la. Não o via, só a forte e grave voz:
A vida é de harmonia, desde que estejamos a trilhar o caminho que nos
dispusemos a seguir. Conscientemente seguir.
Qual o meu caminho Igor?
Eu sou o seu caminho; você, o meu. Seu sentimento aponta
conscientemente. Assimile para sua mente entender, pois seu coração
compreende fatos e verdade que excede ao tempo.
O sol nasceu lindo, forte e imperativo.
Assimilar, absorver, entender o sentido. Compreendo o que você falou.
Mergulharei novamente, conscientemente.
É desnudar-se para o intenso mergulho.
O mergulho pode me dar asas para o vôo.
O mergulho não é um ato de coragem, é necessidade.
Como você disse, o sentimento aponta. A trilha: o sentimento

Novembro.

Dou acesso ao que sinto.


A terapeuta ajuda-me, guia-me. E solto-me no que sinto.

É tão forte!
Revejo cena por cena... Por vezes fico igual a um animal ferido, sem
saber, ao certo, o que fazer. Em alguns momentos vou ao banheiro,
sento-me no chão e sai um choro que abafo com a toalha. É um choro de
desespero, sofrido. E essa realidade é dor que ninguém entenderia.
Onde está você? Onde?
Vive em outra dimensão? É isso? Onde?!!!
Por mais que pergunte, minha mente não consegue responder. Mas o meu
sentimento apontara.

Sr. Ernesto telefona-me.


Tenho noticias sobre suas taças. Elas são, realmente, ciganas e usadas
em cerimônia de casamento. Vieram da Hungria, de um lago que tem lá...
Deixe-me ler: Lago Balaton. Chegou ao Brasil na segunda guerra.

A terapeuta.

Você abriu-se a outra dimensão.

Que dimensão?
Não perguntei a ela. Um leve sorriso, começo a conhecê-la.
Uma forte e determinada mulher que tanto me ajuda.

Meu sentimento leva-me conscientemente a 1813. Leva-me consciente, sem


pneumonia ou febre. Dou-me conta que solto-me e vivencio. A verdade, é
que a realidade está onde está minha consciência, meu sentimento
apontou.

Sinto medo, um medo enorme. Pois foge a qualquer parâmetro!


E a mente racional quer parâmetros.
Não sei onde me segurar, exceto na intensa experiência.

Aqui não neva, Igor. O sol é forte.


Vez por outra sinto a brisa morna. É como você a rondar-me.
Corro os olhos em busca de um olhar antigo.
O que vejo é uma cena: por vezes me parece uma casa numa praia, por
vezes me parece uma casa numa montanha. A da praia, a cor do mar é
bela. Há um lugar onde o mar bate nuns rochedos. É amplo o ambiente, há
grama. E sinto que há um rio perto. Na montanha, há floresta. Porem,
perco-me pois parece com a Hungria.

Dezembro.

Sonho com ele.


Tão bonito, cabelos negros ao vento, olhar no horizonte.
Estava todo de branco, calça e camisa.
Os olhos negros, testa franzida, olhando o horizonte.
Ele não me via, e eu o observava.
Um gesto pega um copo, há gelo dentro do copo, ele coloca o dedo
indicador e mexe o gelo.
Toma um pouco da bebida, e começa a andar. Coloca os braços para trás,
rente ao corpo, e fica a bater uma mão na outra.

Igor? Que dimensão é está? Há sede nela?!


E, mesmo num sonho, vê-lo é sentir a vida.

Maço. É maço de 1989.

A casa ficou cheia em dezembro e janeiro. Em fevereiro viajamos.


Por esse período parei a terapia.
Estamos em março. Ao entrar em férias terapêuticas, pensei que tudo
voltaria a ser como antes. Que ilusão!
Mais tristeza nesses meses se apoderou de mim. Ouvia constantemente:
- Seus olhos têm uma tristeza.
Tentava um sorriso e uma desculpa. Pensei que com o tempo tudo passaria.
Ontem na praia, entardecia. Brincava com as crianças.
E eu a pensar: Quem sou eu?
Consciente: Quem sou eu?
Sou uma mulher.
Era a única coisa que eu sabia.
Pensava na vida, vida passageira. Vida de ilusões?
Sim, até dar-me conta de que ela pulsa no meu ser. Vidas em vida, o
sentir dentro de mim.
Rasgo o véu oculto, oculto em um ponto: o sentir de um ser.
O que trago dentro de mim é o que me torna o que sou?
Sim. Não se pode fugir ao sentir. Fui campeã nessa modalidade.
Fizemos um enorme castelo, as crianças e eu. O castelo de areia, que o
mar pouco tempo depois destruiu. Ficamos a olhar. Eu, compadecida. E
alguém falou: - Amanhã vamos voltar e fazer outro?
Interiormente, eu pensei: vale a pena?
Ele abriu os braços e continuou: - É tanta areia. Ela é infinita,
veja!
Sorri para ele e o abracei pensando: é infinito. O que pensei que o
tempo calaria, continua.
Abril.
A terapeuta:

Por que tanto luta? Vida passada? Em que dimensão? Eu lhe pergunto,
quem poderá lhe responder?
Eu:
Eu. Se me solto, fico bem.
Muitas vezes, acho que tive um belo sonho.
Muitas vezes eu sinto este sonho.
Muitas vezes minha mente diz que criei algo platônico.
Muitas vezes, por não respirar o platônico, eu mínguo.
A terapeuta:
Quer um rótulo?
Eu:
Não. Por mais estranha que seja esta realidade, é minha realidade. Não
tenho noção da extensão desta realidade, mas sinto-a.
Ela sorri.
Rendo-lhe graça. Sem sua vital ajuda, com minha mente racional reinado,
pensei estar insana. Com profundo respeito e carinho, sou-lhe
imensamente grata!

3:20 madrugada.

Igor. E ele fala bem junto a mim. Conseguia sentir sua respiração.
Sua lógica traz-me fragilidade. Como lhe parece que sinto suas crises.
Afirmo: eu sinto.
Por que você não aceita? Seja receptiva e aceite: somos quem somos.
Sabe por que não aceita? Porque não tem lógica; e tudo converge para
este ponto: lógica racional. Você não aceita, embora sua alma grite por
mim. Sua lógica dita que não faz sentido, principalmente, quando o
sentido não está presente.
Existe lógica para um sentimento?
Sente o sentimento, sua mente dá acesso, pois é um processo consciente,
mas seu racional não permite.
Ao soltar-se você sente. E vem sua racional impondo: é impossível!
E eu afirmo: ao amor, tudo é possível.
Então surge sonho ou criação. A mente fértil diz que você me criou.
Você rende-me homenagem como um herói que já nasceu morto.
Sinto muito, eu vivo. Sou vivo, não sou herói nem tampouco morto.
Então surge outra possibilidade: eu ser seu eu superior. Sinto muito,
não sou. É nesta dimensão que estamos tendo contato. E se são dois:
você e eu, então você é fantástica! Tem mais que um eu superior!
Posso perguntar a seu racional, por que você se desespera?
Eu afirmo: É porque me quer; porque me ama e sentimento vai além da
lógica.
E vem o desespero: o racional querendo provas e o sentimento querendo
estar, partilhar.
E vem você a dizer: estou louca. A mente racional não consegue enxergar
o além, e eu sou o além. Com isso fica presa.
É evidente que a lógica tem uma grande importância. Mas não esqueça que
são os sentimentos que fazem o homem um ser.
Sem o sentimento, ficando só a lógica, nada mais fica que um poço
escuro, onde só existe o preestabelecido. A mente é um aliado do homem,
o restante são os sentimentos rumando para a compreensão, entendimento.
Sabe o que ocorre?
Seu coração pulsa o sentimento consciente. Há o alerta: é algo sem
sentido; surge o medo, que é válido. Mas é válido ao sentimento
consciente?
E surgem barreiras impostas pela mente. Sua alma grita, e eu vou de
encontro a todas elas. Eu a amo.
Solte-se e sinta. Se porventura hoje é nostalgia, que ela traga a
saudade. Pois a saudade é mais sadia que sua lógica racional.
Olhe o brilho das estrelas. Quem as fez não pensou em lógica. Se assim
o fosse, tudo estaria contido num pedaço de papel. Fizeram para o ser
contemplar tamanha beleza que é o universo. Fez para homens e outros
homens; que, por amor, quem sabe um dia comungar com o eterno.
Solte-se mais... Você não chegou ao nosso trato.
Solte-se; e bendita seja tua saudade, pois ela é tão profunda e tão
antiga, que tua mente não responde.
E aí, pelo sentimento do amor, que é vivo, eu chegarei e tocarei tua
alma.
O que me garante? A única lei que conheço, o amor.
O dia amanhece.
Tomo consciência: o amor precede a vida.

Junho.

Energia
Estás presente como um presente para os homens, para a vida e para além
desta vida.
Energia, que cai, brota, emerge como um instrumento, consciente ou
inconsciente. És a harpa pacifica e serena, como também és um vulcão em
erupção, és uma arma, és amor. És tudo, tudo que quisermos, és um nada
– mudo. Vagas ao leu, barco sem rumo?
Não. Estás em tudo: Nós é que estamos inconscientes ou conscientes, a
ti.
Deleitar-me nas tuas correntes é vida, é só questão de consciência,
pois és a harpa ou a arma.
E em meio ao acordar que te indaguei: o mundo te conhece?
Claro que sim. Eu é que não te conhecia consciente.
Leva-me nas correntezas: luz. Deparo-me: luz.
Agacho-me em profunda e sentida humildade qual fruta que leva a semente
de sua origem.
São meus pensamentos e emoções que irão fazer esse fruto ser doce ou
amargo, nutritivo ou destrutivo.
Energia.
Não nego, existiram momentos que melhor seria não te conhecer. Dormias
tranqüila qual criança no leito da minha vida. Teu acordar foi outrora
suave, como um bebê, embora fosse imprevisível. Agora é diferente,
geras uma força que excede a tudo que já senti. Deparo-me com uma
verdade se acaso pára a energia no racional, no ser pensante, a força
fica qual redemoinho a gerar emoções.
O que exiges, energia?
Não é mais consciência do foi, é como um pulsar à frente.
- Meu ser pensante é tão difícil dizer-te, fazer-te entender... Não há
como deter, se deténs ou reténs a energia é o mesmo que enlouquecer.
Entendes? Ficar com a energia em ti tece tantos pensamentos e esses
pensamentos trazem tantas emoções: é o redemoinho... E tenho que
seguir.
És um aliado, ser pensante, um magnífico aliado, pois tudo corre
contigo acordado, consciente. Renda-se à energia que nos leva, ainda
não sei onde.
Indaga-me, ser pensante, o tempo inteiro e puxas as emoções. Ah ser
pensante, renda-se e deixe que o sentimento inundado de energia siga a
trilha, e que sintamo-nos conscientes. Queres um exemplo: ao acordar,
se existe o indagar, tece-se a rede, as emoções contraditórias. Ao
acordar, se simplesmente sentimos a vida, tudo é vida. É neste ponto em
que excede-se a energia, como uma expansão, dando-nos força que leva-
nos à trilha como para um reino. E ao meu ver, no reino não existe o
impossível, existe vida que pulsa e chama.
E lembro-me: quando energia não te conhecia, agia como criança sem
muito raciocinar, me levaste e relutei em acreditar. Fugi como
adolescente querendo ser auto-suficiente negando o sentir e a usar
fórmulas, a lógica reinou e levou-me ao profundo abismo, ao fundo do
poço e que só vi a claridade da luz acima, quando permiti o sentimento
soltar-se, que sedento buscava nutrir-se. Que me fez ver consciente que
o sentimento é eterno.
Nivelada simplesmente sou. Vejo que as emoções vão e voltam, e o
sentimento permanece. Meu ser e sentimento permanecem, pois são eternos.
Hoje depois do stress, sete quilos perdidos e paranóias passadas, vejo
que tenho que seguir a trilha, pois existe o pulsar à frente. Teimar,
reter-me ao ser pensante racional, prendo o sentimento.
E todo fica o aprendizado, que em meio à terrível guerra, surgiu,
renasceu meu sentimento que dá-me luz. Estar de acordo com essa
sinfonia é sentir o perpetuar, onde o colorido emanado é sutil, é vida,
e vida não é para ser entendida e sim ser sentida, simplesmente vida.

Agosto.

A terapeuta:

Fale-me da morte dele.


Eu:
É necessário, agora?
A terapeuta:
Não, mas toda vez que chegamos neste ponto, você muda de assunto. Está
aí dentro, quando quiser falar. Acho que está pronta.

Noite de lua cheia.

O perfume de jasmim. Estou no jardim. Olho a lua, as estrelas.


Lua e sol, Sol e lua: vida!
Separar um do outro é refazer o dia. Existe o interesse em refazer o
dia?!!!

Aprendi viver sem estar ali. Mas minha mente pergunta para que saber
dali?
Para que recordar?
Reviver. Para quê?
Provou-me que o que sinto, permanece. Para quê?
Homem, para que reviver?
Setembro.
Praia.

Estou suada de tanto brincar com meus filhos.


Sinto-me solta e leve, sorrindo à toa, sentindo a vida em harmonia.
Sento-me na areia para descansar.
Mar sereno, vejo uma jangada de pescadores chegando.
Na minha pesca interior retornei com o sentimento vivo e transbordante.
Difícil a minha mente racional de hoje, desta vida, entender o que ela
não viveu.
Difícil para ela decodificar o sentir: como querer tocar o que ela não
conhece?
O que importa é o que sinto. O que sinto tornou-me harmonia: um amor
vivo com os que convivo.

Da jangada dois pescadores pulam para puxá-la. Vejo os cestos de pesca.


Não sei o que eles pescaram. Sei o que eu pesquei.
O sentimento no meu coração, sentindo-o.
Da jangada, um pescador entrega o cesto.
Meu coração batendo rápido, sentimento palpável.
Não há como dizer em palavras. Um gesto, um ato.
O ato, talvez, deva-se à anterior aceitação.
O gesto - com a mão no peito, a sede do sentimento: envio.
Segue a vontade do meu sentimento, energia, que gera a força: envio.
Abre-se o tempo. Quem impera é o sentimento. Entrego meu sentimento.
Meu coração pulsa alimentado.
Pulsa vida no meu peito.
O gesto: com a mão no coração a estendo ao infinito, esteja onde
estiver sentirá.
O gesto é: sentimento entregue.
Sorrio.
Sorrio das minhas lutas que travei comigo mesma, e as armas que usei.
Elas, as armas, ficaram atrás. O sentimento impera e imperou. E mesmo
diante das teimas e dores, apontou o marco. A ponta, o marco. E sei,
pois sinto que de alguma forma ele sente.
O gesto é sentimento entregue.

A terapeuta:

Como você lida com esta realidade?


Eu:
Antes tinha uma vida tão “normal”. Aprendi a viver com esta estanha
realidade, demorei até administrar isso no dia-a-dia. É uma realidade
onde cabem todos e tudo. Mas, o que eu sou está totalmente ligada a
ele. Não há como negar. Seja o que for, estou no que eu sou, quando
sinto.
No stress, depressão até sair tudo o foi, eu não queria sair dali, dali
1813. Acordei, estou aqui, mas o aqui só é inteiro e pleno se sinto
esta minha realidade. O normal, como enquadrava já me era diferente,
apenas não tinha mergulhado em mim, através do que sinto.

Sonho.
Um senhor de cabelos brancos, olhos amendoados, magro.
Falava-me: - Em tudo existe um propósito. O sentimento a levou ao
passado.
Entenda-me: consciência é vida – sentimento traz a vontade.
O homem vem à vida, muitas vezes, sem vida. Os sentidos leva-o a ter
desejos. Desejos surgidos da emoção que é o ter. Emoções = ter,
“experimentar”. Em alguns a vontade traz a vida. Sentimento e
consciência = ser.
Perguntei-lhe: - Estou morrendo?
Ele: - Não, se o fosse, para que ter consciência?
Eu: - Uma morte consciente.
Ele: - Já não o foi? No passado. E o que aprendeu, que o sentimento é
eterno, e o que mais? Aonde o sentimento a leva?
Eu: - Ao passado, e a algum lugar... Outra dimensão.
Ele: - Você aceita um passado, claro é imutável, e o hoje?
Eu: - Eu não estou me sentindo bem...
Ele: - Isso passa, pois é emoção. Seu sentimento permanece. Por quê?
Quando se recorda “algo” é para uma utilidade no presente. Você via
Igor sincero, aberto, receptivo. Estando ele ali, consciente, ele
“usaria” sua pessoa? Sejamos razoáveis! Uso, nesse sentido, é
manipulação, quem age consciente, não manipula. Ele ensina como operar
a “força”, que é a vontade. Ele poderia ensinar-lhe sem o sentimento?
Não! Ele poderia ter o sentimento e não ensinar-lhe? Sim!
Ele deu o ensinamento para continuar.
E compreenda-me: as perdas foram pesos para o aqui estar.

Então e o vi!.
O olhar mais belo do universo, o meio sorriso, ele falou:
Rendo minha verdade a tua vontade.
Acordei.

A terapeuta:

Qual a sua vontade?

Novembro

A vontade vinda do sentimento se fortalece. Cria asas, voa.


A trilha, a mesma.
Devido ao sentimento, o pensamento é: queria aterrissar em tua praia.
Lua cheia, prestes a nascer.
Queria arrancar de mim a ética e ser simplesmente mulher.
Queria arrancar de mim os vínculos e simplesmente ser.
Queria arrancar de mim as obrigações e responsabilidades e simplesmente
ser mulher.
Uma mulher solta, uma mulher...
Chegar à frente da lua e sentir simplesmente uma mulher.
Solta, por um único e antigo motivo.
Chegar à frente da lua, que nasce no mar, em noite estrelada, e ser
simplesmente mulher.
Solta a você.
Ver a noite chegar e partir.
Mulher simplesmente mulher, que acima da ética, dos vínculos,
obrigações e responsabilidade é mulher.
Que optou, não de hoje, de ser sua.
Como mulher solta, olhá-lo frente a frente. Acima da vida e do tempo:
estar com você.
Correr livremente, correr sentido o vento, correr a você.
Mergulhar, solta na água, mergulhar e emergir a você.
Voar céu afora, voar ao infinito e chegar a você.
A origem do porquê está acima, foge à razão. A razão longe da vista,
longe do tato.
Porém, ao sentir a chama antiga, chama, entona, apela: você.
O sentido percorre o ambiente, o sentido foge dos cinco e ruma ao
infinito, até você.
Qual luz que não se apaga: vida, morte, vida, a luz na memória não
limita, transborda.
E não há grades ou algemas, não há vida, nem tempo que cale o
sentimento.
Podem passar mil anos, pois a vida e o tempo encontram sentido quando
sinto o que sinto por você. Aí emerge a força, força estabelece o
padrão antigo:
Olhos que brilham;
Cabelo ao vento.
Meio sorriso, você.
Meu grito vindo da alma, com uma força acima da humana, ecoa ao
infinito: Quero estar com você.
E isso é tão vivo, e é vida, que tenho a certeza é sentido por você.
E essa força foge a qualquer padrão quando chega ao olhar, elimina os
obstáculos e as barreiras; quando é emitida, sua nota está acima dos
ouvidos mortais.
Aí a ferida não dói mais. O sangue que escorre não impressiona mais.
Só existe a vontade do meu sentimento: estar com você.
E ao afirmar, não há prisão, nem algemas, nem tempo, nem vida ao que
sinto.
Não há pedra, alicerce que empurre para dentro o que teima em voar.
Embora venha o desespero que traz a agonia de não conseguir chegar.
E por vezes é a bendita paz que traz a esperança do “logo mais”.
E por vezes é um sonho que faz com que veja você. E por vezes é um
enorme agradecer: estou conseguindo.
Como vê ou sente, isto é tudo que sinto. Porém, o que realmente
importa, afora a impotência e limitação, é o que sinto por você. Afora
todas, todas as palavras, o que importa, o que realmente importa é
chegar-me, mais e mais a você.
Se para isso é necessário operar a força, ter responsabilidade. Tenha
a certeza que o farei pelo antigo e óbvio motivo: você.
E boquiaberta vejo, sinto a imensidão que trago comigo: é eterno,
exigente, profundo...
Mesmo assim um amor de mulher.

A terapeuta:

Um trato ou selo. Como você compreende?


Eu:
Compreendo que tenho que sempre e sempre estar com a luz do sentimento
acesa, como se fosse precisar. Tenho consciência disso. Assim nos
dispusemos a estar, estar dentro do que somos. Assim eu estou,
realizando minha parte. A nossa história não acabou.

Março 1990

Ando na praia. O mar está sereno.


Respiro o sentimento.
Quantas vezes vim até aqui, chamado por você.
Creio que o mar nos aproxima ou a energia: aproxima um povo de uma
época, que acreditou numa comunidade produtiva, na conscientização do
potencial humano. E principalmente no sentimento!
Um sentimento livre e solto.
Não sei o será. Pois o “será” será o que tem que ser. Desde que eu
esteja no que sou.

Antes eu não tinha palavras para explicar o que sentia, o que se passou
comigo.
É interessante como complico todo.
A verdade é: eu vivi tudo isso. E rendo-me a isso.
Sem meias palavras: eu vivi.
Convivi com um homem que era puro sentimento.
Dentro da realidade daqui, um homem acima dos homens.
Sem mistificação, e sim sua plena consciência do amor.
Mostrou-me queAo ao render-seme ao sentimento:, mostro-me que o amor e
a vida são unas. E só há sentido, quando estou a sentir.
O entregar-me seu coração deu-me acesso ao infinito.
Se este homem está em terra adormecido, inconsciente.
Eu não sei.
Se este homem está acordado, sem estar na terra.
Eu não sei.
Eu estou acordada, consciente em terra, referente ao que vivemos.
Trago em mim o sentimento. E nele não há o tempo e a distância.

Porém em terra, o tempo e a distância existem.


Aqui o tempo passa, porém comprova que o que sinto permanece.
Aqui há distância, porem, ao sentir meu sentimento, entro numa sintonia
única e sinto que de alguma maneira chego a ele.

Por vezes, ouço longe: Vem!


E de tão longe, eu não sei qual a estrada que devo tomar.
Mesmo sabendo que meu caminho é ele.
E que cedo ou tarde, vou estar.
Sei que posso voar.
Ontem, eram 19:40.
Cavalgando, como na Hungria.
Cavalgando na luz do sentimento.
Eu vi um belo lugar.
Hoje, agora, não me importa se é física ou não.
Dentro de mim eu afirmava o sentir:
Não importa o tempo, pois tenho a certeza do que trago.
Seja na vida ou na morte; eu irei estar.
Seja quem for, esteja onde estiver; eu irei estar.
Céu ou terra, tudo se converge no coração.
Há um trato feito dentro da lei maior: amor.
O que me garante? O que sinto.

Ouvi longe, ouvi a forte e grave voz:


Vida! Eu estou chamando, entoando por você. Que fique claro: no tempo
certo eu chegarei e estarei com você.
Permita-me...