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FILOSOFIA

Domingos Faria
Luís Veríssimo

03481832

De acordo com
Aprendizagens Essenciais
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250 questões
com resposta detalhada

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e respostas online

lpYí EDUCAÇAO
Introdução

Caro (a) estudante

Encontras-te neste momento a preparar-te para o Exame Nacional da disciplina de


Filosofia de acordo com as novas Aprendizagens Essenciais. Este üpo de prova testa a tua
capacidade de demonstrar competências num determinado período de tempo. Para seres
bem-sucedido apresentamos te aqui um ginásio mental para praticares as tuas competên
cios filosóficas, no qual podes rever com o maior rigor e clareza tudo o que estudaste nas
aulas de Filosofia, bem como podes aplicar esses conhecimentos ao longo de uma serie
de exercícios propostos e confrontar as tuas respostas com as soluções apresentadas.

A obra encontra-se estruturada em duas partes principais. A primeira tem uma revisão
dos conteúdos lecionados de acordo com as Aprendizagens Essenciais. Cada um dos
capítulos desta primeiro parte inclui a apresentaçao dos conteúdos fiiosoficos de um modo
claro e rigoroso, um esquema organizador um resumo dos conteúdos apresentados,
uma lista de palavras-chave que destaca os principais conceitos explorados ao longo do
capitulo, e uma ficha formativa para cada unidade temática com diferentes tipologias de
questões A estrutura gerai das fichas formativas e a seguinte Grupo I. com questões de
escolha múltipla; Grupo II, com itens de construção de resposta restrita, e Grupo III. com
itens de construção de resposta desenvolvimento.

Para responderes as questões de escolha míiitipia deves começar por ler atentamente
o enunciado da questão e tentar excluir as alternativas que estejam claramente erradas.
Assim, ficas com mais tempo para te debruçares sobre as restantes alternativas, por forma
a encontrares a solução do exercício.

As questões do Grupo II sao, geia Imente, questões Interpretativas. que testam a tua
compreensão dos problemas, teorias e argumentos estudados. Deves, por isso, demons­
trar inequivocamente que compreendes aquilo que é perguntado, sem te alongares em
dissertações vagas em torno do assunto da questão

Por fim, no que diz respeito as questões de desenvolvimento, importa salientar que,
embora estas questões apelem, quase sempre, a uma tomada de posição pessoal acerca
de um determinado problema filosoflco, a sua avaliaçao nao recai sobre a posição de­
fendida, mas sim sobre a forma como são articuladas razões para fundamentar a mesma.
Isto significa que, ao responderes a este tipo de perguntas, deves sempre começar por
demonstrar que compreendes qual é o problema filosófico em causa e, em seguida, de­
ves apresentar as pnncipais posiçoes em confronto em reiaçao ao mesmo. Indicando qual
delas subscreves. Por último, deves tentar argumentar com rigor a favor da tua perspetiva
e contra as perspetivas a que te opões.

A segunda parte deste livro conta com três provas-modelo e as respetivas soluções.

Online encontras disponível um teste diagnostico, um simulador de exames, as ultimas


provas oficiais de exame e os respetivos cnterios de classiticaçao. uma calculadora de
tabelas de verdade e a possibilidade de esclareceres alguma duvida que tenhas com os
Autores desta obra
Bom trabalho e boa sortel
Os Autores
ÍNDICE A açao humana e os valores
4. Determinismo e liberdade na ação humana 72
4.1 O problema da compatibilidade 76
Introdução___________________ i A resposta mcompatiDilista 76
índice remissivo 4 A resposta compatibillsta 78
4.2 O problema tradicional 83
Ferramentas do trabalho filosófico Dctcrmmrsmo moderado 83
Llberxjsmo 83
1. Abordagem introdutória a filosofia
Determinismo radical 85
e ao filosofar 8
11 O que é a filosofia? 8 Esquematizando 88
Resumo 89
1.2 As questões da filosofia 9
Conceitos 90
Competências relativos a problemas 13
Questões propostas 91
Competências rdauvas a conceitos 14
13 Teses e argumentos, validade, verdade 5. A dimensão pessoal e social da ética 95
e solidez 16 5.1 Não cognitivismo 99
Competências relativas a teses 20
5.2 CognitJvIsmo 100
Competências rdalrvns a argumentos 23
Subjetrvismo 100
Resumo 31 Criticas ao subjetrvnmo 101
Conceitos 31 Relafivismo 103
Quostóes propostas 32 Críticas ao relat/vismo 105
Objetrvivno 106
2. Lógica formal 35
Criticas ao objetrvismo 107
2.1 Lógica preposicional clássica 35
Esquematizando 107
2.2 Prncipais formas de inferência validas 49 Resumo 108
2.3 Principais faladas formais 50 Conceitos 109
Esquematizando 51 Questões propostas 110
Resumo 52 6. A necessidade de fundamentação da moral
Conceitos 53 - análise comparativa de duas perspetivas
Questões resolvidas e questões propostas 54 filosóficas 114
O problema do criteno etico
3. Lógica informal 58 da iroralidade de uma ação 114
3.1 Argumentos não dedutivos 58 6.1 O utilrtarismo de Jobn Stuart Mlll 114
Argumentos indutivos 58 O principio da ufildade (ou principio
Argumentos por analogia 59 da maior felicidade) 115
Argumentos de autoridade 61 Hcdomsmo 118
Consequencialismo: intenção
3.2 Falácias informais 63 e consequências 121
PetKzao de pnncipio 63 Pnncípios secundários: t> inexistência
Falso dilema 63 dc regras morais absolutas 121
Falsa relação causal 64 Criticas a etica de Mill 123
A<J nomrnem 64
6.2 A ética deontológica
Ad popufam 65
do Immânuel Kant 128
Apelo a ionorância 65
A boa vontade 128
Boneco de palha 65
Agir cm conformidade com o dever
Derrapagem__________________________ 66 e agir por dever 130
Resumo 66 Máxima, impeiativo hipotético
e imperativo categórico 133
Conceitos 67
Deontologia: o dever c a lei moral 134
Esquematizando 68 Heteronomia e autonomia da vontade 142
Questões propostas 69 Criticas a etica de Immanuel Kant 143
Esquematizando 144
Resumo 145
Conceitos 147
Questões propostas 148
7. O problema da Justiça social 151 Dimensões da açao humana
O probema da organização ce uma e dos valores
sociedade justa 151
10. A dimensão estética - a criação artística
7.1 A teoria da justiça de John Rawis 151 e a obra de arte 228
Os princípios d a justiça 152 10.1 O problema da definição da arte 228
|!) Argumento do eoud íbrlo reflettdo 154
10.2 Teorias essencialistas: â arte como
|l| Argumento da posição originai 155
representação, a arte como expressão
7.2 Crftico libertarista de Robert Nozick 158 e a arte como forma 229
A ane como representação 229
7-3 Crrtica comumtansta
de Michaei Sandel 160 Críticos a teoria representadonista 232
A arte como expressão 232
Esquematizando 161
Criticas à teoria expressivista 234
Resumo 162
A ade como forma 236
Conceitos 163
Cntcas a teoria formafcsta 239
Questões propostas 164
10 3 Teorias nõo essencialrstas. a teoria
institucional e a teoria histórica 241
O conhecimento e a racionalidade A teoria institucional da arte 241
científica e filosófica Cnticas a teoria institucional da arte 244
8, Analise comparatrva de duas teorias A teoria histórica da arte 245
explicativas do conhecimento 158 Cnticas a teoria histórica da arte 247
Tipos de conhecimento 168
Esquematizando 249
A definição tripartida de conhecimento 169
Resumo 250
8.1 O problema da possibilidade Conceitos 252
do conhecimento 171
Questões propostas 253
O desafio cético 171
A resposta fundaciomsta 172 11 A dimensão rei ti osa 256
Descartei a mpoita racionaiistô 174 11.1 O problema da existência de Deus 257
Hume n resposta empirbto 184 O conceito teísta de Deus 257
Esquematizando 193 11.2 Argumentos sobre o existência
Resumo 194 de Deus 257
Conceitos 197 Argumento cosmologico 257
Questões propostas 198 Argumento teleologlco 259
Argumento ontológico 263
9. O estatuto do conhecimento cientifico 201 Argumento do mal para a discussão
9.1 O problema da demarcação da existene a de Deus 265
do conhecimento c ientifico 202
11.3 OTidersmode Pascal 271
Cnteno da vcnticabilidade 202
Objeções ao criterlo da verincabitodade 203 Esquematizando 275
Critério de faKlfkzatx iidade 2 04 Resumo 278
Objeções «o Critriio de falsrficabilidàde 206 Concertos 278
Questões propostas 275
9.2 Problema do método cientifico 207
Resposta indutrvrsta 207
Provas-modelo
Objeções ã tesposia indutivlsia 208
Prova-modelo 1 283
Resposta falsfficacionista 210
prova-modeio 2 200
Objeções ã resposta talsificacionista 212
Prova-modelo 3 282
9.3 Problema da evolução da ciência 213
A perspetiva de Popper 213 Soluções 29S
A perspetiva de Kuhn 214
9.4 Problema da objetividade da ciência 217
Popper sobre a objetividade
Kuhn sobre a objetividade
217
218
A auLadigital
Discussão das posições de Popper e Kuhn 219
✓ TESTE DIAGNÓSTICO
Esquematizando 220
✓ SIMULADOR DE EXAMES
Resumo 221
✓ EXAMES E RESOLUÇÕES
Conceitos 223
Questões propostas 224 Acesso em www leyaeducacao com
índice remissivo

A Conexão necessana 187 Empinsmo "87

Apnori9 Conhecimento 168 169. 171 Epistemologia 11.168

Acaso 259 Conhecimento apostenort 173 Estimulação de emoçoes 233

Ações conforme o dever 130 Conhecimento a priorl 173 Etlca 114. 128

Ações contrarias ao dever 30 Conhecimento cicntrfico 202 Etica normativa 114


Conhecimento por contacto "68 Expressão de emoções 232
Ações por dever 131,133
Conhecimento pratico 168
Acordo hipotético 156 F
Conhecimento pr□posicionai 168
Adbomínem 64 Falacia da aflrmaçao da
Adpoputum 65 Conjeturas e refutações 210 211 consequente 50
Conjunção constante 188 Falacia da amostra nao
Agregacionlsmo 121
Consequenciallsmo 121 representativa 69
Âmbito 40
Contraposição 50 Falácia da falsa analogia 60-61
Apelo a iqnorancla 65
Contratuallsmo 152 Falacia da generalização
Argumento 23-24 preciprtada 59
Corroboração 212
Argumentos de autoridade 61 Falácia da negação da
Cosmologlco 257 antecedente 51
Argumentos dedutivos 35
Crença 1f>9 Falácia de apelo ilegítimo
Argumentos indutivos
|de generalização e previsão) 58 Crenças baslcas 172 a autoridade 62

Argumentos não dedutivos 58 Crenças não básicas 172 Falácia informal 63

Argumentos por analogia 59 Crise científica 214 215 Falácia intencional 236

Arte 228.230. 23l 232. 236. 242 Cnterio etico da moralidade Falácias formais 50
245 de uma ação '14 Falsa relação causal 64
Artefacto 242 Falsifkacionismo 210
D
Atribuição de estatuto 242 Falsificado 204
Dedução 211-212
Autonomia da vontade 142 Falsificavel 204
Definição circular *"
Falso dilema 63
Definição demasiado
B abrangente 14 Fideismo 271
Bens sociais primários '56 Forma significante 236-237
Definição demasiado restrita 15
Boa vontade 128-129.135 Formas de encarar a arte 247
Definição explicita 14
Boneco de palha 65-66 Funções de verdade 42-44
Deísmo 257
Demarcaçao 202 Fundaciomsmo 172
c
Deontologia 134
Casos de Frankfurt 81 G
Derrapagem 66
Causa 257 Graus de falsificabilklade 205
Desígnio 259
Ceticismo 171
Determinismo 73 H
Ciência extraordinarta 214 215
Determinismo moderado 75-76. 83 Hedonismo 18 -’19
Ciência normal 214-215
Determinismo radical 75 76, 85 Heteronomia da vontade 142
Cogito 177
Dever 129-130.134
Cognitivismo 99-100 I
Deveres Imperfeitos 40 141
Compatibilismo 75-76. 81 Ideias 184
Deveres perfeitos 140-141
Comunrtarlsmo !60 Ideias adventícias 178
Dignidade humana 142’
Conceção padronizada Ideias complexas 184
Dupla negação 50
da justiça 158 Ideias factícias 78
Duvida metódica 74
Condição necessária 14.19 Ideias matas 178
Condição suficiente 14,19 E Ideias simples 184
Conetivas 31 Emoção estetica 236-237 Igualrtarismo 151
ÍNDICE REMISSIVO

Imperativo categórico 133-134.142 O Regra mojom/n ’54


Imperativo hipotético ' 33-134 Objetividade 217-218 Regras morais absolutas 12’ 12 2
Impressões 184 Objetivismo 99,106 Relações de ideias 18S
Incomensurabilidade ?1G Obra de arte no sentido Relatlvismo 99,103
Incompatiblllsmo 75 76 classlftcativo 228, 242 243 Representação 229. 231
Indução 207.208 Obra de arte no sentido Responsabilidade moral ’2
Indutivismo 207 valoratívo 228. 244
Revolução científica 214-215
Inferências validas 49 Oficio 233

Inspetores de circunstâncias 47 Omnipotência 257 s


Instituição social 242 243 Omnisciência 257 Senso comum 2Ü2
Ontologlco 263 Silogismo disjuntivo 49
J
Operadores proposicionais 3l Silogismo hipotético 49
Juízo 95-96
Solidez 26
Juízos de facto 95. 97 p Subjetividade 218
Juízos de valor 96-97 Panteísmo 257
Subjetivismo -i9-1(K i
Juízos morais 97 Paradigma 214
Justiça como equidade 152 Perceções 184 T
Justiça social 161 Perfeição moral 269 Tabelas de verdade 43, 46
Justificação 169-170
Petição de principio 63 Teísmo 257
L Posição original 155-156 Telcologico 259
Lei moral 134 Possibilidades alternativas 79.81 Teodicela 269
Leis de De Morgan 49 Prazeres inferiores ,49 Teoria expressrvista 232
Libertarlsmo 151 Prazeres superiores 119 Teoria formallsta 236
Libertismo 75-76.83 Pre-cléncia 214-215 Teoria institucional 242
Livre-arbltrio 72 Principio da copia 184 Teoria representacionlsta 231
Lógica formal 38 Principio da diferença 153 Teorias da obrigação 114
Lotaria natural 155 Principio da liberdade igual 153 Teorias do valor 114
Lotaria social 154 Principio da oportunidade Justa Teorias essencinlistas 228
153
Teorias nao essencialistas 229
M Principio da utilidade 115. 117-118
Teste da universalização I •6
Mal gratuito 266. 26? Principio ublitansta 157
Mal Justificado 2 66 Progresso cientifico 213. 2)6 u
Mal moral 266
Proposição 6 Utilitarismo 114,121
Mal natural 26’
Propriedades extrínsecas
Manifestação de emoções 234 e relacionais 241 V
Máxima 133 Propriedades Intrínsecas Validade 25-26.46
Maximamente perfeito 264 e manifestas 228.241
Valoi Instrumental 114
Método cientifico 207 Valor intrínseco H4.128
Q
Metodologia do equilíbrio
Variavels de formula 38 37
reflebdo ’64 Questões de facto 196
Variáveis proposicionais 36-37
Modt/s poncns 49-50
Moduí. tolten* 49 51
R Verdade 18,169
Racionalidade epistemlea 271 Verificado 202-203
Mundo da arte 241.243
Racionalidade prudencial 271. 273 Verificável 202-203
N Racional ismo 172,178,178 Verosimilhança 214
Negação 27-28. 36.43 Refutação 30 Veu de ignorância 156
Ferramentas
do Trabalho Filosófico

i. Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar

2. Lógico formal
Ferramentas do Trabalho Filosófico

1. Abordagem introdutória à filosofia e ao filosofar

1.10 que é a filosofia


O que e a filosofia? Uma formo bastante diretn de responder a esta pergunta e dizer
que a filosofia é o que os filósofos fazem e indicar alguns exemplos da história da filosofia,
como Sócrates, Piatao. Aristóteles, Santo Agostinho, Tomás de Aquino. Descartes. Hume.
Kant. etc. Contudo, esta resposta nao e particuiarmente esclarecedora.

Outra possibilidade é recorrer a etimologia da palavra «filosofia», ou seja, procurai de­


terminar o seu significado investigando a sua origem e a forma como esta e composta
a partir de outras palavras A este respeito, podemos d zer que a palavra «filosofia» tem
origem grega e e composta pelas palavras «phitia* e «soph/o», que significam respetiva­
mente amor (amizade ou desejo) e sabedotla. Assim, atendendo a sua origem etimológica
chegamos a conclusão que a filosofia « o amor da sabedoria No entanto, esta abor­
dagem também não é inteiramente satisfatória, pois não permite distinguir a filosofia de
outras atividades que envolvem a procura de algum tipo de sabedor a ou conhecimento,
como a física, a química, a biologia, a psicologia, a economia, a matemática, etc.

Uma outra forma bastante comum de caracterizar um determinado domin o do saber e


indicar qual é o seu objeto de estudo, isto é, o que é que estuda, e qual é o seu método de
investigação. Isto ê. como estuda. A este respeito podemos dizer que o objeto de estudo da
filosofia e um conjunto de problemas fundamentais acerca da natureza da realidade, do co­
nhecimento e do valor e seu método é, sobretudo, a discussão critica e a argumentação.

Assim, podemos caracterizar a filosofia como sendo uma atividade conceptual e crítica
Dizer que a filosofia e uma atrvidade conceptual e apenas dizer que esta se ocupa de
problemas conceptuais, Isto é, que se dedica a analisar alguns conceitos fundamentais
que utilizamos no nosso dia a dia. na matcmatica c nas outras ciências, sem pensar multo
sobre eles e sem nos interrogarmos acerca do seu significado mais profundo - como os
corcertos de Deus, liberdade, necessidade, possibil dade, numero, conhecimento, justifi­
cação, Justiça, etc. Por seu turno, afirmar que a filosofia é uma atividade crítica significa
simplesmente que pata fazer filosofia devemos procurar avaliar de fôrma rigorosa e im­
parcial as razões que temos para pensar desta ou daquela maneira Deste modo, para
fazermos filosofia devemos ser capazes de formular problemas analisar conceitos funda­
mentais. propor teorias (respostas para os problemas de que nos ocupamos), argumentar
a favor dessas teorias e imaginar possíveis objeções reiativamcnte as mesmas

Sécutoi v a rv a.C. Século rv a.c. Séculot rv è v


1. Abordagem Introdutória ■ filosofia e ao filosofar

1.2 As questões da filosofia


Como acabamos de ver, o filosofia ocupa-se de problemas conceptuais

Assim, alguns problemas filosóficos fundamentais consistem no esclarecimento de


conceitos. Como, por exemplo:

• O que è a realidade? • O que é uma evidência?

♦ O que é o consciência? • O que é a justiça?

♦ O que e a causalidade? • O que ê a coragem?

* O que e um numero’ • O que é a arte’

• O que é a verdade? • O que é a beleza?

• O que é o conhecimento? ■ etc.

Outros problemas filosoficos são acerca das relações entre conceitos Como par
exemplo.

- A mente e diferente do corpo?

• A existência de Deus e compatível com a existência de mal no mundo’

» Pode uma vida humana ter objetiva mente sentido?

- Podem haver guerras Justas?

• O aborto ê moralmente permissível?

■ etc.

Os problemas conceptuais de que se ocupa a filosofia nao sao problemas empíricos,


isto é, não se resolvem com base na observação e na experiência — tal como acontece com
os problemas da ciência - mas sim atiaves do pensamento, apenas - tal como acontece
com os problemas da matemática. No entanto, ao contrário dos problemas da matemáti­
ca. os problemas da filosofia nao se resolvem com base em cálculos ou métodos formais
de prova. E, ao contrário das c encias empíricas, a filosofia e considerada uma atividade
o prlorl, isto é, os problemas de que se ocupa podem ser resolvidos apenas pelo pensa­
mento, através de uma reflexão cuidada acerca da forma como as corsas sao. da rorma
como as corsos podem ser e da forma como estas devem ser,

Tomás dr Aqui no Dcscodes Humr Kant

9
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Tal como na ciência existem vánas disciplinas cientificas (como, por exemplo a física,
a química, a biologia. etc.), também no filosofia existem diferentes disciplinas fliosoflcas
consoante o conjunto especifico de problemas de que se ocupam, como, por exemplo: a
metafísica, a eplstemologla. a axlologla a ética, a filosofia da arte, a lógica, etc. Em se­
guida, veremos do forma mais aprofundada em que consistem algumas destas disc plmas
filosóficas e as questões de que se ocupam

Metafísica
A metafísica é a disciplina filosófica que se ocuoa dos problemas fundamentais acerca
da natureza da realidade O problema centra da metafísica pode ser formulado nos se­
guintes termos: <O que e que há?*, ou seja, os filosofos que se dedicam á metafísica pro­
curam. entre outras coisas, determinar que tipos de coisas existem, de que forma existem
e por que razao existem.

Aqui ficam alguns exemplos de problemas de que se ocupa a metafísica:

1. A maioria de nós acredita que o mundo ê composto por coisas que existem no es­
paço e no tempo, como pedras, plantas e planetas, mas o que dizer de cotsas como
mentes, valores, conceitos, numeros, propriedades e relações, isto é, o que dizer de
coisas que a primeira vista, não parecem ter uma existência concreta, espaclolem-
porai? E o que dizer do próprio espaço e do próprio tempo?

2. Sabemos que ha coisas que existem mas podem deixar de existir. Mas será que hã
coisas que existem necessariamente?
E coisas que nao existem mas que poderiam existir?
Será que ha coisas simplesmente impossíveis, isto c, coisas que nao existem nem
poderiam existir’
Sera que ha coisas que, embora possam existir quando consideradas separadamente,
não podem coexistir, isto é, existir simultaneamente, pois são incompatíveis entre si?

3 A primeira vista, achamos que uma maçã pode ser de vãnas cores sem deixar de ser
uma maçã, mas se alterarmos radicalmente as suas propriedades (por exemplo di-
gerindo-a) ha um ponto a partir do qual podemos dizer que a maçã deixou de existir?
Ouais sao as condiçoes oe persistência das coisas, isto é. em que circunstâncias
dizemos que uma coisa que existe num dado momento continua a existir num mo­
mento posterior?
Haverá propriedades essenciais que nos permrtem reconnecer uma coisa como a
mesma em diferentes momentos’
E quanto as pessoas? Sera que ha propriedades essenciais para se ser uma deter­
minada pessoa (isto e. propriedades com as quais podemos afirmar que somos essa
pessoa e sem as quais podemos dizer que deixamos de o ser)?

4. Alem disso, acreditamos que existem coisas como automóveis vermelhos, livros ver­
melhos e maçãs vermelhas; mas em que consiste a «vermelhidão»? Será que a ver­
melhidão existe da mesma forma que os automóveis, os livros e as maçãs? Ou será
que a sua existência depende das nossas mentes de uma forma que a existência de
automóveis, livros e maçãs não depende?

■0
1. Abordagem Introdutória ■ flloiofaa e ao filosofar

Sr Por fim, habrtualmente, pensamos que existe um mundo exterior ãs nossas mentes
com o qual nos vamos relacionando e acerca do qual vamos descobrindo coisas
novas. Mas existira realmente algo além das nossas mentes? Ou será que a realida­
de nâo passa de um produto da minha atividade mental? Qual é, afinal. a natureza
última da realidade?

Epistemclogia

A épistemcloyia dedica-se ao estudo dos problemas fundamentais acerca da natureza


do conhecimento Assim, o principal objetivo da epistemoiogia ê responder a questão:
<Em que condiçoes podemos dizer que sabemos seja o que for?» Em seguida apresen­
tam-se alguns problemas habitualmente discutidos neste domínio

Damos por nós a acreditar em varias coisas, que sou uma pessoa, que tenho um corpo,
que está um livro diante dos meus olhos, que estou a ler o que está escrito nesse livro, etc
Mas como formamos essas crenças7 Como podemos justificar as nossas crenças? Pode­
mos alguma vez estar certos de que uma crença e verdadeira?

Podemos dizer que sabemos algo quando, apesar de termos uma crença verdadeira, ê
apenas por sorte ou acaso que isso acontece, isto e, quando não temos uma (boa) justifi­
cação para isso? Em que condições podemos dizer que, efetivamente, sabemos que uma
crença ê verdadeira?

O que e o conhecimento7 Oue tipos de conhecimento existem? Sera que o conheci­


mento é possível, ou sera que estamos condenados a viver numa ilusão permanente?

MrLou. Arfe
Mnrtondo o Arte
(2012}

11
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Axkrlogki

A axlologia é a disciplina filosófica que se debruça sobre os problemas relativos a


natureza do valor Assim, o principal problema da axlologia pode ser formulado nos se­
guintes termos <O que são os valores?: Outros problemas centrais desta area da filosofia
são os seguintes:

♦ Qual é a natureza dos valores7 Sera que existem independentemente das nossas
atitudes pessoais e subjetivas? Serão relativos a certos padrões de avaliação cole­
tivos?

• Que tipos de valores existem?

* O que ê que tem Intrinsecamente valor (isto é. o que é que tem valor por sl mesmo) e
o que o que tem valor meramente Instrumental {ou seja, apenas como um melo para
qualquer outro coisa)7

Estes sao alguns problemas gerais da axlologia, mas, dada a diversidade dos valores,
esta área também se encontra subdividida. Por exemplo, ao passo que a ética se ocupa
dos valores morais (ou éticos), o estética ocupo-se dos valores esteticos A primeira ocu­
pa-se especificamente dos valores que dizem respeito á forma como devemos conduzir
as nossas vidas, como a Justiça, a benevolência, a honestidade, entre outros exemplos.
A segunda diz respeito aos valores subjacentes a apreciaçao de certas propriedades dos
objetos, como, por exemplo, a belezo, o harmonio, a expressividade.

Lógica

Na pagina 8 dissemos que a filosofia se faz sobretudo através da discussão crítica e


da argumentaçao, Os Mosofos nao se limitam a fazer certas afirmações, ou a formular
certas teorias, tém de nos dar boas razões para aceitar essas afirmações. Ora. a lógica é.
justamente, o estudo do que conta como uma boa razão para o qué e porquê. Ou seja, a
lógica dedica-se ao estudo dos aspetos relevantes para a argumentação correta

Neste sentido, a lógica e bastante util para a filosofia, pois não sõ permite aos filósofos
construir bons argumentos para fundamentar as SLas teorias, como também possibilita
avaliar as teonas e argumentos de outros filósofos.

A loglca formal ocupa-se dos aspetos formais/estruturnis da nrgumentação, ou seja,


procura estabelecer quando e que certas ideias são uma consequência de outras.
A lógica Informal ocupa-se dos elementos Informais que contribuem para a força persua­
siva dos argumentos

Outras disciplinas filosóficas

Além da metafísica, da episteinología, da axlologia e da lógica, há outras disciplinas


filosóficas que se dedicam aos problemas metafísicos, eplstemoiógicos. axiologicos e ló­
gicos de certos domínios específicos. É o que acontece. po< exemplo, com a filosofia da
ação, a filosofia da mente, a filosofia da linguagem, a filosofia da religião a filosofia da
ciência, a filosofia da arte, a filosofia política, entre outras. A própria lógica também sus­
cita problemas filosoficos interessantes, dando assim origem a uma arca de investigação
ntitulndn filosofia da lógica

12
1. Abordn gem Introdutória ■ filosofia e ao filosofar

Competências relativas a problemas


Como vimos anteriormente, o ponto de partida para a discussão filosófica são os pro­
blemas Ass:m, algumas das competências fundamentais da atividade tilosofica são:

• identificar problemas:

• formular problemas:

• esclarecer problemas:

• relacionar problemas.

Identificar um problema consiste em indicar o nome do problema em causa num dis­


curso de natureza argumentatlva, como, por exemplo. «O texto procura discutir o proble­
ma da justiça de guerra.»

Formular um problema significa ser capaz de enuncia-lo Geralmente a melhor forma


de o íazer é formular diretamente uma questão. O problema da Justiça de guerra, por
exemplo, pode ser rormulado nos seguintes termos: «Pode haver guerras Justas?», ou. al-
tematrvamente, podemos dizer que «consiste no problema de saber se pode ou nao haver
guerras justas.»

Esclarecer um problema consiste em explicitar o conteúdo e a relevância do mesmo.


Por exemplo' «O problema da justiça de guerra consiste em procurar determinar se exis­
tem critérios que, caso uma guerra venha a cumprir, permitem considerar essa guerra
como legitimamente justa, isto é.„»; <Este problema é importante porque...»; etc.

Relacionar o problema que temos em mãos com outros problemas e estabelecer liga­
ções entre esse problema e outros problemas que de uma forma ou de outra lhe estão as­
sociados. Por exemplo, 0 problema da justiça de guerra, tal como foi aqui formulado, relacio-
na-se. entro outros.com os problemas de saber o que é a justiça e qual é o seu Tjndamento.

13
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Competências relativas a conceitos


Dissemos tombem que umn parte importante do trabalho filosófico consistia em ana­
lisar conceitos Na linguagem usamos certos termos como «homem», «cavalo» «Deus*
«livre-arbitrlo». «obra de arte», etc., para nos referirmos aos nossos conceitos, respetiva­
mente. de homem, de cavalo, de Deus, de livre-artxtrio. de obra de arte, c assim por diante
Termos diferentes podem expressar o mesmo conceito - como acontece, por exemplo,
com os termos «porta-minas* e «lapiseira» — e um so termo pode, em virtude da sua am­
biguidade, referir-se a mais do que um conceito - como acontece, por exemplo, com o
termo «banco», que tanto pode rcfonnse a uma peça de mobiliário como a uma Instituição
financeira Daqui em diante, ao falarmos de concertos estaremos a pensar, sobretudo, nos
termos que utilizamos para nos referirmos aos mesmos.

As tarefas fundamentais do filósofo no que diz resperto a concertos sao:

• Identificar conceitos.

• aplicar conceitos;

• esclarecer conceitos;

• relacionar concertos.

identificar jm conceito é o mesmo que reconnecõ-lo quando este surge num texto
filosofico. Por exemplo, «O conceito que está aqui em cousa ê o conceito de moralidade»

Aplicar jm conceito, ou dominar as suas condições de aplicação, e o mesmo que saber


usá-lo corretamente Para isso ê necessário compreender o seu significado.

Esclarecer um conceito e explicitar o seu significado. Para esse efeito, os filósofos po­
dem recorrer quer a uma definição explícita, quer a uma caracterização.

Nume definição explícita sao apresentadas as propriedades ou características que to-


das as coisas ãs quais um dado concerto se aplica, e so elas, têm em comum, ou seja, são
indicadas as condições necessárias e suficientes para que esse conce to seja corretamen-
te aplicado. A relação de condição necessária é, geralmente, indicada pela expressão
«só se», como acontece, por exemplo, no seguinte caso «Algo é uma açao humana só
se e um acontecimento» Por sua vez, a relação de condição suficiente e. geralmente
indicada pela expressão se», como, por exemplo, «Se algo e uma planta, então e um ser
vivo». Quando queremos definir algo, temos de apresentar condições simultaneamente
necessárias e suficientes o que geraimente se indica recorrendo a expressão «se. e só
se», como acontece, por exemplo, com a seguinte definição de água: «Algo e águo se, e
só se, e H ,O*.

Uma boa definição explícita nao deve set demasiado abrangente (ou lata), nem dema­
siado restrita e não pode ser vlclosamente circular

Uma definição explicita e demasiado abrangente (ou lata) quando Inclui coisas que
nao deveria incluir. Por exemplo, se quisermos definir «bicicleta» dizendo que «Algo é uma
bicicleta se. e só se. é um veículo de duas rodos», estaremos o oferecer unia definição
demasiado abrangente (ou lata) de «bicicleta», pois Inclui coisas que têm duas rodas, mas
que não são bicicletas (como, por exemplo, os motociclos).
1. Abordn gem Introdutória ■ filosofia e ao filosofar

Uma definição explicita e demasiado restrtta quando nao Inclui tudo o que deveria
incluir. Por exemplo, se quisermos definir «motociclo» dizendo que «Algo e um motociclo
se, e só se, é um veiculo motorizado com duas rodas», estaremos a oferecer uma defini­
ção demasiado restrita de «motociclo», pois exclui coisas que sao motociclos mas nao têm
duas rodas (como as moto-quatro, por exemplo).

Alem disso, podemos ter más definições, porque são simultaneamente demasiado
restritas e demasiado abrangentes Por exemplo, se definirmos «maçã* afirmando que
«Algo é uma maça se. e só se, é um fruto vermelho», estaremos a oferecer uma definição
simultaneamente demasiado restrita e demasiado abrangente de «maçã», pois existem
maçãs que não são frutos vermelhos e existem frutos vermelhos que não são maçãs

Uma definição é vlciosamente circular se inclui o conceito que se esta a definir na


propnn definição Por exemplo, se quisermos definir o conceito de «justiça» dizendo que-
«Algo e justo se, e so se, é aquilo que uma pessoa justa fana», estaremos a oferecer uma
definição circular pois para se explicitar o significado de «justiça» recorre-se precisamen­
te ao conceito cujo significado se pretende esclarecer. Assim, ninguém seria capaz de
entender a definição apresentada, a menos que Ja tivesse algum entendimento do própno
conceito de «justiça», isto e, a menos que ja possuisse uma definição explicita do mesmo

Numa caracterização, por sua vez. apresentam-se algumas propriedades ou carac­


terísticas que as coisas ás quais um dado conceito se aplica têm em comum, mas nao
se oferece uma definição explicita rigorosa e exaustiva E o que acontece, por exemplo
quando dizemos coisas como: «A filosofia envolve argumentação». Não estamos a dizer
que a niosofia só envolve argumentação nem estamos a dizer que só a filosofia envolve
argumentação

Relacionar conceitos consiste em compreender as ligações que estes estabelecem


entre si. Por exemplo, o conceito de circulo e o conceito de quadrado são Incompatíveis, o
que significa que nao se podem aplicar simultaneamente ã mesma coisa. Além da relação
de incompatibilidade, os conceitos também podem estabelecer entre si uma reiaçao de
Inclusão Por exemplo, o conceito de ser vivo e mais geral que o conceito de animal, e este
último, por sua vez, esta incluido no prime ro Isto significa que não e possível ser-se um
animal sem que se seja simultaneamente um ser vivo, embora seja possível ser-se um ser
vivo sem que se seja um animai Ou. drto de outra formo, ser-se um animai ê uma condição
suficiente, mas não necessária, para se ser um ser vivo e. por seu turno, ser um ser vivo e
uma condição necessária, mas não suficiente, para se ser um animal

IDENTIFICAR APLICAR
L

15
Ferramentas do Trabalho Filosófico

1.3 Teses e argumentos: validade, verdade e solidez


No contexto da discussão filosófica, chamamos teses ou teorias às diferentes respos­
tas que os filósofos avançam para os problemas de que se ocupam Essas teses ou teo­
rias são geralmente expressas sob a forma de uma frase declarativa. No entanto, aquilo
que está a ser discutido pelos filósofos não são as frases propriamente ditas, mas sim as
ideias que lhes estão subjacentes, ou seja, as proposições.

Uma proposição é o pensamento, verdadeiro ou falso,


literal mente expresso por uma frase declarativa.

Tal como acontece com os conceitos e os termos, também existem casos em que duas
frases diferentes expressam a mesma proposição - como, por exemplo, «A existência de
Deus é incompatível com a existência de mal no mundo* e *A existência de mal no mundo
é incompatível com a existência de Deus» — e casos em que uma só frase, devido ao seu
caráter ambíguo, expressa mais do que uma proposição - como acontece, por exemplo,
com «Os alunos só consultam livros na biblioteca», que tanto pode expressar a ideia de
que todos os livros que os alunos consultam sào da biblioteca, como a ideia de que a única
coisa que os alunos fazem é consultar livros na biblioteca.

As proposições podem ser verdadeiras ou falsas O valor de verdade de uma propo­


sição ê a verdade ou falsidade dessa proposição. Assim sendo, apenas as frases decla­
rativas servem para expressar proposições, pois apenas estas declaram algo acerca do
mundo e, por conseguinte, apenas estas possuem um conteúdo que pode ser considera-
Rene Magritte. do verdadeiro ou fa|so.
DecoJcomo.niü
(1966)
1. Abordagem introdutória ã filosofia e ao filosofar

Para clarificar este aspeto, presta atenção às frases que se seguem:

a) O Simào estuda filosofia? c) Simâo, estuda filosofia!

b) Oxalá o Simâo estude filosofia! d) O Simâo estuda filosofia.

Como podes constatar, as frases interrogativas, exclamativas e imperativas - presen­


tes nas alíneas a), b) e c), respetivamente - nâo expressam proposições, pois não expres­
sam qualquer conteúdo suscetível de ser considerado verdadeiro ou falso. As perguntas
sào fou não) respondidas, mas não sào em si mesmas verdadeiras ou falsas. As exclama­
ções servem apenas para expressar certos sentimentos e/ou desejos e, como tal, também
nào faz sentido dizer que declaram algo de verdadeiro ou falso acerca da realidade. As
ordens, por sua vez, sào (ou não) cumpridas, mas também não são em si mesmas verda­
deiras ou falsas. Assim, apenas frases declarativas, como aquela que surge na alínea d),
expressam um pensamento que pode ser verdadeiro ou falso.

Contudo, nem todas as frases declarativas expressam proposições, algumas delas sào
absurdas e. por conseguinte, também nào expressam nenhum pensamento verdadeiro ou
falso. É o que acontece, por exemplo, com a frase «Incolores ideias verdes dormem furio­
samente*. Deste modo, podemos concluir que apenas as frases declarativas que não são
absurdas expressam proposições

Importa ainda referir que existem diferentes tipos de proposições. Desde logo, é fre­
quente distinguirem-se as proposições categóricas das proposições condicionais

As proposições categóricas afirmam ou negam algo de forma absoluta e incondi­


cional, isto é, sem admitir alternativas e sem estabelecer condições. Como acontece, por
exemplo, no caso que se segue: «Sócrates é mortal*. Pode dizer-se que as proposições
categóricas têm sempre subjacente a forma «S é P*, porque envolvem a atribuição de um
predicado. P, a um sujeito, S. No nosso exemplo, a atribuição do predicado «mortal* ao
sujeito «Sócrates*.

No que diz respeito à qualidade as proposições categóricas podem ser afirmativas,


quando afirmam algo, ou negativas, quando negam algo. No que diz respeito à quanti­
dade as proposições categóricas podem ser universais, particulares ou singulares No
caso das proposições universais, aquilo que se afirma (ou nega) aplica-se à totalidade do
sujeito. Nas proposições particulares, aquilo que se afirma <ou nega) aplica-se apenas a
uma parte do sujeito. Nas proposições singulares, aquilo que se afirma (ou nega) aplica-se
a um indivíduo concreto.

Exemplos de proposições categóricas:


r
Universal afirmativa (tipo A) «Todos os seres humanos são egoístas.*

Universal negativa (tipo F) «Nenhum ato e genuinamente altruísta.*

Particular afirmativa (tipo /) «Alguns atos sào genuinamente altruístas.»

Particular negativa (tipo O) «Nem todos os seres humanos sào egoístas.»

Singular afirmativa «Sócrates é mortal.»

Singular negativa «Sócrates nào e mortal.»


h- -- -- ______________

17
Ferramentas do Trabalho Filosófico

As proposições condicionais estabelecem relações de consequência (ou implicação)


entre proposições Diz-se que uma proposição implica outra quando é impossível que a
primeira seja verdadeira e a segunda falsa, ou, dito de outra forma, quando a segunda é
a consequência da primeira. Isto significa que as proposições condicionais estabelecem
que a verdade de uma proposição é uma condição suficiente para a verdade de outra, e
que a verdade desta última será, por sua vez, uma condição necessária para a verdade da
primeira. Para compreendermos melhor o que está aqui em causa atentemos no seguinte
exemplo:

Aquilo que está aqui a ser dito é que estar em Lisboa implica estar em Portugal, ou, por
outras palavras, está a afirmar-se que estar em Lisboa é uma condição suficiente para se
estar em Portugal e que estar em Portugal é uma condição necessária para se estar em
Lisboa.

Uma coisa completamente diferente seria dizer o seguinte:

r *
Proposição condicional 2: «Se estou em Portugal, então estou em Lisboa.»
.

Neste caso, estaríamos a afirmar que estar em Portugal é uma condição suficiente para
se estar em Lisboa e que estar em Lisboa é uma condição necessária para se estar em
Portugal.

A proposição condicional 1 é verdadeira, ao passo que a proposição condicional 2 e


falsa, pois existem outras localidades portuguesas, como Aveiro, Braga, Porto, Viseu, etc.
O que significa que para estar em Portugal não é necessário estar em Lisboa.

A proposição que implica, isto é, aquela que constitui uma condição suficiente de­
signa-se «antecedente*. A proposiçáo que é implicada, isto e, aquela que constitui uma
condição necessária, designa-se «consequente •.

Se estou em Lisboa, então estou em Portugal.

antecedente consequente

A forma canônica de expressar a condicional em português é a seguinte: *Se A, então


Br . sendo que, neste caso, a proposição que surge no lugar do 4 corresponde a antece­
dente e a proposição que surge no lugar do B corresponde ã consequente.

Contudo, esta não é a única forma de expressar uma proposição condicional na nossa
língua. Por vezes, invertemos a estrutura da frase e apresentamos primeiro a consequente
e so depois a antecedente: *B, se 4» (ou, retomando o exemplo da proposição condicio­
nal 1: «Estou em Portugal, se estou em Lisboa»). Também recorremos a expressões como
«sempre que», «desde que», «só se», «apenas se», «somente se», etc., como forma de
expressar a relação de implicação. Algumas destas expressões, como «se», «desde que>,
«sempre que’, etc., servem para indicar condições suficientes ao passo que outras, como
«só se», «apenas se», «somente se», etc., servem para indicar condições necessárias.
1. Abordagem introdutória ã filosofia e ao filosofar

Indicadores de condiciona)

Indicadores de condição suficiente Indicadores de condição necessária

* se • na condição de ■ so se - apenas na condição de


• desde que • basta que - apenas se - é preciso que

♦ sempre que • e suficiente que - somente se ■ é necessário que

* quando - etc. - apenas quando - etc.


* casa - apenas no caso de

Assim, a proposição condicional 1 poderia de igual modo ter sido expressa por qual­
quer uma destas formulações alternativas:

• *Se estou em Lisboa, estou em Portugal.*

• «Estou em Portugal, se estou em Lisboa.*

• «Estou em Lisboa só se estou em Portugal.*

• «Só se estou em Portugal é que estou em Lisboa.»

• «Estou em Lisboa, apenas se estiver em Portugal.»

- etc.

Porém, como vimos, quando queremos proceder a uma definição explícita de algo, não
basta apresentar condições necessárias ou suficientes, temos de apresentar condições si­
multaneamente necessárias e suficientes. Como acabámos de ver, a relação de condição
necessária é, geralmente, expressa em português pela expressão «só se» e a relação de
condição suficiente é, geral mente, expressa pela expressão «se». Então, para expressar
condições simultaneamente necessárias e suficientes devemos usar a expressão «se, e só
se* (ou expressões equivalentes, como <se. e apenas se», <se. e somente se*, etc.), como
acontece, por exemplo, na seguinte definição: «AJgo é um quadrado se, e só se, é uma
figura geométrica com quatro lados iguais*.

A este tipo de proposições, que tém subjacente a estrutura: A se, e só se, 8*. decidiu
chamar-se «bicondicionais •. porque afirmam que cada uma das proposições que as com­
põem implica (ou tem como consequência} a outra, ou seja, estabelecem que é simulta­
neamente verdade que «Se A, então B e que <Se B, então A». Isto significa que quando
afirmamos uma proposição bicondicional, estamos a dizer que nenhuma das proposições
que a compõem pode ser verdadeira sem que a outra também o seja, isto é. ou são am­
bas verdadeiras, ou são ambas falsas. Se uma delas for verdadeira, a outra também o será
e se uma delas for falsa, a outra também o será.

Com efeito, quando dizemos que <Um quadrado é uma figura geométrica com quatro
lados iguais», estamos a afirmar que *Se algo é um quadrado, então é uma figura geomé­
trica com quatro lados iguais, e que se algo é uma figura geométrica com quatro lados
iguais, então é um quadrado*. Isto significa que uma condição necessária e suficiente
para algo ser um quadrado é ser uma figura geométrica com quatro lados iguais e vice-
-versa, ou seja, «Algo é um quadrado se, e so se, é uma figura geométrica com quatro
lados iguais*.

19
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Competências relativas a teses


Agora que já sabemos que as teses sào proposições, o que sào as proposições e os
tipos de proposições que existem, podemos passar a descrever as principais tarefas rela­
cionadas com teses que os filósofos executam:

• formular teses: ■ relacionar teses;

• explicitar teses; - avaliar teses.

Formular uma tese e enunciá-la por meio de uma frase declarativa que constitui uma
resposta possível para o problema em análise. Por exemplo, no que diz respeito ao pro­
blema da justiça de guerra, podemos defender as seguintes teorias: «Não podem haver
guerras justas, porque a guerra e sempre imoral*; <Nào podem haver guerras justas, nem
injustas, porque nâo faz sentido aplicar esses conceitos á guerra*; «Pode haver guerras
justas, desde que cumpram certos requisitos*.

Geralmente, as teorias mais discutidas sâo abreviadas por meio de um termo ou de


uma expressáo que serve para as designar. No exemplo apresentado, as teorias enuncia­
das correspondem, respetrvamente, ao pacifismo, ao realismo e à teoria da guerra justa.

Explicitar uma tese e esclarecer o seu significado. Para isso, pode ser importante es­
clarecer o sentido dos termos que surgem na formulação da tese. Por exemplo, quando
alguém afirma que Deus existe, é importante esclarecer em que sentido está a usar a
palavra *Deus*, pois existem diferentes aceções dessa palavra. Para algumas pessoas a
palavra <Deus* pode significar um ser pessoal e inteligente, sumamente bom, que tudo
sabe, tudo pode e que é o único criador de tudo quanto existe. Para outras pessoas, essa
mesma palavra pode ser utilizada apenas para referir uma entidade divina impessoal, que
se confunde com o próprio universo. Sem este tipo de esclarecimento, a discussão filosó­
fica pode tornar-se uma mera disputa verbal, em que o desacordo entre os seus interve­
nientes é meramente aparente e deve-se ao facto de estarem a usar as mesmas palavras
em sentidos diferentes.

Relacionar teses é procurar averiguar de que forma elas se articulam entre si. Por
exemplo, uma dada resposta ao problema da justiça de guerra pode implicar o compro­
misso com uma determinada teoria da justiça e vice-versa.

Avaliar teses é uma das mais importantes tarefas dos filósofos. Ao avaliar teorias deve­
mos ter em conta os seguintes aspetos:

1. A teoria responde ao problema filosófico que se propõe resolver?

2. A teoria e consistente?

3. A teoria é mais plausível do que as alternativas?

Para responder a 1, devemos certificar-nos de que a tese ou teoria avançada procura


efetivamente constituir-se como uma resposta para o problema em questão, em vez de
se limitar a apresentar um conjunto de afirmações genéricas, mais ou menos relacionadas
com o problema, mas que não respondem diretamente ao mesmo [ou que respondem a
outrofs) problema(s) relacionado(s), mas não àquele que está a ser discutido]. Por exem­
plo, quando alguém pergunta: <Serã a existência de Deus compatível com a existência
de mal no mundo?*, não faz sentido responder dizendo coisas como: «Deus nâo existe.
1. Abordagem introdutória ã filosofia e ao filosofar

O conceito de Deus foi inventado pela Igreja como forma de manipular as pessoas*.
Embora o problema da existência de Deus esteja relacionado com o problema em análise,
nào se identifica inteiramente com ele. Podemos achar que a existência de Deus ê compa­
tível com a existência de mal no mundo, e ainda assim pensar que Deus nào existe.

No que diz respeito a 2, devemos começar por notar que, por vezes, as teses que
defendemos implicam a verdade de um determinado conjunto de proposições Daí que
para avaliar teses tenhamos de testar a sua consistência Mas o que é a consistência?
A consistência ê uma propriedade de conjuntos de proposições.

Um conjunto de proposições é consistente quando todas as proposições


que o compõem podem ser simultaneamente verdadeiras.

Inversamente,

Um conjunto de proposições e inconsistente quando as proposições


que o compõem nào podem ser todas simultaneamente verdadeiras.

Assim, por exemplo, nâo é consistente sustentar simultaneamente que:

• Se Deus existe, nào pode haver mal no mundo.

• Há mal no mundo.

• Deus existe. Hieronimus


Bosch.
Pelo menos uma destas proposições tem de ser falsa. Ou ê falso que a existência de As 7e/?toçdes
de Santo A.nfõo
Deus nào é compatível com a existência de mal no mundo, ou ê falso que há mal no mun­
(1495-1515),
do, ou ê falso que Deus existe. Até pode acontecer que sejam todas falsas. O que segura­ pormenor. Museu
mente náo podem é ser todas verdadeiras Nacional de Arte
Antiga, Lisboa

21
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Ora, isto significa que uma teoria inconsistente nunca pode ser verdadeira (ou, pelo
menos, uma das ideias que esta sustenta é necessariamente falsa) e, por conseguinte,
deve ser reformulada ou até mesmo rejeitada e substituída por uma teoria que nào apre­
sente esse tipo de inconsistências internas.

O ponto 3 sugere que se faça uma análise comparativa das várias respostas possíveis
a um mesmo problema. Entre as várias teses disponíveis, devemos preferir aquelas que:

• permitem explicar mais coisas e de uma forma mais simples (em vez de introduzir
complicações excessivas e desnecessárias). Por exemplo, se para definirmos «obra
de arte* tivermos de assumir a existência de uma coisa imaterial ã qual decidimos
chamar «espirito artístico*, estaremos a introduzir um conceito novo que precisa de
ser esclarecido e um tipo de propriedade diferente daquele com que habitualmente
lidamos {«espírito artístico»). Por outro lado, se tentarmos definir <obra de arte* pro­
curando identificar um conjunto de propriedades materiais que todos os objetos ar­
tísticos têm em comum, estaremos a falar de propriedades mais simples e familiares.

• deixam menos questões por resolver |em vez de levantar mais problemas do que
aqueles que permitem resolver). Por exemplo, a primeira tese apresentada acima in­
troduz mais complicações e deixa mais perguntas por resolver do que a segunda:
O que é afinal tsso a que chamamos de «espirito artístico»? De que forma existe {visto
que não é uma coisa material}? Como pode ser detetado pelos seres humanos {já que
nào pode ser visto, cheirado, ou ouvido, por exemplo)?

• têm bons argumentos a seu favor (em vez de bons argumentos contra elas). Em se­
guida serão exploradas algumas formas de distinguir os bons dos maus argumentos.

.<■

FORMULAÇÃO

F 1
P -4

TESE

k J ATESE RESPONDE
VALIDAÇÃO
AO PROBLEMA

É CONSISTENTE

DAR PREFERÊNCIA
A UMA TESE QUE:

Permite explicar mais Deixa menos Tem bons


coisas e de uma forma questões por argumentos
mais simples resolver a seu favor

22
1. Abordagem introdutória ã filosofia e ao filosofar

Competências relativas a argumentos


Por último, mas não menos importante, resta-nos referir as principais tarefas dos filó­
sofos no que diz respeito aos argumentos propriamente ditos. A argumentação é um dos
aspetos mais importantes da atividade filosófica, pois, como acabámos de ver, não basta
avançar teorias para responder aos problemas os filósofos precisam de fundamentar as
suas teorias com bons argumentos

Um argumento e um conjunto de proposições em que se pretende justificar


ou defender uma delas, a conclusão, com base na outra ou nas outras,
que se chamam premissas

Existem expressões linguísticas que, tipicamente, servem para indicar essa pretensão:
os indicadores de premissas e de conclusão. Quando alguém afirma que «Deus não exis­
te, porque hã mal no mundo* está a usar o «porque» para indicar qual é a razão que o leva
a pensar que Deus não existe, ou seja, esta a usá-lo como um indicador de premissas Por
outro lado, quando alguém afirma que *Há mal no mundo. Logo, Deus não existe* está a
utilizar o «logo* para indicar que a ideia de que «Há mal no mundo* suporta (ou tem como
consequência) a ideia de que «Deus não existe*, ou seja, está a utilizá-lo como um indica­
dor de conclusão

Na tabela que se seque apresentam-se alguns indicadores de premissas e de conclu­


são comuns.

Indicadores Indicadores
de premissas de conclusão

• pois... ■ portanto... • do que se conclui/segue/infere/deduz


que...
• supondo/admrtindo/ ■ logo...
assumindQ''sabendo * conclui-se/seg ue-se/infere-se/deduz-se
- por conseguinte...
que_. que...
- daí...
• sendo que... * o que acarreta que...
- donde...
• porque... • o que tem por/como consequência que...
■ assim...
• o que/como se mostra * tem-se que...
por... - por essa razão...
• vem que...
• tal como resulta/ - por isso...
• o que prova/justifica/permite defender que...
decorre/se conclui de...
- consequentemente—
♦ do que resulta/decorre que...
• em consequência/
• desse modo...
como resultando! de... * de modo que...

* o que mostra que...

Entre as principais competências filosóficas relacionadas com argumentos encontram-


-se as seguintes: formular argumentos, avaliar argumentos e contra-argumentar.

23
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Formular explicitamente um argumento é apresentá-lo de forma o mais clara e direta


possível. Para isso devemos respeitar os passos que se seguem:

1. Identificar a conclusão do argumento.

2. Identificar as premissas do argumento.

3. Completar o argumento (identificar premissas implícitas).

4. Formular explicitamente o argumento.

Para ver como é que isto funciona na prática, vamos imaginar um exemplo de argumen­
to apresentado de forma confusa e desorganizada e tentar reformulá-lo de forma explicita.

«E claro que Deus não existe!


Deus não permitiria que existisse mal no mundo, por isso, Deus não existe.*

O passo 1 diz-nos que a primeira coisa a fazer e identificar a conclusão do argumento.


Para isso temos de procurar responder à pergunta «Qual é a ideia que o autor do argu­
mento quer defender?-: ou, dito de outra forma, *Quem apresenta este argumento quer
convencer-nos a acreditar em quê?*. Neste caso, parece ser claro que o autor do argu­
mento quer convencer-nos a acreditar que «Deus não existe*. Em alguns casos podemos
facilmente detetar a conclusão do argumento se encontrarmos um dos indicadores de
conclusão apresentados na pagina anterior. Neste exemplo, a expressão «por isso* indica
que aquilo que surge em seguida é a conclusão do argumento.

No passo 2 estabelece-se que, em seguida, devemos identificar as premissas do ar­


gumento. Para isso temos de responder ã questão Que razões apresenta o autor do
argumento para defender a sua conclusão?*. No exemplo apresentado, afirma-se que a
existência de Deus nâo é compatível com a existência de mal no mundo, ou seja, afirma-
-se que a existência de Deus ê uma condição suficiente para que não haja mal no mundo.
Podemos expressar esta ideia através da seguinte condicional:

f ■■

«Se Deus existe, então não há mal no mundo.*


L_

No passo 3 recomenda-se que se procure detetar se ha alguma premissa implícita,


isto ê, alguma premissa que o autor do argumento não chegou a formular explicitamente,
mas que é legítimo presumir que é uma das ideias que este precisa de assumir para poder
chegar à conclusão. No exemplo apresentado, podemos presumir que o autor do argu­
mento acredita que:

r ---------------------------------- R

«Existe mal no mundo.*


1

Por fim, no passo 4 é-nos sugerida a formulação explícita do argumento, isto é, que
se escreva cada premissa [incluindo a(s) premissa(s) omissa(s), caso existam] numa linha
diferente, seguidas pela conclusão, que surgirá na última linha, antecedida da palawa
«logo» (para ser mais fácil identificar os diferentes passos do argumento, sugere-se ainda
que todas as linhas sejam numeradas, por exemplo com 1, 2, 3, e assim sucessivamente,

24
1. Abordagem introdutória ã filosofia e ao filosofar

ou com P1, P2, P3, para as premissas, e C1, para a conclusão). Neste caso, o argumento
apresentado no exemplo ficaria qualquer coisa como:

--------------------------------- -■

(1) Se Deus existe, então não há mal no mundo.


|2j Existe mal no mundo.
(3) Logo, Deus não existe.
_________

No que diz respeito ã tarefa de avaliar os argumentos a favor e contra cada uma das
teorias em confronto, os filósofos devem procurar responder ãs seguintes questões:

1. As premissas suportanVjustificam efetivamente a conclusão?

2. As premissas são verdadeiras?

3. As premissas são mais plausrveis/aceitáveis que a conclusão?

A questão 1 sugere que se verifique se as premissas apoiam a conclusão do argumen­


to, ou se, apesar da pretensão inicial do autor do argumento, essa relação de suporte não
existe. Isto significa que, para que um argumento seja bom, é preciso que as premissas
se relacionem de tal maneira com a conclusão que tornem impossível, ou improvável, que
esta seja falsa caso as premissas sejam verdadeiras. A esta propriedade dos argumentos
dá-se o nome de validade

Diz-se que um argumento é válido quando é impossível, ou muito improvável,


que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa.

Comparemos os seguintes argumentos:

'----------------------------------------------------------------- 1
Argumento 1 Argumento 2
(II Se chover, o chão fica molhado. (1) Se chover, o chão fica molhado.
(2) Choveu. (2} O chão ficou molhado.
(3} Logo, o chão ficou molhado. Í3| Logo, choveu.
- _________ >

O argumento 1 é válido, porque a verdade das premissas garante a verdade da con­


clusão isto é, não somos capazes de conceber uma situação que torne as premissas
verdadeiras e a conclusão falsa. Isto significa que se não aceitarmos a conclusão do argu­
mento, então há pelo menos uma premissa que também não aceitamos.

O argumento 2 é inválido porque a verdade das premissas não oferece qualquer


justificação para aceitarmos a verdade da conclusão. É perfeitamente possível imaginar
uma situação em que as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa. A primeira premis­
sa estabelece que chover é uma condição suficiente para que o chão fique molhado, mas
não nos diz que é uma condição necessária. Assim sendo, fica em aberto a possibilidade
de o chão ficar molhado por outros motivos (como, por exemplo, o facto de o sistema auto­
mático de rega estar ativo ou alguém ter estado a lavar o chão). Nesse caso, as premissas
podem ser ambas verdadeiras, apesar de não ter chovido.

25
Ferramentas do Trabalho Filosófico

É de salientar que a validade é uma propriedade dos argumentos {e não das proposi­
ções), é uma relação entre os valores de verdade, reais ou hipotéticos, das premissas e da
conclusão de um argumento. Por sua vez a verdade é uma propriedade das proposições
(e não dos argumentos}, porque apenas estas podem ser verdadeiras ou falsas. No entan­
to, o facto de um argumento ser válido náo é suficiente para nos convencer da verdade
da sua conclusão. Repare-se, por exemplo, no argumento que se segue:

■-
(1} Se Donald Trump é chinês, então o monte Everest é nos Estados Unidos.
(2) Donald Trump é chinês.
(3) Logo, o monte Everest é nos Estados Unidos.

Este argumento tem exatamente a mesma estrutura que o argumento 1 e, por con­
seguinte, também é válido. No entanto, uma vez que as suas premissas são claramente
falsas, náo é suficiente para nos convencer da verdade da sua conclusão.

Ora, é precisamente por esse motivo que, depois de se verificar que o argumento é vá­
lido, se deve procurar determinar se as suas premissas são verdadeiras (tal como foi ante­
riormente sugerido na questão 2), ou seja, se procure determinar se o argumento é sólido.

Diz-se que um argumento é sólido quando é válido e tem premissas verdadeiras.

A solidez é uma propriedade bastante importante dos argumentos, porque, como vi­
mos anteriormente, se um argumento for válido, a verdade das premissas garante (ou
suporta) a verdade da conclusão, isto é, se aceitarmos que as premissas de um argumento
valido são verdadeiras, temos boas razões para pensar que a conclusão também o é.

Contudo, a solidez também náo é suficiente para que um argumento seja persuasivo.
Repare-se no exemplo que se segue:

(1) Sócrates era filósofo.


(2) Logo, Sócrates era filósofo.
V__________________________________________________________________________________________

Jaques-Louis
David, 4 Morte
de Sócrates
I17E7}
1. Abordagem introdutória ã filosofia e ao filosofar

Este argumento é válido, pois não é possível que a sua premissa seja verdadeira e a
sua conclusão seja falsa; e é sólido, pois ê um facto histórico que Sócrates era um filósofo.
Mas, apesar disso, não podemos dizer que nos foi apresentada uma boa razão para acre­
ditar na verdade desta conclusão.

Afinal, a única coisa que se fez foi repetir a conclusão enquanto premissa. Argumentos
como este não são convincentes.

É precisa mente por esse motivo que, na questão 3, se recomenda que, depois de
constatarmos que um argumento é solido, tenhamos o cuidado de verificar se as suas pre­
missas são. à partida, mais plausíveis (ou aceitáveis) do que a conclusão. Caso contrario,
corremos o risco de estar a argumentar de forma viciosamente circular, visto estarmos a
presumir nas premissas aquilo que pretendemos ver provado na conclusão Este tipo de
argumento revela-se ineficaz por nâo ser capaz de persuadir ninguém da verdade da sua
conclusão, a não ser aqueles que já estavam, à partida, dispostos a aceitá-la.

Por fim, resta dizer a este propósito que quando um argumento parece bom, mas nâo
é, dizemos que se trata de uma falácia. Se o problema está na forma do argumento — isto
é, se o argumento parece válido, mas não e —, então dizemos que se trata de uma falácia
formal. Se o problema esta, não na forma, mas sim no conteúdo — isto é, se o argumento
parece sólido, mas nâo e -, então dizemos que se trata de uma falácia informal.

Mais à frente analisaremos as principais falácias formais e informais presentes nos mais
diversos tipos de discurso de cariz argumentativo.

A última das tarefas dos filósofos sobre a qual nos iremos debruçar é a tarefa de contra-
-argumentar Contra-argumentar é usar a argumentação para mostrar o que ha de errado
com uma dada teoria e/ou argumento. Existem diferentes formas de o fazer. Em seguida
iremos analisar algumas delas.

Negação de proposições
A negação inverte o valor de verdade de uma proposição, ou seja, quando uma pro­
posição é verdadeira, a sua negação é falsa, e vice-versa. Isto significa que qualquer pro­
posição é inconsistente com a sua respetiva negação e, por conseguinte, se conseguir­
mos mostrar que a negação de uma proposição é verdadeira, conseguimos mostrar que
essa proposição é falsa. Assim sendo, se o nosso argumento for persuasivo, o defensor
da teoria que estamos a atacar terá razões para duvidar da verdade da sua tese.

Negar proposições pode ser mais complicado do que parece à primeira vista. Por
exemplo, qual é a correta negação de

• «Alguns animais não humanos sentem dor>?

Ou de

• *Se Deus existe, então a vida faz sentido*?

A tabela da página seguinte representa a forma adequada de negar diferentes tipos de


proposições.

27
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Negação de proposições

Nome’ Exemplo Negação Explicação

A negaçào de uma universal afirmativa e uma particular


* Todos
Alguns seres negativa porque, uma vez que a proposição diz que
Universal os seres
humanos não sào o predicado se aplica à totalidade do sujeito, basta
afirmativa humanos são
egoístas.» haver um caso em que isso nào aconteça para que essa
egoístas.*
proposição seja falsa

A negação de uma universal negativa e uma particular


«Nenhum
Alguns atos são afirmativa porque, uma vez que a proposição diz que
Universal ato e
genuinamente o predicado nào se aplica a nenhum dos elementos do
negativa genuinamente
altruístas.» sujeito, basta haver um caso em que isso se verifica para
altruísta.»
que essa proposição seja falsa

A negaçào de uma particular afirmativa e uma universal


«Algumas negativa porque, uma vez que a proposição diz que
Particular -Nenhuma guerra e
guerras sào o predicado se aplica a alguns elementos do sujeito, a
afirmativa justa.»
justas.» única forma de mostrar que isso e falso ê mostrando que
não se aplica a nenhum

A negaçào de uma particular negativa e uma universal


«Nem todos ♦Todos os afirmativa porque, uma vez que a proposição diz que o
Particular
os argumentos argumentos sào predicado não se aplica a alguns elementos do sujeito, a
negativa
são válidos.» válidos.» única forma de mostrar que isso e falso e mostrando que
se aplica a todos

A negaçào de uma proposição singular afirmativa e a


Singular «Sócrates e «Sócrates não e singular negativa correspondente, porque a primeira
afirmativa mortal.» mortal.» diz que aquele predicado se aplica aquele sujeito em
particular e a segunda diz que esse não e o caso

A negaçào de uma proposiçào singular negativa e a


Singular «Sócrates não singular afirmativa correspondente, porque dizer que
«Sócrates e mortal.»
negativa e mortal.» é falso que o predicado não se aplica aquele sujeito em
particular e o mesmo que dizer que na verdade se aplica

« Se chover, «Está a chover, A negaçào de uma condicional corresponde a afirmação


então levo mas não levei da sua antecedente e â negação da sua consequente
Condicional
guarda-chuva o guarda-chuva pois so assim se estabelece que afinal a primeira não e
para a escola.» para a escola.» uma condição suficiente para a segunda

«Algo é um ser
«Algo e um
humano, mas não e Para negar uma bicondicional temos de mostrar que os
ser humano
um animal racional seus membros não constituem condições necessárias e
Bicondicional se, e sõ se.
ou algo e um animal suficientes um para o outro, porque e possível que um
é um animal
racional, mas não é deles se verifique sem que o outro se verifique
racional.»
um ser humano.»
’ Ver paginas 17 e 18.

28
1. Abordagem introdutória ã filosofia e ao filosofar

Para facilitar a negação das proposições categóricas com quantificadores — isto é, com
palavras que servem para indicar qual é a quantidade do sujeito a que o predicado se
aplica (ou não aplica), como por exemplo *Todos», «Alguns», «Nenhuns* e *Nem todos»,
ou outras equivalentes - pode também recorrer-se ao conhecido quadrado da oposição.

O quadrado da oposição consiste numa coleção de relações lógicas entre proposições


categóricas quantificadas, tradicional mente representadas num diagrama em formato de
quadrado. Nomeadamente, com o quadrado da oposição visa-se dar conta das relações
lógicas das seguintes quatro proposições:

Tipo Forma Nome

4 Todo o S e P Universal afirmativa

E Nenhum S e P Universal negativa

í Algum Se P Particular afirmativa

0 Algum S não e P Particular negativa

O diagrama para o tradicional quadrado da oposição é o seguinte.

Com recurso ao quadrado da oposição, as proposições categóricas negam-se pelas


linhas diagonais, ou seja, pela relação de contraditoriedade. Ora, duas proposições con­
traditórias não podem ter o mesmo valor de verdade, de tal forma que a verdade de
uma implica a falsidade da outra, e vice-versa

29
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Contra-argumentar por redução


ao absurdo
Para mostrar que uma dada proposição
é falsa, também podemos construir um ar­
gumento que mostre que se assumirmos
essa proposição como premissa somos
validamente conduzidos a consequências
absurdas ou inaceitáveis. Esta estratégia fi­
cou conhecida por «redução ao absurdo^
Ora. qualquer teoria que tenha implicações
absurdas ou inaceitáveis deve ser refor­
mulada ou rejeitada e substituída por uma
melhor. Suponhamos, por exemplo, que
alguém defendia a seguinte tese «Mentir
é sempre errado.» Alguém poderia rejeitar
essa ideia mostrando que isso implicaria a
ideia absurda de que mesmo mentir para
salvar dezenas de vidas seria errado.
George Caleb
Bingham,
O Discurso Refutar argumentos
de Stanp
Por fim, resta acrescentar que em vez de atacar diretamente a teoria em causa, pode­
(1853-1854)
mos dirigir os nossos ataques aos argumentos que a suportam. Refutar um argumento
é mostrar que esse argumento não é persuasivo Para isso, dispomos das seguintes
alternativas:

1. mostrar que a sua conclusão nâo se segue das suas premissas, ou seja, mostrar que
este não é válido:

2. ou mostrar que {pelo menos) uma das suas premissas é falsa, ou seja, mostrar que
(ainda que seja valido} este não é sólido

3. ou mostrar que as suas premissas náo são mais plausíveis do que a conclusão, ou
seja, mostrar que (ainda que seja sólido} este não é persuasivo.

COMTRAARGUMEMTAR

30
1. Abordagem introdutória ã filosofia e ao filosofar

RESUMO

• A filosofia ocupa-se de problemas conceptuais.

• A filosofia e considerada uma atividade o priori.

• A filosofia e uma atividade conceptual e crítica.

• Em filosofia, formulamos problemas, analisamos conceitos fundamentais, pro­


pomos teses (respostas para os problemas de que se ocupa), argumentamos a
favor dessas teses e imaginamos possíveis objeções relativamente ãs mesmas.

• Na filosofia existem varias disciplinas, como, por exemplo: a metafísica, a epis-


temologia, a axiologia. a lógica, a etica, a filosofia da arte, etc.

• Uma boa definição explícita nâo deve ser demasiado abrangente (ou lata),
nem demasiado restrita e nào pode ser viciosamente circular.

• As teses ou teorias são as diferentes respostas que os filosofos avançam para


os problemas de que se ocupam.

• As teses sào compostas por, pelo menos, uma proposição

• Uma proposição e o pensamento verdadeiro ou falso literalmente expresso


por uma frase declarativa.

• Podemos distinguir entre proposições categóricas e condicionais

• As proposições categóricas afirmam ou negam algo de forma absoluta e


incondicional.

• As proposições condicionais estabelecem relações de consequência (ou de


implicação) entre proposições.

• A proposição que implica, isto e, aquela que constitui uma condição suficien­
te, designa-se ^antecedente^. A proposição que e implicada, isto ê. aquela o Conceitos
que constitui uma condição necessária, designa-se <consequente».
• a priori
• Nas proposições bicondicionais sào apresentadas condições simultaneamen­
• definição explícita
te necessárias e suficientes entre proposições.
• condição necessána
• Um conjunto de proposições e consistente quando todas as proposições que
o compõem podem ser simultaneamente verdadeiras. • condição suficiente
• Um argumento e um conjunto de proposições em que se pretende justificar • definição demasiado
ou defender uma delas, a conclusão com base na outra ou nas outras, que se abrangente
chamam premissas.
• definição demasiado restnfa
• Diz-se que um argumento é válido quando e impossível, ou muito improvável,
• definição circular
que as suas premissas sejam verdadeiras e a sua conclusão falsa.
• proposição
• Diz-se que um arg umento e solido quando e valido e tem premissas verdadeiras.
• argumento
• Ha argumentos sólidos que não sào persuasivos porque as suas premissas
nào sào mais plausíveis do que a sua conclusão, sendo, por isso, circulares. • validade
• A negação inverte o valor de verdade de uma proposição, ou seja, quando • solidez
uma proposição e verdadeira, a sua negação e falsa, e vice-versa.
• negação
• Para refutar um argumento podemos mostrar que ele na o e vã lido, ou que nào
• refutação
e solido, ou que não e persuasivo.

3J
Questões propostas

GRUPO I

Nas questões do Grupo I. seleciona a única alternativa correta.

1. Atenta nas questões que se seguem.

1. Será que Deus existe?


2. Qual ê a religião com mais crentes?
3. Quais sâo os principais rituais associados à religião católica?
4. Sera que devemos permitir todo o tipo de práticas religiosas?

(A) 1 e 2 são problemas filosóficos, mas 3 e 4 nâo.

(B) 3 e 4 são problemas filosóficos, mas 1 e 2 não.

(Cl 1 e 4 sào problemas filosoficos, mas 2 e 3 nào.

(D) 2 e 3 são problemas filosóficos, mas 1 e 4 nào.

2 Atenta nas afirmações que se seguem.

1 A existência de Deus não é compatível com a existência de mal no mundo.


2. A existência de mal no mundo não é compatível com a existência de Deus.

Estas afirmações correspondem a

uas frases iguais e duas proposições diferentes.

(B) duas frases diferentes, mas uma e a mesma proposição.

(C|d uas frases diferentes e duas proposições diferentes.

{D) duas frases iguais e duas proposições iguais.

3. Na proposição «Se algo ê arte, então expressa emoções*,

IA) expressar emoções ê uma condição suficiente para algo ser arte.

(B) expressar emoções ê uma condição necessária para algo ser arte.

<C) expressar emoções ê uma condição necessária e suficiente para algo ser arte.

(D) expressar emoções não é uma condição necessária nem suficiente para algo ser arte.

4 Atenta na seguinte definição explicita de «música*.

«Algo ê música se, e só se, pode ser tocado num piano.*

Esta definição é

IA) demasiado restrita, pois inclui coisas que podem ser tocadas num piano mas nào são música.

(B) demasiado abrangente, pois exclui coisas que são música mas não podem ser tocadas num
piano.

viciosa mente circular.

{D) simultaneamente demasiado abrangente e demasiado restrita.


Qucstôei proposta»

S. Atenta nas afirmações que se seguem.

1. Todas as obras de arte expressam emoções.


2. Nenhuma obra de arte expressa emoções.
3. Algumas obras de arte expressam emoções.
4. Nem todas as obras de arte expressam emoções.

<A) Apenas 1 e 3 são consistentes. (C|1 e 2 são consistentes, mas 3 e 4 não.

(B) Apenas 1 e 4 são consistentes. {D) 3 e 4 são consistentes, mas 1 e 2 não.

6 Atenta no argumento que se segue e depois indica qual das proposições apresentadas não é
utilizada como premissa do mesmo.

É claro que as noções de *certo* e de <errado> não dependem apenas do contexto histórico
e cultural. Isto porque se as noções de <certo» e <errado» dependessem apenas do contexto
histórico e cultural, então não haveria evolução moral das sociedades. Mas é õbvio que a
forma como certas minorias raciais são tratadas em algumas sociedades é, hoje, muito me­
lhor do que era há uns anos. Ora, isso é suficiente para se considerar que existe evolução
moral das sociedades.

<A) As noções de «certo» e de <errado* dependem apenas do contexto histórico e cultural.

(B) O facto de certas minorias raciais serem, hoje, muito melhor tratadas em algumas sociedades,
do que eram há uns anos, é suficiente para se considerar que há evolução moral das socie­
dades.

(C) A forma como certas minorias raciais são tratadas em algumas sociedades é, hoje, muito
melhor do que era há uns anos.

< D) Se as noções de <certo> e de <errado» dependem apenas do contexto histórico e cultural,


então não há evolução moral das sociedades.

7. Qual das seguintes alíneas corresponde à correta negaçáo de «Vou á praia só se estiver sol».

{A) Está sol, mas não vou à praia. (C) Vou ã praia só se não está sol.

(B) Vou à praia, mas não está sol. < D) Está sol só se não vou à praia.

8. Se um argumento é válido.

<A) não pode ter conclusão falsa.

(B) pode ter conclusão falsa.

(C) sõ pode ter premissas verdadeiras.

(D) não pode ter premissas falsas.

9. Se um argumento é válido e tem premissas verdadeiras, então

ê persuasivo. (C) pode não ser sólido.

(B) não pode ser sólido. {D) tem conclusão verdadeira.

33
Questões propostas

10. Atenta no argumento que se segue.

|1J A filosofia é uma atividade conceptual e critica e ê lecionada no Ensino Secundário


(2} Logo, a filosofia é lecionada no Ensino Secundário.

O argumento é

{A) válido, mas não e sólido. (C) sólido, mas não e persuasivo.

(B> sólido, mas não é valido. (D) persuasivo, mas não é sólido.

GRUPOU

1. Qual é o objeto e o método da filosofia?

2. O que distingue os problemas filosóficos de outros tipos de questionamento?

3. Avalia a seguinte definição de ser humano: «AJgo é um ser humano se, e só ser é filho de pais
humanos*.

4. Compara os argumentos que se seguem no que diz respeito ã validade.

Argumento 1 Argumento 2

(1) Se estou em Lisboa, então estou em {1| Se estou em Lisboa, então estou em
Portugal. Portugal.

(2) Estou em Portugal. <2) Não estou em Portugal.

(3) Logo, estou em Lisboa. {3) Logo, não estou em Lisboa.

GRUPO III

1. Atenta no texto que se segue e responde às perguntas acerca do mesmo.

«É preocupante que os desacordos éticos pareçam tão amplos c persistentes. Sc a ética fosse uma
questão de verdade objetiva 1c não fosse meramente uma questão de opinião], não deveriamos espe­
rar um maior acordo a seu respeito? Porém, parece que cm questões de ética as pessoas discordam
sobre tudo. Tem opiniões opostas sobre o aborto, a pena de morte, o controlo de armas, a eutanásia,
o ambiente e o estatuto moral dos animais. Discordam quanto ao sexo, ao uso de drogas t à nossa
obrigação de ajudar crianças necessitadas que vivem noutros paises. A lista poderia continuar indefi -
nidamente. (...] A conclusão natural c que a ética, contrariamente à ciência, não passa de uma questão
de opinião. .»

Racbclx, Os Problemas Jtr Flfcisrjllu. Usbca. Grjdivj p. 244 !ddap<ddo>

1.1 Qual é o problema filosófico que está a ser discutido neste texto?

1.2 Indica a tese defendida no texto como resposta ao problema filosófico em consideração.

1.3 Qual e o principal argumento apresentado no texto a favor da tese defendida?

1.4 Uma vez que o argumento apresentado é válido, o que teria de fazer alguém que quisesse
defender que a sua conclusão é falsa?
2. Lógica formal

. Lógica formal

2.1 Lógica proposicional clássica


Os argumentos sâo um dos elementos centrais da filosofia, tal como deixámos claro no
capítulo 1. É importante começar por esclarecer que um dado argumento pode ser carac­
terizado como dedutivo ou não dedutivo.

- Dedutivo argumento em que se pretende que as premissa(s) garanta(m) ou


estabeleça(m) a conclusão.

- Não dedutivo: argumento em que se pretende que a|s| premissa(s) apoie(m) ou


suporte(m) a conclusão.

Neste capítulo 2 apenas vamos tratar dos argumentos com um caráter dedutivo. Uma
condição necessária, embora por si só não suficiente, para se ter um bom argumento de­
dutivo é que este seja válido. Mas o que é um argumento valido?

Um argumento é dedutivamente válido quando é contraditório ou impossível


ter as premissas todas verdadeiras e a conclusão falsa.

E como se distinguem os argumentos dedutivamente válidos daqueles que sâo in­


válidos? Um bom instrumento para fazer essa distinção consiste em recorrer à lógica
proposicional clássica. Este tipo de lógica desenvolveu-se muito, a partir do século XX,
com os trabalhos de Frege e de Russell. E designada por «classica* para se distinguir das
restantes lógicas contemporâneas e porque aceita o princípio da bivalência, ou seja, cada
proposição só tem um de dois valores de verdade: ou e verdadeira ou é falsa.

Neste capitulo aprofundaremos os elementos centrais desta lógica, que constituirá um


importante auxílio para se avaliar a validade de argumentos filosóficos que possuam um
caráter dedutivo. Se os argumentos forem validos, podemos continuar a discussão filo­
sófica sobre a sua solidez. Mas se os argumentos tiverem um caráter dedutivo e forem
inválidos, saberemos imediatamente que são maus argumentos.

A linguagem da lógica proposicional


Os símbolos que constituem esta linguagem incluem as variaveis proposicionais, as
conetívas(ou operadores proposicionais), as va riáveis de fórmula, os parentes is e o símbolo
de conclusão. Vejamos cada um destes tipos de símbolos.

Comecemos por considerar a seguinte proposição:

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ ■.
Se está calor, então vou a praia.

Esta é uma proposição complexa que inclui duas proposições simples:

Proposição simples 1: Está calor


Proposição simples 2: Vou à praia

35
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Podemos representar cada uma das proposições simples por uma letra e ob­
Nota
No Acionário apenas se teremos o seguinte dicionário da proposição complexa:
listam proposçôes simples
(ou seja, proposições sem ■-

qualquer operador ou co­ p = Está calor


netiva). q = Vou á praia.

As letras p e q são as variáveis proposicionais. Sào em número infinito e correspon­


dem a proposições simples. O dicionário ê a lista que estabelece uma correspondência
entre cada uma das letras que se escolheu usar e uma proposição simples (expressa na
linguagem natural, no nosso caso, em português).

Uma proposição simples é uma proposição sem qualquer conetiva, ou operador


proposicional.

Uma proposição complexa, ou composta, e uma proposição com pelo menos uma co­
netiva, ou operador proposicional.

Uma conetiva, ou operador proposicional. é uma expressão do tipo <se.-. então*,


«não». «ou», etc., que se adiciona a proposições simples de modo a formar novas
proposições, tal como no exemplo acima: Se está caloi. então vou á praia.

As conetivas, ou operadores proposicionais verofuncionais, traduzem-se pelos seguin­


tes símbolos:

1 Nota
Símbolo Designação Estas conetivas, ou operadores, designam-se ve­
rofuncionais dado que o valor de verdade da pro­
Negação posição mais complexa (ou seja, com conetivas) e
determinado apenas pelos valores de verdade das
proposições que a compõem. Por exemplo, se con­
A Conjunção siderarmos duas proposições, como <Esta calor»
e «Vou ã praia», e se as ligarmos com a conetiva
V Disjunção inclusiva da implicação «se— então* saberemos o valor de
verdade da proposição complexa *Se está calor, en­
tão vou a praia* se soubermos o valor de verdade
V Disjunção exclusiva da proposição «Está calor» e da proposição «Vou a
praia». Mas isso não sucede com as conetivas não
Condicional, ou implicação verofuncionais. Por exemplo, a conetiva <O José
acredita que está calor» não e verofuncional, uma
vez que a verdade ou falsidade de *Está calor* nào
+-+ Bi condicional, ou equivalência e suficiente para determinar a verdade ou falsidade
de <0 José acredita que está calor*.

A linguagem da lógica proposicional inclui também variáveis de fórmula As variáveis


de fórmula são letras tais como A B C, etc., que abreviam tanto proposições simples
como proposições complexas.

Nesta linguagem, são ainda importantes os parêntesis, <(..-)», que são usados para de­
terminar o âmbito das conetivas, ou operadores (tal como veremos mais adiante).

E. por fim, o símbolo «.’.», utilizado para sinalizar a conclusão de um argumento.

36
2. Lógica formal

Para sistematizar, aqui fica uma síntese dos símbolos utilizados:

"--------------------------------- -- ---------------------------------------------------------- '


Símbolo Designação

p. q. A— Variáveis proposicionais

A, B, C._. Variáveis de formula

- Operador da negação

A Operador da conjunção

V Operador da disjunção inclusiva

V Operador da disjunção exclusiva

- Operador da condicional

Nota
Operador da bicondicional
Existem outras convenções de
simbologia. Por exemplo, para as
{-) Parêntesis, para o âmbito variáveis preposicionais podem
usar-se maiusculas. O importante
e ser coerente e usar a mesma
Indicador de conclusão convenção do principio ao fim.

As fórmulas da lógica proposicional podem ser bem ou mal formadas. Para serem bem
formadas e preciso seguir um conjunto simples de regras. Assim, as fórmulas bem formadas
da linguagem da lógica proposicional são geradas a partir das variáveis proposicionats,
pelas seguintes regras:

1. Qualquer variável proposicional é uma fórmula bem formada. Por isso, se tivermos
uma fórmula apenas como p, não há qualquer erro na sua formulação.

2. O resultado de colocar antes de qualquer fórmula bem formada o símbolo de nega­


ção "• é igualmente uma fórmula bem formada. Por exemplo, se tivermos a variável
q e colocarmos o símbolo de negação então obtemos a fórmula bem formada ~*q.

3. O resultado de juntar quaisquer duas fórmulas bem formadas por A ou V ou V. ou —>


ou * e delimitar o resultado com parêntesis é uma fórmula bem formada. Assim, se
tivermos p e se tivermos "*q, e se juntarmos essas fórmulas com a conetiva da con­
junção e delimitarmos com parêntesis, obtemos a seguinte fórmula bem formada:
(.□ A '<]}.

Seguindo as presentes regras, podemos sustentar que p é uma fórmula bem formada,
mas "•(q) não é uma fórmula bem formada, dado que apenas se colocam os parêntesis, tal
como se sublinha na regra 3, quando se juntam duas fórmulas bem formadas por coneti­
vas verofuncionais. Assim, por exemplo, a seguinte fórmula proposicional é uma formula
bem formada: (s ~* (g —► s)).

37
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Formalização em lógica proposicional


Conhecida a linguagem da lógica proposicional, pode começar a fazer-se a formaliza­
ção lógica de proposições que surgem na linguagem natural.

Comecemos com o operador da negação, que na linguagem natural surge com a ex­
pressão «não». Por exemplo, *a tortura não e moralmente correta*. Apesar de esta ser a
expressão canónica, podemos expressar esta mesma proposição com expressões alter­
nativas, por exemplo: «não é verdade que a tortura seja moralmente correta»; «é falso que
a tortura seja moralmente correta*. Em todas essas expressões o dicionário é exatamente
o mesmo, a saber:

p = A tortura é moralmente correta.


<________________________ _________________________________________________________.

Com base nesse dicionário, a formalização da proposição em análise é:

Tipicamente, a conjunção aparece em proposições como a seguinte: «Sócrates foi um


importante filósofo e Platão desenvolveu um pensamento original*. Algumas expressões
alternativas, como «Sócrates foi um importante filósofo, mas Platão também desenvolveu
um pensamento original*, «tanto Sócrates foi um importante filósofo como Platão desen­
volveu um pensamento original*, ou «embora Sócrates tenha sido um importante filósofo.
Platão desenvolveu um pensamento original*, referem essa mesma proposição. Por isso,
o dicionário utilizado é o mesmo:

A disjunção inclusiva é uma disjunção em que um ou ambos os disjuntos podem ser


simultaneamente verdadeiros. Por exemplo, «O José ganhou o Euromilhões ou a Vera
ganhou o Euromilhões». Ou. de forma alternativa: «O José ou a Vera ganharam o Euromi­
lhões* (podem ganhar os dois ao mesmo tempo). Neste caso, o dicionário que estamos a
utilizar é o seguinte:

/------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ \
p = O José ganhou o Euromilhões.
q = A Vera ganhou o Euromilhões.
s_________________________________________________________________________________ J

E a formalização dessa proposição é:

{pVq}
____________________________________________■
2. Lógica formal

Por sua vez, a disjunção exclusiva sucede quando os disjuntos não podem ser simul­
taneamente verdadeiros, como no seguinte caso: <Ou Sócrates nasceu em Atenas ou
nasceu em Roma*. Outra forma de expressar esta mesma proposição: «Sócrates nasceu
ou em Atenas ou em Roma*. Esta proposição complexa é composta por duas proposições
simples; por isso, c dicionário e o seguinte:

-------------
p = Sócrates nasceu em Atenas.
q = Sócrates nasceu em Roma.
________ J
E a sua formalização é:

(p ü. q)

A condicional, ou implicação, é tipicamente introduzida na linguagem natural com as


expressões «se... então.,.*. Por exemplo, «Se Sócrates foge da prisão, então Sócrates viola
as leis da cidade de Atenas*. Mas esta mesma condicional tem expressões alternativas,
como as seguintes: «Sócrates viola as leis da cidade de Atenas se ele fugir da prisão*;
«Sócrates viola as leis da cidade de Atenas desde que ele fuja da prisão*; «sempre que
Sócrates foge da prisão, ele viola as leis da cidade de Atenas*; «Sócrates fugir da prisão
é uma condição suficiente para ele violar as leis da cidade de Atenas*; «Sócrates violar
as leis da cidade de Atenas é uma condição necessária para ele fugir da prisão*, entre
outras. Todas estas condicionais expressam exatamente a mesma proposição. Por isso, o
dicionário é:

Por fim, a bicondicional, ou equivalência, expressa simultaneamente condições neces­


sárias e suficientes, como no seguinte caso: «Uma coisa ê ouro se. e só se tem número
atómico 79*. Esta proposição pode expressar-se de diferentes formas, tal como: «uma coi­
sa é ouro se. e somente se. tem número atomico 79»; ■se uma coisa e ouro, então tem o
numero atomico 79 e vice-versa »; «uma condição necessária e suficiente para alguma coi­
sa ser ouro é ter o número atómico 79*: entre outras. O dicionário neste caso é o seguinte:

r------------------------------------------

p = Uma coisa é ouro.


q = Uma coisa tem número atómico 79.
_______ J
Sendo a sua formalização:

(p q)

39
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Âmbito dos conetivos


O âmbito de uma conetiva numa determinada formula lógica ê a parte sobre a qual ela
opera.

Por exemplo, na formula (p A -*£?} a negação aplica-se apenas ã variável preposicional


*g>, enquanto a conjunção se aplica a toda a formula. Por isso, a conjunção é a conetiva
comi maior âmbito. A conetiva principal, ou com maior âmbito, é a que se aplica a toda a
proposição.

Utilizando um outro exemplo, pode constatar-se que as seguintes proposições são


diferentes:

r------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
1. Se não está sol, então vou ao cinema.
2. Não é verdade que se está sol, entào vou ao cinema.
L_______________________________________________ ___________________________________éi

Na proposição 1. a negação so afeta a antecedente da condicional, operando a coneti­


Nota
0 dicionário que va da condicional sobre toda a proposição. Por isso, neste caso, a condicional é a conetiva
estamos a utili­ de maior âmbito.
zar e o seguinte:
p = Está sol.
A formulação de 1 é a seguinte:
q = Vou ao cine­
ma.
Cp —* q)

Jã na proposição 2, a conetiva da negação não opera apenas sobre a antecedente


mas sobre toda a condicional, tendo a seguinte formulação lógica:

lp

É também diferente afirmar:

r----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- >
3. Está sol, e se está calor, então vou ã praia.
4. Se está sol e estã calor, então vou à praia.
L_______________________________________ ___________________________________________-

Em 3, a conetiva com maior âmbito é a conjunção. A formulação lógica é:

(p A |q r))

Mas em 4, a conetiva com maior âmbito é a condicional. A formulação lógica e:

#P A gj —i♦

40
2. Lógica formal

Prático de formalizaçào lógica em filosofia


Para formalizar logicamente proposições e argumentos filosoficos devem seguir-se as
seguintes normas:

1. Representar canonicamente a proposição ou o argumento em analise.

2. Construir um dicionário que torne claro quais sâo as variáveis proposicionais que
abreviam as proposições simples, ou elementares. As proposições simples, ou ele­
mentares, são aquelas proposições que não têm qualquer conetiva, ou operador
proposicional.

3. Uma vez feito o dicionário, formalizar em linguagem lógica (isto é, com as conetivas
e as variaveis proposicionais} a proposição ou argumento.

Por exemplo, considere-se o seguinte argumento:

Se as pessoas que praticam homicídios nâo devem ser condenadas, então o homi­
cídio é moralmente correto. Mas o homicídio não é moral mente correto. Logo, as
pessoas que o praticam devem ser condenadas.

A primeira tarefa a efetuar é a representação canónica, deixando claro quais são as


premissas e a conclusão:

(1) Se as pessoas que praticam homicídios nâo devem ser condenadas, então o
homicídio é moral mente correto. (Premissa)
(2) O homicídio não é moralmente correto. (Premissa)
(3) Logo, as pessoas que praticam homicídios devem ser condenadas. (Conclusão)
*■_____________________________________________________________________________ ■*

A tarefa seguinte é construir o dicionário:

p = As pessoas que praticam homicídios devem ser condenadas.


q = O homicídio é moralmente correto.
■■_____________________________________________________________________________ ■■

Por fim, apresenta-se a formalizaçao na linguagem da lógica proposicional:

(0
(2)
(3) :.P

Esta formalização também poderá ser apresentada na horizontal, separando-se as


premissas por vírgulas

(-P -> qk-q.’-P)

41
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Um outro exemplo: no livro Cnton de Platão, Sócrates apresenta o seguinte argumento


para continuar na prisão e para não ter receio de tomar a cicuta:

A minha morte será um sono perpétuo ou a minha morte será a entrada para uma
vida melhor. Se a minha morte for um sono perpétuo, então eu não devo ter medo da
morte. Se a minha morte for uma entrada para uma vida melhor, então eu não devo
ter medo da morte. Logo, de qualquer forma, eu não devo temer a morte.

A representação canônica deste argumento e a seguinte:

- -

(1} A minha morte será um sono perpétuo ou a minha morte será a entrada para uma
vida melhor. {Premissa)
(2) Se a minha morte for um sono perpétuo, então eu não devo ter medo da morte.
(Premissa}
(3} Se a minha morte for uma entrada para uma vida melhor, então eu não devo ter
medo da morte. (Premissa}
(4} Logo, de qualquer forma, eu nâo devo ter medo da morte. (Conclusão)
_____________________________________________________________________________ J

O dicionário para este argumento e:

r -
p = A minha morte será um sono perpetuo.
q = A minha morte será a entrada para uma vida melhor.
r= Devo ter medo da morte.
k______________________________________________________________________________ j

Com base neste dicionário, a formalização lógica é:

(1) <p v q)
(2) (p —» ->r)
(3) (q —> t)

Ti--------- ■------ --------------- _____________

Ou. na horizontal:

1_______ (p V q). (p —♦ -f), (q —» ->r) -r


______________ 2

Funções de verdade da lógica preposicional clássica


Até agora traduzimos proposições da linguagem natural para a linguagem da lógica
preposicional. Mas para se determinar se um certo argumento e dedutivamente válido ou
inválido precisamos primeiro de analisar as funções de verdade da lógica proposicional
clássica. Ou seja, precisamos de estudar as circunstâncias que fazem uma proposição ser
verdadeira ou fatsa, expressas por cada conetiva, ou operador proposicional verofuncio-
nal. Uma vez que a lógica proposicional clássica é bivalente. cada proposição pode ser ou

42
2. Lógica formal

verdadeira iVi ou falsa (F|, sendo que as funções de verdade de cada conetiva são dadas
pelas seguintes regras:

r
Designação Função

Negação Inverte o valor de verdade

So e verdadeira se as proposições elementares que


Conjunção
a compõem forem ambas verdadeiras
Sõ e falsa se as proposições elementares que a
Disjunção inclusiva
compõem forem ambas falsas
So e verdadeira quardo uma proposição elementar
Disjunção exclusiva
for verdadeira e a outra falsa, e vice-versa
Sõ e falsa se a antecedente for verdadeira e a con­
Condicional
sequente falsa
Só e verdadeira se os seus dois lados tiverem o
Bicondicional
mesmo valor de verdade

Com base nestas funções de verdade da lógica proposicional classica pode construir-
-se tabelas de verdade. Estas tabelas são diagramas lógicos que listam todas as possí­
veis combinações de valores de verdade para cada variável proposicional presente numa
determinada fórmula proposicional. Mostram-nos, alem disso, se essas formulas prepo­
sicionais são verdadeiras ou falsas em cada uma das possíveis combinações de valores
de verdade. E preciso sublinhar que as linhas (ou seja, as circunstâncias possíveis} das
tabelas de verdade variam consoante o número de variáveis proposicionais, de acordo
com a fórmula 2" (em que n representa o numero de variaveis). Assim, temos as seguintes
tabelas de verdade:

Negação Conjunção Disjunção inclusiva

P "TP P í <P A P P (P V <?}


V FV V V V V V tf tf V V V

F tf F V F V F F tf F V V F

F V F F V F tf F V tf

F F F F F F F F F F

Disjunção exclusiva Condicional Bicondicional

P P (P V <?) P 4 <P -*■ P P (P <?}

tf tf V F V V V V v tf tf tf V V v

tf F V tf F V F V F F tf F V F F

F tf F tf V F V F V V F tf F F V

F F F F F F F F V F F F F V F

43
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Avaliação de fórmulas proposicionais


Com base nas funções de verdade da lógica proposicional clássica, as fórmulas pro­
posicionais podem ser classificadas como tautológicas, contraditórias, ou contingentes:

• Tautologia (ou verdade lógica): quando a fórmula proposicional tem o valor «V» em
todas as possíveis combinações de valores de verdade.

> Contradição ;ou falsidade lógica): quando a fórmula proposicional tem o valor «F» em
todas as possíveis combinações de valores de verdade.

r Contingência: caso a fórmula proposicional tenha o valor «V» em algumas circunstân­


cias e o valor *F* nas outras circunstâncias.

Por exemplo, considere-se a seguinte fórmula proposicional:

Começamos por construir a tabela de verdade para


essa fórmula proposicional, sendo a coluna da esquer­ p <? - lp v "<?)

da a coluna das possibilidades ou circunstâncias. Cada V V


uma das proposições pode ser verdadeira ou falsa, sen­ V F
do que *V* abrevia o valor lógico de *verdade» e <F>
F V
abrevia o valor logico de «falsidade». Uma vez que na
nossa formula proposicional temos duas variáveis, p e q, F F
então o número de linhas da tabela é 22 {quatro linhas),
ou seja, quatro possíveis combinações dos seus valores
de verdade.

Seguidamente, preenchemos a coluna da direita, P q ' <p V “q)


que é a coluna das operaçóes lógicas (de acordo com
V V V V
as funções de verdade da lógica proposicional clássica}.
As operações fazem-se do menor âmbito para o maior V F V F
âmbito. Por isso, vamos iniciar pelos valores dep e de q. F V F V

F F F F

I=!__ t
A operação seguinte é "*q, que inverte o valor de q,
p - (p
tal como se pode constatar.
V V V FV

V F V VF

F V F FV

F F F VF

44
2. Lógica formal

O passo seguinte é a operação da disjunção inclu­ I <P


p q V
siva entre p e "*q. Relembramos que uma disjunção
inclusiva só é falsa se ambos os disjuntos forem falsos V V V V F V

Por isso, será apenas a terceira circunstância que terá o V F V V V F


valor de verdade *F*. tal como se pode verificar.
F V F F F V

F F F V V F

Por fim. falta resolver o operador com maior âmbito


P <? - ÍP V g)
na presente fórmula proposicional, ou seja, a negação.
Para isso, invertemos o valor de verdade da última ope­ V V F V V F V

ração que resolvemos e, dessa forma, ficamos com o V F F V V V F


seguinte resultado final.
F V V F F F V

F F F F V V F

*___ I
Dado que o resultado final apresenta valor *F* em
algumas circunstâncias e *V* numa outra circunstância,
estamos perante uma contingência.

Considere-se agora a fórmula proposicional ip V 'p}. V


P <P -p)
Evidencie-se que uma vez que há apenas uma variável
V V V F V
proposicional, ou seja p. obtemos uma tabela apenas
com duas linhas, ou circunstâncias. Uma vez que em to­ F F V V F
das as circunstâncias possíveis se apresenta o valor de
verdade <V», a fórmula |p V "*p) é uma tautologia.

No entanto, com a fórmula proposicional (p A “'p) ob­ A


P (P L,P)
tém-se uma contradição, dado que em todas as circuns­
V V F F V
tâncias possíveis o valor de verdade da formula é <F*.
tal como se pode constatar. F F F V F

Como verificámos, as linhas das tabelas de verdade


variam consoante o número de variaveis preposicionais
de acordo com a fórmula 2” (em que representa o
número de variáveis). Assim, se n = 1, ficamos com duas
linhas; se n = 2, ficamos com quatro linhas <2 X 2); se
n = 3, ficamos com oito linhas (2 X 2 X 2); e assim su­
cessivamente.

45
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Para se obter cada combinação de valores começa-se na última letra da variável, al­
ternando com <V> e <F> quantas vezes forem necessárias. Depois, na penúltima variável
alterna-se <V> e «F> em grupos de dois, seguidamente na antepenúltima alterna-se <V> e
*F* em grupos de quatro e assim por diante até completar as combinações de valores de
verdade das variáveis. Como nos seguintes exemplos:

Nas tabelas de verdade complexas, outro pormenor a que se deve dar muita aten­
ção é a ordem pela qual se começa a determinar os cálculos dos valores de verdade.
Como se calcula o valor de verdade da proposição < ("^P A (Q “* P)' —* "’P) de modo a
determinar se é uma tautologia, contradição ou contingência? A ideia fundamental e
começar pelas conetivas que têm menor âmbito e avançar sucessivamente para as
conetivas que tém maior âmbito. A ordem para a forma proposicional em análise é a
seguinte:

i-

12 1 3 2
((-p A (q -»p)) —• -'pj

Os números por cima da fórmula proposicional representam a ordem de cálculos


dos valores de verdade de cada uma das conetivas. Primeiro calculam-se as conetivas
que estão marcadas com 1, a seguir as conetivas marcadas com 2 e, por fim, a conetiva
assinalada com 3, a de maior âmbito. Assim, obtemos os valores de verdade de toda a
fórmula proposicional.

Avaliação da validade de argumentos


Um argumento é dedutrvamente válido se a conclusão for uma consequência lógica
das premissas; ou seja, se for contraditório ou impossível ter as premissas todas verda­
deiras e a conclusão falsa. Assim, se um argumento é válido, então não existe qualquer
circunstância em que todas as premissas sejam verdadeiras e a conclusão falsa. Para ava­
liar a validade dos argumentos dedutivos pode recorrer-se ao inspetor de circunstâncias
(também designado tabela de validade;.
2. Lógica formal

O inspetor de circunstâncias consiste num dispositivo gráfico com uma sequência de


tabelas de verdade que mostra o valor de verdade de cada premissa e da conclusão em
todas as circunstâncias possíveis (ou, por outras palavras, em todas as possíveis combina­
ções de valores de verdade).

Se existir pelo menos uma circunstância (linha) em que todas as premissas


são verdadeiras e a conclusão e falsa, então o argumento e inválido.
Caso contrario, o argumento é válido

Para se entender como este método funciona vejamos um exemplo simples. Conside­
re-se o seguinte argumento:

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- ■.
Se Deus existe, não há mal no mundo.
Mas há mal no mundo. Logo, Deus não existe.

Fazendo a representaçáo canónica, deixamos claro que este argumento é constituído


por duas premissas e uma conclusão, nomeadamente:

(1} Se Deus existe, então não há mal no mundo. (Premissa)


(2} Há mal no mundo. (Premissa)
(3) Logo, Deus não existe. (Conclusão)

Para esse argumento podemos, de forma a conseguirmos formalizá-lo na linguagem da


lógica propos icional, apresentar o seguinte dicionário:

---------------------------------------- -------------------------------------------------------------- -.

p = Deus existe.
q = Há mal no mundo.
■- __________

Com base nesse dicionário ja conseguimos apresentar a sua formalizaçao:

(1} [p * -tfl
(2) q
(3) :. -P

Ou, na horizontal:

Mas será essa fórmula argumentativa vá­ q (p -> -,q]


P "'p
lida? Para o averiguarmos, podemos cons­
V V
truir um inspetor de circunstâncias. A coluna
mais à esquerda é a coluna das possibilida­ V F
des, tal como sucede com as tabelas de ver­ F V
dade. As restantes colunas correspondem a
F F
cada uma das premissas e â conclusão.

47
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Agora é preciso preencher os valores


de verdade <ou valores lógicos) de cada
uma das colunas, seguindo a mesma es­
tratégia que se utilizou para as tabelas
de verdade. Vale a pena relembrar que
as operações fazem-se do menor âmbito
para o maior âmbito. O resultado final é o
que se vê na tabela ao lado.

Na página 47 destacamos que se existir pelo menos uma circunstância (linha} em que
todas as premissas sào verdadeiras e a conclusão é falsa, então uma dada fórmula argu-
mentativa é inválida. Caso contrário, tal fórmula argumentativa é válida Como se pode
constatar ao analisar o presente inspetor de circunstâncias, a fórmula argumentativa
(p —* ”q). q ~p é válida dado que não há qualquer circunstância em que as premissas
sejam todas verdadeiras e a conclusão falsa.

Ao seguirmos esta estratégia constataremos que também é válido aquele argumento


que formulámos anteriormente (página 42), e que dizia o seguinte:

■■---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1} A minha morte será um sono perpétuo ou a minha morte sera a entrada para
uma vida melhor.
(2) Se a minha morte for um sono perpétuo, entào eu não devo ter medo da morte.
(3) Se a minha morte for uma entrada para uma vida melhor, então eu nâo devo ter
medo da morte.
(4) Logo, de qualquer forma, eu não devo ter medo da morte.

Recordemos que este argumento tem a seguinte formalização:

- ---------------------------------------------------------------------------------------- ■%.
(p v g). (p -* “'0. (g —* -d t
____________________________________________________

Ao construirmos um inspetor de circunstâncias obtemos o seguinte resultado:

P <? r <P V (P —
(g -► -rj ■ r

V V V V V V V F FV V F FV F V

V V F V V V V V VF V V VF V F

V F V V V F V F FV F V FV F V
IÃJ| auLadigital V F F V V F V V VF F V VF V F

Para construíres automatica- F V V F V V F V FV V F FV F V


mente tabelas de verdade
e inspetores de circunstãn- F V F F V V F V VF V V VF V F
aas, utiliza o softwwe que
F F V F F F F V FV F V FV F V
está em:
examefil11.leyaeducacao.com F F F F F F F V VF F V VF V F

43
2. Lógica formal

2,2 Principais formas de inferência válidas


As formas de inferências validas sâo fórmulas argumentativas válidas que podem ser
úteis para reconhecer facilmente padrões argumentativos válidos, sem ter de recorrer a
inspetores de circunstâncias, e para construir rapidamente argumentos válidos. As princi­
pais inferências válidas são as seguintes quatro:

Modus totíens

11) {4 É3)
l.2j
13) -4

r----------------------------------------------------- 1
Silogismo disjuntivo

(TJ (A V B) (1> (A V 8|
(2> -A cu (2) ~>B
|3j Z.8 (3> A A

Nota: Nestas inferências validas estamos a utilizar as variáveis A e B como variáveis de


fórmula e, por isso, podem abreviar proposições simples e complexas. É por isso que a
seguinte fórmula argumentativa também é uma instância ou exemplo de modus ponens:

(1) ( -p —■ (g r)}
(2} -p
(3) ■ ■■ (q - r)

Dado que neste caso a formula complexa "*p pode ser abreviada pela variável de fór­
mula A e a formula complexa (q —► r) pode ser abreviada pela variavel de fórmula B. con­
seguimos ver que se trata de uma estrutura de modus ponens.

Além das quatro inferências lógicas apresentadas, poderá ser útil, para clarificar teses
filosóficas ou para fazer inferências, saber algumas equivalências lógicas Mas o que sào
equivalências lógicas? Duas fórmulas proposicionais com os mesmos valores de verdade
em quaisquer circunstâncias são formulas equivalentes. Ora, se tivermos fórmulas equi­
valentes, entào de uma dada fórmula equivalente podemos inferir a outra mantendo os
mesmos valores de verdade. Assim, quando temos equivalências podemos também fazer
inferências válidas. É útil dominar as seguintes três inferências lógicas: as duas leis de
De Morgan e a contraposição.

O matemático Augustus De Morgan formulou equivalências importantes a partir dos


dois princípios seguintes:

- Primeiro princípio: a negação da disjunção «A ou B» é igual â conjunção *não-A e


não-B*.

- Segundo princípio: a negação da conjunção *A e B* é igual ã disjunção *não-A ou


nãc-Bí.

49
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Notas
Com base no primeiro principio, podemos formular a primeira lei de
1 Uma vez que sào formulas eq uiva- De Morgan
lentes, a primeva lei de De Morgan
também se pode expressar da se­ r

guinte forma: (1) -<0 VH}


A -«fí|-* (4 v fi). (2)(-'A A -»B)
L_____________ _________________ J
1 Dado que são fórmulas equiva­
lentes, a segunda lei de De Morgan
expressa-se igualmente da seguin­ E com base no segundo princípio podemos formular a segunda lei de
te forma:
De Morgan2:
2 E, uma vez que sào equivalências
-------------------------------- "l
lõg cas, também se pode expressar
(1) -<0 AH}
a contra posição desta forma:
(2) /J-tA V ->B)
L_________

Uma outra equivalência lógica a partir da qual podemos fazer inferências ê a


contraposição2:

------------------------------------------------
(1j tA B)
(2) (-8 -» -4J
_________________________ ____________________________

Por fim, existem algumas formas de inferência válidas que nos ajudam a simplificar
proposições complexas sem cometermos qualquer erro de raciocínio lógico. Poderá ser
útil conhecermos a seguinte inferência designada como dupla negação:

(1) ’ -A
(2)

Ou seja, de uma fórmula corri dupla negação podemos inferir a sua afirmação

2,3 Principais falácias formais


As faladas formais sào argumentos que parecem válidos, mas não o sào. E importante
conhecer duas falácias formais muito comuns.

Em primeiro lugar, não se pode confundir o modus ponens com a falácia da afirmação
da consequente

Falácia da afirmaçao da consequente Modus penens 1

Enqua nto o modos ponens e vá lido, esta fala cia da afi rmaçào da conseq ue nte é inválida
Pode constatar-se isso de duas formas:

• ao construir um inspetor de circunstâncias {pois, teremos pelo menos uma circunstân­


cia com premissas verdadeiras e conclusào falsa);

• ao apresentar um caso que exemplifique esse argumento inválido.

50
2. Lógica formal

Por exemplo:

Se estou em Lisboa, estou em Portugal;


Ora, estou em Portugal:
Logo, estou em Lisboa.

Neste exemplo, as premissas podem ser verdadeiras e a conclusão falsa (posso estar
em Coimbra ou qualquer outro local de Portugal que não Lisboa}.

Em segundo lugar, é importante nâo confundir o modus tolíens com a falácia da nega­
ção da antecedente

F Falácia da negação da antecedente JHbdta toflens 1

Aqui também estamos perante uma formula argumentativa inválida e, por isso, falacio­
sa, dado que podemos ter premissas verdadeiras e conclusão falsa {sendo isso verificável
através da construção de um inspetor de circunstâncias}.

51
Ferramentas do Trabalho Filosófico

RESUMO

• A lógica preposicional e um instrumento útil para determinar se um argumento


filosófico com um caráter dedutivo e válido ou inválido.

- Na linguagem da lógica preposicional ignora-se o conteúdo específico e aten­


de-se as operações lógicas existentes.

- Cada proposição elementar, ou simples, que constitui os argumentos e repre­


sentada pelas letras p. q. r, & assim sucessivamente - designam-se variáveis
proposicionais.

- As conetivas proposicionais são expressões que se adicionam a proposiçóes


de modo a formarem-se novas proposições.

■ O âmbito de uma conetiva numa determinada fórmula lógica e a parte sobre


a qual ela opera. A conetiva principal, ou com maior âmbito, e a que se aplica
a toda a proposição.

- As conetivas proposicionais verofuncionais usadas na lógica proposicional são:

Designação Linguagem natural Símbolo lógico

Negação <não> -

Conjunção *e> A

Disjunção inclusiva <ou* V

Disjunção exclusiva <ou... ou» V

Condicional *se... então» -

Bicondicional <se, e só se* *—+

- As funçóes de verdade das conetivas proposicionais verofuncionais:

Designação Função

Negação Inverte o valor de verdade

So e verdadeira se as proposições elemen­


Conjunção tares que a compõem forem ambas verda­
deiras
So e falsa se as proposições elementares
Disjunção inclusiva
que a compõem forem ambas falsas
So e verdadeira quando uma proposição
Disjunção exclusiva elementar for verdadeira e a outra falsa, e
vice-versa
So e falsa se a antecedente for verdadeira e
Condicional
a consequente for falsa
So e verdadeira se os seus dois lados tive­
Bicondicional
rem o mesmo valor de verdade

52
2. Lógica formal

• A tabela de verdade e um diagrama logico das condições de verdade de uma


formula proposicional composta, ou complexa. E útil para determinar se uma
dada fórmula proposicional e tautológica, contraditória ou contingente:

- tautologias sào formulas proposicionais verdadeiras em todas as possrveis


circunstâncias;

- contradições sào fórmulas proposicionais falsas em todas as possíveis cir­


cunstâncias;

-contingências sào formulas proposicionais verdadeiras em algumas cir­


cunstâncias e falsas nas outras circunstâncias.

• O inspetor de circunstâncias e um dispositivo grafico com uma sequência de


tabelas de verdade que mostra o valor de verdade de cada premissa e da G Conceitos
conclusão em todas as circunstâncias possíveis. Se existir pelo menos uma
circunstância em que todas as premissas sâo verdadeiras e a conclusão e • lógica formal
falsa, entào o argumento ê inválido. • argumentos dedutivos
• validade
’ As inferências válidas mais importantes sào as seguintes:
• vanáveis proposicionais
- Modus ponercs: i4 —* B), A .. B
• vanáveis de fórmula
- Modus tofleos: (4 —* Si, “*8 .'. —A • conetivas ou operodores
proposicionais
- Silogismo hipotético: {A —* 8}, <8 —* C)|4 —* Q
• âmbito
- Silogismo disjuntivo: |4 V 8), “A A 8 ou (A V 8}, “»B4
• funções de verdade
- Leis de De Morgan: —14 V B) /. (-»A A "•8) • tabelas de verdode

-{4*8) (—A V —B| • inspetores de circunstâncias


• inferências válidas
- Contraposição: (4 —* 8}f-B —* “»A)
- modus ponens
- Dupla negação: “* “*4 /. A
- modus Mlens

- silogismo hipotético
• Duas importantes falácias formais:
- silogismo disjuntivo
- Falácia da afirmação da consequente: |4 —* 8|. 8 .‘.A - leis de De Morgan

- Falácia da negação da antecedente: í4 —* S|. -*4 “'B


- contraposição
- dupla negoção
• falácias formois
- folácia da afirmoçâo
da consequente
- folácia da negação
da antecedente

53
Questões resolvidas e questões propostas

GRUPO I
Nas questões do Grupo I, seleciona a única alternativa correta.

1- Compara os dois argumentos que se seguem e depois seleciona a alternativa que os avalia
corretamente.

Argumento 1: Se estou em Lisboa, então estou em Portugal Estou em Lisboa. Logo, estou
em Portugal.
Argumento 2: Se estou em Lisboa, então estou em Portugal. Não estou em Portugal. Logo,
não estou em Lisboa.

São ambos válidos.

(B| São ambos inválidos.


(C) Apenas o argumento 1 e válido.
(D) Apenas o argumento 2 é válido.

2 A proposição «Está calor e vou à praia» é verdadeira se, e só se,

IA) é verdade que «está calor* e é verdade que «vou à praia*.


{B| é verdade que «está calor* ou é verdade que «vou à praia*.
(C) é verdade que «está calor*, embora não seja verdade que «vou ã praia*.
(D) é verdade que «se está calor, então vou ã praia*.

3. A proposição «Ando a correr ou estou na praia» é falsa se, e só se,


{A) é verdade que «ando a correr* e é verdade que «estou na praia*.
(B| é verdade que «ando a correr*, mas não é verdade que «estou na praia*,
não é verdade que «ando a correr*, mas é verdade que «estou na praia*.

(D) não e verdade que «ando a correr* e não e verdade que «estou na praia*

4. Na formula proposicional ((p A q) —» — (r A s)), a conetiva com maior âmbito é

{A) uma negação.


< B> uma condicional.
<C) uma disjunção.
(D) uma conjunção.
Queitõei reiolvid-ai e- quc-rtõei propoitas

5. Considera as fórmulas lógicas proposicionais que se seguem. Seleciona, depois, a alternativa


que as descreve corretamente.

1. Tlp ->q) "(p A q)|


2. (-p Vp>

(fl) 1 e 2 são tautologias. (C) 1 e tautológica, mas 2 é contraditória.


<B> 1 e 2 são contradições. (D) 2 é tautológica, mas 1 é contraditória.

6. Considerando quep abrevia «Estou na praia», q abrevia «Estou a nadar» e r abrevia «Está sol»,
a frase «Não estou na praia nem estou a nadar caso não esteja sol» expressa uma proposição
com a seguinte forma lógica:
(A)rpA-q}-»-f) (C) (“* r —» (p A q))
|B)(-r->rpA-’q)| (DirpA-qiA-r)

7. Se p è uma proposição verdadeira e q é uma proposição falsa,


a conjunção (p A q) tem de ser verdadeira.
(B) a disjunção |p V g) tem de ser falsa.

a condicional (p —* q| tem de ser verdadeira,

a condicional (p —* qj tem de ser falsa.

8. Considera as formulas lógicas argumentativas que se seguem. Seleciona, depois, a alternativa


que as descreve corretamente.

1. (p - q), f' g -r r)(p —> — r)


2-(p V g), “>q :.p

(A) 1 e 2 são válidas. <C|1 e válida e 2 é inválida.


(B) 1 e 2 são inválidas. (D) 1 e invalida e 2 e válida.

9 A partir de «Se não vou á praia, então nao estã calor» e de «está calor», por modus toílens, in­
fere-se que

não estã calor. (C) não vou à praia.


{B| está calor. (D) vou a praia.

10. Pelas leis de De Morgan, a afirmação «Nao e verdade que estou na praia e estou no cinema» é
o mesmo que afirmar

(A) «Estou na praia ou estou no cinema».

(B) «Estou na praia e estou no cinema».


(C) «Não estou na praia ou não estou no cinema*.

(D) «Não estou na praia e não estou no cinema*.


GRUPOU
Responde de forma direta e objetiva às questões que se seguem.

1. Determina quais das seguintes fórmulas são «formulas bem formadas» e quais não são.

a) íp —* -'q A

b) rrpA-q»

«J
d) rs->rí<-»(uA(rVr)))

e) «(p-► q) A —-p)

2 Apresenta a representação canónica, o dicionário e a formalização lógica dos argumentos que


se seguem.
A alínea a) encontra-se resolvida.

a) Deus existe no pensamento. Ora. se Deus existe no pensamento e nào na realidade, então
um ser mais perfeito do que Deus é concebível. Mas nào é concebível um ser mais perfeito
do que Deus. Deste modo. Deus existe na realidade.

RESOLUÇÃO
Representação canónica:
(T| Deus existe no pensamento.
•;2J Se Deus existe no pensamento e não na realidade, entào um ser mais perfeito do que Deus e concebível.
(3| Não é concebível um ser mais perfeito do que Deus.
(4| Logo. Deus existe na realidade.

Dicionário: Formalização:
p = Deus existe no pensamento. i1l p
q = Deus existe na realidade. ]2) «p A -qi _ r)
r = Um ser mais perfeito do que Deus e concebível. PI T
q

Não é verdade que se Aristóteles tiver razão, a arte é trivial. A arte e trivial ou é imitação. Logo,
a arte é imitação.

c) Se Cícero é um orador persuasivo, então utiliza um discurso sedutor e cativa o auditório.


Cícero é um orador persuasivo. Logo. Cícero cativa o auditório.

d) Deus nào quer evitar o mal ou ele nào o pode fazer. Se Deus não quer evitar o mal, então ele
não é totalmente bom. Se Deus não pode evitar o mal. então ele não é omnipotente. Portanto.
Deus não é totalmente bom ou não é omnipotente.

e) Temos conhecimento moral. Isto porque1 se nós temos conhecimento moral, então os princí­
pios morais básicos são demonstráveis ou autoevidentes. Ora. eles são tanto demonstráveis
como autoevidentes.

1A expressão <isto porque» e um indicador de premissa. Ou seja, a seguir a essa expressão estão as premissas que
justificarão a conclusão, que esta antes de <sto porque*.
Queitõe* reiolvid-ai e quc-stõei propoita»

3. Determina se as seguintes fórmulas proposicionais são tautologias, contradições ou contin­


gências.

A alínea a) encontra-se resolvida.

a) <(p A q1
) -» (p A (p —•

RESOLUÇÃO

A formula lógica em anáise e uma tautologia.


Como se pode observar pelos números que estào na parte superior da fórmula, as operações lógicas resol-
vem-se avançando do menor âmbito para o maior ãmbrto.

b) l( ■'g A (p q)) —> -p}


<0 -’<(p-»qfV(p->r))
d) ((p A q) - -r)

e) -,«(p-*q)Ap)-*g)

4. Determina a validade dos argumentos apresentados no exercício 2 deste grupo.

5. Constrói inspetores de circunstâncias para mostrar que a falácia da afirmação da consequente


e a falácia da negação da antecedente são formulas argumentativas inválidas.6

6. Identifica se os seguintes argumentos sao inferências válidas ou falácias formais. Explicita


o nome da inferência válida ou da falácia formal em cada um dos casos.

a) Se está a chover, então abro o guarda-chuva. Mas não está a chover. Por tsso, não abro o
guarda-chuva.

b) Se há conhecimento, as nossas crenças estão justificadas Mas as nossas crenças não estão
justificadas. Logo, não há conhecimento.
c) A indução não é justificável. Se a indução não e justificável, a ciência não é uma atividade
racional. Logo, a ciência não é uma atividade racional

d) A causa do universo é ou uma causa impessoal ou um Deus pessoal. Mas a causa do universo
não é impessoal. Portanto, a causa do universo é um Deus pessoal.
e) Se os animais têm sensações ou são conscientes, então eles são dignos de respeito. Ora, os
animais são dignos de respeito. Logo, os animais têm sensações ou são conscientes.

57
Ferramentas do Trabalho Filosófico

•Lógica informal

3,1 Argumentos não dedutivos


No capítulo 2, analisámos os argumentos com um caráter dedutivo nos quais a validade
depende exclusivamente da sua forma lógica. Contudo, a validade ou força dos argu­
mentos não dedutivos não e detetável através da sua forma lógica, mas sim de aspetos
informais (daí a designação de *lógica informal»). Por isso, agora é preciso examinar os ar­
gumentos que possuem um caráter não dedutivo. Relembramos que num argumento não
dedutivo pretende-se que a(s) premissa(s) apoie(m) ou suporte(m) a conclusão Podemos
organizar os argumentos não dedutivos em três categorias principais:

1. argumentos indutivos (com generalizações e previsões};

2. argumentos por analogia: e

3. argumentos de autoridade.

Argumentos indutivos
Existem dois tipos de argumentos indutivos muito recorrentes: generalizações e pre­
visões. Num argumento indutivo por generalização, extraímos uma conclusão geral (que
inclui casos de que nào tivemos experiência) a partir de um conjunto de premissas refe­
rentes a alguns casos de que já tivemos experiência. Por exemplo:

-------------------- s
f

(1) Todos os rubis observados até hoje são vermelhos


Logo, (provavelmente) todos os rubis são vermelhos.
L___ ____________

Num argumento indutivo por previsão baseamo-nos num conjunto de premissas refe­
rentes a alguns acontecimentos observados no passado para inferir uma conclusão acer­
ca de um acontecimento futuro. Por exemplo:

f '
(1) Todos os rubis observados até hoje são vermelhos.
(2) Logo, (provavelmente) o próximo rubi que observarmos será vermelho.
I.___________ =___________________________________ J

Como avaliar estes dois tipos de indução? Ha doits critérios centrais de avaliação que
nos ajudam a determinar se estamos perante uma boa ou uma má indução. Uma boa indu­
ção satisfaz os seguintes critérios:

Critério 1: A amostra deve ser diversificada, náo ocultando contraexemplos conhecidos.


Critério 2: A amostra deve ser representativa.

58
3. Lógica mf ormal

De acordo com o critério 1, a amostra, para se fazer a indução, deve conter um número
relevante de casos observados e não se podem evitar os contraexemplos (ou casos con­
trários). Suponha-se que alguém apresenta o seguinte argumento:

(1) Conheci três noruegueses e estes sâo antipáticos.


{2) Por isso, todos os noruegueses são antipáticos.
\_____________________________________________________________________________ r/

Este não é um bom argumento indutivo precisamente porque desrespeita o critério 1,


ou seja, a amostra não é diversificada e, se procurarmos ativamente, encontramos facil-
mente contraexemplos de noruegueses simpáticos. Quando se viola este critério 1, come­
te-se a falácia da generalização precipitada.

De acordo com o critério 2. os casos que se observarem devem representar de forma


adequada o que estiver em causa, ou seja, a nossa amostra deve ser representativa para
se fazer uma boa indução. Imagine-se que um político para defender a rejeição da eutaná­
sia apresenta o seguinte argumento:

--------------- --------------------

(1} As pessoas que vão ã missa aos domingos rejeitam a eutanásia.


12) Por isso, todos os portugueses rejeitam a eutanásia.
-d

Parece obvio que este argumento e bastante fraco e a razão tem a ver com a violação
do critério 2. Ou seja, os casos observados por aquele político não permitem inferir in­
dutivamente aquela conclusão, porque a amostra é tendenciosa e só está a analisar um
determinado universo do conjunto de todos os portugueses (a saber, não se analisou o
grupo das pessoas que não vão à missa). Quando este critério 2 é violado, comete-se a
falácia da amostra não representativa

Argumentos por analogia


Os argumentos por analogia são aqueles que se baseiam na semelhança, ou analogia,
entre coisas diferentes. Ou seja, num argumento por analogia partimos de um conjunto de
semelhanças relevantes entre dois elementos para atribuir a um deles uma característica
observada no outro. Deste modo, se duas coisas sâo semelhantes em vários aspetos re­
levantes. pode concluir-se que provavelmente também serão semelhantes noutro aspeto.
De forma geral, a estrutura dos argumentos por analogia é a seguinte:

<1)0 objeto X é como ou é semelhante ao objeto Y.


{2) O objeto Y tem a característica C.
<3) Logo, {provavelmente) o objeto X tem a característica C.

59
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Repare-se que na premissa 1 a expressão «é como* ou <é semelhante* está a estabele­


cer uma comparação entre características dos objetos. Ou seja, salienta-se que ambos os
objetos, Xe K, têm características ou propriedades análogas que são relevantes. Por isso,
se o objeto Vtem uma outra característica relevante. C, é provável que o objeto X também
tenha essa característica. Muitos dos argumentos da filosofia seguem essa estrutura. Por
exemplo:

r---------- -------------------\

(1) O universo é como uma máquina.


P) Uma maquina é produzida por alguém inteligente.
p» Logo, o universo é produzido por alguém inteligente.

Para avaliar este tipo de argumento há um conjunto de critérios a que se deve atender:

Critério 1: As semelhanças observadas entre os objetos devem ser relevantes para a


característica a inferir na conclusão.
Critério 2: Entre os dois objetos da comparação não devem existi r diferenças relevan­
tes para a característica a inferir na conclusão.

Em relação ao critério 1, chama-se a atenção para que as semelhanças entre os objetos


Xe Y sejam pertinentes para se conseguir uma boa inferência. Um exemplo de argumento
que desrespeita este critério é o seguinte:

(1) O livro X é semelhante ao livro X, dado que ambos têm o mesmo número de
páginas, são feitos do mesmo tipo de papel e têm a mesma cor na capa.
(2) O livro Y é um excelente livro de literatura.
(3) Por isso, o livro X também é um excelente livro de literatura.

Como se pode constatar, as características em consideração nesta analogia não são re­
levantes ou pertinentes para determinar a qualidade literária do texto do livro; assim, esta­
mos perante um argumento de analogia bastante fraco, dado que não satisfaz o critério 1.

O critério 2 sublinha que não devem existir diferenças relevantes para a característica
que se visa inferir por analogia na conclusão. Um exemplo de um mau argumento de ana­
logia que desrespeita este critério é o seguinte:

As mulheres são como os homens.


<2) Os homens têm próstata.
{3| Logo, as mulheres tém igual mente próstata.
______ □

Este é um mau argumento porque há diferenças relevantes entre homens e mulheres


com respeito á biologia do sistema genital. Ou seja, a premissa 1 estabelece que as mu­
lheres sâo como os homens com respeito a direitos. Contudo, uma tal semelhança de di­
reitos entre homens e mulheres não nos permite concluir alguma característica específica
sobre biologia genital.

60
3. Lógica mf ormal

Quer se desrespeite o critério 1 ou o critério 2, comete-se a falácia da falsa analogia

Considere-se o argumento apresentado anteriormente:

(1) O universo é como uma máquina.


|2) Uma máquina é produzida por alguém inteligente.
■;3) Logo, o universo é produzido por alguém inteligente.

Hedda Sterne, Mogcano (1949)

Sera que o argumento comete a falácia da falsa analogia? Isso é defensável, pois pode
argumentar-se que existem diferenças significativas entre o universo e uma máquina. Por
exemplo, enquanto uma máquina tem em geral uma função, sendo criada para realizar
um determinado propósito específico, é bastante disputável que o universo tenha uma tal
característica.

Argumentos de autoridade
Num argumento de autoridade recorre-se ã opinião de um perito ou de um especialis­
ta para reforçar a aceitação de uma determinada proposição, tendo em geral a seguinte
estrutura:

------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ "T],
(1) Uma autoridade diz que 4 (sendo 4 a abreviatura de alguma proposição}.
(2) Logo, | provavelmente'! 4 é o caso.
J

Uma vez que somos seres sociais e que a maior parte daquilo que sabemos depende
dos outros, no nosso dia-a-dia utilizamos muito esta estrutura argumentatrva: por exemplo,
quando vamos ao médico e ele nos diz que um determinado medicamento nos vai curar ou
quando um dentista diz como é composta uma determinada molécula, entre outros casos.

61
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Na filosofia, por vezes também surgem argumentos com esta estrutura. Aqui fica um
exemplo:

r---------------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1) Platão é um filósofo de renome e defende que existem almas imortais.
12) Logo, existem almas imortais.
I.
Será este um bom argumento de autoridade ou aqui a autoridade está a ser usada de
forma abusiva? Para determinar isso, é preciso considerar os seguintes critérios:

Critério 1: Deve identificar-se claramente as fontes e citar-se as autoridades.


Critério 2: As autoridades devem ser reconhecidamente especialistas no assunto
em questão, sendo imparciais e isentas, e a sua opinião não deve ser disputada
por outros peritos igualmente qualificados.

De acordo com o critério 1, num argumento de autoridade deve indicar-se a fonte dessa
ideia. Assim, por exemplo, para se concluir legitimamente que uma determinada molécula
tem uma determinada composição química não basta alegar que um cientista ou um deter­
minado estudo afirma isso sem especificar qual é o nome do cientista ou o nome do estudo.

Quanto ao critério 2, este indica que a autoridade a que se está a recorrer deve ser
efetivamente uma autoridade relevante na área para se estabelecer a conclusão. Assim,
não se pode, por exemplo, recorrer a um especialista em física para inferir uma conclusão
na área da economia nem vice-versa. Aém disso, essa autoridade nâo deve ter interesses
pessoais, ou enviesa mentos, no assunto em consideração, de forma a ser imparcial. E. por
fim, é muito importante sublinhar que aquilo que a autoridade afirma deve ser amplamente
consensual entre as autoridades na área em consideração; ou seja, o que é afirmado pela
autoridade numa dada área não é disputado por outros especialistas dessa área.

Quando se desrespeita algum destes critérios, comete-se a falácia do apelo ilegítimo


à autoridade. Será que o argumento que expusemos acima comete essa falácia? Parece
que sim. Pois, ainda que Platão seja um especialista competente, há outros especialistas
igualmente competentes que disputam seriamente a tese sobre a existência de almas
Anselm Feuerbach, jmortai5 Dessa forma, o argumento em consideração não satisfaz os critérios de um bom
SnmpósÃo de Píatòo , ...
argumento de autoridade.

G2
3. Lógica mf ormal

3.2 Falácias informais


Uma falácia é um argumento que parece bom mas não o é, ou seja, é um argumen­
to enganador que dá a ilusão de oferecer razões para que se aceite uma determinada
proposição, quando na realidade não oferece. Pode distinguir-se entre falácias formais e
informais:

• Uma falácia formal é uma dedução inválida que parece válida (como as falacias
da afirmação da consequente ou da negação da antecedente).
• Uma falácia informal é um erro de argumentação que não depende da forma
lógica do argumento; ao invés, o seu caráter enganador deve-se ao seu conteúdo.

AJgumas falácias informais já foram apresentadas anteriormente, como as falácias in­


dutivas da generalização precipitada e da amostra não representativa, a falácia da falsa
analogia e a falacia do apelo ilegítimo á autoridade. Agora vamos examinar outras falácias
informais que aparecem com frequência.

Petição de princípio
Comete-se a falácia da petição de princípio quando se pressupõe nas premissas aqui­
lo que se quer ver provado na conclusão. Por exemplo:

(1) As pessoa s são tod as egoístas.


(2) Logo, as pessoas nunca agem de um modo desinteressado.
L._________________________________________________________________________________ J

Na premissa 1 deste argumento já está implícito o que é afirmado na conclusão. Ou


seja, pressupõe-se na premissa a conclusão que se visa estabelecer, dado que a premissa
e a conclusão expressam a mesma ideia. Esta falácia também se designa por argumento
circular, ou falácia da circularidade, uma vez que se parte do ponto a que se quer chegar,
formando uma argumentação em círculo.

Falso dilema
Incorre-se numa falácia de falso dilema quando numa das premissas se consideram
apenas duas possibilidades ou alternativas, quando na realidade existem outras possibili­
dades que não estão a ser devidamente consideradas. Por exemplo:

(1) O José é um bom aluno ou será sempre um fracassado ao longo da sua vida.
(2) Mas o José não é um bom aluno.
(3) Logo, o José será sempre um fracassado ao longo da vida.

63
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Repare-se que a nrvel formal não há qualquer problema com este argumento, pois
é um exemplo de um silogismo disjuntivo (que é uma das formas de inferência válida
que analisamos no capítulo 2). Contudo, a nível informal e do conteúdo, se a disjunção
expressa na premissa 1 for falsa, ainda que à primeira vista pareça verdadeira, o argu­
mento deve ser caracterizado como falacioso. Ora, no argumento em análise estamos
perante um falso dilema uma vez que as duas hipóteses em consideração não esgotam
todas as possibilidades sobre a vida do José. Ainda que uma pessoa não seja bom aluno
pode ter sucesso ao longo da vida (existem contraexemplos de grandes empresários e
de grandes cientistas que, apesar de não terem sido bons alunos, têm uma vida repleta
de méritos).

Falsa relação causal


A falácia da falsa relação causal, também conhecida como posfhoc ergo propterhoc
(em português, <depois disso, logo causado por isso*), surge em argumentos nos quais se
atribui erradamente uma relação causal a dois estados ou eventos com base numa suces­
são temporal. Por exemplo:

“a
(1) O governo eliminou os impostos sobre os combustíveis no primeiro trimestre
e o desemprego diminuiu no segundo trimestre.
(2) Logo, o desemprego desceu por causa da eliminação dos impostos nos com­
bustíveis.

Este é um mau argumento, pois a descida do desemprego após a eliminação dos im­
postos pode dever-se a outros fatores como, por exemplo, as empresas estarem a investir
mais, haver mais procura de produtos, etc. Estamos perante uma falácia deste tipo sempre
que se conclui que há uma relação causal (causa-efeito) entre dois eventos que ocorrem
um após o outro.

Ad homínem
Numa falácia ad homínem. ou de ataque ã pessoa, procura descredibilizar-se uma de­
terminada proposição ou argumento atacando a credibilidade do seu autor. Por exemplo:

(1) Defendes que Deus não existe apenas porque estás a seguir a moda.
(2) Logo, Deus existe.

Nesta falácia procura mostrar-se a verdade de uma determinada proposição ao ata­


car-se quem defende o seu oposto, criticando-se a pessoa em vez daquilo que ela de­
fende.

64
3. Lógica informal

Ad populum
Esta falácia e parecida com a falácia do apelo ilegítimo
à autoridade. Mas, em vez de se apelar a uma autorida­
de específica, no caso da falácia ad popu/um (em portu­
guês, <apelo ao povo*) recorre-se à opinião popular ou á
da maioria. Por exemplo:

*
(1) Quase toda a gente come animais e não vê
problema nisso.
<2) Logo, náo há problema em comer animais.

Argu mentos deste ti po são fa lac iosos porque o facto de


alguma coisa ser ampla mente praticada ou acreditada não
é uma prova convincente de que isso é verdadeiro ou de
que deva ser feito. A maioria pode estar enganada, como
de facto esteve no passado em muitos aspetos. Em suma, Norma n RockwelL
o que se deve ou não fazer, o que deve ser acreditado O Juri (1959)
ou não, a verdade ou a falsidade de uma proposição não
deve depender do que a maioria pensa sobre o assunto.

Apelo à ignorância
A falácia do apelo â ignorância consiste em tentar provar que uma proposição é verda­
deira porque ainda não se provou que é falsa, ou que é falsa porque ainda não se provou
que e verdadeira. Por exemplo:

(1) Até hoje ninguém conseguiu provar que Deus existe.


(2) Logo. Deus não existe.
,_ _________ _ _____ _________________________________________________ J

Este tipo de argumento é falacioso, pois o facto de não se conseguir determinar o valor
de verdade de uma dada proposição não é suficiente para que possamos concluir que tal
proposição seja falsa.

Boneco de palha
Através da falácia do boneco de palha, ou espantalho, pretende mostrar-se que se
refutou um determinado argumento ou teoria através da refutação da versão distorcida e
enfraquecida do mesmo. Por exemplo:

(1) Uma política que aceite refugiados está a abrir as fronteiras do país sem
restrições.
(2) Mas, numa era de terrorismo, é perigoso abrir de tal forma as fronteiras.
(3) Logo, deve rejeitar-se uma política que aceite refugiados.

65
Ferramentas do Trabalho Filosófico

Com este argumento pretende defender-se uma política contra refugiados. Porém, na
premissa 1 distorce-se, ou faz-se um espantalho, da posição sustentada pelos defensores
típicos da política a favor dos refugiados. Ou seja, quem defende uma política de apoio a
refugiados não defende a premissa 1. O problema neste argumento é que. deste modo,
critica-se uma mera caricatura da posição em consideração.

Derrapagem
A falácia da derrapagem, ou bola de neve, ocorre quando se tenta mostrar que uma
determinada proposição é inaceitável porque a sua aceitação conduziria a uma cadeia de
implicações com um desfecho inaceitável, quando, na realidade, ou um dos elos dessa ca­
deia de implicações é falso, ou a cadeia no seu todo é altamente improvável. Por exemplo:

(1) Se permitirmos o casamento entre pessoas do mesmo sexo, não tarda esta­
remos a permitir a poligamia, o incesto e até a pedofilia.
(2) Mas isso é claramente errado, dado que conduzirá ao fim da civilização.
(3) Logo, não devemos permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
L__________________ __________________ ____________________ J
Estamos perante uma falácia da derrapagem, uma vez que as premissas sustentam
relações causais muito duvidosas. Ou seja, do casamento homossexual não se seguem
causal mente coisas como a pedofilia ou o fim da civilização.

RESUMO

• A validade ou força dos argumentos não dedutivos não e detetável através da


sua forma lógica, mas sim de aspetos informais.

- Num argumento não dedutivo pretende-se que a<s) premissa(s) apoie(m) ou


suporte<m) a conclusão.

- Podemos organizar os argumentos nâo dedutivos em três categorias princi­


pais: argumentos indutivos (com generalizações e previsões), argumentos por
analogia, e argumentos de autoridade

• Dois tipos de argumentos indutivos muito recorrentes: generalizações e


previsões.

• Uma boa indução satisfaz os seguintes critérios:

- Critério 1: A amostra deve ser diversificada, não ocultando contraexemplos


conhecidos. (Caso se viole este critério, comete-se a falácia da generaliza­
ção precipitada.;-

- Critério 2: A amostra deve ser representativa. (Caso se viole este critério,


comete-se a falacia da amostra não representativa}

■ Os argumentos por analogia são aqueles que se baseiam na semelhança ou


analogia entre coisas diferentes.

66
3. Lógica mf ormal

• Para avaliar os argumentos de analogia há um conjunto de critérios a que se


deve atender:

- Critério 1: As semelhanças observadas entre os objetos devem ser relevan­


tes para a característica a inferir na conclusão.

- Critério 2: Entre os dois objetos da comparação não devem existir diferen­


ças relevantes para a característica a inferir na conclusão.

• Ao desrespeitar-se esses critérios comete-se a falácia da falsa analogia

• Num argumento de autoridade recorre-se a opinião de um perito ou de um


especialista para reforçar a aceitação de uma determinada proposição.

• Para determinar se estamos perante um bom argumento de autoridade e pre­


ciso considerar os seguintes critérios:

- Critério 1: Deve identificar-se claramente as fontes e citar as autoridades.

-Critério 2: As autoridades devem ser reconhecidamente especialistas no


assunto em questão, sendo imparciais e isentas, e a sua opinião não deve
ser disputada por outros peritos igualmente qualificados.

• Quando se desrespeita algum destes critérios comete-se a falacia de apelo


ilegítimo a autoridade G Conceitos
• Uma falácia informal e um erro de argumentação que não depende da forma • argumentos não dedutivos
lógica do argumento; ao invés, o seu caráter enganador deve-se ao seu con­
teúdo. • argumentos indutivos (de
generalização e previsão)
• Algumas falácias informais que aparecem com frequência e que e util conhecer:
• argumentos por analogia
-Petição de princípio: quando se pressupõe nas premissas aquilo que se
quer ver provado na conclusão. • argumentos de autoridade

- Falso dilema: quando numa das premissas se consideram apenas duas pos­ • falácia informal
sibilidades ou alternativas e na realidade existem outras possibilidades que • falácia da generolizaçâo
não estão a ser devidamente consideradas. precipitoda
- Falsa relação causal: quando se atribui erradamente uma relação causal a • falácia da amostro não
dois estados ou eventos com base numa sucessão temporal. representotiva
- Ad bominem: quando se procura descredibilizar uma determinada proposi­
• falácia da falsa analogia
ção ou argumento atacando a credibilidade do seu autor.
• falácia de opelo ilegítimo
- Adpapulum quando se recorre ilegitimamentea opinião popular ou a maio­
á outondade
ria para provar a verdade de algo.
• petição de princípio
-Apelo ã ignorância: quando se tenta provar que uma proposição e verda­
deira porque ainda não se provou que e falsa, ou que e falsa porque ainda • falso dilema
não se provou que e verdadeira.
• falso relação causal
-Boneco de palha: quando se pretende mostrar que se refutou um deter­ • ad hominem
minado argumento ou teoria através da refutação da versão distorcida e
enfraquecida do mesmo. • ad populuai

- Derrapagem: quando se tenta mostrar que uma determinada proposição é • apelo à ignorãncio
inaceitável porque a sua aceitação conduziria a uma cadeia de implicações • boneco de polha
com um desfecho inaceitável, quando, na realidade, um dos elos dessa ca­
deia de implicações e falso ou improvável. • derrapagem

67
Ferramentas do Trabalho Filosófico

ESQUEMATIZANDO

ARGUMENTOS NAO DEDUTIVOS

INDUTIVOS ANALOGIA AUTORIDADE

Generalizações Previsões

PETIÇÃO DE PRINCÍPIO

FALSO DILEMA

FALSA RELAÇÃO CAUSAL

AD HOMINEM

AD POPULUM

APELO Ã IGNORÂNCIA

FALÁCIAS
INFORMAIS • BONECO DE PALHA

: DERRAPAGEM
G

FALÁCIA DA GENERALIZAÇÃO
PRECIPITADA

j FALÁCIA DA AMOSTRA
REPRESENTATIVA

: FALSA ANALOGIA
G
G
G
G

* APELO À AUTORIDADE

68
Questões propostas

GRUPO I

1- Indica se as afirmações seguintes são verdadeiras ou falsas. Corrige as afirmações falsas.

a) De uma lata com 1000 feijões, retirámos aleatoriamente uma amostra de 50 feijões brancos
e 50 feijões pretos, o que nos permite inferir dedutivamente que os feijões brancos e pretos
estão em igual número dentro da lata.

b) Os raciocínios por indução argumentam a partir de um caso ou exemplo específico para pro­
varem que outro caso, semelhante ao primeiro em muitos aspetos, é também semelhante
num outro aspeto determinado.

c) Ainda que às vezes seja apropriado citar uma autoridade para suportar uma opinião, a maioria
das vezes não o é. O apelo à autoridade é especialmente impróprio se a pessoa não está
qualificada para ter uma opinião de perito no assunto ou se não há acordo entre os peritos do
campo em questão.
d) As falácias formais sào aquelas que sõ podem ser detetadas através de uma análise do con­
teúdo do raciocínio.
e) <O sol nasce quando o galo canta, portanto o canto do galo faz o sol nascer.» Este é um exem­
plo da falácia da falsa relação causal.

f) Quando afirmamos <Einstein era um pacifista; logo, o pacifismo tem de ser uma posição cor­
reta», estamos a cometer uma falácia od hominem.
fiO E is uma falácia da derrapagem: *Dado que não estou a mentir, segue-se que estou a dizer a
verdade.»

h) Numa falácia od hominem ataca-se quem defende um argumento e nào o próprio argumento.
i) A falácia da derrapagem baseia-se numa sequência de implicações que parecem verdadei­
ras, mas sào falsas.

j) A validade ou força dos argumentos indutivos não exclui a falsidade da conclusão, mesmo
que as premissas sejam verdadeiras, mas torna improvável que a conclusão seja falsa.

GRUPO II
Responde de forma direta e objetiva às questões que se seguem.

1. Identifica a falácia informal que ocorre em cada um dos argumentos seguintes. Apresenta uma
breve justificação das tuas respostas.

a) Tal como os bombeiros, as hospedeiras usam farda. Os bombeiros apagam fogos. Logo, as
hospedeiras também apagam fogos.

b) o trovão ocorre sempre depois do relâmpago. Logo, o trovão é causado pelo relâmpago.

c) O Luís está a defender que um futebolista ganhe muito dinheiro, justamente porque o irmão
dele é futebolista.

d) O João viu um gato preto antes de escorregar. Logo, ele escorregou porque viu um gato preto.

e) O João disse á mãe: *No teste de Filosofia, tirei 8 Mas. mais 0.5 dava 8,5; ora, isso arredonda
para 9; e já sabes que com 9 todos os professores arredondam para 10. Por isso, vou passar
a Filosofia.»
Ferramcntai do Trabalho Filoiófico

Questões propostas

f) O Principezinho pergunta ao bêbado: «Estás a fazer o quê?* Este responde: «Estou a beber.*
O Principezinho insiste: «Estás a beber porquê?* «Para me esquecer*, responde o bêbado.
Curioso volta a questionar: «Para te esqueceres de quê?» Este responde: «Para me esquecer
de que tenho vergonha.» «Mas vergonha de quê?*, volta a insistir o Principezinho. Responde
o bêbado: «Vergonha de beber.*

g) A pena de morte é uma punição justa nalguns casos. Porque há casos tão graves que, se o
criminoso fosse condenado a uma pena mais leve, não seria feita justiça.

h) E evidente que o universo ê infinito, porque, se nâo fosse, já se teria conseguido determinar
o seu tamanho.

i) A lógica proposicional ê uma teoria errada. Eles dizem que os argumentos válidos levam a
conclusões verdadeiras, mas é óbvio que isso nem sempre acontece.

j) Ou tudo o que fazemos ê involuntário ou todas as nossas ações são voluntárias. Quando
corremos ou jogamos ã bola, isso náo ê involuntário. Logo, todas as nossas ações são volun­
tárias.

GRUPO III
Responde de forma direta e objetiva ás questões que se seguem.

Lê o seguinte texto inspirado no livro A República, de Platao.

sócrates: Imagina uma caverna subterrânea que tem a toda a sua largura unia abertura por onde en­
tra Livremente a luz e, nessa caverna, homens presos desde a infância, de tal modo que nâo possam
mudar de lugar nem volver a cabeça devido às correntes que lhes prendem as pernas e o tronco, po­
dendo tâo-sõ ver aquilo que se encontra diante deles. Supõe igualmcnte que eles consideram reais as
sombras projetadas na parede.
glauco: Estou a imaginar tudo isso. Mas nâo julgariam eles que nada existiria de real além das som
bras?
sócrates: Exatamente! Para eles, aquelas sombras sào a única realidade.
glauco: Mas o que pretendes concluir?
sócrates:Póis. meu querido Glauco, c essa, precisamente, a imagem da condição humana. Ora. tal
como aqueles prisioneiros, também nós muitas vezes confundimos a aparência com a realidade e
julgamos verdadeiro o que ê falso. É verdade que nào estamos presos por correntes metálicas como
aqueles prisioneiros, mas por outro género de "correntes", que nào imobilizam o corpo mas sim a
mente, como c o caso da preguiça, medo, vícios, e falta de espírito crítico.

Responde às seguintes questões.

1. Representa canonicamente (com duas premissas e uma conclusão) o argumento náo dedutivo
presente neste texto.

2. Que tipo de argumento náo dedutivo está descrito neste texto? Justifica.

3. Será que o argumento não dedutivo descrito neste texto é forte ou fraco?
Justifica adequadamente a tua resposta, começando por enunciar os critérios de avaliação
desse tipo de argumento.

70

A Ação Humana
e os Valores

4. Determinismo e liberdade na ação humana

5. A dimensão pessoal e social da ética

6. A necessidade de fundamentação da moral - análise


comparativa de duas perspetivas filosóficas

7. O problema da justiça social


A Ação Hum-ana e oi Valores

Determinismo e liberdade na ação humana


Um importante problema metafísico frequentemente associado ã filosofia da ação é o
problema de saber se existem (ou não) ações genuinamente livres.

Existem diferentes sentidos para a palavra «liberdade*. Podemos falar da liberdade de


fazer aquilo que nos apetece {este é o tipo de liberdade que geralmente temos quando
não estamos presos); da liberdade de eleger o governo (este é o tipo de liberdade que a
maioria dos cidadãos adultos possui nas chamadas «sociedades democráticas*); também
podemos dizer que estamos livres de preocupações financeiras; ou livres de ouvir um ser­
mão dos pais; podemos, ainda, dizer que somos livres de escrever e publicar o que muito
bem entendermos; etc.

No presente contexto, o conceito de liberdade » que nos vai interessar tem um sig­
nificado muito especifico e está intimamente ligado com a noção de ^responsabilidade
moral». Dizer que alguém agiu livremente, neste sentido, é dizer que esse agente é, de
algum modo, responsável por essa ação. E afirmar que existem açòes livres é o mesmo
que dizer que existe livre-arbítrio

Temos IrvTe-arbítrio se, e só se, algumas das coisas que acontecem dependem,
em última análise, da nossa vontade.

Assim, o problema de que nos iremos ocupar ao longo deste capítulo 4 pode ser desig­
nado «problema do livre-arbítrio’ e pode ser formulado conforme se segue:

«Será que temos IrvTe-arbrtrio?»


t__________________________________________ .■

É natural pensarmos que temos livre-arbítrio, pois diariamente somos confrontados


com a necessidade de escolher entre diferentes cursos de ação possíveis e parece
inevitável sentirmos que, em certas ocasiões, aquilo que vem a acontecer depende
fundamentalmente daquilo que decidimos fazer.

Por exemplo, suponhamos que hoje de manhã tínhamos ao nosso disporás seguintes
possibilidades para o pequeno-almoço: tomar chá, leite com chocolate, leite com café,
leite com cereais ou não tomar nada. Imaginemos ainda que, depois de pensarmos so­
bre o assunto, optámos por tomar leite com café. À partida, parece-nos certo que, embo­
ra essa decisão possa ter sido influenciada por vários fatores (como os hábitos e rotinas
da nossa família, os alimentos que tínhamos ã nossa disposição, as necessidades do
nosso organismo, etc.), ela dependia, em última análise, da nossa vontade, isto é, do
nosso livre-arbítrio

Mas se este nos parece ser um modo tão natural de pensar sobre aquilo que fazemos,
então por que razão haveremos de duvidar da existência de livre-arbítrio?

72
4. Determinismo e liberdade na ação humana

O problema surge porque aparentemente também nào conseguimos viver sem assumir
que as mesmas causas terão os mesmos efeitos. Por exemplo, se voltarmos a considerar
o cenário hipotético do nosso pequeno-almoço, acabamos por constatar que quando nos
levantámos para tomar o pequeno-almoço assumimos que o châo nào ia desaparecer de
um momento para o outro debaixo dos nossos pes, que o leite ia aquecer se fosse exposto
a um certo aumento de temperatura, que o chocolate em po ia dissolver-se no leite, etc.
E se algum destes acontecimentos nào ocorresse conforme o previsto, nào nos limitaría­
mos a encolher os ombros e a pensar: «Bem, hoje é daqueles dias em que o chão desapa­
rece {ou o leite não aquece ou o chocolate em pó não se dissolve}?* Trataríamos de tentar
perceber por que é que as coisas nào estavam a decorrer como era suposto, procurando
algum tipo de causa que permitisse explicar essas ocorrências: «Terá havido um tremor de
terra?*; «O fogão (ou o micro-ondas) estará avariado?*; «Será que o leite está estragado?*;
«O que é que há de errado com o leite ou com o chocolate em pó?»; «Será que me enganei
e afinal nào é leite o que está no copo?*; «Estarei a alucinar?*; etc.

Uma forma de explicar esta atitude consiste em assumir que ela se deve ao facto de
termos uma forte convicção de que tudo o que acontece é a consequência necessária do
passado e das leis da natureza. Esta perspetiva ficou conhecida por ^determinismo*.

O determinismo e a tese de que tudo o que


acontece é a consequência necessária
de acontecimentos anteriores e das leis da natureza.

Jackson Pollock pintando. Fotografia: Hans Namuth |1950|

73
A Ação Humana e os Valore*

Uma das mais célebres formulações do determinismo foi apresentada, em meados


do século XIX, pelo matemático francês Pierre-Simon Laplace:

«Rodemos encarar o estado atua) do universo como o efeito do seu passado c a causa
do seu futuro.
Consideremos um intelecto que, num certo momento, conhecesse todas as forças que
põem a natureza em movimento e todas as posições de todos os objetos que compõem a
natureza. Se este intelecto fosse também suficicntemrntr vasto pura analisar todos esses
dados, abrangeria numa única fórmula os movimentos tanto dos maiores corpos do uni
verso como do átomo mais ínfimo. Para esse intelecto nada seria incerto e o futuro, como
Pierre-Simon de
o passado, estaria diante dos seus olhos.»
Laplace
(1749-1827) Picire Siman I Marquês- deí l-upl.icc, Essal Plrilbsophfcjuc stir Jrs Proòabilfltes,
New 'Stork. Cambrldgt* Uniwrsity Press pp 3-4

Rene Magritte, 0 Espe/bo Fqíso (1928)

Assim, de acordo com o determinismo, vivemos num universo com certas leis naturais
que regem as relações entre todas as partículas físicas e, por isso, não é possível que as
mesmas causas tenham efeitos diferentes, ou seja, dadas as mesmas condições iniciais,
as leis da natureza encarregam-se de gerar, necessariamente, os mesmos resultados. Daí
que quando alguma coisa não acontece como era suposto, tenhamos tendência a procu­
rar saber o que é que aconteceu de diferente no passado para que tal tivesse sucedido.

Ora, aparentemente, existe uma tensão entre:

• a crença no determinismo;

• e a crença de que temos livre-arbrtrio.

Se tudo o que acontece é a consequência necessária do passado e das leis da nature­


za, então, dado que as nossas ações também são acontecimentos, também elas serão a
consequência necessária desses dois fatores.

Mas se as nossas ações são a consequência necessária de fatores sobre os quais não
temos qualquer tipo de controlo, então como podem elas depender de nós?

74
4. Determinismo e liberdade na ação humana

Deste modo, parece que, antes de responder à pergunta inicial («Será que temos, efe­
tivamente, livre-arbítrio?»} — daqui em diante designada «problema tradicional* — importa
debruçarmo-nos sobre o chamado «problema da compatibilidade- , ou seja, sobre o pro­
blema de saber se o livre-arbítrio ê {ou não) compatível com o determinismo. Este proble­
ma pode ser assim formulado: «Será o IrvTe-arbrtrio compatível com o determinismo?»
Hã duas respostas possíveis para este problema: o incompatibilismo e o compatibilismo

O incompatibilismo e a tese de que o livre-arbítrio


não é compatível com o determinismo.

Ao passo que

O compatibilismo é a tese de que o livre-arbítrio e compatível com o determinismo.

Se optarmos pela resposta incompatibi-


lista, estamos apenas a dizer que aceitamos
a seguinte condicional: *se o determinismo
for verdadeiro, não temos livre-arbrtrio<
Não estamos a assumir uma posição em re­
lação ao problema tradicional, ou seja, não
nos estamos a comprometer com a verda­
de ou a falsidade do livre-arbítrio, nem com
a verdade ou a falsidade do determinismo.
Se aceitarmos o incompatibilismo, podere­
mos ainda optar por defender uma de duas
perspetivas diferentes no que diz respeito
ao problema tradicional: o libertismo e o
determinismo radical M.C. Escher, /te/obvíc/ode (1953)

O libertismo sustenta que:

1 O livre-a rbitrio é incompatível com o determinismo.


2. Temos livre-arbítrio.
e, por conseguinte,
3. Nem tudo esta determinado.

Ao passo que c determinismo radical sustenta que:

f 1
1. O livre-arbítrio é incompatível com o determinismo.
2. Tudo está determinado.
e, por conseguinte,
3. Não temos livre-arbítrio.

Se chegarmos ã conclusão de que o livre-arbítrio é compatível com o determinismo,


isto é, se adotarmos o compatibilismo, deixamos de ter uma forte razão para duvidar do
nosso (aparente) livre-arbítrio. Podemos simplesmente defender uma tese que ficou co­
nhecida por <determinismo moderado*

75
A Ação Hum-ana e oi Valores

O determinismo moderado sustenta que:

---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- '
1. O livre-arbitrio e compatível com o determinismo.
2. Tudo está determinado.
e
3. Temos livre-arbítrio.
- ,

Em síntese, as principais posições em confronto no que diz respeito a estes problemas


são as seguintes.

Problema da Problema 0 determinismo


compatibilidade: tradicional: e verdadeiro?
Teorias É o livre-arbítrio Temos
compatível com livre-arbítrio?
o determinismo?

Libertismo Não Sim Nào


Incompatibilismo
Determinismo
Não Não Sim
radical
Determinismo
Compatibilismo Sim Sim Sim
moderado

Estas questões revestem-se de uma grande importância filosófica pois sem lhes dar
uma resposta satisfatória teremos dificuldade em entender o que é que significa agir, em
que medida podemos ser responsabilizados (ou nào) por algumas das coisas que aconte­
cem e até mesmo perceber se as pessoas merecem {ou não) ser punidas pelas suas más
ações. Se chegarmos á conclusão de que nào temos livre-a rbrtrio e que nunca poderíamos
agir de maneira diferente daquela como efetivamente agimos, poderemos ter de rever al­
gumas das nossas práticas habituais, como o elogio e a censura, o prémio e o castigo, etc.

4.1 O problema da compatibilidade

A resposta incompatibilista
Começando então pelo problema da compatibilidade, vamos dar início á discussão ex­
plorando de forma mais detalhada a linha argumentativa seguida pelos incompatibilistas.
Um dos argumentos incompatibilistas mais discutidos foi formulado pelo filósofo norte-
-americano Peter van Inwagen. Este argumento - daqui em diante designado ^argumento
da consequência* - diz-nos, resumidamente, o seguinte:

----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1} Se o determinismo é verdadeiro, então não temos possibilidades alternativas.
(2) Se nâo temos possibilidades alternativas, então não temos livre-arbítrio.
(3} Logo, se o determinismo e verdadeiro, entào não temos livre-arbítrio.
{De 1 e 2, por silogismo hipotético)

Como podes constatar, este argumento é válido, pois trata-se de um exemplo de silo­
gismo hipotético. Isto significa que, se aceitarmos todas as suas premissas, somos racio­
na Imente forçados a aceitar a sua conclusão Mas sera sólido?
Defesa da premissa 1
Para defender a premissa 1, os incompatibilistas podem tentar mostrar que, se enten­
dermos o determinismo como a tese de que o passado e as leis da natureza determinam
em cada instante um único futuro, entào, visto que nào controlamos o passado, nem as leis
da natureza, segue-se daqui que caso o determinismo seja verdadeiro, quando agimos
nào temos genuinamente possibilidades alternativas. E precisamente esta ideia que van
Inwagen parece sugerir na obra Uni Ensaio sobre o Livre-arbítrio, ao afirmar o seguinte:

«Sc o determinismo c verdadeiro, entào as nossas ações sào consequências das


leis da natureza e de acontecimentos que ocorreram num passado remoto. Mas nem
aquilo que aconteceu antes de termos nascido, nem as leis da natureza, dependem de
nós. Logo, as consequências destas coisas (incluindo os atos que realizamos agora) nào
dependem de nós.»

Pcter van Inwagen. An Krociy <wi ftw Wllf. OacRinJ. cLirendon Frcss llWJl, p. l(>

Esta defesa da premissa 1 pode ser reconstruída conforme se segue:

(1> Se o determinismo é verdadeiro, entào tudo o que acontece (incluindo as nos­


sas ações) é a consequência das leis da natureza e de eventos que ocorreram
num passado remoto.
(2) Nào controlamos as leis da natureza nem os eventos que ocorreram num passa­
do remoto.
13J Se tudo o que acontece (incluindo as nossas ações} é a consequência das leis
da natureza e de eventos que ocorreram num passado remoto, e nào controla­
mos as leis da natureza nem os acontecimentos que ocorreram num passado
remoto, entào nào temos possibilidades alternativas.
(4) Logo, se o determinismo e verdadeiro, entào nào temos possibilidades alter­
nativas. (De 1-3) Abraham Solomon,
/nocenfe |1859)
A Ação Hum-ana e oi Valores

Defesa da premissa 2
No que diz respeito à premissa 2, os incompatibilistas têm feito notar que intuitivamente
so consideramos que alguém agiu de livre vontade quando sentimos que a pessoa podia
ter agido de outro modo. Caso contrário, não nos parece apropriado responsabilizar a
pessoa pelo curso dos acontecimentos. Vejamos o seguinte excerto:

«Suponha que o raptam e o obrigam a cometer uma serie de crimes terríveis. O raptor
fã lo disparar sobre a primeira vítima forçando-o a premir o gatilho de uma arma,
hipnotiza o para que envenene uma segunda e depois empurra o de um avião fazen­
do o esmagar uma terceira. Milagrosamente, sobrevive ã queda. A situação deixa-o
atordoado, aliviado por ter chegado ao fim a dolorosa experiência. Mas então. para sua
surpresa., é detido pela polícia, que o algema e o acusa de homicídio. Os pais das vítimas
gritam lhe obscenidades enquanto a policia o leva, humilhado, listarão os pais e polícia
a ser justos ao culpa lo pelas mortes?»

Iheodort* SKÍct & Earl Concc. Enlgniuv dei EXfcícix kr. Trud. Vítor Guerreiro. Ijsboi. BtzãriclD . p. 145

à partida, sentimo-nos tentados a dar uma resposta negativa ã última questão


levantada no texto. E se nos perguntarem por que razão nos sentimos inclinados a fazê-
-lo, é bastante plausível assumir que nos justificaríamos com base no facto de não haver
nada que pudéssemos ter feito para evitar o sucedido. Esta linha argumentativa pode ser
explicita mente formulada da seguinte forma:
■■ -.
(1} Se não temos possibilidades alternativas, então não podemos ser moralmente
responsabilizados por nada daquilo que acontece.
(2) Não podemos ser moral mente responsabilizados por nada daquilo que acontece
se, e só se, nada daquilo que acontece depende de nós.
(3} Se não temos possibilidades alternativas, então nada daquilo que acontece de­
pende de nós. {De 1 e 2}
(4} Temos livre-arbftrio se, e só se, algumas das coisas que acontecem dependem
de nós. (Definição de livre-arbítrio)
(5) Logo, se não temos possibilidades alternativas, então não temos livre-arbítrio.
{De 3 e 4}
>

Apesar das razões apresentadas a favor da solidez do argumento incompatibílista. os


compatibilistas não se deixam persuadir. Vejamos em seguida de que forma estes autores
procuram justificar a sua posição.

A resposta compatibilista
Uma vez que não aceitam o argumento dos incompatibilistas, os compatibilistas terão
de rejeitar pelo menos uma das suas premissas. Isto significa que existem pelo menos
duas linhas de argumentação possíveis para os compatibilistas:

1. rejeitar a premissa 1 do argumento da consequência;


2. rejeitar a premissa 2 do argumento da consequência.

A primeira estratégia está associada ao chamado «-compatibilismo clássico* (e a au­


tores como Thomas Hobbes, John Locke, David Hume, John Stuart Mill, G.E. Moore, AJ.

78
4. Determinismo e liberdade na ação humana

Ayer, etc.). A segunda estratégia está associada ao chamado «compatibilismo contempo­


râneo' (e a autores como Harry Frankfurt, Daniel Dennet, Susan Wolf, entre outros}.

O compotibilismo clássico e a análise condicional


A premissa 1 do argumento da consequência é a seguinte proposição condicional: «Se
o determinismo é verdadeiro, então não temos possibilidades alternativas*. Assim sendo,
para mostrar que esta condicional é falsa, os compatibilistas clássicos terão de defender
que a sua negação é verdadeira, ou seja, terão de afirmar a sua antecedente e negar a
sua consequente. Ou seja, terão de afirmar que o determinismo é verdadeiro, mas, apesar
disso, é falso que não temos possibilidades alternativas, ou, dito de outra forma, terão de
afirmar que. apesar da verdade do determinismo, temos possibilidades alternativas

A estratégia utilizada pelos compatibilistas clássicos passa por uma interpretação muito
específica do conceito de «possibilidades alternativas-. Tipicamente, entendemos o con­
ceito de possibilidades alternativas do seguinte modo:

Possibilidades alternativas (simples)


um dado agente. A, tem possibilidades alternativas se, e so se, A podia ter agido
de modo diferente daquele como efetivamente agiu.

Contudo, os compatibilistas clássicos sugerem que a noção de possibilidades al­


ternativas seja alvo de uma análise condicional (ou hipotética). De acordo com esta
interpretação:

Possibilidades alternativas (análise condicional}:


um dado agente, A. tem possibilidades alternativas se, e só se, A teria agido
de modo diferente daquele como efetiva mente agiu, se assim o tivesse desejado
(ou seja, se tivesse desejos diferentes daqueles que, efetivamente, tem).

Assim, de acordo com os compatibilistas clássicos, mesmo num mundo determinista


faz sentido dizer que, por vezes, podíamos ter agido de outro modo (e, por conseguinte,
que somos livres), porque existem situações nas quais teríamos agido de modo diferente
se assim o tivéssemos desejado

Por exemplo, supõe que apesar de teres vários testes na próxima semana foste convida­
do para uma festa ã qual tens imensa vontade de ir. Mas vamos supor também que, ainda
assim, decidiste ficar em casa a estudar para os testes da próxima semana. Assumindo que
o determinismo é verdadeiro, essa decisão foi a consequência necessária do passado e das
leis da natureza. Contudo, podemos ainda assim imaginar dois cenários alternativos, chame­
mos-lhes «cenário A* e «cenário B>.

No cenário A, a porta do teu quarto encontrava-se trancada e, portanto, mesmo que


tivesses decidido ir à festa, não serias livre de o fazer, pois não se pode dizer que
terias ido á festa se assim o tivesses desejado.
No cenário B, a porta do teu quarto estava destrancada e. portanto, pode dizer-se
que, se tivesses desejado ir á festa, terias ido á festa (isto é, não terias sido impedido
por nada, nem por ninguém, de o fazer).
A Ação Hum-ana e oi Valores

Um compatibilista clássico diria que, apesar de o determinismo ser verdadeiro em


ambos os cenários, no segundo caso a tua decisão de ficar em casa foi livre (apesar de ser
determinada), ao passo que no primeiro não.

Oeste modo, podemos concluir que para os compatibilistas clássicos somos livres quan­
do não somos coagidos, isto e, quando não somos impedidos de fazer aquik> que queremos
(ou forçados a fazer o que não queremos) por nenhuma pessoa ou circunstância externa.
Por exemplo, um homem que passa fome no deserto não é livre de ingerir alimentos, pois
ainda que desejasse ingerir alimentos não poderia fazê-lo, seria impedido de o fazer pela
sua circunstância. Pelo contrário, um homem que faz uma greve de fome por uma causa polí­
tica é livre de ingerir alimentos, porque se quisesse ingerir alimentos poderia fazê-lo (ou seja,
não seria impedido de o fazer por nada nem por ninguém). Neste sentido, os compatibilistas
clássicos utilizam a palavra *liberdade* como sinónimo de ausência de coação.

Deste modo, os compatibilistas clássicos podem argumentar que:

(1} Temos possibilidades alternativas e. por conseguinte, temos livre-arbítrio se, e


só se, teríamos agido de modo diferente daquele que efetiva mente agimos caso
tivéssemos crenças e desejos diferentes daqueles que efetivamente temos.
(2) Ainda que o determinismo seja verdadeiro, por vezes é verdade que teríamos
agido de modo diferente daquele que efetivamente agimos se tivéssemos cren­
ças e desejos diferentes daqueles que efetrvamente temos.
(3| Logo, ainda que o determinismo seja verdadeiro, por vezes temos possibilidades
alternativas e, por conseguinte, temos livre-arbítrio. (De 1 e 2)
■■_____________________________________________________________________________ ■

Objeção à análise condicional


Mas será que os incompatibilistas se deixam persuadir por esta estratégia? Afinal de
contas se o fizerem terão de abandonar a perspetiva incompatibilista. A verdade é que
os incompatibilistas rejeitam esta linha argumentativa. E rejeitam-na precisamente porque
não aceitam a análise condicional do conceito de <possibilidades alternativas*. A análise
condicional do conceito de *possibilidades alternativas* sustenta que uma frase como:

r----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

a) *4 podia ter agido de outro modo.*


-

significa efetivamente que:

r----------------------------------------------------------
b) *Se A tivesse escolhido agir de outro modo, então A teria agido de outro modo.*
%_____________________________________________________________________________ r-

Assim, se a análise condicional estivesse correta, as frases a) e b) seriam equivalentes,


isto é, seriam apenas duas maneiras diferentes de dizer a mesma coisa. Contudo, se as
frases a) e b) fossem efetivamente equivalentes, qualquer circunstância em que uma delas
fosse verdadeira seria igualmente uma circunstância na qual a outra também o seria. No
entanto, a menos que a frase

r
a) «A podia ter escolhido agir de outro modo.»
L

80
4. Determinismo e liberdade na ação humana

seja verdadei ra (isto é, a menos que o agente pudesse efetivamente ter escol hido ag ir de outra
maneira), e perfeitamente possível imaginar uma situação em que a frase b) e verdadeira, ao
passo que a frase a) é falsa. O que significa que estas duas afirmações não podem, afinal, ter
o mesmo significado. Para ilustrar o que está aqui em causa, atentemos no seguinte exemplo:

Suponhamos que ofereciam a um indivíduo um frasco com vários doces, incluindo


gomas vermelhas; e que, uma vez que ele tem uma aversão patológica a gomas
vermelhas (imaginemos, por exemplo, que lhe fazem lembrar gotas de sangue), de­
cidiu não tirar nenhum doce. Embora seja verdade que o indivíduo podia ter tirado
um doce, se assim o tivesse desejado, a verdade é que, dada a sua aversão, ele
nunca poderia ter desejado tal coisa e, por conseguinte, não podemos dizer que
ele tinha, efetivamente, a capacidade de tirar um doce.

O exemplo, mostra que há situações em que é verdade que «Um dado agente, 4, po­
dia fazer uma dada ação x, se assim o tivesse desejado*; embora seja falso que <4 podia
efetiva mente fazer x».

Assim, para um incompatibilista, afirmar que «num mundo determinista, poderiamos


agir de modo diferente daquele que agimos se tivéssemos desejos diferentes daqueles
que ternos* não tem qualquer relevância, pois, de acordo com a imagem determinista do
mundo, cada estado de coisas num dado momento é a consequência dos estados do
mundo que o antecederam e das leis da natureza e, por conseguinte, dado o passado e as
leis da natureza, jamais poderíamos ter desejos diferentes daqueles que efetivamente
temos e. por sua vez Jamais poderíamos agir de maneira diferente daquela que agimos.

O compotibilismo contemporâneo e os casos de Frankfurt


Contudo, o compatibilista tem ainda ao seu dispor a possibilidade de atacar a premissa 2
do argumento da consequência. Essa premissa corresponde ao chamado princípio das
possibilidades alternativas*.

De acordo com o princípio das possibilidades alternativas, «se náo temos


possibilidades alternativas, então não temos livre-arbítrio*.

Este princípio foi aceite de forma praticamente consensual até à publicação do artigo
«Responsabilidade Moral e o Princípio das Possibilidades Alternativas* (1969), de Harry
Frankfurt. Nesse artigo, Frankfurt inventou uma experiência mental que constitui um
contraexemplo a este princípio, isto é, um exemplo que procura contrariar este princípio.
Este tipo de experiência mental ficou conhecido como «casos de Frankfurt*.

Num típico caso de Frankfurt, existe uma circunstância, C, tal que:

.■------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ ■.
1. Um agente, A, toma uma determinada decisão, D.
2. Se A não decidir D, por si mesmo, C entra em ação e força A a decidir D.
3. C em nada contribui para que A decida D.
A Ação Hum-ana e oi Valores

Por exemplo, suponhamos que Black é o chefe de uma poderosa organização crimino­
sa e que Jones é um dos mais eficientes assassinos dessa organização. Black quer matar
o Presidente e sabe que Jones é a pessoa certa para o trabalho. No entanto, existem ru­
mores de que Jones quer abandonar a profissão, razão pela qual o seu compromisso para
com a organização é incerto.

Nesse momento, Black recorda-se de uma das invenções mais recentes dos cientistas da
sua organização — o <neuroscópio*. O <neuroscópio* é um aparelho que, uma vez introdu­
zido no cérebro de uma pessoa, permite vigiar e controlar os seus estados cerebrais. Black
apercebe-se de que o <neuroscópio* lhe permite resolver dois problemas de uma só vez.

Se implantar secretamente o <neuroscópio* no cérebro de Jones, ficará a saber se


este continua a ser um dos seus fiéis assassinos - pode acontecer que ele decida, por si
mesmo, matar o Presidente, sem que seja necessária a intervenção do <neuroscópio* — ao
mesmo tempo que se certifica de que Jones cumpre a sua missão e mata o Presidente -
porque se o «neuroscõpio* detetar qualquer indício de que ele não o vai fazer, entra em
ação e força-o a decidir nesse sentido.

Imaginemos, agora, que Jones decide pelos seus próprios motivos matar o Presidente.
Nesse caso temos uma situação em que:

f—1 '
1. Jones toma, por si mesmo, a decisão de matar o Presidente.
2. Se Jones não decidisse, por si mesmo, matar o Presidente, o *neuroscópio»
entraria em ação e forçaria Jones a tomar essa decisão.
3. A presença do <neuroscópio» no cérebro de Jones em nada contribui para
a sua decisão de matar o Presidente.
<_________________________________________________________________________________

A conclusão que Frankfurk extrai deste tipo de casos é a seguinte: há situações nas
quais, apesar de não termos possibilidades alternativas, temos livre-artxtrio. Isto corres­
ponde à negação do princípio das possibilidades alternativas, pois afirma a sua antecedente
(«não temos possibilidades alternativas») e nega a sua consequente {*temos livre-arbítrio»).

Assim, os compatibilistas contemporâneos concluem que aquilo que é fundamental


para que possamos considerar que temos livre-arbítrio não é o facto de termos possibili­
dades alternativas, mas sim o facto de as nossas ações terem origem na nossa vontade

A argumentação destes pensadores pode ser reconstruída conforme se segue:

(1} Temos livre-arbítrio se. e só se, algumas das coisas que acontecem dependem
fundamentalmente da nossa vontade.
(2) Ainda que o determinismo seja verdadeiro e não existam possibilidades alternati­
vas. algumas das coisas que acontecem dependem fundamentalmente da nossa
vontade (tal como demonstram os casos de Frankfurt}.
(3) Logo, ainda que o determinismo seja verdadeiro e não existam possibilidades
alternativas, temos livre-arbítrio.

82
4. Determinismo e liberdade na ação humana

Objeção oos casos de Frankfurt


Nem todos os filósofos estão dispostos a aceitar que os casos de Frankfurt têm as im­
plicações que o seu autor julgava. Alguns incompatibilistas sustentam que mesmo num
caso de Frankfurt existem possibilidades alternativas, pois o agente pode:

• tomar por si próprio a decisão; ou

• não tomar por si próprio a decisão e ser forçado a tomar essa decisão por fatores
externos ã sua vontade.

Para estes autores, é precisamente por causa destas duas possibilidades (de agir ou
de ser coagido) que temos a intuição de que, mesmo nestas circunstâncias, o agente é
dotado de livre-arbítrio. Como em termos práticos a diferença entre estes dois cursos de
ação é muito pequena, esta objeção ficou conhecida como «objeção das centelhas (ou
fa iscas) de liberdade •

4.2 O problema tradicional


Agora que já nos debruçámos sobre o problema da compatibilidade, podemos voltar a
nossa atenção para o problema tradicional, isto é, para o problema de saber se efetiva­
mente temos (ou nào) livre-arbítrio.

Determinismo moderado
Conforme vimos anteriormente, se adotarmos o compatibilismo. podemos defender o
determinismo moderado e afirmar que apesar de o determinismo ser verdadeiro, temos
Irvre-arbítrio. Alem disso, também vimos que essa defesa pode assentar quer na ideia
de que mesmo num mundo determinista existem possibilidades alternativas {via análise
condicional), quer na ideia de que mesmo sem possibilidades alternativas podemos ter
Irvre-arbítrio {recorrendo aos casos de Frankfurt). Também vimos as objeções que cada
uma destas estratégias enfrenta. Por isso, resta-nos agora analisar o que é que as teo­
rias incompatibilistas tém a dizer acerca do problema tradicional. E disso que nos iremos
ocuparem seguida, começando pela perspetiva libertista

Libertismo
Os libertistas podem completar o argumento da consequência do seguinte modo:

[II Se o determinismo é verdadeiro, então não temos possibilidades alternativas.


{2) Se nào temos possibilidades alternativas, entào nào temos livre-arbítrio.
(3) Se o determinismo é verdadeiro, então não temos livre-arbítrio.
(De 1 e 2, por silogismo hipotético)
(4) Temos livre-arbítrio.
(5) Logo, o determinismo é falso. {De 3 e 4, por modus toí/ens)

As linhas 1 a 3 correspondem ao argumento central a favor do incompatibilismo que


temos vindo a explorar; por isso, resta-nos averiguar de que forma os libertistas defendem
a premissa 4.
A Ação Humana e os Valore*

Defesa da premissa 4
Para os libertistas. a crença de que temos livre-arbítrio ê inegável, pois aparentemente
não somos capazes de viver, de fazer escolhas e de agir sem pressupor o livre-arbítrio.
Temos permanentemente a sensação de que. embora certas decisões possam ter sido
influenciadas por diversos fatores, elas dependem, em última análise, daquilo que decidi­
mos fazer, isto é, da nossa vontade livre, ou livre-arbftrio. Os libertistas encaram isto como
um forte indício a favor da tese de que temos livre-arbítrio, pois consideram que e mais
Sofonista
Angu is sola, plausível assumir que isso se deve ao facto de, efetivamente, termos livre-arbítrio, do que
O Jogo de Xadrez a um erro permanente e sistemático da nossa parte.
(1555)
Além disso, conforme fazem notar alguns libertistas, se al­
guém desatar a bater-nos, então, a menos que se trate de uma
pessoa com algum tipo de perturbação mental ou compulsão, é
inevitável pensarmos que está no seu poder parar de o fazer se
assim o desejar. Mas isso mostra que não conseguimos simples­
mente assumir que as nossas ações decorrem naturalmente da
cadeia causal que compõe o universo, sobre a qual não temos
qualquer tipo de controlo. Somos irresistivelmente levados a as­
sumir que algumas das coisas que fazemos dependem funda­
mentalmente das nossas escolhas livres.

Objeção da ilusão
à semelhança dos libertistas, os deterministas radicais são incompatibilístas. por isso
estes autores não irão disputar a tese defendida na linha 3. Isto significa que, se não acei­
tam a conclusão do argumento libertista, os deterministas radicais terão de dirigir o seu
ataque para a premissa 4. Alguns deterministas radicais, como Bento de Espinosa (1632-
-1677) e Arthur Schopenhauer (1788-1860}, consideram que a ilusão de que temos livre-
-arbítrio resulta do facto de termos consciência dos nossos desejos, mas ignorarmos as
causas que os determinam. Para estes autores, uma vez que, por vezes, fazemos aquilo
que queremos, temos a ilusão de que algumas das nossas ações são livres. Contudo, visto
que na realidade aquilo que queremos ou deixamos de querer não depende de nós, mas
sim de causas que ignoramos, não temos verdadeiro livre-arbítrio. É precisamente esta
ideia que Bento de Espinosa parece estar a defender no excerto que se segue:

«Uma pedra recebe do impulso de uma causa externa uma certa quantidade de movimento,
pela qual continuará necessariamente a mover-se mesmo depois do impulso externo ter para
do. [...] O que aqui se aplica á pedra pode ser dito de cada coisa singular, independentementr
da complexidade da sua estrutura e da variedade das suas funções. Pois todas as coisas singu
lares sào necessariamente determinadas por uma causa externa a ser r a agir de fornia ngida e
determinada.
Imaginai agora. por favor. que a pedra, enquanto está cm movimento, sabe r pensa que e ela
que faz tcxlo o esforço possível para continuarem movimento. Esta pedra, seguramrnte. [J acre
ditará ser livre c perseverar no seu movimento pela unka razão de o desejar. Assim c esta liberdade
humana que todos os homens st vungloriam de ter r que consiste somente nisto, que os homens
sào conscientes dos seus desejos e ignorantes das causas que os determinam.»

Benrdftctus de Sptnazj. Coinp/cfr VVOrks. IrKlLLmipjIlN. lUckctt Fuhltíhlng Compunv Inc. I21XJ2H p. 909

I 84
4. Determinismo e liberdade na ação humana

Objeção da aleatoriedade
à semelhança dos libertistas, os deterministas moderados pensam que temos livre-
-arbitrio, por isso estes autores nào irâo disputar a premissa 4. Isto significa que se nào
aceitam a conclusão do argumento libertista, os deterministas moderados terão de dirigir
o seu ataque à linha 3 do argumento. Uma das estratégias que tem sido seguida pelos
deterministas moderados e tentar mostrar que o livre-arbitrio não só é compatível com
o determinismo, como só é possível se este for verdadeiro. Para sustentar a sua posi­
ção, os deterministas moderados fazem notar que os libertistas defendem que para que
as nossas escolhas sejam genuinamente livres elas nào podem ser determinadas pelos
acontecimentos anteriores e pelas leis da natureza. Mas uma escolha que nào seja de­
terminada por acontecimentos anteriores, também nào é livre, é simplesmente aleatória,
fruto do acaso, que é algo que também nào podemos controlar. Para ilustrar esta ideia
consideremos o seguinte exemplo:

«John tinha estado a deliberar sobre onde deveria passar as suas ferias, se no I lavai
ou no Colorado; e, depois de muito pensamento e deliberação, decidiu que preferia o
Havaí e optou por isso. Sc a escolha foi indeterminada, então exatamente a mesma de
liberação, os mesmos processos de pensamento, as mesmas crenças, desejos e outros
motivos nem uma ínfima diferença - que o levaram a favorecer c optar pelo Havaí cm
vez do Colorado, poderiam, por puro acaso, tê-lo conduzido a escolher antes o Colorado.
Isso é muito estranho. Se isso acontecesse pareceria tratar-se de um acaso ou acidente
(...] e nào de uma escolha racional. [._]*

Ràbcrt Kanc. «UbcrtarUnism". in ftii/r Vlcrixan Erre WYlf. Oxlbrd. OUP I2DI>7). p. 23

Ora, se exatamente nas mesmas circunstâncias em que acaba por optar por ir para o
Havai, John podia ter acabado por decidir ir para o Colorado, então essa decisão parece
ser simplesmente aleatória, fruto do acaso, arbitrária e irracional, e não uma escolha efeti­
vamente livre e responsável.

Determinismo radical
Voltemos agora a nossa atenção para o determinismo radical.
Os deterministas radicais completam o argumento incompatibilista (argumento da con­
sequência) do seguinte modo:

■■c------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ ■■
:i> Se o determinismo é verdadeiro, então nào temos possibilidades alternativas.
<2) Se não temos possibilidades alternativas, então nào temos livre-arbitrio.
{3| Se o determinismo é verdadeiro, então nào temos livre-arbítrio.
(De 1 e 2, por silogismo hipotético)
(4*)O determinismo é verdadeiro.
(5*) Logo, não temos livre-arbitrio. {De 1 e 2, por modus ponens)

Uma vez mais, as linhas 1 a 3 correspondem ao argumento central a favor do incom-


patibilismo discutido anteriormente; por isso, só temos de averiguar de que forma os
deterministas radicais defendem a premissa 4".
A Ação Hum-ana e oi Valores

Defesa da premissa 4*
Os deterministas radicais consideram que existem fortes indícios a favor da tese deter­
minista. Aparentemente não conseguimos viver sem assumir certas coisas como cons­
tantes. Temos uma forte tendência para pensar que no futuro, assim como no passado, as
mesmas causas terão os mesmos efeitos. E se por algum motivo algo não ocorre conforme
o previsto, não nos limitamos a encolher os ombros, procuramos explicar o sucedido en­
contrando algum acontecimento diferente no passado. Caso contrário, a nossa expectativa
seria a de que dadas as mesmas condições iniciais, as leis da natureza encarregar-se-iam
de gerar, necessariamente, os mesmos efeitos. A explicação mais plausível para isto seria
o facto de efetivamente vivermos num universo com determinadas leis naturais que regem
as relações entre todas as partículas físicas, não sendo, por isso, possível que as mesmas
causas tenham efeitos diferentes.

Alem disso, o estrondoso sucesso da ciência na explicação e previsão dos fenómenos


naturais deve-se a esta convicção e, por conseguinte, também deve ser encarada como
um forte indício de que o mundo natural se comporta de acordo com o princípio determi­
nista de que tudo o que acontece é uma consequência dos acontecimentos anteriores e
das leis da natureza.

Objeção da mecânica quântica


à semelhança dos deterministas radicais, os libertistas são incompatibilistas; por isso,
a única forma de refutarem o argumento a favor do determinismo radical é atacarem a
premissa 4\ ou seja, mostrarem que a tese do determinismo é falsa.

Para isso, podem recorrer aos resultados experimentais obtidos numa área da física
chamada mecânica quântica. A mecânica quântica dedica-se ao estudo do comportamen­
to das partículas elementares. De acordo com uma interpretação comum dos resultados
de certos procedimentos experimentais, jamais poderemos determinar com exatidão a
posição de certas partículas — tudo o que podemos fazer é calcular de entre um conjunto
de localizações possíveis qual é a mais provável.

Compreendemos melhor o que está aqui em


causa se imaginarmos dois sistemas físicos com
as mesmas condições iniciais e sujeitos ãs mes­
mas leis da natureza. O determinismo diz-nos
que. dadas as mesmas condições iniciais e dadas
as mesmas leis físicas, aquilo que acontece nos
dois sistemas deveria ser idêntico, mas alguns
investigadores sugerem que existem resultados
experimentais que comprovam o contrário.

Ora, isto parece sugerir que existem acon­


tecimentos genuinamente indeterminados no
universo, pois não são a consequência neces­
sária de estados de coisas que os antecedem e
das leis da natureza.

Pablo Picasso, Mulher Se-nrada {1952)

86
4. Determinismo e liberdade na ação humana

Objeção da responsabilidade moral


Outra alternativa ao dispor dos libertistas na sua critica ao determinismo consiste em
mostrar que esta tese tem implicações inaceitáveis. Para esse efeito, alguns libertistas fa­
zem notar que o determinismo implica que nenhum de nós pode realmente agir de modo
diferente daquele como age e que, consequentemente, também implica que ninguém
é moralmente responsável oor nada do que faz. Mas grande parte dos nossos compor­
tamentos quotidianos — como a admiração, a censura, o louvor e a culpa, entre outros -
pressupõem que, de facto, somos moralmente responsáveis pelo menos por algumas das
coisas que fazemos.

Assim sendo, se não aceitamos que muitos dos nossos comportamentos são simples­
mente absurdos (isto é, sem sentido}, somos racionalmente forçados a rejeitar o determi­
nismo.

Este argumento pode ser explicitado conforme se segue:

[II Se o determinismo ê verdadeiro, então não temos possibilidades alternativas.


{2) Se não temos possibilidades alternativas, então nâo somos moralmente respon­
sáveis por nada daquilo que fazemos.
{3| Se não somos moralmente responsáveis por nada daquilo que fazemos, então
grande parte dos nossos comportamentos quotidianos (como a admiração, a
censura, o louvor e a culpa} são absurdos.
{4| Não e verdade que grande parte dos nossos comportamentos quotidianos (como
a admiração, a censura, o louvor e a culpa} são absurdos.
{5) Logo, o determinismo nâo é verdadeiro.
■■_________________________________________________________________________________ ■■

Este argumento pode ser encarado como uma sucessão de silogismos hipotéticos que
acabam por conduzir à conclusão {preliminar) de que <se o determinismo é verdadeiro,
então grande parte dos nossos comportamentos quotidianos (como a admiração, a cen­
sura, o louvor e a culpa) são absurdos*. Ora, uma vez que na premissa 4 negamos a
consequente desta condicional, podemos concluir valida mente (por modus toilens) que
• o determinismo não é verdadeiro^.

Depois de analisar as diferentes perspetivas em confronto, bem como alguns dos prin­
cipais argumentos a favor e contra cada uma delas, podemos constatar que, embora seja
uma das mais antigas questões da história da filosofia, o debate em tomo do problema do
livre-arbítrio continua bem vivo nos nossos dias:

• Será que os compatibilistas têm forma de responder ãs objeções levantadas?

• Será que a mecânica quântica conseguiu efetivamente provar a existência de aconte­


cimentos indeterminados?

• Será possível mostrar que uma ação genuinamente *incausada> pode ainda assim
ser livre?

Estas sâo algumas das questões que têm animado os filósofos que se dedicam a dis­
cutir criticamente este problema.
A Ação Hum-ana e oi Valores

ESQUEMATIZANDO

PROBLEMA DA COMPATIBILIDADE
O livre-arbítrio ê compatível com o determinismo?
V ▼
Incompatibilismo Compatibillsmo

0 livre-arbítrio nào e compatível O Irvre-arbitrio e compatível com


com o determinismo. o determinismo.
Se o determinismo e verdadeiro, É falso que se o determinismo e
entào nào temos livre-arbitrio verdadeiro, entào nào temos livre-a rbrtrio.
▼ ▼
Argumento da consequência Compatibilistas clássicos
Recorrem à estratégia da análise
(1) Se o determinismo e ver­
condicional para mostrar que:
dadeiro, entào nào temos Rejeitam 1
— ainda que o determinismo seja
possibilidades alternativas.
verdadeiro, por vezes temos
p
(2| Se nào temos possibilidades possibilidades alternativas. ê

alternativas, entào nào temos


T
livre-arbítrio.
Compatibilistas contemporâneos «<...■
(3) Logo, se o determinismo e
Recorrem aos casos de Frankfurt
verdadeiro, entào nào temos
Rejeitam 2 para mostrar que:
livre-arbítrio.
- mesmo sem possibilidades alternativas,
por vezes temos livre-arbitrio. 4
4
4
4

Rejeitam a analise condicional:


caso das gomas vermelhas

Rejeitam os casos de Frankfurt:


objeção das centelhas
de liberdade

PROBLEMA TRADICIONAL
Temos livre-arbítrio?

Libertismo Determinismo radical Determinismo moderado


- Sim, e portanto, - Nào. porque - Nào, apesar de
o determinismo e falso. o determinismo e verdadeiro. o determinismo ser verdadeiro.
V ▼
|4*) O determinismo
Temos livre-arbítrio*
é verdadeiro.
(5) Logo, o determinismo
(54) Logo, não temos
não é verdadeiro.
livre-arbítrio*
▼ ▼
Enfrenta as seguintes
Enfrenta as seguintes críticas
críticas: - Objeção da mecânica
- Objeção da ilusào quântica
- Objeção da aleatoriedade - Objeçào da
responsabilidade moral

SS
4. Determinismo e liberdade na ação humana

RESUMO

• O problema tradicional do I ívre-arbítrio e o seguinte: < Temos I ívre-arbítrio?».

• Temos llivre-arbítrio se, e so se, algumas das coisas que acontecem depen­
dem, em última análise, da nossa vontade.

• O determinismo e a tese de que tudo o que acontece e a consequência ne­


cessária de acontecimentos anteriores e das leis da natureza.

• Aparentemente, existe uma tensáo entre a crença de que temos livre-arbítrio


e a crença no determinismo.

• O problema da compatibilidade e o seguinte: *Sera o Irvre-arbítrio compatível


com o determinismo?*.

• Há duas respostas possíveis para o problema da compatibilidade: o incompa-


tibilismo e o compatibilismo.

• O incompatibilismo e a tese de que o Irvre-arbítrio nào e compatível com o


determinismo.

• O compatibilismo e a tese de que o livre-arbítrio e compatível com o deter­


minismo.

• Há três respostas possíveis para o problema tradicional: o determinismo mo­


derado (que e uma perspetiva compatibilista), o libertismo e o determinismo
radical (que sào, ambas, perspetivas incompatibilistasj.

• O determinismo moderado sustenta que:

1. o livre-arbítrio ê compatível com o determinismo:

2. tudo esta determinado;

3. temos livre-arbítrio.

• O libertismo sustenta que:

1. o livre-arbítrio e incompatível com o determinismo;

2. temos lívre-arbítrio;

e, por conseguinte,

3. nem tudo esta determinado.

89
A Ação Hum-ana e oi Valores

- O determinismo radical sustenta que:

1. o livre-arbítrio e incompatível com o determinismo;

2. tudo esta determinado;

e, por conseguinte.

3. não temos livre-arbítrio.

• O argumento da consequência e um dos argumentos incompatibilistas mais


discutidos.

Os compatibilistas clássicos rejeitam a premissa 1 do argumento da conse­


quência (*Se o determinismo ê verdadeiro, então não temos possibilidades
alternativas»), recorrendo a uma análise condicional do conceito de <possibi-
lidades alternativas*.

$ Conceitos Os compatibilistas contemporâneos rejeitam a premissa 2 do argumento da


• livre-orbítrio consequência (<Se não temos possibilidades alternativas, então não temos
livre-arbítrio»), recorrendo aos chamados «rasos de Frankfurt*.
• determinismo

• responsabilidade moral Os libertistas pensam que e inevitável pensarmos que algumas das coisas
que acontecem dependem de nos.
• possibilidodes alternativas
• casos de Frankfurt
As principais objeções ao libertismo são: a objeção da ilusão e a objeção da
• compatibilismo aleatoriedade.

• incompotibilismo
Os deterministas pensam que e inevitável pensarmos que causas semelhan­
• determinismo moderado tes têm efeitos semelhantes.
• determinismo rodical
As principais objeções ao determinismo são: a objeção da mecânica quântica
• liberhsmo
e a objeção da responsabilidade moral.

90
Questões propostas

GRUPO I

Nas questões do Grupo I. seleciona a única alternativa correta.

1. O determinismo é a tese segundo a qual

(A) tudo o que acontece é consequência necessária do passado e das leis da natureza,

nem tudo o que acontece é consequência necessária do passado e das leis da natureza.

(C) algumas das coisas que acontecem sào a consequência necessária do passado e das leis da
natureza.

(D) nada do que acontece é consequência necessária do passado e das lets da natureza.

2. Temos livre-arbrtrio se, e só se,

(A) tudo o que acontece depende, em última análise, da nossa vontade.

|B) algumas das coisas que acontecem dependem, em última análise, da nossa vontade.

(C) nada do que acontece depende, em última análise, da nossa vontade.

(D) nada do que acontece está predeterminado.

3. A perspetiva que se caracteriza por defender que «Tudo está determinado, por isso não temos
livre-arbítrio* é

(A) o libertismo.

(B) o determinismo radical.

(C) o determinismo moderado.

(D) o incompatibilismo.

4. A perspetiva que se caracteriza por defender que «Temos livre-arbítrio, por isso nem tudo está
determinado» ê

(A) o libertismo.

|B) o determinismo radical.

(C) o determinismo moderado.

(D) o incompatibilismo.

5. A perspetiva que se caracteriza por defender que «Ainda que tudo esteja determinado, temos
livre-arbítrio* é

(A) o libertismo.

|B) o determinismo radical.

(C) o determinismo moderado.

(D) o incompatibilismo.

91
A Ação Hum-ana e o« Valore»

6 A perspetiva que se caracteriza por defender que «Se o determinismo é verdadeiro, então não
temos livre-a rbrtrio» é

o libertismo.

(B) o determinismo radical.

<C) o determinismo moderado.

(D) o incompatibilismo.

7. A estratégia da anãlise condicional pretende mostrar que

IA) uma vez que o determinismo é verdadeiro, nunca temos possibilidades alternativas e, por
conseguinte, não somos livres.

{B} ainda que o determinismo não seja verdadeiro, nunca temos possibilidades alternativas e, por
conseguinte, não somos livres.

(C) uma vez que o determinismo não é verdadeiro, por vezes, temos possibilidades alternativas
e, por conseguinte, somos livres.

(D) ainda que o determinismo seja verdadeiro, por vezes, temos possibilidades alternativas e, por
conseguinte, somos livres.

8. Num típico caso de Frankfurt,

{A) o agente toma por si mesmo uma decisão e existe uma circunstância que o forçaria nesse
sentido, caso ele não o trvesse feito.

o agente não toma por si mesmo uma decisão e e forçado a fazé-lo por uma circunstância.

<C) existe uma circunstância que leva o agente a agir de uma determinada maneira, ainda que
este decidisse por si mesmo agir desse modo.

{D) embora não exista nenhuma circunstância que o force nesse sentido, o agente toma por si
mesmo uma determinada decisão.

9. Analisa o argumento que se segue e seleciona a resposta correta.

(1) Se o determinismo é verdadeiro, então não temos livre-arbítrio.


(2} O determinismo é verdadeiro.
(3) Logo, não temos livre-arbítrio.

IA) Apenas os deterministas radicais e os deterministas moderados aceitam o argumento.

{B) Apenas os deterministas radicais aceitam o argumento.

(C) Apenas os deterministas moderados aceitam o argumento.

(D) Apenas os libertistas aceitam o argumento.

92
Qucstôei proposta»

10. Qual das seguintes afirmações pode ser utilizada para criticar o determinismo radical?

{A) Temos consciência dos nossos desejos, mas ignoramos as causas que os determinam.

(B) A mecânica quântica apresenta indícios de que existem acontecimentos genuinamente inde­
terminados.

(C) A analise condicional é falsa.

(D) Mesmo nos casos de Frankfurt o agente tem possibilidades alternativas.

GRUPO II

Responde de forma direta e objetiva ãs questões que se seguem

1. Considera o argumento que se segue:

(1) Se o determinismo é verdadeiro, então não temos possibilidades alternativas.


(2} Se não temos possibilidades alternativas, então não temos livre-arbítrio.
(3) Logo, se o determinismo é verdadeiro, então não temos livre-arbítrio.

1.1 Formula uma objeção ã primeira premissa do argumento.

1.2 Formula uma objeção ã segunda premissa do argumento.

2- Considera o texto que se segue.

«Por liberdade, então, só nos é possível entender um poder de agir ou não agir, conforme as de
terminações da vontade; isto e. se escolhermos ficar parados, podemos ficar assim, e se escolhermos
mover nos também podemos faze lo. Ora essa liberdade hipotética c universalmente admitida como
pertencente a todo aquele que nào esteja preso t acorrentado.»

IXivKl Himx*. sabre o £'nrr/idl/i>rirfí? Jhi/ixino.


Trad taào Paulo Monteiro, Lisboa, INCM I2OIÍ2I. p Iü5

Formula uma objeção ã perspetiva defendida pelo autor do texto.


A Ação Humana e o« Valore»

Questões propostas

3. Considera o texto que se segue.

«Sc o livre-arbítrio nào existir. □ responsabilidade moral também nào existe. É, contudo, evidente
que a responsabilidade moral existe: se nào existisse tal coisa como a responsabilidade moral, nada
seria culpa de ninguém e é evidente que existem estados de coisas em rclaçào aos quais podemos
apontar o dedo c dizer, com justiça, a certas pessoas: Isto é culpa tua.»

Vjh Imvagvn. " Itaw to think jbaut lhe problcm aí rncc wtll*,
ln Juur/iul cf fthfcs 12 (3/41. (JüüBl pp. 327 428 (adaptado!

Qual das teorias estudadas em relaçao ao problema do livre-arbítrio está a ser criticada neste
texto? Porquê?

GRUPO III

Atenta no texto que se segue e responde á questão acerca do mesmo.

«Na mente nào existe vontade absoluta ou livre; mas a menteé determinada a querer isto ou aqui
lo por uma causa que também é determinada por outra, c essa outra, por sua vez, por outra, e assim
até ao infinito.

A mente c um certo e determinado modo de pensar [_]; por consequência [-.L nào pode ser uma
causa livre das suas ações, nào pode ter uma faculdade absoluta de querer ou nào querer; mas deve
ser determinada [~] a querer isto ou aquilo por uma causa, a qual é também determinada por outra,
c essa outra, por sua vez. por uma outra, etc. [_]

A experiência faz ver. portanto, tào claramcnte como a razào. que os homens se julgam livres ape
nas porque sào conscientes das suas ações e ignorantes das causas pelas quais sào determinados.»

Bento de Esplncsa, Èttoa, Trad Jcoqulm Hvrrcira Gomes.


l.isbcu Rei cgto D'Agua I W>2). pp. 253-272 (adaptado)

1. Concordas com a perspetiva defendida pelo autor do texto? Porquê?

Na tua resposta deves:

• identificar o problema subjacente ao texto;

• identificar justificadamente a tese defendida pelo autor do texto;

• formular explicita mente a tua perspetiva pessoal em relação ao mesmo problema;

• formular argumentos a favor da tua perspetiva:

• formular objeçãofões) ã<s) perspetivais) a que te opões.


A dimensão pessoal e locial da ética

• A dimensão pessoal e social da ética

Ao longo deste capítulo 5, iremos debruçar-nos sobre o problema da natureza dos juí­
zos morais. Este problema pode ser formulado conforme se segue: ' Qual é a natureza dos
juízos morais?* Para compreender melhor este problema temos de esclarecer a noção de
juízo moral*. Comecemos por explicitara noção de «juízo*.

Um juízo è uma operação mental através da qual atribuímos uma certa propriedade,
P, a um certo sujeito. S (este sujeito pode ser qualquer coisa: uma pessoa, uma
criatura, um objeto, um lugar, uma situação ou acontecimento, etc.).

Assim, os juízos têm geralmente a seguinte forma: «S e P*. onde <S» repre­
Niota
senta aquilo de que estamos a falar, isto é, o sujeito, e «P* representa a proprie­ 1 Embora esta estrutura
dade ou característica que lhes estamos a atribuir.1 possa, por vezes, assumir
outras configurações, como
por exemplo: <S tem a pro­
Presta atenção aos juízos que se seguem:
priedade P>; <S faz P>; «S
está a fazer P* ou <S está
a) A Beatriz tem 18 anos. P», etc., e possível imaginar
uma maneira de converter
b) A Beatriz é corajosa. esses juízos na forma pa­
drão: <S e P».
c) A música Bohemkm Rhapsocty dos Queen tem a duração de 5 minutos e
55 segundos.

d) A música fioberrwon Pricrpsody dos Queen e sublime.

e) Alguns estados norte-americanos aboliram a pena de morte.

f) A pena de morte devia ser abolida.

g) Os impostos foram aumentados.

h) O pagamento de impostos é uma injustiça.

i) A Bibiia é uma das obras mais lidas de todos os tempos.

j) A Bibüa e um livro sagrado.

Se prestares atenção, reparas que os juízos com as alíneas a), c), e). g) e i) são puramente
descritivos, isto e, limitam-se a tentar descrever de forma tão neutra quanto possível a
realidade dos factos. Ora, uma vez que a sua pretensão é apenas descrever a forma como
as coisas são, a verdade (ou falsidade) deste tipo de juízos é inteiramente independente
das crenças, dos hábitos, da sociedade e da cultura, dos gostos ou das preferências de
quem os formula. É a realidade que nos indica se o juízo em causa é (ou não) adequado, se
descreve adequadamente os factos (ou não). Diz-se, por isso, que neste caso a direção da
adequação parte da realidade para o juízo. Este tipo de juízos designa-se habitualmente
por «juízos de facto».

95
A Açao Mumaoa e o* Valore*

Por sua vez, os juízos com as alíneas b), d), f), h) e j) não nos dizem simplesmente
como as coisas são, mas antes como devem ser - ou seja, são {pelo menos em parte)
normativos (ou prescritivos?. Isto significa que, contraria mente ao que acontece com os
juízos descritos no parágrafo anterior, este tipo de juízos não tem meramente a pretensão
de descrever a realidade de forma tão neutra quanto possível (embora alguns autores con­
siderem que essa pretensão também se pode encontrar associada a este tipo de juízos},
antes pelo contrário, envolvem a pretensão de expressar uma determinada avaliação das
coisas Por esse motivo, este tipo de juízos ficou conhecido por «juízos de valor*. Ora, uma
vez que nos dizem o que valem ou como devem ser as coisas, neste tipo de juízos diz-se
que a direção da adequação parte do juízo para a realidade

Para ilustrar este último ponto sugerimos-te que prestes atenção ao seguinte caso,
descrito pela filosofa Elizabeth Anscombe:

«Imaginemos um homem às voltas pela cidade com uma lista de compras


na mào. Ora. obviamente, a relaçào entre a lista c as coisas que ele cfctivamen-
tc compra è uma e a mesma quer a lista lhe tenha sido dada pela sua mulher
quer ele tenha feito a sua própria lista: c há uma relaçào diferente quando a
lista c frita por um detetive que o segue para todo lado. [...]
Se a lista e aquilo que o homem acaba efetivamente por comprar nào coin­
cidirem, rntào o erro nào está na lista mas sim no desempenho do homem
(se a sua mulher lhe dissesse: ‘Vk! Diz aqui manteiga e tu trouxeste marga
rina!’ dificilmente este responderia: “Que disparate! Vamos já corrigir isso!”
e alterava a palavra na lista para “margarina’}; ao passo que se o registo do
detetive e aquilo que o homem efetivamente comprou nào coincidirem, entào
Elizabeth Anscombe o crro estã no registo.»
(1919-2001)
Elxubcth Anscombe. rittenrlon.
Omhridgc. Harvaid Univerxity Pras {19631, p. 56

A lista de compras e preserrtiva, ou seja, não descreve simplesmente como os fac­


tos ocorreram, mas diz como deviam ter decorrido; o registo do detetive é puramente
descritivo, isto é, pretende simplesmente registar os factos tal como eles ocorreram. Daí
que, quando aquilo que o homem comprou e a lista de compras não coincidem, o com­
portamento do homem não foi adequado (não comprou o que devia). Por esse motivo,
é o comportamento do homem que deve ser corrigido e não a lista (ou seja, não basta
pegar na lista e trocar a palavra «manteiga» pela palavra «margarina* - continua a ser
preciso ir comprar manteiga); mas, quando o registo do detetive não coincide com aqui­
lo que o homem comprou, é o registo que não traduz adequadamente a realidade dos
factos. Por conseguinte, é o registo do detetive que deve ser modificado. Isto significa
que, no primeiro caso, a direção da adequação parte da lista para a realidade (é a lista
que nos indica como a realidade deve ser) e, no segundo caso, a direção da adequação
parte da realidade para o registo (é a realidade que nos indica se o registo está adequa­
do ou não).

96
A dimensão pessoal e locial da ética

Em suma, pode dizer-se que:

Os juízos de facto são pura mente descritivos, o seu valor de verdade


é inteiramente independente das crenças, dos hábitos, da sociedade e da cultura,
dos gostos ou preferências de quem os formula e a direção da adequação
parte da realidade para o juízo.

Ao passo que:

Os juízos de valor são (pelo menos em parte) normativos (ou prescritivos),


expressam uma determinada avaliação das coisas e a direção da adequação
parte do juízo para a realidade.

Tendo como ponto de partida esta caracterização geral dos juízos de facto e dos juízos
de valor, podemos prosseguir agora com a análise de um tipo particular de juízos de valor:
os juízos morais.

Os juízos morais são juízos de valor que dizem respeito àquilo que devemos/não
devemos fazer, ou seja, sâo juízos que envolvem as noções de certo e errado,
justo e injusto, louvável e censurável, etc.

O problema original acerca da natureza deste tipo de juízos pode ser subdividido em
três problemas mais simples:

1. Os juízos morais são crenças?

2. Em caso afirmativo, essas crenças sâo objetrvamente verdadeiras ou falsas?

3. Em caso negativo, de que perspetiva depende a sua verdade ou falsidade?

Neste contexto, uma crença corresponde a uma atitude proposicional ou seja, a uma
atitude em relação a uma proposição. Concretamente, a crença consiste no estado mental
de pensar que uma dada proposição é verdadeira. Uma vez que sâo estados mentais
orientados para a verdade, isto é, para uma representação adequada da realidade, as
crenças sâo estados mentais com conteúdo cognitivo (do latim medieval, cognitivus, que
significa relativo ao conhecimento), isto é, sâo estados mentais acerca dos quais faz senti­
do perguntar se sâo verdadeiros ou falsos.

Existem diferentes tipos de atitudes proposicionais. mas nem todos têm conteúdo
cognitivo como as crenças. Os desejos, por exemplo, consistem no estado mental de
pretender que uma dada proposição seja verdadeira. Contudo, uma vez que não preten­
dem representar adequadamente a realidade, os desejos não são estados mentais com
conteúdo cognitivo. Os desejos podem ser frustrados ou realizados, mas não faz sentido
perguntar se sâo verdadeiros ou falsos.

Deste modo, quando perguntamos se os juízos morais são crenças estamos a pergun­
tar se estes correspondem a estados mentais com conteúdo cognitivo, isto é, se consis­
tem em estados mentais acerca dois quais faz sentido perguntar se são verdadeiros ou
falsos. Aqueles que respondem afirmativamente a esta questão designam-se «cognitivistas^
Aqueles que lhe dão uma resposta negativa são os *não cognitivistas*.

97
A Ação Humana e os Valore*

Se aceitarmos a perspetiva cognitivista, podemos ainda questionar se essas crenças


sào objetivamente verdadeiras ou falsas, ou seja, podemos questionar se a verdade ou
falsidade dessas crenças é inteiramente independente de qualquer perspetiva, ou se
esse valor é sempre relativo a uma dada perspetiva. Por exemplo, um juízo como casa
fica ã esquerda* nào é objetivamente verdadeiro, nem falso, mas sim verdadeiro ou falso
relativamente a uma determinada perspetiva. Depende da posição do observador em re­
lação à mesma. Será que algo semelhante acontece com os juízos morais?

Se considerarmos que a verdade ou falsidade dos juízos morais nào é objetiva, mas sim
relativa a uma dada perspetiva, temos ainda de determinar qual é essa perspetiva. Será
que a sua verdade ou falsidade é relativa às preferências pessoais de quem os formula, ou
será relativa ãs preferências coletivas dos membros de uma dada comunidade?

Este problema reveste-se da maior importância, pois os Juízos morais orientam grande
parte do nosso comportamento Fazemos certas coisas porque achamos que estão cor­
retas, ao passo que evitamos fazer outras porque achamos que estão erradas. Mas em
que consistem ao certo as noções de certo e de errado? Serão apenas noções relativas
ãs preferências de cada um ou dizem respeito a códigos sociais partilhados por certas co­
munidades? Serãojuízos morais verdadeiros independentemente de qualquer perspetiva?
A nossa resposta a estas questões terá um impacto decisivo na forma como lidamos com
os outros e com as diferentes sociedades e culturas.

Por exemplo, será que o juízo <As touradas sào erradas* é objetivamente verdadeiro?
Será que a sua verdade ou falsidade é sempre relativa às preferências subjetivas de cada
indivíduo? Ou sera que depende das preferências coletivas de cada sociedade ou cultura?

Edouard Manet, Tourada |1865-t866)

98
S. A dimensão pessoa

Como podes perceber, a forma como respondemos a estas questões ditará a forma
como nos posicionaremos perante o próprio ato de realizar touradas. Se acharmos que
nào há uma verdade objetiva em relação ao assunto, podemos tolerar a sua realização,
independentemente do nosso posicionamento pessoal em relação a esse assunto. Ao
passo que se acharmos que o juízo <As touradas são erradas* é objetivamente verdadeiro,
isso poderá levar-nos, nào apenas a abster-nos individualmente de realizar esse tipo de
atos, mas também a tentar ativamente promover a abolição por completo desse tipo de
práticas, seja por quem for, seja em que sociedade.

Vejamos, em seguida, quais são e como se caracterizam as diferentes perspetivas em


confronto em relação á natureza dos juízos morais.

Os juizos morais A sua verdade De que


Teorias têm valor é independente perspetiva
de verdade? de qualquer depende?
perspetiva?

Não cognitívismo Não

De cada
Subjetivismo Sim Nào
sujeito
De cada
Cognitívismo Relativismo Sim Não
sociedade

Objetivismo Sim Sim -

5.1 Não cognitívismo


Como vimos anteriormente, aqueles que respondem pela negativa ao problema 1
(pagina 97) abraçam o chamado «não cognitívismo». O não cognitívismo caracteriza-se
por defender que, contrariamente ao que acontece com os juízos de facto, os juízos
morais não sào crenças. De acordo com esta tese, estes nem sequer são juízos propria­
mente ditos, mas sim uma especie de pseudojuízos.

Segundo estes autores, os chamados «juízos morais* parecem juízos, pois possuem
uma estrutura semelhante a estes, mas não chegam a ser verdadeiros juízos, na medida
em que não possuem qualquer tipo de conteúdo descritivo ou seja, na medida em que
não atribuem (nem pretendem atribuir) qualquer tipo de propriedade aos objetos, mas
antes limitam-se a prescrever certos tipos de ações, ou a expressar certos sentimentos
de aprovação e de reprovação relativamente às mesmas, ou a manifestar desabafos
emocionais, etc.

Ora, nào faz sentido perguntar se uma prescrição, como por exemplo «Não mintas!*, é
verdadeira ou falsa. As prescrições ou recomendações são seguidas ou não, tal como as
ordens sào cumpridas ou nào; aquilo que seguramente nào são é nem verdadeiras nem
falsas. Analogamente, quando expressamos genuinamente e com sinceridade certos sen­
timentos ou desabafos emocionais, como «Viva a liberdade de expressão!*, não faz senti­
do perguntar se o que dissemos é verdadeiro ou falso. Os nossos desabafos emocionais
podem contagiar os outros, criar empatia ou despertar sentimentos semelhantes naqueles
A Ação Hum-ana e oi Valores

que nos rodeiam, mas o que seguramente não transmitem é informação verdadeira ou
falsa acerca da realidade que nos rodeia. E por sustentar que os juízos de valor não têm
qualquer tipo de conteúdo cognitivo - isto e, não são objeto de conhecimento - que este
tipo de perspetiva ficou conhecido como não cognitivismo.

Embora as perspetivas não cognitivistas tenham contribuído largamente para alimentar


o debate filosófico, esta perspetiva não será aprofundada ao longo deste capítulo.

5.2 Cognitivismo
Pelo contrário, quem responde afirmativamente ao problema 1 (página 97) opõe-se
aos não cognitivistas e defende uma perspetiva cognitivista Os cognitivistas sustentam
que os juízos morais são crenças, o que significa que são juízos propriamente ditos e
não pseudojuízos. Para estes autores, a separação entre juízos de facto e juízos de valor
é artificial e exagerada. Os juízos morais, por exemplo, podem ser encarados como um
subconjunto dos juízos de facto. De acordo com esta perspetiva, os juízos morais também
têm uma componente descritiva. O seu caráter normativo deve-se simplesmente ao facto
de estes reportarem a um certo domínio de factos: os factos morais E esse domínio de
factos que procuramos captar de modo adequado quando formulamos juízos morais, isto
é, quando fazemos a atribuição de propriedades morais - como a coragem, a justiça, ou
a bondade - a pessoas ou ãs suas ações.

Iremos agora centrar as nossas atenções em três perspetivas cognitivistas:

• o subjetivismo:

- o relativismo: e

• o objetivismo

Subjetivismo
O subjetivismo é uma das formas mais comuns de encarar os juízos morais. De acordo
com o subjetivismo, os juízos morais têm valor de verdade, o que significa que possuem
algum conteúdo descritivo. Contudo, os subjetivistas não acreditam que existe um domí­
nio objetivo de factos morais ao qual os nossos juízos morais possam reportar, isto é, não
existem factos morais independentemente das nossas mentes, tal como existem factos
físicos acerca de pedras, plantas e planetas que são inteiramente independentes daquilo
que se passa nas nossas mentes, como o seu peso ou a sua massa. Ora, na ausência de
um domínio objetivo ao qual os nossos juízos morais possam reportar, os nossos juízos
morais só podem descrever as nossas preferências individuais e subjetivas e, por con­
seguinte. o seu valor de verdade não ê independente de qualquer perspetiva. Neste
sentido, podemos dizer que o subjetivismo se caracteriza por defender que:

Quando alguém afirma *algo é errado* está simplesmente a afirmar


«eu reprovo algo* e quando alguém afirma «algo é correto*
estã simplesmente a dizer «eu aprovo algo*.

100
A dimensão pessoal e locial da ética

O principal argumento que tem sido apresentado a favor desta perspetiva é o argu­
mento dos desacordos. Este argumento baseia-se na constatação de que não é muito
frequente haver amplos consensos relativamente a questões morais, como o aborto, a eu­
tanásia, o estatuto moral dos animais, a justiça da guerra, etc. Esta divergência de opiniões
encontra eco no adágio popular «Cada cabeça, sua sentença!*. Neste sentido, algumas
pessoas podem ser levadas a pensar que, ao passo que a ciência é objetiva, pois possui
um núcleo bastante significativo de matérias consensuais, a ética é um domínio onde cada
um tem a sua opinião e, por conseguinte, esta condenada a ser meramente subjetiva

Este argumento pode ser explicita mente formulado conforme se segue:

.■------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------ ■.

(1> Existem amplos e profundos desacordos no que diz respeito ao valor de verdade
dos juízos morais.
(2) Se. além das nossas preferências pessoais e subjetivas, houvesse um domínio de
factos morais ao qual pudéssemos apelar, então tais desacordos não teriam lugar.
(3) Logo, não há um domínio de factos morais além das nossas preferências pessoais
e subjetivas. |De 1 e 2, por modus tolfens)
_________________________________________________________________________________ ■*

A premissa 1 limita-se a constatar a existência de amplos e profundos desacordos no


que diz respeito ao valor de verdade dos juízos morais. Por exemplo, algumas pessoas jul­
gam que o juízo *O aborto é moralmente errado* é verdadeiro, outras pensam que é falso.

Na premissa 2 afirma-se que caso houvesse um domínio de factos morais ao qual pu­
déssemos apelar para resolver estas divergências, seria de esperar que, tal como aconte­
ce na ciência, houvesse um núcleo mais alargado de matérias consensuais em ética.

Por fim, conclui-se, por mocfus toílens. que nâo há um domínio de factos morais além
das nossas preferências pessoais e subjetivas.

Esta perspetiva parece ter ampla aceitação no senso comum, mas será que resiste a
um exame critico rigoroso? Muitos autores defendem que não. Vejamos, em seguida, algu­
mas das principais críticas que têm sido feitas a esta forma de entender os juízos morais.

Críticas ao subjetivismo

O subjetivismo tornaria impossível a existência


de desacordos morais genuínos
O principal argumento a favor do subjetivismo baseia-se na existência de desacor­
dos morais. Mas de acordo com o subjetivismo dois indivíduos que fazem juízos morais
aparentemente opostos estão na verdade apenas a dizer que têm sentimentos opostos.
Assim, por exemplo quando o Joâo afirma *O aborto é errado* e o Simão afirma *O aborto
não é errado*, o desacordo entre ambos é apenas aparente, pois o que o João está a
dizer é que nâo aprova o aborto e o que o Simão está a dizer é que nâo reprova o aborto,
mas as proposições *O João nâo aprova o aborto* e <O Simão nâo reprova o aborto* não
são incompatíveis

10J
A Ação Hum-ana e oi Valores

Implica que somos moralmente infalíveis


De acordo com o subjetivismo, cada um dos nossos juízos morais reporta-se ãs nossas
preferências subjetivas e, por conseguinte, sempre que formulamos um juízo moral since­
ro, estamos a fazer uma afirmação verdadeira acerca dessas preferências. Isto significa
que, por mais estranho que um dado juízo moral nos pareça (seja ele: *O genocídio de mi­
lhões de judeus é correto* ou *Não há nada de errado em torturar inocentes por prazer»},
ele náo poderá ser falso, o que implicaria que somos moralmente infalíveis Mas isso é um
absurdo, pois se fôssemos moral mente infalíveis, nunca teríamos boas razões para mudar
a nossa opinião em relação a questões morais. Contudo, ê possível que já tenhamos tido a
experiência de mudar de opinião em relação a uma qualquer questão moral por sentirmos
que estávamos errados. Portanto, o subjetivismo moral tem de ser falso.

Fotografia de autor desconhecido, «Revolta do Gueto de Varsóvia» iPolonia, 1943).


Durante a II Guerra Mundial (1939-1945). a Alemanha nazi exterminou, em campos de concentra­
ção. cerca de seis milhões de judeus.

Nem sempre os nossos juízos morais correspondem


às nossas preferências subjetivas
De acordo com o subjetivismo, cada um dos nossos juízos morais reporta-se ãs nossas
preferências subjetivas. Contudo, é possível que alguns dos nossos juízos morais não
correspondam ãs nossas preferências subjetivas. Por exemplo, Dinis considera que não
há nada de moralmente errado no facto de a sua namorada querer passar tempo de qua­
lidade com um amigo, embora isso não corresponda ás suas preferências pessoais, isto é.
embora Dinis preferisse que tal não acontecesse.

102
A dimensão pessoal e locial da ética

Relativismo
O relativismo é uma alternativa ao subjetivismo, que considera que, em vez de repor­
tarem ãs nossas preferências individuais, os nossos juízos morais referem-se às nossas
preferências coletivas, ou. mais propriamente, ao conjunto de normas sociais acordadas
pelos membros da sociedade. Assim, o relativismo também e uma perspetiva cognitivista,
o que significa que também considera que os juízos morais têm valor de verdade E. á
semelhança do subjetivismo, também considera que esse valor de verdade não é inde­
pendente de qualquer perspetiva. Para os relativistas, os juízos morais não se limitam a
ser simplesmente verdadeiros ou falsos: são sempre verdadeiros ou falsos relativamente
a um determinado grupo de individuos (ou sociedade) ou, mais propriamente, ao conjunto
de normas sociais por esse grupo acordado

Isso significa que, para estes autores, as propriedades morais não existem por si mes­
mas, independentemente de quaisquer individuos; antes pelo contrário, o seu conteúdo é
inteiramente determinado por factos relativos aos mesmos, designadamente, factos rela­
tivos ãs suas preferências coletivas e ao conjunto de normas que estes estão na disposi­
ção de acordar a respeito das mesmas.

De acordo com esta perspetiva, o significado dos termos que usamos para as proprie­
dades morais, como «certo* e *errado*, varia de contexto para contexto, pois resulta, de
certa forma, de uma construção social e cultural.

De certa forma, podemos considerar que para um relativista:

Quando alguém afirma «algo é errado* está simplesmente a afirmar


<eu reprovo algo* e quando alguém afirma <algo é correto*
está simplesmente a dizer «eu aprovo algo*.

Um dos argumentos habitualmente apresentados a favor do relativismo é o chamado


argumento da diversidade cultural. Segundo este argumento:

■■----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- -
11} Culturas diferentes têm códigos morais diferentes.
(2) Se culturas diferentes têm códigos morais diferentes, então não há uma verdade
moral objetiva, pois a verdade dos juízos morais é sempre relativa à cultura ou
grupo social onde estes são formulados, mais propriamente a um conjunto de
normas que os respetivos membros estão na disposição de acordar.
(3) Logo, não há uma verdade moral objetiva, pois a verdade dos juízos morais é
sempre relativa à cultura ou ao grupo social onde estes são formulados, mais
propriamente ao conjunto de normas que estes estão na disposição de acordar.
(De 1 e 2, por modus ponens)

A premissa 1 é uma evidência para quem quer que tenha contactado com diferentes
povos e culturas. No texto que se segue, o sociólogo Lucien Malson ilustra esta ideia com
vários exemplos deste tipo de diversidade:

103
A Ação Humana e os Valore*

«O homem recebe do meio cultural, em primeiro lugar, a definição


do bom c do mau, do confortável e do desconfortável: os Chineses pre
ferem os ovos podres e os Oceanenses o peixe em decomposição. Para
dormir, os Pigmeus procuram a incómoda forquilha de madeira e os Ja­
poneses deitam a cabeça em duro cepo.
□ homem recebe do seu meio cultural um modo de ver e de pensar:
no Japão considera se delicado julgar os homens mais velhos do que são
(...].
□ homem também retira do meio cultural as atitudes afetivas típicas:
entre os Maoris [Nova Zelândia], onde se chora à vontade, as lágrimas
correm sõ no regresso do viajante c não à sua partida. Nos Esquimós,

Lucien Malson (1926-2017J que praticam a hospitalidade conjugal, o ciúme desapareceu (...]. Nas
ilhas Alor (Indonésia], a mentira lúdica considera-se normal: as falsas
promessas ás crianças constituem um dos divertimentos dos adultos. O
mesmo espírito encontra-se na ilha de Normanby. onde a mãe, por brincadeira, tira o
seio ao filho que esta a mamar.
□ respeito pelos pais sofre igualmente flutuações geográficas: o pai conserva o di­
reito de vida c de morte entre os Negritos das Filipinas e cm certos lugares do Togo, dos
Camarões c do IFaome. Km compensação, a autoridade paterna era nula ou quase nula
nos Kamtcliatka [da Sibéria] [...] ou nos aborígenes do Brasil. As crianças Taraumaras
(do México] batem c injuriam facilmente os pais. Entre os Esquimós, o casamento faz-se
por compra. Nos Urabima. da Austrália, um homem pode ter esposas secundárias que
são as esposas principais de outros homens. No Ceilão [Sri Lanka] reina a poliandria
fraternal: o irmão mais velho casa-se e os mais novos mantem relações com a cunha
da. [-.] O amor c os cuidados da mãe pelos filhos desaparecem nas ilhas do estreito de
Torres [Austrália] e nas ilhas Andaman [Índia], cm que o filho ou a filha são oferecidos
de boa vontade aos hóspedes da família como presentes, ou aos vizinhos, como sinal de
amizade. A sensibilidade a que chamamos masculina pode ser. de resto, uma caracte­
rística feminina, como nosTchambuli (Nova Guine], por exemplo, cm que na família c a
mulher quem domina c assume a direção.
Os diferentes povos criaram e desenvolveram um estilo de vida que cada indivíduo
aceita - não sem reagir, decerto - como um modelo.»

Lucien. Mdhoffi. As Crfcinçus Scft^gcnr,


Porto. iJiTjru CtviltxjcâD <1988). pp. 2S

Na premissa 2. presume-se que a melhor explicação para essa diversidade é a verda­


de dos juízos morais ser sempre relativa à cultura ou grupo social onde estes são formu­
lados, mais propriamente, ao conjunto de normas que os respetivos membros estariam na
disposição de acordar.

Por fim. conclui-se que não há uma verdade moral objetiva e que a verdade dos juízos mo­
rais é sempre relativa ã cultura ou grupo social onde estes são formulados, mais propriamen­
te, ao conjunto de normas que os respetivos membros estariam na disposição de acordar.

Embora o relativismo pareça lidar melhor com algumas das objeções apresentadas ao
subjetivismo, esta perspetiva não está isenta de críticas. Vejamos, em seguida, em que
consistem algumas delas.

104
A dimensão pessoal e locial da ética

Críticas ao relativismo

O argumento da diversidade cultural não é sólido


É fácil perceber que a premissa 2 do argumento da diversidade cultural é falsa. O facto de
haver culturas com códigos morais diferentes nâo é uma condição suficiente para que não haja
uma verdade moral objetiva. Pode simplesmente dar-se o caso de haver culturas com códigos
morais errados Analogamente, o facto de haver diferentes opiniões relativamente ã existência
de extraterrestres nãoé uma condição suficiente para considerarmos que não há uma verdade
objetiva acerca desse assunto. Significa simplesmente que alguma dessas opiniões ê falsa.

Há acordos imorais
O facto de a maioria dos membros de uma sociedade estar disposto a aceitar um certo
código moral nâo ê uma condição suficiente para o legitimar. A maioria pode acordar um
sistema injusto e intolerante para com uma classe minoritária. Assim sendo, o consenti­
mento inerente a qualquer acordo é. na melhor das hipóteses, uma condiçáo necessária
para a sua legitimidade, mas náo é suficiente.

Impossibilita o progresso moral das sociedades


Uma das consequências diretas da defesa do relativismo é que deixaríamos de poder
afirmar que há sociedades ou culturas moralmente melhores do que outras. Para o relativista,
esta defesa parece promover a tolerância relativa­
mente a diferentes formas de organização social.
Contudo, isso implicaria que teríamos de tolerar
culturas com pressupostos morais condenáveis,
como a escravatura, a perseguição religiosa, a dis­
criminação racial ou de género, etc. A ideia básica
que está aqui subjacente ê a seguinte: atualmente
em Portugal estamos muito melhores no que diz
respeito à igualdade de gênero, à discriminação ra­
cial, aos direitos da criança, ao tratamento dos ani­
mais não humanos, etc.; contudo, se o relativismo
fosse verdadeiro, não poderíamos dizer que houve
uma melhoria (só uma mudança}, pois, uma vez que
as noções de certo e errado seriam sempre relati­
♦Cuidado com os nativos», alertava este cartaz dos tempos
vas a cada padrão cultural, não haveria um padrão do apartheid (regime de segregação racial que, oficialmente,
neutro em direção ao qual pudéssemos progredir. vigorou entre 1948-1994 na África do Sul}.

Conduz ao conformismo
Um dos problemas da defesa do relativismo é que este conduz ao conformismo. Se­
gundo o relativista, uma prática ê correta ou incorreta segundo os codigos morais de cada
cultura. Mas isto parece apelar á passividade perante os valores de uma cultura, anulando
qualquer espírito crítico e qualquer perspetiva de evolução e até mudança nos hábitos e
valores culturais promovida por dissidentes da opinião da maioria dos seus compatriotas.

É autorrefutante
Se todo o valor ê relativo, então o próprio relativismo ê de valor relativo e não pode
impor-se como uma verdade absoluta.

105
A Ação Hum-ana e oi Valores

Objetivismo
Os objetivistas sâoos únicos que respondem afirmativamente às duas primeiras questões
(ver tabela da página 99). Segundo o objetivismo. os juízos morais têm um vakx de verdade
e esse valor é independente de qualquer perspetiva, ou seja, os juízos morais são objetiva­
mente verdadeiros (ou objetivamente falsos). Isto significa que estes autores consideram
que existe um domínio de factos morais objetivos - isto é, que não dependem da perspetiva
de qualquer sujeito, mas sim de certos padrões neutros de avaliação - aos quais os nossos
juízos morais reportam. Assim, o objetivismo caracteriza-se pela ideia de que um juízo moral
é correto quando, independentemente dos nossos gostos, preferências ou convenções, tem
as melhores razões do seu lado Deste modo, pode dizer-se que para um objetivista:

Quando alguém afirma <algo é errado* está a afirmar <independentemente


das nossas preferências pessoais ou convenções coletivas, há boas razões
para se reprovar algo* e quando alguém afirma <algo é correto* esta a afirmar
<independentemente das nossas preferências pessoais ou convenções
coletivas, há boas razões para se aprovar algo*.

Isto significa que. para os objetivistas, as avaliações morais têm de ser justificadas de
uma forma que seja aceitável para qualquer indivíduo racional, seja qual for a sua socieda­
de. Quanto melhor for a justificação que suporta o juízo moral, mais razões teremos para
considerá-lo objetivamente verdadeiro. De acordo com o objetivismo, podemos encon­
trar critérios ^transubjetrvos-, que ultrapassam as perspetivas e subjetividades individuais
ou culturais e que podem ser utilizados para avaliar imparcialmente a moralidade de atos e
de praticas, podendo ser aplicados por todos os indivíduos racionais (independentemente
dos seus gostos ou interesses).

Uma forma de defender o objetivismo moral é recorrendo a um argumento como o


seguinte:

UI Há juízos morais que sào (nào sào) justificáveis de um ponto de vista imparcial.
(2) Se há juízos morais que sáo (nào são) justificáveis de um ponto de vista imparcial,
então há juízos morais objetivamente verdadeiros (falsos).
(3) Logo, há juízos morais objetivamente verdadeiros (falsos). (De 1 e 2, por modus
ponens}
L______________________________________________________>
A premissa 1 estabelece que certos juízos morais, como, por exemplo. *A escravatura e
justa*, não podem ter uma justificação imparcial. Por exemplo, as razões que o esclavagis-
ta apresenta a favor do seu direito a possuir escravos nào são imparciais. O escravo não
defende essas razões. Este tipo de exemplos mostra que efetivamente há juízos morais
que não são justificáveis de um ponto de vista imparcial.

Na premissa 2 acrescenta-se que o facto de haver juízos morais com razões a seu favor
que qualquer ser racional pode assumir como suas mostra que existe uma certa forma de
objetividade em ética, ou seja, mostra que há juízos morais objetivamente verdadeiros.

Vejamos, em seguida, algumas das críticas que têm sido apresentadas ao objetivismo.

106
A dimensão pessoal e locial da ética

Criticas ao objetivismo

O argumento dos desacordos


Alguns autores encaram a ciência como modelo de objetividade e encaram o amplo con­
senso no que diz respeito aos aspetos fundamentais da maioria das investigações neste domí­
nio como um forte indicio a favor dessa objetividade. Contudo, constatam que o mesmo não se
verifica na ética. No que diz respeito a problemas éticos, o mais comum é haver um forte de­
sentendimento, mesmo entre especialistas. Dai concluem que a ética não pode ser objetiva.

O argumento da estranheza
Outra objeção que o objetivismo enfrenta é o chamado «argumento da estranheza*.
Este argumento afirma sucintamente o seguinte: o objetivismo pressupõe a existência de
propriedades estranhas, pois seriam propriedades reais e objetivas das coisas, mas que si­
multaneamente teriam a capacidade de incitar todo e qualquer agente moral a agir de cer­
ta forma. Contudo, não parece existir nada no mundo com essas características. Logo,
o objetivismo e falso.

Jdlzos n^líà|-'tem v-alor de verdade’


T ’ T
Não Sim

NÀO COGNITIV1SMO COGNITIVISMO

t
Esse valor e independente
■* ■

i de qualquer perspetiva?

Não Sim

De que perspetiva depende’ OBJETIVISMO

t Objeções
De cada sujeito Da sociedade, ou cultura * O argumento dos desacordos
e
4
* O argumento da estranheza
SUBJETIVISMO RELATIV1SMO

Objeções Objeções
O subjetivismo tornaria - 0 argumento da diversidade
impossrvel a existência de cultural não e sólido
desacordos morais genuínos
■ Ha acordos imorais
Implica que somos moral mente
• Impossibilita o progresso moral
infalíveis
das sociedades
Nem sempre os nossos juízos
morais correspondem as - Conduz ao conformismo
nossas preferências subjetivas • É autorrefutante

107
A Ação Hum-ana e oi Valores

RESUMO

• O problema da natureza dos juízos morais pode ser formulado conforme se


segue: *Oual é a natureza dos juízos morais?*

* Um juízo e uma operação mental através da qual atribuímos uma certa pro­
priedade, P, a um certo sujeito. S (este sujeito pode ser qualquer coisa: uma
pessoa, uma criatura, um objeto, um lugar, uma situação ou acontecimento,
etcj.

• Os juízos de facto são puramente descritivos, o seu valor de verdade e intei­


ramente independente das crenças, dos hábitos, da sociedade e da cultura,
dos gostos ou preferências de quem os formula e a direção da adequação
parte da realidade para o juízo.

• Os juízos de valor são (pelo menos em parte) normativos (ou prescritivos),


expressam uma determinada avaliação das coisas e a direção da adequação
parte do juízo para a realidade.

• Os juízos morais são juízos de valor que dizem respeito aquilo que devemos/
não devemos fazer, ou seja, são juízos que envolvem as noçòes de certo e
de errado, justo e injusto, louvável e censurável, etc.

• Assim, o problema original acerca da natureza dos juizos morais pode ser
subdividido em três problemas mais simples:

A Os juizos morais têm valor de verdade listo ê, são suscetíveis de serem


considerados verdadeiros ou falsos)?

B. Em caso afirmativo, a sua verdade (ou falsidade) ê independente de


qualquer perspetiva (isto e, o domínio de factos morais ao qual estes
reportam e independente de quaisquer sujeitos)?

C. Em caso negativo, de que perspetiva dependem?

A resposta ã primeira questão opõe cognitivistas - que lhe respondem


afirmatrvamente — a não cognitivistas - que lhe respondem negativa mente.

Os não cognitivistas caracterizam-se por defender que os juízos morais não


são verdadeiros juízos, pois não possuem qualquer tipo de conteúdo descri­
tivo, ou seja, não atribuem (nem pretendem atribuir) qualquer tipo de proprie­
dade aos objetos, mas antes limitam-se a prescrever certos tipos de ações,
ou a expressar certos sentimentos de aprovação e de reprovação relativa­
mente às mesmas, ou a manifestar desabafos emocionais, etc.

108
A dimensão pessoal e locial da ética

• Os cognitrvistas consideram que os juízos morais também têm uma com­


ponente descritiva, pois reportam a um certo domínio de factos: os factos
morais; ou seja, quando formulamos juízos morais fazemos a atribuição de
propriedades morais - como a coragem, a justiça, ou a bondade - a pessoas
ou as suas ações.

• De entre as teorias cognrtivistas, destacam-se:

- o subjetivismo;

- o relativismo. e

- o objetivismo

• De acordo com o subjetivismo, na ausência de um domínio objetivo ao qual


os nossos juízos morais possam reportar, os nossos juizos morais so podem
descrever as nossas preferências individuais e subjetivas e, por conseguinte,
o seu valor de verdade não ê independente de qualquer perspetiva.

- O principal argumento que tem sido apresentado a favor do subjetivismo


e o argumento dos desacordos.

- De entre as principais criticas ao subjetivismo destacam-se as seguintes:


tornaria impossível a existência de desacordos morais genuínos; implica
que somos moralmente infalíveis; e nem sempre os nossos juízos morais
correspondem as nossas preferências subjetivas.

• O relativismo sustenta que os juízos morais se referem ãs nossas preferên­


cias coletivas, ou, mais propriamente, ao conjunto de normas sociais acorda­
das pelos membros da sociedade.

- O principal argumento que tem sido apresentado a favor do relativismo e


o argumento da diversidade cultural.

- De entre as principais críticas ao relativismo destacam-se as seguintes:


o argumento da diversidade cultural não e sólido; há acordos imorais;
o relativismo impossibilita o progresso moral das sociedades; conduz ao
conformismo; e e autorrefutante.
G Conceitos
• Segundo o objetivismo, os juizos morais têm um valor de verdade e esse
valor e independente de qualquer perspetiva, ou seja, os juizos morais são • juízo
objetiva mente verdadeiros (ou objetiva mente falsos). • juízos de facto

- O principal argumento que tem sido apresentado a favor do objetivismo • juízos de volor
e o argumento da justificação imparcial. • juízos morois

- De entre as principais críticas ao objetivismo destacam-se: o argumento • cognitivismo


dos desacordos: e o argumento da estranheza. • subjetivismo

• relativismo

• objetivismo

109
A Ação Hum-ana e o« Valore»

Questões propostas

GRUPO I

Nas questões do Grupo I. seleciona a alternativa correta.

1. Presta atenção aos juízos que se seguem e seleciona a opção correta.

1 A catedral da Sagrada Família, em Barcelona, tem 172 metros de altura.


2. A catedral da Sagrada Família, em Barcelona, é sublime.
3. Em Portugal, o aborto é legal ate ãs 10 semanas de gestação.
4. O aborto é moral mente aceitável até às 10 semanas de gestação.

IA) 1 e 2 correspondem a juízos defacto e 3 e 4 correspondem a juízos de valor.

<B| 1 e 3 correspondem a juízos defacto e 2 e 4 correspondem a juízos de valor.

(C) 2 e 3 correspondem a juízos defacto e 1 e 4 correspondem a juízos de valor.


(D) 1 e 4 correspondem a juízos defacto e 2 e 3 correspondem a juízos de valor.

2. Presta atenção ãs afirmações que se seguem e seleciona a oprção correta.

1. São puramente descritivos.


2. São (pelo menos em parte) prescritivos/normativos.
3. Dizem respeito a como as coisas devenVdeveriam ser.

<A) 1 refere-se a juízos de valor e 2 e 3 referem-se a juízos de facto.

(B| 1 refere-se a juízos de facto e 2 e 3 referem-se a juízos de valor.

(C) 1 e 2 referem-se a juízos de facto e 3 refere-se a juízos de valor.

(D) 1 e 2 referem-se a juízos de valor e 3 refere-se a juízos de facto.

3. «Os juízos morais expressam crenças, pois veiculam informação verdadeira ou falsa acerca das
preferências pessoais de quem os formula.»
Qual das perspetivas acerca da natureza dos juízos morais pode ser caracterizada através desta
afirmação?

(A) Subjetivismo.

(B| Relativismo.

(C) Objetivismo.

(D) Nenhuma das alternativas apresentadas.

110
Quc-stõei propostas

4. «Os juízos morais não expressam crenças, pois não veiculam informação verdadeira ou falsa
acerca da realidade.»
Qual das perspetivas acerca da natureza dos juízos morais pode ser caracterizada através desta
afirmação?

IA) Subjetivismo.

(B| Relativismo.

(C) Objetivismo.

(D) Nenhuma das alternativas apresentadas.

5. «Os juízos morais expressam crenças, pois veiculam informação da realidade cuja verdade ou
falsidade é independente de qualquer perspetiva.»
Qual das perspetivas acerca da natureza dos juízos morais pode ser caracterizada através desta
afirmação?

<A) Subjetivismo.

(B) Relativismo.

(C) Objetivismo.

(D) Nenhuma das alternativas apresentadas.

6. «Os juízos morais expressam crenças, pois veiculam informação verdadeira ou falsa acerca das
preferências coletivas da sociedade a que pertence quem os formula.»
Qual das perspetivas acerca da natureza dos juízos morais pode ser caracterizada através desta
afirmação?

IA) Subjetivismo.

(B| Relativismo.
(C) Objetivismo.

(D) Nenhuma das alternativas apresentadas.

7. Quem afirma que há razões para combater a discriminação racial onde quer que ela ocorra rejeita

quer o subjetivismo quer o relativismo.

(B) quer o subjetivismo quer o objetivismo.

(C) quer o relativismo quer o objetivismo.

(D) apenas o relativismo.

8. Quem afirma que não existe uma realidade moral objetiva à qual os nossos juízos morais se
possam referir rejeita

quer o subjetivismo quer o relativismo.

(B) quer o subjetivismo quer o objetivismo.

quer o relativismo quer o objetivismo.

(D) apenas o objetivismo.

ir
A Ação Hum-ana e o« Valore»

Questões propostas

9. Quem defende que não somos moral mente infalíveis rejeita

quer o subjetivismo quer o objetivismo.

quer o relativismo quer o objetivismo.

apenas o objetivismo.

(D) apenas o subjetivismo.

10. Quem considera que há progresso moral nas sociedades defende

quer o subjetivismo quer o relativismo.

quer o subjetivismo quer o objetivismo.

quer o relativismo quer o objetivismo.

(D) apenas o objetivismo.

GRUPO II

Responde de forma direta e objetiva às questões que se seguem.

1. Lê com atenção o texto que se segue.

«Se tu gosto de algo c tu nào. então *algo c bom" c verdadeiro para mim c falso para ti. Usamos
a palavra ‘bom" para falar acerta dos nossos sentimentos positivos. Nada c bom ou mau por si mes­
mo, independentemente dos nossos sentimentos. Os valores existem apenas nas preferências de cada
indivíduo. Tu tens as tuas preferencias e cu tenho as minhas; nenhuma preferencia c objetivamente
correta ou incorreta.»
Harry Gensler, Etfiíts- A CDntiemparary Iníncducriwi.
Oxfbid, Rautlctigc <2<l Uh p. LK

1.1 Formula um argumento a favor da teoria apresentada no texto.

1.2 Formula uma objeção ao argumento apresentado na alínea anterior.

2. Lê com atenção o texto que se segue.

«Àí não cometemos o erro de derivar a moralidade do nosso tempo e espaço diretamente da inevitável
constituição humana. Não a elevamos a dignidade de um primeiro princípio. Reconhecemos que a mora
lidade difere em todas as sociedades, sendo um termo conveniente para hábitos socialmente aprovados.»

Ruth Hi-ncdict. ••AnthropoJagy and thc Aimormal*.


Jkjur/iülof Grncra/ ftgcfofogy I1V J4I. p. 73

2.1 Formula um argumento a favor da teoria apresentada no texto.

2.2 Formula uma objeção ao argumento apresentado na alínea anterior.

112
Qucstôei proposta»

3 Lê com atençao o texto que se segue:

«Os valores nào existem, pelo menos da mesma forma que as pedras e os rios. Considerado à mar
gem dos sentimentos c dos interesses humanos, o mundo parece nào incluir quaisquer valores. [_]
As opiniões éticas nào podem ser objetivamente verdadeiras ou falsas porque não existe uma reali­
dade moral a que possam corresponder ou nào conesponder. Esta ê a diferença profunda entre a ética
c a ciência. A ciência descreve uma realidade que existe independentemente dos observadores. Se os
seres sencientes [seres com a capacidade de ter perceções) deixassem de existir, o mundo permane­
ceria inalterado nos restantes aspetos - continuaria a existir c nào deixaria de ser precisamente como
a ciência o descreve. No entanto, se nào existissem quaisquer seres sencientes. nào existiria qualquer
dimensão moral na realidade.»
Aimef Racheis. ftementos dê Flfaro/ki Moraf,
Ijfboa. Gradivu <21X1-11

Qual das perspetivas acerca da natureza dos juízos morais está a ser criticada no texto. Porquê?

GRUPO III

Atenta no texto que se segue e responde ãs perguntas acerca do mesmo.

Lê com atenção o texto que se segue.

«Em 1966. uma rapariga de dezassete anos chamada Eauziya Kassindja chegou ao Aeroporto In­
ternacional de Nevvark [EUA] e pediu asilo. Tinha fugido do seu país natal, o Togo, pequena nação do
oeste africano, para escapar ao que ali as pessoas chamam «cxcisão». A cxcisão ê uma intervenção
desfiguradora. por vezes chamada «circuncisão feminina», embora tenha poucas semelhanças com
essa prática judaica. É mais frequentemente referida, pelo menos nos jornais de países ocidentais,
como «mutilação genital feminina». [...]
Fauziya Kassindja era a mais jovem de cinco filhas de uma família muçulmana devota. O seu pai.
proprietário de uma bem sucedida empresa de camionagem, opunha-se à excisào. e tinha capacidade
de se opor à tradição por causa da sua riqueza. As suas primeiras quatro filhas casaram sem ser mu­
tiladas. Mas quando Fauziya tinha dezasseis anos, ele morreu subitamente. Eauziya ficou então sob
tutela do avô. que ajustou para ela um casamento c se preparava para a submeter a cxcisão. Fauziya
ficou aterrorizada c a màe e a irmã mais velha ajudaram na a fugir. [...]
Entretanto, [nos Estados Unidos da América,] Fauziya foi detida durante dois anos enquanto as au
toridades decidiam o que fazer. Por fim foi-lhe concedido asilo, mas não sem antes se tornar o centro
de uma controvérsia sobre a forma como devemos encarar as práticas culturais de outros povos. Uma
série de artigos no Neic àòrk Times favoreceu a ideia de que a cxcisão c uma prática bárbara mere­
cedora de condenação. Outros observadores mostraram-se relutantes em ser tão peremptórios - vive
c deixa viver, afirmaram: afinal c provável a nossa cultura parecer igualmente estranha para eles.»

Umes Racheis. Efcrnenios dé Fltaro/ki Mora/.


Ijsboa. Gradnu <2ül>4>, i'adaptadol

1. O caso de Fauziya Kassindja tornou-se «o centro de uma controvérsia sobre a forma como
devemos encarar as práticas culturais de outros povos-: uns consideram que a excisão é uma
prática bárbara merecedora de condenação, outros afirmam que devemos tolerá-la.

Qual das perspetivas te parece mais adequada? Porquê?


A Ação Hum-ana e oi Valores

6» A necessidade de fundamentação da moral


- análise comparativa de duas perspetivas
filosóficas
O problema do critério ético da moralidade de uma ação
A ética, ou filosofia moral, é a area da filosofia que se dedica aos problemas relacio­
nados com o modo como devemos viver as nossas vidas. Entre os problemas a que a
ética procura responder encontram-se os seguintes: <Como devemos agir?»; «Que tipo de
coisas devemos perseguir?*; «Como distinguir uma açào certa de uma açào errada?»; etc.

O problema do critério ético da moralidade de uma ação pode ser formulado nos se­
guintes termos: «O que é que torna uma ação moralmente certa ou errada?*. Ao tentar
responder a esta pergunta, os filósofos morais têm também procurado determinar o que
é que tem valor intrínseco

Algo tem valor intrínseco se, e só se, tem valor em si mesmo e por si mesmo, isto é,
independentemente daquilo que possa por seu intermédio ser alcançado.

Pelo contrário, diz-se que:

Algo tem valor instrumental se, e so se. tem valor apenas


como meio para alcançar certos fins.

Assim, em traços gerais, pode dizer-se que a ética normativa procura determinar:

- o que tem intrinsecamente valor (ou desvalor}- ou seja, procura desenvolver, compa­
rar e avaliar diferentes teorias do valor; e

• o que é certo ou errado fazer - ou seja, procura desenvolver, comparar e avaliar dife­
rentes teorias da obrigação.

Em seguida, iremos analisar as respostas dos filósofos John Stuart Mill e Immanuel
Kant ao problema do critério ético da moralidade de uma açào.

6.1 O utilitarismo de John Stuart Mill


John Stuart Mill é o defensor de uma teoria cha­
mada «utilitarismo*. O utilitarismo caracteriza-se por
defender que:

• a única coisa que tem valor intrínseco é a felici­


dade; e

• a ação correta é aquela, de entre as alternativas


disponíveis, que mais promove a felicidade

John Stuart Mill (1806-1873:.

114
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

O princípio da utilidade (ou princípio da maior felicidade)


Segundo Mill, o fundamento da moralidade é aquilo a que ele decidiu chamar de «prin­
cípio da utilidade» (ou ^princípio da maior felicidade»). Este princípio estabelece que:

«As ações sào conetas na medida em que tendem a promover a felicidade,


c incorretas na medida em que tendem a gerar o contrario da felicidade.»

,k)hn StiMTt Mill. LYfJltartsma, Tud Pedro Madeira. l.i&cu_ Ciradiva (2ÚÚ5). pp. 30 (adaptadol

Mil justifica a sua perspetiva da seguinte forma:

«A tinica prova que se pode apresentar para mostrar que um objeto e visível c o facto
de as pessoas efetivamente o verem. A única prova de que um som c audível c o facto de
as pessoas o ouvirem, t as coisas passam se do mesmo modo com as outras fontes da
nossa experiência. Similarmente, entendo que a única evidencia que se pode produzir
para mostrar que uma coisa ê desejável é o facto de as pessoas efetivamente a desejarem.
Sc o Hm que a doutrina utilitarista propõe a si própria nào fosse, na teoria e na prática,
reconhecido como um fim. nada poderia alguma vez convencer qualquer pessoa de que
o era. Nào se pode apresentar qualquer razão para mostrar que a felicidade geral c de
sejável. exceto a de que cada pessoa, na medida cm que acredita que esta c alcançável,
deseja a sua própria felicidade. Isto, no entanto, sendo um facto, dá-nos nào só toda a
prova que ocaso admite, mas toda a prova que c possível exigir, para mostrar que a feli­
cidade ê um bem: que a felicidade de cada pessoa e um bem para essa pessoa e. logo, a
felicidade geral um bem para o agregado de todas as pessoas.»

John Stuart Mill. LYlIfitartxfno.


TratL Pedro Madeira, l.isbcu- Ciradiva (2ÍKI3L p. 9Ú

Henri Matisse, /i Danço (1909)

115
A Ação Hum-ana e oi Valores

A argumentação geral de MiII pode ser explicitamente formulada conforme se segue:

(1| A única prova de que algo é visível é o facto de ser visto por alguém.
(2) A única prova de que algo é audível é o facto de ser ouvido por alguém.
(3) Logo, a única prova de que algo é desejável é o facto de ser desejado por
alguém. (De 1 e 2, por analogia}
(4) Cada pessoa deseja, por si mesma (e não apenas como um meio para qual­
quer outra coisa), a sua felicidade.
{5) Se a única prova de que algo é desejável é o facto de ser desejado por al­
guém e cada pessoa deseja, por si mesma, a sua felicidade, então a felicidade
de cada pessoa é, por si mesma, desejável para cada uma delas.
(6) Logo, a felicidade de cada pessoa é, por si. desejável para cada uma delas.
I De 3, 4 e 5}
(7} Se a felicidade de cada pessoa é, por si mesma, desejável para cada uma
delas, então a felicidade geral é a única coisa que é, por si mesma, desejável
para o agregado das pessoas.
(8) Logo, a felicidade geral é, por si mesma, desejável para o agregado das pes­
soas. {De 6 e 7|
■■_________________________________________________________________________________ ■

Vamos deixar a avaliação critica deste argumento para o final deste capítulo 6, quan­
do estivermos a considerar possíveis objeções ao utilitarismo. Por agora, tentemos com­
preender as razões que levam MiII a apresentar este argumento.

Mo que diz respeito ãs premissas 1 e 2, aquilo que Mill está a tentar fazer e mostrar que
o tipo de prova que podemos fornecer em relação a certos assuntos, embora possa ser
encarado por alguns como sendo bastante limitado, e o único tipo de prova que pode al­
guma vez ser apresentado a esse respeito e, em certa medida, parece ser suficiente para
satisfazer a nossa necessidade de justificação. Daí Mill afirmar que <A única prova de que
algo é visível e o facto de ser visto por alguém* e que <A única prova de que algo é audível
é o facto de ser ouvido por alguém*. O facto de algo ser visível <ou audível) não parece,
efetivamente, admitir outro tipo de prova que não o apresentado.

Com base nessas duas premissas, Mill infere, por analogia, o passo 3 do seu argu­
mento, a saber, que <a única prova de que algo é desejável é o facto de ser desejado por
alguém*.

A estas trés ideias Mill acrescenta a premissa 4. que sustenta que *cada pessoa deseja,
por si mesma (e não apenas como um meio para qualquer outra coisa), a sua felicidade*.
Noutros pontos da obra, Mill parece mesmo defender uma ideia bastante mais controver­
sa, a saber que *a única coisa que cada pessoa deseja, por si mesma (e não apenas como
um meio para qualquer outra coisa), é a sua felicidade.» A defesa que Mill oferece dessa
ideia baseia-se numa determinada conceção da psicologia humana. De acordo com essa
conceção, tudo aquilo que nós desejamos, ou desejamos apenas como um meio para a
felicidade, ou, no caso de o desejarmos por si mesmo, é porque, de certa forma, esse nos­
so objeto de desejo (seja a virtude, a fama, o dinheiro, o poder, etc.) se tornou uma parte
integrante da nossa felicidade.
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

A premissa 5 limita-se a estabelecer que as ideias defendidas nos passos 3 e 4 impli­


cam que <a felicidade de cada pessoa é, por si mesma, desejável para cada uma delas».

Assim sendo, uma vez que as duas condições que formam a antecedente dessa con­
dicional (as linhas 3 e 4) parecem efetrvamente ser satisfeitas. Mill conclui, no passo 6,
que, efetivamente, <a felicidade de cada pessoa é, por si mesma, desejável para cada uma
delas*.

A esta ideia, Mill acrescenta a premissa 7, que afirma que <se a felicidade de cada
pessoa é, por si mesma, desejável para cada uma delas, então a felicidade geral é, por si
mesma, desejável para o agregado das pessoas*.

E, por fim, conclui que *a felicidade geral é, por si mesma, desejável para o agregado
das pessoas*. Ora. dizer que a felicidade geral é. por si mesma, desejável para o agregado
das pessoas e o mesmo que dizer que devemos procurar promover a felicidade geral,
que é precisamente aquilo que é recomendado (ou prescrito) pelo princípio da utilidade
(ou princípio da maior felicidade?

Lawrence Alma-Tadema. Rrímovero pormenor

117
A Ação Hum-ana e oi Valores

Assim, o padrão da maior felicidade do principio da utilidade |ou princi­


Nota pio da maior felicidade} não se refere apenas à maior felicidade do proprio
Seres sercientes - Seres com a
agente, mas sim à maior felicidade geral, ou seja, à felicidade de todos
capacidade de ter perceções do
que lhes acontece e do que os os seres sencientes (incluindo animais não humanos} afetados pela nossa
rodeia, incluindo a capacidade ação. Isto significa que, para Mill, se tivermos de sacrificar o nosso bem
de sentir dor e prazer.
pessoal para garantir uma maior quantidade total de felicidade, então é pre­
cisamente isso que devemos fazer.

Eis o que Mill tem a dizer a este respeito:

«[A] felicidade que constitui o padrão utilitarista do que esta correto na conduta não
c a própria felicidade do agente, mas a de todos os envolvidos - algo que os críticos do
utilitarismo raramente fazem a justiça de reconhecer. O utilitarismo exige que o agente
seja tão estritamente imparcial entre a sua própria felicidade e a dos outros como um
espetador desinteressado e benevolente.»

Jühn Suart Mill. LMflltarfxino, Irad. Pedro Madeira. Uslxu. Oradnv tZÓÜ-51. pp. 63 64

Desta forma, Mill responde ã acusação de que a ética utilitarista é uma ética egoísta,
focada apenas no interesse pessoal e na promoção daquilo que é mats útil para o próprio
agente.

Com esta salvaguarda, Mill rebate facilmente essa crítica afirmando que, uma vez que
distorce e ridiculariza a doutrina utilitarista, esta crítica não passa de uma falácia do espan­
talho (ou boneco de palha)

Hedonismo
Para melhor compreender o utilitarismo de Mill, temos de explicitar o que é que este
entende por «felicidade» A este respeito, cumpre destacar que Mill e um hedonista

O hedonismo é a perspetiva de que a felicidade consiste apenas


no prazer e na ausência de dor.

Nas palavras de Mill:

«Por felicidade, entendemos o prazer, e a ausência de dor; por infelicidade,


a dor, c a privação de prazer.»

JohnStiurt Mill. Utilitarismo, Trad. Pedro Madeira. Lldioa. Círadiva (200 3). p. 5

118
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

A diferença entre c hedonismo puramente quontitativo e o hedonismo qualitativo

Um dos antecessores de J.S. Mill, chamado Jeremy Bentham, defendia uma versão
puramente quantitativa de hedonismo. De acordo com esta perspetiva, para calcular a
felicidade, ou bem-estar, causada por uma dada ação temos de ver como ela afeta cada
um dos indivíduos envolvidos, subtraindo a quantidade de dor à quantidade de prazer
que ela provoca. Essas quantidades de dor e de prazer, por sua vez, seriam calculadas
exclusivamente com base na sua intensidade e na sua duração

Bentham diria, por exemplo, que uma dolorosa visita ao dentista poderia ainda assim
revelar-se a coisa certa a fazer, desde que a dor intensa, mas de curta duração, provocada
por essa experiência fosse suplantada por um bem-estar futuro bastante prolongado no
Jeremy Bentham
tempo.
(1748-1832)

Mill estaria apenas parcialmente de acordo com o seu antecessor. Na sua opinião, além
da quantidade de prazeres era fundamental ter em conta a sua qualidade. Isto significa
que, contrariamente ao seu antecessor, Mill defendeu uma versão qualitativa de hedo­
nismo. Segundo Mill, existem prazeres qualitativamente superiores a outros, ou seja, há
prazeres intrinsecamente melhores do que outros. Na sua opinião, os prazeres superiores
correspondem aos prazeres intelectuais/espirituais, ou seja, correspondem ã satisfação
das nossas necessidades mentais/espintuais, como a fruição da beleza, do conhecimento,
da amizade, do amor, etc. Ao passo que os prazeres inferiores correspondem aos pra­
zeres corporais, ou seja, correspondem ã satisfação das nossas necessidades primárias,
como a comida, a agua, o sexo, etc.

Mill justifica esta posição da seguinte forma:

«De dois prazeres, se houver um ao qual todos ou quase todos os que tiverem
experiência de ambos dào uma preferência [_], esse ê o prazer mais desejável. Se um
dos dois é colocado, por aqueles que estão competentemente familiarizados com am­
bos. tão acima do outro que seriam capazes de preferi-lo mesmo sabendo que seria
acompanhado de uma maior quantidade de insatisfação, e nào abdicariam dele por
quantidade alguma do outro [_]r temos justificação para atribuir ao prazer preferido
uma superioridade cm qualidade 1...].
Mas e um facto inquestionável que aqueles que estão igual mente familiarizados
com ambos [-.] dào uma acentuada preferência ao modo de vida no qual se faz uso das
faculdades superiores. Poucas criaturas humanas consentiriam em ser transformadas
em qualquer um dos animais inferiores, a troco da máxima quantidade dos prazeres de
um animal: nenhum ser humano inteligente consentiria ser um idiota (...], ainda que
estivessem convencidos de que [estes] se sentiam mais satisfeitos com o que lhes cabia
em sorte do que eles [_]. Os primeiros nào abdicariam das coisas que possuem a mais
do que os segundos, em troca da mais completa satisfação de todos os desejos que tèm
em comum com (eles]. [_] É melhor ser um ser humano insatisfeito do que um porco
satisfeito; um Sócrates insatisfeito do que um idiota satisfeito. E se o idiota, ou o porco,
têm opinião diferente, ê porque apenas conhecem o seu lado da questão.»

JahnStuart Mill. UTlflitarismíJ, Tud. Pedra Madeira, Lisboa. Gradtva (JüüS), pp 52 54 ^adaptadol

11$
A Ação Humana e os Valore*

O essencial do argumento de Mill pode ser explicitamente formulado conforme se segue:

■■------------------------------------------------------------- ■■
(1) Se, de dois prazeres, um deles é
colocado, por aqueles que estào
competente mente familiarizados
com ambos, tào acima do ou­
tro que nào abdicariam dele por
quantidade atguma do outro, en-
tào esse prazer e qualitativa mente
superior ao outro.
(2) Se aqueles que estào igualmente
familiarizados quer com os praze­
res intelectuais/espirituais. quer
com os prazeres corporais, dào
uma acentuada preferência aos
primeiros e nào abdicariam de­
les por quantidade alguma dos
segundos, entào os prazeres in-
telectuais/espirituais sào qualitati­
vamente superiores aos prazeres
corporais. (Aplicação a um caso
concreto do princípio enunciado
em 1|
(3) Aqueles que estào igualmente fa­
miliarizados quer com os prazeres
intelectuais/espirituais, quer com
os prazeres corporais, dào uma
acentuada preferência aos primei­
ros e nào abdicariam deles por
quantidade alguma dos segundos.
(4) Logo, os prazeres intelectuais/es-
pirituais sào qualitativamente su­
periores aos prazeres corporais.
Gerard van Honthorst, Grupo Musicai' nu.tio Varanda (1622} (De 2 e 3, por modas ponens}
■-___________________________________ -■

Ou seja, Mill argumenta que quem quer que tenha a experiência quer de prazeres
intelectuais/espirituais, quer de prazeres corporais nào trocaria a oportunidade de fruir
dos primeiros por nenhuma quantidade imaginável dos segundos. Ora, isso indica que os
prazeres intelectuais/espi rituais são qualitativamente superiores aos prazeres corpo­
rais e, por conseguinte, devemos dar-lhes preferência, recusando-nos a trocá-los por uma
quantidade idêntica, ou mesmo maior, de prazeres corporais.

Mill defende-se deste modo da acusação de que, uma vez que defende que a vida
humana nào tem um fim mais elevado do que o prazer, o utilitarismo ê *uma doutrina
digna apenas de porcos- Para Mill, este tipo de acusaçào nào afeta tanto o utilitarismo
quanto os seus críticos, pois são estes (e não a sua doutrina) que parecem estar a pres­
supor que os seres humanos sào incapazes de sentir prazeres alêm daqueles que os
porcos sentem.

120
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Consequencialismo: intenção e consequências


De acordo com o que foi dito até agora, podemos concluir que para determinar se uma
ação é correta ou errada, tudo o que temos de fazer é pensar como é que ela afeta cada
um dos indivíduos envolvidos, ponderando imparcialmente os benefícios e os prejuízos
que a sua realização trará a todos os indivíduos afetados pela mesma.

Ora, isto significa que. de acordo com o utilitarismo, em qualquer situação, a açâo cor­
reta é aquela que, comparada com todas as alternativas, tem as melhores consequências,
ou seja, aquela que gera o melhor estado de coisas possível, independentemente das
intenções e motivações do agente.

Nas palavras de Mill:

«[O] motivo nada tem a ver com a moralidade da ação, embora tenha muito a ver
com o valor do agente. Quem salva um semelhante de se afogar faz o que está moral
mente correto, quer o seu motivo seja o dever, ou a esperança de ser pago pelo incómo­
do; quem trai a confiança de um amigo, e culpado de um crime, ainda que o seu objetivo
seja servir outro amigo para com o qual tem deteres ainda maiores.»

John Stujrt Mill. Utlíf turismo. Thid. Pedro VCidciu. Usbaj, Gr^dhJ. 12005). p. t»3

Assim, uma vez que sustenta que as intenções e as motivações do agente são irrele­
vantes para o estatuto moral dos atos e que a avaliação moral das ações depende apenas
das suas consequências, o utilitarismo é uma teoria consequencialista.

Diz-se que uma teoria moral e consequencialista quando esta estabelece que
o estatuto moral dos atos depende exclusrvamente das suas consequências.

Além disso, uma vez que. como acabámos de ver, o utilitarismo de Mill defende que
a ação correta e aquela que mais promove o bem-estar agregado — isto e, aquela que
corresponde a um maior total de bem-estar depois de descontar a dor ã soma do prazer
de todos os envolvidos, independentemente da forma como esse bem-estar se encon­
tra distribuído pelos diferentes indivíduos - podemos afirmar que se trata de uma teoria
agregacionista.

Uma teoria é agregacionista se, e so se, consklera que um determinado estado


de coisas é melhor do que outro, no caso de ter um maior total de bem, indepen­
dentemente da forma como este se encontra distribuído.

Princípios secundários: a inexistência de regras morais absolutas


Por fim, resta-nos acrescentar que. apesar de encarar o princípio da utilidade (ou da
maior felicidade} como fundamento de toda a moralidade, Mill não pensava que devería­
mos orientar toda a nossa conduta diretamente por esse principio. Frequentemente, nâo
há tempo, antes de uma dada ação, para calcular e avaliar os efeitos que esta tera na
felicidade geral.

124
A Ação Hum-ana e oi Valores

Contudo, isso não significa que a ética utilitarista se revela incapaz de fornecer qual­
quer orientação prática para a nossa conduta. Ao llongo dos tempos, a humanidade tem
vindo a aprender por experiência a tendência que certas ações têm para produzir felici­
dade, ou infelicidade e, com base nessa experiência, podemos adotar certos princípios
secundários - que, de certa forma, derivam do principio da utilidade (ou da maior felicida­
de) — e utilizá-los como guias relativamente seguros para a nossa conduta.

Por exemplo, quando um dado indivíduo se sente tentado a roubar, ou a matar alguém,
não é como se tivesse de considerar pela primeira vez se o roubo ou o homicídio são
benéficos ou prejudiciais para a felicidade humana. Dada a tendência geral dessas ações
para produzir mais infelicidade do que felicidade, podemos assumir como regra geral que
não devemos roubar, nem devemos matar ninguém.

Contudo, estes princípios secundários náo devem ser encarados como regras mo­
rais absolutas, que devemos respeitar em toda e qualquer situação. Desde logo, porque
as peculiaridades de cada circunstância assim o exigem. No caso de dois princípios for­
necerem recomendações contraditórias, por exemplo, temos de recorrer ao princípio
da utilidade (ou da maior felicidadei para saber qual delas deverá prevalecer sobre a
outra.

Para Mill, o facto de a teoria utilitarista dispor de um padrào último para resolver estes
casos difíceis torna esta teoria particularmente apelativa. Na sua opinião:

«Não c culpa de qualquer doutrina, mas sim da natureza complicada da vida humana,
que as regras de conduta nào possam ser estruturadas de tal forma que nào requeiram
exceções, e que dificilmente se possa estabelecer qualquer tipo de açào como sempre
obrigatória ou sempre condenáv el. (...] Não existe sistema moral algum sob o qual nào
ocorram casos inequívocos de obrigações contraditórias. Estas sào as verdadeiras di­
ficuldades. os momentos intrincados na teoria ética e na orientação conscienciosa da
conduta pessoal. Sào ultrapassados, na prática, com maior ou menor sucesso, segundo
o intelecto c a virtude dos indivíduos; mas dificilmente pode alegar se que alguém está
menos qualificado para lidar com eles por possuir um padrào último para o qual podem
ser remetidos os direitos e deveres em conflito. Se a utilidade é a fonte última das obri­
gações morais, pode ser invocada para decidir entre elas quando as suas exigências sào
incompatíveis.»

Jühn Stujn Mill. LYJlitariscnw. Trud. I^dro Madeira Lisboa. Gradna «L2l>lX5>. pp. 74-73

Ou seja, Mill considera que. devido á complexidade da vida humana, qualquer teoria
moral acabará por se confrontar com situações excecionais nas quais uma dada regra
parece não ter aplicação, ou nas quais surge um conflito entre deveres. Habitualmen­
te. podemos simplesmente seguir os princípios secundários sem ter de estar perma­
nentemente a fazer cálculos de utilidade. Contudo, nestas circunstâncias excecionais,
o utilitarismo recomenda que devemos recorrer ao padrão da utilidade para descobrir
o que devemos fazer, ou qual dos deveres deve ter primazia sobre o outro Na impos­
sibilidade de recorrer ao padrão da utilidade, como um árbitro neutro, para decidir como
agir, qualquer teoria moral se revelará incapaz de oferecer qualquer orientação prática
neste tipo de situações.

122
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Críticas à ética de Mill

Objeções ao argumento a favor do principio da utilidade


(ou da maior felicidade)
Em primeiro lugar, a analogia subjacente ã passagem das premissas 1 e 2 para o
passo 3 e uma falsa analogia (pagina 116), pois existem diferenças relevantes entre
propriedades como «visível» e «audível* e a propriedade «desejável». As primeiras sào
puramente descritivas ou seja, limitam-se a dizer como as coisas são - dizer que algo é
visível é o mesmo que dizer que pode ser visto e dizer que algo é audível é o mesmo que
dizer que pode ser ouvido. Ao passo que a última possui, geralmente, um certo conteúdo
normativo, isto é. não diz apenas como as coisas são, mas antes como devem ser - dizer
que algo é desejável significa geralmente que deve ser desejado, e não simplesmente que
pode ser desejado.

O facto de algo ser desejado não prova que deve ser desejado, mas sim que pode ser
desejado (num sentido descritivo). Contudo, Mill pretende estabelecer que a felicidade de
cada pessoa é desejável para si mesma, num sentido normativo

Em segundo lugar, pode acrescentar-se que os criticos também têm atacado a premissa 7.
Esta premissa tem subjacente aquilo que ficou conhecido como ^falácia da composição".

A falácia da composiçáo consiste em atribuir ao todo características que apenas


podem ser legitimamente atribuídas a cada uma das suas partes.

Por exemplo, considerar que do facto de que


cada um dos alunos da turma ser pessoa se segue
que a turma é uma pessoa é incorrer na falácia da
composição.

AJegadamente, Mill incorre nessa falácia ao con­


siderar que o facto de a felicidade de cada pessoa
ser, por si mesma, desejável para cada uma delas
é uma condição suficiente para que a felicidade
geral seja, por si mesma, desejável para o agrega­
do das pessoas.

Na realidade, pode haver coisas que seriam


boas para cada um de nos, quando individualmen­
te considerados, mas que deixariam pior a socie­
dade no seu todo. Por exemplo, numa sociedade
altamente repressiva, poderia ser bom para cada
um de nós evitar opor-se abertamente ao governo
e, no entanto, poderia ser benéfico para a socie­
dade em geral se houvesse uma forte oposição ao
governo de modo a substituí-lo por um governo
menos repressivo.

Norma n Rockwell, Lbe^obde de Expressdo (1943)

123
A Açao Mumaoa e o* Valore*

Objeção ao hedonismo
O filósofo Robert Nozick concebeu uma engenhosa experiência mental para mostrar
que o hedonismo é falso, ou seja, para mostrar que a felicidade não consiste apenas no
prazer e na ausência de dor. Essa experiência mental ficou conhecida como «A maquina
de experiências*. Nozick apresenta-nos a sua célebre experiência mental nos seguintes
termos:

«Suponhamos que havia uma máquina de experiências que proporcionaria ao lei


tor a experiência que desejasse. Ncuropsicólogos superfixes podiam estimular o seu
cérebro de maneira a pensar c sentir que escrevia um grande romance, fazia um ami­
go ou lia um Livro interessante. Durante todo o tempo estaria a flutuar numa cuba,
Robert Nozick
com eletrodos ligados ao cérebro. Dever-se-ia ligar esta máquina durante toda a vida,
11938-20021
pré programando as suas experiências de vida? (...) Evidentemente, enquanto está na
cuba nâo saberá que ali está: pensara que tudo aquilo acontece cfetivameiitc. (...) Ligar
-se-ia? O que mais pode ter importância para nós. além do modo como sào as nossas
vidas a partir de dentro?»

Robert ND/xk. Anurqufci. £Modbe Ltopfti. Trad Vítor Guerreiro. Ijsboa. Edlçâes 71> I2Ü09J. pp. 74 73

A crítica de Nozick ao hedonismo pode ser explicita mente formulada conforme se segue:

(1} Se o hedonismo fosse verdadeiro, estaríamos apenas interessados em obter o maior


saldo possível de experiências aprazíveis.
<2) Se estivéssemos apenas interessados em obter o maior saldo possível de experiên­
cias aprazíveis, aceitaríamos ligar-nos a uma maquina que subjetivamente nos desse
o maior saldo possível de experiências aprazíveis.
<3) Não estamos dispostos a ligar-nos a uma máquina como essa.
{4) Logo, nâo estamos apenas interessados em obter o maior saldo possível de experiên­
cias aprazíveis. ;De 2 e 3, por modus toflens)
■|5i Logo, o hedonismo é falso. (De 1 e 4, por modus tolíens)

Ou seja, Nozick sugere que estamos interessados em mais


do que obter o maior saldo possível de experiências aprazíveis,
pois caso contrário nâo hesitaríamos ligar-nos a uma máquina
de experiências, que subjetivamente nos desse o maior saldo
possível de experiências aprazíveis. Ora, visto que a maioria de
nos recusaria ligar-se à «máquina de experiências*. Nozick con­
clui que a nossa felicidade não depende apenas da quantidade
de prazer e de dor que existe nas nossas vidas, nem tampouco
da forma como a nossa vida corre de um ponto de vista subje­
tivo. Queremos, efetiva mente, concretizar os nossos objetivos,
satisfazer as nossas preferências, realizar certas ações e envol-
ver-nos em determinados projetos, e não apenas ter a sensação
subjetiva de o fazer. O que mostra que o hedonismo é falso

Giorgo de Chirico, O Grc.Tde dutomoro (1925)


6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Críticas ao agregacionismo

O problema da separação entre os indivíduos


Uma outra objeção comum ao utilitarismo está diretamente relacionada com o caráter
agregacionista desta teoria. Como vimos anteriormente, para uma teoria agregacionista
o importante é produzir o maior total de bem-estar agregado, independente mente da
forma como este se encontra distribuído pelos diferentes indivíduos.

O filósofo norte-americano John Rawls considera que esta conceção não respeita os
princípios da justiça social, pois náo tem em conta a separação entre os indivíduos Rawls
John Rawls
expõe esta critica nos seguintes termos:
<1921-20021

«A característica marcante da visão utilitarista da justiça é a de que. para ela. não


importa, a nào ser indirctameiitc. o modo como a soma das satisfações é distribuída
entre os sujeitos, da mesma forma que nào importa, também salvo indiretamente, a
forma como os sujeitos distribuem as suas satisfações no tempo. Km ambos os casos, a
distribuição correta é aquela que produz a máxima satisfação. [-.] Nào há, pois, razão
para que. em princípio, os maiores ganhos de alguns nào compensem as perdas, compa
rativamente menores, de outros; ou. mais importante, para que a violação da liberdade
de alguns nào possa ser justificada por um maior bem partilhado por muitos. (._]
Nesta concepção da sociedade, os sujeitos individuais sào considerados como en
tidades às quais sào atribuídos direitos c deveres c a quem são afetados os recursos
escassos que permitem a satisfaçào dos desejos, de acordo com regras que conduzem ã
maior satisfaçào possível das necessidades. Assim, a natureza da decisão tomada pelo
legislador ideal não é materialmente diferente da tomada por um empresário que de­
cide o modo de maximizar o seu lucro l_]. Km cada caso, há um tiiüco sujeito cujo sis­
tema de desejos determina □ melhor afetação de recursos limitados. A decisão correta
c, essencialmente, um problema de administração eficiente. Esta visão da cooperação
social e a consequência da extensão à sociedade do princípio de escolha aplicável ao
indivíduo, seguida, como modo de tornar efetiva esta extensão, da união de todos os
sujeitos num só (...]. O utilitarismo não considera, pois, seriamente a pluralidade de
sujeitos.»

John Rawls, Uniu 7biylúdci Jnxtlçci. TracL Carlos Pinto Correia.


Lisboa, Edliarul Presença (2001), pp 4&-44

Aquilo que Rawls está aqui a dizer é que á escala individual faz sentido tomarmos
decisões com base nurr balanço entre perdas e ganhos ou seja, pode justificar-se fazer
um determinado sacrifício pessoal, se isso nos permitir obter uma maior satisfação global
das nossas preferências. Mas isso só acontece porque a pessoa que faz o sacrifício e a
pessoa que recebe o benefício são uma e a mesma. Contudo, o mesmo não se verifica se
estivermos apenas a considerar o maior total de bem-estar da sociedade como um todo,
sem ter em conta a forma como este se encontra distribuído. Nestas circunstâncias, os
maiores ganhos de alguns podem, efetivamente, compensar as perdas comparativamente
menores de outros, ou seja, para garantir um maior total de bem-estar podemos ter de
impor sacrifícios a uns para benefício de outros. Portanto, ao aplicarmos á sociedade
como um todo o mesmo princípio de escolha que usamos ã escala individual, estaremos,
erradamente, a encará-la como se fosse um único indivíduo

125
A Ação Hum-ana e oi Valores

A conclusão repugnante
Outra consequência repugnante relacionada com o caráter agregacionista do utilita­
rismo de MilL é a seguinte: uma ação que resultasse numa sociedade com um grande
número de indivíduos com vidas que quase não merecem ser vividas seria preferível a
uma sociedade com poucos indivíduos com elevados índices de bem-estar

Para ilustrar aquilo que está aqui em causa atentemos na experiência de pensamento
que se segue.

Imaginemos que sou um cientista encarregue de colonizar um novo planeta e que os


recursos que tenho ã minha disposição me permitem criar apenas uma das seguintes po­
pulações (no interior de cada figura está representado o valor do seu nível de bem-estar):

População A População B

O utilitarismo de M II diria que era preferível criar a população B. pois ê aquela que
possui um maior total de bem-estar agregado. Contudo, toda a gente na população B
vive bastante pior do que qualquer indivíduo da população A. Ora, isto é uma implicação
inaceitável do utilitarismo, pois parece que podemos sempre melhorar um estado de coi­
sas apenas aumentando o número de indivíduos com um nível minimamente positivo de
bem-estar.

A estrutura básica desta objeção deixa-se captar pelo seguinte argumento:

-------------------------------------------------------------------------------------------------------
(1) Se o agregacionismo fosse verdadeiro, então uma açâo que resultasse numa socieda­
de com um grande número de indivíduos que vivessem vidas que quase não merecem
ser vividas seria preferível a uma sociedade com poucos indivíduos, ainda que tives­
sem vidas com elevados níveis de bem-estar.
<2) Ora. e falso que uma ação que resultasse numa sociedade com um grande número de
indivíduos que vivessem vidas que quase não merecem ser vividas seria preferível a
uma sociedade com poucos indivíduos, ainda que tivessem vidas com elevados níveis
de bem-estar.
{3) Logo, o agregacionismo ê falso. (De 1 e 2, por modus tollens)
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Yue Minjun, A Execuçòo |1995)

Objeçào da permissividade extrema


Uma das críticas mats frequentes ao utilitarismo consiste na acusação de que, uma
vez que esta teoria estabelece que o estatuto moral dos atos depende apenas das con­
sequências, não há limites aquilo que é permissrvel fazer em nome da maior felicidade.

Por exemplo, por vezes cometer uma injustiça ou fazer algo moralmente condenável,
como matar ou torturar inocentes, pode ser a coisa certa a fazer, desde que isso resulte
numa maior felicidade geraL Contudo, não parece correto tratar as pessoas como meros
meios para os fins de outras

Objeçào da exigência extrema


Por fim, o utilitarismo também tem vindo a ser condenado por ser demasiado exigente
Isto acontece porque esta teoria considera que é sempre errado fazer algo que não contri­
bua para a felicidade geral no maior grau possível, ou seja, nunca é aceitável fazer menos
do que maximizar a felicidade geral por maiores que sejam os sacrifícios pessoais que
isso implique.

Por exemplo, se o meu sonho de infância for ser um biólogo marinho, mas houver uma
carreira alternativa, como médico, por exemplo, que me permita promover maior felicida­
de, então o utilitarismo condenaria o facto de eu perseguir o meu sonho de infância em
vez de me dedicar a uma carreira que me permitisse contribuir para um maior nível de
felicidade global.

127
A Ação Hum-ana e oi Valores

6.2 A ética deontológica de Immanuel Kant


Immanuel Kant é o defensor de uma das mais de­
batidas teorias morais de todos os tempos: a ética
deontológica de Kant. Esta teoria caracteriza-se por
defender que:

* a única coisa que tem valor intrínseco e a boa von­


tade: e

• a ação correta é aquela que é executada por uma


boa vontade, isto e, que é motivada pelo puro
Immanuel Kant (1724-1904) cumprimento do dever.

A boa vontade
Para Kant a única coisa que tem valor intrínseco absoluto e incondicional é a boa
vontade Segundo Kant, a inteligência, a coragem, a perseverança, e outros talentos que
habitualmente consideramos positivos, so são bons se a vontade que fizer uso deles for
boa. caso contrário, podem vir a ser muito prejudiciais. Se imaginarmos que esses talentos
são utilizados por um criminoso, torna-se claro aquilo que Kant tem aqui em mente.

Alem disso, para Kant, a própria felicidade não possui valor intrínseco, pois só pode ser
considerada boa se estiver associada a uma boa vontade: caso contrário, pode ter uma
má influência sobre o nosso comportamento, pois esse tipo de satisfação e contenta­
mento pode tornar-nos desleixados e preguiçosos. AJem disso, se a felicidade não estiver
associada a uma boa vontade não tem qualquer tipo de valor, pois náo ê merecida. Kant
pensa que ninguém no seu perfeito juízo sentiria satisfação com a felicidade de um assas­
sino que escapou à justiça, por exemplo.

Kant argumenta a favor desta perspetiva da seguinte forma:

«Nada é possível pensar que possa ser considerado como bom sem limitação a não
ser uma só coisa: uma boa vontade. Discernimento, argúcia de espírito, capacidade de
julgar e como quer que possam chamar-se os demais talentos do espirito, ou ainda co­
ragem. decisão, constância de propósito, como qualidades do temperamento, são sem
dúvida a muitos respeitos coisas boas e desejáveis; mas também podem tornar se extre
mamente más e prejudiciais se a vontade, que haja de fazer uso destes dons naturais e
cup constituição particular por isso se chama caráter, não for boa. O mesmo acontece
com os dons da fortuna. Poder, riqueza, honra, mesmo a saúde, e todo o hem estar e
contentamento com a sua sorte, sob o nome de felicidade, dão ânimo que muitas vezes
por isso mesmo desanda cm soberba se não existir também a boa vontade que corrija a
sua influência sobre a alma |_); isto sem mencionar o facto de que um espetador razoá­
vel e imparcial cm face da prosperidade ininterrupta de uma pessoa a quem não adorna
nenhum traço de uma pura t boa vontade nunca poderá sentir satisfação, e assim a boa
vontade parece constituir a condição indispensável do próprio facto de sermos dignos
da felicidade.»

Imminuc] Kant. FUndamcntaçdo dei V/ctupKkxi dos Costumes. TM d. Paulo Quixitela,


Lisboa, Edições 7U 12011). pp. 21 22 (adaptadol

129
6. A necessidade de fundamentarão da moral

O pensamento de Kant pode ser formulado nos seguintes termos:

|1| Se existem outras coisas além da boa vontade com valor intrín­
seco incondicional, entào os dons naturais (como os talentos do
espirito e as qualidades do temperamento}, ou os dons da fortuna
(como a riqueza, a honra, a saúde e a felicidade) têm valor intrín­
seco incondicional.
(2) Contudo, nem os dons naturais, nem os dons da fortuna têm va­
lor intrínseco incondicional Ipois o seu valor depende sempre do
facto de estarem associados a uma boa vontade}.
|3) Logo, nào existem outras coisas além da boa vontade com valor
intrínseco incondicional. (De 1e 2, por modus talíens}
■-___________________________________________________________ -■

Na premissa 1, Kant afirma que os dons naturais e os dons da


fortuna sào as principais alternativas à boa vontade quando nos inter­
rogamos acerca do que pode ter valor intrínseco incondicional.

A premissa 2 sustenta que, uma vez que o valor dos dons natu­
rais e dos dons da fortuna depende sempre do facto de estarem as­
sociados a uma boa vontade, estes não são coisas intrinsecamente
valiosas. De acordo com as leis de De Morgan, esta premissa pode
ser corretamente interpretada como sendo a negação da disjunção
que aparece na consequente da condicional que surge na premissa 1.

Assim sendo, na linha 3 pode inferir-se, por modus to/íens, que a Aime-Nicolas Morot
única coisa intrinsecamente valiosa é a boa vontade. O Bom Samcrótono (1880)

Kant acrescenta ainda que:

«A boa vontade nào c boa por aquilo que promove ou realiza, pela aptidão para al­
cançar qualquer finalidade proposta, mas tào-somente pelo querer, istoe, cm si mesma,
e, considerada cm si mesma, deve ser avaliada em grau muito mais alto do que tudo
o que por seu intermédio possa ser alcançado em proveito de qualquer inclinação, ou
mesmo, se se quiser, da soma de todas as inclinações. Ainda mesmo que por um desfa­
vor especial do destino [_] faltasse totalmente a esta boa vontade o poder de fazer vencer
as suas intenções, mesmo que nada pudesse alcançar a despeito dos seus maiores esfor­
ços. c só afinal restasse a boa vontade l-.]. ela ficaria a brilhar por si mesma como uma
joia, como alguma coisa que em si mesma tem o seu pleno valor. A utilidade ou inutili­
dade nada podem acrescentar ou tirar a este valor.»

Immanud Kant. FVndamentaçOo <fa Mfrupskci dos Costumes, Ttud. Pauk) Quincda
Lisboa. Ktbçôes 7Ú (2011). p. 23

Ou seja, Kant considera que a boa vontade é boa em si mesma e por si mesma, e não
pela sua capacidade para alcançar certos fins. Isto quer dizer que o seu valor nào depende
da sua utilidade, isto é, da sua capacidade de produzir certos estados de coisas bons ou
úteis, mas sim do facto de querer a coisa certa, do facto de querer cumprir o dever por
si mesmo, e nào como forma de alcançar este ou aquele fim para satisfazer algum tipo de
interesse ou inclinação pessoal

129
A Ação Hum-ana e oi Valores

Deste modo. Kant conclui que mesmo que uma boa vontade estivesse incapacitada
de cumprir os seus propósitos devido a algum constrangimento externo, ela não deixaria
de ter valor. Por exemplo, se um indivíduo que se encontra numa cadeira de rodas quiser
salvar uma criança de morrer afogada, a sua vontade não deixa de ter valor, apesar de este
nào ser capaz de efetivamente salvar a criança.

De acordo com o que foi estabelecido até aqui, podemos perceber que. para Kant, o
conceito de *boa vontade» e o conceito de *dever» são absolutamente inseparáveis.
Nenhum deles pode ser plenamente compreendido sem o outro. E esta ideia que Kant
parece querer reforçar nas linhas que se seguem:

«Para desenvolver, porém, o conceito de uma boa vontade altamente estimável cm si


mesma c sem qualquer intenção ulterior 1...], este conceito que está sempre no cume da
apreciação de todo o valor das nossas ações c que constitui a condição de tudo o resto,
vamos encarar o conceito do Dever que contem cm si o de boa vontade [...].»

Imminuc] Kant. FUndomcntaçAo da Metafísica Castumcv. Ttad. Pdulo Qulnlda.


Lisboa, Edlçftes 70 (20tl>, pp 2b 27

Assim, depois de explicitar a sua teoria do valor Kant já pode apresentar a sua teoria
da obrigação, que, como acabamos de ver. se encontra estreitamente relacionada com a
primeira.

Para Kant uma ação e correta se. e so se, é executada por uma boa vontade. E a boa
vontade é aquela que age motivada pelo puro cumprimento do dever e não por qual­
quer interesse ou inclinação pessoal. O que significa que para que uma ação tenha valor
moral tem de ser executada porque se reconhece que ela corresponde àquilo que deve
ser feito, isto é. àquilo que todo e qualquer agente moral, independentemente dos seus
desejos e preferências pessoais e subjetivos, deveria fazer nas mesmas circunstâncias.

Agir em conformidade com o dever e agir por dever


Para explicitar melhor o que está aqui em causa. Kant distingue três tipos de ações:
ações contrárias ao dever; ações conforme o dever e ações por dever

As ações contrárias ao dever não exigem grandes explicações, são aquelas que vio­
lam o dever, ou seja, são aquelas que Kant considera impermissíveis ou proibidas, coisas
que nunca podemos intencional mente fazer. Como por exemplo, roubar, matar inocentes,
torturar inocentes, mentir, quebrar promessas, ou outras ações que resultem na violação
dos direitos fundamentais das pessoas — como o direito à vida, o direito á integridade físi­
ca e psicológica, o direito à propriedade privada, etc.

As ações conforme o dever são as que se encontram de acordo com o dever, mas que
não são realizadas por se reconhecer que seria correto fazê-lo. mas sim porque daí resulta
algum tipo de benefício ou a satisfação de um interesse ou Inclinaçáo pessoal. Como
acontece, por exemplo, quando alguém não rouba porque tem receio de ser apanhado,
ou não mente porque tem medo de ser castigado.

130
6. A necessidade de fundamentarão da moral

As ações por dever são as únicas que têm valor moral intrínseco, uma vez que sâo rea­
lizadas por si mesmas, e não por aquilo que por seu intermédio possa vir a ser alcançado.
Isto é, sâo realizadas simplesmente porque correspondem àquilo que deve ser feito, sâo
motivadas pelo puro cumprimento do dever. Como, por exemplo, não mentir para cum­
prir essa obrigação moral, ou nào roubar porque seria errado fazê-lo.

Para ilustrar melhor o contraste entre as ações por dever e as ações mera mente con­
forme o dever Kant convida-nos a refletir sobre estes três casos:

Caso 1: O merceeiro interesseiro

«É na verdade conforme ao dever que o merceei­


ro nào suba os preços ao comprador inexperiente,
c. quando o movimento do negócio é grande, o co­
merciante esperto também nào faz semelhante coisa,
mas mantem um preço fixo geral para toda a gen­
te, de forma que uma criança pode comprar em sua
casa tào bem como qualquer outra pessoa. É se. pois,
servido honradamente: mas isso ainda nào c bas­
tante para acreditar que o comerciante tenha assim
procedido por dever e princípios de honradez; o seu
interesse assim o exigia [_]. A ação nào foi, portanto,
praticada por dever mas somente com intenção
egoísta.»

Immdnud Kant Fundamentação da Mrtullsfcu das Crjwri/incs.


Trad. Paulo Quintela, Lisboa. Edlçfles 7Ü (2ÍI1L), pp 27 JH

Jan Victors, 4 We.rcea.r.’n de Süyskoo.t (1654|

Anda que esteja a agir em conformidade com o dever ao praticar o mesmo preço para
todos os seus clientes, este merceeiro está a agir apenas por interesse, e não por reco­
nhecer que esse é o seu dever. Ora, uma vez que a sua ação não é motivada pelo puro
cumprimento do dever, Kant vai considerar que esta não tem qualquer tipo de valor moral

Caso 2: O instinto de sobrevivência

«Conservar cada qual a sua vida ê um dever, e c alem disso uma coisa para a qual Nota
toda a gente tem inclinação imediata. Mas por isso mesmo é que o cuidado, por vezes 1 Uma máxima é
ansioso, que a maioria dos homens lhe dedica nào tem nenhum valor intrínseco e a uma regra ou pnncí-
pio que nos manda
máxima1 que o exprime nenhum conteúdo moral. Os homens conservam a sua vida
agir de uma deter­
conforme ao dever, sem dúvida, mas nào por dever. Em contraposição, quando ascon minada maneira.
trariedades e o desgosto sem esperança roubaram totalmcntc o gosto de viver; quando
o infeliz, com fortaleza de alma, mais enfadado do que desalentado ou abatido, desep
a morte, e conserva contudo a vida sem a amar, nào por inclinação ou medo, mas por
dever, então a sua máxima tem um conteúdo moral.»

Immanud Kant. Hí ntfumcmaçúi.i íAj Meiupskxi dos Curtumes. Trad. Paula Quiiuelu
Lisboa. Edições TV (JU11F, p. JH ' atLiptadol

131
A Açao Mumaoa e o* Valore*

Aqui, Kant convida-nos a comparar a situação de alguém que preserva a sua vida, guia­
do por uma inclinação ou tendência natural, uma espécie de instinto de sobrevivência,
com a situação de alguém que, embora deseje a morte, preserva a vida, não por inclinação
ou por interesse, mas por puro dever. Apenas no segundo caso a ação de preservar a
vida é realizada porque o agente reconhece que esse é o seu dever e, por conseguinte,
apenas essa ação é vista por Kant como contendo algum tipo de valor moral

Caso 3: O filantropo compassivo

«Ser caritativo quando se pode sê-lo é um dever, c há alem disso muitas almas de
disposição tão compassiva que. mesmo sem nenhum outro motivo de vaidade ou inte­
resse, acham íntimo prazer cm espalhar alegria a sua solta e se podem alegrar com o
contentamento dos outros, enquanto este c obra sua. Eu afirmo porém que neste caso
uma tal ação, por mais conforme ao dever, por mais amável que ela seja, não tem con­
tudo nenhum verdadeiro valor moral, mas vai emparelhar com outras inclinações, por
exemplo o amor das honras, que. quando por feliz acaso topa aquilo que efetivamente c
de interesse geral c conforme ao dever, c. consequentemente, honroso e merece louvor
c estímulo, mas não estima: pois à sua máxima falta o conferido moral que manda que
tais ações se pratiquem, nào por inclinação, mas por dever. Admitindo pois que o ânimo
desse filantropo estivesse velado pelo desgosto pessoal que apaga toda a compaixão pela
sorte alheia, e que ele continuasse a ter a possibilidade de fazer bem aos desgraçados,
mas que a desgraça alheia nào o tocava porque estava bastante ocupado com a sua pró­
pria; se agora, que nenhuma inclinação o estimula já. ele se arrancasse a esta mortal
insensibilidade c praticasse a ação sem qualquer inclinação, simplesmente por dever,
só então ê que ela teria o seu autêntico valor moral.»
Imminuc] Kant. H/ndiJincntuçdrj dü do* Cxisíumcs- Trud. Pdulo Quinteh,
IJjíbca. Edições 7Ú IZüll)- pp. 2M 29

Este último caso destaca um outro aspeto curioso da ética kantiana, que é o facto
de esta considerar que as nossas disposições, emoções e sentimentos, ainda que sejam
benéficas, como a simpatia, a compaixão, a gratidão, etc., funcionam sempre como uma
espécie de obstáculo ã nossa ação moral. Isto acontece porque se nos deixamos guiar
por este tipo de sentimentos, então não estaremos a agir apenas por reconhecer que a
ação em causa é aquela que deve ser realizada por todo e qualquer agente moral que
se encontre naquelas circunstâncias, mas sim porque, por sermos a pessoa que somos,
nos sentimos bem ao agir dessa forma.

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Pierre Auguste-Renoir,
O Bcrife no Woòíún
de i'o Goíette |1876}

132
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Máxima, imperativo hipotético e imperativo categórico


Kant considera que quando agimos é como se estivéssemos a seguir uma máxima, isto
é, uma regra ou princípio que nos manda agir de uma determinada maneira. As máximas
traduzem-se em imperativos que seguimos quando agimos, como, por exemplo:

• *Não mintas, se náo quiseres perder a credibilidade*;

• «Não copies no exame, se correres o risco de ser apanhado»; ou

• «Ajuda os amigos em necessidade»;

• «Cumpre as tuas promessas»;

- etc.

Os imperativos que seguimos quando agimos podem ser de dois tipos:

• imperativos hipotéticos; ou

• imperativos categóricos

Os imperativos hipotéticos têm subjacente a forma:

«Faz x, se queres y!» (ou «Não faças x, se não queres y?»)

como acontece, por exemplo, com o seguinte imperativo: «Não copies no teste se não
queres ser apanhado!»

Nestes casos a ação não é realizada por si mesma, mas sim tendo em vista um
determinado fim. Só subscrevemos os imperativos se tivermos adotado certos desejos ou
se tivermos certos fins em vista. Isto significa que uma ação prescrita por um imperativo
hipotético pode, na melhor das hipóteses, ser uma ação conforme o dever (quando aquilo
que e prescrito coincide com o nosso dever), mas nunca será uma ação realizada por
dever e, por conseguinte, nunca poderá ter qualquer tipo de valor moral.

Por outro lado, os imperativos categóricos têm subjacente a forma:

«Faz jrf» (ou «Não faças x!»)

como, por exemplo, no seguinte imperativo: «Não copies!»

Estes imperativos são absolutamente incondicionais, isto é representam a ação como


objetivamente necessária, independentemente do tipo de pessoa que somos, dos dese­
jos que temos ou dos fins que procuramos alcançar.

Assim, apenas os imperativos categóricos podem levar a ações por dever, isto é, ações
realizadas por se reconhecer que é aquilo que objetivamente deve ser feito e não por­
que delas resulta um benefício ou a satisfação de um interesse ou inclinação pessoal; por
conseguinte, apenas essas ações podem ter valor moral.

133
A Ação Hum-ana e oi Valores

Deontologia: o dever e a lei moral


Uma vez que estabelece que o valor moral de uma ação depende da máxima que lhe
subjaz, ou seja, daquilo que leva o agente a executá-la, da sua motivação para agir, e não das
suas consequências, a ética de Kant não podia estar mais afastada do utilitarismo de J.S. MilL
Ao passo que esta última é considerada uma etica consequência lista - pois considera que
o estatuto moral das nossas ações depende apenas das suas consequências —. a primeira
pode ser considerada uma ética deontológica (do grego, <deoníos>, que significa <dever>).

Diz-se que uma teoria moral e deontológica quando esta estabelece


que as consequências não são o único fator relevante
para determinar o estatuto moral das nossas ações.

Assim, de acordo com Kant

Dever c a necessidade de uma ação por respeito a lei

«O valor moral da açào não reside, portanto, no efeito que dela se espera: também
não reside cm qualquer princípio da açào que precise de pedir o seu móbil a este efeito
esperado. [_] Por conseguinte, nada senão a representação da lei em si mesma [_.] pode
constituir o bem excelente a que chamamos moral [...].
Mas que lei pode ser cntào essa cuja representação, mesmo sem tomar em conside
ração o efeito que dela se espera, tem de determinar a vontade para que esta se possa
chamar hoa absolutamente c sem restrição? Uma vez que despojei a vontade de todos
os estímulos que lhe poderiam advir da obediência a uma qualquer lei, nada mais resta
do que a conformidade a uma lei universal das ações em geral que possa servir de único
princípio a vontade, isto c: devo proceder sempre de maneira que eu possa querer tam­
bém que a minha máxima se torne uma lei universal.»

Imminuc] Kant. Híndumcniuça» du Metafbtaa dos Costume*. Trad. Paula Qulntda.


Lisboa, BdiçOes XI <2011), pp 31-34

Deste modo, Kant conclui que o princípio fundamental de toda a moralidade, aquilo
que daqui em diante chamaremos «o imperativo categórico*, pode ser assim formulado:

Primeira fórmula do imperativo categórico: a fórmula da lei universal


Age sempre segundo uma mãxima tal que possas ao mesmo tempo
querer que ela se torne lei universal.

Podemos reconstruir a argumentação de Kant a favor deste princípio conforme se segue:


---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
<1| A mãxima subjacente a uma ação é um imperativo hipotético ou um imperativo cate­
górico.
<2) Se uma açào tem valor moral, então a mãxima subjacente ã mesma não é um impe­
rativo hipotético.
<3> Logo, se uma ação tem valor moral, então a máxima subjacente à mesma é um impe­
rativo categórico. {De 1 e 2)
{4) A mãxima subjacente a uma açào é um imperativo categórico se, e so se. representa
essa ação como objetiva mente necessária.
■|5) Logo, uma ação tem valor moral só se a máxima subjacente à mesma representa essa
ação como objetivamente necessária. |De 3 e 4|
______________________________________
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

A premissa 1 limita-se a reconhecer que a máxima subjacente a uma ação pode tradu­
zir-se num de dois tipos de imperativos: hipotéticos ou categóricos

A premissa 2 estabelece que para que uma ação tenha valor moral a máxima subjacen­
te ã mesma não pode ser um imperativo hipotético. Isto acontece porque, conforme vimos
anteriormente, os imperativos hipotéticos nâo recomendam que a ação seja realizada por
si mesma, mas sim apenas como meio para alcançar um determinado fim. Mas, nesse
caso, ao agir desse modo o agente não estaria a valorizar a ação realizada, mas sim o fim
que pretende alcançar por seu intermédio

Daqui se segue, na linha 3, que para que uma ação tenha valor moral a máxima
subjacente ã mesma tem de ser um imperativo categórico

Na linha 4, acrescenta-se a ideia de que os imperativos categóricos representam a


ação como objetiva mente necessária, isto é, como aquilo que objetivamente deve ser
feito, independente mente dos interesses e inclinações pessoais do agente, das suas pre­
ferências e dos seus desejos subjetivos.

Por fim, na linha 5. conclui-se que uma ação tem valor moral se, e só se, a máxima sub­
jacente ã mesma representa essa ação como objetivamente necessária, ou seja, «devo
proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se
torne uma lei universal».

Assim, agir por dever é agir somente em função de imperativos que representam a
ação como objetivamente necessária, independentemente do tipo de pessoa que somos,
dos desejos que temos ou dos fins que procuramos alcançar. Isto significa que a boa von­
tade é aquela que adota o imperativo categórico como guia da sua conduta.

Quando queremos agir corretamente devemos abstrair-nos dos nossos desejos e in­
clinações pessoais e perguntar se podemos consistentemente querer que a máxima
subjacente a nossa ação se converta numa lei universal. Se a resposta for sim, então a
ação pode ser realizada. Se a resposta for não, então a ação nâo deve ser realizada.

É precisamente esta ideia que Kant parece estar a defender no excerto que se segue:

«Nào preciso pois de perspicácia de muito Largo alcance para saber o que hei de
fazer para que o meu querer seja moral mente bom. Inexperiente a respeito do curso
das coisas do mundo, incapaz de prevenção em face dos acontecimentos que nele se
venham a dar, basta que eu pergunte a mim mesmo: - Podes tu querer também que a
tua máxima se converta em lei universal? Se nào podes, então deves rejeita La. e não
por causa de qualquer prejuízo que dela pudesse resultar para ti ou para os outros,
mas porque ela nào pode caber como princípio numa possível legislação universal.
Ora a razão exige me respeito por uma tal legislação [_]. [A] necessidade das minhas
ações por puro respeito a lei prática c o que constitui o dever, perante o qual tem de
ceder qualquer outro motivo, porque ele é a condição de uma vontade boa cm si. cujo
valor r superior a tudo.»

Immanud Kant. FUiKÍumcnrciçdo i?u Mcrupskxi dos Costumes, Trud. Pjuki Quinxdj
Ijsbaa, EdiçOcs 7l> ÍJJHI. pp. 36-37

135
A Ação Hum-ana e oi Valores

Assim, o teste para se determinar a moralidade de uma ação é o seguinte:

1) Que regra (máxima) estamos a seguir ao realizarmos essa ação?

2) Estamos dispostos a querer que essa regra (máxima) seja adotada por todos?

Mas isto nào consiste em ver se seria bom ou mau que todos agissem de acordo com
uma determinada regra. Consiste, antes, em tentar perceber:

2a) É possível todos agirem segundo essa máxima?(Teste da consistência da máxima.)


Ou seja, procurar determinar se e possível conceber essa máxima como uma lei
universal da natureza, ou se a maxima é de uma natureza tal que seria autocontra-
ditõria caso fosse concebida dessa forma.

Caso seja possível conceber essa máxima como uma lei universal da natureza (isto é.
se a máxima nào se revelar autocontraditória caso seja concebida dessa forma), devemos
ainda perguntar-nos:

2b) Podemos consistentemente querer que essa máxima se converta em lei universal
da natureza? (Teste da consistência da vontade.)
Ou seja, procurar determinar se uma determinada vontade pode efetrvamente que­
rer que essa máxima se converta em lei universal da natureza sem cair forçosamen­
te em contradição consigo mesma.

Apenas as máximas que passam estas duas componentes do teste da universalização


imposto pelo imperativo categórico - a saber, o teste da consistência da máxima e o teste
da consistência da vontade - ê que podem ser adotadas como guias da nossa ação.

Veja mos em seg u ida de q ue forma podemos apl ica r este teste a q uatro exem pios apre­
sentados pelo próprio Kant.

Exemplo I: Um suicídio por autocomiseraçào

«Uma pessoa, por unia serie de desgraças, chegou ao desespero e sente tedio da vida,
mas está ainda bastante cm posse da razão para poder perguntar a si mesma se nào será
talvez contrário ao dever para consigo mesma atentar contra □ própria vida. E procura
agora saber se a máxima da sua açào se poderia tornar cm lei universal da natuieza. A
sua máxima, porém, c a seguinte: Por amor de mim mesmo, admito como principio
que. se a vida, prolongando-se, me ameaça com mais desgraças do que me promete* ale­
grias. devo encurtá-la. Mas pergunta se agora se este princípio do amor de si mesmo se
pode tomar em lei universal da natureza. Vê-se cntào cm breve que uma natureza cup
lei fosse destruir a vida em virtude do mesmo sentimento cujo objetivo é suscitar a sua
conservação, se contradiria a si mesma [_]. Por conseguinte, aquela máxima nào pode
ria de forma alguma dar-se como lei universal da natureza, c portanto c absolutamente
contrária ao princ ípio supremo de todo o dever.»

Imminuc] Kant. Fi/ndamcntaçúc da Mrtaf&toa dos Outumcs. TTad. IViula Qulntela,


Lisboj. HdiçOcs TU (20 Ü), p. 63

Neste primeiro exemplo, Kant interroga-se acerca da moralidade do suicídio por auto-
comiseração Para isso aplica o teste do imperativo categórico.
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Em primeiro lugar, temos de determinar qual é a máxima subjacente a essa ação. Kant
sugere que a máxima aqui em causa é a seguinte: <Por amor próprio, põe fim à tua vida se
o futuro te reserva mais infelicidade do que felicidade*.

Em segundo lugar, temos de verificar se esta máxima passa no teste da universalização


Comecemos por procurar determinar se é possível conceber essa máxima como uma lei
universal da natureza, ou se a máxima ê de uma natureza tal que seria autocontraditória
caso fosse concebida dessa forma, ou seja, devemos ver se a máxima satisfaz as exigên­
cias impostas pelo teste da consistência da máxima. Apenas no caso de esta cumprir
essas exigências faria sentido aplicar a segunda parte do teste, isto ê, apenas nessas cir­
cunstâncias faria sentido procurar determinar se podemos consistentemente querer que
essa máxima se converta em lei universal da natureza (teste da consistência da vontade).

Neste caso, Kant conclui que a máxima apresentada não passa o teste da consistência
da máxima, pois uma máxima que recomenda que se destrua a vida por um sentimento de
autopreservaçâo contradiz-se claramente a si mesma e, por conseguinte, náo ê sequer
possível concebê-la como uma lei universal da natureza

Exemplo 2: Ima falsa promessa

«Umj outra pessoa vê-se forçada pela necessidade a pedir dinheiro emprestado.
Sabe muito bem que nào poderá pagar, mas vê também que náo lhe emprestarão nada
se nào prometer firmemente pagar em prazo determinado. Sente a tentação de fazer a
promessa; mas tem ainda consciência bastante para perguntar a si mesma: Nào c proi­
bido c contrário ao dever livrar se de apuros desta maneira? Admitindo que se decidia
a fazê lo, a sua máxima de ação seria: Quando julgo estar cm apuros de dinheiro, vou
pedi lo emprestado e prometo pagá-lo, embora saiba que tal nunca sucederá. Este prin
cípio do amor de si mesmo ou da própria conveniência pode talvez estar de acordo com
todo o meu bem estar futuro: mas agora a questào c a de saber se é justo. Converto as­
sim esta exigência do amor de si mesmo cm lei universal e ponho assim a questão? Que
aconteceria se a minha máxima se transformasse cm lei universal? Vejo então imediata
mente que ela nunca ptxieria valer como lei universal da natureza e concordar consigo
mesma, mas que, pelo contrário, ela se contradiria necessariamente. Pois a universali­
dade de uma lei que permitisse a cada homem que se julgasse cm apuros prometer o
que lhe viesse a ideia com a intenção de nào o cumprir, tornaria impossível a própria
promessa (.»]: ninguém acreditaria cm qualquer coisa que lhe prometessem c rir-se-ia
apenas de tais declarações como de vãos enganos.»

Immanud Kant. FUmfamcntaçto da Mettiftekxi dos Ctetamcs, TTad. Paula Quincelj


Lisboa, EdlçOesTO (2ÚU>, pp. 6 j l

Este segundo exemplo questiona a moralidade de se fazerem falsas promessas para


resolver problemas pessoais. Kant imagina que a máxima subjacente a essa açáo seria
qualquer corsa como: <Faz promessas que nào pretendes cumprir, se isso te permitir resol­
ver os teus problemas pessoais*. Sera que esta máxima passa o teste da universalização?

Kant conskiera que esta máxima náo passa o teste da universalização, pois nào pode
ser concebida sem contradição como uma lei universal da natureza. No momento em que
esta máxima se tomasse uma lei universal da natureza, o próprio ato de fazer promessas
deixaria de fazer sentido.

137
A Ação Humana e os Valore*

Exemplo J: Um talentoso preguiçoso

«Uma terceira pessoa encontra em si um talento natural que. cultivado cm certa


medida, poderia fazer dela um homem útil sob vários aspetos. Mas encontra-se em
circunstancias cómodas e prefere ceder ao prazer a esforçar-se por melhorar e alargar
as suas felizes disposições naturais. Mas está em condições de poder perguntar ainda
a si mesmo se, alem da concordância que a sua máxima do desleixo dos seus dons
naturais tem com a sua tendência para o gozo, ela concorda também com aquilo que
se chama dever. E então vê que na verdade uma natureza com uma tal lei universal
poderia ainda subsistir, mesmo que o homem [_.] deixasse enferrujar o seu talento e
cuidasse de empregar a sua vida na ociosidade, no prazer, na propagação da espécie,
numa palavra no gozo; mas não pode querer que isto se transforme cm lei universal
da natureza Pois como ser racional quer ele necessariamente que todas as suas
faculdades se desenvolvam, porque lhe foram dadas c lhe servem para toda a sorte de
fins possíveis.»

Imnunud Kant, Hrndumcntuçdvj du Mctopxkxi dos CZistumes. Trad. Paulo Qulntfla.


Lisboa, HdiçOcsTÜ (júllh pp. 64 íiS

No terceiro exemplo, Kant procura determinar se teremos o dever de desenvolver os


nossos talentos. Kant chega ã conclusão de que, em certa medida, temos efetivamente
essa obrigação. Para isso recorre nova mente ao teste do imperativo categórico. Qual se­
ria a máxima que o agente estaria a seguir nestas circunstâncias? Podemos imaginar que
Kant responderia a esta pergunta da seguinte forma: <Desleixa os teus dons naturais, se
isso te permitir usufruir de uma maior quantidade de prazer*.

Passara esta máxima o teste da universalização?

John William Godward. Dofce Far Ntente, (1897)

138
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Kant começa por notar que não seria impossível conceber esta maxima como uma lei
universal da natureza, o que significa que esta máxima passa o teste da consistência da
máxima. Assim sendo, devemos procurar determinar se, ainda que a universalização des­
sa máxima seja possível, podemos consistentemente querer que assim seja, ou seja, se
passa o teste da consistência da vontade.

Kant conclui que isso já não se verifica, isto é. embora passe o teste da consistência
da maxima, esta máxima náo passa o teste da consistência da vontade, pois nenhum ser
racional pode consistentemente querer que as suas capacidades fiquem completamente
por desenvolver, visto que desse modo ficaria privado de usufruir de tudo aquilo que estas
lhe permitiriam alcançar.

Exemplo 4: Um afortunado sovina

«Uma quarta pessoa ainda, que vive na prosperidade ao mesmo tempo que ve ou­
tros a lutar com grandes dificuldades (e aos quais ela poderia auxiliar), pensa: Que é
que isso me importa? Que cada qual goze da felicidade que o ccu lhe concede ou que
ele mesmo pode arranjar: eu nada lhe tirarei dela, nem sequer o invejarei; mas contri­
buir para o seu bem-estar ou para o seu socorro na desgraça, para isso é que eu nào es­
tou! Ora supondo que tal maneira de pensar se transformava em lei universal da natu­
reza, c verdade que o gênero humano podia subsistir, e sem dúvida melhor do que se
cada um se pusesse a palrar de compaixão e benquerença e mesmo se esforçasse por
praticar ocasional mente essas virtudes, ao mesmo tempo que, sempre que pudesse,
se desse ao engano, vendendo os direitos dos outros ou prejudicando-os de qualquer
outro modo. Mas embora seja possível que uma lei universal da natureza possa subsis­
tir segundo aquela máxima, nào é contudo possível querer que um tal principio valha
por toda a parte como lei natural. Pois uma vontade que decidisse tal coisa põr se ia
cm contradição consigo mesma: podem com efeito descobrir-se muitos casos em que
a pessoa em questão precise do amor c da compaixão dos outros r cm que ela, graças
a tal lei natural nascida da sua própria vontade, roubaria a si mesma toda a esperança
de auxilio que para si deseja.»

Iminamid Kdnt. FVndamcntciçúo dei Mrtcipskxi dos Costumes. Trud. PJuJa ÇKiincdd
Ijsbaa, EdicOes71? ÍJJlll. pp. 63 66

Por fim, Kant serve-se do quarto exemplo para verificar se temos ou não o devei de aju­
dar os outros, isto ê, de «contribuir para o seu bem-estar ou para o seu socorro^, como
Kant afirma no excerto.

Para isso, Kant convida-nos a imaginar uma pessoa abastada que se recusa a ajudar os
outros. Qual poderia ser a máxima subjacente á sua ação? Podemos imaginar que seria
algo do género: *Náo contribuas para o bem-estar dos outros, nem os ajudes quando es­
tes tiverem necessidade*.

Kant considera que esta máxima também não passa no teste da universalização, pois,
embora não seja inconcebível ou contraditório supor que esta se torna uma lei universal
da natureza, um ser racional não pode consistentemente querer que isso aconteça. Ou,
como diz Kant, *uma vontade que decidisse tal coisa pór-se-ia em contradição consigo
mesmaj. Isto significa que embora passe no teste da consistência da máxima, esta máxi­
ma náo passa no teste da consistência da vontade.

139
A Ação Hum-ana e oi Valores

Assim. Kant conclui que temos o dever de ajudar os outros. Mas e preciso notar que
Kant considera que este dever não é tão importante quanto o dever de não prejudicar
os outros, de não os enganar e de não violàr os seus direitos. Kant afirma claramente que
alguém que não ajuda os outros é. ainda assim, preferível a alguém que ocasionalmente
ajuda os outros, mas que noutras circunstâncias os prejudica ou atenta contra os seus
direitos fundamentais.

Como pudemos constatar através da análise destes quatro exemplos, temos deveres
para connosco {como ilustram os exemplos 1 e 3) e deveres para com os outros (como
ilustram os exemplos 2 e 4). Além disso, como ficou claro no exemplo 4, alguns dos nos­
sos deveres têm prioridade sobre outros. Os deveres representados nos exemplos 1 e 2
correspondem àquilo que Kant chama de «deveres perfeitos» e tem prioridade sobre os
deveres representados nos exemplos 3 e 4. que correspondem àquilo que Kant chama de
«deveres imperfeitos*. Eis o que Kant tem a dizer acerca desta distinção:

«Temos que poder querer que a máxima da nossa açào se transforme em lei uni­
versal: é este o cânone pelo qual a julgamos moral mente cm geral. Algumas açòes sào
de tal ordem que a sua máxima nem sequer se pode pensar sem contradição como lei
universal da natureza, muito menos ainda se pode querer que devam ser tal. Em ou­
tras nào se encontra, na verdade, essa impossibilidade interna, mas é contudo impos­
sível querer que a sua máxima se erga á universalidade de uma lei da natureza, pois
que uma tal vontade se contradiria a si mesma. Facilmente se vê que as do primeiro
gênero contrariam o dever estrito ou estreito (iniludível), c as do segundo o dever
mais Largo (meritório}.»

Imminucl Kant, H/ndumcntaça» efu Mrtaf&toa dmc Gcisiumcs. Trad. Paula Quintcla,
Lisboa. Edições 7Ü (2ÜÍII, pp Mi

Deste modo, podemos afirmar que os deveres perfeitos são indicados por máximas
que nào passam no teste da consistência da máxima, isto é, por máximas que nem sequer
podem ser concebidas como leis universais, pois seriam autocontraditórias.

Estes deveres são considerados perfeitos, pois nào admitem qualquer exceção em
favor da inclinação, isto é, devem ser observados em toda e qualquer circunstância. Este
tipo de deveres prescreve um respeito total pelos direitos fundamentais das pessoas
— como o direito ã vida, á liberdade, à integridade física e psicológica, entre outros -
e, por conseguinte, estabelece de uma forma perfeitamente delineada um conjunto de
restrições absolutas, ou seja, de coisas que nunca podemos intencionalmente realizar,
independentemente das suas consequências. Por esse motivo, os deveres perfeitos são,
geralmente, formulados na negativa, por exemplo: *Não mates!»; «Nào mintas!*: «Não
tortures inocentes!»; etc.

Ora, isto significa que, por melhores que sejam as consequências, Kant considera que
nunca podemos atentar contra os direitos fundamentais das pessoas, o que signrfica que
nunca devemos matar, prender, agredir ou enganar ninguém. Assim, Kant considera, por
exemplo, que temos o dever perfeito de nào fazer falsas promessas para resolver proble­
mas pessoais.

140
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Por sua vez, os deveres imperfeitos são indicados por máximas que não passam no
teste da consistência da vontade, isto é. por maximas que, embora possam ser concebi­
das como leis universais, nenhuma vontade pode consistentemente querer que isso acon­
teça, pois, nesse caso, estaria a cair em contradição consigo mesma.

Estes deveres são considerados imperfeitos, pois limitam-se a estabelecer certos fins
obrigatórios isto é, dizem-nos que devemos procurar alcançar certas coisas - designa­
damente. o nosso aperfeiçoamento pessoal e a felicidade geral -, mas não especificam
de forma clara e delimitada em que extensão devemos fazê-lo. Os deveres imperfeitos
são, geralmente, formulados na positiva, porque recomendam que se procure fazer certas
coisas. Contudo, a natureza dessas recomendações é sempre vaga e indeterminada, pois
não se diz exatamente o que é que temos de fazer no sentido de as cumprir. Por exemplo:
«Ajuda os outros em necessidade!*; «Cultiva os teus talentos!*; etc.

Isto significa que, para Kant temos o dever imperfeito de ajudar os outros em necessi­
dade, mas isto não deixa claro que tipo de ajuda, ou que quantidade de ajuda, temos exa­
tamente de oferecer para que possamos considerar que esse dever está a ser cumprido.

Conforme foi anteriormente referido, Kant estabelece ainda que em circunstância al­
guma se justificaria violar um dever perfeito para assegurar o cumprimento de um dever
imperfeito. Ou seja.

Os deveres perfeitos têm sempre prioridade sobre os deveres imperfeitos.

De acordo com o que foi estabelecido, podemos estabelecer a seguinte articulação


entre os nossos diferentes tipos de deveres:

Tipos de deveres Para connosco Para com os outros

Não por fim a própria vida por Não fazer falsas promessas para
Perfeitos autocomiseraçào resolver problemas pessoais
(Exemplo 1) (Exemplo 2)

Desenvolver os nossos talentos Contribuir para o bem-estar geral


Imperfeitos
(Exemplo 3) (Exemplo 4)

Lawrence
Alma-Tadema.
Safo e AJceu
(1881)

141
A Ação Hum-ana e oi Valores

Heteronomia e autonomia da vontade

Ao caracterizar a ação moralmente correta como aquela que segue o imperativo cate­
górico. Kant está a dizer-nos que para agir moralmente devemos ser autónomos, isto é.
não devemos ceder aos impulsos dos nossos desejos imediatos e das nossas inclinações
naturais. Em vez disso, devemos procurar

• formular leis que qualquer agente racional estaria na disposição de aceitar; e


• de livre e espontânea vontade optar por nos submeter a elas.

A palavra «autonomia» tem origem nas palavras gregas «auto», que significa «de si
mesmo* e «nomos» que significa «lei». Assim, uma pessoa e autónoma quando é capaz
de fornecer a si mesma a sua própria lei. Ou, dito de outra forma,

Uma vontade é autónoma se, e so se, age apenas segundo leis


que formula para si mesma.

Neste sentido, a autonomia da vontade opõe-se à heteronomia da vontade A palavra


grega «ríéteros» significa «diferente» Portanto,

Uma vontade e heterónoma quando, em vez de fornecer a si mesma a sua


própria lei, esta é-lhe imposta a partir de fora, de algo que é diferente de si.

Isto significa que quando, em vez de adotar o imperativo categórico, seguimos as nos­
sas inclinações e interesses particulares sto é, quando adotamos como máxima da nos­
sa ação um imperativo hipotético, não estamos a respeitar a autonomia da nossa vonta­
de, pois, à semelhança do que acontece com as criaturas irracionais, estamos a permitir
que esta seja determinada pelos efeitos que deseja obter, em vez de se autodeterminar
por um imperativo moral de natureza racional

Para deixar esta ideia suficientemente clara, Kant apresentou duas formulações alter­
nativas do seu imperativo categórico.

' Nota Segunda fórmula do imperativo categórico: fórmula da humanidade


Também Age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa como
designada
na pessoa de qualquer outra, sempre e simultaneamente como fim em si
formula do
fim em si. e nunca simplesmente como meio.

Terceira fórmula do imperativo categórico: fórmula da autonomia da vontade


Age de tal forma que encares a vontade de todo o ser racional
como uma vontade legisladora universal.

Kant considera que as três formulações do imperativo categórico têm subjacente uma
e a mesma ideia e, consequentemente, possuem as mesmas implicações praticas No fundo,
aquilo que está aqui a ser dito é que, em virtude de possuírem racionalidade e autonomia da
vontade, apenas as pessoas, ao contrário de tudo o resto que existe na natureza, tém valor
intrínseco incondicional, aquilo a que Kant chama de «dignidade humana» Ora, o respeito
por essa dignidade implica tratar as pessoas como seres racionais e autónomos, capazes de
legislar para si mesmos, e nâo como meros instrumentos ao serviço de inclinações naturais
e interesses pessoais, ou seja, como fins em si e jamais apenas como meios.

142
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

Críticas à ética de Immanuel Kant

O problema da indeterminaçào

Um dos problemas que a ética kantiana enfrenta é aquilo que ficou conhecido na
literatura como ^problema da indeterminação*. Este problema prende-se com o facto
de uma mesma ação poder estar associada a várias máximas diferentes. Algumas des­
sas máximas podem levar-nos a classificar essa ação como moral mente correta, outras
como moralmente errada. Por exemplo, imaginemos um pai que num domingo de manhã
decide ir passear com o seu filho ao parque. A sua açào pode ter sido motivada pelo
cumprimento do dever ou pelo prazer de brincar com o filho. Contudo, na ausência de um
procedimento preciso que nos permita determinar em cada caso qual dessas máximas
motivou efetrvamente a açào. nào estaremos nunca em condições de fazer uma avaliação
conclusiva da mesma.

Conflitos de deveres

Conforme vimos acima. Kant diz-nos que temos certos deveres absolutos. Ora, isso
significa que nunca é permissível fazer o que estes deveres proibem (por exemplo, matar
intencionalmente pessoas inocentes, roubar, enganar, etc.). Contudo, podemos imaginar
situações nas quais esses deveres entram em conflito (por exemplo, posso ter de mentir
para evitar ter de matar). Mas, se ambos os deveres são absolutos, então somos conduzi­
dos a um conflito irresolúvel entre eles, sem ter nenhuma forma de os hierarquizar e de
estabelecer uma prioridade entre eles.

Há máximas imorais universalizáveis

Kant defende que a seguinte bicondicional e verdadeira:

Uma ação é correta se. e só se, podemos consistentemente querer que


a máxima subjacente à mesma se transforme numa lei universal.

Se quisermos mostrar que esta bicondicional é falsa, temos de mostrar que e possível
que uma das proposições que a compõem seja verdadeira, ao passo que a outra é falsa.

Os críticos têm tentado demonstrar que há máximas que o próprio Kant estaria dispos­
to a aceitar que são imorais embora passem no teste da universalização. Por exemplo, a
máxima: *Mata qualquer pessoa que te estorve* e claramente imoral e. no entanto, parece
resistir ao teste do imperativo categórico, pois não é autocontraditória, nem implica que
uma vontade que quisesse que esta se tornasse uma lei universal estaria forçosamente
em contradição consigo mesma.

Claro que Kant poderia dizer que a açào prescrita por esta máxima é imoral, pois im­
plica tratar os outros como meros meios para os nossos próprios fins e, por conseguinte,
estaria a ir contra a segunda fórmula do imperativo categórico. Contudo, isso significaria
que, afinal, as diferentes formulações do imperativo categórico nâo tem as mesmas impli­
cações práticas.

143
A Ação Hum-ana e oi Valores

Além das pessoas

De acordo com a etica kantiana, uma pessoa é um agente racional, dotado de autonomia
e dignidade pelo que é nossa obrigação respeitar os seus direitos fundamentais em to­
das as nossas ações. No entanto, os recém-nascidos, os deficientes mentais profundos e
alguns animais não humanos não são pessoas, nesse sentido kantiano. Mas apesar disso,
sentimos que temos obrigações morais para com eles e que nâo é permissível tratá-los
de qualquer forma.

O lugar das emoções na ética

Ao considerar que para agir moralmente temos de nos abstrair de todas as nossas incli­
nações e agir segundo um imperativo ditado pela razão, a ética kantiana parece esvaziar
a moralidade de algumas emoções que lhe estão frequentemente associadas, como a
compaixão a simpatia e o remorso 3arece inegável que os nossos sentimentos, desejos
e emoções também têm um papel a desempenhar no domínio da moralidade e se a ética
kantiana não deixa espaço para esse papel, então temos de reconhecer que isso é uma
limitação desta teoria.

ESQUEMATIZANDO

O que é que tem valor


intrínseco?

+ +

f T
MlLL KANT
■ ir -r B

A felicidade A boa vontade ■

4
Objeções 4
Objeções
• Objeções ao argumento
0 que toma umâ ac a o • 0 problema da
a favor do princípio da
certa ou enada7 indeterminação
utilidade
• Conflitos de deveres
• Objeção ao hedonismo
■ T 4
4 ’ Há máximas imorais
» O problema da separação
universalizáveis
entre os indivíduos MlLL KANT
• Alem das pessoas
• A conclusão repugnante Uma ação e correta Uma ação e correta
se, e só se, e se, e sõ se, podemos • 0 lugar das emoções
• Objeção da
aquela, de entre conseq u entemente na etica
permissrvidade extrema
... as alternativas querer que a máxima ■ ■

• Objeção da exigência possíveis, que subjacente á mesma


extrema mais promove a se converta numa lei
felicidade universal

144
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

RESUMO

’ A etica ou filosofia moral e a área da filosofia que se dedica aos problemas


relacionados com o modo como devemos viver.

- A etica normativa é o ramo da ética que lida diretamente com o problema


do critério ético da moralidade de uma ação: «O que e que toma uma ação
moralmente certa ou errada?»

• A etica normativa procura determinar:


- o que tem intrinsecamente valor |ou desvalorj - ou seja, procura desenvol­
ver. comparar e avaliar diferentes teorias do valor; e
- o que e certo ou errado fazer - ou seja, procura desenvolver, comparar e
avaliar diferentes teorias da obrigação.

• Algo temi valor intnnseco se, e sõ se, tem valor em si mesmo e por si mesmo, isto
e, independentemente daquilo que possa por seu intermédio ser alcançado.
• Algo tem valor instrumental se, e so se, tem valor apenas como meio para
alcançar certos fins.
• O utilitarismo de John Stuart Mill caracteriza-se por defender que:

- a única coisa que tem valor intrínseco e a felicidade; e

-a ação correta e aquela, de entre as alternativas disponíveis, que mais


promove a felicidade.

• O padrão da maior felicidade do princípio da utilidade {ou princípio da maior


felicidade) não se refere apenas á maior felicidade do próprio agente, mas
sim a maior felicidade geral.

• O utilitarismo de Mill e uma teoria hedonista, o que significa que considera


que a felicidade consiste apenas no prazer e na ausência de dor.

• Segundo Mill, existem prazeres qualitativamente superiores e prazeres quali­


tativamente inferiores.

• Os prazeres superiores correspondem aos prazeres intelectuais/espirituais e


os prazeres inferiores correspondem aos prazeres corporais.

• O utilitarismo e uma teoria consequencialista, pois sustenta que o estatuto


moral dos atos depende exclusiva mente das suas consequências.

• O utilitarismo de Mill e uma teoria agregacionista. pois defende que a ação cor­
reta e aquela que produz o maior total de bem-estar agregado, independente­
mente da forma como este se encontra distribuído pelos diferentes indivíduos.
• Mill não defende que devemos recorrer permanentemente ao princípio da
utilidade para tomar decisões, mas sim que devemos adotar certos princípios
sec un dários, qu e a experiénc ia já demonstrou serem ten den ciai mente cond u-
centes a maior felicidade, e utilizá-los como guias relativamente seguros para
a nossa conduta.

• Estes princípios secundários não devem ser encarados como regras morais
absolutas.

• De entre as principais criticas á etica de Mill destacam-se as seguintes:

-o passo 3 do argumento a favor do princípio da utilidade (página 116)


baseia-se numa falsa analogia, pois existem diferenças relevantes entre
propriedades como «visível» e «audível» e a propriedade «desejável»;

145
A Ação Hum-ana e oi Valores

- existem contraexemplos á tese enunciada na premissa 4 do argumento a


favor do princípio da utilidade;

- a premissa 7 do argumento a favor do princípio da utilidade é uma instância


da falácia da composição;

-o hedonismo e falso, pois não estamos apenas interessados em obter o


maior saldo possível de experiências aprazíveis;

- nào tem em conta a separação entre os indivíduos:

-implica que e sempre possível melhorar um estado de coisas apenas au­


mentando o número de indivíduos com um nível minimamente positivo de
bem-estar;
- considera que e permissível cometer injustiças em nome da promoção da
maior felicidade;

- e demasiado exigente, pois, por maiores que sejam os sacrifícios pessoais


que isso implique, nunca podemos fazer menos do que maximizar a felici­
dade geral.

- A etica deontologica de Immanuel Kant caracteriza-se por defender que;

- a unica coisa que tem valor intrínseco e a boa vontade; e

- a ação correta e aquela que e executada por uma boa vontade, isto e, que
e motivada pelo puro cumprimento do dever.

- A boa vontade e aquela que age motivada pelo puro cumprimento do dever,
e não por qualquer interesse ou inclinação pessoal.

- Para Kant uma ação ê correta se. e so se, e executada por uma boa vontade.

• Kant distingue três tipos de ações: ações contrárias ao dever; ações confor­
me o dever e ações por dever.

- As ações contrárias ao dever são impermissíveis ou proibidas, coisas que


nunca podemos intencionalmente fazer, pois implicam violar os direitos fun­
damentais das pessoas.

- As ações conforme o dever sáo ações que se encontram de acordo com o


dever, porem não são realizadas por dever, mas sim por interesses ou inclina­
ções pessoais.

- As ações por dever são as únicas que têm valor moral intrínseco, uma vez que
são realizadas por si mesmas, e não por aquilo que por seu intermédio possa
vir a ser alcançado.

- Kant considera que quando agimos e como se estivessemos a seguir uma máxima,
isto e, uma regra ou principio que nos manda agir de uma determinada maneira.

- As máximas traduzem-se em imperativos que seguimos quando agimos.

- Os imperativos que seguimos quando agimos podem ser de dois tipos: impe­
rativos hipotéticos ou imperativos categóricos.

- Os imperativos hipotéticos têm subjacente a forma: *Faz x, se queres y!> (ou


*Nào faças x, se não queres y!)»; portanto, a ação que recomendam nâo e
realizada por si mesma, mas sim tendo em vista um determinado fim.

- Os imperativos categóricos têm su bjacente a forma: <Faz x!* (ou «Não faças x!|>;
portanto, sáo absolutamente incondicionais, isto e, representam a ação como
objetivamente necessária.

I 146
6. A ncceiiãdadc de fundamentação da moral

• Apenas os imperativos categóricos podem levar a ações por dever, isto e,


ações realizadas por se reconhecer que e aquilo que objetiva mente deve ser
Q Conceitos
feito; portanto, apenas as ações guiadas por este tipo de imperativos podem
ter valor moral. » ético
• A etica de Kante uma etica deontologica. pois sustenta que as consequências • ético normativa
nào sao o único fator relevante para determinar o estatuto moral das nossas
ações. • cntério ético do morolidade
de uma ação
• De acordo com a ética de Kant, o princípio fundamental de toda a moralidade
e o imperativo categórico, que recomenda o seguinte: age sempre segundo • teorias do volor
uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei • teorias do obrigação
universal.
• valor intrínseco
• Para Kant, uma açào e correta se, e só se, podemos consistentemente querer
que a máxima subjacente a mesma se converta numa lei universal. • valor instrumento)

• O teste de universalização tem duas componentes: o teste da consistência da • utilitarismo


máxima e o teste da consistência da vontade. • princípio da utilidade (ou
• Kant sustenta que existem dois tipos de deveres: os deveres perfeitos e os princípio da moior felicidade)
deveres imperfeitos. • hedonismo
• A maxima de uma açào que viola um dever perfeito não passa no teste da
• prazeres superiores
universalização.
• prazeres inferiores
• A máxima de uma açào que viola um dever imperfeito não passa no teste da
consistência da vontade. • consequencialismo

• Os deveres perfeitos têm sempre prioridade sobre os deveres imperfeitos. • agregacionismo

• Uma vontade e autónoma se, e só se, age segundo leis que formula para si • regras morois obso lutas
mesma.
• boo vontade
• Uma vontade é heteronoma quando, em vez de fornecer a si mesma a sua
• dever
própria lei, esta e-lhe imposta a partir de fora, em vez de se autodeterminar
por um imperativo moral de natureza racional. • açòes contrários ao dever

• Ao contrário de tudo o resto que existe na natureza, as pessoas têm valor • açòes conforme o dever
intrínseco incondicional: a dignidade humana.
• açòes por dever
• Kant sugere outra formulação do imperativo categórico, que recomenda o
• máximo
seguinte: age de tal maneira que trates a humanidade, tanto na tua pessoa
como na pessoa de qualquer outra, sempre e simultaneamente como fim em • imperotivo hipotético
si e nunca simplesmente como meio.
• imperotivo categórico
• A ética kantiana enfrenta as seguintes criticas:
• deontologia
- não permite fazer uma avaliaçào conclusiva de uma ação quando nào so­
• lei moral
mos capazes de determinar com exatidão qual ê a máxima subjacente à
mesma - problema da indeterminaçáo; • teste da universalização
- não permite resolver conflitos entre deveres absolutos; • deveres perfeitos
- não e consistente com o facto de haver máximas imorais universalizáveis; • deveres imperfeitos
-implica, erradamente, que só temos obrigações morais para com seres • autonomia da vontade
racionais, morais e autónomos;
• heteronomio da vontode
- implica, erradamente, que os nossos desejos e emoções não têm um papel
a desempenhar no domínio da moralidade. • dignidade humona

147
A Ação Hum-ana e o« Valore»

Questões propostas

GRUPO I

Nas questões do Grupo I, seleciona a única alternativa correta.

1. De acordo com o utilitarismo de MilL a única coisa que tem valor intrinseco é

a boa vontade. (C) o prazer espiritual.

{B> a felicidade. (D) o prazer corporal.

2. De acordo com o utilitarismo de Mill uma ação é correta se, e só se,

{A) promove a felicidade do maior número de pessoas.

(B) promove o maior total de felicidade independentemente da forma como está distribuída.

(C) promove a felicidade do próprio agente.

(D) promove a felicidade apenas daqueles que são dignos de ser felizes.

3. O utilitarismo de Mill

{A) ê uma teoria hedonista, pois defende que a felicidade consiste apenas no prazer e na ausên­
cia de dor.

(B) não ê uma teoria hedonista, pois defende que a felicidade consiste apenas no prazer e na
ausência de dor.

(C) é uma teoria hedonista, pois defende que a felicidade não consiste apenas no prazer e na
ausência de dor.

(D) não é uma teoria hedonista, pois defende que a felicidade não consiste apenas no prazer e
na ausência de dor.

4. O utilitarismo de Mill

{A) é uma teoria deontologica. pois defende que as consequências nâo são o único fator relevante
para determinar o estatuto moral dos atos.

< B F é uma teoria deontológica, embora defenda que as consequências são o único fator relevante
para determinar o estatuto moral dos atos.

é uma teoria consequencialista. pois defende que as consequências são o único fator rele­
vante para determinar o estatuto moral dos atos.

(D) é uma teoria consequencialista, embora defenda que as consequências não são o único fator
relevante para determinar o estatuto moral dos atos.

5. Mill defende que

IA) devemos usar o princípio da utilidade em todas as nossas tomadas de decisão, pois não exis­
tem princípios secundários para orientar a nossa conduta.

(B) devemos usar o princípio da utilidade em todas as nossas tomadas de decisão, embora exis­
tam princípios secundários para orientar a nossa conduta.

<C) não devemos usar o princípio da utilidade em todas as nossas tomadas de decisão, pois exis­
tem princípios secundários para orientar a nossa conduta.

(D) não devemos usar o princípio da utilidade em todas as nossas tomadas de decisão, embora
não existam princípios secundários para orientar a nossa conduta.

148
Quc-stõei propostas

6. Para Kant a única coisa que tem valor intrínseco é

a boa vontade.

< B> a felicidade.

o prazer espiritual.

(D) o prazer corporaL

7. A ética kantiana

é uma teoria consequencialista, pois defende que as consequências são o único fator rele­
vante para determinar o estatuto moral dos atos.

(B) é uma teoria consequencialista, embora defenda que as consequências não são o único fator
relevante para determinar o estatuto moral dos atos.

é uma teoria deontológica, pois defende que as consequências não são o único fator relevan­
te para determinar o estatuto moral dos atos.

{D) é uma teoria deontológica, embora defenda que as consequências são o único fator relevan­
te para determinar o estatuto moral dos atos.

8. Para Kant, quem age segundo a máxima: <Não copies, se não queres que o teu teste seja anu­
lado'»,

IA) segue um imperativo categórico e, portanto, age por dever.

segue um imperativo hipotético e, portanto, age por dever.

(C) segue um imperativo categórico e, portanto, age conforme o dever.

(D) segue um imperativo hipotético e, portanto, age conforme o dever.

9. Para Kant, uma vontade é autónoma se, e só se,

é livre de agir para obter aquilo que deseja.

(B) é determinada a agir para obter aquilo que deseja.

(C) não se submete a quaisquer leis morais.

(D) age segundo leis que formula para si mesma.

10. Lê com atenção a afirmação que se segue e seleciona a alternativa correta.

*Quem salva um semelhante de se afogar faz o que está moralmente correto, quer o seu motivo
seja o dever ou a esperança de ser pago pelo incómodo.»

4 A) Tanto Kant como Mill diriam que a afirmação é verdadeira.

(B[ Tanto Kant como MiII diriam que a afirmação não é verdadeira.

Apenas Kant diria que a afirmação é verdadeira.

(D) Apenas Mill diria que a afirmação é verdadeira.

149
A Ação Hum-ana e o« Valore»

Questões propostas

GRUPOU

Responde de forma direta e objetiva às questões que se sequem.

1. Por que razao Mill sustenta que existem prazeres qualitativamente superiores e prazeres quali­
tativamente inferiores?

2. Formula uma objeção ao hedonismo.

3. Distingue ações conforme o dever de açoes por dever. Ilustra a tua resposta com exemplos*

4. Distingue deveres perfeitos de deveres imperfeitos. Ilustra a tua resposta com exemplos.

GRUPO III

Atenta no texto que se segue e responde ãs perguntas acerca do mesmo.

«Um avião transportando 120 passageiros perde o controlo sobre uma arca densamrntc povoada. Nào
hã tempo para evacuar as pessoas c o impacto do avião irá certamcnte matar milhares de pessoas.
A única acção possível c abater o avião. Deveria vocè fazê-lo?»

Ben Dupfú, 5Ü Idelus dc FfkjscJilu. Trud. large Pcreirmha Pires, Lisboa. D. Qiuxmc l'2ÚU>, p ti4 iudapeada}

1. Como responderia um utilitarista como Mill a essa questão?


Porquê?

2. Como responderia um deontologista como Kant a essa questão?


Porquê?

3. Qual das duas perspetivas te parece mais adequada?


Porquê?

150
7. O proMeraw» da justiça social

7. O problema da justiça social


O problema da organização de uma sociedade justa

A filosofia política é uma área que estuda a maneira como devemos viver em sociedade,
isto é, trata de saber quais as formas corretas de organização social. Um dos problemas
centrais da filosofia política e o problema da justiça social que pode ser formulado da
seguinte forma:

- O que é realmente uma sociedade justa? Ou seja, quais os princípios gerais em que
se deve basear uma sociedade justa?

• Uma sociedade em que há. ao mesmo tempo, pessoas muito ricas e pessoas muito
pobres pode ser justa?

- E uma sociedade em que todas as pessoas usufruem da mesma riqueza é necessa­


riamente justa?

Imaginemos uma sociedade em que grande parte das pessoas vive em grande pobreza,
apesar de existir uma pequena elite de pessoas multimilionárias. Sera esta sociedade justa?
Imaginemos outra sociedade em que as pessoas têm exata mente a mesma riqueza e em
que tudo é distribuído igualitariamente. Sera justa uma tal sociedade onde todos tém o mes­
mo, independentemente do que trabalhem, do que se esforcem ou dos dons que tenham?

Afinal, o que é efetivamente uma sociedade justa? Este problema tem a ver com a jus­
tiça social ou distributiva (sobre a forma como estào distribuídos os recursos ou a riqueza)
e nâo com a justiça retributiva (sobre a finalidade das penas atribuídas em tribunal}.

7.1 A teoria da justiça de John Rawls


Para este problema pode pensar-se em duas respostas opostas: por um lado,
Nota
pode defender-se uma teoria igualitarista em que se defende que a melhor situação
1 Esta última pers­
social é aquela em que há maior igualdade de bens sociais (como rendimento petiva sera desen­
e riqueza} distribuídos entre a sociedade. Neste caso dá-se uma importância volvida nas paginas
158 a 160 (critica li-
primordial ao valor da igualdade e, por isso, numa sociedade justa, o Estado deve bertari5ta de Robert
transferir riqueza dos ricos (por exemplo, através de impostos) para os mais pobres. Nozick).
para, dessa forma, evitar ao máximo as desigualdades. Por outro lado, pode pensar-
-se numa teoria libertarista em que se defende que a melhor situaçáo social é aquela em
que se respeita a liberdade individual. De acordo com esta teoria, dá-se uma importância
primordial ao valor da liberdade individual e aos direitos de propriedade e, por isso,
numa sociedade justa o Estado não pode interferir na propriedade individual1.

Contudo, o libertarismo e o igualitarismo nâo sâo as únicas teorias que respondem a


esse problema. Nos anos 70 do século passado, o filosofe John Rawls defendeu no livro
Uma Teoria da Justiça uma das respostas mais famosas e prometedoras para o problema
da justiça social, apresentando uma teoria intermédia entre o libertarismo e o igualita­
rismo, a qual ficou conhecida como *liberalismo social* (ou também como teoria «liberal
igualitária*). A teoria proposta por Rawls e uma forma de liberalismo porque defende que é
de uma importância primordial assegurar a liberdade, mas é igualmente social porque numa

151
A Ação Hum-ana e oi Valores

sociedade justa deve assegurar-se iguais liberdades e oportunidades para todos


Nota
A perspetiva e «igualita- e a redistribuição do rendimento e da riqueza deve ser feita ã luz deste objetivo
rista moderada» porque {havendo aqui uma tendência igualitarista moderada). Por isso, não aceita distri­
Rawis admite que podem buições muito desiguais, uma vez que limitam consideravelmente as liberdades
existir desigualdades legi­
timas, mas apenas se res­ e oportunidades dos mais pobres. Aliás, as desigualdades na distribuição só são
peitarem alguns critérios, aceitáveis se trouxerem benefícios para todos, de modo especial para os mais
que serào apresentados
desfavorecidos. Se não for esse o caso, então o Estado deve intervir, por exemplo,
na página seguinte.
com impostos e outras tributações, de modo a manter este padrão de justiça que
assegure iguais oportunidades e liberdades para todos.

Desse modo, Rawis defende uma teoria da justiça como equidade, dado que, como
podemos analisar nos argumentos mais abaixo, os princípios da justiça são aqueles que
seriam escolhidos numa situação de imparcialidade e equidade, ou seja, em que todas
as pessoas merecem ã partida igual consideração. Tendo em conta que os princípios da
justiça são aqueles que resultariam de um acordo {ou de uma especie de contrato) livre
entre decisores racionais, a teoria de Rawis segue o <contratualismo> em filosofia política.

De forma geral, o contratualismo recorre ã ideia de «contrato social*, ou seja, à tentativa


de descobrir e justificar o conteúdo da moralidade a partir da noção de um acordo entre todos
(ainda que esse acordo seja hipotético ou implícito}. Por outras palavras, num sentido amplo,
contratualismo indica a perspetiva de que a moralidade é baseada num contrato ou acordo
entre agentes racionais e informados. Esta estratégia foi usada porThomas Hobbes para justi­
John Rawis
ficar a existência do Estado, mas Rawis usa-a para identificar e justificar os princípios da justiça.
|1921-2002J
Como se verá mais ã frente, a metodologia da «posição original* de Rawis constitui uma ver­
são de contratualismo, uma vez que imagina uma situação em que as pessoas alcançam um
acordo ou contrato hipotético sobre os princípios da justiça que devem reger a sociedade.

Antes de apresentar os princípios da justiça, há ainda um ponto importante a assinalar:


esses princípios não são aplicados a pessoas concretas, mas sim àquilo que John Rawis
designa como -estrutura básica da sociedade^. ou seja, aplicam-se às instituições
sociais (como a Constituição ou as principais leis sobre a propriedade e a fiscalidade,
entre outras regras institucionais). A ideia de Rawis e que os princípios da justiça aplicados
à estrutura básica permitem que a sociedade seja bem ordenada.

Os princípios do justiço

Então, o que e uma sociedade justa? Numa primeira formulação, Rawis afirma que:

«Todos os valores sociais - liberdade e oportunidades, rendimento e riqueza, c as


bases sociais do respeito próprio - devem ser distribuídos igualmente, salvo se uma dis
tribuiçào desigual de algum desses valores, ou de todos eles, redunde em benefício de
todos».
>ahn Rawis, L7ixi 7feoriu<ài Justiça. IJ-sbcu. Presença 119111. p 61

Mas John Rawis clarifica essa formulação ao defender que uma sociedade e justa na
medida em que satisfaz dois princípios: o primeiro princípio da justiça designa-se como
princípio da liberdade igual* e o segundo principio subdivide-se no ^princípio da opor­
tunidade justa» e no «princípio da diferença*.

152
7. O proMeraw» da justiça social

Podemos caracterizar cada um desses princípios da seguinte forma:

1 Princípio da liberdode tguol - A sociedade deve assegurar a máxima liber­


Nota
dade para cada pessoa, compatível com uma liberdade igual para todos os Aqui, a noção de «liberdade*
outros. Segundo este principio, o que é importante é assegurar liberdades <de e entendida em termos po-
üticos ou crvicos (e não em
expressão, de religião, de reunião, de pensamento, de votar e ser eleito, de termos metafísicos sobre a
deter propriedade, etc.), que não devem ser violadas em troca de vantagens questão do problema do livre-
económicas ou de outro tipo. -arbítrio e do determinismo).
Alem disso, e preciso ter em
conta que algumas liberda­
2a) PniKÍpio do oportunidade justa - As desigualdades económicas e sociais des têm de ser limitadas em
devem estar ligadas a postos e posições acessíveis a todos em condições de funçào de outras Itoerdades.
Por exemplo, a liberdade de
igualdade de oportunidades. De acordo com este principio, deve promover-se
expressão tem de ser com-
a igualdade de oportunidades e as desigualdades na distribuição de riqueza patibdizada com a liberdade e
são aceitáveis apenas na medida em que resultam desta igualdade de opor­ direito a privacidade.
tunidades.

2b) Princípio do diferença - A sociedade deve promover a distribuição igual da riqueza,


exceto se a existência de desigualdades económicas e sociais gerar o maior benefício
para os menos favorecidos. A ideia e que se as desigualdades na distribuição da riqueza
acabarem por beneficiar todos, especialmente os mais desfavorecidos, então justificam-se.

De acordo com John Rawls. o primeiro princípio tem uma prioridade sobre o segundo
principio - sendo que neste segundo princípio, 2a) tem prioridade sobre 2b). Ou seja, a
melhoria na igualdade de oportunidades não pode ser feita ã custa de uma menor liber­
dade e, por sua vez. a promoção da posição dos mais desfavorecidos não pode implicar
sacrifício nas oportunidades. A ideia geral é que atingindo um nível de bem-estar acima
da luta pela sobrevivência, a liberdade tem uma prioridade absoluta sobre o bem-estar
económico ou a igualdade de oportunidades. Por exemplo, ainda que traga vantagens
económicas, não se pode defender a escravatura, dado que ê incompatível com o reco­
nhecimento da liberdade igual. Em suma. Rawls não admite desigualdade quanto à distri­
buição do valor da liberdade.

No segundo princípio da justiça, que se subdivide em 2a) e 2b), sustenta-se que podem
existir desigualdades económicas. A ideia é que as desigualdades podem funcionar como
um sistema de incentivos. Isto porque sem desigualdades, numa sociedade perfeitamente
igualitária, tais incentivos seriam eliminados e, por conseguinte, não haveria razões sociais e
económicas para os indivíduos desenvolverem carreiras que implicam estudo e preparação.
Com isso, a sociedade no seu todo ficaria a perder. Ora. de acordo com Rawls, as desigual­
dades económicas podem ser aceites, mas para isso ele estabelece condições: a desigual­
dade é aceite se for moralmente legítima, ou seja, caso respeite, cumulativamente, 2are
2b). Por outras palavras, se forem conjunta mente satisfeitos o princípio da oportunidade
justa e o princípio da diferença, então as desigualdades são moralmente permissíveis.

Por um lado, nc principio da oportunidade justa, também conhecido como *princípio


da não discriminação*, advoga-se que se deve promover a igualdade de oportunidades,
ou seja, as pessoas devem ter condições para aceder a diferentes funções e posições
(mesmo aqueles que nasceram em condições desfavorecidas). Para isso ê necessário, por
exemplo, que o Estado garanta a todos o acesso ã educação e ã cultura, bem como o aces­
so a cuidados básicos de saúde.

153
A Ação Hum-ana e oi Valores

Deste modo, de acordo com 2a), as desigualdades na distribuição da riqueza sao


aceitáveis apenas na medida em que resultam de uma igualdade de oportunidades

Por outro lado, no princípio da diferença afirma-se que a distribuição de riqueza e do


rendimento, na sociedade, deve ser igual, a menos que a desigualdade traga benefícios
para todos. Em especial, deverá beneficiar os mais desfavorecidos. Este principio 2b)
indica, assim, uma maximização da situação dos que estão na pior situação ã partida. Ou
seja, implica uma certa visão distributiva pelos que estão em pior situação (uma regra
que Rawls designa «maxim/n»). Com isso, e uma vez satisfeito o principio 2a h Rawls aceita
a afirmação condicional de que se ê preciso uma desigualdade para melhorar a condição
de todas as pessoas e, em especial, para tornar as condições dos mais desfavorecidos
melhores do que seriam de outra forma, aquela deve ser permitida.

Mas como justifica Rawls estes princípios da justiça? Existem duas vias de justificação:

(I) a partir da metodologia do equilíbrio refletido: e

(II) a partir do argumento da posição original e da regra maximin.

(0 Argumento do equilíbrio refletido

Consiste em avaliar os princípios sugeridos por Rawls à luz das nossas intuições morais
e, assim, ver a sua pertinência. Então, segundo (I). que razões temos para escolher os prin­
cípios da justiça?

O principio 1 justifica-se, pois a liberdade é um bem social primário e é fundamental


para concretizarmos os nossos objetivos e projetos de vida (devendo, por isso, distribuir-
-se igualmente). Portanto, as liberdades protegem as diversas formas de vida individuais.
Seria imoral privar as pessoas de liberdade, uma vez que não se poderia assumir expressa
e conscientemente uma determinada conceção de bem, como também seria impossível
existir expressão, pensamento e ação livre.

Do mesmo modo, o princípio 2a)justifica-se porque as pessoas não são moralmente res­
ponsáveis pelas circunstâncias do seus próprios nascimentos e, mais especificamente, por
nascerem numa família de perfil socioeconómico baixo ou de perfil alto. Ou seja, constata-se
que, na realidade, existe uma lotaria social (as pessoas nascem em contextos socioeco-
nómicos muito diferentes) e certos indivíduos podem ficar impedidos de aceder a funções
e cargos por falta de oportunidade de educação e cultura. Mas este tipo de contingências
sociais é arbitrado do ponto de vista moral, pois os indivíduos que nascem nesses contextos
não são responsáveis por isso. Assim, de fornia a minimizar a lotaria social, precisamos do
princípio da oportunidade justa. Por isso é necessário, por exemplo, que o Estado garanta
a todos o acesso à educação (independentemente do contexto social). Mais fomialmente,
pode apresentar-se esse argumento com uma estrutura dedutivamente válida:

(1) A lotaria social ê moralmente arbitraria e fonte de injustiças sociais.


(2) Se a lotaria social é moralmente arbitrária e fonte de injustiças sociais, então há
um dever moral de minimizar essa lotaria social.
(3} Se há um dever moral de minimizar essa lotaria social, então deve adotar-se o
principio da oportunidade justa.
(4) Logo, deve adotar-se o princípio da oportunidade justa.
j

154
7. O problema da justiça social

HectorGiacomelli, Pássaros Empoeirados |1880), pormenor

Por fim. o principio 2b) justifica-se, pois as pessoas não são moralmente responsá­
veis pelos seus dotes naturais, isto é, por nascerem com boas capacidades cognitivas ou
com deficiência mental, por nascerem com bons ou maus talentos, e estes talentos sâo
desigualmente remunerados pelo mercado. AJém disso, nenhuma forma de igualdade de
oportunidades permite minimizar ou retificar esta lotaria natural.

Porém, estas contingências naturais que conduzem a grandes desigualdades de rique­


za sâo arbitrárias do ponto de vista moral, pois os indivíduos não sào moralmente respon­
sáveis pela lotaria natural. Logo, de forma a minimizarmos a lotaria natural, precisamos do
principio da diferença, que procura beneficiar os menos favorecidos. Ou, de um modo
mais formal, pode apresentar-se um argumento dedutivamente válido para justificar esse
princípio:

<1) A lotaria natural é moral mente arbitrária e fonte de injustiças sociais.


<2) Se a lotaria natural é moral mente arbitrária e fonte de injustiças sociais, entào há
um dever moral de minimizar essa lotaria natural.
(3} Se há um dever moral de minimizar essa lotaria natural, então deve adotar-se o
princípio da diferença.
(4) Logo, deve adotar-se o princípio da diferença.

(II) Argumento da posição original

Este tipo de argumentação (II) completa a justificação do equilíbrio refletido A ideia é


fazer uma experiência mental {ou de pensamento) para encontrar os princípios da justiça
corretos. Para se ver como essa estratégia funciona, vamos começar com um caso simples:

O Jose e a Maria estão a jogar cartas. O José dá as cartas e a Maria recebe-as e


olha para elas. No entanto, o José reparou numa carta no chão: o as de espadas.
Ao ver isto propôs que se anulasse a jogada e se dessem novamente as cartas.
Contudo, a Maria insiste em jogar: aliás, saiu-lhe o melhor jogo desse dia. Há um
desacordo.
Que devem eles fazer?
O que é justo fazer?
ü__________________________________________________________________________________________________ -

155
A Ação Hum-ana e oi Valores

Pode pensar-se em várias estratégias para ver o que seria justo fazer. Pode proceder-se,
por exemplo, a um acordo verbal antes do jogo no sentido de jogar segundo um conjunto
bem conhecido de regras do jogo. Contudo, os nossos jogadores nào fizeram esse acor­
do verbal antes do jogo e. por isso, eles nâo podem recorrer a essa estratégia. Uma outra
estratégia poderá passar por solicitar o conselho de um *espetador imparcial», um árbitro,
como os pais do José e da Maria. Mas vamos supor que ninguém está a assistir a esse jogo
e, dessa forma, nâo podem usar essa estratégia para resolver o seu desacordo.

Resta ainda uma outra estratégia possível: fazer apelo a um acordo hipotético, isto é,
mental mente eles podem analisar o acordo que se teria feito se cada um tivesse colocado
a questão antes de o jogo começar. Esse acordo hipotético exige certas circunstâncias:

• é preciso abstrair da vida real e imaginar que o acordo teria sido feito antes de as
cartas serem dadas;

• pressupõe alguma ignorância, pois quando se está a imaginar a situação antes de as


cartas serem dadas, ninguém saberia que cartas lhe iriam tocar em sorte e assim nâo
seria influenciado pelos seus interesses particulares.

Com esta estratégia de acordo hipotético, talvez o José consiga convencer a Maria de
que, se tivessem discutido o assunto, teriam acordado em anular a jogada.

E é precisamente esta última estratégia ou metodologia de acordo hipotético que John


Rawls utiliza para justificar e escolher os princípios da justiça designando-a *posição
original-*. Isto porque Rawls pressupõe que as perspetivas que as pessoas têm da justiça
são muitas vezes parciais. Ou seja, as pessoas já sabem as *cartas> sociais que tiveram
e assim nâo conseguem ser imparciais nem conseguem chegar a um acordo quanto aos
princípios da justiça {por exemplo, se uma pessoa é rica, provavelmente irá querer liber­
dade de adquirir e de aproveitar os frutos do seu esforço sem haver impostos; mas se é
pobre, provavelmente defenderá mais um sistema que redistribua a riqueza). No entanto,
a justiça requer imparcialidade. Então, como garantir essa imparcialidade que é essencial
para a justiça? A resposta de Rawis é: através desta estratégia da posição original.

De acordo com este filósofo, a metodologia da posição original e constituída pelos


seguintes elementos:

a) Uma experiência mental em que se imagina uma situação em que as pessoas (as
partes) de uma sociedade são levadas a avaliar os princípios da justiça.

b) Mas as partes estão cobertas por um véu de ignorância que as faz desconhecer
quem são na sociedade e quais as suas peculiaridades individuais, garantindo desta
forma uma imparcialidade na escolha dos princípios da justiça. Nomeadamente, as
partes cobertas com o véu de ignorância não sabem qual é o seu lugar na socieda­
de, nem a importância da classe social a que pertencem, o seu estatuto social, sexo,
etnia, a sua posse de atributos naturais (por exemplo, se têm Ql elevado ou não), e a
sua própria ideia de bem. Devido a esta ignorância, as partes nào sabem como ser
parciais a seu favor e, assim, veem-se obrigadas a agir imparcialmente.

c) Do mesmo modo, as partes estão interessadas em escolher o que é melhor para si,
tendo interesse em obter bens sociais primários: ou seja, coisas que são valiosas seja
qual for o projeto de vida, tal como liberdades, oportunidades, rendimento e riqueza

156
7. O proMeraw» da justiça social

Tendo em conta a experiência mental (II), as partes escolheriam na posição original


o princípio 1. pois, pelo facto de não saberem as suas posições na sociedade ou a que
grupo pertencem, seria irracional prejudicar um determinado grupo (por exempk», os po­
bres) ou tirar a liberdade a um certo setor da sociedade, uma vez que poderiam estar a
prejudicar-se a si mesmas. Assim, quer-se uma liberdade igual para todos

Igualmente, as partes escolheriam na posição original os princípios 2a) e 2b) porque


seguem a regra maximin. Esta regra é um princípio de escolha a aplicar em situações de
ignorância, como é o caso de se estar abrangido pelo véu de ignorância. De acordo com
esta regra, se as partes não sabem quais serão os resultados que podem obter ao nível
dos bens sociais primários, então e racional jogar pelo seguro e escolher como se o pior
lhes fosse acontecer. Além disso, a regra maximim é acompanhada de três condições:

a) As partes não têm conhecimento de probabilidades.

b) As partes têm aversão ao risco.

c) As partes estão especialmente interessadas em garantir a exclusão de resultados


absolutamente inaceitáveis.

Por exemplo, imagine-se os seguintes padrões de distribuição de bens primários (em


termos numéricos numa escala de 0 a 10) com apenas três pessoas.

Pessoa 1 Pessoa 2 Pessoa 3

Sociedade 1 10 8 2

Sociedade II õ 5 5

Sociedade III 9 7 3

Na posição original, com o véu de ignorância e seguindo a regra maxrmmi, as partes es­
colheriam viver na sociedade II. pois o pior que lhes poderia acontecer (o valor 5, na tabela)
seria melhor do que o pior que lhes poderia acontecer nas outras sociedades (2 ou 3). As
partes, ao seguirem a regra maximin, olham apenas para os mais desfavorecidos, querendo
oferecer-lhes as melhores condições possrveis. Por isso, escolheriam os princípios 2a) e 2b).

Mas será que as partes não poderiam escolher na posição original um outro
Nota
princípio, como, por exemplo, um princípio utilitarista7 Na sociedade I temos uma
soma total de 20 de bens
De acordo com um tal princípio, a melhor situação social ê aquela em que sociais primários (10 + 8 + 2)
ao passo que na sociedade
há um maior número agregado de bens sociais. Assim, com base no princí­
II temos uma soma total de
pio utilitarista e tendo em consideração a tabela apresentada acima, a melhor 16 de bens sociars primários
sociedade seria a sociedade I em vez da sociedade II (pois, a soma de bens |6 4- 5 4- 5).
sociais na sociedade I é maior do que na sociedade II).

Contudo, de acordo com Rawls. não podemos aceitar tal resultado ao usar a metodologia
da posição original. Pois o princípio utilitarista não assegura garantias mínimas para nin­
guém. Seguindo esse princípio, podem existir grandes desigualdades (tal como se verifica na
sociedade I, em que uma pessoa tem 10 de bens sociais primários e outra tem apenas 2 de

157
A Açao Humana e o*

tais bens). Assim, pelo menos em teoria, é possível pensar que um conjunto de indivíduos veja
as suas liberdades sacrificadas, como no caso da escravatura, para gerar um maior bem-estar
para a maioria. De igual forma, as oportunidades ou os níveis de rendimentos e de riqueza
de alguns podem ser significatrvamente prejudicados em nome do bem-estar geral. Contudo,
de acordo com a teoria da justiça de Ralws não se podem sacrificar as liberdades básicas, a
liberdade equitativa de oportunidades e a distribuição de acordo com o principio da diferença.

Serão estes argumentos plausíveis? Será que temos realmente uma sociedade justa
se seguirmos os princípios propostos por Rawls? Vale a pena considerar duas importantes
objeções:

• a critica libertarista de Nozick e

• a critica comunitarista de Sandel.

7.2 Critica libertarista de Robert Nozick


Robert Nozick critica a teoria da justiça de Rawls ao sustentar que não é possível defen­
der consistente e simultaneamente o princípio da liberdade 1 e o princípio da diferença
2b). Pois proporcionar liberdade às pessoas implica que não se pode impor restrições às
posses individuais de propriedade. Mas limitar aquilo que as pessoas podem adquirir e o
que podem fazer com isso, tal como defendido no princípio da diferença, é uma forma de
restringir tal liberdade individual. Assim, um respeito apropriado pela liberdade implica que
se elimine o princípio da diferença ou uma qualquer outra conceção padronizada da justiça.

Para Nozick, a teoria da justiça de Rawls é um exemplo de uma conceção padronizada


da justiça, dado que para Rawls uma sociedade justa é uma sociedade que obedece a um
determinado padrão na distribuição de bens sociais ou da propriedade. Para Rawls esse
padrão é o princípio da diferença: e, dado esse princípio, será injusta uma sociedade em
que a riqueza e a propriedade não estejam distribuídas segundo esse padrão. O problema
é que, de acordo com Nozick, uma tal conceção padronizada da justiça viola a liberdade
individual e os direitos de propriedade.

Para defender essa ideia, Nozick, no livro Anarquia, Estodo e Ltopía, apresenta a ex­
periência mental de Wilt Chamberlain. Muito resumidamente, suponha-se que Cham-
berlain é o melhor jogador de basquetebol e que a sociedade em que vive distribui a
riqueza segundo o principio da diferença. Designamos uma tal distribuição de rique­
za <D1*. Suponha-se também que Chamberlain assina um contrato com uma equi­
pa que tem a seguinte cláusula: nos jogos em casa, recebe 25 cêntimos por cada bi­
lhete de entrada. Imagine-se que todos o querem ver jogar e que Chamberlain ganha
25 000 euros. Assim, gera-se uma nova distribuição muito desigual de riqueza na sociedade
em questão, que designamos *D2>, violando-se o princípio da diferença (dado que esse di­
Robert Nozick
nheiro não beneficia os mais desfavorecidos).
(1938-2010)

De acordo com Rawls, se D2 não coincidir com o tipo de distribuição exigida pelo prin­
cípio da diferença, será necessário redistribuir o dinheiro para se voltar ao padrão inicial
Dl. Mas para voltar a esse padrão inicial D1, de forma a respeitar o princípio da diferença,
será necessário o Estado redistribuir o dinheiro de Chamberlain, por exemplo, através
de impostos. Contudo, para Nozick, com isso há uma limitação da liberdade individual.

158
7. O prokáeraw» da justiça social

Por outras palavras, seguindo a ética deontológica de Kant, o Estado estaria a tratar Cham-
berlain como um mero meio. Por isso, para haver um verdadeiro respeito pela liberdade
individual, Nozick não aceita o principio da diferença. Tal como Nozick afirma:

«A lição ilustrada pelo exemplo dc Wilt Chamberlain (.J è que nenhum princípio
finalista ou princípio distributivo padronizado dc justiça [como o princípio da diferen
ça] pode ser continuadamentc realizado sem interferir continuadamentc na vida das
pessoas. (_) Para manter um padrão c preciso ou interferir continuadamentc para im­
pedir as pessoas de transferirem recursos a vontade, ou interferir continuadamentc (ou
periodicamente) para retirar a algumas pessoas recursos que outros por alguma razão
decidiram transferir para elas.»
Robcrt Nüütlck. Araci/qula. Crtodoe LYopla. Edições 7U (2009), p. 207

Ou seja, para se conseguir manter um principio padronizado de justiça sera preciso


violar continuadamente a liberdade individual e os direitos de propriedade. O seguinte
esquema poderá ajudar melhor ã compreensão desta crítica de Nozick:

Dl Açm* livre* de* indivíduo*

4
T
(Principio da diferençai
4
Interferência do Estado
(impostos)
a

+
Eticamonto inaceitável

Interferência do Estado viola direitos de propriedade e desrespeita a liberdade individual

1, O princípio da diferença e uma conceção padronizada da justiça: a propriedade


deve ser distribuída de forma que os mais desfavorecidos fiquem o melhor possí­
vel. De acordo com Rawls. se não se respeitar este padrão, então a sociedade será
injusta.

2, Mas, uma vez dado o rendimento e a riqueza ás pessoas segundo o princípio da di­
ferença, algumas gastá-los-ão. outras obterão mais, e assim a sociedade acaba por
se afastar do princípio da diferença. Portanto, algumas ações livres (trocas, ofertas,
apostas, seja o que for) conseguem quebrar o padrão.

3, Para que o padrão inicial seja reposto, a propriedade terá de ser redistribuída.
O Estado terá de intervir através de meios como a cobrança de impostos. Deste
modo, para se concretizar o padrão do principio da diferença, o Estado tira a alguns
indivíduos (sem o seu consentimento) parte daquilo que possuem legitimamente,
para beneficiar os mais desfavorecidos.

159
A Ação Humana e os Valore*

4. Porém, de acordo com Nozick, esta redistribuição interferira consideravelmente com


a liberdade e os direitos de propriedade de que as pessoas deviam gozar. Segundo
Nozick, esta interferência do Estado é eticamente inaceitável, pois viola os direitos
de propriedade dos indivíduos e desrespeita a liberdade individual. Para além disso,
Nozick defende claramente que «a tributação dos rendimentos é equiparável ao
trabalho forçado*.

Em suma, Nozick considera que a interferência do Estado é eticamente inaceitável,


pois viola direitos de propriedade e desrespeita a liberdade individual de cada um gerir o
seu rendimento e riqueza como bem entender. Por isso. Nozick avança com uma conce­
ção alternativa de justiça que é libertarista.

7.3 Crítica comunitarista de Michael Sandel


O comunitarismo, em geral, surge como uma oposição tanto ao libertarismo de Nozick
como ao liberalismo igualitário de Rawls, dado que tais teorias oferecem uma noção de
ser humano abstrata e individualista. Pelo contrário, no comunitarismo advoga-se uma
tese social sobre o ser humano, de acordo com a qual os indivíduos não existem enquanto
tal listo é, de forma isolada e autonoma), mas sim existem no seio das suas relações e
interações sociais, em comunidade Jdaía designação «comunitarismo»).

De acordo com os comunitaristas, tal como Michael Sandel no livro O Liberalismo


e as Limites do Justiça publicado nos anos 80 do século passado, a forma como Rawls
argumenta a favor dos princípios da justiça, através do véu de ignorância numa posição
Michael Sande
original, não é bem-sucedida.
(n. 1935)

Isto porque a avaliação dos princípios da justiça é uma escolha moral. Ora, com o <véu
de ignorância* de Rawls, tais escolhas são realizadas apenas de forma egoísta e por inte­
resses pessoais (pois, as partes na posição original só se preocupam individualmente em
maximizar a sua situação e em não ficarem na pior situação possível). Dessa forma, as de­
liberações e as decisões realizadas a coberto do <véu de ignorância* na posição original
são moralmente cegas, dado que o *véu de ignorância* implica que as escolhas sejam
feitas por indivíduos total mente desenraizados e desligados de qualquer laço social, in­
teressados no seu próprio bem e sem se guiarem por qualquer noção de bem comum ou
sequer de vida boa.

Contudo, de acordo com Sandel, as escolhas morais também devem decorrer de laços
comunitários que nos moldam e onde temos as nossas raízes. Ou seja, os princípios da
justiça também devem ser justificados a partir de uma ideia completa de bem comum
Além disso, dado que somos seres incorporados e inseridos na comunidade, a conceção
de pessoa de Rawls (enquanto ser individual, desincorporado, situado fora da comunida­
de) está errada.

Com isso, Sandel critica a metodologia que Rawls utiliza para encontrar esses princí­
pios da justiça, mas também critica a prioridade do primeiro princípio, dado que também
as liberdades devem ser interpretadas em função da conceção de bem comum. Em suma,
de acordo com Sandel. há uma prioridade do bem comum na definição do justo.

Jikke van de Waal-Bijma. Muittdôes (s/d)


7. O proMeraw» da justiça social

INTERESSES
PESSOAS ► PARCIAIS DESACORDO
PARTICULARES

,.♦♦♦♦** Então como e que as pessoas podem chegar a um acordO''razoabilidade


■ quanto aos pricípios da justiça?

i
POSIÇÃO ORIGINAL
(acordo hipotético}

EXPERIÊNCIA MENTAL

VÉU DE IGNORÂNCIA

- Garante a equidade
e imparcialidade da escolha
• Conduz ao acordo.Tazoabil idade
quanto a escolha dos princípios PRINCÍPIOS
da justiça DA JUSTIÇA

BENS PRIMÁRIOS 1 Princípio da liberdade igual

Liberdades, oportunidades,
2a) Princípio da oportunidade
rendimento, riqueza
justa

MAX/M/N 2b) Princípio da diferença

Maximizar o mínimo
de bens primários

LIBERTARISMO
Objeção ao princípio da diferença

161
A Ação Hum-ana e oi Valores

RESUMO

• A filosofia política trata de saber quais as formas corretas de organização social.

- O problema da justiça social pode ser formulado da seguinte forma: Quais os


princípios gerais em que se deve basear uma sociedade justa?

- John Rawls responde ao problema da justiça social defendendo que numa


sociedade justa se deve assegurar iguais liberdades e oportunidades para
todos e que a redistribuiçào do rendimento e da riqueza deve ser feita a luz
deste objetivo.

• Para Rawls, as desigualdades na distribuição so são aceitáveis se trouxerem


benefícios para todos, de modo especial para os mais desfavorecidos.

• Rawls defende uma teoria da justiça como equidade, dado que os princípios
da justiça são aqueles que seriam escolhidos numa situação de equidade.

- Os princípios da justiça de acordo com John Rawls são os seguintes:

-1: Princípio da liberdade igual.

- 2a): Principio da oportunidade justa.

- 2b): Princípio da diferença.

- No princípio 1 afirma-se que a sociedade deve assegurar a máxima liberdade


para cada pessoa, compatível com uma liberdade igual para todos os outros.

- De acordo com o princípio 2a), deve promover-se a igualdade de oportunida­


des e as desigualdades na distribuição de riqueza são aceitáveis apenas na
medida em que resultam desta igualdade de oportunidades.

- E a ideia do princípio 2b) é que se as desigualdades na distribuição da riqueza


acabarem por beneficiar todos, especial mente os mais desfavorecidos, então
justificam-se.

- Para justificar os princípios da justiça, Rawls apresenta duas vias argumenta-


tivas:

- íl| a metodologia do equilíbrio refletido; e

- (II) o argumento da posição original e da regra rnaxirnín.

- A metodologia do equilíbrio refletido consiste em avaliar os princípios sugeri­


dos por Rawls a luz das nossas intuições morais e. assim, ver a sua pertinência.

- Nesta metodologia do equilíbrio refletido, o princípio 1 justifica-se, pois a liber­


dade e um bem social primário e e fundamental para concretizarmos os nos­
sos objetivos e projetos de vida (devendo, por isso, distribuir-se igualmente).

• Do mesmo modo, o principio 2a| justifica-se porque as pessoas não são moral­
mente responsáveis pela lotaria social, que deve ser minimizada.

■ O princípio 2b| justifica-se de acordo com esta metodologia, pois as pessoas


não são moralmente responsáveis pela lotaria natural, que deve ser minimizada.

• A argumentação da posição original completa a justificação do equilíbrio refleti­


do. A ideia é fazer uma experiência mental (ou de pensamento] para encon­
trar os princípios da justiça corretos.
7. O proMeraw» da justiça social

• De acordo com Rawls, o argumento da posição original é constituído pelos


seguintes elementos:

- Uma experiência mental em que se imagina uma situação em que as pes­


soas (as partes) de uma sociedade são levadas a avaliar os princípios da
justiça.

- Mas as partes estão cobertas por um veu de ignorância que as faz desco­
nhecer quem são na sociedade e quais as suas peculiaridades individuais,
garantindo desta forma uma imparcialidade na escolha dos princípios da
justiça.

- Do mesmo modo, as partes estão interessadas em escolher o que e melhor


para si, tendo interesse em obter bens sociais primários; ou seja, coisas
que são valiosas seja qual for o projeto de vida, tal como liberdades, opor­
tunidades, rendimento e riqueza.

• Com base nisso, as partes escolheriam na posição original o princípio 1. pois, G Conceitos
pelo facto de não saberem as suas posições na sociedade ou a que grupo • justiça social
pertencem, seria irracional prejudicar um determinado grupo ou tirara liber­
dade a um certo setor da sociedade, uma vez que poderiam estar a prejudi- • justiça como equidade
car-se a si mesmas. • controtualismo
• Igual mente as partes escolheriam na posição original os princípios 2 a) e 2b) • princípro da liberdade igual
porque seguem a regra moxjmm. Esta regra e um princípio de escolha a apli­
car em situações de ignorância, como ê o caso de se estar abrangido pelo • princípw da oportunidade
veu de ignorância. De acordo com esta regra, se as partes não sabem quais justa
serão os resultados que podem obter ao nível dos bens sociais primários, • princípw da diferenço
então ê racionaljogar pelo seguro e escolher como se o pior lhes fosse acon­
• metodologia do equilíbrio
tecer.
refletido
• É também por causa da regra maxímm que na posição original seria irracional
• lotario social
agir de acordo com algum princípio utilitarista.
• lotario notural
• Duas importantes objeções a teoria de Rawls são a crítica libertarista de No-
zick e a crítica comunrtarista de Sandel. • posição original

• Robert Nozick critica a teoria da justiça de Rawls ao sustentar que não e pos­ • acordo hipotético
sível defender consistente e simultaneamente o principio da liberdade 1 e o
• véu de ignorância
princípio da diferença 2b). Pois, proporcionar liberdade às pessoas implica
que não se pode impor restrições as posses individuais de propriedade. Mas • bens sociais primános
limitar aquilo que as pessoas podem adquirir e o que podem fazer com isso,
• regra maxímin
tal como defendido no princípio da diferença, e uma forma de restringir tal
liberdade individual. • princípio utilitansta

’ Michael Sandel critica a teoria da justiça de Rawls ao chamar a atenção para • igualitansmo
o facto de as deliberações e as decisões realizadas a coberto do <véu de
• libertarismo
ignorância* na posição original serem moralmente cegas, dado que o <veu
de ignorância* implica que as escolhas sejam feitas por indivíduos total men­ • conceção padronizada
te desenraizados e desligados de qualquer laço social, interessados no seu da justiço
proprio bem e sem se guiarem por qualquer noção de bem comum ou sequer • comunitorismo
de vida boa.

163
A Ação Hum-ana e o« Valore»

Questões propostas

GRUPO I

Nas questões do Grupo I, seleciona a única alternativa correta.

1. Na posição original visa-se alcançar um

(A) acordo verbal.

acordo hipotético.

acordo efetivo.

(D) acordo dado por um árbitro.

2. Seguindo a argumentação de Rawls. para escolher os princípios da justiça é preciso que

(A) se desconheça o lugar que se ocupa na sociedade e as suas peculiaridades individuais.

{B> se conheça o lugar que se ocupa na sociedade e as suas peculiaridades individuais.

<C) cada um conheça o projeto de vida e o que é o bem comum para a comunidade em que estã
inserido.

(D) não se tenha interesse em obter bens sociais primários.

3. A ordem dos princípios da justiça, de acordo com Rawls, é

IA) princípio da liberdade, princípio da diferença e princípio da oportunidade justa.

(B) princípio da liberdade, princípio da oportunidade justa e princípio dadiferença.

<C) princípio da oportunidade justa, princípio da diferença e princípio daliberdade igual.

(D) princípio da diferença, princípio da oportunidade justa e princípio daliberdade.

4. De acordo com John Rawls, as desigualdades económicas

nunca são aceites, ou legítimas.

(B) são aceites, ou legítimas, se resultam de uma igualdade de oportunidades.

<C> são aceites, ou legítimas, se resultam de uma igualdade de oportunidades e trazem benefí­
cios para os mais desfavorecidos.

(D) são aceites, ou legítimas, se trazem benefícios para os mais desfavorecidos.

5. Segundo o princípio da liberdade apresentado por Rawls, visa-se defender que

o livre-arbítrio é incompatível com o determinismo.

(B) as pessoas que não pensem nas consequências das suas ações não merecem ter liberdade.

<C) as liberdades podem ser violadas em troca de vantagens económicas.

(D) é importante assegurar um conjunto de liberdade cívicas e políticas de expressão, de religião,


de reunião, entre outras.

164
Qucstôei proposta»

6. O princípio da oportunidade justa é importante para

{A) minimizar a lotaria social. <C) assegurar as liberdades cívicas.

(B) minimizar a lotaria natural. {D) gerar maior bem-estar para a maioria.

7. O princípio da diferença é importante para

IA) minimizar a lotaria social. (C) assegurar as liberdades cívicas.

minimizar a lotaria natural. {D) gerar maior bem-estar para a maioria.

8. Imaginem-se os seguintes padrões de distribuição de bens sociais primários {de 0 a 10) em


sociedades com apenas cinco pessoas:

• Sociedade 1:1.10.10.10. 2. Total 33.

• Sociedade II: 6,7, 7, 6. S. Total: 32.

• Sociedade III: 5, 5, 5, 5, 5. Total: 25.

De acordo com a regra maximin de Rawls. numa situaçao de posição original, pode concluir-se que

a sociedade I é a mais justa.

a sociedade II é a mais justa.

a sociedade III é a mais justa.

(D) qualquer uma das sociedades é justa, desde que respeite a liberdade individual.

9. Imaginem-se os seguintes padrões de distribuição de bens sociais primários {de 0 a 10) em


sociedades com apenas cinco pessoas:

Seguindo-se um princípio utilitarista, em que se segue a regra da maximização do bem-estar


geral, pode concluir-se que

a sociedade I é a mais justa.

{B> a sociedade II é a mais justa.

a sociedade III é a mais justa.

(D) qualquer uma das sociedades é justa. desde que respeite a liberdade individual.

10. Robert Nozick, ao utilizar a experiência mental de Wilt Chamberlain, pretende criticar Rawls no
princípio

íAjda liberdade igual. <C) da diferença.

<B| da oportunidade justa. <D) da titularidade.

1Ê5
Questões propostas

GRUPO II

Responde de forma direta e objetiva às questões que se seguem.

1- O que pretende Rawis ao propor que imaginemos a posição original?

2. Caracteriza os princípios da justiça defendidos por Rawis.

3. Qual ê a diferença entre a lotaria social e a lotaria natural e qual ê a sua relação com os princí­
pios da justiça de Rawis?

4. De que forma a regra maximin permite justificar a escolha dos princípios da justiça propostos
por Rawis em vez de um princípio utilrtarista?

5. Explica a diferença entre as críticas de Nozick e de Sandel ã teoria da justiça de Rawis.

GRUPO III

Atenta no texto que se segue e responde ã questão acerca do mesmo.

Lê a seguinte notícia.

«O Bloco de Esquerda quer limitar a distância salarial entre a base c o topo das empresas, ou
seja, entre os trabalhadores t os seus gestores c administradores. “A proposta do BE c que todas as
empresas que ultrapassem esse leque de distância deixem de ter acesso a benefícios fiscais, a outros
benefícios do Estado ou até à contratação pública. O Estado passa a privilegiar empresas que têm a
igualdade salarial como um critério na sua política de remunerações", disse Mariana Mortágua. Para
as empresas em que “a proporção entre o salário mais alto e o salário mais baixo é muito elevada" ha
verá penalizaçòes, em “valor a definir por portaria do Governo*. Aos jornalistas, a deputada Mariana
Mortâgua referiu o caso da EDP e do seu administrador António Mexia, dizendo que o gestor ganha
num mês aquilo que os trabalhadores da empresa com um salário de cerca de 900euros precisam de
trabalhar seis anos para conseguir acumular, acrescentando ainda que a estagnação dos salários dos
trabalhadores nos anos de crise não foi acompanhada no lado das administrações, que viram as suas
remunerações crescer em cerca de 40%.»

www.rtp.pt {teseta cam suprrwôcxl

1. Será que a teoria da justiça de John Rawis considera legitima a distribuição desigual de benefí­
cios fiscais proposta no texto? Porquê?

2. O que pensaria um libertarista, como Robert Nozick, da medida proposta? Porquê?

3. Com qual das duas perspetivas concordas? Porquê?


O Conhecimento
e a Racionalidade Científica
e Filosófica

9. O estatuto do conhecimento científico


O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

8» Análise comparativa de duas teorias explicativas


do conhecimento
Este capítulo 8 será inteiramente dedicado à epistemologia, ou filosofia do conhecimento
Como vimos no capítulo 1, a epistemologia dedica-se ao estudo de problemas funda­
mentais relacionados com a natureza do conhecimento, como, por exemplo: *O que e o
conhecimento?*, *Será o conhecimento possível?*, «Quais são as fontes mais seguras de
conhecimento?*, etc. O problema central que será aqui discutido é o problema da possi­
bilidade do conhecimento.

Este problema pode ser explicitamente formulado conforme se segue: «Será o conheci­
mento possível?*. Contudo, antes de passarmos a essa discussão, é importante termos em
mente uma determinada conceção de conhecimento, ou seja, é preciso ter uma resposta
para a pergunta: «O que é o conhecimento?*.

De um modo muito geral, o conhecimento pode ser entendido


como uma relação entre um sujeito - aquele que conhece —
e um objeto — aquilo que é conhecido

Tipos de conhecimento
No que diz respeito ao seu objeto, é comum distinguirem-se três tipos de conhecimento:

- conhecimento por contacto:

• conhecimento prático; e

• conhecimento proposicional

Diz-se que temos conhecimento por contacto quando o nosso objeto de conhecimen­
to é uma determinada parte da realidade (uma pessoa, um animal, um local ou um objeto)
com a qual estamos em contacto direto através dos nossos sentidos, como, por exemplo,
quando alguém afirma: <Eu conheço o presidente da Junta de Freguesia de Benfica*.
Quando o nosso objeto de conhecimento é uma dada atividade que sabemos executar
corretamente, diz-se que temos conhecimento prático {ou «saber-fazer* — kpow-óow),
como acontece, por exemplo, quando alguém diz: «Eu sei nadar*. Por último, quando o
nosso objeto de conhecimento consiste numa proposição verdadeira acerca da realidade
temos conhecimento proposicional (ou «saber-que*, ou conhecimento acerca das coisas),
como acontece, por exemplo, quando alguém diz: «Eu sei que Sócrates era filósofo*.

Há, porém, quem defenda que na verdade só existe conhecimento proposicional e que
quer o conhecimento por contacto, quer o conhecimento prático são apenas modalidades
deste tipo de conhecimento. Independentemente disso, uma coisa é certa, a discussão
filosófica acerca da natureza do conhecimento tem dedicado bastante atenção ao conhe­
cimento proposicional e, por esse motivo, e sobretudo sobre esse tipo de conhecimento
que nos iremos debruçar daqui em diante.

U68
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

A definição tripartida de conhecimento


Podemos agora reformular o problema original em termos mais específicos:

Considerando que P e uma determinada proposição e S um dado sujeito, em que


condições S sabe que P?

Uma das mais antigas tentativas de responder a esta pergunta e-nos apresentada no
século V a.C., na obra Jeefeto, de Platão. Esta abordagem ficou conhecida como -definição
tripartida de conhecimento*, pois estabelece que existem trés condições simultanea­
mente necessárias e suficientes para o conhecimento:

• a crença;

• a verdade; e

• a justificação

Em primeiro lugar, importa referir que a palavra *crença> deve ser aqui entendida como
sinónimo de convicção ou de opinião, e não como sinónimo de fé religiosa. Neste senti­
do. uma crença é uma atitude proposicional (Isto é, uma atitude adotada por um sujeito
relativamente a uma proposição), mais concretamente a atitude de achar que uma dada
proposição é verdadeira

Ora, assim sendo, não e difícil perceber por que razão se pode considerar que a crença
é uma condição necessária para o conhecimento. Naturalmente, não se pode dizer que S
sabe que P, a menos que S acredite nessa proposição. Seria contraditório afirmar coisas
como: *Sei que a Terra e redonda, mas não acredito nisso»; ou: *Não acredito que Paris
seja a capital de França, mas sei que assim é».

Contudo, também não é difícil perceber que apesar de ser uma condição necessária
para o conhecimento, a crença não é uma condição suficiente para o mesmo. Isto acon­
tece porque podemos ter crenças falsas. Uma proposição que não corresponda aos factos
não constitui conhecimento, pois so as proposições verdadeiras ligam o sujeito á realidade
de forma adequada. Por exemplo, não podemos saber que a Terra está no centro do Sis­
tema Solar, a menos que a Terra esteja, de facto, no centro do Sistema Solar. Assim como
não podemos saber que o Pai Natal existe se, na realidade, ele não existir.

Portanto, pode dizer-se que, além da crença, a verdade também é uma condição
necessária para o conhecimento. Mas sera que para termos conhecimento basta termos
crenças verdadeiras?

Para responder a esta pergunta presta atenção ao exemplo que se segue:

Imagina que o João jogou no Euromilhões e que. embora ainda não tenha tido a opor­
tunidade de verificar qual foi a chave sorteada, acredita que o seu bilhete foi premiado.
Supõe que. de facto, o bilhete do João foi premiado. Nestas circunstâncias, o João
teria uma crença verdadeira, mas será que podemos dizer que sabia que lhe tinha
saído o Euromilhóes? Não, antes de ter verificado que a chave sorteada correspondia
á sua aposta não se pode dizer que o João sabia que lhe tinha saído o Euromilhóes.
porque, aparentemente, não tinha boas razões para acreditar naquilo em que acre­
ditava, e foi apenas por mero acaso que a sua crença se veio a revelar verdadeira.

169
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

Este exemplo mostra que a crença verdadeira não é suficiente para o conhecimento,
pois apesar de ter uma crença verdadeira, o João não tinha verdadeiro conhecimento
até ter verificado que a chave sorteada correspondia à sua aposta. Isto significa que para
termos conhecimento não basta termos uma crença que, por acaso, se vem a revelar
verdadeira. É necessário que essa crença se apoie em boas razões, ou seja, é necessário
termos uma justificação aara acreditar na mesma.

Deste modo, podemos concluir que a justificação também é uma condição necessária
para o conhecimento.

Alem disso, se acharmos que, depois de ter verificado que a chave sorteada correspon­
dia à sua aposta o João passaria a saber que ganhou o Euromilhôes, então podemos igual­
mente concluir que a crença, a verdade e a justificação são condições simultaneamente
necessárias e. em conjunto, suficientes para o conhecimento Ou seja:

f'
S sabe que P se, e sõ se, 1. S acredita em P;
2. P é verdadeira; e
3. S tem uma justificação para acreditar em P.
■■■_____________________________________________________________________________

Se esta bicondicional for verdadeira, então é impossível termos conhecimento sem ter­
mos uma crença, verdadeira e justificada, assim como seria impossível termos uma crença,
verdadeira e justificada sem termos conhecimento.

Mas será esta definição satisfatória?


Ou será que enfrenta sérios contraexemplos?
Será esta definição demasiado lata? Ou demasiado restrita?

Alguns autores consideram que esta definição é demasiado lata, pois hâ situações
em que apesar de termos uma crença verdadeira justificada não temos conhecimento.
Por exemplo, costuma dizer-se que «Até um relógio parado está certo duas vezes por
dia.». Isto significa que se o teu relógio parar ás três da manhã sem que tenhas cons­
ciência disso e apenas voltares a consultá-lo para saber as horas às três da tarde, vais
formar uma crença verdadeira justificada, embora não se possa dizer que saibas ao
certo que horas são. Se tivesses olhado para o relógio uns minutos antes ou uns minu­
tos depois irias acreditar de igual modo que eram três da tarde, mas nesse caso a tua
crença seria falsa. Ora, como vimos anteriormente, uma crença que é apenas verdadeira
por acaso, não pode ser conhecimento. Assim sendo, ainda que a crença, a verdade e a
justificação sejam condições necessárias para o conhecimento, não são seguramente
suficientes

Contudo, uma coisa parece certa, sem termos uma justificação para as nossas cren­
ças não temos conhecimento e isto, conforme veremos em seguida, é suficiente para pôr
em causa a possibilidade de termos conhecimento

170
8. Anális* comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

8.1 O problema da possibilidade do conhecimento


Outro problema epistemolõgico importante é o problema da possibilidade do conheci­
mento: «Será o conhecimento possível?*. Em seguida iremos analisar a resposta cética e a
resposta fundacionista a este problema.

O desafio cético
O ceticismo e a perspetiva segundo a qual devemos suspender o juízo relativamente
à verdade ou falsidade de qualquer proposição, pois em geral a nossa pretensão de que
sabemos seja o que for é infundada

O argumento central a favor do ceticismo ficou conhecido como ^argumento cético da


regressão infinita^ e pode ser formulado nos seguintes termos:

(1) As nossas crenças justificam-se com base noutras crenças.


(2) Se as nossas crenças se justificam com base noutras crenças, então quando ten­
tamos justificar uma crença caímos numa regressão infinita da justificação.
{3| Se quando tentamos justificar uma crença caímos numa regressão infinita da jus­
tificação, então não temos crenças justificadas.
{4| Se as nossas crenças se justificam com base noutras crenças, então nào temos
crenças justificadas. (De 2e3, por silogismo hipotético)
|5) Não temos crenças justificadas. (De 1 e 4, por modus ponens)
■|6) Se nào temos crenças justificadas, então não temos conhecimento.
(7) Logo, não temos conhecimento. (De 5 e 6, por modus ponens)

A premissa 1 estabelece que todas as nossas crenças se justificam com base nou­
tras crenças. Esta ideia deve ser familiar para todos aqueles que já contactaram com
uma criança na idade dos porquês. Os pais dizem: «Come a sopa!*, e a criança pergunta:
«Porquê?*. Os pais respondem: «Porque isso é importante para ti.», e a criança contra-argu-
menta: «Porquê?*. «Porque te torna mais saudavel.*, insistem os pais. «Porquê?*, indaga
novamente a criança. E a conversa pode prolongar-se indefinidamente ou atê que um dos
dois desista. Normalmente, é o adulto o primeiro a dar-se por vencido, afirmando num tom
impaciente: «Porque sim!*. No entanto, não é difícil perceber que «Porque sim!* não justifi­
ca coisa alguma, apenas revela indisponibilidade (ou mesmo incapacidade) para prolongar
a conversa. Isto acontece porque, efetivamente, é sempre possível pedir uma justificação
(ou seja, perguntar «porquê?*) para cada uma das nossas crenças. No entanto, uma vez
que a justificação que apresentamos consiste noutra crença, também ela precisará de
ser justificada, e assim sucessiva mente.

Daí que, na premissa 2, o argumento estabeleça que o facto de todas as nossas cren­
ças se justificarem com base noutras crenças implica que sempre que tentamos justificar
uma crença acabamos forçosamente por cair numa regressão infinita da justificação, isto
é, acabamos por retroceder de crença em crença procurando justificar cada uma delas
com base na seguinte, sem nunca encontrar uma crença que possa por um ponto final
neste processo. O que, por sua vez, implica que nào temos crenças justificadas, que é
precisamente aquilo que é afirmado na premissa 3.

Daqui segue-se. por silogismo hipotético, que o facto de todas as nossas crenças se
justificarem com base noutras crenças implica que não temos crenças justificadas (linha 4).
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

Se conjugarmos este facto com a ideia afirmada na premissa 1 de que efetiva mente todas
as nossas crenças se justificam com base noutras crenças, somos validamente conduzidos
(por modus ponens} à ideia de que não temos crenças justificadas (linha 5). Ora, uma vez
que, por muito polémica que seja a definição tripartida de conhecimento, a justificação é
uma condição necessária para o conhecimento (premissa 6), podemos concluir valida­
mente (uma vez mais por modus ponens) que não temos conhecimento (linha 7), o que
corresponde, de certa forma, ã tese central do ceticismo. Haverá alguma forma de escapar
a este resultado? Uma vez que o argumento e válido, se não estamos dispostos a aceitar a
sua conclusão teremos de rejeitar pelo menos uma das suas premissas. Mas qual?

A resposta fundacionista
O fundacionismo e uma das mais célebres respostas ao desafio levantado pelo ceticismo.
A estratégia central do fundacionismo passa pela rejeição da premissa 1 (página 171) do ar­
gumento cético da regressão infinita Esta premissa estabelece que todas as nossas crenças
se justificam com base noutras crenças, o que significa que os fundacionistas terão de de­
fender que algumas das nossas crenças não se justificam com base noutras crenças Para
esse efeito, os fundacionistas vão introduzir uma distinção crucial entre dois tipos de crenças:

• as crenças básicas e

• as crenças não básicas

Segundo esta perspetiva,

As crenças básicas são autoevidentes, isto e, não podem ser seriamente postas em causa, pois são de
tal modo evidentes que não precisam de ser justifica das por outras crenças: justificam-se a si mesmas.
As crenças não básicas, pelo contrario, não são autoevidentes, são inferidas a partir
de outras crenças: justificam-se com base noutras crenças.

Assim, segundo o fundacionismo visto que crenças básicas não carecem de outra jus­
tificação, elas (crenças básicas) podem justificar as crenças náo básicas sem que sejam
necessárias justificações adicionais. Mas que tipo de crenças pode satisfazer este requisito?

* A palavra grega Aguns fundacionistas são chamados nacionalistas*, pois defendem que este tipo de
para experiência crenças provem da razão, são crenças que podemos saber que são verdadeiras através
sensível e «em- do pensamento apenas; diz-se. por isso, que são conhecidas o priori Outros são chama­
pe.v.ó», daí que
estes autores se­ dos de • empiristas< pois consideram que as crenças basicas acerca do mundo provém
jam conhecidos da experiência sensível1, isto e, são crenças que só podemos saber se são verdadeiras
por empiristas. através dos nossos sentidos; diz-se, por isso, que são conhecidas a posteriori

Antes de nos debruçarmos sobre um exemplo concreto de cada uma destas modalida­
des de fundacionismo, vamos analisar mais detalhadamente esta distinção entre conhe­
cimento a priori e conhecimento a posteriori

Conhecimento a priori e conhecimento a posteriori


Conforme acabamos de ver, podem distinguir-se duas formas de obter conhecimento
proposicional:

• algumas proposições podem ser conhecidas independentemente da experiência -


isto é, podemos saber que são verdadeiras sem precisar de olhar para o mundo e ver
como as coisas, de facto, são: e

172
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

- outras proposições só podem ser conhecidas através da experiência - isto é. so


podemos saber que são verdadeiras se olharmos para o mundo para ver como as
coisas, de facto, são.

Presta atenção aos exemplos que se seguem:

1. Três mais dois são cinco.

2. Uma camisola (inteiramente) verde não é vermelha.

3. O planeta Terra é (aproximadamente) composto por dois terços de agua.

4. Os ursos polares são brancos.

Não é preciso olhar para o mundo para saber que três mais dois são cinco ou que uma
camisola (inteiramente) verde não é vermelha: basta pensar nos conceitos aqui envolvidos
para saber que estas proposições são verdadeiras (o que não quer dizer que não foi pre­
ciso termos alguma experiência para adquirir os concertos de cor, de soma e de número).
Claro que também podemos chegar a conhecer o resultado de uma soma, não através
do nosso pensamento, mas sim através dos sentidos - por exemplo, consultando esse
resultado no ecrã de uma máquina de calcular —. mas isso não invalida o facto de que este
conhecimento poderia, ã partida, ser adquirido recorrendo apenas ao pensamento. Pelo
contrário, por muito que nos esforçássemos, não bastaria usar o pensamento para saber
qual é a cor dos ursos polares (estes poderiam ter sido de outra cor sem deixarem de ser
ursos polares) ou a proporção de água ã superfície do planeta (o planeta continuaria a ser
o mesmo ainda que a quantidade de agua à superfície se alterasse). Este tipo de conheci­
mento só pode ser adquirido através da experiência.

Diz-se que:

• proposições como 1 e 2 podem ser conhecidas a priori isto e, pelo pensamento apenas;

- ao passo que proposições como 3 e 4 só podem ser conhecidas a posteriori, isto é,


através da experiência.

Chamou-se «conhecimento a priori' ao conhecimento que pode ser


adquirido apenas pelo pensamento, independentemente da experiência,
e «conhecimento a posteriori > ao conhecimento que nâo pode ser
adquirido apenas pelo pensamento, uma vez que é alcançado
através da experiência sensível.

Uma importante questão que os epistemólogos têm debatido ao longo dos séculos é
a seguinte: Pode haver conhecimento a priori acerca da forma como as coisas efetiva­
mente são ou será que todo o conhecimento o priori consiste apenas em meras relações
de ideias sem qualquer informação relevante acerca do mundo?*. Por exemplo, a propo­
sição: <Os solteiros não são casados.* pode ser conhecida o priori, mas não nos diz nada
acerca do que existe ou deixa de existir na realidade, pois não nos diz se existe algum
solteiro (ou algum casado). Haverá alguma proposição com informação relevante acerca
do mundo que possa ser conhecida o priori? Os racionalistas acreditam que sim.

Em seguida, iremos analisar a resposta racionalista de René Descartes ao desafio lan­


çado pelo ceticismo.

173
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

Descartes: a resposta racionalista


René Descartes é um dos mais famosos racionalistas de todos
os tempos. Descartes nào estava disposto a aceitar a impossi­
bilidade do conhecimento sem tentar, pelo menos uma vez na
vida, escapar a esta conclusão aparentemente inevitável. Com
esse objetivo em mente. Descartes decide levar o ceticismo ao
extremo e vencéJo no seu próprio jogo, ou seja, decide recorrer
ao proprio ceticismo como método para provar a impossibilidade
do ceticismo.

Descartes pensou que se duvidasse de tudo, talvez pudesse


encontrar algo de absolutamente indubitável, ou seja, uma crença
básica que fosse de tal modo autoevídente que nem a mais ex­
trema das dúvidas a pusesse em causa. Uma crença com estas
Rene Descartes Í1596-165O) características constituiria uma base sólida sobre a qual poderia
edificar com segurança o conhecimento.

Em suma, o seu objetivo era estabelecer um conhecimento seguro e indubitável


O seu método era a dúvida metódica, que consistia em duvidar de tudo o que se possa
imaginar e averiguar se algo resistia a esse processo. Descartes apresenta-nos o seu pro­
jeto nas linhas que se seguem:

«Notei, há alguns anos já. que, tendo recebido desde a mais tenra idade tantas coisas
falsas por verdadeiras, e sendo tào duvidoso tudo o que depois sobre elas fundei, tinha
de deitar abaixo tudo, inteiramente, por uma vez na minha vida, c começar, de novo,
desde os primeiros fundamentos, se quisesse estabelecer algo de seguro e duradoiro nas
ciências. (._] líntào. [_] vou dedicar me [...] com seriedade e livremente, a destruir em
geral as minhas opiniões.»
Rent* I Jcscancs- MedJiuçdcs suòrc u FTJasofla Primeira.
TfíhL Gastava de Praga, Coimbra. Almcdin»! (1992), pp. Iü5 UH»

A dúvida metódica
Ao contrário da dúvida cética que era permanente, pois era a conclusão a que os cé­
ticos haviam chegado a partir da sua argumentação, a dúvida cartesiana era provisória,
pois era apenas uma estratégia ou um método para alcançar um conhecimento certo e
indubitável. Além disso, enquanto os céticos sustentavam apenas que devemos suspen­
der o juízo em relação à verdade ou falsidade de toda e qualquer proposição, Descartes
decide rejeitar como falsas todas as proposições que não fossem absoluta mente certas
e indubitáveis. Isto faz com que muitos considerem que a dúvida cartesiana é ainda mais
extrema do que a dúvida cética, sendo por vezes chamada ^hiperbólica* (ou exagerada}.
Assim, pode dizer-se que contrariamente ã dúvida cética, a dúvida cartesiana era:
• metódica - pois era apenas um método para encontrar um conhecimento seguro;
- provisória - pois subsistia apenas até que se encontrasse algo absolutamente certo
e indubitável;
- hiperbólica - pois não se limitava a pór tudo em dúvida, mas rejeitava como falso tudo
o que fosse meramente duvidoso.

174
8. Anális* comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

Para concretizar os seus propósitos, Descartes não precisou de examinar cada crença
isoladamente (tarefa que seria interminável). Se decidirmos rejeitar todas as crenças mi­
nimamente duvidosas, basta debruçarmo-nos sobre as principais fontes das nossas cren­
ças Se detetarmos o menor grau de dúvida numa dessas fontes, temos uma justificação
para rejeitar todas as crenças que dela provenham.

Razões para duvidar


Conforme vimos, Descartes vai recorrer a uma argumentação cética para pôr em cau­
sa tudo aquilo que julgamos saber, deitar abaixo todas as nossas convicções e verificar
se existe alguma que resista a tamanha devastação. Estes argumentos são geralmente
conhecidos por «razões para duvidarv. Descartes apresentou varias razões para duvidar

• as ilusões dos sentidos;

> a indistinção vigília-sono:

* os erros de raciocínio; e

> a hipótese do génio maligno

As ilusões dos sentidos


Descartes começa por notar que uma grande quantidade das suas crenças provinha dos
seus sentidos e decide averiguar se os sentidos são uma fonte fiável. O argumento das
ilusões dos sentidos eva-o a concluir que não. De acordo com este argumento, uma vez
que os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, nunca podemos saber se nos estão a
enganar ou não; portanto, nunca devemos confiar nas informações adquiridas através deles.

Será este argumento suficiente para nos persuadir de que nunca temos justificação
para acreditar nos nossos sentidos? Afinal, do facto de que. por vezes, os nossos sentidos
nos enganam não se segue que temos boas razões para
nunca confiar neles, até porque a maior parte dessas ilu­
sões pode facilmente ser resolvida recorrendo aos pró­
prios sentidos. Por exemplo, posso aproximar-me para
ver um objeto mais de perto, posso usar uma régua para
fazer medições mais exatas e, sobretudo, posso sempre
usar os outros sentidos para me certificar de que não es­
tou a ser iludido por um deles.

Descartes reforça o argumento das ilusões dos sen­


tidos com uma razão adicional para duvidarmos de tudo
aquilo que tenha uma origem sensível: a indistinção vigi-
lia-sono. Vejamos, em seguida, de que se trata.

A indistinção vigília-sono
Segundo o argumento da indistinção vigília-sono, uma
vez que a vivacidade e a intensidade de certos sonhos
nos convencem muitas vezes de que estamos a ter expe­
riências reais, quando na realidade estamos apenas a so­
nhar, não temos forma de distinguir as nossas experiências Jacek Yerka, Mundo de Sonho (s/d)

175
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

de vigília daquelas que temos quando sonhamos; consequentemente, as crenças que for­
mamos a partir da experiência sensível ou são falsas (porque estamos apenas a sonhar)
ou, ainda que sejam verdadeiras, são-no apenas por acaso (porque não podemos saber se
estamos apenas a sonhar ou não) e, portanto, não podem constituir conhecimento.

Os erros de raciocínio
Depois de constatar que não podemos confiar nas informações obtidas através dos
sentidos, Descartes vira a sua atenção para as crenças obtidas através do raciocínio. Estas
últimas parecem-lhe bastante mais certas do que as primeiras, pois as verdades da lógica,
da geometria e da matematica não sào afetadas pelas ilusões percetivas e não deixam de
ser verdadeiras ainda que estejamos a sonhar. Quer estejamos a dormir, quer estejamos
acordados: «2*2 = 4*, *Se Smith ou Jones assaltaram o banco e não foi o Smith, então foi
o Jones*, etc. Contudo, Descartes apercebe-se que mesmo estas crenças não são abso­
lutamente certas e indubitáveis, pois podemos cometer erros mesmo nos raciocínios mais
elementares. Assim, o argumento dos erros de raciocínio baseia-se na ideia de que todos
podemos cometer erros nos raciocínios mais simples e, por isso, não podemos justificada-
mente acreditar em crenças que tenham origem no nosso raciocínio.

Contudo, o argumento parece presumir demasiado. Será que não existem raciocínios
acerca dos quais podemos estar seguros? Descartes acreditava que não. E, para o provar,
concebeu uma das experiências mentais mais famosas da história da filosofia. Em segui­
da, veremos em que consiste essa experiência de pensamento e qual é o seu papel no
racionalismo cartesiano.

A hipótese do génio maligno


Para poder pôr, realmente, em causa as verdades mais elementares da geometria e
da aritmética. Descartes concebeu a hipótese do génio maligno, que nos apresenta nos
seguintes termos:

supor, por consequência, nào o Deus sumamente bom, fonte da verdade, mas
um certo gênio maligno, ao mesmo tempo extremamente poderoso e astuto, que puses­
se toda a sua indústria cm me enganar. Vou acreditar que o céu. a terra, as cones, as figu­
ras, os sons, c todas as coisas exteriores nào sào mais que ilusões de sonhos com que ele
arma ciladas à minha credulidade. Vou considerar-me a mim próprio como não tendo
mãos, nào tendo olhos, nem carne, nem sangue, nem sentidos, mas crendo falsamente
possuir tudo isto. [...] Por conseguinte, suponho que ê falso tudo o que vejo. Creio que
nunca existiu nada daquilo que a memória enganadora representa. Nào tenho, absolu
tamente. sentidos; o corpo, a Figura, a cxtensào. o movimento e o lugar sào quimeras.
Entào. o que será verdadeiro? Provável mente uma só coisa: que nada c certo.»

Rcne Descartes, McdJtuçtics sobre □ Fflkwofla Pztnirlru. Trad. Gustavo dr FTagji,


Coimbra. Almcdtna <19921. pp. 113UB

Ou seja, Descartes convida-nos a imaginar que existe um génio maligno, um ser tão
poderoso quanto perverso, que se diverte a usar os seus poderes para nos induzir em
erro relativa mente a tudo e mais alguma coisa. A mera hipótese da sua existência faz com
que mesmo as proposições aparentemente mais evidentes da geometria e da aritmética

176
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

— como por exemplo, <Um quadrado é uma figura geométrica com quatro lados iguais* -
sejam postas em causa, pois a certeza que temos acerca delas pode ser fruto das maqui­
nações deste poderoso génio maligno.

O argumento do génio maligno diz-nos, então, o seguinte:

dl So temos conhecimento se tivermos crenças verdadeiras justificadas.


■;2) Se não podemos saber se o génio maligno existe ou nào, então a maioria das
nossas crenças são falsas, ou, ainda que sejam verdadeiras, são-no apenas por
acaso (pois não temos nenhuma justificação para acreditar que não se trata de
mais uma das suas maquinações).
{3} Ora, uma vez que o génio maligno tem o poder de nos fazer acreditar naquilo
que ele quiser, não temos maneira de saber se ele existe ou não.
{4| Logo, não temos conhecimento.

Aparentemente, enquanto a hipótese do génio maligno não for afastada, não podemos
estar certos de nada.

O cogito (a príori}

Depois de levar a dúvida ao seu extremo. Descartes apercebe-se que, ainda que não
possa saber se está, ou não, a ser enganado por um génio maligno, existe algo que pode
saber com toda a certeza: ' Penso, logo existo*. Esta crença não pode ser seriamente pos­
ta em causa, pois para se poder duvidar do que quer que seja e preciso existir. Daqui em
diante, iremos usar a expressão latina cog/fo para nos referirmos a esta crença.

Descartes expõe a evidência do cogito nas palavras que se seguem:

«Mas, logo a seguir, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, era
de todo necessário que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta venda -
de: penso, logo existo, era tão firme c tão certa que todas as extravagantes suposições dos
céticos nào eram capazes de a abalar, julguei que a podia aceitar, sem escrúpulo, para
primeiro princípio da filosofia que procurava.»

Rcnd Descartes. Dtacirrso do Afetodo, Trad. taio Gama.


Lisboa, Etbçôes 7Ü 12012|, pp 30-31

Assim. Descartes encontrou uma forma de refutar o ceticismo por redução ao absurdo.
O seu argumento pode ser sintetizado conforme se segue:

<1) Se fosse verdade que nada se pode saber, então nem sequer poderiamos saber
que existimos.
<2) Mas sabemos que existimos (essa ideia não pode ser seriamente posta em causa).
(3} Logo, é falso que nada se pode saber.

Contudo, o cogito nào é suficiente para nos assegurarmos de que temos corpo, nem
da verdade das nossas experiências percetivas. porque enquanto a hipótese do génio ma­
ligno não for afastada, todas essas crenças podem resultar da sua enganadora atividade.

177
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

Deste modo. Descartes constata que é capaz de imaginar que não tem um corpo sem
que isso implique que não existe, mas nâo é capaz de duvidar que existe enquanto ser
pensante. Isto leva-o a concluir que é essencialmente uma substância pensante (ou res
cogitans). isto e, uma mente, ou alma imaterial, que existe independentemente do cor­
po e que é de natureza inteiramente distinta do mesmo. Esta perspetiva ficou conhecida
como vdualismo mente-corpo* (ou «dualismo cartesiano♦}• Assim, enquanto não provar­
mos que o génio maligno nâo existe, a única coisa que podemos saber e que existimos
enquanto pensamento.

A clareza e a distinção das ideias como critério de verdade


A descoberta do cogrfo é de uma importância inquestionável no racionalismo cartesia­
no, pois representa o triunfo sobre o ceticismo Uma vez que o que torna o cogito uma
crença tão evidente não é mais do que o seu elevado grau de clareza e distinção, Descar­
tes decide adotar estas características como critério de verdade

Critério de verdade cartesiano: So devemos considerar verdadeiro aquilo que


(ã semelhança do cogrfo) concebemos de forma absolutamente clara e distinta.

Tipos de ideias

Munido com o seu recem-alcançado critério de verdade, Descartes decide vasculhar a


sua mente em busca de ideias claras e distintas. É, nesse momento, que toma consciên­
cia de que existem essencialmente três tipos de ideias na sua mente: ideias adventícias
ideias factícias e ideias inatas

• As ideias adventícias são ideias que não dependem da sua vontade e parecem ser
causadas por objetos físicos exteriores ã mente (exemplos: ouvir um ruído; ver o sol;
sentir o calor das chamas;...).

• As ideias factícias são ideias inventadas pela sua vontade e imaginação, a partir de
outras ideias (exemplos: sereias; unicórnios; centauros;...).

• As ideias inatas são ideias que não parecem ser causadas por objetos físicos exterio­
res à sua mente nem dependem da sua vontade (isto é, não são criadas pela sua ima­
ginação}; dependem apenas da nossa capacidade de pensar, ou seja, correspondem
a conceitos matemáticos - como os conceitos de número; triângulo; círculo; etc. - e a
conceitos metafísicos - como os conceitos de substância; verdade; e Deus.

A ideia de Deus
De entre as várias ideias que Descartes encontra na sua mente, existe uma que se dis­
tingue de todas as outras a ideia de Deus, ol ser perfeito. Mas por que razão esta ideia é
tão especial? Bem. esta ideia é especial porque provar que Deus existe e não e enganador
talvez seja a única forma de podermos estar certos de muitas outras coisas para além da
nossa existência enquanto pensamento, pois um criador supremo e sumamente bom não
nos teria criado de modo a que nunca pudéssemos conhecer a verdade.

Para provar que Deus existe, Descartes recorre, entre outros, ao chamado «argumento
da marca*. Vejamos, em seguida, em que consiste esse argumento.

178
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

O argumento da marca
Para compreendermos melhor o argumento da marca e importante percebermos por
que razão a ideia de Deus é uma ideia inata e não uma ideia adventícia ou factícia. Em pri­
meiro lugar, importa destacar que a ideia de Deus não pode ser uma ideia adventícia, pois,
uma vez que se trata da ideia de um ser imaterial, esta não parece ser provocada por objetos
materiais exteriores à mente. Em segundo lugar, náo pode ser uma ideia factícia porque é
uma ideia demasiado perfeita para ser criada por um ser imperfeito. Descartes pensava que
qualquer causa tinha de ser pelo menos tão perfeita quanto os seus efeitos e, uma vez que
ele próprio reconhecia que duvidava e que não sabia, em suma, que não era um ser perfeito,
acreditava que não podia ser ele a causa de uma ideia tâo perfeita quanto a ideia de Deus.
Sendo assim, a única alternativa possível era esta ideia estar no seu espírito desde sempre,
isto e, ser uma ideia inata e ter sido lã colocada por um ser pelo menos tão perfeito quanto
ela, ou seja, por Deus, que teria implantado lá essa ideia no momento da criação, como uma
especie de assinatura, ou marca, do seu criador. Isto significa que, para Descartes, o simples
facto de termos a ideia de Deus é suficiente para podermos concluir que Deus existe. Des­
cartes apresenta-nos este argumento nas linhas que se seguem:

«Depois disto, tendo refletido que duvidava c que. por conse­


quência, o meti ser nào era intciramente perfeito, pois via ciaramente
que conhecer c uma maior perfeição do que duvidar, lembrei-me de
procurar de onde me teria vindo o pensamento de alguma coisa mais
perfeita do que eu; c conheci, com evidencia, que se devia a alguma
natureza que fosse, efetivamente, mais perfeita. [-.] De maneira que
restava apenas que ela tivesse sido posta em mim por uma natureza
que fosse verdadeira mente mais perfeita do que eu. e que ate tivesse
em si todas as perfeições de que cu podia ter alguma ideia, isto c. para
me explicar com uma sõ palavra, que fosse Deus.*

Rcnc Descartes. Dfitcizrso do Jlírtodo. Trad. faio Gama, Lisboa.


Ecbçfles 7Ü [20l3), pp 32-53

Em seguida apresentamos uma formulação explícita deste ar­


William Blake,
gumento:
-------------------------------- 0 Ancíõo dos
D.-os (1794)
(1) Tenho a ideia de *ser perfeito*.
{2) Visto que uma causa deve ter pelo menos tanta realidade quanto os seus efei­
tos, então, se eu tenho a ideia de <ser perfeito», é porque existe um ser perfeito
que é a origem desta ideia.
{3) Existe um ser perfeito que é a origem da minha ideia de perfeição. {De 1 e 2, por
moefus ponens)
(4) Ou eu sou o ser perfeito, ou há outra coisa (alem de mim) que é o ser perfeito e
que deu origem à minha ideia de perfeição.
(5) Eu duvido.
(6) Se eu duvido, então não sou perfeito.
(7) Não sou perfeito. (De 5 e 6, por modus ponens)
(8) Existe outra coisa (além de mim) que é o ser perfeito e que deu origem à minha
ideia de perfeição. (De 4 e 7, por silogismo disjuntivo)
*
179
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

A premissa 1 corresponde à mera constatação de Descartes de que tem a ideia de


Deus, ou <ser perfeito». A premissa 2 ê uma aplicação da lei da causalidade - segundo a
qual qualquer causa tem de ser pelo menos tão perfeita quanto os seus efeitos - ã própria
ideia de Deus, ou <ser perfeito». A linha 3 segue-se validamente de 1 e 2. Em 4, Descartes
constata que, uma vez demonstrado que tem de existir um ser perfeito, existem apenas
duas possibilidades: esse *ser perfeito» ser o próprio Descartes, ou existir algo além dele
que é esse ser perfeito. Ora, uma vez que a partir de 5 e 6 Descartes infere que ele próprio
não pode ser o ser perfeito (7). já pode concluir validamente que existe algo além dele
que é o «ser perfeito».

O papel da existência de Deus


A existência de Deus desempenha um papel crucial no fundacionismo cartesiano, por­
que e o facto de Deus existir e não ser enganador que garante a verdade das nossas ideias
claras e distintas atuais e passadas Descartes reconhece isso nas linhas que se seguem

«E por mais que os melhores espíritos estudem isto, tanto quanto lhes agradar, nào
creio que possam apresentar alguma razào que seja suficiente para eliminar essa du­
vida, se nào pressupuserem a existência de Deus. Pois, primeiramente, aquilo mesmo
que há pouco tomei como regra, isto ê. que sào inteiramente verdadeiras as coisas que
concebemos muito clara e distintamente, só c certo porque Deus c ou existe, e porque
é um ser perfeito e tudo o que existe dele nos vem. Donde se segue que as nossas ideias
ou noçòcs. sendo coisas reais e que provêm de Deus cm tudo aquilo cm que sào claras e
distintas, unicamente podem ser verdadeiras.»

Rjchc Descartes. Dfscizrro do Jlfctodo. Trad. taào Gama.


Lisboa, BdftçâesTO (2012|, p

Este argumento pode ser reconstruído conforme se segue:

(1) Posso confiar naquilo que concebo de forma clara e distinta se, e só se, Deus
existe e nào é enganador.
(2) Deus existe e não é enganador.
(3) Logo, posso confiar naquilo que concebo de forma clara e distinta. (De 1 e 2)
'ta__________________________________________________________________________________________________ j

A premissa 1 estabelece que a existência de Deus é uma condição simultaneamente


necessária e suficiente para que possamos confiar nas nossas ideias claras e distintas.
A motivação para esta premissa é o facto de ser bastante implausível imaginar que um
criador sumamente bom nos criaria de forma que nunca pudéssemos conhecer a verdade.

A premissa 2 é o resultado da argumentação a favor da existência de Deus apresen­


tada anteriormente.

Daqui segue-se que podemos confiar nas nossas ideias claras e distintas (linha 3).

Assim, uma vez que a existência de Deus é simultaneamente necessária e suficiente


para podermos confiar naquilo que concebemos clara e distintamente também se se­
gue destas premissas que, se Deus não existisse, nem sequer nisso poderíamos confiar.
E, na verdade, sem essa garantia seríamos incapazes de avançar um argumento, pois a
verdade de cada premissa deixaria de ser assegurada no momento em que deixássemos

180
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

de a conceber clara e distintamente para nos concentrarmos noutro passo do argumento.


Ou seja, Deus não sõ garante que podemos confiar nas nossas ideias claras e distintas
atuais e passadas, como também assegura que podemos confiar nos nossos raciocínios
apoiados em premissas com essas características.

A partir daqui. Descartes pode deduzir muitas verdades e construir com segurança
o edifício do conhecimento, apoiando-se naquilo que concebe com clareza e distinção.

Mesmo a existência das coisas materiais, anteriormente posta em causa, adquire um


novo grau de plausibilidade. Descartes pode argumentar a favor da existência dos objetos
materiais conforme se segue:

<1) Se nós temos sensações de alegados objetos materiais e os objetos materiais


nâo existem, então Deus ê enganador.
<2) Ora, temos sensações de alegados objetos materiais.
(3) Mas, Deus nâo ê enganador.
{4| Logo, os objetos materiais existem. (De 1, 2 e 3)
*■_________________________________________________________________________________ ■*

A premissa 1 estabelece que se Deus nos tivesse criado de modo a que estivéssemos
permanentemente a representar como existentes coisas que não passam de fantasias,
então Deus seria enganador.

A premissa 2 corresponde à mera constatação de que temos sensações de alegados


objetos materiais, quer estes existam quer não.

A premissa 3 afirma uma trivialidade, afinal de contas Deus é, por definição, um ser per­
feito e, como tal, não pode ser enganador. Assim, em vez de nos fazer representar como
existentes coisas que não passam de fantasias. Deus trataria de nos criar de modo a que
a nossa mente recebesse do corpo as sensações adequadas ã sua preservação. O que
significa que as sensações que temos de alegados objetos materiais são efetivamente
provocadas por esses objetos, que, por conseguinte, têm de existir (linha 4).

Mesmo o problema da indistinção vigilia-sono parece desvanecer-se, porque, uma vez


provada a existência de Deus e afastada a hipótese do gênio maligno, jã podemos confiar
nas nossas evidências atuais e passadas e. por conseguinte, nâo corremos o risco de co­
meter erros devido á indistinção vigília-sono. Isto porque:
1. quer estejamos a dormir quer estejamos acordados, se concebemos algo de modo claro
e distinto — como uma prova matemática, por exemplo - a sua verdade esta assegurada;

2. nos sonhos não é muito claro como é que os acontecimentos se articulam entre si;

3. nos sonhos acontecem coisas demasiado insólitas para serem reais.

Mas se Deus assegura a fiabilidade da nossa razão e das nossas experiências, então por
que razão erramos? Para Descartes, o erro é da nossa inteira responsabilidade Deus, uma
vez que e suma mente bom, criou-nos com livre-arbítrio, e isso acarreta a possibilidade de
fazer más escolhas, como optar por dar o nosso assentimento a coisas que não concebemos
clara e distintamente. Deste modo, quando os sentidos nos enganam ê porque nos precipi­
tamos a dar o nosso assentimento a coisas que não concebemos clara e distintamente, mas
apenas de modo confuso e indistinto. Devemos usar a razão - isto ê, recorrer sobretudo á
lógica, á geometria e ã matemática - para compreender a verdadeira natureza das coisas

181
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Objeções à resposta racionalista de Descartes

Objeção aos argumentos baseados em cenárrcs céticos

George Moore pensa que o tipo de dúvida cética a


que Descartes recorre é tão extremo que acaba por ter
implicações muitíssimo implausíveis e contraintuitivas. De
acordo com Moore, este tipo de argumentos diz-nos basi­
camente o seguinte:

■■---------------------------------------------------------------------------------------- ■■
(1| Não sei se estou num cenário cético {como a hi­
pótese do génio maligno).
(2) Se nâo sei se estou num cenário cético (como a
hipótese do génio maligno), então não sei que
George Edward Moore tenho duas mâos.
(1873-1958) (3) Logo, nâo sei que tenho duas mãos. {De 1 e 2,
por modus ponens)

Ora, Moore considera que a conclusão deste argumento é tão implausível que é mais
tentador usar a evidência de que temos duas mãos para rejeitar a possibilidade de nos
encontrarmos num cenário cético (como a hipótese do génio maligno}. Com base nesta
ideia, Moore sugere então que se construa um argumento como o seguinte:

(1) Sei que tenho duas mãos.


(2) Se não sei se estou num cenário cético (como a hipótese do génio maligno), en­
tão não sei que tenho duas mãos.
(3} Logo, sei que não estou num cenário cético (como a hipótese do génio maligno).
(De 1 e 2, por modus tof/ens)
V_________________________________________________________________________________J

Este argumento é válido e tem premissas bastante plausíveis, e, ao contrário do que


acontece com o argumento anterior, não conduz a uma conclusão absolutamente con-
traintuitiva - como a ideia de que nâo sabemos se temos duas mãos, e, por conseguinte,
este argumento revela-se mais plausível do que o anterior.

Objeção ao cogito

Alguns autores consideram que, contrariamente ao que Descartes pensava, o cog/fo


não é algo absolutamente certo e indubitável. Descartes nâo se encontrava em condições
de afirmar que havia um <Eu*, isto é. uma única pessoa, a quem aqueles pensamentos
pertenciam. Tanto quanto lhe era dado conhecer, os pensamentos podiam simplesmente
ser coisas que ocorrem no mundo, tal como as trovoadas.

Claro que esta ideia nos pode parecer despropositada, pois é como se afirmásse­
mos que podem existir amolgadelas sem haver uma superfície amolgada. Contudo, ela
está longe de ser uma evidência ã prova de génio maligno. Aliás, como é sugerido por

182
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

David Hume <de quem nos ocuparemos


em seguida}, na sua obra Trotado da No-
turezo Humona, podemos mesmo che­
gar ã conclusão de que é mais evidente
a existência de pensamentos do que a
existência de um Eu (de uma mente, ou
substância pensante) sobre o qual es­
ses pensamentos repousam. Hume con­
sidera que, ao analisar o conteúdo das
nossas mentes só temos acesso a uma
espécie de feixe de perceções Como
se estivéssemos a assistir a um filme em
que nos limitamos a ver um conjunto de
imagens sucederem-se umas âs outras.
Por mais que nos esforcemos por des­
cobrir o nosso Eu, acabaremos sempre
por tropeçar numa imagem ou represen­
tação, numa sensação, numa emoção,
num pensamento, numa experiência,
etc., mas nunca conseguiremos captar
o Eu.

Caravagg io, Norcíssus (15OT)

Objeções ao argumento da marca

O argumento da marca também é alvo de fortes e serias objeções. Contrariamente ao


que é assumido nesse argumento, há quem defenda que:

1. não podemos compreender a perfeição de Deus;

2. duvidar ê mais perfeito do que saber;

3. causas mais simples podem originar coisas mais complexas;

4. podemos formar a ideia de perfeito por oposição ã ideia de imperfeito, sem que isso
implique a existência de um ser perfeito.

Objeção do círculo cartesiano

A principal objeção ao fundacionalismo cartesiano ficou conhecida como «circulo car­


tesiano* e consiste em acusar Descartes de incorrer numa petição de princípio, pois pro­
cura estabelecer a existência de Deus raciocinando a partir de ideias claras e distintas,
mas admite que só podemos estar certos de que as nossas ideias claras e distintas atuais
e passadas sâo verdadeiras porque Deus existe.

183
O Conhecimento e a Racionalidade Cientifica e Filosófica

Hume: a resposta empirista

Tal como Descartes, David Hume recorre a uma abor­


dagem fundacionista para responder ao desafio cético. No
entanto, contrariamente ao que acontecia no racionalismo
cartesiano, que encarava a experiência sensível com enor­
me suspeita e defendia que o estatuto de crença básica
deveria ser atribuído ao cogrfo, ou seja, a uma crença cuja
verdade pode ser estabelecida apenas pelo pensamento,
o fundacionismo proposto por Hume atribui o estatuto de
crenças básicas justamente ãs crenças que provêm da
nossa experiência sensível imediata {como, por exemplo:
<Estou neste momento a ter uma experiência da cor azul*}.
Isto significa que Hume defendia uma versào empirista de
fundacionismo.
David Hume (1711-17761

Impressões e ideias (a posteriori}

Para Hume, o conteúdo das nossas mentes - as perceções — deriva da experiência e


pode ser dividido em duas categorias: as impressões e as ideias.

As impressões são os dados da nossa experiência imediata,


como ter uma experiência da cor azul, ter uma dor de dentes, sentir calor, etc.

As ideias são copias enfraquecidas das impressões,


como recordar que se teve uma experiência da cor azul,
uma dor de dentes, ou que se sentiu calor, etc.

Por sua vez, as nossas ideias dividem-se em ideias simples e ideias complexas

As ideias simples correspondem a impressões simples (que não podem


ser decompostas noutras impressões), como, por exemplo, a ideia de azul.

As ideias complexas correspondem ã combinação


de duas ou mais ideias simples, como, por exemplo, uma bola azul.

As ideias complexas sâo, então, combinações de ideias, que podem ter a sua
origem na memória e, nesse caso, têm a mesma configuração que tinham na expe­
riência, ou na imaginação, e aí as ideias são compostas de uma forma relativamente
livre, podendo aparecer juntas duas ideias que na experiência estavam separadas,
como acontece com a ideia de sereia, por exemplo.

Assim, para Hume todas as ideias são, direta ou indiretamente, cópias de im­
pressões Este principio ficou conhecido como * principio da cópia < Hume recorre
ao argumento do cego de nascença para justificar a sua confiança neste princípio.

18-1
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

Segundo este argumento:

<1} Se as ideias não sâo cópias de impressões, então é possível que um cego de
nascença tenha a ideia da cor azul, apesar de não ter qualquer impressão que
lhe corresponda.
(2) Um cego de nascença não pode ter a ideia da cor azul.
(3) Logo, as ideias são cópias de impressões. (De 1 e 2, por modus toflens)

Hume acreditava que não existia um único contraexemplo relevante capaz de refutar
este princípio, isto é, uma ideia à qual não correspondesse qualquer impressão. Na sua
opinião, qualquer que seja o contraexemplo que possamos ter em mente, acabamos sem­
pre por conseguir mostrar que, afinal, existe uma impressão por detrás dessa ideia e, por
conseguinte, em vez de conseguirmos refutar o princípio da copia, acabamos por torná-lo
ainda mais plausível.

Questões de facto e relações de ideias

Hume reduz todo o conhecimento humano a dois tipos relações de ideias e questões
de facto Vejamos o que Hume tem a dizer acerca desta distinção.

«Todos os objetos da razão ou investigação humanas podem ser natural mente di


vididos cm dois tipos, a saber, as relações de ideias c as questões de facto. Da primeira
espécie são as ciências da geometria. da álgebra c da aritmética e, em resumo, toda c
qualquer afirmação que seja intuitiva ou demonstrativamente certa. 1...]
As questões de facto, que sào os segundos objetos da razão humana, nào sào determi
nadas da mesma maneira, e tampouco a evidência que temos da sua verdade, por maior
que seja, é da mesma natureza que a dos anteriores. O contrario de toda e qualquer
questão de facto permanece sendo possível, porque nào pode jamais implicar contradi­
ção e a mente concebe o com a mesma facilidade e nitidez, como se fosse prrfcitamente
conforme à realidade.»

Luvki Hume* inuesqgaçflo sobre o Ehrcvidlmrnto Jftisixino.


Trad. JdUo Paulo Monteiro, Lisboa. INCM (2002) pp 41 -42

Ou seja, de acordo com Hume. as relações de ideias correspondem ao tipo de conhe­


cimento que pode ser obtido apenas mediante a análise do significado dos conceitos en­
volvidos numa proposição. Por exemplo, para saber que a proposição <Nenhum solteiro é
casado» é verdadeira, basta saber o significado dos conceitos de <casado» e de <solteiro».
Trata-se de uma verdade necessária pois a sua negação - «Algum solteiro e casado» -
implica uma contradição nos termos. Este tipo de conhecimento é característico de áreas
como a matemática, a geometria e a lógica, e é um bom exemplo daquilo que anteriormen­
te designámos por «conhecimento a priorí*.

185
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

Por seu turno, as questões de facto correspondem ao tipo de conhecimento que só


pode ser obtido diretamente através das impressões (ou seja, através da experiência)
e que nos fornece informação verdadeira acerca do mundo. Por exemplo, «A neve é
branca* é uma questão de facto, pois para se saber que a neve é branca é preciso ter
experiência da neve e da sua cor Não existe nada nos conceitos de «neve» e de «bran­
cura* que torne a proposição «A neve não é branca* uma contradição nos termos. Este
tipo de conhecimento é característico das ciências da natureza (como a física, por exem­
plo} e é um bom exemplo daquilo que anteriormente designámos por «conhecimento a
posteriori'.

Segundo Hume, apenas o conhecimento sobre questões de facto nos pode fornecer
informações acerca do mundo, pois as relações de ideias, embora expressem verdades
necessárias, referem-se apenas às relações entre o significado das ideias envolvidas, mas
nada dizem acerca do que existe (é verdade que «Nenhum solteiro é casado», mas isso
não nos diz se existem solteiros, ou não). AJem disso, Hume reconhece que todo o co­
nhecimento sobre questões de facto tem de se basear na experiência, caso contrário
corre o risco de não ser mais do que um conjunto de suposições hipotéticas sem qualquer
fundamento. Nas suas palavras:

«Sc nào partíssemos de algum facto presente à memória ou aos sentidos, os nossos
raciocínios seriam puramente hipotéticos c. por mais que os elos individuais pudessem
estar ligados uns aos outros, a cadeia de inferências, como um todo, nada teria que a pu­
desse sustentar, e jamais poderiamos, por meio dela, chegar ao conhecimento de qual­
quer existência real. Se sos perguntar por que acreditais cm algum facto particular que
me contais, tereis de me apresentar alguma razào. c essa razão será algum outro facto
ligado ao primeiro. Mas como nào se pode proceder dessa maneira ín infiniíum, tereis
por fim de chegar a algum facto que está presente na vossa memória ou nos vossos sen­
tidos, ou entào admitir que a vossa crença ê inteiramente destituída de fundamento.»

DjvKÍ Hume. riiLvsl l^uçü'.; sobre o fnte/idinie/ito Humano.


Trod. JdQo Paulo Monteiro. Lisboa. INCM (2002). p. tti

Deste modo, Hume rejeita a conclusão do argumento cético da regressão infinita,


pois, embora reconheça que as nossas cadeias de justificações podem, de facto, regre­
dir infinitamente, deixando as nossas crenças injustificadas, também acredita que estas
podem acabar por desembocar em algo autoevidente, presente ã nossa memória ou aos
nossos sentidos, que, em última análise, serve de fundamento ou de justificação para al­
gumas das nossas crenças.

Repare-se como a este respeito a perspetiva de Hume contrasta com a de Descartes


Para Hume. todo o conhecimento acerca do mundo tem necessariamente um fundamento
o posteriori. Ao passo que Descartes acreditava na possibilidade de haver conhecimento
o priori acerca do mundo, nomeadamente Descartes pensava que, ainda que a experiên­
cia sensível seja inteiramente ilusória, podíamos saber apenas com base no nosso pensa­
mento coisas como: *Eu existo», *Deus existe». «Deus não é enganador*.

13G
8. Anális* comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

Princípios de associação de ideias: a semelhança, a contiguidade


e a causalidade
Hume pretendia mais do que simplesmente classificar os nossos tipos de conhecimen­
to e determinar a origem das nossas ideias. Ele pretendia ser o Newton da psicologia, ou
seja, tal como Newton descobriu as leis de atração entre os corpos no mundo físico, Hume
pretendia descobrir os princípios de atração lou associaçãoi de ideias na mente humana.
Na sua opinião existem três princípios de associação de ideias:

• a semelhança

• a contiguidade; e

• a causalidade

A semelhança consiste na associação de duas ideias que são de algum modo pareci­
das. A consideração de uma delas faz-nos pensar na outra. Por exemplo, ê natural que a
contemplação de um retrato nos faça pensar na pessoa retratada.

A contiguidade consiste na associação de duas ideias que correspondem a coisas ou


acontecimentos que são contíguos no espaço ou no tempo. A consideração de uma des­
sas ideias evoca a outra. Por exemplo, se sei que a sala de estar se situa no alinhamento
da entrada de minha casa, é natural que me venha ã mente a representação de um desses
espaços de cada vez que penso no outro. O mesmo acontece quando dois acontecimen­
tos são contíguos no tempo, se é costume jantar depois do pór-do-sol, é natural que pense
em comida de cada vez que o sol se põe.

A causalidade (ou relação causa-efeitol consiste na as­


sociação de duas ideias que ocorre quando representamos
duas coisas ou acontecimentos que nos parecem estar liga­
dos por uma conexão necessária, ou relação causa-efeito
Geralmente, diz-se que dois acontecimentos estão ligados
por uma relação de causa-efeito quando a ocorrência de
um deles — ao qual damos o nome de *causa* — ê suficien­
te para a ocorrência do outro — ao qual damos o nome de
<efeito». Assim, é natural que a consideração da causa nos
faça pensar no(s) seu(s} respetivo(s) efeito<s). Por exemplo,
se pensamos numa ferida ê comum pensarmos na dor que
naturalmente lhe estã associada.

Conjunção constante, conexão necessária e hábito


Como acabámos de ver, a ideia de causalidade ou conexão necessária consiste no
seguinte:

Conexão necessária - Existe uma conexão necessária entre dois acontecimentos


quando a ocorrência de um deles torna necessária a ocorrência do outro.

Esta ideia coloca um enorme desafio ao empirismo de Hume, pois, visto que a negação
de uma qualquer relação causal não resulta em qualquer contradição, esta ideia não cor­
responde a uma relação de ideias

187
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Por exemplo, é sabido que o calor causa a dilatação dos metais, mas não é uma con­
tradição nos termos afirmar algo como: «Os metais não dilatam por ação do calor*. Assim
sendo, a única alternativa possível é ser uma questão de facto. Contudo, uma vez que
não parece haver nenhuma impressão sensível que corresponda a uma presumível liga­
ção causal ou conexão necessária entre dois acontecimentos - tudo o que vemos ê um
deles ocorrer sempre a seguir ao outro —. não se pode dizer que esta ideia provem da
experiência. Ou pode?

Em suma, o problema da causalidade pode ser formulado conforme se segue: *Qual a


origem da nossa ideia de causalidade Jou conexão necessária)?*, ou mais precisamente:
♦Como pode a ideia de causalidade ter uma origem empírica, se aparentemente não exis­
te nenhuma impressão sensível que lhe corresponda?

Para dar resposta a este problema, Hume recorre ã experiência men­


tal dc Adão inexperiente.

Esta experiência mental consiste em imaginar alguém que embora


seja «dotado da mais forte capacidade e razão natural* ainda não tenha
tido qualquer experiência das regularidades do mundo. Como conse­
quência dessa falta de experiência, por mais dotada que essa pessoa
fosse de um ponto de vista racional, seria incapaz de inferir qualquer
efeito apenas pela simples ocorrência da sua causa. Se imaginarmos
que essa pessoa adquire mais experiência do mundo e das suas re­
gularidades. percebemos que isso bastaria para que se tornasse capaz
de fazer tal inferência; a experiência encarregar-se-ia de mostrar que os
referidos acontecimentos aparecem constantemente conjugados, isto
ê, ocorrem sempre um a seguir ao outro.

Assim, a solução de Hume para o problema da causalidade consiste


em assumir que a ideia de relação causal ou conexão necessária entre
dois acontecimentos, mais não ê do que a expectativa de que um deles
— o efeito — irá ocorrer sempre que o outro - a causa — ocorra. Esta ex­
pectativa resulta do hábito, ou costume, isto é, da experiência que temos
de uma conjunção constante desses dois acontecimentos.

Mas o que é ao certo uma conjunção constante?

Conjunção constante - Temos experiência de uma conjunção


constante entre dois acontecimentos quando a experiência de um
deles surge sempre associada ã experiência do outro

Deste modo, Hume acaba por mostrar que a ideia de causalidade não
se funda na razão, mas sim na experiência, mais precisa mente numa im­
pressão interna que consiste na expectativa de que certos acontecimen­
tos se vão seguir a outros devido ã experiência da conjunção constante
entre ambos.

Albrecht Dürer, Ãdõo e t/c (1507), pormenor

1BS
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

O problema da indução

A solução de Hume para o problema da causalidade mostra-nos que a nossa expec­


tativa de que causas semelhantes terão efeitos semelhantes se baseia unicamente no há­
bito - ou seja, na nossa experiência de certas regularidades ou repetições - pelo que não
temos legitimidade para postular a existência de uma força ou poder secreto da natureza
que estabelece uma relação causal (ou conexão necessária) entre diferentes objetos ou
acontecimentos.

No entanto, se prestarmos a devida atenção a essa constatação, verificamos que ela


não está isenta de dificuldades. Afinal, que razões temos para acreditar que só porque atê
hoje dois acontecimentos apareceram constantemente conjugados o mesmo irá aconte­
cer daqui em diante?

Conforme vimos anteriormente (pagina 58), chama-se *indutiva» a uma inferência que
se baseia num determinado número de casos observados para chegar a uma conclusão
que inclui casos dos quais ainda não tivemos experiência. Mas será racional, a partir da
repetição de um determinado número de casos observados, inferir uma conclusão acerca
de casos ainda não observados? Ou, dito de outra forma, será que podemos justifteada-
mente confiar nas nossas inferências indutivas? Este problema ficou conhecido como
problema da indução^

Hume considera que não temos forma de justificar racionalmente a nossa confiança
na indução, pois, por maior que seja o número de casos em que experimentamos uma de­
terminada regularidade, jamais estaremos racionalmente justificados a acreditar que essa
regularidade se irá manter no futuro. A argumentação de Hume pode ser reconstituída
conforme se segue:

-■-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- «I

(1) A crença de que *a indução ê fiável* corresponde a uma relação de ideias, ou a


uma questão de facto.
(2) A crença de que <a indução ê fiável* não corresponde a uma relação de ideias.
(3) A crença de que <a indução é fiável* corresponde a uma questão de facto.
(De 1 e 2r por silogismo disjuntivo)
(4) Se a crença de que <a indução ê fiável* corresponde a uma questão de facto,
então só estamos racionalmente justificados a acreditar nela se podermos esta­
belecer a sua verdade com base na experiência.
•;5) Só estamos racionalmente justificados a acreditar em que *a indução é fiável* se
podermos estabelecer a verdade dessa crença com base na experiência. {De 3 e
4. por modus ponens)
(6) Não podemos estabelecer a verdade da crença <a indução ê fiável* com base na
experiência, pois isso implicaria recorrer ã própria indução para justificar a nossa
confiança na indução - o que seria uma petição de princípio.
(7) Logo, não estamos racionalmente justificados a acreditar que «a indução ê fiável*.
(De 5 e 6, por modus tollens)

A premissa 1 decorre da aplicação da bifurcação de Hume - isto ê, da sua divisão de


todos os objetos do conhecimento em duas categorias distintas: as relações de ideias e as
questões de facto - ao caso concreto de crença <a indução é fiável*.

189
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

A premissa 2 estabelece que esta crença não corresponde a uma relação de ideias,
pois não se trata de uma verdade necessária, cuja negação implicaria uma contradição.
Por exemplo, não é contraditório supor que o Sol não vai nascer amanhã, embora tenha
nascido todos os dias até hoje.

Destas duas ideias segue-se, por silogismo disjuntivo, que a crença de que «a indução
é fiável» e uma questão de facto |linha 3).

Na premissa 4 reforça-se a ideia de que as questões de facto só podem constituir-se


como conhecimento no caso de terem algum suporte empírico.

Daqui segue-se que só estamos racional mente justificados a aceitar que *a indução é
fiável* se tivermos forma de estabelecer a sua verdade com recurso à experiência {linha 5).

A premissa 6 afirma que recorrer á experiência para justificar a nossa confiança na


indução implicaria cometer uma petição de princípio, pois estaríamos a concluir que <a
indução é fiável* com base na experiência de alguns casos bem-sucedidos de indução, ou
seja, estariamos a recorrer ã própria indução para justificar a nossa confiança na indução.

Ora, daqui segue-se validamente que não estamos racional mente justificados a acredi­
tar que <a indução e fiável* {conclusão (7)}.

O problema do mundo exterior


A nossa confiança na indução não é a única crença comum cujo fundamento ê posto
em causa por Hume. Sem refletir muito sobre o assunto, todos nós estamos dispostos a
assumir a existência de um mundo exterior ás nossas mentes, que não depende da nossa
perceção e que é a verdadeira causa das nossas impressões. Mas segundo Hume, «nada
pode estar presente à mente a não ser uma imagem ou perceção, e [...] os sentidos são
apenas as entradas por onde as imagens são transportadas, sem conseguirem suscitar
uma comunicaçáo imediata entre a mente e o objeto*, portanto, é um erro confundir os
objetos exteriores e o mundo exterior à nossa mente com as nossas perceções dos mes­
mos. Para sustentar esta ideia, Hume avança o seguinte argumento:

«A mesa que vemos parece diminuir □ medida que dela mais nos afastamos, mas a mesa real, que existe in
dependentriTLcnte de nós. não sofre qualquer alteração; nâo era, pois, nada a nào ser a sua imagem o que estava
presente ao espirito. Estes são os óbvios ditames da razão: e ninguém capaz de refletir jamais duvidou de que as
existências que consideramos quando dizemos esta casa e aquela árvore nào passam de perceções na mente,
cópias ou representações transitórias de outras existências que permanecem uniformes e independentes.»

Dovtd Hume. I/iLvrtfflciçacj robwo Eirtcndlmenru FJumui». rud. J&la PjuIo Monteiro, l.isbcu INCM (JCKJ/I. p. 164

Este argumento pode ser reconstruído conforme se segue:


r

(1) Se a mesa que está presente na nossa mente fosse a mesa real <e não apenas uma imagem ou
representação mental da mesma), então o seu tamanho não se alterava em função da nossa
perspetiva.
(2) Mas a mesa que está presente na nossa mente parece diminuir ã medida que dela mais nos afasta­
mos, ou seja, o seu tamanho altera-se em função da nossa perspetiva.
(3) Logo, aquilo que está presente na nossa mente não é a mesa real, mas sim uma imagem ou
representação mental da mesma.
%___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
8. Análise comparativa de duas teorias explicativa* do conhecimento

Hume considera que, uma vez que se trata de uma questão que diz respeito à existên­
cia, uma investigação desta natureza deve ser resolvida com recurso à experiência. Mas a
nossa experiência não pode alguma vez estender-se para além das nossas impressões e
estas, conforme acabámos de constatar, não devem ser confundidas com os objetos exte­
riores em si mesmos considerados. Assim, uma vez que nunca poderemos sair do interior
das nossas mentes, isto ê, só temos acesso ás nossas perceções, nunca seremos capa­
zes de verificar se, de facto, existem objetos exteriores que são a causa das mesmas

O ceticismo moderado de Hume

Embora sustente que a crença na indução e no mundo exterior não são racionalmente
justificáveis, Hume não considera que estas devem ser abandonadas, pois não podemos
viver sem as assumir como verdadeiras. Não podemos deixar de nos apoiar em certas
regularidades para prever acontecimentos futuros (dos quais ainda não tivemos expe­
riência). Nem poderemos deixar de assumir que existe um mundo real para lá das nossas
mentes. Assim. Hume acaba por defender apenas a adoção de um ceticismo moderado
como forma de nos protegermos contra o dogmatismo, as decisões precipitadas e as in­
vestigações demasiado especulativas, distantes da experiência e sem suporte empírico.

Objeçõas à resposta empirista de Hume

O contraexempto do tom de azul desconhecido

O próprio David Hume prevê a possibilidade de se encontrar um contraexemplo


ao princípio da cópia Vejamos em que consiste esse contraexemplo.

«Suponhamos [_] que uma pessoa foi dotada dc visão durante trinta anos c se familiarizou perfeitamente
com cores de todos os tipos, com exceção, digamos, de um determinado matiz de azul, com o qual nunca
calhou se deparar. Suponhamos que todos os diferentes matizes dessa cor, com exceção daquele único, sejam
colocados perante essa pessoa, descendo gradualmente do mais escuro para o mais claro. É óbvio que ela
percebera um vazio no lugar onde falta aquele matiz, c perceberá que nesse lugar há uma distancia entre as
cores contíguas maior do que em qualquer outro. Assim, a minha pergunta e se lhe seria possível, a partir
da sua própria imaginação, suprir essa deficiência c trazer a sua mente a ideia daquele matiz em particular,
apesar de este nunca lhe ter sido transmitido pelos sentidos. Acredito que poucos serão de opinião de que
tal não lhe seja possível, o que pode servir como prova de que as ideias simples nem sempre são, em todos os
casos, derivadas das impressões correspondentes, embora este exemplo seja tão singular que quase não vale
a pena assinalá-lo, e tampouco merece que. apenas por sua causa, devamos modificar a nossa tese geral.»

David Hume. fnLtrtfgaçího sobre o Entendimento Humnna,


Trjd. JoJo Paulo Monteiro. Lisboa, 1NCM Í2ÍW2) pp 36-17

Este contraexemplo consiste em imaginar uma situação em que alguém é colocado pe­
rante uma vasta gama de tons de azul, tendo um dos tons de azul sido propositadamente
escondido. Alguém que nunca tenha tido experiência desse particular tom de azul, pode,
ainda assim, formar uma ideia a seu respeito, mesmo na ausência de uma impressão que
lhe corresponda. Ora, isso não seria possível se, de facto, todas as nossas ideias fossem
cópias de impressões. Embora Hume desvalorize este contraexemplo, a verdade é que
ele pode minar a nossa confiança no princípio da cópia.

1çr
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Objeção à conceção humeana de causolidade

Thomas Reid um filosofo escocês contemporâneo de Hurne, rejeita a análise humea-


na do conceito de causalidade em termos de conjunção constante. Na sua opinião, haver
uma conjunção constante entre dois acontecimentos não é nem uma condição suficiente,
nem uma condição necessária para que exista uma relação de causalidade entre ambos.

Não é suficiente, porque existem acontecimentos que se sucedem constantemente


sem que sejam a causa um do outro, como o dia e a noite, por exemplo.

Não é necessária, porque existem acontecimentos que se encontram numa relação


1k
causal, embora não surjam constantemente associados. Como acontece nos casos em
que há uma ocorrência única desse tipo de relação (ou quando se trata da primeira ocor­
Thomas Reid
(1710-1796) rência da mesma). Por exemplo, no que diz respeito ã origem do universo, não podemos
dizer que há uma conjunção constante entre a sua causa e o seu efeito, o que significa
que a teoria humeana da causalidade tem a estranha implicação de que o universo não
teve uma causa.

Reid expôe-nos esta critica nos termos que se seguem:

□ senhor Hume tem defendido que só temos esta noção de causa: algo que e anterior
ao efeito c que. de acordo com a experiência, foi seguido constaiitemcnte pelo efeito.
(...) Seguir-se-ia desta definição de causa que a noite é a causa do dia eo dia a causa da
noite. Pois, desde o começo do mundo, não houve coisas que se tenham sucedido mais
constantementc. [...] Seguir-se-ia [também] desta definição que tudo o que seja singular
na sua natureza, ou que seja a primeira coisa do seu género, não pode ter uma causa.»

T. Reid. Exsuywon tbc AciIlv ftouvrs af Jlftin, Edinburgh Unlvenslty Prcss (20HJ). pp 249-230

Objeção baseada no argumentação a favor da melhor explicação

Bertrand Russell rejeita as conclusões céticas de Hume pois considera que a sua ideia
de «fundamento racional» |ou «racionalmente justificável») ê demasiado restrita

Hume parece admitir que nenhuma crença está racionalmente justificada, a menos que
exista uma prova definitiva da sua verdade. Para Russell, pode ser racional acreditar numa
crença, mesmo na ausência deste tipo de prova, pois pode simplesmente acontecer que
de entre as alternativas disponíveis para explicar a nossa experiência exista uma hipótese
mais plausível do que todas as outras, pelo que ê mais racional acreditar na sua verdade,
do que em qualquer uma das alternativas. Chama-se a esta forma de argumentação < ab-
duçáo- ou, mais especifica mente, argumentação a favor da melhor explicação
Bertrand Russell
(1872-1970) Russell acredita que a existência de um mundo exterior às nossas mentes, regido pelo
princípio da causalidade, é uma explicação da nossa experiência muito mais simples e
apelativa do qualquer cenário cético que possamos imaginar e por isso considera que
estamos racíonalmente justificados a acreditar nisso. O mesmo se aplica á ideia de causa­
lidade: e mais razoável aceitarmos que o mundo é, de facto, regido por relações causais,
do que assumir que a existência de conjunções constantes ê apenas acidental.
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

ESQUEMATIZANDO

O OUE E 0 CONHECIMENTO?

S sabe que P se, e sõ se, 1. S acredita em P


2. Pe verdadeira; e
3. S tem uma justificação para acreditar em P.

SERA O CONHECIMENTO POSSÍVEL’

Sim

CETICISMO FUNDAClONlSMO

Argumento cético
Distinção entre
da regressão infinita

Crenças Crenças
basicas não basicas

t j
Provêm da razão Provêm da experiência
(são o priorh (são a posteriori}

RAClONALlSMO EMPIRISMO
de Rene Descartes de David Hume

Objeções Objeções
• Objeção aos argu­ * Contraexemplo do tom
mentos baseados em de azul desconhecido
cenários céticos * Objeção a conceção
• Objeção ao cogrto humeana de causali­
• Objeções ao argumen­ dade
to da marca * Objeção baseada na
• Objeção do circulo argumentação a favor
cartesiano da melhor explicação

I 193
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

RESUMO

’ A epistemologia e a área da filosofia que se dedica ao estudo de problemas


funda mentais relacionados com a natureza do conhecimento.

• De um modo muito geral, o conhecimento pode ser entendido como uma


relação entre um sujeito - aquele que conhece — e um objeto - aquilo que
e conhecido.

, No que diz respeito ao seu objeto, e comum distinguirem-se três tipos de


conhecimento: o conhecimento por contacto, o conhecimento prático e o
conhecimento preposicional.

- Temos conhecimento por contacto quando o nosso objeto de conhecimen­


to e uma determinada parte da realidade com a qual estamos em contacto
direto através dos nossos sentidos.

-Temos conhecimento prático quando o nosso objeto de conhecimento e


uma dada atividade que sabemos executar corretamente.

-Temos conhecimento preposicional quando o nosso objeto de conheci­


mento consiste numa proposição verdadeira acerca da realidade.

• O problema da definição de conhecimento preposicional pode ser explicita­


mente formulado conforme se segue: considerando que P e uma determina­
da proposição e S um dado sujeito, em que condições S sabe que P?

• Uma das mais antigas tentativas de responder a esta pergunta é a chamada


«definição tripartida de conhecimento*.

De acordo com a definição tripa rtida de con hecimento, S sabe que P se, e so se,

1. S acredita em P:

2. P e verdadeira; e

3. S tem uma justificação para acreditar em P.

Alguns autores consideram que esta definição e demasiado abrangente,


pois há situações em que apesar de termos uma crença verdadeira justifica­
da não temos conhecimento.

• Outro problema epistemologico importante e o problema da possibilidade do


conhecimento: «Serã o conhecimento possível?»

- O ceticismo e a perspetiva segundo a qual devemos suspender o juizo rela­


tivamente a verdade ou falsidade de qualquer proposição, pois em geral a
nossa pretensão de que sabemos seja o que for e infundada.

-O argumento central a favor do ceticismo ficou conhecido como *argu-


mento cético da regressão infinita*.

194
8. Análise comparativa de duas teorias explicativa* do conhecimento

• O fundacionismo ê uma das mais célebres respostas ao desafio levantado


pelo ceticismo.

- A estratégia central do fundacionismo passa por introduzir uma distinção


entre dois tipos de crenças: as crenças básicas e as crenças não básicas.

-As crenças basicas são autoevidentes, isto é. não podem ser seriamente
postas em causa, pois são de tal modo evidentes que não precisam de ser
justificadas por outras crenças, justrficam-se a si mesmas.

- As crenças não basicas justificam-se com base noutras crenças.

- Algunsfundacionistas são chamados *racionalistas*. pois defendem que este


tipo de crenças provem da razão Outros são chamados «empiristas*, pois
consideram que as crenças basicas acerca do mundo provêm da experiência.

• Chamou-se «conhecimento a priori» ao conhecimento que pode ser adquirido


apenas pelo pensamento, independentemente da experiência. Chamou-se «co­
nhecimento a posteriori* ao conhecimento que não pode ser adquirido apenas
peio pensamento, pois so pode ser obtido através da experiência sensível.

• Rene Descartes e um dos mais famosos racionalistas de todos os tempos. O


objetivo de Descartes era estabelecer um conhecimento seguro e indubitá­
vel. Para esse efeito, Descartes adota como método a dúvida metódica.

- Descartes apresentou varias razões para duvidar as ilusões dos sentidos; a


indistinção vigilia-sono; os erros de raciocínio; e a hipótese do génio maligno.

- Depois de levar a duvida ao seu extremo, Descartes apercebe-se que exis­


te algo que pode saber com toda a certeza: «Penso, logo existo* (o cogito).

- A descoberta do cogito e de uma importância inquestionável no racionalis-


mo cartesiano pois representa o triunfo sobre o ceticismo.

- Descartes adota como critério de verdade a clareza e a distinção.

• No interior da sua mente. Descartes encontra três tipos de ideias: as ideias


adventícias; as ideias factícias; e as ideias inatas.

• De entre as várias ideias que Descartes encontra na sua mente existe uma
que se distingue de todas as outras: a ideia de Deus, ou ser perfeito.

- Para provar que Deus existe. Descartes recorre, entre outros, ao chamado
* argumento da marca*.

- Uma vez que Deus não e enganador, provara sua existência não so garan­
te que podemos confiar nas nossas ideias claras e distintas atuais e passa­
das. como também assegura que podemos confiar nos nossos raciocínios
apoiados em premissas com essas características.

’ A partir daí. Descartes pode deduzir muitas verdades e construir com segu­
rança o edifício do conhecimento, apoiando-se naquilo que concebe com
clareza e distinção.

195
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

• O racional ismo cartesiano enfrenta as seguintes objeções:

- Objeção aos argumentos baseados em cenários céticos.

- Objeção ao cogito.

- Objeções ao argumento da marca.

- Objeção do círculo cartesiano.

• Hume e um empirista. pois atribui o estatuto de crenças básicas as crenças


que provêm da nossa experiência sensível imediata (como, por exemplo: «Es­
tou neste momento a ter uma experiência da cor azul*).

• Para Hume, o conteúdo das nossas mentes - as perceções - podem ser de


dois tipos: impressões e ideias.

- As impressões são os dados da nossa experiência imediata, como ter uma


experiência da cor azul, ter uma dor de dentes, sentir calor, etc.

- As ideias são copias enfraquecidas das impressões, como recordar que se


teve uma experiência da cor azul, uma dor de dentes, ou que se sentiu calor,
etc.

• As nossas ideias dividem-se em: ideias simples e ideias complexas.

-As ideias simples correspondem a impressões simples (que não podem


ser decompostas noutras impressões), como, por exemplo, a ideia de azul.

- As ideias complexas correspondem a combinação de duas ou mais ideias


simples, como, por exemplo uma bola azul.

• As ideias complexas podem ter a sua origem na memória ou na imaginação.

- Quando as ideias complexas têm origem na memória, têm a mesma confi­


guração que tinham na experiência.

- Quando as ideias complexas têm origem na imaginação, podem aparecer


juntas duas ideias que na experiência estavam separadas, como acontece
com a ideia de sereia, por exemplo.

• Hume subscreve o princípio de copia, de acordo com o qual todas as ideias


são, direta ou indireta mente, cópias de impressões. Para justificar a sua con­
fiança neste princípio, Hume recorre ao argumento do cego de nascença.

• Hume reduz todo o conhecimento humano a dois tipos: relações de ideias e


questões de facto.

-As relações de ideias correspondem ao tipo de conhecimento que pode


ser obtido apenas mediante a análise do significado dos conceitos envol­
vidos numa proposição.

- As questões de facto correspondem ao tipo de conhecimento que sõ pode


ser obtido diretamente através das impressões (ou seja, através da expe­
riência) e que nos fornece informação verdadeira acerca do mundo.
8. Análise comparativa de duas teorias explicativas do conhecimento

’ A perspetiva de Hume contrasta com a de Descartes, pois para Hume todo


o conhecimento acerca do mundo tem necessariamente um fundamento
a posteriori; ao passo que Descartes acreditava na possibilidade de haver ô Conceitos
conhecimento o priori acerca do mundo.
• epistemologio
• Hume considera que existem três princípios de associação de ideias: a seme­
• conhecimento
lhança. a contiguidade e a causalidade
• conhecimento por contacto
• Existe uma relação causal, ou conexão necessária, entre dois acontecimen­
• conhecimento prático
tos quando a ocorrência de um deles torna necessária a ocorrência do outro.
• conhecimento proposicional
• A ideia de relação causal ou conexão necessária coloca um enorme desafio
• crença
ao empirismo de Hume, pois não corresponde a uma relação de ideias, nem
parece ter uma impressão sensrvel que lhe corresponda. • verdade

-Hume recorre á experiência mental do Adáo inexperiente para mostrar • justificoçâo


que a ideia de causalidade não se funda na razão, mais sim na experiência, • ceticismo
mais precisa mente numa impressão interna que consiste na expectativa
de que certos acontecimentos se vão seguira outros devido a experiência • fundacionismo
da conjunção constante entre ambos. • crenças básicas/crenças não
-Temos experiência de uma conjunção constante entre dois acontecimen­ básicas
tos quando a experiência de um deles surge sempre associada ã expe­ • rooonolismo
riência do outro.
• empirismo
• Hume acaba por ser conduzido a um ceticismo mitigado |ou moderado), pois • conhecimento o phori/
conclui que não temos forma de justificar racionalmente as seguintes cren­ conhecimento o posteriori
ças: «a indução e fiável»: e <existe um mundo exterior às nossas mentes*.
• dúvida metódica
Apesar disso, Hume considera que não podemos viver sem assumir que es­
sas crenças são verdadeiras. • cogito

• ideias adventícias
• O empirismo de Hume enfrenta as seguintes objeções:
• ideias factícias
- O contraexemplo do tom de azul desconhecido.
• ideias inotas
- Objeção a conceção humeana de causalidade.
• perceções
- Objeção baseada na argumentação a favor da melhor explicação.
• impressões
• ideias
• ideias simples/ideias
complexos
■ princípw da cópia
• relações de ideias
• questões de focto
• conexão necessária
• coniunçâo constante

197
O Conhecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Questões propostas

GRUPO I

Nas questões do Grupo I. seleciona a alternativa correta.

1. Presta atenção aos juízos que se seguem e seleciona a opção correta.

1. Eu conheço o Presidente da República. 3. Eu sei andar de bicicleta.


2 Eu sei que Marcelo Rebelo de Sousa é 4. Eu conheço a cidade de Lisboa.
o Presidente da República.

O conhecimento por contacto e expresso

{A) apenas por 1 e 2. (C) apenas por 2 e 3.

<B| apenas por 3 e 4. (D) apenas por 1 e 4.

2. De acordo com a definição tripartida de conhecimento, termos uma crença verdadeira

{A) é suficiente, mas não necessário, para termos conhecimento.

(Bi é necessário, mas não é suficiente, para termos conhecimento.

(C) é necessário e suficiente para termos conhecimento.

(D) não é necessário, nem suficiente para termos conhecimento.

3. O ceticismo defende que

1 A) a justificação não é necessária para o conhecimento.

(B) apenas as crenças básicas constituem conhecimento.

<C) apenas as crenças não básicas constituem conhecimento.

(D) nào existem crenças básicas.

4. O fundacionismo sustenta que

não há conhecimento.

{B| todas as crenças se justificam com base noutras crenças.

<C) nenhuma crença se justifica com base noutras crenças.

{D) nem todas as crenças se justificam com base noutras crenças.

5. Lê com atençáo os enunciados que se seguem e seleciona a alternativa correta:

1 Os solteiros nào são casados. 3. Alguns solteiros sâo estudantes.


2. Nenhum círculo é quadrado. 4. As orbitas planetárias sâo aproxima­
damente elípticas.

Expressam conhecimento a priori

IA) apenas 1 e 2. (Cf apenas 2 e 3.

(B| apenas 3 e 4. (D) apenas 1 e 4.

198
Qucstôei proposta»

6. Qual dos seguintes enunciados seria considerado mais evidente por Descartes?

Eu existo. O génio maligno existe.

(B) Deus existe. (D) O mundo exterior existe.

7. Qual dos seguintes enunciados seria considerado mais evidente para Hume?

Eu existo. (C) O mundo exterior existe.

(B) Deus existe. (D) Tenho uma impressão de vermelho.

8. Qual destas alternativas não foi apresentada por Descartes como uma razão para duvidar?

(A) As ilusões dos sentidos. (C) O argumento da marca.

(B) A indistinção vigília-sono. {D) A hipótese do génio maligno

9. Segundo Hume, um cego de nascença

<A) pode ter uma ideia da cor azul e, por conseguinte, nem todas as ideias são cópias de impressões.

(B) não pode ter uma ideia da cor azul e. por conseguinte, nem todas as ideias são cópias de
impressões.

(C) pode ter uma ideia da cor azul e, por conseguinte, todas as ideias são cópias de impressões.

{D) não pode ter uma ideia da cor azu I e, por conseguinte, todas as ideias são cópias de impressões.

10.Segundo Hume, a nossa ideia de causalidade

IA) não tem origem na experiência, pois tra­ <C) não tem origem na experiência, pois
ta-se de uma relação de ideias. nunca observamos uma conexão neces­
sãria entre dois acontecimentos.

(B) tem origem na experiência, pois obser­ < D) tem origem na experiência, apesar de
vamos uma conexão necessãria entre nunca observarmos uma conexão ne­
dois acontecimentos. cessária entre dois acontecimentos.

GRUPO II

Responde de forma direta e objetiva às questões que se seguem.

1. Lê com atençao o texto que se segue.

«Depois disto, tendo refletido sobre o que duvidava c que. por consequência, o meu ser nào era
inteira mente perfeito, pois via claramente que conhecer c uma maior perfeição do que duvidar. Icm
brti-me de procurar de onde me teria vindo o pensamento de alguma coisa mais perfeita do que cu: c
conheci, com evidencia, que se devia a alguma natureza que fosse, efetiva mente, mais perfeita. [...] De
maneira que restava apenas que ela tivesse sido posta em mim por uma natureza que fosse verdadei
ramente mais perfeita do que eu. e que até tivesse em si todas as perfeições de que eu podia ter alguma
ideia, istoè, para me explicar com uma só palavra, que fosse Deus.»
Rctk* Desartes, DftHri/ryo cfo Afetfxfo. Trjd. taío Ganu
Ijsbaa. EdlçOes 70 (2013). pp 52-53 ' adiptadol

1.1 Formula uma objeção ao argumento apresentado no texto.


O Conhecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Questões propostas

2. Lê com atenção o texto que se segue.

«E por mais que os melhores espíritos estudem isto, tanto quanto lhes agradar, nào creio que pos
sani apresentar alguma razào que seja suficiente para eliminar essa duvida, se nào pressupuserem a
existência de Deus. Pois, primeiramente. aquilo mesmo que ha pouco tomei como regra, isto ê, que
sào inteiramente verdadeiras as coisas que concebemos muito clara c dislintamente. só c certo porque
Deus ê ou existe, e porque c um ser perfeito c tudo o que existe dele nos vem. Donde se segue que as
nossas ideias ou noções. sendo coisas reais e que provêm de Deus cm tudo aquilo em que sào claras e
distintas, unicamente podem ser verdadeiras.*
Jtcne Descartes. Dfscurro do Utetodo. Trad. faio Qama.
Lisbou. Bdiçtei TU <20131. p. ÍW (adapUdol

2.1 Qual é a importância da ideia de Deus no racionalismo cartesiano?

2.2 Partindo do texto, formula uma objeção ao racionalismo cartesiano.

3. Lê com atenção o texto que se segue.

«A mesa que vemos parece diminuir à medida que dela mais nos afastamos, mas a mesa real, que
existe indrpeiidentcmcntc de nós. nào sofre qualquer alteração; nào era, pois, nada a nào ser a sua
imagem o que estava presente ao espírito. Estes sào os óbvios ditames da razào; c ninguém capaz de
refletir jamais duvidou de que as existências que consideramos quando dizemos esta casa e aquela
arvore nào passam de perceções na mente, cópias ou representações transitórias de outras existências
que permanecem uniformes e independentes.»
EXjflrid Hume. TikwI i^uçü*.; sobre ci £ntandrm«nto Humano,
Trad. faio Pauk> Mocitcira. Lisboa, INCM <21X12)- P- lt»4

Compara as conclusões de Descartes e de Hume no que diz respeito à nossa possibilidade de


conhecer o mundo exterior.

GRUPO III

Atenta no texto que se segue e responde às perguntas acerca do mesmo.

«Suponhamos cntào que a mente seja, como se diz. uma folha em branco, sem quaisquer carate­
res, sem quaisquer ideias. Como é que a mente recebe as ideias? [._] De onde tira todos os materiais da
razào c do conhecimento? A isto respondo com uma só palavra: da experiência».

I Lackc. Enmrlo sobre o Ehlmdimento HUmano, *W4.1.


Lisboa. Pundaçdo Cakuiste Gulbenkian (20141. p 106 (adaptado)

1. O texto parece sugerir que não há conhecimento o priori acerca do mundo. Concordas com
essa perspetiva? Porquê?

200
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

9. O estatuto do conhecimento científico


No capítulo 8 estudámos o que ê o conhecimento em geral, agora vamos analisar um
tipo de conhecimento especifico: o conhecimento científico. Ou seja, vamos fazer filosofia
da ciência.

Contrariamente ao que se possa pensar, a ciência, apesar de ser uma disciplina empí­
rica, não está dispensada de ser analisada filosoficamente. Em filosofia da ciência anali­
sam-se os conceitos fundamentais e os raciocínios envolvidos neste tipo de investigação
e discutem-se os problemas metafísicos, epistemolõgicos, éticos e lógicos que lhe estão
associados.

Em seguida, trataremos filosoficamente dos seguintes problemas:

L Problemo da demarcação - O que distingue as teorias científicas das que não são
científicas?

2. Problema do método científico - Em que consiste o método científico?

3. Problema da evolução do ciência - Como progride a ciência?

4. Problema da objetividade da ciência - Será a ciência objetiva?

O problema da demarcação e o problema do método científico serão tratados nas


páginas 202 a 212. ao passo que o problema da evolução e o problema da objetividade
da ciência serão tratados nas paginas 213 a 220.

Teste de robustez a materiais constituintes do novo telescópio espacial James Webb. da NASA.
Fotografia: NASA.

>
201
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

9,1 O problema da demarcação do conhecimento científico


Nem todo o tipo de conhecimento humano possui as mesmas características específi­
cas. Por exemplo, muito antes de haver ciência (tal como atualmente é praticada), os seres
humanos adquiriram e conheciam uma grande quantidade de informação acerca do mundo
(sobre a forma como se recolhiam alimentos, a aplicação do fogo, e inúmeras outras situa­
ções}: podemos designar esse conhecimento senso comum, ou conhecimento vulgar Mas
esse conhecimento do senso comum parece possuir características diferentes das que sâo
atribuídas ao conhecimento científico’. No primeiro tipo temos um corpo de conhecimentos
dispersos e pouco estruturados, que se adquirem frequentemente de forma espontânea ou
herdada dos antepassados, tendo uma finalidade essencialmente pratica e sendo encarado
de forma dogmática, isto é, não critica; no segundo tipo, temos um corpo de conhecimen­
tos sistematizados bem estruturado, que resulta de investigações metódicas e organizadas,
visando produzir boas teorias explicativas, sendo avaliado e testado critica mente.

Notas Mas esta caracterização ainda não fornece um critério geral para dis­
’ 0 conhecimento vulgar nào foi su­ tinguir o que é ciência daquilo que não é científico1. Fica ainda por res­
primido com o advento da ciênoa.
Muito pelo contrário, de uma for­ ponder qual é o critério ou princípio que nos permite fazer a distinção
ma ou de outra, todos apbcamos o entre ciência e não ciência. Ou seja, qual é o critério de cientificidade que
serso comum em questões da vida
nos permite distinguir uma teoria científica de uma teoria não científica.
prática quando recorremos a pro­
vérbios, a receitas caseiras de culi­ Uma vez que se pretende encontrar uma forma ou critério geral que nos
nária ou de medicina, a tradições permita demarcar o conhecimento cientifico daquilo que não é cientifico,
populares, entre outros.
este problema é designado como *o problema da demarcação* e pode
3 Na categoria das coisas que não
são cientificas também se inclui a ter a seguinte formulação:
pseudociência, que consiste na
pretensão de fazer passar algo
como ciência quando na realidade O que distingue as teorias científicas das que nào são científicas?
nào e cientifico.
3 A teoria de Thomas Kuhn, que
Este problema é relevante, pois o conhecimento científico é encarado
sera desenvolvida na ultima sec­
ção, fornece um outro critério al­ por muitas pessoas como algo em que é legitimo depositar a nossa con­
ternativo para distinguir ciência da fiança, algo que possui credibilidade, fomentando-se o seu desenvolvimen­
nào ciência. De acordo com Kuhn,
o que distingue as teorias cientifi­ to com financiamento público. Por isso, toma-se importante encontrar um
cas das nào científicas e fazerem critério seguro para distinguir o conhecimento científico de outros tipos de
parte de um paradigma vigente. atividades não científicas. Essa necessidade também advém do facto de
* O positivismo logico foi um mo­
haver na sociedade atividades fraudulentas, que se pretendem passar por
vimento filosófico que surgiu com
o Círculo de Viena na década de cientificas quando nâo o são na realidade, as quais visam lucrar às custas
20 do século XX (sendo também da credibilidade científica. Assim, para não se cair nesse tipo de fraudes,
conhecido por «neopositivismo»
ou «empirismo logico»). Este movi­ que critério de demarcação entre ciência e não ciência é plausível adotar?
mento incluía filosofos como Moritz
Schlidc, Rudotf Carnap ou Alfred Como resposta foram desenvolvidos dois critérios relevantes: o crité­
Ayer, entre outros.
rio da verificabilidade e o critério da falsificabilidade3.

Critério da verificabilidade

O critério de verificabilidade foi proposto pelos filósofos do positivismo lógico*. Esse


critério pode ser apresentado da seguinte forma:

Uma teoria é científica só se consiste em afirmações


empiricamente verificáveis

202
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

Repare-se que apenas é apresentada uma condição necessária para uma teoria ser cien­
tífica: ter afirmações empiricamente verificáveis. De acordo com este critério, uma afirmação
empiricamente verificável e aquela cujo valor de verdade pode ser estabelecido através da
observação. E empiricamente verificável uma proposição para a qual podemos indicar con­
dições empíricas para determinar o seu valor de verdade, ainda que na prática {por exemplo,
por limitações tecnológicas} não se consiga verificar. Considerem-se os seguintes exemplos:

1. Esta barra de cobre dilatou quando a aquecemos.


2. Existe vida noutros planetas.
3. A realidade é espiritual.

Repare-se que a afirmação 1 pode ser verificada pela observação prática (temos tec­
nologia que nos permitiu verificar bem isso}; assim, 1 pode pertencer ao conhecimento
científico. Quanto ã afirmação 2, ainda que nas circunstâncias atuais não possa ser verifi­
cada na prática {dado que ainda não temos tecnologia suficientemente desenvolvida para
determinar isso), é uma proposição empiricamente verificável na medida em que podemos
indicar condições empíricas para determinar o seu valor de verdade. Portanto, 2 pode fa­
zer parte de uma teoria cientifica. Contudo, a afirmação 3 não pode fazer parte da ciência,
dado que não e empiricamente verificável, nem na prática nem em princípio.

Objeções ao critério da verificabilidade

Sera o critério de verificabilidade um bom critério de demarcação? Como objeção pode


sustentar-se que as leis da natureza exprimem-se em frases universais, como «Todo o
cobre dilata quando é aquecido». Mas não é possível estabelecer a verdade das leis da
natureza através da observação. Por exemplo, no caso da «lei da dilatação», fazer isso
implicaria observar como se comporta todo o cobre do universo quando é aquecido. Mas
não conseguimos fazer todas as observações necessárias para verificar uma lei da nature­
za. Assim, o critério de verificabilidade implica que as leis da natureza não são científicas.

O filósofo Kari Popper, que analisaremos a partir da página 204, também criticou o crité­
rio de demarcação dos positivistas lógicos por levar a aceitar como científicas teorias que
não são apropriadamente científicas. Mas porquê? Para se perceber isso considere-se uma
teoria que não é científica como, por exemplo, a alegação da astrologia de que «Os nativos
do signo Gémeos têm tendência a adiar decisões importantes*. Ora. perante uma alegação
tão vaga e imprecisa, não hã qualquer acontecimento concebível que, aos olhos de um de­
fensor da astrologia, refute essa alegação. Pois todas as situações apenas verificam a teoria
(que as pessoas do signo Gémeos têm «tendência* a adiar decisões). Mas. assim, se qualquer
observação concebível concorda com uma dada teoria ou alegação, então não se pode dizer
que uma determinada observação em particular lhe fornece suporte empírico; portanto, a
verificabilidade não é um bom critério para distinguir teorias científicas das não científicas.

Aém disso, pode argumentar-se que o critério de verificabilidade é autorrefutante; ou


seja, é um critério que se refuta a si próprio ou, por outras palavras, que entra em contradição
consigo mesmo. Isto porque os positivistas lógicos aceitam estritamente o seguinte critério:

As frases têm valor de verdade só se forem verdadeiras por definição


ou capazes de serem verificadas pela experiência.

203
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

Porém, esse critério não cumpre os requisitos que ele próprio estabelece. Pois, o cri­
tério, ele mesmo, não é verdadeiro por definição (ao contrário do que sucede com as
frases «Todas as coisas vermelhas são coloridas* ou «Nenhum irmão é filho único») nem
é verificado pela experiência (não encontramos nada no mundo que seja um indicio a
favor deste critério). Dessa forma, seguindo o critério dos positivistas, o próprio critério
da verificabilidade não tem valor de verdade e. por isso, não pode ser um critério correto.

Critérb de falsfficabil idade

Uma resposta alternativa para o problema da demarcação foi apresenta­


da por Karl Popper ao defender um critério de falsificabilidade que. numa
primeira versão, pode ser apresentado da seguinte forma:

Uma teoria é científica só se for empiricamente falsificável

Para se entender bem este critério é preciso esclarecer o conceito de


empiricamente falsificável. De acordo com Popper, uma teoria é empirica­
mente falsificavel se, e só se, for possível conceber um teste experimental
que seja capaz de mostrar que a teoria é falsa. Daqui podemos retirar al­
gumas consequências: se não podermos conceber uma observação para
refutar uma dada teoria, então esta não é falsificavel e, portanto, não e
Karl Popper (1902-1994)
científica.

Alem disso, no critério apresentado por Popper ê importante não confundir «teoria faf-
sificavel* com «teoria falsificada*. Isto porque Popper não defende que uma teoria tem de
estar falsificada (ou seja, refutada pela observação) para ser científica, mas sim que tem
de ser falsificável, isto é, que tem de ser possível refuta-la pela observação. Analisemos
alguns exemplos:

1. Aman hâ vai chover.


2. Amanhã vai chover ou não vai chover.
3. Todo o cobre dilata quando é aquecido.
4. Ha pedaços de cobre que dilatam quando aquecidos.
5. Os nativos do signo Gémeos têm tendência a adiar decisões importantes.

Quais destas afirmações são falsificáveis e quais não são?

Começando com a afirmação 1, podemos imaginar uma situação em que não chove
amanhã, ou seja, a afirmação 1 seria refutada caso não chova no dia que está a ser indi­
cado; por isso, é falsificável.

Contudo, a afirmação 2 não é falsificável. pois é impossível conceber uma situação


em que essa afirmação e falsa. Aliás, tal como já se estudou no capítulo 1 (página 44), a
afirmação 2 é uma tautologia, ou verdade lógica, e. dessa fornia, em todas as suas circuns­
tâncias terá o valor de verdade K Pode ver-se isso ao construir uma tabela de verdade, sendo
p a abreviatura da proposição simples «Amanhã vai chover*.

204
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

Com base nesse dicionário, a formalização da /------------------------------------------ \

afirmação 2 é |p v “'pl. podendo construir-se a tabe­ ,(p V


p
la de verdade que se apresenta ao lado.
V V V FV

Em suma, verdades lógicas não sào falsificáveis F F V VF

e, por isso, não podem constituir teorias científicas. Ç_________________ >

Ao contrário da anterior, a afirmação 3 pode fazer parte de uma teoria cienti­


Notas
fica, pois podemos imaginar ou conceber uma situação em que essa frase seria 1 Alem disso, os seres hu­
refutada pela observação de um pedaço de cobre que não dilate quando aque­ manos não conseguem
fazer uma observação da
cido. E verdade que se não encontramos no mundo qualquer desses pedaços, a
proposição universal «todo
afirmação 3 não e falsificada; mas ainda assim continua a ser falsificável. dado o cobre não dilata» e, mes­
que podemos imaginar uma situação em que tal frase é falsa. mo que o fizessem, tal afir­
mação seria falsa dado que
Porém, repare-se que a afirmação 4 não é falsificável e, desse modo, não há cobre que dilata.
3 Aêm da astrolog iar Popper
pode fazer parte ou constituir uma teoria científica. Pois não conseguimos ima­ considera que ateoriado de­
ginar uma situação concreta, que será sempre particular, que a refute. Por exem­ senvolvimento histórico de
plo, suponha-se que concebemos uma situação particular em que observamos Karl Marx e a teoria da psi­
canálise de Sigmurd Freud
algum cobre que não dilata. Se isso for verdade, não se nega a afirmação 4. Tal não sào cientificas dado
como já estudamos no capítulo 1, pagina 28, não se negam afirmações particu­ que não são falsificáveis.
Isto porque tais teorias en­
lares com outras afirmações particulares1- Aliás, Popper chama a atenção para
caram qualquer observa­
que nenhuma afirmação particular ou existencial (que tipicamente começa com ção corcebível como uma
«algum*, «certos», etc.) é falsificável. verificação ou confirmação
da teoria. Por exemplo, em
Por fim. a afirmação 5 também não é falsificável. Mas aqui o problema tem relação à teoria de Freud,
se todas as atitudes huma­
a ver com o facto de ter uma formulação imprecisa ou demasiado vaga que a nas que se possam conce­
torna imune ã refutação. Por exemplo, não é claro quão forte é essa «tendên­ ber sào interpretadas como
cia», em que consiste com precisão «adiar decisões*, etc. Como aquilo que é expressando um sentimen­
to de inferioridade, então
proferido pela astrologia tem uma formação vaga e precisa, Popper considera parece fácil confirmar essa
que não pode ser científico, uma vez que não é falsificável2. Em suma, de acordo teoria; porém, um tal ato de
confirmar sempre a teoria a
com Popper há três aspetos que nos indiciam que estamos perante uma frase
qualquer custo não tem va­
não falsificável e, por isso, não científica; esses aspetos são os seguintes: lor, uma vez que a torna ir­
refutável e, por conseguin­
te, não falsificável.
1. Tautologia.
2 Afirmações particulares ou existenciais.
3. Afirmações vagas ou imprecisas.
1___ ________

Com isto se vê por que motivo Popper defendeu a falsificabilidade como critério de
demarcação - porque uma teoria que não seja falsificável nada diz sobre o mundo. Quan­
to ãs afirmações falsificáveis também há alguns aspetos a ter atenção. O principal tem a
ver com a ideia de que uma afirmação pode ser mais falsificável do que outra, ou seja,
que existem graus de falsrficabil idade Para se analisar isso, considerem-se as seguintes
frases:

1. Amanhã vai chover ou não vai chover.


2. Amanhã vai chover.
3. Amanhã vai chover à tarde.
4. Amanhã vai chover entre as três e as cinco da tarde.
V__________________________ ——__________________________ J

] 205
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Serão todas estas frases falsificáveis? Tal como vimos acima, a afirmação 1 não e
falsificável dado ser uma tautologia. Por sua vez. as outras três são falsificáveis Mas será
que o grau de falsificabilidade de todas elas é exatamente igual ou algumas são mais fak
sificaveis do que outras?

Podemos constatar uma gradação no grau de falsificabilidade nas afirmações em análise,


sendo que cada uma delas é mais falsificável do que a anterior, dado que envolve mais ris­
cos de se vir a revelar falsa (uma vez que contém mais informação). Por exemplo, se chover
amanhã apenas ãs duas horas da tarde, as afirmações 2 e 3 continuam a ser verdadeiras,
mas a afirmação 4 é falsa.

Tal como se verificou, as teorias com maior grau de falsificabilidade são as teorias
com maior grau de informação. Quanto maior for a possibilidade de um enunciado ser
refutado, maior informação ele terá. E as boas teorias cientificas são aquelas que têm um
elevado grau de falsificabilidade, isto é, que são muito informativas.

Com isto podemos apresentar uma versão mais completa do critério de falsificabilidade
apresentado por Pop per:

Uma teoria é cientifica se, e só se, for empiricamente falsificável


e for muito informativa.

Para defender este critério, Popper argumenta da seguinte forma:

.. -.
(1} Uma teoria que garante só verificações ou confirmações, e que ignora possíveis
refutações, nâo pode ser concebida ou mostrada como falsa.
(2) Se uma teoria é cientifica, então faz afirmações ou previsões que poderão ser
concebidas ou mostradas como falsas.
(3} Logo, uma teoria que garante só verificações ou confirmações, e que ignora
possíveis refutações, não é científica.

Mas será o critério de falsificabilidade um bom critério de demarcação?

Objeções ao critério de falsificabilidade

Podemos apresentar várias objeções ao critério de falsificabilidade. Em primeiro lugar,


nem todas as teorias cientificas sáo falsificáveis, ou seja, a falsificabilidade não constitui
uma condição necessária para que uma teoria seja científica. Isto porque algumas teorias
cientificas referem-se a objetos que nâo são diretamente observáveis, como, por exemplo,
neutrões, protões, etc. Nesse caso, nâo é inteiramente claro que, à partida, seja possível
conceber um teste experimental, uma observação direta, que seja capaz de mostrar a
sua falsidade. No entanto, o papel dessas teorias (com objetos que não são diretamente
observáveis) no desenvolvimento cientifico faz com que seja altamente implausível classi­
ficá-las como não científicas.

Em segundo lugar, há falsificações inconclusivas. Pois um insucesso empírico pode ser


atribuído quer ao teste (podem ocorrer erros nos testes ou podem ser mal concebidos).

206
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

quer a fatores pessoais do investigador e, por isso, nenhuma teoria cientifica pode ser
abandonada por causa de uma única observação ou por uma única experiência que. apa­
rentemente, a refutou.

Por fim, o que está a ser proposto por Popper não está de acordo com a prática cien­
tífica. O que acontece frequentemente na atividade científica real e o seguinte: peran­
te uma observação ou teste experimental cujo resultado não esteja de acordo com a
teoria, os cientistas mais facilmente põem em causa o teste, ou as suas condições de
realização, do que a própria teoria. Assim, não é por se encontrar um caso contrário á
teoria que a teoria é falsificada. Tal como analisaremos com pormenor na página 214,
Thomas Kuhn realizou um estudo aprofundado da história da ciência e constatou que,
contrariamente ao que se poderia supor, os cientistas são muito resistentes ã mudança.
Ou seja, conhecendo-se um pouco da história da ciência, podemos verificar que os cien­
tistas trabalham de forma a confirmar as suas teorias e continuam a sustentá-las mesmo
quando as previsões não se confirmam e se encontram casos contrários à teoria.

9.2 Problema do método científico


O caráter metódico e rigoroso do conhecimento científico permite-nos prever e con­
trolar a natureza com um enorme grau de precisão e de modo bastante fiável. Esta fia­
bilidade e um conjunto de realizações surpreendentes a nível tecnológico fizeram com
que o conhecimento científico fosse encarado como algo em que é legítimo depositar a
nossa confiança. Uma vez que grande parte do rigor do conhecimento científico provém
do seu caráter metódico, é importante tentarmos perceber em que consiste isso. Esse
problema, designado como problema do método cientifico, pode ser formulado da se­
guinte forma:

1. Em que consiste o método científico?


2. De que forma se caracteriza o carater metódico do conhecimento cientifico?
\_________________________________________________________________________________ -■

Como resposta a este problema foram desenvolvidas duas teorias principais: o induti-
vismo e o falsificacionismo

Resposta ind ativista

De acordo com o indutivismo, uma teoria científica desenvolve-se nos seguintes mo­
mentos fundamentais:
.------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- ■.
1. A observação é o ponto de partida da investigação científica.
2. As teorias científicas sào elaboradas mediante um processo de generalização
indutiva.
3. Depois de a teoria ter sido elaborada, faz-se o seguinte:
• tenta encontrar-se confirmações adicionais para a teoria;
• usa-se a teoria na procura de generalizações indutivas mais vastas.

207
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

No momento 1, a observação precede a teoria. Antes de conceber qualquer teoria, o


cientista observa o mundo e regista uma grande quantidade de factos observacionais; por
exemplo, pode notar qual e a posição do planeta Marte num determinado dia e continuar o
seu registo durante os restantes dias do ano. A sua observação deve ser total mente pura, ou
isenta. Portanto, os cientistas começam por observar os factos de forma imparcial, rigorosa e
isenta de pressupostos teóricos (ou seja, nâo partem de problemas, expectativas, hipóteses
ou teorias). São essas observações que permitem formar enunciados singulares como, por
exemplo, meia-noite do dia 10 de setembro de 2019. o planeta Marte era visível numa
certa posição específica no céu>.

No momento 2, dá-se a passagem da observação para a teoria mediante inferências


indutivas. Por outras palavras, neste momento os cientistas partem de enunciados singu­
lares para, através de inferências indutivas, obter enunciados gerais (ou seja, teorias e leis)
como, por exemplo, <Os planetas movem-se em elipses em torno da sua estrela*. Para se
fazer essa generalização indutiva é preciso satisfazer algumas condições necessárias (já
aprendidas no capítulo 1, lógica informal, pagina 58, tais como:

Critériol: A amostra deve ser diversificada, nâo ocultando contraexempios conhecidos.


Critério 2: A amostra deve ser representativa.
_________________________________________________________________________ .

Com base nestes critérios seria falacioso concluir que <Os planetas movem-se em torno
da sua estrela* caso apenas se registasse a posição do planeta Marte num único dia espe­
cífico. Para não se cometer a falacia da generalização precipitada, precisamos de murtas ob­
servações. Mas, para a conclusão em consideração não basta registar a posição do planeta
Marte em vários dias, é preciso observar se o mesmo sucede com outros tipos de planetas.
Assim, só respeitando adequadamente os critérios 1 e 2 se poderia concluir indutivamen­
te que é bastante provável que todos os planetas se movam em torno da sua estrela. Em
suma, as proposições ou enunciados gerais que captam leis da natureza são descobertas
por indução.

No momento 3 visa-se encontrar ma is factos que confirmem a teoria. Ou seja, a partir das
teorias os cientistas deduzem previsões e explicações que possam ser confirmadas. Com
isso, a teoria ficará confirmada num grau mais elevado Além disso, pode partir-se das leis já
descobertas para, também por indução, encontrar leis ainda mais gerais.

Como se pode constatar, o indutivista vê a ciência como um corpo de conhecimento


solidamente assente na observação. Todas as teorias científicas resultam de generalizações
indutivas feitas a partir da experiência. Mas será plausível esta resposta indutivista?

Objeções à resposta indutivista

A resposta indutivista é suscetível de várias objeções. Em primeiro lugar pode advogar-


-se que náo existe observação pura. Repare-se que o indutivista diz que a investigação
científica assenta na observação pura, isto é, na observação que é conduzida sem influên­
cia de quaisquer teorias. Contudo, uma tal observação pura e impossível. Isto porque os
cientistas são influenciados de diversas formas por teorias, ou seja, tém certas expecta­
tivas teóricas, aceitam certos pressupostos teóricos, confiam em certas teorias. A este
proposito Karl Popper escreve o seguinte:

208
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

« Há vinte c cinco anos, tentei trazer esta questão a um grupo de estudantes de Física,
em Viena, iniciando uma conferencia com as seguintes instruções: ‘Peguem no lápis e
no papel: observem cuidadosa mente e anotem o que observarem?" Eles perguntaram,
como é óbvio, o que c que eu queria que eles observassem. Manifestamente, a instrução
‘Observem!” c absurda. (_) A observação è sempre seletiva. Requer um objeto determi
nado, uma tarefa definida, um interesse, um ponto de vista, um problema.»
KjfI Pappcr, ConJrniKis e Heytifciçflcs. Lisboa, Almcdliu {MJ). pp. 72-73

Como se pode constatar, Popper defende que a observação não e o ponto de partida
para a investigação científica, pois no momento em que o cientista parte para a observação
já dispõe de um conjunto de teorias e de expectativas prévias que orientam o seu trabalho
e influenciam a forma como interpreta aquilo que observa. Como se verá na página 210 e
seguintes, segundo Popper, o verdadeiro ponto de partida para a ciência é o problema que
surge do confronto entre uma observação e as teorias ou expectativas de que já dispomos.

Em segundo lugar, muitas teorias cientificas referem objetos que não são observáveis.
Vimos que o indutivista diz que as teorias são generalizações indutivas formadas a partir
da observação de casos particulares. Contudo, muitas teorias cientificas referem objetos
como neutrinos, eletrões, genes, moléculas de ADN, etc., os quais não são observáveis.
Ou, pelo menos, não eram observáveis na altura em que foram criadas as teorias que
os referem. Por isso, essas teorias não podem ter sido desenvolvidas mediante simples
generalizações indutivas baseadas na observação. Ou seja, o indutivismo não espelha o
método cientifico tal como ele é efetiva mente praticado.

Em terceiro lugar, se nos focarmos no momento 3 da resposta indutivista, pode cons-


tatar-se que a estrutura lógica dos indutivistas de verificação de teorias é falaciosa. Isto
porque no momento 3 procura-se mais factos, previsões, que confirmem a teoria apre­
sentada para provar que a própria teoria é verdadeira. Procede-se dessa forma porque os
enunciados gerais que correspondem às teorias científicas incluem um número demasia­
do vasto de casos. Ora, tais casos não podem todos ser objeto de uma observação direta,
pelo que a única forma de estes serem verificados é através de dedução de previsões
particulares a ele associadas, para posteriormente procurar determinar se estas se con­
firmam ou não, sendo que os indutivistas encaram a confirmação dessas previsões como
prova conclusiva do enunciado geral de onde foram deduzidas. Mas esse raciocínio tem
uma estrutura lógica falaciosa: sendo Ta teoria a ser testada e P uma previsão deduzida a
partir dela, o indutivista no momento 3 apresenta o seguinte raciocínio:

(1) (r—
(2) P
13) J.T

Por exemplo, se é verdade que todos os planetas se movem em elipses em torno da


sua estrela, então o próximo planeta descoberto também se moverá em elipses em torno
da sua estrela; verificamos empiricamente que o próximo planeta descoberto se move
em elipses em tomo da sua estrela; logo, é verdade que todos os planetas se movem em
elipses em tomo da sua estrela. Mas. como já sabemos desde o capítulo 1, lógica formal,
pagina 50, esta estrutura lógica corresponde à falácia da afirmaçáo da consequente

200
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

Ou seja, nesse caso ainda que as premissas sejam verdadeiras, não se garan­
Nota
1 No capitulo 8 vimos que, te de forma dedutiva a verdade da conclusão.
de acordo com Hume,
o PUN não tem justifica­ Uma crítica final baseia-se no problema da indução, que jâ analisámos, no ca­
ção, pois a sua veracida­
pítulo 8, pagina 189, na epistemologia de David Hume. Relembramos que a crítica
de não pode ser dedu-
trvamerte demonstrada de Hume consiste em argumentar que a indução é injustificável; contudo, o indu-
Idado que não e uma re­ tivista usa a indução na passagem do momento 1 para o momento 2 - ou seja,
lação de ideias) e, se ape­
formulam-se teorias cientificas (leis universais) ao fazer generalizações indutivas
larmos a experiência dos
seus sucessos passados das nossas observações particulares. Ora, admitindo que a indução é injustificá­
para justificar a nossa vel, dado que o princípio da uniformidade da natureza (PUN) não tem justificação’,
confiança nesse tipo de
inferência, estamos a in­ chegamos facilmente á conclusão de que a ciência não é digna de crédito. Pode
correr numa petição de estruturar-se essa objeção da seguinte forma:
princípio, pois estamos a
recorrer a indução para
justificar a nossa confian­ (1) A indução é injustificável (segundo David Hume).
ça na indução. (2) Se a indução e injustificável, a ciência não é uma atividade racional.
(3) Logo a ciência não é uma atividade racional.

Assim, se quisermos continuar a confiar na ciência e sustentar que a ciência é uma ati­
vidade racional, temos de rejeitar o indutivismo.

Resposta falsificacionista

Karl Popper, ao defender uma resposta falsificacionista, sustenta que uma teoria cientí­
fica se desenvolve nos seguintes momentos fundamentais:

1. Formulação de um problema.
2. Apresentação da teoria como hipótese ou conjetura.
3. Tentativas de refutação da teoria através de testes experimentais.
L

Este método é conhecido como o método das conjeturas e refutações.

Começando por analisar o momento 1 da resposta falsificacionista. uma teoria científi­


ca parte sempre de um problema, de uma inquietação, de algo que se quer resolver. As­
sim, se não houver problema, a própria investigação cientifica nem sequer arranca. Esse
problema é levantado por uma observação que entra em confronto com as nossas teorias
e expectativas prévias. Por tsso, o interesse e significado da questão ou problema que o
cientista coloca depende de um determinado contexto teórico (por exemplo, os problemas
científicos que agora se colocam - como a questão de saber como se cura um novo tipo
de cancro — não se colocavam numa outra época histórica).

Nesta caracterização, a ciência não parte de observações puras, mas sim de proble­
mas. Aliás, qualquer teoria cientifica é sempre uma resposta para algum tipo de problema,
para algo que num determinado contexto precisa de explicação.

Perante um dado problema, o cientista tem de se focar no seguinte: avançar com uma
primeira tentativa de solução, isto é, com uma hipótese, ou conjetura, sendo que essa
hipótese ou conjetura é uma mera suposição ou palpite. Neste segundo momento do mé­
todo de fazer ciência. Popper insiste na importância de se propor conjeturas ousadas (ou

210
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

seja, que envolvem grande risco de se revelarem falsas}, pois estas têm um grau elevado
de falsificabilidade, o que significa, tal como já vimos anteriormente, que sâo informativas
e que se expõem a um grande risco de serem refutadas.

Por fim, a observação desempenha um papel crucial apenas no momento 3. Nes­


se momento, a teoria e sujeita a testes experimentais numa tentativa de refutação.
Para isso é preciso deduzir previsões empíricas da teoria. Para exemplificar este aspeto
suponha-se que temos uma teoria bastante simples que nos diz que *a osteoporose ê
causada por falta de ingestão de cálcio e de vitamina D». Com base nesta teoria, pode
fazer-se, por exemplo, a seguinte previsão: <Caso haja uma boa ingestão de cálcio e de
vitamina D, existirão muito menos casos de osteoporose do que o normal». De acordo
com Popper, os cientistas devem procurar fazer observações minuciosas cujos resultados
sejam incompatíveis com aquilo que a teoria prevê, isto é. procurar encontrar situações em
que a previsão fracassa (no exemplo em consideração, deve ver-se se existem situações
em que há um aumento significativo de boa ingestão de cálcio e de vitamina D, mas ainda
assim os casos de osteoporose não diminuem). Se as previsões da teoria se revelarem
incorretas, a teoria será refutada. A estrutura lógica deste terceiro momento do método
científico, sendo T (teoria) e P (previsão), pode ser apresentada desta forma:

--------------------------- \
(1}
(2) -P
(3) A-I

Como se pode constatar, na premissa 1, as previsões são uma consequência da teoria;


na premissa 2 encontram-se casos ou contraexemplos que negam a previsão; por tsso,
pode concluir-se va lidamente por modus toilens que a teoria ê falsa. Vejamos um caso
ainda mais simples: imagine-se que temos uma teoria que implica que todos os corvos sào
negros (premissa 1); pelo facto de encontrarmos um corvo de uma outra cor (premissa 2),
pode concluir-se que essa teoria ê falsa. Ora, ao ser refutada ou falsificada, a teoria (7)terá
de ser substituída por outra melhor que responda ao mesmo problema.
Nota
A estrutura lógica deste momento 3 permite-nos ver que para Popper a lógica J Como já vimos no capí­
da ciência ê dedutiva' e não indutiva. Isso permite, também, dar uma resposta tulo 1. lógica formal, pági­
na 49, a utlizaçáo do mo­
ao problema da indução levantado por David Hume. Recorde-se que na pagina dus toNens e um exemplo
anterior apresentámos o seguinte argumento: de raciocínio dedutivo,
sendo que num raciocí­
— —\ nio dedutivo válido e im­
possível ou contraditório
(1) A indução ê injustificável (segundo David Hume).
termos premissas verda­
(2] Se a indução e injustificável, a ciência não e uma atividade racional. deiras e conclusão falsa.
(3) Logo a ciência não é uma atividade racional.
__ >

Popper nega a conclusão deste argumento, pois considera que a ciência é uma ativi­
dade com valor cognitivo. Mas se nega essa conclusão qual é a premissa que ele nega?
Popper aceita a premissa 1 de que a indução ê injustificável. Contudo, nega a premissa 2
ao defender o seguinte:

A indução é injustificável e a ciência ê uma atividade racional.

211
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

Mas como e que a ciência pode ser uma atividade racional apesar de a indução ser
injustificável? Como estamos a ver na estrutura lógica do momento 3, a resposta de
Popper é que a ciência não precisa de qualquer tipo de indução, mas apenas de de­
dução, nomeadamente das tentativas de aplicação do modus tolfens nesse terceiro
momento que caracteriza o método científico.

E se as previsões forem corretas? E se não conseguirmos aplicar o modus taliens?


E se dessa forma a teoria não for refutada? Sobre isso, Popper diz que terã de se conti­
nuar a tentar refutar a teoria com testes cada vez mais severos, continuando ativamente a
procurar contraexemplos. Além disso, se as previsões ocorrerem e não encontrarmos con-
traexemplos, não podemos dizer que a teoria é verdadeira, pois é sempre possível que
amanhã surja um contraexemplo que desconhecíamos. Tudo o que podemos dizer é que.
até ao momento, a teoria não foi refutada. Ou, utilizando a terminologia de Popper, tudo o
que podemos dizer é que a teoria é corroborada ou fortalecida Esquematicamente:

Tentativa
Perplexidade Conjetura
de refutação ■

i t
Hipcrtwe
Problema + 9 9 9
Teoria
experimentai 5

Serâ esta uma resposta plausível para o problema do método científico?

Objeções à resposta falstficadonista

Há duas objeções influentes que se podem apresentar a esta resposta falsificacionista


de Karl Popper.

Em primeiro lugar, não é razoável abandonar uma hipótese ou teoria apenas porque foi
refutada por um teste experimental. Isto porque em ciência, além de hipóteses ou teorias
(T) e previsões (P), existem outros fatores envolvidos - como instrumentos utilizados, fatores
pessoais e sociais, etc. Assim, a premissa 1 da estrutura lógica falsificacionista não deveria
ser apenas <T —* P), mas sim ter em conta esses outros fatores envolvidos na atividade cien­
tífica. A verdade de uma teoria nâo é suficiente para garantir a observação de uma previsão
durante um procedimento experimental, é preciso que todos os restantes fatores envolvi­
dos estejam a funcionar adequadamente. E a nâo observação de uma previsão durante um
procedimento experimental não é suficiente para rejeitarmos uma teoria, pois pode estar a
falhar um dos outros fatores envolvidos {como um teste mal realizado), e não a teoria. Assim,
parece que Popper simplificou demasiado a forma de se entender o método científico.

Em segundo lugar, pode objetar-se que o falsificacionismo torna irracional a nossa


confiança nas teorias cientificas. Repare-se que Popper só considera o conhecimento
cientifico negativo e não aquilo que geralmente nos leva a dar importância á ciência, ou
seja, os seus resultados. Mas se as teorias científicas atuais não fossem verdadeiras, seria
racional presumir o bom funcionamento de, entre outros, pontes, aviões, computadores?
Se tudo o que pudermos dizer acerca, por exemplo, da fiabilidade dos aviões é que eles
foram construídos de acordo com teorias que ainda não foram refutadas, mas que amanhã
o podem ser, dificilmente seria razoavel andar de avião.

212
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

9.3 Problema da evolução da ciência


Geralmente aceita-se que a ciência evolui. Mas evolui de que forma? Será que podemos
dizer que a história da ciência ê linear rumo ã verdade ou está repleta de ruturas de tal forma
que nâo há teorias melhores do que outras? Este problema é designado como o problema
da evolução da ciência e pode ser formulado tal como se segue:

• Como progride a ciência?

. Como evolui o conhecimento cientifico?

, As teorias científicas atuais são melhores do que as anteriores?

Como resposta a este problema foram defendidas duas perspetivas fundamentais:

■ a perspetiva de Popper, que advoga que a ciência progride, ainda que de forma
irregular, por aproximação ã verdade; e

■ a perspetiva de Kuhn. que sustenta que a ciência progride por ruturas drásticas e
sem um fim definido.

A perspetiva de Popper

De acordo com Popper, tal como se analisou anteriormente, nunca podemos garantir
que uma teoria científica ê verdadeira. Então, como podemos pensar que hã progresso
se não temos qualquer garantia de que as teorias atuais são verdadeiras? A resposta de
Popper ê que não precisamos de saber que as teorias são verdadeiras para haver pro­
gresso, basta que as teorias atuais sejam melhores do que as anteriores. Ora, seguindo o
falsificacionismo de Popper, uma teoria é melhor do que a anterior se resistir aos testes de
falsificabilidade a que a anterior nâo resistiu.

Alêm disso, as novas teorias, ao ocuparem o lugar das velhas, mantêm alguns dos
seus melhores aspetos, ao mesmo tempo que substituem os seus defeitos. Mas isso sõ
ê possível porque se procuram ativamente os erros. Na luta contra as adversidades do
ambiente só os indivíduos mais resistentes e adaptados sobrevivem (tal como se advoga
na teoria da evolução das espécies*, e o mesmo acontece com as teorias científicas: a
ciência avança por um processo racional de eliminação de erros, que consiste na subs­
tituição de más teorias por teorias cada vez melhores. Ou seja, a evolução científica ê
caracterizada como um processo de contínua aproximação à verdade, embora a *verda-
de última* seja inalcançãvel. No entanto, esta perspetiva de Popper é diferente da pers­
petiva dos indutivistas. Estes últimos pensavam que a ciência progredia de uma forma
estritamente linear, sempre no mesmo sentido, sem desvios nem ruturas, em direção a
um conhecimento cada vez mais alargado e completo (isto é. cumulativo) da realidade
em direção ã verdade.

Popper defende, em vez disso, que a ciência evolui progressivamente de modo irre­
gular, por afastamento sucessivo do erro. Para explicar este aspeto, Popper recorre ao
conceito de verosimilhança:

213
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Uma conjetura ou teoria científica é mais verosímil do que outra quando


implica um menor número de falsidades e permite explicar um maior número
de fenómenos do que a sua concorrente.

O facto de uma conjetura ou teoria implicar um menor número de falsidades e permitir


explicar um maior número de fenómenos naturais permite-nos concluir que se trata de
uma teoria com maior grau de verosimilhança. E assim se explica por que razão se pode
considerar que uma conjetura ou teoria representa um avanço comparativamente ãs suas
antecessoras, embora não seja possível demonstrar de modo conclusivo a sua verdade.

Em suma, para Popper, embora nunca possamos dizer que alcançámos a verdade, po­
demos conclusivamente saber que certas conjeturas ou teorias científicas são falsas, o
que significa que as teorias cientificas atuais possuem um grau de verosimilhança maior
do que aquelas que já foram empiricamente refutadas.

Mas será esta filosofia plausível? Para fazer uma avaliação, veja-se primeiro uma pers­
petiva oposta de entender a evolução da ciência. No final do capitulo, páginas 219 e 220,
serão discutidas algumas objeções.

A perspetiva de Kuhn

Ao contrário de Popper, o filósofo Thomas Kuhn defende que a ciência não tem de
progredir em direção ao fim previamente estabelecido, rejeitando a ideia de que a ciência
progride em direção ã verdade. Kuhn considera que o desenvolvimento cientifico consiste
numa sucessão de períodos de relativa estabilidade e de consenso alargado, interrompi­
dos por processos de trabalho revolucionário. Kuhn faz notar que a história da ciência ê
simplesmente uma sucessão de paradigmas (e isso não significa que se esteja a ir para
melhor ou a caminhar para a verdade).

O conceito de paradigma e um conceito fundamental para se perceber bem a resposta


de Kuhn. Kuhn caracteriza um paradigma como uma estrutura teórica que oferece uma visão
do mundo, jma mundividência ou perspetiva, e uma forma específica de fazer ciência numa
dada área.
Thomas Kuhn
(1922-1996) Com isso, pode dizer-se que um paradigma estabelece pressupostos teóricos funda­
mentais, regras para aplicar a teoria ã realidade, e ate princípios metafísicos. O geocentris-
mo de Ptolomeu ou o heliocentrismo de Copêmico são exemplos de paradigmas.

Mas se a ciência é uma sucessão de paradigmas, como se dá a mudança de paradigma?


Segundo Kuhn, esquematicamente o que se passa ao longo da história da ciência ê o
seguinte:

Ausência
de paradigma

1
Ph ? t i^hf ia

214
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

Na primeira etapa, designada como período de pré-ciência, há uma ausência de pa­


radigma. Ora, sem paradigma não há comunidade científica, dado que é o paradigma
que une todos os praticantes de uma dada area nos mesmos objetivos, valores, regras e
metodologias. Além disso, sem paradigma e sem comunidade cientifica, nem sequer há
ciência. Então, o que temos neste período são apenas tentativas avulsas de explicar e de
resolver os problemas acerca da natureza.

Mas quando se começa a estabelecer consensualmente um paradigma entra-se no


período de ciência normal (e nunca mais se volta a uma situação de pré-ciência}. Este
período de ciência normal refere-se a longos períodos de ciência que decorrem quando
um dado paradigma está em vigor (refere-se ao longo tempo em que se aceitou, por exem­
plo, o paradigma do geocentrismo de PtolomeuJ. A função do cientista quando está neste
período é alargar o âmbito e alcance do paradigma, ao resolver enigmas sem colocar em
causa o paradigma. A ideia é que o paradigma consiga explicar mais coisas sem duvidar
do próprio paradigma vigente. Por isso, há uma atitude dogmática em relação ao paradig­
ma, mas podemos dizer que há um progresso cumulativo no interior do paradigma (dado
que o paradigma vai ficando mais informativo e explicando mais fenómenos}.

O período de ciência normal pode enfrentar algumas anomalias Ou seja, por vezes
os cientistas descobrem que os pressupostos do paradigma vigente não estão de acordo
com aquilo que se observa na natureza. Por exemplo, quando o paradigma do geocentris­
mo de Ptolomeu estava vigente, os cientistas começaram a observar fenómenos que não
encaixavam bem no paradigma (como o movimento dos planetas). Quando isso acontece,
começa a entrar-se no período de crise científica, ou seja, tal período inicia-se quando as
tentativas de resolver um enigma fracassam, surgindo uma anomalia (a qual inicialmen­
te deve ser considerada como falha da investigação e não falha do paradigma vigente}.
Durante este período pode haver dois caminhos possíveis para os cientistas:

• Se as anomalias forem resolvidas à luz do paradigma, este paradigma é reforça­


do e, assim, regressa-se ao periodo de ciência normal.
• Mas se as anomalias permanecerem sem uma solução satisfatória, começa a per­
der-se confiança no paradigma que está vigente.
v_________________________________________________________________________________________________________ y

Neste último caso, perder-se a confiança no paradigma da lugar á crise, ou seja, o para­
digma vigente deixa de ser o modelo consensual de fazer ciência. Uma vez instalada a cri­
se. inicia-se o período de ciência extraordinária Este é um período de competição e escolha
de teorias, acabando por surgir uma teoria alternativa que proporciona um novo paradigma,
uma nova forma de fazer ciência. Aí a comunidade científica divide-se em dois grupos:

• conservadores - defensores do velho paradigma;


• revolucionários - defensores do novo paradigma.

Quando os partidários do novo paradigma triunfam sobre os do antigo, opera-se uma


revolução científica, ou seja, ocorre uma mudança de paradigma

Para Kuhn, quando acontece uma revolução científica sso não significa desenvolvi­
mento cumulativo entre paradigmas: ou seja, não representa uma evolução, num sentido
cumulativo, em direção a uma compreensão mais profunda da realidade tal como ela é de
forma objetiva. Neste periodo, uma vez estabelecido o consenso em torno do novo para­
digma, inicia-se um novo período de ciência normal, e assim sucessiva mente.

>
215
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Depois desta análise sobre como se dá a sucessão de paradigmas ao longo da história


da ciência, será que na teoria de Kuhn faz sentido falar de progresso cientifico? Tal como
vimos, para Kuhn só faz sentido falarde progresso dentro de um paradigma no período de
ciência normal (dado que é ai que se vai alargando o âmbito de explicação do paradigma}.
Mas não se poderá dizer que um paradigma é melhor do que outro? Kuhn defende que
não. Pois, dado que avaliamos sempre a partir de um dado paradigma ou de uma mun-
dividéneia em que estamos inseridos, não existe um ponto de vista neutro, ou seja, uma
posição sem qualquer paradigma ou mundividência, que permita comparar objetivamente
dois paradigmas entre si e com a realidade no sentido de detetar qual deles é o melhor.
Esta ideia e designada como a tese da incomensurabilidade

Tese da incomensurabilidade - Impossibilidade de comparação de paradigmas,


em virtude de não haver entre eles pontos em comum.

Assim, quando ocorre uma revolução cientifica, o novo paradigma não e melhor nem
pior do que o antigo. Eles são simplesmente incomensuráveis. Mas por que razão pensa
Kuhn que os paradigmas são incomensuráveis? Que argumentos são apresentados a
favor dessa tese? Kuhn apresenta dois argumentos. O primeiro e baseado na impossibili­
dade de comparação entre paradigmas e pode ser formalizado tal como se segue:

(1) Se os paradigmas são comensuráveis, então não sâo demasiado diferentes


entre si para poderem ser comparados objetivamente.
(2} Mas os paradigmas são demasiado diferentes entre si para poderem ser com­
parados objetiva mente.
(3) Logo, os paradigmas são incomensuráveis.

Neste argumento, valido por niodus tofiens, é importante justificar a premissa 2. De


acordo com Kuhn, cada paradigma tem os seus próprios conceitos, os seus próprios pro­
blemas e os seus próprios procedimentos para observar o mundo, sendo isso que toma
impossível comparar objetivamente os paradigmas.

O segundo argumento, baseado na insuficiência de critérios objetivos, pode ser apre­


sentado da seguinte forma:

(1) Se os paradigmas são comensuráveis, então é possível justificar a preferência


por um paradigma através de critérios puramente objetivos.
(2} Mas não é possível justificar a preferência por um paradigma através de crité­
rios puramente objetivos.
(3) Logo, os paradigmas são incomensuráveis.

Kuhn defende a premissa 2 ao notar que a escolha de teorias ou paradigmas envolve,


além de fatores objetivos também fatores subjetivos importantes, tais como: a experiên­
cia e as preferências pessoais de cada um, o prestígio associado aos proponentes de um
paradigma ou teoria, os apoios financeiros disponibilizados para o tipo de investigação
recomendado pelo paradigma, entre outros.
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

Com base na tese da incomensurabilidade pode argumentar-se que não há uma apro­
ximação ã verdade nas mudanças de paradigma, porque:

(1) Os paradigmas são incomensuráveis. {Conclusão dos argumentos anteriores).


(2} Se os paradigmas são incomensuráveis, então nào podemos saber se as teorias
cientificas atuais estão mais próximas da verdade do que as suas antecessoras.
(3) Logo, não podemos saber se as teorias científicas atuais estão mats próximas
da verdade do que as suas antecessoras.

Em suma, durante a ciência normal o desenvolvimento da ciência é cumulativo Mas


as revoluções cientificas que resuitam na mudança de paradigma, são episódios de
desenvolvimento não cumulativo Tera Kuhn razão ao defender esta tese? Para funda­
mentares a tua avaliação, considera as objeções a Kuhn que se encontram na página 219.

9,4 Problema da objetividade da ciência


O problema da objetividade da ciência consiste em saber se a atividade científica nos
fornece uma imagem cada vez mais aproximada e mais completa da realidade tal como ela
é em si mesma. Este problema, que está relacionado com o que estudámos na página 213,
pode ser formulado da seguinte forma:

A ciência é objetiva?

É preciso clarificar que, para que a ciência seja objetiva exige-se que a avaliação e es­
colha das teorias seja feita com base em critérios imparciais. Ou seja, em critérios que não
sejam baseados em razões ou preferências de caráter pessoal. Para este problema existem
duas respostas principais:

r--------- --------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- i
• A tese de Popper: A ciência é objetiva
• A tese de Kuhn: A ciência não é totalmente objetiva.

Popper sobre a objetividade

Popper defende uma perspetiva racionalista da ciência, considerando que esta pro­
porciona conhecimento objetivo. Mas, se para Popper as teorias científicas são sempre
provisórias, como pode a ciência ser objetiva? Segundo Popper, a ciência é objetiva
porque cada teoria científica e avaliada por meio de testes cada vez mais severos de
falsificação, ou seja, pela tentativa de aplicação do modus íotfens na procura ativa por
contraexemplos.

Nessa tarefa, uma teoria só se mantém como científica e corroborada se passar nesses
testes rigorosos e objetivos, os quais podem ser levados a cabo por qualquer cientista,
independente mente das suas convicções pessoais. Essa tentativa de aplicação do modus
toffens não depende de fatores subjetivos. Portanto, para Popper neste processo não
intervém qualquer aspeto subjetivo.

217
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Assim, de acordo com Popper. o


conhecimento científico é objetivo por­
que a sua lógica de justificação {isto é,
essa procura ativa por contraexemplos)
é independente de quaisquer sujeitos,
dado que nenhuns elementos subjeti­
vos intervêm no modo como as teorias
cientificas são testadas. Mas será isto
plausível?

Ethan Murrow,
O Coso ftewsíofNsta {2018)

Kuhn sobre a objetividade

Thomas Kuhn discorda de Popper. Kuhn defende a tese de que se a escolha entre
teorias propostas por paradigmas que competem entre si depende em grande parte de
critérios subjetivos, então a ciência não é totalmente objetiva. É verdade que Kuhn reco­
nhece que há critérios objetivos, tais como:

r-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------
Nota 1. Fecundidade: quanto maior for a capacidade para conduzir a novas desco­
Se reparares, as
bertas cientificas, melhor é a teoria.
iniciais dos critérios
formam a palavra 2. Alcance: quanto mais coisas uma teoria conseguir explicar, melhor é.
<FACES>, tornar do 3 Consistência: quanto mais uma teoria estiver de acordo com outras ampla­
mais facil recordar mente aceites, melhor é.
estes critérios.
4 Exatidão: quanto mairs exatas forem as previsões, melhor é a teoria.
5. Simplicidade: quanto mais simples for uma teoria, melhor é.
\_.___________________________________________ d

No entanto. Kuhn sublinha que estes critérios são insuficientes na escolha das teo­
rias. havendo também fatores subjetivos. Isto porque, apesar dos critérios objetivos acima
apresentados serem partilhados pelos cientistas, estes frequentemente divergem na sua
aplicação. Mas porquê? Kuhn faz notar que uns cientistas podem dar mais importância a
um critério, ao passo que outros valorizam mais um critério diferente. Dado que os critérios
não estabelecem com rigor qual o grau de simplicidade, de fecundidade, etc., estes são
de alguma forma vagos ou imprecisos. Por exemplo, dada essa vagueza dos critérios, po­
demos ter esta situação: um cientista pode entender que uma determinada teoria 1 é mais
fecunda do que a teoria 2, mas um outro cientista pode achar que a teoria 2 é mais fecun­
da do que a teoria 1. Assim, diferentes cientistas podem interpretar os critérios objetivos
de modo diferente e chegar a conclusões diferentes. Com isso, vemos que na ciência os
critérios de escolha de teorias não são puramente objetivos dado que também entram
em consideração fatores de ordem subjetiva {como as interpretações pessoais).

De acordo com Kuhn, também fatores subjetivos como as convicções religiosas e po­
líticas dos cientistas, as preocupações sociais, as preferências estéticas e até o tempera­
mento podem interferir na escolha de teorias. Terá Kuhn razão ao defender isto?

218
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

Discussão dos posições de Popper e Kuhn

Em relação a teoria de Kuhn, nomeadamente contra a sua tese da incomensurabilidade,


podem ser apresentadas duas objeções principais.

Em primeiro lugar, a ideia de que os paradigmas são incomensuráveis' é implausi-


vel Repare-se que essa ideia ê contrariada pela própria história da ciência Por exemplo,
a teoria heliocêntrica foi inicialmente proposta por Copêmico porque permitia explicar
precisamente os mesmos fenómenos observados (como o movimento aparente de certos
planetas, eclipses, estações do ano. fases da Lua. etc.) ã luz da teoria geocêntrica, mas
de modo mais simples, exato e eficaz. Foi essa vantagem comparativa que levou Copér-
nico a abandonar a teoria geocêntrica. Do mesmo modo, ê plausível aceitar que de um
modo geral as teorias científicas atuais permitem fazer previsões mais rigorosas e exatas
do que as teorias do passado, corrigindo as anomalias das teorias anteriores. Mas, dessa
forma, jã estamos a comparar teorias e paradigmas. Esta objeção pode ser formulada nos
seguintes termos:

(1} Se um paradigma resolve as anomalias de outro, então ê falso que os paradigmas


são incomensuráveis.
(2) Frequentemente um paradigma resolve as anomalias do seu antecessor.
(3} Logo, ê falso que os paradigmas sào incomensuráveis.

Em segundo lugar, Kuhn propõe uma conceção relativista da ciência, colocando-a a


par com outros tipos de explicações, como mitos e lendas, os quais oferecem igualmente
respostas aparentemente satisfatórias para aqueles que os aceitam Mas se tudo não passar
de conceções ou de paradigmas de mundo inconciliáveis, aos quais se adere pelas mais
diversas razões (incluindo motivações psicológicas, ideológicas, religiosas ou políticas},
então tais conceções ou paradigmas não são diretamente confrontados com o mundo,
sendo apenas construções sociais tão justificáveis como os mitos e lendas. Contudo, se
assim é. não se percebe como pode a ciência ter crescente capacidade de prever o com­
portamento da natureza.

Esta última objeção pode ser formulada da seguinte forma:

.------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- ■.
(1) Se os paradigmas são incomensuráveis, então não podemos dizer que as teorias
científicas atuais estão mais próximas da verdade do que as suas antecessoras.
(2} Mas uma vez que as teorias cientificas atuais têm uma maior capacidade de prever
o comportamento da natureza do que as suas antecessoras, podemos considerar
que estão mais próximas da verdade do que as suas antecessoras.
(3) Logo, os paradigmas não são incomensuráveis

Se estas duas objeções forem boas, um dos aspetos centrais da teoria de Kuhn será
refutado, pois estamos a mostrar que afinal os paradigmas podem ser comparados e que
alguns são objetivamente melhores do que outros.

Quanto à teoria de Popper. em relação ao problema da evolução e objetividade da ciên­


cia, recorde-se que este filósofo defende que as teorias científicas sào sempre provisórias
e que nunca podemos dizer que alcançámos a verdade. Se Popper tiver razão, então tudo

219
O Coohecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

o que podemos dizer, na melhor das hipóteses, em relação a uma teoria e que tem um grau
elevado de verosimilhança, mas nunca que e verdadeira. Porém, pode advogar-se que
essa ideia é im plausível porque:

'------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- i
(1) Se nâo podemos saber que uma teoria científica é verdadeira, então não pode­
mos estar certos do funcionamento das máquinas construídas com base nessa
teoria cientifica.
(2} Ora. podemos estar certos do funcionamento de várias maquinas (como compu­
tadores ou aviões) construídas com base em teorias científicas.
(3) Logo, é falso que não podemos saber que uma teoria científica é verdadeira.

Ou seja, nâo podemos saber que uma teoria científica alcançou a verdade; então a nossa
confiança nas teorias cientificas e nos resultados instrumentais da ciência (como computado­
res e aviões) é minada. Contudo, se computadores, aviões e outras tecnologias construídas
com base em teorias científicas funcionam, então podemos considerar que a ciência pode
alcançar a verdade. Em suma, a conceção de Popper em relação ã evolução da ciência é im-
plausível caso se reconheçam os resultados da tecnologia e da ciência que a torna possível.

ESQUEMATIZANDO

CRITÉRIO
PROBLEMA DE VERlFlCABlLlDADE
DADEMARCAÇAO
CRITÉRIO
DE FALSlFlCABlLlDADE

RESPOSTA INDUTI VISTA


PROBLEMA DO MÉTODO
CIENTÍFICO
RESPOSTA
FALSlFlCAClONlSTA

POPPER:
ELIMINAÇÃO DE ERROS
PROBLEMA DA EVOLUÇÃO
DA CIÊNCIA
KUHN:
<• t !i + ã + ■ SUCESSÃO DE PARADIGMAS

POPPER: A CIÊNCIA
É INTEIRAMENTE OBJETIVA
PROBLEMA DA OBJETIVIDADE
DA CÉNCIA
KUHN: A CIÊNCIA NAO É
INTEIRAMENTE OBJETIVA

220
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

RESUMO

• Os principais problemas de filosofia da ciência são os seguintes: problema da


demarcação, problema do método científico, problema da evolução da ciên­
cia e problema da objetividade da ciência.

• O problema da demarcação tem a seguinte formulação: «O que distingue as


teorias científicas das que não sào cientificas?*

A. Com o critério de verificabilidade sustenta-se que uma teoria e cientifica


so se consiste em afirmações empiricamente verificáveis. Uma afirmação
empiricamente verificável e aquela cujo valor de verdade pode ser estabe­
lecido através da observação.

- Como objeção a esse critério pode advogar-se que as leis da nature­


za exprimem-se em frases universais, mas não e possível estabelecer a
verdade das leis da natureza através da observação.

- Também se pode criticar este critério apontando que a atitude de verifi­


cabilidade leva a aceitar como científicas teorias que não sào cientificas.

- Uma outra forma de criticar o critério de verificabilidade consiste em


defender que este e autorrefutante (refuta-se a si próprio), uma vez que
não satisfaz os seus proprios requisitos: ou seja, o critério de verificabili­
dade não e nem verdadeiro por definição nem pode ser verificado pela
experiência.

B. O critério de falsificabilidade e uma resposta, avançada por Popper, para


o problema da demarcação, segundo a qual uma teoria e científica se, e
so se, for empiricamente falsificavel e for muito informativa. Uma teoria
e empiricamente falsificavel se, e so se, for possível conceber um teste
experimental que seja capaz de mostrar que a teoria e falsa. Mas uma
afirmação pode ser mais falsificavel do que outra, ou seja, existem graus
de falsificabilidade. As teorias com maior grau de falsificabilidade sào as
teorias com maior grau de informação. Ou seja, as teorias informativas sào
as que correm maiores riscos de serem refutadas pela observação.

- Como objeção ao critério de falsificabilidade pode alegar-se que nem


todas as teorias científicas sào falsificáveis.

-Alem disso, ha falsificações inconclusivas.

- Por fim, a descrição que Popper faz do funcionamento da ciência não


está de acordo com a prática cientifica.

• O problema do método cientifico pode ser formulado como se segue: «Em


que consiste o método científico?*

A. A resposta indutivista sustenta que o método científico se desenvoh/e em


três momentos fundamentais: 1. a observação e o ponto de partida da in­
vestigação científica; 2. as teorias cientificas são elaboradas mediante um
processo de generalização indutiva; e 3. apôs a teoria ter sido elaborada,
tenta procurar-se confirmações adicionais a favor da teoria e tenta alcan-
çar-se generalizações indutivas mais vastas.

221
O Conhecimento e o Racionalidade Cientifica e Filosófica

B. Como objeção a resposta indutivista, pode salientar-se que não existe


observação pura.

- Além disso, muitas teorias científicas referem objetos que não são ob­
serváveis [como neutrinos, eletrões, genes, moléculas de ADN, etc.).

-A estrutura lógica de verificação de teorias dos indutivistas. no mo­


mento 3, e falaciosa (dado que comete a falácia da afirmação da con­
sequente).

- E. com base na epistemologia de Hume, pode defender-se que a indu­


ção e injustificável e. por conseguinte, a ciência seria injustificável.

C. A resposta falsifica cionista, desenvolvida por Popper, destaca que o mé­


todo cientifico tem três fases importantes: 1. formulação de um problema;
2. apresentação da teoria como hipótese ou conjetura; e 3. tentativas de
refutação da teoria através de testes experimentais.
Nesta forma de conceber o método científico não se utiliza a indução,
mas apenas a dedução, nomeadamente o modí/s to/fens, quando a teo­
ria é sujeita a testes experimentais numa tentativa de refutação. Segun­
do Popper. quando uma teoria vai resistindo aos testes de refutação
não podemos dizer que a teoria e verdadeira, pois e sempre possível
que surja no futuro um contraexemplo, que desconhecíamos, que refu­
te a teoria. Tudo o que podemos dizer e que a teoria e corroborada ou
fortalecida.

- Como objeção pode defender-se que não e razoável abandonar uma hi­
pótese ou teoria apenas porque foi refutada por um teste experimental.

- Bem como se pode defender que o falsificacionismo torna irracional a


nossa confiança nas teorias cientificas.

■ O problema da evolução da ciência tem a seguinte formulação: <Como pro­


gride a ciência?»

A. De acordo com a perspetiva de Popper, a ciência progride, ainda que de


forma irregular, por aproximação a verdade, embora a *verdade última*
seja inalcançável. Segundo o falsificacionismo de Popper, uma teoria e
melhor do que a anterior se resistir aos testes de falsificabilidade a que a
anterior não resistiu. Para Popper, a ciência avança por um processo ra­
cional de eliminação de erros, que consiste na substituição de mâs teorias
por teorias cada vez melhores (em analogia com a teoria da evolução das
espécies).

B. Ao contrário de Popper, Thomas Kuhn defende que a ciência não tem


de progredir em direção ao fim previa mente estabelecido, rejeitando a
ideia de que a ciência progride em direção a verdade. De acordo com
Kuhn, a historia da ciência e simplesmente uma sucessão de paradigmas.
Um paradigma e uma estrutura teórica que oferece uma visão do mundo,
uma mundividência ou perspetiva, e uma forma específica de fazer ciên­
cia numa dada área.

222
9.0 estatuto do conhecimento cientifico

C. Para explicar a sucessão de paradigmas, Kuhn nota que a historia da ciên­


cia tem cinco fases fundamentais: o período de pre-ciência (em que há
ausência de paradigma), o período de ciência normal (em que um dado
paradigma está em vigor), o periodo de crise científica (quando o para­
digma está em dificuldades), o período de ciência extraordinária (em que
ha uma competição entre paradigmas) e, por fim, a revolução cientifica
(quando ocorre uma mudan-ça de paradigma), voltando-se a um periodo
de ciência normal (pelo facto de haver um consenso em tomo de um novo
paradigma).

D. Para Kuhn, devido a tese da incomensurabilidade, não faz sentido dizer


que um paradigma ê melhor do que outro. Segundo a tese da incomensu­
rabil idade. e impossível fazer a comparação de paradigmas em virtude de
não haver entre eles pontos em comum. G Conceitos

• senso comum
• O problema da objetividade da ciência questiona se a ciência e inteiramente
objetiva ou não. • conhecimento científico

A. De acordo com Popper, a ciência e inteiramente objetiva, dado que cada • demarcação
teoria cientifica e avaliada por meio de testes cada vez mais severos de
• verificável e venficodo
falsificação, ou seja, pela tentativa de aplicação do modus toflens na
procura ativa por contraexemplos que podem ser aplicados de forma • falsificável e falsificado
imparcial.
• graus de falsificabilidode
B Pelo contrário, segundo Kuhn, a ciência não e inteiramente objetiva, uma
• método científico
vez que os critérios objetivos de escolha de teorias são insuficientes, ha­
vendo também fatores subjetivos (históricos, pessoais e sociais) que in­ • indutivismo
fluenciam a ciência.
• falsificacionismo
-Como cntica a teoria de Kuhn, pode defender-se que a ideia de que
• indução e dedução
os paradigmas são incomensuráveis e implausivel. dado que e possível
advogar que as teorias cientificas atuais são mais rigorosas e exatas do • conjeturas e refutações
que as teorias do passado. • corroboroçâo
- Bem como se pode notar um crescente sucesso e prestígio da ciência, • progresso científico
que parece evidenciar que as teorias atuais estão mais próximas da ver­
dade do que as anteriores. • verosimilhanço

- Como critica a teoria de Popper, e defensável argumentar que, se nunca • paradigmo


podemos dizer que alcançámos a verdade, então não se pode confiar • pré-aênao
na ciência nem estar certo do funcionamento das maquinas que utiliza­
• ciência normal
mos. sendo isso uma consequência negativa da teoria de Popper.
• cnse científica

• ciência extroordinána

• revolução científica

• incomensura bilidode

• objetividade

• subjetividode

223
O Conhecimento e a Racionalidade Científica e Filosófica

Questões propostas

GRUPO I

Nas questões do Grupo I, seleciona a única alternativa correta.

1. Uma proposição empiricamente verificável e aquela que

{A) ê comprovada pela experiência. (C) tem de ser comprovada pela experiência,

pode ser comprovada pela experiência. (D) tem de ser refutada pela experiência.

2. Uma objeção ao indutivismo é a ideia de que

muitas leis científicas referem entidades inobserváveis.

(B) todas as leis científicas têm um caráter particular.

muitas leis científicas referem entidades inexistentes.

(D) algumas leis científicas têm um caráter particular.

3. Indica qual das seguintes afirmações é empiricamente falsificável.

(A) 2 4- 2 = 4 (C) Os golfinhos vivem no mar.

(B) 2 + 2 = 5 (Db Alg uns porcos voam.

4. Popper considera que a ciência

é indutiva e racional. (C) não ê indutiva, mas ê racional.

(B) é indutiva e irracional. (D) não ê indutiva nem racionaL

5. Popper defende que

a ciência progride por eliminação do erro.

(B| os testes severos impedem o progresso científico.

a ciência progride, mas progresso não significa aproximação á verdade.

(D) a verdade ê relativa, pois nunca podemos saber se chegámos à verdade.

6. Segundo Kuhn, quando uma comunidade cientifica se dedica sobretudo á resolução de enig­
mas, a ciência encontra-se num período

(A) de revolução científica. (C) de ciência extraordinária.

(B) de crise científica. (D) de ciência normal.

7. Kuhn considera que, nos períodos de ciência normal.

IA) o progresso cientifico ê inexistente. (C) as anomalias do paradigma são persistentes.

(B) os cientistas aderem a diferentes paradigmas. (D) o progresso da ciência ê cumulativo.

224
Qucstôei proposta»

8. De acordo com Kuhn, nos períodos de ciência normal, os cientistas procuram

{A) aplicar os vários paradigmas existentes a novos factos.

(B| alargar o âmbito de aplicação do paradigma vigente.

<C|s ubstituir o paradigma existente por outro.

(D) falsificar as próprias teorias.

9. O fim de um período de ciência normal deve-se

{A) ao aprofundamento do paradigma. (C) à resolução de enigmas.

< Bf ã acumulação de anomalias. (D) à atitude critica própria da ciência normal

10. Segundo Thomas Kuhn,

(A) as revoluções científicas sâo muito frequentes na história da ciência.

(B) uma única anomalia é suficiente para derrubar um paradigma.

um excesso de anomalias pode originar um período de crise da ciência,

a ciência normal desenvolve-se independentemente de qualquer paradigma.

GRUPO II

Responde de forma direta e objetiva ãs questões que se seguem

1. Considera as seguintes afirmações:

a) Todo o cobre dilata quando e aquecido.

b) Todo o metal dilata quando é aquecido.

c) O metal dilata quando é aquecido ou nâo dilata quando é aquecido.

Qual ê a afirmação mais falsificável? E a menos falsificável? Justifica.

2. Lê o seguinte texto e responde ãs questões:

«Há vinte t cinco anos, tentei trazer esta questão a um grupo de estudantes de Física, cm Vie­
na, iniciando uma conferência com as seguintes instruções: “Peguem no lápis e no papel: ob­
servem cuidadosamente e anotem o que observarem!" Eles perguntaram, como c óbvio, o que
c que cu queria que eles observassem. Manifestamente, a instrução ‘Observem!" ê absurda. I_]
A observação c sempre seletiva. Requer um objeto determinado, uma tarefa definida, um interesse,
um ponto de vista, um problema.»

Karl Fopper. Ctmfcfunr» v l.lsbcu Al medíru. I1S»6JF, p. 72

2.1 No texto, Karl Popper refere uma critica aos indutivistas. Explica essa crítica.

2.2 Esclarece o papel que Popper atribui a observação na investigação científica.

225
O Conhecimento e a Racionalidade Científica e Füo*ófica

Questões propostas

3. Lê o seguinte texto e responde ãs questões:

«Dá-se o caso dc os astrólogos sempre se terem vangloriado de que as suas teorias se baseavam
num número enorme de verificações - numa quantidade esmagadora dc provas indutivas. Essa pre­
tensão nunca foi scriamente investigada nem explorada, e não vejo porque não haveria dc ser verda­
deira. Mas pouco ou nada interessante c saber se a astrologia foi muitas vezes ou poucas vezes verifi
cada; a questão e a dc saber se ela alguma vez foi scriamente testada por meio dc tentativas sinceras
de a falsificar.»

Kdil l\jppcr. ConJcriiKi* e He/tiraçflcx. Edições 7Ú I2DI>8>. p. 423

3.1 Identifica e formula o problema filosófico abordado por Popper no texto com o exemplo da
astrologia.

3.2 Explica a perspetiva de Popper sobre esse problema, recorrendo ao exemplo usado no texto

4. Lê o seguinte texto e responde ãs questões:

«Quando os paradigmas entram, como tem de acontecer, no debate acerca da escolha dc para
digmas, o seu papel c necessariamente circular. Cada grupo usa o seu próprio paradigma para argu
mentar a favor do seu paradigma.»

rhomas Kuhn. A Extri/lura das JíwoõiçOm Editara Guerra t* Pax (20091. p 14b

4.1 Será que, ao usarem os seus próprios paradigmas para argumentarem a favor do seu pa­
radigma, os cientistas não seguem, de acordo com Kuhn, critérios objetivos de avaliação?
Justifica.

4.2 Apresenta pelo menos dois exemplos de critérios não objetivos que, segundo Kuhn, influen­
ciam as decisões dos cientistas.

GRUPO III

Responde de forma direta e objetiva ã questão que se segue.

Lê o seguinte texto e responde à questão.

«Por exercerem a sua profissão em mundos diferentes, dois grupos de cientistas veem coisas dife
rentes quando olham de um mesmo ponto de vista na mesma direção. Isso não significa que possam
ver o que lhes aprouver. Ambos olham para o mundo e o que olham não mudou. Mas em algumas
áreas veem coisas diferentes, que são visualizadas mantendo relações diferentes entre si. É por isso
que uma lei, que para um grupo pode nem sequer ser demonstrada, pode. eventualmente, parecer
intuitivamente óbvia para outro.»

Thoims Kuhn. A Etfruti/ru dos KciyjIuçócs Ctenhpcux, Editora. Guerra c Faz I2L»I>9), pp. 124 12S

1. Concordas com a ideia de Kuhn de que «por exercerem a sua profissão em mundos diferentes,
dois grupos de cientistas veem coisas diferentes quando olham de um mesmo ponto de vista
na mesma direção»?