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Setembro de 2011

O SEGREDO DA
FLORESTA

Boa Esperança
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Este arquivo contém os primeiros onze capítulos do livro “O Segredo da


Floresta – Uma Viagem muito Esperada. Está disponibilizado gratuitamente
no site www.wix.com/ivanllcosta/osegredodafloresta como forma de
divulgação do trabalho do autor.

Os direitos autorais deste livro encontram-se registrados na Biblioteca


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Fica proibida a reprodução parcial ou total da mesma, através de qualquer
meio ou processo eletrônico, digital, fotocópia, microfilme, internet sem a
prévia e expressa autorização do autor.
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Este livro é o começo


da minha procura por respeito
às infâncias de meus filhos e
de todas as crianças.

Eu e meus filhos – autores indiretos deste livro –


Dedicamos esta história à mãe Ana Alice,
Sem a qual nada seríamos.
Eu dedico também a meus pais,
Antônio e Cida,
E a minhas irmãs, Luciana e Lívia.
A família é o maior bem que devemos ter.
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O desenho a seguir foi feito por Lucas, quando ele tinha


treze anos. Representa a propriedade de seu avô, fazenda Borzeguim,
município de Baependi, no sul de Minas Gerais, Brasil.
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SUMÁRIO
Introdução.........................................................................................006
1. Um local mágico.............................................................................009
2. Finalmente......................................................................................012
3. No alto da serra............................................................................015
4. Companhia inesperada.................................................................017
5. Fazenda Borzeguim......................................................................019
6. A casa de Luciana.........................................................................023
7. Primeiro a diversão......................................................................025
8. Todos juntos.................................................................................029
9. Desafio...........................................................................................032
10. Entrada da reserva....................................................................036
11. Sentimento novo.........................................................................042
12. Festa junina em novembro.......................................................043
13. A proposta de Luciana..............................................................049
14. Visita inesperada.......................................................................055
15. Ajuda dos céus...........................................................................058
16. A cozinheira desconfia.............................................................062
17. Estranha mudança......................................................................064
18. Quase............................................................................................070
19. Começa a aventura.....................................................................071
20. Um dia na RPPN..........................................................................073
21. Fogo...............................................................................................078
22. Fim do passeio............................................................................085
23. Preparativos................................................................................089
24. Preocupação na fazenda...........................................................090
25. Noite de caça.............................................................................092
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INTRODUÇÃO

A mata é um local mágico. As pessoas apressadas,


geralmente os adultos, passam por ela e nada de extraordinário
veem. Só as crianças, de fato ou de espírito, percebem o que
acontece entre as árvores das nossas florestas.
Não falo dos seres míticos. É interessante notar o que
as pessoas grandes dizem desses ilustres habitantes das
tradições populares: não existem na realidade, são inventados
por vários motivos e nenhum deles vale a pena para as pessoas
sérias.
Ontem, um grande amigo tentou me convencer de que o
mito do lobisomem foi criado em Minas, quando um mineirinho,
a caminhar só na floresta, viu um lobo guará e este lhe
parecera maior devido à baixa quantidade de luz.
- Depois disso – disse ele – ninguém anda mais tranquilo
na floresta. E tudo por causa de um mineirinho medroso!
Perdoem ao meu amigo: ele não estava lúcido. Mesmo
assim, tentei argumentar que a história do lobisomem chegara
ao Brasil com os portugueses, à época em que os europeus
descobriram a existência das terras de cá. Isso ocorreu muito
antes de surgir Minas Gerais e, consequentemente, muito antes
dos mineirinhos.
- Então prove! - ordenou meu amigo.
Eu não tinha provas disso no momento, nem ele as tinha
de sua suposição fantástica. Cada um continuou com a sua
convicção. Aliás, como são necessárias as provas no mundo dos
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adultos! Muitas das discussões, brigas e até guerras no nosso


planeta poderiam ter sido evitadas se alguém pudesse provar,
sem sombra de dúvida, o que estava dizendo.
Muitas das coisas mais maravilhosas que escutamos ou
lemos não podem ser atestadas; e, assim, elas podem nos
parecer falsas, perdendo o brilho e a magia.
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UMA VIAGEM MUITO ESPERADA


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1. UM LOCAL MÁGICO

Lucas e seu avô, José Antônio, agacharam-se atrás de


pequenos arbustos secos, que amparavam poucas folhas verde-
claras, banhadas no sol. Em sua frente, o menino via algo
inacreditável. Um imenso elefante cinzento pastava no meio da
floresta de seu avô. Sua tromba rugosa e áspera retirava
folhas e frutos de embaúba e os levavam a sua boca.
A cena era muito tranquila, porém os dois sabiam o
quanto elefantes poderiam mudar seu temperamento
rapidamente, transformando-se em máquinas letais. Era
perigoso estar ali, tão perto.
- Será que fugiu do zoológico, vô? – inquiriu o menino.
- Não – replicou o velho – eles sempre viveram aqui.
Lucas estava admirado. Viu novos elefantes chegarem
tranquilamente e juntarem-se ao primeiro. De repente, um dos
animais ficou mais agitado. Algum perigo se aproximava da
manada. Uma trombeta soou em aviso; outras prontamente
responderam. O barulho era infernal: cada elefante era uma
buzina de caminhão. O que seria aquilo?
Um bando de lêmures, brincando e pulando, atravessou o
emaranhado de galhos que se erguia no teto da floresta. Um
deles parou, olhou para o menino, e atirou em sua testa um
fruto de andiroba.
- Ai!
- Vamos seguir a trilha – sugeriu o avô. - Acho que aqui
está ficando perigoso para a gente.
Eles seguiram a trilha morro acima. Logo à frente,
começaram a escalar um rochedo íngreme. Lucas suava; suas
mãos doíam. Uma libélula pousou sobre uma pedra que estava
ao seu lado. Ele olhou suas belas asas translúcidas, sobre o
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corpo vermelho e marrom. Tentou tocá-la sem sucesso: o inseto


voou para outro lugar. O menino sentia que, de alguma forma,
isso já lhe tinha acontecido.
Quando chegou ao alto do morro, estava escuro. Seu avô
já tinha montado as enormes barracas e o convidava a tomar
um banho quente.
- A comida está quase pronta.
Lucas estava faminto. Comeu e bebeu fartamente, e
começou a bocejar deitado na relva. Adormeceu a ouvir os
sapos e os grilos e a ver aqueles milhares de pontos claros no
céu escuro, na imensidão incompreensível do universo.
Subitamente, ele foi acordado por seu avô. O rosto do
velho estava tenso e seu dedo indicador pedia ao menino
silêncio. Lucas olhou-o atônito. Nesse momento, viu a sombra
inconfundível de um tigre, e ouviu um ronrom grosso e gélido. O
animal parou. Sua cabeça girou em direção à barraca. O velho
homem colocou as duas mãos em sua espingarda e preparou-se
para o pior.
Ouviram a respiração suave do tigre se aproximando. Os
pés do animal subiam e desciam sem barulho. Ao chegar à
barraca, o tigre parou novamente, indeciso. Olhou para os dois
lados e pulou, inesperadamente, para a mata.
Lucas e seu avô saíram do abrigo. Estavam à beira de um
enorme rochedo. A visão era espetacular: a imensidão de
terras e fazendas, uma delas a de seu avô, estendia-se até a
cidade de Baependi. No fundo dessa paisagem, o Sol enviava
seus primeiros raios ao nosso planeta. Toda a mata, todas as
plantações, a Terra inteira estava com tons de ouro. Naquele
momento, o menino sentiu-se realizado. Não tinha esperado em
vão; seu sonho, antigo sonho, tornava-se realidade. Só uma
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palavra lhe visitava a mente, síntese de toda a emoção que


sentia. Gritou ao vento:
- Finalmente!
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2. FINALMENTE

O despertador tocou. Lucas levantou-se decepcionado:


fora tudo um lindo sonho. Da janela, o céu azul sem nuvens
sorria-lhe amistosamente. Havia algo estranho que o menino
não conseguia lembrar no momento. No calendário, viu que era
dia dois de novembro de dois mil e seis, quinta-feira. Exclamou:
- Finalmente!
Era seu aniversário. Mas esse era só um dos motivos de
sua alegria, talvez o menor. O segundo era uma viagem que
Lucas aguardava há mais de um ano.
No ano anterior, Tiago, pai de Lucas, perguntara ao
menino que presente ele iria querer no aniversário.
- Tem tanto tempo que não vamos na fazenda da vovó e
do vovô – respondeu Lucas. - Eu queria ir lá!
- Mas, meu filho, sua vó está doente, fazendo
tratamento aqui em BH. Você sabe que não podemos ir lá até
ela melhorar.
- Só que eu tenho tanta saudade de lá!
Sua avó demoraria ainda dez meses para se
restabelecer completamente da moléstia que havia adquirido
em sua longa vida.
Tiago tinha aproveitado essa quinta-feira, feriado de
finados, para fazer a viagem por três motivos. O primeiro era
que no Ministério da Agricultura e Pecuária não haveria
expediente na sexta-feira, pois o presidente do Brasil
decretou que no dia três de novembro ninguém trabalharia nas
repartições públicas federais.
O segundo era o aniversário de Lucas. Tiago imaginou
que a viagem seria um presente ideal para seu filho. Lucas
fazia treze anos de vida nessa data.
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O terceiro era que o avô de Lucas, José Antônio,


conseguira junto ao IBAMA a instituição de uma Reserva
Particular de Patrimônio Natural na mata de cem hectares que
seu neto tanto gostava. O avô tinha chamado a reserva de
RPPN Santa Lúcia. RPPN era a sigla de Reserva Particular de
Patrimônio Natural e Santa Lúcia em homenagem à sua esposa,
Maria Lúcia.
Para Lucas, essa mudança repentina de nome, de mata
para RPPN Santa Lúcia, através de um ato que tinha saído no
diário oficial da união, era muito empolgante. A mata
transformava-se em um local diferente, quase mágico. Ele
estava ansioso para entrar na RPPN Santa Lúcia.
- Que bom! – exclamou Lucas depois que saiu do seu
quarto. - Pai, Mãe, vamos! Quero ver a vovó e o vovô e ir na
RPPN Santa Lúcia.
Lucas atravessou o corredor e foi direto ao quarto dos
seus pais, para acordá-los. As malas estavam prontas. Era só
tomar o café da manhã e voar para Baependi.
- Calma, filho! – pediu Tiago. - Deixa eu te dar parabéns
e o seu presente primeiro.
Lucas recebeu de seu pai uma caixa quadrada, envolvida
por um papel de presente multicolorido. O papel era tão bonito
e fora o presente tão bem embalado, que Lucas o abriu
devagarzinho, para não estragá-lo.
- Parabéns, meu filhinho! – disse sua mãe, lambuzando o
menino com beijos.
- Pai, será que dessa vez o vô vai pagar a promessa que
fez para mim? – perguntou o menino.
- Não sei meu filho – respondeu o pai. - Vamos ver. Sei
que ele fez a promessa há muito tempo, mas se ele não cumprir
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desta vez é por que ele tem um bom motivo. Um dia você vai lá,
pode ficar tranquilo! E aí, gostou do presente?

Lucas foi o primeiro a entrar no carro. O segundo foi


Tiago. E os dois esperaram algum tempo até Jade, mãe de
Lucas, arrumar-se para a viagem.
- Finalmente! - exclamou Tiago quando sua mulher
chegou e sentou-se ao seu lado.
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3. NO ALTO DA SERRA

O velho se espreguiçava em frente a uma das mais belas


paisagens de nosso planeta: a Serra da Mantiqueira. Estava
sentado em um banco feito por ele há muito tempo. Ele assistia
à doce neblina cobrir boa parte da serra, a entrar por grotas e
matas fechadas: uma beleza indescritível. O frio denso
penetrava nos seus ossos, aumentando a sensação
extraordinária que sentia – ele se sentia único.
Há muito tempo, morava sozinho naquela região, há uma
altitude de mais de dois mil metros. Tinha sido exilado por um
conselho singular, desconhecido para a raça humana. Na
verdade, para o resto da raça humana. Ângelo – esse era o seu
nome – era o único ser humano que conhecia esse conselho. Na
verdade, ele tinha visto uma das reuniões e fora julgado em
outra. Desde então, participava de todos os encontros como
ouvinte. Se permitiam - os participantes eram muito ariscos
com os humanos - ele podia opinar em um ou outro assunto.
Ângelo se formara em Ciências Biológicas no ano de mil
novecentos e oitenta. Fizera mestrado e doutorado. Depois de
ler um livro excepcional, “O naturalista curioso” de Niko
Tinbergen, decidira que iria viver sempre no mato, indo vez ou
outra à cidade. Em uma de suas pesquisas, encontrara
evidências de um fato fantástico, que o transformaria em uma
celebridade instantaneamente. Porém, ao confirmá-lo, fora
denunciado por quem menos esperaria. Desde então, tinha sido
banido da convivência com outro ser humano. Seria isso ou a
morte.
Por isso, estava ele ali, desterrado, solitário, em um dos
lugares mais bonitos já vistos. Não, não se sentia triste - ele
se sentia único.
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Nesse instante, um movimento na mata fez os pássaros


voarem. Ele olhou para trás e viu duas enormes onças se
aproximando ameaçadoramente. Não se moveu – esperou
pacientemente a chegada dos dois animais, enquanto olhava as
serras do Parque Nacional do Itatiaia. Seu momento, enfim,
havia chegado.
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4. COMPANHIA INESPERADA

- Falta muito para chegar? - perguntou Lucas aos seus


pais.
- Calma, meu filho - respondeu Jade. - Acabamos de sair
de BH. Olha lá o Pingo de Ouro. Falta mais de quatro horas pra
gente chegar.
- Mas, mãe...
- Eu não sei se você vai estar tão aflito assim quando
souber quem vai estar lá.
- Ah, não, mãe! Diz que a Lu não vai dessa vez. Ela vai
estragar a viagem.
- Pode parar com isso, Lucas! Dessa vez não quero saber
de problemas com sua prima. Sua avó ainda está recuperando
da doença e não vamos na casa dela para aprontar nenhuma
confusão.
Lucas calou-se. Ele sabia que não adiantava explicar à
sua mãe como sua prima Luciana implicava com ele, atrapalhava
as suas brincadeiras, e como eles eram diferentes. A presença
da prima na fazenda do avô estragaria seu feriado.
- Além disso, vocês são primos – atalhou Tiago – e é
muito importante que vocês comecem a tratar bem um ao
outro. Quando crescerem, um vai cuidar do outro. Nenhum dos
dois tem irmãos: o futuro da família do meu pai está na mão de
vocês. Você deve isso ao seu avô.
Isso foi golpe baixo.
Tiago gostava muito de Luciana. Por isso, ficava muito
triste com as constantes brigas que aconteciam entre ela e seu
filho. Ele desejava que os dois fossem muito amigos.
Lucas calou-se novamente. Colocou a testa no vidro
gelado do Uno. Não estava mais com tanta pressa para chegar
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à fazenda. Sabia que, apesar de todas as coisas maravilhosas


que faria, vez ou outra, teria que aguentar a chateza de sua
prima, sua mania de computadores, videogames e alta
tecnologia. Tiago falou:
- Quando a gente chegar, vai ter uma festa pra
comemorar o aniversário de Lucas e a volta da mamãe pra
fazenda. O senhor Antônio queria que a festa fosse no feriado,
com todo mundo junto.
- Você devia ter avisado antes! – exclamou Jade. - Não
compramos um presente pra sua mãe.
- Não se preocupe. Ele pediu para não levar presente.
Preparou uma surpresa na festa. Vai ser um final de semana
muito agitado!
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5. FAZENDA BORZEGUIM

José Antônio andava de um lado para o outro em seu


quarto. Acordara às cinco da manhã e desde então os ponteiros
do relógio pareciam não andar. Esperava ansiosamente a
chegada de seus dois filhos e seus dois netos. Além disso,
esperava muito que a festa que preparara começasse. Por
causa da terrível doença de sua esposa, há muito tempo a sua
família não se reunia para festejar algo. Mas graças a Deus,
agora todos poderiam comemorar tranquilamente.
- Sente-se, homem! - ordenou Maria Lúcia. - Se você
continuar andando de um lado para o outro assim, vou pensar
que voltei para o hospital. Eles já vão chegar, hora!
- Nem me lembre disso, mulher! Agora é hora de pensar
só em coisas boas. Há muito tempo não podemos reunir toda a
família. Quero que todos, principalmente você, fiquem muito
felizes.
- Ah, José!
Ele saiu do quarto. Seria melhor trabalhar para os
ponteiros do relógio deixarem de ser preguiçosos. Alguém
havia cortado os fios de arame da cerca que protegia o lado sul
da sua mata e, agora, estava entrando gado naquela parte.
Assim, não sobraria uma plantinha nova, pois as vacas e os bois
comeriam todas: depois que as árvores velhas morressem, que
plantas as substituiriam na floresta?
Fora seu pai que o ensinara a cuidar da natureza. Era
uma época sem limites ou leis para o corte de árvores.
Precisava-se de dinheiro, pastagem ou área para o cultivo, lá se
iam os homens procurá-los nas matas. Cortavam as mais belas
árvores sem critério algum, como se a natureza fosse uma
fonte inesgotável de bens e serviços para o ser humano. Dessa
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forma, o homem tratou a natureza por muito tempo, como se


nada que ele retirasse dela fosse acabar pelo mau uso. Mas a
resposta da natureza, mãe de todos os seres vivos, veio rápida:
efeito estufa, aquecimento global, enchentes, falta d’água,
perigo de doenças são consequências da maneira errada que
nossos avôs, pais e nós mesmos tratamos a natureza.
Enquanto consertava a cerca, José Antônio olhava para
a mata, a admirar a beleza das copas das árvores. Quantas
coisas lembravam-lhe a mata! Animais maravilhosos que tinha
visto - onças, bugios, lobos-guarás, muriquis e rãs e cobras e
lagartos que nem sabia o nome! Insetos magníficos - besouros,
libélulas, borboletas - multicoloridos, obras de arte da
natureza, em escala reduzida. Comprara uma lupa para
visualizar melhor esses pequenos seres vivos, mas quando tinha
percebido que teria que matar os insetos e espetá-los em
agulhas, para depois observá-los na lupa, arrependeu-se
profundamente da aquisição. E ela continuaria guardada se seu
neto não tivesse encontrado uma solução extremamente
inteligente.
- Vovô, e se a gente, em vez de furar o inseto vivo,
furar o morto? – arriscou Lucas.
- É uma boa idéia, meu neto – respondeu José Antônio.
Eu não tinha pensado nisso. Nós dois poderíamos fazer
expedições na mata para procurar insetos mortos. Aí, nós os
traríamos para a nossa lupa, sem nos preocupar. É uma ótima
idéia!
Dessa maneira, foi resolvido o dilema da lupa.
O velho homem sentou-se um pouco para descansar.
Limpou o suor da testa com o seu velho lenço que a esposa
havia bordado. O sol continuava subindo. Não poderia trabalhar
muito mais. Dessa vez, não levou seu companheiro desde os
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tempos de criança, Niquinho, que morava na fazenda em uma


casa ao lado da sua. Decidiu levantar-se e voltar para casa.
Tiago ainda demoraria a chegar.
- O jeito é esperar em casa mesmo – disse.
Na descida do morro, enquanto admirava os jacarandás
e as canelas, árvores muito frequentes na região, viu a sua
nascente preferida. Parou para beber, mais uma vez, daquela
água pura e límpida, que descia em direção às terras de seu
vizinho, a chiar, a chicotear as rochas sujas, manchadas de
limo, a brincar entre as pedras que afloravam no morro. Toda
vez que bebia daquela fonte, José Antônio sentia-se forte e
animado, como quem fosse viver ainda muitos anos.
Dali viu a sede de seu hotel-fazenda e isso lhe fez
lembrar uma das conversas que tivera com seu filho, naquele
local, há muitos anos passados:
- Olhe, Tiaguinho. O que tem no alto daquele morro?
- A mata, papai.
- Isso, meu filho. Muito bem. E o que tem dentro da
mata?
- Têm os animais, as minas d’água.
- Ótimo. E se eu lhe perguntasse o que você prefere:
menos dinheiro ou menos água, o que você responderia?
- Menos água. Com o dinheiro eu compro as terras do
vizinho e fico com a água dele.
- Mas, se o vizinho também pensasse assim, não haveria
muita água na fazenda dele para você comprar. E se todo
mundo pensasse assim na nossa região, haveria menos água
para todos daqui, e até para quem mora na cidade grande lá
embaixo. O maior bem que tem nessas terras, meu filho, são as
águas que por aqui passam. Um homem vive sem dinheiro, da
caridade dos outros, mas ninguém vive sem água. E se eu
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cortasse aquelas árvores lá em cima do morro, e aquelas que


estão perto da nascente, o que aconteceria?
- Eu não sei papai. O quê?
- Vou lhe dizer e nunca se esqueça disso. Se eu tirasse a
mata e lá formasse um pasto bem bonito, e ali deixasse os bois
ruminando, as águas daquelas nascentes iriam diminuir,
diminuir, e algumas delas poderiam até acabar. E para onde
aquelas águas vão?
- Pra nossa casa.
- Então, filho, se eu cortasse aquelas árvores, haveria
menos água para a gente beber. Porém, eu ganharia mais
dinheiro, porque haveria mais gado, e eu venderia mais leite e
carne. O que você acha que lhe faria mais falta, filho, dinheiro
ou água?
- A água.
- Eu concordo. E também por isso protejo aquelas
matas.
- Por isso e pelos passarinhos que o senhor tanto gosta,
não é pai?
- Isso mesmo!
- Mas por que que as árvores protegem a nascente, pai?
José Antônio deu uma risada gostosa e respondeu:
- Essa é a palavra, filho: proteger. Eu não teria pensado
em outra melhor. Bom, não sei o porquê! Só sei, com o tempo
que eu tenho de vida, que é assim. E você deve me respeitar
por isso, velhaco, pois conheço o mundo mais e melhor do que
você.
O velho homem desceu o morro em direção a sua casa, a
lembrar esse tempo encantado de sua existência; belas
lembranças que, todos sabemos, não voltam à vida.
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6. A CASA DE LUCIANA

Eram onze horas da manhã quando Lígia levantou.


Encontrou sua filha no computador, de pijama e em jejum. Com
certeza, navegava na internet, conversando sobre meninos com
uma de suas colegas de sala.
Foi ao microondas esquentar os pães da véspera.
Chamou Luciana e foi acordar seu marido para o café.
- Vamos, meu bem, acorde! - disse Lígia.
- Só mais uns minutinhos - respondeu o marido,
sonolento.
- Luciana já acordou. Você sabe que papai já deve estar
nos esperando. É umas duas horas daqui até lá e já estamos
atrasados para o almoço.
Pela janela do apartamento, Mauro viu a nave do “et”,
uma caixa-d’água em forma de disco voador que fora
construída na cidade de Varginha, em homenagem à aparição do
“et”.
Na mesa de café, de ordinário ficavam calados, mas
desta vez a Lígia iniciou assunto sobre a viagem:
- Então está tudo combinado. Vai ser uma festa
surpresa pra comemorar a melhora de mamãe e o aniversário
de Lucas.
- Vai estar todo mundo lá, mãe? - perguntou Luciana.
- Sim. – respondeu Lígia. - E trate de se comportar bem
neste fim de semana, mocinha. Não queremos saber de
confusões pra não incomodar a sua avó. E você, Mauro, trate de
melhorar essa cara!
- Não começa de novo, Li – respondeu o marido. - Não
que eu não goste dos seus pais, mas aquela fazenda, poeira,
pernilongos e carrapatos, me dão arrepios! Seu pai nem TV à
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cabo tem ainda. Parece que vive na idade da pedra. E não é por
falta de dinheiro, não, é doideira dele.
Luciana pensou: “De novo, não”. Toda a vez era a mesma
discussão de como ir e quanto tempo ficar na casa dos avós.
Era melhor arrumar as suas coisas para não ficar sem algo
interessante para fazer lá.
- Notebook, celular, câmera digital, videogame portátil,
MP3 – enumerou Luciana, colocando tudo em sua mochila. -
Acho que não esqueci nada. Peraí!? Quase esqueço o GPS.
Esse era o seu novo brinquedo, presente do pai. É um
aparelho que, utilizando sinais de satélites, fornece em forma
de números a posição exata de uma pessoa em qualquer ponto
da Terra. Era a primeira vez que ela usaria seu GPS fora de
Varginha.
- Mãe, já arrumou minha mala de roupas? - gritou
Luciana.
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7. PRIMEIRO A DIVERSÃO

Maria Lúcia remendava uma velha calça que seu marido


tinha acabado de rasgar. O homem tinha dinheiro suficiente,
mas usava as roupas para trabalhar até o ponto de elas
apodrecerem no seu corpo. Pelo menos ela se distraía um pouco
com esse serviço. Com a idade e com a doença ela não fazia
tanta coisa quanto antigamente. A maior parte do dia rezava.
Lavar alguma louça e fazer os quitutes que o marido adorava
era o principal de sua atividade diária. Para quem havia passado
a vida cuidando da casa, do marido e dos filhos, aquele não era
um modo agradável de envelhecer.
- Ah, José! - dizia.
De repente, uma buzina tocou duas vezes. Era seu filho
que chegava. Lúcia se levantou e foi até a porta, a tempo de
ver seu marido descendo o morro quase correndo.
- Olá, bom dia a todos! - gritava ele, sorrindo
incessantemente.
- Pai! Tudo bem com o senhor? - perguntou Tiago.
- Graças a Deus, meu filho! E você, Jade, minha querida,
como está?
- Tudo bem, senhor José – respondeu ela.
- E onde está aquele menino bagunceiro, que não o vejo
no carro, ficou em BH?
- Não. Viu o Niquinho levando o Pocotó pra pastar,
desceu rápido do carro e montou nele. Deve estar chegando aí.
- Ah, velhaco! Puxou o avô. Deixem o menino para depois.
Vamos entrando, vou pedir para o Tião levar essas malas ao
quarto de vocês.
- Meu filho! – exclamou Lúcia, com os olhos rasos de
água.
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- Mamãe! Como vai a senhora?


- Vou indo, Tiago. Foi tudo bem na viagem?
- Vamos entrar e acabar esta conversa dentro de casa –
interrompeu José Antônio. - Sua mãe fez um bolo de fubá para
vocês que deve estar uma delícia. Sua irmã deve chegar depois
das duas e, até lá, não almoçamos.

Lucas cavalgava pelo pasto do avô, aproveitando a


sensação de liberdade. Viu o gado pastando na braquiária, o
estábulo, a queijeira - em que o avô produzia deliciosos queijos
artesanais - o hotel-fazenda, a estrebaria e, por último, viu a
RPPN Santa Lúcia. Ela começava na parte superior da montanha
e descia na forma de um triângulo invertido quase até a sua
base. Esse maciço florestal ainda se conectava na parte
superior à vegetação pertencente ao Parque Estadual da Serra
do Papagaio, o que o tornava ainda mais impressionante. Lucas
sentiu uma irresistível vontade de ir até a RPPN. Porém, não
vira os avós ainda. E mesmo que os tivesse encontrado, Lucas
sabia que não poderia ir à mata sem a supervisão de um adulto.
Ele sempre lhe dizia: “Lucas, de longe, a mata parece pequena e
fácil de atravessar, mas lá dentro, ela é um labirinto
interminável. Só quem a conhece bem consegue sair de lá”.
- Niquinho – chamou Lucas. - Vem aqui pegar o Pocotó,
por favor. Vou ver meu avô. Não esqueça de falar com o seu
neto pra me procurar mais tarde pra a gente brincar.
- Está bem, doutorzinho. Eu aviso o Tonico.

Dentro de casa, havia café e bolo de fubá, que Lucia


fizera especialmente para as visitas e para seu marido. Depois
disso foram conversar na sala de estar.
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- Bom, filho, no ano passado, mais ou menos nessa época,


veio um fogo terrível do Parque – dizia José Antônio. - Nós o
cercamos do outro lado da montanha, senão a nossa mata tinha
ido embora. Fizemos um aceiro enorme, até trator de esteira
usamos para isso. E ainda foi preciso umas trinta pessoas para
apagar o incêndio. Você devia ter visto: apareceram aviões
amarelos que jogavam água no fogo, helicópteros, tudo do IEF
ou do IBAMA, penso eu. Mas esse apoio vem agora, que
fizeram o parque tem uns nove, dez anos. Antes era só o
pessoal aqui da região mesmo, e Deus, é claro.
- E descobriram quem colocou o fogo, pai?
- O mesmo de sempre. Sabe-se quem é, mas não se pode
provar. Usam o fogo para renovar a pastagem e acabam com o
solo. Com o tempo, o pasto não serve para mais nada. Aqui na
minha fazenda, ninguém tem permissão para...
- Vovô! - gritou Lucas da entrada da sala.
- Lucas, vem cá me dar um abraço! – chamou o avô. - Que
história é essa de chegar a minha fazenda e nem ter a
dignidade de cumprimentar seu velho avô e a sua adorada avó
que tanto o amam?
- Uai, vovô! É que vi o Pocotó e deu tanta vontade de
andar nele um pouquinho que eu acabei...
- Pare com isso! Vai dar um abraço em sua avó. Eu já fui
menino e sei como são essas coisas. Primeiro a diversão, depois
os que amamos. Aproveite, menino! Você vai sentir muita falta
disso.
Lucas foi abraçar a avó, que ficou com os olhos
vermelhos ao vê-lo.
- Meu menino, como você cresceu! – assustou-se Maria
Lucia. - E está lindo! A cara do pai quando ele tinha a sua idade.
28

- Obrigado, vovó - Lucas respondeu meio sem graça dos


beijos e abraços calorosos que recebia de Lúcia. - Vovô, quando
a gente vai visitar a RPPN Santa Lúcia?
- Ah, velhaco! Sabia que vinha de Belo Horizonte com
essa mata na cabeça. Vamos ainda hoje, depois do almoço.
Temos que esperar a sua prima, porque ela pode querer ir
também.
- A Lu? Ela vai conhecer a mata só se for pela internet.
Ela só quer saber de computador, vovô! Ela não vai querer ir.
Tenho certeza.
- Pare com isso, porque eu já conheço as suas opiniões
sobre a sua prima. Não podemos ir agora de qualquer maneira,
pois o almoço não está pronto.
Lucas ficou triste. Teria que esperar mais um pouco
para ir à mata. Ele queria ser mais velho para poder fazer isso
sozinho, sem depender de ninguém. Andar livremente por toda
a reserva, ou mais longe, e ver os animais e plantas incríveis
que moravam nela.
A casa ouviu outra buzina, que tocou uma vez só.
29

8. TODOS JUNTOS

Mauro dirigia seu Palio “Adventure” pelas sinuosas


estradas rurais de Baependi. Passava pelo Gamarra, atrás da
comunidade de São Pedro e estava quase chegando à fazenda
Borzeguim. Aquele marrom pálido da estrada e a poeira
levantada pelos pneus do seu carro começavam a incomodá-lo.
Finalmente, viu à sua esquerda o ribeirão que limitava a
propriedade de seu sogro. Atravessou a ponte de ferro que
passava sobre o curso das águas provenientes da Serra do
Papagaio. Seguiu pela estrada de terra e chegou a uma
bifurcação logo à frente. Uma placa indicava que à direita, o
caminho levaria ao hotel-fazenda de José Antônio. Pegou o
caminho da esquerda, passando por uma porteira aberta onde
estava escrito: “Seja bem-vindo”.
- Como é bonita essa entrada que o papai fez – afirmou
Lígia, ao ver uma vez mais a alameda de araucárias, gigantes de
um mundo antigo plantados nos dois lados da estrada.
O carro atravessou o córrego de águas claras que
riscava a Fazenda Borzeguim de leste a oeste. Luciana viu o
carro de seu tio e suspirou. Seu pai apertou a buzina uma só
vez, anunciando a sua chegada.
Lucas não conseguiu disfarçar a cara de decepção
quando viu a sua prima saindo do carro, com a sua mochila em
que, como ele dizia ao seu amigo Tonico, estavam todas as
coisas que ela precisava para sobreviver na fazenda.
- Oi, primo – disse ela.
- Oi.
Depois dos cumprimentos, todos sentaram à mesa para
almoçar. José Antônio, visivelmente feliz, falava de tudo. Há
muito tempo não se via um almoço tranquilo em sua casa. No
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almoço foram servidos angu, galinha caipira com batata, arroz,


feijão-preto, couve, farofa, boa parte disso produzido em sua
fazenda, sem agrotóxicos, sem fertilizantes químicos. As
sobremesas tinham frutas de diversos tipos: laranjas, abacate
com açúcar, torta de limão e o doce preferido do velho homem
- goiabada com queijo!
Lucas e sua prima, desde pequenos, dormiam juntos em
um dos grandes quartos da sede da fazenda. Depois do almoço,
cada um foi para a sua cama, onde estavam suas malas. Luciana
foi pegar seu GPS e Lucas seus acessórios para passear no
mato: canivete, perneira, lupa e outros. Iam saindo do quarto
na mesma direção, fato bastante incomum. Lucas perguntou:
- Onde é que você está indo?
- Pra fora, ué! Tenho que testar meu GPS – respondeu
Luciana.
- E pra que que serve isso?
- Marcar pontos, fazer trilhas e outras coisas.
- Eu sabia: não serve pra nada! É só mais uma de suas
coisas malucas. Não é útil pra mim.
- Se você ficar sozinho no mato, esse GPS seria muito
útil.
- Eu nunca me perderia no mato. Sou inteligente e
conheço bem a região. Vovô sempre me leva pra passear de
cavalo ou a pé. Não fico o dia inteiro no computador, dentro de
casa. Não preciso disso. Você, sim, precisa. E já que quer sair
de casa, é melhor levar esse seu GTS pra não ficar perdida
mesmo.
- É GPS, seu...
Não continuou, por que o avô a interrompeu, dizendo:
- O que as duas crianças acham de parar de ficarem aqui
discutindo e irmos todos visitar a RPPN do vovô? Você poderia
31

levar seu aparelho de GPS, Luciana, e os dois se divertiriam


juntos.
- Eu não sou criança vovô, sou um homem! - exclamou
Lucas.
- E eu sou uma pré-adolescente – afirmou Luciana.
- Está bem. Mas o principal não disseram: vamos ou não?
32

9. O DESAFIO

Antes de saírem, Luciana disse:


- Esperem. O GPS está pegando os satélites e eu ainda
não liguei a trilha.
- Ai, meu Deus! - disse Lucas, e depois sussurou para o
seu avô. - Tem certeza que eu e você não podemos ir sozinhos
pra lá, vovô?
- Não. Sua prima vai e nós vamos nos divertir muito –
respondeu José Antônio.
Quando o GPS estava pronto, eles foram até a
estrebaria, subiram nos três cavalos que os estavam
esperando. Niquinho também estava lá, segurando um cantil
com água e uma sacola com frutas para cada um dos três
aventureiros levarem em seu passeio.
- Muito obrigado, Niquinho - agradeceu José Antônio.
- Vô, vou marcar uma trilha e a gente vai poder voltar
pelo mesmo caminho – disse Luciana.
- Pode marcar, Luciana. Depois voltaremos pela trilha e
veremos se seu GPS é bom mesmo. Lucas vai ficar responsável
por dizer se o aparelho acertou. E para dificultar um pouco as
coisas, vou levar vocês por um caminho diferente.

Quando Mauro presenteara Luciana com o GPS, ela não


sabia usá-lo. Ela queria o aparelho porque vira um com uma de
suas amigas da escola. Luciana havia achado o aparelho bonito e
pediu para seu pai comprar um para ela. Outro motivo de ela
ter pedido esse presente era já ter quase tudo que uma menina
podia desejar. A pequena Lulu não podia ter um desejo sem que
esse fosse rapidamente satisfeito, tendo motivos para isso ou
não.
33

Se Luciana soubesse que as principais funções de seu


novo brinquedo eram realizadas em ambiente aberto, talvez
não o tivesse pedido a seu pai.

Lucas começou a se animar com o passeio. Luciana


poderia se perder na volta, se o avô fizesse uma trilha muito
tortuosa no caminho até a RPPN. Então, ele mostraria a sua
prima que seus aparelhos não tinham grande utilidade no
campo. Disse a José Antônio:
- Vô, faça uma trilha bem difícil, tá? Pra saber se aquele
treco sabe voltar.
- Fique tranquilo, Lucas. Seu avô sabe o que faz.
Começaram a cavalgar. José Antônio levou seus dois
netos, intencionalmente, para uma pequena mata, de uns dez
hectares, que havia atrás de seu pomar, ao lado de sua criação
de abelhas. Lá havia árvores com mais de quinze metros, que
produziam flores vistosas e cheias de pólen e de néctar. Esses
serviam de alimento para as abelhas, e de matéria-prima para a
construção do mel. Os três passaram por trilhas dentro da
mata e saíram em um pasto bem cuidado com capim nativo,
natural da região. Lucas achava aquele pasto muito bonito, sua
cor verde suave lhe dava tranquilidade, que ele não sabia
transformar em palavras. Muito mais bonito do que o capim
“braquiaria”, verde-claro forte, que doía a vista quando o sol
batia em cheio nele. E mais desgosto teve quando descobriu
que a “braquiaria” não era brasileira, e sim da África, um
continente muito distante do nosso.
O avô prosseguiu por um caminho aberto, em direção ao
hotel-fazenda. Os três atravessavam novamente o córrego,
quando Luciana olhou para a tela do seu GPS e parou o seu
cavalo.
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- Vovô, espere! - disse ela. - Deu algo errado com o meu


GPS. Ele não marcou a trilha lá na matinha. Temos que voltar e
fazer o caminho de novo.
- Se fizermos isso, minha querida netinha, seu GPS
continuará não marcando a trilha – afirmou o avô. - Acho que
você aprendeu uma lição importante sobre esse aparelho: ele
não funciona no meio da mata.
O velho olhou para Lucas, puxou as rédeas do seu cavalo,
e continuou o caminho em direção à RPPN, assoviando
desdenhosamente a música “Luz do sol” de Caetano Veloso.
- Como ele sabe isso? - perguntou Luciana a seu primo.
- E eu é que sei – respondeu o menino.
Em frente ao hotel-fazenda, o avô pediu aos dois
meninos para esperarem um pouco visto que ele precisaria
conversar com o Ricardo, administrador do estabelecimento.
- Olha, Lu – disse Lucas, depois que o avô tinha saído. -
Por que você veio com a gente? Está atrapalhando tudo, sempre
parando pra ver alguma coisa nessa... coisa aí na sua mão. Era
pra ser só eu e o vovô. E eu já estava lá na reserva se você não
tivesse vindo.
- Já disse que tenho que testar meu GPS e ele não
funciona dentro de casa. Vou nesse passeio você querendo ou
não.
- Bem que você poderia ter feito outro caminho pra
testar essa coisa: às vezes, da casa até o galinheiro da vovó.
- Para com isso, Lucas. Prometi pra mamãe que não iria
brigar com você. E você deveria fazer o mesmo por causa da
doença que a vovó teve. Vocês, meninos, são muito imaturos.
- Imaturos? Vocês que são umas chatas com essa
história de pré-adolescente e tudo o mais. Não gostam de
brincar porque é “coisa de criança”. Só querem saber de ficar
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pelos cantos falando que “aquele menino é bonito”, “aquele


outro é chato” e outras coisas mais. Se isso é ser pré-
adolescente, não quero ser, não.
- Você ainda é uma criança mesmo. Os homens nunca
entendem nós, mulheres – respondeu Luciana.
Quando José Antônio voltou, encontrou os dois netos
surpreendentemente calados. “Talvez, tenha algo que ver com a
recuperação de Lúcia”, pensou ele.
- Acabei o que tinha de fazer. Agora, vamos direto para
a mata.
36

10. ENTRADA DA RESERVA

Os cavalos pararam em frente à porteira, única entrada


aberta daquela mata. Em cima dela, havia uma tábua arqueada
em que estava escrito: RPPN Santa Lúcia. Vários tons de verde
surgiram atrás da cerca que protegia a reserva - telhado de
folhas que filtrava e absorvia a luz do Sol - trazendo àquele
lugar um clima mais frio e agradável, apesar da época do ano.
Ao lado, viram um jacarandá praticamente sem folhas, cheio de
flores roxas, a enfeitar temporariamente o início da reserva.
- Não é a entrada que eu prometi, com portaria, centro
de visitantes, mas, temporariamente, é uma boa entrada –
disse José Antônio. - A única dificuldade é que alguém precisa
descer para abrir a porteira.
Entraram. Foram envolvidos gradativamente pela mata
até ao ponto que para qualquer lugar que olhavam só viam
árvores, arbustos e outros tipos de plantas. Começaram a
escutar o vento a assobiar nas folhas, o chilrear de vários
pássaros que não conseguiam distinguir e, vez ou outra, um
bugio ou outro mamífero sobre as árvores, gritando, dizem que
a chamar a chuva. Até Luciana estava encantada.
Lucas encostou as duas mãos na casca rugosa e firme de
uma das árvores, abaixou a cabeça e fechou os olhos. Enfim,
voltava àquele lugar, o seu favorito em toda a fazenda de seu
avô. Como eram gostosas para ele essas sensações!
- É melhor pararmos um pouco e decidirmos que caminho
vamos tomar – aconselhou o avô. - E você, Luciana, pode
desligar esse GPS. Daqui para frente ele não vai funcionar
mais.
A RPPN tinha uma trilha principal, larga, bem cuidada,
que subia uns duzentos metros e depois se dividia em duas
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outras, não tão largas, porém era fácil caminhar sobre elas.
Além disso, havia algumas outras trilhas, menores, mantidas a
facão, para a manutenção e o manejo da área.
Depois da divisão da trilha principal, um dos caminhos
continuava subindo, levando o aventureiro que ali se arriscasse
a um mirante natural, onde se via todo o vale em que assistia a
fazenda de José Antônio. O outro caminho levava a uma
maravilhosa cachoeira, com uma queda de quase quinze metros,
que formava um poço profundo, usado frequentemente como
piscina pelos visitantes.
Lucas preferia ir à cachoeira e Luciana ao mirante para
ver se vovó estava na varanda à procura deles. Na verdade, ela
queria usar seu GPS novamente e usou a avó como desculpa.
Esta foi a opção escolhida pelo avô para os três seguirem.
Lucas perdia mais uma para a sua prima. O passeio
definitivamente não lhe agradava.
Deixaram os cavalos amarrados e subiram a trilha a pé.
O ar frio e úmido dentro daquela mata começava a incomodar
Luciana que, toda hora, esfregava uma mão na outra para
esquentá-las.
Lucas ia em silêncio, pois era o jeito mais provável de se
avistar algum animal interessante na trilha. Sabia que se fosse
conversando ou fazendo tanto barulho quanto sua prima, ele
espantaria todos os bichos que habitavam a mata. Por isso, ia
bem à frente de Luciana e seu avô, que subiam juntos e
conversando baixinho.
José Antônio acompanhava os netos de perto, pois
conhecia a curiosidade natural das crianças. Logo desviariam
por um caminho e, assim, poderiam se perder na mata. Se isso
acontecesse, além do risco de eles não serem mais
encontrados, havia outros dois: José Antônio sabia que, vez ou
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outra, apareciam caçadores nessas redondezas, principalmente


em época de Lua cheia, quando a luz da lua iluminava
fortemente o interior das matas. O outro perigo era o ataque
por algum animal. Naquela região, além de cobras, escorpiões,
aranhas, viviam ainda várias espécies de onças e outros felinos.
Este animal, se faminto, poderia atacar um de seus netos para
saciar a fome. Além disso, o velho tinha uma lembrança ruim,
antiga, envolvendo uma criança e aquela mata. Não poderia
repetir o erro.
- Minha nossa, vovô! Venha ver isso - chamou Lucas
assustado.
O avô subiu apressadamente até o local onde seu neto
estava. Ao olhar para o chão ficou pasmado. Ele via claramente
pegadas com três dígitos, o central maior que os outros, e,
lateralmente às marcas principais, um pequeno círculo,
indicando a presença de um quarto dígito na pata que deixou
aquela impressão na terra. Era uma anta.
- Olhe, vovô, tem dois tipos de pegadas – observou
Lucas. - Elas são parecidas, mas uma é bem menor que a outra.
- Sim, Lucas – respondeu o avô. - A mamãe anta não
estava sozinha. Ela andava com seu filhote.
- E o que é aquela outra pegada ali? – inquiriu Luciana.
Quando o avô viu as marcas, ficou mudo, os olhos
estatelados. Aquelas pegadas deixaram marcas suaves de
quatro dígitos sem unhas, e de uma almofada central, grande e
arredondada, atrás desses dedos. Quando se recuperou do
susto perguntou ao seu neto:
- Lucas, você trouxe a sua trena?
- Sim, vovô. Por quê?
- Meça o comprimento dessa pegada. Não essa não, a
outra, a maior. Isso. Quanto deu?
39

- Onze centímetros e meio. O que é, vovô?


- Onça.
- Qual delas?
- Pintada.
- Uau! - exclamou Lucas, levantando-se bruscamente.
- Será que ela estava correndo atrás da anta, pra comer
ela? - arriscou Luciana.
- Não acredito – respondeu o avô. - As passadas estão
aparentemente em uma distância normal uma das outras.
Acredito que os animais estavam caminhando normalmente.
Mas...
- Mas o quê? - disse Lucas, aflito.
- Pode ser que a onça estivesse atrás das antas. Pode
ser que ela estivesse caçando, talvez, caçando o filhote.

Os três continuaram o caminho, agora em silêncio


absoluto, por causa da impressão forte que aquelas pegadas
deixaram em cada um deles. Havia evidências de que uma onça
pintada caçava uma anta neste mesmo terreno em que seus pés
pisavam. Isso era sensacional!
Pelo caminho, avistaram uma ave diferente, que sobre o
píleo e a fronte tinha um grupo de penas alaranjadas e azuis,
chapéu extravagante que lhe adornava a cabeça. Ela segurava
com o bico um inseto que acabara de pegar. Pousada
tranquilamente num dos galhos finos do pinheiro-bravo,
desdenhava as três pessoas que a olhavam maravilhadas.
Luciana parou, tirou várias fotos do pássaro e perguntou ao avô
que ave era aquela.
- Não tenho certeza – replicou José Antônio. Acho que
é uma das maria-não-sei-qual.
- Marias? – Lucas perguntou.
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- É que tem um monte de pássaros a que foram dados o


nome de maria: maria-cabeçuda, maria-faceira, maria-
cavaleira, maria-preta-de-penacho. Acho que aquele é da
família dos tiranídeos, mas não lembro qual espécie é. Ao
chegarmos a minha casa, eu vou olhar no guia de aves e nós
três tentaremos identificá-la. Uma vez que a Lu trouxe a
máquina, acho que não teremos dificuldades para isso.
Lucas olhou a prima e sua máquina digital, descrente do
que acabara de ouvir. Seu amado avô bajulava incessantemente
sua prima e seus acessórios! Graças a ela, eles identificariam
aquela ave, cujas asas começavam a alçar o vôo. Era
inacreditável!
Continuaram subindo a trilha do mirante, que
serpenteava entre árvores centenárias da RPPN até se
extinguir ao pé de uma araucária. Na casca dessa árvore,
estava escrito: Antônio e Lúcia. José Antônio colocou a mão
exatamente nesse local, ao passar pelo fim da trilha e seguiu
pisando o campo de altitude que levava à parte mais alta da
mata.
Chegaram finalmente. Chamavam aquele local de mirante
do Niquinho. Esse observatório proporcionava uma visão
belíssima. Avistava-se dali toda a fazenda de José Antônio e
várias outras. Áreas cultivadas e áreas preservadas iam-se
estendendo quilômetros e quilômetros à frente, até chegar à
cidade de Baependi. Milhares de hectares ao alcance dos olhos.
Sentaram num banco feito há muito tempo, a pedido de Lucas.
Esse assento era protegido por uma canela-amarela com flores
brancas, que eram intensamente visitadas por insetos naquela
hora do dia. A sombra e o cheiro daquela árvore completavam o
aspecto extraordinário, quase sobrenatural, que envolvia
41

aquele mirante. Ficaram ali uns trinta minutos, calados, olhando


aquela paisagem única.
Lucas colocou seu binóculo nos olhos. Avistou sua mãe e
seu pai conversando na varanda da sede da fazenda e acenou
para eles.
- Não adianta. – disse o avô e depois se persignou. – Eles
não nos enxergam. Para eles, somos pequenas árvores no meio
da mata. Já é tarde, vamos voltar. Sua avó já nos espera para o
lanche.
Luciana estava se sentindo diferente. Gostara tanto do
passeio que se esquecera de ligar o GPS depois que saíra da
mata fechada. As árvores, o vale, as pegadas, os bichos, tudo
lhe parecia estranhamente belo e interessante. Só alguns
mosquitos, o frio e a umidade intensa a incomodavam. Um
desejo de voltar àquele local começava a brotar naquela menina
tão apegada às mordomias e tecnologias da vida atual.
- Ai! - gritou ela. - Olha aqui, vovô! Que inseto é esse?
- Isso não é inseto – respondeu o avô. - É um carrapato
e está se alimentando do seu sangue. Para ver algo tão belo
quanto essa RPPN, tem que estar disposto a sofrer um
pouquinho.
José Antônio desceu a encosta com seus netos,
cantando:
- “Mas pra fazer um samba com beleza, é preciso um
bocado de tristeza, é preciso um bocado de tristeza, senão não
se faz um samba, não.”
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11. SENTIMENTO NOVO

Quando chegaram à sede da fazenda, o avô disse:


- Agora, vão tomar o banho que está quase na hora da
festa da sua avó. Você, Lucas, um cavalheiro, deixe a sua prima
tomar primeiro.
Os dois dirigiram-se às suas malas para prepararem o
banho. Luciana abriu o notebook para passar os dados do GPS
para o computador.
- Esse negócio de cavalheiro não serve para mim – disse
a menina. - Pode tomar banho primeiro que eu ainda demoro um
pouco aqui.
Lucas estava triste. Seu conceito de aventura na mata
excluía a presença de qualquer tecnologia avançada. O passeio
com o GPS, ainda mais com a aprovação do avô, era um grande
absurdo. Em que lugar se vê a ida e a volta pelo mesmo caminho
com erro de dez metros ser confundida com aventura? Tem de
haver erros, possibilidade de se perder; memória e raciocínio
para achar o caminho de casa. Essa precisão toda o incomodava
profundamente. Ele não sabia que um pouco dessa implicância
com o GPS era reflexo de seu sentimento por sua prima.
O pensamento de Luciana também estava em seu novo
aparelho. Porém, diferentemente do menino, ela via no GPS a
única possibilidade para realizar um antigo desejo que crescia
em sua mente desde o momento em que se sentara no mirante
do Niquinho. Ela não poderia contar com o avô nem com
qualquer outro adulto para ajudá-la. Assim, ela dependia
totalmente do seu primo.
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Por enquanto é isto. A primeira parte desta aventura


tem, ao todo, vinte e cinco capítulos. Em poucos dias pretendo
disponibilizá-la na versão PDF.

Na continuação, Luciana e Lucas tentam se aventurar na


floresta sem a presença de um adulto para supervisioná-los.
Dentro da mata, eles descobrem diversas espécies de animais
e plantas, até encontrarem inesperadamente um caçador, que
entra na história para mudar completamente o destino dos
primos.

Qual será o segredo da floresta?

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