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Capa: Francis Rodrigues

Equipe editorial
Coordenação: Maria Aparecida Balduíno Cintra
Copidesque: Marilize Silva Pedra
Revisão: Josiane de Fátima Pio Romera
Cristina Mariko Namassu

Dados Internacionais dc Catalogação na publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Castellani Filho, Lino.
Educação
Castellani
ção corpo
física no Brasil : a história que não se conta / Lino
Filho. 4® edição - Campinas, SP : Papirus, 1994. (Cole-
e motricidade).
índice
C344e
Bibliografia
1. Educação física - Brasil - História I. Título.

94-1865 CDD-613.70981
APRESENTAÇÃO 11
índices para catálogo sistemático: INTRODUÇÃO 13
1. Brasil; üducação física : História 613.70981
Capítulo I
ISBN 85 308-0021-4 LÁ VEM COM HISTÓRIA 17
DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA
Capítulo II
© M. R. Cornacchia & Cia. Ltda.
DA HISTÓRIA QUE NOS É CONTADA PARA
O REVELAR DE UMA OUTRA HISTÓRIA .. 33
_

_

Matriz - Fone: (0192) 31 -3534 e 31 -3500
Caixa Postal 736 - CEP 13001-970
* \
a J S e m » PRIMEITO ATO 33
SOBE O PANO 33
Filial - Fone (011) 570-2877 - São Paulo - Brasil
PAPIRUS BDVTIO—
RA AFUIADA
CENA I 33
CENA II 36
CENA III 38
CENA IV 44
Proibida a reprodução total ou parcial por qualquer meio de impressão, em forma idêntica,
CENA V 53
CENA VI 67
resumida ou modificada, em língua portuguesa ou qualquer outro idioma.

SEGUNDO ATO 73
CENA I 73
CENA II 77
CENA III
CENA IV
81
85
Apresentação
CENA V 92 A HISTÓRIA QUE SE CONTA...
CENA VI 95
TERCEIRO ATO 101 A prática sistemática de atividades físicas, despor-
CENA I 101 tivas ou lúdicas não é manifestação exclusiva da cultura
CENA II 106 contemporânea, mas é, sem dúvida, a partir de um certo
CENA III 114 crescimento urbano e, principalmente, do processo de
CENA FINAL 122 industrialização, que essa prática adquire contornos
DESCE O PANO 124 especiais.
Capítulo III A Educação Física por sua vez (canal instituciona-
lizado desta prática), vista num plano educacional mais
PRÁ ONDE CAMINHA ESSA HISTÓRIA .... 125 amplo a partir do final do século XIX e início do século
OS DEPOIMENTOS 130 XX, vai sendo incrementada e defendida como uma
TENDÊNCIAS NA EDUCAÇÃO FÍSICA necessidade imperiosa dos povos civilizados. Claro que
NO BRASIL 194 sua implantação nas diversas sociedades contemporâ-
BIBLIOGRAFIA 223 neas não tem sido tarefa tranqüila. As dificuldades
variam de acordo com as contradições inerentes a cada
realidade e seus respectivos regime(s) político(s) e
cultura.
Também parece certo que, devido às suas caracte-
rísticas, a Educação Física tem sido utilizada politica-
mente como uma arma a serviço de projetos que nem
sempre apontam na direção das conquistas de melho-
res condições existenciais para todos, de verdadeira
democracia política, social e econômica e de mais liber-
dade para que vivamos nossa vida plenamente. Pelo
contrário, muitas vezes, ela tem servido de poderoso ins-
trumento ideológico e de manipulação para que as
pessoas continuem alienadas e impotentes diante da
necessidade de verdadeiras transformações no seio da
sociedade. Por conseqüência escreve-se quase sempre
uma história que é o próprio reflexo dessa situação de
dominação que se pretende eterna.
11
É contra isto que Lino Castellani se insurge nestt
seu trabalho. Procura interpretar a Educação Física
com outros olhos, tentando fugir da leitura dominante
que se faz dela. Busca reescrever a sua história. E a faz
de maneira singular. Inspirando-se em Adam Schaff
não vê a história como verdade absoluta, definitivamen-
te acabada, mas como processo sujeito a constantes
reinterpretações. Introdução
Se se buscasse destacar uma das maiores virtudes
do Lino, eu diria que é a sua quase obsessão na crítica
constante (às vezes impedernida) que faz à "neutrali-
dade política" de todos os envolvidos com a causa da
Educação Física, bem como o seu incansável engaja-
mento na luta pela superação desse estado de coisas.
É por isso que ele — a exemplo do grande pensador ita- Segundo Aurélio Buarque de Holanda. CARACTE-
liano Antonio Gramsci — parece desprezar os indife- RIZAR significa "... descrever com propriedade, indivi-
rentes. Crê que "não podem existir os apenas homens, dualizar, assinalar..." Mas, ainda segundo ele, pode
estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não
pode deixar de ser cidadão e partidário. Indiferença é significar também, ". ..pintar e trajar (o ator), para
abulia, parasitismo, covardia, não é vida." que pareça a personagem que representa em cena.
Apoiada numa concepção histórico-crítica da edu- Assim, com vistas à elaboração deste Estudo, passamos
cação, esta obra procura dar indícios de uma prática a considerar que para descrevermos com propriedade a
transformadora da Educação Física no Brasil. Colhen- Educação Física, teríamos que despi-la das vestes por
do depoimentos importantes ou relatando fatos dos mais ela até então trajadas (descaracterizá-la, portanto),
significativos da nossa história, procura a todo momen- pretendendo-se, com o gesto de desnudá-la, desvendar-
to resgatar a criticidade, tantas vezes ausente nesta mos e passarmos a entender a personagem por ela repre-
área do conhecimento humano. Assim é que "Educação sentada no cenário educacional armado no palco Tsocial
Física no Brasil — A História que não se conta" é obra brasileiro. Assim, ao vê-la nua, poderíamos resgatá-la
fundamental para podermos entender melhor a nossa em sua dimensão histórica, nela objetivando-se encon-
história e, a partir daí, melhor atuarmos como profis- trar a sua identidade.
sionais e cidadãos de um país que clama igualmente por
mudanças e participação consciente. Isto posto, passamos a admitir como verdadeira a
premissa de ter sido de competência da Educação Física,
Prof. João Paulo S. Medina ao longo de sua história, a representação de diversos
Novembro/1988 papéis que, embora com significados próprios ao período
12 13
em que foram vividos, corroboraram para definir-lhe ria consolidada na Lei 5.540/68, como também da hipó-
uma considerável coerência na seqüência de sua atua- tese de ter tido tal iniciativa, a intenção de vê-la cola-
ção na peça encenada. borar, através de seu caráter lúdico-esportivo, com o
Portanto, tendo sempre presente a preocupação de esvaziamento de qualquer tentativa de rearticulação do
buscar saber a quais necessidades a Educação Física res- Movimento Estudantil, movimento esse que fora vítima
pondeu no Brasil em seus diferentes momentos histó- de violenta repressão, de ordem tanto física quanto
ricos, nos propusemos resgatar em seu passado, a in- ideológica.
fluência por ela sofrida das instituições militares e da Por fim, ao apreendermos os significantes dessa
categoria profissional dos médicos, desde o Brasil im- outra leitura da História da Educação Física no Brasil,
pério (ainda a partir daquele período) buscando com- buscar correlacioná-los com as Tendências que a per-
preendê-lo em seu todo e interpretar a conotação dada meiam, na direção do estabelecimento de relações entre
pela Educação Física à questão do reforço por ela exer- os papéis por ela representados ao longo de sua existên-
cido à esteriotipação do comportamento masculino e cia e sua configuração presente.
feminino em nossa sociedade. Mais adiante, já na déca-
da de 30 deste nosso século, com o intuito de compreen- Unitermos: Educação, Educação Física, História da
der em que medida as mudanças havidas no reordena- Educação, História da Educação Física.
mento econômico-social sugeriam, através dos estímulos
à Educação Física, a concretização de uma identidade
moral e cívica brasileira; analisar seu envolvimento com
os princípios de Segurança Nacional, tanto no alusivo
à temática da eugenia da raça, quanto àquela inerente
a Constituição dos Estados Unidos do Brasil, referente à
necessidade do adestramento físico, num primeiro mo-
mento necessário à defesa da Pátria, face aos "perigos
internos" que se afiguravam no sentido de desestrutu-
raçâo da ordem político-econômica constituída, como
também à eminência de configuração de um conflito
bélico a nível mundial, e, em outro instante, visando
assegurar ao processo de industrialização implantado
no país, mão-de-obra fisicamente adestrada e capacita-
da, cabendo a ela cuidar da recuperação e manutenção
da força de trabalho do Homem brasileiro. Em um outro
momento, já no período pós-64, buscar explicá-la no
ensino superior a partir não só da Reforma Universitá-
14 107
Constituições, em matéria de çnsino. Ao assim fazê-lo,
diz Romanelli, Fernando de Azevedo "... não observou,
por exemplo, que, oficializando o ensino profissional
como ensino destinado aos pobres, estava o Estado come-
tendo um ato lesivo aos princípios democráticos; estava
o Estado instituindo oficialmente, a discriminação so-
cial, através da Escola.. ."°
7
SEGUNDO ATO
INTERVALO... CENA I

Traçado o panorama institucional da Educação bra-


sileira do final do século XIX e primeiras décadas do
século XX, calcado nas mudanças que se processavam no
modelo sócio-econômico, vemos reforçado, no concernen-
te à Educação Física, sua estreita relação com os pro-
pósitos da eugenização da raça brasileira, com nuances
que espelhavam um tímido início de seu distanciamento
das questões próprias à higiene — da forma como expli-
citara nos meados do século passado — revestindo-se de
tinturas que a identificavam, cada vez mais, com os cui-
dados para com o desenvolvimento do físico, num movi-
mento consentâneo às mudanças sociais e econômicas
aludidas.
As reformas educacionais realizadas em diversos
Estados brasileiros, de 1920 a 1928, contemplavam a
Educação Física como componente curricular do ensi-
no primário e secundário. O Professor Mário Ribeiro
Cantarino Filho, em sua tese de mestrado "A Educação
67. Ibid., p. 153. Física no Estado Novo", relaciona as reformas educacio-
14
73
nais, nelas localizando o tratamento recebido pela Edu- denar e fiscalizar todas as atividades referentes aos des-
cação Física. 68 portos e à Educação Física no país — deliberava que
Face à forma enfática como a Educação Física pas- ".. .enquanto não (fosse) criado o Método Nacional de
sara a ser tratada nas mencionadas reformas educacio- Educação Física, (ficaria) adotado em todo o território
nais, veio ela a ser alvo das atenções dos profissionais brasileiro, o denominado Método Francês, sob o título de
da Educação. Assim, em 1928, a Associação Brasileira de Regulamento Geral de Educação Física..." 70

Educação — ABE — fundada 4 anos antes, no Rio de Conclui a ABE, então, após a análise do anteproje-
Janeiro, levou a efeito uma enquete junto aos professo- to, pela "... impossibilidade de que um órgão burocrá-
res do ensino secundário, sondando-os a respeito de suas tico da União (venha) 'resolver um problema educativo
impressões sobre a Educação Física naquele grau de en- nacional' e que este órgão viesse a determinar um mé-
sino, obtendo, por parte dos mesmos, respostas que foram todo de Educação Física a ser ministrado em todos os
ao encontro do reconhecimento do seu valor e da neces- estabelecimentos de ensino..
sidade de seu desenvolvimento no ensino secundário. O fato é que malgrado as críticas da ABE, além de
Um ano depois, em 1929, ano da III Conferência Nacio- outras havidas, o Método Francês — trazido até nós pela
nal de Educação, realizada em São Paulo, foi promovido Missão Militar Francesa, responsável pela fundação, em
pela entidade, gestões no sentido de averiguar aspectos
relativos aos métodos de Educação Física mais adequa- 1907, do embrião da Escola de Educação Física da
dos às escolas primárias e secundárias, à formação pro- Força Policial do Estado de São Paulo, o mais antigo
fissional dos seus docentes e sobre a prática pedagógica estabelecimento especializado de todo o Brasil — acabou
dos professores frente aos obstáculos existentes no cum- ocupando, predominantemente, o espaço até então pre-
primento de suas funções. 69 enchido pelo Método Alemão — introduzido no Brasil em
1860 —, por conta da nomeação do alferes do Estado
Quanto à questão do método, inseria-se a ABE no Maior de segunda classe Pedro Guilhermino Meyer, ale-
corpo de um debate, acirrado por um anteprojeto de lei, mão, para a função de contra-mestre de Ginástica da
originário do Ministério da Guerra nesse mesmo ano de Escola Militar — tanto entre os militares como entre os
1929, que — além de (a) determinar a prática da Edu- escolares.
cação Física para todos os residentes no Brasil(!), defi-
nindo caráter obrigatório em estabelecimentos de ensino, Anos antes de tal anteprojeto, Fernando de Azevedo,
a partir dos 6 anos de idade; (b) criar o Conselho Su- ao traçar, em artigo denominado "O papel do Professor
perior de Educação Física com "sede no Ministério da moderno de Educação Física", o perfil desse profissio-
Guerra", o qual exerceria a função de centralizar, coor- nal, necessário para que ele pudesse ocupar-se da con-
secução dos seus fins, deixava claro a sua opção pelo
68. Mário Ribeiro CANTARINO FILHO, A Educação Física no estado novo:
história e doutrina, pp. 90-92. 70. Ibid., p. 96.
M. Ibid., pp. 92-93. 71. Ibid., p. 96.
103
74
Método Francês, pautado em princípios anátomo-fisio- CENA II
lógicos, ao evidenciar, da forma como abaixo se segue,
os contornos desse profissional: . .À nova orientação "... Uma vez mais, cogita-se de reformar o nosso
da Educação Física, não tem sempre correspondido, plano educacional. Já se tornou praxe irremovível entre
mesmo em alguns países em que a questão mais se ven- nós, as reformas periódicas. Não há estabilidade. Pouco
tila, uma orientação nova na formação do pessoal do depois da adoção de um projeto, antes de produzir os
ensino e na escolha de Diretores de Educação Física. Da resultados previstos, já se pensa em modificações, em
seleção destes, no entanto, e da preparação daqueles, é traçar novas diretrizes A conseqüência desta instabili-
que depende o maior êxito desta grande obra de recupe- dade, é a desorganização permanente. Mudam-se e re-
ração da saúde e robustez, e que ficará baldada estéril, mudam-se os programas e os processos de ensino.
quando não contraproducente, se de todo cientes da com- Agora, está em elaboração mais uma reforma de
pleta missão que lhes compete, não tiverem os professo- ensino. Cumpre que a Educação Física seja devidamen-
res, sólida instrução teórica e prática, e não forem supe- te considerada, que a sua prática se torne obrigatória.
riormente orientados por um educador, que deve ser, É inadmissível que se pense em desenvolver apenas o
além de psicólogo avisado, um engenheiro biologista, cérebro, em detrimento do restante do organismo, dei-
teoricamente documentado e de uma competência téc- xado atrofiar-se: ademais disso, não seria possível minis-
nica acima de toda a crítica..." E, como que concluin- trar com eficiência, amplos ensinamentos intelectuais,
72

do seu pensamento, afirma adiante: . .Ao Professor a indivíduos doentes, torturados por sofrimentos físicos
de Educação Física compete, pois (e não há exagero que lhes diminuem a percepção, a compreensão, e os
impossibilitem de dedicarem-se aos estudos, atido como
algum nesta afirmativa) dirigir, orientar os exercícios estão às doenças, compelidos a trocar os livros pelos vi-
de modo que influam enérgica e eficazmente sobre cada dros de remédio.
organismo, ordená-los em série gradual, harmonizá-los A Educação Física deve fazer parte dos programas
com o período de evolução orgânica, incutindo o prazer de ensino, mas não com o caráter de facultativa, deve
ou, ao menos, evitando o tédio, e constatar, enfim, pelos ser obrigatória. De que nos servirá ter milhões de douto-
processos vários de mensurações corporais, os resulta- res que representem milhões de doentes? Não podemos
dos de seu ensino, fazer, em uma palavra, o registro dos deixar de tratar, com o maior empenho possível, do
benefícios que provieram dos exercícios, e dos inconve- nosso aprimoramento racial, do robustecimento do nosso
nientes que determinaram. São as atribuições que todos povo.
os entendidos lhes demarcam..." 73

É de presumir que os redatores do nosso plano de


72. Fernando de AZEVEDO, op. cit., 1920, p. 108.
ensino, obedecendo ao espírito moderno e de acordo com
73. Ibid., p. 110. Na 3." edição, ao republicar esse artigo, retirou de seu as necessidades impostas pelas atuais condições de vida,
título a expressão "moderno". encarem devidamente a imprescindibilidade da prática
76 103
da Educação Física nas escolas, a adoção de um regime Refletia, também, a esperança de verem atendidas
educacional cujo objetivo não seja apenas "fabricar" muitas das recomendações tiradas, a nível de conclusões,
doutores e sim Homens aptos a enfrentarem os proble- do VII Congresso Brasileiro de Educação, realizado em
mas que a situação de agora oferece e, para a solução junho/julho de 1935, no Rio de Janeiro, o qual, promo-
dos quais, não basta apenas um excessivo teorismo: são vido pela ABE, teve como tema central, a Educação Fí-
precisas, também, condições físicas especiais..." " sica. 76

Escaldados pelos resultados bastante frustrantes E, sobretudo, refletia o editorial, a compreensão que
das reformas educacionais da década de 20, nas quais os professores de Educação Física tinham do papel que
a contemplação da Educação Física nos textos legais não a ela, Educação Física, e a eles, especialistas, era desti-
foi correspondida com a sua subseqüente implementa- nado. A parte do editorial em que aludiam à necessidade
ção, incapazes de fazerem uma leitura da conjuntura de se tratar com o máximo empenho possível, "... do
sócio-político-econômica existente que lhes viabilizassem nosso aprimoramento racial, do robustecimento do nos-
a compreensão dos determinantes da inconcretude das so povo...", e aquela outra passagem em que se referiam
referidas reformas, desacorçoados com os efeitos "práti- à necessidade de se contar com ".. .homens aptos a en-
cos" da Reforma Francisco Campos (1931) — a primei- frentarem os problemas que a situação (oferecia) e,
ra a nível nacional — naquilo que dizia respeito à obri- para a solução dos quais, não (bastava) apenas um ex-
gatoriedade da Educação Física no sistema escolar, nela cessivo teorismo, (mas sim) também, condições físicas
prevista (previsão esta que valeu ao autor palavras especiais...", corroboram nossa afirmativa.
elogiosas dos editores desse mesmo periódico, em edito- Conscientemente ou não, estavam se referindo ao
rial da edição de n.° 5, abril/36 ) traduzia, enfim, o
76
duplo papel que a ela caberia representar naquele perío-
citado editorial (além da já nossa conhecida visão de do histórico, tão claramente evidenciado, 5 meses depois,
Homem e do entendimento da íntima relação da Educa- pelo texto da Lei Constitucional n.° 01 da Constituição
ção Física com a questão dá Eugenia da raça), o grau dos Estados Unidos do Brasil, promulgada em 10 de no-
de expectativa e nível de articulação desse segmento da vembro de 1937:
categoria dos professores, em yista da proximidade de
uma nova reforma no campo da Educação. 76. Revista de Educação, 11/12, pp. 109-111. As conclusões desse Congresso
foram arroladas em 4 tópicos assim discriminados:
"A. Conclusões extraídas das teses sobre 'A Educação Física elementar', 'A
74. A Educação Física nas Escolas. Questão que não pode ser relegada na ' Educação Física na escola secundária', 'A Educação Física nas escolas
próxima Reforma, Editorial, Educação Physica, (10): 6. normais' e 'As bases científicas da Educação Física';
75. Editorial, Educação Physica, (5): 11; Em certo momento, diz: ".. .Em todo B. Conclusões extraídas das teses sobre organização de Institutos ou Es-
esse cenário de rejuvenescimento que contemplamos, com prazer, dois no- colas de Educação Física;
mes avultam: Fernando de Azevedo e Francisco ( . . . ) O segundo foi o C. Conclusões extraídas das teses sobre organização dos serviços admi-
batalhador, o alicerçador de uma geração nova, instituindo nas escolas, a nistrativos de Educação Física;
obrigatoriedade do programa de Educação Física, pela Reforma de Ensino D. Conclusões extraídas das teses sobre a criação de Conselhos e Depar-
de 1931..." tamentos Estaduais de Educação Física."
78 103
". . .Artigo 131 — A Educação Física, o ensino cívico e
os trabalhos manuais, serão obrigatórios em todas as esco- presentes face a eminência de configuração de um con-
las primárias, normais e secundárias, não podendo nenhu- flito bélico a nível mundial. Além de voltar-se, também,
ma escola de qualquer desses graus ser autorizada ou re- ao "cumprimento dos seus deveres para com a econo-
conhecida sem que satisfaça àquela exigência.
Artigo 132 — O Estado fundará instituições ou dará o
mia", visando assegurar ao processo de industrialização
seu auxílio e proteção às fundadas por associações civis, implantado no país, mão-de-obra fisicamente adestrada
tendo umas e outras por fim, organizar para a juventude, e capacitada, a ela cabendo cuidar da preparação, ma-
períodos de trabalho anual nos campos e oficinas, assim nutenção e recuperação da força de trabalho do Homem
como promover-lhes a disciplina moral e o adestramento
físico, de maneira a prepará-la ao cumprimento dos seus
brasileiro. 78

deveres para com a economia e a defesa da nação. .."


CENA III
Percebemos, nesse particular, uma sensível modifi-
cação no papel representado pela Educação Física. Ga- Constituíram, a nossa ver, os anos 30, uma impor-
nhava a preocupação com o processo de eugenização da tante etapa na definição dos rumos do capitalismo in-
raça brasileira, dois outros ingredientes que lhe afe- dustrial no país, no lançamento das bases de um novo
riam um sentido essencialmente pragmático, qual seja, modelo; pressupostos necessários à que esse modelo vies-
o de voltar-se para o atendimento dos princípios da Se- se a se desenvolver plenamente na década de 50. Marca-
gurança Nacional — explicitados em Lei em abril de do por um intenso processo de modernização e por re-
1937" — no referente ao "cumprimento — por parte formas políticas bastante significativas, operou-se no
do cidadão brasileiro — dos seus deveres para com a de- país, naqueles anos, a transição de uma sociedade agro-
fesa da nação" frente aos (a) perigos internos que se exportadora para uma sociedade de base urbano-indus-
consubstanciaram, em novembro de 1935, no movimento trial; processo de transição esse que definia a passagem
batizado pelos militares de "intentona comunista" e que de uma ordem social essencialmente rural para uma
se afigurou na direção da desestruturação da ordem po- ordem urbana, na qual o setor industrial passaria a ser
lítica-econômica constituída, e aos (b) perigos externos, o elemento dinâmico da economia. ".. .As forças econô-
77. Mário Ribeiro CANTARINO FILHO, apoiando-se em Edgar Carone ("A 78. A Constituição brasileira de 1934 não chegou a fazer referência explícita
República Nova" e "Segunda República"), nos diz que as manifestações à Educação Física. No entanto, a ela se dirigiu quando deu competência
oriundas tanto do operariado quanto da burguesia industrial — dois com- à União, aos Estados e aos Municípios para "estimular a educação eugê-
ponentes sociais consolidados pelo processo de industrialização do modelo nica". A relação da Educação Física com a Educação Eugênica ficara
econômico brasileiro — legou à promulgação, pelo Poder Legislativo, da ainda mais evidenciada por ocasião do I Congresso Brasileiro de Eugenia,
Lei de Segurança Nacional "...documento legal que tinha a capacidade realizado em julho de 1929, quando o Dr. Jorge de Morais apresentou,
de 'abafar todo protesto' oriundo da Classe Operária, da burguesia e dc na sessão inaugural do evento, na seção "Da Educação Física como fator
toda e qualquer oposição. Elaborado inicialmente em segredo, o antepro- eugênico: sua orientação no Brasil", 3 teses que podem ser condensadas
jeto apresentado à Câmara dos Deputados, em janeiro de 1935, veio a na primeira delas, qual seja, aquela em que, " . . . a bem da saúde e de-
público, havendo grande reação, inclusive de militares do exército e da senvolvimento da raça, o I Congresso ( . . . ) apelava para a classe médica
marinha, que não concordavam com 'as ameaças às liberdades públicas' a fim de aprofundar a cultura nacional no que diz respeito às bases e
existentes no anteprojeto, que pretendia 'amordaçar a consciência nacional'. orientação científica da Educação Física, a começar pela escolha do mé-
O texto original foi modificado e abrandado, sendo definitivamente san- todo apropriado aos brasileiros e ao seu clima..."
cionada a Lei de Segurança Nacional, em abril de 1935..."
80 103
mico-sociais apontadas são as vinculadas às atividades cativamente ao serem clarificadas a não procedência do
urbano-industriais propriamente dita. E, sob esse pris- modo de pensar que desvinculava do pensamento peda-
ma, a opção ditatorial (1937/45) explica-se como con- gógico a reflexão sobre a sociedade. Nesse sentido, nos
dição possível, dadas as circunstâncias do momento ex- diz Vanilda Paiva, "... o Estado Novo atuou em favor do
terno e, especialmente, interno, de desenvolvimento de 'realismo em Educação', ou seja, de uma visão do proces-
um modelo capitalista-industrial, mesmo que ainda de- so educativo em seus vínculos com a sociedade a que ser-
pendente . . . " ve, acentuando porém, a sua função de conservação so-
cial . . . " Nessa direção, é esclarecedor o discurso de
79
82

Marinete dos Santos Silva, em seu livro A Educação Gustavo Capanema, Ministro da Educação durante o Es-
no Estado Novo, resultou da situação depressiva em que tado Novo: ".. .Assim, quando dizemos que a Educação
se encontrava a agricultura e da viabilidade do setor in- ficará ao serviço da nação, queremos significar que ela,
dustrial. Um executivo forte exprimia, assim, a salvação longe de ser neutra, deve tomar partido, ou melhor, deve
da agricultura e o patrocínio da industrialização. O pa- reger-se por uma filosofia e seguir uma tábua de valores,
pel ativo desempenhado pelos militares na articulação deve reger-se pelo sistema das diretrizes morais, políti-
do golpe expressava a necessidade de acabar de vez com cas e econômicas, que formam a base ideológica da na-
a instabilidade política e econômica da década de 30 e ção, e que, por isto, estão sob a guarda, o controle ou a
que se manifestava de forma bastante grave no interior defesa do Estado..." Os propósitos de manipulação da
83

das Forças Armadas (...) o Estado Novo, então, desen- Educação em prol da manutenção do regime encon-
volveu-se atendendo aos interesses de dois setores da tram-se com nitidez em pronunciamentos de Francisco
burguesia: o agrário e o i n d u s t r i a l . . 80 Campos, autor da Carta Magna de 37, como este: ".. .A
E a Educação? Segundo Vanilda Paiva, "... com o Educação não tem o seu fim em si mesma; é um pro-
Estado Novo, a Política educacional se transforma, pois cesso destinado a servir a certos valores e pressupõe,
o novo regime de autoridade tinha diretrizes definidas portanto, a existência de valores sobre alguns dos quais
e ideologia própria a ser difundida pela Educação..." a discussão não pode ser admitida. A liberdade de pen-
As diretrizes ideológicas que nortearam a política edu-
81
samento e de ensino não pode ser confundida com a
cacional naquele período possuíam como substância a ausência de fins sociais postulados à Educação, a não
exaltação da nacionalidade, as críticas ao beralismo, o ser que a sociedade humana fosse confundida com uma
anticomunismo e a valorização do ensino profissional. academia de anarquistas reduzidos a uma vida pura-
Tais aspectos vieram a significar profundos abalos no mente intelectual e discursiva..." Em uma entrevista
84

"otimismo pedagógico", pois as possibilidades de manu- concedida ao Lokal Ensieger de Berlim, em dezembro de
tenção da "neutralidade técnica" esvaziaram-se signifi- 1938, Getúlio Vargas assim se expressou ao responder
79. Maria Luísa Santos RIBEIRO, op. cit., p. 120. 82. Ibid., p. 134.
80. Marinete dos Santos SILVA, A Educação no Novo, p. 23. 83. Marinete dos Santos SILVA, op. cit., p. 25.
81. Vanilda Pereira PAIVA, op. cit., pp. 130-131. 84. Ibid., p. 25.

82 83
à pergunta do jornalista a respeito de sua expectativa Estado, passou a sofrer, logicamente, os ajustes neces-
em relação ao contributo da Educação nacional como sários para a veiculação da nova ideologia dominante.
instrumento de luta contra o comunismo: ".. .não sen- Esse fato é perceptível claramente, sobretudo no Plano
do uma simples fornecedora de noções técnicas, mas um Nacional de Educação. A excessiva ênfase dada ao ensi-
instrumento de integração da infância e da juventude no cívico e à educação física foram os primeiros indí-
na Pátria una e nos interesses sociais que lhes são in- cios desses ajustes... " Segundo aquele Plano, o ensino
86

corporados, a educação da mocidade, nos preceitos bási- cívico seria ministrado em todos os graus e ramos de
cos estabelecidos pelo novo Estado, será um elemento ensino e a Educação Física seria obrigatória nos cursos
não só eficaz, como até decisivo na luta contra o comu- primário e secundário, sendo facultativa no superior.
nismo e outras ideologias que pretendam contrariar e
subverter o ideal de nacionalidade e as nossas inspira- CENA IV
ções cívicas, segundo as quais, a juventude, agora mais
do que nunca, será formada..." 85
O caráter de complementaridade presente entre a
Para tanto, deveria a Educação instrumentalizar-se. Educação Moral e Cívica e a Educação Física eviden-
Passamos a assistir, então, o marcante enfatizar de duas ciou-se sem margem de dúvida. Externava-se, naquele
"matérias" que, basicamente, deveriam assumir a res- período, com relação à Educação Física, aquilo que
ponsabilidade de colocar a Educação na direção anun- Alcir Lenharo convencionou chamar de "militarização
ciada pelos discursos mencionados. Surge, portanto, a do corpo" (que se dava em 3 patamares, quais sejam, o
Educação Física e a Educação Moral e Cívica como elos da moralização do corpo pelo exercício físico, o do apri-
de uma mesma corrente, articuladas no sentido de da- moramento eugênico incorporado à raça e a ação do
rem à prática educacional a conotação almejada e di- Estado sobre o preparo físico e suas repercussões no
tada pelos responsáveis pela definição da política de mundo do trabalho), a qual se deu concomitantemente
governo. à "militarização do espiritual". Segundo Lenharo,
87

Não nos fica difícil, assim, entendermos a razão do "... os problemas de segurança e defesa da Pátria exi-
enfático tratamento merecido pela Educação Cívica e giam a colaboração civil, através do esporte, para o
pela Educação Física explicitado no Plano Nacional de trabalho organizador e a ação preparatória das caser-
Educação elaborado pelo Conselho Nacional de Educa- nas. Essa política esportiva nos garantia o cuidar de
ção e encaminhado à Presidência da República em maio "nossas imensas reservas vivas". Preocupações dessa
de 37. Marinete dos Santos Silva, assumindo uma visão natureza levaram à exacerbação dos cuidados para a
althusseriana da instituição escolar, assim se reporta à preservação e salvaguarda do '"aprimoramento eugêni-
questão: "... Sendo a Escola um aparelho ideológico de co incorporado à raça", como o absurdo previsto no
86. Marinete dos Santos SILVA, op. cit., p. 21.
85. Vanilda Pereira PAIVA, op. cil., pp. 131-132. 87. Alcir LENHARO, Sacralização da política, pp. 77-78.
84 85
Decreto n.° 21.241 (artigo 27, letra b) e no item 10 da Por outro lado, segundo Lenharo, antevia-se pela
Portaria n.° 13 e 16 de fevereiro de 1938, que estabele- "militarização espiritual" o asseguramento dos atribu-
ciam a proibição de matrícula nos estabelecimentos de tos ".. .de uma 'regeneração antropopsíquica: sinergia,
ensino secundário ".. .de alunos cujo estado patológico solidariedade, intrepidez, obediência, código de condu-
os impeçam permanentemente da freqüência às aulas de ta, ideal de vitória, senso de superioridade, ambição
Educação Física...'\ ou então como as recomenda-
88

ções de Waldemar Areno, feitas em artigo publicado honesta, perseverança, confiança, consciência'... " 81

na revista "Educação Física", no sentido de alertar as Ainda segundo suas palavras, assistíamos, "... através
autoridades competentes para a necessidade de serem dessa impressionante arrancada militarizante do corpo
tomadas medidas eugênicas que impedissem o "... de- e da mente...", à implementação de um projeto de
sencadeamento de uma prole nefasta e inútil...". Su- "... docilização coletiva dos corpos..." conjugada à
geria, então, o médico e professor catedrático das uma "... organização compreensiva da sociedade inte-
disciplinas Anatomia, Fisiologia e Higiene, da Escola riormente identificada com a organização militar..."
Nacional de Educação Física, a esterilização, tanto mas- No desejo de ratificar suas impressões, reporta-se à um
culina quanto feminina, a qual preservaria a eles a artigo de Hélion Póvoas, denominado "A tese: A marcha
continuidade das práticas sexuais e interromperia a para as alturas" e publicado no n.° 44 — nov/38, à
disseminação do mal, ou seja, a geração de "seres inú- página 1, da revista Educação Física, que a seguir
teis à sociedade." 88
transcrevemos:
Por sua vez, a esperança de que a política espor - ".. .Entreguemos ao exército todos os poderes para
tiva viesse a contribuir para a melhoria da capacidade que, no setor de Educação Física, ponha em prática em
física do Homem brasileiro, refletia a preocupação, todo o território nacional, a sua técnica disciplinadora
mais tarde confirmada, com o quadro de saúde da que é, no momento, um evangelho salutaríssimo à
população brasileira. O Professor Cantarino, em uma nação. Para nos pôr a salvo das tormentas, organizan
passagem de seu trabalho, nos traz o dado de que "... a do a nossa defesa, o exército glorioso precisa de um
rejeição, por incapacidade física, de recrutas para a 'Homem brasileiro', com todas as letras maiúsculas, bem
Força Expedicionária Brasileira, na junta militar da maiúsculas. Confiantes, entreguemo-nos a ele, porque
primeira região, foi de 83.3%..." Portanto, concluiu só ele dispõe dos elementos necessários a um renasci-
ele, "... dos 1704 recrutas mobilizados, somente 284 mento de vigor físico indispensável à organização bélica
(16.7%) estavam aptos para o serviço das armas na de uma Pátria, ainda que a mais pacífica, como a nossa.
FEB... " 90
Seja o Brasil, todo ele, no tocante à Educação Física,
uma Escola de Educação Física do Exército.. , 92

88. Mário Ribeiro CANTARINO FILHO, op. cit., p. 145.


89. Waldemar ARENO, Higiene e saúde, Educação Física, (53):41. 91. Alcir LENHARO, op. cit., p. 80.
90. Mário Ribeiro CANTARINO FILHO, op. cit., p. 32. 92 Ibid., p. 81.
86 87
Os inúmeros escritos da época não deixaram dúvi- agonizantes como a Alemanha, a Itália e Portugal, que
das a respeito do modelo em que os defensores dessa completamente sem vigor, de uma hora para outra
escalada se apoiavam. Vejamos um trecho de um outro se transmudaram em potências respeitadas pelas de-
artigo, publicado pelo DIP — órgão responsável pela mais, graças aos esforços de Hitler, de Mussolini e de
divulgação das notícias governamentais, pelo controle Salasar... 93

da opinião pública e pela promoção da imagem popular Pois foi a intenção de "acendrar" — no sentido
de Getúlio Vargas — e busquemos nele identificar sua mesmo de purificar — o espírito de nacionalismo do
matiz: . .O Exército recebe os párias, os iconoclastas jovem, que orientou a promulgação do Decreto-lei n.°
e os normais e os funde num só cadinho, mercê da 2.072 de 8 de março de 1940, que dispunha sobre a obri-
democracia em que vivemos. Porém, dessa fusão não sai gatoriedade da Educação Cívica, Moral e Física da in-
um tipo 'standard' de soldado, não sai o cidadão ideal fância e da juventude, fixava as suas bases e para
(...) Concebendo os três círculos concêntricos (...) implementá-las organizava uma instituição nacional
como órbitas descritas por três astros — a educação no denominada Juventude brasileira. Submetida ao Minis-
lar, na escola e na caserna — teríamos como satélites tério da Educação e Saúde e ao da Guerra, tinha por
gravitando em torno deles, as artes, as indústrias, as objetivo, conforme palavras do próprio Presidente Var-
comunicações, o comércio, as finanças (...) Dentro gas, "... incrementar a educação cívica das novas
desta estrutura, há povos respeitados e nações fortes. gerações, organizando a juventude por forma a consti-
Não falei aqui em humanidade, friso, só falei de nações, tuir reserva facilmente mobilizável, sempre que houver
se bem que desde o berço, seguindo a doutrina sapien- objetivo patriótico a alcançar.. ." Inspirado em insti-
9i
tíssima de Jesus, devamos amar ao próximo como a nós tuições congêneres existentes na Itália (os Balila e os
mesmos. E o mundo seria um paraíso de amor se Avanguardisti) e na Alemanha (a Juventude Hitleris-
pudéssemos, sem distinção de castas e de raças, afastar ta), a Juventude brasileira, mesmo não chegando a con-
do ser humano o ódio, a inveja, a vaidade, a soberba, solidar-se na prática, refletiu os anseios dos militares
elementos geradores das guerras, que alguém definiu e da classe dirigente que nela depositavam suas espe-
como uma terapêutica que Deus emprega para purifi- ranças de construção de um país de jovens afinados
car a humanidade e que Ruskin considerava como a com a ideologia dominante. Difícil é burlarmos a ten-
95
'mãe da virtude e do gênio' e com convicção sentenciava
que 'todas as artes puras e nobres da paz, são fundadas 103
sob a guerra'. Nestas condições, não podemos desprezar 93. Tenente-coronel José de Lima FIGUEIREDO, A Educação Física e o Exér-
cito, Departamento de Imprensa e Propaganda, Estudos e conferências:
a fórmula 'si vis pacem para bellum' e temos que incutir 21-30. Conferência da série patrocinada pela Associação Brasileira de Edu-
no cérebro, no coração, enfim, na inteligência e no sen- cação Física, realizada no dia 16 de outubro de 1941, no Palácio Tira-
dentes, pelo comandante da Escola de Educação Física do Exército.
tido da criança, em primeiro lugar, acendrado espírito 94. Marinete dos Santos SILVA, op. cit., p. 26.
de nacionalismo, a única coisa que nos fará crescer aos 95. Ibid., p. 27. A fé depositada na Juventude brasileira pode ser detectada
nessa observação feita pelo então presidente do clube Militar, General
olhos dos alienígenas, seguindo o exemplo de nações José Meira de Vasconcelos: ". . .a cruzada pela organização da Juventude

88
tação de reproduzirmos o Decreto-lei em sua totalidade. gosto dos serviços domésticos principalmente dos que
Dada, porém, sua extensão, passamos a retratar apenas se referem à criação e à educação dos filhos.
os quatro primeiros artigos, suficientes para tornar evi- Artigo 4.° — A EDUCAÇÃO FÍSICA a ser ministrada
de acordo com as condições de cada sexo, por meio
dente o caráter de complementariedade existente entre da ginástica e dos desportos, terá por objetivo não
a Educação Cívica e a Educação Física, ao definir a somente fortalecer a saúde das crianças e dos jovens,
competência de uma e de outra: tornando-os resistentes a qualquer espécie de invasão
"Artigo 1.° — A Educação Cívica, Moral e Física, é obri- mórbida e aptos para os esforços continuados, mas
gatória para a infância e a juventude de todo o país. também dar-lhes ao corpo, solidez, agilidade e har-
nos termos do presente Decreto-lei. monia.
Artigo 2° — A Educação Cívica visará a formação da § Ünico — Buscará ainda a EDUCAÇÃO FÍSICA, dar
consciência patriótica. Deverá ser criado, rio espírito às crianças e aos jovens, os hábitos e as práticas hi-
das crianças e dos jovens, o sentimento de que a giênicas que tenham por finalidade, a prevenção de
cada cidadão cabe uma parcela de responsabilidade toda a sorte de doenças, a conservação do bem estar
pela segurança e pelo engrandecimento da Pátria e e o prolongamento da vida. . ." 90

de que é dever de cada uma, consagrar-se ao seu ser-


viço com maior esforço e dedicação.
A explícita identificação ideológica do Governo
§ Ünico — Ê também papel da Educação Cívica, formar
Vargas com as nações do eixo, não foi, porém, suficiente
nas crianças e nos jovens do sexo masculino, o amor para evitar, por motivos sobejamente conhecidos, a de-
ao dever militar, a consciência das responsabilidades claração do estado de guerra contra aqueles países,
do soldado e o conhecimento elementar dos assuntos assinada em 31 de agosto de 1942 e ratificada pela con-
militares, e bem assim dar às mulheres, o aprendi vocação do estado de mobilização geral adotado em 16
zado das matérias que, como a enfermagem, as habi-
litem a cooperar, quando necessário, na defesa na- de setembro daquele mesmo ano. O que se presenciou,
cional. então, foram cenas de fazer inveja àquelas descritas
Artigo 3.° — A Educação Moral visará à elevação espi- por George Orwel em seu "1984". Deu-se início a um
ritual da personalidade, para o que buscará incutir
nas crianças e nos jovens, a. confiança do próprio
processo de "retificação" de palavras e atos, buscando
esforço, o hábito da disciplina, o gosto da iniciativa, convencer a opinião pública que o novo posicionamento
a perseverança do trabalho e a mais alta dignidade em não o era de verdade, ou seja, sempre existira dessa
todas as ações e circunstâncias. forma. Assim, com relação à "Juventude brasileira",
§ Ünico — A Educação Moral, procurará ainda, formar
nas oficinas e nos jovens de um e outro sexo, os sen-
assistimos ao esforço de seu Secretário-Geral, Tenente-
timentos e os conhecimentos que os tornem capazes Coronel Jair Dantas Ribeiro, de descaracterizar qual-
da missão de pais e mães de famílias. quer identificação dela para com suas congêneres nazi-
Às mulheres dará, de modo especial, a consciência fascistas: "...A propósito, sabemos todos que apesar
dos deveres que as vinculam ao lar, assim como o da conduta cristalina do Brasil em face do momento
brasileira é a maior e a mais inadiável tarefa de civismo de nossos dias,
internacional, ainda há espíritos de má fé, que se
é imperativo a que se subordinam todas as demais soluções educacionais
de nossa Pátria. . ." 96. Maria LENK, op. cit., pp. 43-48.
91 103
ocupam em procurar indícios- de 'fascismo' na nova dificuldades cada vez maiores de continuar a dar vazão
política do país. Um desses indícios é, ao que afirmam, ao crescimento de seu setor industrial, como também
a criação da Juventude brasileira. Estribam-se, para de garantir o atendimento das aspirações da sociedade
isto, numa simples questão de nome, uma exterioridade brasileira com relação ao acesso aos produtos indus-
afinal, como se determinadas palavras fossem privilégio trializados não produzidos no país, ou então produzidos
de determinados partidos totalitários. Longe de qual- em escala inferior à demanda. Até então, o Brasil vinha
quer vislumbre de totalitarismo, a Juventude brasileira suprindo sua carência de mão-de-obra especializada,
não tem na sua organização, nada que se pareça, de através de sua importação junto aos países europeus.
leve, com as organizações dos jovens alemães e italia- Era também do mercado europeu que o Brasil encomen-
nos. E se isso se dá com a sua organização, melhor dava os produtos industrializados não produzidos — ou
ainda é o que se verifica com o seu sentido filosófico produzidos em pequena escala — por suas indústrias,
e político que outro não é senão o do regime bra- produtos esses que passavam a integrar o quadro de
sileiro. . ," 97
"necessidades de consumo" de uma, cada vez mais exi-
gente, parcela da sociedade brasileira.
CENA V Porém, com o advento da Segunda Guerra Mun-
Se, porém, por um lado, a promoção da disciplina dial, tornou-se inviável continuar a atender às necessi-
moral e do adestramento físico da juventude brasileira dades internas — tanto as de preservação, ampliação
impunha-se em razão da preocupação com a "defesa da e melhoria da qualidade de produção de seu composto
nação", por outro — de forma alguma excludente do industrial, quanto as de consumo dos bens industria-
primeiro, pelo contrário, com caráter complementar — lizados — através daqueles mecanismos, haja visto ter
sua razão de ser afinava-se com a necessidade sentida sido a Europa o foco central daquele conflito bélico
de condicioná-la ao cumprimento dos seus deveres com mundial.
o desenvolvimento econômico brasileiro. Evidenciou-se, então, a premente necessidade do
A Carta Constitucional de 1937, trazia expressa- Brasil — buscando garantir a ininterrupçao do seu
mente, em seu artigo 129, o princípio da responsabili- processo de desenvolvimento — encontrar formas de
dade do Estado para com o ensino profissional. Atendia preencher as lacunas abertas em seu projeto de indus-
esse preceito legal às imposições decorrentes da conjun- trialização, por conta da situação internacional. A in-
tura sócio-político-econômica nacional e internacional tenção presente no artigo 129 da Constituição de 37,
do período. O Brasil, em pleno processo de implemen- veio a materializar-se — como resposta à necessidade
tação de seu parque industrial, vinha se deparando com mencionada — através da "Reforma Capanema", deno-
minação recebida por um conjunto de leis ordinárias
97. A Juventude Brasileira, Diário A manhã, RJ, 18/4/1943, apud. Marinete que, a partir de 1942, objetivaram a regulamentação
dos Santos SILVA, op. cit., p. 42. do preceituado naquele artigo constitucional.
92 93
Em todos aqueles documentos legais, a Educação tempo de trabalho, já por eles administrado, incorpo-
Física foi contemplada como sendo matéria obrigatória rando dessa maneira às suas esferas de ação, tudo
a ser oferecida pelos estabelecimentos de ensino e cum- aquilo que girasse em torno da forma como o trabalha-
prida por todos os alunos até os 21 anos de idade. dor viesse a ocupar o seu tempo de não-trabalho, enten-
Buscava-se, dessa forma, atender ao preceito constitu- dendo-se como tal, tanto o tempo de recuperação da
cional contido em seus artigos 131 e 132, referente à sua força de trabalho, como também o seu tempo livre,
promoção do adestramento físico necessário ao cum- expressão do tempo que lhe restava da adição do tempo
primento — por parte da juventude — "de seus deveres de trabalho ao tempo de recuperação. O propósito de
para com a economia". tal ação, vincula-se à intenção de orientar a ocupação
Assim, em 1942, por intermédio da promulgação, do tempo de não-trabalho do trabalhador, no sentido de
em 30 de janeiro, da Lei Orgânica do Ensino Industrial relacioná-lo, ainda que indiretamente, ao aumento de
— Decreto-lei n.° 4.073 — a Educação Física tornava-se sua capacidade de produção.
obrigatória naquela modalidade de ensino. Quase 2 anos CENA VI
depois, em 28 de dezembro de 43, chegava a vez dos
cursos comerciais assumirem a sua obrigatoriedade,
regulamentada por força da Lei Orgânica do Ensino Mas não somente a ela, produção, eram direciona-
Comercial, Decreto-lei n.° 6.141 e, em 20 de agosto de das as ações entabuladas. Pretendia-se mesmo, de
1946, já encerrado o período estadonovista, ela chegava, forma articulada à preocupação com a produção, esta-
via Lei Orgânica do Ensino Agrícola — Decreto-lei n.° belecer um processo de educação da classe trabalha-
9.613 — àquele ramo de ensino. dora, pautada nos valores burgueses dominantes, de
Mas se os cuidados com a formação de mão-de-obra forma a descaracterizá-la enquanto classe social, di-
fisicamente adestrada e capacitada era a justificativa luindo os antagonismos de classe presentes na relação
maior da presença da Educação Física no sistema oficial Capital-Trabalho.
de ensino, fora dele, sua ação, orientada para a manu- Marinete dos Santos Silva nos reporta a duas pas-
tenção e recuperação da força de trabalho do operaria- sagens em que o Ministro Capanema explicita tais
do, ocorria de forma distinta daquela. intenções. Na primeira delas, refere-se ele à criação,
Atendia, assim, a Educação Física, fora do sistema pelo Decreto-lei n.° 4.048, de 22 de janeiro de 42, do
oficial de ensino técnico-profissionalizante — aquele de "Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários",
responsabilidade direta do Estado — a necessidade de, posteriormente denominado "Serviço Nacional de Apren-
através de sua ação, colaborar para que a extensão do dizagem Industrial", SENAI: ".. .Reconstituiu-se, entre
controle sobre o trabalhador — tanto por parte das nós, mas de modo mais extenso e mais eficiente, do pon-
entidades patronais, quanto por parte do Estado, via to de vista da riqueza e da cultura nacionais, o generoso,
Ministério do Trabalho — se desse para além de seu o humano, o belo sistema da medieval educação profis-
95 93
sional, em que o dono da indústria não era apenas o Nacional de Educação Física, Major Inácio Rolim, em
patrão do seu jovem empregado, mas também o seu 1941, se expressou ao proferir palestra denominada
educador..." 08
"Educação Física nas Classes Trabalhistas", por ocasião
Na segunda passagem, assim clarifica ele, suas in- do Ciclo de Conferência promovido pela Associação Bra-
tenções: "... A coletividade verá de perto os benefícios sileira de Educação Física: ".. .Atividades dessa natu-
que o sistema trará ao país, criando uma nova menta- reza (exercícios, natação, box, ciclismo, remo) (...)
lidade das classes trabalhadoras, para que melhor constituem oportunidades favoráveis para que o traba-
exerçam suas atividades, sem ressentimentos e sem lhador possa levar a efeito, íntima comunhão com seus
desarmonia, num justo equilíbrio de ação, para maior camaradas e íntima ligação com a direção da empresa.
estabilidade e grandeza da vida nacional... O desporto serve admiravelmente para realizar o
A construção da "nova mentalidade das classes supremo princípio da unidade da empresa, no sentido
trabalhadoras", mencionada por Capanema, contou em de uma verdadeira comunidade. Graças a esta valiosa
sua edificação com os préstimos da Educação Física. cooperação, manifesta-se um conhecimento perfeito dos
A contribuição das atividades físico-esportivas para a diversos elementos da mesma associação e as horas de
consecução dos objetivos enunciados por Capanema, recreação desportiva são de manifestações eloqüentes
pode ser observada na forma como o Diretor da Escola de grande solidariedade... " ° 10

Ao lado da descrição dessa função "sociabilizado-


98. Ibid., p. 33. Nesse particular, não conseguimos conter a vontade de esta-
belecermos uma analogia entre a fala de Capanema, publicada nos anais ra", menciona o Major Rolim, uma outra; de ordem
do Ministério da Educação e Saúde, em 1942, com a matéria publicada compensatória. "... O desenvolvimento e a conservação
pela "Folha de São Paulo", em edição de 4 de outubro de 1987, sob o
título "Bradesco fornece ensino gratuito a 40 mil estudantes". José Ro- conscientes da capacidade de trabalho e da saúde do
berto de Toledo, o repórter, inicia o artigo dizendo que " . . .a maior em- operário, constitui para toda a sociedade econômica
presa privada do país, é também, uma das principais responsáveis pela
rede técnico-educacional brasileira. uma necessidade de real importância.
Com cerca de 153 mil funcionários, o Bradesco, através de seu sis-
tema de educação básica, atende atualmente, 40 mil estudantes que rece-
Restabelecer convenientemente a compensação do
bem formação técnica desde o 1.° grau. Este n.° equivale a quase 60% desgaste de forças, mediante a prática dos exercícios
dos alunos de cursos técnicos mantidos pelo governo federal ( . . . ) Tanto
os funcionários quanto os alunos da Fundação Bradesco devem, ao entrar
adequados, constitui a missão da Educação Física nos
na Organização, escrever de próprio punho uma declaração de princípios estabelecimentos fabris. Este revigoramento e fortale-
que define a filosofia da Instituição. Há diferenças entre as declarações
dos funcionários e alunos, mas basicamente elas defendem o 'respeito à
cimento corporais, mediante os desportos e jogos ao ar
Pátria, à família e amor ao trabalho'. A declaração de princípios funciona livre e ao sol, devem compensar o esforço realizado no
como balizamento da conduta de qualquer pessoa que trabalhe ou estude
no Bradesco, e o respeito a ela se impõe como condição necessária de
desempenho da profissão, proporcionando forças, ale-
permanência na instituição. O Lazer e o Esporte compõem o quadro das gria e saúde (...) A organização das instituições com
ações desenvolvidas pela Instituição em suas escolas, como também em
centros de atendimento de seus funcionários..."
99. Marinete dos Santos SILVA, op. cit., p. 34. 100. Inácio ROLIM, Educação Física nas classes trabalhistas, Departamento
de Imprensa e Propaganda, Estudos e Conferências, p. 83.
97 93
objetivo de colocar ao alcance do operário as possibili- orientar os obreiros da grandeza do Brasil, no raiar desta
dades de divertir-se, melhorando a saúde depois de um nova aurora adivinhada pelo épico de 'Os Sertões' quan-
dia de trabalho, é deveras empolgante pelos seus mais do vaticinava que haveríamos de ser uma componente
amplos e benéficos resultados... " 1M nova entre as forças cansadas da humanidade... ' n02

Ao finalizar seu pronunciamento, o Major Rolim Mas não só as instituições patronais, nos moldes
faz a conjugação dos dois objetivos a serem alcançados do SENAI e do SENAC — Serviço Nacional de Apren-
pela Educação Física nas "Classes Trabalhistas": ".. .A dizagem Comercial, criado através do Decreto-lei n.°
industrialização conseqüente da siderurgia impõe aos 8.621, quatro anos depois do seu similar, no campo in-
construtores de todo o maquinismo agrícola e rural de dustrial, em 10 de janeiro de 1946 — somaram esforços
trilhos, motores de aviões e armas, um mundo mate- no sentido de estabelecer uma fiscalização sobre o tra-
rial e mais humano, a utilização das horas de folga com balhador, de forma a vir controlá-lo também em seus
momentos felizes de reparações, ser sociável para com- momentos não vinculados ao espaço fabril, sempre vol-
petir com elegância e triunfar com energia. tadas para o atendimento dos interesses dos detentores
Esta é a nova filosofia de vida e para ela pretende- dos meios de produção, no concernente à melhoria da
mos orientar a nossa gente pela Educação Física. Ela capacidade produtiva da Classe Trabalhadora brasilei-
nos proporcionará um desenvolvimento muscular mais ra. Também o Estado se apressou em fazê-lo. Assim, em
amplo, uma capacidade pulmonar maior, a circulação 1943, o governo estadonovista criou, pela Portaria n.° 68
mais ativa e a função digestiva mais regularizada, em de 6 de setembro, o "Serviço de Recreação Operária".
Vinculado ao Ministério do Trabalho, buscava atender
síntese, o equilíbrio orgânico. Intelectualmente, ela so- as expectativas do operariado, fosse ele jovem ou adulto,
lucionará situações variadas que requerem raciocínio, no campo da cultura, do escotismo e do desporto. 103

atenção, iniciativa, controle, memória e julgamento. Acreditamos não fazer necessário explicitarmos o norte
Entretanto, assume maior importância, avulta como político-ideológico que orientava o atendimento das
meio de transformação do indivíduo em cidadão útil à aludidas expectativas.
coletividade, o 'valor social da prática da Educação Fí-
sica'. Ela disciplina emoções, forja a personalidade, Dada a relevância do papel destinado à Educação
desenvolve o caráter e as demais qualidades que o ele- Física, naquele momento histórico, nada mais coerente
gem padrão de moral, de dignidade e de virtudes. do que dotá-la de condições que lhe garantissem uma
Nos campos de desporto, devem-se ministrar lições sólida "performance". Assim, em 17 de abril de 1939,
de cooperação e de compreensão ao respeito pelos direi- deu-se a criação, na Universidade do Brasil, da Escola
tos alheios e à lei, ajustamento ao grupo e a sacrificar-se Nacional de Educação Física e Desportos. Na exposição
de motivos do Ministro de Educação e Saúde, Gustavo
pelo benefício comum. Eis senhores, como aspiramos
102. Ibid., p. 87.
101. Ibid., pp. 83-85. 103. Alcir LENHARO, op. cit., p. 104.
103
98
Capanema, datada de 27 de jançiro daquele mesmo ano,
quando da apresentação do Decreto-lei n. 1.212 que
u

a criava, assim referiu-se ele à Educação Física: ".. .A


Constituição, artigo 131, estabelece que a Educação Fí-
sica é obrigatória em todas as escolas primárias, normais
e secundárias da República, e é óbvio que, conquanto
não obrigatória, esta espécie de educação, é aconselhá-
vel em todos os demais estabelecimentos de ensino no
país... " <
10

Dois anos mais tarde, deu-se a promulgação do


Decreto-lei n.° 3.199, de 14 de abril, que estabeleceu as
bases de organização dos desportos em todo o país. In-
teressante lembrar que esse Decreto-lei permaneceu em
vigor até o ano de 1975, quando foi revogado pela Lei
n.° 6.251 que, regulamentada dois anos mais tarde pelo
Decreto n.° 80.228, passou a cuidar dos destinos da Edu-
cação Física e do Desporto.
Acreditamos não se fazer necessário avivar — ainda
mais do que aqui fizemos — as lembranças daquilo que
significou o Estado Novo na história social e política da
sociedade brasileira. Ingênuo seria pensar que documen-
tos legais promulgados naqueles tempos, não trouxes-
sem enraizados em si, profundas cicatrizes do autori-
tarismo que permeou todos aqueles anos. Mais intri-
gante ainda, é saber que os novos documentos legais
que se sucederam àqueles, na direção dos destinos da
Educação Física e do Esporte no Brasil, em pouco ou
em quase nada alteraram a política traçada pelos seus
antecessores.
INTERVALO...

104. Maria LENK, op. cii., pp. 30-31.


100

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