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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Carmen Soares


Soares, Carmen Lúcia,
E d u c a ç ã o física: raízes e u r o p é i a s e B r a s i l / C a r m e n L ú c i a S o a r e s ;
p r e f á c i o s D e n i s e B e r n u z z i de S a n f A n n a , D u l c e M a r i a P o m p ê o
de C a m a r g o e H e l o í s a H e l e n a Pimenta Rocha - 4. ed. -
C a m p i n a s , SP: A u t o r e s A s s o c i a d o s , 2 0 0 7 . - ( C o l e ç ã o e d u c a ç ã o
contemporânea)

Bibliografia.
ISBM 978-85-7496-018-0
EDUCAÇÃO FÍSICA
1. E d u c a ç ã o física - A s p e c t o s s o c i a i s 2. E d u c a ç ã o f í s i c a - B r a s i l
- H i s t ó r i a I. S a n f A n n a , Denise Bernuzzi de. II. Título. III. Série.
Raízes Européias e Brasil
94-1814 CDD-613.70981

índices para catálogo s i s t e m á t i c o :

1. B r a s i l : E d u c a ç ã o f í s i c a : H i s t ó r i a 613.70981

V- Edição - 1994
Impresso no Brasil - abril de 2007
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1 ÍO EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 89

4. EM BUSCA DA E D U C A Ç Ã O E DA SAÚDE DO POVO... Uma economia urbano-comercial é desenhada, uma elite com
OS "OLHARES" SE VOLTAM PARA A EDUCAÇÃO FÍSICA idéias "burguesas", européias se projeta; a miséria e a prostituição
crescem nas cidades; as doenças e as epidemias, de mãos dadas
Nos últimos anos do Império, a nova classe dirigente, mais iden- com a morte, são o cartão de visita dos portos... O capitalismo está
tificada com as idéias de progresso e de desenvolvimento, passa a nascendo no Brasil.
vincular a essas idéias a necessidade de uma educação pública e Mas, com que olhos, intelectuais como Rui Barbosa olham o
estatal para o povo, uma vez que a ignorância deste impedia a en- novo modo de produção? Como pensam eles ser possível viabilizar
trada do país no mundo da modernidade. A eliminação da ignorân- este novo modo de produção no Brasil? Como seria possível viabi-
cia do povo, portanto, passava a ser a chave para todos os proble- lizar uma sociedade nova, capitalista com um povo doente? Com a
mas da nação. insalubridade dos portos? Com um enorme contingente populacio-
Nos trabalhos de Rui Barbosa, inúmeras são as passagens nas nal impregnado dos valores próprios das relações escravistas de
quais ele se refere à ignorância popular como trabalho, desqualificados, portanto, para a indústria nascente?
Como falar de urbanidade, asseio, saúde, progresso, desenvolvimen-
a m ã e d a s e r v i l i d a d e e da m i s é r i a ; a g r a n d e a m e a ç a c o n t r a a exis- to para uma população arrasadoramente analfabeta, aprisionada
t ê n c i a c o n s t i t u c i o n a l e l i v r e d a n a ç ã o ; o f o r m i d á v e l i n i m i g o , o ini- pelo misticismo?
m i g o i n t e s t i n o q u e s e a s i l a n a s e n t r a n h a s do p a í s [BARBOSA, 1946, É neste quadro que a idéia de educação como instrumento ca-
pp. 121-122]. paz de transformar o país se faz presente de modo marcante no
pensamento das elites identificadas com o novo. E Rui Barbosa é
Sua argumentação acerca da difusão da escola em países con- um de seus porta-vozes mais expressivos.
siderados mais cultos como Inglaterra, França, Alemanha, Estados Todavia, em Rui Barbosa, com das elites, a idéia
Unidos, pautava-se sempre em dados estatísticos, que lhe permi- da educação como algo capaz de transformar a sociedade caótica
tiam tecer em sua obra uma teia de informações que comprovavam que se mostra aos seus olhos, não aparece sozinha. Juntamente
e relacionavam instrução com produção, com desenvolvimento mo- com ela e, principalmente, por meio dela, surge a idéia da saúde e
ral, com diminuição da delinqüência, "com amor à pátria" e com de como ser saudável. Para alcançar este "ser" saudável seria ne-
outras tantas virtudes. Ele afirmava ser a "educação do povo [...] o cessário recorrer ã Higiene e, sobretudo, acentuar a sua importân-
primeiro elemento de ordem, a mais decisiva condição de superio- cia na escola.
ridade militar e a maior de todas as f o r ç a s produtoras" (idem, Higiene e educação juntas poderiam mudar a face do país, pro-
p. 140). Para Rui Barbosa, a educação escolar teria a função do mover o seu desenvolvimento, viabilizar o progresso. Higiene e edu-
artífice e moldaria, conforme os mais caros ideais de liberdade hu- cação passam a ser os remédios adequados para "curar" as doen-
mana, a grande massa que era constituída pelo povo. ças do povo e do país. Dessa união bem conduzida nasceria um
Rui Barbosa dialoga com um Brasil que reflete de modo mar- outro Brasil.
cante os seus três séculos de regime colonial, e vislumbra o nas- A elite dirigente, da qual Rui Barbosa é representante, passa a
cimento de um incipiente processo de transformação política e acentuar a importância da saúde e da educação, e a pensá-las jun-
econômica que, tendo seu início no Império, acentua-se com a tamente com toda a sociedade a partir de um processo de importa-
proclamação da República. Em outras palavras, a República se- ção de teorias oriundas dos países centrais.
ria o próprio "passaporte" para o desenrolar "natural" desse novo Essas teorias passam a instrumentalizar as diferentes práticas
processo em curso. sociais, entre elas a educação e a saúde, através de uma ruptura
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com o contexto de origem e uma adequação/adaptação aos padrões escolas, contribuiria para forjar o indivíduo forte, robusto, saudá-
de desenvolvimento das relações capitalistas no Brasil. vel e disciplinado de que tanto carecia a nova sociedade brasileira
É importante frisar que não há, por parte da elite brasileira,
em formação.
uma assimilação distraída, indiferenciada ou simplesmente imita-
Era dever primário, como bem diz Rui Barbosa, da existência
tiva das teorias sociais que se encontram plenamente desenvolvi-
humana "cuidar do corpo", "da saúde", e a ginástica seria o elemento
das na Europa do século XIX, sobre as quais tratamos brevemente
capaz de promover a saúde através do "saudável" exercitar dos
no primeiro capítulo deste trabalho. O que existe é uma assimila-
músculos, atividade esta que deveria tornar-se hábito. Portanto, a
ção seletiva e até hierarquizada de apropriação/difusão do ideário
ginástica não poderia ficar fora da escola, também alertava Rui
europeu pela elite brasileira mais identificada com o novo.
Barbosa, afirmando ser a sua obrigatoriedade universalmente acei-
Nesse quadro de assimilação seletiva e hierarquizada do ideário ta. Uma e d u c a ç ã o popular que não incluísse a ginástica seria
europeu, o liberalismo compõe o pano de fundo, j á que represen- considerada indigna desse nome, porque a ginástica deveria acom-
ta a própria visão de mundo da burguesia. Esta, por sua vez, é panhar todo o ensino e plantar no homem o sentimento de. sua ne-
traduzida por diferentes correntes, tais como o positivismo, evo- cessidade, assim como "do pudor, da urbanidade e do asseio" (BAR-
lucionismo, organicismo, correntes que, em diferentes momentos, BOSA, 1 9 4 2 , p . 174).
t i v e r a m m a i o r ' o u " m ê n õ r ' e s p á ç o na construção da sociedade bra- A Educação Física no tsrasil, em suas primeiras tentativas para
sileira 1 1 . compor o universo escolar, surge como promotora da saúde física,
As metáforas organicistas pontuam o pensamento de estadis- da higiene física e mental, da educação moral e da regeneração ou
tas, pedagogos, literatos, juristas, cientistas, médicos, e o positir reconstituição das raças.
vismo comteano confere, na exata medida, a idéia de uma reallrtg-
Higiene, raça e moral pontuam as propostas pedagógicas e le-
dé a b s o l u t a m e n t e externa ao observador. Ao mesmo tempo, o
gais que contemplam a Educação Física, e as funções a serem por
evolucionismo mais grosseiro respalda a idéia da concorrência, da
ela desempenhadas não poderiam ser outras senão as higiênicas,
competição e da vitória do mais forte, do mais saudável, daquele
eugênicas e morais.
que, seria mais adequado ao progresso e à nova ordem.
A argumentação utilizada por Rui Barbosa para j u s t i f i c a r o
A educação e a saúde, como práticas sociais, foram fortemen-
ingresso da Educação Física no universo escolar traduz com muita
te influenciadas por estas correntes de pensamento e receberam
propriedade as funções apontadas, evidenciando o viés médico hi-
funções muito particulares e importantes no processo de transfor-
gienista presente no ideário dos estadistas brasileiros.
mação da sociedade brasileira no final do Império.
Rui Barbosa observa que
Para nossos estudos e nos limites deste trabalho, destacamos
um conteúdo que, na ótica da elite dirigente e fortemente defendi- a g i n á s t i c a , a l é m d e ser o r e g i m e n f u n d a m e n t a l p a r a a r e c o n s t i t u i -
do por Rui Barbosa, viria a se constituir na síntese perfeita das duas ç ã o d e u m p o v o c u j a v i r i l i d a d e se d e p a u p e r a e d e s a p a r e c e d e dia
práticas sociais apontadas e na consecução dos objetivos propos- em dia a olhos vistos, é ao m e s m o tempo, u m exercício eminente-
tos. Estamos nos referindo à Educação Física, que, ministrada nas mente, insuperavelmente moralizador, um g e r m e m de ordem e u m
v i g o r o s o alimento da liberdade. D a n d o à criança u m a presença
e r e c t a e v a r o n i l , p a s s o f i r m e e r e g u l a r , p r e c i s ã o e r a p i d e z de m o v i -
11. Para maior compreensão sobre as teorias que embasaram o pensamento das
m e n t o s , p r o n t i d ã o n o o b e d e c e r , a s s e i o no v e s t u á r i o e no c o r p o ,
elites brasileiras consultar B. Lamounier, "Formação de um pensamento polí-
tico autoritário na Primeira República. Uma interpretação", em História Geral a s s e n t a m o s i n s e n s i v e l m e n t e a b a s e de h á b i t o s m o r a i s , r e l a c i o n a -
da Civilização Brasileira, 1978, vol. 3, cap. 10.
d o s p e l o m o d o m a i s í n t i m o c o m o c o n f o r t o p e s s o a l e a f e l i c i d a d e da
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f u t u r a f a m í l i a , d a m o s l i ç õ e s p r á t i c a s de m o r a l t a l v e z m a i s p o d e r o - 2 o - E x t e n s ã o o b r i g a t ó r i a da g i n á s t i c a a a m b o s os s e x o s n a f o r -
s a s d o q u e o s p r e c e i t o s i n c u l c a d o s v e r b a l m e n t e [BARBOSA, 1946, mação do professorado e nas escolas primárias de todos os graus,
p. 9 8 ] . tendo em vista, em relação à mulher a harmonia das formas feminis
e as exigências da maternidade futura.
Como podemos observar, para o autor, os "benefícios" que se 3 ° - I n s e r ç ã o da g i n á s t i c a n o s p r o g r a m a s e s c o l a r e s c o m o m a t é r i a
podia auferir da ginástica eram inúmeros e, decididamente, de enor- de estudo, e m horas distintas das do recreio, e depois d a s aulas.
me importância para a "educação" não apenas "física" do povo brasi- 4o - Equiparação, em categorias e autoridade, dos professores de
leiro, mas para a sua "educação plena", ou seja, moral e intelectual. ginástica aos de todas as outras disciplinas [idem, grifos nossos].
Das inúmeras reformas do ensino que buscaram incorporar a
ginástica nos currículos escolares, reformas estas que faziam par- Essa síntese clara e objetiva evidencia o seu caráter obrigató-
te do universo de informações de Rui Barbosa, é preciso destacar rio, distingue-a das horas de recreio, confere aos professores des-
o decreto n. 7.247 de 19 de abril de 1879. Este decreto, ou esta re- sa matéria igualdade aos demais que compõem o universo escolar
forma do ensino assinada por Carlos Leôncio de Carvalho, trazia j á e estende a ginástica a ambos os sexos, preservando, porém, para
em sua grade curricular o espaço obrigatório para o ensino da gi- a mulher, as "funções" a serem por ela desempenhadas na socie-
nástica nas escolas primárias e secundárias do município da Cor- dade - as de "mulher/mãe", de reprodutora dos filhos da pátria. A
te 12 . ginástica destinada à mulher deveria, então, acentuar as suas for-
A orientação de obrigatoriedade para o ensino da ginástica será mas feminis e, desse modo, compor o ideário burguês sobre as di-
seguida por Rui Barbosa em sua argumentação sempre eloqüente ferenças da mulher em relação ao homem.
acerca do exercício físico e da sua efetiva integração aos currícu- Os elementos apontados por Rui Barbosa expressam as preo-
los escolares. cupações da elite brasileira com a regeneração da raça, com a pro-
Em seu parecer de n. 224 sobre a Reforma Leôncio de Carva- criação e com a saúde física de homens e mulheres, entendidos
lho, sob o título "Reforma do Ensino Primário e várias Instituições como soldados da pátria. A Educação Física no âmbito destas preo-
C o m p l e m e n t a r e s da Instrução Pública", proferido na sessão da cupações surge como instrumento ideal para forjar indivíduos sau-
Câmara dos Deputados em 2 de setembro de 1882, Rui Barbosa dáveis e úteis para ocupar funções específicas na produção. Expres-
assim sintetiza o conjunto de medidas que considera necessárias sam, ainda, o acentuado interesse do capital na preservação da
para que a ginástica se integre aos currículos escolares: força de trabalho através de discursos e práticas que definem pa-
péis e funções a serem desempenhados por homens e mulheres.
I o - I n s t i t u i ç ã o d e u m a s e c ç ã o e s p e c i a l de g i n á s t i c a e m c a d a Profundamente moralistas, as idéias sobre os "benefícios" da
escola normal. ginástica são oriundas do pensamento médico higienista e de uma
visão medicalizada da sociedade. Este pensamento normativo, dis-
ciplinador e moral teve papel determinante nas primeiras siste-
12. Decreto n. 7.247 de 19 de abril de 1879. Reforma do ensino primário e secun-
dário do município da Corte e o superior em todo o Império. "Art. 4°[...] O ensi- matizações sobre a ginástica... sobre a "educação física" dos indi-
no n a s e s c o l a s p r i m á r i a s de 1° g r a u do m u n i c í p i o da Corte constará das víduos, e Rui Barbosa o captou de modo surpreendente, procurando
seguintes disciplinas: Instrução moral. Instrução religiosa. Leitura, Escrita.
Noções de cousas. Noções essenciais de gramática. Princípios elementares de ampliar-lhe o espaço, disseminando-o, por assim dizer.
aritmética, Sistema legal de pesos e medidas, noções de história e geografia do Considerando fundamental a voz dos médicos, dos anatomis-
Brasil, Elementos de desenho linear. Rudimentos de música, com exercícios de
solfejo e canto. Ginástica. Costura simples para meninas", apud Barbosa 1942 tas e dos fisiologistas para o desenvolvimento da ginástica, Rui Bar-
p. 276. bosa reitera em sua argumentação a importância destes profissio-
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nais nas primeiras sistematizações sobre a ginástica ocorridas na gorosa e em expansão do que aquela identificada ainda com o
Europa após a Revolução Burguesa. Refere-se aos trabalhos desen- escravismo, Rui Barbosa se faz presente nos embates travados por
volvidos por Ling, na Suécia, e Spiess, na Alemanha, destacando estas facções do poder. Percebe a necessidade de uma transforma-
os importantes estudos anatômicos e fisiológicos realizados nesses ção na sociedade que pudesse viabilizar o capitalismo industrial e
países para o desenvolvimento "científico" da ginástica. Rui Barbo- as novas forças produtivas em expansão. Daí sua preocupação com
sa faz alusão especial ao diploma de "médico ginasta", que é confe- a educação e com a saúde do povo e, particularmente, com a edu-
rido àqueles que passam pela Real Academia de Ginástica de Esto- cação física do trabalhador e da mulher/mãe.
colmo. Quanto à Alemanha, observa que neste país Rui Barbosa participa ativamente de um momento da socieda-
de brasileira, as últimas duas décadas do século XIX, no qual deli-
a medicina t e m feito u m a acertada aplicação da ginástica às idéias neiam-se de modo mais acentuado os contornos para que novas
da higiene e da terapêutica, tem indicado os meios mais convenien- relações políticas e um novo regime de governo, finalmente, concre-
t e s d e f o r t i f i c a r t o d o s o s ó r g ã o s , a u m e n t a r a e n e r g i a das. p r o p r i e - tizem-se.
d a d e s v i t a i s , e, g u i a d o s p e l o s c o n s e l h o s d e l a , os g i n a s i a r c a s , i m a -
ginaram exercícios acomodados ao fim de^imprimir uma ação
especial a cada u m a das partes do corpo, principiando pelos mais 5. PENSAMENTO MÉDICO HIGIENISTA E E D U C A Ç Ã O
s i m p l e s m o v i m e n t o s , a t é ir, s u a v e e p r o g r e s s i v a m e n t e a o s m a i s FÍSICA NA PRIMEIRA REPÚBLICA: O REFORÇO
còmpòstoi'TBiú®I^",TÔ4è,-p. '77]' "CIENTÍFICO" A U M INSTRUMENTO DA O R D E M

Esta ginástica funcional e fragmentada, atravessada pelo viés As incompatibilidades existentes no interior da elite brasileira,
médico higienista, constitui um elemento a mais no conjunto de claramente dividida entre uma formação social capitalista é uma
normas morais e disciplinadoras. Ela foi expressão da sociedade na formação social escravista, acentuam-se no final do Império. As ten-
qual foi gerada, e Rui Barbosa soube captar sua singularidade e sões resultantes dessas incompatibilidades passam, conseqüente-
importância na construção da ordem, conferindo-lhe cientificida- mente, a refletir-se nos aparelhos de Estado, e novas relações políti-
de, e neste sentido, status. A "ginástica científica", respaldada nas cas, um novo regime de governo, tornam-se necessários para
ciências biológicas e recomendada mundialmente por médicos, re- "administrar" as tensões, assim como para concretizar o tipo de de-
forçava o reducionismo biológico presente na sociedade, transfor- senvolvimento desencadeado no Brasil nos últimos anos de Império.
mando-se em importante canal de veiculação da moral burguesa O advento da República, liderado por uma elite declaradamente
através de um exacerbado cuidado higiénico com o corpo. liberal, burguesa e, portanto, capitalista, nada mais foi do que um
E Rui Barbosa teve habilidade, diplomacia e "competência" para novo estímulo às atividades econômicas brasileiras.
transformar a ginástica, esta mágica divina, em conteúdo de ensi- Embora difícil de ser avaliada, a proclamação do novo regime
no integrado aos currículos escolares. Procurou sempre, em nome teve grande impacto sobre as mentalidades. Ela foi para as elites
do novo, do moderno, do científico, colocar a ginástica como poten- como que um sinônimo de libertação de idéias, de sentimentos,
cialmente capaz de, em si mesma, desenvolver corpos saudáveis em atitudes, e, sobretudo, mudança. Essa mudança pode ser sentida
meio à miséria física e social do povo, em meio a doenças, epide- de modo mais acentuado no que se refere aos padrões de moral e
mias e morte. honestidade.
Sendo porta-voz de uma determinada facção da elite brasilei- José Murilo de Carvalho, analisando este momento da história
ra, aquela identificada com o capitalismo nascente, muito mais vi- brasileira, observa que
96 BPyeAÇÂO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 97

se d e u u m a v i t ó r i a d o e s p í r i t o d o c a p i t a l i s m o d e s a c o m p a n h a d o d a de moralidade sanitária, discurso apropriado e difundido por pe-


ética protestante. Desabrochou o espírito aquisitivo solto de qual- dagogos e estadistas, tais como Rui Barbosa.
q u e r p e i a de v a l o r e s é t i c o s , o u m e s m o d e c á l c u l o r a c i o n a l q u e g a - Se este discurso acompanha e de certo modo dirige a socieda-
rantisse a sustentação do lucro a médio prazo. Era u m capitalismo de brasileira durante todo o Império, conforme observamos neste
p r e d a t ó r i o , f r u t o t í p i c o d o e s p í r i t o b a n d e i r a n t e [CARVALHO, 1 9 8 7 , capítulo, particularmente no que diz respeito à educação das eli-
pp. 26-27J. tes, é com o advento da República que será colocado em prática
através de ações intervencionistas apoiadas pelo Estado, com o
Um regime assim, se, por um lado, "desenvolve" a sociedade objetivo de, em nome da saúde, manter a ordem, ampliando para o
brasileira, iniciando, ainda que tardiamente, a sua integração ao conjunto da população a determinação de normas para conseguir
capitalismo mundial, por outro, e como face do mesmo processo, uma vida saudável, e o "pleno funcionamento da sociedade". Isto
acentua a miséria, degrada a vida e destrói os laços mais singelos porque é com a República que os médicos começam a assumir car-
e ternos que unem os indivíduos, atirando-os desde muito cedo a gos e a se imiscuir na vida administrativa do país.
um tipo de trabalho degradante e mal pago. Com uma formação européia (francesa), de acentuado caráter
Como testemunho da miséria do povo estão os altos índices científico, dado particularmente pela revolução bacteriológica, de-
de doenças e de mortalidade nas primeiras duas décadas da Re- senvolvida a partir dos estudos de Pasteur, os médicos higienistas,
pública. de fato, mostraram-se eficientes no combate a algumas doenças e,
Gerson Zanetta de Lima afirma que especialmente, aos efeitos perversos das epidemias, estas bem mais
freqüentes e arrasadoras no âmbito das cidades, centro de poder
morriarse de.uma i n f i n i d a d e d e pragas naquela época e o interior decisório da nova sociedade brasileira.
n ã o se d i f e r e n c i a v a m u i t o d a s c a p i t a i s , q u a n t o à v a r i e d a d e . A v a - Não é, portanto, por acaso que os médicos higienistas elegem
ríola, a f e b r e a m a r e l a , a m a l á r i a , a t u b e r c u l o s e e a lepra e r a m d o e n - a cidade, este lugar contraditório de riqueza e miséria, como um dos
ç a s c o m u n s [...] A c o n c e n t r a ç ã o u r b a n a f a c i l i t a v a a d i s s e m i n a ç ã o alvos principais de seu controle, objeto de meticulosa intervenção
d e s s a s d o e n ç a s [...] [e d e o u t r a s ] m e n o s c o m e n t a d a s n a l i t e r a t u r a higiênica. Quanto ao meio rural, o campo, embora apresentasse os
a r e s p e i t o d a s i t u a ç ã o d e s a ú d e d a é p o c a , [tais c o m o ] o s a r a m p o , a mesmos problemas de saúde encontrados nas cidades e ás mesmas
coqueluche a difteria, o tétano, a poliomielite, as diarréias infan- taxas de mortalidade, não foi objeto de preocupação e intervenção
tis, a d e s n u t r i ç ã o e o p a r t o q u e t a m b é m f a z i a m i n ú m e r a s v í t i m a s da medicina social em sua vertente higienista, a qual se mostrou
s e n d o q u e a t r a d u ç ã o g e r a l do q u a d r o e r a u m a e l e v a d a m o r t a l i d a - intimamente ligada ao urbano, mencionando a zona rural,
d e g e r a l , u m a a l t í s s i m a m o r t a l i d a d e i n f a n t i l , da o r d e m de t r e z e n -
tos a q u a t r o c e n t o s p o r mil, e u m a b a i x a e x p e c t a t i v a de v i d a ao n a s - a p e n a s p a r a l o u v a r a p u r e z a de s u a s c o n d i ç õ e s a t m o s f é r i c a s q u a n -
c e r [LIMA, 1 9 8 5 , p p . 8 9 - 9 0 ] . d o c o m p a r a d a s c o m a d a s c i d a d e s , as s u a s b e l e z a s n a t u r a i s , a s u a
p a z . A c i d a d e a o c o n t r á r i o é u m a f o n t e d e d e s o r d e m , de d o e n ç a s , e
Este quadro, se mantido por um longo tempo, poderia amea- é p o r i s s o q u e d e v e ser o o b j e t o p r i v i l e g i a d o da a ç ã o m é d i c a [NOVAES,
çar as forças produtivas da nação, impedindo, pelas doenças e 1979, p. 3 8 ] .
mortes, a reprodução da força de trabalho necessária à reprodu-
ção do capital e ã efetiva implantação do novo regime. Esta ação médica, que será implementada pela higiene, irá jus-
É no contexto republicano, portanto, que podemos situar com tificar todas as grandes transformações das cidades como uma
maior ênfase o discurso médico higienista e os seus pressupostos questão de saúde uma vez que, neste momento, a higiene passa a
112 EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 99

fazer parte das "Ciências Sociais, [e integra] sua lógica à Estatísti- de i m p e d i r a d e t e r i o r a ç ã o d a f o r ç a de t r a b a l h o , a m a i s a f e t a d a p e l a


ca, à Geografia, à Demografia, à Topografia, [torna-se] instrumen- m o r b i m o r t a l i d a d e [LIMA, 1985, p. 47],
to de planejamento urbano" (COSTA, 1984, p. 47).
As medidas sanitárias a serem tomadas objetivavam, portan- Principalmente nas cidades, locais de grande concentração
to, implementar estratégias de controle higiênico das cidades e al- populacional e mercado por excelência para a incorporação da for-
terar radicalmente a sua estrutura urbana, bem como o modo de ça de trabalho, as medidas sanitárias foram fundamentais para a
vida de seus habitàntes. sua preservação. A cidade precisava alterar a sua imagem, uma
As medidas tomadas, tais como canalização de rios, instalação imagem tétrica de causar horror.
de esgotos, controle e tratamento de águas, vacinação obrigatória, O Rio de Janeiro, jovem capital da República podia ser a sínte-
entre outras, não foram exclusivamente fruto da arbitrariedade e se da imagem da cidade no Brasil republicano, e sobre ela assim
autoritarismo do pensamento médico higienista a favor do Estado. se expressava um jornalista da época:
Foram medidas que expressaram, de modo inegável, o caráter civi-
lizatório do capitalismo e foram, até certo ponto, benéficas à popu- A c i d a d e é u m m o n s t r o o n d e a s e p i d e m i a s se a l b e r g a m d a n ç a n -
lação, pois contribuíram para o rompimento com idéias e práticas d o s a b a t s m a g n í f i c o s , a l d e i a m e l a n c ó l i c a d e p r é d i o s v e l h o s e>
ligadas a um pensamento e a explicações religiosas. Elas faziam par- acaçapados, a descascar pelos rebocos, vielas sórdidas cheirando
te do projeto burguês de modernidade pára m a l , e x c e ç ã o f e i t a d a q u e se c h a m a r u a d o O u v i d o r o n d e [...] o h o -
o Brasil. m e m do "burro-sem-rabo" cruza o elegante da.regiãõ tropical, que
O que é preciso ressaltar neste projeto burguês é o fato de t r a z n o m ê s d e f e v e r e i r o s o b r e e a s a c a p r e t a d e lá ÍTigiesa,..e.[;.:tdi-
que, para a sua consecução, não bastava apenas controlar racional- l u i - s e e m c a c h o e i r a s d e s u o r [...] O p o v o e s t á s e m i n s t r u ç ã o ! A in-
mente a saúde, mas também, e principalmente, tornava-se ne- d ú s t r i a d e s p r o t e g i d a . O s s e r v i ç o s p ú b l i c o s , d e m o l a s p e r r a s [...] só
cessário controlar a moral das classes subalternas, conter e do- o comércio progride, o "honrado comércio desta praça" com o
mesticar a irracionalidade das paixões populares, modificar õ seu c o m e n d a d o r a frente, o quilo de 800 gramas, o m e t r o de 70 c m
modo de vida, a sua habitação, assim como os seus cuidados com [EDMUNDO, 1 9 8 2 , p . 2 1 ] .

o corpo.
Para além deste forte viés moralizador, há que se ressaltar tam- Este é o retrato não apenas da cidade, da jovem capital repu-
bém o significado da higiene pública sob a ótica da produção da blicana, mas é também o retrato desta nova sociedade que está se
força de trabalho e da adequação à nova ordem que se instala sob construindo, a sociedade do lucro fácil, do negócio grandioso a curto
a égide do capital. prazo, não importam os meios nem as conseqüências.
Para Gerson Zanetta de Lima, é possível resumir este significado A intervenção médico-higiênica que ocorre neste cenário ci-
tadino e que expressa, sobretudo, a voracidade do novo regime,
a u m c o n j u n t o d e m e d i d a s de i n t e r v e n ç ã o q u e se e s t a b e l e c e m s o - não se dará no sentido de alterar as relações sociais ali presen-
bre o meio, de modo a diminuir sua influência patogênica sobre os tes. Estará voltada exclusivamente para o meio ambiente, que será
c o r p o s . N a e v o l u ç ã o das s o c i e d a d e s capitalistas, seu d e s e n v o l v i m e n - considerado o responsável direto pela saúde, tanto do corpo in-
to se d á q u a n d o a s f o r t e s t a x a s d e m o r b i m o r t a l i d a d e da p o p u l a ç ã o dividual, como do "corpo social". Assim, sanear o meio ambiente
a m e a ç a m p a r a l i s a r o d e s e n v o l v i m e n t o das f o r ç a s m a t e r i a i s d e pro- significava para os médicos higienistas (e, portanto, para o Esta-
d u ç ã o e, a s s i m , se c o n s t i t u i r e m u m a a m e a ç a à p r ó p r i a e x i s t ê n c i a do), garantir, de fato, a formação de indivíduos fortes, saudáveis
d a c l a s s e d i r i g e n t e (...) s ã o m e d i d a s t o m a d a s , p o r t a n t o , n o s e n t i d o e úteis à pátria.
1 ÍO EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 101

Desse modo, planificar e restaurar meticulosamente o espaço A Educação Física preconizada pelo pensamento médico-higie-
das cidades, higienizar casas, ruas, demolir antigos casarões, ras- nista era estruturada em bases fisiológicas e anatômicas, as únicas
gar largas avenidas em meio a vielas sombrias, matar insetos atra- consideradas "científicas". A partir, portanto, de um entendimento
vés de contínuas desinfecções, promover campanhas-de vacinação anatomofisiológico do movimento humano, os médicos colocavam o
em massa, etc, etc... passam a ser as grandes e redentoras tarefas estudo da higiene elementar como complemento preparatório da
da higiene pública, tarefas essas que associadas a uma educação Educação Física, tornando-a, particularmente na escola, um proce-
higiênica do povo, criariam as condições necessárias e suficientes dimento higiênico a ser adotado naquela instituição e incorporado
para a consolidação da ordem. Em nome dessa purificação, dessa como hábito para toda a vida.
assepsia do meio ambiente urbano, o saber e a autoridade médica O Dr. B. Vieira de Mello em seu livro A Hygiene na Escola, es-
invadem a intimidade dos lares, destroem os seus valores, suas crito em 1902, dedica um capítulo especial à ginástica, alertando
práticas e desejos e impõem, no seu imaginário, o ideário burguês para a sua importância na escola;
de civilidade: a ordem, a limpeza, a disciplina, a autoridade, a fa-
mília, a moral, a propriedade privada... [a g i n á s t i c a ] a l é m de q u e i n f l u e no c r e s c i m e n t o e n a e s t h é t i c a é u m
O ideário colocado em prática pela Higiene separa os corpos, e x c e l l e n t e m e i o de e d u c a ç ã o m o r a l , p o r q u a n t o f o r m a o c a r a c t e r ,
designando para cada um deles lugares específicos na sua casa (na torna o h o m e m corajoso, ensina-lhe a d o m i n a r - s e e agir r a p i d a m e n -
qual deve viver apenas a família, devendo estar fechada aos "ou- te, s e as c i r c u n s t â n c i a s o e x i g i r e m [p. 36).
tros"), na fábrica, na escola, e na própria cidade onde se vive. Em
nome da saúde, fala-se em metros cúbicos de ar, de ventilação e O hábito da ginástica traria, então, "inestimáveis benefícios" aos
de luz necessários ao espaço da casa e do trabalho e, desse modo, indivíduos em todas as idades, sobretudo na juventude. O Dr. Jor-
processa-se um rigoroso esquadrinhamento da população trabalha- ge de Souza, em pronunciamento sobre o tema "Da educação
dora exercendo-se, assim, um controle "científico-político" do meio. physica e inspecção médica nas escolas", durante o VI Congresso
Impõem-se uma disciplina que pretende adequar o corpo ao Brasileiro de Medicina e Cirurgia, realizado em São Paulo em 1907,
trabalho fabril, tornando-o assim mais dócil e submisso sob a óti- assim se expressa sobre os "inestimáveis benefícios" a serem con-
ca do poder e, ao mesmo tempo (e por isso mesmo), mais ágil, forte seguidos pelos exercícios físicos:
e robusto sob a ótica da produção como expressão do poder e da
ordem. Esta disciplina corporal foi elemento constitutivo da educa- [os] e x e r c í c i o s p h y s i c o s ao ar livre, tão n e c e s s á r i o s a o d e s e n v o l v i -
ção higiênica do trabalhador, a qual deveria se dar na escola, caso m e n t o da m u s c u l a t u r a e a o x y d a ç ã o do s a n g u e , tão ú t e i s às c r i a n -
ele viesse a freqüentá-la. E freqüentar a escola tornava-se neces- ças e aos adolescentes, que tem imperiosa n e c e s s i d a d e d e m o v i m e n -
sário para o tipo de desenvolvimento para o qual se encaminha a to e q u e , a o c o n t r á r i o , s ã o a s m a i s d a s v e z e s c o n d e m n a d o s à
j o v e m sociedade republicana. i m o b i l i d a d e , à s e d e n t a r i e d a d e - q u a n d o b e m dirigidos, são p r ó p r i o s
A higiene e, como parte dela, a Ginástica ou Educação Física, [...] a d e s e n v o l v e r q u a l i d a d e s de destreza, de a g i l i d a d e , de ligeireza
continuam a integrar as propostas pedagógicas, sendo considera- e de f o r ç a , p r e c i o s a s e m t o d a s as c l a s s e s da s o c i e d a d e , m a s i n d i s -
das em leis e reformas educacionais. Elas se tornaram, desse modo, p e n s á v e i s a o s a l u n o s d a s escolas primárias, p a r t i c u l a r m e n t e , d e s -
a expressão concreta dos "cuidados corporais" normatizados pelo t i n a d o s às p r o f i s s õ e s m a n u a e s [SOUZA, 1907, p p . 136-137].
pensamento médico-higienista que concede um maior espaço em
seus congressos aos temas e teses relativos à Educação Física e, É possível apreender neste discurso médico a visão funcional
particularmente, a sua importância na escola. que é atribuída ã Educação Física na construção da ordem impôs-
112 EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 103

ta pelo capital, uma vez que os corpos ágeis passavam a ser uma g i a s e e n t i b i a n d o o s e n t i m e n t o n a c i o n a l (SOUZA, 1907, p. 153. G r i f o s
necessidade. nossos].
Sobre bases científicas fornecidas exclusivamente pelas ciên-
cias biológicas, e fortemente determinados pela hipócrita moral bur- Mas, o que determinava este estado de coisas tão bem descrito
guesa (da qual compartilharam e ajudaram a construir), os médi- neste discurso médico? O que determinava esta degeneração física
cos higienistas f o r m u l a r a m suas teses sobre a importância do do brasileiro? Quais os elementos objetivos e subjetivos que o tor-
exercício físico na "Educação popular", buscando com estas formu- navam "acessível" ao fatalismo, que afetavam a sua virilidade, que
lações uma adequação dos corpos aos novos padrões exigidos pela o tornavam descrente de leis, de homens... e de sua própria neces-
sociedade de mercado. Neste sentido, procuraram acentuar a ne- sidade de viver? Certamente não era a falta de exercícios físicos ou
cessidade de sua presença no interior da instituição escolar. Afir- o simples (des)conhecimento de formas "saudáveis" de viver.
mavam, por exemplo, que cada aluno deveria ser examinado por um O que tornava o povo miserável, doente, degenerado física e
médico, e que este médico determinaria a natureza dos exercícios mentalmente eram as condições de vida e de trabalho impostas pelo
aos quais este aluno poderia se entregar 13 . Desse modo, segundo capital, e que somente mais tarde, na década de 192.0, passam a
os médicos, seriam evitados os "excessos",.os."exageros", e o exer- ser denunciadas pelos médicos em seus relatórios e em seus con-
cício físico, viria de fato contribuir para o engrandecimento da pá- gressos como ameaça à "saúde" da sociedade"é""dá^rióvà órdémT
tria, à medida que, segundo palavras do Dr. Jorge de Souza, atra- denúncias que tinham o cuidado de isentar de culpa o Estado bra-
vés dos exercícios físicos bem oríéMàaõs XpeTõs médicos7e^ claro)," sileiro. Um Estado que não possuía leis de trabalho, ou qualquer
seria possível melhorar e regenerar a nossa raça. Afirmava ele, em dispositivo legal que obrigasse o patrão a efetuar pagamentos de
1907, que seria necessário indenização por acidentes de trabalho ou mesmo a simples preo-
cupação de evitar tais acidentes nas fábricas.
a c c e n t u a r , c o m t o d o o v i g o r da m a i s p r o f u n d a c o n v i c ç ã o , q y e é u m a
n e c e s s i d a d e q u e se i m p õ e m e se r e s s a l t a à e v i d ê n c i a , p a l p i t a n t e e Q u a n t o à r e m u n e r a ç ã o , e l a s v a r i a v a m de a c o r d o c o m o p a t r ã o ,
inadiável, a applicação de uma reforma, no sentido de promover o q u e t a m b é m e s t i p u l a v a a s n o r m a s da p r o d u ç ã o , c o m o p o r e x e m p l o :
melhoramento physico de nossa raça pela graduação regulada dos qualquer erro cometido pelo operário obrigava-o a pagar multa, o
exercícios corporaes com a supervigilãncia incessante por parte do q u e m u i t a s v e z e s d i m i n u í a s e n s i v e l m e n t e seu s a l á r i o . S e m f a l a r n o
médico. Em n e n h u m paíz - forçoso é confessal-o - a educação tratamento disciplinar dos mesmos, muitas vezes submetidos a
p h y s i c a é m a i s n e c e s s á r i a do q u e e m n o s s o , p o i s t a l v e z e m n e n h u m c a s t i g o s c o r p o r a i s . T o d o e s s e q u a d r o era c o n t r o l a d o p e l a s f o r ç a s d e
outro povo se n o t e m signaes tão m a n i f e s t o s de u m a precoce dege- r e p r e s s ã o , o q u e v e m a i l u s t r a r i r o n i c a m e n t e a t e s e da m a i o r i a d o s
neração physica, que o vae amesquinhando e que já tem affectado, d i r i g e n t e s de e n t ã o , d e q u e a q u e s t ã o o p e r á r i a n ã o é q u e s t ã o s o c i a l
s e m d ú v i d a s u a v i r i l i d a d e civil e p o l í t i c a , t o r n a n d o - o a c c e s s i v e l a o e s i m q u e s t ã o d e p o l í c i a . . . [Luz, 1982, p. 65].
fatalismo absorvente que domina as consciências, à devastadora e
pertinaz invasão do sceptcismo político, e vae atrophiando as ener- Tais condições de trabalho vividas pelos adultos, nas quais
proliferavam formas coercitivas idealizadas e realizadas a partir de
um modelo disciplinar dos dominantes, eram também partilhadas
13. Congresso Brasileiro de Medicina e Cirurgia. 6. Annaes, 1907, p. 156. Essa po- pelo trabalhador infantil. Sua jornada de trabalho nunca era infe-
sição defendida pelos médicos será anos mais tarde defendida também por aque-
les que pensaram a educação escolar, como é o caso de Fernando de A z e v e d o . rior a 12 horas diárias, durante as quais executava tarefas das mais
nocivas a um desenvolvimento harmonioso.
112 EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 105

O caso do trabalho realizado pelas crianças na indústria têxtil tes formas de resistência vão constituindo-se, e uma profusão de
é bastante elucidativo de nossas afirmações. No dizer dos indus- manifestações combativas ocorrem alterando o figurino que a so-
triais, existiam "certos trabalhos que só as crianças podiam fazer" 14 : ciedade oficial - a elite republicana - desenhava para a sociedade
esgueirar-se entre teares em espaços exíguos para recuperar fios brasileira 1 6 .
ou bolas de algodão, permanecer horas e horas em posições abso- A revolta da vacina, em 1904, no Rio de Janeiro 17 , foi uma mos-
lutamente incómodas e perniciosas ao seu desenvolvimento físico, tra da resistência do povo a todas as medidas intervencionistas que
movimentando-se Contínua e cansativamente entre máquinas pe- vinham ocorrendo, a toda espécie de invasão a que estava sujeito
rigosas respirando flocos de algodão e odor de dejetos [LIMA, 1 9 8 5 , seja na privacidade de seus lares, seja na intimidade de seus cor-
p. 1 0 4 ] , pos. A vacina obrigatória era o elemento que se colocava concreta-
E, enquanto o trabalhador infantil vivia esta realidade no mun- mente como objeto possível de revolta, e revoltar-se significava re-
do do trabalho, os médicos detalhavam o espaço escolar de forma sistir, r e s g a t a r o seu próprio espaço de vida, a sua dignidade
meticulosa, alertando para os problemas advindos de vícios postu- perdida. Significava resistir ao modelo disciplinar/higiênico imposto
rais, para a necessidade de adequar o mobiliário escolar à anato- pelas classes dominantes.
mia infantil para que se pudesse, assim, "prevenir os distúrbios de Essa resistência popular foi um dos fatores que contribuiu
coluna" 15 . decisivamente pana que, pouco a pouco, o modelo disciplinar ado-
Dizia o Dr. Vieira de Mello que tado pelo Estado fosse alterando seus contornos e mudando sua
direção. Neste jguadro d e a l t e r a ç ã o de práticas e discursos, os mé-
À o e d u c a d o r c u m p r e n ã o só e v i t a r q u e os a l u m n o s a d q u i r a m dicos, alarmados com os altos índices de mortalidade infantil e aten-
a t t i t u d e s v i c i o s a s , como. a i n d a corrigir, as q u e a p r e s e n t e m . . . P o r q u e , tos aos interesses do Estado, passam a alertar as autoridades so-
f o r ç a é d i z e l - o , g r a n d e p a r t e de d e f e i t o s p h y s i c o s o b s e r v a d o s e m bre a necessidade de cuidar da infância e de "educá-la".
e s c o l a r e s t e m s u a o r i g e m n o s e i o da f a m í l i a , o n d e se p e r m i t t e à s
O Dr. Moncorvo Filho, um dos mais ilustres representantes do
creanças escreverem em mesas desproporcionais à sua estatura,
pensamento médico voltado à proteção da infância, chamava a aten-
quando não sobre cadeiras e outros móveis provadamente impró-
ção das autoridades afirmando que "os pequeninos de hoje serão
p r i o s e até n o c i v o s [ 1 9 0 2 , p. 22],
os grandes de amanhã, é nela [infância] que ponho as esperanças
de grandeza atual do regime pela regeneração da pátria [apud R A G O ,
Ocorre que não era exatamente no seio da família, mas no seio 1 9 8 5 , p. 1 2 0 ] ,
da fábrica (mundo do trabalho) que os defeitos e a degeneração fí- Essa mudança de direção que assumem os médicos higienis-
sica da infância tinham sua origem e se perpetuavam na vida adul- tas em seu discurso e sua prática, voltando-se aos "cuidados com
ta. E, lentamente, então, passa a existir uma percepção por parte a infância" e com a educação higiênica do povo, traduz-se em dife-
da classe operária em formação no Brasil da necessidade de mos- rentes formas de intervenção na sociedade, as quais passam a ser
trar tudo isso à sociedade, de responder ao aparato repressivo e implementadas ao longo da década de 1920.
sempre violento do Estado, de levantar-se contra as miseráveis
Não são mais formas violentas, coercitivas. Agora são formas
condições de vida e de trabalho. A partir dessa percepção, diferen-
sutis, "educativas". Através delas os médicos denunciam as condi-

14. Estas palavras foram pronunciadas pelo médico e industrial Jorge Street apud 16.Sobre a resistência da classe operária em formação no Brasil, consultar Aziz
Gerson Zanetta de Lima, 1985. p. 104. Simão, 1966; Paulo Sérgio Pinheiro & M. Hall, 1979; Ricardo Antunes, 1982.
15.Ibidem, ver também Bruzzo, 1988. 17.Sobre o assunto, consultar Nicolau Sevcenko, 1984.
112 EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 106

ções de trabalho na indústria e passam a fazer propostas sobre vil que reunia, no momento de sua criação, os principais nomes da
medidas higiênicas a serem tomadas para o bom funcionamento das Higiene e Saúde Pública do país. Os seus quadros eram formados
fábricas, das escolas e dos locais públicos em geral. Assim, recomen- por funcionários públicos, em sua maioria pertencentes ao Depar-
dam a ginástica para toda a população e responsabilizam os empre- tamento de Saúde Pública, ou a órgãos e instituições de Saúde
sários pelo estado de degeneração física e moral da classe operária, Pública em vários estados da federação.
evidenciando; de modo cuidadoso, o descaso do governo para com o Pelo lado da educação este é o momento no qual tem início a
estado de miséria do povo. Neste quadro não deixam de fazer refe- assimilação de um novo referencial, oriundo do que se chamou a
rência "à má educação do operário que não tem orientadores since- Escola Nova 20 , que terá na Associação Brasileira de Educação (ABE)
ros e inteligentes nas suas reivindicáções" [idem, pp. 41-42]. um importante canal de veiculação deste ideário.
Estes sinceros orientadores seriam, evidentemente, os médicos, A ABE, criada em 1924 no Rio de Janeiro e reunindo educado-
uma vez que eles, mais do que ninguém, sabiam o que era mais res, médicos, advogados, engenheiros e outros profissionais, bus-
adequado ao povo, da criança ao adulto, sem distinção. Suas ações, cava aglutinar os esforços de todos aqueles que acreditavam ser
portanto, não deveriam mais recair somente sobre os focos de con- possível transformar o país pela educação, promovendo através de
tágio e contaminação, elas deveriam recair sobre toda a população campanhas educacionais uma reforma na mentalidade das elites,
e toda a sociedade. "convencendo-as da necessidade de regenerar, pela educação, as
O campo de atuação dos médicos sanitaristas redefine-se nes- populações brasileiras, moldando-as como povo saudável e produ-
te período sob a influência da escola norte-americana, cujo repre- tivo", e divulgando, assim, um novo ideário educacional ICARVALHO,
sentante no Brasil é o médico sanitarista Geraldo Horácio de Paula 1989, p. 55]. Assim como.outras organizações cívico-nacionalistas,
Souza, que reorganiza o Serviço Sanitário de São Paulo, tecendo a ABE se constituiu em espaço onde diferentes dispositivos de con-
críticas ao trabalho autoritário desenvolvido até então por Emílio trole, regulação e produção do cotidiano das populáções pobres
Ribas, substituindo as campanhas obrigatórias de vacinas e desin- foram forjados. Elucidativo de nossa afirmação é o conteúdo que se
fecções do meio por um trabalho de constante e meticulosa educa- depreende de suas Conferências Nacionais, semanas de Educação,
ção dos indivíduos. Segundo Emerson E. Merhy a concepção que palestras e festividades, nas quais são cultuados "signos de auto-
Paula Souza tem de saúde pública é aquela que afirma ser a higie- ridade e hierarquia e ritualizados no espetáculo cívico, modelos de
nização do meio e a aquisição da consciência sanitária por parte dos comportamento exemplar [idem, pp. 78-79].
indivíduos, elementos suficientes para que ninguém adoeça 18 . A ABE, bem como a Sociedade Brasileira de Higiene, teve a "for-
O período em que ganham espaço as idéias de Paula Souza é mação de hábitos saudáveis" como objeto de preocupações e aten-
aquele no qual ocorrem grandes debates em torno da saúde, da ções especiais, e a saúde não só foi um dos
doença e da educação do povo. Pelo lado da saúde este é o momen-
to da realização dos Congressos Brasileiros de Higiene organizados temas preferidos das preleções cívicas nas festividades, c o m o tam-
pela Sociedade Brasileira de Higiene 19 , instituição da sociedade ci- b é m objeto de celebração em inúmeras competições esportivas ofe-

18. V e r O capitalismo e a saúde pública, de Merhy, 1987. maiores parecem as pretensões da S.B.H., e claramente, através da Higiene e
19. "A Sociedade Brasileira de Higiene (SBH), fundada em 1923. permaneceu sem- da Saúde Pública, exercer maior controle sobre o conjunto da sociedade!...]",
pre uma instituição da sociedade civil, embora seus laços com o aparelho esta- Luz, 1982, pp. 174-175.
tal, sobretudo os aparelhos de saúde pública tenham sido [...] intensos [...] [As] 20.Sobre o assunto remeto o leitor aos trabalhos de J o r g e Nagle, 1978; Vanilda
pretensões da S.B.H., [...] não se resumem apenas em se constituir num espa- Paiva, 1973: Marta M. C. de Carvalho, 1989; Anísio Teixeira, 1977; M a n u e l
ço de discussão e de catalisação dos agentes envolvidos com a higiene. Bem Bergstrom Lourenço Filho, 1978: Raquel Gandini, 1979.
1 ÍO EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 109

recidas e m espetáculos como modelos exemplares de comportamen- Naqueles congressos a escola, particularmente a escola primá-
to. O esporte e a v i d a saudável simbolizavam a energia, o vigor, a ria, aparece como o instrumento mais adequado para viabilizar uma
f o r ç a , a p r o s p e r i d a d e , s i g n o s de p r o g r e s s o i n s c r i t o s n o c o r p o q u e boa educação higiênica (ver C O N G R E S S O B R A S I L E I R O DE HYGIENE, 1923),
c o n h e c e o m o v i m e n t o a d e q u a d a m e n t e útil p a r a cada ato [idem, o que nada mais era do que a aquisição de um sistema de hábitos
ibidem]. que, uma vez integrados na vida dos indivíduos viriam favorecer a
saúde individual e, ao mesmo tempo, preservar a saúde daqueles
Nesse novo modelo de educação que estava sendo assimilado, que os cercam.

[a] p r á t i c a e d u c a t i v a , a r t i c u l a n d o - s e c o m a p r á t i c a d e s a ú d e , n ã o I s t o p o s t o , f a c i l m e n t e se d e d u z q u e o ú n i c o a p p a r e l h o e m c o n d i -
apenas incorporou no currículo escolanovista certas disciplinas, ções de diffundir econômica e efficazmente a educação hygiênica é a
m a s c o n c e d e u - l h e s t a m b é m p r i o r i d a d e . É o c a s o d a s n o ç õ e s d e hi- escola primária p o r m e i o d o r e s p e c t i v o p r o f e s s o r [...] a e s c o l a p r i -
giene, d o s t r a b a l h o s m a n u a i s e da educação física. A t r a v é s do do- m á r i a c o n s t i t u e o a g e n t e f u n d a m e n t a l de t ã o c o n s i d e r á v e l t a r e f a
mínio de certas técnicas corporais, implícitas nestas disciplinas, [ i d e m , p. 8 1 9 . G r i f o s n o s s o s ] .
b u s c a v a - s e f o r m a r u m c o m p o r t a m e n t o a d e q u a d o d o p o n t o de v i s t a
bio-psico-sociala T o d a s elas veiculam certas representações que a A escola, então, é vista como o terreno que propicia a implan-
s o c i e d a d e f a z i a d e si m e s m a , c o m o o a p e r f e i ç o a m e n t o d a r a ç a e o tação de hábitos de viver sadiamente. E é neste conjunto de hábi-
s e n t i m e n t o n a c i o n a l i s t a [...] tos saudáveis que compõem o ideário da educação higiênica a ser
A E s c o l a N o v a i n t r o d u z i a u m a n o v a c o n s t r u ç ã o s o c i a l do c o r p o , ministrada na escola - espaço que economicamente poderia disse-
m i t i f i c a d a a p a r t i r d e e n t ã o n o e s t e r e ó t i p o da " r e g e n e r a ç ã o da r a ç a " . minar essa educação higiênica para o conjunto da sociedade - que
O c o r p o d e v e r i a t o r n a r - s e s a u d á v e l , i s t o é, m a n i p u l á v e l , hábil, vamos encontrar os exercícios físicos.
m u l t i p l i c a d o r d e f o r ç a s e, a o m e s m o t e m p o , e x t e r i o r i z a r a s q u a l i - O I Congresso Brasileiro de Hygiene, realizado em 1923, dedi-
dades psicológicas interiorizadas pelo domínio das técnicas corpo- ca um espaço considerável ao exercício físico no conjunto dos te-
r a i s : a c a p a c i d a d e d e p r e v i s ã o e de t r e i n a m e n t o d a v o n t a d e [NUNES, mas tratados. O exercício físico figura entre as contribuições que
1 9 8 4 , p. 5 4 3 ] . ás instituições particulares poderiam oferecer para a educação hi-
giênica do povo. A Associação Cristã de Moços (ACM) 21 empresta,
Este ideário educacional, fortemente influenciado pelo pensa-
mento médico higienista, é amplamente veiculado e debatido em
seus congressos. Médicos e pedagogos em perfeita harmonia e iden- 21.Segundo Inezil Pena Marinho (s.d.-b, pp. 60-61), a "história das Associações
Cristãs de Moços desponta com o trabalho de um clérigo inglês: Georges Williams
tidade conceituai buscam viabilizar, na prática, suas crenças na que, em 1844, organiza um clube religioso ao qual deu o nome de Y o u n g Men
transformação social através da educação, este poderoso (e único) Christian Association (Y.M.C.A.). Esta organização londrina serviu de modelo
para muitas outras que se espalharam pelo mundo inteiro. A primeira associa-
instrumento por eles considerado capaz de formar, desde a infân-
ção desse tipo foi organizada em Boston, em 1851. Em 1856, foi proposto à Con-
cia, os hábitos de vida saudável, o amor ao trabalho, à ordem e à venção nacional que as Y.M.C.A. estabeleçam o uso da ginástica e dos banhos.
disciplina. Os primeiros edifícios da Y.M.C.A., equipados para essas exigências, foram cons-
truídos em São Francisco, New York e Washington, em 1869. A primeira Asso-
Os Congressos Brasileiros de Hygiene, realizados ao longo da ciação Cristã de Moços instalada no Brasil, data de 1893, quando foi fundada
década de 1920 pela Sociedade Brasileira de Hygiene, são testemu- a do Rio de J a n e i r o , com orientação norte-americana, primeiro núcleo de
Calistenia implantado no país. A A.C.M. teve papel relevante no desenvolvimento
nhos da preocupação médica com a educação escolar e da impor- de vários desportos, notadamente do Basquetebol e Voleibol. Dez anos mais
tância que lhe atribuem na construção da ordem. tarde, nos m e s m o s moldes e com idênticas finalidades de suas congêneres no
1 ÍO EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 111

então, a sua "contribuição" ã educação higiênica do povo, apresen- hygiene, de postura defeituosa, dentes descuidados e grande por-

tando naquele congresso tese específica sobre a educação física. centagem j á infeccionados pelas doenças venereas.

J.H. Sinns e Oswald M. Rezende, falando pela ACM, reportam- 7° - A s c o n f e r e n c i a s s o b r e h y g i e n e e e d u c a ç ã o p h y s i c a d e s p e r -

se às "geniais palavras de Rui Barbosa" e ao seu "monumental Pa- t a m g r a n d e i n t e r e s e e são de g r a n d e v a l o r no e n s i n o d a p r o p h y l a x i a

recer sobre a instrução primária em 1882", no qual este pensador individual e social principalmente quando feitas com auxílio do

dedica um capítulo inteiro à educação física. Tendo em mente as cinematographo22.

recomendações de Rui Barbosa, os dois representantes da A C M


afirmam que uma educação baseada em princípios científicos e A s teses e conclusões da ACM apresentadas neste I Congresso
ministrada aos moços é um importante meio para difundir princí- Brasileiro de Higiene, expressam uma concepção de Educação Fí-
pios higiênicos. sica como sinônimo de saúde física e moral, forçando uma relação
As teses sobre Educação Física defendidas pela ACM naquele entre exercício físico e saúde e acentuando a idéia de que a "apli-
congresso apresentam as seguintes conclusões: cação correta" do exercício físico gera, por si, e de imediato, a tão
almejada saúde. Expressam também a confiança dos médicos nos
I o - A e d u c a ç ã o p h y s i c a é u m m e i o e f f i c a z de p r o p a g a r a h y g i e n e poderes do exercício físico,'o que pode ser traduzido por uma .visão
e alcançar a saúde.
triunfalista e moralista do exercício físico, entendido como capaz de
2 o - A e d u c a ç ã o p h y s i c a d e v e ter p o r e s c o p o d e s e n v o l v e r no in-
curar todos os males da sociedade, sejam eles de ordem física, se^
d i v í d u o o q u a n t u m d e v i g o r p h y s i c o e s s e n c i a l ao e q u i l í b r i o da v i d a
j a m de ordem moral.
h u m a n a , à f e l i c i d a d e da a l m a , ã p r e s e r v a ç ã o d a p á t r i a é'"a d i g n i d á - Esse-poder quase mágico atribuído ao exercício físico figurará
de da espécie. nos demais Congressos Brasileiros de Higiene realizados ao longo
3 o - A e d u c a ç ã o p h y s i c a , m i n i s t r a d a de a c c ô r d o c o m u m p r o g r a - da década 1920, variando apenas o seu enfoque ou forma de abor-
m a s c i e n t í f i c o b e m o r g a n i z a d o , é para a m a i o r i a d o s h u m a n o s , u m a dagem. Esta afirmação pode ser constatada através da leitura dos
n e c e s s i d a d e v i t a l , e x i g i d a pela v i d a a r t i f i c i a l q u e c a r a c t e r i z a a s s i m "Annaes do II Congresso Brasileiro de Hygiene" realizado em 1924
a cidade m o d e r n a , c o m o os m e t h o d o s pelos quaes os h o m e n s de h o j e na cidade de Belo Horizonte, no qual se enfatizou o caráter técnico
g a n h a m os m e i o s d e s u b s i s t ê n c i a . das ações higienistas, evidenciando o patriotismo das mesmas,
4o - As aulas de gymnástica e os desportos promovem, assim, o assim como o seu significado para a "melhoria da raça". Foi aí que
m a i s e s s e n c i a l p a r a o b o m êxito n a v i d a - a s a ú d e . o binômio Educação Física e Higiene tornou-se fundamental. O
5o - A p r o p a g a n d a hygienica pessoal, v.g., no e x a m e physico Dr. Amaury Medeiros, em discurso inaugural naquele congresso,
v e s t i b u l a r , p r o d u z os m e l h o r e s r e s u l t a d o s , s e n d o d e se lhe a c o n s e - assim se expressa sobre o assunto:
l h a r a p r á t i c a a t o d a s as o r g a n i z a ç õ e s .
C o m a v i s ã o d o B r a s i l de a m a n h ã u r g e p r o v e r i n a d i á v e l , ã e d u -
6 o - N e s t e s e x a m e s p h y s i c o s , v e r i f i c a m - s e as c o n d i ç õ e s p r e c á -
c a ç ã o n a c i o n a l n o s e u tríplice a s p e c t o - p h y s i c o , i n t e l e c t u a l e m o -
rias dos moços, ignorantes dos mais comesinhos princípios de
ral - r e s e r v a n d o - s e à e d u c a ç ã o h y g i e n i c a f u n ç ã o e s s e n c i a l n a f o r -
m a ç ã o e u g ê n i c a da raça 2 3 .

Rio de Janeiro, é f u n d a d a a A . C . M . de São Paulo, que j u n t a m e n t e com o


Mackenzie College, constitui poderosa fonte de disseminação da Calistenia [...).
22. Congresso Brasileiro de Hygiene, 1923, pp. 21-22. Existem ao todo 10 teses,
As A.C.M. fundadas em outras cidades, dentre as quais Belo Horizonte e Porto
entretanto transcrevemos apenas aquelas mais diretamente relacionadas com
Alegre, continuaram a difundir a Calistenia, que teve o seu período áureo após
o exercício físico.
a Segunda Guerra Mundial".
23.Congresso Brasileiro de Hygiene, 2., Belo Horizonte, 1924, Annaes, p. 36.
112 EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 113

E a ginástica é parte constitutiva da "educação higiênica", é o c e r t a m e n t e o r e s u l t a d o d e u m a m a n e i r a s a d i a d e v i v e r , i s t o é, d e


seu "complemento necessário" conforme expressão utilizada pelos u m repouso sufficiente, e u m trabalho methódico, de exercícios
higienistas, é um complemento que desde o século XIX é prescrito m o d e r a d o s ao ar livre, de u m a nutrição intelligentemente escolhi-
pelos médicos como receita, uma receita que deveria tornar-se há- d a e a d e q u a d a , etc. R e a l m e n t e e s t a f o r a d e d ú v i d a , q u e o m a i s p r e -
bito e constituir-se em uma "segunda natureza". cioso capital de u m h o m e m é a sua reserva de força e sua perfeita
O exercício físico, entendido como hábito saudável de vida será vitalidade20.
amplamente debatido no 3° Congresso Brasileiro de Hygiene, rea-
lizado em São Paulo em 1926. Na leitura de seus Anais constata- Cuidar dessa "reserva de força" e "vitalidade", preservando,
mos que dos doze temas apresentados, o que reuniu um maior nú- então, esse "precioso capital" que é a saúde, passava a ser uma res-
mero de trabalhos e teses foi o relativo à "Formação de hábitos ponsabilidade individual e, fundamentalmente, exigia obediência às
sadios nas crianças, estudo psicológico e higiênico". regras de higiene ditadas pelos "Serviços Oficiais".
Afirmava o doutor Waldomiro de Oliveira que T e r saúde seria possível, desde que o indivíduo possuísse
"conhecimentos", que ele fosse "educado higienicamente"
Só o hábito pode dar elementos indestructíveis para a "forma- Os serviços oficiais de higiene enfatizavam as suas funções de
ção da consciência o hábito sadio, não é possível orientação e fiscalização da execução dos "bons^receitos de higie-
g a r a n t i r a d e f e s a da s a ú d e d a c r e a n ç a e g a r a n t i r c e l l u l a c a p a z de ne", envolvendo professores e auxiliares de ensino, na nobre tarefa
melhorar a raça de amanhã24. de iormar higieniçamcnte as.çoanç.as....Assira,.são.estabelecidas nor-
mas para os serviços oficiais. Vejamos aqui as principais normas:
E para que os bons hábitos sejam, de fato, incorporados é pre-
ciso, espaço.para que possam ser ensinados, portanto, O e x a m e physico de cada aluno, pelos m e n o s u m a vez por ano,
exercícios physicos diariamente e ao ar livre, nutrição boa e adequa-
e s t e n d e r à r e d e e s c o l a r p r i m á r i a p o r t o d o s os n ú c l e o s o n d e se e n - da, repouso sufficiente e trabalho methódico, escolas higiênicas e
c o n t r e m c r i a n ç a s e m i d a d e e s c o l a r ê o b r a do m a i s a l t o p a t r i o t i s m o apropriadas [Grifos nossos]27.
e é sólido f u n d a m e n t o da instrução sanitária e da formação de há-
bitos de hygiene25. Na opinião dos médicos e, por extensão, dos pedagogos, os exer-
cícios físicos ao ar livre tornam-se indispensáveis, pois a "vida es-
Ainda sobre o mesmo tema, o Dr. Colombo Spínola fala especi- colar" com suas exigências tem agido desfavoravelmente sobre o
ficamente sobre o "valor da saúde" e acentua a necessidade do exer- desenvolvimento das crianças. Assim os médicos aconselham a
cício físico para a sua manutenção e prevenção. "ginástica natural", traduzida por "jogos ao ar livre, corridas, sal-
tos, passeios, patinação, natação, remo, etc." 28 . Quando se referem
S a b e m o s h o j e [...] q u e a s a ú d e p o d e ser c o n q u i s t a d a , b a s t a n d o à "ginástica metódica", sugerem a ginástica sueca de Ling, por cor-
p a r a i s t o n o s c i n g i r à s s u a s leis, e s t u d a r e c o n h e c e r o n o s s o p r ó - responder mais adequadamente aos princípios da higiene.
prio o r g a n i s m o , contribuindo para mantelo em hygidez, que será

26. Congresso Brasileiro de Hygiene, 3., São Paulo. 1926. Annaes, p. 861.
2 4 . C o n g r e s s o Brasileiro de Hygiene, 3., São Paulo, 1926, Annaes. p. 801. 2 7 . C o n g r e s s o Brasileiro de Hygiene, 3., São Paulo, 1926. Annaes, p. 866.
2 5 . I d e m . p. 805. 28. Idem, p. 868.
112 EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 115

Conforme o Dr. Colombo Spínola, "os exercícios físicos de Ling 6. F i z u m a e v a c u a ç ã o I n t e s t i n a l , l a v a n d o d e p o i s a s m ã o s c o m


desenvolvem as forças physicas das crianças e dão aos movimen- água e sabão.
tos maior amplitude com a menor força" 29 . 7. B r i n q u e i m a i s d e m e i a h o r a ao a r livre.
Um aspecto que deve ser salientado e que figura com freqüên- 8. T o m e i u m c o p o d e leite.
cia nos discursos médicos é aquele relativo aos cuidados para que 9. B e b i m a i s d e 3 c o p o s d ' á g u a .
não se cometam exageros e abusos na "dosagem" dos exercícios físi- 10. F i z r e s p i r a ç ã o p r o f u n d a a o a r livre.
cos. Estes devem ser ^prescritos pelo médico, que saberá fazê-lo ade- 11. E s t i v e s e m p r e d i r e i t o , q u e r de pé q u e r s e n t a d o . S ó li e es-
quadamente em função da idade e da constituição de cada criança 30 . crevi em boa posição.
Entre os cuidados com a saúde destaca-se a Educação Física que 12. S ó b e b i á g u a n o m e u c o p o e s ó l i m p e i os o l h o s e n a r i z c o m o
tem o médico como tutor do professor que ministrará a matéria na m e u lenço.
escola pública ou nas instituições particulares. Essa tutela é tal que
13. Dormi a noite passada 8 horas, pelo menos, em quarto ventilado.
a promoção funcional dos professores está diretamente ligada aos
14. C o m i f r u c t a s o u h e r v a s b e m l a v a d a s . L a v e i a s m ã o s a n t e s
cuidados por eles destinados à Educação Física, à saúde das crian-
de comer e mastiguei devagar tudo o que comi.
ças e à higiene da classe. Esses são os elementos considerados na
15. A n d e i s e m p r e c a l ç a d o e c o m r o u p a l i m p a .
sua avaliação, os quais são privativos do médico escoiar, conforme
16. N ã o b e i j e i n e m m e d e i x e i b e i j a r .
previsto no decreto n. 2.008, de 14 de agosto de 192431.
17. N ã o c u s p i n e m e s c a r r e i n o c h ã o . A o e s p i r r a r o u t o s s i r u s e i o
Uma vez mantido o professor sob sua tutela, através de dife- meu lenço.
rentes mecanismos de controle, os médicos higienistas tratarão de 18. N ã o colloquei n a bocca, n o n a r i z e n o s o u v i d o s , ncm..Qs d e d o s ,
buscar formas de controlar e fiscalizar também as crianças e, para n e m o lápis n e m n a d a q u e estivesse s u j o ou p u d e s s e m a c h u c a r - m e .
isso, criam os chamados Pelotões de Saúde. 19. N ã o t o m e i á l c o o l . N ã o f u m e i .
Estes Pelotões possuíam estatutos que deviam ser rigorosamen- 2 0 . N ã o m e n t i n e m b r i n c a n d o [ G r i f o s nossos] 3 2 .
te seguidos para a sua organização e constituição, incluindo os
deveres que seriam cumpridos diariamente pelos seus membros e Neste conjunto de deveres a serem cumpridos pelas crianças e
registrados em fichas que ficariam sob a guarda da professora. Men- fiscalizados pelo Pelotão, entre os quais encontramos a ginástica,
salmente essa ficha, devidamente registrada, seria visada pela di- é possível perceber toda uma disciplina corporal/higiênica cujos
retora da escola, pelo inspetor escolar e pelo médico. Os deveres do novos hábitos vão se enraizando. Em nome da saúde, a higiene
Pelotão de Saúde eram os seguintes: consegue incutir uma disciplina corporal na qual figuram os prin-
cípios da moral burguesa através das noções de bem e de mal, de
1. L a v e i a s m ã o s e o r o s t o a o a c o r d a r . certo e errado, contribuindo, assim, para uma aceitação "pacífica"
2. T o m e i u m b a n h o c o m á g u a e s a b ã o . do modo de ser e viver burguês; e a disciplina corporal, através das
3. P e n t e e i o s c a b e l o s e l i m p e i a s u n h a s . normas higiênicas, é tratada como a grande responsável pela pá-
4. E s c o v e i o s d e n t e s . tria de amanhã,
5. Fiz gymnástica ao ar livre.

29. Idem, ibidem. 3 2 . 0 detalhamento da constituição de um Pelotão de Saúde, bem como o seu "apa-
30. Idem, ibidem. relhamento", pode ser encontrado em Carneiro Leão, Congresso Brasileiro de
3 1 . C o n g r e s s o Brasileiro de Hygiene. 3., São Paulo, 1926. Anriaes. p. 872. Hygiene, 3., São Paulo. 1926. Annaes, pp. 873-875.
112 EDUCAÇÃO FÍSICA A EDUCAÇÃO FÍSICA NO BRASIL 117

N ã o pode deixar de ser particular preocupação dos paes e dos também confere destaque à temática do exercício físico apresentan-
educadores a colocação das crianças sob influxo constante da vida do-o como importante fator eugênico no contexto da educação do povo.
a o g r a n d e a r , d a h e l i o t e r a p i a p r e v e n t i v a e da ginástica moderna os O Dr. Waldomiro de Oliveira, debatendo o tema "Problemas de
soberanos e incomparáveis recursos para o mais perfeito e dura- Saúde Pública", refere-se à ginástica como importante fator de hi-
douro estado de hygidez33. giene pessoal, e aos campos de recreação e esportes como elemen-
tos constitutivos de um efetivo saneamento do meio. Em seu pro-
Ao final dos tràbalhos do III Congresso Brasileiro de Hygiene, nunciamento, acentua a importância da educação, transcrevendo
o relator geral do tema "formação de hábitos sadios nas crianças", as idéias do Dr. Miguel Couto - um dos mais eminentes médicos
Dr. J. P. Fontenelle, apresentou um parecer no qual evidencia a evo- da época - para dar conta desta importante questão nacional.
lução da higiene que de "coercitiva" passa a ser "educativa". Neste
mesmo parecer acentua a necessidade do exercício físico como ele- S e m e d u c a ç ã o n ã o h á s u p e r i o r i d a d e m o r a l , n ã o há P á t r i a (...)
mento fundamental da educação higiênica e enquanto hábito sau- P o r q u e n ã o l a n ç a m o s n ó s , p a c í f i c o s , de v e z e m q u a n d o , u m v a s t o
dável, e acentua também o papel da instituição escolar na forma- p r o g r a m a de E d u c a ç ã o Nacional, p a r a t e r m o s a m a n h ã à Pátria m a i s
ção destes hábitos saudáveis. Afirma ele que bella, dessa beleza moral que irradia a cultura, a mais próspera
p o r q u e da cultura nasce a ambição, da ambição a atividade, da
[a] e s c o l a t e m d e a c t u a r de v a r i a s f o r m a s : p e l o m e i o , c o m o p o s s i b i - a t i v i d a d e a r i q u e z a , e d e s t a m u l t i p l i c a d a a p r o s p e r i d a d e coletiva [...]
l i d a d e da e x e c u ç ã o d o s a c t o s s a d i o s ( p e r f e i t o f o r n e c i m e n t o d e á g u a , E i s o q u e é a s a ú d e d a r a ç a , a s a ú d e d a P á t r i a . É a s u a c u l t u r a [...]
bôas installações dé latrina, lavatórios convenientemente n o B r a s i l s ó h á u m p r o b l e m a n a c i o n a l - a e d u c a ç ã o do povo 3 6 .
a p p a r e l h a d o s , etc); p e l o e x e m p l o d a p r o f e s s o r a i n s t r u í d a e m h y g i e n e
e educada sanitariamente pela organização dos trabalhos sem Estas idéias sobre a educação como fator de regeneração e re-
a t t e n t a d o a o s d o g m a s d a h y g i e n e ; e, m u i t o p a r t i c u l a r m e n t e , p e l o novação nacional defendidas pelos médicos, serão incorporadas no
e s f o r ç o ali f e i t o p a r a i n c u l c a r b o n s h á b i t o s d e s a ú d e , p h y s i c a e discurso de pedagogos e estadistas em torno da bandeira da Esco-
p s í q u i c a , e n t r e os q u a i s i n c l u í d o s o s e x e r c í c i o s p h y s i c o s ao ar livre 3 4 . la Nova, movimento de renovação do país pela educação - uma edu-
cação física, intelectual e moral.
O V e último Congresso Brasileiro de Higiene 35 promovido pela Ainda sobre a Educação Física, o V Congresso Brasileiro de
SBH nesta sua primeira fase e realizado no Recife, no ano de 1929, Hygiene, através do pronunciamento do Dr. Waldomiro, atribui-lhe
relevante papel. Afirma este médico que a Educação Física deve ocu-
par um lugar de evidência e isto se faz necessário uma vez que ela,
33. Moncorvo Filho, Congresso Brasileiro de Hygiene, 3, São Paulo, 1926, Annaes,
p. 908.
34. J. P. Fontenelle, Congresso Brasileiro de Hygiene, 3, São Paulo, 1926. Annaes,
p. 937. Em 1929, o Dr. Fontenelle publica o livro Fundamentos fisiológicos da que o texto apresenta, percebe-se a importância do combate à peste, à bouba,
Educação Física, que demonstra a preocupação e o interesse dos médicos com à luta antivenérea [...] o que sugere a profundidade da situação endêmica e epi-
esta área do conhecimento. dêmica no país e a necessidade política de seu controle". M. T. Luz também
35. Quanto ao IV Congresso Brasileiro de Hygiene, não encontramos em nossa pes- registra um acentuado debate em torno da idéia de um certo "nacionalismo pa-
quisa registros sobre os trabalhos e temas lá apresentados. Na leitura da pes- triota" presente na doutrina sanitarista, "mais ligado à 'eugenia', à 'melhoria
quisa realizada por M. T. Luz, intitulada Medicina e Ordem política Brasileira, da raça', reconhecedor da universalidade das 'grandes instituições' [...) entre-
1982, constatamos a mesma dificuldade da autora que, entretanto, nos traz al- tanto [salienta a autora], nem as referências aos discursos nem as moções apre-
guns dados sobre aquele congresso obtidos nos "Archivos de Hygiene." O IV Con- sentadas nos permitem concluir sobre a natureza das principais linhas em luta
gresso Brasileiro de Hygiene foi realizado na Bahia, no período de 14 a 20 de neste campo", pp. 182-183.
j a n e i r o de 1928, e lá "foram apresentados 67 trabalhos. Pelas poucas moções 36. Congresso Brasileiro de Hygiene, 5., Recife, 1929, Annaes, p. 133.
118 EDUCAÇÃO FÍSICA

racionalmente dirigida, aformosea, fortifica e disciplina o caráter e


o corpo, dirige a população para diversões sãs e assim e por tudo
i s s o c o n s t i t u i f o n t e d e p r o f i l a x i a real 3 7 .

Quanto aos parques destinados à prática da Educação Física,


afirma o Dr. Waldomiro que eles devem ser

d i s t r i b u í d o s p e l o s n ú c l e o s da p o p u l a ç ã o , [pois] g a r a n t e m n ã o s ó
permanente e efetiva atuação, como podem trazer a melhor coope-
ração nas c a m p a n h a s sanitárias, pelo atrativo que exercem princi-
palmente sobre as crianças e a mocidade, que para freqüentá-los
s u b m e t e r - s e - i a m f a c i l m e n t e a s e x i g ê n c i a s de assistência sanitária 3 8 .

O V Congresso traz ainda as conclusões votadas no II Congresso


de Educação, conclusões estas que também tratam da Educação
Física, colocando-a a serviço da educação sanitária. Elucidativa de
nossa afirmação é a conclusão de número VI, cujo teor transcreve-
mos:

V I - P a r a o r i e n t a r a E d u c a ç ã o S a n i t á r i a n o paiz, é i n d i s p e n s á v e l
que sejam criados institutos de Educação Physica, destinados ao
preparo de instrutores técnicos39.

Os profissionais ligados à Educação Física seriam os arautos


da saúde, vendedores de força e beleza, robustez e vigor.
A Educação Física, portanto, passa a integrar as propostas
discursivas dos médicos higienistas e fica gravada em seus escri-
tos, em seus pronunciamentos e em seus congressos. É veiculada
tanto nas propostas de tipo eugênico, quanto naquelas que tomam
a higiene moral e a educação como fundamento da ordem sanitá-
ria e, portanto, da ordem estatal.

37.Dr. W a l d o m i r o de Oliveira, 1929. p. 140.


38.Congresso Brasileiro De Hygiene, 5.. Recife, 1929, Annaes, p. 140.
39.Idem, p. 141.

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