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A cabala e sua relação com o

gnosticismo Introdução:

Esse artigo pretendo ser curto e ao mesmo tempo totalmente


auto explicativo, mostrando consigo tanto uma visão acerca
da gnose e seu surgimento, quanto também da gnose judaica
(nesse caso, focarei na Cabala), aonde demonstrarei sua
relação direta com o gnosticismo.

Nesse breve texto, irei focar fortemente nos ensaios de


Gershom Scholem, afinal, é a maior autoridade em torno do
estudo historiográfico e místico dos escritos místicos
judaicos, também contarei com a interpretação de outros
autores, que irão mostrar elementos significativos do texto,
seja da cabala, seja do gnosticismo ou seja da relação da
cabala com o gnosticismo.

A cabala influências e raízes:

Alguns rabinos costumam dizer que a Cabala surgiu no


momento de revelação no Monte Sinai, sendo a face oculta
do Tora que era compartilhada apenas por alguns profetas, a
realidade infelizmente (ou não) não condiz com esse relato.
Na verdade a Cabala que demonstra ser influenciada pelos
elementos Gregos (como analisaremos posteriormente), já se
via com suas raizes no Egito, sendo bastante influenciada
pelo simbolismo cósmico, talvez sendo uma herança do
sincretismo persa (que veremos agora), mas isso é apenas
uma hipótese.

Enquanto que a gnose, diferentemente do que até os


heresiologos do século XVIII acreditavam, surgiu pelos meios
judaicos, não apenas com a helenização do judaísmo, mas
com uma série de outros fatores, tese que já se encontra com
força em, Pearson, Anz, Kessler e outros. No primeiro século,
seguindo a análise de Scholem, havia uma gnose judaica
monoteísta, e que posteriormente, no segundo século evolui
para uma gnose dualista.

Como explicado por Puech, uma grande descoberta (no qual


ele dizer ser uma das descobertas mais notáveis do estudo
heresiologico), é que a gnose já existia anteriormente ao
cristianismo, e que coincide com a helenização do judaísmo
na diáspora. Aonde a diáspora judia na Babilônia entrou em
uma relação íntima com a cultura Persa, e a diáspora em
Alexandria entrou em uma relação íntima com o helenismo.
Puech confirma os elementos babilônicos dentro do
gnosticismo, havendo um sincretismo de relação judaica ou
com o Irã, ou com a Ásia Menor e Síria. Entre eles, os seres
demiurgicos (Abathur, Ptahil e Ur) a concepção de “Grande
Rei da luz” semelhante ao “Rei do Paraíso da luz”.

Segundo Hans Jonas, os políticos ao transferirem populações


inteiras babilônicas, deram margem para esse sincretismo
religioso. Proveniente portanto do que Jonas chama de
“segunda fase helenistica”, onde ocorre uma síntese
sincrética entre a cultura oriental (astrologia babilônica,
dualismo Persa e judaísmo) com a cultura

Grega. Por isso então sua famosa frase de descrição do que é


a gnose em The gnostic religion: “Aqueles ensinamentos que
na hora febril de transição desafiaram, provocaram e
intentaram em deformar a nova fé, foram esquecidos, sua
memória escrita enterrada no tomo dos refutadoras ou na
areia dos países da Antiguidade”.

Importante salientar, afinal, a Cabala está restritamente ligada


com os meios judaicos, e as suas ramificações como a
cabala cristã, acabaram sendo esquecidas com o tempo
(talvez fortalecendo a afirmação de Scholem de que cada
misticismo está ligado diretamente com uma ordem
religiosa), o que restou foram ramificações como a cabala
hermética.

Aqui o “ensinamento” está referenciando ao gnosticismo


preexistente, e a “nova fé” está se referindo ao cristianismo.

A cabala e o gnosticismo judaico:

Em livros como Origins of the Kabbalah, Kabbalah e The


Kabbalah and Its symbolism, Gershom Scholem opta por
classificar a cabala como sendo um fenômeno gnostico. E
para isso, iremos partir de sua análise do Bahir, para depois
analisarmos o Sefer Yetzirá e o cabalismo espanhol com
Zohar.

Scholem em Origins of Kabbalah, afirma que o historiador da


religião está autorizado a considerar a

Já se tratando sobre o simbolismo da árvore cósmica em


Bahir como origem das almas, prova que é impossível
vinculá-la a árvore da vida do Torá, essa ideia das almas
como frutos da árvore cósmica já está presente nos
simonianos, uma seita sincretica judaico- gnóstico. Portanto,
usando a imagem da semeadura da árvore cósmica, o texto
descreve um Éon primordial, esse Éon tem uma relação com
as escrituras gnosticas e aparece em Enoque tendo o nome
de Adóil.

Na análise de Scholem do capítulo 17, Deus antes de toda


criação estabeleceu um Éon de criação, todas as coisas
anseiam por essa árvore (expressão claramente
escatológica), o Justo une-se essa Éon. A Bina éon futura, é
aonde todas as almas dos justos retornam e se juntam a ela.

O autor também percebe que na seção 85, se faz uma alusão


aos poderes de Deus, e nessa parte, o “poderes” está no
mesmo sentido que os poderes no sentido gnóstico, aonde
poderes são Éons que preenchem a Pleroma.

O livro enquanto se desenvolve, demonstra um simbolismo


com Sofia, ela aqui como fonte da árvore cósmica, e
posteriormente, no último terço, se forma um simbolismo ao
canal, o canal é um éon que mantém uma relação particular
com Sofia.

Scholem afirma que a partir de Yetzirá, o Bahir começa a


tomar as sephirots como éons, poderes de Deus e seus
atributos. Aqui ocorre uma clara transfiguração judaica do
gnosticismo, aonde os Sete middot que são Sabedoria,
Justiça e Lev’, Graça e Misericórdia, Verdade e Paz.

Essas relações também acontecem por exemplo, com o


babilônico Amora Rabi, esotérico judaico que afirma:

“Por dez coisas foi criado o mundo: pela sabedoria, pelo


entendimento, pela razão e pela força (guébura, sinônimo de
poder), de reprimenda e poder, de justiça e julgamento, de
benevolência amorosa e paixão.”

Esses termos abstratos também estão presentes em alguns


textos gnosticos, como enumeração de éones da Pleroma.
Esses poderes da mesma forma, são referenciados como
tesouros, terminologia que é conhecida na literatura gnóstica
referenciando aos mundos superiores da Pleroma.

Em provérbios 8,17, um autor de uma frase de um Midrash


iemenita afirma “A filha é claramente identificada como
Sofia.”

Então Scholem visa analisar algumas reinterpretações


gnosticas. Por exemplo, no Talmud, a frase “O filho de Davi
não virá até que as almas no corpo se esgotem”, aqui o corpo
significa depósito das almas pré existentes que ainda não
nasceram. Porém, com a interpretação de Bahir, essa doutrina
passa a significar a chave da doutrina de transmigração do
corpo a corpo, mencionado como o corpo do homem que as
almas devem vagar.

Como analisado pelo autor, a queda de Sofia, na qual suas


duas partes se dividiram em uma parte material presa no
mundo material e uma parte alta ligada com a Pleroma, se
repete na cabala, com dois éons chamados Hochma.

Na seção 86, ocorre uma menção a Sofia, aonde a Sabedoria


Superior de Deus é colocada no coração de Salomão, ele a
adapta para ser uma Sabedoria inferior, e a última Sephirot se
chama Hochma Elohim. Ela foi dada de presente a Salomão,
como ela é casada nas esferas superiores, ela é dada para
Salomão apenas como presente, e é na seção 44 que a
concepção do Torá de filha e noiva é amalgamada com a
gnose de Sofia, que possui as características da última
Sephirot.

Por exemplo, na passagem do Talmud “Em todos os lugares


onde eles (Israel) foram exilados, a Schechiná está com eles”,
significava que mesmo no exílio de Israel, a imagem de Deus
(Schechiná) permaneceu com eles. Porém, posteriormente,
Schechiná é interpretada como uma Éon exilada no mundo
inferior.

Na interpretação de Ezequiel 3,14, Scholem percebe que é


interpretada cabalisticamente de maneira semelhante a
gnose Síria, no qual a filha do rei que ilumina o mundo se
trata da filha de luz, mesma personagem que aparece nos
hinos do casamento dos atos de Thomás e outros textos
gnosticos.

Como dito pot Gershom Scholem em Kabbalah:

“No entanto a judaização desses conceitos não pode


obscurecer os vínculos muito tangíveis com imagens e
símbolos gnosticos. Nossa pesquisa, portanto, nos obriga a
admitir a suposição de que as fontes orientais oriundas do
mundo do gnosticismo influenciaram a elaboração do
simbolismo do livro de Bahir.”

Talvez essas conclusões levaram Scholem a considerar, em


sua visão extremamente judaica, a cabala como o que ele
chama de “quase-heresia”.

Enquantos demais textos cabalísticos, como o Zohar um dos


maiores textos cabalísticos, e o maior dos cabalistas
espanhóis, que é afirmado por Scholem como tendo sido
escrito por Moisés de Leão no século XIII, algo que já havia
sido provado na verdade desde o século XIX por Heinrich
Graetz em sua refutação aos cabalistas que afirmavam que
Rabi Simeon Ben Yohai que havia escrito no século II.

Esse mesmo Moisés de Léon foi responsável por afirmar


segundo seus cálculos, que o Messias chegaria no século
XIV. Isso parece estar bem condizente com as afirmações de
Graetz, de que a Cabala fez uma forte influência messiânica
nos judeus medievais, o que posteriormente, com a cabala
luriânica iria render fortemente à um culto essênio, inclusive
usando mantas essenicas no Sabbath.

Graetz vê que a cabala luriânica levou à formação dos


movimentos Sabbatai Zevi, e posteriormente ao panteísmo
espinosiano, talvez por isso a repulsa de Graetz e por ser de
uma linha judaica racionalista, que chega a chamar a Cabala
de “Livro das mentiras”.

O Shabettai Zevi, que é proveniente do cabalismo rurianico,


chega a se postular o novo Messias, após Nathan, um
cabalista, afirmar que teve visões de que Zevi era o Messias.
Com o fim desse movimento, houve a separação em dois, que
viam a fé messiânica misturada com a lei judaica e os
radicais (Jacob Frank, que acreditava ser uma reencarnação
de Zevi), que queriam anular o Torá.
Gershom Scholem acredita, que essa divisão ocorrida entre
ortodoxia externa e heresia interna destruiu a unidade judaica
de dentro, dando origem portanto ao judaísmo moderno e
desintegrando o judaísmo tradicional.

Sobre o Sefer Yatzirá

Esse escrito é entendido entre os historiadores sendo entre o


século III ou VI, que por si já contrária a visão cabalista de
que teria sido escrito por Abraão, há certa influência grega em
torno desse escrito. Aonde no capítulo I, já se expressa a
criação:

“Com 32 caminhos místicos de sabedoria gravou Yah o


Senhor dos Exércitos o Deus de Israel o Deus vivo Rei do
Universo El Shadai Clemente e Misericordioso Elevado e
Exaltado que mora na Eternidade cujo nome é sagrado – Ele é
sublime e sagrado – E criou Seu Universo com três livros
(Sefarim) com a escrita ou escritura (Sefer) com número
(Sefar) e com a palavra (Sipur).”

Se pode perceber uma influência gnóstica semelhante a


Clementine, aonde como no último, Deus não é apenas o
começo, mas também o fim de todas as coisas, assim no
primeiro ele é o ἀρχή e τέλος de tudo o que existe. Assim
como a transformação do Espírito Santo, em que ele se torna
πνεῦμα e daí se torna água, fogo e rochas, enquanto em
Yatzirá o Espírito de Deus da mesma forma gera água e fogo,
como entre os primeiros quatro Sephirots.

Graetz vê uma forte influência gnostica dentro do escrito,


enquanto que Gershom Scholem vê uma semelhança bem
alta no escrito com o método neopitagórico do século II e III
a.c. Enquanto Hans Jonas, vê também uma influência das
relações neopitagóricas e neoplatônicas que da mesma
forma gerariam o gnosticismo (afinal, o neoplatonismo tem
fortes relações com o gnosticismo, como mostrado por
Puech).
Ocorre no escrito uma combinação entre 10 números e 22
letras, que ocorre em torno de 231 portas, dos 10 sephirots e
das 22 letras do alfabeto.

No capítulo 3 a 5 ocorre a divisão entre letras em três grupos,


“Ar, fogo e água” (Alef, Men, Shin), Graetz aponta uma forte
semelhança entre essa divisão e a divisão feita pelo
gnósticos Marcus, que também separou o alfabeto grego em
três grupos.

As sete letras: “beit, guimel, dalet e kaf, pei, resh e tav”, que
formam sete duplas letras, se é associado novamente aos
sete planetas, e não apenas, mas também aos dias da
semana e a composição anatômica do corpo.

E então que ele especula das 12 letras restantes, do qual se


tem o nome de peshutot, ao começar pelos 12 signos do
zodíaco, 12 meses e 12 membros principais do corpo.

Também ocorre uma separação fonética das letras, que ele


separa em partes da boca das quais são guturais, labiais,
velares, dentais, sibilantes. O que é uma formulação
linguística sobre as 22 letras do hebraico como veículo do
entendimento e criação do cosmos.

Demais influências gnósticas na Kabbalah:

Scholem enxerga que para a Cabala, o mal tem uma realidade


substancial e independente do homem, bastante semelhante
ao gnosticismo, como afirmado por ele:

“O mal caiu sobre o mundo não porque a caída de Adam


atualizou sua presença potencial, mas sim porque assim foi
ordenado, porque o mal tem uma realidade própria. Está
também era a doutrina do gnosticismo: o mal é por sua
própria natureza independente do homem, está entrelaçado
com a textura do mundo o, antes, na existência de Deus. O
homem, sustentam os gnósticos, “encontra o ser na
efetividade criadora do mal.”

E isso de fato é atestado pelo próprio Zohar, em passagens


que afirmam da seguinte forma:

“Las palabras de la Torah residen sólo ahí, ya que no existe


luz sino en la medida en que ésta emerge de la oscuridad.
Cuando esa (otra) Parte es denominada, el Santo, Bendito
Sea, se eleva y es glorificado. Y “no existe la adoración divina
sino en medio de la oscuridad, ni el bien sino dentro del mal”.

Scholem afirma que na visão cabalista, todas as criações


eram de natureza espiritual, e se não fosse pelo mal, não
existiria matéria. Da mesma forma, a Cabala concluiu uma
relação mútua de Deus e homem, aonde na Cabala de Safed
radicalmente se afirma: “É o homem quem da o toque final ao
rosto divino; é ele quem completa a entronização de /Deus, o
rei e o Criador místico de todas as coisas, em seu reino do
céu; é ele quem perfecciona o criador de todas as coisas!”.

Algo bastante semelhante pode ser visto em gnósticos


medievais como Mestre Eckhart, que enxerga Deus sendo de
fato Deus apenas ao criar as criaturas (Deus quoad nos) e
Deus para ele mesmo, antes da criação e não sendo Deus
(Deus quoad se).

Henry Corbin em sua breve análise sobre a Cabala luriânica e


o gnosticismo valentiniano, identifica que o tsimtsum
cabalístico (a limitação divina e seu ato de se exilar) com a
criação, é idêntico à gnose valentiana e seu Demiurgo, além
das fortes

semelhanças entre a tríade cabalística e a tríade gnostica


(isso que devido ao curto tempo, deixarei para explicar em
ocasiões futuras).
E por Ein Sof estar em uma relação mútua com a
humanidade, a mesma queda da humanidade culmina no
exílio de Deus em relação ao mundo, aonde a reconciliação
(Tikun) se dá pela esfera mística. Algo que se é identificado
por Puech como um dos fortes elementos da gnose, a
consubstancialidade da alma e Deus, aonde em alguns casos
(como no de Maniqueus), ocorre a parceria entre Deus e
mundo.

Enzo Stilianidi.