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Efeito Zeigarnik: o que é e como afeta a

sua produtividade
11/04/2018 Juliana SalesProdutividadecaixa de entrada, GTD, Produtividade, tarefas

O post de hoje é sobre um processo cognitivo estudado pela


psicóloga russa Bluma Zeigarnik, de onde vem esse nome meio
estranho. Apesar do nome, trata-se de um mecanismo mental
extremamente simples, com o qual todos convivemos
diariamente. Eu diria, inclusive, que existe uma grande
possibilidade de este efeito estar agindo sobre você exatamente
agora ou, ao menos, você o sentirá ao final do seu dia de
trabalho/estudo.
Falando de forma simples, o efeito Zeigarnik nada mais é que
aquela sensação incômoda que nos perturba quando temos
alguma coisa inacabada, qualquer tarefa ou atividade. Aquele
sentimento de culpa quando começamos algo e não
terminamos. Vamos supor, por exemplo, que você tem um
relatório para revisar. Mas, cansado e com dificuldade de focar,
tirou uns minutos de descanso e veio para internet e está nesse
exato momento lendo esse post. Se você é como a maioria das
pessoas é bem provável que uma “voz” esteja falando na sua
cabeça: “você tem que terminar a revisão do relatório”. Isso é o
efeito Zeigarnik acontecendo.
Segundo os estudos de Bluma Zeigarnik, todos nós ficamos
tensos quando temos algo que precisa ser feito e ainda não o
fizemos. Essa tensão, essa sensação incômoda é a responsável
por não nos permitir esquecer que temos alguma coisa
pendente, algo que tem que ser finalizado. E esse sentimento só
vai embora quando concluímos a tarefa.
Alguns estudiosos acreditam que o simples fato de planejar o
que faremos para concluir a  tarefa inacabada já seria suficiente
para eliminar ou ao menos minimizar o efeito Zeigarnik. Ao
montar um plano, definir qual o próximo passo a ser feito para
concluir a tarefa, como e quando ele será feito, proporcionamos
ao cérebro a impressão de que a tarefa não está inacabada, mas
estamos trabalhando nela. Estudos apontam que o
planejamento pode eliminar os efeitos cognitivos dos objetivos
não cumpridos.  Isso só reforça a importância do
planejamento para quem quer se manter produtivo.
Curiosamente, alguns pesquisadores acreditam que esse efeito é
a explicação de porque  determinados jogos  são quase viciantes,
a ponto de querermos jogar o tempo todo. Tom Stafford,
professor de psicologia e ciências cognitivas  da Universidade de
Sheffield acredita que este é o mecanismo por trás do famoso
jogo Candy Crush. Para Stafford, o jogo gera a sensação de
“tarefa incompleta”, onde cada nível representa uma tarefa que
o jogador sente urgência de resolver. O problema é que existe
uma quantidade limitada de tentativas (as vidas) e quando elas
acabam é preciso esperar um certo período de tempo para voltar
a jogar. Esse momento em que se fica esperando representa,
para o seu cérebro, que existe uma tarefa não concluída que
você precisa completar.
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Fonte: foto de rawpixel.com em Unsplash

Apesar da tensão e de certo incômodo que o efeito Zeigarnik


traz, até certo ponto ele é desejável. Ninguém quer esquecer que
deixou uma tarefa importante pela metade. Essa sensação ruim
de quando temos algo não terminado nos incentiva a continuar
em frente e fazer as coisas que precisamos fazer. Se ela não
existisse talvez você não se incomodasse tanto ao deixar pra
terminar depois a leitura de um livro para uma prova, por
exemplo. Ou então você poderia facilmente esquecer algum
alimento no fogo. Ter nossa mente nos lembrando das coisas
que começamos e não terminamos é essencial em diversos
aspectos.
Entretanto, o problema é que nosso cérebro não consegue
entender que muitas vezes não concluímos determinadas
tarefas por motivos válidos. Imagine que seu chefe te pediu para
entrar em contato com determinado cliente por qualquer razão
que seja. Você tentou se comunicar com o tal cliente o dia todo,
mas sem sucesso. Após o expediente, quando você vai pra casa,
não consegue relaxar porque aquela tarefa incompleta (falar
com o cliente) ativa o efeito Zeigarnik. O cérebro não consegue
entender que ele não precisa ficar o tempo todo te lembrando
que aquela tarefa está inacabada porque enquanto você está em
casa ou mesmo quando vai se deitar para dormir, simplesmente
não é possível fazer nada para concluir aquela tarefa.
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Para quem conhece um pouco do método GTD pode-se fazer


uma relação do efeito Zeigarnik com o que David Allen chama
de “veios abertos”. Em seu livro, veios abertos são definidos
como qualquer coisa que atraia sua atenção mas você não pode
fazer nada a respeito no momento, seja porque não tem as
ferramentas, não está no local adequado ou qualquer outro
motivo.
David Allen afirma também que muitas vezes esses veios
abertos são inconscientes, e isso pode ser entendido em dois
sentidos: as vezes nos preocupamos com coisas que acreditamos
que devemos fazer, mas esse dever é subconsciente, ou seja, não
é de fato uma tarefa ou obrigação que assumimos mas apenas
alguma coisa que achamos que deveríamos fazer. Por outro
lado, muitas vezes a preocupação é inconsciente: ficamos com a
sensação de tensão, temos insônia, e talvez não consigamos
entender o motivo.
Veja o exemplo que eu usei antes, do contato que você precisava
fazer com o tal cliente e não conseguiu. Claro que, quando você
está em sua casa tentando dormir, você sabe conscientemente
que não há nada que você possa fazer no momento para
concluir essa tarefa e talvez nem esteja de fato pensando nela. 
Mas no seu subconsciente o seu cérebro provavelmente está
remoendo aquela tarefa incompleta por causa do efeito
Zeigarnik.
Como minimizar então a ação desse efeito Zeigarnik? Eu já
disse por aqui várias vezes que nosso cérebro não foi feito para
ficar nos lembrando o tempo todo das coisas que precisamos
fazer. Esse é um esforço mental desnecessário, um  gasto da
energia que poderíamos estar usando para atividades mais
úteis, tais como aprendizado, resolução de problemas,
criatividade. Além disso, essa situação atrapalha também nossa
concentração, uma vez que não conseguimos focar
adequadamente em determinada tarefa porque nossa mente fica
o tempo todo lembrando as coisas que precisamos fazer e ainda
não terminamos.

Fonte: foto de Green Chameleon em Unsplash

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O truque então é dar ao cérebro a sensação que ele quer: de


tarefa concluída. Existem várias forma de se fazer isso e o uso
do método GTD talvez seja uma das mais eficientes. Isso porque
os princípios do GTD objetivam alcançar o estado de mente
“clara como água”, no qual estamos totalmente focados no que
estamos fazendo no momento. Não há distrações, estresse ou
outras preocupações e lidamos de forma adequada com
quaisquer imprevistos. Nos sentimos altamente produtivos.
Na prática, o que dá ao cérebro a impressão de que algo está
terminado é transferir para outro lugar a tarefa de lembrar das
coisas que precisamos fazer. Aqui estou falando do uso da caixa
de entrada: anote sempre tudo o que você precisa fazer. Anote
seus compromissos, pendências, obrigações.
O segundo passo é tornar sua caixa de entrada confiável. Isso é
feito ao se adquirir o hábito tanto de anotar tudo quanto de
verificar e revisar com frequência o que foi anotado. Não
adianta anotar e deixar pra lá. Isso não vai funcionar porque as
coisas vão continuar não sendo concluídas e o cérebro vai
continuar se ocupando delas e colocando em ação o efeito
Zeigarnik.
Para finalizar, é importante entender que o efeito Zeigarnik não
é totalmente prejudicial à produtividade. Ele pode até mesmo
ser um aliado, quando usado para combater um dos maiores
vilões para quem quer se manter produtivo: a procrastinação.
Já existe um post aqui no blog com várias dicar para fugir da
procrastinação. Uma delas é dar o primeiro passo, apenas
começar uma tarefa que você está procrastinando. Isso porque
muitas vezes o estresse e ansiedade de começar algo é o que nos
atrapalha a de fato começar e dar primeiro passo pode ajudar a
romper o estado de inércia em que nos encontramos.
Mas o efeito Zeigarnik também pode nos ajudar nesse sentido,
uma vez que, ao começarmos a tarefa ele entra em ação se ela
for interrompida e não finalizada. Claro que isso deve ser
gerenciado com cuidado, mas muitas vezes um tarefa simples,
que adiamos por motivo nenhum, apenas por preguiça ou falta
de motivação, será mais facilmente concluída apenas se
começarmos e deixamos o efeito Zeigarnik agir.
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Quis falar sobre esse assunto aqui no blog porque é um processo


que todos nós enfrentamos no dia a dia e entender como ele
funciona, como lidar com ele e como transformá-lo em algo
positivo é um conhecimento importante para melhorar nossa
produtividade.
Dúvidas, opiniões e sugestões, os comentários estão abertos,
como sempre.
Até mais,
Juliana Sales