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RAZÃO E SEUS PRINCÍPIOS GERAIS

Antonio Ronaldo Costa Dias

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Olá!
A capacidade de julgar e diferenciar o certo e o errado é uma das maiores habilidades do ser humano. Esta

habilidade, conhecida como razão, é a base para agirmos com bom senso em nossas decisões.

Conceito de Razão
A palavra “razão” possui duas origens principais: na palavra latina “ratio” e no termo grego “logos”, cujos

significados são reunir, contar, juntar e calcular. Estes verbos pressupõem que ao realizarmos estas ações -

pensar em uma decisão, juntar os pontos positivos e negativos de uma escolha, calcular os prós e contras e falar

a respeito de todos os dados reunidos, de maneira organizada e ordenada - estamos utilizando a razão (Chaui,

2000).

CASO
Quando precisamos tomar uma difícil decisão, na qual impactará num grande prejuízo ou lucro
financeiro, por exemplo. Antes de darmos o primeiro passo, imaginamos e ponderamos os prós
e os contras, calculamos qual será o lucro ou prejuízo, organizamos dados em planilhas,
escrevemos os possíveis impactos na decisão e, finalmente, decidimos o melhor caminho.

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Figura 1 - Racionalidade
Fonte: Ollyy/Shutterstock.com

O conceito de razão, ou racionalidade, pode assumir diversas interpretações em variadas situações. De acordo

com o dicionário Michaelis da Língua Portuguesa, a palavra “razão” tem os significados conforme o quadro.

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Fonte: MICHAELIS, 2001, p. 730. (Adaptado).

Assim, percebemos que, em geral, utilizamos a palavra “razão” para nos referirmos à capacidade que o ser

humano tem de julgar, aos motivos que alguém possui ou às causas de algum evento ou acontecimento.

No estudo da filosofia, Sócrates afirma que “os maus te farão perder a razão” (OS PENSADORES, 1987, p. 65), ou

seja, quando muitos episódios e acontecimentos são envolvidos é necessário reunir os fatos para ordenar as

ideias de forma que se possa agir com calma e temperança, para não entrar em desequilíbrio emocional e ser

tomado pelo desespero. Estes fatos nos fazem seres racionais, isto é, seres baseados na razão dos

acontecimentos, nas causas e suas consequências (OS PENSADORES, 1987).

Figura 2 - O pensador

Fonte: NeydtStock, Shutterstock.com

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Fonte: NeydtStock, Shutterstock.com

Segundo Japiassú (2001), a razão é a faculdade ou a capacidade que o ser humano tem de julgar, isto é, definir o

que é o certo e errado em todas as suas decisões. Em última análise, podemos, então, definir a razão como a

habilidade nata do ser humano de possuir o julgamento do verdadeiro ou falso, nas mais diversas situações.

Saiba mais
O livro Sócrates, da coletânea Os Pensadores, organizada por José Américo Motta Pessanha,
aborda os aspectos da razão segundo o filósofo. Acesse: <charlezine.com.br/wp-content
/uploads/02-S%C3%B3crates-Cole%C3%A7%C3%A3o-Os-Pensadores-1987.pdf>.

Princípios gerais da razão


Segundo Chaui (2000), o estudo filosófico da razão é importante para a sociedade porque enquadra o homem em

determinadas regras, uma vez que o conceito de razão não se sustenta sem que tenhamos alguns requisitos.

Assim, a razão possui como base seus princípios gerais, ou “princípios racionais”, como são chamados pelos

filósofos. De acordo com a autora a

Filosofia considerou que a razão opera seguindo certos princípios que ela própria estabelece e que

estão em concordância com a própria realidade, mesmo quando empregamos sem conhecê-los

explicitamente. Ou seja, o conhecimento racional obedece a certas regras ou leis fundamentais, que

respeitamos até mesmo quando não conhecemos diretamente (Chaui, 2000, p. 72).

Portanto, os princípios gerais da razão são regras e requisitos para que o ser humano tenha bom senso em seus

julgamentos. Segundo a filosofia, estes requisitos são divididos nos princípios da identidade, da não contradição,

e do terceiro excluído (Chaui, 2000).

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Fique ligado
Os princípios gerais são muito importantes para o nosso estudo, pois servirão de base para que
possamos solucionar os problemas mais complexos envolvendo o raciocínio lógico.

Nos itens a seguir, compreenderemos as características dos três princípios gerais da razão.

Princípio da identidade

O princípio da identidade afirma que tudo o que existe é o que realmente é (Chaui, 2000). Parece óbvia esta

afirmativa, mas ela limita tudo o que existe (coisa, ser e objeto) em uma única definição: de ele ser ele mesmo.

Podemos, por exemplo, transformar esta definição em uma afirmação matemática, afirmando que a variável “a”

será somente “a” e não mais que “a”, ou seja, a variável “a” pode assumir um único e restrito valor.

Saiba mais
Entre os seis e oito meses de idade, a criança começa a perceber que é um ser separado da
mãe, inicia-se, então, um processo de autodescoberta, que futuramente culminará e refletirá
em sua própria identidade.

Para a melhor compreensão do conceito, podemos fazer uma analogia com as impressões digitais, que

identificam e atribuem os dados pessoais de uma única pessoa. Deste modo, o princípio da identidade atribui

somente uma característica a um ser ou objeto.

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Figura 3 - Impressão digital
Fonte: Prill/Shutterstock.com

No item a seguir entenderemos o princípio da não contradição e sua relação com o princípio da identidade.

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Princípio da não contradição

Para o princípio da não contradição, não podemos afirmar que uma coisa é e não é ao mesmo tempo (Chaui,

2000). Em outras palavras, este princípio impossibilita que possamos atribuir duas definições ao mesmo tempo

para apenas um objeto, por exemplo.

Vejamos: “A parede é branca e não é branca ao mesmo tempo. Não sendo branca, ela poderá ser de qualquer

outra cor”. Neste exemplo, primeiro, afirmou-se que a parede possui uma determinada característica, e, em

seguida, declarou-se o contrário, invalidando a identidade da parede. Quando atribuímos uma característica

(branca) a um objeto (parede), e, ao mesmo tempo, dizemos que este objeto é diferente, estamos cometendo

uma contradição, porque o objeto já possui uma característica atribuída.

Assim, o princípio da não contradição evita que uma determinada afirmativa se autodestrua ou se torne inválida.

Isto é, quando um objeto tem duas definições, ele não tem identidade, ou seja, não é nenhuma das duas opções,

invalidando a sua própria definição.

Observe que o princípio da não contradição e o princípio da identidade se complementam, visto que no princípio

da identidade afirma-se que um ser ou objeto será sempre ele próprio, e no da não contradição, admite-se que

um ser ou objeto não pode ter duas definições ao mesmo tempo.

Princípio do terceiro excluído

O princípio do terceiro excluído sustenta que um objeto pode ser um objeto ou outro objeto e não mais que um

terceiro objeto (Chaui, 2000). Para entendermos o conceito, podemos pensar em linguagem matemática,

afirmando que “a” pode ser “a” ou “b” e não “c”. Assim, estamos restringindo o objeto em apenas dois conceitos, e

afirmando categoricamente que ela não poderá ser um terceiro.

CASO
Na frase “Faremos a guerra ou a paz” encontramos o princípio do terceiro excluído, porque não
há outra maneira de resolvermos o conflito, uma vez que em uma afirmativa só existem duas
possibilidades: a certa ou a errada.

Fique ligado
O princípio do terceiro excluído pode ser identificado por meio do conectivo “ou”.

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O princípio do terceiro excluído pode ser identificado por meio do conectivo “ou”.

Com isso, compreendemos o terceiro e último princípio geral da razão. A seguir, conheceremos as atitudes

mentais opostas à razão.

As atitudes mentais opostas à razão


As atitudes mentais são considerações e estudos de ordem cultural da sociedade, isto é, são reflexões originadas

dos costumes dos povos, desde o início da humanidade, e não estão relacionadas à razão (Chaui, 2000).

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Figura 4 - Atitudes mentais
Fonte: Alphaspirit/Shutterstock.com

Segundo Chaui (2000), a razão é considerada contrária a quatro atitudes mentais, a saber:
• conhecimento ilusório: é muito vago e não alcança a realidade e a verdade dos fatos. Trata-se de
prejulgamentos ou preconceitos de origem cultural da sociedade;
• emoções: os sentimentos e as paixões são cegas, desordenadas e contraditórias, sendo que ora se diz sim
e ora diz não, ou seja, as emoções são passivas e passageiras;
• crenças religiosas: são reveladas por meio da fé, quer dizer, não depende do trabalho de conhecimento
realizado pela nossa inteligência, ou pelo nosso intelecto;
• êxtase místico: é baseado no desprendimento e desvinculação da consciência.

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Deste modo, percebemos que a razão é oposta às atitudes mentais que levam a desviar da capacidade de

julgamento ordenado. Algumas vezes, as atitudes mentais se confundem com a consciência racional dos fatos,

atrapalhando o julgamento e ponderação do ser pensante.

Fique ligado
O desequilíbrio emocional, a imparcialidade e a falta de racionalidade nos leva à indecisão, ou a
tomar decisões no calor da situação, que geralmente conduz a atitudes impensadas (Chaui,
2000).

é isso Aí!
Neste estudo, compreendemos que o conceito de razão implica, como base, no julgamento e bom senso nas

tomadas de decisões. Entendemos, também, que embora saibamos deste conceito, muitas vezes, somos tomados

por atitudes, como a emoção, que fazem com que desprendamos do pensamento racional ou da própria razão, o

que prejudica a faculdade ou habilidade de julgar.

Nesta unidade, você teve a oportunidade de:


• aprender o conceito de razão, suas principais definições e seus vários significados;
• conhecer os princípios da razão e suas definições;
• compreender as restrições impostas pelos princípios da razão e suas implicações.

Referências
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando: introdução à filosofia. São Paulo:

Moderna, 1993.

CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000.

JAPIASSU, Hilton; MARCONDES, Danilo. Dicionário básico de filosofia. 2. ed. rev. Rio de Janeiro: J Zahar, 1991.

MATRIX. Direção de Lana Wachowski e Lilly Wachowski. EUA: Warner Bros. Pictures, 1999.

MICHAELIS: dicionário escolar da língua portuguesa. São Paulo: Melhoramentos, 2009.

OS PENSADORES. Sócrates. Seleção de textos de José Américo Motta Pessanha. São Paulo: Nova Cultural, 1987.

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