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13. AS OITO VISÕES BÁSICAS DO LIVRO DE


APOCALIPSE
Kenneth A. Strand
Andrews University
Fonte: Andrews University Seminary Studies. Vol. 25, N° 1, pp. 107-121

O livro de Apocalipse é uma peça literária notavelmente bem construída,


contendo ampla multiplicidade de padrões primorosamente elaborados. Tais padrões
representam mais que simples demonstrações de gosto estético e habilidade de
composição, e ele também transcendem o útil propósito de servir como artifícios
mnemônicos. Efetivamente, de uma forma direta e poderosa eles salientam vários
aspectos da mensagem teológica do livro.
Num escopo mais amplo, todo o livro de Apocalipse acha-se estruturado sob
a forma geral de quiasma, no qual prólogo e epílogo são contraposições, e onde as
maiores seqüências ou visões intervenientes também aparecem numa ordem de
quiasma, ou ordem inversa. Desta estrutura ampla sob forma de quiasma, tratei em
ocasiões anteriores, inclusive sua importância, 475 de modo que aqui não se requer
maior elaboração, exceto para destacar duas características específicas: (1) Ao lado
de prólogo e epílogo, existem oito visões ou grandes seqüências proféticas – quatro
que antecedem e quatro que seguem a linha traçada entre os capítulos 14 e 15. (2)
As visões que precedem a linha que divide o quiasma, apresentam basicamente
uma perspectiva histórica (ou seja, relacionam-se com a era crista), ao passo que as
visões que vêm após a linha divisória do quiasma, retratam uma era escatológica, de
julgamento.
Com respeito ao primeiro item acima, deve-se enfatizar que efetivamente
existem oito grandes seqüências proféticas no Apocalipse, e não sete, conforme
vários intérpretes têm suposto.476 Concernente ao segundo item, varias qualificações
devem ser observadas: Da segunda a quarta visões, cada seqüência histórica
conclui com uma seção que retrata o tempo de um julgamento escatológico; nas
visões subseqüentes, que em sua essência provêem uma ampliação da era
escatológica / de julgamento, existem dois tipos de materiais que pertencem à era
histórica - explanações (que obviamente devem ser feitas em termos da perspectiva
histórica do próprio profeta); e exortações ou apelos (que só possuem valor antes do
julgamento escatológico e que, obviamente, serão destituídas de valor por ocasião

475
Por exemplo, edições de The Open Gates of Heaven (Ann Arbor, MI, 1969 e 1972) e de seu
sucessor, Interpreting the Book of Revelation (Worthington, OH, 1976 e Naples, FL, 1979); também
"Apocalyptic Prophecy and the Church", Parte I, em Ministry, Outubro de 1983. pp. 22-23. Veja
especialmente a discussão em Interpreting, pp. 43-51, e o diagrama à pagina 52. A divisão exata
entre blocos de textos, no Apocalipse, tem várias vezes sido modificada levemente, no presente
artigo, em relação à forma em que tais divisões aparecem em publicações anteriores.
476
Tais intérpretes aparentemente chegaram à conclusão de que, sendo o número sete um símbolo
importante no Apocalipse - pois ocorre explicitamente quatro vezes: igrejas, selos, trombetas e taças -
deve ele ser também apoiado por sete visões básicas. Quanto a exemplos da abordagem de sete
visões, veja Ernst Lohmeyer, Die Offenbarung des Johannes (Tübingen, 1926); John Wick Bowman,
The Drama of the Book of Revelation (Philadelphia, 1955) e "Revelation" em IDB 4:64-65; e Thomas
S. Kepler. The Book of Revelation (New York, 1957). Lohmeyer e Bowman encontraram septetos,
igualmente, dentro de suas sete grandes visões, embora eles não concordem nem mesmo quanto ao
que são as sete grandes visões. Kepler, por outro lado, encontrou apenas um total de dez subseções
(identificadas como "cenas") dentro de suas sete grandes visões (cujos limites variam apenas
levemente em relação aos limites das sete grandes visões esboçadas por Bowman).
175

da chegada do julgamento escatológico propriamente dito). Estas qualificações


concernentes a "exceções" do impulso principal ou da cobertura das visões em cada
lado da linha divisora do quiasma, não deveriam, contudo, ser consideradas como
materiais de intersecção. Estes dados são partes importantes de suas próprias
seqüências, encontram-se em posições adequadas onde estão e falam
significativamente no contexto sobre o qual estão fundadas. Mais que isto, elas são
unidades discretas e significativas quanto à natureza, posicionamento e/ou
propósito, dentro de suas próprias visões específicas.
Por questão de conveniência, a abrangente estrutura em quiasma de
Apocalipse em: prólogo, epílogo, e oito visões, aparece como esboço no Diagrama
1, o qual também inclui minhas sugestões quanto aos limites de texto e tópicos
gerais das várias visões. Nesse diagrama e ao longo do restante da discussão neste
artigo, o termo “visões” referir-se-á às oito seqüências proféticas completas, e não a
uma visão individual a fim de identificar a seqüência da visão.
176

O presente estudo tem dois propósitos principais, e os dados pertinentes a


cada um deles serão apresentados em artigos separados. Em primeiro lugar, o
presente ensaio analisa brevemente alguns padrões paralelos para as oito principais
visões do livro de Apocalipse. Um artigo de acompanhamento 477 focalizará com um
pouco mais de detalhe os blocos particulares de textos que introduzem estas oito
visões, e que podem ser identificados como "cenas de vitória-introdução", uma vez
que eles provêem para cada uma das visões um cenário que retrata em termos
dramáticos o atual cuidado de Deus por Seu povo e oferecem segurança de vitória
final aos leais santos de Cristo. Para fins de identificação no presente artigo, os
numerais romanos (I, II, etc.) prosseguirão sendo usados, tal como no Diagrama 1, a
fim de; designar as oito visões. Cada visão, entretanto, possui de duas a quatro
seções ou blocos de textos, e letras maiúsculas (A, B, etc.) servirão para identificar
estas.

13.1. ANÁLISE DE PADRÕES DENTRO DAS OITO VISÕES

A primeira e a última visões (I e VIII) de Apocalipse são compostas de uma


"Cena de Introdução-Vitória" (A), mais um bloco principal de textos (B) que pode ser
chamado de "Descrição Profética Básica". As outras seis visões (II a VII) possuem
os mesmos dois blocos, mas são-lhe acrescentados dois outros blocos (C e D).
Neste ensaio, os terceiros blocos de textos, nas visões II a VII, recebem a
designação básica de "Interlúdio" - um termo aplicado de modo um tanto regular
pelos exegetas a estas seções particulares nas visões II, III e IV, mas igualmente
aplicável as seções correspondentes (ainda que mais curtas) das V, VI e VII. Dever-
se-ia observar, todavia, que embora o termo "interlúdio" freqüentemente sugira uma
interrupção ou hiato a algo, o fluxo de pensamento que estes terceiros blocos de
material exercem nas visões II a VII de Apocalipse, é permitir ou facilitar ou
intensificar o impulso do material imediatamente precedente.478 O quarto bloco pode
ser designado como "Culminação Escatológica"; em certo sentido, este bloco e o
precedente bloco de "interlúdio" representam, na verdade, uma extensão da
"Descrição Profética Básica" iniciada no segundo bloco. Embora venha a ser
necessário acrescentar mais tarde neste artigo alguns refinamentos à precedente
analise básica, neste ponte podemos resumir sob forma de diagrama os resultados
até aqui obtidos. Este resumo é provido pelo Diagrama 2.

13.2. RESUMO DO CONTEÚDO DAS VISÕES

Neste ponto é útil procurar uma visão geral do conteúdo de cada uma das oito
visões. Os sumários aqui apresentados, seguem as linhas gerais de estrutura acima
indicadas. Deve ser enfatizado que estes são realmente resumos, e o leitor
encontrará detalhes ao consultar os textos indicados para cada visão.

477
Apresentado no AUSS, vol. 25, n° 3, pp. 267-288. (Traduzido para o português pelo mesmo
tradutor do presente artigo. - N. do T).
478
Paul S. Minear falou agudamente deste assunto em conexão com o "interlúdio" que ocorre em
16:15. Veja a seguir a referência n° 9 e o material citado, ao qual se refere a nota.
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I II III IV V VI VII VIII


CENA CENA
DE CENA DE CENA DE CENA DE CENA DE CENA DE CENA DE DE
INTROD INTRODU INTRODU INTRODU INTRODU INTRODU INTRODU INTROD
A A
UÇÃO ÇÃO ÇÃO ÇÃO ÇÃO ÇÃO ÇÃO UÇÃO
VITÓRI VITÓRIA VITÓRIA VITÓRIA VITÓRIA VITÓRIA VITÓRIA VITÓRI
A A
DESCRI DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRI
ÇÃO ÃO ÃO ÃO ÃO ÃO ÃO ÇÃO
B PROFÉT PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉT B
ICA CA CA CA CA CA CA ICA
BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA
INTERLÚ INTERLÚ INTERLÚ INTERLÚ INTERLÚ INTERLÚ
C C
DIO DIO DIO DIO DIO DIO
CULMINA CULMINA CULMINA CULMINA CULMINA CULMINA
ÇÃO ÇÃO ÇÃO ÇÃO ÇÃO ÇÃO
D D
ESCATOL ESCATOL ESCATOL ESCATOL ESCATOL ESCATOL
ÓGICA ÓGICA ÓGICA ÓGICA ÓGICA ÓGICA
DIAGRAMA 2. ESTRUTURAS PARALELAS NAS OITO GRANDES VISÕES DE APOCALIPSE

13.3. AS VISÕES HISTÓRICAS

13.3.1. Visão I, 1:10b-3:22


Bloco A, Cena de Introdução-Vitória, 1:10b-20. Cristo aparece a João em
Patmos sob a forma de Alguém que vive para sempre e é poderoso, que anda entre
os sete candeeiros que representam as sete igrejas.
Bloco B, Descrição Profética Básica, caps. 2 e 3. Cristo apresenta
mensagens de louvor, reprovação, advertência e exortação às igrejas individuais,
conforme requeiram suas condições.

13.3.2. Visão II, 4:1-8:1


Bloco A, Cena de Introdução-Vitória, caps. 4 e 5. João vê um trono
estabelecido no Céu, com um mar de vidro e sete lâmpadas de fogo diante do trono,
e com quatro criaturas viventes e vinte e quatro anciãos circundando o trono. Numa
cena dramática e cheia de suspense, é feita a declaração de que somente o
Cordeiro de Deus, que foi morto, e apto a tomar da mão dAquele que está assentado
no trono um rolo selado com sete selos, e a abrir os selos e o rolo. O Cordeiro
apanha então o rolo e antífonas de louvor ascendem das quatro criaturas viventes e
dos vinte e quatro anciãos, e de todo o universo.
Bloco B, Descrição Profética Básica, cap. 6. São rompidos os seis primeiros
selos do rolo, e como resultado, aparecem quatro cavaleiros, almas sob o altar
clamam "até quando" deverão esperar pelo julgamento e vindicação, e aparecem
sinais no Céu e na Terra, indicando o juízo impendente.
Bloco C, Interlúdio, cap. 7. A seqüência é "interrompida" a fim de permitir que
se focalize o selamento dos 144 mil durante o tempo do fim.
Bloco D, Culminação Escatológica, 8:1. É aberto o sétimo selo, e diante disto
ocorre "silencio no Céu" durante meia hora.

13.3.3. Visão III, 8:2-11:18


Bloco A, Cena de Introdução-Vitória, 8:2-6. Aparecem sete anjos com
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trombetas, enquanto outro anjo se dirige ao altar de ouro e ali oferece incenso, cuja
fumaça, misturada às orações dos santos, ascende a Deus. Em seguida, o anjo
enche um incensário com brasas vivas do altar e lança-o sobre a Terra, o que
resulta nos símbolos de juízos: vozes, trovões, relâmpagos e terremoto.
Bloco B, Descrição Profética Básica, 8:7-9:21. Soam as seis primeiras
trombetas, liberando forças de devastação que abrangem um temporal de saraiva a
cair sobre a Terra, uma grande montanha ardente lançada no mar, etc. As cinco
primeiras destas trombetas utilizam imagens das pragas do antigo Egito, mas a
sexta trombeta desvia o foco para Babilônia, ao mencionar "o grande rio Eufrates"
em 9:14.479
Bloco C, Interlúdio, 10:1-11:13. Um anjo que segura um rolo aberto anuncia
(10:6) que "já não haverá demora”.480 João recebe ordem de comer o rolo e
obedece, descobrindo um sabor doce na boca, mas algo amargo no ventre; o profeta
é instruído a medir o templo, o altar e as pessoas (uma alusão direta, conforme
demonstrei noutra parte, ao ritual do fim do ano religioso no culto judaico antigo, o
"Dia da Expiação";481 também são descritas a carreira e o testemunho das duas
testemunhas.
Bloco D, Culminação Escatológica, 11:14.18. Soa a sétima trombeta,
resultando no anúncio de que "o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do
seu Cristo";482 ergue-se outro cântico de louvor, o qual salienta, entre outras coisas,
que chegou o tempo do julgamento dos mortos, da recompensa dos santos e da
destruição daqueles que "destroem a Terra."

13.3.4. Visão IV, 11:19-14:20


Bloco A, Cena de Introdução-Vitória, 11:19 - "Abriu-se o templo de Deus no
Céu", tornando visível a "arca da aliança"; então "sobrevieram relâmpagos, vozes,
trovões, terremoto e grande saraivada".
Bloco B, Descrição Profética Básica, caps. 12 e 13. O dragão, a besta
semelhante a leopardo e a besta de dois chifres perseguem o povo de Deus.
Bloco C, I terlúdio, 14:1-13. João vê (1) o Cordeiro e os 144 mil santos
vitoriosos sobre o Monte Sião e (2) três anjos voando pelo meio do Céu e
proclamando mensagens de advertência.
Bloco D, Culminação Escatológica, 14:14-20. Pratica-se a dupla colheita da
Terra - (1) a colheita dos grãos e (2) as uvas que são lançadas no grande lagar da
479
O fenômeno aqui encontrado pode ser designado como tema "Êxodo do Egito" / "Queda de
Babilônia". Ocorre duas vezes, em cada ocasião abrangendo duas visões completas. O primeiro caso
ocorre em Apocalipse 8:2-14:20 inclusive, e o segundo acha-se em Apocalipse 15:1-18:24 inclusive.
Para detalhes adicionais e diagrama, veja K. A. Strand, "The Two Witnesses of Rev. 11: 3-12", AUSS
19 (1981):128-129.
480
A diferença de apresentação não é tão significativa quanto poderia parecer a principio. A
passagem é uma óbvia alusão ao livro de Daniel, que deveria permanecer selado até ao "tempo do
fim" (Daniel 12:4 ; cf. Apocalipse 10:2) e à pergunta do profeta: "Até quando...?" (Daniel 12:6). Cada
uma das traduções desta declaração particular em Apocalipse 10:6 é adequada como resposta à
questão levantada por Daniel, e de fato representa uma proclamação enfática da chegada do
projetado período do tempo do fim - "um tempo, tempos e metade de um tempo" (Daniel 12:7). O
grego desta ultima cláusula de Apocalipse 10:6 diz: hoti kronos ouketi estai. (Cf. com o "até quando"
de Daniel 8:13).
481
K. A. Strand, "An Overlooked Old Testament Background to Revelation 11:1", AUSS 22
(1984):317-325.
482
A partir deste ponto o texto em inglês faz uso da RSV, exceto, possivelmente, para pequenos
excetos de duas ou três palavras.
179

ira de Deus.

13.4. AS VISÕES ESCATOLÓGICAS DE JULGAMENTO

13.4.1. Visão V, 15:1-16:17

Bloco A, Cena de Introdução-Vitória, 15:1-16:1. Os santos, vitoriosos estão


em pé junto ao mar de vidro e entoam cântico de Moisés e do Cordeiro; e quando se
abre o "templo do tabernáculo do testemunho no Céu", aparecem sete anjos, os
quais recebem sete taças "cheias da ira de Deus"; fumaça enche o templo de modo
que ninguém pode ali entrar até que sejam completadas as pragas dos sete anjos, e
finalmente são dadas instruções para que os anjos saiam e derramem suas taças.
Bloco B, Descrição Profética Básica, 16:2-14. São derramadas as seis
primeiras taças de ira, e isto ocasiona efeitos devastadores sobre a Terra, o mar, os
rios, as fontes das águas, etc. (Uma vez mais, tal como no septeto das trombetas, as
imagens relacionadas com as cinco primeiras taças com as pragas do antigo Egito,
sendo que o cenário se desloca para Babilônia à medida que a sexta taça fala do
"grande rio Eufrates" no texto de 16:12).
Bloco C, Interlúdio, 16:15. Na descrição da sexta taça - o secamento do rio
Eufrates e a presença de espíritos demoníacos que enganam os reis da Terra e os
conduzem à "peleja do dia do grande Deus Todo-poderoso" (16: 12 a 14) - insere-se
uma surpreendente e notável bem-aventurança, no verso 15: "Eis que venho como
vem o ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia e guarda as suas vestes..."
Acrescenta-se então um comentário que afirma ser Armagedon o nome do lugar da
batalha (verso 16).
Uma vez que estamos agora na seção de Apocalipse que prove visões
quanto ao julgamento escatológico, em vez de aplicar-se à era histórica, é óbvio que
se deveria esperar uma nova espécie de "interlúdio", e este é efetivamente o caso
aqui. Os interlúdios anteriores eram descrições um tanto detalhadas de eventos ou
condições durante a porção final da era histórica. Os interlúdios que ocorrem nas
visões V-VII são antes de uma natureza concisa e exortatória.
Pode-se levantar a questão: Por que tal tipo de interlúdio aqui? Para este em
particular, o de Apocalipse 16:15, Paul S. Minear adequadamente encontrou esta
justificativa: "A expressão revela o terrível perigo em que se encontra o cristão
desatento. Se alguém perguntar, junto com R. H. Charles: 'Como poderia alguém
dormir durante o terremoto cósmico que está ocorrendo?' a resposta poderia ser:
'Este é exatamente o ponto'. Existiam cristãos adormecidos , assim o cria João -
pessoas praticamente imperturbáveis diante do desenlace, sem se darem conta de
que estariam ocorrendo coisas capazes de ameaçar seu tesouro ou deixá-los
expostos e nus. Estar adormecidos seria estar inconscientes da urgente
necessidade e premência do tempo. (Compare isto com a atitude dos discípulos no
Getsêmani, em Marcos 14:26-42.) A bem-aventurança designava-se a sentinelas
que haviam esquecido que uma guerra estava sendo travada".483
Bloco D, Culminação Escatológica, 16:17. A sétima taça da ira de Deus é
derramada, e do trono do templo no Céu ouve-se uma voz a dizer: "Está feito!"

483
Paul S. Minear, I Saw a New Earth (Washington, DC, 1968), p. 150.
180

13.4.2. Visão VI, 16:18-18:24


Bloco A, Cena de Introdução-Vitória, 16:18-17:3a. Ocorrem os tradicionais
indicadores de juízo (vozes, trovões, relâmpagos, terremoto e saraiva), e a "grande
Babilônia" é "lembrada" por Deus no tocante ao seu julgamento. João é levado então
ao deserto a fim de observar o julgamento que desaba sobre Babilônia.
Bloco B, Descrição Profética Básica, 17:3b-18:3. Nos primeiros versos do
capítulo 17 é apresentada uma descrição de Babilônia e também da besta com sete
cabeças e dez chifres, de cor escarlata, sobre a qual Babilônia se assenta (versos
3b-8). Esta cena descritiva é seguida por consideráveis detalhes explanatórios
(versos 9 a 18). Estes culminam numa referência a devastação da prostituta por
parte dos dez chifres da besta (versos 16 e 17), e com a identificação desta
prostituta como a grande cidade que governa sobre os reis da Terra (verso 18). Nos
três primeiros versos do capitulo 18, um recital de vários aspectos da corrupção de
Babilônia prepara o terreno para o apelo do interlúdio e para a descrição da
destruição que vem logo após.
Bloco C, Interlúdio, 18:4-8, 20. Antes da descrição da efetiva destruição de
Babilônia pelo fogo, é dirigido um apelo para que o povo de Deus "saia" de
Babilônia, de modo que eles não se tornem participantes de seus pecados e,
conseqüentemente, recebam também de suas pragas. Em conexão com isto, existe
também uma reiteração, sob forma elaborada do divino decreto de julgamento contra
Babilônia.
Tal como na estrutura em quiasma do material do capítulo 18, o verso 20
representa a contrapartida, em quiasma dos versos 4-8,484 sendo que ambos os
"interlúdios" dentro deste quiasma em particular talvez devam ser considerados
como o "interlúdio" total da seqüência mais ampla, que vai de 17:3b a 18:24. O verso
20 convida ao regozijo diante do fato de que Deus proclamou contra Babilônia o
próprio juízo que ela havia imposto ao povo de Deus.485
Bloco D, Culminação Escatológica, 18:9-19, 21-24. A seção central do
capítulo 18 (versos 9-19) retrata, através de uma tríplice canção melancólica, a
completa destruição de Babilônia pelo fogo; e a seção final do capítulo (versos 21-
24) enfatiza o destino de Babilônia e sua mais ampla desolação depois do exercício
do juízo divino sobre ela.

13.4.3. Visão VII, 19:1-21:4


Bloco A, Cena de Introdução-Vitória, 19:1-20. Num cenário celestial que faz
um paralelo com o cenário do capítulo 4, erguem-se antífonas de louvor a Deus por
haver Ele julgado a grande prostituta Babilônia e vindicado Seu povo; faz se então
referência à noiva do Cordeiro, afirmando-se estar ela pronta para as bodas, e uma
bênção é pronunciada sobre aqueles que são "chamados à ceia das bodas do
Cordeiro". (Dever-se-ia observar que, embora seja o mesmo o cenário do templo dos
capítulos- 4-5 e do capítulo 19, existem diferenças quanto à atividade e perspectiva -

484
Veja William H. Shea, "Chiasm by Theme and by Form in Revelation 18", AUSS 20 (1982):249-
256; e Kenneth A. Strand, "Two Aspects of Babylon's Judgment Portrayed in Revelation 18". AUSS 20
(1982):53-60.
485
Veja Strand, "Two Aspects of Babylon's Judgment", pp. 55-59; para uma versão atualizada e mais
literal de Apocalipse 18:20b, veja idem, "Some Modalities of Symbolic Usage in Revelation 18", AUSS
24(1986): 43 45. Subjacente tanto a Apocalipse 18:4-8 quanto ao verso 20, acha-se a lei do
testemunho malicioso (cf. Deuteronômio 19:16-19; veja também Ester 7:9-10).
181

um fato tornado igualmente claro pelo conteúdo das antífonas das duas visões. A
primeira visão pertence claramente à era histórica, ao passo que a última pertence
de modo igualmente claro a era do julgamento escatológico.
Bloco B, Descrição Profética Básica, 19:11-20:5. É retrata do dramaticamente
o segundo advento de Cristo, sendo também apresentadas as conseqüências do
mesmo. Entre os resultados negativos enumerados, está o banquete das aves, que
consiste da carne dos inimigos de Deus (19:17-18), o destino da besta e do falso
profeta no lago de fogo (19:19 20) e a prisão de Satanás no "poço do abismo"
durante mil anos (20:1-3). Do lado positivo acham-se a primeira ressurreição e a
conseqüente nova vida dos santos martirizados. Eles vivem e reinam com Cristo
durante mil anos (20:4-5).
Bloco C, Interlúdio, 20:6. "Bem-aventurado e santo é aquele que tem parte na
primeira ressurreição; sobre esses a segunda morte não tem autoridade..."
Bloco D, Culminação Escatológica, 20:7-21:4. Os eventos culminantes ao
final dos mil anos são apresentados. Do lado negativo estão a soltura de Satanás, o
reaparecimento de sua obra de engano, o vão esforço de sua confederação maligna
em capturar o "acampamento dos santos", e a final destruição deste grupo pelo fogo.
Pelo lado positivo, está a visão do apóstolo, de "novo céu e nova terra", com a santa
cidade, Nova Jerusalém, descendo do céu a terra, e o próprio Deus estabelecendo o
Seu tabernáculo com Seu povo.

13.4.4. Visão VIII, 21:5-22:5


Bloco A, Cena de Introdução-Vitória, 21:5-11a. Faz-se a proclamação de que
os vitoriosos em Cristo herdarão todas as coisas, e João vê a santa cidade, a Nova
Jerusalém, descendo do céu à Terra. (Como uma espécie de pano de fundo, a
seção final da visão precedente já havia retratado a condição da Terra após a
descida da Nova Jerusalém /21:1-4/).
Bloco B, Descrição Profética Básica, 21:11b-22:5. A santa cidade, Nova
Jerusalém, é descrita em detalhe.

13.5. ANALISE ADICIONAL DOS BLOCOS DE TEXTOS, A, B, C


ED

Com base no que vimos antes, podemos agora partir para algumas
generalizações adicionais concernentes à natureza das respectivas seções (A, B,
etc.), dentro das oito visões. Podemos também sugerir notações adicionais para a
captação destes blocos de textos, além daquilo que já foi indicado nas seções
precedentes deste artigo e no Diagrama 2.
Quando consideramos a "Cena de Introdução-Vitória" de cada uma das oito
visões, constatamos que sempre existe um pano de fundo retratando o templo ou
alguma espécie de quadro do templo.486 Portanto, nossa forma de ver a "Cena de

486
Em alguns casos o templo no Céu é mencionado explicitamente como nas cenas introdutórias às
visões IV e V; em outros casos, a alusão ao mobiliário do templo oferece evidência de ser o templo o
cenário, mesmo que a palavra "templo" não ocorra, tal como nas cenas das visões I, II e III. As únicas
cenas introdutórias que não possuem uma indicação tão clara às imagens do ambiente do templo,
são as visões VI e VIII. No caso da primeira, contudo, existe no verso precedente (16:17, a última
praga, mas também um "elemento de ligação" com o que segue) a menção a uma voz provinda "do
templo, do trono". Com relação à visão VIII, existe uma referência ao que está "assentado no trono" -
identificado previamente como Deus em Seu templo (cf., por exemplo, 4:2-11, 19:1-5); mais que isto,
182

Introdução-Vitória" (Bloco A) pode ser suplementada pela frase - "cenário do


templo".
Quanto aos blocos de textos dois a quatro (blocos B, C e D), uma diferença
de perspectiva deveria ser destacada entre as visões que antecedem a linha
divisória do quiasma (visões I a IV) e as visões que aparecem após a linha divisória
(visões V a VIII). Quanto às primeiras, a "Visão Profética Básica" encontra se na
arena histórica; já as últimas têm o material básico da visão dos blocos B
pertencentes ao julgamento escatológico ou final. Para as visões I-IV, portanto, a
"Descrição Profética Básica" necessita da qualificação adicional, "na história"; e para
as visões V-VIII esta qualificação poderia ser "no juízo final".
Quanto aos terceiros blocos de textos (C) nas visões II a IV, a designação
básica de "interlúdio" pode ser também suplementada com uma frase adicional -
"holofote em eventos finais" (significando antes do segundo advento de Cristo), já
que o "interlúdio" em todos os casos amplia o período de tempo que transcorre
justamente antes da culminação escatológica. Para as visões V-VII a frase
acrescentada, "exortação ou apelo", é apropriada, pois os terrores das cenas de
juízo final são "interrompidas" para a apresentação de breves blocos de textos que
estimulam a fidelidade e/ou apelam ao arrependimento. (Em dois destes casos de
exortação ou apelo, o interlúdio é proferido, conforme já vimos, basicamente sob a
forma de bem-aventurança - 16:16 e 20:4.)
As seções de "Culminação Escatológica" (os blocos D) pertencem todas à
consumação escatológica final, conforme observado antes; mas estas seções de
conclusão, no que tange as visões II-IV provêem uma conclusão apical para as
séries que se relacionam com a era histórica, ao passo que as das visões V a VIII
lidam especificamente com o final ou porção terminal das séries escatológicas de
julgamento, que já estavam em atividade nas seções precedentes destas visões. Os
blocos D das visões II-IV podem, portanto, ser designados como "Culminação
Escatológica: Clímax da História", e os blocos D das visões V-VII podem ser
identificados como "Culminação Escatológica: Final com Julgamento". O Diagrama 3
incorpora os refinamentos acima citados (dos dados expostos no Diagrama 2) e
também inclui minhas sugestões quanto aos limites dos textos para os blocos de
materiais, conforme apresentados na segunda seção do presente artigo.

13.6. CONCLUSÃO

Neste artigo observamos que existe uma estrutura literária muito consistente e
equilibrada no livro de Apocalipse. Esta estrutura não apenas possui valor e
qualidades estéticas e mnemônicas, como ainda fala significativamente da
mensagem teológica do livro. Vários aspectos da teologia serão abordados num
artigo de seguimento que explorará em maiores detalhes as "cenas de introdução-
vitória" das oito visões, mas um ponto focal teológico importante pode aqui ser
citado: A estrutura em quiasma, como um todo, enfatiza um tema de duplo aspecto
que abrange e está subjacente às várias mensagens do livro - (1) Que Cristo é o Alfa

o bloco de texto imediatamente precedente (mais uma vez, uma espécie de "elemento de ligação")
fala de Deus estabelecendo Seu "tabernáculo" na "nova terra" / "Nova Jerusalém", junto a Seu povo
(21:3). Poder-se-ia observar adicionalmente que o bloco de textos seguinte, ou "Descrição Profética
Básica" da visão VIII, declara que o templo na santa cidade ou Nova Jerusalém "é o Senhor Deus
Todo poderoso e o Cordeiro" (21:22). Meu segundo artigo desta série tratará da natureza e
significado teológico das imagens do templo que a parecem nas cenas introdutórias das oito grandes
visões do Apocalipse.
183

e o Ômega e (2) que Ele retornará ao final das eras a fim de recompensar as
pessoas de acordo com suas obras (Apocalipse 1:7-8 e 22:12-13). Em outras
palavras, Ele é um auxiliador confiável, consistente e sempre presente, que apóia
Seus fiéis durante a era histórica de adversidade (cf. Apocalipse 1:17, 8; Mateus
28:20b; João 16:33; Hebreus 12:2a; 13:8); e Ele retornará pessoalmente a fim de
desencadear as séries que destroem os "destruidores da Terra" e que provêem a
Seus fiéis seguidores a herança da "nova terra" e o cumprimento de todo o bem a
eles prometido (veja Apocalipse 11:15-18; 21:1-4, 7, 22-27; 22:1-5).487 As quatro
seqüências proféticas que precedem a linha divisória do quiasma lidam
primariamente com o primeiro aspecto, ao passo que as quatro grandes visões
subseqüentes à linha divisória são devotadas principalmente ao segundo aspecto.
Como palavra final, mais um item pode ser brevemente apresentado aqui: é
digno de nota que nas cenas introdutórias das oito visões, os quadros pictórios do
templo revelam em primeiro lugar um padrão de jurisdição terrestre na visão I
(castiçais que representam as igrejas sobre a Terra), seguido de uma jurisdição
celestial nas visões II-VII (onde aparecem tanto /a/ uma menção explícita ao "templo
no Céu" ou seu mobiliário e/ou /b/ um antecedente que indica este cenário
celestial,488 e seguido finalmente por um novo retorno à jurisdição terrestre na visão
VIII (o tabernáculo de Deus na "nova terra"/Nova Jerusalém /cf. 21:3, 221). Este é
um fenômeno surpreendente, cujo significado teológico e cuja correlação com a
ênfase da teologia geral do Novo Testamento serão apresentados no artigo
subseqüente desta série.

Traduzido por: Hélio L. Grellmann


Novembro de 1990
Veja Diagrama 3 na página seguinte.

487
É digno de nota que os ítens das promessas feitas aos "vencedores" das sete igrejas (2:7b, 11b,
17b, 26-28; 3:5, 12, 21) são em sua maior parte mencionados outra vez especificamente em 21:5-
22:5 como já cumpridos (por exemplo, 21:27, 22:24), e também recebem uma alusão geral na
declaração de que o vencedor herdará "estas coisas" (21:7).
488
Concernente a aparente exceção no caso da visão VI, veja a nota n° 486, acima.
184

DIAGRAMA 3. VISÃO GERAL DA ESTRUTURA E CONTEÚDO DO LIVRO DE APOCALIPSE


VISÕES DA ERA ESCATOLÓGICA / DO
VISÕES DA ERA HISTÓRICA
JUÍZO
I II III IV V VI VII VIII
CENÁRI CENÁRIO CENÁRI
CENÁRIO CENÁRIO CENÁRIO
O DE CENÁRIO CENÁRIO DE O DE
DE DE DE
INTROD DE DE INTRODU INTROD
INTRODU INTRODU INTRODU
UÇÃO- INTRODU INTRODU ÇÃO- UÇÃO-
ÇÃO- ÇÃO- ÇÃO-
VITÓRI ÇÃO- ÇÃO- VITÓRIA VITÓRI
VITÓRIA VITÓRIA VITÓRIA
A VITÓRIA VITÓRIA A
A A
CENÁRIO
CENÁRIO CENÁRIO CENÁRIO
CENÁRI CENÁRIO CENÁRIO DO CENÁRI
DO DO DO
O DO DO DO TEMPLO O DO
TEMPLO TEMPLO TEMPLO
TEMPLO TEMPLO TEMPLO (16:18 TEMPLO
(Caps. (15:1- (19:1-
(1:10b (8:2-6) (11:19) a (21:6-
4/5) 16-1) 10)
-20) 17:3a) 11a)
DESCRI
DESCRI DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ
ÇÃO
ÇÃO ÃO ÃO ÃO ÃO ÃO ÃO
PROFÉT
PROFÉT PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI
ICA
ICA CA CA CA CA CA CA
BÁSICA
BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA
B NO B
NA NA NA NA NO NO NO
JUÍZO
HISTÓR HISTÓRI HISTÓRI HISTÓRI JUÍZO JUÍZO JUÍZO
FINAL
IA A A A FINAL FINAL FINAL
(21:11
(Caps. (Cap. (8:7- (Caps. (16:8- (17:3B- (19:11-
b-
2/3) 6) 9:81) 12, 15) 14, 16) 18:3) 20:5)
32:5)
INTERLÚ INTERLÚ
INTERLÚ INTERLÚ
DIO: DIO: INTERLÚ INTERLÚ
DIO: DIO:
HOLOFOT HOLOFOT DIO: DIO:
HOLOFOT EXORTAÇ
E EM E EM EXORTAÇ EXORTAÇ
C E EM ÃO E C
EVENTOS EVENTOS ÃO E ÃO E
EVENTOS APELO
FINAIS FINAIS APELO APELO
FINAIS (18:4-
(Cap. (14:1- (16:15) (20:6)
(11:13) 8, 20)
7) 13)
CULMINA
CULMINA CULMINA CULMINA
CULMINA CULMINA ÇÃO
ÇÃO ÇÃO ÇÃO
ÇÃO ÇÃO ESCATOL
ESCATOL ESCATOL ESCATOL
ESCATOL ESCATOL ÓGICA:
ÓGICA: ÓGICA: ÓGICA:
ÓGICA: ÓGICA: FINAL
CLÍMAX CLÍMAX FINAL
D CLÍMAX FINAL COM D
DA DA COM
DA COM JULGAME
HISTÓRI HISTÓRI JULGAME
HISTÓRI JULGAME NTO
A A NTO
A NTO (18:9-
(11:14- (14:14- (20:7-
(8:1) (16:27) 19, 21-
18) 20) 21:4)
24)
185

14. AS CENAS DE "INTRODUÇÃO-VITÓRIA"


NAS VISÕES DO LIVRO DE APOCALIPSE
Kenneth A. Strand
Andrews University
Fonte: Andrews University Seminary Studies. Vol. 25, N° 3, pp. 267-288

Este artigo segue-se ao meu ensaio anterior quanto À estrutura literária


básica das oito grandes visões do livro de Apocalipse.489 Tendo em vista a facilidade
de referência, o Diagrama 3 de artigo anterior é aqui reproduzido, sob a
denominação de Diagrama 1.
Os blocos de textos sobre os quais se focaliza nossa atenção neste estudo,
são aqueles designados por "A" no referido Diagrama; especificamente, são aqueles
identificados como "Cena de Introdução-Vitória - Cenário do Templo". Em primeiro
lugar passaremos em breve exame o conteúdo destas cenas nas visões I a VIII,
considerando depois alguns dos seus fenômenos específicos e implicações
teológicas.

14.1. RESUMO DAS "CENAS DE INTRODUÇÃO-VITÓRIA"

Ao prover a seguinte visão geral do conteúdo das oito cenas de introdução-


vitória, apresento tanto um resumo do material textual propriamente dito, quanto uns
poucos comentários preliminares concernentes a este material. Dever-se-ia observar
nestes resumos que nem todos os detalhes das cenas são incluídos;490 contudo
precedendo os resumos propriamente ditos, as apropriadas referências
escriturísticas são apresentadas (tal como ocorre no Diagrama 1), de modo que o
leitor poderá dirigir se ao texto bíblico a fim de obter um quadro mais completo.

14.2. INTRODUÇÃO À VISÃO I

14.2.1. Texto: Apocalipse 1:10b-20


Resumo: Na ilha de Patmos (1:9), o ressurreto Cristo, agora habitando o Céu,
aparece em gloriosa visão a João, revelando-Se a Si mesmo como Aquele que
estivera morto e que agora vivia, e que vive para sempre e possui as chaves do
inferno e da morte, João vê Cristo segurando sete estrelas em Sua mão direita e
caminhando entre os sete castiçais de ouro. As sete estrelas são definidas como "os
anjos das sete igrejas" (verso 20) e os sete castiçais são definidos como "as sete
igrejas" (idem). São elas, especificamente, Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira,
Sardes, Filadélfia e Laodicéia (verso 11).

489
Kenneth A. Strand, "The Eight Basic Visions in the Book of Revelation", AUSS 25 (1987):107-121.
490
Entretanto, cumpre destacar que aqui os resumos são, em muitos casos, bem mais extensos que
os sumários paralelos, geralmente muito breves, providos em ibidem, pp. 112-117 (onde também
procurei preparar resumos para o conteúdo dos blocos B, C e D das várias visões).
186

DIAGRAMA 1. VISÃO GERAL DA ESTRUTURA E CONTEÚDO DO LIVRO DE APOCALIPSE


VISÕES DA ERA ESCATOLÓGICA / DO
VISÕES DA ERA HISTÓRICA
JUÍZO
I II III IV V VI VII VIII
CENÁRI CENÁRIO CENÁRI
CENÁRIO CENÁRIO CENÁRIO
O DE CENÁRIO CENÁRIO DE O DE
DE DE DE
INTROD DE DE INTRODU INTROD
INTRODU INTRODU INTRODU
UÇÃO- INTRODU INTRODU ÇÃO- UÇÃO-
ÇÃO- ÇÃO- ÇÃO-
VITÓRI ÇÃO- ÇÃO- VITÓRIA VITÓRI
VITÓRIA VITÓRIA VITÓRIA
A VITÓRIA VITÓRIA A
A A
CENÁRIO
CENÁRIO CENÁRIO CENÁRIO
CENÁRI CENÁRIO CENÁRIO DO CENÁRI
DO DO DO
O DO DO DO TEMPLO O DO
TEMPLO TEMPLO TEMPLO
TEMPLO TEMPLO TEMPLO (16:18 TEMPLO
(Caps. (15:1- (19:1-
(1:10b (8:2-6) (11:19) a (21:6-
4/5) 16-1) 10)
-20) 17:3a) 11a)
DESCRI
DESCRI DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ DESCRIÇ
ÇÃO
ÇÃO ÃO ÃO ÃO ÃO ÃO ÃO
PROFÉT
PROFÉT PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI PROFÉTI
ICA
ICA CA CA CA CA CA CA
BÁSICA
BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA BÁSICA
B NO B
NA NA NA NA NO NO NO
JUÍZO
HISTÓR HISTÓRI HISTÓRI HISTÓRI JUÍZO JUÍZO JUÍZO
FINAL
IA A A A FINAL FINAL FINAL
(21:11
(Caps. (Cap. (8:7- (Caps. (16:8- (17:3B- (19:11-
b-
2/3) 6) 9:81) 12, 15) 14, 16) 18:3) 20:5)
32:5)
INTERLÚ INTERLÚ
INTERLÚ INTERLÚ
DIO: DIO: INTERLÚ INTERLÚ
DIO: DIO:
HOLOFOT HOLOFOT DIO: DIO:
HOLOFOT EXORTAÇ
E EM E EM EXORTAÇ EXORTAÇ
C E EM ÃO E C
EVENTOS EVENTOS ÃO E ÃO E
EVENTOS APELO
FINAIS FINAIS APELO APELO
FINAIS (18:4-
(Cap. (14:1- (16:15) (20:6)
(11:13) 8, 20)
7) 13)
CULMINA
CULMINA CULMINA CULMINA
CULMINA CULMINA ÇÃO
ÇÃO ÇÃO ÇÃO
ÇÃO ÇÃO ESCATOL
ESCATOL ESCATOL ESCATOL
ESCATOL ESCATOL ÓGICA:
ÓGICA: ÓGICA: ÓGICA:
ÓGICA: ÓGICA: FINAL
CLÍMAX CLÍMAX FINAL
D CLÍMAX FINAL COM D
DA DA COM
DA COM JULGAME
HISTÓRI HISTÓRI JULGAME
HISTÓRI JULGAME NTO
A A NTO
A NTO (18:9-
(11:14- (14:14- (20:7-
(8:1) (16:27) 19, 21-
18) 20) 21:4)
24)

Comentário: O fato de os sete castiçais (ou candeeiros) constituírem figuras (ou


imagens) do templo, é de modo geral reconhecido pelos exegetas, embora existam
divergências de opinião quanto ao segundo plano das mesmas. A questão que
geralmente surge é se a referência está sendo feita ao castiçal único do "Lugar
Santo" (compartimento exterior ou externo) do antigo tabernáculo do deserto (Êxodo
26:35; no templo de Herodes também havia um castiçal) ou aos dez castiçais do
primeiro compartimento do templo de Salomão (I Reis 7:49). Uma terceira
alternativa, geralmente esquecida pelos comentaristas, é o simbolismo do castiçal de
Zacarias 4, o qual desempenha o papel bastante obvio de "pano de fundo" para a
187

posterior visão de Apocalipse 11, "o templo e as duas testemunhas". 491 Podem,
ainda, existir múltiplos cenários de fundo intencionais.492 Para nós, aqui, o principal
ponto, de todas as formas, é que o ambiente desta visão e suas imagens do templo
referem-se à Terra, e não ao Céu. Este fato deve estar claro a partir de duas
considerações principais: o Cristo celeste encontra João na Terra (em Patmos) e os
"castiçais" entre os quais Cristo manifesta Sua presença são igrejas sobre a Terra. O
fato de que a visão seguinte indica uma transição para o Céu, conforme veremos
quando nossa atenção se voltar para referida visão, pode ser considerado como a
terceira evidência a apontar em direção a uma jurisdição terrestre para esta primeira
cena introdutória.
Um ponto adicional digno de nota é que a cena de introdução-vitória
funciona no sentido de prover conforto e segurança aos fiéis seguidores de Cristo:
Sua presença acha-se entre eles, à medida que necessitam enfrentar as forças do
engano e da perseguição. 493 Um aspecto positivo como este é, de fato,
característico de todas as oito cenas introdutórias das grandes visões do
Apocalipse.

491
Existem indicações teológicas que favorecem a hipótese dos castiçais de Zacarias como sendo pelo
menos uma provável origem destas imagens. Veja Kenneth A. Strand, "The Two Witnesses of Rev. 11:3-
12", AUSS 19 (1981):127-135, especialmente 131-134; e cf. idem, "The Two Olive Trees of Zechariah 4
and Revelation 11", AUSS 20 (1982):257-261. Não somente dever-se-iam perceber certas afinidades
teológicas, como ainda deveria ser dada consideração a quadros de fundo adicionais (além de Zacarias 4)
para as imagens de oliveiras/castiçais de Apocalipse 11:4 - quais sejam, os pilares do templo Jaquim e
Boaz (cf. I Reis 7:21; também II Reis 11:12-14 e 23:1-3), e além destes o "pilar da nuvem" na qual o
Senhor aparecia a Moisés e Josué na "entrada" do tabernáculo do deserto (Deuteronômio 33:14-15). Se o
quadro de fundo dos sete candeeiros de Apocalipse aponta a esta direção, é o pátio - e não os dois
compartimentos do tabernáculo ou templo propriamente dito - que estaria sendo aqui focalizado (uma
possibilidade que se amplia através da consideração das implicações teológicas de Apocalipse 11:2 em
relação ao "pátio exterior" do templo). Entretanto, não devemos esquecer o fato ou possibilidade de que
existam múltiplos panos de fundo para este simbolismo dos sete candeeiros, bem como para as outras
imagens do livro de Apocalipse; cf. n° 492, abaixo.
492
Paul S. Minear, "Ontology and Ecclesiology in the Apocalypse", NTS 13 (1965-66): 96, chamou a
atenção para este fenômeno do tipo "múltiplas bases", naquilo que ele identifica como "modelo trans-
histórico" e "modo de ver e pensar abrangente, em lugar de disjuntivo". Tanto neste artigo quanto no livro I
Saw a New Earth (Washington, DC, 1968), p. 102, faz ele referência a Apocalipse 11:8, onde existe a
coalescência de várias entidades - Sodoma, Egito e Jerusalém - numa só imagem, que é a "grande
cidade". Minear sugere que "EXISTE uma cidade que em termos proféticos veio a tornar-se todas as
cidades - Sodoma, Tiro, Egito, Babilônia, Nínive, Roma..." (I Saw a New Earth, p. 102). Em vários
trabalhos e ensaios elaborei adicionalmente este fenômeno, referindo-me a ele como a "fusão" ou "junção"
de imagens. Veja, por exemplo, meu artigo "Na Overlooked Old-Testament Background to Revelation
11;1" , AUSS 22 (1984): 318-319, onde não apenas faço referência às observações perspectivas de
Minear (especialmente o n° 6, à pagina 319), como ainda acrescento alguns exemplos. Confira, da mesma
forma, a discussão em Strand, "Two Witnesses", pp. 130-131, onde mais uma ilustração foi apresenta da
em relação a isto.
493
Engano e perseguição são as duas armas básicas manifestadas pelas forças adversas ao longo do
livro de Apocalipse, da mesma forma como no Evangelho de João estas mesmas duas características
más resumem a atitude do demônio e de seus seguidores (por exemplo, em João 8:44 Satanás é
identificado como "assassino desde o princípio" e o "pai da mentira"). Encontramos proeminente
ilustração, em Apocalipse, nas mensagens às sete igrejas, onde se faz advertência contra o engano (quer
externo, quer auto-imposto) nas cartas a Pérgamo, Tiatira, Sardes e Laodicéia; e onde o risco de
perseguição é particularmente salientado nas cartas a Esmirna e Filadélfia. As atividades do triunvirato
anti-divino em Apocalipse 12 e 13, ilustra adicionalmente, e de modo poderoso, estas armas demoníacas
(observe, por exemplo, os "sinais" enganadores e as atividades de morte e de embargo mencionadas em
13:13-17).
188

14.3. INTRODUÇÃO À VISÃO II

14.3.1. Texto: 4:1-5:14

Resumo: João vê uma porta aberta "no Céu" e ouve uma voz que o convida a
"subir até ali". Ele se recebe imediatamente "no Espírito" e vê "um trono" "no Céu", com
Alguém sentado sobre o trono (ou seja, Deus, segundo o próprio contexto e também de
acordo com outras visões do Apocalipse, que deixam claro o ponto /cf. 4:9-11; 7:10;
19:1-5/). Ao redor do trono estão vinte e quatro anciãos, também assentados em tronos;
diante do trono acham-se "sete tochas de fogo" e um "mar de vidro" semelhante a
cristal; e "no meio" e "ao redor" do trono encontram-se quatro criaturas viventes. Depois
de uma antífona em louvor a Deus por ser Ele o Criador, a cena volta-se para um rolo
selado com sete selos, e que se encontra em Sua mão -. rolo que "ninguém" era capaz
de abrir, nem no Céu, nem na Terra, nem sob a Terra. Todavia, ao progredir o drama,
foi achado um ser digno de abrir o rolo - especificamente, o Cordeiro, "como havendo
sido morto". Quando o Cordeiro toma o rolo da mão dAquele que se assentava no
trono, uma série de antífonas de louvor se erguem.
Comentário: A primeira característica surpreendente com que somos
confrontados nesta cena, é a dupla referência a uma nova jurisdição - o Céu, em
contraste com o ambiente terrestre da cena introdutória da visão I. Este cenário
celestial é, de fato, enfatizado pela dupla referência ao "Céu" - a porta aberta "no céu"
e o trono "no céu". As "sete tochas de fogo" localizariam a cena mais especificamente
no Lugar Santo, ou compartimento externo do templo celestial (o termo "templo no
céu" é usado especificamente em 11:19 e certos outros textos).494 Se o "mar de vidro"
é uma figura baseada na "pia" do tabernáculo do deserto (Êxodo 30:18; 38:8) ou no
"mar de fundição" e/ou nas dez pias do templo de Salomão (I Reis 7 :23-39), conforme
sugerem vários comentaristas, parecer-nos-ia que temos aqui imagens da "área
externa" do templo, em vez de imagens do "primeiro compartimento" do mesmo. Isto,
de per si, não traria qualquer problema quanto à declaração de que o mar está
localizado "diante do trono", pois todas as facetas da construção do templo poderiam
ser consideradas a partir desta perspectiva. É mais provável, contudo, que o pano de
fundo simbólico para este "mar de vidro" seja o "firmamento" acima das criaturas
viventes e sob o trono de Deus, em Ezequiel 1:22-28 e 10:1.495

494
As imagens relacionadas com o mobiliário do templo fornecem "chaves" para a localização e
movimentação, que foram brevemente mencionadas nos sumários de meu artigo anterior, "Oito Visões
Básicas..." pp. 112-117. Aqui elas se tornarão mais visíveis à medida que alisarmos as cenas de
introdução-vitória. Embora os dois compartimentos não sejam especificamente mencionados em conexão
com este arquétipo "templo no Céu", do tabernáculo ou templo do antigo Israel, o "mobiliário" mencionado
por certo relaciona-se a estes dois compartimentos - conforme se pode ver não apenas no VT e nas fontes
tradicionais judaicas, mas igualmente na descrição no livro neotestamentário de Hebreus (veja Hebreus
9:1-5; cf. Êxodo 25:8 e 26:30-35). Poderá parecer que a presença do trono no contexto do "compartimento
exterior", nas imagens mencionadas em Apocalipse 4, reduz o templo celestial a apenas um
compartimento, do ponto de vista "arquitetônico" (ainda que não funcionalmente), mas este não é
necessariamente o caso (e, de todos os modos, não é este aspecto de importância primaria). Veja
também o n° 11, adiante. Para uma discussão muito útil das imagens do "templo celestial" no livro de
Hebreus (discussão esta que possui também considerável importância para o caso de Apocalipse), veja
Richard M. Davidson, Typology in Scripture: AStudy of Hermeneutical TYIIOZ Structures, Andrews
University Seminary Doctoral Dissertation Series, vol. 2 (Berrien Springs, MI, 1981), pp. 336-367.
495
Robert H. Mounce, The Book of Revelation, NICNT, vol. 17 (Grand Rapids, MI, 1977), pp. 136-137,
observou adequadamente isto, e também chamou a atenção para II Enoque 3:3 e Salmo 104:3 (p. 136),
embora não fique claro se o próprio Mounce considera as imagens destas passagens como "pano de
fundo" para o "mar de vidro" em Apocalipse. Para uma análise recente, detalhada, dos quadros pictóricos
189

Esta cena celestial em Apocalipse 4-5 possui obviamente um impulso


positivo. Os temas- gêmeos da criação (4:11) e da redenção (capitulo 5) oferecem
esperança e certeza aos seguidores de Cristo, especialmente quando estes
reconhecem que o Cordeiro é considerado digno de romper os selos e abrir o rolo -
este, que tem sido apropriadamente identificado como o "rolo do destino".496

14.4. INTRODUÇÃO À VISÃO III

14.4.1. Texto: 8:2-6


Resumo: Sete anjos com sete trombetas são vistos por João; antes, porém,
que eles saiam do templo (no Céu) a fim de fazer soar suas trombetas, aparece
outro anjo com um incensário diante do altar de incenso. Uma mistura de orações
dos santos e incenso sobe diante de Deus, no trono. Então o incensário é jogado à
Terra, e esta cena é seguida de típicos símbolos da divina presença e de
julgamento: "trovões, vozes, relâmpagos e terremoto".497
Comentário: O cenário desta visão é, uma vez mais, o do templo celestial, e
prossegue ocorrendo no compartimento exterior do "Lugar Santo". Mas a atividade
deslocou-se agora para mais perto do compartimento interior, pois é junto ao altar de
incenso que os fatos ocorrem.498 Esta cena, tal como as das visões I e II, contém os
típicos elementos de segurança - neste caso, a retratação de que as orações dos
santos ascendem à presença de Deus, em mistura com o incenso. Todavia agora, em
adição a este aspecto positivo, pela primeira vez aparece também um aspecto negativo;
Trata se do uso de símbolos do julgamento, quais sejam, vozes, trovões, relâmpagos e
terremoto, no momento em que o incensário com brasas vivas é lançado a Terra.

de Apocalipse 4 e 5, veja R. Dean Davis, "The Heavenly Court Scene of Revelation 4-5" (Dissertação de
Ph. D., Andrews University, 1986).
496
"Rolo do destino" e "livro do destino" são termos aplicados pelos vários exegetas e comentaristas a
este documento fechado com sete selos. Muitos que não utilizam esta exata terminologia, indicam o
mesmo conceito em suas discussões do rolo. Edwin R. Thiele, Outline Studies in Revelation, edição
revista (Berrien Springs, MI, 1959), p. 97 (a paginação poderá variar em outras edições), utiliza
especificamente o termo "livro do destino". Charles M. Laymon, The Book of Revelation: Its Messages and
Meaning (New York, 1960), p. 77, refere-se à cena de Apocalipse 5 como a "preparação para o destino"; e
Mounce, p. 142, fala do rolo como contendo "o relato pleno daquilo que Deus, em Sua soberania,
determinou como sendo o destino do mundo”. Entretanto, remanesce uma questão fundamental: O que se
pretende designar com o termo destino? Seria a história futura da Terra a partir da perspectiva de João?
Por outro lado, seria a recompensa escatológica que se definirá no final da história terrestre? Ou seria,
talvez, uma combinação de ambos os aspectos? William Hendriksen, More Than Conquerors: An
Interpretation of the Book of Revelation (Grand Rapids, MI, 1940), p. 109, parece haver optado pela
terceira possibilidade: O rolo,se deixado fechado, para ele sugeriria "a ausência da proteção divina para os
filhos de Deus nas horas de mais amarga prova; ausência de julgamento sobre um mundo perseguidor;
ausência do final triunfo para os crentes; ausência de novo Céu e nova Terra; nenhuma herança futura!"
Mounce, p. 142, optou pela primeira alternativa. Ao lado de Thiele, pp. 97-98, eu adoto a alternativa do
meio. Minha base para isto é a probabilidade distinta (em minha opinião) de que o pano de fundo para
este rolo selado com sete selos deva ser encontrado num dos formulários de testamento da antiga Roma,
como também no documento de propriedade de Jeremias (capitulo 32). Thiele, pg. 95-96, chamou a
atenção à documentação do conceito da referência ao testamento romano; adicionalmente, podemos
acrescentar aqui uma referência específica a tal testamento, traduzida para o inglês por Naphtali Lewis e
Meyer Reinhold, Roman Civilization, vol. 2, The Empire (New York, 1955), pp. 279-280.
497
RSV. A partir deste ponto as citações escriturísticas, em inglês, são extraídas da RSV, exceto quanto
a frases curtas ocasionais.
498
Para um estudo em nível de NT, da relação entre este altar de ouro e o compartimento interior ("Lugar
Santíssimo"), veja, por exemplo, a discussão apresentada por Harold S. Camacho, "The Altar of Incense in
Hebrews 9:3-4", AUSS 24 (1986): 5-12.
190

14.5. INTRODUÇÃO À VISÃO IV

14.5.1. Texto: 11:19

Resumo: João vê o "templo de Deus no Céu" aberto, aparecendo em cena a


arca do testamento ou concerto de Deus. Neste momento, "sobrevieram
relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande saraivada".
Comentário: Esta vitoriosa cena introdutória conduz-nos a um novo cenário
dentro do "templo no Céu", ou seja, ao compartimento íntimo, ou "Lugar
Santíssimo".499 João focaliza ali a arca do testamento de Deus, ou, arca do concerto
(aliança). Com base na analogia com o tabernáculo terrestre, os dois mais
significativos aspectos relacionados com esta arca seriam os dez mandamentos da
lei e o propiciatório (cf. Êxodo 40:20). É, pois, interessante notar que na seguinte
"descrição profética", a importante batalha que os "remanescentes" travam contra o
Dragão, relaciona-se com aquilo que é representado por estas duas características
da arca: os "mandamentos de Deus" e o "testemunho de Jesus" (Apocalipse 12:17).

14.6. INTRODUÇÃO À VISÃO V

14.6.1. Texto: 15:1-16:1


Resumo: João vê sete anjos que carregam as sete últimas pragas da "ira de
Deus". Na primeira seção desta cena ele observa um "mar de vidro misturado com
fogo", sobre o qual estão aqueles que se tornaram vitoriosos sobre a besta, sobre sua
imagem e sobre o número de seu nome. Este grupo entoa o "cântico de Moisés... e do
499
Com respeito à possível "arquitetura" do "templo no céu", podem ser feitas as seguintes
observações (cf. também o n° 6, acima): (1) Entre os exegetas existe a típica noção de que o trono de
Deus acha-se confinado ao Lugar Santíssimo do templo, de modo que as imagens de compartimento
exterior em Apocalipse 4 estariam a indicar que no arquétipo do antigo tabernáculo/templo de Israel a
estrutura de dois compartimentos deste último fundem-se num só compartimento. Um exemplo desta
linha geral de pensamento é o excelente estudo de Mario Veloso, "The Doctrine of the Sanctuary and
the Atonement as Reflected in the Book of Revelation", em The Sanctuary and the Atonement:
Biblical, Historical, and Theological Studies, edição de A. V. Wallenkampf e W. R. Lesher
(Washington, DC, 1981), pp. 394-419. (2) Com base numa possível analogia com o pensamento
expresso no tocante ao "véu" ou" "cortina" em Hebreus 10:20 (e sua muito freqüentemente esquecida
relação com o relato histórico do véu rasgado de alto a baixo em Mateus 27:51), poderia haver no
Apocalipse um conceito subjacente de apenas um compartimento no templo celestial, mas o conceito
funcional de duplo compartimento, e sua importância, são repetidamente apresentados em
Apocalipse, numa dinâmica evidente de cena para cena. (3) Merece atenção uma alternativa sugerida
por C. Mervyn-Maxwell , God Cares, vol. 2, The Message of Revelation for You and Your Family
(Boise, ID, T985), p. 171: "A suposição de que o trono celestial de Deus está localizado apenas no
lugar santíssimo celestial, ignora o fato de que nos tempos VT a presença de Deus nem sempre se
confinava ao lugar santíssimo, antes era por vezes representada no lugar santo". Maxwell cita Êxodo
33:9 e Ezequiel 9:3, referindo-se também aos pães na Presença no lugar santo. (Em outra parte do
presente ensinamento atenção a Êxodo 40:34 e Deuteronômio 31:14-15, textos que ampliam ainda
mais a localização da presença de Deus). (4) Deve ser reconhecido que a localização do símbolo do
"trono" em Apocalipse deve levar em conta o uso que o próprio livro faz, sendo este um símbolo
difuso (por exemplo, o uso representado em Apocalipse 6:16 e 22:3 comparado e/ou contrastado com
o uso que se faz em Apocalipse 4-5). (5) O ponto de primária importância é que o tema do "trono de
Deus" em Apocalipse, significa a presença e autoridade divina, não sendo um indicador específico de
localização (e certamente de modo algum aplicando-se a confinamento "geográfico"!). O conceito não
é de que o "trono" define a localização de Deus, antes ao contrário: Onde Deus está, aí se encontra o
Seu trono! (6) Finalmente, o pano de fundo dos capítulos 1 e 10 de Ezequiel, com um trono divino que
se movimenta, não deveria ser passado por alto ao se interpretar a cena de Apocalipse 4-5.
191

Cordeiro". Na segunda seção desta cena, João observa "o templo" ou "santuário do
tabernáculo do testemunho" no Céu; encontra-se aberto, e dele saem os sete anjos
com as taças da ira. O templo "se encheu de fumaça, procedente da gloria de Deus e
do Seu poder", de tal modo que "ninguém podia penetrar no santuário" até que as
sete pragas cessassem. Então ouviu-se uma voz provinda do templo, ordenando aos
sete anjos que fossem derramar sobre a Terra as taças da ira de Deus.
Comentário: Uma vez mais o ambiente da visão é o do Céu – mais
especificamente, o templo no Céu. É deste templo que emergem os sete anjos com
as taças da ira. E em conexão com este templo que antes havia sido visto o "mar de
vidro" (Apocalipse 4). É este mesmo templo que agora se enche de fumaça, Existe
uma ênfase positiva no fato de que os santos sobre o mar de vidro entoam o cântico
de Moisés e do Cordeiro, do mesmo modo como o antigo Israel havia entoado o
cântico de Moisés após seu libertamento da escravidão do antigo Egito (Êxodo 14 e
15). Existe um duplo aspecto negativo nesta cena: em primeiro lugar, os anjos levam
consigo taças de ira a partir do templo, com instruções para derramá-las sobre a
Terra; em segundo lugar, o templo enche-se de fumaça durante o tempo das pragas,
a ponto de ninguém poder nele penetrar - sem dúvida, uma sugestão de que não
haverá ministério de misericórdia no templo durante este período.500

14.7. INTRODUÇÃO À VISÃO VI

14.7.1. Texto: 16:18-17:3a (associado a base provida por 16:17)

Resumo: Depois de haver o sétimo anjo lançado no ar sua taça, "saiu grande
voz do santuário, do lado do trono", declarando: "Feito está" (16:17). (Este pode ser
considerado como uma espécie de elemento de transição, que conclui a sétima
praga e introduz esta nova cena- de introdução-vitória.501 Imediatamente seguem os
sinais do julgamento divino: "Sobrevieram relâmpagos, vozes e trovões, e ocorreu
grande terremoto, como nunca houve igual desde que há gente sobre a Terra; tal foi
o terremoto, forte e grande". A cidade de Babilônia se divide, as cidades das nações
entram em colapso e cai do Céu grande saraivada, "com pedras que pesavam cerca
de um talento". Depois disto um dos sete anjos que seguravam as sete taças fala
com João, dizendo-lhe que observe o julgamento da grande prostitua (Babilônia,
conforme deixa claro o comentário profético que segue).
Comentário: A primeira vista, parecereria que apenas um aspecto negativo é
enfatizado nesta cena de introdução-vitória, pois ela utiliza imediatamente os simbolismos
do juízo - desta vez ainda mais pesados, enfatizando-se a natureza excessivamente
feroz, tanto do terremoto quanto da saraivada. Embora exista apenas juízo negativo na

500
Esta conclusão se fortalece com os seguintes fatos: (1) As próprias sete pragas são descritas em
15:1 como "últimas" e como completando a "ira de Deus"? (2) a descrição do derramamento desta ira
divina através das taças, encontrada no capítulo 16, não revela qualquer efeito salvífico, e sim
exatamente o contrário (cf., por exemplo, 16:6, 9. 10 e 14); e (3) o julgamento de Babilônia é descrito
em 16:19 como sendo a "lembrança" de Deus, que a faz "beber o cálice do furor de Sua ira".
501
A divisão mais nítida entre as seqüências da primeira grande porção de Apocalipse (visões I-IV)
abre caminho, na segunda grande porção do livro (visões V-VIII) à presença de elementos de
"ligação". É bastante interessante que isto parece fazer paralelismo ao fato de que a natureza
"recapitulatória" das próprias seqüências nas duas grandes porções difere consideravelmente no
aspecto de serem as estruturas "cronológicas" ou de "sucessão" menos distintas na segunda grande
porção do livro. Observe, por exemplo, as implicações decorrentes deste breve resumo oferecido por
Kenneth A. Strand, Interpreting the Book of Revelation: Hermeneutical Guidelines, with Brief
Introduction to Literary Analysis, 2ª edição (Naples, FL, 1979), pp. 48-49.
192

devastação que devera sobrevir a Babilônia em virtude do "cálice do vinho do furor de


Sua ira" (16:19; veja ainda 17:1-2), há que se destacar, não obstante, a segurança
positiva de Deus a Seus santos, implícita nesta cena - isto porque a nefasta atividade de
Babilônia agora chegou ao fim, sendo que ela própria sofre os juízos de Deus em virtude
de seus maus feitos. (Cf. 18:20 quando ao convite para "exultar").

14.8. INTRODUÇÃO À VISÃO VII

14.8.1. Texto: 19:1-10


Resumo: No cenário do trono, os vinte e quatro anciãos e as quatro criaturas
viventes (cf. capitulo 4), João ouve a voz de "grande multidão no Céu", adorando a
Deus por haver Ele julgado a grande prostituta, vingando sobre ela o sangue de Seus
santos. Antífonas adicionais são entoadas e "faz-se o anúncio de que chegou a hora
das bodas do Cordeiro, e de que "a noiva a si mesma se aprontou". E pronúncia da
uma bênção sobre todos os que foram "convidados à ceia" das bodas do Cordeiro".
Comentário: A cena aqui apresentada é obviamente paralela à de Apocalipse 4
e 5 - aparecem o trono, as quatro criaturas viventes, os vinte e quatro anciãos e as
antífonas de louvor em ambas as visões.502 Contudo, ao passo que em Apocalipse 4-5
havia o "rolo do destino" ainda por ser aberto, assim como a efetiva abertura dos selos
deste rolo no capítulo 6 - com o clamor de "até quando" se deveria esperar pela
vindicação divina dos Seus mártires (veja 6:9-11) - aqui no capítulo 19 ocorre uma
notável reversão: ouve-se louvor a Deus por haver Ele efetuado a esperada vindicação.
Mais que isto, na introdução à visão VII aparece a ênfase quanto à "ceia das
bodas do Cordeiro" (verso 9) e referência à "noiva do Cordeiro" (verso 7). As vestiduras
brancas (verso 8) são reminiscência , evidentemente, de imagens similares da visão II,
em relação aos mártires do quinto selo, e à grande multidão da seção "holofote" (6:9-11
e 7:9-17, respectivamente). Dever-se-ia ainda observar que a seqüência da visão VII
conclui - e isto é bastante interessante - com uma referência adicional à "noiva" - ou
seja, a visão que João tem da Santa Cidade, a Nova Jerusalém, descendo de Deus,
desde o Céu, "como noiva adornada para o seu esposo" (21:2).

14.9. INTRODUÇÃO À VISÃO VIII

14.9.1. Texto: 21:5-11a (e referências aos versos 1-4 como


ponto de apoio)
Resumo: No contexto do "novo céu" e da "nova terra", havendo a "santa
cidade, a Nova Jerusalém" descido da parte de Deus desde o Céu, João agora
contempla Aquele assentado sobre o trono. Este ser divino – o próprio Deus, segundo
visões anteriores - declara: "Eis que faço novas todas as cousas". Fala Ele então a
João, dizendo: "Escreve, porque estas palavras são fiéis e verdadeiras", declarando
ainda: "Tudo está feito. Eu sou o Alfa e o Omega... "Declara-se um duplo juízo:
herança de todas as coisas por parte do vencedor; e destruição no lago de fogo, "que
é a segunda morte", para os que não venceram. Então um dos sete anjos portadores
das taças de ira, conduz João a um alto monte, mostrando-lhe a grande cidade, a
santa Jerusalém, descendo do Céu, da parte de Deus, e possuindo a glória de Deus.

502
Para um valioso estudo das antífonas apresentadas nestas duas passagens, veja William H.
Shea, "Revelation 5 and 19 as Literary Reciprocals", AUSS 22 (1984): 249-257 .
193

Comentário: Em contraste comas cenas introdutórias para as visões II-VII,


onde o cenário em cada caso se achava claramente no Céu, aqui aparece o retorno
a um cenário terrestre - situação paralela à da visão I. Na visão VIII, esta cena
introdutória lida efetivamente com um ambiente de tabernáculo ou templo, mas não
está absolutamente claro se a cena apresentada em 21:5-11a pretende assumir uma
perspectiva basicamente terrestre, ou se pretende representar uma transição do Céu
para a Terra (tampouco é isto de importância material para o nosso estudo). Em 21:3
é feita a declaração, obviamente, de que o tabernáculo de Deus acha-se sobre a
Terra após a descida da Santa Cidade (verso 2), e esta porção final da visão VII
pareceria prover o cenário para a abertura da visão VIII (embora ela própria replique
a descrição da descida da Nova Jerusalém /21:10/). De toda forma, o ponto principal
é que o foco desta cena introdutória se deslocou do templo no Céu, de modo a fazer
a ênfase repousar uma vez mais sobre a jurisdição terrestre. As imagens do templo
serão analisa das com mais vagar em ponto posterior deste artigo.

14.10. ALGUMAS IMPLICAÇÕES DA ESTRUTURA

Os resumos apresentados na seção precedente deste artigo trouxeram ao foco


da atenção vários elementos concernentes às cenas introdutórias das oito grandes
visões do Apocalipse. São de notável observação as seguintes características: (1) A
constante presença de figuras do templo nestas cenas; (2) impulsos positivos e
negativos dentro destas cenas; (3) uma certa dinâmica ou movimento nas imagens do
templo e no simbolismo negativo do juízo que aparece nas visões III-VI; e (4) uma certa
similaridade de estrutura e conteúdo entre a primeira e a oitava visões. Queremos
dedicar agora alguma atenção adicional a estes elementos, mas como passo preliminar
observaremos estes brevemente a espécie de relacionamento que as cenas
introdutórias mantêm com suas próprias seqüências proféticas.

14.10.1. As Cenas Introdutórias e Suas Respectivas Seqüências


Proféticas
Em qualquer análise das cenas introdutórias das oito grandes visões do livro
de Apocalipse, a primeira consideração lógica deve ser o fato de que existe íntima
relação entre estas cenas e o restante das seqüências proféticas que elas
apresentam. Assim, no tocante à visão I, a retratação de Cristo como estando a
andar por entre os candeeiros/igrejas, adequadamente precede Seus conselhos às
mesmas igrejas; para a visão II, a cena com o Cordeiro, sendo proclamado digno de
abrir o rolo selado com sete selos, e depois efetivamente recebendo o rolo da mão
dAquele assentado sobre o trono - provê um pano de fundo apropriado para a
efetiva abertura dos selos por parte do Cordeiro.
Estas cenas introdutórias provêem, desta forma, um cenário positivamente
orientado - como se fosse uma mensagem de segurança - que se relaciona com a
seqüência que vem depois. Neste primeiro exemplo, Cristo assegura a Seu povo que
estará com eles em suas lutas contra o engano e a perseguição - batalhas que dEle
requerem palavras de conselho e estímulo, e muitas vezes reprovação (capítulos 2 e 3).
Da mesma forma, na segunda visão existe a certeza de que as forças
liberadas pelo rompimento dos selos acham-se dentro da estrutura redentiva da obra
do Cordeiro morto, efetuada no Céu, e que eventualmente resultará na abertura do
194

livro do destino eterno para os fiéis.503 Os selos são sucessivamente abertos nos
capítulos 6 a 8:1, intensificando a cada passo a progressão, até que um dramático
silêncio ocorre guando finalmente o rolo é aberto. O "interlúdio" do capítulo 7 é
visivelmente um "holofote sobre eventos finais" para esta seqüência particular. Ao
destacar o selamento do povo de Deus, existe neste interlúdio uma espécie de
pratica da terminologia dos "selos". Mas todo o conceito de propriedade e
preservação inerente ao simbolismo do selo, também conecta de modo muito direto
esta cena do capítulo 7 com o rompimento dos selos.504 Os 144.000 selados de
Deus são protegidos contra a selvageria dos cavaleiros dos quatro primeiros
selos,505 e mesmo sob a sorte do martírio retratado sob o quinto selo; podem eles
repousar na plena segurança do cuidado de Deus.506 Esta ênfase no cuidado de
Deus é salientada ainda mais na apresentação das seções b e c do capítulo 7
(versos 9-17), em que aparece a multidão que procede da grande tribulação (estes,
tais quais os mártires do quinto selo, possuem vestiduras brancas!).
Os exemplos analisados ilustram a maneira pela qual existe íntima correlação
entre as cenas de introdução-vitória e o restante das respectivas visões, que estas
cenas introduzem, e não será necessário trabalhar mais do que estes dois casos. De
fato, uma breve revisão do conteúdo principal de cada visão pode ser obtida ao
consultar a segunda seção de meu artigo anterior desta série. A observação
adicional que aqui deveria ser feita, é que embora todas as cenas de introdução-
vitória tenham a nota positiva da certeza de Cristo a Seus fiéis, algumas
especialmente as das visões III-VI (a dupla série dos temas "Êxodo do Egito"/"Queda
de Babilônia") - também retratam aspectos negativos. Este assunto receberá
atenção adicional mais tarde.

14.10.2. As Figuras do Templo e Seu Significado

Conforme observamos, as imagens do templo são "onipresentes" nas cenas


introdutórias das oito principais seqüências proféticas de Apocalipse. No tocante às
visões II-VII, o cenário encontra-se "no templo, no Céu", vindo à baila o mobiliário
deste templo. Na visão I, contudo, as imagens do templo são as de candeeiros que
representam "as sete igrejas" sobre a Terra. Na visão VIII, existe novamente uma
jurisdição terrestre - mas agora no contexto da santa cidade, Nova Jerusalém, e da

503
Cf. n° 496, acima.
504
Os dicionários léxicos e teológicos (tais como TDNT) e obras de referência similares (sphragis)
elucidaram amplamente o significado do "selo" e do processo ou prática de "selamento" no mundo
antigo. Para uma referência sucinta a seis significados possíveis, veja J. Massyngberge Ford,
Revelation, AB 38 (Garden City, NY, 1975), pp. 116-117. Cf. também a análise um tanto detalhada de
"Seals and Scarabs" em IDB 4: 254-259.
505
Os comentaristas em geral perdem de vista este vínculo em virtude do fracasso de observar com
suficiente atenção a base do VT encontrada em Zacarias 6, onde cavalos de várias cores saem para
"percorrer" a Terra (verso 7) e onde, em resposta à pergunta do profeta quanto a identidade dos
quatro grupos de cavalos, um anjo os define como os quatro ruhôt ("ventos") do céu que saem da
presença do Senhor de toda a Terra (versos 4 e 5). Comentaristas que estabeleceram estas
conexões, incluem G. R. Beasley-Murray, The Book of Revelation New Century Bible (London, 1974),
p. 142; e Leon Morris, The Revelation of St. John Tyndale NT Commentaries (Grand Rapids, MI,
1969), p. 113. Infelizmente, nesta passagem a RSV distorce completamente o significado do hebraico
mediante as palavras que usa. "Estes /os grupos de cavalos/ saem para os quatro ventos do céu",
quando na realidade são os ventos (=cavalos) que saem.
506
Para um estudo abrangente do quinto selo, veja agora Joel Nobel Musvosvi, "The Concept of
Vengeance in the Book of Revelation in the Old Testament and Near Eastern Context" (Dissertação
de Ph. D., Andrews University, 1986).
195

"nova terra", em que o próprio Deus estabelece Seu tabernáculo junto a Seu povo
(21:3-4) e com "Deus e o Cordeiro" sendo descritos como o "templo" da Nova
Jerusalém (21:22).
É imediatamente aparente que todas as três principais aplicações
neotestamentárias das imagens do templo vêm à baila nestas cenas introdutórias.
Na primeira visão, temos o conceito neotestamentário da igreja cristã como o "novo
templo". O loci clássico para este conceito é indubitavelmente I Coríntios 3:16-17 e II
Coríntios 6:16-17, mas por certo existem reflexos do mesmo em I Pedro 2:5, e
também na proclamação de Tiago ao Concílio de Jerusalém, mencionada em Atos
15:13-18. Nesta última referência, Tiago faz aplicação da profecia de Amos 9:11-12,
referindo-se ao retorno de Deus para construir outra vez o "tabernáculo de Davi",
que havia fracassado, como referindo-se e aplicando-se diretamente à entrada de
gentios na igreja apostólica.
O paralelo do NT que mais se aproxima do uso refletido nas cenas
introdutórias das visões II-VII no livro de Apocalipse, é aquele que encontramos no
livro de Hebreus. Ali se fala de Cristo como sendo "sumo sacerdote, assentado à
destra do trono da majestade no Céu" - e como "ministro do santuário e do
verdadeiro tabernáculo que o Senhor erigiu, não o homem" (Hebreus 8:1-2; veja
também o verso 5).507
Finalmente, a mais central e mais básica aplicação do NT em termos de
imagens do templo, é aquela ilustrada na cena introdutória e na descrição profética
da visão VIII de Apocalipse, ou seja: uma referência à presença divina direta. No
prólogo ao Evangelho de João, declara-se que Cristo "habitou entre nós"(João 1:14;
cf. a situação na "nova terra" após a descida, do Céu, da Nova Jerusalém, onde se
declara que Deus habitará com a humanidade /21:3/). Talvez uma referência ainda
mais nítida seja aquela em que Jesus declara: "Destruí este templo, e em três dias o
reedificarei". Os judeus entenderam esta declaração como referindo-se ao templo de
Herodes, mas o evangelista explicou que "Ele /Cristo/... Se referia ao santuário do
seu corpo" e que após a ressurreição dentre os mortos, de Jesus, Seus discípulos
lembraram-se de que Ele dissera isto (João 2:19-22).
A presença divina era o foco central da economia do antigo
tabernáculo/templo de Israel.508 Moisés recebeu instrução quanto a construir "um
santuário, e habitarei /Deus/ no meio deles /do povo de Israel" (Êxodo 25:8). Ao
completar - se a construção do tabernáculo, "a nuvem cobriu a tenda da
congregação, e a glória do Senhor encheu o tabernáculo" (Êxodo 40:34). É este
pensamento fundamental - o da divina presença - que da mesma forma perpassa as
cenas introdutórias de todas as oito visões do Apocalipse. O divino e sempre vivo
Cristo é, neste caso, retratado como estando presente com Seu povo na Terra,
sustentando-o 'e provendo-lhe mensagens através de Seu Santo Espírito (visão I);509
então a cena se modifica e passa ao santuário celestial, onde Cristo ministra
ativamente em favor de Seu povo (visões II-VII): finalmente, quando Deus e o
Cordeiro habitam com os seres humanos na "nova terra" e na "Nova Jerusalém", é
trazida a Terra a própria intimidade e tangibilidade da presença divina (visão VIII).
507
Veja novamente a excelente discussão em Davidson, pp. 336-367; veja também, em Davidson,
as estruturas "Excursus" ou tupos para Êxodo 25:40, às páginas 367-388.
508
Para uma boa visão geral deste tema fundamental, veja Angel Manuel Rodríguez, "Sanctuary
Theology in the Book of Exodus", AUSS 24 (1986): 127-145.
509
É interessante observar que cada uma das sete mensagens é iniciada por Cristo e então é
resumida, em cada caso, como "aquilo que o Espírito diz às igrejas" - fazendo um paralelo às
declarações do Quarto Evangelho no sentido de que o Paracleto apresentaria as palavras de Cristo
(veja, por exemplo, João 14:25-26; 15:26; 16:12-15).
196

14.10.3. Elementos Positivos e Negativos nas Cenas Introdutórias

Conforme salientado antes, as cenas de introdução-vitória das visões I e II


contêm apenas um impulso positivo, mas a terceira cena introdutória introduz
também um elemento negativo. Nessa terceira cena, a ênfase positiva é encontrada
na mistura de incenso e orações dos santos que sobe a Deus, ao passo que o
elemento negativo é descrito em termos de o anjo lançar um incensário com brasas
vivas para a Terra, com os resultantes sinais de julgamento: vozes, trovões,
relâmpagos e terremoto.
No artigo anterior desta série salientei que as visões III a VI consistem de um
tema duas vezes apresentado, que pode adequadamente, ser identificado como
"Êxodo do Egito" / "Queda de Babilônia". (Veja o Diagrama 2 para uma ilustração
deste tópico.) É interessante que e precisamente em conjunção com estas quatro
visões que aparecem as mais fortes referências a um julgamento negativo. Existe
também uma progressão de intensidade no simbolismo do juízo, conforme
observaremos brevemente.
As cenas introdutórias das visões VII e VIII retornam parcialmente ao impulso
positivo das seções comparáveis das visões I e II. Contudo, existe pelo menos uma
referência oblíqua (e ainda assim forte) ao julgamento negativo em cada uma destas
visões finais, mesmo em sendo positivo o seu impulso principal. No tocante à visão
VII, Deus é louvado por haver julgado a prostituta e vindicado Seus santos. Em
assim sendo, a bênção da salvação é a nota tônica das antífonas de louvor;
especialmente na referência à noiva do Cordeiro e à sua ceia de bodas, existe
regozijo no mais alto grau! Quanto à visão VIII, insere-se ela num quadro cheio de
felicidade (21:5-11a), mas ainda assim um dos versos faz referência à sorte
daqueles que serão lançados "no lago de fogo" (verso 8) - uma declaração
obviamente assim apresentada a fim de contrastar com a recompensa dos
vencedores mencionados imediatamente antes (verso 7).510
Concernente a este impulso positivo e negativo das cenas iniciais e finais de
introdução-vitória, parece que o impulso totalmente positivo das cenas das visões I e
II não são mantidas em perfeito equilíbrio com suas contrapartidas -- em termos de
quiasma das visões VII e VIII, e existe boa razão para isto: as primeiras referem-se
especificamente ao processo salvífico em andamento, uma grande preocupação
teológica durante a era histórica; mas as ultimas, projetando o contraste, pertencem
a um tempo da era escatológica de julgamento, em que a salvação última e a
glorificação aguardam os santos de Cristo, mas em que os "perdidos" também
determinam plenamente a sua sorte. Estes "perdidos" não podem ser ignorados ao
se apresentar o quadro completo, pois - segundo G. E. Mendenhall salientou num
contexto diferente - a vindicação dos santos de Deus tem os "dois lados da moeda":
enquanto um dos lados representa a salvação dos santos, o lado oposto significa a
condenação daqueles que foram os opressores dos santos.511
510
Não deveria ser perdido de vista o fato de que, do mesmo modo como 21:7 apresenta em termos
amplos a recompensa última dos vencedores das sete igrejas dos capítulos 2 e 3, 21:8 reflete,
também de modo abrangente, a sorte dos "não-vencedores" destas mesmas igrejas. Os termos
"covardes, incrédulos, abomináveis, assassinos, impuros, feiticeiros, idolatras e mentirosos" de 21:8
são reminiscência das descrições e conselhos das sete mensagens, no tocante à fidelidade até à
morte (Esmirna), aos perigos das vilezas de Balaão e Jezabel (Pérgamo e Tiatira) e ao perjúrio contra
os fiéis discípulos de Cristo (Filadélfia), etc.
511
George E. Mendenhall, The Tenth Generation: The Origins Of The Biblical Tradition (Baltimore,
MD, 1973), p. 83. Isto se acha no contexto de um excelente estudo de NQM (a questão da "vingança"
197

14.10.4. "Movimento" na Apresentação das Figuras

Em adição à intrigante dimensão vertical manifestada nas visões do


Apocalipse, existe um certo tipo de movimento horizontal, evidente no uso simbólico
dentro da seqüência das oito cenas de "introdução-vitória". Observamos antes, a
partir de outra perspectiva do deslocamento de um cenário de templo terrestre para
um cenário de templo celestial, e novamente para o templo terrestre (o da "nova
terra", neste último caso). Mas as próprias cenas do templo celestial (nas visões II-
VII) mostram uma interessante progressão em termos de simbolismo.
Examinaremos brevemente este fato, e depois veremos, também com brevidade,
que ocorre igualmente uma progressão nas imagens negativas de juízo, utilizadas
nas visões III-VI.
Imagens do Templo no Céu. Na visão II, as sete tochas de fogo sugerem o
primeiro compartimento ou Lugar Santo. Em Seguida a visão III nos conduz ao altar

de ouro/altar do incenso situado diante do trono, e então a visão IV abre a visão para
a arca da aliança de Deus, no compartimento interior, ou Lugar Santíssimo.512
Assim, no que tange as visões pertencentes à era histórica, temos um movimento
para dentro do templo. Isto parece correlacionar-se com a crescente ênfase quanto
ao tempo do fim na respectiva "Descrição Profética Básica" e nos "Interlúdios",
embora todas estas seqüências cubram a era desde os dias do profeta até ao fim.

ou "vindicação") na literatura bíblica e de outras fontes antigas do Oriente Próximo.


512
Cf. novamente o n° 499, acima.
198

(Este fenômeno foi tratado suficientemente no artigo anterior, de modo que aqui não
se requer elaboração adicional).
Após a linha divisória do quiasma, as imagens do templo não mais incluem o
mobiliário deste, pois as funções representadas por dito mobiliário ou as atividades
salvíficas por eles indicadas - não mais existem. Em lugar deles, o fumo enche o templo
de tal forma que não mais prossegue o ministério da misericórdia (15:8); ocorrem
proclamações e/ou sinais de julgamento, fazendo-se apenas referências gerais à sua
origem no templo, do trono, e/ou ao Céu. (cf. 16:17 e seguintes; 19:1-5; " 21:5).
Imagens Negativas de Julgamento. As quatro visões centrais do Apocalipse -
visões III a VI - possuem introduções que apresentam simbolismo de juízo
fortemente negativo. Uma característica interessante é a intensificação deste
impulso negativo. Os sinais na visão III são trovões, vozes, relâmpagos e terremoto
(8:5): a estes, a visão IV acrescenta "forte saraivada" (11:19); e finalmente, a visão
VI apresenta os mesmos arautos do juízo, mas intensifica consideravelmente tanto
o terremoto ("tal como nunca houve desde que há gente sobre a Terra", 16:18)
quanto a saraivada "cerca do peso de um talento, 16:21). A visão V omite esta série
particular de símbolos de juízo, possivelmente porque inaugura a apresentação da
era escatológica, onde sua ênfase central recai já sobre um aspecto altamente
negativo: a plenitude da ira de Deus sendo conduzida para fora do templo em sete
taças, e o próprio templo aparecendo cheio de fumaça e não-ocupado (15:5-8).
Em todos os casos, as duas primeiras visões com o tema "Êxodo do Egito" /
"Queda de Babilônia" (visões III e IV) começam com uma cena introdutória que já
por si mesma revela uma progressão na intensidade do juízo. Esta intensidade é
adicionalmente destacada pela segunda dupla de visões (V e VI). O significado
teológico aqui parece ser o conceito de que a crescente sorte negativa se relaciona
com contínua e mais flagrante rejeição da oferta de salvação apresentada por Cristo.
Neste caso, isto pareceria uma espécie de comentário ampliado do princípio que
Jesus enunciou ao declarar a sorte, no juízo, de Betsaida, Corazim, Cafarnaum e
outras cidades que rejeitaram Sua oferta de misericórdia, esta seria pior que a de
Sodoma e Gomorra (cf., por exemplo, Mateus 10:14-15 e 11:20-24).

14.10.5. Relação das Introduções das Visões I e VIII


Já analisamos o significado teológico das imagens do templo nas oito cenas
introdutórias de Apocalipse. Aqui devemos oferecer atenção mais específica a uma
característica particular - qual seja, a estrutura "em envelope" na qual as
introduções às visões I e VIII encerram, por assim dizer, as seis outras introduções.
A característica primaria do esquema de "fechamento" é a da jurisdição - terrestre
para as visões I e VIII e celestial para as visões II VII. Assim, a ênfase tanto do
começo quanto do final do livro diz respeito à imanência da presença divina.
Porventura existiria aqui uma sugestão quanto aos dois adventos de Cristo e
seus resultados últimos? Na primeira cena introdutória, João vê a Cristo, que havia
vindo como Deus encarnado em Seu primeiro advento - que fora morto e
ressuscitara, e que ascendera ao Céu depois de quarenta dias. Agora este mesmo
Personagem divino aparece a João como Aquele que fora morto, mas agora vivia
para sempre (Apocalipse 1:17-18), e Se encontra presente, andando entre Suas
igrejas/castiçais. Esta primeira cena de introdução-vitória evidencia, deste modo, a
contínua e íntima presença do próprio Jesus, em relação a Sua igreja na Terra. Sua
vitória durante a encarnação assegurara a existência desta própria comunidade do
concerto, e Sua presença divina remanesce no meio de Seu povo durante a ampla
199

era histórica (por intermédio do Espírito Santo).513 No Quarto Evangelho, o prólogo


refere-se a Cristo como "habitando entre nós" (João 1:14), mas o Discurso do
Paracleto indica que mesmo após a partida de Jesus rumo ao Céu, tanto Ele quanto
o Pai fariam "morada" na vida dos fiéis discípulos de Jesus (veja João 14:15-21, 23).
A contrapartida desta divina presença "aqui e agora" é a plenitude da
experiência da divina presença, dependente da segunda vinda de Jesus com a
finalidade de trazer recompensa a todas as pessoas de acordo com suas obras
(Apocalipse 22:12). Na etapa final destas recompensas, isto é, no "novo céu" / "nova
terra" / "Nova Jerusalém" e suas experiências - Deus e o Cordeiro mais uma vez
"habitarão" com Seu povo, mas então esta habitação estará representada por uma
presença imediata e direta (veja 21:3, 22; e 22:1-4).
Deste modo, no começo e no fim destas cenas de introdução-vitória
encontramos, em certo sentido, uma elaboração do duplo tema de Apocalipse (ao
qual chamei atenção em meu primeiro artigo desta série): A presença de Cristo com
Seu povo na era presente - como "Alfa e Omega" - e Seu retorno, no final da era
histórica a fim de desencadear os eventos que culminarão com Sua presença entre
Seu povo durante toda a eternidade (cf. Apocalipse 1:7-8 e 22:12-13).
Neste caso, qual a função das cenas introdutórias das visões intercaladas?
Ao passo que a imanência é enfatizada nas visões I e VIII, inclusive em suas cenas
de introdução vitória, a transcendência é enfatizada nas demais visões. Estas seis
visões destacam a atividade no Céu, enquanto o povo de Deus se encontra na
Terra. Mas essa transcendência não significa desinteresse, tampouco existe
qualquer falta de contato e preocupação entre o Céu e a Terra. Em vez disso, todas
estas visões (através de suas cenas de introdução-vitória, e também em suas
seqüências descritivas posteriores) revelam uma decisiva e decidida continuidade
vertical. Aquilo que é feito no templo do Céu, o é em beneficio do povo de Deus
sobre a Terra, de modo que a atividade celestial retratada nas cenas de introdução-
vitória encontra uma imediata contrapartida nas forças liberadas sobre a Terra com o
fito de realizar o propósito de Deus para com SEU povo.

14.10.6. Abrangentes "Estruturas em Envelope"

Dever-se-ia fazer breve menção ao fato de que na análise e discussão


precedentes nós chegamos a duas amplas "estruturas em envelope". 514
Lidamos com uma destas e a discutimos na jurisdição das imagens do templo:
para as visões I e VIII, uma jurisdição terrestre (história presente e nova terra,
respectivamente); e para as visões II-VII, um cenário de "templo no Céu". A
outra estrutura em envelope relaciona-se com as "Imagens Negativas de Juízo"
e incorpora o forte impulso negativo, relacionado com julgamento, das cenas
introdutórias das visões III a VI, dentro do impulso francamente positivo das
cenas paralelas das visões I e II, por um lado, e do impulso predominantemente
positivo das cenas das visões VII e VIII, por outro lado. 515 (Estas duas grandes

513
Cf. novamente o n° 509, acima.
514
"Estruturas em envelope" ou "inclusões" são comuns nos padrões literários do Apocalipse. Veja, por
exemplo, William H. Shea, "The Parallel Literary Structure of Revelation 12 and 20", AUSS 23 (1.9.85):
37-54 (especialmente as páginas 44 e 45), para duas surpreendentes ilustrações deste fenômeno.
515
Com respeito ao assunto de aspectos positivos e negativos, nossa referência se faz, por certo,
unicamente as cenas de introduçao-vitória - os blocos designados como "A" no Diagrama 1. Para
outros blocos de materiais nas visões I, II e VII, existem efetivamente muitos aspectos negativos, mas
este fato não afeta o padrão distintivo que observamos nas cenas introdutórias.
200

estruturas "em envelope" são esboçadas no Diagrama 3, na próxima página).


Os dois exemplos inclusão evidentemente oferecem interesse a partir do
ponto de vista de maestria literária. Mas devemos conservar em mente que esta
habilidade não foi vislumbrada como um fim em si mesma; em lugar disso, foi
incorporada devido a - e em relação a sua funcionalidade como elemento que
destaca a perspectiva teológica e os temas que são fundamentais no Apocalipse e
que constituem a preocupação primária do livro.

14.11. SUMÁRIO E CONCLUSÃO

O artigo anterior e o atual esboçaram certas estruturas literárias do


Apocalipse e ofereceram particular atenção às cenas de introdução-vitória das oito
grandes visões do livro de Apocalipse. Torna-se óbvio, em primeiro lugar, que
Apocalipse é uma peça literária primorosamente organizada. Contudo, os padrões
literários representam mais que simplesmente o gosto artístico e a preocupação
mnemônica: eles salientam de forma muito real certos grandes temas e motivações
teológicos. São eles temas e motivos que representam um paralelo e uma
elaboração de aspectos da teologia geral do NT, e são particularmente valiosos ao
oferecerem esperança e segurança aos fiéis seguidores de Cristo em sua luta contra
as forças do engano e da perseguição.

Traduzido por: Hélio L. Grellmann


Novembro de 1990