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ORQUESTRA-ESCOLA: ENSINO COLETIVO E INCLUSÃO SOCIAL NO

PROJETO ORQUESTRA SINFÔNICA VALE DO COTINGUIBA

Jorge Eduardo Santos1


Paloma Araújo Côrtes dos Santos 2
Párbata Araújo Côrtes dos Santos3

GT1 – Educação de Crianças, Jovens e Adultos

RESUMO

A presente pesquisa aborda o campo dos projetos sociais de musicalização a partir da investigação dos
conceitos de ensino coletivo, orquestras-escolas e métodos ativos; visou também atrelar a
criação/desenvolvimento das orquestras-escola com a concepção do ensino coletivo e à utilização dos
métodos ativos, bem como se propôs a investigar e analisar a metodologia de educação musical aplicada
pelo projeto Orquestra Sinfônica Vale do Cotinguiba. Na perspectiva de alcançar os objetivos propostos
e para a obtenção dos dados, este estudo de caso utilizou-se de duas modalidades de investigação: a
pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo. A partir da pesquisa qualitativa, observou-se que o ensino
coletivo – a partir da utilização da orquestra-escola – permite o desenvolvimento global dos envolvidos.
No caso da Orquestra Sinfônica do Vale do Cotinguiba não foi diferente, e, para tal intento, os
professores – em sua maioria – usavam a metodologia Suzuki.

Palavras-chave: ensino coletivo, orquestra-escola, métodos ativos, inclusão social.

ABSTRACT

This research covers the field of social projects of music from the research of the concepts of collective
education, schools and orchestras active methods; aimed to also draw the creation/development of
school orchestras with collective teaching design and the use of active methods, as well as to investigate
and analyze the methodology of musical education applied by the Cotinguiba Valley Symphony
Orchestra project. In order to achieve the proposed objectives and to obtain the data, this case study used
two types of research: bibliographical research and field research. From the qualitative research, it was
observed that the collective education-from the use of the School Orchestra – allows global development
of those involved. In the case of the Symphony Orchestra of the Cotinguiba was no different, and, for
such purpose, the teachers-mostly-used the Suzuki methodology.

Keywords: collective learning, school orchestra, active methods, social inclusion.

1
Graduando no curso Música Licenciatura pela Universidade Federal de Sergipe. E-mail:
jorgeeduardo.cello@gmail.com
2
Especialista em Psicodrama Sócio-Educacional pela Profint, graduada no curso de Psicologia pela
Universidade Federal de Sergipe. E-mail: paloma.araujo.cortes@gmail.com
3
Graduada no curso de Psicologia pela Universidade Federal de Sergipe. E-mail:
parbata.cortes@gmail.com
1 INTRODUÇÃO

A crescente propagação da sociabilização do ensino musical fez com que surgissem


vários projetos sociais de ensino coletivo. É nesse contexto que a orquestra passa a ser uma
ferramenta de musicalização. Apoiando-se nas características principais dos projetos sociais
com orquestra, nas Américas e também no Brasil, observa-se que tais modelos de projeto
propiciam educação musical gratuita (é recorrente em muitos projetos o empréstimo do
instrumento), englobam - dentre as suas atividades- aulas, ensaios e apresentações e
fundamentam-se na utilização de métodos motivadores e dinâmicos de aprendizagem em grupo.
Esses projetos, num geral, têm apoio de instituições governamentais, associações de pais e
apoiadores da iniciativa privada; e trabalham pautados na inserção social, influenciando a vida
dos participantes e dando lhes oportunidade de orientação para a profissionalização musical
(GRUBISIC, 2012, p.61).
A partir da concepção de que educação musical em projetos sociais se baseia no ensino
musical para todas as pessoas, a música é concebida como bem cultural com um papel
democratizante. Dessa forma, a orquestra sinfônica como ferramenta para a educação musical-
a orquestra-escola- pode ser considerada como um “espaço educacional e democrático” no qual
há a expansão do universo musical do aluno, visto que a música, em suas mais diversas
expressões, é um patrimônio cultural capaz de enriquecer a vida de cada um, ampliando sua
experiência expressiva e significativa (PENNA, 2008).

Projetos de caráter educativo-cultural na área da música, cujo objetivo geral é


realização de audições didáticas e concertos, além de oficinas de ensino
instrumental e de prática de orquestra abertas preferencialmente a crianças e
jovens estudantes da rede pública de ensino. Atende gratuitamente os alunos
menos favorecidos economicamente, de forma que realiza a inclusão social,
contribuindo para a cidadania e uma sociedade mais justa (PREFEITURA
MUNICIPAL DE FLORIANÓPOLIS, 2010).

A fim de promover uma compreensão mais apurada desse tema, faz-se necessário
conhecer o contexto histórico, como se dão as práticas e como se relacionam os constructos
ensino-coletivo; métodos ativos e orquestra-escola no contexto da educação musical. Para
assim, posteriormente, elucidarmos o estudo de caso com uma orquestra-escola do estado de
Sergipe: A Orquestra Sinfônica Vale do Cotinguiba.
2 ENSINO COLETIVO

O século XIX foi um momento de revoluções caracterizado pela complexidade tanto no


âmbito social quanto cultural; com o aumento populacional e o aparecimento da cultura de
massa, existiu um crescimento considerável na quantidade de pessoas desejosas de aprender
música e a instrução individual deu lugar a educação coletiva ampliando a relação professor-
aluno (OLIVEIRA, 2012). Em 1843, na Alemanha, Felix Mendelssohn inaugura o
conservatório de Leipzig, no qual havia aulas de música em grupo. Esse evento foi responsável
pela formalização e propagação da metodologia de ensino de instrumentos musicais em grupo,
que anteriormente só ocorria em instituições familiares (CASTRO, 2013).
Posteriormente, este procedimento chegou aos Estados Unidos, onde ganhou espaço nos
conservatórios de The Boston Conservatory e The New England Conservatory. Um fator
importante que colaborou para que esta metodologia se estabelecesse nos EUA foi uma forte
uma efervescência cultural após a Guerra Civil (ibibem). Na mesma época, surgiu um
movimento na Inglaterra chamado “The Maidstonemovement”, através da empresa Murdock
and company of london, especializada na venda deinstrumentos musicais e que implantou nas
escolas o ensino coletivo de violino (All Saints Nacional Schools) buscando desenvolver o amor
pela música orquestral através do aprendizado do instrumento, tal projeto foi considerado como
o surgimento do ensino coletivo instrumental (OLIVEIRA, 2012).
O ensino coletivo no Brasil, teve suas primeiras práticas ainda no período colonial
através das bandas de escravos, que no futuro se tornariam as bandas oficiais e de fanfarras
(ibidem). Entretanto, efetivamente, o ensino coletivo iniciou-se na segunda metade do século
XIX, na cidade de Tatuí/SP. Por volta de 1850, o maestro Antonio Rafael Arcanjo forma uma
das mais importantes bandas de música do município: Banda Santa Cruz. Logo no início do
século XX, Tatuí passou por um forte desenvolvimento econômico ligado às tecelagens, que
acarretou na fundação do Conservatório Dramático e Musical “Dr. Carlos de Campos” em 11
de agosto de 1954. O professor de flauta e regente José Coelho de Almeida, que na década de
50, já realizava a formação de bandas de música nas fabricas do interior de São Paulo, em 1968
torna-se diretor do Conservatório Dr. Carlos de Campos e cria um projeto de iniciação e
aprendizado musical em conjunto, através de instrumentos de corda, os professores eram Pedro
Cameron e José Antonio Pereira (CASTRO, 2013).
Dentro dessa passagem de tempo, na década de 30, no governo de Getulio Vargas, houve
uma transformação na educação musical brasileira, graças ao incentivo e trabalho do grande
compositor brasileiro Heitor Vila Lobos que introduziu nas escolas de todo o país o Canto
Orfeônico (OLIVERIA, 2012). Já no fim da década de 70, iniciaram-se projetos envolvendo
orquestra no ensino coletivo de educação musical com interesse em desenvolver aspectos
educativos e sociais. Pode-se destacar, nesse contexto, o “Projeto Espiral”, iniciado em 1976
de âmbito nacional através da Funarte – Fundação Nacional da Arte – e que aconteceu em seis
núcleos no Brasil: Fortaleza, Brasília, Recife, Belém, Natal e Florianópolis (GRUBISIC, 2012,
p. 32) a partir do método de “Ensino Coletivo de Cordas” de Alberto Jaffé. Conforme estudo
de Ying (2007), esse foi um dos primeiros métodos de ensino coletivo de instrumentos de cordas
no Brasil.
Outra personalidade no cenário brasileiro foi Joel Barbosa, que como trabalho de
conclusão de doutorado nos EUA, elaborou o primeiro método de banda brasileiro para ensino
coletivo a partir da descoberta de um método na biblioteca do conservatório que estudava em
1984. Essa inovação no ensino de instrumentos obteve sucesso não somente para os
instrumentos de sopro, destacou-se também dentre os instrumentos de corda expandindo-se por
todo o país (OLIVEIRA, 2012).
Após um pouco de referencial histórico, vale destacar que a metodologia do ensino
coletivo é adequada não somente para inclusão interpessoais e intercâmbio de saberes oriundos
da interação, mas serve, também, para influenciar novas descobertas, práticas em relação à
interpretação e conhecimento musical (OLIVEIRA, 2012, p. 20-21). Cruvinel (2005) relata que
a metodologia de ensino coletivo se afasta das metodologias de ensino de instrumento
tradicionais, inicialmente, na filosofia de ensino, no entendimento de que todos os indivíduos
podem se desenvolver musicalmente.
No ensino coletivo de música existe uma concepção mais eficiente em relação à
motivação, portanto, tocar em grupo, assimilar o som do colega, fica muito mais prazeroso que
tocar para si, as deficiências são socializadas em conjunto propiciando um maior intercâmbio
entre os alunos torna o “fazer musical” um campo de aprendizagens duráveis. Essa prática
coletiva provoca situações onde o aluno não somente é levado a interagir socialmente como
também contribui para um aprendizado instrumental e musical em ambiente lúdico. A aula é
elaborada e encaminhada ao grupo, obtendo do aluno concentração, frequência,
comprometimento e tornando o aluno menos tímido em relação ao público e na observação dos
colegas no cotidiano deixando-os mais tranquilos nas audições (TOURINHO, 2008). Além do
desenvolvimento das atitudes relacionadas ao aspecto musical dos alunos, o ensino instrumental
coletivo tem como principal produto de aprendizado o desenvolvimento social (DANTAS,
2010).
A educação musical coletiva estimula a permuta de experiências entre os alunos mais
iniciantes e aqueles que já carregam uma bagagem de conteúdos teóricos e práticos das
atividades do projeto, contribuindo para uma personalidade ativa daqueles alunos mais
introspectivos, promovendo a socialização com os colegas e com o meio onde está inserido
(TOURINHO, 2008). Esse é o ambiente verificado nos projetos onde a orquestra sinfônica é
um instrumento de musicalização, ou seja, onde a noção de orquestra-escola se faz presente.

3 ORQUESTRA-ESCOLA

A construção de um grupo musical de orquestra engloba distintas ações de domínio


educacional e artístico com diferentes indivíduos através da música. Crianças e adolescentes na
formação do grupo vão se manifestando se desenvolvendo de uma maneira absoluta
(GRUBISIC, 2012, p. 200). Iniciativas em programas sociais que envolvam ensino coletivo e
gratuito de música vêm cooperando para o desenvolvimento sociocultural de vários alunos. A
sociedade atual deve ser percebida como um poderosa ferramenta de transformação, não só do
indivíduo, mas do ser humano social (CRUVINEL, 2005, p.17).
O substrato (música instrumental) da orquestra é condicionada à participação do
coletivo como um ser único. O fruto do trabalho do grupo traz benfeitorias para ele mesmo e
para aqueles pertencentes ao ambiente o qual recebe suas inúmeras apresentações. Interessante
também, é que na Orquestra os alunos que a compõem estão participando por iniciativa própria
no fazer música coletivamente (JOLY; JOLY, 2009, p.9). A orquestra é um ambiente onde estão
congregadas pessoas das mais distintas características, meio onde encontramos “pobres e ricos,
alegres e tristes, músicos experientes e não experientes, jovens e adultos”, todos fazendo parte
de um organismo em busca de um mesmo alvo intrínseco a uma liberdade de expressão (JOLY,
2007, p. 35).
Na prática inerente à Orquestra-Escola, o educador também toca na orquestra junto com
os estudantes, dessa forma, eles aprendem observando o seu educador. Num projeto social, a
figura do educador está bem próxima ao estudante e é o modelo de referência ao ensinar através
do exemplo (KATER, 2004, p. 45). O estudante tem o professor como um paradigma, àquele
que com facilidade tem o domínio do instrumento, encaminha, tem a prática e a técnica,
enquanto que os colegas possuem uma posição de espelhos, desvendando as complexidades de
cada aluno do grupo (TOURINHO, 2008, p. 2).
É fácil analisar e ver que são muitos os benefícios atrelados a uma educação musical
através da orquestra. Todavia, apesar disso, Scoggin (2002) relata que fatores relacionados a
tradição musical da sociedade brasileira, a oferta e a qualidade do ensino básico, o número e a
qualificação de professores, a aquisição de instrumentos e materiais correlatos e as
oportunidades de trabalho dificultam a difusão e o trabalho com orquestras de cordas no Brasil.
São essas as duas faces da mesma realidade; esse é o ambiente verificado nos projetos
onde a orquestra sinfônica é um instrumento de musicalização. Nesse contexto cheio de
dificuldades potenciais para seu desenvolvimento no Brasil, os projetos socais musicais
possibilitam que o aluno vivencia todas as atividades de uma orquestra, passando pelas aulas
em grupo, máster class, ensaios, culminando nas apresentações. Mas como são passados esses
conteúdos em termos de métodos? O que devem levar em consideração para a boa
aprendizagem musical?

4 MÉTODOS ATIVOS

No século XX, diferentes educadores musicais influenciaram e revolucionaram as


gerações seguintes com suas teorias, metodologias, propostas ou abordagens de ensino e foram
desta forma, responsáveis pela solidificação do conceito de Educação Musical, além de gerar
frutos para novas tendências na área da pedagogia musical (FONTERRADA, 2008, p. 119).
Esses educadores propuseram a visão de Métodos Ativos em Educação Musical os quais são
alicerçados em pensadores como Rousseau, Pestalozzi, Froebel e valorizaram as ações do
aluno, considerado ativo no seu processo de aprendizagem (KEBACH, 2011, p.71).
Tais métodos em música aparecem na transição do século XIX para o século XX como
reflexo das grandes mudanças na concepção sobre a música na Europa. Antes a preocupação
com o bem estar e o desenvolvimento do aprendiz, sendo criança, jovem ou adulto, era nulo. O
panorama era a formação do virtuose, o interprete era o objetivo a ser alcançado, isso em âmbito
acadêmico, a busca pela excelência em execução era o comum da época (FONTERRADA,
2008 p. 121).
A partir daquele momento, defendeu-se a prática musical coletiva e o mecanismo de
aprendizagem-desenvolvimento centrou-se no duplo movimento do processo de
apropriação/interiorização: do externo (música) para o interno (aluno) e do interno (motivação)
para o externo (prática musical). Os Métodos Ativos fundamentavam-se numa prática musical
sistematizada, norteada linearmente a partir de conteúdos mais simplórios até aqueles definidos
como mais complicados, a qual tornava a educação musical inventiva, produtiva e agradável.
Priorizava-se uma experiência musical objetiva e prática, através do manuseio sonoro, da
execução musical em grupo e da manifestação corporal em música como esteio primário do
procedimento de ensino-aprendizagem (BENEDETTI; KERR, 2009 p. 89). Os Métodos Ativos
destacam a experimentação da música diante de teorizá-la, focando como princípio a inserção
da sensibilização musical. De modo que são apreciadas as experiências musicais que o aluno
traz consigo, visto que, por meio dos exercícios anteriormente produzidos, para posteriormente
ser inserido a sistematizado (tradicional) da música, seja a prática de instrumento ou o estudo
da teoria da música (JESUS; HARDER, 2013, p. 360).
Segundo Fonterrada (2008) os principais autores dos Métodos Ativos são: Émile-Jaques
Dalcroze, Carl Off, Zoltán Kodály e Shinichi Suzuki. Émile-Jaques Dalcroze tem sua prática
pedagógica centrada na escuta e no movimento, tendo as ferramentas básicas do método
abalizadas na rítmica, no solfejo e na improvisação. Sua técnica, que promove a conexão da
melodia musical com a expressão corporal, foi desenvolvida primeiramente para ensinar música
a seus alunos. Esse método suscitou influências não somente na música, mas também nas artes
cênicas e na dança. Dalcroze também dedicava-se ao coletivo em arte e criticava o fato de o
pensamento coletivista não ter chegado na área musical.
Carl Orff, por sua vez, não deixou nenhum material que explicasse suas práticas
pedagógicas e filosofia, existindo somente uma coletânea de cinco volumes com peças escritas
para serem executadas. A essência da proposta pedagógica de Orff encontra-se na abordagem
dos elementos linguagem, música, movimento; na inter-relação entre dança, corpo, movimento,
música como expressões equivalentes e no caráter circular dos elementos: movimento, som e
ritmo. Outro autor é Zoltán Kodály cujo material de ensino é a voz visto que permite o ensino
grupal, além de que possibilita a inclusão de participantes, independentemente de seu poder
aquisitivo, logo que não há necessidade de aquisição de um instrumento. O desenvolvimento
do método abarca desde o treinamento auditivo, a percepção musical, ritmo até a leitura e escrita
musicais (FONTERRADA, 2008).
Por fim, o método de Shinichi Suzuki o qual busca desenvolver as primeiras habilidades
dos alunos através da audição e repetição. Através de seu método, Suzuki pretende que as
crianças aprendam a tocar violino da maneira mais natural possível, assim como as mesmas
aprendem a falar, portanto, a participação da família é apontada como primordial. Nessa
metodologia os familiares incentivam a prática de violino, o desenvolvimento da sensibilidade
e do gosto pela música. Para o estudo das peças, o pedagogo sugere que elas sejam
memorizadas, pois, ao memorizá-las a criança ficará livre para prestar atenção na postura,
afinação e técnica, nas frases musicais e na dinâmica (ibidem).
5 PROBLEMA DE PESQUISA

O presente trabalho almejou oferecer uma contribuição para o estudo desta temática,
visto que no Brasil são poucas as pesquisas relacionadas diretamente ao ensino coletivo,
orquestras-escolas e métodos ativos. É notório que apenas por meio de pesquisas e da criação
de novas orquestras e projetos de ensino é que se chegará ao domínio das técnicas de trabalho
e à elevação da qualidade artística dos grupos.
Os objetivos do trabalho foram: apresentar um aporte teórico aos conceitos de ensino
coletivo, orquestras-escolas e métodos ativos; atrelar a criação/desenvolvimento das orquestras-
escola com a concepção do ensino coletivo e à utilização dos métodos ativos, investigar e
analisar a metodologia de educação musical aplicada pelo projeto Orquestra Sinfônica Vale do
Cotinguiba, orquestra-escola, que até o momento da pesquisa, pertencente ao cenário
sergipano, em específico, na cidade de Nossa Senhora do Socorro.

6 METODOLOGIA

O trabalho desenvolvido caracterizou-se como pesquisa de cunho qualitativo na qual


cabe a utilização de uma gama de métodos, técnicas e abordagens de investigação como estudo
de caso, investigação participativa, entrevistas, observação participante e análises
interpretativas (HARDER, 2008, p.19). Na perspectiva de alcançar os objetivos propostos e
para a obtenção dos dados, este estudo de caso utilizou-se de duas modalidades de investigação:
a pesquisa bibliográfica e a pesquisa de campo.
A pesquisa bibliográfica fez uso de livros, artigos científicos, teses e outras fontes para
a fundamentação teórica a respeito das diferentes metodologias em Educação Musical, com a
finalidade de catalogar o material existente sobre o assunto. A pesquisa de campo, por sua vez,
foi realizada na sede da instituição e nela foram adotados os seguintes procedimentos:
Entrevista semiestruturada abordava os seguintes temas: nome do profissional, instrumento que
leciona, grau de escolaridade do professor, a quanto tempo leciona e desde quando está no
projeto, número de alunos e faixa etária dos alunos. E sobre a metodologia foi perguntado qual
método utilizado, a importância do método, os pontos positivos e negativos, a dinâmica das
aulas, avaliação dos alunos. Ocorreu também a observação estruturada direta das aulas de
instrumentos, com a finalidade de realizar observações acerca dos procedimentos de ensaio e
de trabalho.
A coleta dos dados demandou aproximadamente um mês e, para tanto, era feito
inicialmente um contato prévio com o entrevistado para propor a participação, após aceitar o
convite, era feito o agendamento da entrevista.

7 RESULTADOS

Na observação estruturada direta constatou-se que o método utilizado pelos professores


do projeto em questão era o Método Ativo Suzuki. No intuito de verificar se seria confirmado
pelos professores a utilização desse método, na entrevista, foi deixado a cargo dos mesmos
responder a essa pergunta. Todavia, dois professores não mencionaram o uso de tal método,
logo, para confrontar tal fato com os dados obtidos na observação, questionou-se diretamente
se tais professores usavam o método Suzuki.
Com as novas perguntas, pôde-se obter um panorama da metodologia adotada na
Osquestra Sinfônica Vale do Cotinguiba. Com o auxílio de estudos de escalas, o método Suziki
fora considerado maravilhoso devido a suas melodias fáceis que fomentam a musicalidade nos
alunos. O método foi apontado como sendo muito importante na formação de uma escuta
musical e na promoção de uma maior participação dos pais no processo de aprendizagem. Outro
aspecto que é relatado foi que por possuir músicas bastante conhecidas pelo público em geral,
facilita o aprendizado e a memorização das peças, fator esse que auxiliaria o aluno com
dificuldade de leitura musical, além do que possuem nível de dificuldade gradual.
O ineditismo a cada aula foi também salientado, depois que o aluno ter absorvido todas
as dinâmicas da melodia estudada e ter tocado como o professor indicou, a melodia subsequente
passa a ser o próximo obstáculo a ser ultrapassado. Isso faz com que a criança fique estimulada
a sempre aprender algo novo, podendo ser esse um dos inúmeros motivos de o método Suzuki
estar sendo “atualmente o mais difundido método de ensino para instrumentos de cordas do
mundo” (fala de um dos professores).
Por outro lado, fora alegado por um dos professores que as músicas do Suzuki são
folclóricas para outra cultura, não faz parte do cenário brasileiro, como por exemplo, a canção
“Brilha brilha estrelinha” que o aluno deve assimilar, e por não compreender a melodia ainda
desconhecida para ela, pode passar muito tempo sem progredir. Por isso, esse professor afirmou
ser interessante mesclar peças do Suzuki com outras metodologias e aproveitar as músicas
folclóricas, relacionadas a infância das crianças brasileiras.
8 CONSIDERAÇÕES

O ensino coletivo traz inúmeras benesses para a formação do indivíduo em sua


totalidade, proporcionando o incremento das atitudes e do caráter sociocultural do aluno. A
orquestra-escola, por sua vez, é fonte de produção cultural – a qual alcança as mais
diversificadas camadas da sociedade –, de educação, de sustento para os professores e maestros
que trabalham nesse meio, é elemento fomentador de opção profissional para seus alunos, e é,
primordialmente, espaço de convívio social, no qual pessoas das mais diferentes raças, credos
e classes sociais desenvolvem suas atividades em busca de um objetivo comum. Portanto,
projetos sociais envolvendo a utilização de ensino coletivo a partir da estrutura da orquestra
sinfônica são ambientes de inter-relações explícitas no decorrer de suas atividades, seja com os
educadores, com monitores e mesmo com os colegas: é uma troca de experiências muito
enriquecedora.
A Orquestra Sinfônica Vale do Cotinguiba (OSVC) nasceu com esse propósito; é um
projeto de ação social voltado a população carente das regiões do Vale do Cotinguiba, situado
na cidade Nossa Senhora do Socorro no estado de Sergipe para a promoção de ensino de música
a partir do conceito de orquestra-escola. Sobre a metodologia desse projeto, foi verificado que
não é imposto nenhum método, ficando a cargo da preferência e da experiência de cada
professor como o ensino será realizado.
Apesar da inúmera gama de métodos, os professores optaram em utilizar o caderno de
melodias da metodologia de Chinishi Suzuki que mostrou-se ser o mais adequado ao contexto
da OSVC, visto que possibilitou um ambiente favorável de aprendizagem pois possuía algo
muito atrativo aos futuros músicos: a possibilidade de tocar prontamente, mostrar sua arte para
os outros e para si; visualizando que tal habilidade é possível.

Talento não é acidente de nascimento... Qualquer criança devidamente


treinada pode desenvolver a habilidade musical assim como toda criança
desenvolve a habilidade de falar sua língua materna. O potencial de cada
criança é ilimitado (Shinichi Suzuki, apud CUNHA; GOMES, 2012).

REFERÊNCIAS

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educação musical: uma aproximação. In: Marcelina| eu-você etc., p. 80, 2009.

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CRUVINEL, Flávia. Maria. Educação Musical e Transformação Social – Uma experiência


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JOLY, Ilza Zenker Leme; JOLY, Maria Carolina Leme. Convivência em uma Orquestra
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