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POLÍTICA INTERNACIONAL

Prof. Paulo Velasco


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Aula 01 | Política Externa Brasileira I

Esta aula tem por objetivo apresentar as principais estratégias e iniciativas da política externa
brasileira nos governos Dutra, Vargas, Café Filho e JK (1946-1960).

Objetivos Gerais: Compreender as bases da inserção internacional do Brasil no mundo pós-II GM,
enfatizando a relação com os Estados Unidos, em um contexto inicial de Guerra Fria.

Objetivos Específicos: Conhecer conceitos como ¨alinhamento sem recompensas¨ (Gerson Moura) e
iniciativas como a Comissão Mistra Brasil-EUA e a Operação Pan-americana (OPA), entre outras.
Entender as razões do rompimento de relações com a URSS e as bases da relação com os Estados
Unidos.

Leituras obrigatórias

CERVO, Amado & BUENO, Clodoaldo. História da Política Exterior do Brasil. Brasília: Editora UNB,
2002. Capítulo: Alinhamento e desenvolvimento associado (1946-1961). P. 269-307.

MOURA, Gerson. Sucessos e Ilusões. Rio de Janeiro: editora da Fundação Getúlio Vargas, 1991. p. 59-
86.

HIRST, M. A política externa do Segundo Governo Vargas. In: ALBUQUERQUE (org.). Sessenta Anos de
Política Externa Brasileira, 1930-1990, vol. 1. São Paulo: Núcleo de Pesquisa em Relações
Internacionais da USP/Cultura Editores Associados, 1996, pp. 263-289.

MOURA, Gerson. A política externa de JK. In: GOMES, Ângela de Castro. O Brasil de JK. 2ª. Edição. Rio
de Janeiro: FGV, 2002.

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História da Política Externa Brasileira (HPEB)

1º tópico: história da política externa do Brasil. Serão 6 semanas dedicadas ao tópico, que é um dos
que tem mais peso na história do CACD, é um assunto muito cobrado tanto na 1ª quanto na 2ª fase da
prova.

No programa do CACD, a história da política externa começa a partir do pós-2ª GM, a partir do governo
Dutra.

Dois Paradigmas. Ajudam a explicar a PEB ao longo de sua fase Republicana. Durante boa parte da
República, ao menos até os anos 1980. A partir dos anos 1970, percebe-se uma prevalência do
paradigma universalista.
1) Americanismo. Inserção internacional a partir de uma relação privilegiada com EUA. Brasil
buscava alinhamento, uma aliança com o país. Durante muitos governos, tivemos uma
orientação americanista.

1.1) Americanismo Ideológico. Brasil se alinha por conveniência ideológica, sem que
isso traga benefícios para o país. Exemplo: durante o governo Dutra à um
alinhamento mais estéril, mais desprovido de ganhos e conquistas.

1.2) Americanismo Pragmático. Mais refinado, aqui o Brasil consegue obter ganhos
específicos. Exemplo: Barão do Rio Branco à durante seus quase 10 anos
comandando o Itamaraty, no início do século, o Brasil buscou uma relação especial
com os EUA, promovendo uma aliança em troca de ganhos e conquistas para o
nosso país.

2. Universalismo/Globalismo. Brasil busca inserção internacional mais plural, sem qualquer


alinhamento, sem estar submetido a qualquer parceiro mais específico.

à Autonomia. Aqui prevalece a lógica da autonomia.


à Diversificação de parcerias. O próprio conceito de globalismo já aponta para isso.
Brasil busca se inserir na cena internacional de maneira ampla.

Governo Dutra (Eurico Gaspar Dutra, 1946-1951)

à Alinhamento sem recompensa. Alinhamento bastante claro aos EUA. Esse


alinhamento é caracterizado na literatura como sendo um alinhamento sem
recompensas (VIP conceito proposto pelo professor Gerson Moura). Essa ideia
converge com a ideia de que o governo Dutra seria um bom exemplo de americanismo
ideológico. Alguns autores chegam a falar que o alinhamento é automático. Não
implica maiores ganhou nem maiores conquistas. Convergir com Washington é uma
escolha natural em um momento de polarização internacional entre as duas grandes
potências: EUA e URSS.
à Contexto internacional
• Início da Guerra Fria
• Doutrina de Contenção (Kennan)
• Doutrina Truman
• Plano Marshall

Brasil está na América Latina. No contexto inicial de Guerra Fria, há outras prioridades geográficas para
os EUA que não são a América Latina. EUA se preocupam muito com a situação de instabilidade na
Europa, para impedir o avanço da influência soviética na região. Os europeus conseguem tudo que
querem junto aos EUA; não por acaso o lançamento do Plano Marshall para os países europeus.
Logo após, será a Ásia que irá preocupar muito os EUA, muito em função da Revolução Comunista
(Revolução Maoísta) na China, em 1949, também coincidindo com o governo Dutra. EUA investirá
recursos importantes na Ásia e fará concessões a muitos países da região, para ganhar apoio contra os

regimes comunistas. Nossos apelos e demandas caem no vazio, porque a América Latina não era
prioritária para os EUA.

1947 à Entrada do Brasil no TIAR (Tratado Interamericano de Assistência/Ajuda Recíproca). O


tratado aponta para uma lógica de defesa coletiva. Também é chamado de Pacto do Rio, porque foi
assinado no Rio de Janeiro.
1948 à Entrada do Brasil na OEA. Constituída a partir da influência norte-americana. Brasil é membro
fundador. OEA reflete muito dos interesses americanos. Com isso, Brasil passa a se consolidar dentro
da órbita da influência norte-americana.
1949 à Não-reconhecimento por parte do Brasil da República Popular da China (RPC). Brasil emula a
posição dos EUA na ONU. Comportamento brasileiro é subordinado e subserviente. Brasil passa a ter
posições diplomáticas com Taiwan, seguindo a posição da própria ONU, que passará a reconhecer
Taiwan como China legítima.

OBS: 1947 à Rompimento de relações diplomáticas com a URSS (União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas). Esse dado não deve ser colocado como exemplo de alinhamento com os EUA, porque o
rompimento não deriva, aqui, de Washington. EUA nunca nos pressionaram a romper com a URSS,
nunca nos forçaram a isso.

Muito pelo contrário (VIP): Brasil chegou a ser criticado pelos EUA por conta do rompimento de
relações diplomáticas com a URSS (fomos mais papistas do que o Papa). Os EUA jamais romperam
relações com a URSS, sempre mantiveram sua embaixada em Moscou aberta, funcionando, e o Brasil
não.

O que levou o Brasil a romper com a URSS? A perseguição aos comunistas no Brasil, levada a cabo pelo
governo Dutra, o que refletiu a posição anticomunista e antissoviética do governo brasileiro. Dutra
colocou o PCB (Partido Comunista Brasileiro) na ilegalidade e cassou deputados eleitos pela legenda
(exemplo: o escritor Jorge Amado). Esses atos do governo brasileiro levaram-no a receber críticas de
um jornal soviético da URSS. Além de críticas, o jornal atacou a pessoa do presidente Dutra. Tomando
ciência da linha editorial, dos ataques, da postura do jornal soviético, o Brasil exigiu uma retratação da
URSS. Evidentemente, essa retratação não aconteceu. Diante da não retratação soviética, o Brasil
optou pelo rompimento das relações diplomáticas com a URSS.

OBS2: Apesar do profundo alinhamento político-ideológico aos EUA, o Brasil, nesse período do
governo Dutra, mantém certa margem de autonomia em temas econômicos. Por exemplo:

à 1947 – Conferência de Havana. Brasil vai pressionar os EUA por um tratamento


especial e diferenciado, no sentido de receber vantagens comerciais por ser um país
em desenvolvimento.
à 1949 – Conferência de Bogotá. Conferência que dá origem à OEA (Organização dos
Estados Americanos). Brasil participa ativamente da conferência. Nela, o Brasil
pressiona os EUA por um Plano Marshall para a América Latina, para alavancar o
desenvolvimento da região.

Relação com EUA


Missão ABBINK (1948)
Leva à criação de comissão técnica mista BR-EUA, incumbida de fazer estudos técnicos para alavancar
o desenvolvimento brasileiro. Leva o nome do técnico do governo americano, John Abbink. Mas ela é
muito frustrante (Monica Hirsch: VIP frustração como tônica para as relações bilaterais BR-EUA) para
o Brasil, pois não atende nossos interesses. O Brasil quer mais: financiamento, empréstimos, mais
investimentos, tratamento especial e diferenciado, Plano Marshall para a América Latina.

Ponto IV de Truman (1949)


O ponto IV aponta para que cabe, sim, aos EUA assumirem compromissos em favor do
desenvolvimento dos países periféricos. Isso converge de certo modo com a expectativa brasileira de
que os EUA vão ajudar em nosso desenvolvimento, com apoio, financiamento, cooperação técnica.
Não invalida, no entanto, a lógica prevalecente de frustração perante a relação bilateral.

Negociação para o estabelecimento de uma comissão mista BR-EU para o desenvolvimento (final de
1950)
Já com o presidente Vargas eleito; quem participa da negociação são pessoas já envolvidas com o
governo Vargas. Isso é diferente da comissão Abbink criada anos antes, que era mais voltada para
estudos. Essa é uma comissão mais prática, voltada para lançar projetos para o desenvolvimento e
arrecadar recursos para alavancar esses projetos. Essa comissão é fruto do ponto IV.

OBS: Ao fim do governo Dutra, o ministro Raul Fernandes entrega ao embaixador dos EUA no Rio de
Janeiro, Herschel Johnson, o “memorando da frustração”, que faz um resumo das relações bilaterais
durante o período do embaixador no Rio. O memorando traz os desapontamentos do país para com
os EUA; afinal, o Brasil sempre esperava mais dos EUA. Isso resumo bem a ideia da Monica Hirsch.

Argentina
à Diferenças profundas em face de Perón
Peron busca postura mais autônoma em relação aos EUA. Brasil, de Dutra, não. Não é um bom
momento para as relações Brasil-Argentina. Argentina era mais desconfiada de Washington.
à Terceira posição
Tentativa argentina de via média no contexto da Guerra Fria, não se subordinando nem aos EUA nem
à URSS. Contudo, na prática, sua posição tenha sido uma autonomia dentro do alinhamento, pois
Argentina se alinha de forma mais branda aos EUA. “Nem junkies nem marxistas: Peronistas”, frase
icônica de Perón.

1948 – Brasil estabelece relações diplomáticas com a Índia.


Brasil estabelece, logo após a independência da Índia, relações diplomáticas com o país.
Brasil atua como membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU (CSNU) entre 1947-48
Momento em que Brasil vai participar de muitas conferências e organismos internacionais. Há uma
ênfase no multilateralismo, mesmo com o Brasil profundamente alinhado aos EUA.

Governo Vargas (Getúlio Dornelles Vargas, 1951-54)

Vargas retorna democraticamente eleito. Em termos de PEB, há uma tentativa de retomada do


alinhamento negociado (termo proposto por Gerson Moura para se referir aos anos Vargas a partir
de 1939-40, momento em que o Brasil decide se alinhar aos EUA, mas negociando uma série de
vantagens; é um alinhamento negociado). Ao final da 2ª G. M., Brasil, por exemplo, de fato consegue
recursos financeiros para implementar a CSN. Quando Vargas retorna, em 1951, tenta retomar essa
mesma estratégia.

Acertos bilaterais para venda de minérios estratégicos


Brasil recebe em troca US$300 milhões. Os minérios eram fundamentais para o programa nuclear
norte-americano.

Entrada em funcionamento da comissão mista BR-EUA para o desenvolvimento (1951)


Negociação dela foi no âmbito do governo Dutra, mas ela começou a funcionar no primeiro ano do
governo Vargas. Trata-se de dado interessante, porque foi uma comissão muito positiva para as
relações bilaterais que lançou uma série de projetos e conseguiu uma série de recursos para o Brasil.

Assinatura do acordo militar BR-EUA (1952)


Acordo que permitiu ao Brasil reequipar as forças armadas, a partir do acesso ao armamento norte-
americano. Recebe, por exemplo, navios de guerra, equipamentos e armamentos usados pelos EUA
na 2ª GM. Sinal de convergência com Washington, o acordo suscitou críticas de alguns setores mais
nacionalistas da sociedade. Já havia uma grande polarização no Estado brasileiro: havia nacionalistas
de um lado e entreguistas do outro. Nacionalistas viam esse acordo como símbolo de subordinação e
subserviência a Washington – justamente em uma área sensível, como a de defesa militar. Não houve
contrapartida econômica, o que foi motivo de mais críticas; afinal, EUA não foi levado a financiar
projetos financeiros no país ou sequer a ampliar o apoio econômico ao Brasil. A relação com os EUA
começa então a se complicar a partir de 1952.

Obs.: para agradar setores nacionalistas, Vargas adota medidas que desagradam aos EUA,
principalmente em termos econômicos. Exemplos:

• Instrução 70 da SUMOC (Superintendência da Moeda e do Crédito) à à época, era a SUMOC


que cuidava da política monetária do Brasil, pois não havia Banco Centro. A Instrução 70
limitava a entrada de manufaturas estrangeiras no país que tivessem equivalentes nacionais.
Tratou-se de medida de finalidades protecionistas.
• Criação da Petrobrás (1953)
• Tentativa de limitação da remessa de lucros para o exterior à essa tentativa era por parte
de companhias estrangeiras instaladas no Brasil, com o objetivo de obrigar essas empresas a
reaplicar seus lucros em investimentos no país. Tratou-se de medida nacionalistas tomada por
Vargas em nome da indústria brasileira.

Apesar dos desencontros econômicos, o alinhamento continua, mesmo a partir de 1952-53, com os
impulsos nacionalistas de Vargas.

Exemplo de desencontro econômico:


à Extinção da comissão mista para o desenvolvimento (1953, Eisenhower). O ano de 1953 foi o início
da gestão de Eisenhower, nos EUA, que revogou o Ponto IV de Truman, pois o novo governo não
concordava com a necessidade de os EUA apoiarem o desenvolvimento do mundo subdesenvolvido.
Seu posicionamento levou à extinção da comissão supracitada, que havia sido um produto do Ponto
IV de Truman.

1954 – Apoio do Brasil à intervenção dos EUA na Guatemala


Levou à derrubada do então presidente guatemalteco, Jacobo Árbenz Guzmán, que possuía orientação
nacionalista; quem, por exemplo, em um processo de reforma agrária, tinha nacionalizado a United
Fruit Company, uma empresa norte-americana. EUA tinham medo das orientações nacionalistas do
presidente Árbenz e o acusavam de ser comunista, coisa que, na verdade, ele não era. A intervenção
apoiada pelo Brasil foi sob a acusação de evitar o avanço do comunismo na América Central.

Argentina
à Relações difíceis entre Brasil (Vargas) e Argentina (Perón)
Em parte, por conta da própria terceira posição da Argentina em relação à sua política externa. Não
havia coincidências de posição entre BR-ARG em termos de PE; muito pelo contrário. A Argentina de
Perón ficou apavorada com o acordo militar BR-EUA de 1952. Ela chegou a pedir um acordo militar
com o Brasil, mas o Brasil não topou. Houve também, por exemplo, a rejeição do governo brasileiro da
proposta do Pacto ABC de Perón. Pode-se dizer aqui, em verdade, que havia afinidades entre Vargas
e Perón – havia todo um background político que os aproximava, compartilhavam visões de mundo
que os aproximavam, seus históricos de lutas políticas os aproximavam, mas isso não foi suficiente
para melhorar as relações bilaterais BR-ARG, porque havia uma grande desconfiança no Brasil em
relação ao Perón e seu justicialismo. O Itamaraty, em grande medida, foi o responsável, pode-se dizer,
por não ter avançado a relação BR-ARG nesse momento, devido a seu caráter de ser a elite nacional,
a qual, evidentemente, não gostava do Perón. O próprio Perón, em carta a Vargas, acusou o Itamaraty
de ser o responsável pela deterioração das relações bilaterais.

Brasil não envia tropas para a Coreia, mas contribui com remessa de remédios e alimentos
Houve apoio material, mas não com tropas, com efetivo militar. A Guerra da Coreia é uma guerra sob
os auspícios da ONU. O próprio Secretário Geral da ONU solicita que o Brasil envie tropas para a Coreia.
Ao não fazer isso, o Brasil, apesar do alinhamento, frustra as expectativas norte-americanas.
Governo Café Filho (1955)

Com o suicídio de Vargas, haverá o curto governo do presidente Café Filho (1955), que irá revogar,
em parte, as medidas nacionalistas de Vargas. O governo Café Filho era de orientação liberal e o
presidente havia sido vice-presidente de Vargas.

Exemplo: Instrução 113 da SUMOC, que se contrapõe à Instrução 70 da SUMOC, trazendo a


possibilidade de importações e manufaturas, mesmo as que tivessem equivalentes nacionais.

E o governo Café Filho vai preparar o caminho para o governo seguinte, sobretudo quanto a termos
econômicos, de orientação liberal.

Governo JK (Juscelino Kubitschek, 1956-1960)

Do ponto de vista econômico


à Plano de Metas. Crescer 50 anos em 5; plano ambicioso para o Brasil.
à Mudança da capital para Brasília. O que significa um aumento importante de gastos
públicos, trazendo consequências, por exemplo, na relação com FMI.

Do ponto de vista da política externa


à Continuidade do alinhamento aos EUA. Exemplo: acordo, em 1957, para implantação
de base norte-americana de rastreamento de foguetes em Fernando de Noronha. O
arquipélago de FN já teve um peso na PEB (política externa brasileira). Foguetes
espaciais lançados da Flórida seriam rastreados a partir dessa base, o que daria uma
vantagem estratégica aos EUA em um momento de corrida espacial durante a Guerra
Fria.
à Envio de tropas para a operação de paz da ONU em Suez, Egito (1956). Envio acertado
com os EUA, em um sinal de diálogo com a ONU e os EUA.
à Obs.: há também desencontros econômicos com os EUA e países europeus.
1. Café. Os desencontros com os EUA se dão por conta do café. BR e EUA não
conseguem se acertar a respeito da definição do preço mínimo do café. EUA
são o principal mercado importador de café brasileiro. Houve um grande
aumento da oferta de café no mundo – por exemplo, Indonésia, Vietnam,
Colômbia –, que acabou levando a uma queda no preço. O preço mínimo que
os EUA propunham ficava muito abaixo da expectativa brasileira, o que levou
o Brasil a perder espaço de vendas nos EUA.
2. Criação da CEE (Comunidade Econômica Europeia) pelo Tratado de Roma de
1957. O que levou a comunidade à adoção de políticas protecionistas,
restritivas, de reserva de mercado na Europa, gerando desencontros
econômicos entre Brasil e países europeus.
3. Rompimento do Brasil com o FMI. Também desgasta as relações bilaterais
BR-EUA. Ato extremo decidido pelo Brasil em 1959; decisão do governo JK, por
não concordar com exigências do receituário apresentado pelos técnicos do
FMI em visita ao país, em 1958. Elevação da taxa de juros, arroxo salarial,
aumento de impostos, cortes de gastos públicos, foram algumas das medidas
propugnadas pelo receituário – e nada disso combinava com o plano de metas
e a transferência da capital para Brasília.

à Busca por mercados alternativos, diante da perda de espaço na Europa e nos EUA.
o Na América Latina. Criação da ALALC (Associação Latino-Americana de Livre
Comércio), em 1960.
o África
o Ásia. Exemplo: Missão Hugo Gouthier.

Pode-se reconhecer nessas medidas, diante da perda de espaço brasileiro nos mercados tradicionais,
o início da estratégia de diversificação de parcerias, que será consolidada apenas no governo
seguinte. Isso já é uma marca do final do governo JK. Exemplo: estabelecimento de relações comerciais
com a URSS (não se tratava ainda de relações diplomáticas, as quais haviam sido rompidas em 1947,
no governo Dutra) e com a RDA (Alemanha Oriental).

à EUA
o Proposta brasileira da Operação Pan-americana (OPA). A OPA foi proposta pelo
assessor especial da presidência para temas internacionais, Augusto Frederico
Schmidt. Poeta e escritor de profissão, amigo do presidente JK, Schmidt elabora
essa proposta, que pode ser resumida na seguinte ideia: “pobreza gera
subversão”. Seria preciso então aliviar e combater a pobreza na América Latina,
de modo a impedir o avanço da ameaça vermelha na região. A proposta brasileira
foi feita no momento em que o vice-presidente norte-americano à época, Richard
Nixon, acabava de tomar um susto ao viajar pela América Latina e encontrar fortes
manifestações contrárias à sua presença na região, chegando perto de morrer,
inclusive, o que o levou a perceber o ressentimento da região pelo descaso com
que os EUA a tratava. No âmbito de OPA, então, pediu-se o seguinte: empréstimos
mais generosos, com juros mais baixos; mais investimentos de empresas
americanas na região; proteção, em termos de preços mínimos, a produtos
exportados aos EUA; cooperação técnica norte-americana para o
desenvolvimento da região. A proposta da OPA, porém, foi recebida com frieza
pelos EUA, levando a poucos resultados práticos. Brasil não conseguiu o que pediu,
tendo recebido apenas prêmios de consolação, como, por exemplo, a criação do
BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), a partir das recomendações do
Comitê dos 21 no âmbito da OEA, um órgão ad hoc constituído no seio da OEA
para avaliar a proposta da OPA. Na conclusão de seus trabalhos, o C21 apontou
para a necessidade de se criar um banco como o BID (que existe até hoje, tendo
completado 60 anos de idade no ano passado). Esse banco financia projetos de
desenvolvimento no espaço das Américas. O Brasil, contudo, queria muito mais do
que isso: queria mais financiamentos, mais investimentos, preço mínimo,
cooperação técnica etc. O que resultou disso, mais uma vez, foi um clima de
frustração. No entanto, se a proposta brasileira tivesse sido feita um ano depois,
em 1959, a resposta norte-americana teria sido outra, certamente, pois nesse ano
ocorreu a Revolução Cubana, que foi um divisor de águas, uma vez que, a partir
dela, os EUA passaram a olhar para a América Latina com mais cuidado e atenção,
como uma área que merece de fato mais observação.
o Obs.: a Aliança para o Progresso, lançada por Kennedy, em 1961, resgata pontos
da OPA. É como se os EUA estivessem cedendo a posteriori aos apelos do Brasil.