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SÍNTESE

Português 12.º Ano – 2011/12

3.1.4. A fragmentação do eu / o tédio existencial


A tendência constante para a intelectualização conduz Pessoa a um permanente processo de autoanalise. A
dúvida e indefinição relativamente à sua identidade, a angústia do autodesconhecimento - "Por isso, alheio,
vou lendo / Como páginas meu ser" - levam o ortónimo a ser incapaz de viver a vida, mergulhando no tédio
e angústia existenciais, no desalento e no ceticismo mais profundos.
Vários acontecimentos na sua vida acentuam esse desencanto. A notícia da morte do seu grande amigo
Sá-Carneiro em Paris, em abril de 1916, por exemplo, abala-o profundamente, deprimindo-o ainda mais.
No entanto, Pessoa perseguiu insistentemente a felicidade que nunca atingiu, ou porque não encontrou
quem o entendesse, ou porque ele próprio não foi capaz de sair do turbilhão em que se enredou e de se
relacionar com os outros, de quem se sente irremediavelmente separado.
Insatisfeito com o presente e incapaz de o viver em plenitude, porque a fragmentação se instalou, Pessoa
anseia por vivencias, estados de ilusão, sonhos que possibilitem "coisas impossíveis". O desejo de viajar, de
ser o que não e, reflete a sua insatisfação permanente. Mesmo aquilo que esta próximo e" sentido como
longínquo. Vejamos os poemas:

"Viajar! Perder países!" - A permanente fragmentação do eu e reforçada pela metáfora que inicia o
poema:» a constante despersonalização;
• A inexistência de motivos para viver a vida;
• A solidão e a melancolia do sujeito poético.

"A aranha do meu destino" - Consciente de existir, o sujeito poético sente-se como uma presa de si
próprio:
• A metáfora da teia de aranha, como expressão do seu aprisionamento;
• O desconhecimento de si próprio;
• a consciência excessiva.

"Náusea. Vontade de nada." - O sujeito poético exprime:


• a desistência da vida;
• a incapacidade de agir;
• a imagem de um eu "espectador" da vida;
• o tédio de tudo.

"Tudo o que faço ou medito" - 0 sujeito poético confessa:


• a frustração resultante da dualidade "querer" / "fazer";
• o sentimento de náusea diante do que realiza;
• a contradição, o conflito interior entre a alma e o ser;
• a impossibilidade de concretizar os seus anseios.

Na poesia de Pessoa ortónimo proliferam, ainda, momentos em que o sujeito poético se assume como um
ser fragmentado - "Não sei quantas almas tenho. / Cada momento mudei. / Continuamente me estranho." -
um ser que se estranha a si próprio, contemplando-se de fora.
Aspetos temáticos Aspetos formais
• Arte poética pessoana marcada pela teoria do Fingimento • Linguagem simples e sóbria, a nível lexical e sintático;
poético; » intelectualização das emoções, do sentir; • linguagem de fácil entendimento, mas rica de sugestões (o
• obsessão pela autoanalise; inefável, as realidades imanentes, o êxtase);
• sofrimento resultante da dor de pensar; • remin iscências da lírica tradicional popular - repetições,
• distancia entre sonho e realidade; «desconhecimento de si rima interna, cru zada e emparelhada, métrica curta
próprio; (redondilha menor e maior), estrofes curtas (concisão da
• incapacidade de fruir a plenitude da vida; quadra ou quintilha);
• constante inadaptação a vida; • suavidade rítmica e musical;
• ansiedade metafísica; • uso de paradoxos2 , que traduzem a racionalidade excessiva;
• evocação da infância co mo símbolo de u ma felicidade mítica / • associações ousadas de vocábulos;
imaginaria e perdida; • recurso a imagens-simbolo.
• fragmentação do eu;
• tédio, angustia existencial, náusea, solidão interior,
melancolia.

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