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CURSO CLIO | DIPLOMACIA 360º | Módulo Hera 2020.

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DIREITO INTERNACIONAL
Prof. Guilherme Bystronski
AULA 1 | 28/01/2020
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Aula 01

Introdução ao Direito Internacional. Desenvolvimento do Direito Internacional Público. Definição.


Direito Internacional Público (DIP) e Direito interno.

Objetivo da aula

Apresentar a disciplina. Discutir as origens e o desenvolvimento do Direito Internacional. Fornecer


definição atual da disciplina. Analisar as teorias que se dedicaram a examinar as relações entre o DIP
e o Direito interno.

Pontos do edital abordados: 1


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Leituras Obrigatórias

• Celso – Capítulos I, II (menos o parágrafo 14), IV, e V (recomendado)


• Guido – Capítulos 1 e 10
• Accioly – Introdução, Definição e Denominação (logo no início), e Parágrafos 1.1 e 1.5
• Rezek – Introdução (parágrafos 1 e 3)

Leituras Avançadas

• Amaral Júnior – Parágrafos 1.1 a 1.3, 1.5, 1.7, e 1.8.


• Mazzuoli – Capítulo I da Parte I
• Portela – Parágrafos 1, 2, 3, 4, 6, e 8 do Capítulo 1 da Parte I

Leituras complementares em língua estrangeira

• Abass – Chapter 1
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Breve introdução

O curso começará com pontos iniciais cobrados no edital na parte de Direito Internacional Público,
doravante DIP. Como houve mudança no edital em 2019, na hora de reformular o programa alguns
pontos acrescidos e que estão na parte final do conteúdo programático de Direito Internacional (DI)
foram pinçados e colocados no contexto do módulo Hera. Quem fez o módulo Atena, perceberá que
alguns pontos que em teoria pertenciam a ele foram trazidos para o Hera: direito internacional do
meio-ambiente, direito do mar, direito do trabalho, por exemplo.

Objetivo deste curso: abordar todos os pontos que podem ser abordados no contexto da prova.
Trabalhar com a matéria a respeito da qual, na prática, é possível adquirir conhecimentos com a leitura
das obras mencionadas na ementa. Diferença: demoraria anos para conseguir por conta própria o grau
de aprofundamento que se pretende trabalhar aqui. Em vez de estudar por conta própria, fazendo as
devidas comparações, vendo como tudo é cobrado, checando as questões de prova, entre outras
tarefas, a proposta do curso é fazer tudo isso para os alunos e trazer especificamente o que se precisa
no dia da prova. A grande vantagem daqui é poupar tempo de estudo. A grande finalidade é poupar o
tempo. O que demoraria 3, 4, 5 anos, faz-se aqui em 6 meses, 1 ano.

A ementa é a melhor amiga, deve-se estar sempre atento a ela, a fim de se acompanhar as aulas e os
temas. É importante também ver a aula introdutória, na qua dou informações mais detalhadas sobre
o curso e a ementa. Os que não desistem no contexto CACD acabam passando; o maior inimigo é o
tempo.

As aulas de DIP: no início, é comum que os alunos tentem realizar as leituras para depois assistir às
aulas. Ao final, invertem a ordem, o que recomendo. Isso se deve ao fato de a aula ser mais amarrada
e mais sucinta, o que ajuda a compreender a doutrina. Depois, como se verá, ter-se-á o caderno como
leitura principal.

Direito Internacional Público (DIP)

Cabe tecer comentários sobre o termo DIP. Por que denomina-se DIP, e não Direito das Gentes, como
alguns autores ainda usam? De onde surgiu? E por que hoje é a designação mais utilizada no Brasil?
O termo surge pela primeira vez no final do século XVIII, em 1780, e o responsável intelectual, o jurista
responsável por utilizar essa denominação foi um britânico chamado Jeremy Bentham, em uma obra
chamada Uma introdução aos princípios da moral e da legislação.

Paulatinamente, ao longo do século XIX, essa expressão substituiu, nos países de línguas latinas e que
empregam o inglês, a antiga terminologia Direito das Gentes, que era a principal expressão utilizada
até então e que deriva do ius gentium latino.

No Brasil, é a expressão Direito Internacional a mais utilizada. Hoje, ainda podemos empregar a
expressão antiga? Sim, sem problema algum. Pode-se fazer isso em questão discursiva do CACD, sem
qualquer prejuízo — ambas as expressões são sinônimos perfeitos. Pode ser uma estratégia de prova,
para evitar repetição de termos. Direito das Gentes, portanto, é sinônimo de DIP.

Como se disse, a expressão DG remonta linguisticamente ao ius gentium do Império Romano. No


entanto, o ius gentium no Império Romano não era formado por normas de natureza internacional
como encontramos hoje; era formado por normas de direito romano, normas então de direito interno,
que podiam ser aplicadas às relações dos romanos com os povos com quem possuíam fronteiras. Não
era formado propriamente por normas internacionais. Não obstante, sua utilização podia ocorrer em
prisma não necessariamente interno em Roma. O ius gentium era direito internacional como
conhecemos hoje? Não, era direito interno no contexto do Império Romano. Não obstante, o modelo
“internacional” do ius gentium acabou determinando o que posteriormente vieram a ser as regras
internacionais que regulam as relações entre os povos.

Normas internacionais existem desde quando os povos começaram a se relacionar uns com os outros.
Na época de Roma, por exemplo, não havia direito internacional? Sim, havia. Na forma como o
conhecemos hoje, no entanto, o DI passou a existir apenas posteriormente. Mas a existência de
normas internacionais, no contexto das relações internacionais, remonta a desde o momento em que
os povos começaram a se relacionar uns com os outros, há tempos bastante remotos na história da
humanidade. A primeira referência quanto a existência de um tratado no âmbito das relações
internacionais remonta a 3100 a.C., na região da Mesopotâmia. Essas normas internacionais teriam
espaço no contexto do atual DI? As normas que formam o atual DI começaram a existir há tanto tempo
assim? Não.

As normas internacionais que formam o atual DIP possuem origem bem mais recente. O grande marco
que a doutrina assinala para que pudesse haver a criação dessas normas internacionais são os Tratados
da Westfália, de 1648, que colocaram fim à Guerra dos Trinta Anos. Trata-se de um marco
importantíssimo dentro do processo de criação do atual DIP.

O que esses tratados estabeleceram de tão importante para que a partir deles surgissem as normas
que formam o atual DIP? Foram eles que solidificaram de forma definitiva a figura do Estado Moderno
como principal ator nas relações internacionais. Até a Paz de Westfália, havia, no contexto de relações
internacionais, outros polos importantes de poder que competiam com o estado moderno; exemplo,
a Igreja Católica, o Sacro Império Romano-Germânico. Aí, com os tratados mencionados, surge o
Princípio da Igualdade Soberana, que passa a ser a base principal no que se refere à organização da
sociedade internacional. Esse princípio é fundamental, pois com base nele pode-se afirmar que os
estados se consideram iguais entre si e não reconhecem contra sua vontade nenhuma autoridade
superior. Eis a base sociológica fundamental na sociedade internacional para que se pudesse começar
a surgir as normas que encontramos hoje no contexto do atual DI. Nesse sentido, a existência de uma
pluralidade de estados soberanos é uma base sociológica fundamental para a criação das atuais
normas internacionais. Como se pode ver, nosso atual DIP não é tão antigo assim então; possui mais
ou menos 350, 400 anos, não mais que isso.

Pergunta de aluno: O processo se deu de maneira igual no mundo ocidental e oriental? Não. Até o
século XIX, o direito internacional que conhecemos era exclusivamente eurocêntrico. Ele torna-se de
âmbito global apenas no contexto do século XX. Existiam outras normas internacionais que regulavam
outras partes do globo terrestre? Sim, sempre existiram. Mas o DIP que estudamos tem origem na
Europa.

Pergunta de aluno: Desde a Westfália já havia a vontade de as normas terem alcance global? Sim e
não. Os estados europeus reconheciam apenas a si mesmos como entidades soberanas, não
reconhecendo outras partes do mundo como iguais, fato que justificou a corrida imperialista. Por outro
lado, sim, porque a ideia do direito internacional sempre pode reconhecer regras de conduta entre os
povos participantes. Mas em matéria de soberania, não; foi necessário chegar no século XIX e XX para
que países das Américas, África e Ásia pudessem ser reconhecidos como estados soberanos.

Pergunta de aluno: A ONU não seria uma forma de os estados abrirem mão de sua soberania em prol
de um organismo maior? Não. A questão da igualdade soberana é os estados não poderem contra sua
vontade aceitar os desígnios de um poder superior. Voluntariamente, no entanto, eles podem adotar
medidas nesse sentido.
Pergunta de aluno: O princípio é muito violado atualmente, não? Sim. O direito penal brasileiro é muito
violado também; mas por esse motivo deixa de ser direito penal? Não, continua a ser direito penal,
apesar disso. O fato de a norma ser violada não implica sua não obrigatoriedade. O fato de a norma
existir, inclusive, é o que possibilita reconhecer que ela está sendo violada. Vamos deixar essa
discussão mais para frente.

A Paz da Westfália ocorreu em 1648, mas Bentham só criou a expressão direito internacional em 1780.
O que aconteceu nesse meio tempo para migrar de direito das gentes para DI? Por que DI no final do
século XVIII, e não seguir utilizando a expressão anterior? Em 1780, Bentham queria sinalizar, com o
uso da nova expressão, que estava trabalhando com um direito responsável por regular as relações
entre os países/Estados. Indivíduos são relevantes apenas no contexto em que se encontram em
Estados. Por isso, em inglês, o uso da expressão international law; Bentham trabalhava com um direito
entre nações. Até hoje, quando pensamos em internacional, trata-se de um contexto que envolva dois
ou mais países. Bentham então foi um revolucionário? Não, era um indivíduo do seu tempo, refletia
uma realidade no contexto do estudo do direito internacional que ganha força no final do século XVIII
e vai até o início do XX.

Por que se passa a dizer que esse direito é um direito entre Estados? No que se refere ao surgimento
das normas internacionais, filosoficamente duas doutrinas preocuparam-se em explicar como ocorre
esse fenômeno: o Positivismo Jurídico e, em oposição a ele, o Jusnaturalismo. O que historicamente
defendem os positivistas em oposição aos jusnaturalistas? Para os positivistas, somente aqueles
fenômenos que podem ser empiricamente verificados teriam relevância no contexto de uma
investigação científica. Tudo que não pudesse ser verificado na prática não seria relevante. Afirmavam
o seguinte: quais normas internacionais no contexto de DIP podem ser empiricamente verificáveis?
Normas que podem ser vistas como obrigatorias são normas criadas no âmbito das relações entre os
Estados; outras normas internacionais, advindas da religião, da moral, não seriam relevantes dentro
do estudo de DIP, pois não seriam empiricamente comprováveis. Para o positivismo jurídico, as normas
internacionais seriam aquelas criadas pelos Estados, aplicáveis às relações interestatais e que gerariam
direitos e obrigações somente para eles.

Se isto é o Direito Internacional — um direito criado entre os Estados, para conferir relações e
obrigações entre Estados — então não deveria ser chamado de direito das gentes. Na medida em que
o positivismo jurídico foi a principal explicação nessa seara do final do século XVIII até o início do XX,
ora, o direito internacional era realmente visto como direito entre Estados.
Se um indivíduo praticasse um crime internacional, ele poderia responder em um tribunal
internacional? Não; as relações eram apenas entre os Estados. Ele deveria ser levado aos tribunais
internos de seu país. O indivíduo passa a ser sujeito de direitos internacionais a partir de meados do
século XX apenas. Até a metade do século passado, apenas o Estado era sujeito de direitos
internacionais.

Ao longo do século XX, então, os Estados perdem o monopólio que tinham quanto ao DI. A novidade
passa a valer para indivíduos, organizações nacionais, movimentações internacionais, beligerantes e
insurgentes, entre outros. A partir de meados do século XX, pode-se afirmar que o positivismo perde
força enquanto explicação filosófica no que tange a explicação de normas internacionais.

O jusnaturalismo volta então a obter relevância nas discussões que envolvem o DI. Para os
jusnaturalistas, a criação do DI não decorre exclusivamente da vontade dos Estados. Outras
considerações, inicialmente de ordem religiosa, mas posteriormente baseadas na razão humana, e
considerações de humanidade limitam o que os Estados podem fazer. Sempre existiu um limite natural
para a soberania dos Estados, para os jusnaturalistas. Ius cogens: hoje há normas internacionais cuja
obrigatoriedade não depende em momento algum da vontade de Estado específico; é o principal limite
à soberania dos Estados. E não mais é correto dizer que o DI baseia-se exclusivamente no positivismo;
hoje ele também se baseia em concepções jusnaturalistas. Pode haver a formação de uma norma ius
cogens contra os Estados particulares? Pode. Hoje o DI prevê a existência de normas contra os Estados
em determinadas situações para proteger valores fundamentais.

Atualmente, precisa-se entender o DI como algo mais amplo na prática, que envolve mais Estados.
Com o enfraquecimento da concepção positivista, os Estados deixaram de ser considerados como
sendo os únicos capazes de criar novas normas internacionais. Nos dias de hoje, a criação do DI não
decorre puramente da vontade estatal; se ele ainda é criado principalmente pelos Estados, há outras
pessoas, no entanto, que podem participar de sua criação. Ao lado dos Estados, encontramos,
atualmente, diversas outras pessoas que podem participar diretamente na criação do DI e obter
direitos e obrigações com base em suas normas. Quem são essas pessoas? São aqueles a quem
chamamos de sujeitos de direito internacional público. Como tais, ao lado dos Estados, encontram-
se as organizações internacionais, os movimentos de libertação nacional, os beligerantes e
insurgentes, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, entre outros. O DI hoje é tecnicamente um
direito internacional entre Estados? Não mais; foi no passado. Hoje é muito mais do que isso, como se
pode ver. A terminologia (DI), portanto, é insuficiente para explicar na prática o que realmente hoje é
o DI. Qual seria então a melhor expressão para denominar o DI hoje? Direito das Gentes, porque é
muito mais abrangente.

Cabe ressaltar o seguinte: nos países de línguas latinas, há ainda uma divisão entre Direito
Internacional Público e Direito Internacional Privado. Outros países não necessariamente trabalham
com essa divisão. Por exemplo, em inglês fala-se em international law para DIP e conflicts of law para
o que chamamos de Direito Internacional Privado. Qual é o verdadeiro DI? O público, acerca do qual
até agora trabalhamos. São suas normas que regem hoje as relações internacionais e outras coisas
nesse sentido. Na aula 3, haverá uma explicação sobre o que é o Direito Internacional Privado, o qual
não se destina a regular as relações internacionais; destina-se a equacionar conflitos entre interesses
privados, quando presente um elemento de estraneidade – ver-se-á tudo isso na aula 3. A prova do
CACD é uma prova de Direito Internacional Público, apesar de em 2019 ter caído uma questão de
Direito Internacional Privado.

A melhor expressão hoje seria Direito das Gentes, ressalta-se. Em alemão, por exemplo, a designação
mais utilizada é Völkerrecht, que significa exatamente isso. Vamos trabalhar então agora com a
definição do atual DIP. Como podemos defini-lo? Como podemos saber o que é, para o que serve, como
funciona? Definições nesse contexto, há várias; cada autor possui a sua. Em primeiro lugar, a definição
não pode ser muito longa; precisa ser enxuta, precisa permitir expor seu essencial. Trabalha-se, nas
aulas, com a definição da obra do professor Celso Mello. Se se procurar uma definição em qualquer
outra obra, encontrar-se-á outras, como já se disse. Para Celso Mello, o DIP é o conjunto de
normas/regras que regula as relações exteriores entre os atores que compõem a sociedade
internacional. Trata-se de uma definição elegante; ela é enxuta, não muito extensa e, em seu bojo,
traz o que é essencial. DIP não se confunde com o direito interno dos Estados; mas o próprio Celso
Mello afirma que cada vez mais o DIP penetra no âmbito interno dos Estados, disciplinando temas que
eram considerados de sua jurisdição doméstica. Na prática, precisamos ter isso em mente. Um
exemplo disso são as normas de direitos humanos. Durante séculos, eram vistas como questão de
jurisdição doméstica de cada Estado. Após a 2ª GM, contudo, verificou-se que tal sistemática era
insatisfatória — era necessário que no DI houvesse patamares mínimos sobre direitos humanos que
os Estados aplicassem em âmbito interno.

Sempre diferenciar entre atores internacionais e sujeitos de DI. Aqueles não necessariamente são
sinônimos destes. Atores internacionais são todos os que influenciam com suas atividades de alguma
forma as relações internacionais. As ONGs hoje são importantes atores internacionais? Certamente.
Empresas internacionais, como Nestlé, Coca-Cola, têm influência nesse contexto nas relações
internacionais? Têm. Empresas transnacionais também são hoje importantes atores nas relações
internacionais. Mas por serem atores internacionais de relevância são considerados como sendo
sujeitos de direitos internacionais? Não. Uma coisa é ser ator internacional, outra é ser sujeito de
direito internacional. Os sujeitos de direitos internacionais são somente pessoas capazes de titularizar
direitos e obrigações segundo o DIP. Até o início do século XX, em verdade, sujeitos de DIP eram apenas
os Estados; hoje, como vimos, há outros exemplos, mas nem todo e qualquer ator internacional pode
ser rotulado como tal. Um sujeito internacional, por exemplo, pode ratificar tratados, no que tange
suas relações internacionais. Pode uma ONG fazer o mesmo? Não. E uma empresa transnacional?
Também não. Elas não têm capacidade de estabelecer relações diplomáticas com os Estados.
Apenas em situações peculiares atribuem-se a esses agentes uma ou outra relação de sujeito
internacional, o que será visto posteriormente. Importante: a banca do CACD já sinalizou, já disse que
esses atores não são sujeitos anteriores. O DI gera somente de forma indireta algumas consequências
para quem não é sujeito de DI.

Vamos trabalhar agora a definição. Vamos explicar por que hoje se fala em sociedade internacional e
não em comunidade internacional. Se colocar na prova comunidade internacional está errado? Não.
Mas tecnicamente existe uma diferença entre sociedade e comunidade, e com base nessa diferença
pode-se afirmar que ainda existe somente uma sociedade internacional.

Pergunta de aluno: A ONU pode ser considerada sujeito de DI? Sim, a ONU, assim como Mercosul, UE,
OMC e outros, podem ratificar tratados, sendo exemplos de sujeitos de DI.

Pergunta de aluno: E em relação aos indivíduos? Como podemos classificá-los na atualidade? Indivíduo
claramente é sujeito de DI. O Rezek diz o oposto, no entanto; porém, ocorre que sua posição é
minoritária e não é considerada pela banca do CACD; ou seja, deve-se ignorar seu posicionamento. É
importante o candidato basear suas respostas em mais de uma leitura para o CACD; um livro só não
basta, recomenda-se de dois a três livros. Ou então utilizar os cadernos da disciplina, acompanhado
das leituras indicadas.

Quando se trabalha com o termo comunidade, percebe-se que o termo pressupõe a existência de
laços espontâneos e subjetivos de identidade que aproximam seus membros. Esses laços podem ter
origem social, cultural, religiosa etc. Os membros consideram pertencer, por conta da existência
desses laços, à comunidade em questão. Por exemplo, pode-se falar em uma comunidade de países
latino-americanos, de países europeus etc. No âmbito internacional, falar em comunidade
internacional seria correto tecnicamente dizendo? Não muito. Ocorrer que há mais fatores que
diferenciam membros do que fatores que os aproximam, em termos de comunidade internacional.

Hoje, pode-se afirmar que existe somente uma sociedade internacional. Há somente, em verdade,
uma gesellschaft (o termo alemão é irrelevante para a prova). Valores que unem seus membros são
mais tênues; os laços são normalmente baseados na vontade dos participantes. Aqui, os membros
participam da sociedade internacional. Acreditam pertencer de forma intrínseca a ela? Não
necessariamente. Eles apenas participam dela. É mais frouxo, então, o grau de conexão que existe no
âmbito de uma sociedade internacional do que aquele que existe no de uma comunidade
internacional. Mais uma vez, se cair em prova comunidade internacional, isso não está errado; chama-
se atenção apenas para a diferença técnica entre ambos os termos.

Ponto final da aula de hoje: relações entre o DIP e o Direito Interno dos Estados. Vamos começar
essa discussão agora e travá-la em toda a próxima aula. Esse tema é particularmente importante
quando? Quando uma norma internacional possui o mesmo conteúdo de uma norma interna, temos
problema nesse sentido? Não. O problema surge quando há um conflito entre as duas normas. Aí surge
a problemática que motiva as discussões entre DI e direito interno. Havendo, então, conflito entre uma
norma internacional e uma norma interna, qual delas deve ser aplicada? Essa é a grande questão.

DIP e Direito Interno. Há duas grandes doutrinas que, historicamente, se destinaram a examinar as
relações entre DIP e Direito Interno: Dualismo x Monismo. Tecnicamente, essa discussão, hoje, é uma
discussão de escola, sem relevância em matéria de aplicação ao DI. É importante, no entanto, conhecer
essa distinção, porque às vezes ela cai em concurso público e ela está no edital do CACD.

Dualismo: para os dualistas, o DIP e o Direito Interno dos Estados constituíam ordens jurídicas
completamente independentes entre si. Em outras palavras, de forma mais prosaica, pode-se dizer
que uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa; são completamente diferentes. Jamais haveria
um espaço de aplicação comum entre normas internacionais e normas internas. No máximo, o DIP
poderia tangenciar o Direito Interno dos Estados; mas jamais poderia haver uma zona comum entre
ambos. O DI regula as relações internacionais; o Direito Interno, as internas entre os Estados. Pode
uma norma internacional viger em âmbito interno? Não. E o contrário? Também não. Nesse sentido,
as normas internacionais destinam-se assim a reger as relações internacionais e as normas internas
disciplinam as relações no interior dos Estados. Qual a razão para isso? Para os dualistas, as normas
internacionais disciplinam relações de coordenação e horizontais entre Estados, enquanto as normas
internas governam relações de subordinação e verticais entre Estado e particulares. Qual é a
consequência disso? Cada norma regula suas relações específicas. Qual é a única forma pela qual uma
norma internacional pode regular relações internas? Apenas se ela for transformada em direito
interno. E vice-versa: uma norma interna para regular relações internacionais precisa ser transformada
em norma internacional. Como acontece essa transformação? Antecipando a temática da próxima
aula, essa transformação pode ser absoluta ou relativa. E é nesse contexto que se fala hoje na
possibilidade tanto de um dualismo radical quanto de um dualismo moderado. Volta-se a isso na
próxima aula. Que transformação a norma internacional deve sofrer para virar direito interno? Se se
acredita que a transformação deve ser absoluta, fala-se em um dualismo radical. Se se acredita que a
transformação se dá apenas em partes, aí fala-se em dualismo moderado.

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