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Democracia representativa, conflito e justiça em

J. S. Mill.

Gustavo Hessmann Dalaqua


e-mail: gustavodalaqua@yahoo.com.br
Doutorando no Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), São Paulo, SP, Brasil

Resumo: Este artigo busca pensar a relação entre democracia representativa, conflito e justiça na filosofia de J. S. Mill.
Para tanto, iremos, primeiro, reconstruir o conceito de democracia representativa apresentado em Considerations
on Representative Government. Segundo Mill, a democracia representativa deve esmerar-se para jamais esgotar o
conflito político. A divisão do poder político entre diferentes grupos sociais impede a prevalência irrestrita de apenas
um único grupo e promove, por conseguinte, a justiça – isto é, o respeito dos direitos morais de todos os indivíduos.
Tal concepção de poder, veremos, envolve uma relação dialógica entre representante e representado. Para que um
governo representativo seja de fato democrático, o poder político não pode restringir-se às instituições jurídico‑estatais.
Para Mill, a comunicação entre o debate público que ocorre dentro e fora das instituições governamentais é o
fundamento do poder político em uma democracia representativa.
Palavras-chave: democracia representativa; justiça; conflito; poder; democracia participativa; John Stuart Mill.

Representative Democracy, Conflict, and Justice in J. S. Mill.

Abstract: This article seeks to analyze the relationship between representative democracy, conflict and justice
in J. S. Mill’s philosophy. Hence, we shall first reconstruct the concept of representative democracy presented in
Considerations on Representative Government. According to Mill, representative democracy must do its best to
preserve political conflict. The division of political power among different social groups precludes the unbounded
influence of only one group and thus promotes justice – that is, the respect of all individuals’ moral rights. As we shall
see, such a conception of power entails a dialogical relationship between representatives and their constituents. If a
representative government is to be democratic, political power should not be confined to juridical or state institutions.
For Mill, the communication between the public debates that unfold inside and outside governmental institutions
is the foundation of political power in a representative democracy.
Keywords: representative democracy; justice; conflict; power; participatory democracy; John Stuart Mill.

Publicado em 1861, Considerations on Representative Government é, dentre as obras políticas de Mill,


a mais extensa. Em linhas gerais, os capítulos iniciais do livro têm por meta (i) estabelecer critérios de
retidão para o governo – isto é, para a instituição política – e (ii) responder à questão primacial da filosofia
política: a investigação acerca do bom regime. Com relação à primeira tarefa, Mill afirma que o bom governo
é aquele que promove “a administração da justiça [...], a virtude e a inteligência do povo” (MILL, 2008
[1861], pp. 225-6). Já no que diz respeito à segunda, afirma que o melhor regime seria, nas circunstâncias
modernas, a democracia representativa. Para Mill, a democracia representativa é preferível às demais formas
de governo porque maximiza a chance que cada cidadão tem de participar na política.1 Como veremos, a

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participação política seria na visão de Mill essencial para o desenvolvimento humano, sendo por isso que
todos os indivíduos deveriam participar da deliberação pública (Idem, p. 255).

O elogio à forma representativa do governo, evidentemente, não é indiscriminado. Antes, o que Mill
propõe em Representative Government é um tipo específico de democracia representativa, tão específico a
ponto de não contemplar quase nenhuma das democracias representativas modernas (a Holanda sendo
provavelmente a única exceção).2 A democracia representativa vislumbrada por Mil diferencia-se das demais
porque advoga, concomitantemente, o voto plural e a proporcionalidade da representação. Segundo Mill,
a conjunção de ambas as medidas garantiria a manutenção da justiça. No que segue, nosso propósito será
explicar por que a representação proporcional e o voto plural seriam arranjos institucionais conducentes
à justiça.

Mill começa a introduzir as ideias do voto plural e da representação proporcional a partir do capítulo sete do livro
sobre o governo representativo, intitulado “Of true and false democracy: representation of all, and representation of the
majority only”. Como o título deixa claro, o propósito do autor aí é oferecer uma distinção entre o que julga ser a
verdadeira democracia representativa – a saber, aquela que efetivamente representa todos – e sua forma degenerada,
que só representa e atende aos interesses do grupo que se faz reconhecer como a maioria.

Para assegurar um governo representativo verdadeiramente democrático, Mill propõe um esquema


proporcional de representação. “É parte essencial da democracia que todas as minorias sejam adequadamente
representadas” (MILL, 2008 [1861], p. 307). Na definição do autor, “a verdadeira democracia” seria
o “governo de todo o povo por todo o povo [of the whole people by the whole people] – igualmente
representado” (Idem, p. 302). Na contramão dos liberais franceses do seu tempo, Mill sustentava que o
governo representativo não deveria ser defendido em oposição à democracia (URBINATI, 2002, cap. 1).
Ao longo do século XVIII, em ambos os lados do Atlântico, a maior parte dos revolucionários receava em
aplicar o rótulo “democracia” a seus recém-criados governos representativos (ROSANVALLON, 2007).
Para eles, a democracia designava um governo licencioso e tumultuoso, sendo por isso que aproximar o
governo representativo da democracia lhes parecia como que um insulto. O desdém dos defensores do
governo representativo com relação à democracia só começaria a ser desafiado no século seguinte.

O século XIX foi, com efeito, um período em que se formularam diferentes concepções de representação
política e, embora a versão não-participativa e elitista tenha sido a vitoriosa, assumir sem mais a validade
da polarização entre participação e representação implica “naturalizar e dissimular o processo histórico
de monopolização do vocabulário da representação pelos partidários do governo representativo, que se
forjou contra outros usos do conceito de representação” (HAYAT, 2013, p. 116). Filósofos como Constant e
Guizot, por exemplo, insistiam que o governo representativo deveria ser teorizado em oposição à democracia
e a alta participação que esta demandava. Distanciando-se deles, Mill optou por ressignificar o conceito
de democracia de modo a torná-lo compatível com a representação. Ao incluir a ideia de representação
equânime dos cidadãos na própria definição de democracia, Mill tinha por fito não só defender e resgatar
o termo “democracia” como também descontruir a antítese representação vs. participação.

A fim de garantir uma representação equânime dos cidadãos, Mill sugere a adoção de um sistema de
votação plural (plural voting), que conferiria maior peso ao voto do cidadão mais instruído:
Em todas as questões humanas, toda pessoa diretamente envolvida, que não esteja sob tutela positiva, tem direito
a uma voz [...]. Mas embora seja certo que todos devam ser ouvidos — que todos devam ser igualmente ouvidos é
uma proposta totalmente diferente. Quando duas pessoas com um interesse comum em algum assunto defendem

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opiniões diferentes, a justiça exige que as duas opiniões sejam consideradas de igual valor? Se, com virtudes iguais,
um é superior ao outro em sabedoria e inteligência – ou se, com inteligência igual, um é superior ao outro em
virtude – a opinião e o julgamento do sujeito moral ou intelectualmente superior valem mais do que os do ser
inferior [...]. Uma destas duas pessoas, por ser a melhor ou a mais sábia, pode reivindicar maior peso [à sua voz]
(Idem, p. 334).

Algumas páginas antes, Mill enfatizara que a representação proporcional se instituía no afã de salvaguardar
a verdadeira democracia, aquela em que todos seriam igualmente representados. Agora, como complemento
à representação proporcional, o filósofo exige que os votos não sejam distribuídos igualmente. À primeira
vista, nota-se uma tensão: se Mill é a favor da representação equânime de todos, como entender o fato de
que sua filosofia concede a alguns um maior número de votos?

Posto que antimajoritário, o esquema de votação plural proposto por Mill não é antidemocrático. Pelo
contrário, o valor mais alto que atribui ao conhecimento e à virtude nas questões políticas, e inclusive as
instituições que elabora para o governo, são de forte influência democrática, sobretudo em sua vertente
ateniense (RILEY, 2007 e URBINATI, 2002). Além do mais, o voto plural pode ser defendido como uma
medida democrática porque, embora seja contra uma visão puramente numérica da paridade participativa,
ele não é contra a paridade participativa per se. Que a voz dos diferentes participantes da assembleia política
não seja pesada de modo numericamente igual não nega que todos participantes devem, em princípio,
deliberar em pé de igualdade.

Nesse sentido, a defesa de um sistema de votação plural revelaria uma desconfiança, por parte do autor,
de que procedimentos formalmente igualitários bastassem para produzir resultados igualitários concretos
(URBINATI, 2002, p. 94). Igualdade de jure não gera, necessariamente, igualdade de facto. O argumento
por trás da proposta de Mill é o de que, por vezes, é preciso desigualar para igualar. Dependendo do caso, a
mera presença de um grupo minoritário na assembleia política não é suficiente para lhes assegurar paridade
participativa. Em um país onde a maioria da população é preconceituosa e ignorante – seria, de acordo com
Mill, o caso da Inglaterra vitoriana (MILL, 2008 [1859], p. 78) –, conferir valor idêntico ao voto de cada
participante tenderia a condenar ao silêncio a voz das minorias. Na prática, o resultado final seria um debate
político sem diversidade efetiva, no qual a mesma massa homogênea prevaleceria sem nenhum contrapeso.

Mill esclarece, todavia, que suas propostas não têm por objetivo conceder demasiado poder às minorias,
uma vez que isso poria em xeque o caráter democrático do governo representativo. A quantidade de votos
concedida às minorias não poderia ser tal que lhes possibilitasse não ter de levar em conta a perspectiva dos
opositores. É próprio da democracia que “a maioria [...] tenha mais votos e prevaleça sobre a minoria”, e
para Mill isso não é um problema (MILL, 2008 [1861], p. 303). O problema é quando essa maioria adquire
tamanha força a ponto de poder tomar suas decisões sem nem ter de consultar ou considerar a posição
dos outros grupos. Tal quadro representaria uma ameaça à democracia porque bloquearia a participação
de todos os grupos sociais no processo político. A democracia exerce-se em um processo deliberativo
no qual as vozes de todos os grupos sociais são ouvidas e sopesadas, e é por essa razão que Mill advoga a
representação proporcional e o voto plural.

No caso do voto plural e da representação proporcional, convém salientar que Mill deliberadamente se
nega a fechar os pormenores de suas propostas. Ele afirma que não lhe é lícito impor de antemão as minúcias
do voto plural (Idem, p. 337). Tudo o que diz é que aqueles com maior conhecimento das circunstâncias e
com mais virtude merecem maior peso no seu voto. Porém, Mill se recusa a estabelecer o grupo específico
da população que, em determinadas circunstâncias, pode atender a este critério e a quantidade de votos
a mais que eles merecem. Tais minudências, escreve o autor, “estão abertas a muita discussão” (Ibidem).

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O mesmo acontece com a representação proporcional. Ao apresentar a ideia no capítulo sete, Mill não
determina a proporção exata dos grupos que comporão a assembleia representativa e tampouco estipula o
funcionamento da proporcionalidade almejada. Embora teça elogios à teoria da representação proporcional
de Thomas Hare e mostre-se favorável à sua adoção, não fica claro qual parte desta extensa teoria lhe parece
certo adotar (Idem, p. 313). Longe de ser uma falha, o caráter aberto das prescrições millianas é um traço
típico de toda teoria democrática coerente (THOMPSON, 1976, p. 182). Um teórico da democracia que
não oferece aos participantes políticos o poder de ordenar as instituições que os circundam não poderia,
com efeito, considerar-se democrático.

Além disso, Mill não fixa o quadro da representação proporcional que almeja porque semelhante atitude
suporia uma visão estática dos grupos sociais. Esta não é, contudo, sua posição. Como o terceiro capítulo
de On Liberty evidencia, Mill não tem uma visão estática das identidades individuais e coletivas; logo,
não é adequado ler sua teoria da representação proporcional como uma tentativa de tornar a assembleia
representativa um espelho de uma realidade demográfica inalterável. Para Mill, o representante não deve ser
simplesmente uma cópia de seu constituinte. O papel do representante é dar voz aos interesses e preocupações
dos cidadãos com os quais se identifica e advogá-los à luz das perspectivas dos representantes que foram
eleitos por outros constituintes. Sua identificação apaixonada com os interesses de um determinado grupo
não deve, contudo, torná-lo indiferente a interesses alheios. O representante deve saber sopesar as objeções
dos outros grupos sociais que lhe são apresentadas na assembleia, não sendo por isso razoável exigir-lhe
uma postura dogmática que insiste em permanecer inalterada ao longo do processo deliberativo.3

Em “Rationale of Representation (1835)”, artigo de juventude dedicado ao tema da representação política,


Mill também é lacônico na hora de determinar os detalhes da proporcionalidade que defende. Tudo o que
diz é que esta funcionaria à maneira de uma “representação de classes” (CW XVIII, p. 45).4 A assembleia
representativa deveria ter “uma composição a mais diversa possível [...], de modo que o desvario [twist]
de uma pessoa seja neutralizado pelo desvario de outra” (Ibidem). Os desvarios ou distorções a que Mill
alude resultariam de uma visão parcial do representante, que, limitado por sua perspectiva de classe, não
conseguiria identificar o “interesse geral” da nação (Ibidem).5 A ideia de que a representação proporcional
dos grupos sociais divergentes seria boa porque neutralizaria os eventuais exageros que cada um adotaria
na ausência do outro é algo que, veremos, permanece no pensamento político maduro de Mill.

Como exemplo de visão parcial que um representante pode ter, Mill cita o caso dos parlamentares das
classes mais abastadas quererem negar a participação dos operários na assembleia representativa (Ibidem).
A questão da representatividade política dos trabalhadores era um tema controverso na Inglaterra do século
XIX. Uma das consequências imediatas da adoção da representação proporcional milliana seria a entrada
maciça de representantes proletários no parlamento, uma vez que os operários consistiam na maior parte
da população inglesa (THOMPSON, 1976, p. 176). Obviamente, os parlamentares das classes mais ricas
eram contra tal medida, pois, se aprovada, eles não mais poderiam legislar sobre as questões trabalhistas
como bem entendessem. Na contramão deste pensamento, Mill censurava a falta de representatividade
política do proletariado. Em Representative Government, o autor exorta o parlamento inglês a convocar os
operários para discutir o direito à greve e declara que seria injusto para o parlamento criminalizar a greve,
pois todos os representantes que então o compunham pertenciam à burguesia e eram, por conseguinte,
incapazes “de olhar qualquer questão com os olhos de um trabalhador” (MILL, 2008 [1861], p. 246).
Em Chapters on Socialism, Mill vai mais longe e afirma que o regime de propriedade privada – cuja revisão,
segundo ele, era de extrema urgência, uma vez que sua distribuição era injusta – deveria ser discutido no
parlamento com a presença dos mais afetados por esse regime: os proletários (CW V, p. 706).6

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Parte da justificativa que Mill apresenta em sua defesa da democracia representativa provém de um
argumento epistêmico, segundo o qual a parte interessada é a mais capacitada para assegurar seu interesse
porque é a que melhor o conhece. Quem sabe mais sobre os interesses da classe trabalhadora, por exemplo,
são os próprios trabalhadores. “É importante que cada um dos governados tenha voz no governo, pois
dificilmente deve-se esperar que aqueles que não têm voz não sejam injustamente postos de lado por
aqueles que a têm” (CW XIX, p. 322). Para Mill, os mais aptos a defender os interesses de uma minoria
são, geralmente, os próprios membros que a compõem. Geralmente, mas não sempre, pois não é impossível
que um representante dê voz às reivindicações de um grupo social diferente daquele ao qual pertence.7
Longe de sugerir que somos incapazes de compreender a perspectiva e os dilemas de indivíduos oriundos
de grupos distintos ao nosso, o que o argumento de Mill quer dizer é que, normalmente, é mais fácil para
um representante político dar voz às reivindicações daqueles que fazem parte de seu grupo social. Sendo
assim, a inclusão dos diferentes grupos sociais na assembleia representantes é indispensável.

Mill repara que seu argumento não pressupõe uma antropologia negativa:
Não precisamos supor que, quando o poder reside apenas em uma classe, esta irá consciente e deliberadamente
sacrificar as outras classes em seu proveito. Basta-nos supor que, na ausência de seus defensores naturais, o interesse
dos excluídos corre sempre o risco de não ser enxergado; ou, quando é de fato enxergado, é visto com olhos muito
diferentes dos daqueles que lhe estão diretamente concernidos [sc. os excluídos] (MILL, 2008 [1861], p. 246).

A suposição de uma maldade intrínseca que levaria o ser humano a desrespeitar de propósito o interesse
de quem não pertence à sua classe social não é necessária. Para justificar a inclusão de todos os grupos ou
classes sociais na política, o argumento epistêmico basta. A política trata de temas que dizem respeito a
todos, e é por isso que adquirir um conhecimento completo sobre uma questão política exige que levemos
em conta as várias perspectivas por meio das quais tal questão se apresenta. O argumento epistêmico
justifica, ademais, o voto plural. Porque gozam de um acesso epistêmico privilegiado, os diretamente
afetados por uma proposta política devem ter maior impacto de decisão, já que sabem mais do que os
outros as possíveis consequências que a implementação da proposta lhes acarretará. Por essa razão, Mill
entende que não é justo deliberar sobre uma proposta sem a presença dos maiores concernidos por ela.
A adoção da representação proporcional e do voto plural é uma exigência da justiça (Idem, pp. 334-5).

II

Deixando de lado as complicações envolvidas nas propostas acima – como, e segundo quais parâmetros,
o governo mensuraria a virtude e o conhecimento dos cidadãos cujo voto mereceria maior peso?8 – o
ponto que nos interessa destacar é que a representação proporcional e o voto plural elaborados por Mill
têm como alvo a promoção da justiça:
A razão por que [...] a justiça e o interesse geral acabam no fim prevalecendo é que os interesses egoístas e separados
da humanidade estão quase sempre divididos. Alguns interessam-se pelo errado, mas há também os que têm seus
interesses no lado que está certo. Apesar de serem muito poucos e fracos para prevalecer contra todos os outros,
aqueles que são motivados por considerações mais altas, geralmente, após discussão e agitação suficientes, tornam-se
fortes o bastante para girar o montante dos interesses privados em seu favor. O sistema representativo deve ser
constituído de modo a manter este estado de coisas; ele não deve permitir que os vários interesses faccionais sejam
tão poderosos a ponto de poder prevalecer sobre a verdade, a justiça, e os outros interesses faccionais combinados
(MILL, 2008 [1861], pp. 300-1).

Este trecho recebeu diferentes interpretações na bibliografia secundária. Em seu célebre estudo sobre o
conceito de representação, logo após citar o excerto acima, Hanna Pitkin escreve que o impedimento do
predomínio de um interesse particular sobre o todo – numa palavra, a justiça – seria para Mill “um ato de fé”

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(PITKIN, 1967, p. 203). Na visão da autora, tudo se passa como se a estabilidade e a justiça do governo
representativo milliano reclamassem uma espécie de “mão invisível” capaz de sincronizar o interesse
individual com o geral (Idem, p. 204).

Ao reduzir o trecho acima a mero “ato de fé”, Pitkin se esquece de notar que o otimismo de Mill não é o
ponto central da argumentação. Como a introdução do advérbio “geralmente” deixa claro, Mill não baseia
a estabilidade do governo representativo apenas em uma suposta boa vontade que os indivíduos teriam
em ceder seus interesses particulares em prol de interesses mais elevados. Ao contrário, a parte principal
do argumento diz respeito ao equilíbrio de forças entre os diversos interesses faccionais ou particulares.
Em última instância, o embate entre as diferentes forças é a salvaguarda da justiça. Impedir a prevalência
irrestrita de um só grupo e garantir o conflito e a divisão do poder entre uma pluralidade de vozes díspares são
importantíssimos para a democracia representativa, e é por conta deste fato que Mill propõe a representação
proporcional e o voto plural. Juntas, ambas as medidas evitam “um dos maiores perigos da democracia”, a
saber, “a legislação de classe”, que se define como “o governo dirigido para o benefício da classe dominante,
em detrimento do todo” (MILL, 2008 [1861], p. 299).

Quem atentou bem para esta característica da filosofia milliana foi Nadia Urbinati. Contrapondo-se a
Pitkin, Urbinati afirma que o objetivo primordial do governo representativo milliano não era tanto o de
postular uma mão invisível capaz de conciliar os diferentes interesses quanto o de “preservar o pluralismo
social e cultural, [...] revitalizando o agonismo político” (URBINATI, 2002, p. 103).9 Nesta perspectiva,
o propósito da política seria não o de harmonizar interesses opostos e sim o de fomentar aquilo que Mill
chama de “spirit of compromise” (CW XIX, p. 344). Longe de significar uma resolução terminal do conflito,
o que esta expressão procura evocar é um eventual comprometimento entre os interesses antagônicos, que
necessariamente seria temporário (MILL, 2008 [1861], p. 291 e CW XX, p. 381). Mill utiliza o termo
compromise para indicar a efetivação de um acordo público que não apaga as polarizações existentes entre
os diversos grupos sociais.10 O característico do “compromise” é “deixar, em certa medida, os dois lados
[da contenda política] insatisfeitos” (MANSBRIDGE, 2006, p. 121). Justamente porque mantém vivo
um resquício de insatisfação, o spirit of compromise que Mill deseja ver cultivado entre os representantes e
constituintes em uma democracia garante a perpetuação sem fim da deliberação política. Não existe decisão
capaz de agradar cem por cento todos os grupos e cidadãos, sendo por isso que as medidas acordadas por
uma comunidade política devem ser sempre revisáveis e contestáveis.

A correlação de forças faz com que, temporariamente, os diversos grupos sociais respeitem suas diferenças
e não tornem seus interesses particulares motor único da política. O fato de que a coalizão dos grupos seja
frágil e desfaça-se conforme mudam as pautas não é algo a se lastimar. Pelo contrário, o rearranjo constante
do conflito é salutar porque obstrui a cristalização de uma determinada correlação de forças, algo que
poderia fazer a democracia degenerar em mera “legislação de classe” (MILL, 2008 [1861], p. 299).11

A vantagem da democracia representativa reside na abertura infinita para o debate e na sua energia
inexaurível para a autorrevisão e mudança históricas. Se é verdade que as democracias modernas podem
estar “perpetuamente cometendo erros”, não é menos verdade que “elas também estão perpetuamente
os corrigindo” (CW XXVIII, p. 66). A democracia é uma resolução coletiva de problemas sem fim em
que nenhum argumento possui caráter absoluto – tudo está aberto à deliberação política, sendo que um
argumento só é considerado legítimo na medida em que pode ser questionado pelos cidadãos (MILL,
2008 [1859], p. 22).12 É por se apresentar falível e manter suas decisões sempre abertas à contestação que
a democracia milliana promove a justiça e a reflexividade crítica do povo.

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III

Embora utilize o termo vezes sem conta em Representative Government, Mill não oferece uma definição
para a justiça nesta obra. É no capítulo final de Utilitarianism, obra concebida quase que conjuntamente
a Representative Government, que o autor explicita sua compreensão do termo. Mill inicia este capítulo
observando que a justiça é um termo em disputa, cuja aplicação se dá em diversos modos. A fim de encontrar
um possível liame que uniria as diversas acepções de justiça, Mill se volta à etimologia do termo:
Na maior parte das línguas, ou mesmo em todas elas, a etimologia da palavra que corresponde a “justo” aponta para
uma origem ligada à lei positiva, ou àquilo que, na maior parte dos casos, foi a forma primitiva da lei – o costume
autoritário. Justum é uma forma de jussum, aquilo que foi ordenado. Jus tem a mesma origem. Δίκαιον vem de δίκη,
cujo significado principal, pelo menos nas épocas históricas da Grécia, era petição jurídica. [...] Recht, de onde
veio right e righteous, é sinônimo de lei. Na verdade, o significado inicial de recht não apontava para lei, mas para a
retidão física, do mesmo modo que wrong e seus equivalentes latinos significavam “torcido” ou “tortuoso”. A partir
daqui defende-se, não que inicialmente “justo” significava “lei”, mas que, pelo contrário, “lei” significava “justo”
(MILL, 2008 [1863], pp. 181-2).

O traço comum que Mill observa nas várias acepções do termo é, pois, a de que a justiça é aquilo que
está em conformidade com a “lei” ou com o “direito”.13 Seria equivocado, contudo, identificar a “lei” ou o
“direito” relacionados à justiça apenas com os direitos legais. Findada sua breve análise do termo, o autor
passa a tecer considerações próprias sobre a questão, e arremata: “a justiça implica não apenas algo que é
certo fazer, e errado não fazer, mas também algo que um indivíduo pode nos reivindicar como seu direito
moral” (Idem, p. 185). O direito que se relaciona com a justiça deve ser interpretado como moral, e não legal,
porque não é improvável que uma legislatura conceda a um sujeito “direitos que não lhe deveriam pertencer”
(Idem, p. 178). De acordo com Mill, uma lei que atenta contra os direitos morais é uma “lei má” (Ibidem).

Apesar de não determinar de uma vez por todas a consistência dos direitos morais, podemos dizer que
para Mill os direitos morais seriam os ingredientes básicos para o desenvolvimento de uma vida feliz.
Quanto a este conceito, notemos que a ideia de felicidade é normativamente carregada em Mill; a vida feliz
é aquela em que os prazeres “superiores” prevalecem sobre os “inferiores” (Idem, p. 141). Pelos primeiros,
compreenda-se aqueles decorrentes do intelecto, da imaginação e dos sentimentos morais, e pelos segundos,
os prazeres exclusivamente sensuais (Idem, p. 138). Sendo assim, respeitar os direitos morais implica
propiciar meios a partir dos quais os indivíduos podem desenvolver seu intelecto, imaginação e sentimentos
morais, conquistando, por conseguinte, a felicidade. É nesse sentido que devemos ler a sentença segundo
a qual a promulgação de “leis más” impede os cidadãos de “utilizar as fontes da felicidade” (Idem, p. 145).

O governo que promove a justiça há, portanto, de respeitar os direitos morais e proporcionar aos cidadãos
mecanismos para que possam desenvolver seu intelecto, imaginação e sentimentos morais. Segundo Mill,
a democracia representativa é capaz de fazer isto quando, mediante a representação proporcional e o voto
plural, permite que os grupos sociais antagônicos deliberem em pé de igualdade na assembleia política.
Todavia, de que modo a deliberação agonística dos representantes consegue desenvolver o intelecto, a
imaginação e os sentimentos morais dos cidadãos?

Antes de resolvermos a questão, observemos que Mill postula uma relação discursiva não hierárquica entre
os representantes políticos e a sociedade civil. Inicialmente, poder-se-ia pensar que o discurso inflamado
dos representantes no legislativo seria apenas reflexo do agonismo que perpassa a sociedade civil. A ideia
do representante como aquele que re-presenta as reivindicações de um grupo social fortaleceria a impressão
de que, na assembleia política, opiniões novas jamais se formariam. Nessa perspectiva, a relação entre
assembleia representativa e sociedade civil seria discursivamente vertical ou hierárquica: as reivindicações

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a serem debatidas originar-se-iam unicamente na sociedade civil, sendo o papel do representante apenas
ecoar ou espelhar tal discurso.

Entretanto, semelhante suposição não procede em Mill. De acordo com o autor, a relação discursiva
entre representante e representado não é hierárquica:
[A assembleia representativa deve ser] ao mesmo tempo o Comitê de Acusações e o Congresso de Opiniões da
nação; uma arena na qual não apenas a opinião geral da nação, mas também a de todas as suas diferentes regiões
e, até onde possível, de todo e qualquer indivíduo eminente que estas contêm, possa se produzir em plena luz e
provocar discussão; onde cada cidadão possa ter certeza de encontrar alguém que exponha suas ideias [...] não
apenas para amigos e correligionários, mas perante oponentes, de modo a fazê-las passar o teste da controvérsia
oposta; [...] onde a opinião que prevalece na nação possa se mostrar dominante e manobrar suas hostes na presença
do governo, que estará, portanto, capacitado e obrigado a ceder por essa simples manifestação, sem esperar que ela
faça um emprego real de suas forças; onde, enfim, os estadistas possam verificar, com maior exatidão do que em
qualquer outro lugar, quais dos elementos de opinião e de poder estão crescendo ou declinando, e estar capacitados
a formular suas medidas em conformidade não apenas com as exigências existentes, mas também com aquelas em
vias de desenvolvimento (MILL, 2008 [1861], pp. 282-3).

Como lemos acima, a deliberação dos representantes abarca não só as opiniões já formadas da população
como também as que estão latentes, em vias de desenvolvimento. A explicitação do conflito social latente
efetuada na assembleia representativa é salutar porque, além de escancarar as exigências prementes de
alguns grupos sociais, pode vir a alterar as opiniões dos cidadãos. Na medida em que as vozes das ruas e os
gritos da assembleia dialogam entre si e incitam-se mutuamente, a relação entre assembleia representativa
e sociedade civil caracteriza-se melhor como dialógica, e não como hierárquica.

Sublinhar o caráter dialógico da representação é importante porque acentua o trânsito existente entre a
deliberação dos representantes na assembleia e o debate dos cidadãos na esfera pública. A ênfase reiterada
no tema da publicidade ao longo de Representative Government deve ser lida sob essa ótica: a deliberação
dos representantes há de ser pública para estimular o debate entre os representados (e também para garantir
que os cidadãos avaliem e verifiquem a conduta de seus representantes). Há uma comunicação constante
entre os discursos que se exercem dentro e fora da assembleia representativa, e do mesmo modo como o
primeiro é capaz de criar novas opiniões, o segundo também o é. O potencial criativo é decerto apanágio
da deliberação como um todo: para Mill, é no debate adversativo com opiniões contrárias que as opiniões
e crenças se formam e ganham significado. Ser privado da liberdade de expressão é extremamente deletério
porque é na deliberação pública que o ser humano desenvolve seu intelecto, sua imaginação e seus sentimentos
morais (MILL, 2008 [1859], pp. 20-60). E uma vez que a maior parte das pessoas não consegue, em sua vida
cotidiana, engajar-se em debates tão plurais quanto os da assembleia política, o interessante de permitir que
o maior número de cidadãos participe da política é oferecer-lhes a oportunidade de desenvolver e alargar
seu intelecto, sua imaginação e seus sentimentos morais – numa palavra, sua individualidade (ZAKARAS,
2007 e YOUNG, 1996).

Além de poder criar novas opiniões, os discursos proferidos por um representante dentro da assembleia
podem servir para galvanizar novos movimentos coletivos – foi o caso da National Society for Women’s
Suffrage, movimento sufragista cujo surgimento foi encorajado pelos discursos que Mill proferiu na Câmara
dos Comuns quando era parlamentar (COLLINI, 1984, p. xxxiii) – e aglutinar cidadãos que até então não
interagiam entre si.14 Noutras palavras, a democracia representativa tem o potencial de abrir o Eu (self) e
favorece a formação de identidades coletivas. Mais do que indivíduos isolados, o representante para Mill
fala em nome de um grupo social, conjunto de indivíduos que partilham de interesses e preferências afins
porque encontram-se em um posicionamento sociocultural similar.

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doispontos:, Curitiba, São Carlos, volume 13, número 2, p. 15-37, outubro de 2016 
Nesse sentido, a representação política exposta em Representative Government vai contra uma visão atomística
da sociedade.15 Outrossim, desmente a ideia de que os cidadãos seriam como que indivíduos desgarrados
com preferências prévias e estáticas. Antes, aponta para a formação de grupos que, coletivamente, debatem
e transformam seus interesses. As ideias que são representadas pelos políticos e ganham visibilidade dentro
das instituições estatais são fruto de uma união prévia de indivíduos e, ademais, tendem a promover a união
de outros indivíduos, quer favoráveis ou contrários a tais ideias (MILL, 2008 [1861], p. 308). No limite,
assim como os representados detêm o poder de criar um representante ao elegê-lo, o representante também
tem poder de criar seus constituintes. Por meio de suas práticas discursivas na assembleia, o representante
projeta e esboça uma certa imagem da base eleitoral que representa perante a nação (Idem, p. 282).16
A representação não é uma relação que se estabelece “entre duas identidades sociais constituídas” (HAYAT,
2013, p. 132). Pelo contrário, a relação que ela estabelece gera “efeitos de subjetivação” e altera a identidade
dos sujeitos políticos nela implicados (Idem, p. 131).

IV

O alto valor que atribui à participação política em um governo representativo permite-nos identificar
Mill como um dos precursores da democracia participativa. Em Participation and Democratic Theory,
livro que marcou época por revalorizar o conceito de participação na teoria democrática contemporânea,
Carole Pateman alega que um dos méritos de Representative Government seria expor a “asserção básica” da
democracia participativa, qual seja, a de que a participação política é importante porque desenvolve nos
cidadãos “características psicológicas” fundamentais (PATEMAN, 1970, p. 29). Para Mill, a democracia
representativa é a melhor forma de regime político porque tende a fomentar um indivíduo de mentalidade
alargada, sensível à falibilidade de suas crenças e às demandas do outro. Destacando a formação social
do Eu, Mill repara que os diferentes regimes político-econômicos fomentam diferentes tipos de caráter.
No capitalismo, por exemplo, a tendência é estimular o caráter egoísta (CW V, pp. 703-56).17 Já na democracia
representativa, a tendência é benéfica porque, quer seja como ouvinte ou como falante, a participação no
debate político agonístico possibilita ao indivíduo abordar uma questão por meio de várias perspectivas.
É por meio da colação das diferentes perspectivas que se disputam na esfera pública que, aposta Mill, o
intelecto humano se desenvolve. Como diria Pateman, “Mill vê o governo e a política como instituições
educativas no sentido mais amplo da palavra” (PATEMAN, 1970, p. 29).

Habermas acerta ao afirmar que em Mill o reconhecimento do “caráter irreconciliável dos interesses
concorrentes na esfera pública é acompanhado de uma teoria do conhecimento perspectivista” (HABERMAS,
2014, p. 314). Além de admitir que os temas públicos são acessíveis por perspectivas antagônicas, Mill
não procura elidir nenhum ponto de vista e estabelece que o único jeito de conhecermos uma questão
política adequadamente é por meio de um debate com perspectivas plurais. A explicitação das diferentes
perspectivas permite ao governo lidar de maneira apropriada com os problemas que dividem a sociedade.
Como o segundo capítulo de On Liberty mostra de maneira exemplar, a livre expressão de todas as
perspectivas sob as quais um assunto se apresenta é o que garante a verossimilhança de uma tomada de
decisão.18 Embora não haja necessariamente uma única resposta certa para os assuntos políticos, é inegável
que algumas propostas são mais adequadas que outras. O objetivo da deliberação democrática seria, assim,
o de identificar e implementar as melhores soluções para os problemas coletivos. Mill chega a falar que,
quanto mais pessoas participarem do debate, tanto mais acurada e objetiva será a decisão que se tomará;
sua suposição é a de que todo indivíduo tem algo a contribuir para o conhecimento público (MILL, 2008
[1859], pp. 40-2). Não é difícil perceber que este argumento epistêmico fornece uma boa defesa para a
democracia deliberativa.19

23
doispontos:, Curitiba, São Carlos, volume 13, número 2, p. 15-37, outubro de 2016 
É nesse sentido que se insere o repúdio do autor ao despotismo esclarecido. Para que conseguisse exercer
um governo tão bom quanto o democrático, o déspota teria de ser “an all-seing one” – isto é, ele teria de ser
capaz de acessar as questões sociais por meio dos olhos de todos, inclusive do “mais humilde trabalhador”
(MILL, 2008 [1861], p. 238). Ora, semelhante capacidade é impossível, e é por isso que nem o mais
esclarecido dos déspotas se equipara ao governo democrático. Ademais, ainda que tal capacidade fosse
possível em um só indivíduo, o despotismo esclarecido continuaria em desvantagem perante a democracia
porque não deixaria os indivíduos terem “voz em seu próprio destino. [...] Que tipo de seres humanos
podem ser formados sob semelhante regime? Que desenvolvimento seu pensamento e suas faculdades
ativas alcançaria sob tal estado?” (Idem, p. 239)

À medida que sustém espaços de deliberação agonística, a democracia representativa milliana cria um
ambiente favorável para o florescimento de um tipo determinado de subjetividade: a individualidade crítica.20
Oferecendo resistência às tendências do poder dominante e disposição para reclamar, a individualidade
crítica seria para Mill indispensável à manutenção da justiça. A pressuposição do autor é a de que os
direitos morais que constituem a justiça só são garantidos a todos os grupos sociais quando os cidadãos
estão empenhados em contestar o governo incessantemente. Para Mill, a consistência precisa dos direitos
morais é um dos pontos nevrálgicos da disputa política. No regime democrático, os direitos morais não
são concedidos de modo peremptório. Na verdade, eles sequer são concedidos; o característico de uma
democracia é que, nela, os direitos são conquistados por seus próprios portadores, que discursivamente
digladiam entre si.21 Quanto menos os cidadãos estiverem dispostos a lutar em prol de seus direitos, tanto
maior é a probabilidade de que o governo os desrespeite. Nesse sentido, é como se houvesse na instituição
política uma tendência inerente à degenerescência, de sorte que se os cidadãos não a contestarem e
vigiarem, ela inexoravelmente se corromperá. Mill reconhece ser esta a ideia da “política, tal qual os antigos
a concebiam”, e insta os filósofos do século XIX a não “esquecerem que há, nas questões humanas, uma
corrente que flui incessantemente em direção ao pior” (Idem, pp. 223-4).

O encômio à resistência é sem dúvida um dos fios condutores do pensamento político de Mill.
Particularmente saliente em On Liberty, a temática da resistência individual marca forte presença em
Representative Government:
A grande dificuldade do governo democrático tem sido, até hoje, de que maneira proporcionar, em uma sociedade
democrática, [...] um suporte social, um point d’appui para a resistência individual contra as tendências do poder
dominante; uma proteção, um ponto de convergência para as opiniões e interesses que a opinião pública dominante
vê com maus olhos (Idem, p. 316).

A existência de um suporte social para a resistência individual é o que impede o governo democrático de
degringolar em legislação de classe (que, como vimos, seria o governo voltado apenas para os interesses da
classe dominante). Semelhante suporte social tornar-se-ia possível mediante a criação de espaços públicos
de deliberação onde os indivíduos poderiam expor suas reivindicações contra aqueles que, por qualquer
motivo que seja, discordam deles. Sendo assim, Mill aponta para a necessidade de espaços deliberativos em
nível local. Por mais plural e representativa que seja, a existência de uma assembleia deliberativa nacional é
insuficiente. Para garantir a democratização do governo representativo, é preciso também instituir órgãos
de tomada de decisão em âmbito local.

Dedicado especificamente a este tema, o capítulo quinze de Representative Government diz que as
instituições políticas locais devem operar com “uma base amplamente democrática” e esmerar-se para garantir
a participação de todos, quer indireta ou diretamente (Idem, p. 413). A fim de justificar a centralidade da
participação popular, o autor repete argumentos expostos anteriormente e ressalta o aspecto educativo
das instituições políticas (Idem, pp. 417, 425). A participação política nas instituições locais é a única

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oportunidade que a maior parte do povo tem para desenvolver sua inteligência e aprender a exercer a
democracia – eis, nas palavras do autor, “um princípio fundamental” de sua “filosofia política” (CW XVIII,
p. 60). Aqui, como algures, Mill não parece diferenciar educação intelectual e política; tudo se passa, com
efeito, como se as duas coisas lhe fossem concomitantes (THOMPSON, 1976, p. 50). Há, contudo, uma
diferenciação que podemos perceber neste capítulo. Trata-se da distinção entre governo e política, que em
outros trechos da obra não é abordada.

Após explicar que a criação de instituições representativas locais é profícua porque maximiza as chances
de todos participarem do governo, Mill afirma que os que não foram eleitos como representantes do
governo não deixam pro tanto de serem participantes políticos. Existe um campo de participação política
para além das instituições estabelecidas: a escrita e a leitura dos jornais, as reuniões públicas e as mais
diversas solicitações dirigidas às autoridades públicas constituem os mecanismos de “participação dos
cidadãos particulares na política” (MILL, 2008 [1861], p. 413).22 Na medida em que educam o povo, é
mister que o governo incentive e possibilite a criação destes espaços não governamentais de participação
política. Tais espaços agilizariam a comunicação entre representantes e representados e ajudariam o
governo a identificar melhor as reivindicações da sociedade.23 Além disso, favoreceriam a consolidação de
um elemento que Mill julgava indispensável para a democracia representativa: a accountability política.24
A manutenção de canais de comunicação entre representantes e representados faz com que estes sejam
compelidos a prestar contas àqueles no que tange à sua atuação política. A manutenção de espaços de
interação locais para os cidadãos, ademais, multiplicaria a criação de contradiscursos, o que por sua vez
facilitaria a crítica e o agonismo políticos (MANSBRIDGE, 1996, pp. 56-8).

Parafraseando Urbinati na entrevista que concedeu a Hélène Landemore, podemos dizer que, ao ligar o
dentro e o fora das instituições estatais, os espaços não governamentais de participação política são um dos
elementos democráticos introduzidos pelo conceito de representação esposado por Mill.25 Não faz sentido,
portanto, apregoar que a criação de instâncias de diálogo entre o governo e a sociedade civil tout court
representa uma ameaça à democracia representativa.26 Semelhante crítica só procede se supuserrmos
que democracia representativa e democracia participativa são antitéticas, o que Mill nos mostrou não ser
o caso. O que garante o caráter democrático da representação é, precisamente, a instituição de espaços
políticos que permitam a interação entre a sociedade civil e a assembleia representativa. Um governo que
restringe a política às instituições estatais e se nega a abrir canais de comunicação entre a sociedade civil
e a assembleia política não é, pois, democrático.

Em síntese, tanto sua ênfase na deliberação quanto o modo como estrutura sua democracia levam-nos a
concluir que Mill não reduz a política a uma forma de governo. Muito mais que uma forma de governo, o que
encontramos em sua filosofia é uma “concepção de democracia como uma forma de vida, cujo fim último
é melhorar a humanidade” (FRÍAS, 2006, pp. 79-80). Semelhante concepção de democracia, conforme
aponta Sonia Frías, contrapõe-se a uma visão minimalista da democracia (cf. Idem, p. 81).

Grosso modo, para os autores da corrente minimalista, a democracia representativa reduz-se ao procedimento
eleitoral, sendo o voto o único mecanismo de controle e a única forma de participação à disposição dos
cidadãos comuns. Daí que Schumpeter, um de seus expoentes mais conspícuos, repudie veementemente
as manifestações populares que “impõem um determinado curso de ação” aos representantes empossados
na assembleia (SCHUMPETER, 2003, p. 272). De acordo com ele,
os eleitores fora do Parlamento devem respeitar a divisão de trabalho entre eles e os políticos que elegem. Eles não
devem retirar sua confiança [...] entre as eleições e devem entender que, uma vez que elegeram um indivíduo, a
ação política é prerrogativa dele, e não deles [sc. dos eleitores]. Isto significa que eles devem parar de instruir o
representante sobre o que ele deve fazer (Idem, p. 295).

25
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Ao compreender a democracia participativa como um regime político em que a participação e o poder
exercem-se tanto dentro quanto fora dos mecanismos jurídico-estatais, Mill se coloca contra Schumpeter e
seus epígonos. Para Mill, justamente porque não se esgota no voto, o controle do eleitor sobre o representante
é contínuo e pode ser exercido no intervalo entre uma eleição e outra. Ao contrário de Schumpeter, Mill
não afirma que a desconfiança do povo deve ser suprimida no intervalo entre as eleições. Conforme aponta
Rosanvallon na introdução de La contre-démocratie, Mill pode ser lido como um dos filósofos que via a
desconfiança como algo produtivo para a democracia (ROSANVALLON, 2006, pp. 19-20). Na democracia
representativa, a desconfiança é capaz de pôr em marcha uma série de instituições e contrapoderes sociais
que complementam o poder formal que as eleições concedem aos cidadãos.

Sem dúvida alguma, o voto é um instrumento importantíssimo, mas sozinho é insuficiente para garantir
um controle efetivo do povo sobre os representantes. Para Mill, “a completa exposição e justificação” dos
atos do governo pode ser solicitada por “qualquer um que os considere questionáveis” (MILL, 2008 [1861],
p. 282). Em uma democracia representativa, a função do “público” é a de operar como “a mola principal
de toda a checking machinery” que impede a corrupção e os abusos dos políticos eleitos e das instituições
(Idem, p. 228). Mill adverte que, sem a participação e vigilância do povo, a democracia representativa corre
o risco de perder seu caráter democrático e transformar-se em mero governo de facção (Idem, p. 259).

Mill rejeita explicitamente a visão minimalista da democracia no quarto capítulo de Representative


Government, ao caracterizar “a ideia [...] da democracia como meramente a abertura de cargos [offices]
à competição de todos” como apanágio de um povo que não almeja a independência (Idem, p. 267).
Um povo que não deseja viver sob sujeição arbitrária e que anseia preservar sua liberdade não deve reduzir
a democracia ao procedimento eleitoral. De acordo com Mill, constatar a abertura dos cargos públicos
à competição de todos os cidadãos e cidadãs não basta para afirmar a existência de uma democracia.
Em primeiro lugar, porque o fato de que estejam formalmente abertos a todos não significa que a disputa
dos cargos públicos seja de fato democrática, isto é, equânime. A desigualdade de posses dos candidatos e
o acesso diferenciado ao capital tornam a igualdade formal para concorrer aos cargos públicos insuficiente
para propiciar uma igualdade de fato e uma competição efetivamente livre, sendo por isso que Mill propõe
o financiamento público das campanhas políticas (CW I, p. 273).

A democracia representativa não se reduz ao processo eleitoral. Mais do que uma forma de governo,
a democracia configura para Mill um estilo de vida, uma forma de organizar a existência coletiva que,
procurando eliminar as dependências assimétricas e instituir relações de reciprocidade nas diferentes
esferas da vida humana, gera transformações em todas as camadas do tecido social. Ela equivale, assim,
ao regime no qual a política extrapola o governo. A politização de áreas até então tidas como “privadas” é
uma característica da democracia representativa. Mill pensava que a realização completa da democracia
exigia a transposição dos ideais democráticos da liberdade e da igualdade para ambientes tradicionalmente
considerados como exteriores ou imunes à esfera política, tais como a economia e a família. É nesse sentido
que não é anacrônico referirmo-nos a Mill, tal qual Urbinati o faz, como um filósofo da democratização
(URBINATI, 2002, pp. 42-3). Termo corrente no ativismo político contemporâneo, a democratização pode
ser definida como o processo de ampliação da lógica democrática “para o campo da sociedade civil nas
suas várias articulações” (BOBBIO, 2015, p. 90). Ou seja, a democratização não consiste na substituição
da democracia representativa por uma suposta democracia direta. Consiste, antes, no reconhecimento
de que as decisões que se operam em ambientes para além do âmbito governamental, tais como aquelas
que ocorrem entre os trabalhadores de uma empresa e entre os cônjuges de uma relação afetiva, devem
ser determinadas por meio de um processo entre indivíduos que se reconhecem livres e iguais entre si.

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Atento para a importância do voto, Mill observa que excluir qualquer pessoa do sufrágio é uma “injustiça”;
o direito de eleger representantes e ter sua opinião sopesada nas decisões políticas é, portanto, uma dimensão
da justiça (CW XIX, p. 469). Pace Przeworski, não devemos entender que os que rejeitam a concepção
minimalista da democracia pensam que a existência de eleições livres e abertas é algo “sem importância”
(PRZEWORSKI, 1999, p. 44). Como o exemplo de Mill demonstra, é possível que um filósofo negue a
concepção minimalista sem diminuir o valor do sufrágio. Eleições livres são decerto importantes, quando
mais não seja porque “garantem a responsividade [responsiveness] sistemática” dos representantes em uma
democracia representativa (PITKIN, 1967, p. 234). Por responsividade, entenda-se a disposição que um
representante tem de responder as demandas de seus constituintes, ou ainda, “de adotar políticas que
são sinalizadas como as preferidas pelos cidadãos” (MANIN, PRZEWORSKI e STOKES, 1999, p. 9).
Uma democracia representativa responsiva implica que os representados conseguem exercer controle
sobre seus representantes (PITKIN, 1967, p. 232).

Mill explica que as eleições garantem responsividade na medida em que incutem medo no representante
eleito. Se suas ações forem contra as demandas daqueles que o elegeram, é provável que o representante
(e o partido do qual ele faz parte) saiam perdendo nas próximas eleições (MILL, 2008 [1861], p. 275).
Além disso, a disputa eleitoral é digna de apreço pelo filósofo porque consegue trazer “o intelecto e a virtude
dos membros mais sábios” da sociedade para dentro das instituições governamentais (Idem, p. 392).
Com este argumento, Mill faz eco a uma longa tradição de pensamento que costumava ver a eleição como
instrumento para seleção dos aristoi (MANIN, 1996).

A importância que Mill atribuía ao voto é evidente na querela que o autor manteve com Florence
Nightingale, feminista que reputava dispensável a concessão do voto às mulheres. Na visão de Nightingale,
representantes suficientemente esclarecidos poderiam adotar uma postura responsiva às pautas das mulheres
mesmo se estas não obtivessem o sufrágio. Contra Nightingale, Mill explica que seria ingênuo esperar que
os governantes atentassem para as reivindicações das mulheres se elas continuassem a não poder votar
(CW XVI, pp. 1343-4).

Mill mostra que a negação da concepção minimalista, em suma, não necessariamente supõe negar o
valor do sufrágio. Para ele, a participação necessária ao bom funcionamento da democracia representativa
se exerce de diversas maneiras:
Entre uma forma de governo popular e outra, a vantagem [...] reside naquela que mais amplamente difunde o
exercício das funções públicas; seja por excluir do sufrágio o menor número possível de pessoas; seja por permitir
a todas as classes de cidadãos, até onde for consistente com outros objetos igualmente importantes, a maior
participação possível nos detalhes dos assuntos administrativos e judiciários; assim como o júri, a admissão aos
cargos municipais e, sobretudo, pela maior publicidade e liberdade de discussão possíveis, por meio da qual não
apenas uns poucos indivíduos em sucessão, mas o público inteiro, tornam-se, em certa medida, participantes do
governo e partícipes na instrução e exercício mental que isto acarreta (MILL 2008 [1861], p. 286).

No trecho acima, Mill elenca três meios de participação política: (i) o sufrágio; (ii) o exercício de funções
em assuntos de ordem administrativa e judiciária do poder público; (iii) a participação no debate público.
Embora fundamental para a democracia representativa, o voto não é o principal vetor de participação
política. Como a introdução do advérbio “sobretudo” indica acima, a livre troca de ideias no fórum público
das opiniões é o locus participativo primacial de uma democracia representativa.

Em uma democracia representativa, o poder político provém não apenas das instituições governamentais,
mas também dos indivíduos e das suas associações no espaço público. Isto, claro, não nega a importância
das instituições estatais, porém indica que elas não são tudo. O âmbito jurídico-estatal é apenas um dentre

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vários canais de transmissão do poder. No caso de Mill, a localização do poder político em um continuum
que abarca desde a participação dos cidadãos comuns na esfera pública até a deliberação dos representantes
no governo é o que confere um caráter dinâmico e democrático à sua teoria da representação (URBINATI,
2000, p. 759 e URBINATI, 2006a, p. 201). O poder político seria, nesse sentido, relacional – ele está
entre essas duas esferas que se moldam e se animam mutuamente, e não só no governo. A democracia
representativa poderia, nesse sentido, ser interpretada como uma diarquia, isto é, como um regime em
que o poder político emanaria da conjunção de dois polos: um institucional e outro extra-institucional,
identificado sobremaneira com o fórum público das opiniões (URBINATI, 2014, cap. 1). Esta diarquia –
junto com a separação entre sociedade civil e Estado que dela se segue – seria a grande diferença entre a
democracia representativa e a democracia direta.27

Ao analisarem a democracia representativa, Mill e Urbinati convergem quanto à duplicidade do poder


político que nela se opera. Esse ponto merece destaque porque a crise da democracia representativa alardeada
amiúde por alguns politólogos tem como uma de suas pressuposições, justamente, a ideia de que o poder
político se exerce apenas no domínio jurídico-estatal. Em The End of Representative Politics, por exemplo,
Simon Tormey argumenta que as democracias contemporâneas deveriam abandonar a representação, pois
um governo que adota a representação é incapaz de propiciar “o empoderamento das pessoas” que estão
fora das instituições jurídico-estatais (TORMEY, 2015, p. 53). Segundo Tormey, a representação implica
“um modo ‘vertical’ de [se fazer] política” e sua premissa implícita é a ideia de que os governados não têm
poder para iniciar ação própria (Idem, pp. 8, 58).

Ao endossar uma concepção puramente jurídico-estatal do poder, críticas como a de Tormey obliteram
a relação dialógica entre representados e representantes que constitui e sustenta o poder político em uma
democracia representativa. A democracia representativa não precisa ser considerada um sucedâneo inferior
da democracia direta, assim como a representação não precisa ser o avesso da participação popular no
poder político (PLOTKE, 1997). Não é porque estão fora da assembleia representativa que os cidadãos
das democracias representativas estão fadados a serem excluídos do poder. A ação dos cidadãos na esfera
pública desfruta de poder próprio, e a democracia representativa é uma forma de coexistência política
válida em si mesma, uma maneira da democracia se recriar e se manter viva na atualidade.

Como Urbinati bem o destaca, a incapacidade de compreender a estrutura polimórfica, descentrada


e extrajurídica dos mecanismos do poder político na democracia representativa é o que nos impede de
“apreender inteiramente esta complexidade [da representação democrática] e confrontar os problemas que
aguardam o futuro da democracia representativa” (URBINATI, 2011, p. 26). O problema da democracia
representativa não é tanto a concentração exclusiva do poder no plano das instituições quanto o fato de
que o fórum público das opiniões – que continua sendo um polo de poder nada desprezível – depende, nas
democracias representativas coevas, de uma rede tecnológico-midiática que não é, ela própria, democrática.
Como a crítica milliana à tirania da maioria já alertava em 1859, a concentração do poder de formação do
discurso público representa uma grave ameaça à democracia. Na democracia representativa, o poder das
instituições estatais depende, em última instância, das opiniões que circulam no domínio extrainstitucional;
portanto, a democracia representativa pode ser caracterizada como o governo que se dá por meio das opiniões
(MILL, 2008 [1861], p. 214 e URBINATI, 2014, p. 2). Sendo assim, para que a democracia representativa
seja realmente democrática, devemos garantir que os discursos circulantes no polo extrainstitucional do
poder não sejam vampirizados ou monopolizados por apenas um grupo social. A solução para o espectro
de crise que ronda nossas democracias residiria, assim, não no abandono da representação em prol de uma
democracia do estilo antigo na qual os cargos governamentais eram efetivamente exercidos por todos os

28
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cidadãos. Residiria, antes, na democratização dos meios tecnológicos que comunicam, amplificam e (re)
produzem as vozes dos cidadãos comuns na esfera pública.28

Por fim, ressaltemos que, afora sua função educativa, a participação política tem para Mill uma função
integradora. Segundo Representative Government, a deliberação pública gera nos cidadãos o sentimento
de pertencimento social. “É por meio da discussão política e da ação política coletiva que aquele cujas
ocupações diárias concentram seus interesses em um pequeno círculo aprende a compadecer-se de seus
concidadãos e ganha consciência de ser membro de uma comunidade maior” (MILL, 2008 [1861], p. 328).
É através da deliberação política que os indivíduos aprendem a reconhecer o outro como seu concidadão,
isto é, como seu semelhante. Mill crê, portanto, que a participação no debate político pode produzir uma
transformação moral dos indivíduos (HELD, 2008, p. 79). A democracia representativa pode estruturar
suas instituições de modo a, por assim dizer, obrigar seus cidadãos a adotarem um “spirit of compromise”
(CW XIX, p. 344). O debate plural conflituoso tende a fazer com que os cidadãos revejam suas ideias,
estimulando, por conseguinte, a adoção de visões políticas menos parciais.29

Este aspecto é visível mormente no terceiro capítulo de Representative Government, no qual a deliberação
política é descrita como “uma escola de espírito público” (Idem, p. 255). Quando é confrontado com
“reivindicações conflitantes” na deliberação política, o cidadão é encorajado a enxergar um determinado
tema por outro ângulo (Ibidem). O alargamento de sua mentalidade faz com que o indivíduo tenda à justiça
– isto é, ao respeito dos direitos morais de outrem. O sujeito que tem a chance de debater com pessoas que
o contradigam é muito mais suscetível de abandonar sua opinião parcial em prol de uma posição mais justa.
Ademais, o alargamento da mentalidade conduz à liberdade. A habilidade de ocupar múltiplas perspectivas,
de não estar preso a uma única visão de mundo, é peça chave da liberdade milliana. No debate público,
começamos a ver as coisas para além de nossa situação de classe, gênero, raça etc. A participação política
ajuda-nos, assim, a cultivar um Eu vário e poroso, capaz de responder, compreender e transformar-se com
o outro.30

A deliberação política que é orquestrada por grupos de interesse antagônicos é salutar à democracia
porque força os cidadãos a adotarem uma perspectiva mais alargada durante a discussão da pauta política.
Em um debate polarizado, no qual o domínio das forças políticas não se encontra concentrado em apenas
um único grupo majoritário, para que uma proposta qualquer seja aceita, as perspectivas e objeções
dos vários grupos sociais devem ser, no mínimo, sopesadas e respondidas. Na deliberação democrática
conflituosa, a moralidade cívica tende a se fortalecer porque todos os cidadãos sabem – inclusive aqueles
cuja proposta inicial não foi bem-sucedida – que a decisão prevalecente foi tomada “não por mero ato
arbitrário, mas por razões que parecem superiores pela maioria dos representantes da nação” (MILL, 2008
[1861], p. 283). O debate democrático, nesse sentido, se opõe à “lógica dos perseguidores” (MILL, 2008
[1859], p. 96). Simplesmente alegar que a decisão política que lhe interessa está certa porque a posição
contrária é equivocada e deve ser rechaçada não é uma lógica argumentativa capaz de prosperar em um
debate plural e agonístico. Em tais circunstâncias, a adoção de um vocabulário mais amplo, que contemple
algo a mais que o autointeresse exclusivo de um grupo, é indispensável.

Pensar de que maneira a democracia representativa pode conduzir à justiça foi um dos motivos que levou
Mill a escrever Representative Government. Nesta obra, Mill advoga uma política de presença para todos os
grupos sociais, que deveriam estar proporcionalmente representados na assembleia política. Além desta
medida, sugere a adoção de um sistema de voto plural para aguçar a divisão entre os representantes e impedir

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doispontos:, Curitiba, São Carlos, volume 13, número 2, p. 15-37, outubro de 2016 
a cristalização de forças políticas. (Esta proposta, nota bene, foi abandonada pelo filósofo quando passou a
ser invocada pelos parlamentares conservadores ingleses como justificava para proibir a participação dos
trabalhadores na política.) Juntos, o sistema de votação plural e a presença dos diferentes grupos sociais
buscariam exercer “a função do Antagonismo” (MILL, 2008 [1861], p. 315). Para Mill, é por desafinar o
coro dos contentes e introduzir o conflito no centro da deliberação que a participação dos diferentes grupos
sociais na política tende à justiça. Em suma, é a partir da divisão e do conflito que se preserva a justiça.

Como vimos, o papel de destaque que Mill confere ao conflito na preservação da justiça resulta de sua
concepção peculiar do termo. De acordo com o filósofo, a justiça demanda a promoção de mecanismos que
respeitem os direitos morais e forneçam aos indivíduos canais para que possam desenvolver seu intelecto,
imaginação e sentimentos morais. Entretanto, na ausência de um debate conflituoso, o cultivo de tais
capacidades torna-se inviável para a maior parte do povo. Para Mill, é participando no debate adversativo
que os indivíduos se desenvolvem intelectual e moralmente. O conflito no pensamento político milliano
assoma, assim, ao posto de condição sine qua non tanto da justiça quanto do desenvolvimento humano.

O papel da política para Mill não é tanto o de procurar resolver ou denegar o conflito quanto o de
garantir que ele jamais se esgote. Para o autor, o papel das instituições políticas seria o de manter “uma
firme e perpétua oposição” às tendências do poder dominante (CW X, p. 108). “Em todas as questões
humanas [human affairs], requer-se influências conflitantes” (MILL, 2008 [1861], p. 291). Uma política
sem influências conflitantes redundaria para Mill em uma sociedade estacionária na qual a deliberação
pública seria incapaz de prosseguir na luta contra a “abolição das exclusões”, o que por sua vez pavimentaria
um solo propício para o recrudescimento de antigas exclusões (Idem, p. 342). Uma sociedade progressista
exige uma política calcada na divisão e no conflito, de sorte que uma sociedade cuja política não tenha
conflito põe, inevitavelmente, sua justiça a perder.

NOTAS

1. A despeito de não oferecer uma definição precisa para o termo, podemos dizer que para Mill a política refere-se à
administração dos negócios comuns e à deliberação que esta implica.

2. A Holanda é o único país cujo legislativo (no caso, o Senado) possui um sistema de votação plural.

3. Nesse sentido, diz Urbinati, o papel do representante milliano seria o de um advocate: ao mesmo tempo em que
se identifica com seus constituintes, o representante retém autonomia para revisar e, eventualmente, reestruturar as
posições que defende (URBINATI, 2000 e URBINATI, 2002, cap. 3).

4. Seguindo a prática padrão dos comentadores de Mill, sempre que usar a edição dos Collected Works of John Stuart
Mill, usarei a abreviação CW, enumerando, em seguida, o volume e a página (ex: “CW II, p. 143” equivalerá a “Collected
Works, volume II, página 143”).

5. Para uma análise do conceito de “interesse geral” em Mill, ver MILLER (1999, cap. 2).

6. Daí que Marcos Nobre afirme que para “John Stuart Mill [...] capitalismo e democracia de massas eram incompatíveis”
(NOBRE, 2004, p. 23). Com efeito, uma democracia que contasse com a participação do grosso da população seria para
Mill levada a reestruturar o sistema capitalista, conduzindo-se ao que poderíamos chamar de socialismo democrático.
Para uma análise deste conceito no pensamento político de Mill, vide ASHCRAFT (1999). Para uma explicação de
como a democracia representativa milliana visa incorporar o socialismo à democracia, consulte-se SARVASY (1984).

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7. E, inversamente, tampouco é impossível que um representante seja incapaz de compreender e dar voz às reivindicações
dos cidadãos que pertencem ao seu grupo social. O caso de Clodovil Hernandes é ilustrativo a esse respeito: primeiro
homossexual assumido a ser eleito representante no Brasil, Clodovil jamais se dispôs a defender o Projeto de Lei
no. 1151 (que visava regulamentar a união civil entre pessoas do mesmo sexo), tendo inclusive deliberadamente se
recusado a advogar em prol da população LGBT. Conquanto não se identifique como LGBT, a autora deste Projeto de
Lei, Marta Suplicy, foi uma representante política muito mais apta a dar voz às reivindicações LGBTs do que Clodovil.

8. Foi justamente sua dificuldade de aplicação que levou Mill a abandonar a proposta do voto plural (URBINATI,
2002, p. 95). Embora desejável, o sistema de votação plural era inviável. Segundo Wendy Sarvasy, outra explicação
para o abandono seria o caráter dúbio da proposta. Quando, em 1865, é eleito para o parlamento, Mill tem de
enfrentar “cara a cara as forças conservadoras arraigadas que dominavam a estrutura do poder inglês” (SARVASY,
1984, p. 584). Valendo-se dos escritos de Mill, políticos conservadores começaram a exigir votos plurais para os
parlamentares de grandes posses, ignorando que para o filósofo o voto plural relacionava-se com o conhecimento,
não com a propriedade (CW I, pp. 288-9). Diante desse quadro, Mill se vê obrigado a rever sua posição e passa a
“declarar enfaticamente que apoia o sufrágio universal [paritário]” (SARVASY, 1984, p. 584). Este fato é digno de
nota pois põe em dúvida a leitura de Claus Offe, segundo a qual Mill defenderia o voto plural no intuito de “limitar
a extensão do voto igualitário” à “maioria destituída de propriedade” (OFFE, 1984, p. 356). Para uma leitura mais
ponderada sobre a relação da democracia milliana com os trabalhadores, e para uma análise da radicalização do
pensamento tardio de Mill, vide respectivamente CARLISLE (1999), SARVASY (1984, pp. 584-7) e WILLIAMS
(1998, p. 46). O estudo histórico de Sarvasy merece atenção porque não são poucos os acadêmicos que tendem
a ver Mill como um filósofo pouco entusiasmado com a participação política dos trabalhadores. Em sua análise
arguta sobre as contradições entre democracia e capitalismo, por exemplo, Ellen Wood peca ao afirmar, sem maiores
explicações, que “Mill [...] demonstrava uma falta de entusiasmo notável com relação ao governo do dêmos” (WOOD,
2000, p. 229). A historiadora marxista parece ignorar que um dos motivos que levou Mill a rejeitar o socialismo de
vertente marxista foi, precisamente, seu aspecto não democrático (FEUER, 1949, p. 298). Democrata convicto, Mill
achava que o socialismo deveria ser implementado por meio da deliberação democrática, e não por meio da ditadura
do proletariado.

9. Convém ressaltar que a leitura de Urbinati não é de todo inédita. Vinte anos antes de ela publicar seu livro sobre
Mill, em “Two Concepts of Democratic Representation: James and John Stuart Mill”, Krouse já sublinhara a importância
do “antagonismo” – entendido aqui como “fonte institucionalizada da resistência” – na democracia representativa
milliana (KROUSE, 1982, p. 525). Quase na mesma época, em Liberalismo e Democrazia, Bobbio afirmara identificar
em Mill “um dos mais altos elogios ao antagonismo que o pensamento liberal chegou a registrar” (BOBBIO, 2006,
p. 83; ver também BOBBIO, 2015, pp. 171-5 e GIRARD, 2015). Oferecendo uma interpretação parecida, Skorupski
conclui em Why Read Mill Today? que a grande diferença entre os pensamentos políticos de Marx e Mill seria que,
ao passo que o primeiro entendia que “o conflito (seja entre ideias ou entre classes) estava destinado a acabar com a
chegada da comunidade moderna”, o segundo postulava que “o conflito de interesses e ideias era a condição permanente
[da política]” (SKORUPSKI, 2006, p. 71).

10. Enquanto verbo, compromise pode significar tanto “expor-se a um perigo” quanto “firmar um acordo”. O acordo
ou acomodação que o termo denota implica sempre algo diverso do que se queria inicialmente e é por isso que
não faz sentido usar a expressão spirit of compromise para opiniões que não contêm algum grau de conflito entre si.
A expressão original, portanto, denota acordo e conflito ao mesmo tempo, e é no afã de preservar sua polissemia que
a mantenho em seu idioma original. Para uma análise sobre a noção do spirit of compromise na filosofia política de
Mill, consulte‑se THOMPSON (2007). Para uma interpretação que afirma a prática do “compromise” como elemento
constitutivo da noção do “político [the political]” em Mill, vide SKORUPSKI (2006, p. 85). Sobre a diferença entre
“consenso” e “compromise” (e sobre a importância deste último para a democracia representativa), ver ANKERSMIT
(2002, cap. 8) e BELLAMY (1999, cap. 4).

11. Poder-se-ia objetar que, ao apregoar um socialismo democrático no qual as diferenças de classes esvaneceriam, Mill
deixaria de pensar o conflito como algo constante. Conquanto reconheça tal possibilidade e afirme que “a oposição
entre capitalistas e proletários” seja a principal fonte de discórdia, Mill não determina que o domínio econômico esgota
o conflito (CW VI, p. 479). Como o terceiro capítulo de On Liberty deixa claro, vários dos conflitos que cindem a

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sociedade revolvem sobre questões religiosas ou de estilos de vida. Com efeito, Mill diz em Chapters on Socialism que
“a rivalidade por reputação” continuaria a existir numa democracia socialista (CW V, p. 744). Ou seja: ainda que não
tivéssemos conflito motivado por redistribuição numa sociedade socialista, a luta por reconhecimento continuaria
provocando conflito na política.

12. Embora tudo esteja aberto à discussão, na prática a deliberação política milliana opera dentro de certos limites.
Apesar de tudo poder ser questionado, para Mill nem tudo é passível de ser alterado pelos atores políticos. Nesse
sentido, a posição de Mill diferencia-se das visões de BARBER (1996) ou LEFORT (1991), autores que concebem
a democracia como uma aventura histórica caracterizada por uma indeterminação radical. Por mais que enalteça a
abertura histórica da democracia, Mill não parece disposto a largar mão de alguns princípios formais que servem
de baliza e sustentáculo para a deliberação democrática (um debate que fosse contra o princípio da liberdade, por
exemplo, jamais lhe seria legítimo). Mais que um exercício teórico que procura grifar a especificidade da democracia,
a filosofia milliana é também animada pela preocupação de pensar sob quais condições a democracia representativa
mantém-se ou não de pé. A questão da estabilidade é, pois, um tema fulcral em Representative Government.

13. Visto que Mill emprega os termos right e law indiscriminadamente, neste artigo não faremos distinção entre “lei”
e “direito”.

14. Com efeito, nada impede que um representante fale em nome de cidadãos que não o elegeram e que sequer residem
na localidade que ele representa. Os argumentos que um representante defende na assembleia podem convencer
cidadãos que não o elegeram, que então passam a enxergá-lo como seu representante. Na literatura específica sobre o
assunto, o processo por meio do qual um representante político expande sua representatividade para constituintes que
não compõem sua base eleitoral denomina-se “surrogate representation” (MANSBRIDGE, 2003, p. 515). O conceito
de surrogate representation cunhado por Mansbridge mostra que a representação política prescinde do liame eleitoral.
A representação política deve, pois, ser vista como uma prática que excede as instituições jurídico-eleitorais (ALMEIDA,
2015, SAWARD, 2010 e URBINATI, 2006b).

15. “A representação política invalida a opinião de que a sociedade seja uma soma de indivíduos dissociados”
(URBINATI, 2006b, p. 30). Sobre a relação entre representação política e formação de identidades coletivas, vide
HAYAT (2013, pp. 130-3), MIGUEL (2014, pp. 128-30) e SAWARD (2010, pp. 14-6). A ideia da representação como
algo fulcral para a criação e sustentação da identidade de uma comunidade remonta à Idade Média (RUNCIMAN
e VIEIRA, 2008, p. 13).

16. Daí que SAWARD (2010, p. 42) afirme que a identidade do representado é performativa: ao invés de fixa, ela se
(re)constitui por meio de práticas discursivas que se alteram ao longo do tempo e do espaço conforme sua interação.
Saward ressalta que tal poder performativo pode ser invocado tanto pelos representantes quanto pelos representados.
Nesse sentido, “a representação política” equivale a um processo de “‘mútua constituição’ entre representante e
representado” (Idem, p. 29).

17. Em Rethinking Mill’s Ethics: Character and Aesthetic Education, Colin Heydt (2006) oferece uma leitura histórica da
crítica milliana ao capitalismo industrial e ao tipo de caráter que, neste sistema, Mill acreditava prevalecer. Endossando
uma crítica relativamente consagrada entre seus conterrâneos, Mill rechaçava o capitalismo industrial porque via-o
como obstáculo ao aperfeiçoamento do caráter e das potencialidades humanas.

18. Nesse sentido, não seria de todo adequado afirmar que, ao postular que o debate político plural produz nos
cidadãos uma mentalidade alargada, Mill apresentaria uma visão política arendtiana (pace YOUNG, 1996, p. 246).
O debate político milliano (e a mentalidade alargada que dele se segue) tem a construção coletiva da verdade como
uma de suas principais consequências. Em contrapartida, o debate político e a mentalidade alargada dos quais Arendt
fala não estão de modo algum associados à busca da verdade (este ponto fica claro no mesmo ensaio em que Arendt
introduz a noção de mentalidade alargada; vide ARENDT, 2000).

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19. Não surpreende, pois, que o argumento de Mill tenha feito fortuna entre os teóricos da democracia deliberativa
(cf. aponta YOUNG, 2000, p. 31). Sobre o caráter epistêmico da democracia milliana, vide o terceiro capítulo de
LANDEMORE (2013).

20. Para KATEB (1992), o caráter arredio dos cidadãos seria um dos traços morais distintivos da democracia
representativa. O esvaziamento e realocação do poder constituído por meio de eleições periódicas difundiria nos
cidadãos um espírito crítico, de acordo com o qual “a única autoridade tolerável é uma autoridade deliberadamente
castigada [deliberately chastened]” (Idem, p. 41).

21. Subscrevemos, portanto, à interpretação de ZIVI (2006), segundo a qual os direitos morais millianos têm seu
conteúdo definido por meio da deliberação democrática. De acordo com a filosofia política de Mill, “devemos conceber
os direitos como reivindicações políticas, e o ato de reivindicar direitos [deve ser concebido] como uma prática de
uma política democrática participativa e agonistica” (Idem, p. 49).

22. Ao diminuir as distâncias e facilitar o fluxo de informações, invenções como o jornal e o sistema ferroviário
integravam as várias regiões das democracias modernas “simultaneamente em uma agora”, articulando um espaço
público no qual todos os cidadãos poderiam participar (CW XVIII, p. 165). Entretanto, Mill não era ingênuo e sabia
que, do mesmo modo como podem contribuir para revigorar a participação democrática, os meios de comunicação
podem ter o efeito oposto. No terceiro capítulo de On Liberty, com efeito, o filósofo alerta que os meios de comunicação
de massa são prejudiciais à crítica e debate públicos quando se tornam veículo de propagação das ideias de apenas
um único grupo social. Nesse sentido, como argumentaremos adiante, a democratização da mídia é imprescindível
para o bom funcionamento de uma democracia representativa.

23. YOUNG (1996, p. 309) associa os espaços políticos não-governamentais dos quais Mill fala com as associações
regionais de bairro, espaços abertos a qualquer cidadão (residente em determinada área) em que questões públicas
são abordadas por meio de reuniões periódicas.

24. Seguindo MIGUEL (2014, pp. 172-5), entendemos por accountability a obrigação que os dirigentes públicos
têm de prestar contas de sua atuação política e de se responsabilizar por seus eventuais erros. Sobre a centralidade
do conceito de accountability na democracia milliana, ver BRILHANTE (2007). A alta estima pela accountability fez
com que Mill pregasse, ademais, o fim do voto secreto: uma vez que passassem a votar em público, os indivíduos
ver‑se-iam compelidos a prestar contas de suas escolhas políticas aos demais cidadãos (URBINATI, 2002, pp. 110-18).

25. Ver a entrevista “A democracia representativa é realmente democrática?”, publicada neste dossiê.

26. Para uma crítica que vai nessa linha, vide o editorial do jornal O Globo (“Decreto agride democracia representativa”),
publicado, em 31 de junho de 2014, logo após a promulgação do decreto que visava instituir a Política Nacional de
Participação Social.

27. Poder-se-ia argumentar, ademais, que esta diarquia é o que torna a democracia representativa melhor que a democracia
direta. Quando o poder político se concentra apenas nas instituições estatais, a crítica e o dissenso tornam‑se mais
difíceis; a separação entre sociedade civil e Estado facilita a resistência ao poder (KATEB, 1992, pp. 54-5).

28. A concepção de poder político que Mill apresenta em sua filosofia, com efeito, “sustenta uma conclusão forte:
a concentração da posse e do controle dos meios de comunicação conduz à concentração significativa do poder de
formar o que os outros pensam; o que, por sua vez, contradiz profundamente os ideais democráticos” (BAUM, 2000,
p. 82). Sobre a necessidade da democratização da mídia em uma democracia representativa, consulte-se URBINATI
(2014, cap. 1).

29. Grifamos o verbo “tender” para destacar que não se trata, aqui, de uma relação causal. Conquanto acredite que a
participação na política tenda a transformar moralmente os cidadãos, Mill reconhece que, longe de incutir solidariedade
entre os debatedores, há casos em que “a tendência de todas as opiniões de se tornarem sectárias [...] é amiúde agravada

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e exacerbada” por causa da deliberação (MILL, 2008 [1859], p. 58). A “verdade que deveria ter sido, mas não o foi, vista,
foi rejeitada [...] violentamente porque foi expressa por pessoas tidas como oponentes” (Ibidem). Com sua ressalva,
Mill toca em uma questão importante que nem todos os deliberacionistas contemporâneos se lembram de abordar:
na deliberação política, o grau de eficácia discursiva não depende simplesmente do que se fala, mas também de quem
fala. Até mesmo nas discussões científicas, ambientes em que a força do melhor argumento supostamente deveria
reinar inconteste, frequentemente, quem argumenta é determinante para o impacto discursivo do que se argumenta.
Diferentes títulos e posições de poder geram diferentes graus de eficácia discursiva. No terreno político, em especial,
não é raro que o mais sensato dos argumentos seja rechaçado simplesmente porque seu emissário é oponente daquele
que o ouve. Mesmo em tais casos, contudo, Mill acredita que a deliberação tem “seu efeito salutar” (Ibidem). Aquele
que não é partidário do indivíduo ou grupo que violentamente rejeita uma opinião só por causa do emissário que a
exprime, segundo Mill, tenderá a reconhecer a propriedade do argumento em questão.

30. Para Mill, a pluralidade do debate democrático “quebra as barreiras entre um indivíduo e suas concidadãs, pois
[...] requer que ele assuma a perspectiva de outrem” (YOUNG, 1996, p. 245). Sendo assim, podemos entender que
a ausência de um modelo identitário fixo é apanágio dos sujeitos que vivem em regimes democráticos; o indivíduo
democrático, tal qual Lefort já o afirmara, seria aquele que “se descobre sem definição, sem contornos” (LEFORT,
1991, p. 214).

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