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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ACRE

CENTRO DE CIÊNCIA JURÍDICAS E SOCIAIS APLICADAS


COORDENAÇÃO DO CURSO DE DIREITO

FÁBIO TORCHI ESTEVES

ANÁLISE DA APLICAÇÃO DAS TEORIAS GESTALT E COMPORTAMENTAL AO


DIREITO?

RIO BRANCO, ACRE


2020
FÁBIO TORCHI ESTEVES

ANÁLISE DA APLICAÇÃO DAS TEORIAS GESTALT E COMPORTAMENTAL AO


DIREITO

Redação apresentada à Universidade Federal do


Acre, como parte dos requisitos à obtenção de nota
na matéria de Psicologia Jurídica.

Docente: Prof. Enock da Silva Pessoa.

RIO BRANCO, ACRE


2020
1 O QUE É A PSICOLOGIA DA GESTALT OU TEORIA DAS FORMAS?​1

Gestalt é uma palavra alemã que apresenta dois significados: o primeiro, de


forma; o segundo, de uma entidade concreta que possui entre seus vários atributos
a forma - sentido este utilizado pela Escola de Berlim. Por não encontrarem uma
tradução exata em outras línguas, os teóricos preferem escrevê-la em seu idioma
original.
A Psicologia da Gestalt, ou Teoria da Forma, é uma corrente de pensamento
cujo início se deu no estudo da percepção, mas logo se estendeu à área da
psicologia, especialmente às relacionadas ao estudo do processos cognitivos e dos
fatores motivacionais e comportamentais. Seu principal objetivo é compreender
como as experiências unitárias, compostas de várias configurações ou formas,
gestalten​2​, se organizam e como suas leis se processam.
Apesar de o marco oficial do movimento estar na publicação dos “Estudos
Experimentais sobre a Percepção Visual do Movimento”, sua origem decorre de uma
viagem de trem realizada realizada em Viena, quando Max Wertheimer, psicólogo e
autor da obra supracitada, olha para um sinal ferroviário e percebe que, embora uma
lâmpada só ascendesse após a outra, via-se apenas uma luz que ia continuamente
no espaço entre elas, para um lado e para o outro​3​.
Indo à Frankfurt, realizou outro experimento em um hotel, com um
estroboscópio e imagens em duplicidade, que deixavam a luz passar em um tempo
muito curto. Tal experimento, em que as imagens parecem se movimentar,
demonstra que entre o primeiro e o segundo estímulo não há estímulo nenhum, o
que leva os indivíduos à confusão se é um movimento real ou aparente.
Dessa forma, analisando como os diversos objetos individuais se relacionam
entre si, criando leis próprias a partir de experiências unitárias, e considerando que
as qualidades do todo determinam as características das partes, chega-se à
máxima: “o todo é diferente da soma das partes”, isto é, não se resume a mera
soma, mas à verdadeira síntese, na qual compõe-se um elemento diverso.

1
TOURINHO, Carlos; SAMPAIO, Renato. ​Estudos em Psicologia: Uma Introdução. ​1 ed. RIO DE
JANEIRO: Proclama, 2009, p. 57-67.
2
É o plural da palavra Gestalt em alemão.
3
ENGELMANN, Arno. ​A Psicologia da Gestalt e a Ciência Empírica Contemporânea. ​Psicologia:
Teoria e Pesquisa, São Paulo, Vol. 18, n. 1, p. 01-16, Jan-Abr, 2002.
2 OS PRINCÍPIOS DA PSICOLOGIA GESTALT OU TEORIA DA FORMA​4

Segundo Wertheimer, nossa percepção, tal qual uma casa, possui uma
estrutura única e particular, e se for estruturada de outra forma, será uma casa
totalmente diferente. Da mesma forma, a experiência será inteiramente diferente se
a estruturarmos de algum outro modo.
Consequentemente, a determinação de um sistema isolado ou elementarista,
onde o mundo compõe-se de partes aditivas independentes, cuja soma representa a
realidade, ignorando as relações entre os objetos e sua inter-relação, destroem as
relações significativas existentes.
Ao ver-se uma casa, primeiramente a vemos inteira, e depois imaginamos os
elementos que a constituem (obviamente, como um objeto distinto da mera soma
dos materiais); quando vemos um rosto, primeiro reparamo-lhe a face inteira, depois
nos atentamos às partes individualmente: olhos, boca, nariz, cabelo etc. Segundo o
Gestaltismo, isto se aplica a qualquer percepção: primeiro vê-se o todo, depois as
partes que o compõem. A decomposição de um todo em suas partes altera-lhe o
significado completamente.
O “relativismo a-histórico” é outra concepção de profunda relevância para o
gestaltistas, pois, apesar de não retirarem do passado toda a importância, entendem
que a interpretação do passado no presente seria prejudicada pelas distorções
decorrentes dos eventos ulteriores, isto é, não se percebe o passado hoje como se
percebeu ontem; o que, para os gestaltistas mais radicais, diminui-lhe a relevância.
Assim, atribui-se a importância, principalmente, à qualidade dos eventos, aos
valores que nele se encontram, diferentemente da corrente quantitativa dos
introspeccionistas, escola à qual os gestaltistas, por considerarem artificial, reagiram
e condenaram o modo de análise, que considera tão somente os elementos e exclui
os valores.

2.1 Princípio da Relação Figura-Fundo

A percepção é seletiva e nem todos os estímulos são percebidos com tanta


clareza. Os estímulos que guardam relação de proximidade, funcionando como um

4
TOURINHO, Carlos; SAMPAIO, Renato. ​Estudos em Psicologia: Uma Introdução. ​1 ed. RIO DE
JANEIRO: Proclama, 2009, p. 68-75
todo, são percebidos com maior clareza; segregando-se de seu todo, mas mantendo
com ele íntimas relação. São exemplos desse princípio as imagens de M. S. Escher.

2.2 Princípio do isomorfismo psicofísico

Os padrões de percepção e de excitação cerebral são os mesmos. Os


acontecimentos na consciência e no campo cerebral são idênticos, pois os
processos fisiológicos devem ser vistos como um todo, não como uma soma de
elementos.

2.3 Princípios de organização da percepção

Há uma lei sob que os fatores perceptivos estão subordinados, chamada


“pregnância”. A organização psicológica é tão boa quanto as condições permitirem e
as experiência são melhores quanto melhores são a condições de estímulo. As
formas tendem a completar-se e a tornar-se tão boas quanto possível. Subdivide-se
em outros princípios:

1. Proximidade: os elementos que estão próximos tendem a ser percebidos


juntos;
2. Similaridade: elementos semelhantes tendem a ser vistos como da mesma
estrutura;
3. Direção: toda parte sucessiva se segue a outro e as figuras são contínuas;
4. Destino comum: elementos de um grupo maior tendem a se alocar de
maneiro semelhante;
5. Disposição objetiva: vê-se uma organização original permanentemente, ainda
que o estímulo original encontra-se ausente; e
6. Pregnância: as figuras são vistas de modo tão bom quanto possível.

2.4 Princípios dos estudos de inteligência

A solução adequada a um problema ocorre quando um elemento que falta a


determinado problema é fornecido, tornando, assim, o campo significativo.
Isto posto, percebe-se que o Gestaltismo é uma corrente de pensamento cujo
campo de estudos engloba a maneira como percebemos os fenômenos,
estabelecendo princípios que explicam o relacionamento entre os diversos
elementos que compõem os eventos unitários a que estamos submetidos
diariamente, bem como sua influência na construção do comportamento e da
motivação do indivíduo.

3 O QUE É O BEHAVIORISMO OU TEORIA COMPORTAMENTAL?

O termo inglês “behavior”, que compõe o nome “behaviorismo”, utilizado


inicialmente por John B. Watson em artigo publicado em 1913​5​, significa
“comportamento”, que é o objeto de estudo dessa corrente psicológica.
Watson, que compartilhou da crescente insatisfação dos psicólogos com a
introspecção e a analogia como método na sua época, reagiu à escola introspectiva,
que era extremamente dependente do indivíduo e dava pouca importância aos
métodos científicos​6​.
O comportamento, ao ser postulado por Watson como objeto da Psicologia,
deu a esta ciência a praticidade e objetividade procurada, permitindo à psicologia
alcançar o status de ciência, com métodos próprios e experimentos que poderiam
ser reproduzidos em diferentes condições e sujeitos. Para Watson, o comportamento
deveria ser estudado como função do meio.
Gradativamente, o objeto do behaviorismo mudou, não se entendendo o
comportamento como uma ação isolada, mas o estudo das interações entre o
indivíduo e o meio, os estímulos e as respostas de cada pessoa; o homem como
produtor e produtor dessas interações.
Uma das principais correntes do movimento Behaviorista é o Behaviorismo
Radical, idealizado por Skinner, cuja finalidade é a análise experimental do
comportamento - pura e simplesmente, sem a intervenção da filosofia ou percepções
introspectivas.
Skinner divide o comportamento em: 1) respondente ou reflexo, que são
interações estímulo-resposta incondicionados, como lacrimejar ao cortar uma

5
BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lurdes T. ​Psicologias: uma
introdução ao estudo de psicologia.​ 13. ed. São Paulo: Saraiva, 2001.
6
BAUM, William M.; SILVA, Maria Teresa Araújo (trad.) et al. ​Compreender o behaviorismo:
comportamento, cultura e evolução.​ 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2006.
cebola, mas que é passível de condicionamento, quando os estímulos são
temporalmente pareados a outros que, inicialmente, não possuíam relação alguma;
e 2) operante, que inclui todos os movimentos de um organismo que operam sobre o
mundo, como a ação de escrever uma carta ou um rato que sacia sua sede após
pisar numa barra que libera a passagem de água​7​.
No último caso, é o efeito da ação do organismo sobre o meio e o efeito
resultante; a aprendizagem está na relação entre ação e efeito. O efeito, por sua
vez, produz estímulos reforçadores, chamado reforço. Este pode ser positivo ou
negativo.
O reforço positivo atribui uma recompensa positiva à ação. No caso do rato, o
reforçamento positivo acontece quando ele pressiona a barra e ganha água. Ele agiu
sobre o meio, que reagiu positivamente sobre ele, estimulando-lhe a apertar
pressionar mais vezes, para ganhar mais água.
O reforço negativo, por sua vez, encerra uma ação negativa ou estimula uma
ação por meio da ameaça. Se a Caixa de Skinner dá muitos choques, que só são
interrompidos quando a barra é pressionada, obviamente o rato é estimulado a
pressionar a barra, para evitar a dor; chama-se isso de fuga Outro exemplo é a
pena para crimes, que estimula a não-ação do indivíduo, prevendo-lhe um castigo
caso cometa um delito. A esse fenômeno dá-se o nome de esquiva.
O behaviorismo, portanto, diferentemente do Gestalt, entende o
comportamento como fruto da ação do ambiente sobre os indivíduos, reforçando-lhe
ou desestimulando-lhe o agir, analisando o indivíduo através de métodos científicos
próprios e que trazem objetividade à ciência psicológica.

4 GESTALT, BEHAVIORISMO E DIREITO: CONSIDERAÇÕES FINAIS

Gestalt e Behaviorismo, como é possível perceber, são movimentos


psicológicas que atribuem diferentes objetos à Psicologia - este, o comportamento;
aquele, a percepção - fato que demonstra a diferente relevância que atribuem aos
mesmos fatores.
Enquanto o Behaviorismo possui uma aplicação mais prática e objetiva, com
vistas ao método científico, especialmente o Radical, proposto por Skinner, o Gestalt

7
Clássico experimento conhecido como “A Caixa de Skinner”.
é subjetivo e busca entender o relacionamento entre as partes que constituem o
todo, isto é, como o relacionamento entre os elementos que compõem os eventos
unitários influenciam na construção do nosso comportamento.
Se cada um deles fosse aplicado isoladamente ao direito, certamente seria
um desastre. Ou as normas seriam objetivas demais, ignorando os aspectos
subjetivos de cada indivíduos e a maneira que percebem o mundo, ou subjetivas
demais, tornando lento e ineficaz o sistema de segurança pública - preventivo ou
repressivo -, visto que perderia tempo demais importando-se com o sentimentos e
percepções de criminosos que devem ser punidos.
No entanto, quando aplicados conjuntamente, não obstante a oposição
existente entre os dois movimentos, é possível encontrar um equilíbrio, cuja
aplicação é benéfica ao operador do direito. O legislador, com base nos elementos
que influem na percepção do indivíduo, pode criar leis que evitem a criminalidade ou
tipifiquem com precisão o delinquente; enquanto o Juiz, aplicador e interpretador das
normas, pode afirmá-las com clareza, levando em conta as percepções do réu, da
vítima e do Estado, e objetividade, através de modelos previstos na lei.
São, sem sombra de dúvidas, teorias que deixaram, direta ou indiretamente,
sua marca na Psicologia, tanto a comum como a Jurídica, desempenhando papel
fundamental na interpretação dos crimes, dos criminosos e da norma jurídica
aplicada aos fatos, auxiliando o Direito a atingir seu fim, a realização da convivência
ordenada​8​.

8
REALE, Miguel. ​Lições preliminares de direito.​ 27. ed. São Paulo: Saraiva, 2002, p.2.
BIBLIOGRAFIA

BAUM, William M.; SILVA, Maria Teresa Araújo (trad.) et al. ​Compreender o
behaviorismo: comportamento, cultura e evolução. 2. ed. Porto Alegre: Artmed,
2006.

BOCK, Ana M. Bahia; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lurdes T.


Psicologias: uma introdução ao estudo de psicologia. 13. ed. São Paulo:
Saraiva, 2001.

ENGELMANN, Arno. ​A Psicologia da Gestalt e a Ciência Empírica


Contemporânea. ​Psicologia: Teoria e Pesquisa, São Paulo, Vol. 18, n. 1, p. 01-16,
Jan-Abr, 2002.

REALE, Miguel. ​Lições preliminares de direito.​ 27. ed. São Paulo: Saraiva, 2002.

TOURINHO, Carlos; SAMPAIO, Renato. ​Estudos em Psicologia: Uma Introdução.


1 ed. RIO DE JANEIRO: Proclama, 2009.