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2, 3 e 4 de Julho de 2009

ISSN 1984-9354

SEGURANÇA DO TRABALHO: A
PERSISTÊNCIA DE ACIDENTES DIANTE
DAS POLÍTICAS DE PREVENÇÃO
Fernando de Oliveira Vieira
UFF
José Rogério Rodrigues Mó
Unigranrio
Vania Martins dos Santos
Unigranrio
Rosilene Coimbra Almeida Miranda
Unigramrio
Priscila Oliveira Borduan
Unigranrio

Resumo
Em um ambiente altamente competitivo do mercado, as crescentes exigências
por parte do público externo e interno tornam imperativas, além das
preocupações ambientais, as atitudes ética e socialmente responsáveis quanto
à segurança e à saúde dos trabalhadores que integram a organização. Diante
desse cenário, os Sistemas de Gestão da Segurança e Saúde no Trabalho
(SGSST), são considerados como instrumentos eficazes para a melhoria destas
condições no ambiente de trabalho, configurando-se como uma alternativa
possível para a evolução da gestão nas empresas. Tais sistemas objetivam
garantir a proteção e a integridade física e mental do trabalhador, por meio
de condições que possam resguardá-lo de riscos à saúde no exercício de suas
funções. Entretanto, mesmo com a crescente importância da questão da
Segurança no Trabalho e com a existência dos SGSST, que refletem um
crescente investimento das empresas para a garantia de um ambiente seguro
de trabalho, persistem os altos índices de acidentes de trabalho, influenciando
de maneira negativa os processos produtivos, gerando perda de tempo, de
materiais, diminuição da eficiência do trabalhador, aumento do absenteísmo,
dentre outros custos financeiros, humanos e sociais. Para uma compreensão
mais ampla deste fenômeno, foi realizada uma pesquisa de campo, de caráter
quantitativo, em uma grande empresa distribuidora de Gás Liquefeito de
Petróleo (GLP), na qual os índices de acidentes de trabalho permanecem
elevados, especialmente entre os novos funcionários, a despeito dos esforços
da empresa na implementação de políticas de prevenção de acidentes. A partir
da aplicação de questionários aos funcionários da organização, verificou-se
que a aplicação inadequada de treinamento em segurança no trabalho aos
funcionários recém-ingressos na empresa comprometeu o alcance dos
resultados esperados pela organização.

Palavras-chaves: Saúde e segurança do Trabalho; Acidentes de Trabalho;


Treinamento
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1. INTRODUÇÃO

No atual cenário em que estão inseridas as organizações, a questão da prevenção de


acidentes de trabalho e doenças ocupacionais ganha destaque significativo, impulsionando as
organizações à adoção de novas estratégias empresariais e tornando evidente que os padrões
de gestão atuais no campo da saúde e da segurança do trabalho não têm sido suficientes para
responder a estes novos desafios.
A tendência de incorporação de padrões de qualidade e de responsabilidade social por
parte das empresas nem sempre é revertida em uma efetiva melhoria das condições de
trabalho de seus colaboradores, ocorrendo, em muitos casos, o efeito contrário: a degradação
destas condições, especialmente no que diz respeito aos padrões de segurança e de saúde no
ambiente de trabalho, freqüentemente ameaçados pela existência dos acidentes de trabalho e
das doenças ocupacionais. Esta realidade deteriora os negócios e provoca danos aos
colaboradores, às empresas e à sociedade, não podendo ser tratada como fruto do acaso.
Nas últimas décadas, a crescente competição que caracteriza o mercado globalizado,
bem como as novas exigências colocadas pelos clientes, levaram as organizações a
implementarem Sistemas de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SGSST). Tais
sistemas representam um conjunto de medidas que são adotadas para prevenir ou minimizar
os acidentes de trabalho e doenças ocupacionais, bem como proteger a integridade e a
capacidade do trabalhador. Seu papel é o de permitir a identificação, a análise e o
enfrentamento do problema dos acidentes de trabalho, constituindo-se como ferramentas
gerenciais que contribuem para a melhoria do desempenho das empresas. Os SGSST’s são
planejados, dirigidos e controlados de forma a prevenir os riscos e promover a saúde dos
trabalhadores, sendo inseridos em uma abordagem global que compreende o bem-estar no
trabalhador em suas dimensões físicas, morais e sociais.
Estudos em saúde e segurança do trabalho apontam que as doenças profissionais e os
acidentes de trabalho provocam prejuízos significativos às pessoas e às organizações, em
termos de custos humanos, sociais e financeiros (TACHIZAWA; FERREIRA; FORTUNA,
2001). Segundo avaliação da Organização Internacional do Trabalho (OIT) as perdas por
acidentes de trabalho e doenças ocupacionais são estimadas em 4% do PIB – Produto Interno
Bruto Mundial. Essa problemática também é evidenciada nos resultados informados pela

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Organização Internacional do Trabalho, que citam números entre 1,9 e 2,3 milhões de mortes
por ano no mundo, resultantes de acidentes relacionados ao trabalho.
Em razão de tais custos serem elevados, tornam-se ainda mais relevantes os benefícios
resultantes dos programas de Gestão de Segurança no Trabalho. Os investimentos aplicados
pelas organizações nos SGSST podem resultar em maior produtividade, redução do
absenteísmo por doenças profissionais e redução de custos sociais provocados pelos
benefícios pecuniários pagos ao trabalhador acidentado, além de impactos positivo na
motivação dos funcionários, que se sentem mais seguros no local de trabalho.
Neste sentido, Barreiros (2000) aponta uma tendência crescente por parte das
organizações em implementarem os SGSST’s. Entretanto, alguns aspectos devem ser
considerados na avaliação desta tendência, que criam barreiras para o amplo aproveitamento
dos benefícios gerados pela Segurança no Trabalho. Conforme ressalta Benite (2004), uma
grande quantidade de empresas ainda desconhece estes sistemas ou adotam paradigmas de
gestão da saúde e da segurança do trabalho que se limitam ao cumprimento de requisitos
impostos pela legislação. Conforme Tachizawa, Ferreira e Fortuna (2001), a preocupação com
saúde e a segurança do trabalho representa uma evolução ainda recente na cultura empresarial
brasileira. Dados do Ministério da Previdência Social no Brasil mostram os reflexos da
carência de uma adequada cultura de prevenção de acidentes de trabalho nas empresas: em
2004 foram registrados no Brasil cerca de 459 mil acidentes de trabalho, dos quais 2.081
resultaram em óbito, além de cerca 28 mil casos de doenças ocupacionais. É importante ter
em conta, portanto, a possibilidade de que a subnotificação dos acidentes de trabalho esconda
uma realidade ainda pior.
Este quadro nos leva a refletir que o mundo do trabalho expressa atualmente um
retrato marcado por grandes contradições, apresentando um lamentável resultado de acidentes
e de doenças ocupacionais aos quais ficam expostos os trabalhadores. Diante deste grave
problema social, questiona-se: por que mesmo diante da existência de Sistemas de Gestão de
Saúde e Segurança no Trabalho nas empresas, resistem os altos índices de acidentes de
trabalho? A reflexão sobre esta questão terá como base um estudo de caso, dentro de uma
abordagem quantitativa, realizado em uma grande empresa distribuidora de Gás Liquefeito de
Petróleo (GLP), localizada no complexo petroquímico de Duque de Caxias (RJ), na qual os
investimentos na prevenção de acidentes não têm obtido contrapartida na redução dos
acidentes de trabalho na empresa.

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O objetivo principal do artigo é o de compreender os fatores que comprometem os


resultados esperados com os investimentos em Saúde e Segurança do trabalhador na empresa
pesquisada. No caso da empresa selecionada para o trabalho de campo, justifica-se a
investigação, tendo em vista suas práticas de treinamento, palestras educativas, oferta de
Equipamentos de Proteção Individual e Coletiva (EPI’s e EPC’s), de acordo com as normas
da legislação vigente, o que torna necessário elucidar as dificuldades e os principais
problemas e distorções que têm conduzido esta empresa a resultados negativos no quesito
Segurança no Trabalho.
Nos paradigmas contemporâneos de gestão, cada vez mais, as organizações têm que se
diferenciar no mercado não somente sendo mais competitivas e lucrativas, mas também
demonstrando a seus stakeholders que conceitos como o de ética, responsabilidade social e
desenvolvimento sustentável estão incorporados em sua missão organizacional
(BARREIROS, 2000; COSTA, 2006). Neste contexto, torna-se necessário reavaliar a gestão
organizacional, para que os impactos negativos decorrentes de sua atividade sobre a qualidade
de vida de seus funcionários, incluindo aí a segurança e saúde no trabalho, possam ser
reduzidos a uma condição aceitável.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

Tachizawa, Ferreira e Fortuna (2001, p.229), definem segurança do trabalho como um


conjunto de medidas que visam à prevenção de acidentes, fundadas em um conjunto de
normas e de procedimentos que têm por objetivo proteger a integridade física e mental do
trabalhador, procurando resguardá-lo dos riscos de saúde relacionados ao exercício de suas
funções e a seu ambiente de trabalho. Chiavenato (2002, p.438) inclui nestas definições o
aspecto educativo da segurança no trabalho:

Segurança do Trabalho pode ser entendida como o conjunto de medidas técnicas,


médicas e educacionais empregados para prevenir acidentes, quer eliminando
condições inseguras do ambiente de trabalho, quer instruindo ou convencionando
pessoas na implantação de práticas preventivas.

A Segurança no Trabalho tende a promover e manter um elevado grau de bem-estar


físico, mental e social dos trabalhadores em suas atividades e a impedir os danos causados
pelas condições de trabalho, protegendo-o contra os riscos prejudiciais à saúde. Conforme

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ressalta Melo (2001), o conceito de saúde no trabalho evoluiu de uma perspectiva que se
limitava ao simples estado de ausência de doenças, para uma perspectiva que enfoca a
promoção de um ambiente de bem-estar capaz de motivar os colaboradores das organizações.
A segurança no trabalho, para esta autora, aponta para um conjunto de medidas diversificadas
voltadas para o reconhecimento e o controle de riscos associados ao local de trabalho aos
processos produtivos, adequando-se por conseguinte ao objetivo de prevenir os acidentes de
trabalho. Neste sentido, a prevenção é o conjunto de todas as ações que visam evitar os erros
ou a ocorrência de defeitos, englobando a própria organização do trabalho e as relações
sociais na empresa (MELO, 2001). As três ações fundamentais que sustentam as práticas de
prevenção são o planejamento prévio das operações, a elaboração procedimentos corretos e
os programa de formação profissional.
É importante destacar que a Segurança no Trabalho requer uma abordagem integrada,
segundo a qual o acidente de trabalho é um fenômeno de natureza, multifacetada, resultante
de interações complexas entre fatores físicos, químicos, biológicos, psicológicos, culturais e
sociais (CARDELLA, 1999 apud MACIEL, 2001, p. 45).

2.1. ACIDENTE DE TRABALHO

O acidente de trabalho é um termo fundamental na segurança do trabalho, visto que


um dos principais objetivos dos SGSST é a eliminação ou redução desses acidentes.
O acidente de trabalho pode ser definido como um fato não premeditado, que ocorre
no desenvolver das atividades de trabalho (CHIAVENATO, 1997). A crescente preocupação
com a prevenção de acidentes no trabalho por parte das empresas contribuiu para a
diminuição dessas ocorrências, o que reforça os impactos positivos da mudança na visão das
empresas quanto a estes aspectos.
A tabela 1 demonstra a média de acidentes de trabalho ocorridos no Brasil de 1970 até
2004. É possível observar que, de 1970 até 2004, o número de trabalhadores aumentou,
enquanto o número de acidentes diminuiu, verificando-se, ainda, que os segmentos com
maiores índices de acidentes registrados foram, respectivamente, os de produtos alimentares e
bebidas, agricultura, outras indústrias de transformação, saúde e serviços sociais, construção e
comércio varejista.

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TABELA 1: Acidentes de trabalho ocorridos no Brasil de 1970 a 2004

Trabalha-
Ano dores Acidentes Doenças Total Acidentes/ Óbitos Óbitos/100 Óbitos/10
100 mil
Típico Trajeto Acidentes Trab. mil trab. mil acid.
Década
de 70 12.428.828 1.535.843 36.497 3.227 1.575.566 13.696 3.604 30 23
Década
de 80 21.077.804 1.053.909 59.937 4.220 1.118.071 5.388 4.672 22 42
Década
de 90 23.648.341 414.886 35.618 19.706 470.210 1.998 3.925 17 85
Década
de 2000
28.610.932 321.773 46.902 22.370 391.045 1.364 2.858 10 74
Fonte: Fundacentro, 2006

Brauer (1994, apud COSTA, 2006) define acidente como um evento simples ou a
seqüência de múltiplos eventos indesejados e não-planejados, que são causados por atos
inseguros, condições inseguras, ou ambos, e que podem resultar em efeitos indesejáveis
(imediatos ou retardados). Em tal definição, “atos inseguros” e “condições inseguras” operam
como as duas causas fundamentais dos acidentes.
Chiavenato (1997, p. 385) define que condição insegura “é a condição física ou
mecânica existente no local, na máquina, no equipamento ou na instalação (que poderia ter
sido protegida ou corrigida) e que leva à ocorrência do acidente”. Trata-se das condições do
ambiente de trabalho que oferecem perigo ou risco ao trabalhador, como, por exemplo,
máquinas e equipamentos em estado precário de manutenção ou iluminação inadequada.
Outros aspectos que devem ser contemplados na definição de condições inseguras são fatores
de ordem psicosocial e organizacional, como, por exemplo, ambientes estressantes nos quais o
alto nível de pressão por resultados ou a sobrecarga de trabalho podem induzir o trabalhador à
negligência com a normas de segurança. Além disso, a falta de adequação ergonômica do
ambiente de trabalho também pode ser considerada como “condição insegura” de trabalho.
De acordo com Chiavenato (1997 p. 385), ato inseguro “é a violação de procedimento
aceito como seguro, ou seja, deixar de usar equipamentos de proteção”. Trata-se, neste caso,
do ato praticado pelo homem, em geral consciente do que está fazendo, que confronta as
normas de segurança, tais como deixar de usar ou usar de modo inadequado equipamentos de
segurança. Tal definição ressalta as tendências comportamentais que levam aos atos

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inseguros, provocando desatenção e falhas em seguir procedimentos e aumentando a


probabilidade de acidentes.
Segundo Souza (2004, pp. 4-5), resumir as causas dos acidentes de trabalho a atos ou a
condições inseguras constitui uma visão tradicional em segurança e saúde do trabalho, já que
a análise dos acidentes tem demonstrado que eles decorrem de uma combinação de fatores ou
causas que interagem sob determinadas circunstâncias, sendo, portanto, incompletas as visões
que colocam, de um lado, o homem como principal causador dos acidentes e, de outro, as
empresas como grandes responsáveis, por não criarem condições adequadas de trabalho. Não
raro, como demonstraram Vilela, Iguti e Almeida (2004), tal paradigma reducionista, segundo
o qual os acidentes são fenômenos de causa única, centram-se em sua maioria nos erros e
falhas das próprias vítimas.
Souza (2004) propõe a observação de quatro elementos que atuam em conjunto nas
operações de trabalho e que devem interagir de modo adequado entre si, ou poderão produzir
problemas que irão ocasionar os acidentes:
a) pessoas: são os gestores da empresa, os supervisores, os trabalhadores, os
visitantes, os fornecedores, o público, enfim, o elemento humano, através de suas
ações ou omissões;
b) equipamentos: são as ferramentas e máquinas com que as pessoas trabalham,
diretamente ou que se encontram no ambiente de trabalho;
c) materiais: são as matérias-primas, os produtos químicos e outras substâncias que
as empresas usam e processam. Em muitas empresas, 20 a 30% das lesões são
causadas pelo manejo (processo) incorreto de materiais. Do mesmo modo, grande
parte dos danos às instalações se deve aos produtos que são derramados
indevidamente nos ralos e com isso acabam contaminando o solo e água, além de
poderem causar incêndios e explosões;
d) ambiente de trabalho: São os elementos presentes no local onde está sendo
realizado o serviço ou tarefa.

Segundo Benite (2004), é importante avançar ainda mais nestas idéias, evitando-se as
idéias comumente associadas ao termo “acidente”, como por exemplo, a de que estes ocorrem
por acaso, necessariamente provocam danos pessoais e que suas conseqüências ocorrem
imediatamente após o evento. O acidente, nas normas BS 8800 e na OHSAS 18001, é

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definido como “evento indesejável que resulta em morte, problemas de saúde, ferimento,
danos ou outros prejuízos”, definição esta que aponta para uma visão que não limita os danos
provocados por estes eventos à pessoa humana. Tal perspectiva é importante para confrontar a
visão comum de que só identifica acidentes quando pessoas são feridas. Neste sentido, a
própria Lei 8.213 (1991) é insatisfatória em sua definição do que constitui um acidente de
trabalho: “o que ocorre pelo exercício do trabalho a serviço da empresa, ou pelo exercício do
trabalho de segurados especiais, provocando lesão corporal ou perturbação funcional, que
cause a morte, a perda ou a redução da capacidade para o trabalho, permanente ou
temporária”.
Para Benite (2004), é importante adotar uma visão prevencionista, que não espera a
ocorrência dos danos. Na visão prevencionista, deve-se considerar como causa de acidentes
qualquer fator que, se não for removido a tempo, conduzirá ao acidente. Deste modo pode-se,
segundo o autor, definir um conceito mais promissor no campo da segurança e saúde do
trabalhador, o conceito de quase-acidente, apresentado na OHSAS 18001: “evento não
previsto que tinha potencial pra causar acidentes”. Na visão prevencionista, deve-se
considerar como causa de acidentes qualquer fator que, se não for combatido a tempo,
provocará um acidente.
A evolução desta visão permite identificar deficiências e melhorar os sistemas de
controle, reduzindo a probabilidade de que os quase-acidentes se tornem acidentes.
Neste sentido, ressalta Benite (2004), placas que indicam a não ocorrência de
acidentes em um determinado período de tempo deixam de ser medidas reais de desempenho
em Segurança do Trabalho, pois os quase-acidentes podem levar a acidentes a qualquer
momento. Por esta razão, é importante que a gestão dos SGSST’s tenham como foco não
apenas a redução de acidentes, como também a redução dos quase-acidentes, criando-se, pois,
mecanismos de identificação e análise para um posterior controle destas situações.

2.2. GESTÃO DE SEGURANÇA NO TRABALHO

De acordo com a American Petroleum Institute (API) (1998, p. 6 apud COSTA, 2006,
p. 85), um Sistema de Gestão no Modelo Ambiental de Saúde e Segurança é definido como
um conjunto de responsabilidades, procedimentos, processos e recursos que precisam estar

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implantados para integrar plenamente os problemas de segurança, saúde e ambientais nas


operações de negócios.
Os Sistemas de Gestão da Saúde e Segurança no Trabalho (SGSST’s) são “um
conjunto de iniciativas que englobam políticas, programas, procedimentos e processos
integrados ao negócio da organização, para que esta esteja em conformidade com as
exigências legais e demais partes interessadas no que diz respeito à SST e, ao mesmo tempo
dar coerência a sua própria concepção filosófica e cultural, conduzindo assim suas atividades
com ética e responsabilidade social” (COSTA, 2006, p. 87),
Na visão da autora, o objetivo principal dos SGSST é o de constituir uma estrutura
gerencial que possibilite às organizações o gerenciamento dos riscos nos locais de trabalho, a
fim de mantê-los dentro de limites aceitáveis pelas partes interessadas, contribuindo para a
redução das ocorrências de acidentes e doenças relacionadas com as atividades laborais. A
autora acrescenta ainda que um dos aspectos fundamentais para a melhoria do desempenho da
segurança e saúde no trabalho é a forma como a organização lida com suas experiências
positivas ou negativas e como mantêm ou mudam suas diretrizes para conceberem novos
planos de ação, incorporando essas experiências ao seu processo de aprendizagem.
De acordo com Benite (2004, p. 21) os SGSST’s “constituem ferramentas gerenciais
que auxiliam as organizações na reavaliação da segurança e saúde no trabalho, bem como na
criação de novos modelos”. No ponto de vista crítico deste autor, as empresas concentrando-
se na reparação dos danos à saúde e à integridade física dos trabalhadores provocados pelos
acidentes, ao invés de desenvolver atitudes de prevenção a estes problemas. Entretanto,
tornou-se evidente que, em termos de gestão da saúde e da segurança do trabalhador, somente
a reparação de danos não é suficiente, sendo necessário investir em prevenção. Decorre desta
situação a necessidade de um novo enfoque para as questões de segurança e saúde na
organização, a partir da idéia de que as empresas devem se preocupar não somente com os
danos aos trabalhadores, mas também com os danos às instalações, aos equipamentos e aos
seus bens em geral, gerando prejuízos significativos à organização, o que amplia ainda mais a
abrangência dos custos dos acidentes e a necessidade de uma visão prevencionista e integrada
nas organizações, em prol de atividades mais eficientes e econômicas.
De acordo com Costa (2006), os SGSST são importantes para a atuação socialmente
responsável das organizações, visto que cada uma deve possuir um processo contínuo de
reavaliação do ambiente organizacional interno e externo, identificando como sua atuação

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direta e indireta pode afetar a qualidade de vida de seus funcionários, comunidades vizinhas,
organizações com as quais se relaciona e a sociedade, e dessa forma possibilitar um
desempenho que propicie as mudanças necessárias.
Segundo Borger (2001), a atuação das empresas orientadas para a responsabilidade
social não implica que a gestão empresarial abandone os seus objetivos econômicos e deixe
de atender aos interesses de seus proprietários e acionistas; ao contrário, uma empresa é
socialmente responsável se desempenha seu papel econômico na sociedade produzindo bens e
serviços, gerando empregos, retorno para os seus acionistas dentro das normas legais e éticas
da sociedade. Entretanto, cumprir seu papel econômico não é suficiente; a gestão das
empresas é responsável pelos efeitos de sua operação e atividades na sociedade.
As atividades das organizações, portanto, afetam a sociedade e o público expressa suas
preocupações com o comportamento das empresas em relação à sociedade e ao meio
ambiente, exigindo um maior envolvimento na solução dos problemas sociais que os afetam.
Dentro desta perspectiva, a questão dos acidentes de trabalho apresenta-se como sendo de
suma importância, tendo em vista os impactos significativos que geram. Por estas razões,
entende-se que a questão dos acidentes de trabalho é considerada como um dos elementos que
integram a visão da organização quanto a sua responsabilidade social.
A implantação dos Sistemas de Gestão da Segurança e Saúde no Trabalho requer um
conjunto de mudanças internas na organização, no que tange o âmbito cultural e político, além
da participação efetiva de seus gestores neste processo, para que seja possível um programa
de gestão compatível com novas mudanças. É importante reforçar que esse processo deve
fazer parte do cotidiano das organizações, sendo absorvido pela cultura organizacional desde
o topo da pirâmide até o menor nível da estrutura da organização.

2.3. O PAPEL DO TREINAMENTO

Segundo Falcão e Rousselet (1999), os acidentes de trabalho, em sua maioria,


poderiam ser evitados, se houvesse uma maior atenção ao fenômeno, desde o planejamento e
o gerenciamento, até os processos de execução das práticas em Saúde e Segurança no
Trabalho. Segundo Cavalcante, Medeiros e Borges (2002), para provocar mudanças em uma
organização, é preciso começar pelas pessoas que nela trabalham, tendo em vista que o
homem é o grande diferencial neste ambiente, por ser o idealizador e o realizador de todas as

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atividades que nele ocorrem. Neste sentido, os autores chamam atenção para a importância
crucial das práticas de treinamento, responsáveis pelo fortalecimento dos conhecimentos e
habilidades dos recursos humanos da organização. O treinamento é, portanto, uma das
responsabilidades centrais a serem assumidas pela gerência, apoiando os profissionais que
elaboram e planejam a contínua aprendizagem que caracteriza este processo.
Aquino (1992) destaca que é por meio do treinamento que o empregado melhora o
exercício de sua função e sua conduta dentro da organização, o que é confirmado pela
observação de Chiavenato (1997, p. 509): “Treinamento é o processo educacional de curto
prazo aplicado de maneira sistemática e organizada, através do qual as pessoas aprendem
conhecimentos, atitudes e habilidades em função de objetivos definidos”. Por esta razão,
entende-se que aumentar a capacitação e as habilidades intelectuais e/ou técnicas das pessoas
é a função prioritária do treinamento, o que reverte-se em maior qualidade nos processos
produtivos da organização. Ao ambientar os novos funcionários, fornecendo-lhes os
conhecimentos e parâmetros necessários para o bom andamento do trabalho, o treinamento,
quando bem planejado e conduzido, pode ser considerado um dos instrumentos mais valiosos
na solução e mesmo na prevenção de muitos dos problemas que acontecem na empresa
(CAVALCANTE; MEDEIROS; BORGES, 2002). Pode ser compreendido também como
fator crucial na constituição e reforço dos pilares da cultura organizacional, em especial
quando se pretende introduzir nela a Segurança no Trabalho como um valor prioritário para a
organização.
Na concepção de Carvalho e Nascimento (2002, p.154), no treinamento procura-se
uma continuada reconstrução pessoal das experiências, sejam pessoais sejam profissionais,
através de um processo educacional. Esse processo educacional procura estimular o indivíduo
utilizando a influência do ambiente que o cerca.
Dessa forma, o treinamento pode e, deve se apresentar como um processo educacional
envolvendo, na sua maioria, os fatores que possam estimular o indivíduo na compreensão e
capacitação para resolução de problemas (CARVALHO e NASCIMENTO, 2002, p.154). O
treinamento, além de produzir compreensão e capacitação, deve promover o retorno do
investimento da organização (LACOMBE, 2007, p.312). Para o mesmo autor, as organizações
que não investem em treinamento, ou não desenvolvem um processo de treinamento eficiente,
objetivando a preparação do empregado para o desempenho, tendem a enfrentar dificuldades
competitivas pela falta de elementos preparados.

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De acordo com Schermerhorn, Hunt e Osbourne (1999), a cultura organizacional é o


sistema de ações, valores e crenças compartilhados que se desenvolve numa organização e
orienta o comportamento dos seus membros. Tais elementos representam a “visão do mundo”
ou o paradigma dominante na organização. Portanto, as organizações, compreendidas como
culturas, implicam que sejam compreendidas como conjunto de pessoas com determinados
objetivos e uma forma específica de pensar e agir.
De acordo com Krause (1994), em uma cultura organizacional onde a segurança no
trabalho constitui uma prioridade, todos se sentem responsáveis pela segurança e a buscam a
todo momento. Os empregados vão além de suas “obrigações” restritas para identificar
comportamentos e condições de risco, intervindo para corrigi-los. Segundo Cooper (2000) o
termo cultura de segurança descreve um tipo de cultura organizacional na qual a segurança é
entendida e aceita como sendo a prioridade número um da organização. Conforme destaca o
autor, se a segurança não possuir uma característica dominante no contexto da cultura
organizacional, a cultura de segurança será um mero acessório da cultura da organização.
Dentro desta perspectiva, a segurança não é um aspecto que pode ser mudado, dependendo
das exigências da situação; ao contrário, é uma prioridade, um valor que está ligado, de modo
consistente e integrado, a todos os aspectos do trabalho, inclusive produtividade, qualidade e
lucratividade.
A cultura de segurança, segundo Geller (1994), envolve não apenas aspectos
ambientais, mas também fatores pessoais, como crenças e atitudes, além dos fatores
comportamentais envolvidos nas práticas de segurança e de risco no trabalho. Todos estes
aspectos visam a ultrapassar o simples cumprimento das obrigações normativas em Saúde e
Segurança e devem envolver compromissos com práticas contínuas voltadas para a construção
de um ambiente de trabalho seguro e saudável.
É neste ponto que é importante compreender de modo claro a conexão entre a
existência de políticas de prevenção de acidentes e o treinamento. As organizações não são
dominadas pela racionalidade técnica, como se a simples padronização e sistematização dos
processos, associada à práticas de controle e de vigilância, fossem suficientes para a obtenção
dos resultados desejados. Neste sentido, a existência de SGSST’s deve estar amparada por um
conjunto de mudanças na cultura da organização, que venham a se traduzir em
comportamentos seguros por parte dos empregados no ambiente de trabalho. Compreende-se,
portanto, que a introdução de um Sistema de Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho não

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pode ser tratada apenas como uma exigência legal, ela deve alterar a estrutura
comportamental da organização, agregando novos conceitos dentro de uma cultura de
prevenção de acidentes, que garanta a segurança e integridade de seus colaboradores. O
comportamento prevencionista e o processo de melhoria contínua são as bases deste processo,
pois seu desempenho depende efetivamente da participação e do comprometimento de todos
na organização. Desta feita, o treinamento, como um importante fator gerador de tais
comportamentos, torna-se crucial.

3. ESTUDO DO CASO

A empresa iniciou suas atividades na década de 1950, tornando-se uma grande rede
distribuidora de gás que responde por mais de 20% do mercado brasileiro de GLP. O volume
anual comercializado pela empresa é de aproximadamente 1,5 milhão de toneladas.
Para atender a esta demanda dentro dos princípios de segurança do trabalho, a empresa
decidiu direcionar seu foco de atenção parta programas de treinamento, palestras educativas e
oferta de equipamentos de proteção individuais e coletivos, de acordo com as normas da
legislação vigente. Entretanto, foi necessária uma revisão desta estratégia, tendo em vista o
aumento do número de acidentes envolvendo funcionários recém-contratados.
Para analisar este fenômeno, foi feita uma pesquisa de campo, junto a um grupo
funcionários do setor de carregamento e descarregamento de caminhões, cujo universo era
constituído por 35 pessoas. Foram selecionados 15 funcionários dentro deste grupo, por
possuírem mais de 2 anos de experiência. A este grupo foi aplicado um questionário contendo
10 perguntas fechadas, que foram tratadas e validadas de acordo com os princípios da
abordagem quantitativa. O setor foi escolhido em razão das preocupações e das informações
fornecidas pela organização de que este era o setor que vinha apresentando o maior número de
acidentes.
A metodologia de pesquisa adotada, conforme classificação de Vergara (2004) é
quanto aos fins explicativa, pois pretende elucidar as razões da ocorrência de acidentes de
trabalho na empresa selecionada. Quanto aos meios, a pesquisa classifica-se como
bibliográfica, contando com a sustentação teórica de estudos consolidados a respeito do
assunto e também como pesquisa de campo, tendo em vista a coleta de dados junto aos
funcionários da organização. Classifica-se, ainda, como um estudo de caso objetivando a

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investigação de uma organização em particular, para averiguar as perspectivas dos


funcionários quanto às práticas e políticas de segurança adotadas no contexto da empresa
estudada.
A coleta de dados em campo processou-se de modo difícil pela pouca receptividade
mostrada por parte do supervisor do setor à presença dos pesquisadores e, por diversas vezes,
adiou a aplicação dos questionários. Na semana anterior à pesquisa, houve um processo de
demissão na empresa, o que também dificultou a coleta de dados.
A primeira pergunta verificou a percepção dos funcionários em relação à importância
do uso de equipamentos de proteção na realização de suas atividades. Todos se mostraram
conscientes a este respeito, conforme gráfico 1:

GRÁFICO 1: Importância do Equipamento de Proteção

0%
0%

Muito importante
Importante
Não é importante

100%

Fonte: Elaboração dos autores

A segunda pergunta focou-se no uso dos equipamentos de proteção (EPI’s e EPC’s).


Todos os entrevistados afirmaram que executam suas atividades sempre utilizando tais
equipamentos, conforme gráfico 2. Entretanto, fora da situação de aplicação do questionário,
informalmente, alguns dos entrevistados afirmaram existir funcionários que não sabiam
utilizar os equipamentos de proteção corretamente.

GRÁFICO 2: Uso do Equipamento de Proteção

0%
0%

Sim
Às vezes
Não

100%

Fonte: Elaboração dos autores

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Na terceira questão, procurou-se investigar se os funcionários receberam ou recebem


algum tipo de treinamento em segurança do trabalho. Em sua grande maioria, os entrevistados
afirmaram que sim. Em contrapartida, uma parte negou a existência de qualquer tipo de
treinamento, conforme o gráfico 3:

GRÁFICO 3: Treinamento em Segurança oferecido pela empresa

27%

Sim
Não

73%

A pergunta 4 preocupou-se na identificação se o treinamento foi aplicado de modo a


ter impacto positivo na redução de acidentes. Parte significativa dos entrevistados mostrou
entender a relação entre treinamento e redução de acidentes, afirmando que os treinamentos
recebidos ajudaram bastante para que fossem evitados os acidentes de trabalho, conforme
demonstrado no gráfico 4:

GRÁFICO 4: O treinamento em Segurança reduz acidentes

27%

Sim
Não

73%

Fonte: Elaboração dos autores

Na pergunta 5, buscou-se saber se, do ponto de vista dos funcionários, as informações


foram passadas de modo claro nos treinamentos realizados pela empresa. Neste ponto, os
funcionários foram unânimes em reconhecer que não tiveram dúvidas quanto aos conteúdos
que lhes foram transmitidos, conforme o gráfico 5:

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GRÁFICO 5: Informações passadas no treinamento de modo claro

27%

Sim
Não

73%

Fonte: Elaboração dos autores

O objetivo da pergunta 6 foi o de identificar se, na avaliação dos funcionários, os


equipamentos de proteção fornecidos pela empresa encontram-se em perfeitas condições de
uso e todos os entrevistados responderam afirmativamente à pergunta, como mostra o gráfico
6:

GRÁFICO 6: Equipamentos de Proteção em condição de uso

0%

Sim
Não

100%

Fonte: Elaboração dos autores

Na pergunta 7, os entrevistados foram mais uma vez questionados sobre a oferta de


equipamentos de proteção e, neste caso, cerca de 1/3 dos entrevistados afirmaram que,
embora a empresa ofereça gratuitamente tais equipamentos, têm que pagar uma taxa no caso
de dano ou extravio do mesmo. Uma parte significativa também registrou que a empresa não
oferece tais equipamentos de modo gratuito, conforme gráfico 7. Chama a atenção o número
significativo de entrevistados que afirmam que a empresa não oferece gratuitamente os
Equipamentos de Proteção.
Os entrevistados observaram, de modo informal, durante as entrevistas, que o
treinamento no uso de tais equipamentos é feito por meio da exibição de slides que mostram
fotos e explicações quanto aos equipamentos e a seus modos de uso.

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GRÁFICO 7: Gratuidade dos Equipamentos de Proteção

Sim
27% 33%
Paga-se taxa se
quebrar ou perder
Não
40%

Fonte: Elaboração dos autores

A pergunta 8 verifica informações dos funcionários sobre a ocorrência de acidentes na


empresa. A maioria afirma ter sofrido algum tipo de acidente e uma outra parte dos
entrevistados confirma conhecer alguém na empresa que já sofreu acidente de trabalho,
conforme o gráfico 8.
Um dado coletado por meio de observação de campo durante a aplicação dos
questionários informa que haviam se passado 137 dias sem acidentes de trabalho.

GRÁFICO 8: Ocorrência de acidentes na empresa

Sim (nos 2 primeiros


anos)
27% 33% Sim (após 2 anos de
trabalho)
Não (mas conheço
alguém que sofreu)
20% 20%
Não

Fonte: Elaboração dos autores

Na resposta à pergunta 9 fica bastante clara a incongruência entre as percepções dos


funcionários quanto ao papel do supervisor de fiscalizar o uso dos equipamentos de proteção
por parte dos funcionários. Para 50% dos entrevistados, não ocorre supervisão constante
quanto a este quesito, conforme demonstra o gráfico 9:

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GRÁFICO 9: Supervisão quanto ao uso de Equipamentos de Proteção

47%
Sim

53% Não

Fonte: Elaboração dos autores

Com freqüência, os acidentes de trabalho estão relacionados à extensão inadequada da


jornada de trabalho (COSTA, 2006). O objetivo da pergunta 10 foi o de identificar a
existência de jornada excessiva de trabalho na empresa. A maioria dos entrevistados
confirmou a necessidade de permanecer no trabalho após o expediente, conforme o gráfico
10:

GRÁFICO10: Permanece no trabalho após o expediente

13%
40%
Sempre
Às vezes
Nunca
47%

Fonte: Elaboração dos autores

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para entender a razão da ocorrência de acidentes de trabalho em uma grande


distribuidora de GLP que adota uma política de segurança e saúde do trabalho, esta pesquisa
buscou averiguar a percepção de um grupo de funcionários quanto às práticas de segurança
adotadas nesta organização.
Foram verificadas significativas incongruências nas respostas dos funcionários,
especialmente no que diz respeito ao treinamento oferecido pela empresa. Tal incongruência

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sinaliza a ocorrência de um importante fator que, segundo pesquisadores em segurança do


trabalho, pode ser determinante na atitude dos funcionários para com a segurança de suas
atividades (AQUINO, 1989). O treinamento visa, justamente, reciclar e proporcionar
conhecimentos, habilidades e atitudes ao empregado, para melhor exercer suas funções e
conduzir-se dentro da organização dentro das normas de segurança. Portanto, não deveriam
existir dúvidas nem equívocos entre os funcionários quanto à existência do processo de
treinamento. Este fator pode, ainda, implicar em problemas no uso dos equipamentos de
segurança, o que foi observado informalmente pelos entrevistados, e também na ocorrência de
acidentes.
De acordo com a percepção de metade dos funcionários entrevistados detectou-se a
não existência de supervisão quanto ao uso dos equipamentos de proteção e, este é outro
ponto delicado na aplicação dos princípios de Segurança do Trabalho nas organizações. De
acordo com Costa (2006), o simples fornecimento dos equipamentos de proteção individual
não garante a proteção do trabalhador contra os acidentes de trabalho, pois quando utilizados
de modo incorreto, tais equipamentos podem comprometer ainda mais a segurança do
trabalhador.
Um Sistema de Gestão em Saúde e Segurança do Trabalho não admite incongruências
em sua aplicação e requer uma cultura de segurança afinada de modo a reverter-se em
comportamentos que não comprometam as normas de segurança no ambiente de trabalho.
Para reduzir comportamentos inseguros, conforme aponta de modo consistente a literatura
discutida neste artigo, são necessárias campanhas de prevenção educativas e inspeções
freqüentes sobre o uso de equipamentos de segurança, sendo importante também que tais
informações sejam passadas de modo dinâmico, como por exemplo, o treinamento para o uso
de equipamentos de segurança não ocorrer apenas por meio da apresentação de slides, mas
envolver o manuseio do equipamento pelo funcionário.
Outro fator importante a ser avaliado e, se possível revisto, é a extensão da jornada de
trabalho, já que, em excesso, a jornada pode provocar estados de fadiga que induzem a
comportamentos inseguros por parte dos trabalhadores.
A organização estudada, por sugestão dos pesquisadores, deveria passar por um estudo
mais detalhado e aprofundado para reduzir os problemas e, consequentemente, os índices de
acidentes de trabalho demonstrados.

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