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A relação entre ciência e crença na sociedade contemporânea

Em meio a uma pandemia, um dos assuntos mais comentados é a relação entre


crença e ciência e esse ensaio se propõe a debater como uma interfere na outra, ou como
podem ser complementares. Seguindo essa linha de raciocínio, trago para análise a temática
das Terapias Integrativas de Saúde. Essas práticas ancestrais encontram aceitação na
sociedade de maneira geral, mas esbarram na falta de comprovações científicas, o que
provoca o afastamento da classe médica e dificulta o acesso da população a essas formas
tradicionais de Cuidado e saúde.

Nesse ensaio cabe debater como surge a medicina social e como a necessidade de
usar uma ferramenta estatal para controlar a sanitariedade das cidades se sobressaía sobre a
questão do bem estar individual da população. Podemos destacar também que com a criação
do monopólio do Estado sobre o controle das práticas saúde, o lugar dos saberes tradicionais
se desloca e é marginalizado, à eles fica reservado o lugar do exótico, da crendice.

Segundo Foucault (2001), ao contrário do que se acredita, antes do capitalismo,


no meio rural, o Cuidado era direcionado ao indivíduo, entretanto com a Revolução Industrial
acontece uma inversão dessa lógica no meio urbano. Com a rápida expansão das cidades, as
condições sanitárias eram precárias e consequentemente as doenças se espalhavam
rapidamente, afetando não apenas a massa trabalhadora vivendo em cortiços, mas também as
classes mais abastadas da sociedade. É aí que o Estado, ainda embrionário à época, decide
intervir na saúde da população, não com o objetivo de amenizar o sofrimento ou curar
doenças, mas para o controle das condições de vida e prevenção de epidemias.

É na Inglaterra que surge de fato a medicina social, que traz um novo elemento, a
atenção médica individualizada à população pobre das cidades. A medicina social inglesa
associa o controle do Estado sobre a prática da medicina e sobre dados gerais da população,
meios de intervenção para assegurar a salubridade de habitações, controle de epidemias,
obrigatoriedade de vacinação e outros métodos preventivos, e a inclusão do atendimento
gratuito ou de baixo custo individualizado da população pobre, impedindo que doenças
geradas nos cortiços atingissem a alta sociedade inglesa.
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Nesse período existe a reformulação do hospital como uma instituição. Inspirados


pelos hospitais militares, que precisavam recuperar seus soldados, devido ao alto investimento
que eles representavam, é inserida uma nova metodologia de organização e de técnicas que
visavam a recuperação das doenças, então o hospital passa de um lugar onde se vai para ter
uma morte confortável para um lugar que tem como objetivo principal tratar e curar doenças.
Com a transformação do hospital em um ambiente terapêutico, os médicos se tornam
responsáveis pelo gerenciamento e são eles que ficam responsáveis pela adequação do espaço,
das condições para o atendimento e do controle sobre as variações físicas, mentais e
emocionais dos pacientes sob seus cuidados.

No contexto brasileiro, ainda é possível notar a problemática por trás da


estatização dos saberes médicos, que veio fortemente ligada à manutenção do prestígio de
uma casta social e política. Em um período que a população brasileira recorria
majoritariamente à curandeiros, raizeiros, dentre outros, a crescente elite de profissionais que
estudava medicina na Europa precisava estabelecer uma clientela. Para que isso fosse possível
era necessário que, primeiramente, houvesse uma campanha de deslegitimação das práticas
tradicionais de saúde, lhes atribuindo o lugar de dúvida e ineficácia, mesmo que nesse período
as técnicas adotadas pelos médicos brasileiros também encontrassem pouco ou nenhum
respaldo científico, como por exemplo, a sangria e uso de sanguessugas (D’ALMEIDA,
2018).

No final da década de 1980, os saberes tradicionais de Cuidado e saúde passam a


ser reinseridos no SUS1. Mesmo com o acirramento das relações entre os órgãos reguladores e
os praticantes de saberes tradicionais, esses conhecimentos nunca estiveram completamente
fora do sistema médico hegemônico, e a partir desse processo é possível analisar, para esse
ensaio, a relação entre crença e ciência.

Embora exista, à primeira vista, uma dicotomia entre crença e ciência, segundo
um artigo publicado pela Folha de São Paulo (2017), escrito por Peter Harrison, essa visão
não resiste à análise histórica. O que é possível perceber é que a ciência dependeu da religião
para se legitimar.

“Na realidade, contrariando o conflito, a norma histórica muitas vezes tem


sido de apoio mútuo entre ciência e religião. Em seus anos formativos, no

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Sistema Único de Saúde
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século 17, a ciência moderna dependeu da legitimação religiosa. Nos séculos


18 e 19, teologia natural ajudou a popularizar a ciência” (Folha de São
Paulo, 2017).

No Brasil, ainda é possível notar que a relação entre o conhecimento empírico


presente na maioria dos saberes populares de saúde são caracterizados pelo sincretismo entre
as religiões hegemônicas e as crenças ancestrais. Por exemplo, em um grupo de raizeiras, os
saberes adquiridos pela experimentação ou repassados dentro do grupo familiar, encontram
sua legitimidade assegurada pela comprovação da eficácia pelos próprios usuários, mais o
conjunto de crenças e símbolos que envolvem a confecção e a utilização dos remédios.

Contrariando o que os cientistas pensavam tempos atrás, o avanço das ciências e o


surgimento de uma sociedade mais secularizada não criou um movimento inversamente
contrário de redução das crenças e religiões, provando que não existem elementos suficientes
que sustentem essa tese. Um artigo do site G1 (2014) cita como exemplo os E.U.A, um dos
países mais científicos e avançados em tecnologia do mundo e ainda assim, um dos mais
religiosos do Ocidente, onde até mesmo a comunidade científica pratica alguma religião em
percentuais próximos à população em geral.

“A pesquisa demonstrou que 18% dos cientistas assistiram a cultos religiosos


semanais, em comparação com 20% da população em geral.

A consulta também demonstrou que 15% dos cientistas se consideram muito


religiosos contra 19% da população em geral.

Enquanto isso, 13,5% dos cientistas leem textos religiosos semanalmente, em


comparação com 17% da população americana. 19% rezam várias vezes ao dia,
contra 26% da população como um todo” (G1, 2014).

A pergunta que fica e merece ser explorada é: se crença e ciência não são
excludentes, por que ainda existe tanta resistência da comunidade médica em inserir os
saberes tradicionais em Cuidado nas rotinas dos consultórios? Por exemplo, mesmo fazendo
parte das metas do Ministério da Saúde desde a década de 80, só bem recentemente um
conjunto de Práticas Integrativas de Saúde passou a figurar de forma efetiva na Atenção
Básica de Saúde.

Segundo uma matéria publicada pelo site da revista Super Interessante (2014), a
fé, não necessariamente religiosa, contribui ricamente para a recuperação de pacientes doentes
em relação à quem não possui nenhuma fé. E é nesse contexto que trago a discussão sobre a
inserção das Práticas Tradicionais de Saúde em ambientes médicos secularizados. A crença na
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eficácia de tratamentos tradicionais, compartilhadas pelo senso comum, pode melhorar o


atendimento como um todo, uma vez que aproxima a linguagem do paciente e do profissional
de saúde (FAQUETI & TESSER, 2018).

Essa horizontalidade que passa a acontecer aproxima e personaliza o atendimento


e dá agência ao paciente na escolha dos tratamentos, o que cria uma sensação de controle
sobre a própria saúde, garantindo maior adesão aos fármacos e PIS2 3. Para Junges ​et al
(2011), muitas pessoas tem preferência pelas terapias alternativas por encontrar nesses
ambientes similaridades de linguagens e valores sobre questões como cura e adoecimento.

Além desse sentido mais essencial de fé e crença, pode-se discutir fé em um


sentido mais complexo, atrelado à religiosidade. Na reportagem da revista Super Interessante
(2014) citada acima, o uso das crenças do paciente se torna parte fundamental do tratamento
de doenças graves, onde os profissionais de saúde notaram que quando estimulados à
professar sua fé, os pacientes apresentam uma recuperação mais rápida. Segundo a matéria,
essa demanda inclusive fez surgir cursos nas faculdades de medicina que focam nessa
abordagem, com o intuito de criar profissionais capazes de atender as necessidades espirituais
do doente.

Segundo Junges et al ​(2011)​, é​ preciso construir uma ciência interdisciplinar que


abranja a biomedicina, o sistema de crenças e conhecimentos populares, atenção ao meio
social e a coletividade e crie canais de diálogo entre profissionais de saúde e os pacientes, a
fim de compreender seus próprios valores e significados, visando a eficiência do atendimento.
A capacitação de profissionais da saúde é de grande importância para compreender as
terapias, possibilitando as trocas na realização do atendimento. “Esta [troca] deve se dar de
forma bidirecional, gerando um compromisso de transformação dos saberes de cada um. Se os

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Práticas Integrativas de Saúde
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​“... [Práticas Integrativas de Saúde são] sistemas médicos complexos e recursos terapêuticos, os quais são
também denominados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de medicina tradicional e
complementar/alternativa (MT/MCA). Tais sistemas e recursos envolvem abordagens que buscam estimular os
mecanismos naturais de prevenção de agravos e recuperação da saúde por meio de tecnologias eficazes e
seguras, com ênfase na escuta acolhedora, no desenvolvimento do vínculo terapêutico e na integração do ser
humano com meio ambiente e a sociedade. Outros pontos compartilhados pelas diversas abordagens abrangidas
nesse campo são a visão ampliada do processo saúde-doença e a promoção global do cuidado humano,
especialmente do autocuidado” (PNPIC, 2006, p. 11).
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dois lados detêm conhecimentos, a saúde se dá em um processo de diálogo, no qual, ambos se


comprometem a transformar-se” (JUNGES ​et al​,​ ​2011. pág 4333).

“O universo consensual identifica-se com o senso comum transformado


continuamente pelas experiências do grupo de pessoas, tidas como iguais e
livres, que comungam dessa visão permeada de significados e interpretações.
A cultura é o lócus onde se articulam os conflitos e as concessões, as
tradições e as mudanças e onde tudo ganha sentido. Ela fornece os elementos
para que os eventos, as práticas do cotidiano, inclusive as relativas à saúde,
sejam compreendidas e aceitas” (JUNGES ​ET AL​. 2011. pag 4329).

Ao partir dessa lógica, mesmo que os médicos não acreditem na efetividade


dessas crenças e tratamentos, enxergam nesses saberes populares uma oportunidade de
negociar um tratamento conjunto entre o remédio alopático e o remédio natural. Usando o
sistema de crenças do paciente, o médico equipara sua linguagem ao alcance dele, o que
possibilita a adequação aos seus referenciais de doença e saúde, de certa forma, criando uma
comunicação mais igualitária e solidária.

Na literatura utilizada neste ensaio é apresentado como mecanismo central, além


de formação acadêmica específica, a diversificação das abordagens, levando em consideração
aspectos sociais, culturais e emocionais do ser humano, fortificando as relações entre
pacientes e profissionais de saúde. Segundo Bruning et al. (2012) a qualificação dos
profissionais de saúde deve acontecer ainda nos anos de formação, por meio do fomento de
projetos de ensino, extensão e pesquisa. A partir desses métodos, nasce uma medicina social
que acolhe o paciente e individualiza o atendimento. Essa abordagem unifica a preocupação
com a saúde coletiva e social e com o indivíduo, que transcende a preocupação com o bem
estar geral, e para além da patologização, instituindo técnicas de apoio e Cuidado que
extrapolam o aspecto mecanicista do corpo humano.

Ainda é complexo identificar uma forma de conciliar as partes envolvidas nesse


tema, já que o discurso hierarquizador ainda é muito presente nas formações dos profissionais
de saúde. A melhor forma de relacionar ciência e crença talvez seja desfazendo, no imaginário
popular e na Academia, essa visão dicotômica, invés disso, aproximar as linguagens e
abordagens. Mesmo que os sistemas operem em lógicas diferentes, no momento do
atendimento a sensibilidade do profissional pode ser muito eficaz na aceitação e compreensão
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do paciente. Afinal, a ciência é muito mais valorosa quando consegue democratizar a


informação fora dos ambientes acadêmicos.

Número de caracteres (excluindo bibliografia): 11660

Referências Bibliográficas

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Básica. Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares no SUS – PNPIC-SUS/
Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica.
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BRUNING, Maria C. R. ​et al.​ A utilização da fitoterapia e de plantas medicinais em unidades


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D’ALMEIDA, Sabrina Soares. Guardiãs das folhas: mobilização identitária de raizeiras do


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ESTUDO mostra que ciência e religião andam de mãos dadas nos EUA. G1. 14 de fev. de
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FAQUETI, Amanda & TESSER, Charles D. Utilização de Medicinas Alternativas e


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FOUCAULT, Michel. O nascimento da Medicina Social. In: FOUCAULT, M. Microfísica do


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______. O nascimento do hospital. In: FOUCAULT, M. Microfísica do poder. Rio de Janeiro:


Graal, 2001. p.99-112.

HARRISON, Peter. Ideia de que ciência e religião sejam inimigas não resiste a análise
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<​https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/09/1917894-a-religiao-nao-vai-desaparecer
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JUNGES, José R. ​et al​. Saberes populares e cientificismo na estratégia saúde da família:
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NAGAI, Silvana C. & QUEIROZ, Marcos S. Medicina complementar e alternativa na rede


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PEREIRA, Diogo Neves (2012) Vínculos e Estatizações nas Políticas de Saúde da Família de
Cuba e do Brasil. Tese de doutorado defendida. Programa de pós-graduação em Antropologia
Social. Brasília. 2012.