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A assim chamada "reviravolta lttrgiiísti- MANINEDO AHAÚJO DE OLIVEIRA

cà" transformou a linguagem no it r I rresse nascou am 27 do fevereiro de 1941,

em Linroalrrt do Norte, Ceará,


MaÍ)fredo A. de Oliveira
comum de todas as escolas e discil,llttas fi-
É msstre elrr Teologia pela PontifÍcia
losóficas da atualidade. Não se tral rl ill)enas
Univorsidnde Grogoriana de Homa, douttrt
da descoberta de um novo campo,lrt reali-
em Filnsofia pelu Universidade Ludwiç;
REVIRAYOLTA
dade a ser apropriado pela filosofiit, tttas de Maximilian de Munique, na Alonranhu, tt L I I{ GÜ Í S TI C O- P RAGMAT I CA
uma virada da própria filosofia, que t eln
percussões na maneira como a filclst lf ia en-
tre- professor titular de Filosofia na
Universidade Federal do Ceará.
I\A F I LO S OF IA COINTEMPORAN EA
tende a si mesma e o seu modo de 1',n rceder. Alóm do dorenns de artigos ttltt tttvislits

O objetivo deste livro é apresentitr il pri- de filosofla e toologia do Brnsil tt rftr

exterior e vários livros Brn c0 ;ltlttxiit,


meira fase da reviravolta lingüíst ica do
publicou por Edições Loyola , A f tlttstttrtt
pensamento filosófico, concent ritr"la na
na crise da modsrnidads (19tt11, l]o url
consideração da sintaxe e da setttântica
2001 ), Étiça e sr:ctabiliclado ('l ÍlÍl:t, ilÉ utl
da linguagem, preparando o teÍre'lto para 2003), Ética a r nr;ictttttlidarle; tr rulor rtit
a compreensão da posterior e mitis radi-
cal "reviravolta pragmática". fragmentaçáct ('/fi07) c Drtrltlt r:a I n1t:

Lógica, rnatall:;rr:H o lttsÍr tt rt:nl;ukt (2t)(14)

ISBN: ti5-15-01082' =

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Edlçães Loyola
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visite nosso site:
www.loyola.com.br
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Edíçtus t,rlyàrn
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Manfredo Araújo de Oliveira


REVIRAVOLTA
r I N CÜ Í STICo- P RAGMAT I CA
NA FI LOSOFIÀ CONTEMPORAN EA

irÀ
Edlioes Loyola
EuçÃo oe rrxro: Marcos Marcionilo
Índice
ORGANTzAÇÃo: Maria Tereza de Albuquerque Rocha e Sousa
RnvrsÃo: Renato da Rocha Carlos, Rosimir Espíndola
DrrcuueçÃo: Paula Regina Rossi Cassan

Parte I
A semântica tradicional
Platão: discussão entre naturalismo e convencionalismo
lingiiístico t1
Edições Loyola
Aristóteles: a linguagem enquonto símbolo do real 25
-
Rua 1822 n" 347 Ipiranga
04216-000 São Paulo, SP
-
Caixa Postal 42.335 04218-970 - São Paulo, SP A semântica de E. Husserl: concepção tradicional da linguagem
Gl trrl 6st4-tsz2 expressa em terrnos da filosofia da consciência .............. 35
(0 rrrt r;r63-427s
Home page e vendas: www.loyola.com.br
1) A nova forma da Íilosofia transcendental............... 35
Editorial : loyola@ loyola.com.br 2) Os conceitos fundamentais da fenomenologia
Vendas: vendas @ loyola.com.br transcendental ............... 42
Tbdos os direitos resenados. Nenhuma parte destu obra pode 3) A semântica de Husserl: a frase compreendida como a
ser reproduzida ou transmitida por qualquer .foma e/ou
quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocopia
composição ideal de suas partes, isto é, de objetos 43
e gravação) ou arquivada em qualquer sistemu ou banco de
dados sem permissào escrita da Edibra. F. v. Kutschera: linhas.fundumentais de uma semântica realista ...... 5l
ISBN: 85- I 5-01 082-8

3" edição: abril de 2006 A semântica de Frege 57


O EDIÇÕES LOYOLA, São paulo, Brasil, 1996 Teoria da signiÍicaçào ............... 62
a) Distinção entre denotação e sentido................. .................... 62 John R. Searle: teoria dos atos de ................
fala II ..... 17l
b) Teoria dos predicados............... ...... 66
Questões metodológicas ............... ......... l7I
Teoria da linguagem ............... ............... 176
...........
Semântica de Rudolf Carnap ............ 7l
Considerações básicas ........ 176
a) Introdução............... .........71 A estrutura dos atos ilocucionários .............. ............ 184
b) Uma consideração puramente sintática da linguagem .............76 a) Questões metodológicas............... ................... 184
c) A teoria da semântica ................ ......... 83 b) As condições de possibilidade ............ ............ 185
d) A concepção fundamental de filosofia .................. 85 c) Regras para uso dos meios de anúncio da força
ilocucionária ................. ................ 187
A semântica de Wittgenstein I: teoria da figuração ........ 93 Atos proposicionais ............ 190
a) Vida e obra ........... ........... 93
a) A referência como ato de fala ............ ............. 190

b) As categorias estruturais do mundo... .................... 95


b) Apredicação............ ..................... 195

c) Teoria da figuração do mundo .......... 101


20t
d) As estruturas lógicas: a forma lógica e o sentido ................... 109
e) A teoria das funções de verdade ....... ll2 Linguagem e ontologia enquanto hermenêutica da facticidade .. 201

Parte II Parte III


A reviravolta pragmática Reviravolta herrnenêutico-transcendental

225
Pragmática analítica: a segunda filosofia de Wittgenstein ............. tr7
Teoria objetivista da linguagem
a) A estrutura "pré-conceitual de toda compreensão" ............227
119
b) A linguagem enquanto mediação da experiência
a) A concepção instrumentalista da linguagem
-
A linguagem reduzida a sua função designativa u9
hermenêutica ...........-.,., ................ 232
c) Linguagem enquanto experiência de mundo... ................... 236
b) Concepção tradicional de espírito e atos espirituais t22
d) O movimento especulativo da linguagem ....... 240
Crítica à teoria objetivista da linguagem t26 e) A reformulação hermenêutica da ontologia ............... ........ 244
a) A parcialidade da concepção instrumentalista 126
b) Superação do dualismo epistemológico antropológico. 133 Karl-Otto Apel: pragmática transcendental .................249
A nova imagem da linguagem
- 137
Linguagem: tema e meio da reflexão transcendental .............. .... 254
John Langshaw Austin: teoria dos atos de fala 1.................. Conceito transcendental-hermenêutico de linguagem ................. 265
149
a) O problema de um conceito filosófico de linguagem ........265
a) Teoria da linguagem performativa ................ 150 b) Origem e destruição do conceito de linguagem do senso
b) Teoria dos atos de fala: a pluridimensionalidade dos comum na filosofia tradicional da linguagem .................... 267
atos de fa1a............. t57 c) O conceito transcendental-hermenêutico de linguagem ....275
c) A nova forma de filosofia 164 d) A fundamentação última da teoria e da ação ..................... 278
6
Jürgen Habermas : pragmática unive rsal 293 J. C. Scannone: América Latina como lugar hermenêutico............ .Jl{()

A teoria da competência comunicativa........... 294 A filosofia no hoje da América Latina......... ............. 190
a) Universais pragmáticos ............... 300 a) O nós como o novo sujeito ........... 3L)l
b) A diferenciação das formas de comunicação..................... 303 b) O "estar" como esfera prévia ao logos e ao ethos .............. 399
c) Teoria consensual da verdade 308 c) A tradução especulativa da fenomenologiada sabedoria.........
d) A determinação da situação idea1........... 317 popular....... ................ 402
O status teórico da pragmática universal 32t d) A transposição especulativa do "logos sapiencial" ............ 403
a) A base de validade da fala 321 e) O repensamento a paÍir do novo horizonte das
b) Determinação provisória do campo de pesquisa da características do ser .................... 403
pragmática universal 323 A analética da alteridade e a ética do discurso ......... 408
c) O procedimento de uma reconstrução racional 324 a) A categoria central: a comunicação ................................... 408
d) Ciência lingüística reconstrutiva e empirista...................... 328 b) Os limites do pensamento transcendental ....... 410
e) Pragmática universal e hermenêutica transcendental ......... 331 A tentativa de Apel de superação da postura
A teoria da ação comunicativa................. 334 transcendental............... ................ 410
Introdução. 334 A radicalização da "reviravolta lingüística": a superação
O resultado da reviravolta lingüística: uma nova forma da filosoha transcendental a partir da problemática da
de razão, a razáo comunicativa ................. 338 comunicação................. ................ 411
c) Historicidade e analogia ............... 412
Parte IV d) Alteridade ética e histórica ........... 413
Crítica à pragmática transcendental
Conclusiio 417
Vittorio Hôsle: renovação do idealismo objetivo 35r
Indice de nomes 42t
A crise da atualidade e a responsabilidade da filosofia 356
a) Marxismo ................ 357
b) Cientificismo, racionalismo crítico e análise
da linguagem ............. 360
c) Filosofia da existência e hermenêutica............................... 364
Pragmática transcendental: o esforço mais significativo para
enfrentar a crise atual da razáo .......... .................. 36'7
O idealismo objetivo ...........373
a) O idealismo objetivo dentro de uma tipologia das posturas
filosóficas ..................374
b) Tentativa de prova da postura fundamental do idealismo
obietivo. ..................... 381
c) O idealismo objetivo e a problemática da
intersubjetividade .......... ............... 386
Introdução

linguagem se tornou, em nosso século, a questão central da fi-


losofia. O estímulo para sua consideração surgiu a partir de dife-
rentes problemáticasr: na teoria do conhecimento, a crítica transcen-
dental da razáo foi, por sua vez, submetida a uma crítica e se trans-
formou em "crítica do sentido" enquanto crítica da linguagem2; a
lógica se confrontou com o problema das linguagens artificiais e com
{
.J a análise das linguagens naturais; a antropologia vai considerar a
+.{
l.J
linguagem um produto específico do ser humano e tematizar a cor-
]' relação entre forma da linguagem e visão do mundo; a ética, questi-
^)
\u onada em relação a sua racionalidade, vai partir da distinção funda-
,1 r mental entre sentenças declarativas e sentenças normativas3. Com razão
) se pode afi.rmar, com K.-O. Apela, que a linguagem se transformou
em interesse comum de todas as escolas e disciplinas filosóficas da
atualidade.

l. Cf. F. v. Kutschera, Sprachphilosoplzie, Munique, 1975, pp. l1ss.


2. A respeito do encontro entre ÍllosoÍia transcendental e filosoÍra analítica, cf.
P. F. Strawson, The Bounds of Sense, Londres, 1966; M. Niquet, Transzendentule
Argumente. Kant, Strawson und die Aporetik der Detranszendentalisierung, Frankfurt
am Main. 1991.
3. Cf. M. A. de Oliveira, Ética e rucionalitlade motlerna, São Paulo, 1993.
4. Cf. K.-O. Apel, "Sprache", in Handh. phil. Grundbegriffe, vol.5, Munique,
1974, pp. 1383ss.

U
Introdução Introdução

Nesse contexto, é muito importante perceber que a "virada" filo- de ser "a filosofia primeira" à altura do nível de consciência crítica de
sófica5 na direção da linguagem não significa, apenas, nem em primei- nossos dias. Isso significa dizer que a pergunta pelas condições de
ro lugar, a descoberta de um novo campo da realidade a ser trabalhado possibilidade do conhecimento confiável, que caracterizou toda a filo-
filosoficamente, mas, antes de tudo, uma virada da própria filosofia, sofia moderna, se transforÍnou na pergunta pelas condições de possi-
que vem a significar uma mudança na maneira de entender a própria bilidade de sentenças intersubjetivamente válidas a respeito do mundo.
filosofia e na forma de seu procedimento6. Isso implica radicalizaçáo da crítica do conhecimento, como ela foi
Num primeiro momento, isso significa uma nova maneira de articulada nos últimos séculos, pois a pergunta pela verdade dos juízos
articular as perguntas filosóficas. Assim, por exemplo, contrariamente válidos é precedida pela pergunta pelo sentido, lingüisticamente arti-
a quanto se fazia no passado, perguntar pela essência da causalidade culado, o que significa dizer que é impossível tratar qualquer questão
ou pelo conteúdo do conceito "causalidade", pergunta-se agora pelo filosófica sem esclarecer previamente a questão da linguagemro. Numa
"uso da palavra" causalidade 7. Foi de tal modo intensa a concentração palayra, não existe mundo totalmente independente da linguagem, ou
em questões da linguagem, que se chegou a identificar filosofia e seja, não existe mundo que não seja exprimível na linguagem. A lin-
crítica da linguagem8. guagem é o espaço de expressividade do mundo, a instância de arti-
culação de sua inteligibilidadell.
Pouco a pouco se tornou claro que se tratava, no caso da "revi-
ravolta lingüística" (linguistic turn), de um novo paradigma paru a O processo de reflexividade iniciado com a pergunta transcen-
filosofia enquanto tal, o que significa dizer que a linguagem passa de dental moderna desembocou, hoje, na pergunta pela linguagem como
objeto da reflexão filosófica para a "esfera dos fundamentos"e de todo instância intranscendível da expressividade do mundo. A reviravolta
pensar, e a filosoÍla da linguagem passa a poder levantar a pretensão lingüística do pensamento filosófico do século XX se centraliza, en-
tão, na tese fundamental de que é impossível filosofar sobre algo sem
filosofar sobre a linguagem, uma vez que esta é momento necessário
A expressão já vem de M. Schilick, "Die Wende der Philosophie", in Erkenrnn.is
5.
I pp. 4- I I . Trata-se, aqui, de explicitar a inevitabilidade da tematização do
( I 930), constitutivo de todo e qualquer saber humano, de tal modo que a
campo de articulação de nossos conhecimentos dos objetos do mundo, ou seja, da fôrúulação de conhecimentos intersubjetivamente válidos exige refle-
linguagem. xão sobre sua infia-estrutura lingüística. É nesse sentido que K.-O.
6. Cf. J. Simon, Sprachphilosophie, Friburgo/Munique, 1981, pp. 33-35. Apelt2 vai dizer que a Filosofia Primeira não é mais a pesquisa a
7. E. Tugendhat vai exprimir essa virada como a passagem da ontologia (da
filosofia transcendental) para uma "semântica formal". Cf. E. Tugendhat, Vorlesungen
respeito da natureza ou das essências das coisas ou dos entes (ontolo-
z.ur Einfiihrung in die sprachanalytische Philosophie, Frankfurt am Main, 1976. So- gia), nem tampouco a reflexão sobre as representações ou conceitos da
bretudo pp.13-124. consciência ou da razão (teoria do conhecimento), mas reflexão sobre
8. Embora não Íbsse propriamente essa a intenção. Já E. Moore, no início da a significação ou o sentido das expressões lingüísticas (análise da
filosoÍla analítica, afirma que o trabalho de análise e diÍ'erenciação é um trabalho
linguagem). A superação da ingenuidade da metafísica clássica im-
prévio ao trabalho propriamente filosófico, mas, de modo algum, seu substituto. Não
é que a análise da coisa seja substituída pela análise da linguagem; ela permanece, plica, hoje, a tematização não só da mediação consciencial, como se
mediada pela análise da linguagem. Cf. H-U. Hoche/lV. SÍube, An.zh/ische Phibsophie,
Friburgo/Munique, 1985, pp. 24-25. 10. E nesse horizonte que a linguagem vai emergir como grandeza "transcen-
9. Posição comum é que se trata de um novo paradigma de filosofar. Que essa dental". Cf. K.-O. Apel, "Sprache als Thema und Medium der transzendetalen ReÍlexion.
reviravolta signiÍique uma postura nova para o enfrentamento da questão dos Íunda- Zur Gegenwartssituation der Sprachphilosophie", in Trunsktrmation der Philosctphie,
mentos é questão controvertida. Ao contrário, há os que deÍ'endem a tese de que foi vol. 2, Frankfurt am Main, 1976, pp. 31lss.
propriamente a reviravolta lingüística que liberou a ÍilosoÍra de qualquer "pretensão 11. Cf. L. B. Puntel, Grundlegung einer Theorie der Wahrheit, Berlim/Nova
Íundamentalista". Cf. J. Habermas, Nachmetaphysísches Denken, Philosophische York, 1990, pp. 266ss.
Aufstitz.e, FrankÍurt am Main, 1988. 12. Cl. K.-O. Apel. op. cit.

t2 I3
Introdução

fez na filosofia transcendental da modernidade enquanto filosofia da


consciência, mas também da mediação lingüística.
O objetivo deste trabalho é apresentar, em suas linhas gerais, a
primeira fase da reviravolta lingüística no pensamento filosófico, que
se concentrará na consideração da sintaxe e da semântica da lingua-
gem, preparando, assim, o terreno paÍa a compreensão da radicaliza-
ção da reviravolta lingüística, que ocoÍrerá mais tarde com a "revira-
Penrn I
volta pragmáttica"t3.

A SEMÂNTICA
TRADICIONAL

13. Cf. D. Bôhler/T. Nordenstam./G. Skirbekk (eds.), Dle pragmatische Wende


Sprat:hspielpragmatik oder Transzendentalpragmatik?, Frankfurt am Main, 1986.

t4
PLATÃO
Discussão entre naturalismo e
convencionalismo lingüístico

escrito mais tardio que a Tradição nos legou em nossa cultura


ocidental como reflexão sobre a linguagem ou, para usar uma
expressão de hoje, como crítica da linguagem é precisamenÍe o Crátikt
de Platãor, escrito presumivelmente no ano 388 a.C. De antemão, é

l. E importante notar que a problemática da linguagem não emerge em Platão


apenas no Crótilo, mas já pelo próprio fato de ter escolhido o diálogo como forma
literária para a apresentação de seu pensamento. Hoje, os intérpretes estão divididos
a respeito de sua significação. Qual a relação entre a Íbrma e o conteúdo sistemático
da filosofia? A polêmica se exarcebou a partir da questão da relação entre os assim
chamados "escritos exotéricos", que teriam como intenção popularizar o conteúdo de
seu pensamento, e os "escritos esotéricos", destinados a especialistas, que conteriam,
então, seu pensamento em forma propriamente Íilosófica e sistemática. Em ambos os
casos, volta a questão básica: qual o papel da linguagem na tarefa Íundamental da
filosofia enquanto "ciência dos princípios primeiros". Cf. H. J. Krâmeq AreÍe bei
PlaÍon und Aristoteles. Zum Wesen und zur Geschichte der platt»tsichen Ontoktgie,
Heidelberg, 1959. K. Gaiser, Platuns ungeschriebene Lehre,2'ed., Stuttgart, 1968. V
Hosle, Wahrheit und Geschichte. Studien zur Struktur der PhiLo,sophiegeschit'hÍe unter
paradigmatist'her Analyse der Entwicklung von Parmenides his Pkton, StuttgaríBad-
-Cannstatt, 1984, pp. 372ss. Essa linha de interpretação deÍ'ende a tese de que a
reconstrução da "Exotérica" acadêmica joga nova luz sohre os diálogos e é capaz de
esclarecer o verdadeiro projeto global da filosofia platônica. A respeito da tese contrária,

17
A stttrirttt ittt tradicionaL Platão: discussão entre naturalismo e convencíonalismo Lingüktíco

rrcccssiilio corrsidcrar clois aspectos muito importantes: em primeiro temente é um absurdo, pois, por exemplo, nesse caso poderíamos
Iugirr, l)lutiu) tolra aqui posição em relação a uma pergunta que real- compreender imediatamente línguas estrangeiras. O que Platão conce-
rncnlc surgc no início de qualquer consideração sobre a significação de, aqui, é que há cerÍa afinidade natural, ou pelo menos deve haver,
lingliística2, que é: por meio de que uma expressão adquire sua signi- entre o som e sla signfficação. Uma possibilidade disso se concretiza
Íicação? Em segundo lugar, respondendo a essa pergunta, Platão toma na formação das palavras por meio da imitação Íbnética de sons para
posição a respeitct da essêncict da linguagem humana3, que se tornou designação desse som, como, por exemplo nas chamadas palavras
a concepção fundamental da linguagem no Ocidente, da qual hoje, onomatopaicas. Ora, Platão sabe que tais casos são raros e acentua,
com muito esforço, estamo-nos libertando. Ela se tornou mesmo a apresentando a tese naturalista, que as palavras não imitam propria-
concepção de linguagem do "senso comum" do homem ocidental, mente os sons, mas apresentam a essência das coisas4. Não se trata,
legitimado pelos diferentes sistemas filosóficos. pois, de imitação do tom e das formas das coisas, mas de seu
próprio ser. Uma palavra é justa, certa, na medida em que tÍaz a
Trava-se, aqui, uma disputa entre duas posições que na história
coisa à apresentação, isto é, na medida em que é apresentação da
da semântica receberam o nome de naturalisno, segundo o qual cada
coisa5.
coisa tem nome por natureza (physei), posição defendida no diálogo
por Crátilos, e o convencionalismo, para quem a significação é fruto Estamos aqui ainda no cume do pensamento objetivista: para
de convenção e do uso da linguagem (Syntheke kai homologia,384 d), Platão, como para todo o pensamento grego, as coisas possuem qua-
posição aqui defendida por Hermógenes. Platão vai conduzir a discus- lidades objetivas, relações e diferenças em si mesmas. Quando lida-
mos com as coisas, temos de nos orientar de acordo com essa natüteza
são de modo a poder assumir uma posição intermédia entre esses dois
das coisas. Ora, o falar sobre as coisas é também unta açãct, que
extremos, levando a reflexão, pouco a pouco, a uma tomada de posi-
realizamos com elas, razão pela qual não podemos agir arbitrariamen-
ção em relação à essência da linguagem e de sua Íunção no conheci-
te, mas temos de nos deixar regrar pela essência das coisas (387 b).
mento humano. Platão não defende aqui, por exemplo, um naturalis-
Platão, contudo, não levou à frente essa percepção da linguagem como
mo extremado, que chegasse a admitir a possibilidade de descobrir a
ação, uma das teses fundamentais da lingüística atual (teoria dos Speech-
significação de uma palavra na própria forma do som, o que eviden-
-acts), nem o poderia, pois já a própria concepção do pensamento
entre os gregos levava a outra dimensão. Para os gregos, o pensamento
cf. F. Ricken, Philosophie der Antike, Stuttgart, 1988, pp. 102-104. Cf. ainda a res-
é concebido como uma espécie de visão, ou seja, a visão intelectual,
peito: H. J. Krâmer, Platone e i fondamenti delLa metaÍisir:c, Milão, 1982. H. G.
Cadameq ldee und Zahl. Studien zur plaÍoníschen Phiktsophie, Heidelberg, 1968. W. a contemplação do ser verdadeiro6. O olho do espírito era capaz de
Wieland, PLaton und die Formen des Wissen.t, Gôttingen, 1982. captar a ordem objetiva, a verdadeira ordem das coisas, e essa ordem
2. G. Schônrich tenta mostrar que por trás da problemática do Crátilo se escon- percebida era, por sua vez, a medida, a norma da retidão da lingua-
de, em última instância, nosso problema atual que se articula na peÍgunta se e de que gem. A tarefa da linguagem consiste, pois, na expressão adequada da
modo a realidade enquanto tal se deixa apreender em nossas operações interpretantes-
ordem objetiva das coisas. Contudo, devemos entender bem do que se
-signiÍicativas ou se não são antes nossas interpretações que determinam o que deve
valer como reali«Iade. Daí sua tentativa de comparar a problemática trabalhada por
Platão no Crátilo com a semiótica de Peirce. Cf. G. Schônrich. "Das Problem des 4. Para uma leitura "semiótica" da função "icônica" do signo, cf. G. Schônrich,
Kratylos und die Alphabetisierung der Welt", rn PhilJahrb. 99 (1992), pp. 29-50. op. cit., pp 40ss.
3. Se a questão fundamental de Platão é a da essência, trabalhada na "teoria das 5. Cf. H. G. Gadameq Wahrheit und Methode. Grunz.üge einer philosophischen
Idéias", essa teoria é, em primeiro lugar, uma "teoria semântica". Cf. F. Ricken, op. Hermeneutik,2" ed., Tübingen, 1956, pp. 383ss.
cit., p.63. R. Rehn, Der Logos der Seele, Hamburgo, 1982. K. LorenzlJ. Mittelstrass, 6. Cf. a respeito o comentário do Crátilo de W. Brôker, PlaÍons Gesprtiche,
"On Rational Philosophy of Language: The Programme in Plato's Cratylos 2" ed., 1967, Frankfurt am Main, pp. 331-343. K. Caiser, Name und Sache in Platons
reconsidered", in Mind 76 (1967) 5ss. " Krar^1ot ", Heidelberg, 1974.

l8 19
r A semântica tradícional Platão: discussão entre naturalismo e convencionalismo lingühtico

lrirlir rrrrrrr lrrrlirurgcrn não é um conjunto amorfo de nomes isolados por qualquer um (390 d-e). A linguagem só pode ser instrumento de
lirr;r th'sr1'rr:rçrro tlc coisas, qualidades, diferenças, relações etc., mas comunicação se seus participantes usam as palavras no mesmo senti-
lril ,\i\/.'r,rí,. Unla organização, uma estrutura com a qual podemos do e as normas de uso perrnanecem praticamente constantes (388 d).
lorrrr:rl rrrrlr irrl'initude de frases. Essas frases têm, portanto, uma gra-
O grande limite do convencionalismo e o afastamento da arbitrarieda-
rrurlit'rr. e nil pcrspectiva de Platão há uma corespondência fundamen-
de consiste na exigência do isomorfismo entre linguagem e ser. A
lrrf , rrrrur isomorfia enÍre estrutura gramatical e estrutura ontológica,
linguagem tem de ser apropriada ao ser, como sua expressão ou apre-
isto cí. a construção de uma língua não é arbitrária. Os sinais formam
sentação e, por isso, não pode ser estabelecida arbitrariamente. Assim
rrnr sistcma no qual se combinam de tal modo que correspondem à
como o carpinteiro precisa de arte para construir sua mesa, é neces-
cslrutura ontológica por eles designada. Trata-se de uma idéia que
sária uma arte especial para a produção de nomes certos. O paradigma
irtravcssou os séculos em nossa cultura ocidental e ainda vigora em
dessa certeza é o conhecimento das essências, isto é, das idéias imu-
irrrportantes tratados de linguagem em nossos dias. A teoria platônica
táveis, dos seres exemplares. O papel do criador de nomes consiste
da linguagem, portanto, afirma a coffespondência fundamental entre
em exprimir em sons essas idéias. Neste sentido, todas as línguas
linguagem e ser.
correspondem, de maneira diversa, ao "eidos" dos nomes. Não faz
Platão compara a linguagem a um instrumento (Organon, 388 a), muita diferença dizer "hypos" ou dizer cavalo, contanto que o "eidos"
mas não um instrumento qualquer, um instrumento separante seja o mesmo, isto é, que se diga das mesmas coisas "hypos" e
(diacriticon 388 c): quando digo, por exemplo, a palavra elefonte cavalo. Quem julga sobre a exatidão e a justeza dos nomes? Ora,
separo, distingo a classe de coisas que são designadas com esse nome precisamente aquele que entende das essências, isto é, o dialético
de todas as outras. Os nomes distinguem, separam as essências. Daí (390 c)?.
por que o nome é "organon diacriticon tes ousias" 388 c. euando é
Depois de ter estabelecido o momento de verdade tanto do natu-
exato, um nome apreende todas as coisas, entre as diversas, que têm
ralismo como do convencionalismo, Platão explicita a pergunta funda-
a mesma essência e por isto ele serve para ensinar. O nome é um mental de todo esse tratado sobre a linguagem: o poder cognoscitivo
insÍrumento de ensino (didascalicon, 388 b). A linguagem deve ser,
da linguagem. Crátilo defende a tese de que "quem conhece os nomes
pois, tal que possa trabalhar as coisas, isto é, com ela devemos poder
conhece as coisas" (435 d.), de tal modo que o conhecimento dos
descrever, comparar, exprimir diferenças etc. A adequação se mede de
nomes constitui o princípio da sabedoria. Contudo, existe aqui um
acordo com sua capacidade, enquanto estrutura lingüística, de corres-
grande problema, como Sócrates esclarece: todo sistema de nomes
ponder à estrutura ontológica. Essa é a tese central de uma semântica
pode tanto ajudar como atrapalhar o conhecimento. Daí a necessidade
realista (se é que podemos falar assim): a da corespondência entre
da crítica da linguagem, pois ela é obra humana e, enquanto tal, sujeita
estruturas gramaticais e estruturas ontológicas. É essa teoria que está
a eÍro. Foi por esta razáo que a filosofia principiou no Ocidente como
por trás do naturalismo platônico, da tese da afinidade entre sons e
crítica de linguagem e assim se mantém até hoje.
qualidades.
Mas há, em todas essas discussões, afirmações muito mais gra-
Contudo, Platão reconhece que tal afinidade é muito pobre. Par-
ves, que nos manifestam o que Platão pensa, em última análise, sobre
tindo daí, admite que na formação das palavras há muita convenção
a linguagem humana. Se os nomes podem ser verdadeiros ou falsos,
(435 a-b); porém não se trata de convenções explícitas e arbitrárias,
argumenta Platão, e se temos a possibilidade de decidir sobre isso,
mas dos costumes obtidos da tradição, do uso da língua (435 a-b); é,
pois, um problema de "ethos" e não de convenção (Syntheke). As
7. Cf. F. Ricken, op. cit., pp.63ss. R. P. Hâgles, Pküons "Parmenides", Berlim,
decisões significativas em linguagem não são tomadas arbitrariamente
1983

20
2t
A scnrântictt tradicional Platão: discussão entre naturalismo e convencionalismo lingüktico

cnlil() (lrvc lurvcr algo que nos revela, sem os nomes, que nomes são Ora, tal ideal não Íili concebido prlr Platão, mas muito mais tarde
vcrrlrrtlciros ou não. É possível, portanto, conhecer as coisas sem os por Leibnizr0. Porém, ele encontra sua condição de possibilidade na
u()tn(.\. Aqui cstá a tese .fundamental de platão e de toda filosofia do própria concepção funcionalista, designativa, instrumentalista da lin-
ocidcntc: ele pretende, com essa discussão das diÍ'erentes teorias vi- guagem, que constitui o ponto de partida cm nossas reflexões sobre a
gentes de seu tempo, mostrar que na linguagem não se atinge a ver_ linguagem no Ocidente. Para Leibniz, tal liberação das imperfeições
dadeira realidade (alétheia ton onton) e que o real só é conhecido da linguagem comum só se poderia fazer por meio da simbólica
verdadeiramente em si (aneu íon onomator) sem palavras, isto é, sem matemática, que seria o instrumento perfeito da subjetividade para o
a mediação lingüística. A linguagem é reduzida a puro instrumento, domínio do mundo. Nessa perspectiva, a linguagem atingiria sua rea-
e o conhecimento do real se faz independentemente delas. o puro lizaçáo suprema na medida em que se tornaria instrumento prro. É a
pensar, a contemplação das Idéias, é para platão um diálogo sem separação platônica radical entre palavra e ser que constitui o funda-
palavras, da alma consigo mesma (Sofista,263 d). A linguagem não mento da teoria instrumentalista da linguagem, hoje, numa civilização
é, pois, constitutiva da experiência humana do real, mas é um instru- de domínio sobre a natureza, de enorme importância.
mento posterior, tendo uma/unção designativa: designar com sons o
intelectualmente percebido sem ela. Sua tese fundamental é a clistin-
ção radical entre pensamento e linguagem, sendo esta reduzida a
expressão secundária ou a um instrumento (organon) do pensamen-
toe. A palavra é reduzida a puro sinal, cujo ser se esgota em sua
função designativa. Apesar de toda pergunta e resposta, todo ensinar,
todo discutir não se fazerem sem linguagem, não há no ser da palavra
enquanto tal um acesso ao real; este é realizado independentemente
da linguagem e encontra nela apenas um meio de expressão. o pensar
é uma atividade essencialmente não-lingüística e, sendo assim, a re-
lação da linguagem para o real é secundária. A linguagem é apenas
instrumento de participação enquanto revelação e exposição (lógos
proforikós) por meio dos sons daquilo que foi compreendido. se as-
sim é, então se pode conceber um sistema ideal de sinais, que permita
ao homem um domínio perfeito do mundo objetivo, independente-
mente das contingências, imperfeições e limitações das línguas natu-
rais. com isso estaria realizada, de modo supremo, a função instru-
mentalista da linguagem.
10. O que Leibniz pretendia era efetivar uma idéia já articulada por Ramón Lull
8. Cf. K.-O. Apel, "Sprache", tn Handb. für phí\. Grundbegriffe, vol. V Mu- (Raimundus Lullus, 1235-1315) de conduzir todo o conhecimento humano a um
nique, 1974, pp. l383ss. conceito unívoco, que se exprimiria por meio de uma espécie de alÍabeto de símbolos
9. Mayr, seguindo Heidegger, procura mostrar que no início do pensamento capazes de ser trabalhados matematicamente. É a idéia de um cálculo universal,
grego se pensava ainda a unidade originária entre pensamento e palavra. cf. F. K. characteristica universalis, qu.e fez de Leibniz o mais ilustre predecessor da lógica
Mayr' Geschichte der PhiLophie I. Antike, Kevelaer, 1966, pp. 24ss. M. Heidegger, contemporânea. Cf. N. Rescher, Leibniz. An Introduction to his Philosophy, Oxford,
Unterwegs zur Sprache, 4" ed., Pfullin gen, 191 l. 1979.

22 2)
ARISTOTELES
A linguagem enquanto símbolo do real

\formalmente Aristóteles nos é apresentado em polêmica com


I \ Platão, o que é verdade. Porém, não podemos esquecer que Aris-
tóteles é, em primeiro lugar, o membro mais importante daquela cor-
rente que, na Grécia, se levanta teoricamente contra a linha de pen-
samento dos sofistas, pensamento que, segundo essa cor:rente, consti-
tui um grande perigo para a "pólis". Por isso, temrazáo Aubenquer,
quando afirma ser a tentativa de responder aos sofistas o objetivo
principal dos esforços teóricos de Aristóteles. Pode-se mesmo dizer2
que Aristóteles leva o espírito grego à sua plenitude, na medida em
qt;e realiza, em sua obra, por um lado, uma recapitulação de toda a
problemática tratada pela tradição e, por outro, faz um balanço crítico
dela. O grande em Aristóteles é que sua preocupação não foi, em
primeiro lugar, de aumento temático da tradição, mas antes a desco-
berta de um novo acesso à problemática já levantada, isto é, trata-se,
em primeiro lugar, não de aumento de temas, mas de um novo grou
de reflexão.

l. P. Aubenque, Le probleme de L'être chel Aristote, Essai sur la problématique


aristotelicienne, Paris, 1966, pp. 94ss.
2. Cf. F. K. Mayr, Geschichte der Philosophie, l. Antike, Kevelaer, 1966,
pp. 200ss.

25
il strtrritttictt rLrditíonal
I
Aristóteles: a linguagem enquanto símbolo do real

l)otlt'st'tlizcr cprc cle plenifica o espírito grego na medida em gem humana, acentuava selu poder de persuasã.o. (O que se diz inte-
t;rre r.t'rrlizlr r.unil ruptura epistemológica, que vai conduzir a humanida- ressa menos do que a ação de falar para alguém e que a palavra é um
tlc ir urrr prinrciro esforço sério de tomada de consciência dos meca- instrumento de domínio nas relações humanas6). A linguagem torna-
rrisnr.s crrr jogo narealizaçáo do nosso saber. Em segundo lugar, para -se, cada vez mais, uma grandezafechada em si, perdendo sua inten-
atingir tal nível de conscientizaç?ao epistemológica, Aristóteles não se cionalidade essencial. Ela não aponta mais para as coisas, mas tende
afasta do "campo comum" da reflexão da tradição. Pelo contrário, sua
a substituir a ordem das próprias coisas.
crítica se situa permanentemente, tendo consciência disso e cle suas
conseqüências ou não, no plano próprio onde emergiu a reflexão gre- Como discípulo de Platão, Aristóteles, no plano explícito de sua
ga, que é o plano do discurso humano, da linguagem humana. Aqui já reflexão, parte do rompimento da ligação imediata entre palavra e
se manifesta uma primeira diferença com Platão, que, passando pela coisa (lógos e ón) e tenta elaborar uma teoria da significação1 em que,
críÍica da linguagem, vai terminar ultrapassando-a como modo secun- por um lado, afirma-se a distância entre linguagem e ser e, por outro,
dário do conhecimento do real Aristóteles, embora sem consciência tematiza-se a relação entre ambos. Ora, para Aristóteles a raiz de todos
plena do que isso significa, reflete sempre no horizonÍe da linguagem. os paradoxos defendidos pelos sofistas está, justamente, na falta de
Daí poder-se dizer que a problemática levantada pela sofística consti- percepção da distância entre palavra e coisa: daí as conseqüências
tti o pano de fundo de sua filosofia3. Ora, para Aristóteles a sofística absurdas de que é impossível contradizer, todo discurso está na verda-
constituía o maior perigo para o pensamento em virtude de sta indi- de, portanto, a própria possibilidade do erro desaparece e com isto se
ferença em relação à verdade, e precisamente por essa razão eles afirma a impossibilidade da predicação e da definição. Já que só se
concentraram seus esforços na eftcácia do discurso, transformando-o pode dizer de uma coisa o que ela é, então toda predicação é, no
em uma arma com poder enorme para fazer aparecer o falso por fundo, tautológica. A sofística tende, pois, a obscurecer por completo
verdadeiro ou pelo menos por provávela. Ora, a grande força do sofis- o caráter signfficativo da linguagem humana e a considerá-la como
ta, o pseudofilósofo, consiste em impor seu terreno ao adversário, ou simples ente entre os outros, instrumento dos relacionamentos
seja, o terreno do discurso humano (do logos). Aristóteles vai, pois, intersubjetivos. Precisamente porque a linguagem é um ente como os
levar a sério a tarefa de fundamentação do discurso racional, da ciên- outros, só pode manifestar a si mesma. Sendo ela coisa entre coisas,
cia e da filosofia, destruídos em sua possibilitação pelas teorias sofis- é impossível pensar a relação da linguagem com o ser na base da
tas da linguagems. A sofística, entre as diferentes funções da lingua- significação (por isso é que não é a linguagem a compreensão mútua
entre os homens, mas e porque iá se tem o conhecimento das coisas,
3. A respeito da sofística cf. C. J. Classen (ed.), Sophistifr, Darmstadt, 1976. que se pode dar um sentido à palavra ouvida).
"Bibfiographie zur sophistik", in: Elenchos 6( 1985)75- 140. G. B. Kerferd , The sophists
Evidentemente, os sofistas não são unânimes em sua interpreta-
and their Legacy, Wiesbaden, 1981. H. D. Rankin, Sophists Socratics and Cynics,
Beckenham, 1983. T. Buchheim, Die sophistic als Avangarde normalen Lebens, ção da linguagem humana: havia teorias distintas e a disputa apresen-
Hamburgo, 1986. tada pelo Crátilo entre naturalismo e convencionalismo é um indício
4. Hegel acentua uma dimensâo positiva do pensamento sofístico: com os so-
fistas, começa a emergir o princípio da subjetividade. o homem perde o medo diante para ele os primeiros-últimos princípios, enquanto pressupostos em toda linguagem,
da tradição e não mais vai aceitar algo sem antes submetê-lo à crítica. Nesse sentido, não podem ser objeto de demonstração.
já emerge aqui o espírito do iluminismo, a consciência crítica. Cf. G. W. F. Hegel, 6. Nesse sentido é que se pode dizer que o desenvolvimento da democracia
VorLesungen über die Geschichte der Philosophle 1, Frankfurt am Main, Werke in ateniense é um pressuposto fundamental da sofística, pois o que tomava parte na
zwanzig Bânden, vol. 18, 1971, pp.406ss. assembléia popular devia dominar a arte da retórica e da argumentação. É nesse
5. Embora, olhando a partir da problemática de hoje, sobretudo a questão da contexto que a linguagem se torna instrumento de poder. Cf. F. Ricken, Philosophie
fundamentação última como ela foi reposta pela pragmática transcendental, se possa der Antike, Stuttgart, 1988, p. 48.
dizer que Aristóteles deÍênde, em última instância, uma postura dogmática, já que 7. Cf. P. Aubenque, op. cit., pp. 99ss.
26
27
A semântica tradicional Aristóteles: a linguagem enquanto símbolo do real

do pluralisrno teórico reinante. No entanto, todas essas teorias pos- todos. Aquilo, contudo, que se mostra em ambos em primeiro lugar
suerrr, para Aristóteles, tm princípio comum, que é, por assim dizer, (os estados simples de alma), isso é igual em todos os homens, assim
o horizonte onde elas se situam, que é a aderência total entre palavra como as coisas de que esses.estados são imagens". O que está em
e ser8. Quem tem a palavra tem o ser, porque a palavra é um ser entre questão, em primeiro lugar, é a relação entre palavra pronunciada ou'
outros. Ora, o pensamento de Aristóteles mover-se-á numa dupla di- escrita e o estado da alma, ao qual a palavra corresponde: a escrita tem
reção: em primeiro lugar, ele vai acentuar a diferença entre linguagem uma referência à palavra que, por sua vez, se refere a um estado da
e ser e, nessa linha, por meio do desenvolvimento da "teoria do juí- alma. Não há relaçtio imediata entre linguagem falada e ser, pois há
zo", vai fixar e até aprofundaÍ a concepção designativa da linguagem a mediação necessária dos estados psíquicos. (Aristóteles afirma, po-
elaborada por Platão, que termina concebendo a linguagem como algo rém, uma corespondência imediata entre esses estados da alma e o
secundário em relação ao conhecimento do real. É nesse plano que se real daí poder-se sustentar tanto a universalidade desses estados
situam, em geral, as reflexões explícitas de Aristóteles sobre a lingua- como- a universalidade das coisas.) A escritura e a palavra não têm
gem; foi sob esse prisma que sua teoria lingüística influenciou o significação em si mesmas, enquanto os estados de alma se asseme-
Ocidente; assim, pode-se dizer que foi o ponto de apoio para a difusão tham às coisas. É necessário distinguir enle semelhança e significa-
da concepção platônica de linguagem, que caracteriza o Ocidente. ção. Entre os nomes e as coisas não há semelhança completa: os
nomes são limitados, enquanto as coisas são numericamente infinitas.
No entanto, existe outra dimensão em Aristóteles, esta mais im-
É inevitável designar viárias coisas com um único nome.
plícita, segundo a qual, apesar da distância entre linguagem e ser, não
há para nós mortais acesso imediato ao ser sem, portanto, a mediação A partir daqui se vai poder compreender o que há de específico
lingüística. Isso faz o pensamento de Aristóteles, por um lado, ser um na linguagem humana na medida em que ela é símbolo do real. O
eco dos primeiros filósofos gregos, que afirmavam a unidade símbolo não toma o lugar da coisa, já que não há semelhança com-
indiferenciada entre lógos e ón, e, por outro, antecipa posições que pleta, ele exprime tanto ligação como distância. Eis por que não
hoje são explicitamente tomadas pela filosofia contemporânea da lin- posso dizer, por exemplo, que a palavra é um signo do real. 0 sím-
guagem, ou seja, pelo nível de reflexão filosófica que compreendeu bolo é, ao mesmo tempo, mais e menos do que signo: menos na
que toda reflexão é sempre reflexão mediada lingüisticamente. medida em que nada é naturalmente símbolo, portanto exige-se con-
Vamos começar com a apresentação da primeira direção do pen- venção; nais.' constituição de uma relação simbólica se é inÍen,enção
samento, citando um trecho do De Interpretatione, que é um dos mais do espírito determinando um sentido.Aristóteles diz exatamente isso,
claros nessa direção e parece, de certo modo, antecipar a forma mo- ao definir a linguagem como uma "phoné semantike katã synthexen":
derna da Íeoria da designação como J. Locke a explicitou em seu um som vocal, que possui uma significação convencional (De int. 4,
" Essay concerning Human Understanding"e: 16, b 2B). E é exatamente essa intervenção significante do espírito
que distingue a linguagem humana dos sons inarticulados do animal.
De Interpretatione, I, 16 a 1: "Os sons emitidos pela voz são A linguagem animal é da ordem da natureza; a dos homens, podemos
símbolos dos estados da alma (pathémata tes psychés), e a escrita, por
dizer, pertence ao plano da história, isto é, da atuação livre do ser
sua vez, é símbolo dos sons emitidos pela voz. E, assim como nem
espiritual. Em resumo: a linguagem, para Aristóteles, não é imagem,
todos têm a mesma escrita, assim também os sons não são iguais em
reprodução do real, mas seu símbolo. Partindo daí, pode-se dizer que
a linguagem não manifesta o real, mas o significa, isto é, ela não é
8. Cf. F. P. Hager (.ed.), Logik und Erkernntnistheorie des Aristoteles, Darmstadt,
um instrumento natural da designação, mas apenas convencional. Aris-
1972.
9. J. Locke, Ensaio acerca do entendimenkt humano, Col. Os Pensadores, São
tóteles, contudo, não mantém uma terminologia firme e dá margem a
Paulo, f 988, trad. de A. Aiex, sobretudo lll 2,2 e lll 2,8. muita confusão.

28 29
A semântica tradicional Aristóteles: a linguagem enquanto símbolo do real

Entre os diÍ'erentes modos da palavra pedir' perguntar, orde- As coisas são sempre singulares, o discurso, universal. O drama da
nar, desejar etc. Aristóteles dá
-
preferênciaà proposiçâo, diríamos, linguagem humana se situa nessa desproporção, isto é, no fato de o
-,
à sentença declarativa, modo especifico da linguagem científicar0. Ele homem falar sempre em geral e as coisas serem singulares.
distingue o discurso em geral e a proposição. O discurso, em getal, é A teoria da linguagem não se preocupa com esse tipo de proble-
significante não somente em si mesmo, mas em cada uma de suas mas, mas antes com os problemas da significação. Se as palavras são
partes, quer se trate de nomes (ónoma) ou de verbos (réma). Ora, o significativas por convenção, o que nos garante que tal palavra conser-
discurso, geralmente, faz abstração da existência ou não da coisa va unidade de significação? Uma convenção universal? Pode ser, mas
significada. A significação não contém referência à existência. A pro- como explicar esse acordo, pois normalmente o que é convencional só é
posição constitui-se essencialmente pela composição ou divisão dos universal acidentalmente. Para a comunicação ser possível, é necessá-
termos significantes isolados, implicando uma referência à existência. rio pressupor um fundamento objetivo. Ora, essa unidade objetiva que
A proposição é, pois, um julgamento a respeito da existência do que fundamenta a unidade de signihcação das palavras recebe em Aristóteles
é significado. Daí sua estrutura fundamental: "leigein Íí katá tínos", o nome de essência (ousia) ou aquilo que é (tó ti esti)tt.
dizer algo a respeito de algo.
O que garante à palavra cão uma significação una é o mesmo que
Isto é, a proposição decide sobre o existir ou o não-existir. Na faz o cáo ser cão. Numa palavra, a permanência da essência é pres-
proposição, manifesta-se a transcendência da linguagem humana. pois suposta como fundamento da unidade do sentido: é porque as coisas
é nesse nível que ela ultrapassa a simples perspectiva de pura signifi- têm uma essência que as palavras têm sentido. A análise dos funda-
cação para tentar atingir as coisas em si mesmas, isto é, em suas mentos da linguagem desemboca assim numa ontologia, pois, em última
relações recíprocas e em sua existência. Ora, é precisamente em vir- análise, é a unidade do que é que legitima a unidade da significação.
tude desse julgamento que a proposição é o lugar da verdade e da Surge, então, a coffespondência entre exigência lingüística de unidade
falsidade, já que ela pode ou não corresponder às coisas. Aqui e princípio ontológico de unidade. Por isso o princípio não só lógico,
retornamos ao ponto de vista da semelhança: não é enquanto mas ontológico de contradição é condição de possibilidade da lingua-
significante, mas enquanto verdadeira, que a linguagem humana se gem humana.
assemelha ao real. A essência da proposição não está em seus termos
(que são apenas símbolos), mas no próprio ato da composição. Ora, Aristóteles realiza aqui uma espécie de reflexão transcendental,
determinando a estrutura do real como condição de possibilidade do
o ato da composição não é o símbolo, não é linguagem, mas um
pensamento, do discurso interior e do discurso proferido, que é a
estado de alma. O julgamento não é função da linguagem, mas da
linguagem. Em suas reflexões explícitas, portanto, sobre a linguagem
alma: é, pois, a alma que empreende a transcendência do discurso. Eis
humana Aristóteles permanece no nível da distância entre linguagem
por que a funçao iudicativct não pertence à teoria da linguagem, apesar
e pensamento, sendo a linguagem, como em Platão, um instrumento
de haver textos em Aristóteles que parecem atribuir ao discurso huma-
imperfeito e, por isso, sempre ultrapassável. Ora, por outro lado, existe
no enquanto tal uma função reveladora. No sentido de sua teoria, só
comunicação entre os homens, e isso só é possível se as palavras têm
ao discurso judicativo cabe tal função. O discurso enquanto tal não é
unidade de sentido. Há, pois, um Íundamento, onde se encontram as
o instrumento de revelação do real, pelo menos neste nível de reflexão
intenções humanas e isso é a essência. A essência é o fundamento, a
em que nos encontramos, mas é seu substituto necessário e imperfeito.
condição de possibilidade da comunicação, portanto, da linguagem
10. É a partir dessa experiência que Heidegger vai tentar mostrar o caráter não
suficientemente radical da concepção de verdade da metafísica ocidental. Cf. M. ll. Cf. E. Hartmann, Substance, Body and Soul. Aristotelian Investigurions,
Heidegger, Vom Wesen der Wahrheit,4" ed', FrankÍurt am Main, 1961. E. Tugendhat, Princeton, 1977; Waterlow, NaÍure, Change, and Agency in Aristoteles' P/r,t,.rir:s', OxÍbrd,
Der WahrheitsbegrilJ bei Husserl und Heideg.ger, Berlim, 1967. 1982.

30 ]I
A scmântica tradicional Arístóteles: a linguagem enquanto símbolo do real

Irrrrrlrrur. Ncssc sctttido preciso, pode-se dizer que toda linguagem inclui rnente as coisas. Precisamente em virtude da unidade pré-reflexiva
trrnir onlologia, não um discurso imediato sobre o ser, mas a lingua- entre coisa, conceito e palavra, o nominalismo em Aristóteles é impen-
gcrrr sri é compreensível a partir de seu fundamento, que é o serr2. sável. A luta entre realistas e nominalistas só podcrá surgir no momen-
Ncssa perspectiva, pode-se dizer que ontologia, para Aristóteles, no to em que as palavras forem consideradas símbolos arbitrários que
sentido de ciência primeira, é o estudo das condições de possibilidade entram em relação com as coisas independentemente de conceitos e
da comunicação humana. (Mas o outro lado da medalha existe tam- palavras. Para Aristóteles, os conceitos não são essências independen-
bém em Aristóteles, isto é, a ontologia, ou seja, a tematizaçáo do ser tes, mas precisamente as diferentes Íunções da linguagem enquanto
como o a priori da comunicação humana não é realizável, fazendo-se pre,sentificação dos diferentes aspectos do real. Na maneira como Íà-
abstração da linguagemr3). Com isso atingimos a segunda direção do lamos das coisas, iá se mostra uma pré-compreensão das coisas, e a
pensamento aristotélico. A tradição, que é sempre seletiva, permane- tarefa da filosofia consiste exatamente na explicitação e tematizaçào
ceu no nível até aqui exposto que, embora se encontre mais explici- crítica dessa nossa pré-compreensão do real, que é obrigatoriamente
tado, não constitui, porém, a única dimensão possível da semântica mediada lingüisticamente. A unidade fundamental, pois, entre physis
aristotélica. A linguagem, neste segundo nível de consideração, não é e Log,os ainda se manifesta aqui, de certo modo, presente. pelo menos
apenas necessária para a expressão do objeto já conhecido para sua como horizonte de pensamento.
designação, mas também (e isto é uma dimensão mais radical) para No entanto, o Aristóteles que influenciou realmente o Ocidente
sua constituição. Embora negando, contra os sofistas, uma relação fbi o Aristóteles da concepção designativa da linguagem. K.-O. Apel
imediata entre linguagem e ser, Aristóteles acentua o caráter obriga- articulou esquematicamente tal concepção da linguagem e sua relação
tório da mediação lingüística para o acesso ao ser. De certo modo, com o conhecimento15. Tal esquema levanta a pretensão de tematizar
ainda existe em Aristóteles qualquer coisa, pelo menos atematicamente, características essenciais da concepção ocidental da linguagem e do
daquela unidade imediata, pré-reflexiva entre linguagem e coisa, ca- conhecimento. Em primeiro lugar, conhecemos, cada um por si e in-
racterística da primeira fase do pensamento grego'4. Aristóteles ficou dependentemente dos outros, os elementos do mundo sensível dado;
conhecido no Ocidente por suas análises da estrutura fundamental das depois, por meio de abstração, com o auxílio do instrumento da lógica
proposições sobretudo teóricas e a partir daqui ele fundou a lógica universalmente válida, captamos a estrutura ontológica do mundo; no
orientada por essa concepção de linguagem como sentença (proposi- terceiro momento designamos por meio de acordo os elementos da
ção). Mas no próprio De InterpretaÍione (17 a 4) ele reconhece outros ordem estrutural do mundo e representamos os conteúdos por meio de
tipos de forma lingüística que não podem ser reduzidos às proposições associação de símbolos; por fim, comunicamos a outros homens por
comuns e que, portanto, a proposição como juízo não é o único tipo meio de associação de símbolos os conteúdos por nós conhecidos.
de expressão lingüística, o que é um indício de que, para ele, a lingua-
gem não é apenas uma forma simbólica abstrata para designar teorica- Na história do Ocidente, sempre se questionou um ou outro as-
pecto isolado desse processo, conservando-se, porém, intocada a con-
cepção da linguagem como algo secundário no conhecimento da rea-
12. Em contraposição à postura nominalista posterior, podemos dizer que para
Aristóteles nem o conceitual nem o lingüístico constituem uma esÍ'era "separada da
lidade. Tal concepção faz-se presente nos tempos modernos, quando,
coisa", mas, ao contrário, em cada proposição já estamos, na consciência natural, por exemplo, Descarles admite a possibilidade de uma ref'lexão radical
junto às coisas sobre que falamos. A coisa é sempre lingüisticamente mediada. Por independente da tradição e da linguagem. Para ele, a consciência pode
isso. Aristóleles nào pesquisa propriamente a linguagem. que apontaria para uma coisa atingir a cerÍez.a plena, o problema fundamental da teoria do conhe-
fora dela, mas seu objeto de consideração é sempre o modo complexo "de como
falamos das coisas". Cf. F. K. Mayr, op. cit., pp. 204ss.
13. Cf. P. Aubenque, op. cit., pp. 204ss. 15. K.-O. Apel, "Sprache", in: Handh. Für phil Grmrtlbegrffi, vol. V, Munr-
14. Cf. F. K. Mayr, op. cit., pp. 13lss. que. I974. pp. 1.183-1402.

32 )l
A semântíca tradicional

cinrcrrto, scrn a mediação lingüística, isto é, por pura auto-intuição,


senr ncnhurna ref'erência a uma comunidade lingüística. De modo geral,
pode-se dizer que só o segundo Wittgenstein questionou radicalmente
os [undamentos dessa concepção.

A SEMANTICA DE E. ÉTUSSERL
Concepção tradicional da linguagem
expressa em telynos da ftlosofia da consciência

a) A nova forma da filosoftn transcendental


endo-se rompido no fim da Idade Média a unidade sempre pres-
fI suposta pelo pensamento clássico, embora por ele nunca propria-
mente temaÍizada, entre pensar e serr, descobriu-se que o pensar não
pode ser tratado como um objeto entre outros, uma vez que ele se
manifesta como condição de possibilidade de toda objetivação2. Se
assim é, então se manifesta ingênuo querer saber sobre o mundo dos
objetos sem perguntar pela instância que constitui o mundo objetivo
enquanto objetivo, ou seja, pela subjetividade humana, como fonte de

1. O que se vai exprimir na definição clássica de verdade enquanto "correspon-


dência" entre conhecimento e realidade. Os escolásticos vão considerar a verdade um
"transcendental", isto é, algo que compete à realidade enquanto tal. O fundamento
último do conhecimento da verdade de nosso conhecimento. vai dizer Tomás de
Aquino, é a autopresença da razão a si mesma, pois, na medida em que ela sabe de
seu próprio exercício, sabe de sua comespondência à realidade. Para essa perspectiva,
poltanto, o homem só pode saber do erro na base de um saber da realidade em si, que
ele compara com seu saber atual.
2. Cf. Manfredo A. de Oliveira, Subjektivitr)t und Vermittlung. Studien zur
Entwicklung des transz,endentalen Denkens bei I. KanÍ, E. Husserl und H. Wagner,
Munique, 1973.

)4 35
A semântica tradicional A semântica de E. HusserL

todo processo cognitivo. Precisamente nisso consistiu a revolução cia, em seu primeiro período de uma maneira implícita, depois, na
copernicana no pensamento proclamada por Kant: em vez de nos fase da fenomenologia transcendental, de modo bastante consciente.
dirigirmos aos objetos, transcendemos dos objetos para sua condição A intenção básica de sua primeira grande obra, as lnvestigações Ló-
de possibilidade, isto é, passa-se dos objetos para o espírito finito gicas, era uma nova fundamentação da lógica pura e da teoria do
como condição de possibilidade do processo de objetivação da reali- conhecimentoT. A obra consta de dois volumesS: no lo volume, Husserl
dade3. Assim se manif-esta à reflexão frlosófica a consciência humana realiza um trabalho mais crítico-negativo, na medida em que, contra
como rnediação necessírria no processo do conhecimento, de tal modo o psicologismo reinante na época, procura tematizar o que é especi-
que pensamento clássico é considerado, em bloco, dogmático por
o ficamente lógico. No 2" volume, principia-se a execução positiva da
não ter sido capaz de tematizar a mediação consciencial do processo tarefa proposta. Para ele, a lógica pura é a doutrina das condições
do conhecimento. ideais de possibilidade da ciência enquanto tale, entendendo ele por
ciência a teoria dedutiva, isto é, aquela que consta de verdades as-
E. Husserla, o fundador de uma das correntes filosóficas mais
sociadas dedutivamente. Essa lógica preocupa-se com três tipos de
importantes em nossos dias, por um lado põe-se dentro dessa tradi-
problemas:
ção de filosofia consciencial dos tempos modernos5; por outro. sig-
nifica uma transformação bastante importante no quadro dessa tradi- a) deve identificar a totalidade dos conceitos primitivos, que tolxam
ção6. Sua semântica, que de certo modo é fundamental em todo o possível a associação teórica;
movimento f'enomenológico, repõe as idéias básicas da tradição a b) buscar as leis que regem a verdade das formações que surgem a
linguagem como elemento secund/trio no conhecimento da realidade
- partir desses conceitos;
situando-as, porém, no contexto novo de uma filosofia da consciên- c) diferenciar a idéia de teoria e distinguir os tipos essenciais possíveis
-, de teoria. O resultado central do l" volume foi a distinção radical
3. Com isso se vão distinguir agora dois tipos de conhecimento: o conhecimento entre as formações lógicas enquanto unidades ideais e as vivências
"objetal", por meio do qual sabemos dos diferentes objetos de nossa experiência, e o psíquicas por meio das quais essas f'ormações nos são dadas.
conhecimento "transcendental", por meio do qual se tematizam as condições de pos-
sibilidade de todo conhecimento de objetos. Como é possível tratar, porém, positivamente, dessas fbrmações
4. A respeito do desenvolvirnento do pensamento de Husserl, cf. W. H. Müller, lógicas? É precisamente a paftir daqui que Husserl concebe a filosofia
Die Philosophie Edmund HusserLs nach den Grundz.ügen ihrer Entstehtrng und nuch
ihre.m systematischen Gehalt, Bonn, 1956. Th. de Boer, The Development of Hut'terl''r
7. E. Husserl, Logische Untersuchungen,2u ed., Halle, 1920. Cf. B. Grünewald,
Thought, The Hague, Boston, Londres, 1978. F. W. V. Herrmann' Der BegriJJ der
"Der phânomenologische Ursprung des Logischen. Eine kritische Analyse der
Phtinomenoktgie bei Heitlegger und Husserl, Frankfurt am Main, 1981. P. Janssen,
phânomenologischen Grundlegung der Logik", in'. E. Husserls Logischen
Edmund Husserls. Einfiihrung in seine Pht)rutmenoLttgle, Friburgo/Munique, 1976.
hungen, Kastellaun, 1977.
U nte rs uc
W. Marx, Die Phtinomenolog,ie Edmund Husserls. Eine EinJührang, Munique.
8. E. Husserl, op. cit., vol. l, p. 236.
1987. K. Schuhmann, Hus,serl-Chrttnik, Denk-und Leben.sweg Edmund Husserls,
Den Haag, 1971 . R. Sokolowski (ed.), Edmund Husserl and the Pherutmenological
9. E. Husserl, op. cit., vol. 11, p. 18. É nítida aqui a influência de F. Brentano
Tradition. Es.ça-ys in Phenomenology, Washington, 1988. E. Strôker, "Zur em sua tentativa de demarcar o campo especíÍico dos fenômenos psíquicos e seu
caráter "intencional", isto é, sua relação a um conteúdo, seu direcionamento a um
Problematik der Letzbegründung in Husserl 's Phânomenologie", in: Zur
objeto. (Cf. F. Brentano, Ps,-choktgie vom empirischen Standpunkt, vol. l, ed. por O.
Selbstbegründung der Philosophie seit Kant, ed. por W. Marx, FrankÍurt am
Kraus, Hamburgo, 1955 (reedição da publicação de 1924): no vol. 2 (reedição de
Main, 1987, pp. lO7-129.
1925) pp. 133ss. A tematização da relação intencional constitui o campo próprio da
5. Cf. J. Taminiaux (erJ.), Husserl und tkts Denken der Neuzeit. AcÍes du deuxiàme
pesquisa psicológica. Foi a isso que clc denominou "psicologia descritiva", que deve-
colktqtte international de phénoménologle. KreÍ'eld, l-3 November l9-56, La Haye,
ria constituir o fundamento de uma filosofia cientíÍica. Cf. P. F. Linke, "Die Philosophie
r 959.
Franz Brentanos",in: Zeitsch. lür phil. Forschung 7 (1953)89-99. E. Strôker/P. Janssen,
6. Cf. E. Strôker, P. Janssen, Phiinomenttlogische Philosopizie, Friburgo/Muni-
op. cit., pp. 2lss.
que, 1989.

,ô 37
A semântica tradicional A semântica de E. Husserl

comç't unúlise .fbnomenológica. Fenomenolo gia é a pesquisa descritiva trazer à evidência, que o que nos é dado, em abstração, atualmente
pura das vivências e, enquanto tal, é uma psicologia descritivaro. Uma realizada, é verdadeiro, e realmente o que as signiÍicações das palavras
pesquisa fenomenológica das formações lógicas significa sua explici- exprimem em leis16.) Os passos básicos da reÍlexão f-enomenológica
tação por meio do recurso a vivências do pensamento, nas quais tais são, portanto: ponto de partida a significação das palavras; destas '
-
se deve retroceder às próprias coisas. As coisas, porém, são-nos dadas
formações nos são dadaslt. Ora, que pode significar isso depois da
em "atos intuitivos", ou seja, em vivências. Daí a necessidade da
distinção tão radical entre formações lógicas e vivências psicológi-
tematização das vivências, independentemente da linguagem, para
cas?r2 Nada mais do que a explicitação da mediação consciencial no
chegar às próprias coisasrT. O mundo psíquico manifesta-se como
pÍocesso do conhecimento. Embora as formações lógicas não sejam
instância à qual os objetos são dados de diferentes modosts. .}dais
vivências psicológicas, tais formações nos são dadas nas vivênciasr3.
tarde, com a reviravolta transcendental. isso se tornou mais claro ain-
Husserl explicita, assim, seu programa básico: não queremos conten- da. A reflexão transcendental enquanto fenomenologia transcendental
tar-nos simplesmente com puras palavrasra. Queremos voltar às pró- é pesquisa transcendental (e não psíquica) da consciência. Não se
prias coisas,t. (Em intuições plenamente desenvolvidas, pretendemos trata, pois, como poderiam sugerir as expressões de sua primeira fase,
de pesquisa da consciência como realidade empírica, mas da consciên-
10. Cf. E. Husserl, op. cit., vol. I 1, p. 45. A convicção básica de Husserl é que cia enquanto instância constitutiva do próprio mundo objetivo'e e, nesse
a funrJamentação última do conhecimento só pode acontecer fenomenologicamente, sentido, de uma realidade não-objetiva, não-empírica, não-mundana,
isto é, a partir de uma pesquisa sobre os atos do conhecimento. O problema da
possibilidade do conhecimento objetivo só se resolve a partir das intenções subjetivas
de conhecimento, o que mostra a modernidade da postura husserliana' de máxirna importância para o pensamento de Husserl: a diferença entre intenção da
1t. Esta também foi uma problemática fundamental no pensamento de Frege. significação (Bedeutungsintention) e o "cumprimento da significação"
cf. H.-u. Hoche, ,.Beziehungen zwischen der semantik Freges und der Noematik (BedeutungserfülLung) (cÍ. E. Husserl, Husserliana XIX/2, pp. .582ss). Esse cumpri-
Husserls,,. in: Arch. l-ür Gesch. tler Phil.64 (1982)166-197. R. Sokolowski, "Husserl mento ocorre por meio das intuições cumpridoras. É n.r.. contexto que Husserl vai
and Frege", in: Jahr. f. phil. und phan. Forschtrng 84 (1987) 521-528' Ievantar a questão da vivência da evidência e, ligada a isso, a questão do sentido da
12. Isso significa dizer que, para conhecer o que são as formações lógicas em verdade. cf. E. Tugendhat, Der WahrheitsbegriJf bei Husserl und Heidegger, Berlim,
si mesmas, devemos refletir sobre as vivências nas quais elas nos são dadas. 1967, pp. 107-168. Strôker/P. Janssen, op. cit. pp. 49-54.
13. Cf. E. Husserl, husserliana. Gesammelte Werke, Haag, a partir de 1950' 16. Cf. E. Tugendhat, op. cit., pp. l3ss.
xx/1.10. Essa maneira de falar de Husserl provocou muitos mal-entendidos, por 17. Husserl introduziu a pesquisa das vivências intencionais não somente en-
fenomenólogos inclusive. No entanto, para Husserl sempre foi claro que as coisas só quanto atos, mas enquanto modos de ser consciente. Com isso surgiu para ele a
podiam ser encontradas nos atos de conhecimento, ou seja, em universalidade de pergunta de se aos diferentes modos de ser consciente correspondiam diferentes ob-
princípio, nas vivências intencionais da consciência e nos objetos intendidos. Só en- jetos ou se antes se trata de diÍ'erentes formas de doação (Gegebenheitsweísen) do
quanto os atos têm sua calacterística determinante em sua referência ao objeto. Cf. a mesmo objeto. Sem plena consciência ainda disso, já se introduzia na primeira fase
respeito: E. Strôker/ P. Janssen, op. cit., p' 39. de seu pensamento aquilo que vai constituir a concepção especificamente husserliana
14. Nesse sentido, a fenomenologia deveria seÍ uma região de pesquisas neu- do sentido e da atividade do conhecimento humano. PzLra Husserl, vai ser impossível
tras e tomar como fio condutor a eliminação rigorosa de todas as opiniões prévias, tematizar as objetividades sem o recurso à forma de seu dar-se. Daí a distinção
recusando radicalmente toda construção e dedução. Cf. E. Husserl, HusserLiana, lundamental entre o objeto que é significado e o como da signiÍicação. Cf. E. Husserl,
XIX, pp. 1.6.24ss. Isso vai desembocar naquilo que Husserl chama de princípio dos Husserliana, XIX/I, pp. 414ss., 427ss.
princípios da Í'enomenologia (E. Husserl, HusserLiana, XVII, p. 2461.Isso não sig- 18. Cf. Th. S. Eberle, Sinnkonstitution in Alltag undWi,çsenschaft. Der Beitrag
nifica dizer que Husserl tenha exigido intuição para todo e qualquer conhecimento, der Phiinomettologie an díe Methodoktgie der Sozialwissenschaften, Berna/Stuttgart,
mas que ele buscava o intuído em todos os conhecimentos. Cf. a respeito: E. Strôker/ I 984.
P. Janssen, op. cit., p. 38. 19. Trata-se precisamente de mudança de postura que concerne não só a este ou
15. Para Husserl, uma coisa é significar um objeto, outra é conhecê-lo. Para que àquele objeto, mas, como diz Husserl, é a totalidade da "fé no mundo", a "tese geral",
o significado possa ser considerado conhecido, é necessário que ele possa estar diante que deve ser inibida, ou seja, deve-se pôr entre parênteses a posição de ser com a
dos olhos como sendo assim como é o signiÍicado. Daqui vai emergir uma diferença intenção de tematizar criticamente os elementos constitutivos de tudo o que existe

t8 39
A se nrâtttica lradicional A semântica de E. Husserl

sti irlc'trnçiivcl ltor rncio de uma reviravolta de atitude que Husserl ginária de todo o conhecimento humanoz1. A filosofia não deve con-
rlcrrorrrirrir t,1ttx'hé'. em vez de continuar voltado para o mundo objetivo, tentar-se com pensamentos abstratos, isto é, com teorias prontas, mas
deve retroceder à intuição das próprias coisas. Daí a exigência básica
o csl)írito pode voltar-se sobre si mesmo, como a subjetividade anô-
desse pensamento: simplesmente receber tudo aquilo que nos é dado
Írilila, ct.n que mundo se mostra e é constituído como mundo. Não se
originariamente por meio da intuição, receber como ele é dado e nos
trata, pois, de uma redução do conteúdo da experiência humana, mas
limites em que é dado. Ora, a forma mais originária do dar-se do dado
cla busca de suas fontes de constituição2o. Nesse sentido, a fenome-
é a intuição.
nologia é uma egologia transcendental2r.
Na tradição metafísica do Ocidente, a intuição é a recepção sen-
Como se deve fazer isso? É justamente tratando de problemas sível imediata de um ente singular e real. Para Husserl, a intuição nào
metodológicos que Husserl vai encontrar sua forma própria dentro da tem esses limites, pois ela significa simplesmente a maneira suprema
tradição da filosofia da consciência. Foi exatamente no problema do segundo a qual algo pode ser dado ao sujeito, à sua consciência. Ele
método22 que ele viu a diferença fundamental entre sua fenomenologia distingue o dado enquanto simplesmente pensado e enquanto dado em
transcendental e a filosofia transcendental de Kant. Husserl critica si mesmo. A função da intuição é Írazer o que é pensado à automani-
fortemente o método construtivo-regressivo de Kant23, pois, segundo festação2s, ou seja, ela é o cumprimento, a realização de uma pura
ele, tal método impossibilita a realizaçáo da tarefa básica da filosofia intenção. O pensamento é abstrato, em relação à intuição, precisamen-
transcendental, isto é, a apresentação das condições de possibilidade te porque ele tem apenas intenções náo realizadas. Tudo, e não só o
do conhecimento objetivo. Por que razão? Porque Kant procura res- sensível, pode ser intuído, e isso constitui a suprema fbrma de seu
ponder a essa questão por meio de suposições construídas pelo espírito conhecimento. O mesmo objeto pode ser, poúanto, dado à consciência
e não de intuição e assim a subjetividade não é atingida em seu ser do homem de diferentes modos. A intuição é a revelação plena do ser,
próprio, mas simplesmente construída no pensamento vazio. ora, para e por isso só nela está realmente a coisa no seu ser próprio. Progresso
Husserl, a intuição é o princípio de todos os princípios, a fonte ori- no conhecimento de algo significa, independentemente de qualquer
mediação lingüística, o aumento da intuição dos dados. O verdadeiro
que é o intuído26; tudo o mais pensamento, teoria etc. é, apenas,
enquanto objeto de conhecimento humano. Assim a epoché, a mudança de atitude, - conhece, pois, degrous na- intuição.
é fiuto daquito que Husserl chama a redução fenomenológica na medida em que o até tendência à verdade. Husserl A
então estritamente aceito como ser é objeto de uma pesquisa quanto a sua validade, crítica de Husserl a Kant consiste em dizer que seu método é constru-
implica, ao mesmo tempo, uma inibição e uma tematização: com ela se atinge o solo tivo da subjetividade transcendental na medida em que sua tematização
do conhecimento absoluto da fundamentação última. É só por meio dessa mudança de não recorre à intuição, e, é por isso, que Husserl considera Kant ligado
atitude que podemos perceber o caráter acrítico da postura anterior. Cf. E. Fink'
ao racionali.§mo moderno, enquanto rcaliza, clarificando e purificando
"studien zur Phânomenologie 1930- 1939" , ín'. Phiinomenologische SÍudien, FrankÍuÍ
am Main, 1987. as intenções fundamentais do empirismo inglês, uma ciência baseada
20. Cf. J. M. Brõkman, Phiint»nenologie und EgoLogie. FakÍist:hes und unicamente na experiência interior. Nesse sentido, a fenomenologia de
transzendentaLes Ego bei Edmund Husserl, Den Haag, 1963' Husserl é uma espécie de empirismo ou positivismo transcendental,
2l.Cf.G.Funke,Phtinomenologie-MetaphysikoderMethode,Bonn,l966'
22. Cf . E. Husserl, Husserliana. VI, 2' ed., p. 203' Th' M Seebohm' Dle
24. Cf. E. Strõker, Phtinomenologische Studien, Frankfurt am Main, 1987,
Beclingungen der Môglichkeit tler Transzendentalphiktsophie. Edmund HttsserL
pp. l-34.
transZentlentnl-phtinomenologischer AnsaÍ2, dargesteLlt in Anschuluss an seine Kant-
25. Cf. as considerações críticas de G. Patzig em: "Kritische Bemerkungen zu
-Kritik, Bonn, 1962.
Husserls Thesen über das Verhâltnis von Wahrheit und Evidenz", in.. Plrinomenologie
23.Cf.8. Husserl, Husserliana,lll,p.52. ManfredoA. de oliveira, subjektivitàt
und SprochanaLyse (Neue Hefte Jür Phibsophie, Cad. l), Gôuingen, 1971, pp. 12-32.
untl Vermittlung. Studien zur Entwic'klung des tremsz,endentcLlen Denkens bei I. Kant,
26. Cf. E. Husserl, Husserliana, VIII, p. 20.
E. Husserl uncL H. Wagner, Munique, 1973' pp. l4O-152'

40 41
A semântica tradicional A semântica de E. Husserl

pois a região da transcendentalidade é pesquisada, isto é, em última sicionais e as não-proposicionais2e. As proposicionais são aquelas em
análise, legitimada por meio da intuição. A fonte última do conheci- que a palavra algo não se refere propriamente ao objeto, mas a fatos
que podem ser expressos por frases do tipo "que isto". Por exemplo,
mento humano é a intuição27. A descoberta do eu transcendental por
meio da epoché fenomenológica abre a possibilidade de uma experiên- eu sei algo eu sei que alguém passou. Porém, há casos de vivências
-
intencionais em que o objeto só pode ser expresso por termos singu-
cia absoluta, fonte de todas as outras experiôncias e de uma ciência
lares, que designam objetos. Por exemplo, amar, admirar.
dessa experiência .fontal. Ora, isso significa um corte não só coln a
tradição da filosofia da consciência, como ela se articulou nos tempos Ora, é uma tese fundamental da fenomenologia que essas formas
modernos, mas, de certo modo, com toda a tradição do pensamento, de consciência não-proposicional não necessitam da mediação lin-
na medida em que se busca a conciliação entre experiência e verdade güística, pois pressupõem uma relação sujeito-objeto livre de qualquer
absoluta. mediação lingüística. As vivências intencionais são apenas um tipo de
vivência. No homem, os diferentes tipos de vivência, intencionais ou
não-intencionais, encontram-se na unidade de uma corrente de vivên-
b) Os conceitos fundamentais da fenomenologia trqnscendental cias, que Husserl denomina também consciência. A consciência é para
Husserl, nesse sentido, um movimento permanente de fenômeno3". É
Husserl distingue pelo menos dois conceitos de consciência28. O importante levar isso em consideração, pois a análise de tal corrente
primeiro se manifesta quando dizemos, por exemplo, que alguém tem vai ter necessariamente de isolar elementos com o risco de se perder
consciência de algo, isto é, uma relação consciente a algo. Termino- a concepção essencialmente dinâmica da consciência. Tudo encontra
logicamente, Husserl designa esse tipo de consciência como intencio- seu lugar na unidade dessa corrente, podendo-se assim dizer que essa
nalitJade ou vivênciu intencional. Consciência é, pois, fundamental- corrente é o "fenômeno originário", pois nele se mostram todos os
mente direcionalidade a algo. Nem toda vivência é intencional, mas a outros fenômenos. Toda vivência, então, por se situar nessa coffente,
vivência intencional é consciência no sentido pleno da palavra. Ora, ultrapassa-se necessariamente a si mesma na direção de outras vivên-
Husserl aceita e desenvolve a idéia de Brentano de que há diferentes cias que constituem em sua inter-relacionalidade uma unidade.
maneiras cle intencionalidade. Desse modo, as diferenças essenciais
das vivências não dizem respeito, propriamente, a seu conteúdo ima-
nente e não se orientam a partir das classes dos objetos, mas segundo 3) A semôntica de Husserl: a frase compreendida
a maneira como se referem aos objetos. E, assim como há diferenças como a composição ideal de suas partes, isto é, de objetos
de relação no lado do sujeito, deve haver algo no lado do objeto que
Husserl desenvolve os fundamentos de sua teoria da significação
a isso corresponda, isto é, não propriamente diferença do conteúdo
imanente dos objetos, mas diferenças dos objetos enquanto objetos de
nas Investigações Lógicas, volume II, sobretudo no parágrafo intitula-
do "Expressão e significação", e nunca revidou depois, em sua fase
tais ou quais atos. Hti diferentes objetividades, portanto, a ser
transcendental, tal concepção. Sua primeira afirmação está no parágra-
tematizadas pela fenomenologia, que assim se manifesta como estudo
dos fenômenos, dos dados objetivamente no como de seu dar-se. Po-
29. Cf. E. Tugendhat, Vorlesungen zur Einführung in die sprachanalytische
demos distinguir duas modalidades de vivências intencionais: as propo-
Philosophie, Frankfurt am Main, 1976, pp. 92ss.
30. É por essa razão que ele denomina a unidade da consciência de "unidade
21. Cf.E. Husserl, Logische Untersuchungerz, op. cit.. V Unters. l. de mudança" (Einheit derVeriinderung).Cf. E. Husserl, Husserliana, XIX/1, pp. 369,
28. Cf. E. Husserl, Husserliana, VIII, p. 20. 390.

42 4)
r A semântica tradicional A semântíca de E. Husserl

Íb 9: "Quan«lo uma expressão não é só um puro som, mas um sinal, expressões, hoje chamados de "termos singulares", isto é, expressões
e um sinal especial, isso se deve ao fato de ela ser captada por alguém que atuam na frase como sujeito33. Qual a significação de um termo
enquanto algo que possui uma significação. A pura escrita ou o puro singular numa frase, segundo Husserl? Cada expressão desta, diz
som não têm por si mesmos significação, mas uma significação lhes Husserl, designa um objeto. Husserl define objeto: "Sujeito de possí-
é conferida na medida em que são captados num determinado modo". veis predicações verdadeiras"3a. Cada termo singular pretende desig-
E. Tugendhat3r considera essa afirmação inicial da semântica de Husserl nar um objeto. E, além disso, cada termo singular possui uma signi-
da mais alta imporlância, pois, com isso, Husserl manifesta que não ficação que se distingue do objeto, pois dois termos singulares podem
pretende falar da significação de modo abstrato, mas pretende consi- designar o mesmo objeto e ter significação distinta (por exemplo: O
derar também fatores psicológicos e antropológicos dos que usam esses Vencedor de Jena e o Derrotado em Waterloo). Como se distinguem,
sinais. então, expressões que designam o mesmo objeto e possuem significa-
O que, então, concede significação a uma expressão? Para Husserl, ção diferente? Precisamente, pela maneira diversa segundo a qual
significam esse objeto3s. Como entender isso?
são atos significantes. A palavra "ato" em Husserl é um termo técnico
para a designação de "vivências inÍencionais", isto é, aquelas que Há duas tentativas em Husserl de esclarecer o que ele afirma36.
implicam uma relação ao objeto. É, portanto, em virtude de vivências A primeira, nas Investigações lógicas, afirma que a significação con-
intencionais que expressões signihcam algo, e na medida em que sig- siste na essência do ato correspondente. Ora, tal posição é quase
nifi.cam, referem-se a algo objetivo. Husserl, em sua semântica, põe- ininteligível, e Husserl a modiÍicou posteriormente3T afirmando que o
-se, de antemão, na perspectiva tradicional da linguagem como instru- "sentido é o objeto no como de sua maneira de dar-se"3S. A significa-
mento de designação de objetos. O conceito de consciência, pressu- ção não é objeto, mas o modo de dar-se do objeto3e. É a saída encon-
posto na semântica, é o da intencionalidade, isto é, direcionalidade a trada para situar a significação numa teoria objetivista, designativa.
objetos. No entanto, para ele, a significação mesma não é um objeto. Contudo, quando se diz que a significação é o modo de dar-se do
Sem dúvida, expressões lingüísticas são empregadas para representar objeto, não se superou ainda uma perspectiva objetivista, a significa-
objetos, porém a compreensão dessas expressões não se realiza numa ção permanece dependente do conceito de objeto.
representação de objetos.
Tal solução dentro de uma teoria objetivista permanece, de certo
Em primeiro lugar, Husserl reconhece a existência de expressões modo, sem problemas, enquanto se permanece no âmbito dos termos
que têm uma significação, embora não representem objetos, como por singulares. Sua inconsistência mostra-se, contudo, com mais clarcza
exemplo as expressões sincategoremáticas. Tal denominação provém quando se prossegue a reflexão sobre a frase, levantando problemas,
da lógica tradicional32. Expressões categoremáticas são aquelas que como, por exemplo, qual a função do predicado, qual a significação de
podem, numa frase de um silogismo, aparecer como termos, isto é, no toda a frase predicativa. Seguindo as sugestões de Tugendhatao, vamos
lugar do sujeito ou predicado. As expressões que não podem exercer tal
função sáo expressões auxiliares. Essa distinção é tipicamente aristotélica: 33.VUnt.§34.
para e1e, toda expressão categoremática representa algo e, enquanto tal, 34. Cf. E. Husserl, Husserliana, III, § 3, p. 15.
tem uma significação independente. As outras só têm significação em 35. IUnt.§13.
conexão com expressões categoremáticas, daí sua denominação. Essa 36. Cf. E. Tugendhat, op. cit., pp. l46ss.
37. Cf. E. Husserl, Husserliana, III, § 94, pp. 33ss.
problemática é traÍada por Husserl na consideração dos nomes que são 38. Cf. E. Husserl, op. cit., § 131, p. 321.
39. Cf. A respeito da diferença entre Frege e Husserl, cf. M. DummeÍ, Llrspriinge
31. Cf. E. Tugendhat, op. cit., pp. 143. der analytischen Philosophie, Frankfurt am Main, trad. de J. Schulte, 1988, pp. 48ss.
32. Cf . J. Stuart Mill, A S1:stem of Logic, Londres, 1843, I cap., § 2 40. Cf. E. Tugendhat, op. cit., pp. 150ss.

44 45
r A semântica tradicional
A semântica de E. Husserl

questão: a significação das fiases Ora, isso tudo nos diz que a argumentação de Husserl é insus-
l)itssilr u c0nsicleração desta última tentável: não se pode tratar o problema da frase como um todo com
prcdicativas. Como os termos singulares, também as frases como um
os mesmos pressupostos com que ele tratou o problema dos termos
totlo clcsignam um objeto e possuem uma significação' Qual é o objeto
singulares.
c qual é a significação de toda uma frase predicativa? Husserl não tem
uma resposta clara a essa questão, vislumbrando duas possibilidades. No § 34 de suas Investigações, Husserl tenta reformular toda a
pode-se dizer: o objeto da frase predicativa é o objeto-sujeito, isto é, questão: o objeto da frase "Pedro corre" é aquilo do qual se diz algo,
que "b" o
aquele do qual se diz algo. Assim, na frase "a" é maior do isto é, Pedro. Pode-se, contudo, também falar sobre a significação da
objeto seria "a" ou "b", ou "a" "b".g
frase, por sua vez, a significação se transforma num objeto sobre o
Porém, há outra possibilidade: considerat a situação obietiva qual se diz alguma coisa. Essa solução vem complicar a questão da
expressa na frase como análoga a um objeto expresso num nome
e distinção entre significação e objeto, porque agora estão emjogo dois
diitingui-la enquanto objeto da significação da frase. Assim, as frases objetos bastante distintos, pois uma coisa é uma frase predicativa
"a" é maior do que "b", "b" é menor do que "a"' As frases' embora sobre um fato (por exemplo, o fato de que em agosto nevou no sul)
designem algo diferente, referem-se à mesma situação objetal'
Essa e outra é uma predicação sobre uma significação (ou seja, a signifi-
proposição de dupla possibilidade manifesta, pelo menos' insegurança' cação da frase de que em agosto nevou no sul). Para Husserl, a sig-
Émtodo caso, já que Husserl trata do caso de frases de modo análogo nificação de uma frase predicativa é um objeto. Mas que objeto? Um
ao dos termos singulares, essas duas frases devem exprimir dois
mo-
objeto composto. Desse modo, a significação de toda frase, enquanto
dos diferentes do dar-se do fato em questão' decorrência da significação de suas partes constitutivas, deve ser en-
Nesse contexto, podemos logo levantar duas questões: quais são tendida como uma composição. Ora, essa composição pressupõe, pois,
os critérios para saber: objetos tanto com seus elementos como com seu resultado. Como se
deve entender isso? O problema é: então, como a significação de uma
a) se duas frases têm a mesma significação:
expressão composta provém da significação das expressões que são
b) se elas representam ou não a mesma situação'
suas partes? Husserl sabia que não se pode falar da composição que
Para a primeira não se encontra resposta em Husserl' e para a constitui a situação objetal como da composição de um objeto, ou
segunda o critério é que elas tenham as mesmas condições de
verda-
melhor, de um objeto composto. Quando se faz uma composição de
de, isto é, quando se pode a priori (analiticamente)' por meio da objetos concretos, por exemplo contas de um colar, o resultado é
compreensão das frases, ver que quando uma é verdadeira
a outra
também um objeto concreto com suas partes. Uma situação objetal,
tamúém o é. Ora, isso nos levaria à conseqüência: todas as frases
um fato, não é um objeto concreto. Situações objetais são como os
isto
verdadeiras designam os mesmos objetos, assim como as falsas' atributos-objetos, por assim dizer, abstratos. Na terlninologia de
é, se tivermos realmente de realizar o paralelismo entre as designa-
Husserl, os primeiros são objetos reais, os segundos, objetos ideais.
ções nominais e as frases,
pois no caso das primeiras não basta apenas
A percepção sensível, real, o objeto ideal, ou, como Husserl o deno-
a compreen sáo a priori pata saber se designam o mesmo objeto ou mina, o objeto categorial, se constitui por meio de um ato categorial,
não, mas é, também, necessária a experiência (cf' o caso do Vencedor que se distingue do sensível na medida em que é fundado em outros
ter
e do Derrotado). Aplicando esse critério às frases, elas teriam de atos. Portanto: a partir de sua concepção objetivista, Husserl é levado
não somente as mesmas condições de verdade, mas também os mes- a compreender as situações objetais, os fatos como objetos compos-
mos valores de verdade (verdade ou falsidade), o que levaria à afir-
tos, mas como objetos de uma ordem diferente da daqueles obietos de
mação acima citada.
47
46
r A semântica de E. Husserl
A semântíca tradícional

r;trc clcs sc compõrem, e tenta resolver os problemas aqui surgidos


por '4", isto é, a azulidade está no castelo ou, invertendo, o castelo tem
azulidade. A partir da teoria acima, tudo isso é bem conseqüente.
nrcirr rlc stra tettria da síntese categorialat '
Resumindo, à pergunta de qual é a significação do todo de uma frase,
A tarefa é distinguir a composição real da composição ideal' Para Husserl responde ser um objeto, isto é, a situação objetal, e assim já
dife-
Husserl, esses dois tipos de composição são fundamentalmente temos um ponto de partida para a resposta à significação de suas
rentes, de tal moilo que, enquanto a primeira é atingida pela percep- expressões parciais, para Husserl por meio de uma composição, por-
pelo pensamento o que não significa
ç:ão, a segunda só é óontestável tanto, de uma síntese categorial, e por fim, uma vez estabelecido isso,
que nao seja real. Também o pensamento, para Husserl, é uma forma manifesta-se a função do predicado na frase, que é também uma fun-
áe consciência do objeto e também ato. Ora, os atos do pensamento
ção objetiva.
são chamados, em função de sua distinção, atos cateSoriais, e sua
pre- Talvez essa teoria de Husserl represente a forma mais conseqüen-
característica é que eles representam as objetividades compostas
cisamente enquanto compostas o que só é possível enquanto eles ao te da teoria objetivista da significação. Apesar de na compreensão do
mesmo tempo representam seus objetos parciais. A representação
de predicado de uma frase a consciência não estar dirigida objetivamente
cada objeto parciàt é, por sua vez, um ato. Dessa forma o ato categorial para a significação do predicado, mas somente para o objeto do sujeito
é necessariamente um ato sintético e, portanto, fundado essencialmen- da frase, a significação do predicado é um objeto, isto é, um atributo
te em outros atos, isto é, em atos sensíveis, que representam os
objetos correspondenÍe. Uma das grandes tarefas da semântica contemporânea
reais, os quais fazem parte das objetividades sintéticas. Por meio
dos vai consistir precisamente não só em superar essas aporias a que con-
atos fundados, os categoriais, realiza-se a composição dos objetos dos duzem essas teorias objetivistas por meio de reformas imanentes ao
nova
atos fundantes, isto é, os sensíveis, e com isso se constitui uma projeto teórico fundamental, mas, muito mais do que isso, o que vai
objetos reais
objetividade, a objetividade sintética. A diferença entre e ser posto em questão é a própria concepção objetivista como sendo
objetos ideais funàamenta-se na diferença dos atos respectivos, isto é, incapaz de responder às questões fundamentais levantadas por uma
nu dif"r"nçu do modo como os objetos são dados ao homem' Uma teoria da frasea2.
composiçãô da situação objetal se explica em sua diferença da com-
posição, porque essa composição é uma composição de um ato
lategoriat. Existe realmente essa situação objetal? Sim, na medida em
que a síntese categorial se fundamenta nos objetos reais que dela
fazem parte.
Husserl projeta essa teoria em primeiro lugar de um modo geral
e só depois tenta compreender, a partir dela, concretamente, a frase
predicatlva. Tomemos uma frase predicativa como exemplo: o castelo
é azul. De acordo com essa teoria, tanto castelo como azul devem
designar objetos, pois a síntese categorial é exatamente síntese dos
objÃs. gntao, a'função do predicado na frase é também designar
obietos'? De fato, Husserl defende essa posição e, no § 48' dá
como
geral explicativo das frases predicativas (isto é, de frases como
"r[u".u
'A;' é '4", em que o "é" representa segundo ele a síntese) "a" está em
42. Para uma critica à posição de Husserl, cf. E. Tugendhat, op. cit., pp. 170-
-174.
41. Cf. E. Tugendhat, op. cit ' p. 162.
49
48
r

F. v. KUTSCHERA
Linhas fundamentais de uma
semântica realista

semântica tradicionalr é uma espécie de realismo conven-


cional2 ou uma teoria da reprodução (cópia). Em sua forma
mais simples, ela afirma que expressões lingüísticas possuem ape-
nas uma função semântica, isto é, designam certas entidades à
base de convenção.
Assim: os nomes próprios designam objetos. Digo, por exemplo,
"este é João" ou "isto é Fortaleza". De cada vez apresento um objeto

l. Cf. F. v. Kutschera, Sprachphilosop&le, Munique, 1975, pp. 38ss.


2. V. Hcisle considera o realismo uma das formas fundamentais de pensamento
humano, que se caracteriza, em primeiro lugar, por considerar atarefa do pensamento
o conhecimento de um objeto a ele pré-dado e diferente dele (realismo): essa tarefa
é considerada sem problemas (dogmatismo) e tarefa que deve ser efetivada pelo pen-
samento e não pela experiência (racionalismo). Essa postura dogrnática parte de pres-
supostos cuja validade provém de representações inquestionáveis. É um pensamento
que argumenta dentro de um quadro lógico-formal e com Hegel pode ser considerado
a postura própria ao entendimento. Seu objeto é articulado por meio de categorias
unicamente positivas e por essa razáo ele desemboca em dicotomias insolúveis. Cf.
Hosle. Wahrheit und GeschichÍe. Studien zur Struktur der PhiLosophiegeschichte unter
paradigmatischer Analyse der Entwicklung von Parmenindes bis Platon, Stuttgart-
Bad Annstatt, 1984, pp. 133-134.

5I
a F. v. I(utschera: linhas fundamentais de uma semântica realisla
A semântica tradicional

e cstlr[clcço (luc uma determinada expressão enquanto nome o designa grande problema, aqui, é que uma representação, como um estado
(tlc:nola ). psíquico, é sempre um estado de um sujeito: daí, duas representações
de dois sujeitos, mesmo designando os mesmos objetos, nunca são
Os pretlicados. Por exemplo, vermelho designa rtma qualidade
iguais. Se essa teoria fosse verdadeira, qualquer frase poderia produzir
que posso observar neste ou naquele objeto e não em outro. Por exem-
sentidos diversos em quem fala e em quem ouve. Além disso, com
plo, "estas rosas são vermelhas", ou, então, relações observáveis em
frases, normalmente não falamos das nossas representações, mas de
objetos, como "esta pedra é maior do que a outra". Portanto: predicados,
coisas mesmas4.
seguindo a semântica realista, designam qualidades e relações; portan-
to, dito isso de modo universal, designam atributos. Essa teoria da cópia do real choca-se com algumas dificuldades.
Não podemos, sem mais, mostrar atributos e fatos como podemos
As sentenças designam fatos, isto é, o fato de que determinado
mostrar objetos. Por exemplo, quando queremos dizer que qualidade
atributo diz respeito (é justamente empregado, porque é o caso' por-
"vermelho" designa, não podemos mostraÍ essa qualidade como mos-
tanto está certo) a um objeto designado. Por exemplo, quando digo
tramos um objeto, por exemplo uma montanha, uma estrela; temos de
"Fortaleza se situa entre Natal e Teresina", designo o fato de Fortaleza
apelar para instâncias que manifestam ou não tal qualidade, por exem-
se situar entre Natal e Teresina. Portanto: o que é designado por frases
plo coisas vermelhas e coisas não-vermelhas. Porém, é claro, que um
simples é tunção do que designam os nomes e os predicados que nelas
número finito de exemplos e contra-exemplos não basta para distinguir
ocorrem, como também do modo como eSSaS frases são formadas a
um atributo de modo inequívoco.
partir desses termos, isto é, do posicionamento desses termos na frase'
Por exemplo, "Pedro esmuÍra Caio e Caio esmuma Pedro". Tal senten- Um nominalista objeta contra o realismo semântico que há ob-
ça é dita verdadeira justamente quando o fato em questão jetos concretos, mas não há objetos abstratos e, por isso, predicados
existe3'
não podem ser nomes, porque não existe o que possa ser por eles
Segundo a Teoria realista, portanto, existe uma correlação entre:
designados. Numa concepção nominalista6, predicados, em contrapo-
nomes predicado sentenças sição a nomes e sentenças, não possuem em si mesmos uma signifi-
atributos fatos cação, mas são sinsemânticos, isto é, expressões sincaÍegoremáticas,
objetos
que só têm sentido no contexto da frase. A palavra "vermelho" sozi-
Expressões lingüísticas correspondem a determinadas entidades nha não tem significação. Os objetos que caem sob determinado
(nessa relação convencional, esgota-se sua função semântica). predicado não têm em comum a não ser isso, que o mesmo predicado

Dentro desse quadro geral, uma variante do realismo semântico


4. Esse é o assim chamado problema do "psicologismo na lógica", enfrentado
é o que considera as entidades puramente conteúdos de vivências sobretudo por Frege e Husserl. Cf. G. Frege, Logische Untersuchung I: Der Gedanke,
psíquicas, no mais das vezes chamados "representações" (idéias), e Beitrrige zur Philosophie der deutschen ldealismus l(1918/19), pp. 58-77. E. Husserl,
nesse sentido afirma que expressões lingüísticas designam representa- Logische Untersuchung,erz, Halle, 2" ed., 1920.
mas primeira- 5. Essa é a famosa questão dos universais. Cf. a respeito como ela vem sendo
ções. Esta rosa não denota imediatamente este objeto, tratada no pensamento contemporâneo: W. Stegmüller, "Das Universalienproblem
mente uma representação e na base desta o objeto. No entanto, o
einst und .ietzt" , in Arch. .f . Phil 6(1956)192-225; 7 ( 1957)45-8 I . E. Heintel, "Einige
Gedanken zum Universalienproblem", in'. Studium generaLe l8 (1965)509-5 l8; "Das
3. A semântica realista clefende uma "teoria de adequação" da verdade. cf. F. ontologisch relevante Allgemeine", in'. Grundriss der Dialektik, Darrnstadt, 1984,
v. Kutschera, op. cit., pp. 72ss. L. B. Puntel, wahrheitstheorien in der neueren vol. l, pp. 226-235. C. R. V. Cirne Lima. "Sobre a contradição pragmática como
Philosophie, Eine kritisch-sv-stemotische Darstellung,2' ed', Darmstadt, 1983, fundamentação do sistema", in'. Síntese Nova f-ase 55 (1992)595-ó16;
pp. 26ss.; Der WahrheitsbegriJJ'. Neue Erkkirungsversuche, Darmstadt, 1987' 6. Cf. W. V. O. Quine, Word and Obiect, Cambridge, 1960.

52 5)
r A stmântica tradicional F. v. I{utschera: linhas fundamentais de uma semântica realista

ric ltl)licll tr clcs. Mits, segundo v. KutscheraT, essa posição nominalista matutina" e "estrela vespertina", a significação dessas duas expressões
itl)rcsc1(il tarttbém uma dificuldade muito séria, pois, por exemplo, se devendo ser diferente, embora designem o mesmo objeto. Então, não
nirs ll'irscs "a" é vermelho, "b" é vermelho, nada se pode concluir da é possível admitir a identificação feita pelo realismo: significação =
objeto.
signilicação de "a", "b" e "vermelho", mas a significação deve ser
cstabelecida separadamente em cada caso, não posso formar frases Além disso, há nomes próprios que têm significação mas nào
novas como "c" é vermelho e assim comunicar novos fatos, ou seja, designam objeto. Por exemplo, o atual rei da França, a atual ditadura
elaborar uma sentença em que se afirma que determinado predicado se argentina. Por isso, a significação de um nome próprio não pode ser
aplica a determinado objeto. Ora, uma linguagem em que não é pos- identificada com o objeto por ele designado. Daí a necessidade de
sível comunicar fatos novos é imprestável, então praticamente somos distinguir entre a significação de um nome próprio e sua referên-
obrigados a pensar na significação dos predicados. cia, isto é, o objeto por ele designado. Podemos, então, ter nomes
próprios:
Porque o nominalista também não reconhece sentenças, então,
também, não se pode determinar a função dos predicados a partir das l) sem significação e sem referência;
sentenças. Para o nominalista, a única função semântica das sentenças 2) com significação e sem referência;
é serem verdadeiras ou falsas. Nesse sentido, o nominalismo não pode 3) com significação e com reÍ'erência.
oferecer alternativa para a teoria realista da significação' Em inglês se distingue meaning e reference (Stuart Mill distin-
Outra objeção de maior peso é a seguinte: normalmente, entende- guia entre "connotation" e "denotation", Frege vai distinguir "Sinn" e
-se como significação de uma expressão lingüística algo dado a partir "Bedeutung")e.
da compreensão da linguagem, independentemente dos dados empíricos; No caso do Predicado, podemos ainda identificar sua significa-
assim, a questão da sinonímia de dois nomes próprios deve ser resol- ção com o conceito que ele representa. Não há dois predicados que
vida à base unicamente dos conhecimentos lingüísticos. Quando, po- representam o meslno conceito e que pudéssemos considerar tendo
rém, se identifica a significação de um nome próprio com o objeto por significação (no sentido usual) diferente. Conceitos não estão no mundo
ele designado, a pergunta de se as expressões "estrela matutina" e como os objetos, por isso a pergunta de se existe determinado conceito
"estrela vespertina" são sinônimas só pode ser resolvida empiricamen- não é uma pergunta empírica, mas lógica. Diz-se, portanto, que a
te, ou seja, sua sinonimidade só é resolvível à base de pesquisas as- significação de predicados são conceitos. Em primeiro lugar, os
tronômicas, que determinam ser o planeta Vênus essa estrela que bri- predicados não possuem referência e não é necessário construí-la. Por
lha de manhã e de noiteS. razões de simetria, pode-se dizer que um predicado designa a classe
daquelas coisas snbsumidas sob o conceito que o predicado expressa.
Têm significação diÍ'erente as frases: "estrela da manhã é idêntica
Como é essa classe é uma pergunta empírica, como também a pergun-
à estrela da manhã" e "a estrela da manhã é idêntica à estrela vesper-
ta de se dois predicados designam a mesma classe.
tina", já que, de acordo com a semântica realista, a signiÍicação de
urna frase só depencle da significação de suas palavras e de seu arranjo Ncr caso das senÍenç:cts. sua significação é a propctsiç'ãn. Corno os
na frase, e as frases só se diferenciam por meio das expressões "estrela conceitos, as proposições nãio são realidades empíricas, mas lógicas. A

7. F. v. Kutschera, op. cit., pp. 43-44' 9. Para Fl v. Kutschera, a diÍ'erença cntre "significação" c "reÍtrôncia" e tào
8. O cxemplo vcm dc Frege enl: Übr'r Sinn und Bedetúurtg, in: G' C rege. antiga quanto a própria semântica, o qric ele tentâ mostrâr por n'rcio dc rcÍ'erências à
F-tmktiut, Begriff, Betleutung, ed. pol G. Patzig,4" ed., Gôttingen, 1975, pp 40-65. fikrsoÍia dos glcgos. Cf. Fl v. Kirtschera, op. cit.. p. 45, nota 32.

54 s5
A semântica tradicionaL

reÍ'erência da sentença é seu valor de verdade. Se uma sentença é


vercladcira ou não, isso é uma questão empírica que não pode ser
respondida quando temos apenas a significação de uma frase.

A semântica de Frege

f, riedrich Ludwig Gottlob Frege nasceu no dia 8 de novembro de


I' tg+8, em Wismarl, Alemanha. Estudou matemática, física, quími-
ca e filosofia primeiramente na Universidade de Jena, depois em
Gôttingen, considerada, no tempo, o centro mundial da geometria,
onde se doutorou em filosofia. Mais tarde foi professor de matemática
em Jena. Embora Frege esteja hoje na origem de todo o movimento
renovador da lógica2, durante seu tempo ele foi praticamente desco-
nhecido, podendo-se considerar sua atividade acadêmica propriamente
como um fracasso. Carnap, um dos grandes lógicos de nosso tempo,
foi seu aluno e relata3 como, com mais dois outros alunos somente.

l. Para uma biografia sobre a obra de Frege, cf. T. Bynum (org.) G. Frege,
Conceptual Notation, Oxford, 1972.
2. Frege é hoje considerado o pai de todas as direções da filosofia analítica.
Assim, por exemplo, por Dummett: ... "the father of 'linguistic philosophy', where
this phrase is to be taken... as denoting all philosophy which sees the key to the
analysis of concepts as consisting in the study of the means of their expression", in:
M. Dummett, Frege: PhiLosophy oJ Language, Londres, 1973,p.683. Cf., do mesmo
auÍor'. The InÍerpretation of Frege's Philosophy, Londres, 198 l, sobretudo cap. 3. M.
Dummett é de opinião de que a Íamosa linguistic Íurn, característica da Íllosofia
contemporânea, já se realizou de fato, embora sem uma consideração cxplícita, na
Grundlogen der Aritmetik que Frege publicou em 1884: M. Dummctt, {_/rsprünge tler
analyÍíschen Phib"^ophie, trad. de J. Schulte, FrankÍurt arn Main, l9ii8, pp. l2ss.
3. Em sua autobiografia publicada em: P. A. Schlipp (ed.), The philosophy of
Rudolf Carnap, vol. XI da "Library of Living Philosophers". Londres, 1963, pp. 3-84.

56 57
r A semântica de
A semântica tradicional Frege

estavl prcscntc às suas aulas, onde Frege apresentava, totalmente in- Essa intensificação no rigor consistiria em que os próprios prin-
diltrcntc a seus alunos, suas descobertas a respeito dos problemas cípios lógicos, utilizados nas provas da aritmética, deveriam ser clara-
Í'rrndanrcntais que constituíram a paixão de sua vida: problemas da mente considerados e provados. Nessa tentativa, Frege achou a lingua-
lógica e dos fundamentos da matemática. Ele mesmo teve de custear gem natural incapaz de exprimir as estruturas lógicas com a precisão
a publicação de seus livros e mesmo assim não encontrou leitoresa. As necessária. Por isso ele tentou construir uma linguagem artificiall na
preocupações filosóficas que marcaram seu tempo eram totalmente qual, com poucos símbolos, fosse possível exprimir com exatidão todas
diversas das suas. O que Frege, naquele tempo, considerava tarefa as formas lingüísticas. Essa tentativa pode ser considerada um primei-

Í'undamental da filosofia é, precisamente, aquilo que hoje, para muitos ro modelo ou exemplo da linguagem sonhada por Leibniz ("charac-
pensadores, é visto como tal. Eis por que sua influência começou teristica universalis"), que seria o fio condutor de todo e qualquer
muito recentemente. Ele morreu em 1925 e só pelos anos 50 surgiu pensamento, porque tm instrumenlo preciso paÍa o conírole da estru-
grande interesse poI suas obras, tendo sido elas republicadas e traduzidas tura lógica dos argumentos usados pelo pensamento humanoS. Ora,
em várias línguas. Seus méritos podem ser discutidos, porém uma não resta dúvida que tal instrumento é de suma importância, conside-
coisa é vista com clareza'. ele levou tremendamente a sério a respon-
notas de P. Alcoforado. São Paulo, 1978, pp. 13-14. Desse modo, apenas com 26 anos
sabilidade própria do discurso científico. Daí sua busca incessante dos
Frege já se encontrava penetrado pela atitude que caracterizará toda sua ativiclade
fundamentos, pois, para ele, o discurso científico deve ser um discurso intelectual: a busca de elementos Írltimos e dos modos pelos quais se inter-relacionam,
responsável. a fim de originar os diversos sistemas ou cálculos da matemática. Essa orientação
primordial explicaria seu desinteresse pela pesquisa em matemática enquanto tal, e
Frege hoje é tido como aquele que refez ou procurou rcfazet o mesmo, arriscaria dizer, seu interesse pela lógica apenas enquanto inslrumento indis-
diálogo tradicional no Ocidente (que remonta a Platão) entre filosoÍla pensável para seus propósitos de lundamentar a aritrnética. com isso não se quer tlizer
e matemática nos tempos modernos; depois de haverem sido matemá- que a contribuição de Frege seja pequena, ou irrelevante. Pelo contrário. O que que-
remos dizer é que, ao que tudo indica, a imcnsa contribuição de Frege à lógicu teria
ticos também os grandes pensadores dessa época como Descartes, sua explicação no fnto de ele a entcnder como ponto de partida iniludível de toda
Pascal e Leibniz, começou-se a considerar a matemática, que então se construção matemática.
havia torna<lo instrumento do conhecimento das ciências naturais, tam- 7. Isso já em 1879, no Begriffsschri.fi, que foi republicado em 1964. Cf.
bém como uma ciência natural, enquanto a filosofia, afastada da ma- G. Frege, Begri.ffsschriJ't untl andere Au.fstiÍze, ed. por I. Angelelli, Darmstdadt,
1964.
temática, procurava uma aproximação às ciências históricas5. O pen-
8. Pode-se considerar a articulação dessa linguagem como o ato de funda-
samento de Frege já surgia, por assim dizer, fora do tempo. pois o que ção da lógica formal contemporânea. AIiás, foi a criação dessa linguagem arri-
preocupava era, precisamente, a conexão entre matemática e filosofia. ficial que tornou possível explicitar com clareza as estruturas da sentença con-
Ele partiu da tentativa de submeter os raciocínios usados na constru- sideradas logicamente relevantes pela tradição e, por outro lado, permitiu a Fre-
ge vincular e tratar conjr"rntamentc a Iógica das sentenças (lógica dos conectivos)
ção dar aritmética a uma prova mais severa do que o célebre rigor de que provérn do cstoicismo com a lógica dos predicados (lógica dos
Euclides6. quantificadores) proveniente de Aristótelcs. Cf. U. Hoche/W. Strube. Analv-tisr:he
Philosophie, Friburgo/Munique, 198-5, p. .12. R. SternÍêld. Frege's Logical 'l'heorv-,
21. Cf., a respeito destas questõcs: G. Patzig, "Gottlob Frege uncl dic logische lllinois, 1966. Ch. Thiel, ,§inn untl Bedeuturtg in der l,ogik Gottlob F'rtqct,
Analyse der Sprache", in Sprache und Logik, Gtittingen' 1970. pp. 77ss. Neisenheim, 1967 . l. Largeault, Logique et Philosophie che:. Frege, Paris, 1 970.
5. Cf. M. Tríncl'rero, kr.filosrlio tlelL'urilmetictr di GrÍtloh l-rege.Twim. 1967 ' J. r,an HeijenoorÍ, From l'rege to Gtidel,Harvarcl, 1967. Ch. Thicl, "F-rege: Die
6. A pre,ocupaçãro lundamental de Frcge era, descle o início, explicitar os coll- Abstrak(ion", in (irundprobLeme der gro.\,t?.n Philosophen, Philo.sophie der
ceitos e os pre ssupostos básicos da matemiitica, ou seja. esclarecer os Íundamentos da Gegenwart 1, cd. por J. Speck, Gõttingen, 1972. pp.9-,14. tl. D. Sluga, "F'r.ege
maternática. Cl. a introclução de P. Alcotbrâdo à publicação ern português dc tcxtos trnd die Typcntheorie". in Logik untl Logikkulkíi|., ed. por M. Krisbar-rcr e F. v.
rlc Frege: G. Frege, 1848-t925. Ltigica Ling,uugr:rn, seleção, introduÇão, tradtrçào e Kutschera, Friburgo/N{uniquc, 1962, pp. 19.5-209.

58 59
r A sctnârtlittt tradicionul A semântica de l;rege

ran(lo-sc it cstrutura própria do discurso científico, isto é, a de ser um procura um esclarecimento e aprofundamento das conexões lógicas no
discurso rcsponsável, autocontrolável e em primeiro lugar, exatamen- campo da predicação elementar Suas distinções (características e
tc, crn sua estrutura lógicae. qualidades, conceitos de primeiro e segundo níveis, subsunção de um
objeto sob um conceito. subordinação de conceitos a outros conceitos
No tempo de Frege, não se tinha muita clareza acerca danafixeza
e subsunção de um conceito sob um conceito de segundo nível etc.)
própria da dimensão lógica do conhecimento humano e, sobretudo,
foram aquisições fundamentais para o esclarecimento da estrutura lógica
havia uma confusão muito difundida entre o lógico e o psicológico, o
de nosso pensamentor2. É dentro desse contexto que Frege elabora sua
que se denominou psicologismo em lógica. Na história de nosso pen-
semânticar3. Não escreveu muito sobre isto, mas o pouco que escreveu
samento contemporâneo, E. Husserl é apresentado como o pensador
que teve o grande mérito de atingir clareza nesse pontoro. No entanto, é de um rigor raro e, por isso, seus escritos são considerados por
a contraposição de Frege ao psicologismo é anterior a Husserl e, hoje, muitos os textos originantes da semântica atual. Apresentamos a se-
se pode saber da influência de Frege sobre o pensamento de Husserltl. mântica de Frege depois da de Husserl, pois ele, em alguns aspectos,
A psicologia preocupa-se com o que é subjetivo, isto é, com as repre- já começa a questionar a posição objetivista tradicionalra, enquanto
sentações ot idéias que surgem em nós por meio das recordações das Husserl foi talvez a última grande tentativa de resolver as aporias da
impressões sensíveis e atividades que produzem uma imagem interna. doutrina tradicional com seus próprios meios conceituais.
Essa imagem é, muitas vezes, perpassada de sentimentos e é, essen-
cialmente subjetiva, ou seja, a imagem de um não é imagem do outro' 12. Cf. G. Patzig, op. cit., p.8, nota 3. D. Follesdal, Husserl und Frege. Ein
Por isso a imagem se distingue essencialmente, por exemplo, do sen- Beitrag zur Beleuchtung der phtinomenologischen Philosophie, Oslo, 1958. Também
tido de um sinal que pode ser propriedade de muitos (objetivo)' A Bolzano distingue, como Frege, representações subjetivas e objetivas. Essa é tese
comum a Bolzano, Frege, Meinong e Husserl. Cf. B. Bolzano, Wissenschaftslehre
lógica se põe na dimensão da objetividade, enquanto a psicologia se (1837), vol. 1, §§ 48ss, in Grundlegung der Logik, ed. por F. Kambartel, Hamburgo,
dedica ao puramente subjetivo. É dentro dessa preocupação que Frege 2 ed., 1978, pp. 64ss. Frege se fez o pai da filosofia analítica, Husserl o da fenome-
nologia: duas correntes de pensamento que, muitas vezes, são diametralmente opostas.
Como é possível, pergunta-se Dummett, que de uma origem comum se articulem duas
9. Uma linguagem lógica artificial é necessária para Frege porque, de acordo
correntes de pensamento tão diferentes? A tese de Dummett é que Husserl universaliza
com a convicqão que exprime no Begrffischrift, é tarcfa da filosofia quebrar o domí-
nio da palavra sobre o espírito humano na medida em que ela descobre os erros sobre
o conceito de sentido e o conceito de referência até chegar a sua concepção de
"noema" e, por essa razão, torna-se impossível a reviravolta lingüística na tradição de
as relações <los conceitos que inevitavelmente SuÍgem por meio do uso da linguagem.
pensamento por ele fundada. Está, contudo, excluída em Frege a universalização do
No entanto, a linguagem natural permanece para ele um instrumento indispensável
sentido. Mesmo que em Frege o sentido não seja essencialmente dotado de uma
enquanto linguagem «Ie exposição. Ela é a linguagem em que se Íala sobre a lingua-
expressão lingüística, está contida nele a tendência à expressão na linguagem. Cf. M.
gem arlificial, que é uma linguagem de auxílio. com essa distinção, ele antecipa a que
Dummett, op. cit., p. 37.
vai ser depois elaborada por Tarski e Carnap entre linguagem de objeto e

ed. por H. Hermes, F. Kaulbach, 13. A honestidade intelectual dc Frege imprcssiona. Ele acreditava ter efetiva-
metalinguagem. cf. G. Frege, Nachgelassene schriften,
mente demonstrado, em seu segundo volume das Lcls .fúndamentais dtt aritmética,
Hamburgo, 1969, pp. 212-285.
que toda aritmética tem seu Íundamento na lógica. B. Russell, porém, escreve-lhe uma
10. Para Frege, o pensamento, enquanto conteúdo de um ato de pensar' não é
carta mostrando que sua posição implorava um paradoxo, conhecido posteriormente
um elemento da corrente da consciência, ele não pertence ao conteúdo da consciência
como "paradoxo de Russell". Frege reagiu com a mais proÍunda rnelancolia, mas nào
em contraposição a tudo aquilo que ele denomina "Iepresentação", isto é, sensação.
só deu a conhecer a objeção de Russell, que praticamente desmoronava seu sistema
imagens etc. O pensamento é objetivo, enquanto as repÍesentações não. Assim, o
de fundamento, como tentou, com todas as forças, uma solução para a questão. Cf.
pensamento pertence a todos, porque todos têm acesso a ele. Daí a dicotomia radical
as observações de P. Alcoforado, in op. cit., p. 21.
àntre o objetivo e o subjetivo: o pensamento pertence ao terceiro reino de entidades
14. Para Thiel é exatamente aqui que Frege ultrapassa propriamentc o horizonte
atemporais e imutáveis, cuja existência independe do fato de serem captadas e expres-
das questões puramente lógicas e se situa no plano da teoria do conhecimento, apesiu
sas. Cf. M. Dummett, op. cit., pp. 32ss.
Lttgisclrc lJntersuchungen, 2 vols., Halle, 1900-1901. de Frege ainda se achar na est'era da lógica. Cf. Ch. Thiel, op. cit., p. 85.
I l. Cl. E. Husserl.
60 6l
A semântica tradicional
t A scmântica dc litt,,!t

TEORIA DÁ SIGNIFICAÇAO i feita por meio de várias palavras ou ,urr's sinais. como ocorre a
conexão entre as três dimensões da linguitgcrrr'/ scgundo Frege, a
associação normal entre sinal, sentido e denotaçlxr sc lhz de modo que
a) Distinção entre denotação e senti.do ao sina[ corresponde um sentido determinado e a csrc llunbdm uma
denotação determinada. enquanto a uma denotação (a unr ob.jcto) não
Frege apresentou sua teoria da significação, sobretudo em dois pertence um único sinal. o mesmo sentido possui, nas diÍ'ercntes lín-
artigos publicados em 1892 com os títulos: "Sobre sentido e denota- guas, até numa única língua, diferentes expressões. Numa linguagcm
ção" e "Sobre conceito e objeto"rs. logicamente exata, a cada sinal corresponde um sentido determinado,
o conteúdo desses dois trabalhos. Frege, o que nem sempre ocoÍTe na linguagem comum.
Tentaremos apresentar
dentro da perspectiva tradicional, parte da afirmação de que nomes Dentro dessa distinção apresentada, torna-se compreensível que
próprios significam objetos. No entanto, ele se choca com uma difi- expressões lingüísticas possam ter um sentido sem que por isso já
culdade: a substituição de nomes próprios por outros de igual sigrifi- possuam uma denotação. A denotação de um nome próprio é o próprio
cação pode mudar a significação de uma frase, Daqui conclui Frege objetot* que designamos com ele (a denotação das palavras é aquilo
que o nome próprio tem duas funções semânticas: eles denotam tm sobre o que falamos)le. Podemos ter também uma representação mista,
objeto e exprimem tm sentido. Essa distinção fundamental entre sen- uma idéia, uma imagem, totalmente subjetiva2,. Entre as duas está o
tido e deruttaçãa constitui o cerne da semântica de Frege. Todo nome sentido, que não é mais subjetivo como a idéia, mas também ainda não
designa algo16 e, além disso, possui um sentido. A linguagem humana é o próprio objeto. É importantíssimo saber distinguir claramente entre
possui três dimensões: a dimensão signativa (expressão lingüística, idéia, denotação e sentido. Sentido é, pois, a maneira, o modo como
sinais lingüísticos), a dimensão objetiva (o objeto designado) e a di- o objeto designado é dado por meio do nome.
mensão significativa (a dimensão do sentido). Que é, então, sentido Possui todo nome um sentido perfeitamente determinado? Frege
em sua distinção para denotação? O sentido é a maneira como se reconhece que na linguagem comum isso nem sempre ocoÍre, mas tais
manifesta o objeto'7. Por exemplo, na expressão "estrela da manhã", casos devem ser excluídos de uma linguagem precisa, apesar de ele
o planeta Vênus nos é manifestado de um modo diferente do que
quando dizemos "estrela vespertina". Há aqui ;u,ma identidade de ob-
18. Cf. G. Frege, über Sinn untl Betleutung, in op. cit., p.4l; Sobre o sentido
jeto (daí a mesma denotação) e uma diversidade de manifestação (daí e o referência, in op. cit., p.62: "É, pois, plausível pensar que exista, unido a um sinal
a diversidade de sentido). A denotação de lm mesmo objeto pode ser (nome combinação de palavras, letra), arém daquilo por ele designado, que pode
ser
chamado de sua referência, ainda o que eu gostaria de chamar de o sentido do sinal,
onde está contido o modo de apresentação do objeto".
15. Embora se possa dizer com Dummett que em sua teoria do sentido e da
referência ele deixou intocada a questão do caráter social da linguagem. Cf. M.
19. Pode aconteceÍ que se queira falar das próprias palavras ou de seu sentido,
por exemplo, quando se citam as palavras de alguém. É esse o caso que Frege deno-
Dummett, op. ctt., p. 22.
1 6. Agora publicados em: G. Frege, Funktion, Begrffi Bedeutung'
Fünf Logische mina a fala direta. Aqui as palavras próprias denotam primeiramente as palávras do
Studien,4" ed., publicação e introdução de G. Patizig, Gôttingen, l9'75' A ediçào em
outro e somente estas possuem a reÍêrência usual. cf. G. Frege, über sinn und
Bedeutung, op. cit., p.43. Lógica e Jilosofia da linguagem, op. cit., p. 64.
língua portuguesa: G. Frege, Lógica e filosofia da lingutgem, op' cit'
17. Kutschera critica Frege por tel expresso com a palavra Bedeutung a relação
20. Duas coisas devem ser consideradas: em primeiro lugar, não se diz com isso
que, na linguagem comum e na linguagem científica, a referência intencionada pelo
das Íbrmações lingüísticas com o objeto designado, porque, segundo ele, a palavra
nome, de fato, esteja sempre presente. Em segundo lugar, mesmo que seja o caso, o
Betleutung exprime, no conhecimento usual, uma realidade imanente à linguagem,
cuja existência e configuração são independentes de realidades extralingüísticas. cf'
sentido nunca conduzirá ao conhecimento pleno da referência. A respeito de que isso
nada tem a ver com ceticismo, mas expressa simplesmente a abefiura de todo conheci-
F. v. Kutschera, "Die Semantik Freges", in: Sprachphilosophie,2'ed , Munique, 1975'
mento humano, o que é manifestação de sua finitude. Cf. Ch. Thiel, op. cit., pp. g6_g7.
p. 57.

62 63
I A semântica tradicional A semântica de Frege

reconhcccr quc há nomes que têm sentido mas não têm denotação. faz o passo do nível do sentido para o da denotação22. Se, pois, o valor
que
Tais nomcs devem ser evitados em frases científicas, pois as frases da verdade de uma frase é sua denotação, todas as frases verdadeiras
os contêm não são nem verdadeiras nem falsas. Nesse contexto é possuem a mesma denotação, como aliás, também, as falsas, e, assim,
importante lembrar que, para Frege, lugares, determinações temporais na denotação de uma frase desaparece o singular23. um conhecimento
e espaciais logicamente consideradas são objetos e, portanto, designá- pleno só se atinge, pois, quando temos os dois: tanto o sentido (o
veis por meio de nomes PróPrios. pensamento, o conteúdo proposicional) como a denotação (o valor de
verdade). ojuízo deve ser concebido como a passagem do pensamen-
Em analogia com os nomes próprios, Frege admite para as frases to ao valor de verdade. contudo, como no caso dos nomes próprios,
uma dupla função semântica, isto é, também as frases têm denotação é possível haver frases com sentido, porém sem clenotação, isto é, que
e sentido. Toda frase contém um pensamento, isto é, a proposição' o não são nem verdadeiras, nem falsas. Tâis frases, assim como no caso
conteúdo ou, como se diz hoje, o conteúdo proposicional2l ' Entáo dos nomes, devem ser excluídas das ciências2a. Tugendhat25 argumen-
surge a pergunta: a proposição é a denotação ou o sentido da
frase?
ta que Frege usa a palavra "objeto", nesse contexto, certamente num
BeÃ, se uma frase tem uma denotação, então esta não pode ser mu- sentido diferente do usual, pois, se ele a toma no sentido comum,
dada quando na frase substituímos um nome por um outro que tem
a
"estrela da manhã então dizer que o objeto de uma fiase é seu valor de verdade significa
*"r*à denotação, embora sentido diverso. Assim, a
não responder à pergunta pelo objeto de uma frase, embora sua des-
é um cotpo iluminado pelo sol". O pensamento (a proposição) se coberta possa ter, em outro sentido, grande valor. parece, contudo, que
muda, quando é mudado o sentido de expressões que são partes da
o princípio de substituição2,. deconente dessa distinção entre denota-
sentença, enquanto a denotação permanece a mesma' A denotação
de
da denotação dos nomes ção e sentido, não é assim tão universal quanto parece à primeira vista,
uma fiase depende, portanto, unicamente'
pois há contextos em que sua aplicação conduz a mudanças no valor
próprios nela contidos e não de seu sentido' Daí por que o pensamento
,ao poO" ser a denotação de uma frase, mas é seu sentido' A propo-
22. Cf., a respeito: E. Tugendhat, hrlesungen z.ur Einführung in tlíe
siçãó ou, como diz Frege, o pensamento é o sentido de uma frase' p rac httnalytis che Philosop hle, Frankfurt am
.s
Main. I 976.
O que é a denotação de uma frase? É' aquilo que permanece 23. Essa tese de Frege não deixa de teÍ sua problemática (o bizarro dessa
posição para a consciência comum aparece quando se leva em consideração a tlou-
quando fàzemos substituições transformadoras do sentido. Já que Fre- trina de Frege da diferença entre função e objeto. Muito cedo, Russell manif'estou
ge entende a denotação como a relação a um objeto, então o que suas objeções. cf. B. Russell, "The Logical and Arithmetical Doctrines of Frege',,
permanece nesse caso é, pata usar uma expressão sua, o valor de Apêndice A, in'. The Principles of Mathematics, Loncrres, 1903,2". ed., 1937, pp.
verdade. É, co-o ele diz, a busca da verdade que nos faz passar
do 475-496, 5ol-522). sobretudo quando se trata da questão das frases subordinadas.
sentido para a denotação da frase. O valor de verdade de uma frase pode-se levantar a suposição se nelas não ocorre também a exceção que acontece
na
fala imediata, ou seja, que referência e valor de verdacle de uma sentença nào
é a circunstância de que ela é verdadeira ou falsa. Toda frase é, por- coincidem. A respeito de uma consideração crítica dessa tese de Frege, cf. Ch. Thiel,
que'
tanto, análoga a um nome próprio, isto é, denota um objeto' Só op. cit., pp.9l-103 e E. Tugendhar, op. cit., pp.66ss.
aqui, há up"rut dois objetos: o verdadeiro e o falso' Em cadajuízo se
24. A respeito das principais objeções à teoria semântica de Frege, cf. ch. Thiel,
op. cit., pp. 104-120. A respeito da crítica fundamental elaborada por R. carnap, cÍ.
2l.Frege<Iistinguecomclareza,comovimos,osentidonãosódareferência,
R. Carnap, Meaning and Necessiü, 2 ed., Chicago, 1956. E a de W. V.
euine,
intersubjetivo e "ReÍ'erence and Modality", in: From a Logical point oJ' view* Logit:o-phikt,sophical
mas também da "representação", pois o sentido é algo conceitual,
são de ordem subjetiva' Cf' G' Frege' Uber Sinn Essays, 2" ed., Cambridge, 1961.
objetivo, enquanto as representações
uid Bedeutung, op., cit. p. 44; Sobre o sentido e a referência' op' cit'' p' 65: a 25. A respeito de uma análise lógica em Frege dos juízos de existência e da
a mesma de outro' prova ontológica da existência de Deus, cf. H.-u. Hoche/w. strube. Analytische
representação é sújetiva: a representação de um homem não é
representações associadas ao mesmo Philosophie. Frihurgo/Munique. I985. pp. 49ss.
Dis.o r".ult, urna variedade 6e difcrenças nas
26. Cf. E. Tugendhat, op. cit., pp. l48ss., sobretudo 152.
sentido.

64 65
r A semântíca tradicional
\
tl

de verdade, ou seja, na denotação de uma frase. É o próprio Frege, em . O irmão de Pedro; Carolina é um cavalo.
primeiro lugar, que apresenta essas objeções, como também, por exem-
As expressões incompletas são denominadas por Frege expres-
plo, Russell e Quine27. Tomemos o exemplo apresentado por Russell:
"Jorge IV queria saber se Scott é o autor de Waverly". Ora, aplicando-
sões funcionais. Predicados como é um cavalo são expressões funcionais,
no caso, precisamente, daquelas que, completadas, levam a uma frase.
-se o princípio de substituição de Frege, então a frase se torna: "Jorge
Ora, segundo Frege, as expressões funcionais também denotam algo,
IV queria saber se Scott é Scott". Para Frege, em todos esses contextos isto é, uma função2e, e quando essa expressão funcional é um predicado
nos quais não é possível substituir expressões por outras de denotação
Frege denomina a função de conceito.
semelhante sem alterar o valor de verdade (ele cita, sobretudo, contextos
indiretos e oblíquos), a denotação de uma expressão é seu sentido. De Por meio disso, manifesta-se que Frege pensa também o predicado
fato, por exemplo, quando no discurso indireto dizemos "João disse que numa perspectiva objetivista30: ele também representa algo, só que,
encontrou Margarida", falamos sobre o corÍeúdo da frase de João sem neste caso, não é um objeto, mas um conceito. E é isso que especifica
assumi-la. Nós não falamos do caso de João e Margarida, como por o predicado, pois o conceito é, essencialmente, predicativo. euando se
exemplo na frase "João viu Margarida", mas falamos do sentido de uma pretende, porém, dizer alguma coisa sobre um conceito, então se deve
frase que somente no discurso direto seria uma frase sobre João. Frege designar o conceito por meio de um nome. Ora, um nome denota um
efetua uma longa aniálise das frases subordinadas, para mostrar, a partir objeto; portanto, quando se quer dizer algo sobre um conceito, então
do que foi exposto acima, como precisamente essas execuções confirmam se deve, em primeiro lugar, objetivá-lo. Agora, Frege cai em dificuldades
sua regra. por denominar esse novo objeto conceito, quando ele não deve ser con-
ceito, já que é objeto. Daí a célebre formulação: "O conceito cavalo não
é conceito"3l. No entanto, ele distingue radicalmente conceito e objeto.
b) Teoria dos predicados Conceito é a denotação de um predicado; objeto é o que nunca
pode ser a denotação total de um predicado, mas sim a denotação de
Frege distingue duas espécies de expressões: completas e incom-
um sujeito. Em todo caso, temos de reconhecer que Frege, com sua
pletas2S. Expressões completas são:
teoria do predicado, deu um passo muito importante na preparação da
a) Nomes (termos singulares); filosofia lingüística de hoje32.
b) Frases.
Denoting Mind 14 (1905), pp.479-493, publicado in: H. Feigl/W. Sellars (eds.),
Ambas denotam objetos, embora o objeto da frase, como vimos,
Readings in Phi.bsophicol Analysis, Nova York, 1949. W. V. euine, ,,Reference and
seja algo de especial, pois se trata de um valor de verdade. Expressões Modality", in op. cit., pp. 139-159.
incompletas são as que possuem um ou vários ponlos vazios e, en- 29. Cf. G. Frege, "Über Begriff und Gegensrand',, in: Funktion, Begrtff,
quanto tal, são carentes de complementação. Exemplos: Bedeutung, op. cit., pp. 67ss.; "Sobre o Conceito e o Objeto,,, in Lógica e filosoJia
da linguagem, op. cit., pp. 90ss.
. O irmão de ( ); ( ) é um cavalo. Estas podem ser completadas por 30. Sobre esse conceito, cf. G. Frege, "Funktion und BegrifÍ'' e ..Was isr eine
um nome, então temos, novamente, expressões completas, isto é, Funktion", in: Funktion, BegnJf, Bedeutung, op. cit., pp. l7-39, 8l-90; ..Funçào e
Conceito" e "Que é uma função", in Lógica e filosofia do linl4uagem, op. cit., pp. 33-
nomes ou frases.
-57,1t7-129.
31. Essa concepção é a concepção tradicional que tarnbórn ainda é aceita por
27. Cf., a respeito, as considerações de F. v. Kutschera, in op. cit., p. 60. Husserl. CÍ-. E. Tugenclhat, op. cit., pp. l34ss.
28. O próprio Frege e depois Russell e Quine mostram que há contextos em que 32. Cf. G. Frege, "Üher Bcgrilf untl Cegcnsrancl", op. cit., p. 7l; ..Sobre o
a substituição de expressões cotn a mesma referência muda não só o sentido, mas Conceito e o Objeto", op. cit., p.93. Cf. a crírica de J. R. Searle, Sprecftakte. Ein
também o valor de verdade, isto é, a referência de uma frase. Cf. B. Russell, On sprachphiktsophischer E.rsar,, FrankÍurt arn Main, 1977, pp. 150ss.

66 67
í- A semântica de Frege
A semântica tradicional

O lirrrtllrrcttto de toda essa teoria é a afitmaçáo de que o predicado designado é sua denotação. O conceito é a denotação de um predicado.
é urrur cxprcssão carente de complementação, isto é, um termo com- Para Frege um conceito é um critério por meio do qual podemos
plcrncntar, essencialmente apenas uma parte de uma frase33. Ele está distinguir os objetos em: aqueles que estão sob ele e os que não estão.
aqui sirnplesmente rompendo com a concepção tradicional ainda acei- Um conceito é, pois, um critério de classificação e de diferenciação
ta por Husserl, segundo a qual uma frase predicativa singular se com- dos objetos. Esta relação "estar um objeto sob um conceito" é o que
põe de sujeito, cópula e predicado, em que o predicado, assim como Frege denomina a relação lógica fundamental3a. O que significa isso
o sujeito, é uma unidade independente, e ambos denotam objetos' realmente? Frege não explica, pois o considera questões de teoria do
havendo, entre eles, um elemento de ligação, que é precisamente a conhecimento que não pertencem à lógica.
cópula, a síntese entre dois objetos. Para Frege não há cópula, porque
o que se chamava cópula é, para ele simplesmente uma parte do
predicado. Para mostrar isso, Frege distingue duas espécies de frases:

1. Esta folha é verde. A cópula é simplesmente supérflua, já que


não exerce um papel independente na frase, podendo essa frase
ser transformada em: "esta folha verdeja". É dito, aqui, que há
uma subsunção de algo sob um conceito e o predicado denota,
precisamente, esse conceito. A cópula não tem, pois, lugar.
2. A estrela da manhã é Vênus. Nesta frase, a cópula é uma parte
essencial do predicado. Ele compara o é desta fiase ao sinal de
igualdade em aritmética. Nesta frase temos dois nomes próprios
para o mesmo objeto. Ele interpreta o "é" do seguinte modo: a
estrela da manhã "é nada mais nada menos do que Vênus", sendo
o "é" visto como parte essencial do predicado. Essas palavras
denotam um conceito sob o qual está apenas um único objeto.
Para Frege, portanto, não existe cópula. Mas ele também, como
se viu, não aceita a doutrina tradicional de que o predicado de-
nota um objeto.
É interessante notar que o que ele diz do predicado diz também
do conceito por ele denotado. Que o conceito seja essencialmente
predicativo significa que ele é essencialmente carente de complemen-
tação e, por isso, não é um objeto. Contudo, Frege permanece, de
certo modo, ligado à tradição, pois, para ele, também o predicado
representa algo, ainda que esse algo não seja objeto. Por isso a própria
terminologia permanece: aquilo que é designado pelo nome é sua
denotação; do mesmo modo, no caso do predicado, o que é por ele
34. Cf. G. Frege, Nachgelassene Schriften, ed. por H Hermes, F. Kambartel/F.
Kaulbach, Hamburgo, 1969, p. 128.
33. Cf. E. Tugendhat, op. cit., pp. 191ss

()ó 69
Semântica de Rudolf Carnap

,.t i

a) Introdução
\\

T) Carnap nasceu em 1891 em Ronsdorf, tendo estudado matemá-


I(. . tica, f?sica e filosofia em Freiburg e Jena. Foi professor em
Viena, Praga, Chicagor e Los Angeles, tendo morrido em 1970. Nos
anos 30, Carnap tornou-se um grande líder da assim chamada filosofia
analítica, cargo exercido nas décadas anteriores por Bertrand Russell2.
Depois de Frege e Russell, Carnap foi, sem dúvida, o grande teórico
da ciência de nosso século. No entanto, seus interesses lógicos eram
também epistemológicos; isto é, em vez de se limitar à própria elabo-
ração da lógica e à busca dos fundamentos da matemática, como poÍ
exemplo foi o caso de Frege, Carnap perseguia o ideal de fazer fruti-
ficar a nova lógica para toda a filosofia, levando, com isso, adiante o
ideal da exatidão e precisão do saber filosófico já, de certo modo,
presente no pensamento de Frege, isto é, o grau de precisão e exatidão

1. Cf. R. Carnap, "Intelectual Autobiography", in: P. A. Schlipp, The Philosophy


of Rudolf Carnap. The Library of Living Philosophers. I'a Salle, III: Open Court,
Londres, 1963, pp. 1-84. L. Krauth, Die Philosophie Carnaps, Viena./Nova York,
t970.
2. Pode-se afirmar que sua maneira de pensar é típica da forma de empirismo
que se desenvolveu em nosso século, de modo que contatar Carnap é familiarizar-se
com a problemática de uma das principais correntes do pensamento contemporâneo.

7t
r- A sL rrtit tr l iL tt t radicio na l Semantica de Rudolf Carnap

tkrs t'st'r'ilos likrsriÍicos não deve ser inferior aos da matemática3. Nesse Já em sua primeira grande obra Á construÇão lógica do mundol ,
scrrlirkr, ('rrlrurp lili pioneiro em muitas direções de pesquisa, por Carnap tornou realidade um velho desejo dos filósofos empiristasS:
cxcrrrplo os problemas do programa empirista4, a sintaxe lógica, a construiu um sistema conceitual, no qual todos os conceitos empíricos
scrruirrlica intensional e extensional, a estrutura de uma linguagem foram reduzidos a um único conceito fundamentale, o que pressupõe
ltlccluada das ciências naturaiss, a teoria da probabilidade indutiva etc. uma enorme capacidade de manuseio das técnicas da lógica contem-
Irlc nunca foi um homem de teorias prontas: estava sempre disposto porânearo. No entanto, pouco tempo após a publicação da obra, ele já
a repensar suas próprias descobertas, isto é, seu maior crítico foi abandonava seu projetoll por duas razóest2 primeiro reconheceu que
sempre ele mesmo. Nunca se identificou plenamente com suas própri-
as teorias. Suas obras, contudo, apresentam sempre um grau de com-
7. R. Carnap, Der Logische Auftau der Welt,4' ed., Hamburgo, 1974.
plicação e dificuldade muito grande e talvez aqui resida a razáo por 8. Da afirmação básica de que a única fonte de nosso saber é o imediatamente
que ele, apesar de ser intelectualmente um dos corifeus da filosofia dado na percepção sensível, segue-se a exigência de conduzir todos os conceitos
analítica6, é muito menos conhecido do que por exemplo, Wittgenstein científicos a esses dados básicos, que constituem o fundamento de nosso conheci-
ou Popper. mento.
9. Interessante é que, para Carnap, sob a influência da psicologia gestaltista, a
experiência mais fundamental é a experiência de uma totalidade: percepções, pensa-
3. Na mentalidade reinante no tempo, a filosofia se encontrava em situação de mentos, desejos, sentimentos constituem, em sua imbricação mútua, uma unidade
inferioridade em relação à matemática e às ciências naturais. Ela não dava sinais de fechada, a "vivência elementar" na expressão de Carnap. As diversas vivências ele-
se ligar a uma argumentação racional. A única saída possível para a reabilitação da mentaÍes constituem uma corente de vivências, que para ele constitui o elemento
filosofia parece ser efetivar-se como uma atividade rigorosamente científica, isto é, primeiro de todo conhecimento.
levando a sério os padrões vigentes de compreensibilidade, fundamentação e controle 10. Carnap denomina "constituição de um conceito" a apresentação de uma
intersubjetivo. Por isso, tinha-se de recusar a forma tradicional de fazer filosofia: comente de definições que só emprega conceitos que se relacionam com o "dado". Na
metafísica se torna uma palavra inaudível. Cf. E. v. Savigny, Analytische Philosophie, base de tais construções, deveria ser possível verificar ou falsificar todas as sentenças
Friburgo/Munique, 1910, p. 41 . científicas por meio dos dados imediatos da experiência. A pretensão de Carnap é
4. O empirismo parte da afirmação básica de que todo saber começa na expe- construir um "sistema de constituição" que seja uma construção racional objetiva da
riência sensível e, nesse sentido, como diz Savigny, é positivista, já que para o totalidade da construção da realidade intuitivamente dada no conhecimento. Uma
positivismo todo saber começa com o dado faticamente nos fenômenos da percepção pergunta fundamental nesse contexto é a pergunta sobre os objetos que constituem a
imediata, impressões, representações etc. No entanto, o positivismo empirista é fisicalista base do sistema. Cf. E. Albrecht, Sprachphilosophíe,Ber1im,l991, p.95.
por tornaÍ o mundo dos corpos a base de nossa experiência. Cf. E. v. Savigny, op. cit., 11. O estabelecimento de tal sistema levanta, pelo menos, quatro problemas: 1)
pp. 48ss. W. Stegmüller, "O modemo empirismo: Rudolf Carnap e o Círculo de A base: trata-se da escolha de um ponto de partida que é fundamento de todas as
Viena", in: A filosofia contemporânea 1, São Paulo, 1977, p.214:'As correntes demais formas; 2) As formas dos degraus, onde se consideram as formas recoÍrentes
empiristas ocupam um lugar especial na filosofia contemporânea. O que as relaciona nas quais se faz a passagem de um grau para outro; 3) As formas dos objetos onde
entre si não é um determinado conteúdo doutrinário, mas sim a recusa de todo e se vai considerar a questão da constituição dos objetos; 4) Por fim, a questão da forma
qualquer tipo de metafísica. Nesse contexto, a expressão 'metafísica'deve ser enten- giobal do sistema. Ct'. E. Albrecht, op. cit., p. 95. Para uma crítica da posição de
dida num sentido muito amplo, significando não apenas uma doutrina dos objetos Carnap nesta época, cf. V. Kraft, DerWiener Kreis, Der Ursprung des Neopositivismus,
supra-sensíveis, mas toda filosofia que pretenda, aprioristicamente, fazer afirmações 2u ed., Viena-Nova York, 1968, pp. 94ss. F. Kambartel, Erfahrung und Struktur,
sobre a realidade ou estabelecer norÍnas. Se quiséssemos resumir numa sentença a Bausteiene zu einer Kritik des Empirismus und Formalismus. "Thenrie 2", Frankfurt
convicção fundamental dos empiristas, poderíamos dizer o seguinte: é impossível am Main. 1979.
conhecer a constituição e as leis do mundo real por meio da pura reflexão e sem 12. A discussão do Círculo de Viena, depois da publicação do livro de Carnap,
qualquer controle empírico (sem observação)..." girou em torno da idéia de que o dado, de algum modo, tem de ser expresso, isto
5. Para Carnap, a principal tarefa da filosofia era, acima de tudo, projetar regras é, captado em signo cognoscível, de tal modo que eu possa ocupar-me com ele. E
utilizáveis e precisas para a linguagem das ciências empíricas. esse ponto de vista que vai deslocar a reflexão das vivências imediatas para as
6. A respeito das intenções fundamentais desse tipo de pensamento, cf. H.-U. reflexões lingüísticas, nas quais as vivências se manifestam. Cf. W. Stegmüller, op.
1 lrrche/W. Strube, Analytis che P hilo sopile, Friburgo/Munique, I 985. cit., pp. 305ss.

72 7)
A semânlica tradicional Semântica de RudoI Carnap

niio ri possívcl lirz.cr uma dedução definitória de uma classe de concer- princípio de tolerância'8. É neste livro que pela primeira vez se apre-
tos, islo ó, dos assim chamados conceitos disposicionais; em segundo senta: uma distinção, depois usualmente aceita, na teoria da ciência da

lugar. clc havia empregado nessa obra uma linguagem fenomenalístical3,


lógica, entre metalinguagem e linguagem objetal. Uma linguagem que
é objeto de uma pesquisa qualquer se chama linguagem objetal. A
como hoje se diz, isto é a expressão fenomenal dos dados da sensibi-
linguagem usada para tratar da linguagem objetal é precisamente a
lidade. Ora, ele reconheceu depois que só uma linguagem fisicalista (a
l4glAl1rrgyage_-m. Nas pesquisas lingüísticas empíricas, freqüentemente
linguagem relativa aos corpos) tem valor intersubjetivora. Em sua Sin-
essas linguagens são a mesma. Pode-se, por exemplo, em português
taxe lógica da linguagemts leva ao máximo a sério a reviravolta lin- escrever uma obra sobre a gramática portuguesa. No caso, porém, de
güística da filosofla. A tarefa da filosofia vai consistir na construção uma pesquisa lógica, a linguagem simbólica que constitui o objeto
de linguagens formais artificiaist6 com a finalidade de reconstruir e dessa pesquisa não existe ainda, mas é produzida artificialmente. Ora,
provar a consistência lógica das teorias das ciências particulares'7, nesse caso, é a linguagem comum que funciona como metalinguagem,
chegando à conclusão de que não existe a verdadeira linguagem cien- acrescida de alguns símbolos logicamente precisos. Na pesquisa sobre
tífica, mas inúmeros sistemas alternativos de tais linguagens, que podem os fundamentos da lógica e da matemática, uma divisão clara e precisa
ser objetos de nossa decisão. Foi a isso que se chamou, em lógica, o desses dois níveis da linguagem é de enorÍne importância para evitar
o que se convencionou chamar os paradoxos lógicosle. As linguagens
13. O problema de fundo é que Camap pretendia fundamentar o conhecimento
objetais constituem, portanto, linguagens artificiais, pois elas não exis-
nas "vivências". Ocorre que vivências são, em princípio, subjetivas e por isso inco- tem e são formuladas a partir de regras estabelecidas na metalinguagem.
municáveis. A pergunta inevitável é: como se pode, a partir dessa base, chegar a um Elas são formais, no sentido de que são "cálculos não interpretados".
sistema conceitual intersubjetivo, isto é, válido objetivamente, como é a pretensão da
ciência? Todo o sistema desenvolvido por Carnap, em nenhum momento, abandona a Essa consideração da linguagem como cálculos puros, Carnap a
base da corrente de vivências. o que conduz a um solipsismo insustentável para o faz a partir do conhecimento de que regras lógicas de inferência po-
conhecimento científico. Cf. L. Krauth, op. cit., pp. 13-14. dem ser compreendidas como puras regras sintáticas de transforma-
14. R. Carnap, l,ogische Syntax der Sprache,2" ed., Viena/Nova York, 1968.
ção, uma idéia, que até hoje tem influências na lingüística2o. Desde os
15. Carnap considera a necessidade de determinar as estruturas lógico-formais
da linguagem, suas vinculações lógicas internas e as regras a respeito da formação e
transformação de sentenças. Um sistema lingüístico conseguido de acordo com esses 18. O conteúdo designado por um signo ou uma sentença é objeto únrco e
pontos de vista é um "cálculo puro". A idéia de construção de cálculos formais se exclusivo das ciências empíricas. A filosofia tem a ver com a dimensão formal da
originou no campo da pesquisa dos fundamentos da matemática. Essa postura formalista linguagem. Por isso, para o Carnap de 1937, a maior parte dos problemas filosóficos
vem de D. Hilbert e seus discípulos. Foi ele que, em primeiro lugar, tentou, numa não passa de falsos problemas provenientes de Íbrmulações inadequadas dos verdadei-
metamatemática, construir a matemática como um sistema puro lógico-formal. Cf. W. ros problemas, que são os problemas da l(rgica da linguagem.
Stegmüller, op. cit., pp. 334ss., sobretudo 340-342. R. Carnap, Introduction to 19. Cf. W. Stegmüller, A Filosofia contemporânea 2, op. cit., pp. 10ss.
Symbolical Logic and its Applications, Nova York, 1958, pp. 42ss. 20. De acordo com a visão do velho e do novo empirismo. sentenças sintéticas
16. O cientista empírico estabelece sentenças com a pretensão de conhecer os só possuem um sentido quando sáo a posteriorl, isto é, quando o que dizem, de algum
fatos do mundo. A filosofia tem como tarefa testar a consistência lógica dessas sen- modo, pode ser fundamentado na experiência. Tâl princípio foi mais determinado por
tenças e assim se constitui instrumento indispensável para a ordenação dos resultados meio do princípio de verificação segundo o qual deve ser pensado um método de
das ciências. verificação empírica para as sentenças sintéticas. A formulação que se tornou famosa
17. Na formulação de Carnap: "Não queremos estabelecer proibições, mas do Círculo de Viena é: o sentido de uma sentença é o método de sua verificação. Cf.
descobrir convenções... Na lógica não existe moral". Cf. R. Carnap, Logische Syntax L. Krauth, op. cit., pp 75ss.
der Sprache, op. cit., pp.44-45. Mais tarde, Carnap mudou a fórmula: cf. "Ernpiricism, No entanto, Carnap é de opinião que o princípio de verificação é estreito demais
semantics and ontology", in rRev. lnt. de Phil., (IV/ll) (1950) 20-40: "Let us be para legitimar o conhecimento científico. Sua tentativa de reformular o princípio levou
cautious in making assertions and critical in examining them, but tolerant in permitting à distinção entre linguagem observacional e linguagem teórica. Cf. L. Krauth, op. cit.,
linguistic forms". pp. 88ss. W. Stegmüller, op. cit. vol. 1, pp. 296ss.

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Semântica de Rudolf Carnap
A semântica tradicional

problemas dos da metafísica por meio da análise lógica da linguagem"23. Para ele, as
tcrrrpos tlc se:tts cstudos, Carnap se preocupou com os
normalmente no especulações metafísicas se originam da Íalta de convenções que de-
l'undurttctttos dcl conhecimento das ciências naturais,
por meio terminam o uso das linguagens naturais. E,le pressupunha que as con-
colrtcxto da pergunta pelo critério empirista de significação2l fusões lingüísticas que originam a metafísicarl provôm de nossa ten-
entre as frases empíricas
d() qual se queria ter um critério de sentido dência a aceitar a racionalidade de algo contanto que isso não fira as
Ele foi
tlotadas de conteúdo e outras frases sem valor cognoscitivo. convenções da linguagem natural, mesmo se isso não nos leve sempre
o primeiro a reconhecer que tal critério não pode ser formulado ao uso racional das linguagens naturais. Que numa linguagern comum
paia frases isoladas como já se havia tentado fazer por outros seja possível criar formações lingüísticas sem sentido, sem ferir as
das
membros do círculo de viena. Antes de tudo, toda a linguagem regras da gramática, é um sinal de que a sintaxe gramatical, do ponto
ciências empíricas deveria ser descrita. Sua grande novidade
nesse de vista lógico, é insuficiente. Se a sintaxe gramatical correspondesse
terÍenoéaintroduçãodométododasfrasesredutivas,pormeio exatamente à sintaxe lógica, então não poderia surgir uma pseudofrase.
Ora, sendo as frases metafísicas pseudofrases, então elas não poderiam
das quais ele introduz na linguagem científica os conceitos
surgir numa linguagem logicamente correta25. A metafísica tem, por-
disposicionais22.
tanto, sua origem na falta de convenções suÍicientes para impedir o
A partirdaqui, Carnap vai desenvolver sua célebre tese da lin- que não leva a nenhum conhecimento verdadeiro. Daí a enorme im-
cujas
guagem observacional. A linguagem observacional não é aquela portância da tarefa da construção de uma sintaxe lógica.
ao dado'
frases possuem certeza absoluta ou se referem diretamente Interessante é que, em vez de se interessar pelas linguagens na-
por si mesma'
mas ela é, simplesmente, uma linguagem compreensível turais, Carnap se preocupa inteiramente com a formação de uma lin-
isto é, uma linguagem que se pode aprender sem ter de aprender' ao
guagem artificial que contenha convenções para descobrir qualquer
mesmotempo,umateoriadaciêncianatural.Poroutrolado,alingua- caso de falta de sentido. O primeiro passo nessa direção foi a tentativa
gem teórica não é compreensiva por si mesma,
já que contém termos
de elaborar um sistema de sintaxe lógica como complemento à sintaxe
Tais con-
[re so têm sentido no contexto de uma teoria determinada. gramatical. Em seu livro A sintaxe lógica da linguagem, ele empreen-
ceitosadquiremsuasignificaçãoformalpormeiodedefiniçãoimpli de a tentativa de esboçar as linhas Íundamentais de uma linguagem
empírica'
cita no quadro interno da teoria em questão; uma significação
poróm, up"nu, das regras de correspondência, as quais ligam esses
23. Metafísica, para Carnap, é a aÍirmação da possibilidade de um conhccimen-
conceitosaconceitosdalinguagemobservacional.Alémdetudoisso, to que transcende a experiência dos sentidos e teÍn como Íirntc e instância fundante
do conhecimento o "pensamento puro" ou a "intuição pura". Para ele, ela se situa na
Carnapsefezograndeteóricodalógicaindutiva,istoé,dalógicada
esfera do não-racional, o que se explicita, em sua plenitude, na tentativa de estabele-
probabilidade indutiva. cimento de "sentenças metaÍísicas", ou seja, de "sentenças sintéticas a prbri". Para
ele, um conhecimento ao mesmo tempo sintético e a priori é impossível. Daí por que
uma das teses fundamentais do empirismo contemporâneo é a negação da possibili-
b) (\ma consideração puramente sintática da linguagem dade de sentenças sintéticas a priori. Conseqüentemente, a metafísica não passa, para
Carnap, de uma especulação subjetiva, afirmações baseadas no sentimento, poesia,

As reflexões de Carnap sobre a linguagem se situam em seu teologia; em suma, nenhum conhecimento cientíÍico.
24.Para Carnap, as expressões metafísicas são palavras absurdas mesmo quan-
"superação
programa antimetafísico, isto é, como ele mesmo dizia da do santificadas pela tradição e sustentadas com sentimentos. Cf. R. Carnap, "Die alte
und neue Logik", in'. Erkenntnis l(1930) 1246: Überwindung der Metaphvsik durch
cit., PP. logische Analyse der Sprache, op. cit., p. 200.
L. Krauth, oP. 58ss.
Analyse der 25. A respeito da discussão sobre os fundamentos da matemática, cf. a biblio-
R. Carnap, 'Üf".*inãrng der Metaphysik durch logische
grafia apresentada por Stegmüller em: op. cit., vol. I, pp. 537-538.
Erkenntnis 2 (1932), PP.219-241.

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76
x
Semântica de Rudolf Carnap
A samântica tradicional

ideal o modelo do formalismo de David Hilbert28. O interesse Íun-


irlcirl. irrlcirillltcnle Í'ormulada em terrnos sintáticos, e apresentar aque-
damental de Hilbert estava em provar a consistência da matemática
las convcnçõtcs lingüísticas Íilosoficamente necessárias e ausentes às
clássica, que vinha sendo questionada desde os fins do século passado.
lingutgcns naturais. Com isso, ele apresenta uma metateoria de uma
Essa prova consistia, segundo Hilbert, em primeiro lugar, em levar a
linguagem ideal, tomando como modelo a metamatemática. Isso
matemática clássica a um sistema axiomático-formal e, então, provar
correspondia a uma das intenções fundamentais do neopositivismo,
que este sistema não contém contradições na medida em que estabe-
pois um dos ideais básicos do positivismo era evidenciar o que seja
lece uma generalizaçáo sobre todas as provas possíveis dentro desse
propriamente ciência. Ora, isso é impossível, segundo essa coffente'
sistema axiomático livre.
sem consideração da matemática.
Para a realizaçáo de tal tarefa são necessárias quatro coisas:
A matemática não é, porém, uma ciência de conteúdo26: nem ela
é ciência dos verdadeiros entes, dos entes exemplares como pensava a) um vocabulário, apresentando os símbolos usados no sistema,
Platão, nem é, como pensavam os modernos, a linguagem tra qual está b) regras de formação, determinando que cadeias de símbolos são
livro danatureza. Kant percebeu muito bem: a matematização
escrito o aceitáveis como fórmulas corretas, isto é, como fórmulas sintati-
da natureza é uma ação construtiva que, enquanto tal, possibilita o camente certas;
estabelecimento de leis naturais. Para o positivismo, o desenvolvimen-
c) axiomas, que abranjam as fórmulas sistemáticas não provadas,
verdadeiras, isto é, formadas com justeza; e
to da matemática no século XIX foi ainda mais longe do que Kant: a
matemática é capaz de construir conexões sistemáticas, nas quais a
d) regras de inferência, que determinam como a partir das fórmulas
estabelecidas se podem conseguir novas fórmulas.
pergunta de sua aplicação é, inteiramente, secundária. Nesse sentido,
a matemática se manifesta como a ciência de pura autoconstrução.
Ela Sendo as regras de formação suficientes, então podem-se expri-
não se apóia sobre nenhum dado, suas determinações são constituídas mir todas as sentenças possíveis corretamente deduzidas dentro do
inteiramànte por meio do sistema e para o sistema. Daí: os axiomas de sistema. Nesse sistema, os símbolos são puras categorias sintáticas, e
tal sistema não são verdades intuídas ou evidentes, mas são apenas, com isso se afasta qualquer influência de características estranhas ao
para usar uma expressão de J. Scholz27, "andaimes de frases", que só sistema em questão. Por essa mesma razão se pode decidir de modo
posteriormente se transformam em frases verdadeiras pela interpreta- mecânico sobre a retidão de uma fórmula. O próprio conceito de prova
matemática só é capaz da é, nesse contexto, puramente formal, ou seja, é uma seqüência finita
çao au, variáveis nelas contidas. ora, a
álaboração de tal sistemática por meio da superação de qualquer refe- de fórmulas corretamente formadas, de modo que todo membro ou é
um axioma, ou então uma fórmula deduzida das precedentes por meio
rência objetiva.
das regras de inferência.
concebendo a matemática deste modo, os neopositivistas' espe-
Sendo o conceito de prova formal, então o são, também, os de
cialmente carnap, sempre procuraram classificar as relações entre a
consistência e inconsistência. Hílbert encontrou, pois, uma metamate-
matemática e a filosofia, isto é, a lógica. carnap discute as três coÍren-
mática que apresenta a teoria sobre a estrutura de sistemas axiomáticos
tes fundamentais da hlosofia da matemática de seu tempo: o logicismo'
formais em matemática, e, enquanto tal, essa teoria deveria exatamen-
o intuicionismo e o formalismo, e usa na construção de sua linguagem

28. Como tenta mostrar Stegmüller (op. cit., vol. l, pp. 341-342), o esforço
26. H. Scholz. Abriss der Geschichte der Logik, 2" ed., Friburgo/ Munique, para concretizar o programa de Hilbert levou a disparidades inesperadas. O golpe
decisivo a essa teoria foi dado, contudo, por K. Gôdel com seu Íamoso teorema da
27.Cf.D,HilbertilV.Ackermatrn,GrundzügedertheoreÍischenLogik,2^ed., incompletude.
Friburgo/Munique, 1959.
79
78
A scmântica tradicional Semântica de Rudolf Ca

tc scrvir l)lrir l)r'ovar a consistência da matemática clássica2e. Ora, essa -me que o desenvolvimento de uma metalinguagem
utilizável contri-
rrrctirrrrirlcrrriitica enquanto teoria geral da estrutura formal da lingua- buiria essencialmente para maior crareza na Íbrmulação
de problemas
llcrn r))atclnática esteve em perfeito paralelo com a idéia de Carnap da filosóficos e levaria sua discussão a resultaclos Í-rutuosos,,3L
sintaxc lógica, isto é, de uma teoria geral da estrutura formal de textos
Sua convicçáo era de que a maioria dos problemas filosóficos
tcóricos cientíÍ'icos e prático-lingüísticos. A metamatemática de Hilbert
autênticos era controvérsia a respeito do quadro ringüístico
se apresentava como modelo para a teoria da sintaxe lógica. Sua in- adequado
a uma pesquisa científica ou descritiva sobre os Íatos dos
tenção fundamental era provar que uma linguagem ideal da ciência quais tais
pesquisas tratam. As confusões existentes na Íilos.Í'ia
empírica e da maneiraprática comum de expressão era livre de frases provêm do fato
de os filósofos não terem crarezaa respeito cressa rearidade,
que contêm especulações metafísicas, e o sucesso na elaboração de tal isto é, que
as perguntas filosóficas são, nesse sentido, perguntas purarnente
sintaxe lógica deveria significar o desaparecimento da metafísica, o lin-
güísticas.
que daria, ao mesmo tempo, ao homem um eficaz instrumento
antimetafísico3o. Assim como Hilbert em sua metamatemática procu- Podemos distinguir duas maneiras de farar: a do conteúdo
ea
rou estabelecer uma base para a distinção entre contradições e nào- formal' A primeira ocoÍre quando uma frase é formurada
mais como
-contradições, Carnap procura encontrar uma base .formal para a dis- sentença sobre coisas ou acontecimentos reais do que
sobre constru-
tinção entre frases metafísicas e frases não metafísicas. No segundo ções lingüísticas. Na maneira formal, fala-se não sobre o mundo, mas
momento, ele tenta mostrar que tal linguagem ideal só representa fra- sobre a linguagem, isto é, sobre construções lingüísticas,
propriedades
ses das ciências empíricas e da linguagem prática. e relações lingüísticas. Exempros: "Rosas são coisas", ..Ràsas
têm
cinco letras" n,, lógica se diz, hoje, que aqui se trata da diferença
Em sua autobiografia, Carnap tenta explicitar os motivos que o -
levaram a tal empresa: "Meu principal motivo para o desenvolvimento
entre "Verwendung" (uso) e ,.Erwâhnung,, (menção de palavras).
do método sintático foi o seguinte: ao correr de nossas discussões no As frases do segundo tipo são pseudofrases objetais, pois,
embo_
Círculo de Viena, mostrou-se que a tentativa da formulação precisa ra sua construção gramaticar seja idêntica à das frases objetais,
elas,
dos problemas filosóficos que nos interessavam terminava sempre em contudo. não falam de objetos do meio ambiente, mas
de construções
problemas de uma análise lógica da linguagem. Já que, de acordo com lingüísticas. Por exemplo: a frase "cinco não é uma
coisa, mas um
nossa maneira de pensar, o resultado do interrogar filosófico diz respeito número" parece ser uma frase objetal que nos fala sobre
uma coisa
não ao mundo, mas à linguagem, deveriam essas perguntas ser fbrmu- cinco mas na realidade não o é. ora, para carnap a grande -
ladas não na linguagem objetal, mas na metalinguagem. Daí pareceu- -,
dos problemas
maioria
f,rlosóficos tem a ver com pseudofrases objetais. os
filósofos as tratam como se fossem frases objetais, e daí
as confusões.
29. Tanto o pensamento de Hilbert como o de Carnap tentam levar às últimas Para ele, essa distinção constitui a grande chance para
conseqüências a "matematização do saber", que é o padrão de racionalidade típico do
afilosofia, isto
é, poder interpretar as frases pseudo-objetais como frases
saber moderno. No entanto, dentro desse espaço epistemológico comum há diferenças sintáticas e
consideráveis. Uma dessas tendências vai consistir em associar a matemática à meta-
física, Íazendo dela o espaço de expressão das essências das coisas e de sua unidade 3l' A tarefa da filosofia consiste em pesquisar a estrutura lógica cro conheci-
sistemática. Essa é a ontologia racionalista moderna inaugurada por Descartes. Carnap mento cientíÍico, isto é, pesquisar como conhecimentos e
sentenças se vincuram lo-
se vincula a outra variante da matematização: a que vai vincular a matemática à gicamente. o trabalho da filosofia é, então, pesquisar
rogicamenté conccitos, senten-
experiência para o ordenamento dos fenômenos negando toda espécie de metafísica, ças, demonstrações, hipóteses, teorias das ciências. por essa razão, ela é Íundamen_
ou seja, a possibilidade de fazer afirmações sobre a realidade que não possam ser talmente,análise da linguagem, pois a linguagem é como
que o corpo do conhecimen-
comprovadas pela experiência. Cf. I. Domingues, O grau z.ero de conhecimento. O to' As ciências empíricas pesquisam os fatos, isto é, o que
é apresentado por meio da
problema da fundamentação das ciências humanas, São Paulo, 1991, pp. 55ss. linguagem, enquanto a anárise lógica, própria da filosoÍra, pesquisa
o, fatos são
30. Cf. R. Carnap, InÍellectual Autobiographl', op. cit. apresentados por meio dos conceitos e das sentenças
na linguagem.
"u-o

80 8l
A scmântica tradicional Semântica de Rudolf Carnap

irssinr sc pr)r'crtt colldição de resolver seus problemas de modo coÍreto deração puramente sintática da linguagem esgota a reflexão filosófica
c scg,ur'o. lsso significa, então, que todos os problemas filosóficos são sobre a linguagem humana. Foi essa percepção que o levou a conceber
r)ir rcali(lildc problemas de sintaxe lógica32. uma teoria completa da linguagem em três dimensões36: a sintaxe, que
se relaciona às propriedades formais das construções lingüísticas. Tra-
Daí a Íbrmulação de seu princípio antimetafísico: nenhuma frase
ta-se, pois, de uma consideração da linguagem abstraindo tanto do
dc uma linguagem natural possui um valor cognitivo, se ela não for
sujeito, do sentido e da significação, como do objeto designado. Seu
uma frase ob-ietal autêntica e, portanto, não se deixa traduzir em uma
único objeto são as expressões lingüísticas e suas formas; a semântica,
frase sintática no quadro de uma teoria da sintaxe lógica. Pelas frases
que estuda a relação entre construções lingüísticas e coisas, aconteci-
objetais exprimimos fatos, com as frases sintáticas exprimimos rela-
matemáticas, lógicas e outras relações conceituais33, o que faz mentos no mundo etc., aos quais se referem as expressões lingüísticas,
ções
com que seu princípio antimetafísico corresponda ou exprima a seu como também a relação entre frases e as condições no mundo, que
modo o princípio empirista de Hume3a. Do ponto de vista da lingua- devem existir a fim de que as frases possam ser consideradas verda-
gem, o programa de Carnap significa a proclamação da auto-suficiên- deiras; e, por fim, apragmática, qúe trata das características do uso da
cia da sintaxe. Ele afirma que os conceitos semânticos podem ser linguagem, como dos motivos psicológicos dos falantes, das reações
definidos no seio da teoria da sintaxe lógica por meio de conceitos dos ouvintes, da sociologia dos diferentes padrões lingüísticos. Para
sintáticos. Em suma, nessa fase de seu pensamento, Carnap defende Carnap a pragmática é uma ciência empírica e, enquanto tal, está
uma substituição da semântica pela sintaxe, assim que uma reflexão excluída da filosofia37; daí por que suas pesquisas se concentram na
filosófica sobre a linguagem humana se esgota na dimensão da sintaxe sintaxe e na semântica. Uma vez tendo reconhecido a parcialidade de
lógica. No entanto, o exercício concreto desse programa mostrou-se uma consideração puramente sintática da linguagem, ele, então, se
contraditóriot', pois, inconscientemente, Carnap apelou para conceitos dedica à formulação de uma teoria da semântica38.
semânticos.

Foi a leitura dos pensamentos do lógico polonês Tarski que fez c) A tuorta da semântica
Carnap, em primeiro lugar, descobrir que suas considerações não fo-
ram puramente sintáticas e, em segundo lugar, questionar Se uma consi-
A
primeira tentativa de Carnap de desenvolver uma teoria da
semântica fundamenta-se na concepção de que a significação de uma
32. Um sistema semântico, para carnap, é um sistema de regras que estabelece expressão lingüística é o objeto, a qualidade, o acontecimento etc. a
as condições de verdade para as sentenças da linguagem objetal. cf. R. Carnap,
Logische Syntax der Sprache, op. cit., pp. 225ss.
33. Que é essencialmente antimetaÍísico, já que o metaÍísico é aquele que parte 36. Daqui a distinção de Stegmüller, op. cit., vol. 1, p. 320: semântica e sintaxe
do princípio rle que é possível formular sentenças válidas incondicionalmente, tam- podem ser elaboradas não apenas como ciências empíricas, mas também como ciên-
bém sobre momentos da realidade não comprováveis empiricamente. Cf. B. Weissmahr, cias puras. A semântica e a sintaxe empíricas pertencem à ciência da linguagem (por
Ontolo gie, Stuttgart/Berlim/Kôln/Mainz, I 985, p. 14. exemplo, a teoria do signiÍicado e a gramática do inglês), enquanto a semântica e a
34. Camap logo percebeu que uma consideração puramente sintática da lingua- sintaxe puras são disciplinas lógicas. Estas duas últimas diÍ'erenciam-se pelo tipo de
gem é unilateral e insuficiente, pois um cálculo pode ser aplicado a objetos concletos, regras de acordo com as quais as linguagens artificiais aqui consideradas são construídas.
pode ser "interpretado" de tal modo que a consideração dos aspectos formais da Freqüentemente, ambas são reunidas sob o título "estudo de linguagens formaliza-
linguagem deve ser ampliada por pesquisas semânticas, em que se põe a questão dâ das", título esse que, por vezes, também designa investigações puramente sintáticas".
relação da linguagem ao que é por ela designado, isto é, põe-se a questão da relação 37. A partir do Testability and Meaning, de 1936, tudo isto vai levar Carnap a
possível à realidade. Cf. L. Krauth, op. cit., p' 21. profundo repensamento do princípio empirista de sentido.
35. Cf. R. Camap, "Introduction to Semantics", in: Studies in Semantics, vol' I, 38. Cf. F. v. Kutschera, "Carnaps Methode der Extensionen und Intensionen",
Mass., pp. 1e42ss. in: Sprachphilosophie, op. cit., pp. 66ss.

::*o"ot", 83
A semântica tradicional Semânlica de Rudolf Carnap

que ela sc rcl'ere quando se trata de formulações lingüísticas inferiores Extensão), ele não aceita o princípio universal de substituição,
à Íiasc c, quando se trata de uma frase, as condições sob as quais ela segundo o qual, salva a verdade, é possível, em contextos diver-
é vcrcladeira. Uma semântica se apresenta quando as regras sintáticas sos, uma substituição de conceitos com a mesma denotação. Ele
são completadas por regras de designação, que especificam as coisas denomina o aparecimento de uma expressão numa frase
às quais as expressões lingüísticas se relacionam e as regras de ver- extensional (intensional), quando a substituição deste caso de
clade qte explicitam as condições de verdade. É nesse contexto que aparecimento por meio de um outro com extensão semelhante
Carnap desenvolve sua célebre distinção entre intensão e extensão3e. não muda a extensão da frase. Quanto ao conteúdo, é o mesmo
Em primeiro lugar, essa distinção é vista a partir dos predicados: a que a posição de Frege: há contextos em que há referência essen-
intensão de um predicado é sua significação, isto é, um conceito, cial ao sentido das expressões lingüísticas (na terminologia de
enquanto a extensão é a classe dos objetos subsumíveis sob esse con- Frege, nos quais não se fala de sua denotação, mas de seu sen-
ceito. Assim, enquanto a pergunta a respeito da semelhança ou iden- tido), e nestes, salva a verdade, expressões com a mesma deno-
tidade da intensão de predicados é uma pergunta lingüística, a mesma tação não podem ser trocadas. A substituição de expressões com
pergunta relativa à extensão é uma pergunta empírica. Predicados igualdade de extensão se limita a contextos extensionais, o que
intensionalmente semelhantes são também sempre extensionalmente ocorre igualmente em relação a expressões de igualdade de
semelhantes; o contrário, porém, nem sempre ocorrea0. Essa doutrina intensão. Há também contextos não-intensionais, isto é, aqueles
da distinção entre intensão e a extensão dos predicados é aplicada por em que a substituição de expressões intensionais pode mudar não
Carnap aos nomes próprios e às frases. Assim: a intensão de uma frase só a intensão do contexto, como também seu valor de verdade.
é a proposição, a extensão seu valor de verdade; a intensão de um Por exemplo, "João crê que p e João crê que q". A segunda pode
nome um conceito individual, a extensão é o objeto por ele designado. ser falsa apesar de p e q serem equivalentes.
Essas distinções correspondem às de Frege entre sentido e designação,
contendo, porém, uma crítica num duplo sentido:
d) A concepção fundamental de filoso.fia
a) Carnap não encontra em Frege critérios para a igualdade de sen-
tido. E isso procura ele fazer, primeiramente, tratando da igual- A concepção que Camap tem de filosofia gestou-se no contexto
dade intensional. Para Carnap dois predicados sáo intensional- da discussão do positivismo lógico, sobretudo no seio da teoria das
mente iguais quando se prova logicamente que eles se referem sentenças da linguagem humana. Para esses teóricos, só há dois tipos
exatamente ao mesmo argumento. Dois nomes são intensional- de sentenças capazes de se submeter aos critérios do pensamento ci-
mente iguais quando se pode provar logicamente a identidade dos entífico: em primeiro lugar, as sentenças que exprimem os fatos per-
objetos por eles designados e, no caso das frases, quando sua cebidos ou conteúdos de pensamento que, em última análise, são
equivalência se pode provar logicamente. redutíveis ao que é percebido pela sensibilidadear; em segundo lugar,
b) Para não permitir, como Frege, que as mesmas expressões te-
nham, em contextos diversos, várias significações (Intensão e 41. W. Pannenberg chama a atenção para o lirto de que todo positivismo con-
sidera um "dado" ou o "posto" fundarncnto últirno de sua ârgumentação. No entanto,
no "positivismo lógico" do nosso século, houve deslocamento da função do dado. Ele
39. Cf. R. Carnap, Meaning and Necessity,2' ed., Chicago, 1956. não constitui mais, como era o caso ainda ent Mach, o ponto de partida do conheci-
40. Cf. J. Ladriàre, 'A tentativa neopositivista", in: Á articulação de sentido, mento ou seu objeto exclusivo, mas constitui apenas a "instância de controle" para as
São Paulo, 1911 , pp.67ss. W. Schulz, Philosophie in der veninderten Welt, Pfullingen, sentençâs, e com isso, segundo sua opinião, ele se livra de muitas objeções feitas à
1972, pp. 35ss.. W. Pannenberg, WissenschaJtstheorie und Theologie, Frankfurt am tradição empirista proveniente de Locke e Hume. Sobretudo, ele renuncia à pretensão do
Matn, 19'77, pp. 3lss.. F. Inciarte, "Sinnlosigkeit und Sein. Zur positivistischen empirismo clássico de fornecer uma teoria da originação do conhecimento e vai concen-
Metaphysikkritik", in: Phi. Jahrb. 79(1912)320-334. trar-se no problema da validade das sentenças. Cf. W. Pannenberg, op. cit., pp. 3l-32.

84 85
A semântica tradicional Semântica de Rudolf Carnap

irs se rrlt'nçirs (prc oxprimem as regras do pensamento exato, isto é, as Qual seria, então, a partir daqui a tareÍa da Í-ilosofia? Já em 1931,
regriui tlir kigica Íormal e da matemática. Todas as demais sentenças da em seu artigo "Superação da metaÍísica por meio da análise lógica da
lirrgrrirgcrn humana se reportam ao campo do empiricamente incontro- linguagem"as, Carnap tenta determinar o quc compete, de agora em
liivcl, isto é, dos sentimentos, da fantasia, da poesia, da teologia; numa diante, à filosofia: não sendo conhecimento do mundo4(', uma vez que
palavra, da metafísicaa2. todas as suas sentenças são destituídas de qualquer sentido são, na
realidade, pseudo-sentenças -
ela vai concentrar sua atenção àquela
A tradição do pensamento ocidental é marcada por um grande -, os fatos do mundo: a linguagem. Por
mal-entendido, porque a expressão adequada do campo do empirica- instância na qual são expressos
mente incontrolável é a artea3: a filosofia não passa de uma arte isso ele vai dizer, em 794241, que a questão da filosofia é a análise
malcompreendida, pois pretende um conhecimento válido sobre o real, semiótica, seus problemas dizem respeito à estrutura semiótica da
isto é, conhecimento científico, mas este se reduz, por um lado, às linguagem da ciência. Não existe uma esfera do real que não possa ser
ciências exatas da natureza e, por outro, à lógica e à matemática. A atingida pelas ciências particulares; portanto, não há um conhecimen-
lógica e a matemática são um conhecimento puramente formal: nada to filosófico específico da realidade: conhecimento só acontece nas
dizem sobre a realidade, são saberes sem conteúdo, puras tautologias, ciências empíricas. Estas exprimem seus conhecimentos em sen-
enquanto o saber de conteúdo só nos pode ser dado pela percepção tenças: a tarefa da filosofia é considerar a linguagem científica em
sensível e não por meio da reflexão pura, sem qualquer controle relação a sua consistência lógica e ao sentido de suas sentenças: a
empírico como pretende a filosofia tradicional, a metafísica. Daí o filosofia tem a ver com a lógica, com a teoria do saber e de seus
famoso "critério de verdade" do neopositivismo, o princípio empírico fundamentos.
de verificação: somente sentenças de conteúdo podem ser verdadeiras Ela é, acima de tudo, análise lógica da linguagem científica; é,
ou falsas; portanto, só têm sentido as proposições que podem ser antes do mais, Í'ilosofia da ciência: seu objetivo é examinar os proce-
univocamente reduzidas a fatos de percepção. Todo conhecimento
dimentos utilizados pelas ciências no estabelecimento de conceitos,
fundado radica nos fatos fornecidos por nossos sentidos. Não há,
sentenças, demonstração, hipóteses e teorias.
portanto, ciência não empírica do realaa.

com ambas as posições. Assim, é possível partir do sujeito e defender uma posição
42. A pretensão da metafísica é propriamente explicitar a relação entre os dois solipsista, como Carnap aliás fez em seu livro Construção lógica do mundo, ot se
grupos de sentenças legítimas, isto é, entre as sentenças formais e as sentenças de pode também assumir a postura contrária do realismo que vai tomar o corporal-
conteúdo; ou seja, a ÍrlosoÍja. em última análise, levanta a pretensão de tematizar a
-material como fundamento, como ele fez rnais tarde em união com O. n*eurath. Cf..
relação entre forma e conteúdo. Tais sentenças filosóficas se entendem coÍno senten-
a respeito, as considerações de W. Schulz em: op. cit., pp. 36-31; A. Crescini, "Presuposti
ças de conteúdo, o que é um absurdo, pois todo conteúdo vem da experiência real. realistici e platonici nell'ultimo Carnap", in Rir'. tli Fil. Neoscol. -50( I 958)223-237. A.
Para W. Schulz, o que os positivistas "de Íato" fazem é uma reflexão dialética a
tematização entre Í'orma e conteúdo , mas a grande aporia de scu pensamento é que
- Plcbe, "L'empirismo como ÍllosoÍla c c()me antiÍ'ilosofia", in Giorn. crit. di Filo. ltal.
38(r95e)30r-3r r.
eles proíbem teoricamente o que fazem de Íato. Cf. W. Schulz, op. cit., pp. 49-50.
,15. R. Carnap, Ulkrv,iruluil,s, tlcr Mclttphv.sik drrrch logi,schc Anul'-se der Sprutche,
43. A única saída razoável para os que têm tendência metaÍísica é conter suas
inclinações teóricas a dedicar-se à arte.
op. cit.
44. Há para Carnap uma cliferença funclarlrental cntre as ciências e a matemática 46. A convicção básica qLle nlilrca todo o nrovinrento positivista é de que a
por um lado e a metaÍísica por outro lado: as sentcnças da rnatemática e das ciências tarefa única da filosoÍ-ia ó Íbrnecer f'unclarnentaçhu rnct(rdica da ciência. A pesquisa é
empíricas particulares são controláveis empiricamente. enqtlanto as da metafísica nào únic:r e exclusivamente tareÍa das ciências enrpír-icas. Assim. o mundo como a tota-
o são. Por isso os problemas filostiflcos são insolúveis. Em seu artigo Pseudo-proble- lidadc dos cntes, a questào central da qual emergiu a fllosofia no início da cultura
mas na filosofia (Scheinprutbleme in der Pltilosotrthie. Das Frcmdpsychische un.d der ocidental, não é mais objeto de conhecirnento. C) que se pode conhecer são as rcgiões
Realismusstreil. Berlim-schlachtensee, 1928), Carnap procura mostrar a impossibilidade da realidade: a natureza c a sociedade. Cf.W. Schulz, op. cit., p. 29.
dc se tomar uma decisão entre realismo e idealismo, pois o positivismo é conciliável 4J. lntruduction to Semantics, op. cit., p. 39.

B6 87
A semântica tradicional Semântica de RudoI Carnap

Para Clarnap, isso acontece numa pós-construção lógico-racional possível o conhecimento dos fatos do mundo e sobre o que o cientista
do proccdimento fáctico da ciência preocupada em estabelecer como não fala, pois ele se concentra sempre em seu objeto específico: um
se conquista o conhecimento válidoa8. fato da realidade. Nesse sentido, a filosofia é conhecimento estrutural:
temaÍiza a estrutura na qual o mundo se diz. Ela explicita as regras
Não se trata de uma pesquisa psicológica, mas lógica. Ela busca
universais pressupostas na linguagem, e para atingir esse fim se faz
os fundamentos lógicos do conhecimento do mundo: por essa razão,
necessário construir modelos artificiais de linguagem, testar sua lega-
filosofia não é simplesmente lógica, mas teoria do conhecimento. No
lidade e possibilidades de desenvolvimento, o que dá à análise lógica
entanto, o que a filosofia pesquisa não é algo que se situa "atrás" dos
objetos das ciências particulares, isto é, numa esfera transcendente à
de Carnap um caráter, de algum modo, normativo, embora tal
normatividade nunca transcenda a esfera do empírico. Qualquer saber
empiria, mas "antes", isto é, trata-se de pesquisar os pressupostos de
de conteúdo que levante a pretensão de cientificidade tem de orientar-
todo conhecimento racional da realidadeae.
-se no modelo das ciências empíricas: a realidade enquanto tal é idên-
A filosofia é, assim, a pesquisa dos fundamentos da ciência; nesse tica ao mundo dos corpos a que temos acesso por meio das observa-
sentido, ela não é conhecimento do mundo, mas dos fundamentos do
ções singularesst.
conhecimento do mundo5o: o filósofo pesquisa a estrutura que torna
Sendo assim, não é possível fundamentar, como queria Kant,
juízos sintéticos a priori. Daí a conseqüência central para a compreen-
48. No entanto, sempre foi um problema para o positivismo a vinculação das
análises formais e os procedimentos concÍetos das ciências. Cf. W. Schulz, op. cit.. são do conhecimento humano: todo conhecimento de fatos é apenas
p. 32. St. Toulmin, Einfuhrung in die Philosophie derWissenschaft, Góttingen, 1953. hipotético. O conhecimento filosófico, embora de outro nível, tem a
L. Schnâdelbach, Erfahrung, Begründung und Reflexion. Versuch über den mesma estrutura: "Na medida em que proposições filosóficas são sub-
Positivismus, Frankfurt am Main, l9"tl. L. Delius, "Positivismus und
Neopositivismus", in: Fisher-Lexikon, vol. 11, Philosophie, Frankfurt am Main, 1958.
metidas a rigorosos critérios de verificação, pretende-se possibilitar
F. Kambartel, Erfahrung und Struktur. Bausteine zur einer Kritik des Empirismus uma discussão estrita de questões filosóficas. Nos casos em que se
und Formalismus, Theorie 2, Frankfurt am Main, 1968. revele impossível estabelecer tais critérios, as questões corresponden-
49. A filosofia transcendental faz a mesma aÍirmação, só que entende de uma tes devem ser simplesmente eliminadas da classe dos problemas filo-
maneira diferente; aqui não se trata apenas do componente empírico e da dimensào
sóficos dotados de significação. Perguntas que não admitem respostas
lógico-lormal de nosso conhecimento. como é caso no positivismo. que examina o
conhecimento já constituído, perguntando por sua validade. A f,losofia transcendental intersubjetivamente testáveis são pseudoproblemas filosóficos"sz.
levanta a pretensão de perguntar pela validade da própria constituição do conhecimen-
Desse modo, tal como é possível controlar as sentenças da ma-
to e, nesse sentido, Íematiza as condições de possibilidade de todo e qualquer conhe-
cimento. Por isso seu procedimento tem de ser diferente do procedimento das ciên- temática (por meio de processos lógicos) e as sentenças das ciências
cias: sua demonstração se faz por meio da contradição performativa, em que se procu- empíricas (pelas observações e experiências), as sentenÇas da filosofia
ram mostrar ao falante as condições intranscendíveis para a validade de suas asserções, devem também poder ser controladas, se pretendem atingir alguma
as quais ele já sempre aceitou, quando pôs a asserção, tivesse conhecimento disso ou
não, sob pena de cair numa contradição performativa, isto é, não numa contradição
entre sentenças, mas numa contradição entre o conteúdo expresso da sentença e as próprio pensar, como foi sempre a pretensão da filosofia. Cf. W. Stegmüller, op. cit.,
pressuposições que têm de ser feitas para a verdade da sentença' Cf.: K.-O. Apel, "Das vol. I, p. 334: tingimos a área da problemática dos fundamentos, em dado setor do
Problem einer philosophischen Theorie der Rationalitâtstypen", in: H. Schnâdelbach conhecimento, quando os pressupostos básicos desse setor e os métodos aí emprega-
(ed.), Rationalittit, Philosophische Beitrtige, Frankfurt am Main, 1984. A respeito de dos perdem seu caráter de coisa intuitivamente indiscutível, ou quando esses pressu-
Kant e o positivismo, cf. W. Stegmüller, op. cit., vol. l, pp.280ss. postos e procedimentos perdem a clareza ou o seu aspecto intuitivo.
50. Trata-se, aqui, de explicitar os pressupostos básicos, na linguagem de Platão, 5 l. Trata-se da ontologia implícita e não discutida dessa posição. Nesse sentido,
os axiomas e os métodos empregados nas ciências. De modo algum se trata da legi- de uma ()nlologia ingênua enquânlo acrilicamcnte aceita.
timação dos próprios axiomas, ou seja, dos fundamentos primeiros ou últimos do 52. W. Stegmüller, op. cit., pp. 33-34.

88 B9
Semântica de Rudolf Carnap

r
A scmântica tradicional

vrrlitlrrtlt', rkr conlnirir) não será possível distinguir entre fantasia e dizer que estamos aqui num caso típico daquilo que Apel deno-
t'orrlrccirncnlo vcrdadeiro. As sentenças aceitáveis são ou enuncia- mina "contradição performativa"5s.
rlos rrrrirlílicos ou enunciados sintéticos a posteriori.' se as senten- 2') A aplicação do critério empirista de sentido conduz a uma con-
çls l'ilosr'rÍ'icas não se enquadram aqui, são destituídas de qualquer seqüência extremamente desagradável para o neopositivismo:
s ign iÍ'icação. hipóteses fundantes da pesquisa das ciências da natureza teriam
de ser consideradas metafísicas, já que não podem ser verificadas
Daí a exigência que se faz ao filósofo hoje (o que, segundo os
cmpiristas, não era muito claro no passado): distinguir, com rigor,
por meio de observações singulares.
entre as vivências da vida cotidiana e o conhecimento propriamente. 3') Uma outra dificuldade diz respeito às "sentenças protocolares",
Essa posição provocou uma enorÍne polêmica nos ambientes filosófi- que devem constituir a base de qualquer sentença científica de
cos de nosso século e, pouco a pouco, foi emergindo a unilateralidade conteúdosó. Que se quer dizer, quando se fala de dado? É dado o
e, sobretudo, a insustentabilidade filosófica dessa posição. B. próprio acontecimento que se observa ou somente meus dados
Weissmahrs3 resume, como resultado dessa discussão, as principais dos sentidos sobre ele? Acima de tudo, como se relacionam sen-
fraquezas de tal postura: tença e realidade? Como é o relacionamento da sentença com o
acontecimento que ela descreve? Isso leva inevitavelmente a uma
l") A primeira pergunta a ser feita é a respeito do status lógico do
comparação entre sentença e realidade, o que é algo impossível
princípio de verificação. Ele não pode ser uma sentença empíricasa,
de acordo com os pressupostos fundamentais do positivismo.
também não uma sentença puramente formal, pois, do contrário,
4") A fala sobre sentenças protocolares como sentenças de observa-
ela seria apenas tautológica. Trata-se de uma sentença universal,
que afirma algo determinado sobre sentençâs que, segundo a ção é problemática pelo próprio fato como vai acentuar Popper5T
já a partir de 1935 -
de que não existe uma observação livre de
intenção do falante, se referem à realidade. Ora, tal compreensào - a hermenêutica, sem a mediação de uma
põe o neopositivismo diante de uma escolha: ou reconhece que
teoria ou, como dirá
pré-compreensão.
há sentenças que possuem sentido e validade científica apesar de
não se enquadrarem nos dois tipos de sentença dotados de sen- 5') O positivismo lógico simplesmente não considera o sujeito de
tido segundo a teoria neopositivista. ou, então, vai ter de afirmar conhecimento: ele é sempre pressuposto, onde se observa, mas
que o fundamento último de toda ceÍteza científica é uma senten- nunca é temaÍizado, e sua função se reduz a registrar o que é o
caso ou o que não é o caso. O processo de conhecimento deve
ça destituída de sentido, metafísica, portanto, em sua concepção.
Em ambos os casos, o sistema não se sustenta, o que significa ser interpretado objetivisticamente, isto é, enquanto possível sem
referência ao sujeito, o que também constitui uma exigência con-
53. B. Weissmahr, Ontologie, op. cit., pp. 33-34. traditória. O interessante é que o desenvolvimento das discussões
54. W. Schulz chama a atenção para o Íato de que o próprio B. Russell reco- mostrou que as discussões ditas metafísicas, consideradas eli-
nhcce que o empirismo não pode fundamentar empiricarrentc sou próprio princípio, minadas, retornam como questões intranscendíveis da reflexào
ou scja, a afirmação de que a realida«Je só é captiivel errpiricamcnte. No entanto, tal humana5t.
aporia não o leva a pôr em qucstão sua postura dc base e a reconhecer que a intenção
de fundarnentar ernpiricamente a relação entre scntença e realidade é absurda e a
única saída possível é. de antemão, tematizar a relaçlto dialética entre sentença e -5-5. Cf. V. Hôsle, 1)ic Krisc tler Ocganw,art urul tlic Verantwortung Philosophie.
rcalidade. Em outras palavras, lbrnrulado dc ulna maneira geral: sujeito e objeto no Trans:.endentulpragrnutik, LeÍihegríhuluttg, Ethik, Munique, 1990, pp. 7lss.
conhecimento e ua sentença que Íbrrlrula esse conhecimento são, ao mesmo tempo, 56. Clf. W. Schulz. op. cit., pp. -50ss" W. Panncnbcrg. op. cit., pp. 37ss.
separados e uniclos entre si. Cf. W. Schulz, op. cit. pp. -52, 59ss. A lei viva de todo -57. Cf. K. Poppcr, Logik tler Forschuttg,.1" cd., Tübingen, 197 l.
conhecirnento é que o conhecimento é um movimettto no qual o su.ieito e ser-r objeto 58. Cf. W. Ettelt, Die Erkenntní"^kritik de.ç Positivi"tmus und tlie MõgLit:hkeit tler
se cleterminam mutuarnente. M e tup ht: s ik, Amsterdam, 1 979.

D 90 9l
r

A SEMÂNTICA DE WITT:GENSTEIN I
Teoria da figuraÇão

a) Vida e obra

udwig Wittgenstein nasceu em Viena, em26 de abril de 1889, de


pai judeu. Estudou primeiramente na Universidade Técnica de
Berlim, depois em Manchester onde, de 1908 a 1911, trabalhou em
experiências aeronáuticas. Depois de ler os Principia Mathematica de
B. Russell, ele foi aluno, primeiramente, de Frege em Jena, depois de
Russell em Cambridger, onde estudou filosofia e psicologia experi-
mental. Depois de alguns trabalhos prévios, durante férias em sua casa
de campo na Noruega, inclusive, Wittgenstein escreveu, durante a
Primeira Guerra Mundial, na qual serviu como voluntário do Exército
austríaco, o manuscrito do seu Tractatus. Depois da Guerra, doou tudo
o que tinha e, em conseqüência às idéias deÍ'endidas no TracÍatus,
abandonou a filosofia, f'ez o curso normal em Viena. onde se tornou
professor primário em vários povoados austríacos de 1920 a 1926.
Depois desse período, esteve durante algum tempo num mosteiro, tra-
balhando no jardim. Tendo sido desaconselhado da vida monacal pelo
abade desse mosteiro, estabeleceu-se, então, em Viena, onde iniciou
ilr

1. A respeito da vinculação entre os traços biográficos e sua obra, cf. A. Kenny,


WiÍtgenstein, Frankfurt am Main, 1974, pp. I l-30.
rl
l1 9)
A semântica tradicíonal A semântica de Wittgenstein I: teoria da figuração

de nossa exposição, limitar-nos-emos ao Wittgenstein da primeira


contittos corrr Moritz Schlick, naquele tempo o líder do Círcu1o de
fase. Trataremos, pois, de sua teoria semântica, tal como foi ex-
Vicrrir c1rrc, clltre seus temas de estudo, tinha precisamente o Tractatus.
pressa no Tractatus.
ltru l929, Wittgenstein doutorou-se com Russell e Moore, sendo
prccisamente o Tractatu^ç considerado como sua dissertação doutoral e
o tema do exame do doutoramento. Tornou-se, então, professor na b) As categorias estruturais do mundo
Inglaterra, porém sempre odiou a forma de vida dos ingleses e a vida
acadêmica, tendo, por isso, projetado mudar-se para a União Soviéti- Apesar das diferenças profundas entre a primeira e a segunda
ca, o que não foi possível em virtude da própria situação deste país. fase da filosofia de Wittgenstein, podemos ver, pelo menos, uma con-
Ele foi, pouco a pouco, afastando-se da posição do Tractatus, decisi- tinuidade temática. Nesse sentido, podemos dizer que a questão fun-
vamente influenciado, neste caso, por suas discussões com o econo-
damental permanece, ou seja, o interesse especial de Wittgenstein é
mista italiano Ricardo Sraffa. Em 1939, tornou-se o substituto de Moore. _a.linguagem e o pensamentoa. Que é linguagem? Que é pensar? eual
a relação entre o falar e o pensar? Que faz de um sinal físico algo que
Durante a Segunda Guerra Mundial, trabalhou como enfermeiro, vo-
significa? Em que sentido um sinal é expressão de um pensamento?
luntariamente, em hospitais ingleses. Em 1947, considerando-se ple-
o ensino. Morreu em Como se relacionam linguagem e pensamento ao real? São todas
namente incapaz, abandonou dehnitivamente
essas perguntas da semântica tradicional que retornam, de cheio, no
Cambridge, em 1951.
pensamento de Wittgenstein, ao centro dos interesses. Sua intenção
Sua única publicação, em tempo de vida, foi o Tractatus Logico- fundamental no Tractaras é estabelecer, com c1arcza, as fronteiras
-Philosophic&.r em 1922. Ao moÍrer, estava com uma segunda grande entre o que racionalmente pode ser dito e o disparate que deve ser
obra pronta, que foi publicada em 1953 com o título de Investigações evitado.
ter publicado
Fil.osóJicas (Philosophical Investigations). Apesar de
pouco, Wittgenstein é, sem duvida alguma, um dos filósofos mais
A linguagem tem, pois, uma função a cumprir nas relações
intersubjetivas: então, que estrutura devem ter o mundo e a linguagem
influentes desde a segunda década do século XX2'
para que esta possa cumprir sua missão? Pressuposta é aqui a função
Duas correntes de pensamento se acham, de modo especial, designativo-instrumentalista-comunicativa da linguagem, que é a con-
ligadas a ele: o empirismo tógico ou neopositivismo do Círculo de cepção fundamental da linguagem no Ocidente. Assumida implicita-
Viena, que se liga à primeira filosofia de Wittgenstein, ou seja, à
do Tractatus, e a filosofia da linguagem ordinária ao Wittgenstein uma ordem a priori no mundo, e, no caso afirmativo, em que consiste essa ordem?',
da segunda fase a das Investigações Filosóficas3. Nessa altura (cf. L. WittgensÍein, Schriften l, Frankfurt am Main, 1969, p. 144). Como diz W.
- spaniol comentando essa afirmação: "uma ordem a priori: que vale independente-
mente dos fatos, daquilo que é o caso no nível contingente do mundo, só pode ser a
2. Para Terricabras, wittgenstein é precisamente um dos filósofos mais influen-
hoje' ordem da lógica"..., a ordem da investigação, portanto, será esta: da linguagem para
tes deste século, por estar na raiz das duas correntes de pensamento que, ainda
o mundo, da lógica para a ontologia: "sim, meu trabalho se estende dos fundamentos
marcam o pensamento filosófico, ou seja, segundo ele, o atomismo lógico e o
da lógica para a natureza do mundo" (Tb, 172). Cf. W. Spaniol, Filosofia e Método
positivismo lógico. Já é, a essas altura, imensa a bibliografia que tÍata de wittgenstein.
no segundo wittgenstein. uma luta contra o enfeitiçamento do nosso entendimento.
Terricabras apresenta, no princípio de seu livro, uma seleção das obras mais impor-
São Paulo, 1989, pp. 37-38.
tantes de acordo com os temas em questão. Cf. J. M. Terricabras, Ludwig Wittgenstein'
4. A respeito da herança de Frege e Russell na obra de Wittgenstein cf. A.
Kommentar und InterpreÍarlan, Friburgo/Munique, 1918, pp' 2l-23'
Kenny, op. cit., pp. 3l-57. l. M. Terricabras, op. cit., pp. 48-120. Cf. também a
3.NaapresentaçãodoTractatus,adoutrinadaontologiaedomundo(seçãol)
introdução de J. A. Giannotti à tradução em língua portuguesa do Tractatus, publicada
precede a doutrina da lógica e da linguagem. Nos D,írios, no entanto, Wittgenstein
em São Paulo, 1968, pp. l-41.
"O grande problema em torno do qual gira tudo o que escrevo é este: existe
"r.r"r",
94 95
A semântica tradicional A semântica de Wíttgenstein I: teoria da figuração

t" rnonlc tal posição, pergunta-se pela estrutura do mundo e da lingua- Uma palavra só pode ter denotação quando expressa como um ele-
gcrrr' c1r.rc possibilitam o exercício dessa função. mento de uma frase: nesse sentido, toma-se de entrada uma posição
contra a doutrina tradicional, ou seja, o sentido das frases não é fruto
A tese fundamental de Wittgenstein é que a linguagem figura o
da associação da significação das palavras nelas contidas.
mundo sobre o qual ela fala e a respeito do qual nos informa. Mas o
que é o Mundo? A resposta a respeito da estrutura do mundo está no No entanto, para o Wittgenstein do Tracíatu.ç, o sentido de uma
início do Tractatus. Uma tese fundamental é: "O mundo é a totalidade frase é o fruto da associação das significações de seus elementos. O
dos fatos, não das coisas"6. A categoria usada para a compreensão do que há de novo aqui é que o elemento só tem significação enquanto
mundo é a dos fatos em contraposição à da coisa. Pode-se também elemento, isto é, enquanto membro de uma frase, e não mais indepen-
pensar o mundo como a totalidade das coisas; porém, e nisso consiste dente dela como era antes. Wittgenstein pensa a partir da prioridade
da frase já estabelecida por meio da teoria dos predicados de Frege.
a afirmação de Wittgenstein, tal afirmação é categorialmente inade-
Ora, Frege chegou a tal concepção por meio de sua distinção entre
quada, ou seja, é uma expressão inadequada da estrutura do mundo'
expressões saciadas e não-saciadas, ou seja, a distinção entre objetos
Quando pensamos o mundo como a totalidade das coisas, então o
e Junções8. (Para ele, o conceito como expressão funcional, a denota-
pensamos, em primeiro lugar, como uma totalidade de objetosT'
ção do predicado e essencialmente não-saturado e, por conseguinte, só
Essa tese de Wittgenstein só é inteligível se a entendemos como tem significação como elemento de uma frase.) O conceito é, assim,
uma radicalizaçã,o das doutrinas de Frege. Em primeiro lugar, algo que necessita de uma complementação, e sua expressão lingüís-
Wittgenstein aceita de Frege a tese da prioridade da frase: 3.3 "Só a tica, o predicado, só tem significação no contexto, ou seja, na frase.
proposição possui sentido; só em conexão com a proposição um nome No isolamento, os predicados são destituídos de qualquer significação.
tem denotação". De antemão, Wittgenstein supera aqui com Frege a No entanto. os sujeitos. ou seja, os nomes que designam objetos. sào
concepção da linguagem como composta de elementos independentes. para Frege expressões saturadas que têm significação independente-
mente da frase.
5. Para Tugendhat, embora wittgenstein aqui se ponha claramente dentro da Wittgenstein radicaliza a posição de Frege afirmando que tanto
tradição objetivista de interpretação da Iinguagem, já surgem mudanças impoltantes.
o nome como o predicado são expressões carentes de complementa-
Assim, pode-se considerar essa posição de wittgenstein como a posição de uma
f,losoha analítica na medida em que sua análise da linguagem se orienta não nos ção; isto é, ele defende a tese de que também os nomes são expres-
nomes, mas na sentença, já que para ele os nomes só têm significação na sentença. sões carentes de complementação e, portanto, não designam algo to-
O primado semântico da sentença em relação aos nomes é fundamentado no Tractatus talmente independente, fechado em si (os objetos da semântica tra-
por meio do primado ontológico dos fatos sobre as coisas. cf. E. Tugendhat, dicional). A afirmação de que o mundo não é totalidade das coisas
hrlesungen z.ur Eiffihrung in die sprachanalytische Philosophie, Frankfurt am Main,
significa, nesse contexto, a dissolução da afirmação tradicional de que
1986, p. 163.
6. Não se trata aqui, quando Wittgenstein fala de totalidade, da soma dos ob- a realidade é o coniunto de coisas, objetos independentes. Aqui, na
jetos existentes no mundo, mas de uma estrutura. Para Wittgenstein, o mundo nào se determinação estrutural do mundo, passa para o primeiro plano a
fragmenta em coisas independentes umas das outras, mas se compõe de fatos de perspectiva da Relação. A categoria fundamental, pois, para a expres-
estrutura complexa. Só se pode falar de mundo quando se fala desses fatos. Cf. J. M. são do mundo é a categoria do Fato (Tatsache). Ora, Wittgenstein
Terricabras, op. cit., p. 130.
distingue essa categoria da categoria de "estados de coisas',
7. O que sugere uma concepção quantitativa, que Wittgenstein recusa' Além
lrr disso, precisa ficar muito clara aqui a distinção entle a tarefà de uma ciência empírica
e a tarefa do filósoÍb. O que interessa ao filósofo não é o estado dos fatos em sua 8. G. Frege, "Funktion und Begriff' e "über Begriff und Gegenstand,,, in:
empiricidade, mas detectar sua estrutura lógica. 1'13 Os fatos, no espaço lógico, Funktion, BegnJf, Bedeutung,4" ed., Gôttingen, 1975, pp. 17-39 e 66-80. Cf., a res-
rl -
são o mundo. O Tractatus, portanto, se situa no nível da estÍutura lógica da realidade. peito, os comentários de E. Tugendhat, in op. cit., pp. l90ss.
r t.

)P 96 97
A stmântica tradicional
I A semântica de Wittgenstein I: teoria da figuração
l

i
1,\ttt'ltvct'lrrth )". A
cliÍ'crença fundamental entre ambos é, como inter- que, embora um objeto não esteja, em princípio, preso ao estado de
llrrllr rrrrrilo bcrrr Stenius'n, que o "estado de coisas" se refere unica- coisas, ele é, simplesmente, impensável sem uma referência a um
nr('nlc rro corrteúdo descritivo das frases, enquanto "fato" se refere a estado de coisas possível16, de tal modo que conhecer os objetosrT
srur rcalidade; usando as expressões de Stegmülllerl1, o fato diz res- significa conhecer os estados de coisas em que eles podem aparecer,
pcilo a algo que realmente ocoÍre, enquanto o estado de coisas repre- como o contrário. O aparecer num estado de coisas é a condição de
scllta, apenas, algo qte possivelmente pode ocorrer. possibilidade do falar sobre um objeto enquanto tal: um objeto, por-
tanto, encontra-se sempre no espaço de possíveis estados de coisas.
Wittgenstein distingue, ainda, entre estados de coisa atômicos e Pensar um objeto sem relações possíveis significa pensar nada (2.0121).
cstados de coisa complexos ou situações (Sachlage) a que coÍrespon- "Cada coisa está como num espaço de estados de coisas possíveis.
dem fatos atômicos e fatos complexos, normalmente chamados, sim- Posso pensar no espaço vazio, mas não a coisa sem o espaço" (2.013).
plesmente, de fatost2. A partir daqui se pode entender a definição Esse espaço se distingue do espaço lógico, onde se acham os fatos de
wittgensteiniana de fato, a saber: fato é o subsistir dos estados de que falaremos depois.
coisas (2.). Em cada "estado de coisas" são distinguíveis, por meio da
Em cada estado de coisas, os objetos aparecem configurados desta
análise, coisas ou objetos, já que "o estado de coisas é uma ligação
ou daquela maneira, isto é, eles se relacionam de diferentes modos. O
de objetos (coisas) 2.01. A característica fundamental de uma coisa é
tipo de relacionamento entre os objetos de um estado de coisas é o que
sua possibilidade de aparecer num estado de coisas. O específico do
Wittgenstein chama stJa estruturar8. Daí por que a "estrutura do fato
objeto é, portanto, a possibilidade de associação a outros estados de
é constituída pelas estruturas dos estados de coisas" (2.034). A estru-
coisas. E esta possibilidade constitui, precisamente, a Forma do obje-
tura não é, pois, um objeto, mas um tipo de configuração de obietos.
to (2.0141).
Muito importante para o esclarecimento da concepção ontológica
Esta categoria foi usada na tradição principalmente por Aristóte-
de Wittgenstein é sua concepção do isolamento ontológico dos ele-
les13, para significar o princípio de determinação do real, e em Kantra,
mentos fundamentaisle, a qual está profundamente ligada ao atomismo
significa a atividade doadora de sentido do entendimento ao material de B. Russell. Lembramo-nos aqui. em primeiro lugar, das distinções
proveniente da sensibilidade. No Tractatus, a categoria formars expri-
entre estado de coisas atômicos e complexos ou situações. As informa-
me a "relacionalidade" como a especiÍicidade dos objetos, de tal modo
ções do mundo nos vêm sempre por meio dos estados de coisas, e a
estrutura das situações é de natuÍeza lógica. Com a ajuda do espaço
9. Para Wittgenstein, um estado de coisas é uma vinculação de objetos. Cf. 2.01
1ógico20, Wittgenstein consegue falar da estrutura da totalidade dos
O estado de coisas é uma ligação de objetos (coisas). 2.03 No estado de coisas
-os objetos se ligam uns aos outros como elos de uma cadeia.- Cf. também: 2.0233.
2.0251. 16.2.01 I E essencial para a coisa poder ser parte constituinte de um estado
10. E. Stenius, Wittgenstein's Tractatus. A Crítícal Exposition of its Main Lines
-
de coisas. Cf.2.Ol2l,2.013, 2.0131. Assim, as coisas só podem ser conhecidas en-
ttf Tfurught. Oxford. 1960. quanto elementos de lalos.
11. W Stegmüller, "Ludwig Wittgenstein", tn; A Filosofia contemporônea, 17. Para Tugendhat, Wittgenstein interpreta o estado de coisas como um objeto
vol. l, São Paulo, 1977, pp. 190ss. concreto composto, o que confirma sua postura objetivista. Cf. E. Tugendhat, op. cit..
12. W. Stegmüller, op. cit., pp. 405ss. p. 163.
13. Met. 1037 b 2lss. 18.2.032 O modo pelo qual os objetos se vinculam no estado de coisas
14. KrV B 135/136ss.
- do estado de coisas.
constitui a estrutura
Itl 15.2.0141 A possibilidade de seu aparecer nos estados de coisas é a forma 19. Cf. E. v. Savigny, Analytische Philosophie, Friburgo/Munique 1970,
- A forma é a possibilidade da estrutura. Cf.2.0233,2.0251. A
tl<rs objetos. 2.033 pp. 43ss.
-
lt:slrcitrr do conceito de forma em Wittgenstein, cf. K. Wuchterl, Struktur und 20. A respeito das dificuldades que emergem na explicação do que seja o espaço
rl
Sltruchspiel hei Wittg,ensteln, Frankfurt am Main, 1969. lógico, cf. K. Wuchterl, op. cit., p. 25.
'rl
.) ') lJ
99
A scmântica tradicional A semântica de Wittgenstein I: teoria da figuração

r cslil(los tlc coisas, entbora os estados de coisas, quanto ao conteúdo,


se'ilrrrr scrrrl.rrc isolados. E é por isso que esse conceito, como diz
c) Teoria da ftguração do mundo

Stcgrniillcrrr, serve para elucidar a diferença entre o mundo real e o Nós pensamos o mundo. Que significa isso? Em que relação
nturrdo possível. estão mundo e pensar? Como vimos, esse é o problema fundamental
de WitQenstein, em sua segunda fase inclusive, com o qual nos situamos
Wittgenstein delende no Tractatus um duplo atomismo: em pri-
de cheio no problema clássico da verdade, ou seja, na Íeoria da cor-
meiro lugar, o mundo é a totalidade de fatos, porém fatos atômicos em
respondência, e Wittgenstein representa, sem dúvida, uma variante
si independentes. Um fato é um estado de coisas subsistente22. Um dessa teoria. O específico de sua posição consiste, precisamente, em
estado de coisas é analisável em objetos ou coisas, ou seja, em ele- compreender essa relação de correspondência como uma figuração,
mentos configurados desse ou daquele modo. recebendo no caso uma forte influência de B. Russell23. Ora, essa
Há o atomismo dos fatos e o atomismo das coisas ou objetos, isto teoria da adequação entre o pensar e o real representa muitas vezes
é, dos elementos de um estado de coisas. Resta notar que a categoria uma intuição cheia de interrogações2a. Em que sentido a associação de
coisa não designa simplesmente o que nós, na vida comum, assim objetividades reais corresponde a objetividades pensadas? Como pode
denominamos, pois o conceito de coisa em Wittgenstein é essencial- ser pensada enquanto tal uma correspondência entre dois campos
mente relacional, isto é, a coisa só é coisa enquanto elemento de um diversos? A teoria da figuração pretende ser uma resposta a essas
estado de coisas, enquanto configurada de um ou de outro modo. Um questões.
estado de coisas é, precisamente, um determinado tipo de associação Em primeiro lugar, há a constatação de Wittgenstein de que
de coisas ou objetos. fazemos figurações do mundo. Aqui podemos distinguir dois momen-
Ontologicamente, a associação tem o primado em relação às coisas, tos: em primeiro lugar, há a transformação do mundo em pensamento
embora o estado de coisas seja aqui pensado como uma espécie de e depois sua expressão lingüística. Essa distinção tem apenas valor
pedagógico, pois, de fato, esses dois momentos não se seguem um ao
objeto concreto composto (ver 2.03). Nesse sentido, pode-se falar do
outro, mas estão intimamente associados. A expressão lingüística não
atomismo das coisas, apesar da dimensão relacional já vislumbrada
é algo acidental ao pensamento, mas a expressividade é algo essencial
por Wittgenstein. O mundo não é, pois, uma coisa nem um amontoado
para o pensamento. Wittgenstein usou uma palavra perigosa para ex-
de coisas, pois do rnesmo amontoado de coisas podem ser construídos
primir a relação entre os dois pólos em questão pensamento (lin-
os mais diversos mundos. Nosso mundo real é, apenas, um ponto no
guagem) e mundo - podemos enten-
que é apalavra "imagem". Não
der isso no sentido-,de uma reprodução sensível, uma semelhança na
espaço lógico onde são pensáveis outros pontos, isto é, outros mundos
possíveis. Nesse espaço lógico estão os fatos que constituem o mundo
configuração sensível, uma cópia no sentido de uma fotocópia. Daí
real, mas poderiam estar outros, pois é possível pensar em outras por que aderimos plenamente à tradução da palavra alemã Bild por
configurações de objetos.
23. B. Russell , Philosophie. Die Entwicklung meines Denkens, Munique, 1973.
21. W. Stegmüller, op. cit. p.406: o mundo real deve ser imaginado como Na p. 179 ele define verdade como uma maneira determinada de relação com fatos.
inserido numa totalidade de mundos possíveis. Como se chega a tais mundos possí- Mais tarde ele precisou essa relação no sentido de uma relação afigurante. Cf. B.
veis? A fim de elucidar a relação entre mundo possível e mundo real, Wittgenstein Russell, An Inquiry into Meaning and Truth, Nova York, 1940. A nova definição de
introduz o conceito de espaço lógico. verdade está nas pp. 194-195.
22. 2.061 Os estados de coisas são independentes uns dos outros. 2.O4 24. Cf. K. Wuchterl, op. cit., pp. 27ss. L. B. Puntel, Wahrheitstheorien in der
A totalidade dos-subsistentes estados de coisas e o mundo. I O mundo é tudo- o neueren Phibsophie,2" ed., Darmstadt, 1983, pp.38ss; K. T. Fann, Die Philosophie
que ocorre. - Wittgensteins, Munique, I 971.
,)
,) 100 t0l
A semântica tradicional A semântica de Wittgenstein I: teoria da figuração

li,r4ttntçttrt.'l'r'irlir-sc de explicar a corespondência entre mundo e pen-


ú ) a,/14' a(gama);
(alfa) barbeia-se a si mesmo e barbeia y
siltttcrtlo (lirtguagcm). Ora, para Wittgenstein tal correspondência só é
f---1/ \ y (gama) barbeia a (alfa) e o indepen-
;xrssívc:l rluando ambos os pólos têm algo em comum, ou seja, a forma
I P l-
I

dente B (beta), que se barbeia a si mesmo e só.


v
thr rt.li,q,uruç:ão (2.161 e 2.17). Essa identidade, que permite a corres-
lxrndência, é a "forma lógica" que Wittgenstein determina como a
ll Entre mundos possíveis do modelo M2 escolhe-
mos esse que tem precisamente esses fatos atô-
"Íirrma da realidade" (2.18).
micos. Comparemos, agora, ambos os mundos. O primeiro que temos
A relação de correspondência entre os dois pólos foi muitas vezes a notar é que há uma coincidência fonnal nas constantes; ambos os
compreendida e interpretada como uma relação isomórfica (Stenius2s, mundos têm três indivíduos, um predicado monítdico e um predicado
Stcgmüller26, Kutschera'). Tal interpretação parece-me capaz de ex- diádico. Existe, pois, a possibilidade de uma coordenação assim:
primir a intenção fundamental de Wittgenstein2s. Sigo, aqui, a versão
de K. Wuchterl2e.
Consideramos dois modelos de mundo: o primeiro chamamos
a, b, c ê 0, íJ, y (ou uma outra ordem)
Ml e nele temos, primeiramente, as constântes descritivas individuais: f <-----> g
"r","b", "c", tendo os coÍTespondentes ontológicos individuais: a, b,
R <--+ T
c. Um predicado monádico f, a que corresponde uma qualidade, por
exemplo ser rico, é um predicado diático R, a que coresponde uma
relação, por exemplo, amar. Nosso mundo teria, então, os seguintes Ora, a condição de possibilidade de tal coordenaçáo é a identida-
fatos atômicos: de interna, formal de condição das constantes de ambos os modelos,
a amaa sr mesmo e a c ; c ama a e o rico b, o ou seja, ambos possuem a mesma estrutura interna, isto é, Ml e M2
ú)a4\ qual só ama a si mesmo. Para que M1 seja um possuem a mesma estrutura categorial. Isso é uma condição necessária
f---1/
lul-c
\ I
fato, todas as outras combinações não passam para a figuração de um mundo por outro, embora não seja uma con-

lt de possibilidades, como, por exemplo c ou c?,


ou seja, que c seja rico ou que c ame a si mes-
dição suficiente.
Em nosso exemplo, há mais do que identidade de estrutura, mas
mo. Ao lado de Ml escolhemos um segundo modelo, M2, que perten-
ce a um campo completamente diferente. Neste caso, as constantes também algumas determinações externas, acidentais são completa-
descritivas individuais seriam a, P, y (alfa, beta e gama), o predicado mente idênticas. Por exemplo, as qualidades / e g são atribuídas aos
monádico g, e o predicado diático I a qualidade é ser independente, mesmos indivíduos, ou seja, aos indivíduos que na coordenação são
a relação barbear. Então, podemos visualizar o que é expresso formal- correspondentes.
mente assim:
No caso, além da idêntica estrutura interna se realiza também a
identidade da estrutura externa. A identidade da estrutura externa pres-
25. E. Stenius, op. cit.
supõe a identidade da estrutura interna. Ora, o isomorfismo nada mais
26. W Stegmüller, op. cit., pp. 4l2ss.
27. K. Kutschera, Sprachphilosophie,2" ed., Munique,1975, pp. 133ss. Kenny, é do que essa identidade estrutural, no caso entre dois mundos diver-
op. cit., pp. 70ss. em que Kenny apresenta a teoria da figuração na forma de uma sos,e M2 pode ser considerado uma figuração isomórfica de Ml.
ll teoria geral da apresentação (exposição). Dizer que entre Ml e M2 há uma figuração isomórfica significa dizer
28. Para uma crítica a essa interpretação, cf. R. A. Dietrich, Sprache und
Wirklichkeit in Wíttgensteins Tractatus, Tübingen, 1973 pp. 47ss.
que há uma identidade de estrutura. O isomorfismo é, pois, uma rela-
29. Cf. K. Wuchterl, op. cit., pp. 27ss. ção entre relações.
't
fl I02 r03
r
A scntântica tradicional A semântica de Wittgenstein l: teoria da .f'iguraçào

Assrr r r: Wittgenstein afirma uma identidade estrutural entre o rnurrrkr


dos fatos e o mundo do pensamento, isto é, a estrutura do pensa-
mento corresponde à estrutura do mundo. Só quando se realiza tal
Ô,^ condição, podemos dizer que alguém tem pensamentos sobre o

trlL! e
mundo, e com isso Wittgenstein encontra sua resposta ao problema
rsoMoRFrsMo
= É5 da verdade. As dificuldades da teoria da verdade enquanto adequa-
ção manifestam-se, em primeiro lugar, na impossibilidade de com-
parar conteúdos intelectuais com coisas reais. Assim as observa-
A figuração diz respeito à identidade estrutural, isto é, os objetos ções de Heidegger3t sobre a frase: esta moeda é redonda? Em que,
I

podem pertencer a mundos diversos, mas sua configuração é a mesma. pergunta Heidegger, devem adequar-se a frase e a coisa, já que
A Íiguração, por exemplo, no caso M2, reproduz adequadamente a ambos são totalmente diferentes: a moeda é de metal; a frase não
estrutura de Ml; por isto, M2 náo é uma coisa, mas uma configuração é, de modo algum, material? A moeda é redonda, a frase não tem
de coisas ou objetos, isto é, um fato. nenhuma espécie de quantidade. Em que sentido tal frase é verda-
deira, como se adapta ao real? Procura-se resolver o problema
Aplicando tudo isso à problemática do Tractatus, então: M1
tendo como pano de fundo um conceito ingênuo de imagem. Para
significa o mundo real, MZ seria o mundo dos pensamentos certos
Wittgenstein não há problema, pois as relações no mundo real não
a respeito da realidade. O mundo real tem uma estrutura determi-
são relações objetais, mas de ordem lógica. As relações do pensa-
nada porque se mostra nos diversos tipos de fatos. Podemos ana-
mento são também de ordem lógica, e a verdade é a identidade
lisar cada fato para conseguir seus elementos, isto é, os objetos ou estrutural entre esses dois tipos de relação. Há, pois, uma corres-
coisas. Fazemos figurações isomórficas dos fatos do seguinte modo: pondência entre a conexão dos elementos da figuração e a conexão
"Na figuração, seus elementos correspondem aos objetos" (2-13). dos objetos nos estados de coisas (2.O32). Verdade nada mais é do
"Os elementos da figuração substituem nela os objetos (2.131). que a identidade das estruturas das coisas e do pensamento.
Para Wittgenstein, essa correspondência só é perfeita quando há
uma identidade de estrutura interna e externa30, ou seja, o isomor- É nesse sentido que Wittgenstein fala de figurações verdadeiras
e figurações falsas (2.17). As Íigurações verdadeiras, como vimos, são
Ílsmo só se realiza quando há identidade categorial e de estrutura
isomórficas. Que são, então, as falsas? Para poder falar de falsidade,
externa.
temos de pressupor uma figuração; e para que haja uma figuração é
Neste caso, e somente neste caso pode-se falar de uma figuração necessário haver, pelo menos, uma identidade da estrutura intema. Um
verdadeira (ver 2.15 e 2.151). Verdadeira é entendida aqui como pensamento falso é, assim, também uma figuração, isto é, uma figu-
isomorfismo, isto é, como identidade de estrutura interna e externa, ração falsa, precisamente porque não há identidade de estrutura exter-
havendo uma comparação entre a proposição e o real (4-05). Isso deve na. Quando não há nem identidade de estrutura interna, então não há
ser entendido no sentido da afiguração sistemática acima explicada, propriamente pensamento, mas apenas disparate. Podemos visualizar
como uma relação entre relações, uma identidade estrutural. a coisa conforme o esquema da página seguinte:

30. Cf. G. Patzig, Sprache und Logik, Gõttingen, 1970, pp. 49ss. A respeito de 31. M. Heidegger, Vom Wesen der Wahrheit, 4u ed., Frankfurt am Main,
urna interpretação diferente da de Patzig, cf. W. Sellars, Science, Perception and 1961, pp 1Oss. E. Tugendhat, Der Wahrheitsbegriff bei Husserl und Heidegger,
ll«tlit,-, Nova York, 1966. Berlim 1967.

I04 105
A semântica tradicional A semântica de Wittgenstein I: teoria da figuração

ESTRUTURA falsa. Wittgenstein, como diz Stegmüllerr2, rejeita todo apriorismo


§ sintético: "Não é possível reconhecer apenas pela figuração se ela é
IGUAL DIFERE NTE
verdadeira ou falsa" (2.224). "Não existe uma figuraçáo a priori

ll
il
ii verdadeira" (2.225). Por outro lado, uma figuração falsa, como vi-
i
t mos, não representa um fato mas um estado de coisas possível (portan-
i;
-/ FTGURAÇÕES\ RATE
DISPAR
to algo que poderia ser um fato) (2.202), que Wittgenstein chama de
,"\ sentido: "O que a figuração representa é seu sentido" (2.221). A
IGUALDADE)DE
DE DIFERENÇA DE
TA
ESTRUTURA ESTRUTURA verdade ou a falsidade se decidem pela correspondência ou não do
EXTERNA\ EXTERNA sentido à realidade: "Na concordância ou na discordância de seu
sentido com a realidade consiste sua verdade, ou sua falsidade"
PENSAMENTOS PENSAMENTOS
(2.222). Nesse sentido, a forma da afiguração é apenas apossibilida-
VERDADEIROS FALSOS
de de que as coisas se configurem de fato, como os elementos da
(FIGURAÇÕES (FIGURAÇÕES figuração (2.151).
VERDADEIRAS) FALSAS)
Tudo que dissemos até agora sobre o pensamento tem sua limi-
(rsoMoRFrsMos) tação básica em virtude da abstração pedagógica que efetuamos, isto
é, da separação entre pensamento e linguagem, no sentido de deixar-
O critério das figurações é, pois, a própria estrutura do mundo mos de considerar a expressão sensível do pensamento que é a
-
linguagem. Seria errado concluir da abstração pedagógica realizada
que Wittgenstein põe em relação com a forma da figuração. Mesmo no
que o pensamento se constitui de entidades intelectuais independentes
caso das figurações falsas, há algo de comum entre o pensar e o real,
da linguagem. Não é assim para Wittgenstein: "O pensamento é a
que é a identidade da estrutura interna, ou seja, da forma da figuração
proposição significativa" (4), e a linguagem se refere diretamente ao
(.2.11).'A figuração pode afigurar qualquer realidade, cuja forma ela
mundo objetivo. Trata-se, poftanto, de dois fatos fundamentais: o mundo
possui. A figuração espacial, tudo o que é espacial; a colorida, tudo o -ôomo
fato e a frase como fato, o qual expressa o pensamento do
que é colorido etc." (2.171).
mundo. A linguagem se compõe, para Wittgenstein, da totalidade de
Quando se fala da afiguração da realidade enquanto tal, então todas as frases (4001). As frases, por sua vez, se distinguem em com-
a qualidade universal das figurações é a forma lógica (2.18). Nesse plexas e elementares. As frases elementares são uma conexão, um
sentido, toda figuração é também lógica. Ora, o pensamento é pre- encadeamento de nomes (4.22) Nelas são empregados os signos pro-
cisamente a figuração lógica dos fatos (3), e a figuração é lógica posicionais para a expressão do pensamento (3.12). Como o pensa-
precisamente por ser uma figuração do pensamento, daí a íntima mento ou a figuração não são coisas, mas fatos, assim também a frase
relação entre o pensamento significativo e a lógica: "Não podemos não é um objeto, mas tmfato, pois a constituição do signo proposicional
pensar nada ilógico, porquanto, do contrário, deveríamos pensar ilo- consiste na configuração específica de seus elementos (3.14), embora
isso infelizmente não seja perceptível na forma comum de expressão
gicamente" (3.03). Pensar é afigurar; a forma da figuração é lógica:
(3.143) . É por essa razão mesma que Frege considera a frase um
quando, pois, pensamos realmente, realizamos a estrutura lógica do
nome composto. Sendo a frase não um nome, nem mesmo composto,
mundo.
mas um fato, então sua essência está na estrutura, ou se.la, na relação
Em suma: uma figuração verdadeira representa um fato e conside-
rando só a figuração mesma não podemos saber se ela é verdadeira ou 32. W. Stegmüller, op. cit., p. 415.

I06 t07
A scmânlica Íradicional A semântica de ein I: teoria da

rllrs prrlirvlrrs ('nttc si (3.14) e (3.141) e é esse tipo de relacionamento b) "É falso: o rei da França ó c'r,j.so.,'A negação externa diz
(llrc (l('l('r'nlinir ricr.l sentido. Os elementos do signo proposicional são respeito à não-existôncia tla situaçã. pensada na frase positi-
tlcrrorrrinrult)s por Wittgenstein "signos simples" (3.201) ou palavras va, enquanto a negaçãO intcrna clcsigna urna outra situação, no
(.1.14) ou nomes (3.202). caso a covardia do rci da França. Ntl caso das Íiases elemen-
Há, entre os intérpretes de Wittgenstein, uma grande disputa para tares, em ambos os casos há a ncgação da situação, pois, de
dcterminar o que ele realmente pensou com as frases elementares. acordo com wittgenstein, não hi:r Íiascs elcrnentarcs negativas.
Ascombe33, por exemplo, procurou mostrar que elas seguramente não
A falsidade de uma frase elementar signilica, scmpre, a não_
são frases de base na expressão proveniente do Círculo de Viena, e existência do estado de coisas.
Stegmüller insiste em que elas não são frases da linguagem coÍrente:
5. Elas são concatenações de nomes, os quais são absolutamente
"Wittgenstein, em contrapartida, entende como proposição elementar signos simples (4.22).
o correlato lingüístico de um estado de coisas atômico, portanto de um
elemento da série (5). Analogamente, os nomes não são designações de
d) As estruturas lógicas: a forma tógica e o sentido
quaisquer objetos da experiência, mas designações de coisas atômicas
(indivíduos, atributos) que aparecem em tais estados de coisas"3a.
A linguagem é a figuração do mundo. A linguagem consta de
Quais são as propriedades características das frases elementares? frases elementares, cuja conexão é o objeto de estudo da lógica. As
G. E. M. Ascombe35 formula cinco: frases complexas manifestam uma estrutura rógica sobre a qual fala-
mos agora' como vimos, a hguração da realidade pressupunha algo de
l. Elas são uma classe de proposições mutuamente independentes.
comum entre a figuração e o figurado que wittgenstein denominou
Assim como os estados de coisas são independentes entre si, as
"forma lógica". A forma lógica é, assim, a condição de possibilidade
frases elementares e enquanto tal formam a pressuposição de
de qualquer figuração e, enquanto tal, não pode ser figurada: ,A figu_
uma teoria das frases complexas.
ração pode figurar qualquer realidade, cuja forma ela possui" (2.171).
2. Elas são essencialmente positivas. Para Wittgenstein, negações de
frases elementares não são mais frases elementares, pois elas já
"Sua forma de afiguração, contudo, a figuração não pode afigurar;
são compostas. apenas a exibe" (2.172), isto é, a identidade de estrutura é a condição
3. Elas são assim que para cada uma delas não há dois caminhos de possibilidade da afiguração. ora, tal condição para wittgenstein
para ser verdadeira ou falsa, mas apenas tm (4.25). não pode, por sua vez, tornar-se o conteúdo de uma figuração. O
4. Elas são assim que nelas não há distinção entre negação interna lógico é pressuposição e, portanto, não figurável. ,A proposição pode
e externa. Ascombe entende essa distinção do seguinte modo: representar a realidade inteira, não pode, porém, representar o que ela
consideremos uma frase positiva qualquer, por exemplo "o rei da deveteremComumcomarealidadeparapoderrepresentá-l
França é corajoso", então há duas formas de negação: forma lógica. Para podermos representar a Íbrma rrígica, seria preciso
colocar-nos com a proposição Iilra da lírgica; a saber, Íbra do mundo"
a) "O rei da França não é corajoss" negação interna;
- (4.12).

33. G. E. M. Ascombe, An Introduction to Wittgenstein's Tractatus, Londres, A figuração possui duas funções:
1959, p. 31.
34. W. Stegmüller, op. cit., p. 120.
1. Apresentar algo, isto é o algo sentido de.
3-5. G. E. M. Ascombe, op. cit., p.31. R. A. Shiner, "Wittgenstein on the 2. Mostrar algo, ou seja, na figura algo se mostra, isto é, sua estru_
Beautiful, The Good and the Tremendous", in The British Joumal of Aesthetics 74 tura; em outras palavras, se mostra a própria forma lógica, que é
(1914) 258-271. condição de possibilidade da afiguração; portanto, aquilo que
'iy
ily 108
109
A scmântica tradicional A semântica de Wittgenstein I: teoria da figuração

eí prcssuposto como condição de possibilidade da figuração é dade, flp não tem uma qualidade nova da realidade. A mesma realida-
ol'r.icto dc um conhecimento indireto, se podemos falar assim, já de é transmitida por ambas as frases, mesmo quando o sentido das
quo no compreender uma figuração pressupõe-se um ver da es- frases é oposto. Podemos esquematizar, visualizando a coisa do se-
trutura que nela se mostra: "O que se exprime na linguagem não guinte modo:
podemos expressar por meio dela. A proposição mostra a forma
lógica da realidade. Ela a exibe" (4.121). l. Sentido "p"
A partir de 4.12, Wittgenstein aplica esses pensamentos às frases Subsistência
e conclui que tudo o que se pode dizer do mundo é, pois, objeto das (ou não-subsistência)
ciências naturais, as quais podem formular claramente seus conheci- Realidade significam o mesmo
mentos (4.116 e 4.11). As sentenças devem ter como conteúdo a pres-
suposição da afirmação, ou seja, a forma lógica. Para poder afigurar 2. Sentido "flp"
a forma lógica, teríamos de nos pôr, com as frases, fora da lógica, isto Não-subsistência
é, fora do mundo (4.12). (ou subsistência)
Em seguida vêm as frases decisivas de Wittgenstein a respeito do
Inefável36 e, portanto, sua proclamação do desaparecimento da filoso- Que o sentido é contraposto mostra-se na própria forma das sen-
fia tradicional enquanto sistema de frases absurdas. tenças p e flp. Ter sentido para uma sentença significa para Wittgenstein
ser verdadeira ou falsa. Toda sentença possui dois pólos que consti-
Wuchterl3T, em seu comentário do TractaÍu,s, apresenta como
tuem seu sentido, isto é, o pólo da verdade ou o pólo da falsidade. O
exemplo paÍa a compreensão da doutrina de Wittgenstein uma "frase valor de verdade não é atribuído, posteriormente, ao sentido, mas o
elementar" qualquer, por exemplo p. Essa é uma figuração da realida- sentido mostra-se precisamente no poder ser verdadeiro ou falso. (Isso
de e contém uma forma lógica, ou seja, precisamente o que há de contrapõe-se à semântica de Frege). Sendo assim, nada corresponde na
comum entre o real e a sentença. O mesmo que diz p pode também realidade ao sinal de negação, ou seja, a constante lógica n não repre-
ser dito por flp. Se p é uma sentença elementar, então sua negação não senta nada. Ora, esse resultado sobre a negação é aplicado a todas as
pode ser tal, isto é, flp não pode ser interpretada como figuração de um constantes lógicas que, poftanto, nada representam, como também a
determinado estado de coisas. Se dizemos, por exemplo, que a senten- estrutura da sentença que não afigura, mas é condição de possibilidade
ça "o céu é aztJl" é uma frase elementar verdadeira, então ela afigura da afiguração.
o fato de que o céu realmente é azul. A negação náo é, porém, uma
Na mesma situação se encontram os conceitos .formais que toda
figuração do não-ser-azul do céu. Ela fala do mesmo, só que em vir-
linguagem pressupõe como sua condição de possibilidade: "Não é
tude da falsidade de flp isso não existe. possível exprimir por uma proposição que algo cai sob um conceito
A proposição representa precisamente a subsistência e a não- formal como um objeto dele. Isso se mostra, porém, no signo desse
-subsistência dos estados de coisas (4.1). As sentenças tôm um sentido próprio objeto. (O nome mostra que designa um objeto, os signos
contraposto, mas "corresponde a elas uma e a mesma realidade" numéricos que designam um número eÍc".) (4.126). Qualquer objeto
(4.0621). Então, quando p nos transmite um certo conteúdo da reali- que cai sob um conceito formal pressupõe esse conceito e, assim,
l)r
indiretamente, fala, diz, anuncia esse conceito. Conceitos formais,
,) 36. K. Wuchterl, op. cit., pp. 42ss. portanto, não afiguram, mas pertencem à forma lógica, ou seja, às
37. Cf. J. M. Terricabras, op. cit., p. 163. condições de possibilidade de qualquer afiguração.
,,1

rl) II0 I11


A *'ttr,ittlitrt lt rt,liLiott,tl A semântica de Wittgenstein l: teoria da figuraçãtt

e) A lrttriu dus .lfunções de verdade A proposição é, essencialmente, descritiva: ela é a articulação de uma
constatação.
A totalidade das frases elementares fornece a totalidade do saber Linguagem só existe como tematizaçáo de constatação: pela lin-
sohr.c tl rlundo. Esse saber pode ser expresso em diferentes modos, guagem descrevemos eventos no mundo; o mundo mesmo, porém' é
crn fiases complexas, inclusive. Todas as nossas frases, na medida em indizívet. Aliás, não só não posso falar do mundo como também não
que são frases autênticas, são marcadas em seu ser verdadeiro ou falso, posso falar da própria linguagem, isto é, wittgenstein defende no
a partir dos valores de verdade das frases elementares. Uma frase com- Tractatus a impossibilidade de metalinguagem. Uma metalinguagem
plexa é verdadeira quando são verdadeiras suas frases componentes. Por para ele não figuraria o mundo, mas o arcabouço da afiguração - a
isso ela é chamada função de verdade das frases componentes. Daí: estrutura lógica. Mas isso, para Wittgenstein, como vimos, é absurdo,
4.52. pois aí nada há a af,rgurar, uma vez que se trata da condição de pos-
Wittgenstein defende, pois, no Tractatus a tese da universalidade iiUinauO" de afiguração. Nada do objetivo corresponde à estrutura
das funções de verdade.Isso significa a eliminação de todos os modos lógica que pudesse fornecer conteúdo para a afiguração lingüística. A
da linguagem como a negação da possibilidade de descrição de atos *Étulinguugem não passa, pois, de uma ilusão. A estrutura da lingua-
intencionais de qualquer espécie. Processos de fé, dúvida, desejo não gem é indizível, apenas se mostra.
podem, dentro desse contexto, ser objetivados e expressos em frases Foi a isso que se convencionou chamar o misticismo lógico de
plenas de sentido. São considerados pseudocomportamentos com in- Wittgenstein38. Por meio da linguagem, ele chama a atenção para aquilo
tenções não-objetiváveis. Da dúvida, da fé, só se pode falar quando que está para além de qualquer linguagem como sua condição de
elas condicionam um comportamento externo objetivo que, no sentido possibilidade. A linguagem leva, pelo que eladiz, à apreensão do que
do behaviorismo, pode ser tomado no campo do figurável. De acordo, nao pode ser dito. Pela linguagem sou levado à presença do Inefável
poftanto, com essa teoria as frases elementaÍes determinam totalmente e com isso, por meio do discurso, me elevo acima de todo discurso'
as frases complexas. Como diz muito bem J. Ladriàre3e: "r{â, na linguagem, uma presença
Nesse sentido, a linguagem para Wittgenstein é, em última anâ- da realidade que está além do mundo, existindo, pois, uma ultrapas-
lise, apenas uma descrição do mundo: 'A realidade inteira é o mundo" sagem do mundo que se efetua através da linguagem, mas não há
i (2.063). A proposição é figuração da realidade' 'A proposição é mo- diicurso metafísico no qual essa ultrapassagem e essa realidade pode-
delo da realidade tal como a pensamos" (401). O especíhco da propo- riam ser expressas". Por isso, também o discurso sobre o discurso não
sição é ser verdadeira ou falsa: é verdadeira se exprime um estado de tem sentido.
coisas que, de fato, está realizado: "Compreender uma proposição e Em tudo isso se pode notar que a semântica no Tratado se dis-
saber o que ocoÍre, caso ela seja verdadeira" (4.024)' 'A proposição tingue em alguns pontos da semântica tradicional. Talvez o mais no-
é a descrição de um estado de coisas" (4.025).'A proposição mostra,
l,' se verdadeira, como algo está. E diz que isso está assim" (4.022)- Ela
tório seja o fato de que Wittgenstein concebeu predicados e sentenças
não como objetos, mas como relações e, poftanto, como fatos' Com
é falsa se exprime um estado de coisas que não é fato. O sentido de isso, a função da linguagem se manifesta não somente como designa-
uma proposição é a possibilidade que ela tem de poder ser reconhe-
cida como verdadeira ou falsa, isto é, um sentido de uma sentença são l99l-
38. Urbano zilles, o racional e o místico emwíttg,enstein, Porto Alegre,
as circunstâncias que permitem decidir sobre sua verdade ou falsidade, cf., a respeito «le uma comparação enlre wittgenstein e Hegel: v. Hôsle, Die Krise der
ou seja, as condições de sua verificação, pois "cada proposição já Gegenwàrt und die Verantn*ortung der Philosophie. Transzendentalpragmatik,
deve possuir um sentido; a afirmação não the pode dar porque afirma Letztbegründung, Ethik, Munique, 1990, pp. 74ss'
precisamente o sentido. E o mesmo vale para a negação etc." (4.064). 39. Cf. J. Ladriàre, A articulação do sentido, São Paulo, 1977, p' 69'

II]
112
(
A semântica tradicional

ção c cx1rlcssão, mas, também, como coÍrespondência da estrutura


catcgorial das expressões à estrutura categorial da realidade. A natu-
rcza prcdicativa dos atributos é mediada pela natureza predicativa das
rclaçõres predicativas sinfáticas, e a estrutura interna dos fatos é mediada
pela estrutura interna das sentenças enquanto fatos lingüísticos. Ape-
sar disso tudo, ele permanece no horizonte aberto pela semântica tra-
dicional: assim, para ele, nomes designam objetos, predicados, clas- PenrE II
ses. A importância da semântica de Wittgenstein se manifesta com
mais evidência pelo fato de ela ser um excelente exemplo do que é o
horizonte de pensamento da semântica tradicional: ele tematiza e de-
senvolve explicitamente os pressupostos ontológicos da semântica tra-
dicional, bem como a tese da correspondência ou da coordenação
entre linguagem e realidade que é, sem dúvida, uma das teses tradicio- REVIRAVOI-.'TA
nais e centrais da semântica do Ocidente, isto é, sua teoria da verdade.
PRAGTVTÁTTCA

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PRAGMATICA ANALITICA
A segunda filosofia de Wittgenstein

\(.
{
olfgang Stegmüller tem razáo quando fala em duas filosofias
de Wittgenstein. Sem dúvida, já o vimos antes, a problemática
i

fundamental permanece a mesma. No entanto, a perspectiva segundo


I a qual essa problemática é considerada muda radicalmente na segunda
fase clo pensamento de Wittgenstein, de tal modo que não se pode
consiclcrar csta Íàse como um desenvolvimento linear da primeira.
I Muito pclo contrírrio, Wittgenstein desenvolve seu pensamento na
segunda fase corlro urna crítica radical à tradição filosófica ocidental
da linguagem, cuja cxprcssho últirrra havia sido precisamente o
Tractatus. Em suma, sua obra da scgunda Íirsc cncontra-se em funda-
mental oposição com a da prirneira, lncsr)lo quc o problema central
permaneça o mesmo. Wittgenstein, depois dc tcr abandonado a filo-
sofia por coerência com o Tractatus, passou por unla lonta e dolorosa
transformação espiritual desde mais ou menos 1930 até o Í'im de sua
vida. e as lnvestiguç'ões Filo.só.ficas sào. propriarncntc. lr expressãr.l
t: desse itinerário de seu pensamento. Ele se laz, pouco a pouco,
implacável crítico de si mesmo e submete todo o seu pensamento
fl u,
a uma crítica rigorosa. A mudança operada em Wittgenstein che-
gou a exprimir-se na própria exposição de suas idéias. O Tractatus
é um exemplo de ordem e de um pensamento concatenado, que
lt7
llr: v i r u vo I la p ragmát ica Pragmática analítica

corrllrrlrr s('us l)ilssos. As InvestigaÇões Filosóficas são, pelo menos da linguagem no Ocidente, desde o Crtitilo de Platão até sua ex-
rtrrrrr llrirrrciro rnomento, ininteligíveis, não tanto em virtude da plicitação no Tractatus de Wittgenstein. Trata-sc, agora, não simples-
lirrgrurgcnr (considerada obra-prima da literatura alemã), mas por- mente de repetir em forma sumária o que foi antes visto, mas de tentar
rltrr: tliio a impressão de não ter um fio condutor e ser, simplesmen- captar a interpretação que o segundo Wittgenstein dá a essa tradição
tc, urna apresentação desordenada do autor sobre os mais diversos de pensamento, uma vez que ela é o ponto de referência constante,
tornas, isto é, uma espécie de reflexão em voz alta, sem nenhuma explícito ou implícito, de todas as suas considerações.
coordenação dos pensamentos entre si e sem que o autor, em muitos
casos, chegue a exprimir explicitamente o resultado das longas
dialéticas de tese e antítese, por meio das quais procura apresentar TEORIA OBJETIVISTA DA LINGUAGEM
seu pensamento.
O pensamento do segundo Wittgenstein é, em contraposição a) A concepção instrumentalista da linguagem A linguagem
ao da primeira fase, essencialmente anti-sistemático, por razões a
reduzida a sua função designativa
-
que nos referiremos depois. Por tudo isso, a interpretação do se-

gundo Wittgenstein é uma tarefa muito árdua que vai implicar uma Desde o Crátilo de Platão, a linguagem é considerada como ins-
certa opção de trabalho diferente de acordo com as diversas fina-
trumento secundário do conhecimento humano. O mundo conhecido
lidades em questão. De certo modo, interpreta-se Wittgenstein contra
reflete-se valendo-se das frases da linguagem. Há, pois, uma relação
ele mesmo. já que. inevitavelmente. se faz uma certa sistematiza-
entre linguagem e mundo, realizada por meio do caráter designativo
ção de seu pensamento, a não ser que se pretenda uma pura repe- palavras são significativas na medida mesma em que
tição, até textual, do que ele escreveu. Nossa opção é relativa às Qa linguagem: as
designâm objetos (IF 1,27,40). Para saber qual é a significação de
finalidades propostas neste trabalho..Trata-se, no caso, de saber
uma palavra qualquer, temos de saber o que é por e1a designado2.
contra o próprio Wittgenstein. como veremos. o que constitui para
ele a linguagem enquanto'linguagem, levando em consideração Na realidade, para a execução dessa tarefa de comunicação do já
acima de tudo o problema da significação,.4ue constitui o proble- conhccido sem a linguagem, a linguagem sempre foi vista pela tradi-
ma central da teoria ocidental da linguagem humana. E preciso ter ção como uma mediação necessária. Nesse sentido, poder-se-ia falar
sempre em mira essa opção para que não confundamos a presente que a linguagem é condição de possibilidade da comunicação do re-
interpretação com a apresentação do pensamento enquanto tal do sultado do conhecimento hurnano, porém nunca, também não no
segundo Wittgenstein. A opção implica escolha de alternativas e, Tractatus, é condição de possibilidade do próprio conhecimento hu-
,t
portanto, limitação de ótica. Para a reaTizaçáo de nossa tarefa, mano, pois, pelo menos implicitamente, contrariando talvez alguma
,i
i parece-me muito valiosa a sugestão de Eike von Savignyr, ou seja, afirmação explícita, Wittgenstein aceita no Tractatus a tese tradicional
de, em primeiro lugar, expor a teoria da linguagem que durante do caráter secundário, designativo da linguagem humana. Wittgenstein
todo o livro é objeto central das críticas de Wittgenstein; em se- não vai negar o caráter designativo da linguagem, mas vai rebelar-se,
I
gundo lugar, apresentar os argumentos propostos pelo próprio fortemente, contra o exagero da tradição posição assumida também
Wittgenstein contra tal teoria. e. por fim. tcntar upresentar posi- no Tractatus
-
de ver na designação a principal e até mesmo a única
tivamente a própria teoria de Wittgenstein. Já examinamos a teoria -
['
2. Wittgenstein apresentii, logo no início de seu livro. a conccpção tradicional
,l
,rl l. E. v. Savigny, Die Philosophie der normulan Sprache, Frankfurl am Main. da iinguagcm. que ele depois vai chamar de "concepção agostiniana". Cl'. IF'4 (1rne^r-
I 969 tigaç'ões Filo.sófk'us, citâdo dc acordo com a edição da Suhrkarnp Verlag de 1967).
,rf
rl ll8 I t9
lil vi ravo lta pragmática Pragmática analítica

Í'unçiio tlir lirrgrrirgcrn. Precisamente nisso vai consistir para ele a limi- conhecimento verdadeiro consiste na captação da essência imutável
tlçiio tll likrsolla ocidental da linguagem3. Essa teoria designativa da das coisas, o que, precisamente, é depois comunicado pela linguagem.
lirrguirgcnr assumiu duas formas: há os que afirmam que as palavras A diferença entre sensibilidade (aisthesis) para o entendimento
tlcsignarn pura e simplesmente as coisas singulares, pois, além de (dianoia) e a razão (nous) consiste na passagem do mutável e transi-
coisas singulares e palavras, nada existe. Ou, então, numa outra linha tório para o permanente, imutável, ou seja, aquilo que constitui as
rnuito mais forte na tradição ocidental, diz-se que com uma palavra se coisas em seu ser próprio: a essência7. Sem conhecimento da essência
podem designar muitas coisas, porque as palavras designam não coi- não há, para a tradição, conhecimento propriamente verdadeiro (IF
sas singulares, mas a essência comum a muitas coisasa. O comum a 72, 73,74).
todas elas é a essência é aquilo qtefaz com que a cadeira seja cadeira,
por exemplo. A palavra cadeira, portanto, designa a essência dessa Fm suma, as palavras têm sentido porque há objetos que elas
realidade do mundo, ou seja, seu "conceito"s. designam: coisas singulares ou essências. Esses objetos são dos mais
diferentes tipos, havendo mesmo objetos muito especiais, os fatos, as
A tradição de pensamento sempre pressupôs uma isomorfia en- situações objetais, designados pelas frases. A última forma dessa teo-
tre realidade e linguagem: porque há uma essência comum a um de- ria no Ocidente é, exatamente, a teoria da afiguração como correspon-
terminado tipo de objetos é que a palavra pode designá-los e assim dência estrutural entre frase e estado de coisas, respectivamente, fatos,
aplicar-se a diferentes objetos que possuem essa essência6. A palavra
elaborada no Tractatus. A frase representa, por semelhança estrutural,
designa, precisamente, não a coisa individual, mas o comum a várias
o estado de coisas por ela referido. A teoria do Tractatus significa,
coisas individuais, ou seja, sua essência. Para a metafísica clássica, o
assim, uma reformulação da teoria tradicional da semelhança entre
linguagem e mundo. Já que a linguagem não passa de um reflexo, de
3. Cf. as críticas de Wittgenstein a essa concepção: J. M. Terricabras, Ludwig uma cópia do mundo, o decisivo é a estrutura ontológica do mundo
Wttgenstein. Kommentar und InÍerpretation,FrtburgolMunique, 1978, pp. 337ss.
4. Na Politéia, 596 a 6ss, Platão diz que, para cada classe de coisas que desig-
que a linguagem deve anunciar. A essência da linguagem depende,
namos com o mesmo nome, cada vez pressupomos "uma" idéia. Ele nomeia como assirru em última análise. da estrutura ontológica do real. Existe um
exemplos mesas e cadeiras. As muitas mesas e as muitas cadeiras têm o mesmo nome, mundo em si que nos é dado independentemente da linguagem, mas
porque ambos dependem causalmente de um protótipo comum. Wittgenstein vai pre- que a linguagem tem a função de exprimir.
cisamente mostrar nas Investigações Filos(tficas por que o Íilósofo, sem o perceber,
termina caindo vítima de erros e conÍusões. E o que mantém o filósofo preso a isso? Foi por ter radicalizado no Tractatus tal posição que Wittgenstein
É justamente essa idéia de que há algo comum, idéia que nos é fornecidá pela lingua- se deixou guiar pelo ideal de uma linguagem perfeita, capaz de repro-
gem, que possui uma única palavra para coisas diferentes. Cf. IF ll. 94, 109. Já no
duzir com absoluta exatidão a estrutura ontológica do mundo. A lin-
Tractatus ele afirmara: 4.002: 'A linguagem veda o pensamento"... Por essa razáo, "a
rl
filosoÍra é uma luta contra o enfeitiçamento de nosso entendimento pelos meios de guagem deveria ser uma imagem hel do real, e como a linguagem
I nossa linguagem" (IF 109), ou seja, sua função é emancipatória, no sentido de libertar cornum sc mani['esta che ia de imprecisões, indetermina ações etc. tra-
i
o filósotb de seus problemas, o que só poderá acontecer pela tomada de consciência tava-sc, cnlão, dc cortccbcr urna linguagern ideal, que seria a medida
da gramática de nossas palavras, uma vez que a linguagem é o último pelas confusões
de qualquct' linguagcrns. Essa linguagcrrt itlcal scria uma linguagem
, filosótlcas. Cf. W Spaniol, Filosofia e Método no Segundo WitÍgenstein. [Jma luta
L'ontra o enfeitiçamento do nosso entendimento, São Paulo, 1989, pp. 91-92.
artiÍicial constmída scgurrclo o rl«lclclo dc urn círlculo ltigico e consti-
I
5. Para Aristóteles, a palavra "sendo" (o ente) se diz em diferentes signiÍica-
ções: Metafísica IV 1003 a 33. No entanto, pode-se pergunrar pela unidadc dessas 7. Cf. E. Heintel, Die beiden Lubyrinthc ltr l'hilo.to1tlti,, vol. l, Vicna/Muni-
l}* ditêrentes significações, e essa questão se resolve para Aristóteles na medida em que quc, 1968, pp. ll5ss.; Grundri,çs der Dialekrik, vol. I, l)arrnstirdt, l9ll4, pp.226-235.
todas as significações se referem a uma significação e essa significação é a oasirr, que 8. A questão que aqui se põe é a respeito da "justilicação dos princípios" dessa
rrl os latincrs traduziram por substunÍiu ou e.ysentia. linguagern normativa. Cf. V. Hôsle. Die Krise der (iegtnwrrt unl lie VaranÍwortung
6. Politéiu.509 d--5 I I e. Phiktsophie. TranszendentalpragmuÍik, Letz.begriindung, l':thik, Munique, 1990, p.72.
rf
rl I20 t2l
llL vi ra vo I t d f ragm atica Praqmática analítica

Itri. rro plinrciro pr:ríodo de Wittgenstein, como vimos, o centro de gem humana enquanto humana, e são objeto de vivências individuais,
sturs corrsitlclirçocs. Trata-se, em última análise, de atingir a precisão já que dependentes, enquanto açõeq, da vontadc dos indivíduos que os
rrllsolrrlir rro caráter designativo das palavras. produzem. \-
"'. rl: L. in
*.1 O ter-eln-,rnente, por exemplo, sobre o que Wittgenstein fala tan-
h) Concepção tradicional de espírtb e atos espirituais
tas vezes,nas Investiguções Filosóficas, tem*..como lunção principal,
conceder'sêntido
''
ao falar e, com isso, fazer gom qqe um fenômeno
I

A concepção tradicional da linguagem esteve sempre ligada a físrco ültrapasse o plano fisico e'âtinja o plano da significação. Se
ccrtas concepções antropológicas, de modo especial concepções a pretendo, por exemplo, com X, Y, Z significar que agora estou dando
respeito do espírito dos atos espirituais. O pensamento tradicional foi, aula, isso depende, unicamente, de minha capacidade de realizar esse
eminentemente, um processo classificatório, tendendo a uma classifi- ato significativo, uma vqz que a g1prgssã-o lingiístiça escolhida é,
cação dos entes, a sua distinção a partir dos elementos essenciais. segundo a tradição, apenas o instrumento para exprimir um ato espi-
Determinar a essência de algo significou, na metafísica clássica, esta- -rituql, em si mesmo não-lingüístico. A coincidência na identidade da
belecer o lugar ocupado por algo no todo, traçar seus limites com slg1f&pgaq das. palavras é frutq da convenção, já que, em princípio,
outras realidades situadas na ordem universal, isto é, no mundo. De- cada um poderia ter sua própria linguagem. Em todo caso, fundamen-
finir o homem significa distingui-lo do não-homem. tal na teoria tradicional da linguagem é que a significação das palavras
provém de um ato subjetivo e interior ao espírito. Podemos examinar
Definir a linguagem humana era distingui-la de outras lingua-
agora, de perto, a questão há pouco mencionada: como é possível a
gens. por exemplo a dos animais. O que faz a linguagem humana
comunicação interpessoal? Quando alguém, com determinada palavra,
propriamente humana? Ora, isso não pode estar no plano do puramen-
significa algo para um outro alguém, paÍa que haja realmente comu-
te físico, pois animais ou mesmo diversos instrumentos também pro-
nicação é necessário que este outro compreenda o que é significado.
duzem sons. O que transforma propriamente o puro som em lingua-
Que é compreender?
gem humana é o pensamento como ato do espírito. O pensar é uma ,r f
atividade espiritual assim como o falar é uma atividade corporal. Ora, '-Q^conrpreender é, como o "ter-em-mente", um ato espiritual, já
uma das principais atividades espirituais é o ter-em-mentee. Ao lado de que tem a ver corn o senliclo (lF llSssl. O cspecíÍico desse ato espi-
pcnsar, emitir juízos, compreender etc., o ter-em-mente é um daqueles ritual'-é a captação do sentido conÍ'crido a url som Íísico por um outro
"4!9 gsp!!§al - o
atos do espírito associados ao ato acústico, corporal, da produção dos "ter-em-mcntc". Contprcontlcr é apropriar-se da
sons, sem os quais esses sons não possuem significação essência de algo, ou seja, ( o evento espiritual clc possc cle determina-
rl
A linguagem h!-qpp é, para a traclição, segundo Wittgenstein, 1|-qsg$fdo. Uma vez captado o sentido, o homem se pire ern condições
I de provar se está empregando as palavras de modo justo, se elas se
It uma atividade complexa com duas dimensões:
N
adaptam às diversas circunstâncias em questão (IF 140). A compreen-
l. externamente, manifestam-se os atos corpóreos de produção de sons; são manifesta-se, assim, como condição de possibilidade do uso reto
1 2. tais atos são acompanhados. no interior do espírito, por atos que das palavras.
t lhes conf'erem significação.
Esses atos espirituais não só possibilitam o falar enquanto Íàlar
Tais atos espirituais são estritamente privados, uma vez que, di- humano, mas têm ainda outras funções. Assim, por exemplo, por meio
[i*
rctamente, só seu produtor tem acesso a eles. Eles possibilitam a lingua- clo ter-em-mente pode-se antecipar o futuro, pois quando se dá umit
,l| ordem signiÍrca-se o que deve ser feito depois, e isto já é signiÍicado
,'t)
9. Cl. W. Spaniol. op. cit.. pp. 36ss agora (IF 458,461). O mesmo ocorre com p fróvi,saôl(+61;, com a
,ll
,I I ))" . t'2)
Rcviravoha pragmática Pra11mática analítica

csl)clil ('l"ll). llsscs atos se dirigem a seus objetivos, independente- " A filosofia tradicional da linguagcm, de Íato, abstrai de sua so-
nrcnlc tlc stur cxistência, isto é, são atos intencionais que produzem ciabilidade, pelo menos do carírtcr constitutivo dcssa sociabilidade. A
sctrs lrrrilrrios objetos é37,452). Recordaçõo, por exemplo, presentifica comunidade concreta, ou a comunidade iclcal, ncl sentido de Apel,
o plssldo e, enquanto tal, é responsável pela estabilidade do uso das nenhuma função exerce na constituição da linguagcm que, enquanto
palavras, condição indispensável no processo de comunicação inter- tal, é um ato privado: Apenas seu uso é intersubjetivo. Nesse sentido,
subjetiva (305, 379). A espera (futuro) e a recordaçãó (passado) são pode-se dizer, com muita razáo, que para Wittgenstein a traclição tem
clois tipos de re_presentaçõex(363, 389). ,' uma concepçáo subjetivista e individualista da,lingqagem humana:
"Individualista, porque se abstrai da função comunicativa e interativa
Em nossa própria maneira de falar, percebemos que não só po-
da linguagem. Subjetivista, porque considera as convenções e regras
demos referir-nos aos objetos dos atos espidtuais, mas também aos
próprios atos, como por exemplo na expressão: "Tenho a impressão de lingüísticas como dados imediatos da intuição do sujeito falante, e não
que se tratava de um Fiat". Neste caso, estamos falando de um ato como resultado de um processo de socialização"tt.
espiritual, isto é, da impressão. Ora, as impressões, afecções sempre Isso corresponde a uma concepção subjetivista da própria cons-
foram consideradas na tradição como algo puramente subjetivo, de tal ciência que é o ponto de referência de todas as experiências do indi-
maneira que um sujeito não pode ter as impressões no processo do víduo, como dimensão última à qual só o indivíduo tem acesso e, por
conhecimento humano, pois o que é percebido imediata e diretamente isto, o constitui como,indivíduo. Em última análise, concebe-se aqui
são, exatamente, as impressões e afecções internas. É por meio delas o homem como uma unidade que posteriormente entra em comunica-
que podemos fazer uma imagem do mundo; podemos dizer serem ção com outras unidades isoladas semelhantes a ele.
essas impressões dos sentidos a base de todo conhecimento humano.
A segunda fase da filosofia de Wittgenstein manifesta-se, assim,
O importante, no que diz respeito ao problema da validade do conhe-
como um veemente ataque a uma concepção individualista do conhe-
cimento, é que cada pessoa possua certeza absoluta de suas próprias
cimento e da linguagem, mas também irrompe contra todo dualismo
impressões. Já que cada um tem acesso direto a elas.
epistemológico e antropológico. Como pano de fundo de suas críticas
No entanto, isso constitui um problema no processo de comuni- aparece uma visão de homem e de conhecimento humano dualista,
cação, já que o outro não pode ter o acesso que eu tenho, nem eu sobretudo como elaborada no Ocidente moderno a paúir da filosofia
posso saber que impressões ele tem e, conseqüentemente, não sei se da consciência de Descartes, qúe, numa perspectiva muito diferente,
as palavras por ele empregadas para exprimir suas sensações têm o pode ser citado ao lado de Heidegger, como um dos grandes críticos
mesmo sentido das que eu emprego. Em última análise, o conheci- da "filosofia da subjetividade"r2. Muito mais claramente, porém, do
mento e sua comunicação lingüística são realidades inteiramente pri-
vadas, essencialmente individuais e só secundariamente comunicati- 11. G. A. de Almeida, 'Aspectos da Filosofia da Linguagem. Contribuição para
um confronto e uma aproximação entre filosofia e ciência da linguagem", in'. Cader-
vas, interpessoais. Isso é uma decorrência necessária da concepção
nos Seaf l(1978) 68.
tradicional de conhecimento e linguagem e constitui o fundamento 12. O que aqui se diz é uma tentativa de explicitar os "pressupostos" do pen-
daquilo queApel, como veremos, denominao solipsismo epistemológico samento de Wittgenstein, pois todas essas questões filosóflcas são para ele uma doen-
do pensamento ocidentalro. ça (IF 255, 593), que deve ser tratada (IF 254). A filosofia não tem por tarefa elaborar
uma concepção de realidade, muito menos tematizar os fundamentos da teoria e da
ação dos homens no mundo. Essa foi sua peÍrnanente tentação no pensamento ociden-
10. K.-O. Apel, "Die KommunikationsgemeinschaÍt als transzendentale tal, ou seja, pautar-se pelo método científico, de tentar dar explicação. Na realidade,
Vcrraussetzung der Sozialwissenschaften", in'. TransfornnÍion der Philosophie, vol. ll. a explicação deve ser substituída pela descrição (lF 109). O importante é que os
FrankÍurt am Main, 1976, pp. 233ss. problemas filosóficos desapareçam (IF 133), o que não se faz por meio da elaboração

124 t25
li( vi rd vo I l.t p ragmática Pragmática analítica

r;rrc llcitlt'p,p,cr, clc vai tender a uma superação do dualismo cgrpo- nicação de nosso conhecimento do mundo. Para a tradição. segundo
-cspír'iÍo rur conccpção do indivíduo, e do dualismo indivíduo-socieda- Wittgenstein, e-s-s-aj. a únisajuação. ou, pelo menos, a função mais
tlc rrir conccpção da pessoa humana. Ele vai situar o homem e seu importante da linguagem humana. t '' 1

conhccirrrcnto no processo de interação social, o que vai.levaq poste-


Ora, dizWittgenstein, para começar, isso é falso em sua exclu-
riormente, não só à consideração da relação entre conhecimento e
sividadg-, pois- com a linguagem podemos fazer mutto mais coisas do
ação, linguagem e práxis humana, como também à consideração ex-
qU§*q-e-slÂ4êr g mqn_dg. No número 23 de suas Investigações Filosófi-
plícita do papel da comunidade humana na constituição do conheçi-
cas, ele nos oferece uma lista de possíveis atividades humanas reali-
mento, e da linguagem humana (melhor dito: do conhecimento lin-
zqdas pgl1linguagem, de tal modo que, já aqui, a posição da tradição
güisticamente mediado do homem)
i
se manifesta como uma exacerbação da função designativa, que assu-
't miu, assim, o monopólio exclusivo de consideração nas teorias da
CRÍTICA A TEORIA OBJETIVISTA DA LINGUAGEM linguagem, aparecendo, com isso, uma cegueira total do pensamento
tradicional para outras perspectivasra. A teoria objetivista da lingua-
gem tem. pois, caráter redut'itmisttr, ulnü vez que reduz todas as fun-
a) A parcialidade da concepção instrumentalista q-õgs da linguagem a uma única.
H

Além disso, Wittgenstein desce às pressuposições epistemológi-


Vamos, em primeiro lugar, tentar apresentar os argumentos de cas desta posição: que o.conhecimento humano é algo não lingüístico,
Wittgenstein contra a teoria objetivista da linguagem. Essas críticas
uma tese que, à primeira vista. parece ser, de modo geral, comum à
são, de modo geral, muito longas no texto de Wittgenstein e consti-
tradição, até mesmo à filosofia da consciência da modernidade. É
tuem a maior parte das Investigações Filosóficas. Depois, faremos um
exatamente essa pressuposição da teoria lingüística do Tractatus qrue
esforço paÍa, a partir do texto de Wittgenstein, mostrar o novo na
agora é posta em questão: gão existe um mundo em si independente
concepção da linguagem da segunda fase de sua filosofia. A argumen-
da linguagem, que deveria ser copiado por ela. Só temos o mundo na
tação de Wittgenstein .5e dirige, em primeiro lugar, ao cerne dessa
linguagem; nunca temos o mundo em si, imediatamente, sempre por
concepção, ou seja,.suã vi5-ão da linguagem e sua função no conheci-
ryg Lq dg_Jir Suag em (IF 1 0 1 - 1 04, 7 3J, 380, 37 9, 384). Entidades, atribu-
, mento humano. Para a tradição existe um mundo 'lem qi", cuja estru-
i tura podemos conhecer pela razáo e depois comunicar aos outros por
de nossos problemas. Cf. W. Spaniol, op. cit., p. 142l. "Para Wittgenstein, como já
meio da linguagemll$ linguagem é instrumento secundiário de comu- vimos, o limite do sentido é determinado pelas regras do emprego ou da gramática de
nossa linguagem ordinária. Esse limite jánáo é uma barreira que impede o conheci-
de teorias e hipóteses (IF l0), mas simplesmente mostrando (descrevendo) o verda- mento de algo que está para além, algo pelo qual pudéssemos e devêssemos perguntar,
mas que já não podemos conhecer. Para além do limite estabelecido pela gramática,
rlr deiro emprego de palavras. A frlosofia apenas "constata" o que ocorre (IF 126), o que
importa é ver, não demonstrar, fundamentar. A filosofia deixa tudo como está (IF existe apenas o abismo do sem-sentido. A pergunta pela 'coisa em si'já é a ilusão
124). "A filosofia não deve, de modo algum, tocal no uso efetivo da linguagem" (IF transcendental, à medida que aqui temos uma tentativa de empregar palavras Í'ora de
124), mas "ela simplesmente coloca as coisas, não elucida nada e não conclui nada", qualquer jogo de linguagem. Da mesma forma como não podemos dizer que conhe-
Lli uma vez que "tudo se encontra à vista" (IF 126) e "como tudo está aí, também não
há nada a ser explicado" (IF 126). A filosofia é apenas uma recordação do uso das
cemos a 'coisa em si', também não podemos dizer que não a conhecemos. Em ambos
os casos, trata-se de algo sem sentido, porque 'apenas numa linguagem posso querer
palavras, "uma consideração gramaticaf' (IF 90). O método da explicação é substituí- dizer (meinen) algo com algo (IF, nota, p. 30)"'.
do por um método por meio de exemplos (IF 133). Nesse sentido, a filosofia não é 14. Para Wittgenstein, uma causa principal dos problemas filosóficos é o que ele
a tematizaçáo do a priori, mas um método a posteriori. denomina a "dieta unilateral", ou seja, alimentar nosso espírito apenas com uma
13. Para Wittgenstein, essa pretensão manifesta uma falta de consciência das espécie de exemplos (cf. IF 593). É precisamente essa dieta que está em ação quando
regras do emprego de nossas palavras e é precisamente aqui que se encontra a origem a tradição reduz a linguagem humana à pura função designativa.

t26 127
Rr vi ravo II a p ragmática Pragmática analítica

los. its l)tlil)tiits coisas se manifestam em seu ser precisamente na Essa designação de objetos conhece na tradição duas alternativas:
linlirurl-icrrr. lsso significa, de fato, apesar de não ser expresso em ou objetos singulares ou o que há de comum neles, sua essência.
Wiltgcnstc:in com tanta clareza em virtude do próprio caráter Assim, a significação das expressões lingüísticas são os objetos desig-
rrssislc:rrriitico de sua obra, .a descoberta da .t"ranscenQentqlifode da* nados ou é sua essência. Primeiramente, Wittgenstein observa que se
linguugeru humana, de seu caráter transcendental, tese, hoje, levada às emprega aqui a palavra "significação" de modo impróprio, confundin-
últirnas conseqüências na Pragmôtica Transcendeniôil. A linguagem
do a significação de um nome com seu porlador. Quando morre o Sr.
não é um puro instrumento de comunicação de um conhecimento já
Joaquim, morre o portador do nome e não sua significação (IF 40).
realizado, é, antes, condição de possibilidade para a própria eonstüui-
Podemos perfeitamente formar frases com sentido mesmo que os
ç'ão do conhecimento enquanto talts. Com isso se afirma, contra a
portadores dos nomes já hajam desaparecido, o que mostra a falta de
Íilosofia moderna, que não há consciência sem f_inguagem, de modo
que a pergunta pelas condições de possibilidade do conhecimento fundamento da teoria tradicional.
humano, a pergunta típica da filosofia transcendental, não é respondi- No entanto, a tradição poderia ver na segunda alternativa a solu-
da sem uma consideração da linguagem humana. ção das aporias surgidas com a primeira. A palavra "amarelo", ao
Uma vez vislumbrado o caráter transcendental da linguagem, cai designar o comum a tudo o que é amarelo, teria sentido mesmo que
por terra a teoria objetivista (instrumentalista, designativ_a) da lingua- não existissem coisas amarelas. Assim, pode-se perfeitamente dizer:
gem, pois, se entidades, coisas, atributos, propriedades, eventos etc. desapareceram as coisas amarelas. As coisas desaparecem, mas o
não nos são dados sem a mediação lingüística, é um absurdo querer conceito delas, sua essência elevada ao conceito, é indestrutível, e é
determinar a significação de expressões lingüísticas pela ordenação de isso o que constitui a significação das palavras. No entanto, argumenta
palavras a realidades por meio de convenções. Wittgenstein, a essência de modo algunt é unt "portador do nome".
Não se pode partir da estrutura ontológica do real, como no Aliiis, o (pc c< l cssôrtciir'l Nilo rí isso ttttta invcnçlxr cla frlosofia
Tractatust6, e por meio da pressuposição da isomorfia entre linguagem rlo ()citlcrrlc, tlc lal nrotkl t;t"tc sc 1xxlcria consitlcrar o essenc'ialismotl
e rea'lidade concluir a estrutura da linguagem (Têoria da Afiguração). rrrrr rlc scus clros l'urrrlarttcntais'/ A questão de por que de uma palavra
A palavra seria, nesse caso, a designação, o nome de objetos, e porlc clcsigrrar vhrios indivíduos tinha, de fato, como pressuposto a
isso, segundo a tradição, constitui a palavra enquanto palavra. A de- cxistônciir da essência, que era a base ontológica da designação.
signação é o ato por meio do qual se faz a ligação entre um ato Wittgenstein afirma simplesmente que não há essência e convida-nos
espiritual e um som físico, que tem como efeito que tal palavra desig- a ver a realidade de modo mais acurado, a fim de que nos possamos
na um objeto do mundo. É, na expressão de Wittgenstein. úma espécie convencer da invenção dos filósofos (IF 66ss.). Não há essência co-
í
i de quase-batismo de um objeto (IF 38).
)

I 17. A filosofia em Wittgenstein substitui a pergunta pela essência por um olhar


15. Cf. K.-O. Apel, "Sprach als Thema und Medium der transzendentalen (IF 66) como nossas palavras são usadas. Trata-se, assim, de "filosofia descritiva", que
I ReÍlexion", in: Transformation der Phiktsophie, vol. II, op. cit., pp. 3ll-329; Der aliás nunca tem Íim, porque a linguagem é fonte permanente de mal-entendidos. Cf.
transze ndentaL-he rmeneutis che B egri{f der Sprache, pp. 330-357. G. Hallet, A Companion to Wittgenstein's "Philosophical lnvestigations",ltacalLon-
16. Pelo menos em sua forma de apresentação, pois como Wittgenstein diz nos dres, 1977, p. 195. E. v. Savigny, Die Fliege im Fliegenglas. Ludwig Wittgenstein,
Diários: "Minha inteira tarefa consiste em explicar a natureza da proposição" (L. "Philosophische Untersuchungen", in: Die Philosophie der normalen Sprache,Frank'
[,, Wittgenstein, Schriften l, Frankfurt am Main, 1969, p. 129). Cf. W. Spaniol, op. cir., furt am Maín, 1974, pp. l3-89. Para uma comparação com a posição de Heidegger,
p. 38: "Portanto, a ordem da investigação será esta: da linguagem para o mundo, da cf. K.-O. Apel, "Wittgenstein und Heidegger. Die Frage nach dem Sinn von Sein und
ry' lógica para a ontologia: 'Sim, meu trabalho se estende dos fundamentos da lógica para der S:innlosigkeitsverdacht gegen alle Metaphysik", in'. Transformatkm der Philosophie,
a natureza do mundo' (Tb, 1'72)". op. cit., vol. I, pp. 225-275.
,il
d 128 t29
litt'i t,t t'o I t tr 11
rd! mática Pragmática analítica

nrril ('illt('its (()islrrirE, o que existe de fato são "semelhanças de famí-


Wittgenstein otêrece cm suas lnvc,sÍi14uç'ões Filosófica.r um exem-
liir crrtn' ('()n('cit()s" (lF 67). (Ele examina nos números acima men- plo disso. A primeira coisa Í'cita aqui é o abandono do ideal de exa-
t'iorr;rtkrs o cirso das palavras número e jogo). A afirmação tradicional tidão da- linguagem. Essa tese, que é í'undamcntal no Tractatus, pres-
rlt' tlrrt' lril irlgo de comum não passa de uma idéia que não resiste a supõe que no mundo há entidades cuja cstrutura ontokigica seja cla-
luu cxilnlc dos fatos. Na realidade, há semelhanças e parentescos entre ramente determinada e da qual a linguagem seria a cópia fiel. Ora, a
os rlivcrsos tipos de jogo, que ele tenta mostrar examinando os dife- linguagem comum é, essencialmente, indeterminada e, por essa razáo,
rcl)tes usos da palavra jogo. Eles não possuem uma propriedade co- a pesquisa lingüística deveria construir uma linguagenl artiÍicial, mo-
rnum que permitisse uma definição acabada e definitiva, mas elemen- delo de exatidão e paradigma da linguagem comum. Para o segundo
los comuns que se interpenetram. Mas só isso. Assim, não temos Wittgenstein, tal ideal não passa de um mito filosófrco. Um ideal de
.f'ronteircts definitivas em nosso uso de palavras. exatidão completamente desligado das situações concretas do uso da
Já dissemos que, para a tradição do Ocidente, defi.nir algo signi- linguagem carece de qualquer sentido GF 88). Como veremos, é im-
ficava delimitar-lhe o lugar no todo do real, estabelecer seus fins, suas possível determinar a significação das palavras sem uma consideração
fionteiras, seus limites, e isso de modo definitivo. Ora, a crítica da do contexto socioprático em que são usadas..
teoria tradicional mostra que a significação dos conceitos universais Ota, é exatamente o exame atento desses contextos que nos vai
não é uniteíria. Ela não permanece necessariamente onde está hoje: é mostrar que usamos as palavras não de acordo com uma significação
possível haver novos casos de sua aplicação que manifestem novas definitiva, estabelecida de antemão, nem também de modo arbitriário
diferenças. A significação das palavras não esú estabelecida de (uma das teses do nominalismo), mas de acordo com semelhanÇas e
.modo definitivo (IF 79, 80). O fato de não ser possível conhecer, parentescos. Nesse sentido, podemos dizer que nossa linguagem é,
de modo definitivo, todos os casos de aplicação de uma palavra não sempre, de certo modo, ambígua, uma vez que suas expressões não
significa que ela não tenha sentido. possuem uma significação definitiva. Pretender abandonar essa ambi-
A significação, por exemplo, da palavra "animal" não é determi- güidadc na busca de uma exatidão absoluta, como Wittgenstein fez no
nada de tal modo que já esteja certo, de antemão, ou seja, independen- T-rucÍuÍu,s, aparece-lhe, agora, como abandono da linguagem real na
temente de toda experiência, onde termina o reino do inorgânico e busca dc uma ilusão rnetaÍísica.
começa o dos animais. Não precisamos, aliás, para falar, de regras Esse espaço de vaguidadc, csscncial aos conceitos da linguagem
para todos os casos possíveis, mas apenas para os casos que, de fato, comum, é o que Waismann chama de "open tcxturc" c Stcgmüiler de
ocorrem. O fato, porém, de não poder determinar com maior exatidão "abertura de conceitos"2o. Nós, na realidade, poclcrnos apcnas, por meio
possível (a linguagem ideal do Tractatus) o sentido de uma palavra de certas regras, diminuir o campo de vaguidade dos conceitos empíricos
,tr
não significa que ela não possua sentido (IF 70, 71, 97, 99)'r. O (na terminologia de Waismann, em contraposição aos conceitos matemá-
rl filósofo deve superar esses preconceitos e se engajar numa luta contra ticos) ou dos conceitos de linguagem comum, mas afàstar toda e qualquer
rl o essencialismo. vaguidade é impossível, pois isso pressupõe conceitos cuja signihca-
fl ção está estabelecida de modo definitivo e não podemos, ír priori,
,f
18. Destruindo a essência, Wittgenstein tem consciência de estar destruindo estabelecer regras para todos os casos. A possibilidade do aparecimen-
apenas "castelos de areia" e liberando o fundamento da linguagem sobre que repou- to de casos não previstos está sempre aberta: daí o termo "abertura dos
I
sam tais castelos (IF 118).
conceitos". N-ossgg conceitos são essencialmente abertos por admiti-
[,, 19. Isso significa dizer que, pzra o segundo Wittgenstein, o Tractatus, embora
distinguindo filosofia e ciência, ainda entendia a filosofia como uma atividade cien- rem a possibilidade de aplicação a casos não previstos.
,/) tíllca destinada a dar explicações. sua finalidade era chegar a uma análise última das
n«rssas formas de linguagem (IF 9l).
,ll
,II Ilo lll
lit vi ra vo I ttt p r aomática Pragmática analítica

lsso tlrcl rlizcl clue sua significação é sempre provisória, e por certo adestramento, um capacitar-se a dominar uma técnica (IF 30).
isso o ('ss('nr'iitlisrno se engana, pois impede definições no sentido Cada situação exige um adestramento especíÍico.
lllrrlit'iorurl tla palavra. Todo uso concreto de palavras é marcado por Não se trata de uma explicação, o que aliás não é necessário, mas
rrrrritirs casualidades e arbitrariedades que não são, sem mais, redutíveis
de uma adaptação a determinada práxis lingüística. Toda práxis lingüís-
lr nrzCrcs explicativas.
tica tem um sentido em si mesma e é, em si mesma, perf'eita. Não é a
Por isso, mesmo, o ideal do Tractatus de uma linguagem perfeita referência a uma medida transcendente (a linguagem ideal), mas a própria
se nranifesta agora como puro absurdo; aqui está, justamente, a razáo prráxis lingüística da vida comum, que tem um sentido imanente a si
da reviravolta metodológica de Wittgenstein. Não é que uma lingua- mesma. Para saber o que é linguagem humana, não é necessiário apelar
gcm exata, construída artificialmente, tenha perdido todo o sentido para uma linguagem ideal; pelo contrário, trata-se, simplesmente, de
para o Wittgenstein da segunda fase. Ela continua um instrumento de observar o funcionamento da linguagem concreta dos homens. O papel da
grande importância na ciência natural. Contudo, não pode ser consi- ,filgsofia é 9 dg dcscrever os diferentes usos da linguagem, sem tentativas
de justificação ou explicação. Ela deve, apenas, ver e deixar tudo como
derada o paradigma lingüístico enquanto tal, como foi o caso no
é (IF 124). Os problemas filosóficos surgem quando os filósofos resolvem
Tractatus. Depois, uma vez tendo sido relativizada a função designativa
dar explicações e abusam da linguagem. Daí o apelo para a volta ao único
da linguagem, ela parece agora apenas como uma entÍe muitas fun-
método permitido em filosofia: a descrição por meio de exemplos com
ções possíveis da linguagem. O importante agora é ver nossa lingua- função terapêutica (IF 109), tendo em vista a cura dos abusos da lingua-
gem, para aí descobrir como ela, de fato, é usada, e não espectlar a
gem. Daí por que o lema é: não pensar, mas olhar (IF 66).
priori. O ponto de partida, o ponto de referência, o cerne da reflexão
lingüística de Wittgensteinideixa de ser a linguagem ideal para se
tornaÍ a situação na qual o homem usa sva linguagem2r; então, o único b) Superação do d.ualismo epistemológico-antropológico
meio de saber o que é linguagem é olhar seus diferentes usos.
Jogada a linguagem dentro da situação, Wittgenstein percebe que Para Wittgenstein, como vimos, a teoria tradicional da linguagem é
a diferente linguagem faz parte da totalidade dessa situação de vida um dualismo epistemológico que, por sua vez, é um indício do dualismo
humana, que ela é parte da atividade humana, ou, em sua expressão, antropológico na concepção da pessoa humana. O dualismo caracteri-
zou-se na qoncepção da linguagem como Í-enômeno complexo de dupla
uma "forma de vida" do homem (IF 23). É por essa razão que a
significação das palavras só pode ser esclarecida por meio do exame dimensão: a realidade Íísica produzida por atos corpóreos deve ser,
para se tornar linguagem humana, acompanhada por certos atos espi-
das formas de vida, dos contextos em que essas palavras ocorrem, pois
rituais, processos internos (manifestações lingüísticas do dualismo
é o uso que decide sobre a significação das expressões lingüísticas (IF
,ll corpo-espírito). Somente por meio da transformação efetuada por es-
432). "A significação de uma palavra" , diz Wittgenstein no número 43
,r ses atos espirituais as palavras têm, propriamente, significação. Isso é,
rh de suas Investigações Filosófica,§, "é seu uso na linguagem". Só se
portanto, o dualismo entre sentido e produção dos sorzs. A toda expres-
rl pode entender a linguagem humana a partir do contexto em que os
são acústica pertence um mecanismo interior, espiritual. As dificulda-
homens se comunicam entre si. Aprender uma língua significa um
tl des que o dualismo corpo-espírito sempre provocaram na concepção
rI do homem manifestam-se aqui também. Como entram, propriamente,
21. Cf . W. Spaniol, op. cit., p. ll9: "Se a filosofia continua interessada na
I em relação realidades tão diversas? Como pode o espiritual intervir
'essência da linguagem' (IF § 92, cf. § 65), essa essência já não é vista como algo
[n, oculto, 'algo que se encontra no interior, que vemos quando desvendamos a coisa,
sobre o corporal? Como se pode transcender o corpóreo para atingir
e que uma análise deve evidenciar' (lF, § 92). Antes, a essência é 'algo que já é o espiritual, o interior? Como resolver o problema dessa dualidade de
,/l evidente, e que se torna claro (übersichtlich) por meio de uma ordenação (Ordnen)"' esferas a que fica reduzido o processo cognoscitivo-lingüístico: de um
(ibid.). lado o falar ou 1er, do outro o ter-em-mente, compreender, pensar?
rill
*i t32 t)3
llt vi ra vo It a p ragmática Pragmática analítica

'lirl tlrrrrlisrrr() sc torna mais radical ainda com a concepção indi- diversas de acordo com o uso para a dctcrrninação dessa significação,
vitlrrrlislrr rlu corrsciência, do espírito (dualismo indivíduo-sociedade). não importando que haja atos ,intcnci«rnais paralclos 9u não.
As 1rt'ssrxrs sill rcduzidas a mônadas isoladas, com consciências indi-
Sua argumentação se diiige em primciro lugar itt) tcr-em-mente
vitlruris às t;uais só o indivíduo tem acesso. Como é possível nessa
(rF t9-22,33-35, 95,187-188, 507-510, 540-541, 665-6132, 6U7-693) e
pcrspc:ctiva a comunicação humana? Como é possível a linguagem
compreender (lF 34,143-155, 321-322)22. Para começar, Wittgcnstein
corno Í'cnômeno social? Que sentido tem descrever fenômenos psíqui-
considera g ter-em.mente como um conceito aberto, de muitos signi-
cos individuais, se os outros não têm acesso a essa dimensão? Como
ficaQ_o-s,- e procura mostrar que em muitos de seus usos não há, pro-
já tivemos oportunidade de dizer, a críÍica a essa concepção da lingua-
priamente, um ato espiritual. Depois, mesmo existindo, esse ato é sem
gcm é uma das constantes das Investigações Filosóficas.
importância, pois, em primeiro lugar, não ó o ter-em-mente que deter-
Para Wittgenstein, somos levados a conceber, pela suposição feita mina o sentido, do contrário, com o ter-em-mente eu poderia significar
a partir do próprio uso destas palavras, que pensar, ter-em-mente, o que quisesse e, por outro, o próprio fracasso no querer com uma
compreender são atos, atividades corporais. Ou seja, é a própria gra- frase significar algo não torna essa frase sem sentido (IF 509, 665,
mática dessas palavras que nos induz a essa ilusão metafísica. 486ss)."iO fato de alguém, realmente, compreender o que uma frase
Wittgenstein retoma, constantemente, a crítica a essa teoria, pois ela sig$!ca, compreender seu sentido, não depende absolutamente de que
significa, por assim dizer, a teoria concorrente a sua própria teoria da eu tenha querido significar isso. A ç_g1pp1eçpsão,depende da situação
linguagem. O que é decisivo para distinguir as duas é a resposta à histórjcct em que.a -f-rase é usada p não do ato intencional de querer
questão: 9 que confere significação às palavras? significar. O compreender, como veremos depois, é um elemento de
uma forma de vida, na qual se está inserido em virtude do contexto
Para a teoria concorrente são os atos intencionals, internos e
sócio-histórico. Por fim, não posso arbitrariamente decidir signiflcar
espirituais; para Wittgenstein é o próprio aso das palavras nos diversos
com uma palavra algo. sem que jamais essa palavra tenha sido utili-
contextos lingüísticos e extralingüísticos, nos quais as palavras são
zada para isso. O que decide realmente sobre o sentido de uma palavra
empregadas. Não se trata, para Wittgenstein, de negar a existência de
é seu uso real. Mesmo que as pessoas anotassem a palavra escolhida
tais atos, mas de retirar deles o papel de instância doadora de signi-
por mirnpara significar algo, isso não bastaria se elas, de fato, não a
ficação às expressões lingüísticas. Verdade é que Wittgenstein chega
usassem. Não há atos autônomos, isto é, totalmente desvinculados dos
também a afirmar que, em muitos casos, eles, de fato, não existem, e,
contextos de sentido.
mesmo existindo, não têm importância para a determinação da signi-
ficação. No entanto, tendemos sempre à afirmação da teoria concoÍrente,
,ti sobretudo por duas razões: em primeiro lugar, pela tendência essencia-
Daí por que sua crítica consiste, em primeiro lugar, em mostrar
,l lista, fruto do peso histórico da tradição do pensamento ocidental; em
)l que, em muitos dos exemplos empregados pela teoria concorrente, tais
rl segundo lugar, por sedução da linguagem comum, pois, assim como
atos são simplesmente inexistentes, pelo menos nem sempre existem
t1qba!!a1 3Ln.{ar etc. designam atos, concluímos que pensar, ter-em-
(IF 156, 178 a respeito do ato de lei). Num segundo momento,
I Wittgenstein procura mostrar que mesmo existindo tal componente .
mente, compreender designam atividades privadas efetuadas no inte-
)i rior da consciência individual. Daí a idéia do mundo espiritual, como
t espiritual, ele não teria significação para a determinação da significa-
um segundo mundo ao lado da realidade visível (IF 488, 594). No
In. ção das palavras, pois esta se faz por meio do exame do uso. Tende-
mos a achar que palavras como ter-em-mente, compreendeq afirmar
22. Cf . G. Hallet, WittgensÍein's Definition of Meaning as Use, Nova York,
;t (os atos espirituais) têm um sentido único e bem-determinado (tendên-
1967. G. P. Baker/P. M. S. Hacker, An Analitical Commentary on WitÍgenstein's
cia essencialista); no entanto, cada uma delas possui significações Phibsophical Investigations, Oxford, 1980. W. Spaniol, op. cit., pp. 53ss.
rll
,ll t14 t)5
Reviravo lta pr agmática Pragmática analítica

caso dc cornpreender, Wittgenstein segue o mesmo esquema de traba- que eu esteja de fato seguindo a regra, a menos que eu possa Íornecer
lho (lF l5l-155, 179). Importante nesse contexto é o exemplo mate- algo que justifique essa impressão. Essa justificação deve constar de
máÍico apresentado por Wittgenstein, no qual fica muito claro que um apelo a uma área objetiva e independente. No presente caso, po-
compreender não designa um ato intencional, a captação de uma ima- rém, deveríamos contentar-nos com uma justificação puramente sub-
gem, a vivência interior de um sentido, mas, antes, um saber como se jetiva que seria simplesmente outra impressão. A justificação subjetiva
faz, tm dominar uma técnica de uma impressão por outra, contudo, é uma pseudojustificação, não
menos ridícula do 'que se alguém comprasse viários exemplares do
Quando alguém compreende uma série de números? Quando é
jornal de hoje para certificar-se de que registra a verdade' \IF 265)"24.
capaz de continuar a série. Ou seja, arealizaçáo de continuação é aqui
É preciso notar que o peso da argumentação de Wittgenstein só é
o critério para se poder falar em compreensão (IF 188). Compreender
inteligível no contexto global da nova fase e da nova concepção da
é adestrar-se a determinada práxis, é inserir-se em determinada forma
linguagem humana. E a partir do conceito de jogo de linguagem, que
de vida. Sei. portanto. se alguém compreendeu uma palavra sê posso
constitui o cerne dessa nova perspectiva, que toda essa argumentação
observar que ele a emprega Íetamente. O que está em jogo nas análises
encontra seu sentido e seu lugar. Separada disto, ela se manifesta
de Wittgenstein sobre o ter-em-mente e o compreender é um problema
quase ininteligível.
comum a todos os outros atos intencionais: o problema da relação
enÍre linguagem e vivências interiores.
Os intérpretes de Wittgenstein falam de sua rejeição radical de A NOVA IMAGEM DA LINGUAGEM
uma linguagem privada23, isto é, de uma linguagem que só pode ser
entendida pelo sujeito que a tem, uma vez que ela é uma expressão
A unidade da filosofia de Wittgenstein fundamenta-se, como já
das vivências interiores, às quais só ele tem acesso. Parece que tal
vimos, na permanência da mesma problemática básica: a pergunta
linguagem é pressuposta como possível em toda a epistemologia
pelo significado dns expressões lingüísticas. Acabamos de ver sua
crítica radical à filosofia da linguagem do Ocidente. islo é. à teoria
moderna. Para Wittgenstein, se palavras como "ter dor" surgem como
objetivista da linguagem, na qual ele mesmo se situou em seu Tractatus,
denominação de um eventopuramente privado, então tais palavras só
uma vez que aí todas as análises tinham a finalidade de explicitar a
teriam sentido para mim, e seria simplesmente absurdo falar de dor de
função afigurativa da linguagem. A linguagem deve ser uma cópia fiel
outras pessoas. Além disso, mesmo se pudéssemos aplicar tal predicado
dos fatos no mundo; a estrutura do próprio mundo, que é a condição
a outros, tal aplicação não teria valor intersubjetivo, pois não pode-
de possibilidade de qualquer afiguração. Não é copiável pela lingua-
mos comparar intersubjetivamente nossas afecções privadas de modo
gem, mas é dada juntámente com ela. Nesse sentido, a filosofia, en-
a saber se outras pessoas com a expressão ter dor significam o mesmo
quanto análise de linguagem, tem a ver com a essência do mundo,
que nós.
ilr, embora não a possa exprimir em frases. Uma vez abandonada tal
Para Stegmüller, "o ponto-chave na argumentação de Wittgenstein teoria, pode-se perguntar: que alternativa oferece Wittgenstein? Qual é
está na constatação de que uma linguagem privada deveria repousar sua nova teoria? A partir da crítica apresentada à teoria tradicional,
H;I podemos concluir que Wittgenstein não tem resposta a dar a essa
sobre regras privadas; esse conceito de regras privadas, contudo, não
passa de uma ficção: regras privadas não se distinguem de impressões pergunta. Teorias filosóficas são fruto do desconhecimento do funcio-
de regras. Se tenho a impressão de seguir uma regra, isso não garante namento de nossa linguagem. O que devemos fazer náo é especular
sobre a linguagem para lhe determinar a estrutura (essencialismo),
23. Cf. S. A. Kripke, Wittgenstein über Regeln und Privatsprache. Eine elementare
Darstellung, Frankfurt am Main, 1970, sobretudo pp.74ss. 24. Cf. W. Stegmüller, op. ciÍ., p. 492

116 t)7
l?c v i r avo lta p r ag mática Pragmática analítica

mas obscrvlrr c()lno a linguagem funciona, como usamos as palavras. c) a situação lingüística (fbrrna dc vida): () contexto de uma cons-
Prlr cssa raziul, Íalamos, não de nova teoria da linguagem, mas de nova trução em que alguém pede os clemcntos da construção a um
imagcnr, apesar de podermos perguntar se o que Wittgenstein nos auxiliar. A linguagem deve servir à compreensão entre o constru-
apresenta nas Investigações Filosóficas não é, exatamente, uma nova tor e seu auxiliar. Wittgenstein chama linguagenr a essa unidade
teoria da linguagem que, em virtude de seu próprio método, não ch\. entre elementos lingüísticos e modos de comportamento ligados
gou a uma articulação clara. -l
à situação dos parceiros. Aqui se trata de uma linguagem primi-
O que caracÍerizava essa nova orientação é que para ele, urpn"u, tiva, cujo fim se esgota na compreensão entre os parceiros. Nesse
a linguagem é uma atividade humana como andar, passearz colher etc. exemplo muito simples estão contidos todos os elementos que
Há aqui uma íntima relação, se não identidade, entre linguagem e constituem a linguagem, e é por isso que, embora primitiva, essa
ação, de tal modo que a linguagem é considerada uma espécie de ação, linguagem permite uma aproximação da verdadeira dimensão em
de modo que não se pode separaÍ pura e simplesmente a consideração da que a linguagem humana se situa.
linguagem da consideração do agir humano ou a consideração do agir não É a partir da análise dessa situação que Wittgenstein supera a
pode mais ignorar a linguagem. Essa atividade se realiza sempre em concepção tradicional da linguagem, mostrando sua parcialidade. Em
contextos de ação bem diversos e só pode ser compreendida justamente nossa linguagem, não se trata apenas de designar objetos por meio de
a partir do horizonte contextual etn que está inserida palavras; as palavras estão inseridas numa situação global que regra
\
Esses contextos de ação são chamados por Wittgenstein de "for- seu uso, aqui neste caso, por exemplo, pela relação de objetos que
mas de vida" (IF 7, 19,23), e a linguagem para ele é sempre uma devem ser trazidos. Isso signiÍica que a relação específica a objetos
parte, um constitutivo de determinada forma de vida, e sua função, por resulta da situação da construção em questão, ou seja, a análise da
isso, é sempre relativa à forma de vida determinada, à qual está inte- 51gnilcação da§_palavras não se pode fazer sem levar em cgnsideração
grada; ela é uma maneira segundo a qual os homens interagem, ela é g _contexto globsl de vida, onde elas es-tão. O problema da significa-
a expressão de práxis comunicativa interpessoal. Tantas são as formas ção, problema central da tradição de pensamento e também de
de vida existentes, tantos são os contextos praxeológicos, tantos são os Wittgenstein, não se pode resolver sem consideração dos diversos
modos de uso da linguagem, ou, como Wittgenstein se expressa, tantos contextos de uso das palavras.
tJogos
sào os de linguagem"2s.
O conceito de jogo da linguagem pretende acentuar que, nos
Com isso atingimos a categoria central com a qual Wittgenstein diferentes contextos, seguem-se diferentes regras, podendo-se, a partir
exprime sua nova imagem de linguagem. Ele não define o que é jogo àaí, determinar o sentido das expressões lingüísticas. Ora, se assim é,
,ll de linguagem isso, segundo sua nova maneira de pensar, é impos- então a Semântica só atinge sua finalidade chegando à Pragmática,
mas -mostra o que pretende com tal categoria, partindo de
,)
r) sível pois seu problema central, o sentido das palavras e Íiases, só pode ser
rl -,
exemplos. Já no número 2 das Investigações Filosóficas ele nos apre- resolvido pela explicitação dos contextos pragmáticos. Uma conside-
senta um exemplo simples do que seja um jogo de linguagem. A ele ração lingüística que não atinge o contexto pragmático é, nesse sen-
rl pertencem Lrês elementos:
)ll
tido, essencialmente abstrata, como é o caso da teoria da significação
I a) os puramente lingüísticos: cubo, coluna, chapa, trave; no pensamento tradicional, para quem a linguagem é, em última aná-
b) os parceiros da conversa: A e B; lise, puro meio de descrição do mundo, sem a percepção de que a
[n,
significação de uma palavra resulta das regras de uso seguidas nos
,Jt 25. Cf. G. A. de Almeida, op. cit., p. 70ss. J. Habermas, Zur Logik der diferentes contextos de vida. Saber usar corretamente as palavras sig-
s e n s c h aft e n, FrankfuÍ am Main, 1970, pp. 220ss.
S o zi I aw i s qifica saber comportaÍ-se coÍretamente. Para compreender melhor a
,lt
*t 138 t)9
Ilcv i ravo I ta pr agmática Pragmática analítica

sigrril'icaçiio tlcssa nova maneira de consideração da linguagem, siga- a. gramáttica supefficial: aquilo que normalmente se chama gra-
nros Wittgcrrstcin em suas análises. mática, isto é, o conjunto de normas para a construção correta de
frases;
No rrúmero 8 de suas Considerações Filosóficas, ele apresenta
unra vcrsã«r um pouco diferente de nosso jogo de linguagem. Aqui
\i a gramáttica prffipf,a: conjunto de regras que constitui determi-
nado .jogo de linguagem.
ternos de novo os três elementos:
a) os lingüísticos: cubo, coluna, chapa, trave, a, b, c, d, ali, este,
É a partir da tematização dessa gramática profunda que vêm à
tona a pluralidade dos modos da linguagem humana e, ao mesmo
vermelho etc.;
tempo, os critérios para o emprego correto das palavras, porque é
b) os parceiros: A e B;
correto o uso da palavra que é aceito como tal na comunidade lingüís-
c) a situação lingüística: A dá ordem a B na forma de: d trave
tica que a emprega (IF 241), pois é, precisamente, este acordo entre
vermelha ali, mostrando com a mão determinado lugar e determi-
os membros de uma comunidade que torna a comunicação possível.
nada cor. B executa a ordem. Se no primeiro jogo de linguagem,
na forma mais simples, ainda se podia pensar que a situação Em suma, para Wittgenstein, as expressões lingüísticas têm sen-
lingüística é sem importância no fenômeno lingüístico, pois seria tido porque há. hábitos determinados de manejar com elas, que sào
possível encontrar um objeto designado por cada palavra, aqui intersubjetivamente válidos (IF 198, 19». É precisamente o hábito
com números e indicadores como este a coisa se torna problemá- que sanciona sua significação determinada (IF 349) e constitui o jogo
tica e se percebe claramente o eÍro da tradição: absolutizar um de linguagem em questão, que é uma forma específica da atividade
único jogo de linguagem, ou seja, o designativo. Houve aqui humana27. Por exemplo, o jogo de linguagem específico da ciência
uma generalização indevida que, no fundo, é fruto do essencia- natural que Wittgenstein, no Tractatus, considerava o único possível é,
lismo. Com isso perderam-se totalmente de vista as inúmeras agora, reduzido a um sistema entre outros no pluralismo fático dos
diferenças presentes na linguagem humana. A filosofia tradicio- sistemas lingüísticos. A designação, contudo, cerne das considerações
nal limitou sua ótica por trabalhar com uma única espécie de lingüísticas da tradição, não é um jogo de linguagem propriamente,
exemplo GF 593). Resultado: um único jogo de linguagem foi mas apenas uma preparação para isso (IF 26, 49). Têmos de saber
transformado na essência da linguagem. Não tem sentido, no como manejar, como usar designações para poder aplicá-las.
caso, perguntar que objetos são designados pela série a b c d, K. Wuchterl distingue no Wittgenstein da segunda fase três sen-
pois, mesmo se dizemos que designam números, o uso de abcd tidos para o conceito de jogo da linguagem28:
e coluna, chapa, trave, etc. é radicalmente diferente, e é isso que
importa (IF 10). Nós operamos nos diferentes tipos de lingua- 1. modelo de uma linguagem primitiva;
,ti gem com as palavras, sem dúvida, mas de acordo com sistemas
2. unidade funcional lingüística;
de regras diversos, e a mistura ou a não-consideração desses
3. totalidade das atividades lingüísticas.
rl
rü Sistemas diversos faz surgir inúmeros problemas.
gramática' (como também o adjetivo 'gramatical') tem para ele um significado bas-
tl Uma das fontes de erro em filosofia consiste. precisamente, em tante amplo e variado. O termo pode significar as regras do emprego de uma palavra...
,IN
isolar expressões do contexto em que elas surgem, o que significa não Mas pode significar também o complexo das regras que constituem uma linguagem...
, compreender toda a dimensão da gramática da linguagem26. Wittgenstein Em outras ocasiões, ainda, pode signiÍicar a explicação que damos dessas regras"... Cf.
distingue dois tipos de gramática (IF 664): ainda J. M. Terricabras, op. cit., pp. 389ss. A. Kenny, op. cit., pp. 208ss.
1,, * 27. Aqui se mostra, com clareza, a reviravolta no pensamento de Wittgenstein.
Permanece a pergunta pela linguagem humana, só que a resposta vem da consideraçào
,r* 26.Para o sentido da gramática, cf. W. Spaniol, op. cit., p. 118: "SeWittgenstein da linguagem em ação: os jogos de linguagem mostram "como a linguagem funciona".
lala aqui de uma 'consideração gramatical', é preciso ter presente que o termo 28. K. Wuchterl, op. cit., p. 122.
üt lil

ri t40 t4t
Reví ravo lt a pragmática Pra11m iitica analíti ca

A prirrrcira pode ser considerada um caso especial da segunda, e urna nova perspcctiva dc lirrguagcrtr: a considcração dos diferentes
a tcrccira ó unra espécie de generalização que Wittgenstein usa rara- usos das palavras Lr a dcscohcrlit (lc cílrilctcrísticas semelhantes e pa-
nrcnlc (llr 7) e com muito cuidado, em virtude de possíveis mal- rentescos, ou scja, as sclnclhilnçus rlc lirrrrília conto diz Wittgenstein
-cntenclidos Íilosóficos (essencialismo). No centro, portanto, está o (lF 64, 66). Entrc os nlais divcrsos jogos dc lingul"rgcm possíveis, o
jogo dc linguagem como uma unidade funcional- que talvez pudessc scr considcraclo clerncnt() c()l)lulll scria o uso
Wittgenstein recusa-se conscientemente a dar uma definição do normativo de sírnbolos lingüísticos num processo dc internalização de
que seja jogo de linguagem, pois, do contrário, estaria incorrendo em normas e papéis no processo comunicativo intersubjetivo.
essencialismo (IF 65) e contradiz, precisamente, a intenção básica da A linguagem é considerada na dimensão última de sua realíza-
sua filosofia na segunda fase, que consiste em eliminar o sentido
ção, isto é, no processo de interação social. Poder usar linguagem
metafísico dado às palavras, retornando ao uso do dia-a-dia (IF 1 16).
significa, então, ser capaz de inserir-se nesse processo de interação
A rejeição do essencialismo não significa ceticismo2e, mas abertura a
social simbólica de acordo com os diferentes modos de sua rcalização.
29. Não se pode dizeq contudo, que haja em Wittgenstein um confronto com o Ora, tal capacitação é algo histoiíôamente adquirido. Apesar de
ceticismo, uma vez que, de antemão, está eliminada da filosofia a questão da "demons- a linguagem pertencer, naturalmente, à vida do homem, o poder de
tração". Wittgenstein se confrontou, no último ano e meio de sua vida, com o problema
uíá-lã é'uma capacidade adquirida por meio de um adestramento, ou
do saber e da certeza, sobretudo em relação à posição de C. E. Moore. Esses textos
foram editados por G. E. Ascombe e G. H. von Wright. Cf. L. Wittgenstein, seja, de um verdadeiro, aprendizado das normas e dos papéis implica-
Bemerkungen über die Farben. Über Gewissheit. Zettel. Vennischte Bemerkungen, dos nesses atos. Isso tudo manifesta, de um lado, como de lalo o
3' ed., Frankfuft am Main, 1989. Aqui (sobretudo a partir do § 200), Wittgenstein Wittgenstein da segunda fase não separa a linguagem da práxis social;
considera o saber como a capacidade de apresentar provas, o que sempre pode reco- por outro lado, como sua concepção da linguagem se afasta de uma
meçar, criando, assim, uma verdadeira cadeia de provas. No entanto, essa cadeia tem
um Íim, ou seja, existe um ponto paÍa além do qual não pode mais haver provas (ele
outra posição que também tenta pensar a relação entre linguagem e
já se refere a essa situação em IF § 326,485; cf. Über Gewissheit, § 47 1.1. Essas práxis: o behaviorismo lingüístico3o. O ponto central da divergência
verdades servem de prova para outras sentenças, mas não há provas para elas. Para está em que, enquanto o behavierismo pensa a linguagem em ú1tima
Wittgenstein, em qualquer situação de conhecimento. pressupomos. como evidentes, análise como um3Êenômeno 4,aqyral, pois a pensa por meio da catego-
um bom número de sentenças, daí por que toda dúvida, como também toda prova, já
ria comportamentalista do estímulo-resposta, Wittgenstein A pensa como
acontece denfro de um sistema. Sem esse sistema, não há propriamente argumentação.
Porém, e aqui está o ponto decisivo na consideração de Wittgenstein, não se pode aplicar tmfenômeno hisíórico, ou seja, fruto da liberdade criativa do homem.
o conceito de saber para aquilo que é pressuposto do saber. Poder-se-ia falar de "segu-
É, precisamente, nesse sentido que se deve entencler a razão de
rança", mas não se trata, aqui, de segurança na captação espiritual do conteúdo de nossos
juízos. nras segurança na práxis do julgar: no § 20-l de Üher Gewissheit, diz Wittgenstein: ser da categoria central de Wittgenstein nessa segunda fase: jogo de
tl "Mas a fundamentação, a justificação da evidência chega a um fim; só que o fim não linguagem. Um evento natural é aquele em que imperam forças anô-
a)
rl é que certas sentenças nos apareçam como imediatamente verdadeiras, portanto uma nimas pura e simplesmente, e isso é muito diferente de um .iogo em
,l espécie de ver de nossa parte, mas nossa açào, que subjaz ao jogo de linguagem". Esse que indivíduo e forças supra-individuais se medeiam. §o jogo, o ho-
sistema de sentenças, que constituem um pré-saber e uma pré-priíxis, constituem uma
mem age, mas não simplesmente como indivíduo isolado de acordo
rl espécie de visão do mundo, que também se poderia chamar de "forma de vida", que não
,l é nem verdadeira, nem falsa (§§ 162,205), mas só no seu seio se pode ter uma confron- com seu próprio arbítrio, e sim de acordo com regras e norÍnas que ele
a
tação sobre a verdade, pois só a partir daqui podem ter sentido as palavras daqueles que juntamente com outros indivíduos estabeleceu. Essas regras consti-
se confrontam com a verdade de sentenças. Esse pré-saber pressuposto constitui uma tuem um quadro de referência intersubjetivo que, por um lado, deter-
[, práxis, que não se pode fundamentar: ele é o pressuposto dos jogos de linguagem, que
a tllosofia apenas olha, não toca. Cf., a respeito: M. Antunes, "O problema da certeza
.rí no último Wittgenstein", in'. BroÍeria 112(1981) 175-182. G. H. von Wright,Wittgenstein, 30. A respeito da diferença entre essa postura e o behaviorismo, cf. G. A. de
Trad. de J. Schalte, Frankfurt am Main, 1990, sobretudo pp. 170ss. Almeida, op. cit., pp. 72ss.
rtl
*ü t42 t4)
llavi ravolta pragmatica Pragmática analítica

rnirr:r lrs l.nlntcilns das ações possíveis, estabelecidas comunitariamen- As conexões simbólicas da linguagem comum não são, nesse sentido,
Íc, c. por oulro, deixa ao indivíduo, dentro dele, o espaço para as puras, pois só são inteligíveis num contexto de interação. Aliás, a
irriciltivas. linguagem simbólica pura é, em si mesma, também um jogo de lin-
guagem específico e, portanto, um processo de interação social; só que
Mesmo seguindo as mesmas regras, ninguém joga do mesmo
em virtude de seu carátter artificial dá uma impressão de pureza, isto
modo.
é, de separação de uma práxis social, e o fato de essas regras não
Para Wittgenstein isso ocorre analogamente com a linguagem, o serem regras estritas, como no caso da linguagem ideal, nem de longe
que justifica a categoria empregada (IF 449). Ela pertence naturalmen- significa que não tenham sentido. Foi precisamente esse preconceito
te ao homem, no sentido de que onde há homem há linguagem, mas que levou Wittgenstein no Tractatus à elaboração de uma linguagem
a linguagem, de nenhum modo, é algo já pronto de antemão, uma ideal (IF 99) e a procuraÍ determinar a essência da frase.
espécie de destino, mas fruto da capacidade de criação e invenção Ora, tal tentativa aparece agora absolutamente sem sentido, pois
humanas. Daí a comparação com o jogo. O jogo não é uma fatalidade não existe a essência da frase (IF l34ss.), mas jogos diversos unidos
natural, nem mesmo uma imposição de forças supra-individuais, cole- em certas semelhanças. Não se podem reduzir todas as frases de nossa
tivas, sociais anônimas, pois a comunidade em questão só surge no linguagem a um único esquema. Em todo cálculo, como é o caso da
próprio ato de jogar por meio do reconhecimento de regras e aceitação linguagem ideal vislumbrada no Tractatus, há axiomas básicos e pres-
de papéis que dirigem a ação global. A comunidade constitui-se, en- crições que determinam, de antemão, o modo de uso dos elementos
quanto comunidade, na base do reconhecimento, ou seja, por meio de do cálculo. Essas regras objetivam um comportamento universal em
atos de liberdade. O fato de as regras serem reconhecidas não signi- que não há ambigüidades e imprecisões. Mas tais regras só são
fica, porém, que sua aplicação decorra de modo mecânico, uma vez conseguidas por uma construção prévia dentro de uma linguagem já
que implica reflexão e decisão no assumir no caso concreto o uso existente. No entanto, elas não podem conter em si toda a riqueza que
comum. O aprendizado de uma regra, portanto, por supor um ato livre constitui a linguagem do dia-a-dia. No cálculo, as regras já têm, de
de pessoa, de modo algum pode ser comparado a um processo de antemão, fronteiras claramente definidas, enquanto no jogo de lingua-
condicionamento causal como o behaviorismo o pensa. "Não são re- gem só o uso lhes dá o sentido verdadeiro e suas fronteiras, que nunca
flexos condicionados, não são hábitos adquiridos e repetidos mecani- são definitivas. Precisamente essa falta de precisão é que permite
camente, mas uma prática baseada num saber, na espontaneidade do certa flexibilidade (IF 18) no jogo (IF 84, 85), de tal modo que se
indivíduo que subjazem à aplicação da regra"3r (IF 198). pode dizer que, de fato, só na realizaçáo do jogo existem, realmente,
A linguagem é açáo comunicativa entre sujeitos livres, e, por as regras. É sabendo operar com as figuras do jogo que aprendemos
,li
isso, radicalmente diferente dos processos mecânicos naturais. O fato suas regras. .\/
,r
ri de a linguagem ser compreendida como jogo, em que sempre se exige Na linguagem é a mesma coisa: só aprendemos a significação das
tl consenso dos participantes a respeito do sucesso no emprego das re- palavras quando sabemos operaÍ com elas, isto é, quando internalizamos
tÍ gras estabelecidas, mostra quanto a categoria de jogo de linguagem as regras de seu uso nos diversos jogos de linguagem. É jogando o
,l está longe de esquemas behavioristas. As regras que surgem num pro- jogo que aprendemos, de fato, suas regras. Daí a necessidade de um
I cesso de interação social se distinguem, radicalmente, por exemplo, adestramento: no caso da linguagem comum, trata-se de aprender um
1,, ,
das regras gramaticais da linguagem ideal do Tractatus, pois estas processo de comunicação normado. Não se trata simplesmente de
exprimem simplesmente conexões simbólicas no nível do símbolo puro. repetir símbolos, mas de aprender a agir de um modo determinado, ou
.ll seja, de acordo com as regras específicas do tipo de ação em questão.
31. Cf. G. A. de Almeida, op. cit., p. 75 Os processos nos quais aprendemos uma linguagem implicam um
,ül

ilí 144 t45


Ilcví ravo lta pragmática Pragmática analítica

ill)r'cn(lcl ir ilgir assiÍ)t ou assado e, portanto, a internalização das nor- o ccrne da tese wittgensteiniana: a significação das expressões rlem da
rnirs rprc rcgulam esse agir (IF 198). l'unção que elas exercem nas diferentes formas de práxis humana. Se
uma pessoa, ao ouvir semelhante expressão, abre os olhos, é que tal
O scguir uma regra é, portanto, um ato social que ocoÍre numa
comportamento é o único adequado à significação desta expressão
conrunidade de vida por meio de hábitos e costumes (IF 199), ou seja
lingüística dentro do contexto sócio-histórico na qual ela emerge, in-
é atlquirir determinada práxis de determinada comunidade humana
-
algo de muito exigente, pois implica numerosas aptidões e habilida-
dependentemente da intenção do falante de atingir esse fim ou de já
o ter atingido num ato intencional.
cles; em última análise, implica um assumir a forma de vida dessa
comunidade em tela, a qual pode ser bem diversa da pessoa em ques- Não se trata aqui, de modo algum, de uma significação prove-
tão. Precisamente porque a coisa é assim, não é possível formular niente de um ato intencional qualquer, mas, nesse sentido, poder-se-ia
abstratamente as regras de uso das palavras, mas somente por meio de dizer de uma significação objetiva, isto é, daquela que se origina numa
uma análise das atuações pragmáticas, o que justifica o método segui- situação objetiva, num determinado contexto global sócio-histórico. A
do por Wittgenstein nas Investigações Filosóficas, como já vimos. interpretação instrumentalista coÍre o risco de recair numa teoria dos
Interessante é notar que temos aversão historicamente inata atos intencionais que concedem significação a expressões lingüísticas,
(essencialismo ocidental) contra tal método, o qual à primeira vista em contradição evidente com todos os esforços de Wittgenstein II (IF
parece-nos cansativo, longo e a nada conduzir (IF 340). O único ca- 498). É precisamente contra essa interpretação que já se disse que,
minho para Wittgenstein, para a superaçào de tal preconceito, passa para Wittgenstein, os problemas da semântica só são resolvidos na
pela superação da própria metafísica, como também pela superação da medida em que ela atinge a pragmática. Com isso não se pretende
teoria tradicional da significação. Para a semântica tradicional, a sig- negar, de modo algum, que a tese, como ela se encontra na obra de
nificação de uma palavra dependia de sua ordenaçtÍo-rtbjetiva (teoria Wittgenstein, seja indeterminada. (De fato, Wittgenstein não precisa
objetivista da significação), mesmo que os objetos não fossem neces- nunca o conceito de uso, como aliás nenhum conceito, em razão de
sariamente entidades concretas. Toda a teoria de Wittgenstein na se- sua recusa radical do essencialismo). Vai ser tarefa da filosofia da
gunda fase (falando de um modo que ele não aceita) é uma rejeição linguagem posterior a ele pôr um pouco de ordem em todas essas
de tal perspectiva. Uma palavra tem para ele sentido pela maneira coisas. O mérito de Wittgenstein está, exatamente, em ter aberto novas
como é usada, isto é, de acordo com a função determinada que exerce perspectivas para a consideração da linguagem humana, embora sua
num iogo de linguagern. Além do uso, não se faz necessário existir, perspectiva metodológica o tenha impedido de chegar a uma visão
ainda, algo que conceda significação às palavras, nem objetos, nem sistemática na investigação filosófica da linguagem cotidiana.
,l
l atos intencionais (IF 454).
ar
rl Amaneira de falar\de Wittgenstein dá origem ao que se
rl convencionou chamar o instrumentalismo da linguagem. Trata-se de
rl uma argumentação segundo a qual uma palavra teria sentido na me-
)l dida em que se pretende com ela conseguir algo (IF 11,421,569), e
) a linguagem é apenas meio para o fim, e o que determina a significa-
I,, ção é o fim. Quando se diz, por exemplo, abra os olhos, trata-se de
uma ordem que é expressa precisamente na intenção de conseguir esse
,í fim. No entanto, por tudo o que já dissemos a respeito da relação
linguagem e práxis, fica claro que tal interpretação é incapaz de atingir
ül
ti t46 147
JOHN LANGSHAW ÁUSTIN
Teoria dos atos de fala I

segunda fase da filosofia de Wittgenstein significou um passo


fundamental na superação da semântica tradicional, ou seja, do
realismo lingüísticor. Critério decisivo paÍa a determinação do sentido
das expressões é, de agora em diante, o próprio uso das palavras, seu
aparecimento nos diferentes jogos de linguagem, que são a expressão
de diferentes formas de vida. No entanto, Wittgenstein deixou muitas
questões abertas: seu mérito foi abrir uma perspectiva nova de traba-
lho. Uma vez descortinado o novo horizonte, havia muito o que fazer,
mesmo na determinação dos pontos centrais de sua nova imagem da
linguagem. Aqui, por exemplo, se trata do novo "critério de sentido":
,rii o uso. Que significa dizer ser o uso que determina o sentido das
,l
tl palavras?2
,l i
A Escola de Oxford se empenhou em esclarecer essa questão,
tll tendo conseguido dar alguns passos importantes no esclarecimento do
,l
,

ll
L Ou na expressão de Kutschera, da semântica realista. Cf. Kutschera,
[, Sproc'hphilosophie, 2" ed. Munique, 1975, pp. 31ss.
2. J. Searle vai, mais tarde, considerar o conceito de uso vago demais como
tll instrumento de análise. Cf. J. R. Searle, Spreclzakte. Ein sprttchphilosophi.çchcr Essat',
t,tr i
Frankfurt am Main, 197 l, p. 221 .
ril
ilí | 149
tlc v í r avo I ta pragmática 1. 1,. Atrstitt: /tirr'lr r/t)r rttos Jc .lala I

foi J. L. .,rrrs considcraçõcs cstcjanr as scntcnças declarativas, ou seja, aquelas


li'rrôrrrcno lingüístico. Iniciador dessa pesquisa em Oxford
Austin lgll-1960), cuja
( influência na articulação do que se rlttc tlcscrevem um conteúdo qualqucr, quc alirmam, registram, copiam,
convcncionou chamar a Filosofia da Linguagem Normal se deu exa- tlc ccrto modo, um fato qualquer. Não sti a linguagern da ciência, o
tarnentc a partir de sua atividade como professor, pois seus livros só t;rrc ó compreensível em virtude do Íim por ela visado, mas toda lin-
Íbram publicados depois de sua mor1e. A respeito de suas idéias, houve ltr.rlgem humana é reduzida a sua função designativa, apesar de os
grarnáticos sempre terem afirmado que nem todas as Íiases são senten-
interpretações muito diversas, em primeiro lugar, por não ter ele con-
seguido, durante sua vida, publicar de modo sistemático seu pensa- ças declarativas6. Tal doutrina chegou, em nosso século, a sua radi-
calidade por meio do "princípio de verificação do neopositivismo":
mento; em segundo lugar, porque seu itinerário constituiu-se de etapas
urna frase não-verificável era considerada um disparate lingüístico7.
hoje perfeitamente distinguíveis em sua obra mais importante: How to
No entanto, uma pergunta pode e deve ser levantada: as frases absur-
do things with words3. Os sete primeiros capítulos desta obra contêm
das pretendiam, de fato, ser sentenças declarativas? Pode-se, logo, ver
uma perspectiva que, de certo modo, é superada nos capítulos seguin-
que pelo menos alguns dos disparates lingüísticos não tinham a inten-
tes. Para podermos ter uma visão exata do desenvolvimento de sua
ção de informar sobre algo, apesar de serem formulados de modo a
teoria, vamos procurar apresentaÍ as duas fases de seu pensamento. A
dar essa impressão. Ora a questão aqui não é, de antemão, declará-los
primeira observação a ser feita é que Austin, ao contrário de
sem sentido, pois nossa linguagem os contém e nós nos entendemos
Wittgenstein, trabalha sistematicamentea. Sua )primeira obra, que é a por meio deles, mas, antes, de destruir o preconceito do monopólio
primeirateoria sistemática a respeito do que se pode fazer çom palq- das sentenças declarativasS. Faz-se necessária uma distinção clara entre
yraq,_ foi publicada em 7962 e contém o conteúdo por ele ministrado
os diversos tipos de enunciado. Austin introduz, então, uma distinção
em 1955. Também seu segundo livro, Sense and sensibilias, tinha suas importantee: ele chama "enunciados constatativos" (e não descritivos, pois
aulas como base. .
a descrição é apenas uma das funções desses enunciados) aos enuncia-

6. Segundo Bühler, Aristóteles já havia percebido que nem toda fala é um juízo
e por essa razão nem todo sentido lingüístico está subordinado ao critério da verdade
i !:
e da Íalsidade. A respeito de Aristóteles, cf. sobretudo De Interpretatione, l7 a 18. Cf.
Austin principia r"u como o Wittgenstein da segunda fase, K. Bühler, Die Krise der Psychologre, novae«1., Frankfurt-Berlim-Viena, 1978, p.61.
"u.ôo, 7. A partir do "critério empirista de sentido", o positivismo lógico distinguiu
contrapondo-se à teoria tradicional da linguagem. Para essa concep-
dois tipos de Íiases: as clescritivas e as emotivas (normativas). As primeiras sào
ção, a linguagem é essencialmente descritiva, daí porque no centro de frases que podem ter sentido, as segundas não. Cf. H-U. Hoche/W. Strube, op. cít..
p. 248. E. v. Savigny. op. cit., pp. 46ss. F. v. Kutschera, op. cit., p. 66. W. Becker,
3. Essa obra é a apresentação de um curso ministrado por Austin na Untversl- Wahrheit und sprachliche Hundlung. Untersuchungen zur sprar:hphilo,sophischen
dade de Harvard em 1955. onde já parece claro o fim que ele se propôs em sua Wahrheitstlteorle, Friburgo-Munique, 1988, sobretudo cap. II, pp. 38ss. W. Stegmüller,
atividade acadêmica: articular uma teoria da estrutura da linguagem. Cf. J. L. Austin, R. Carnap, "lnduktive Wahrscheinlichkeit", in'. (iruntlpntbleme der grossen
Sprechakte (Hovv Ío tkt things with words), Stuttgart, 1972. Philosophen. Phil.osophie der Gegenwurl I, ed. por J. Speck, Gôttingen, 1972,
4. Essa é, por exemplo, a posição definida por E. v. Savigny in'. Anal ,-Íische pp.45ss.
Philosopl'tie, Friburgo-Munique, 1970, p. l0l, embora possamos dizer, com Searle 8. Jír Wittgcnstein considerava esse preconceito, quc nrarcou toda a filosofia do
e Hoche/strube, que sua teoria da classiÍicação dos atos de fala carece de um prin- Ocidentc até o seu'fracÍ(ttus, fundado numa visão rcprcscntacionista e rnonológica da
cípio de classificação. Cf. J. R. Searle, Áu.idrurck wtd Bed.euÍrzng, Frankfurt am Main. linguagcm. Cf. G. A. de Alrneida, 'Aspectos da Filosolia da Linguagem. Contribuição
1982, p. 28. H-U. Hoche/W. Strube, Anal-r'tist'he Phiktxtplrie, Friburgo-Munique. para um confronto e uma aproximação cntrc lllosol'ia e ciência cla linguagem", in:
1985, p. 251. Cadernos SEAF l(1978) 64-86.
-5. J. L. Austin. Sense and sensihiliu. Oxford, 1962. 9. Cf. J. L. .A.ustin, Zur Theorie dcr SltrL'chukÍc, op. cit., pp. 23ss.

150 t5l
Rt vi ra vo lta prag m á tica ,1. L. Austin: lcorit los (tlot (l( litld t

drs dc lato, cle pura constatação. Mas além desses enunciados, há Não tem sentido por aqui a pcrgu,lil ir rcspcir. de sua verdade ou
.ull'.s, que não constatam fatos ou ações, mas antes eles mesmos lrrlsidade, o que para a tradição era a cilrilck:rísticir Íundamental das
cxecutam uma ação, fazem parte de uma operação. A própria declara_ sc:ntenças. O que podemos perguntar é sob quc c.ndições a ação em
ção das palavras, realizada em certas condições, significa a execução questão se realiza ou nãorr. Quais exigências clcvcrn scr cumpridas
de uma ação. Por exemplo:
l)ara que tais atos, de fato, se realizem? Em que circunstârrcias se pode
1. digo sim no casamento ao juiz ou ao padre; rlizer que tais atos não chegam à realização? A resposta a essas per-
2. batizo um navio com o nome de Rainha Elizabeth ao quebrar guntas constitui o que Austin denomina a "doutrina dos reveses"
uma garrafa no casco do navio;
(infelicities) dos atos performativos. Aposta não se faz simplesmente
clizendo eu aposto, mas se deve levar também em consideração em que
3. deixo meu relógio para meu irmão como parte de um testamento;
circunstâncias se diz isso. Para que a ação realmente se execute, é
4. aposto cinco reais que amanhã chove. com essas expressões não
necessário que um conjunto de coisas esteja em ordem além das ex-
descrevemos o que pensamos ou fazemos, mas com elas,,faze_
pressões lingüísticas em questão. Trata-se de elaborar um esquema,
mos realmente alguma coisa"r,. euando diante do altar digo sim,
possivelmente completo, dos possíveis reveses dos enunciados
não descrevo o que faço, mas caso-me dizendo sim. A esse tipo
performativos. os reveses dos atos performativos correspondem, por-
de expressão lingüística Austin chama de "performativa" (do verbo
tanto, à falsidade dos atos constativos, só que não se pode esquecer
inglês to perform) precisamente para distingui_las das proposi_
que se trata aqui de uma dimensão diferente. os atos constatativos,
ções comumente consideradas aquelas que exprimem um ato com os quais se fala do mundo, são verdadeiros ou falsos de acordo
de constatação - designação executa
pois a própria uma ação. com a correspondência ou não a estados de coisa em questão; os atos
Tais expressões-.não descrevem fatos, mas ,.constituem,, fatos, performativos, por sua vez, são felizes ou infelizes (happy ou unhappy)
isto é, ações executadas pelo sujeito que as profere.
euando digo, na medida em que as condições para sua realização são cumpridas ou
por exemplo, prometo estudar inglês, estou executando o ato de não. Essas condições são "normas convencionais", o que significa que
prometer. Não se trata da execução de um ato intencional, inter- aqui está em jogo a comunidade lingüística e, portanto, o caráter in-
no, espiritual, mas simplesmente da execução de um ato especí_
fico. Pelo fato de dizer as palavras, executo um ato determinado. 11. Precisamente porque o fim de suas investigações é diferente da tradiÇão,
Nesse caso, dizer alguma coisa significa,,fazer alguma coisa,,. Austin vai metodologicamente privilegiar a consideração dos casos infelizes. Hoche/
Stube enumeram os motivos dessa preferência na obra de Austin: l) por meio deles
se pode chegar a distinções relevantes do ponto de vista da filosofia da linguagem,
10. A preocupação central de Austin não é tanto com paravras e mudanças por
,íi de exemplo à distinção daqueles atos que em sua conexão constituem o falar; z; pooe-
I uso na linguagem do dia-a-dia, mas, acima de tudo, com as diferentes coisas
que -se também chegar de modo simples à diferenciação dos atos que, em sua totalidade,
rl p,odem ser feitas com as palavras. cf. a respeito: H.-u. Hoche/ w Strube,
op. cit. constituem um ato de fala determinado. A diÍ'erença que para Austin é Íundamental
rl
,

p. 246. stegmüller se espanta com o fato de que a humanidade levou tanto


ll tempo a entre o ato locucionário e o ato ilocucionário segunclo Forguson ,,might go unnoticed
perceber que a linguagem é ação. cf. w. stegmüller, ,,Teoria dos
atos locucionais: J. in the normal successful speech act, where this distinction can usualiy be made only
tl L Austin e^ J.. R. Searle", in: A Fibsoíia Crntemporânea Z, Sao paulo, 1972, p. 52:
at the level of abstraction, as a'distinction of reason'... It is only when meaning and
,l "E um escândalo, uma vergonha para totlos aqueles que nos últimos 2.500
anos se Íbrce" come apart "that the normally (mercly) abstract acts have a life of their own,,
preocuparam de algum modo com a linguagem, não se haver chegado,
I Ir
há muito (L. W. Forguson, Locutionary and lllot:utionar\t Acts, in: Berlin t. a., 19i3,160_1g5,
tempo, à descoberta feita por J. L. Austin, cuja essência pode ser ."ru,tidu
na seguinte aqui 171, citado em H-u. Hoche/lv. Stube, op. cit., p.23g-239).3) por meio dos casos
lu, frase: com o auxílio de manifestações lingüísticas podemos realizar os mais
variaclos infelizes podemos detectar as distinções relevantes do ponto de vista filosófico nào
tipos de ações. É pafticularmente surpreendent. qué, ,,..rro depois do Lingttistit.
tl I
h da filosofia contemporânea, Íbi preciso que se passassem vária,s décadas até que
Íttrn influenciados por teorias Íllosóficas ou lingüísticas. pode-se, então, ir aos fatos sem
tl um preconceitos; o que manifesta a cegueira hermenêutica" de Austin. cf. H.-u. Hoche/
lrlósof'o descobrisse que existem atos locucionais, ou atos de Íala,,.
il W. Stube, op. cit., pp. 237ss.
rl lt 152
153
Ilcv i r avo Lta pr agmátíca J. l-. Austin: teoria dos atos de fala I

tclsrrhjctivo rll linguagem humanar2. Continuando a perspectiva aberta (C.l) Quando, como freqüentemente ocorrc, o procedimento é desti-
por Witlgcnslcin, Austin situa a linguagem humana no seio do proces- nado a pessoas, que têm certas opiniires ou sentimentos, ou
so conrunicativo. Os atos que executamos por meio dos enunciados quando serve para comprometer certo participante com um
llcrlilrrrrativos executam ações convencionais, ou seja, são executados comportamento futuro qualquer, então uma pessoa que partici-
na nredida em que cumprem normas intersubjetivamente estabeleci-. - pa e assim invoca o procedimento tem, de fato, de ter essas
das. Eles são atos precisamente na medida em que cumprem essas opiniões ou sentimentos e os participantes lêm de ter a intençào
normas e não em virtude de intenções próprias do sujeito. Portanto, de comportar-se assim e não de outro modo.
são as seguintes as condições de realização de um ato performativol3: (:C.2) E elas têm de, realmente, se comportar. então, também assim.
(A.l) E preciso existir um procedimento aceito, tendo certo efeito As diferenças de letras entre as diversas condições deve, segundo
convencional e de tal modo que esse procedimento inclua o Austin, exprimir as diferenças importantes entre elas. A diferença
proferimento de certas palavras por certas pessoas em certas fundamental é entre as quatro primeiras e as duas últimas, pois, no
circunstâncias. caso das quatro primeiras, há uma falha que impede a própria realiza-
6.D É preciso que as pessoas e circunstâncias particulares num dado ção do ato, enquanto nas outras duas o ato chega a realizar-se, porém
caso sejam apropriadas para a invocação do procedimento par- de modo abusivo. Entre A e B existe a seguinte diferença: no caso de
ticular invocado. A, trata-se da não-existência de tal procedimento; no caso de B, de sua
(B.l) É preciso que todos os participantes executem o procedimento falsa aplicação. Portanto, as expressões lingüísticas estão sujeitas à
corretamente. mesma doença das ações convencionais. Consideremos cada um dos
(B.2) E completamente. CASOS:

(A.l) Eu te ofendo não é uma expressão com que se pode ofender


12. Cf. G. A. de Almeida, Aspectos da Filosofia da Linguagem, op. cit., p. 78:
alguém, ou seja, não há convenção que faça da expressão "eu
"... os proÍ'erimentos performativos deÍlnem uma dimensão essencialmente pública e
dialógica cla linguagem, pois servem para executar atos que se definem: 1) pela rela- te ofendo" uma expressão de ofensa. Quem diz isso com a
ção palavra/norma social, 2) pela relação palavra/interação. Os proferimentos intenção de ofender alguém não ofende, não realiza o ato de
performativos servem para estabelecer uma forma de comunicação ou de interação do ofensa. Invocou-se uma convenção que simplesmente não exis-
locutor com seu interlocutor por meio da invocação de uma norma ou convenção te. (4.20) Eu te nomeio, como expressão pronunciada tendo já
social". Nesse sentido, pode-se dizer que a teoria dos atos de Íala se situa no esÍ'orço
sido feita a nomeação, ou depois que um outro já nomeou, ou
claro de superar o solipsismo que caracteriza a filosoÍla moderna da consciência. A
linguagem é um modo de agirmos no mundo, uma prática social concreta; em outras quando o "tu" é um cavalo (8.1) Aposto que a coÍrida hoje não
palavras, a linguagem é uma forma de atividade social, uma "forma de vida" na se realiza, quando há mais de uma corrida planejada. (8.2)
expressão de Wittgenstein. Ao falar, os falantes usam regras que se originam de uma Tento casar dizendo sim, mas a noiva diz não. O procedimento,
práxis social. Então, o significado das expressões não se contitui a pafiir das intenções nesse caso, é incompleto e por essa razão não se realiz;t. Como
privadas do sujeito falante, mas a partir das práticas e instituições de uma comunidade
jir vimos, esses quatro primeiros casos têm em comum o fato
lingüística. Searle irá depois cxplicitar essa tese contra as tentativas de Strawson e
Grice de revisar as teorias dos atos de tala. Cf., a respeito. P. F. Strawson, "Intention de que faltas contra eles significam a não-realização <1o proce-
and Convention in Speech Acts", in: Logico-Linguistic Papers, Londres-Nova York, dimento perfbrmativo. Não se consegue executar o que é pro-
I 97 l. pp. 149- 169. H. P. Grice. "Meaning", in: Steinberg & Jakobuvits (eds.), ,Sezrrarrit.r, posto. Nos dois casos seguintes, o procedimento perÍbrmativo
Cambliclge" 197 l. pp.53-59. G. A de Almenida. op. cit., pp. 8lss. H.-U. HochelW chega a se realizar, mas há um abuso clc regras: (C. l) Prometo
Siubc, "strawson und die pcrÍbrn'rative Analyse des W'ahrheitsbegriÍ1.s", in op. cit.. pp.
vir: é uma promessa, mesmo qLre Íirltc a intençln cle curnpri-la.
13. Cf. J. L. Austin, op. cit., p.35; E. v. Savigny, Die Philosophie der normalen Trata-se aqui de uma desleaidadc. (C.2) Par.rlo diz: prometo vir.
Sltrurche . op. cit., pp. 136ss. Ele promete, e tem, de Íato, a intençlto dc vir, tnas depois mu«la

t54 I
'i
J. L. Ausrin: teoria dos atos de Jala I
Reviravolta pr agmática

Porém, a partir da experiência fracassada com a distinção entre pro-


rlc: icléia e não vem. Ora, isso é um abuso, pois ele levantou
cedimentos constatativos e performativos, busca-se agora compreen-
ccrtâs cxpectativas em relação a seu comportamento sem che-
der, de maneira mais pertinente, a ação lingüística. O resultado
gar a cumpri-las. Portanto, é uma inconseqüência'
dessa tentativa é a primeira articulação sistemática da "teoria dos
Austin é de opinião de ter dado um quadro completo dos possí- atos de fala" exposta por Austin nos cinco capítulos finais de sua
veis reveses, embora, de fato, uma mesma expressão lingüística possa primeira obra.
pecar contra mais de uma dessas regrasra. Além disso, nem sempre é
muito claro a qual caso pertence exatamente uma "infelicidade" des-
sas. Analisemos as dificuldades com os diversos casos' Austin conclui: b) Teoria dos atos de faln: a pluridimensionali.dade dos atos de fatn
não nos podemos limitar simplesmente à proposição, quando quere- "\,

mos explicar o que não está certo, mas devemos levar em consideração A teoria dos atos de fala pretende, em última análise, esclarecer
,.toda a situação," na qual a expressão lingüística ocorrel5. No entanto, a tese de Wittgenstein de que a significação das expressões lingüísti-
a distinção que está na base de tudo isso entre procedimentos cas consiste €m seu uso. Austin considera essa tese, com razão, extre-
- começa por -
muitas razões a aparecer a
constatativos e performativos mamente indeterminada e, acima de tudo, tratada sem sistematicida-
Austin como não pertinente e, em virtude disso, ele tenta definir os de. Faz-se necessário, em vista da infinitude de usos da linguagem,
procedimentos performativos procurando critérios para sua distinção. tentar uma certa sistematizaçáo paÍa se poder captar, com maior cla-
Primeiramente são seguidos critérios de ordem gramatical (sintaxe) e reza, as diferentes funções da linguagem humana. Essa "ordenação"
vocabular sem sucesso, pois ele chega à conclusão de que, com muita dos usos da linguagem é efetuada a partir da pergunta: que se pode
probabilidade, não há aqui critério absoluto nem é possível estabelecer fazer com uma expressão lingüística, ou seja, que é um ato de fala?
uma lista desses critérios. Além disso, em muitos casos, podem-se Para Austin. um ato de fala qualquer. mesmo o mais simples, é uma
usar oS mesmos procedimentos às vezes como constatativos, às vezes realidade complexa, contém muitas dimensões. Para podermos captar
como perf,ormativos. a ação lingüística em sua totalidade, faz-se necessário, em primeiro
Diante de dificuldades tão grandes a que está sujeita a distinção lugar, tentar analisar suas diferentes dimensões. Tomemos um ato de
entre procedimentos constatativos e performativosl6, Austin resolve fala qualquer. Quando alguém diz por exemplo: este jacaré é perigoso.
retomar toda a questão inicial e repensá-la. Sua pergunta é, então: que Em primeiro lugar, ele diz alguma coisa, executando, portanto, um ato
significa dizer que dizer algo é fazer algo? Permanece' portanto' a de fala: ele faz certos ruídos, que são, por exemplo, foneticamente
peispectiva fundamental: a linguagem é um tipo de ação humana' pesquisáveis: pronuncia uma frase portuguesa, em princípio compreen-
,i I sível por todos aqueles que pertencem a essa comunidade lingüísti-
lt ' 14. Além desses casos, que poderíamos chamar de externos, há também
nume- faz uma afirmação a respeito de determinado ani-
call , e com isso
'l I I rosos
..casos
de transição". cf. w. Stegmüller, op. cit., p. 59: "Os numerosos exemplos

mal. Austin denomina ato "locucionário" à totalidade da ação lin-
formulados por Austin atestam que existem, em geral, situâções de transição. güística em todas as suas dimensões, e a teoria que trata desses
rl convenção violada até o simples costume, do qual as
transições que levam desde a
,l atos sob essa perspectiva de "pesquisa das locuções": cada proce-
p.r.oo. se afastam em grau maior ou menor. Acresce qr.re é possível considerar o
I
comportamento humano na merlida em que se ajusta ou se aÍasta das convenções dimento lingüístico é, pois, um tipo de ação humana, isto é, um ato
- locucionário.
[, -
sob a perspectiva de sua dinâmica temporal"'
15. Interpretar os proferimentos Íbra da situação em que são proferidos, redu-
que Austin
rl zinclo-os a descrições de fenômenos espirituais ou fenômenos da alma, é o
17. Isso significa dizer que o significado dessas palavras é "convencional" e,
denominade..fatáciadescritiva,'.Cf.,arespeito:W'Stcgmüller,op.cit.,p.59. portanto só determinável em seu sentido a partir das interações sociais que o geraram.
16. Cf., a respeito dessas dificulclades: G' A' de Almeida' op cit ' p'
79'
it
tl 156
157
l. L. Austin: teoria dos atos de Jàla I
__!y:rrrlt, Prrg*átu
srgniÍ'icação, poróm podemos perguntaÍ sobre sua força ilocucioniária,
A plirrtcit'it dimensão da linguagem humana é a do agir: usando
já isto ó, se a pessoa que disse isso pretendia informar, ou emitir um
rr lirrgrurgcrtt itgitnos. Dizer isso depois do Segundo Wittgenstein'8
é, o .luízo, ou advertir etc. A linguagem tem muitas funções, e o ato
nlro t'orrs(ilui novidade e, por essa razão, tal afirmação apenas'
ilocucioniírio significa a expressão de determinada função. É muito
de outras dimensões da linguagem
lrorrttr clc partida para a distinção irrrportante distinguir essas diversas funções, isto é, distinguir a força
tluc Austin Pretende temaíizat. ilocucionária de nossos atos locucionários. O ato ilocucionário é aque-
Antes de continuar o processo de descoberta das novas dimen- le que se executa na medida em que se diz algq, isto é, na medida em
sões do ato locucionário, Austin retoma uma distinção importante que se executa um ato locucionário. Stegmüller considera o ato
eo
anterionnenterealizada: a distinção entre o ato fonético, o fático ilocucionário um ato não-temático que acompanha o ato locucionário2o.
réticore. o ato fonético consiste simplesmente na -execução de certos Para Austin, a teoria do uso como critério de significação perma-
isto é'
ruídos. O ato fático consiste na explessão de Çgrtos vQQábulos' neceu indeterminada por não ter sido capaz de distinguir os diferentes
palavras, ruídos com uma forma determinada, que pertencem a um
atos ilocucionários. Como o ato ilocucionário não é, em muitos casos,
vocabulário determinado e seguem uma gramática. o ato rético con- explícito, sua força só pode ser explicitada por meio da consideração
siste -e1n qsar palavras para falar sobre algo, para dizer algo
mais ou
de todo o contexto2l. Trata-se da determinação não do significado, mas
menos determinado. A execução do ato fático pressupõe o ato foné-
do papel exercido pela expressão na linguagem".A indeterminação da
tico. É importante ter essa distinção diante dos olhos, embora ela não palavra "uso" consiste na incapacidade dessa distinção entre refêrên-
ajude a solucionar o antigo problerna levantado por Austin' E
consi- cia aquilo sobre o que se fala e o que se diz disso e o papel, isto
derando o próprio ato locucionário que Austin vai descobrir uma outra é. a- Í'orça ilocucionária. -
dimensão do ato de fala que ele denomina ato "ilocucionário": no ato Além disso, executando atos locucionários e ilocucionários pode-
que
de dizer algo, fazemos também algo' Para poder determinar mos realizar ainda outra ação: é a terceira dimensão do ato de fala, que
ato ilocucionário está em questão, temos de nos perguntar como o
Austin denomina ato "perlocucionário", isto é, provocar, por meio de
ato ilocucionário é usado, isto é, se para informar' levantar uma
questão, exprimir uma intenção, fazer um juízo, apelar' ameaçar
etc'
20. Cf. W. Stegmüller, op. cit., p. 53.
bem
Assim, em nosso exemplo: o jacaré é perigoso, conhecemos
a
21. Cf. D. M. de Souza Filho, op. ciÍ.,p.26: "... mesmo nesses casos 'inÍbrmais',
as convenções ref-erentes ao contexto e aos papéis dos falantes nesse contexto são essen-
ciais para a possibilidade e o sucesso do ato ilocucionário, e esse contexto pressupõe
l8.Wittgenstein,emsuasegundafase'comovimos'consideraalinguagem
Falar de linguagem é necessariamente a existência de instituições e práticas sociais relacionadas a valores
humana, acima de tudo, como |.,rru fbt-u de atividade social.
cf. D. M. de souza Filho, Filosofia, e interesses, embora sua incidência sobre esses atos possa ser indireta... é apenas num
,ti falar da práxis simbólica que gesta sociabilidade.
Paulo, 1984, p' 33: "É através dejogos de linguagem contexto institucional, em maior ou menor grau. que determinado ato locucionário
al Linguagim e Comunicação, São
palavras e expressões. Na rea- pode vir a se constituir em um ato ilocucionário".
l1 quJos"indivíduo. up..nd.* na infância a usar certas
rl é pura e simplesmente uma palavra ou expres- 22. Precisamente, esse papel só se pode determinar por meio da consideraçào
lidude, o que o indivíduo aprende não
vale dizer, como usar determinada expres- da situação na qual emerge o proferimento. Cf. a argumentação de Austin a este
são, mas um jogo de linguágem completo,
tl ltns.'. Umiogo de respeito em: J. L. Austin, Wort und Bedeutung, Munique, 1975, pp. 328ss. Hare
são lingüística em um coniexto determinado para obter certos
,l social, parte de uma 'forma de vida' (IF' exprime assim essa exigência central da nova perspectiva de análise da linguagem: R.
linguag"em é, assim, uma forma de atividade
agindo em um contexto social' e nossos atos são M. Hare, 'A School of Philosophers", in: Essays on PhiLosophical Method, Londres/
I f S):). Ao usar a linguagem, estamos
às determinações Basingstoke, 1971, p. 5l: "... philosophers are concerned with words as having
t,, signiÍicativos e eficazes apenas na medida em que correspondem
,formas de vida" dessas práticas e instituições sociais. Em seu uso da lingua- meanings or uses; and these at any rate cannot be studied without seeing how words
dÃsas
(isto é, grama- are used. in concrete situations, to say various things; and, of course, this involves (as
tl gem, os falantes seguem regras, não apenas lingüístic^s stricto sensu
is evident from our practice) a careful study of the situations, in order to find out what
Iicais, fonéticas, semânticas), mas sobretudo pragmáticas"'
pp' l 10ss' is being said".
il 19. Cf. J. L. Austin, Zur Theorie der Sprechakte' op' cit"

tl 158
t59
l. L. Austin: teoria dos atos de fala I
, Reviravolta Pragmática

ções que determinado ato é, por exemplo, uma ameaça numa determr-
cxprcssilcslingüísticas,certosefeitosnossentimentos'pensamentose
nada sociedade, sem que isso tenha de ocorrer numa outra sociedade.
açÕcsdcOutraspessoas.Aexpressãolingüísticapodeserproferida
Para Austin, até mesmo o ato locucionário só pode ser entendido a
tc,tl. c.rno finalidade produzirisses efeitos, isto é, exercer influência,
dculllaÍbrmadeterminada(convencer,levaraumadecisão,levara partir de convenções, pois o ato não é um comportamento puramente
utn protesto etc.), sobre outras pessoas' Em nosso caso: iacaté
o é Íísico como pensa o behaviorismo. No caso do ato perlocucionário se
fazê-lo na intenção de conven-
perigoso u p"á,ou que diz isso pode Íãz necessário que seu autor tenha tido a intenção de realizá-lo, isto é,
-
cer os outros à ." ufuttut do jacaÉ' ou seja' a execução
desse ato de de conseguir esses efeitos, do contrário se estaria realizando apenas
efeito no parceiro'
Íala implica-u irrt"rçao de pioduzir determinado por acaso um ato perlocucionário.
é um ato
Que Pedro diga esáa frasé - o iacaré
é perigoso.
i
-
lingüística' faça Os atos locucioniírios, ilocucionários e perlocucionários expri-
locucionário; íue peAto, por meio dessa expressão
I
,

Í
qrem as três diferentes dimensões do uso de expressões lingüísticas.
umaadvertênc'ia,i.soéoatoilocucionário;quepormeiodessaex-
alguét dojacaré, isso é o ato perlocucioniírio.
pressão p"a.o .án.iga afastar Austin dedica boa parte do final de sua obra para exprimir com maior
lingüística, o çlareza e maior rigor a diferença entre atos ilocucionários e
os três atos são ráizados por meio da mesma expressão
mas de três dimen-
que manifesta que não se tràta de três atos distintos, perlocucionários. A argumentação de Austin consiste, sobretudo, em
sõesdomesmoatodefala.NãoSetrata,pois,deatosdiversos,masde mostrar que o ato ilocucionário não é uma conseqüência (um efeito)
''
"três aspectos, dimensões, momentos do único ato de fala do ato locucionário e que o ato perlocucioniário causa, provoca efeitos.
ao ato
Austin pretende, em suas considerações' dar primazia Contudo, faz-se necessário reconhecer que, apesar da diferença, o ato
pela tradição filosófica
ilocucionárioi or", segundo ele, foi desprezado ilocucionário também tem a ver com a produção de efeitos:
a favor dos atos locuõionário e perlocucionário,
inclusive pela filoso-
l. Sem que seja realizado um certo efeito, não se realiza o ato
fia,queacentuaousodalinguagem'fazendodesapareceradistinção ilocucionário, embora este não consista na produção de certos
entre essas três dimensões'
efeitos. Não se pode dizer que alguém ameaça umâ pessoa sem
momentos de ato
Como ações, os três diferentes tipos de ato ou que essa pessoa ouça a expressão lingüística e a entenda de
Árj.itos aos riscos a que todas as ações estão sujeitas.
executados determinado modo. Normalmente essa influência, necessária para
".iáo podemos p"tgutttut se alguém' com suas pala-
Assim, po. a realização do ato ilocucionário, limita-se à compreensão da
"^"-pü,
vras,ameaçououtentouameaçaÍ'Tambéménecessárionãoesquecer
que, por exemplo, para os atos ilocucionários é determinante
a exis- . significação e da força ilocucionária das expressões lingüísticas.
com certas conven- A compreensão é, pois, condição de possibilidade da execução de
tência de convànçõêsr,. É precisamente de acordo
um ato ilocucionário.
r, por "convençoes soclals 2. O ato ilocucionário tem efeitos, resultados, mas de um modo que
23. O ato ilocucionário é, essencialmente, constituído
'; determinadas e a determinadas difere fundamentalmente da produção de efeitos no sentido usual
. .r. lã'rl ."utiru se satisfaz a essas convenções
ios atos ilocucionários são essencial-
;o,j'n*.. ci. G. A. de Almeida, op. cit. p. 80: da palavra, isto é, da produção de coisas na natureza, das mudan-
i,
Imenteconvencionaisnamedidaemquepodemsempreserexplicitadospormeiode ças no curso dos acontecimentos. Quando, por exemplo, se batiza
i1 a força ilocucionaria de um proferimento
u,n p".for-utiro, quer dizer, na medida ernque um navio com o nome de "Rainha Elizabeth", então o efeito é
que estipula que proferir tais e tais
, deoende da existência de uma convenção aceita
e rais pessoas tem a força de tal ou tal que, de agora em diante, certas ações não estarão em ordem,
i; ;;ffi J*i"t, e tais circunstâncias por tais
que estabelecem as como por exemplo chamar o navio de "Generalíssimo Stalin".
II ato"... Para Savigny' Austin se concentra nas convenções que estabele-
Ir ;;;"r;, all uto, ilocucionários, não considerando as convenções 3. Muitos atos ilocucionários, em virtude de convenções, exortam a
lCemosresultadosdessesatos.Cf.E.v.Savigny,..JohnLangshawAustin:Hat reações ou respostas. A resposta ou a reação implica uma segun-
Philosophen'
!g ã,. W.t-.fr.ung .in" Basis?", in: Grun.probleme der grossen 1975' pp' 2ll-212' da ação do que fala ou de outra pessoa. Quando se diz, por
Philosophie de, ã"g"'o'r III (ed por J' Speck)'
Giittingen'
,,
i;
I l6I
, 160
Revir avolta Pragmática ,l . 1,. Austin: teoria dos atos de fala I

era rcrrlizar com eles os mais diferentes atos perlocucionários. Em suma,


cxcrrtplo: dei-lhe uma ordem e ele obedeceu, a obediência
levei-o a obe- rr rlistinção feita é insustentável, porque abstra{a: faz a exclusão de
turtüt rcspt',sta à minha ordem' Posso mesmo dizer:
última expressão' o fato de ()ulr()s momentos. Assim:
tlcccr, exprimindo, contudo, com esta
foram usados paru a
que outràs meios, além dos lingüísticos, a) No caso dos procedimentos constatativos, abstrai-se dos as-
no caso'
consecução desse fim. É importante acentuar a diferença' pectos ilocucionários e perlocucionários do ato de fala para se
entreatosilocucionárioseatosperlocucionários..Arelaçãoentre concentrar única e exclusivamente no aspecto locucionário.
omeiolingüísticoutilizadoeoefeitoperlocucionáriovisadoé Além disso, aidéia de adequação aos fatos, que foi aqui pres-
uma relação de meio a flm, portanto uma relação instrumental suposta como pensada pela tradição, é simples demais, pois,
que depende de um nexo causal' Ao contriírio' a relação entre
o
também para ela, a força ilocucionária é essencial. É pressu-
meio li--ngüístico utilizado e o efeito ilocucionário visado é
con-
posta aqui na tradição, como aspiração última, a idéia do co-
vencional no sentido de que é uma convenção que estabelece
a
estabelecer nhecimento perfeito, que seria certo para qualquer pessoa,
equivalência entre dizer efazer'o' O difícil, contudo' é.
as convenções' E necessário para qualquer fim, em todas as circunstâncias, em todos os
onde começam e onde terminam
a partir de meios tempos, ou seja, que fosse essencialmente a-histórico.
notar que ambas as ações podem ser executadas
pode- b) Nos procedimentos performativos, "só" consideramos o as-
não_lingüísticos, ou *"ju, á partir de meios não-lingüísticos
ao pecto ilocucionário, deixando de lado a coÍrespondência aos
mos executar ações que correspondem, por exemplo'
ato
Na fatos. Em virtude disso, Austin considera essa distinção inicial
ilocucioniário "ameaçar" ou ao perlocucionário "convencer".
I décimapreleção25,Austintentaenumerarcritériosparaadistin- ultrapassada e substituída pela teoria da pluridimensionalidade
perlocucionários' Contudo' ele dos atos de fala. Austin quer pôr, no centro de suas conside-
çao entre atos ilocucioniírios e
mesmo reconhece que tais critérios de modo algum
levantam a rações, não abstrações, mas a totalidade do ato de fala em
pretensão de ser definitivos. todos os seus momentos, e é exatamente isso que a teoria dos
atos de fala pretende dar. Uma última tarefa é executada nessa
Os critérios apresentados são de ordem lingüística' A
essa altura'
que ligaçry há.entre obra por Austin: a pesquisa de verbos que explicitam a força
Austin retoma seu ponto de partida, perguntando:
ilocucionária das expressões lingüísticas. Ele divide esses
osprocedimentosperformativoseosatosilocucionários?Eválidaa
verbos em cinco classes, dando-lhes, segundo sua opinião,
distinçãoinicialentreprocedimentosconstativoseperformativos?O
vez que se diz denominações bárbaras: expressões veridictivas, exercitivas,
resultádo da segunda parte de sua pesquisa é que toda
algo são realizàdos aàs locucionários e ilocucionários. Ora, a distin- comissivas, conductivas e expositivas.
performativos pretendia distinguir entre
çãã entre atos constatativos e 1. Expressões veridictivas: consistem na articulação de um juízo
tem essa
dizer e falar, e agora sabemos que são inseparáveis' Portanto' (oficialmente ou não) a respeito de valores ou de Íàtos com base
que foi conside-
distinção ainda àlgum sentido? Não, pois o constatar' em material de prova ou em argumentação. Uma expressão
rado o específióo dos procedimentos constatativos' é um ato
que quando se faz uma veridictiva é um ato judicial. Exemplos: diagnosticar, interpretar,
ilocucionário como qualqúer outro, de modo
julgaa considerar junto, responsabilizar etc.
constatação executa-se um ato ilocucioniário semelhante a ameaçar'
ll 2. Expressões exercitivas: consistem em decidir-se a favor ou contra
advertir, protestar, prometer etc., e por isso está sujeito a
ll
todos os
determinado compofiamento. Elas não são, portanto, um juízo,
ltl malogros próprios aos atos performativos' como também
podemos
como no caso anterior, mas uma decisão de que algo deveria ser
assim ou assado. Exemplos: proibir, agraciar, estimar, confiar,
!tr 24. G. A,. de Almeida, op. cit. pp. 80-81
25. t. L. Austin, oP' cit., PP. 134ss'
prescrever, concedel advertir, exigir, propor etc.

t63
t'l rl t62
J. L. Austin: teoria dos atos de fala I
Rc v i r avo lta Pragmática

é comprome- rrl o procedimento que lhe é próprio. A tese de Austin é fundamen-


lixprcssõlcs oomissivas: o sentido destas expressões
E'xemplos: lrrlrnente a de Wittgenstein, ou seja, a linguagem é essencialmente uma
tcr o locutor com um comportamento determinado'
manifes- ação social: linguagem e sociabilidade se imbricam mutuamente de tal
dar a palavra, comprometer-se, jurar, provar' dispor-se'
rnodo que a linguage,m forma o horizonte a partir de onde os indiví-
tar intenção, garantir etc.
reação ao comporta- duos exprimem a realidade. No entanto, é uma questão de base saber
4. ExpressõLs conductivas: trata-se, aqui, de
o caminho paÍa a consideração da linguagem: Austin propõe o que ele
*Àto e ao destino de outras pessoas e de atitude ou expressão
iminente de um chama "caminho lingüístico-fenomenológico"2?, em que fenomenolo-
de atitude diante do comportamento passado ou
criticar' saudar' desejar' gia nada tem a ver com a reflexão transcendentsl cujo fim é a
outro. Exemplos: agradecer, felicitar, -,
tematizaçáo da subjetividade anônima como fonte de constituição de
reclamar, lamentar, queixar-se etc'
5. Expressões expositivas: sua finalidade
é tornar claro em que sen- todo sentido28 mas signiflca a rejeição de qualquer postura teórica
-,
tidà as devem ser consideradas' Com elas se exprime prévia (filosófica ou científica) para se dedicar à descrição das "coisas
"^pr"riõ", das palavras
uma intenção, uma justificação ou a significação mesmas"2e. A primeira coisa a ser descrita é aprópialinguagem normal,
testemu-
próprias. Exemplos: classificar, mencionar' comunicar' pois é ela que contém as diferenciações e as conexões que os homens
nhar. reconhecer, relatar, corrigir etc' de gerações anteriores ftzeram e que hoje constituem nosso vocabulá-
uso da força de rio comum30. Partir da linguagem normal significa dizer que nào se
Resumindo: com as expressões veridictivas faz-se
julgar: com as exercitivas impõe-se influência' usa-se de autoridade;
isso. Para Austin, trabalhar a linguagem é condição de possibilidade para melhor
u, comissivas assume-se uma obrigação ou se manifesta uma conhecer a realidade. Cf., a respeito, D. M. de Souza Filho, op. cit., p. 36: 'Austin
"oÃ
intenção; com as conductivas assume-se uma atitude'
e' por ftm' com
afirma que, quando examinamos a linguagem e o uso de determinadas expressões,
explicam-se argumentos, fundamentações' comunica- não estamos meramente examinando palavras ou sentenças e seus significados, mas
as expositivas
^Uma ma-
tarefa que Austin deixou inconclusa foi a do possível a realidade sobre a qual falamos e na qual agimos. Estamos procurando uma visão
ções.
da dicotomia mais aguçada da linguagem porque isso nos trará uma visão mais aguçada dessa
iogro. Sua teoria dos reveses foi elaborada no contexto realidade (1915:182)". A referência é: J. L. Austin, Wort und Betleutung, op. cit. Cf.
performativos' Ora' tal teoria foi
entre procedimentos constatativos e ainda E. v. Savigny, John Langshaw Austin: Hat die Wahrnehmung eine Basis?, op.
a partir do
,rp"rádu, porém a teoria dos reveses não foi repensada cit., pp. 242ss.
novo horizonte. 27. A expressão já foi usada em escrito de programa metodológico de 1956. J.
L. Austin, A Pleafor Excuses, republicado em Phik»ophical Papers. ed. por J. O.
Urmson e G. J. Wamock, Oxford, 1961, pp. 123-152.
28. Cf. M. A. de Oliveira, "Die Phânomenologie Husserls als transzendentale
ii rl I
c) A nova forma de ftlosofia Empirie", in: Subjektivitcit undVermittlung. Studien zur Entwicklung Íran.sz.endenÍalen
,,
,?l I
"
Denkens bei I. Kant, E. Husserl und H. Wagner, Munique, 1973, pp. l39ss.
intenção última de Austin, em sua análise da linguagem'
,l é
,l ilr, ,
A 29. W Cerf, "Critical Review of 'How do to Things with Words"', in: K. T.
e' assim' configu-
,ri estabelecer o terreno em que a filosofia se articula26 Fann, ,§l,nposium on J. L. Austin, Londres 1969, p.376: "When Austin called himself
I

tli rtl I a linguistic phenomenologist, he must have had in mind, not the transcendental
and the constitutive phenomenology ofHusserl, but the popular descriptive phenomenology of
,l
I
rlt 26. Como diz G. Bergmann, "Logical Positivism' Language Essuy's in Husserl's followers".
fne Turn' Recent
Reconstruction of Metaphysics'i, in: R' f'ony'
) I Ling'uistíc
1970, pp. 30. A respeito do tipo de fundamentação oferecida por Austin para essa tese, cf.
on Introduction b1* R. Rorty, Chicago/Londres,
l', ttI Philosophit,al Methtlrl, *ith
63-7l),os filósofos analítilos não são filósofos da
linguagem' mas filósofos no meio D. F. Pears, "Wittgenstein and Austin", in: B. Williams/A. Montefiore (ed.), Britisch
jogo não é uma disciplina regional da Analitical Phibsophy, Londres, 1966, p. 20. F. Copleston, "Sprache und Realitát.
el I
da linguagem (p. 63)' O que está, portanto' em Gedanken zur analytischen Philosophie", in: W. Becker/K. Hübner, Objektivitàt in der
!tr cuja afirmação central é que a
lr,
filosofia, mas um "novo paradigma" do filosofar' Natur-und GeisÍeswissenschaten, Hamburgo, 1976, p. l12.
,ll lingrug". é mediação do filosofar' A questão é' então' como entender
intrànsc"ridí'"1
tl r'ltrI 164
165
.1. L. Austin: teoria dos atos de fala I
Reviravolta Pragmática

humana independentemente da rlt' rrrcu próprio domínio de uma capacidade dirigida por regrasra.
lxxlc eirlltitr il csl"rutura da linguagem l'ortlrrto, nada tem a ver o conteúdo da análise da linguagem com a
"siluuçiio" cln que os sujeitos interagem simbolicamente'
1lt'ncralização de entrevistas: ela é a expressão de regras e não de
Ora, para Austin o sentido se constitui num contexto situacional' lt'gularidades empíricas35. Nesse sentido, a análise da linguagem não
dizer:
crn que faz sentido usar determinadas expressões ou não' Quer ti lunto uma ciência empírica nomológica36, mas um saber reconstrutivo
investigar a linguagem significa tematizar o contexto de
sociabilidade' tlt' uma ação regrada.
ou seja, o contexto socúcultural, onde ela se insere3l' Aqui já vai
Em função de que se faz essa análise? A tese de Austin: .se a
aquilo que Apel vai chamar a dimensão transcendental da linguagem ordinária é a primeira palavra, ela não é, contudo, a última
"*"rgindo
linguágem3r: não há mais a dicotomia radical entre linguagem
e rea-
i
palavra, o que significa explicitar a "intenção crítica" da análise da
lid;de, pois a linguagem é o espaço de constituição do sentido da
linguagem. Isso vai levá-lo para além da postura aberta por
realidade para nós. o sentido não mais se constitui na
interioridade de
Wittgenstein3i. A linguagem do dia-a-dia não pode ser a última pala-
regras e con-
uma consCiência transcendental, mas num contexto de vra, pois manifesta in4dequações e arbitrariedades38: os homens do
vençõesdeumcontextosocialdeterminado.osujeitocapazdefa]lar.
que emerge como
e aglr só se entende a partir de um processo social' 34. J. R. Searle, Sprechakte. Ein philosophischer Essay, Frankfurt am Main,
sua lin-
de possibiliAaAe Ae suas ações simbólicas. Portanto, t911, p.24.
"oridiçao só se compreende a partir da organização institucional da 35. Nesse sentido, quando o analítico fala de linguagem ordinária como funda-
guagem
mento sobre o qual ele se baseia, não é simplesmente a linguagem do dia-a-dia com
io*u de sociabilidade na qual ele está situado' que é a raiz de seu todas as obscuridades (S. Cavell, 'Austin at Criticism", inl The Linguistic Turn, op.
comportamento no mundo. cit., p. 251, mas o analítico "is not finally interested at all in how 'other'people talk,
O but in determining where and why one wishes, or hesitates, to use a particular expression
Mas como podemos pesquisar, descrever a linguagem normal? oneself' (cf. H.-U. HocheAV. Strube, op. cit., p. 233). É por essa razão que Austin
por isso ele não procede
filósofo é um falante como qualquer outro, exprime o caminho de sua pesquisa dizendo que teríamos de pesquisar "what we
indutivamente, mas intuitivamente33: todo falante tem
um conheci- should say when": J. L. Austin, A Pleafor Excuses, op. cit., p. 129.
mento intuitivo das regras de seu falar, e o analista da
linguagem 36. A respeito das críticas desse tipo de intuicionismo defendido por Austin
já pelo próprio para a análise da linguagem, cf. H. Albert, "Ethik und Meta-Ethik", tn: Archív für
apenas explicita ,ág.u., que foram internalizadas
".ru. Philosophie 1l(1961) 28-63. H. Lenk, "Der 'ordinary language approach' und die
pro""rro àe aprendizagem da língua' Como vai dizer posteriormente Neutralitâtsthese der Metaethik", in: H. G. Gadamer (ed.), Das Problem der Sprache,
aspectos
Searle, quando descrevo a linguagem, o que faço é tematizar Munique, 1961 ,pp. 183-206.L.G.New,'APleaforLinguistics",in:Mind75(1966)
368-384. A respeito de uma crítica dessas críticas, cf. W. Strube, "Philosophische
a partir da revira- Analyse der Sprache sprachanalytischer Philosophen", in: Zeits. für allgemeine
31. Essa perspectiva significa do lado da filosofia analítica'
forte aproximação com a filosofia herme- Wissenschatstheorie ll ( 1980) 69-79.
lt volta do segundo Wittgensteú, uma fonte
do livro de Rorty (R' Rorty' Der 37. Enquanto para Austin a linguagem ordinária não pode ser a última palavra,
nêutica, o que explica, segundo tlôsle, o sucesso porque perpassada de inadequações e arbitrariedades, para Wittgenstein a linguagem
filosófica seja inferior à
sp,ieSel der'Narrr, nrunkú, lggl),
tl embora sua significacão
tl
ordinária é perfeitamente em ordem: L. Wittgenstein, The Blue BooÀ, ed. por R.
ob.u"d"Wittgenstein:V.Hôsle,DieKrisederGegenwartunddieVerantwortung Rheer, 1933/34; a tradução alemã: Das blaue Buch, trad. de P. V. Morstein in: Schriften,
Munique' 1990' p' 83'
Philosophie,íranszenÍalpragmatík, Letzbegründung' Ethik'
lt

tl
phil' Grundbergrffi (ed' por H' Krings' vol. Y Frankfurt am Main, 1960-1982.
32. K.-O.epel, "Spraãh e", in: Handih'
38. J. L. Austin, A Plea for Excuses, op. cit., p. 130. Daí a pretensão crítica
H. M. BaumgartnÀr, C' Wild), vol' V', Munique' 1914' pp'
Ir 1383-1402'
levantada por Austin. Cf., a respeito: D. M. de Souza Filho, op. cit., p.2l: "A filosofia
33. Selundo Hoche/sriube, o intuicionismo de Austin é o
intuicionismo da
em seu Essay of the Standard da linguagem ordiniíria pode ser entendida como filosofia cítica na medida de sua
tt tradição do empirismo, como por exemplo Hume explica preocupação em refletir sobre a possibilidade e a legitimidade de certos usos lingüísticos
de arte que, porque ele tem o "olho" correspondente'
offaste,dizenào do conhecedor e de sua investigação dos pressupostos que esses usos lingüísticos envolvem. Mais ra-
I elereconhecerápidaepertinentementeasbelezasocultasdeumaobradearte:H.-U. dicalmente, pode ser entendida não apenas como esforço de clarificação e interpretação
lr
Hoche/IV. Strube, op. cit., p. 230, nota 6'
I
IL
tt t67
I
lr 166
llr: vi rttvo lta p ragmatica I. L. Austin: teoria dos atos de fala I

para ver a ri que irá emergir o princípio normativo a partir de onde a crítica é
lllrsslrthr luio lxrssuíratn OS aparelhos téCniCOS neCeSsáriOS
rcrrlitlurler; aldrn disso, nem sempre foram isentos de paixões e precon- llossívela2.
cci[ost". Assim, de nenhum modo se pode consideÍar a linguagem É precisamente essa questão que vão levantar depois a pragmér
ordirrírria algo sacrossanto e intocávelao. A linguagem é um meio tica universal de Habermas e, sobretudo, a pragmítica transcendental
hcurístico indispensável para nosso conhecimento da realidade: por tle Apel a partir de onde se vai explicitar atarefa específica da filoso-
cssa razão é necessário rigor e também muito empenho para melhorar lla, a fundamentação do pensar e do agir do homem no mundo. Austin,
csse instrumento. com seu caminho lingüístico-fenomenológico, parece permanecer no
No entanto, emerge a pergunta: como isso é possível? Qual a cspaço aberto pelo empirismo moderno. A pergunta que aqui fica é se,
significação desse aperfeiçoamento? A filosofia da linguagem ordiná- clentro desse horizonte, é possível distinguir com pertinência entre
i
I
ria tenta compreender a linguagem a partir do contexto sócio-históri- uma ciência empírica da linguagem (ou também uma ciência recons-
co, que gera os pressupostos possibilitadores dos atos de fala. Nesse trutiva) e a filosofia enquanto teoria críticaa3. Numa palavra, Austin
i
sentido, embora pesquisando numa outra perspectiva, ela se aproxima teria de justificar as condições de possibilidade da melhora da lingua-
I

da hermenêutica na medida em que ambas explicitam o contexto in- gem ordinária que ele, em sua ciência crítica, pretende efetivar. Só a
tersubjetivo, que gera o sentido. Também como a hermenêutica, ela resposta a essa questão poderia mostrar se Austin, efetivamente, supe-
carece de uma distinção muito importante, decisiva para exprimir o ra a negação da filosofia proposta por Wittgenstein.
caráLteÍ próprio de uma reflexão crítica propriamente filosófica: uma
coisa é a problemática da constituição do sentido (o problema da
i

constituição e da compreensão do sentido na linguagem da hermenêu- D. M. de Souza Filho, op. cit., p. 17: "Tendo em mente essas considerações, podemos
formular a seguinte questão, que expressa um dilema: a filosofia da linguagem ordi-
tica), outra a de sua justificação (problema da validade). Que significa,
nária parte da concepção de que a linguagem é ação, isto é, usar a linguagem é
então, dizer que a análise da linguagem é crítica enquanto teoria dos realizar atos de fàla em um contexto social determinado; e propõe-se a desenvolver
atos de fala? Uma resposta possível é: é critica na medida em que uma análise dos problemas filosóficos pelo exame do uso de expressões e atos
ÍemaÍiza as condições de realização dos atos de fala; portanto, na lingüísticos envolvidos nesses problemas; até que ponto pode esse projeto ser crítico
medida em que seus pressupostos são explicitados. J. Austin permane- em sua investigação da linguagem e de seus pressupostos se a linguagem, com todos
os seus elementos ideológicos, é ela própria um pressuposto da investigação?"
ce aqui e não levanta a questão fundamental da "validade do sentido"
42. Então será possível explicitar com mais clareza do que ocoÍreu até então a
intersubjetivamente constituído4r. Com o levantamento dessa questão diferença entre o conhecimento explicativo falível de regras empíricas e o conheci-
mento sobre as condições de possibilidade e validade de tal conhecimento, o que é
da linguagem mas, sobretudo, também como questionamento do sentido dessas nor- propriamente o específico da atividade filosóÍlca.
mas e convenções do discurso. Nesse sentido, essa crítica só pode ser empreendida 43. Levantar essa questão significa desembocar na questão da f'undamentação
como processo de autocompreensão. Resta saber em que condições tal procedimento última como específico do 'Jogo de linguagem" da Íllosofia. Mas é isso precisamente
crítico pode realmente efetivar-se". que parece impossÍvel para quem permanece simplesmente na (rtica da teoria dos atos
39. J. L. Austin, A Plea for Excuses, op. cit., p. 151. de fala como Austin articulou. Cf. D. M. de Souza Filho, op. cit., p. 24: "Uma vez
40. R. M. Hare, Á School for Philosophers, op. cit., p' 50: "We are not, as has que não há o objetivo de estabelecer uma certeza absoluta que sirva de fundamento
been often suggested, uncritical worshippers of common speech".'. para a teoria, o problema da circularidade é apenas aparente. Há, pelo contrário, o
41. A tese de D. M. de souza Filho de que a teoria dos atos de fala abre o reconhecimento da inevitabilidade de um apelo à linguagem como pressuposto da
espaço para uma reflexão crítica só se legitima porque ele aponta para a "dimensào investigação, precisamente um reconhecimento da impossibilidade de estabelecer uma
normativa", que possibilita a crítica, como ela se explicitou na pragmática universal certeza absoluta; o que tem como conseqüência a constituição de um procedimento
de Habermas. outra coisa é a fenomenologia lingüística de Austin: não há aqui uma que recusa as respostas definitivas em razão de sua admissão de que a linguagem
explicitação da dimensão a partir de onde a crítica é feita. Permanecendo-se nesse depende de um contexto socialmente determinado e que, portanto, essas conclusões
nível, não se encontra uma resposta para a questão que o próprio Souza Filho levanta: e resultados são sempre relativos e provisórios".

168 t69
JOÉIN R. SEARLE
Teoria dos atos de fala II
\(

QUESTõES METODOLÓerceS

7\ ustin já se mostrou uma cabeça muito mais sistemática do que o


fL segundo Wittgenstein. Seguindo na mesma linha, Searle tentou
sistematicamente responder a algumas questões não resolvidas pela
teoria de Austin e, com isso, confrontar-se com possíveis objeções.
Além disso, ele tem consciôncia de que, numa situação de alto desen-
volvimento da consciência metodológica, a teoria dos atos de fala só
pode ser levada a sério se também for capaz de estabelecer. com
suficiente clareza, sen "statlts teórico" próprior. Por isso, a primeira
tarefa de sua obra consiste em estabelecer o campo de trabalho e o
t, t[ método a seguir. 9.qu" constitui o objeto da filosofia da linguagem?2
)rt A relação entre palavras e mundo.
lr [l Essa questão central se desdobra em inúmeras outras questões a
'iu
ela ligadas, que se explicitariam na tradição de pensamento por meio
::it
1. Hoje Searle considera a teoria dos atos de fala como uma seção da ciência
da linguagem. Cf. J. R. Searle, "Von der Sprechaktheorie zur Intentionalitàt. Gesprách
ltu zwischen G. Heyer u. J. R. Searle", in: Information Philosophie 12 (Basel 1984) I:
Cad. 1,23-30; ll 2,20-24.
I

2. J. R. Searle, Sprechakte. Ein sprachphilophischer Essay, Frankfurt am Main,


In pp.1lss.

Ir
t7l
h
tte v i ravo lta Pr agmatica John R. Searle: teoria dos atos de fala II

rlc faz Togo no início de sua obra uma


irrritttc:t'rts porguntâs. Searle
Searle parte do fato de que qualquer um conhece os fatos
lingüísti-
rlistirtçiio itttportante entre filosofia da linguagem e filosofia- lirrgüísticos de sua própria linguagem, mesmo que ele não esteja em
levanta a pretensão de solucionar determina- condições de elaborar critérios para seu uso. Toda cxplicação posterior
.',,. A i,l,,rufia lingüística
palavras sin-
.t,,* pr,rt,t"*as filãsóficos atendendo ao uso ordinário de sri ó válida na medida em que é capaz de explicar esses Íatos dos quais
gulares ou de outros elementos de determinada linguagem' enquanto
sc pafie, e a tarefa da filosofia é precisamente essa5. Qualquer reÍlexão
a esclarecedoras
i t,losofia da linguagem pretende chegar descrições
por sobre a linguagem humana é, na ordem do saber um fenômeno segun-
de determinadas características universais da linguagem como' do, precedido por um saber originário, intuitivo a respeito dos fatos da
e é' então' nessa pers-
exemplo: referência, verdade, significação etc',
linguagem, pois a linguagem é uma forma altamente complexa de
pectiva que Searle situa seu trábahot. Sem dúvida, os "dados"
da
'filosofia porém seus comportamento regrado. Aprender uma língua e dominá-la significa
da linguagem provêm das linguagens naturais'
para toda e
raciocínios, nu .n"áidu ã* qr" são certos, devem valer aprender a dominar as regras desse tipo de comportamento6. Daí por-
de uma
qualquer linguagem. Nesse sãntido, Searle não pretende tratar que, quando alguém tenta articular as regras de sua língua, em última
da linguagem
t'ingrrà deter;inãda como o francês, o espanhol etc', mas análise está descrevendo aspectos de seu domínio de uma competência
humana enquanto tala. lingüística adquirida.
Uma vez estabelecido, em suas linhas genéricas' o campo de
é' do método'
trabalho, Ievanta-se a questão do "modo de proceder"' isto- 5. A tarefa da filosofia consiste simplesmente em elevar ao nível da consciência
de
Searle principia distinguindo duas grandes classes de observações aquilo que sempre se soube. Para realizar isso, Searle parte de dois pressupostos
seu livro. Ao primeiro-tipo, dá o nô-e de "caracterizações
lingüísti- básicos (cf. H.-U. HocheÂV. Strube, op. cit., p.291): l) O princípio-Frege: a signi-
de elementos lingüísticos' como por exem- ficação de seus componentes singulares; 2) Princípio de expressibilidade: tudo o que
cas", que são constatações
qual expressão é usada para indicar algo. se pode pensar (/o mean), pode-se dizer. Tratando-se da força performativa, este
pto árimaçoes do tipo: tal ou princípio significa: pode-se transformar todo proferimento performativo implícito num
Trata-se de fatos lingüísticos lá existentes e dos quais o hlósofo se
proferimento performativo explícito.
tipo de afirmaçõ-es é o que ele
acerca por meio da re-flexão' O segundo 6. Essa é a "tese básica" de Searle: sua consideração se concentra exclusiva-
,.explicações lingüísticas": trata-se de generalizações e ex-
denomina ^fatos mente neste aspecto: a linguagem é um comportamento intencional regrado. A partir
plicações dos lingtiísiicos anteriormente tematizados' ou seja. a daqui, seus críticos vão argumentar que ele deixa de lado no lenômeno da linguagem
i"ntuiiuu de articulafao dut regras que fundamentam os fatos o que não é regrado. Cf. as críticas de H.-U. Hoche/lV. Strube, op. cit., p. 300. No
entanto, é importante lembrar nesse contexto unra observação pertinente de K.-O.
lingüísticos.
Apel: A "filosofia da linguagem ordinária" e a lingüística teorética de Chomsky e
Katz não distinguem com clareza entre os universais lingüísticos empíricos e os uni-
3. Para Searle, a expressão - filosofia lingüística - designa um
método'
versais de uma pragmática lingüística filosófico-transcendental. No primeiro caso,
enquantofilosofiadalinguagemcaracterizaumobjetoespecífico:J'R'Searle' trata-se sempre de hipóteses empíricas em princípio empiricamente falsificáveis, en-
:iili Sprechukre. oP. cit'. P. 12.
,.diferença metodológica" fundamental em.relaçào a
quanto no segundo caso se trata de princípios cuja validade é necessariamente pres-
lliii 4. Aquise manifesta uma
Austin. Searle abstrai daquilo que para Austin é decisivo na consideração da lingua-
suposta também na prova empírica dos universais lingüísticos no sentido de Chomsky.
Então, trata-se de uma diferença lormal que é essencial, ou seja, a diferença entre
gem: a situação concreta de fala. Ele pretende analisar um "caso puro"' um contexto proposições que em princípio podem ser empiricamente falsificadas e proposições
rt ll I que deve apareceÍ a esffutura
inteiramente neutro, uma espécie de situação ideal' em que, em princípio, não podem ser empiricamente falsificadas, porque são pressuposi-
lt
rr [t nut u, palavras, cle quer examinar o caso paradigmático' Por
básica da linguagem;
"- considerar uma promessa ções do próprio conceito de falsificação empírica. Essa distinção é Íundamental para
7 r1 t exemplo, qrandõ ele trata da promessa, não se trata aqui de
a distinção entre a lingüística e a hlosoha, como também para a questão da Íundamen-
histórica, mas das condições de possibilidade
[, ll[ .on.àtu numa determinada situação
da promóssa enquanto tal, ou seja, de explicitar^aquilo que tação e sua relação com o falibilismo aceitável para as ciências empíricas. Cf. K.-O.
,
necessárias e suficientes
Apel, "Fallibilismus, Konsenstheorie der Wahrheit und Letzbegründung", in:
rl constitui a promessa ato de fala' É n"st" sentido que se pode falar de um
"nquunio Philo,sophie und Begründung, ed. pelo Forum Bad Homburg, Frankfurt am Main,
investigação de Searle' Cf' H'-U' Hoche/W' Strube'
'
b, llt caráter expressamente formal da
1987, pp. 116-221, aqui 170ss.
il ',u Analytiscie Phiktsophie, Friburgo-Munique' 1985' p' 298'
.í ,l:i Iü
t72
t7)
Reviravo lta pragmatica .lohn R. Searle: teoria dos Ltt()s dt Jttlu It

As pniprias caracterizações lingüísticas já são uma expressão ou Essa passagem do saber atemático para o saber temático é carac-
lcrizada por Searle como passagem do "saber como,' para o ..saber o
rrrirnil'cst1çãg do.domínio que se tem das regras em questão, de modo
quê" e constitui para ele um procedimento muito difícil. Ele é cons-
quc a .iustilicação das intuições consiste simplesmente no fato de se
cicnte de que esse tipo de procedimento possa parecer a uma cons-
Íalar determinada língua. É pelo fato de falarmos português, isto é, de
ciência metodológica altamente sofisticada, como a nossa hoje, até
dominarmos implicitamente suas regras, que nos tornamos capazes de,
rnesmo ingênuo, o que não significa, contudo, sua invalidade. Toda
por meio da reflexão:
cssa construção parte de uma hipótese básica: o uso dos elementos
1. estabelecer os fatos lingüísticos dessa língua; Iingüísticos é regrado. Trata-se, em primeiro lugar, de indicar as carac-
2. aftict,Jar as regras que explicam esses fatos. Qualquer pessoa que lcrizações lingüísticas e, então, explicá-las por meio das regras a elas
fala portuguôs possui o primeiro tipo de saber. A tarefa da filo- subjacentes. Todo o livro de Searle é uma tentativa de explicitar algu-
sofia da linguagem é tornar esse saber consciente por meio desse mas conseqüências dessa hipótese básica e prová-la.
procedimento duplo. É, portanto, um tipo de reflexão que difere Afirmar que nosso comportamento lingüístico é regrado signifi-
radicalmente de outros tipos de procedimento, por exemplo o ca, paÍa Searle, dizer que falar uma língua é realizar alguns atos de
levantamento estatístico dos fatos lingüísticos, e por isso sua Íala de tal modo que se pode dizer serem os atos de fala as "unidades
verificação não segue os paradigmas ortodoxos da verificação Íundamentais" da comunicação lingüísticae.
empírica como ela é realizada no método empírito-analítico1.
Na delimitação do campo de pesquisa da fllosoÍla da linguagem,
Searle descreve o tipo de veriflcação específico dessa reflexão do partimos do problema central da relação linguagem-munclo. Agora
seguinte modo: porque sei como se fala determinada língua, tenho esse problema central recebe uma nova determinação: a linguagem se
domínio de um "sistema de regras" subjacente ao meu uso de elemen- constitui de unidades básicas, os atos de fala, de tal modo que a
tos da língua em questão. Toda e qualquer pessoa que domina uma consideração do problema central implica a consideração temática dos
língua tem um saber atemático, implícito, inconsciente do sistema de atos de fala. Nesse sentido, a teoria da Iinguagem se manifesta como
regras que constitui essa língua enquanto tal. Por meio da reflexão uma parte de uma "teoria da ação humana". Evidentemente, enquanto
sobre o uso dos elementos lingüísticos dessa língua, é possível tirar comportamento regrado, a linguagem implica alguns caracteres for-
esse saber do anonimato e, em primeiro lugar, conhecer os fatos for- mais, que permitem uma pesquisa independente. porém, uma pesquisa
mulados nas caracterizações lingüísticas. Tais caracterizações podem
ter validade universal precisamente na medida em que contêm regras. idealizada, isto é, de uma linguagem que possui uma lógica exata, e com isso ele se
Conhecendo as regras, sei não só de fatos presentes ou passados, mas distancia da "filosofia da linguagem ordinária"; ele não consi<Iera o uso especíÍico em
ri
situações específicas, mas, por assim dizeq constrói o uso ideal e assim se aproxima
)t tenho um "saber projetivo", pois sei como serão os fatos futuros, pres- das teorias da língua ideal, só que com uma grande diferença: para esses filósofos, a
ll
rl suponclo-se que essas regras sejam seguidasS' linguagem ideal deve ser melhor e mais perfeita do que a linguagern do dia-a-ilia. para
searle, a construção de uma linguagem ideal é, apenas, uma estratégia metodológica
rl ,.I 7. Searle. como Austin, defende o intuicionismo, ao qual corresponde que essas
para tornar possível afirmações definitivas a respeito da linguagem clo dia-a-dia. cai,
portanto, o postulado de Austin de alirmações sempre provisórias.
regras constitutivas dos atos de fala não se gestem por um processo de generalização.
l1
,, * 9. searle considera o ato de fala isoladamente e não como unidade insericla num
em que não se procura tematizar o traço comum de diferentes realidades por meio de
,
I
processo complexo de interações, o que manifesta, mais uma vez, o caráter abstrativo
[, It ,
um processo de comparação, como fazem os empiristas, mas ele as descobre como
condições de possibilidade de um caso inequívoco e paradigmático. Todos os atos
de suas análises: constantemente ele abstrai de uma série «le dimensões da linguagem
em vista da concentração num aspecto: a força ilocutiva dos atos de fala. cf., a
tl ilocr.rcioniírios possuem as mesmas regras básicas como sua condição de possibilidade.
respeito: w. strube/G. Heyer, "Die Entwicklung der Sprechaktetheorie", in.. lnformation
h, lll 8. Acontece em Searle uma espécie de "idealização da linguagem", na expres-
Philosophie ll (Basel 1983) col. 5,4-15, aqui sobretudo 8ss.
lí são de Hoche/Strube (cf. op. cit., pp. 298-299): Searle parte de uma linguagem
rí ,'t) r| il
175
rt 174
lohn R. Searle: teoria dos atos de lala Il
Revir avolta Pragmática

da linguagem é essen- rrrrur situação de diálogo em que uma pessoa diz a uma outra uma das
(plc s(' litrtitit a uma pura consideração formal (lulltro Íiases seguintesr2: Sam fuma costumeiramente: fuma Sam
ver também que papel exer-
cirrlrrrcrrlc incompleta, pois é '"""'iátio t oslumeiramente? Sam, fuma costumeiramente; ó se Sam fumasse
de fala executados
ccnr csscs elementos foimais nos atos ry': l.^o.rn"* t'ostumeiramente!
sistema' na terminologia
li intpossível atingir a própria língua como atos de falalo' A primeira coisa a considerar é que aqui estamos diante de uma
c6 estruturalismo, ,"-tu consideráçao
dos
t'xpressão de frases em língua poÍuguesa. Ao expressar essas frases,
de princípio entre a signi-
Searle se contrapõe a uma separação o lalante diz alguma coisa com elas. Assim: no primeiro caso, ele faz
licação da frase u dos atos d3 fala e radicaliza a tendência
trrna afirmação; no segundo caso, levanta uma pergunta; no terceiro,
" "'*"*fao em dois pontos de vista
de não separar u ,t-á"itu e pragmáticarl tlír uma ordem; no quarto exprime um desejo ou uma exigência. Ao
não só a^partir do fato-.de. que a
i
cliversos. Searle justifica tuu poiição que cxecutar esses atos, o locutor executa também outros atos que são
atos de fala' mas a partir do
comunicação implica necessariamente cornuns a todos os quatro, pois em cada um deles o locutor se refere
tudo o que se pode pensar'
ele chama o "princípio de expressividade": 1ro mesmo objeto, Sam, e predica alguma coisa dele (o fumar
ele. considerado analiticamente
pode-se dizer. Esse princípio é por costumeiramente). Em todas essas quatro expressões lingüísticas, a
por multas razões' O""t*1i01^l1l:
verdadeiro, isto é, pode ser que' rcfêrência'3 e a predicaçãora são idênticas, embora estas, em cada caso,
linguagem' não estela
g;;;; ou determinada pessoa' que fala essa llçam parte de um ato de fala diferente. Portanto, como resultado
quer' permanecendo' contudo' a
em condições de dizer tudo o que dessas considerações, podemos dizer que o locutor, ao exprimir uma
Todo limite de expressão
possibilidad" d" ,rp"*. essa situàção-1irnit". clessas quatro sentenças, executa três atos diferentes:
que pode ser ultrapassado' e não
é, em princípio, um fato contingente'
..tufisica' EJse prinilpio tem muitas conseqüências 1. a expressão de palavras (morfemas, sentenças);
uma necessiauO"
2. referência e predicação;
que serão examinadas posteriormente'
3. afirmar, perguntar, ordenar etc.
Isso significa, portanto, que um ato de fala consta de três diferen-
TEORIA DA LINGUAGEM tes ações:
a) execução de atos de expressão;
a) Considerações básicas b) atos proposicionais:
c) atos ilocucioniários.
algumas distinções' que se
rr I Trata-se, em primeiro lugar' de fazer Não são, contudo, atos diversos realizados concomitantemente,
fenômeno lingüístico' Consideremos
llr
l1
I
I I
manifestam no primeiro ohaúo mas três momentos constitutivos de um ato de fala. O mesmo ato
I
proposicional (em nosso exemplo) pode ser comum a diferentes atos
do caráter formal de sua pesqulsa e
II parâ
10. O próprio Searle é consciente ilocucionários, como se podem exprimir palavras sem executar atos
::t exprimirisso,eleusaomododefalardoestruturalismo'.Assim'porexemPlo'ele
singulares e''mais'adiante' proposicionais e ilocucionários. Também é possível realizar os mes-
rr afirma logo a princípio q";;" se interessa por línguas
"língua"
afirma que uma pesquisa "ã"tt*d"
dot utot aL t-utu,Juma pesquisa sobre a mos atos proposicionais e ilocucionários com atos diferentes de ex-
enÍre langue e parole' Cf' J' R' Searle'
com referência a Oi'ti'Ja"
"f*" 'u*"iunu
Sprechakte, oP. cit., PP' l3 e 32' ea 12. Cf. J. R. Searle, Sprechakte, op. cit., pp. 38ss.
pesquisa da significação de uma sentença
11. Daí ruo ufi'*ução básica: a two difÍ'erent 13. Trata-se de indicar um objeto determinado.
"ont and the same study from
pesquisa de sua força 'ao Acts"' in: 14. Trata-se de dizer algo sobre esse objeto. À vinculação cntre reÍ'erência e
'foto"ionatio on Locutionary and Illocutionary
points of view": J. R S";;;",--;Á;stin predicação, Searle denomina de ato proposicional.
Oxford' 1913' p' 154'
Berlin et alii, E.ssa.v.r on J' L' Aasrln'
177
t76
Revi ravo lta P raqm atica loltrt l?. Scurlc: taoria dos atos dc litla Il

é um l(cl'crôncia em primeiro lugar; trata-se de identificar as expres-


prcssrxr, como por exemplo com a frase: Mr' Samuel Martin
rr )

(o locutor executa aqui um ato de expressão sircs indicatiynsrT tu, César, a batalha de Waterloo etc. O ca-
l'ur,a,tc regulaide tabaco
proposici- rrctcrístico dessas- expressões é que servem para distinguir um
dil'crente, já que exprime outra frase. Atos ilocucionários e
proferidas em oh.leto, uma identidade, um acontecimento etc. de outras realida-
onais têm como característica o fato de que palavras são
dcs e para identificá-los. Essas expressões se referem a realida-
determinados contextos sob determinadas condições e com intenções
dcs singulares e com elas se pode responder a perguntas a res-
determinadas.
peito de: quem? O quê? Qual?, sendo elas, ainda, recognoscíveis
Além dessas três dimensões constitutivas de um ato de fala, pode- cm sua função e não em sua forma gramatical. Devemos ainda
-se acrescentar ainda o que Austin denominou o
"ato perlocucionário",
distinguir entre: expressões indicativas determinadas e
isto é. os efeitos causados no ouvinte' Atos proposicionais e
incleterminadas (um homem) no singular e no plural, como, mais
ilocucionários são intimamente ligados a determinados tipos de
ex-
largamente ainda, distinguir entre o uso indicativo e não indicativo
pressão, e a forma gramatical característica de um ato ilocucionário
é
(p. ex., predicativos) de expressões. Por exemplo: um homem
à f.ur" completa, a do ato proposicional partes de frases; por exemplo'
veio e João é um homem, em que a palavra homem é indicativa
no ato de piedicação os predicados gramaticais, no ato de referência no primeiro caso e predicativa no segundo (é preciso notar que,
osnomespróprioseoutrasespéciesdeterminadasdeexpressõesno. em ambos os casos, usa-se o artigo indeterminado). Além disso,
minais. Contudo, convém notar que atos proposicionais não existem devem-se ainda distinguir expressões usadas para indicar indiví
fazer
sem atos ilocucionáriosrs. Não posso predicar, por exemplo' sem duos de expressões usadas para indicar o que os filósofos cha-
só são'
uma afi.rmação ou unra pergunta etc. Referôncia e predicação mam de "universais". Por exemplo, distinguir entre Everest e
pois, possívLi, .o*o parte integrante de um ato ilocucionário' Searle vermelho (cor). Expressões indicativas são as que se referem a
puttu, então, afazet uigr,rut considerações e distinções em ref'erência indivíduos e não a universais. Não devemos, contudo, esquecer
à tuOo o que foi dito até aqui com a finalidade de pôr os fundamentos que, quando se fala de expressões indicativas, não se pretende
indispensàveis para a articulação de sua teoria de linguagemr6' dizer com isso que a expressão indica de fato alguma coisa, pois
a referência não depende da palavra, mas é uma parte de um ato
15.Afalasecaracterizaprecisamentepelaunidadefundamentalentreoato de fala, poftanto só existe na execução de atos proposicionais e
retrabalhada por
proposicional e o ato ilocucionário. Essa tese básica vai ser depois
ilocucionáriosr8.
Habermas em suà pragmática universal.
16'A..estratégiametodológica,'utilizadaparachegaraessasdistinçõesémuito b) Proposições. A proposição é aquilo que num ato de afirmação é
pela me- afirmado, num ato de perguntar é perguntado etc; em outras
diferente também de Austin. Austin, como vimos, chega a suas conclusões
searle utiliza o que Hoche/strube (p.
«liação de uma teoria dos malogros, enquanto palavras, uma afirmação é um reconhecimento da verdade de
um procedi-
2gi; chamam de,,método da variação dos componentes do ato de Íala",
ll mento análogo ao da lingüística àstruturalista, segundo estes autores.
O exemplo uma proposição. A expressão de uma proposição é, exatamente,
de um ato de fala para um ato proposicional, o que é sempre ligado à execução de um
ll acima mostra em que .onii.t. essa análise dos componentes
caràcterísticas: Searle mostra como a mesma referência e a mesma ato ilocucioniário. Portanto, Searle ef'etua aqui uma distinção muito
explicitar suas
tI pràdicaçao podem ocorrer em atos de fala completamente diferentes.
Já que há poucos importante, a saber, entre o ato ilocucionário e o "conteúdo
de provar sistematicamente as diversas
.o*pon"ntÉ. em questão, há possibilidade proposicional" do ato ilocucionário. Nem todos os atos ilocucio-
li
possíveis e ver que sempÍe ocorrem as mesmas diferenças. Stenius, que
comLinações
é o mesmo, o que
trabalha tom estratégia semelhante, diz que o conteúdo das frases
lt "modi" em que se apresenta a coisa de que se trata. Daí, para ele, 17. J. Searle, Sprechakte, op. cit., pp. 44ss.
é diferente sáo os
"radical" da frase e 18. A respeito da discussão dessa problemática no contexto da tradição e da
o resultado fündamental dessa estratégia ser a distinção entre o
o "modus". Cf. E. Stenius, Wittgensíein's Tractatus, Oxford' 1960' p' 211' D' Íllosofia analítica contemporânea cf. J. Simon, Sprachphilosopftle, Friburgo-Munique.
lll p' 1981, pp. 93ss.
Wunderlich, Studien Sprechaktetheorie, Frankfurt am Main' 1916'
56'
.t
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I r r
t79
r I 178
Reviravolta pragmática John R. Searle: teoria dos atos de fala II

rriiri«rs tôttt um conteúdo proposicional' Ai! por exemplo' A partir [)or essa razáo, as regulativas têm quase sempre a forma do
daqui se podem distinguir áois elementos na estrutura sintática imperativo, enquanto as constitutivas <Ião à primeira vista a im-
,tu um indicaàor proposicional e um indicador da força pressão de ser tautológicas, porque analíticas.
'i"nt"nçu:
ilocucionlíria.Para a indicação da força ilocucionária podem ser É muito importante em filosofia, na opinião rle Searle, reconhe-
usados muitos meios, como por exemplo a acentuação' entonação' ('cr a existência de regras constitutivas, pois isso evita a falsa coloca-
o modo dos verbos, os assim chamados verbos performativos
çrio de alguns problemas em filosofia da linguagem. Para entender
(prometo, peço desculpas etc.). Na situação concreta do uso da
rrrclhor a distinção, faz-se necessário atender ao seguinte: quando se
iingrug"*, ,áb"-r", a partir do contexto, da força ilocucionária lrata de regra regulamentativa, o comportamento pode ser descrito e
dasexpressoes,mesmoquenãohajaumindicadorexplícito.Por-
cspecificado independentemente da existência ou não da regra, o que
que a mesma proposição pode ser comum a vários atos
rrao é o caso quando se trata de uma regra constitutiva.
iiocucionários, então se pode fazer a análise da proposição inde-
pendentemente da análise dos diferentes atos ilocucionáriosre. Seade procura ilustrar com exemplos sua distinção. Pressupõe-se
c;' i{egras. Searle dá uma grande contribuição para o esclarecimento t;ue entre seus conhecidos é costume, isto é, de bom-tom, enviar con-
daiese já elaborada pelo segundo Wittgenstein de que a.lingua- vites para festa pelo menos com duas semanas de antecedência. A
gem é ,- regrado, distinguindo dois tipos de
"ornpo.támento cspecificação da ação correspondente ele enviou os convites, pelo
regras: as regras regulativas e as constitutivas. As "regulativas" - é independente da regra
nrenos, com duas semanas de antecedência
saã as ,"grut d" comportamento que existem independentemente -
..constitutivãs,' são aquelas que entram na própria cons- cm tela. Do contrário, não se pode especificar o comportamento 'Jogo
delas. As
jogo rlc futebol" independentemente de suas regras: as regras constitutivas
tituição desses comportamentos, por exemplo, as regras do
sem elras não hájogo de xadrez, o que não é o caso' sho o fundamento para as especificações de comportamentos, que sem
de xadrez
-
por exemplo, das regras de boa educação, que regulam compor- tais regras não seriam possíveis. Ora, a linguagem implica regras,
I
iu*"rto. já existentei (relações intersubjetivas)' Um jogo de xadrez porém regras constitutivas análogas às do jogo de xadrez, de tal modo
regras
só é jogo de xadrez na medida em que há acordo com as que a hipótese inicial da teoria de Searle exprime-se agora: a estrutura
reguiatlvas, as quais regulam atividades cuja existência é semântica de uma língua é a realização de uma série de regras
lolicamente independente delas, enquanto as constitutivas dizem constitutivas subjacentes que se fundamentam em convenções. Os atos
reípeito a atividaàes cuja existência depende logicamente delas20. clc fala se caracterizam por se realizarem de acordo com essas regras.
Por exemplo, se comparamos pescar e falar, vemos que, por exemplo,
lg.Paraumulteriortlatamento<lessaquestãodaóticaabertapelafilosoÍra sc, sob determinadas condições, se pesca peixe, isso não depende, de
zur
pragmática, cf. W. Becker, Wahrheit und sprat:hliche Handlung' Untersuchungen
l,'
llll[
,,
'sptãt'hphilosophischen
Wahrheitstherie, Friburgo-Munique' 1988' pp' I l3ss' .,
-2o.Cf.G.A.deAlmeida,.AspectosdafilosoÍiadalinguagem.Contribuição
modo algum, de convenções, mas, antes, de estratégias técnicas, de
procedimentos ou de fatos naturais, o que não ocorre, porém, no caso
l,' ', i

linguagem'', in: cle tal ou qual expressão lingüística ser uma promessa.
ill lll parâ um confronto e uma aproximação entre filosofia e ciência da
l'r 'codernr» "Da que as regras constitutivas dos jogos'
seal lt 1978183: mesmu maneira
l,í
iillI as regras constitutivas dos atos de Íala repousam sobre convenções'
isto é' sobre um
(chutar uma
O fato de se poder rcalizar alguns atos ilocucionários sem uma
língua natural ou qualquer outro sistema de regras não deve encobrir
ll I u.n.Jo o, entendimento mútuo prévio, a saber, que fazer tal e tal coisa
r

bola em gol, proferir uma frase) equivale a fazer tal e tal outra coisa (marcar um tento, o outro Íato, mais fundamental, de que atos ilocucionários, em geral,
equivalência entre se realizam no seio da língua e, por isto, se fazem na base de regras
[: l[ ,, fazer um pedido). A regra constitutiva do ato de fala estabelece uma
Íazer e diier, e essa equivalência advém de uma convenção e não de uma conseqüên-
determinadas em analogia com os jogos. É possível inclusive que as
os atos de fala pressupõem sempre uma
t,, cia natural. Por isso mesmo, conclui Searle,
mesmas regras estejam subjacentes aos atos de fala de diferentes lín-
institucionalizada de proceder, e o quadro da
lll instituição social, ou seja, uma maneira
guas, e é precisamente isso que permite a tradução. Falar determinada
instituição social em que esse comportamento tem lugar"'
lli
trl
r ri
tB1
llt r80
Reviravo lÍa pragmática ,lolttr l?. Scarlc: lt'ot'itt r/r),f rrlrrJ ,lt' lirld Il

lírrguir sigrriÍica internalizar um sistema de regras, mesmo que nem ç;rr, rlcpcndcndo apenas da intcnçã«l tkl lirlirnk:, prcssuposto que as
scrlrprc o indivíduo seja capaz de exprimir essa regra e, até mesmo, crlcunstâncias permitam tal signiÍicaçiio. ll clirnr tFrc a análise do
ncrn tenha consciência de agir de acordo com regras. iltrcrrcionário vai ter de pensar como se associirrr a irrtcnçixr do falante
t' l significação dependente de regras convenciorriris. o cluc não se
d) Significação. O que distingue um ato ilocucionário do simples
exprimir sons ou usar sinais é que os sons e os sinais usados nele llorlc é simplesmente reduzir uma à outra, pois para corrscguir a inten-
têm uma "significação" e aquele que os usa pretende dizer algo' çri, tlo falante ele usa de expressões, cuja significação é rcgrada con-
vcncionalmente e, portanto, não depende de sua intenção.
Que significa isso? Searle responde a essa pergunta tomando
posição contra a teoria do "querer dizef' (to mean) de P. Grice2r' Além disso, não é justa a opinião de Grice de definir a signiÍica-
Para Grice, a sentença de que um falante S queria dizer alguma çixr partir de atos perlocucionários, pois há inúmeras espécies de
a
coisa com X tem a mesma significação que a sentença de que S scntenças usadas para a execução de atos ilocucionários, às quais não
exprimiu X com a intenção de produzir determinado efeito no sc liga nenhum efeito perlocucionário; o saudar, por exemplo: quando
ouvinte na medida em que o ouvinte conhece a intenção de S' tligo alô, não preciso querer necessariamente provocar no ouvinte
Em suma: a ação executada quando alguém exprime uma senten- ncnhuma reação além da de se saber saudado por mim. Esse saber é
ça consiste em querer dizer alguma coisa com a sentença, e a apenas a compreensão de minha saudação e nenhuma atividade adi-
compreensão é um ato correlativo a esse querer dizer. cional. Mesmo que haja ligação, pode-se muito bem exprimir a sen-
Searle não aprova sem mais essa perspectiva- mas a acha um tença sem ter a intenção de provocar efeitos ou sem se incomodar
ponto de partida importante, porque aqui se põe no centro das consi- com eles. Portanto, o efeito do lado do ouvinte consiste não, por
derações a relação entre significação e intenção e, com isso se mani- exemplo, num convencimento ou numa reação qualquer, mas sim-
festam características impofiantes da comunicação lingüística. Searle plesmente na compreensão das expressões lingüísticas do falante.
considera essa concepção de significação insuficiente por duas ra- O efeito pretendido aqui é a compreensão do ouvinte, e isso não
zóes22'. em primeiro lugar, não se diz aqui em que medida a signi- é um efeito perlocucionário, que é sempre algo para além da com-
ficação depende de regras ou convenções; portanto, não é pensada preensão do ato executado.
aqui a relação que existe entre o que alguém pretende dizer com e) Fatos naturais e institucionais. Temos uma idéia do que seja o
o que ele diz e o que significa o que alguém diz dentro da língua na mundo e de nosso saber sobre o mundo. De acorclo com esse tipo
qual ele diz isso; isto é, a dimensão intersubjetiva da linguagem hu-
de saber, o mundo consiste em fàtos naturais e o saber é preci-
mana é deixada de lado; em segundo lugar, a definição da significação
samente o conhecimento desses fatos naturais, ou seja, há deter_
a partir dos efeitos intencionais não distingue entre ato ilocucionário
minados paradigmas de conhecimento e esses paracligmas ser-
e perlocucionário, isto é, Grice define a significação a partir da inten-
vem de modelo para todo o saber. O modelo para um saber
,rilillll ção, ou seja, de um ato perlocucionário, mas dizer alguma coisa
não
sistemático desse tipo se encontra nas ciências cla natureza, cuja
está sempre ligado a querer executar um ato perlocucionário e sim um
tít,lt[l base são as observações empíricas, nas quais são registradas ex-
ato ilocucionário. A significação das expressões lingüísticas ultrapassa
l1 periências dos sentidos. Contudo, temos de reconhecer que há
ll I a intenção e é, pelo menos muitas vezes, fruto de convenções. De
uma série de sentenças que não se enquadrarr nesse saber ou
acordo com Grice, qualquer sentença poderia ter qualquer significa-
f, tll nesse mundo: sentenças éticas e estéticas, por exemplo. Mesmo
que não se queira levar em consideração este tipo de sentença,
tl' 21. H. P. Grice, "Meaning", in: Steinberg. Jakobovits (.eds.) Semontics,
que para muitos filósoÍbs não passa de exprcssão cle emoções
r, lll Cambridge, 1971, pp. 53-59.
fl ,, ^,,. 22. A respeito, cf. as considerações dc G. A. de Almeida, op. cit., pp.8lss' subjetivas, há, contudo, fatos objetivos que não podem sem mais
rt tli:ll rrri
, ttr 182 r8l
Revir avolta Pr agmática
John R. Searle: teoria dos atos de fala Il

casamento do Sr'
o sti do ato de promessa, mas de todo ato ilocucionário. Seu método
sel itrsericlt)s nesse mundo' Fatos como:
leis para a t'onsiste numa espécie de reflexão transccndcntal: ele parte do ato
Schrrridt com a Sra. Jones, o parlamento aprovou
esclareci- ('xccutado para as condições de possibilidade de sua execução25. A
concessão de fundos etc. são fatos que não podem ser
pcrgunta central que norteia todo seu procedimento é então: que con-
clos dentro do quadro referencial da ciência natural'
rlições são necessárias e suficientes à execução, em toda a sua pleni-
Searle chama a este tipo de fatos de "institucionais"23, isto
é, fatos
Iude e com sucesso, do ato de prometer por meio da expressão de uma
que, em contraposição aos naturais, pressupõem a existência de determi-
scntença dada? A partir do estabelecimento dessas condições serão
a institui-
nadas instituiçdes humanas, pois' por exemplo, é porque existe lrrticuladas regras para o uso dos meios, que mostram o papel
certas formas de comportamento
ção matrimônio que têm significação ikrcucionário de uma expressão lingüística. A reflexão tem, portanto,
óo*o o casamen[o do Sr. Sõhmidt com a Sra. Jones. Ora, essas institui- tkris momentos: a descoberta das condições de possibilidade e a dedu-
constitutivas. Nesse caso, falar é, em
ções apresentam sistemas de regras çiro das regras.
por isso a
úttima analise, executar um ato, que é um fato institucional, e
da
linguagem não é um fato analisável dentro das categorias específicas Searle toma clara posição contra o antiessencialismo proveniente
Oeícffao dos fatos naturais. Os fatos institucionais só podem ser expli- tlas investigações filosóficas, que tem como conseqüência, segundo
cados ã parlir das regras que os constituem 'Talvez ninguém
ainda tenha cle, a renúncia a qualquer análise filosófica sobre nossos conceitos, de
jogo de futebol dentro do quadro de referência
tentado âar explicações do rnodo que seria impossível dizer o que é a natuÍeza da promessa. Para
dos fatos naturais, mas, infelizmente, isso é muito comum no caso da
cle, tais análises são indispensáveis, se realmente queremos saber o
linguagem, o que signihca, sem dúvida alguma, inadequação do contexto
que é a linguagem, e isso implica uma idealização do objeto analisado.
.u,ãgúuf ao fenômino em tela, pois a linguagem é uma forma.regrada 'Iratando-se de uma análise da natureza do ato em questão, serão
de ámportamento intencional, ou seja, um fato institucional2a. deixadas de lado condições acidentais, como também atos implícitos
cm suas mais diferentes formas. Numa palavra, vai-se também aqui
tratar de um ato simples e idealizado. Esse método de construção de
A ESTRUTURA DOS ATOS ILOCUUONÁRIOS
rnodelos idealizados corresponde, segundo Searle, ao procedimento da
Í'ormação de teorias nas ciências empíricas, o que é aliás indispensável
para a apresentação sistemática das questões tratadas.
a) Questões metodológicas

Searle vai tomar a promessa como exemplo de ato ilocucionário,


e à luz do que já foi esciarecido, vai tentar estabelecer a
estrutura não b) As condições de possibilidade
lillli As seguintes condições são necessárias e suficientes para a exe-
23. J. R. Searle, oP. cit., P. 80.
Iiru, 24.Nasuaintençãorlebuscarelementosuniversaisdaestruturadalinguagem, cução do ato de prometer por meio da expressão de uma sentença:
Searle está interessaclo em pesquisar instituições. Assim, ao
trabalhar a promessa, ele
i,ttflt quer tematizar a "instituiçào" promessa, válida para qualquer língua em que haja l. As condições de contorno são perfeitamente normais para uma
No cntanto, poique Searle quer pesquisar o ato de fala singular enquanto comunicação autêntica e séria, e isso implica, por exemplo, que
rrl [.o*"..r. para compreender
um evento intencional, ele abstrai <Je outros fatores fundamentais
por exemplo, os lingüistas marxistits objetam que eventos de
Il rir a linguagem. Assim, 2-5. Searle tenta tematizar as condições necessárias que, em sua totalidade, são
não podem ser explicados como ações lingüísticas. mas a partir
da base
.u*úi."çao suÍlcientes para qualilicar um proferimento dado como âto ilocucionário dcsta ou
entle os homens que correspondem a
material cla sociedatle e clas formas de relações
in: D. Wunderlich (ed')' daquela espécie e, a partir daqui, tenta derivar regras semânticas para o uso de res-
tI essa base material: 0. Kâstle, "sprache und Hcrrschaft",
pectivo ato ilocucionário. Cf. H.-U. Hoche/W. Strube, op. cit., p. 287, n<'»Ía 22.
Littguisrische Pragrnúik, Frankfurt am Main, 1972' p' 121 '
,,i tIr 185
ltr 184
l,
llcv i r avo lta Pr agmátíca
lohtt R. Searle: tcorit r/t)s rrlr)r fu laln ll

os rliirlogatttcs conhecem a língua e têm consciência do que fa- 7. Está na intenção de S compromctcr-sc com r.r realização de A por
zcnr, rriur há entre eles empecilhos de comunicação de ordem rneio da expressão de T. A caractcrística csscncial de uma pro-
l'ísica como, por exemplo, afonia, surdez, laringite etc' Eles não messa está em assumir uma obrigaçho para a rcalização de um
cstlxr representando teatro ou numa aula ou contando piadas etc' ato determinado. Daí por que Searle denorlina csta condição de
.,)
Na expressão de T (sentença), o falante (S) expressa a proposição "condição essencial".
que p.Aqui se isola o conteúdo proposicional da expressão para u. S tem a intenção (I-1) de provocar em H o conhecirnento (K) de
úma análise à parte das demais dimensões do ato de fala' que a expressão de T deve ser considerada como o assurnir por
3. Enquanto S expressa que p, expressa S de S um ato futuro A' Na parte de S a obrigação da realização de A. S tem a intenção de
promessa tem de ser expresso um ato que não pode estar no provocar K por meio do conhecimento de I-1, e está em sua
passado, nem ser feito por outro, pois é o autor mesmo da pro- intenção que I-1 seja conhecido na base do conhecimento de H
messa que está em questão. Portanto, pela expressão de p pode- da significação de T. A formulação desta condição significa a
-se prever um ato a ser praticado no futuro por s. Searle chama correção feita por Searle na teoria de Grice: é intenção do falante
as condições 2 e 3 "condições de conteúdo proposicional"' provocar determinado efeito ilocucionário pelo fato de ele levar
4. H prefer e a reahzação de A por parte de s a sua não-realização, seu ouvinte ao conhecimento de sua intenção de provocar esse
e § crê isso da parte de H. Um dos elementos centrais na reali- efeito, e isto deve ocorrer segundo sua intenção por meio da
zaçáo da promessa é que aquele a quem se promete realmente ligação entre a significação de uma frase por ele expressa e o
deieja issó e que aquele que faz a promessa conhece esse desejo. efeito em questão, ligação essa existente de acordo com as con-
Nesse contexto se faz observar que nem sempre o uso da expres- venções vigentes.
..eu prometo" significa a execução de um ato ilocucionário,
são 9. As regras semânticas do dialeto que S e H falam são de tal modo
pois essa expressão pode ser usada também em advertências, que T só pode ser expressa correta e lealmente quando as condi-
ameaças ou mesmo para exprimir melhor a obrigatoriedade de
uma ação. ções 1-8 são cumpridas. Esta condição tem a função de tornar
claro que o uso de uma sentença se fundamenta nas regras se-
5. Não é evidente, nem para S nem para H' que S' no curso normal mânticas dessa língua.
dos acontecimentos. fará A. Não tem absolutamente sentido pro-
meter algo quando é claro a todos que se fará, sem mais, o
prometidã. Sêarle examina o caso de um esposo que promete à
c) Regras pqra uso dos meios de anúncio da força ilocucionária
àrporu não abandoná-la. Tal promessa de algo que seria o normal
sópode levantar suspeitas. As condições 4 e 5 são condições de
Trata-se, como analisado há pouco, de deduzir das condições de
rl
l:r$ introdução, pois, embora não digam respeito propriamente à na-
It possibilidade para a execução de um ato ilocucionário as regras para
l1 tureza do ato, sem elas ele nào se realiza.
o uso de indicadores do papel ilocucionário das expressões lingüísti-
l,iru 6. S tem a intenção de realizar A. Esta é a condição de lealdade. A
l" distinção entre a promessa leal e desleal está justamente na inten- cas. Já que as condições 1, 8 e 9 valem para todos os rltos ilocucionários.

l'l
:lrt ção ou não de cumprir o prometidor".
então as regras da promessa devem ser deduzidas das condições 2-7.
t" rI As regras são as seguintes (V significa o indicador em tela):

ll1,* 26. No senticlo rigoroso da palavra, a leatdaclc pertence à promessa "f'eliz" de l. V só deve ser expresso no contexto de uma sentença ou dc uma
oncle parte Searlc por razões metodológicas. No entanto, ele mesmo observa
que uma
parte do discurso T, cuja expressão prediz um ato firtr"rro A do
pr,,,.árr" desleal não dcixa de ser uma promessa, o que o leva a ltma modificação da
bl falante S. Esta é a regra do conteúdo proposicional, cleduzida cle
llr conrlição de lealdacle: J. R. Searle. op. cit., p. 96. Cf. H.-U. Hoche/w. Struhe, op. cit..
lb,
p. 21i7. nota 22.
2e3.
Itr
,,. t1
$t r! 187
tá16

r
John R. Searle: teoria dos atos de fala I)
Reviravolta Pragmática
.
prefere atealizaçáo -5. A força ilocucionária não explícita de uma expressão pode, sem-
l V sti rlcvc ser expresso quando o ouvinte H pre, ser explicitada, e isso é um excmplo do princípio de expres-
quando S crê que é
,i" À f,,. parte dà s i 'ao'"ul\zaçáo de A e sividade.
cssc o caso. que 6. O cruzamento de condições na tabela mostra que determinadas
-1. V só deve ser expresso
quando' para S e H' não é evidente espécies de atos ilocucionários são casos especiais de outros atos
dos eventos' As regras 2 e 3 são as
S fará A no curà 'ot*ãl ilocucionários. Assim, a pergunta é um caso especial de exorta-
regras de introdução' ção: para um aumento de saber.
de realizar A'
4. V só pode ser "*pt"t'o quando S tem a intenção A partir daqui se pode pôr a pergunta: há atos ilocucionários
Esta é a Íegra de lealdade'
por parte de S da I'undamentais aos quais são redutíveis todos os outros? Searle acha
5. A expressão de V vale como um assumir essencial' difícil a resposta a essa pergunta. pois os princípios para a classifica-
obrigação da realizaçáo de A' Esta
é a tegra
ção dos atos ilocucionilrios são muito diversos. Tugendhat é de opi-
Essas regras são ordenadas, isto
é' a realização de uma pressupõe nião que a nebulosidade reinante com relação a esse aspecto, tanto em
a realizaçáo das antecedentes' A partir da elaboração dessas Íegras' Searle como em Austin, provém do fato de eles não terem considerado
falar e o jogar' pois podemos
fica mais clara ainda a analogia "ntt" o o aspecto semântico-formal da questão27.
regras' Se essa análise sobre o
encontrar também no jogo as mesmas 7. De modo geral, a condição essencial determina as outras con-
válida' então essas afirma-
caso especiat au prorn"'ía é universalmerÚe A dições.
para outros tipos de atos ilocucionários'
ções devem valer também B. O conceito da força ilocucionária e a idéia de diferentes atos
párti, a"qri, Searle forÀula "Hipóteses gerais" sobre os atos
ilocucioniários incluem, de fato, diferentes princípios de distinção:
ilocucionários. Assim:
a) Fim do ato;
de lealdade y
1. Nos casos em que por meio da condição lriSina b) A posição relativa de S e H;
i
do ato significa tamhém a
um estado psíqúico, então a execução c) O grau do compromisso de S e H;
afirmar' constatar' assegu-
I
expressão áesse estado' Por exemplo: d) A diferença no conteúdo proposicional;
procurar' ordenar são ex-
rar são expressões de fé; pedir' exigir' e) A relação diferente da proposição para com os interesses de S e H;
prometer' jurar' ameaçar'
pressões áo desejo ou da .exigência; 0 Os diferentes estados psíquicos expressos;
agradecer' parabenizar são
I
louvar são expre"ssões de intenção; g) As diferentes maneiras em que uma expressão se relaciona à
expressões de agradecimento-ou de
alegria' parte restante da conversa. Precisamente porque há diferentes
significado: só quando o ato é expressão dimensões do papel ilocucionário e porque o mesmo ato de
2. A inversao Oo aã'mado
de um estado psíquico é possível deslealdade' expressão pode ser executado com uma pluralidade de intenções
1,,,,,, (pelo menos em
3. Da condição de introdução se pode concluir falante: que as diversas, é imporlante ter claro que uma mesma expressão pode
para
ll ; i,, parte) o que a execução do ato implica ? constituir a execução de muitos atos ilocucionários dif-erentes.
Ae introduçâo do ato são cumpridas'
Assim' por exem- 9. Alguns verbos ilocucionários são classificados a partir do ponto
lr ,rir "onaiçoe,
plo, quando faço uma promessa pressupondo
que o prometido de vista do efeito perlocucionário pretendido, outros não28.

lt :::,, êstá no interesse do ouvinte'


uso de um indica-
4. Um ato ilocucionário pode ser executado sem contexto e a ex- 27. E. TugendhaÍ, Vnrlesungen zur Einführung in dia sprachanalytische
),,l1,. quando o Phiktsophie, Frankfurt am Main, 1916, p. 512.
dor explícito da força ilocucionária'
qu" u condição Àssencial está cumprida' E 28. A respeito das estratégias de justificação de Searle para sua análise das
pressão tornam claro
hl, uma série de expres- condições de possibilidade dos atos ilocucionários, cf. H.-U. HocheÂV. Strube, op.
essa qualidade da língua que fundamenta
hr '"
cit., pp. 288ss.
stlcs de cortesia'
it ll r89
Iá{3
fr
,lohn R. Searle: teoria dos atos de fala Il
Reviravolta Pragmática
- ca, é necessário entender para qllc usantos nomes próprios. A
ATOS PROPOSrcIONÁIS lunção do nome próprio consistc cnl nos possihilitar falar com
palavras sobre coisas que não são palavras, ntcsrno quando essas
coisas não estão presentes. Só se pode Íirlar, pois, no sentido
u) A referência como ato ile faln estrito, em "nome próprio", quando há uma rcal diÍ'crença entre
ato qualquer lingüístico o nome e a coisa nomeada. Se os dois são idênticos (o caso da
Vimos, no capítulo introdutório' que um
pelo menos' três momentos ou menção), então o conceito do nomear e do indicar perde seu
é uma realidade complexa que implica'
três atos: atos de expressão' atos
proposicionais e atos ilocucionários' sentido. O uso de aspas significa exatamente que no discurso em
do mesmo ato de fala' De- questão não há distinção entre nome e coisa nomeada, isto é, que
São três dimensões, inti*urn"nt"'Hgàdas'
a esrrutura dos aros ilocucionários,
Searle exa- neste caso a palavra não tem a função de ser um instrumento
;;i, ã,;; examinadoátãt ptoposicionais2e' isto é' do ato de referência convencional de referência. De modo análogo à análise do ato
mina a estrutura oot
são estabelecidos' de ilocucionário, Searle empreende a análise de um ato de referência
e do ato de p."olcufàá' õ'*t à referência'
tratar aqui somente da referên- seguindo os passos de Frege e Strawson3o.
antemão, os limites Aã p"'qlrrl'u: vai-se
du incompletude de
cia singular determinaáa. §earle tem consciênóiu de re- Na tradição, que desde Platão tratou do caso da referência, há
sua pesquisu, ,uiUu qu" é o esclarecimento desse tipo normalmente dois axiomas em relação à referência universalmente
"*Uoru de outros tipos de referência'
Íêrência que vai if"Jn* u irceitos:
"ompree'são
singular' logo deparamos com expressões
Em se tratando Oe referáncia
I

indicarivas,.uio Áais"claro éionstituído pelos nomes


pró- l. Axioma da existência: tudo o que é indicado deve existir.
"^"Àfio vezes possam aparecer sem ter função
prios, embora eles *uitu' 2. Axioma de identidade: se um predicado se aplica a um objeto,
.singulares determinadas, então ele se aplica a tudo o que é idêntico ao objeto, independen-
indicativa. Há também o caso de dàscrições
designativa ou não' O tato de
que também poO"* ot*er com função temente de que expressões são usadas para indicar esse objeto.
o"ot'"t num discurso determinado ainda não Para Searle, ambos os axiomas não passam de tautologias. No
uma expressao inOlcatlvu
Além disso' as
significa que ela ,*hu empregada indicativamente' primeiro caso, diz-se apenas que não nos podemos ref'erir a um
ou não' são' muitas
;õ;;;.á"J de um aittutto, 'ejam etat indicativas objeto quando ele não existe. No segundo, afirma-se apenas que
vezes, empregaAa. fota O"
normal' isto é' elas mesmas são objeto o que se aplica a um objeto, aplica-se a esse objeto. Ambos os
'"u 'l'o as duas sentenças abaixo:
clo discurso. Tomemos como exemplo axiomas conduzem a paradoxos. No primeiro caso, tomemos como
exemplo a sentença: 'A montanha de ouro não existe". Pressu-
1. Sócrates foi um filósofo;
princrpram com a posto o axioma da existência, essa sentença é um disparate. B.
2. Sócrates tem oito letras' Ambas as sentenças
mesma putuv.a, -na essa palavra tenha funções inteiramente Russellt' resolve a questão afirmando que o sujeito de sentenças
"mnora com
lt
diversas, poi, primeira fase ela é empregada de acordo de existência não é usado para indicar algo. Portanto, nesse caso
em que é ela o axioma da existência não teria validade, pois não existe pro-
tI seu uso normal, o que não ocorre na Áegunda'
mesma o objeto do discurso' priamente referência.

Os lógicos distinguem entre: 30. Cf., sobretudo: P. F. Strawson, Individuals. An Essay in Decriptive
l. Uso, quando se trata do emprego norm{1 Metaphysics, Londres, 1959. Para uma confrontação entre Frege e Strawson a partir
2. Menção, quando a própria
puú"u. é objeto do discurso' Para de uma outra ótica dentro da filosof,ra analítica, cf. E. TugendhaÍ, Vtrlesungen, op. cit.,

compreender b"* âi'ti'çao' hoje comumente usada na lógi- pp. 358ss.


"ssa 31. B. Russell, "On Denoting", in: Logic and Knowledge, Essuys, 1901-1950,
ed. por R. C. Marsch, Londres/Nova York, 1956, pp. 41-56.
29. J. R. Searle, oP. cit', PP' 116ss'
t9l
Illl I90
Iohn R. Searle: teoria dos atos dc fala ll
Reviravolta Pragmática

ringüísticas' que pare-


A rcÍerência pode ser plena sem quo, contutlo, o interlocutor seja
rrlr'r u c.mpreensão de outras expressões distinguir crrpaz de identificar, sem dúvidas, o ob-icto. Qr.rais são, então, as con-
ccnl scl' objeções uo u*io*u em questão' faz-se necessário rlições de possibilidade necessárias para a realização de urna referên-
e àutras formas derivadas
do discurso
(:ntt'c a linguagem
"";;;;;'al romalce'^o teatro etc' Na linguagem cil plena? Em primeiro lugar, o objeto identillcado clcvc cxistir, e a
huuritno, como por exemplo o cxtcriorização da expressão deve ser suficiente para idcntiÍlcar o ob-
referir-me a Sherlock Holmes'
comum usual, não ;;;; õ exemplo jt:to. Daí as condições necessárias são:
quando estou'-porém' ruma-forma de-
pois tal pessoa ,'n"u existiu'
rivada do discurso,
de-Sherlàck Holmes' pois existe l. Deve existir um e só um objeto, ao qual se aplica a expressão do
";*;;to-iulut
ànquu*o figura imaginada' O
problema locutor (reformulação do axioma de existência).
essa figura nesta linffiJ'n do tipo de lin-
diverso' dependendo 2. Ao ouvinte devem ser fornecidos meios suficientes para identifi-
da referência é, portãntã, moito pode-se dizer
Nesie sentido' car o objeto na base da exteriorização da expressão por parte do
guagem em que 1;;;;;t se encontra'
que o axiomu a"
" universalmente: em ambas as lingua- locutor (reformulação do axioma de identificação). Quando a ma-
"^iliJ'"9 ""r" que respectivamenrc em cada nifestação de uma expressão realiza essas condições? Tomemos
gens, só nos podemos referir ao -:ii:t"
srmplificar bastante o problema' como exemplo, a sentença: "O homem me ofendeu". Eln primei-
uma delas. Essas distinções parecem a esse
porém basta uma rápida da bibliografia referente ro lugar, é necessário existir pelo menos um homem. O uso do
"on'ià"tução generalizada' artigo singular ainda não resolve aqui a questão, pois sua função
;;;i;*" e ,e pode f"r""bár umà confusão
axioma: consiste apenas em mostrar que o locutor tem a intenção de rea-
É necessário considerar ainda um terceiro lizar uma referência singular. Ele é o meio convencional pelo
então ele identifica esse
3. Quando um locutor indica um objeto' menos é
qual se mostra a intenção do locutor de indicar um objeto singu-
objetos' ou pelos
objeto, separado de todos os outros lar. Então, como se aplica a manifestação de uma expressão por
esté é o axioma da identifi-
capaz de o rJu ã"""0o solicitado: parte do locutor somente a um objeto? A resposta a essa pergunta
cação. pu'u slu'ü' tul u^io*a
é apenas uma generalizaçáo da só é possível esclarecendo a segunda condição necessária, isto é,
expressão indicativa deve ter
um
afirmação d" ilg; de que cada o problema da identihcação.
Sentido.Aessaáttu,ui"faznecessáriodistinguirosdiferentes qua- Identificação significa, aqui, que não deve haver dúvidas e obs-
Para Searle' há pelo menos
tipos de expressões indicativas' curidade a respeito do que se fala. Nesse contexto, deve-se poder
ffo categorias dessas expressoes:
responder a perguntas como: quem? o quê? qual? Por exemplo, quan-
a) nomes PróPrios: Sócrates' Rússia; em
«1o falo de um homem que me roubou: talvez não seja capaz de na
muitas vezes expressas polícia distingui-lo de outros etc.; no entanto, quando suponho que um
b) expressÕes no singular compostas' que gritou;
li
sentenças;l"ti;;, por exemplo: o homem homem e só um homem me roubou, realizo. com a expressào acima,
uma referência identificante. Isto é, sabe-se aqui sobre o que se fala
c) Pronomes: estes' eu' ele etc';
etc' mesmo que não se seja capaz de identiÍlcar no sentido pleno da pala-
d) título: o primeiro-ministro' o
ll
papa
para que vra. Quando isso ocorre, o locutor é capaz de responder a questões
de necessariamente estar realizadas
Que condições têm como: quem? o quê? qual? com uma resposta inequívoca. Que tipos
possa contin'ut'-T1,1"f"rência
a expressão de uma dessas expressões a de resposta são possíveis para essas perguntas? É possível pensar em
sucesso? Mas' anteriormente
determinada, tut"gã'itu' reahàadacom
I

que exerce o dois casos extremos: "apresentações demonstrativas" e "descrição


mais radical: qual a função
essa perguntu, f'a'uÀu outra' que o locutor' por identificante". Na realidade, quase sempre, em nossas respostas, mis-
ato ilocucionário? E
ato proposicio'ur ã" i'Oicar no turamos demonstrativas e descrições. Uma descrição identificante é
escolhe um objeto singular
meio de um ato O"'"i"'On"ia' determina' etc' uma garantia na identificação de um objeto. Uma condição necessária
ou o identiÍr.u àuç- ao qual ele diz algo' ou pergunta algo
"," 191
r92
Reviravtt lta P ragmática John R. Searle: teoria dos atos de fala II

indicar um objeto particular com uma t'xistôncia individual e verdadeira. Ter, portanto, a representação de
l)iuil ir irttc:nçiio clo locutor de (que só rrrn objeto particular significa dispor de uma sentença de existência
identificante
cx1'rlr:ssiro é sua capacidade de dar uma descrição
responde à questão levantada rnrlividual e verdadeira, isto é, dispor de um Íato de uma determinada
valc para ele) desse objeto' Com isso se
da ,r'tlcm. Não tem, portanto, sentido a distinção irredutível da metafísica
t-,á p,ruco. A capacidade de efetivar uma referência plena depende
Isso constitui o tradicional entre fatos e objetos. Toda sentença, que conlém uma re-
capacidade de f'ornecer uma descrição identificante'
da ll'rôncia, pode ser substituída por uma sentença de existência para a
"prlncípio de identificação": Para que, por meio da exteriorização
referência determinada' r;tral valem as mesmas condições de verdade da sentença original.
expressão dada, se realtze com sucesso uma
condições: ou a pró-
devem, entre outras, ser realizadas as seguintes
ou o locutor deve
pria expressão deve ser uma descrição identificante'
'r", solicitado' h) A predicação
de indicar uma descrição identificante' quando
"upu, um objeto singular é identifi-
Portanto, por meio do ato de referência O segundo ato proposicional é o ato de predicação, que, como a
é possível por meio
cado com exclusão de todos os outros' e isso

na linguagem comum' rcf'erência, é uma velha questão do pensamento tradicional. Searle, em
de uma descrição identificante' Normalmente' razão dos preconceitos provenientes da doutrina tradicional, examina,
oouvintenãoexigeumadescriçãoidentificante,satisfazendo-secom Irntes de apresentar sua própria posição, algumas posições da tradição,
embora o locutor deva sem-
o uso de uma expressão não identificante'
é não esque- começando com a "teoria dos predicados" de Frege32. Para Searle,
pre ser capaz de fornecer uma, se necessário' Importante
vezes' referências apenas l,rege pensa o predicado da mesma maneira como pensa o sujeito. Ao
cer que, em nossa conversa, ocoÍTem, muitas
No caso extremo' a única sujeito de uma sentença corresponde um objeto, ao predicado um
p*.iulr, isto é, há graus de identificação' conceito. A tarefa de Searle vai consistir em mostrar que a teoria de
ao ver um objeto' dô
descrição identificaíte possível é que o locutor'
pode haver naturalmente descrições F'rege é insustentável33, porque contraditória, uma vez que Frege usa
a entender que o re.ônhece. de conceito em dois sentidos diversos, e isso porque ele tenta conciliar
identificantes mais úteis do que outras: quanto mais ela--é capaz
dois pontos de vista filosoficamente inconciliáveis; isto é, ele pretende:
I identificarumobjetodistinguindo-odosoutros'tantomelhorcumpre
sua função. l. estender ao predicado a diferença entre sentido e denotação;
locutor conhecer 2. esclarecer a diferença funcional entre expressões indicativas
A referência consiste, muitas vezes' no fato de o e
em questão' e.a exte- predicativas.
os fatos que dizem respeito somente ao objeto
referência na medida em
rtonzaçáo da expressãó só realiza o ato de
I

A contradição consiste em ele usar a palavra conceito tanto para


queolocutormostraessesfatoseostransmiteaosouvintes.Quando exprimir os resultados tanto de a como de b. Por que afirma Frege que
t,,
Ir,
Il[ olocutor,pormeiodesuaexteriorização'nãotransmiteaoouvinteum os predicados têm denotação? Em virtude de uma necessidade funda-
fatoouumaafirmaçãoverdadeira,entãoareferêncianãoserea]rizaem mental de sua teoria da aritmótica: a necessidade da quantificação de
iiit plenitude. Devemos distinguir entre o "sentido"
de uma expressão
qualidades. Parece que Frege crê que o uso de uma expressão
da exteriorização' O
:lI indicativa e a "proposição';transmitida por meio predicativa implica a suposição da existência de uma qualidade. Seus
1,, sentidoédadopo.*"iodeconceitosuniversaisdescritivos'queela discípulos concluíram daqui que, quando empregamos uma expressão
llll contém ou implica. Contudo, somente a exteriorização
de uma expres-
de uma propo-
nl,, são num "contexto determinado" garante a transmissão 32. G. Frege, "Funktion und Begriff', in Funktion, BegnJf, Bedeutung. Fünf
da mesma expres-
sição. Por isso é possível que duas exteriorizações logische Studien, ed. e intr. por G. Patzig, Gôttingen. 1962; "über Bc'griff und
sãocomomesmosentidopossamrelacionar-Seadoisobjetosdiver- Gegenstand", in; Funktion, Begúj, Bedeutung, op. cit.
Lr lr 33. J. R. Searle, op. cit., pp. 150ss.
hr sos.Acadaconceitodeumobjetoparticularsubjazumasentençade
ii;;l lI
ttrl
194 195
rr I
.lohn ll. ,\t'trrlc: tcot itr tlos ttos dc Íhla Il
Rev iravo lta Pr agmática

:rct'itlrria essa reinterpretação dc suu tcorilr, pois clc parece querer que,
pn'tlicrttivit' ittdicamos qualidades
(l' Sam e Bob estão bêbados'
":t
dois, rogo a expressão estão bêbados
prrlrr a quantiÍicação de qualidades, sc.ja ncccssiilio supor quc predicados
c,rrur cxistc ,tgu .o*u* entre os por- (l('n()ta, qualidades? Nesse sentido, um prcdicado d, sirnplesnrente, uma
entanto' tal conclusão é falsa'
irrtlica ossa qualidade comum)' No rltrrrlidade. Ao mesmo tempo, Frege perccbcu a tliÍtrcnça cntre "refe-
(lr-rc, a partir do fato de uÀu
lingüística implicar a suposição ri'rrciif' e "predicação" e estabeleceu ser a tarelà cla prcclicaçho intlicar
"*p'""ão
não se segue que eu, com essa
expres-
cr, cxistência de uma qualidade, tlrralidades. A solução do problema consiste em vt:r quc o predicaclo
slro, tenha indicado essa qualidade' rlio é uma expressão indicativa, mas atributiva, e essa teoria dcve ser
t'nlcndida como um aprofundamento daquilo que o próprio F'rcgc
Existe,contudo,emFrege,outrotipodeargumentação'baseada na
predicativo e em sua insistência c()nreçou a vislumbrar, e além disso essa posição em nada atrapalha a
na afirmação d" que'o to""ío é
«listinção de uma indicàtiva e a função de um predicado tprcstão da quantificação de qualidades.
""ft"*aodistingue entre "objet:t^,.1'""":":ca pode-
;r"J;;J"É urri* qo" "1" e conceitos que são' essencial-
É a partir daqui que se levanta a questão dos "universais" e a
riam ser a denotação'dt u'' predicado tliscussão com o nominalismo3a. Os defensores do nominalismo mo-
a distinção entre expres-
;;;", predicados. A partir daqui' F.rege faz muito importan-
tlcrno recusaram-se a admitir outras entidades além das particulares ou
sões saciadas e não *iiudu'' o que é um instrumento que
a quantificar as entidades. Portanto, não à existência de universais.
de predicado na sentença' contanto l'ara poder compreender a disputa com o nominalismo, é necessiírio
te para a designação da função
como:
;;;"t distinçães importantes sejam efetuadas' cntender, em primeiro lugar, o que significa reconhecer universais.
Que significa do fato de que Sam é calvo concluir que existe algo que
l. uma exPressão Preclicativa; Sam é e daí concluir que existe uma qualidade, a calvície? Que sig-
Z. tma qualidade;
predicativa para a atribuição de
uma niÍica pressupor a existência da calvície? Não há dif'erença, pois, em
3. o uso d" u-u'expressão relação ao fato do mundo, pois a mesma conseqüência poderia ter sido
qualidade. tirada da sentença: Sam não é calvo. Portanto, a existência do universal
predicado gramatical denota
Assim' a aÍrrmação de Frege' um se conclui unicamente da afirmação de que uma expressão universal
.,um predicado gramatical atribui uma qualida-
um conceito, ,ignifi.u, corespondente é plena de sentido. A partir dessas expressões podem
de,,. portanto, o predicado tem
na sentença uma "função de atribui- ser produzidas tautologias como: ou algo ou nada é calvo. A partir
é impossível
palavra conceito nesse sentido' então dessas tautologias, pode-se concluir a existência do universal cores-
ção". Se se usa a considerar os conceitos
levou Frege a
uma definiçao, foiit'o o que pondente. Portanto, que os realistas tenham afirmado loucuras sobre
" os universais não nos impede de reconhecer sua existência na maneira
não saciados.
a que conduz como foi mostrado, o que torna a recusa dos nomalistas incompreensível,
il[ ,
A partir daqui, é fácil compreender a contradição qualidade' então pois afirmações como a de que calvície existe não exigem de nós mais
' r,,, Ill a' conceito significa
a teoria de Frege: no argumento do que a aceitação de que determinados predicados têm sentido.
Iln denotar um conceito signiÍica:
por meio do uso de uma expressão
li ,, r lr I esses dois modos são essen- Portanto, resumindo a posição de Searle até aqui, podemos dizer:
gramatical atriUui-se umã qualidade'-Ora'
:l[ 'rt
,
cialmente pr.oi"uti'*' foà"-'"
perfeitamente indicá-los por meio
um objeto por
de
meio a) Frege teve razáo, quando supôs haver uma diÍ'erença essencial
como atribuí-los a
expressões nominais sinlulares' entre a função de uma expressão indicativa e a função de uma
de expressõ", p,"Aitutías' A
contradição provém da dupla "t'lll
expressão predicativa.
caso' é melhor abandonar a terml-
$ 1,,
cação da palavra conceito' Nesse
frase de Frege' o conceito cle cavalo
nologia O" f,"g"' óuí a célebre 34. A respeito da crise do nominalismo na filosoÍia contemporânea, cf. J. Simon,
a qualidade de ser cavalo
ll não é um conceito, significa simplesmente: Sprachphilosophie, op. cit., pp. 36ss.
Certamente Frege não
não é ela mesma a atribuição de uma qualidade'
ii;;ii
rrrr llrr 197
!I t96
John R. Scttrle: tcoria dtts trlos de fala ll
Rev i ravolt a Pr agm á tic a

pois ele tenta çlro rr:lcvante para os universais cm qucstho; ou sc.ja, os universais são
h) srrl tcoria, contudo, desemboca numa contradição' rtlt'rrtillcados com o auxílio de significaçiur, c a tcoria de Strawson não
indicativo;
nl()stritr que também o predicado é t'rrr lcva em consideração essa diferença Í'unclarncnlal do processo de
de Frege não põe em questão sua
c) a rcinterpretação da teària rtlcntiÍicação, quando se trata do sujeito ou do prcclicaclo, isto é, na
tetlriaaritméticadaquantificaçãodospredicados,poiselanão tcolia de Strawson o termo identificar é usado err suas signiÍicações
de universais;
nega, como o nomin;lismo' a existência tI ivcrsas.
de que uma expressão
d) a existência de universais se segue do fato existem no
Universais não Ora, a teoria de Strawson se baseia na afirmação de que o para-
universal coÍrespondente tem sentido'
do mundo' isto é' na linguagem' tligrna de identificaçáo é a identificação das coisas singulares por meio
mundo, mas em nossa aprcsentação
tlc cxpressões indicativas e, então, modifica um pouco o sentido da
O aprofundamento da função do pre.dicado na sentença é conse- cxpressão identificar para poder aplicá-la aos predicados. Mas, assim,
teoria da sentença de Strawson35'
guido por Searle numa disputa com a "entida-
poclemos também dizer que sujeitos identificam universais no mesmo
Ele afirma que tanto o sujeito como o predicado identificam scntido que os predicados. Por exemplo, se é vermelho identifica
it"'*os" e os introduz na sentença' quando
des não lingüísticas" ou vcrmelliidade, posso também dizer que rosa identifica rosidade, o que
eles são ligados meio de uma "associação não-relacional"' sc mostra claramente em frases como: a coisa, que é uma rosa, é
",o" 'ipo' é vermelha"' a expressão a rosa identifica
Assirn, na sentença "u vcrmelha, ou a coisa, que é vermelha, é uma rosa. Se digo que é
'à'u isto é' a vermelhidade'
um universul, u q.,ulidade de ser vermelho' meio
vermelho identifica um universal, tenho também de dizer o mesmo de
coisa singular são ligados por ó uma rosa. Portanto, a teoria de Strawson não é suficientemente
Dentro da sentença' o uni,",,ut e a
deumaassociaçãonão-relacional.Usandoaexpressão..identificaÍ,'. conseqüente, pois não chega à afirmação de que também o sujeito
de que os predicados. são indi-
ele evita a expressão infeliz de Frege identifica universais. Daí: nem o conceito de sujeito, nem o conceito
não relacional" ele evita
cativos. Com a expressão "uma associaçãà cle predicado são entidades não-lingüísticas. Com a expressão do su-
e cair na contradição' jeito refere-se a um objeto, pressuposto que ele exista. A teoria de
dizer que a sentença é uma enumeração
em relação à de Frege? Em Strawson interpreta a predição como uma espécie de referência. No
Tem a teoria de Strawson vantagens entanto, se se quiser mostrar na frase uma simetria, como é a idéia de
para Strawson' sua teona nao e
primeiro ligar, é preciso notar que' Strawson. então seria mais correto ver a referência como forma deter-
que para Searle aliás é
uma explicaçã", ;t;;enas uma descrição' minada de predicação, isto é, como uma identificaçáo realizada com
falsaesócausaconfusão.Aprimeiraquestãoqy".'"levanméa o auxílio da predicação. A distinção entre sujeito e predicado da frase
não-relacional' pois isso
respeito da significáõ át umà as'ociação é de ordem funcional: o sujeito serve para a identificação do objeto;
nada signifi"". D;;;, que significa
d':er que sujeito e -predicado
o predicado, de acordo com o ato ilocucionário, para descrever ou
illl
,,,,, .,'
ll\ identificam entidades nao-lingtiisticas?
é identificado
No caso do.gue
caracterizar o objeto identificado.
pois se trata de ul oleto mlilu''
pelo sujeito, a coisa é simples' ""ju
lill , fato contingente' E o universal? Ora' o universal' já Que relação existe entre universais e predicados? Em primeiro
existência é um
r,
t|l
algo da linguagem' poftanto uma lugar, precisa-se ver que para compreender um universal é necessário
lllli vimos, não é um fato do mundo' mas
de Strawson é simplesmente conhecer o uso da expressão predicativa correspondente. Assim, cor-
entidade lingüística. Portanto, a descrição
no mundo e' por essa razão' não clialidade é derivada de é cordial e, portanto, não poderia existir numa
falsa, pois os universais não existem
supõe' por meio da identificação
de linguagem em que não existisse é cordial. Portanto, há uma primazia
nl,, são identificáveis, como Strawson das expressões predicativas sobre os nomes das qualidades. Quando se
expressões que possuem significa-
fatos no mundo, mas por meio de domina o uso das expressões predicativas , é fácil derivar os nomes das
fr qualidades. A hipostação de entidades abstratas provém da necessida-
35. P. F. Strawson, Individuals, op'
cti
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,1 lt
198
tl rti rn t'n I t n n ra am át iCd

em comum as coisas' às
rlc rlttc s(: [clll tlc talar sobre o que possuem
r.1r,,,ir; ," aplica determinado conceito'
Nesse caso' os universais são
rlcr.ivac6s das expressões predicativas e,
com isto, muitos problemas
disso' para Searle' sua
I'ilostiÍlcos desaparecem segundo Searle' Além
segundo
cloutrina dá uma fundamenlação da antiga tese da metafísica
a qual só os universais e não as coisas
singulares podem ser predicados'
dos predicados em relação aos
Quando se reconhece a prioridade
não passa de uma trivia-
universais, percebe-se que a tese metafísica
Strawson têm' em comum'
lidade gramãticat. As teorias de Frege e de MARTIN HEIDEGGER
como uma espécie de refe-
a tendência de compreender a predicação
a referência' o que aliás é um
rência ou, pelo menos, em analãgia com Pragmática existencial
filosofla ocidental'
I dos erros mais persistentes da história da
é, então, na nova perspectiva a essência da predicação? Em
Que
independente da
primeiro lugar, a predicação nao é um ato lingüístico
referênciaedosdivemo'u'o'ilocucionários'Assim'areferênciaé'
predicação não é a
sempre, independente da força ilocucionária; a LINGUAGEM E ONTOLOGIA ENQUANTO
objeto depende' exatamen-
forma de aplicação de um predicado a um HERMENÊUTICA DA FACTICIDADE
a.predicação' Por exemplo' no
te, do ato ilocucionário, noqual ocorre
caso de uma pergunta: pergunta-se,
preclsamente' se tal predicação é
homem é, em sua essência, a "memória do ser", ele é o momen-
atribuível a determinaào lujeito' Portanto'
é o indicador do ato
to fundamental do evento de desvelamento do ser, e, para
que o predicado se refere ao
ilocucionário que determina a forma em Heidegger, só se pode falar de linguagem, no sentido estrito da pala-
do ato ilocucionário' em
sujeito. Daí: a predicação é um "momento" vra, aí onde o ser se desvela, se abre, ou seja, no homemr. A questão
separada do ato ilocucionário
contraposição à referência, que, embora da linguagem, portanto, está vinculada à questão central de seu
é um ato independente' O
como um todo, é uma abstração, contudo' pensamento. No entanto, a linguagem é um fenômeno pluridimen-
exatamente o conteúdo
conceito de predicação pretànde exprimir sional que contém diferentes níveis, pesquisados por diferentes
proposicional de um ato iioc"ionário' É
por isso que a determinação
algo independente da determi- ciências2. O homem, ser histórico, quando pergunta, já o faz dentro
das regras da predicação não pode ser
iill Ir, é um exame do próprio ato
nuçaoãu, ,"giu, do aio ilocucionário' mas
l. M. Heidegger, Sein und Zeit, Tübingen, lff ed., 1963, §§ 34. 35, 6{t d.
irlll rl h ilocucionário em relação a seu conteúdo' 2. Podemos ter conhecimentos sobre a linguagem e vivemos num tcmpo em que
Searle, em todas essas considerações' é
ter esses conhecimentos se multiplicam ao infinito, fomecidos pela ciência da linguagem,
l, l[ , trr O grande mérito de
importante para a pela lingüística, pela filologia das diferentes línguas, pela psicologia c até mcsmo pela
feito da teoria dos atos de fala um instrumento
»1,

il il iltlt análise da linguagem. Em que sentido tal


análise é inserível dentro do
filosofia da linguagem. Ultimamente, a pesquisa científica e lllostiÍlca tla linguagem
se tem dedicado à construção do que se convencionou chamar "rnctalinguagem".
não é suficientemente
lll,, luuO.o de umã reflexão propriamente filosófica Assim, como no passado, a filosofia era metafísica, assim ela é, h<r.je, rnetalinguagem.
um horizonte muito A metalinguagem é, para Heidegger, a metaÍísica da tolal tecniÍicação de todas as
explicitado em Searle. Essa ànálise abtirâ'contudo'
que se vai cristalizar línguas, transformadas, então, em instrumento interplanetário de informação: M.
fr importante para um novo paradigma de filosofia Heidegger. Das Wesen der Sprache, Pfullingen, 4' ed., 1971, p. 160.
deiois com Habermas e, sobretudo' com Apel'
iii;i Il, 201
I lr 5
[\ 200
M. Heidegger : pragmática existencial
__!y,rrrrlt, Prrgmátu
quando trata- gcm é que ele é expressão do pensamento, da razão, da consciêncta.
rlc rnrur ttittliçlto cultural específica: nós, ocidentais' lr a espiritualizaçáo do som que o torna linguagcrn humana, essencial-
concepção que se
nros tlrt littguagem, já o fazemos dentro de uma nlente distinta da linguagem animal. A linguagcrtt é, então, a expres-
tarde para as
cllrborou na metafísica clássica, transferiu-se mais são na vida humana em que o pensamento se r-xtcrioriza.
tecnocientífica
ciôncias cla linguagem, chegando hoje à concepção
Hoje, na modernidade, o homem experimenta o real cort'to objeto,
da linguagem. isto é, como o manipulável, o dominável por ele, como aquilo que se
originário3
O Ocidente entende tinguagem a partir do ilualismo pode pôr à disposição do homem. Nesse contexto, a linguagem é
é vista' em última
que caracteriza an'teÍafísica ocidental: a linguagem reduzida à informação5, como processo por meio do qual o homcm
de uma essência Ioma conhecimento dos entes, a fim de poder exercer sobre eles o
análise, como expressâo, isto é, trata-se da efetivação
que a razáo humana
ideal (razão, sentido), que ocoÍre na medida em clomínio. Essa concepção, hoje universalmente vigente, é o que, para
se utiliza de uma matéria (no caso de um
som) e a articula e transfor- Heidegger, caracteriza a essência da técnica, que é um modo de des-
possa ser veículo de sua manifestaçãoa' velar uma fórmula, portanto de ver uma forma de verdade6. A técnica
ma de tal maneira qr"
"iu da razão' do sentido' revela o real em seu caráúer de manipulável. Nessa perspectiva, a
Linguagem, n"rru p"irpectiva, é exteriorização
objetivação do inte- inÍbrmação é o modo como a natureza se revela por meio da técnica.
Algã sensível se faz mánifestaçao, exteriorização'
pelo homem lingua- Não a natuteza como ela é em si mesma, mas a natureza enquanto
ligTvel. Ora. o que faz, portanto' o som produzido submetida às perguntas do homem, enquanto relacionada a ele, en-
quanto manipulável por ele. Nesse scntido, a categoria infbrmação se
de forma e matéria'
3. Esse dualismo nretafísico se exprime nas categorias transforma para Heidegger numa das características da civilizaçào
perspectiva no seu De ente et estentitt'
Tomás de Aquino articulou, magistralmente, essa contemporânea?, pois o quc constitui nossa epocalidade é a predomi-
no parágrafo 5, dizendo: "Forma dat esse mâteriae"' O real é' aqui' pensado no
ativo' determinante' enquanto a nância dessa forma de desvelamento do real: a informação é a media-
horizonte da determinação: a forma é o elemento
meio dessa distinção que se resolve ção do saber necessário à manipulação8.
matéria é o elemento passivo, determinado. É por
«la uni<Iaàe ao áOttipto, não há matéria que não seja determinada pela
o f-ff"*u Ora, a primazia dessa concepção de linguagem revela-se hoje
forma, daí o Primado da forma'
Então, o elemento decisivo do ente concreto é a
forma' por meio da qual ele mais claramente no desenvolvimento do computadorn, e a própria
."."b. o ..t.'E ser que é o fundamento da unidade' seja ele
pensado platonicamente essência do homemro, aquilo que o homem é, determina-se hoje a
"rr" imanente E
como interpretado aristotelicamente como princípio
idéia imutável, seja
éo «leterminante' e a matéria é o
sempre o mesmo esquema Íunàamental: a forma 5. Heidegger explicitou essa perspectiva sobretudo por meio do esforço de
compreendido como inteligência, por meio
determina6o. Subjetivamente, o homem é que lhe compreender a tócnica como dimensão Í'undante de nossa epocalidade, numa confe-
coisas pela abstração a partir da sensibilidade
da qual ele capta as tbrmas das rência que ele denomina: 'A pergunta pela técnica", publicada mais tarde: M. Heiclegger,
na reviravolta antrop-ocêntrica
fbrnece a matéria. Esse esquema permanece intocado "Die Frage nach der Technik", in: W)rtr(i7e und AufsiiÍ2.e, Parte I, Pfullingen, 13" ed.,
iiiiil da forma, que agoÍa não é mais
n da filosofia moderna: o qu" *rau e a compreensão 1967, pp. 5-36. No entanto, essa explicitação aprofunda urna posição já, de algum
11 da subjetividade constituinte do
uma determinação ontolàgica, mas uma dimensão
t,
rnodo, trabalhada em Ser e Tempo. Por essa razão a consideramos aqui como intro-
I irIr ,, "Heidegger und die sprachanalytische
mundo dos objetos. V..ju u'r",ptito: K Prange' dução à problemática da linguagem no pensamento de Heidegger, antes mesmo de
philosophie". in: Phil. Jahrbuch'7g Og72;, pp. 39-56' M' Heidegger' 'Aus einem
tratarmos explicitamente das considerações de ,Ser e Tempo.
I tllt ,; C..praÀ von cler Sprache. Zwischen einem Japaner und
eim Fragenden"' in: Unterwegs
6. M. Heidegger, "Die Frage nach der Technik", op. cit., p. 12.
h
z.ur Sprache, oP. cit., PP' 10lss' 7. M. Heidegger, Der Satzvom Grund,Pfullingen,4'ed., 1971, pp.58,203.
artigo em que J' B' Lotz
I rrr r11y
4. Essa perspectiva se expõe com toda clareza num 8. R. Capurro, "Heidegger über Sprache und Information", in:- Phil. Jahrbuch
da linguagem de Heidegger:
l[,, tenta, a partir da escolástica, o* diátogo com a filosoha
88 (1981) pp.333-343.
und Metiph]Y.k der Sprache"'
J. B. Lotz, "sprache und Denken' Zur Éhânomenologie 9. M. Heidegger, Der Satz vom Grund, op. cit., pp. 202ss.
in:seinundExistenz..KritischeStudienínsystematischerAbsicht'Friburgo1965'pp' 10. Uma vez que o homem se entende hoje como aquele que exerce um domí-
fr ,
135-137, aqui sobretudo pp' 137ss' Cf' M' Heidegger"'Die
Sprache"' tn" Unterwegs'
nio sobre a totalidade da terra e até fora de nosso planeta.
op. cit., p. 14.
iii;i;, 20)
ttrl 202
Reviravolta pragmática M. Heidegger: pra11málíca cxistL'ncial

ir.tlir rrliir1uina. o problema de nossa epocalidade não é ter desco- lcvantar é: o caráter instrurncntal tlir lirrgulgcrn cliz-nos tudo sobre a
Prrr.l
hetlo it lirrgJagem como informação, mas, antes' ter absolutizado a linguagem? Será que o processo c«rrrtcrrrporânco, tccnocientífrco, de
tlirrrc.s.. i-nrtÃmental da linguagem humana: linguagem se reduz a rlcionalização da linguagem esgota todas as cxpcriôncias humanas
ulll puro instrumento por meio do qual se entra em contato com os com a linguagem?r5
outros. Já que ela é puro instrumento, o ideal é tornar esse instrumen- A experiência da linguagem como inforrnação sc lirz a partir de
tal o menoi complicado possível e de fácil utilização. Nesse contexto, tleterminado paradigma: o paradigma da subjetividade, da consciência,
cstáamaniaatualdassimplesreduções,abreviaçõesquepara (lue encontrou sua realizaçáo plena na atual fase de nossa civiliz,açào.
Heideggerllnãosãocoisasinocentes,masmanifestamquefazemos Não é possível experimentar a linguagem desde outro paradigma, para
daspalavrasapenassinaisdedesignaçãodascoisascomasquais além da relação sujeito-objeto, consciência-mundo? Em suma, para
podemos dizer tudo, porque, no fundo, elas não dizem nada' Heidegger, a manifestação epocal da linguagem como informaçào
Issoapontaparaumproblemamuitosériodenossoprocesso pressupõe o paradigma das teorias da consciência e da representação.
civilizatório, o pà""rro dó massificação do homem: os conteúdos 'fodo o seu esforço filosófico consiste em mostrar as bases de outro
mais profundos são afastados da linguagem para facilitar seu manu- paradigma de pensamento, a partir de onde é não só possível um outro
seio,mastambémporqueohomeminautênticonãotemmaisacesso tipo de experiência corn a linguagem, mas onde a linguagem constitui
de
à profundidade de iua vida. A linguagem tornou-se um fenômeno lnomento fundamental para toda experiência do real. Ora, o que
superfíciequetocaapenasasuperfíciedavidahumana.Eessaexpe- Heidegger pretende, não negando o valor do caráter instrumental da
riência da linguagem enquanto informação que faz com que o
homem
linguagem, é fazer o "passo paru trás", a flm de poder pensar a
de linguagem' como por
de hoje perca a abertura para outros tipos relação originária do homem com a linguagemr" que, para ele, nào
exemplo a linguagem da poesia, que lhe parece uma linguagem vaga'
constitui uma pesquisa a mais ao lado das ciências e da filosofia da
imprecisa, sem vinculação com a vida' tradição, mas é uma descida a seus "fundamentos", pois é essa relação
ParacumprirsuafunçãoComoinstrumento,alinguagemprecisa originária que é sempre pressuposta em toda ciência e filosofiar7.
ar-
ser formalizadà, o que ocorre por meio da criação de linguagens O primeiro passo nessa nova experiência consiste em superar a
tificiaisquesãocálculoslógicos.Heidegger,denenhummodo.con- postura objeÍivante na consideração da linguagem: a linguagem não é
a
dena a pôsquisa contemporânea sobre a linguagem' especificamente
construção àe "metalinguagens". Essa pesquisa tem seu direito espe-
modernos. M. Heidegger, "DerWeg zur Sprache", in'. Unterwe5ls, op. cit., pp.264ss.;
cíficoeconservaseupesopróprio'Elafornece'sempre'aseumodo' "Das Ende der Philosophie und die Aufgabe des Denkens", in: Zur Sache dcs Dcnkens,
algo útil para aprend".''' ó que importa para Heidegger é que ela
é
Tübingen, 2" ed., 1916, pp. 61ss.
rl
h
illli; up""nu, ,à do, possíveis modos de revelação da linguagem.
é
Ela a 15. R. Capurro, op. cit., pp. 338ss.
Ir , linguagem que se revela enquanto vinculada à subjetividader3, à expe- 16. Essa relação originária do homem para com a linguagcrr é scnrprc prcsslr-
)l ri:l . posta na ciência e na filosofia, porém nunca é propriamente tcrla dc consiclcrrçào.
riêícia'do real a parrir da subjetividade que comunica e se comunical Trata-se de perguntar de que modo, por meio da linguagem, o "Scr" sc dcsvela a n(rs
il '11l :l em suma, é portánto a revelação da linguagem como obra da subje- e se nos dá: W. Anz, "Die Stellung der Sprache bei Heideggcr", iu: Iltidcggar, ed. por
Ir
'rrt :. , tivicladeta. Oia, a grande questão que o homem contemporâneo
pode
O. Pciggeler, Perspektiven 4r Deutung seines Werkes, K(iln-Bcrlinr, 1969, pp. 306ss.
I 17. Para Heidegger, tÍata-se, acima de tudo, dc hzcr urna cxpcriência com a
r
".t p' 58' linguagem, o que é fundamentalmente diferenle dc tcr conhccirrrcr.r[os sobrc a lingua-
ll I l. M. Heidegget, Was heiJ3t tlenken?, Tübingen' 1954'
"r" ,* , gem: M. Heidegger, Das Wesen der Spruchc, op. cit.. p. l(í). Para o sentido de
12. M. HeideÀger, Das Wesen der Sprache, op. cit., p. 161.
p "experiência", ver p. 169. Heidegger articula sua tcntltiva com a liase: trazer a lin-
13. M. Heidegger, Die Sprache, op' cit'' 14'
informação' não é a linguagem enquanto tal' mas é guagem enquanto linguagem à linguagcrn: M. Hciclcggcr, "Der Weg zur Sprachen",
il fr rI i+. e üngougãÃ,.nqrur,o
nos tempos in'. Unter ]re.g.r, op. ciÍ.. p. 242.
a expressão ,up."Ãu daquilo que constitui sua manifestação específica
! illrr,,,
I rf, | *1 204
205

I
M. Heídegger: pragmática existencial
Rc v i ravolta Pr agmática

tlcsvelamento dos entes que radica na essência da linguagem enquanto


de nós' mas todo
sirrrlllesntt'ttlc tlÍl'l objeto presente que está diante casa do ser2r. Em outras palavras. a tecnoklgia da inlbrmação é uma,
1r.',rr,,,' lii semovim"ntu ,ro seio da linguagem' ou seja' se articula a que hoje é dominante, das maneiras de rcvclaçiro tla linguagem a
rrtrrrrir rtbcrtura, num espaço lingüisticamente
mediado' no qual se abrem
rrris, mas que, enquanto absolutizada, oculta-nos a vcrtladeira essência
p*á uexperiência do mundo e das coisas' Quaxdo
lrirra rttis perspectivas da linguagem.
a lingua-
lirlauros da linguagem, diz Heidegger, nunca abandonamos
é' por-
g",rt, rnu, ,"-fr" ialamos a partir delar8' Nosso ser-no-mundo Ora, como toda a tradição filosófica e científica tem ulna postura
maneira que é por meio objetivante em relação à linguagem, trata-se, para Heidegger, de ter ir
;anto, sempre tingtiisticamenie mediado, de tal
cla linguagem que ocoÍre a manifestação dos
entes a nósre' coragem de propor outro paradigma, que para ele é a hermenêutica do
cis-aí-ser, como ser-no-mundo.
Essaaberturanãoéobradasubjetividade'antesestamosnela
como ente' O ponto de partida é a fenomenologia de Husserl, cuja tarefa
inseridos: só onde existe linguagem o ente pode revelar-se
sentido de mostrar
Toda a reflexão de Heidegger, portanto, faz-se no Í'undamental era tematizar a subjetividade anônima constituidora do
dela nos utiliza-
que o originário não é que lalamos uma linguagem e rnundo objetivo, enquanto mundo de sentido. Heidegger confronta-se,
antes' que a linguagem nos cntão, com a tese central dessa fenomenologia: a tese da intenciona-
rno, puru poder manipular o real, mas,
se dá a revelação dos entes a nós' o que lidade. Toda consciência é sempre consciência de algo, isto é, cons-
-ur"à, ,tos determina, e nela a linguagem é o evento tituição de uma objetividade22. Aqui está, precisamente, a originalida-
só é possível porque, em sua dimensão última'
de desvelamento do sentido do ser20' de de Husserl em relação à tradição do pensamento transcendental:
para Husserl há uma pluralidade de formas de objetividade de tal
AcomPreensão, enquanto um dos existenciais
do eis-aí-ser
rnodo que é tarefa da fenomenologia pesquisar os diferentes modos de
(Dasein) e a linguagem Pertencem à mesma esfera: a
esfera do
dar-se do real ao homem. Ora, Heidegger, radicalizando a fenomeno-
Iogia, supera-ana medida em que se pergunta pela própria condição
18. M. Heidegget, Das llbsen der Sprache' op' cit''
p' 191' Isso--mostra a
da linguagem: M' Heidegger'
de possibilidade de qualquer dar-se, ou seja, trata-se de explicitar a
circularidade que caracteriza esse "estar-a-caminho"
csfera de possibilitação do próprio encontro entre subjetividade e o
Der Weg, ryr Sprache, oP' cit., P' 243'
19. Perguntando-se o que o poeta alcança nessa
experiência com a linguagem' rnundo.
que nao,e trata, aqui, de um simples conhecimento'-mas que ele
Heidegger afirma
uma-relaeão enlr1 t"^1]:O:f:t *"t Então, se a Í'enomenologia tinha feito da filosofia uma teoria do
chega à relação entre a palavra e a coisa' Não
a relação que faz com que a colsa se1a o que sentido, trata-se, agora, de tematizar o sentido dos sentidos, pois, "senti-
,epãradar, mâs a palavra é ela mesma
ela é: M. Heidegger, DasWesen der Sprache:, op'
cit'' p l70' A palavra deixa vir as
que ocorre o "mundar" do
coisas ao mundo e o mundo às coisas. É na ringuagem 21. M. Heidegger, Uber den Humanismzs, publicado juntamente c<tnt'. Pktktns
da diferença de mundo e
liiiil'r, mundo e o "coisar" das coisas' A linguagem
ào mundo
é o
e
evento
das coisas. Die sprache, op. cit.,
Lehre von der Wahrheit,2" ed. Berna 1954, p. 60.
coisas e enquanto tal o desvelamento
ll;rlII pp. 24 e 25. f,^ u/:,,^.
na linguagem de wittgensteln,
22. M. Müller, "Phânomenologie, Ontologie und Scholastik", in: Hcidcgger, op.
cit., pp. 78-94. O. Pôggeler, "Hermeneutische und mantische Phânorrcnokrgie", in:
20. Tentando traduzir essa afirmação de Heidegger Heideggeq op. cit., pp.321-357. E. Stein, Seis estttdos, op. cit., p. l2,l: "Jri sempre
t :llt ,,
diz K.-O. Apel: aquilo que em toda fala emerge' aquilo
que' segundo W-ittgestein'
cstamos fora de nós, o filósofo dirá: ek-staticamente. A mancira dc o cstar-aí ser é
lr 't' sem poder ser expresso em sentenças é o ser' O ser não é' Só é
somente se mostra cstar tbra. Mas esse 'Í'ora' é lidar com os utensílios, operar com os cntcs clisponíveis,
, li I ,1 mundo' O ser' porém' não pode
p propriamente o ente determinado que se encontra no .iá sempre compreender-se assim. Assim, o ser-no-mundr» enquanto lcvclação já é
serobjetodesentençasempiricamenteverificáveis.oser,aocontrário,setemporaliza também'intenção', isto é, está-junto-dos entes. É por isso quc o lil(rsolir tlissolve a
ll,, libera (a priorí) lodo e qualquer ente que pode-
no projeto de mundo, qu" lá noção husserliana de intencionalidade no novo existencial cuidatlo. A intencionalida-
'"*p'" é" é dito dele: K'-O' Apel'
mos encontrar, ,u for.u lut"go'iut do que no "dizer de, portanto, perde seu caráter 'imanente' vinculado à corrsciência e no cuidado se
fr I "Wittgenstein und Hei«leggá' Oit Fràge
Sinnlosigkeitsverclacht gegJn-atle
nach
Metaphysik"' in:
<lem Sinn von Sein und der
Heidegger' op' cit'' p' 367'
recupera a dimensão prática que já sempre caracteriza o estar-aí".

irii,;; 207
ltrt
M. Ileidelqgtr : p ntgmática existcncial
Rev íravo lta Pragmática

faz-se' assim' uma r'sri lrii vcrdade, porque o homenr é I)ust'in, islo d, o eis-aí-ser, por-
rlo Irrtttllttttcn(ti' clc qualquer sentido' A filosofia liurlo il presença, a revelação, o desvelamcnto do scr. Ern outras pala-
do sentido de ser' en-
tttrtttltt,\itt lrttrmenêutica", isto é, interpretação vrirs, o universo sentido-fundamento deixa-sc tcntatizar pela mediação
rguurrto scnticlo, que subjaz a toda e
qualquer atividade do homem no
(l(' unrir análise do homem enquanto ser-no-mundo: é a analítica exis-
nrundorl. A Í'enomenologiu e a pesquiia
dàquilo que se mostra a partir
It'rrcial o caminho indispensável para a reposição da questão do sen-
dc si mesmo. Ora, o q," revela, em última análise' o que se mostra
'" o ser' tirkr do ser27. O ser-no-mundo é, assim, o ponto de partida do estabe-
como fonte última de todo mostrar-se é It'r'irnento do novo paradigma da filosofia, a ontologia hermenêutica.
é a "recondução
Por essa tazáo,para Heidegger' a fenomenologia A análise existencial é o caminho, mediação indispensável para
específico da filosofia é o
do olhar do ente puiu o ser"25' O espaço :r intcrpretação do sentido do ser, uma vez que a característica ôntica
espaÇo hermenêutico, o espaço
da revelação clos entes' que se dá no
tkr cis-aí-ser consiste no fato de ser ontológico, isto é, de ser funda-
espaço da revelação do ser' rncntalmente compreensão do ser28. Porque o eis-aí-ser é, em si mes-
aqui: para além de
intenção básica de Heidegger manifesta-se
A rrro, hermenêutico, isto é, compreendedor de ser, a ontologia herme-
questão do sentido do ser' como
to<la a p"rqui.u do ente, tematizat a rrôutica passa pela hermenêutica do eis-aí-ser, isto é, do homem en-
É a partir dessa pers-
sentido fundante de todos os sentidos regionais. tltranto revelador do ser. O ser do eis-aí-ser é fundamentalmente EXIS-
dizer que o objeto' o conteúdo' a coisa' o l'i:NCIA, isto é, compreensão prévia do sentido do ser, presença do
fectiva que Heidegger vai
tema central da ontoiog ia é a diJerença
ontológica' pois sua preocupa- scr. O conjunto das estruturas constitutivas do eis-aí-ser é, então, a
Oá t"'iiOo do ser' A grande questão
de
ção de base é a temaíizaçáo A analítica dessas estruturas vai explicitar as dimcn-
t'.ti.stencialidade.
o universo próprio da
início é: como tematlzaÍ-o sentido do ser' Se sÕes constitutivas do ser-no-mundo, superando, assim, tanto a ontolo-

reflexãofilosóficaéouniversodosentidooriginário,comosefazo gia da coisa como a filosofia da subjetividade. A análise existencial


i acesso a essa dimensão? ladica no caráter ontológico do eis-aí-ser antes de qualquer teorização;
do sentido do ser passa o homem possui uma compreensão de si, dos utensílios com que lida
Para Heidegger, a tematrzaçáo da questão
I

enquanto ente cujo ser c dos entes de seu mundo2e.


necessariamente por uma análise do homem'
nesse sentido' só há mundo
consiste em compreender ser26: o ser se dá;
rlc qualquer subjetividade fundante, há uma evidência operando na situação de ser-no-
rnundo. Essa evidência está encoberta pelo óbvio do cotidiano, da separação cons-
23.M.Heidegger,SeinuntlZeit'op'cit'§7c'OpróprioHeideggerexplica ciência-mundo, pelo modelo da relação sujeito-objeto. É por isso que a analítica
maistardeosentidocle..hermenêutica,,nessetexto:AuseinemGesprtichvonder cxistencial recoloca a questão da 'teoria do conhecimento' ao fazer a crítica raclical
Sprache, op' cit., pp.95ss . -.- r^ +-^Á:^ã^ h^rn, rlo modelo das teorias da consciência, a começar por Descartes".
1,,
[,
illi:l 24.Trata-sedeontologianumsentidodiferentedatradição'porqueaqule
tematizado o que a tradição sempre esquece:
o sentido do ser' Só que o filósofb
"si-
2l . Mas apenas um caminho para a verdadeira questão da filosofia, a tematização
clo sentido do ser: M. Heidegger, Sein und Zeit, op. cit., p. 436. No entanto, não se pode
It' hermeneuta se orienta na compreensão.
sempre se compreen«re a partir de uma
,llt,., é o que é dado na tradição' o que tem csquecer que, para Heidegger, o permanente no pensamento é precisarnente o caminho:
l)l ll I I rt tuação hermenêutica". ó qu" t" compreende Aus einem Gespriich von der Sprach, op. cit., p. 99. E. Stein, A questfn do méktdo rut
de dádiva' Em outras p"lu"utt no lugar gl fotiu absoluta
o caráter de acontecimento, fibsofia. Um estudo do modelo heideggeriano, São Paulo, 1973.
Ir I llt:: i que diz para sempre o que é o ser' emerge'
agora' uma "teoria provisória" que explicita
28. M. Heidegger, Sein und Zeit, op. cit., p. t2 e ss 18, 63, 6-5.
osentidodoserdesdea"situação"'Nuncasepodedizerdefinitivamenteoqueoser p' 56' 29. Para K. Prange, aqui se manifesta uma convergência Íundamental entre a
r, , iff I mantische Phtimtmenoktgie' op' cit'
, é. Cf. O. Pôggeler, Hermeneuiische und Werke' vol' 24' frlosofia hermenêutica, orientada pela pergunta pelo sentido do scr, e a Íllosofia ana-
25. M. Heideg g"':, iin àrundprobleme tler
Phànctmenologie'
il,, lítica, na medida em que ambas não estabelecem suas rcspcctivas perspectivas de
Frankfurt am Main, 1975, P' 29' O pensamento abstratamente, por definição, mas retrocedem a uma pré-compreensào
.. *unit"*u clara a reviravolta do pensamento transcendental'
tl f r I i
26. Já aqui
serrtidodoserprecede'o'ut'1"ti'iauac:E'Stein'seisestudos'op'cit''p'22:'Antes
conhecimento' e antes
não ainda articulada teoricamente, na qual nós, de certo modo, já sempre nos move-
mos. A pergunta pelo sentido recone, portanto, a uma pré-compreensão pré-teorética
cvidência de quatquer *n.io ponto de particla da 'teoria do
h cla
"
il lt t ,,,
ttr I
209
20tt
M. llcitlcaltcr praomática existencial
Reviravolta Pragmática

enquanto homem' r':r rkl cxterior seu próprio ser, mas, antes, ele se relaciona a si como
lirttlo,cssa compreensão constitui o homem
o eis-aí-ser sempre se movimenta t:rl'lir clc ser. O ser do eis-aí-ser é, assim, sempre um "ser-adiante-de-
clrr ó o txistencial fundamental, pois si rrrcsmo".
É isso que
nurna compreensão O" ,", prOpào ser e
dos outros seres3o'
de seu ser funda-
constitui o aí do eis-aí-ser, pois essa compreensão A Íbrma específica de temporalidade do homem enquanto cuida-
precisamente com que a expli- tlr
menta-se no sentido do ser, o que faz sri se revela, plenamente, na morte: "o mundo do estar-aí se estru-
caminho necessário paru
.ituçao do sentido-do-ser do eis-aíser seiao lrrra a partir do cuidado que tem uma forma específica de temporali-
tal' A ontologia hermenêu-
a explicitação do sentido do ser enquanto rllrrlc que se manifesta na morte. Somente da morte compreende-se um
O eis-aí-ser é lançado no
tica radica na hermeneuticidade do e1s-aí-ser' poclcr-ser-total que, entretanto, nunca se realiza: ou ainda não somos
O homem nunca é' sim-
ser: isso constitui sua facticidade originária' Iotais, ou então, quando totais, não mais nos podemos compreender,,33.
desde sem-
pi"r-"nt", mas só é enquanto ser-no-mundo' isto é' ele iâ A tcmporalidade emerge, assim, como o sentido do ser do eis-aí-ser e,
;;;;;;;"tra situado "'n"do determinado como hermenêutico"' I)()r conseguinte, como o horizonte de sentido do próprio ser. A
'ium lcrnporalização do ser, em seus três momentos constitutivos, constitui
istoé,numamanerradeterminadadeordenaratotalidadedosentes'
EsSe..como,,éadimensãoantepredicativa,anterior,portanto,aodis- o horizonte último de compreensão do ser do eis-aí-ser. O eis-aí-ser é
mundo enquanto sua condi-
curso, ao que fazer prático do homem no l'undamentalmente ontológico; significa agora dizer que ele é abertura
original, verdade original, na medida precisamente em que o evento cla
ção de Possibilitação3r'
é antes de tudo ser lcmporalização é a priori de toda compreensão <ftr serra.
Na facticidade, o homem enquanto existência
seu próprio ser' o Ora, para Heidegger, é aqui o lugar originário da linguagem:
do projeto, ser da possibilidade' Compreendendo
homem compreende suas possibilidades'
No eis-aí-ser' o que está' em linguagem só pode ser adequadamente pensada a partir da tempora-
Por isso' o ser-no-mundo é' lizaçáo do tempo enquanto evento de revelação. A compreensão
última análise, em jogo é seu próprio ser'
fundamentalmente, c'uidado, cujo sentido
originário é a temporalida- heideggeriana do tempo é mediada pela analítica existencial, portanto
a alguém que obser-
de32. O homem, enquanto eis-aí-ser, não se teduz o tempo se dá, fundamentalmente, desde o qlue fazer prático do ho-
mem com o mundo, isto é, com os utensílios. com os outros entes35.
que já se aninhou na linguagem, mas que
precisa de uma nova forma de conhecimento A temporalidade emerge, assim, como o próprio sentido do cuidado,
puru tematizada: K' Prange, op cit'' p'3:9 .
,.,
é um fenômeno secundário' derivado'
30. Nesse ilo,i,ont",ã7otitt"n'aà não 33. E. Stein, Seis estudos, op. cit., p. 69.
..Esôola Histórica", mas se toma aqui um "existencial",
como vinha sendo tratado na 34. R. Hosokowa, "'Sein und Zeit' als 'Wiederholung, der Aristotelischen
istoé,umadimensãoconstitutivadohomem.Trata-sedeumadimensãooriginiíriaque
.,explicar" e "compreendei" que caracteriza Seinsfrage", in Phil. Jahrbuch 94 (1987), pp. 362-371, aqui p. 368.
rl .*áoiogi"u entre
antecede a distinção 35. E. Stein, Seis estudos, op. cit., p. 105: "O encurtamento hermenêutico nào
Heidegger'
It iilliirr o debate sobre a naturezrãu.
do espírito de Dilthey. No entanto, para
u-l-"f"iã*iu,iu a priori' cujo sentido representava apenas uma operação teórica sem precedentes na história da filosofia,
Ir de um conceito
a compreensão nao e 'o '*tiao
rt ,ltt*., é um "modo-de-ser" do estar-aí' mas significava, sobretudo, também uma operação prática: o homem não seria mais
ll r. I
está estabelecido para sempre, mas compreensao contemplador de um sistema espelhado em sua mente do qual ele faria parte. O
e compreensão estão' então' ligados
portanto do ser finito e hisórico' Compreender
I lllt',,; g. st"ln, Racionalidade e existência. uma introdução à encurtamento hermenêutico entregava ao homem a instauração de seu mundo, a pro-
ao universo da história. ôr. dução de seu universo, o universo do sentido. Mas isso não como novo demiurgo,
Ir pp' 34ss'
u,',1[ Jitosofia, Porto Alegre, 1988, espectador imparcial, e sim como estar-aí, por definição jogado na práxis do ser-no-
31. E. Stein, Seis esÍudos, op' cit'' p' 34'
) s
'I -mundo, somente se compreendendo na operação de sentido brotado no manejo dos
32.8m s", ,le*po,;1;;" é o sentido do ser e o horizonte transcendental
f, il, tãtpt"*'aà do ser' Então' o tempo é pensado a partir da
objetos, dos artefatos, dos utensílios". Para distinguir, contudo, claramente a postura
que torna possível u de Ser e Tempo e a postura de Marx, Stein afirma a intenção básica de Heidegger:
compreensãodo*eacomo'tuacondiçãodepossibilidade'Ora'essaperspectivanão aplicando as distinções de Habermas sobre os "atos de fala", pode-se «lizer que os
cf. K. Tsujimura, "Zu 'Gedachtes'
il
tt lltu supera de todo a ótica i" nto.orru transcendental.
von Martin ff.lO"gg"fl in'-Phil' Jahrbucl'
88 (1981)' pp' 316-332' aqui p' 321'
enunciados de Ser e Tempo sáo descritivos, isto é, têm como pretensão a verdade.

t Itrt
illrr*,,
2tl
2ro
Reviravo lta Pragmática M. IlaiclcAgtr': l,t tt,4tutitiút rtislttrtirrl

futuro (ser-adiante-de-si-mesmo)' '['anto a ontologia, como â lírgica lratliciorurl lpilrcccm questioná-


c( )nl sL:u s l rôs ôxtases fundamentais:
e seus esquemas' vcis a partir da hermenêutica do cis-aí-sc:r'. A kigicir rrcidcntal revela-
passiulo (iá-ser-em), presente (estar-junto-das-coisas)
ela orientada para
o quc supera a concepção metafísica de tempo toda s(: como algo secundário em relação à cxpcriôncia or.iginiiria da ver-
momentos para
., pr"r"ni". O tempo deixa de ser simples sucessão de tlrrilc do ser no "logos" do eis-aí-ser, pois parte da tlil'crcrrça tlt> tliz.er
como horizonte de compreensão do ser-aí36' t' tlo sel0 do "logos (sentença) e do presente (Das Vtrliegcntlc), scm
"me.gir de si'
Enquanto ser da temporalidade, o eis-aí-ser é compreensão scr rnais capaz de tematizat o evento do desvelamento do ser por rneio
e comuni-
O que ," .o*p.""rrde é sámpre lingüisticamente articulado tlrr linguagem. A linguagem emerge como a articulação da abertura
cável37. Toda sentença sobrê os entes radica'
em última análise' no originiíria do ser-no-mundo.
O desvelamento do
desvelamento do ser Lnquanto verdade originária'
pela linguagem que emerge' Aqui reaparece a pluridimensionalidade da linguagem: por um
ser na abertura do eis-aí-ser passa, então,
já aqui, em Ser e Tempo, como o tra"er à palavra a compreensão
justificada
lirdo compete à linguagem revelar o ente em sua verdade e exprimi-
'la na palavra. No entanto, o que se revela nunca é só um ente: no
ãigi"eri" do ser38. Heiáegger, como já foi dito' considera
da existência, ele
uma teoria do discurso; pã-.e-, a partir da analítica <lizer o ente transcendemos o ente na direção do se/t o sentido-fun-
do discurso, den-
tematizaa condição de possibilioáae oe toda teoria tlamento que possibilita a revelação dos entesa2. Então, é por meio da
o que implica a
tro, contudo, de um puràdig-u novo para a filosofia' palavra que se realiza o evento do desvelamento. Assim, é na força da
seja a ontoteologia
.e3áiçao de qualquer'tipo ãe ontologia primeira' palavra que o homem, ser histórico, vem ao ser. Heidegger chama esse
(discurso sobre Deus), seja u tot*ãlogia (discurso sobre o mundo
eo cvento de relação hermenêutica entre o homem e o ser. A considera-
de compreender'
natural). Não se trata'maii de fundamentar' mas
çao dessa problemática significa, em Heidegger, o pôr o alicerce para
eis-aiser é o lugar onde a compreensão do ser emerge3e' lu construção de um novo paradigma: a ontologia hermenêutica é um
rctorno ao evento do desvelamento que é também, ao mesmo tempo,
do homem' Nesse sentido' não apre-
i
Elaboram, portanto, uma teoria compreendedora ocultamento (essa é a aporia originária do ser enquanto evento de
sentam um sentido prescritivo, de tàn'otação
à práxis' como é o caso em Marx: E'
op cit"p' 111' desvelamento) (Entbergen) e ocultamento (Verbergen) enquanto
Stein,op.cit.pp. tOS-t0g.Cf'M'Heidegger, IJberdenHumanismus'
"Sein und Zeit",Frlbttgo/Munique'
G. prauss. Erkennnen uncl Haneleln in Hiiàeggers lemporalização do ser.
Philosrtphie und Potitik iei Heídegger' Friburgo/Munique' 1912'
lg71 . O.Pôggeler,
Petrópolis' 1989' pp'105ss'
F. Fédier, Hiíargg"r. Anatomia de um escândalo'
p' 115:'Aqui reside a grande descoberta de l)ensar a realidade, sobretudo a do homem que produz uma totalidade a partir da
36. E. Stein, Seis estudos, op' cit',
i
num cámpromisso prático do homem com o lidar com o irnanência da condição humana e recusa as totalidades introduzidas de fora a panir
Heidegger: o tempo se dá -
Esse é o existencial sem o qual clc Deus ou a partir do mundo natural. Nova teoria que pretende pensar o homem
ente disponível, com o utensílio, o ártefato' a obra em
l,l
Ilr
;tti:,
F r, I \ não se dariam os outros dois modos de ser do estar-aí: a Íepresentação do ente sua condição prática, como ser-no-mundo, num processo de compreensão produtora
cle sentido, e que, portanto, supera a teoria da tradição, antes contempladora do mundo,
t,, puramentesubsistenteeocompreender.Seemdireçãodoexistir.Daíaapreensãoda
(sorge) com os três êxtases: futuro, passa- lntes edificadora de uma moral para o homem, antcs visioni'rria de uma nova história".
lf ;ilii:ti temporalidade como o sentido ào cuidado
Wozu' Womit)"' 40. Heidegger retoma essa problemíúica de
do, presente, e os esquemas desses êxtases (Um-zu' "!cr c T'empo em sua segunda fase:
Ir ltt:: :l 37. M. Heidegger, Sein und Zeit, op' cit'' §§ 31-34' DusWesenderSprache, op.cit.,p. l85.QuantoàrinterpretaçãoqueHeideggerdáao
Heidegger-a partir da pensamento ocidental reÍ'erente a essa questão, cf. W. Anz, Dic Stellung der Sprache
lt' 38. Cf. a tentativa de J' B' Lotz áe um diálogo com
lr llirl r, filosofiaescolástica:l.B.Lotz,.Aletheiaundorthotes.VersucheinerDeutungim
hei Heidegger, op. cit., pp. 3lOss.
pp. 120-134' B' Rioux"'La 41. W. Anz, op. cit., p. 309.
|1,,, , Lichte der scholastik", in" sein und Exisíenz, op. cit.,
42. E. Stein, Seis estudos, op. cit., p. I l6: ".... o ser é prccisamente () nà(F
, notiondevéritéchezHeideggeretSaintThomasd,Aquin,',\n..SaintThomasd,Aquin
terrratizável que acompanha todas as tematizações"; p. 122 "... tratâ-se cle mostrar o
aujourd'hui, Paris, 1963, pp. 191-211 '
ll f r l[ . ..a
39. E. Stein, Seis eitidos, op' cit', p' 104: "E a introdução
de uma novâ teorra niio-tematizável já sempre tematizado em toda práxis: o scr-no-nrunckr do estar-aí.

I lii;;: que se distancia da tradição metàfísica que recusa o esquema sujeito-objeto para horizonte onde se revela qualquer modo de ser".

fr,f,r, 2t2 213


u
M. H e ide 111qe r : p r Lt q m ú I i ( t t ct. i s I t' trc i tt I
Reviravolta Pragmática
.
pr.ccnsão do ser, para o ser em seu scntickl; agora, a partir do ser para
()r'u, rt littguagem, enquanto articulação da compreensão originária
permite apontar para um o cis-aí-ser. Só que essa circularidadc csscncial do pensamento já
sc silttit tta cslêra do desvelamentoa3' Isso nos constitui o cerne da ontologia hermenêutica, o qr-rc Íaz com que a
que ocone na sentença'
tlizcr cluc é mais originário do que a objetividade rcviravolta confirme e reponha a unidade do pcnsaltrcnto he ideggeriano.
da obra' como
A verdade que se mostra movimenta-se na direção 'l'irl reviravolta, contudo, vai implicar o repensamento do todo, inclu-
nesse contexto' obra signi-
cliz Heidegg", ,ó, Holzwege (pp' 49ss') e' sive da linguagem. Ser e Tempo se situa na análise cla comprcensão do
llca a obra da Palavra. scr do eis-aí-ser, quer dizer, concentra-se no aí, enquanto lugar de
que é mais orig-inario do rrranifestação do ser. Agora, a consideração se volta para o que possi-
Isso nos permite apontar para um dizer
perspectiva' Heidegger hilita o aí, ou seja, para o próprio ser, enquanto instaura o aí no
que a objetiviáade o"o.ridu na sentença' Nessa
formalizaçáo secundária' homem, como aquela clareira onde o ser se manifesta. Como se deter-
pocle dizer que a sentença é somente uma
do falar temporal originário. Toda a meta- rnina agora, a partir da reviravolta, a relação hermenêutica entre ho-
irecisamente formalização
isso' se fez tncapaz de nrem e ser'/ Para Heidegger, a linguagem se revela precisamente como
física ocidental se orienta na sentença e' com
A dimensão da sentença i.r vinculação do homem com o evento do ser. O evento reúne os
detectar a verdadeira essência da linguagem'
que se situam as
é uma dimensão válida -, { nela, por exemplo,
hotnens enquanto ouvintes na linguagema6. O ser acontece na lingua-
I

não constitui a dimensão mais radical da linguagem gem e, agora, aparece com todo o sentido dizer que ela é a casu do
ciências mas pela reflexão se4 isto é, o lugar onde o sentido do ser se rrostra. É, portanto, na
I
que é atingível não por meio do método científico'
linguagem que o ser, enquanto evento de verdade, se clesvela precisa-
filosóficaaa.
mente no acontecer da diferença. O homem é, assim, utilizado em sua
ser e Tempo é, de
I No entanto, toda essa análise da linguagem em essência pata ttazer uma comunicação, para guardar uma mensagem4T.
por uma série de razões'
certo modo, provisória, pois, para Heidegger' Em síntese, o homem acontece como homem na medida em que se
a elaboração da
a intenção fundamentai do S" e Tempo' ou seja' deixa solicitar para guardar a diferença ontológica: o homem é en-
numa palavra' a hermenêutica do ser-no-
luestão do sentido do ser - Heidegger vai
quanto manifestação do ser, e isso acontece enquanto linguagem.
-mundo é o caminho para a ontologia hermenêutica'
-
reconhecer depois que a ànalítica da existência'
de algum modo' ainda Então, o ser acontece como fenômeno na linguagem e enquanto
um de A linguagem é um dizer, dizer no sentido original da pa-
p".*ur"." ligada à filosofia transcendental' cuja superação era que a linguagem.
seus objetivoi Íundu*.ntais' A reviravolta
vai' então' significar lavra, isto é, mostrar, deixar apaÍecer, ver, ouviraS. A linguagem deixa
vai ceder seu lugar ao aparecer o ser como, sentido; ela é, por isso, a casa do seÉe. Se o ser
interrogação transcendental, enquanto caminho'
possibilidade da própria emerge enquanto linguagem, a linguagem é o caminho necessário de
próprio" evento do ser, que é condição de
o homem para seu nosso encontro com o mundo, já que ó o sentidcl que funda e instaura
i.unr""nd"ntalidade. É o próprio ser que assume
verbal)' O homern acontece como ho-
acontecer (Wesen, no
'"niiAo originária ao usar que nele se revelaas' 46. A linguagem é entendida. agora. como o evento do amadurecimento da
mem enquanto coÍrespondência
"diferença" de mr.rndo e coisa. A linguagcrr dcixa o mundo ser enquanto "reunião" de
A reviravolta significa, portanto' uma inversão do movimento:
com-
céu e terra, moftal e divino. No mundo, as coisas são coisas. A essência (verbal) da
enquanto
em Ser e Tempo o pensamento se move do eis-aí-ser' linguagern é esta delerença "acontecente": M. Heidegger, Die Spruche, op. cit., p. 30:
"Die Sprache spricht, indem das GeheiB des Untcr-Schiedes Welt und Dinge in die
verdade c conservá-lo na Einfàlt ihrer Innigkeit ruÍi". Cf. também, p. 22.
43. É próprio da linguagcm revelar o ente em sua 47. M. t{eidegger, Airs einem Gesprtich von der Sprache, op. cit., p. 126.
palavra: M. Heidegger, "Oãt Wntt", ir"