Você está na página 1de 196

O Hakdamá comentado:

Prólogo ao Zohar com notas


O Hakdamá Comentado
Prólogo ao Zohar com notas
“São o Céu e suas hostes, obra do Santo, Bendito Seja, que o
homem deve contemplar e bendizer, como está escrito: “Quando
vejo os Céus, obra de Teus dedos...oh, Eterno, Senhor nosso, que
glorioso é Teu Nome em toda a Terra!”
(Hakdamá – Prólogo ao Zohar)
Introdução

Um estudante de Cabalá, quando nela se inicia, recomeça, na


verdade, um longo caminho já percorrido em parte e esquecido em sua
vida presente. Assim, persistência é necessária em sua exposição à Luz
Circundante, a fim de que possa avançar no caminho. Eventualmente,
dependendo de como exerce sua persistência, pode ou não obter êxito
na retomada. Quis o Santo, Bendito Seja, que eu reiniciasse o caminho;
pelos poucos méritos que reúno diante de Sua Face, peço que Ele
conceda a ti, leitor, a mesma graça.
A Luz que recebi é a mesma que entrego a ti. Em algum momento
no meu segundo ano de estudos, senti o desejo de ler sistematicamente
o Zohar. Comprometi-me a reservar um tempo para ler ao menos um
parágrafo diariamente e a refletir sobre ele, fazendo daquela leitura
minha exposição à Luz Circundante. Desde então, não houve um dia
em que eu não tenha recebido a compreensão das santas palavras
escritas no Livro do Esplendor. Este tesouro, não o recebi por mérito
intelectual, mas por manter a correta intenção para a leitura: o desejo
de retificar minha alma, esta fração do desejo de receber que tenho por
dever corrigir.
O Zohar narra e descreve abstrações, objetos, pessoas, lugares,
ações e sentimentos. Quem o lê com o propósito da correção vê em cada
um desses elementos narrativos e descritivos estados, atributos,
qualidades, sensações e discernimentos de sua jornada espiritual.
Diante de qualquer confusão que o texto suscite, o leitor deve inquirir
o que dentro de si está representado nas páginas do Livro. Para quem
abre o Livro do Esplendor sem a correta intenção, o que lê são apenas
fábulas, das quais sua razão procura extrair significados mais ou menos
profundos conforme sua mente alcance. No entanto, aqui se trata de
um outro alcance, do alcance espiritual, e é para estes que estão
retornando ao caminho da retificação que escrevo, dividindo com eles
as notas diárias que redigi sob a Luz Circundante que
misericordiosamente o Criador permitiu me envolver.
O que faz do Zohar um livro muito especial entre os outros livros
6
cabalistas é a de que ele foi escrito para ser lido por qualquer pessoa
que se pergunte sobre o que deve fazer com relação à correção de sua
alma para aderir ao Criador. Assim, quem quer que leia com a intenção
apropriada receberá a compreensão do que deve ser feito, não importa
o seu grau alcançado no caminho. É diferente do que ocorre na leitura
de outros livros, que requerem uma sintonia entre o grau alcançado e
o grau de seu autor quando de sua escritura: quanto maior a distância
entre eles, mais oculto se torna o sentido das palavras empregadas.
Mesmo quando o leitor compreende os livros cabalistas, pode
ficar em dúvida sobre a verdade dos discernimentos que recebe a partir
de sua leitura. Em outras palavras, como pode diferenciar os
discernimentos ensinados pela alma das realizações imaginárias? Neste
caso, serão discernimentos verdadeiros se gerarem ou inspirarem
correções em seu desejo de receber. Assim, essa deve ser a atitude do
leitor em relação às notas aqui redigidas. Talvez seu discernimento ante
a leitura do Zohar seja diferente do meu por conta das diferenças de
grau em que nos encontremos um do outro. Por isso, o que deve te
inspirar não são as minhas notas, mas o texto Zohárico; que as minhas
notas te ajudem a compreendê-lo mais facilmente, mas que a
inspiração venha por meio do Livro do Esplendor.
Do que li até agora nestes meses, exponho a ti: são notas ao
Hakdamá Sefer HaZohar, isto é, ao Prólogo ao Livro do Zohar, que a
despeito do nome, não se trata de uma introdução convencional como
a conhecemos nas obras deste mundo. O Hakdamá talvez seja uma das
mais importantes partes do Zohar por explicar a dinâmica do ingresso
à espiritualidade, aos Mundos Superiores, mapeando o caminho,
aconselhando sobre o que deve ser evitado e sugerindo um norte diante
de sensações que todos os cabalistas passam durante o Trabalho e que
poderiam vir a desorientá-los, não fosse a misericordiosa intervenção
das palavras do Hakdamá.
Li o Hakdamá em espanhol, correspondendo às porções 1a a 14b
do primeiro volume do Zohar publicado por Ediciones Obelisco, que
considero primoroso ante traduções espanholas anteriores, bem como
pelo cuidado e compromisso dos tradutores e comentadores da obra
com a tradição cabalista. Para esta tradução, vali-me desta mesma
fonte, assim como eventualmente me reportei à tradução em inglês
pela comunidade do Sefaria, um repositório online de textos judaicos e
7
suas interconexões, onde é possível encontrar dezenas de livros
cabalistas tradicionais, entre milhares de obras próprias à Tanakh,
Mishná, Talmud. A exposição segue este formato: em negrito,
inicialmente, as palavras do Zohar, traduzidas em português, abaixo,
em letras regulares, as notas tais como inspiradas pela leitura.
Suponho que a maioria dos leitores que venha a ler esta tradução
e suas notas ao Hakdamá seja estudante de Cabalá, e que, portanto,
tenha revivido em si a Sabedoria na atual geração, tendo um
conhecimento mínimo ou quiçá mais profundo da linguagem cabalista,
seus conceitos e sentidos. No entanto, essa suposição não me exime de
responsabilidade com aqueles que porventura estejam reacendendo
seu desejo de adesão ao Criador de modo imediatamente prévio a esta
leitura, e Hashem não a permita ser um empecilho à continuidade
desse desejo de santificar-se; assim, farei de minhas notas uma breve
orientação que não exclui, de forma alguma, que o leitor se aprofunde
em obras comprometidas com a Cabalá Autêntica, com os seus escritos
que buscam a correção do desejo de receber manifestado neste mundo.
Cabe, neste Preâmbulo, uma última dica: busque o leitor sempre
as fontes primárias da Cabalá Autêntica. Isso vale para a informação
em nosso mundo, mais ainda quando se trata de alcançar os Mundos
Superiores. Por Cabalá Autêntica, compreenda o leitor as obras de
cabalistas como Shimon bar Yochai (Rashbi), a quem atribuímos a
autoria do Zohar; Yitzhak Luria Ashkenazi (ARI), o Santo Leão, que
recebeu a permissão do Alto para a revelação da Sabedoria; Moshe
Chaim Luzzatto (Ramchal), que defendeu a disseminação pública da
Sabedoria, assim como o fariam cada vez mais proximamente à nossa
geração o Baal Shem Tov (fundador do Chassidismo, no século XVIII)
e Baal HaSulam, o maior mestre de grandes cabalistas autênticos no
século XX cujas linhagens remontam ao ARI. Que a Luz dessas almas te
ilumine, leitor!

8
Reacendendo o desejo de adesão ao Criador

O tempo e o espaço só têm sentido no âmbito da criação; são


aqueles os marcos referenciais da limitação e imperfeição das criaturas.
O Eterno, portanto, não está submisso a essa realidade limitada;
tampouco é paralelo a ela, ou não seria completo. Portanto, Ele é a
causa destes limites. Mas por que o Ser perfeito e único dá origem a
uma criação falha e sofrível? Esta, entre outras perguntas, sempre
foram questões estudadas pelos cabalistas; respondê-las exige reflexão
nos vários aspectos da relação que se estabelece entre o Criador e a
criação.
É consenso entre os cabalistas que o propósito da criação é
beneficiar as criaturas. A criação é um ato de doação, de dar vida a uma
forma distinta do Criador. Assim, para que haja um ser criado, é
necessário que haja um ser que recebe, e ao receber do Criador, o ser
criado deve ser oposto a Ele, a fim de que haja algo para receber: do
contrário, se pleno de Luz, não se distingue da própria Luz; é necessária
a escuridão, a ausência dos atributos do Criador, para que a criatura
possa existir como tal.
A existência da criatura é chamada, então, de existência a partir
da ausência. A origem do ser criado é o nada, a ausência, que ao ser
preenchida pelo Criador, também chamado de Luz, sente a bondade do
Criador e o desejo de ser como Ele. Mas onde está este nada, este vazio,
já que afirmamos que não há espaço? Qual a relação entre o nada e o
Criador, na criação? O Criador não pode proceder do que quer que seja,
ou haveria sempre um Criador anterior; também não pode proceder
do nada, ou a ausência não seria vazia: como poderia o nada dar alguma
coisa, sequer criar algo que possa receber o que também não tem para
doar? Por outro lado, se a criatura é situada na inexistência, no nada,
numa condição oposta ao Criador, isso retoma a pergunta: onde esse
nada se situa?
O Eterno, Infinito ou Ein-Sof é a manifestação da Essência deste
Ser que é a própria existência, compreendida como existência a partir
9
da existência. Ele não tem origem nem terá fim, Ele simplesmente foi,
é e será. A Cabalá nunca descreve a Essência desta existência, porque
ela é inalcançável; a Cabalá propõe que alcancemos a equivalência de
forma com aquela Manifestação, correspondente ao Todo. O Todo,
como Eternidade, se manifestou para a Essência criar. Sendo o Todo, o
Eterno, Infinito, não havia dimensão externa a Si. Assim, para criar,
para dar a existência a algo, em Si próprio se contraiu, criando um
vazio, uma ausência de Si. Este vazio passou a ser o centro do Infinito,
cercado de Luz por todos os lados, Luz pronta para preencher a lacuna
que deixara em contração. A contração não diminuiu o Infinito, a Luz
não desapareceu, apenas recuou em Si própria para dar origem a algo
ausente na sua existência.
A existência a partir da inexistência, ou criação, foi, assim,
gradualmente se diferenciando dentro do Infinito, como desejo de
receber em oposição ao desejo de doar, até tornar-se uma criatura
independente que deseje receber por si própria, mas que também
deseje ser como o Criador. Este processo de diferenciação encontra
neste mundo físico em que vivemos encarnados o seu ápice. Aqui, o
desejo de receber criado é fragmentado em parcelas que são dotadas de
corpos, dando-nos a ilusão de que somos sete bilhões de diferentes
pessoas, e não a criatura única criada como diferenciação da
manifestação da Essência da existência. Em última instância, somos
pequenas porções da Luz do Infinito que conheceram o que é habitar o
vazio e encontrar limites que nos distanciavam do Infinito e agora até
de nós mesmos, chegando ao nível extremo de egoísmo na recepção em
oposição à doação completamente altruísta do Criador ao qual
estávamos integrados.
Somos então, eu e tu, leitor, dois fragmentos de um mesmo
desejo de receber falho e sofrível, que percebe individualmente prazer
e sofrimento neste mundo, por meio de nossos sentidos egoístas. Não
viemos a este mundo para conhecermos o prazer por meio de nossa
recepção egoísta: esta nos coloca em permanente e maior oposição, e,
portanto, distanciamento do Criador. Tampouco viemos para sofrer,
seja gratuitamente ou por castigo: ocorre que, em nossos limites, não
alcançamos a satisfação infinita de nossos desejos, sejam eles desejos
de saúde, segurança, prosperidade, bem-estar ou quaisquer outros
desenvolvidos neste mundo; eles nunca são o suficiente e estão muitas
10
vezes em controvérsia uns com os outros, dentro e fora de nossas
individualidades fragmentadas. Conhecemos o prazer da recepção
egoísta de nossos sentidos apenas para reconhecermos o quão distantes
estamos de resistir-lhes em prol de uma reaproximação com o Criador;
conhecemos o sofrimento porque teimamos em querer satisfazer
nossos desejos neste mundo a qualquer preço, sem nos importarmos
com nossos próprios fragmentos, sem nos darmos conta de que este
sofrimento é a escuridão que temos de preencher com nossas parcelas
da Luz para que possamos reconstituir o Eterno desde baixo, sem o que
não reconhecemos, por conseguinte, a perfeição do Todo.
Neste mundo, a criação foi vestida de corpos inanimados,
vegetativos, animais e humanos. Da mesma forma, em cada um desses
níveis são compreendidos os níveis anteriores. Eu e tu leitor,
fragmentos do desejo de receber sob forma humana em diferentes
graus de alcance espiritual, encarnamos consecutivamente recebendo
frações cada vez maiores do desejo de receber. Primeiramente, os
desejos ligados ao corpo (alimentação, procriação, família, sexo, abrigo,
satisfação fisiológica), inanimados; depois, os de prosperidade material
(posses, propriedades e bens de valor financeiro), vegetativos; a seguir,
os próprios ao poder e à honra (títulos, status social), animados; e os
de conhecimento (saberes), humanos.
A ironia na satisfação dos desejos deste mundo é que eles são
próprios de uma existência criada a partir da inexistência.
Paralelamente, desenvolvemos ou não os desejos de existência a partir
da existência, de retorno de nossas individualidades à Luz de Ein-Sof.
Esta parte é a que corresponde à finalização do desejo da criatura em
ser como o Criador. Este retorno ocorre, na linguagem cabalista, pela
formação e preenchimento de Sefirot, Partzufim e Olamot, que
traduziremos como Vasos, Faces e Mundos. São níveis diversos de
correções que executamos em nosso desejo de receber para nos
tornarmos cada vez mais semelhantes ao Criador, até estarmos em
adesão a Ele.
Quando a criatura se tornou independente do Criador, o
processo de diferenciação separou e distanciou os propósitos de Um e
outra, mas Ele não a abandonou: por um lado, Ele é transcendente à
criação, está além do tempo e do espaço que ocupamos no vazio que
Ele deixou ao retrair-se; por outro lado, Ele é também imanente, na
11
medida em que somos, cada pessoa, uma centelha de Sua Luz original
que permanece a mesma, alheia às mudanças, como está escrito:
“Porque eu sou o Senhor, não mudei” (Malaquias, 3:6). Assim, toda a
jornada na qual temos que nos empenhar está em nosso interior:
dentro de nós, como estamos dentro do Eterno.
A noção de interioridade e exterioridade, cabe lembrar, é sempre
uma questão de perspectiva. Conta-se que o Kotzker Rebbe certa vez
perguntou aos seus discípulos onde morava Deus, e ante várias e
diversas contestações, respondeu ele mesmo: “Deus mora onde O
deixam entrar”. Na perspectiva da transcendência, habitamos no seio
do Criador, incondicionalmente; mas na perspectiva da imanência, Ele
depende de nossa vontade para estar em nós. De ambas as
perspectivas, temos o compromisso de sermos dignos e honrarmos a
Ele, na medida em que nos esforçamos em nos elevar até o Eterno, e a
Seu Nome, na medida em que fazemos de nós aposentos dignos de Sua
Divina Presença neste mundo.
Nós, seres humanos, numa totalidade corrigida, somos a Divina
Presença e Seu Nome. Mas ao escolhermos a satisfação de nossos egos
em oposição à Luz, lançamos a Divina Presença na poeira e utilizamos
as Letras sagradas de Seu Nome para escrever palavras de baixeza e
desafio à Santidade. Infligimos dor à Shekhinah, que prescindiu de
nossa presença unificada apenas para que pudéssemos satisfazer o
único desejo que o Criador não poderia nos entregar contra a nossa
vontade: o desejo de ser como Ele.

Compreendendo a estrutura da correção

O retorno ao Criador é como a ascensão pelos degraus de uma


escada rumo ao Céu. Cada degrau é uma Sefirá (singular de Sefirot), a
cada cinco Sefirot completamos um Partzuf (singular de Partzufim).
Cinco Partzufim compõem um Olam (singular de Olamot). Há cinco
Olamot; portanto, são 125 os degraus desta Escada maravilhosa,
conforme nos dizem os cabalistas.
Mas o que são as Sefirot, Partzufim e Olamot? Não pretendo
explicá-los na linguagem oculta, aqui, enquanto grandes cabalistas já o
fizeram de uma forma que eu, em meu grau, não sou capaz de fazê-lo.
12
Ratifico meu pedido de que leias as fontes primárias com a correta
intenção, atraindo a Luz Circundante para a compreensão necessária à
satisfação do seu desejo de retificação. A fim de auxiliá-lo na leitura do
Hakdamá, proponho aqui, de uma forma limitada, uma compreensão
objetiva desta estrutura da Escada espiritual.
Cada Sefirá é uma etapa de formação e preenchimento de um
nível de desejo. São chamadas Keter (Vontade), Chochma
(Consciência), Biná (Entendimento), Zeir Anpin (Intenção) e Malchut
(Realização). Zeir Anpin é um conjunto de seis Sefirot, reunindo seis
qualidades internas que devemos preencher para que a intenção
correta se torne realização espiritual em Malchut: Hessed
(Misericórdia), Geburah (Justiça), Tiferet (Verdade), Netzach (Vitória),
Hod (Glória), Yesod (Fundamento). A ordem de elevação destas Sefirot
é de Malchut a Keter. Entretanto, a primeira Sefirá que recebemos é
Keter, seguida das demais na sequência descendente.
Não há elevação possível se a criatura não alcança, inicialmente
a Vontade. O que é a Vontade? É o desejo de ser Um com o Criador e
de poder doar como Ele o faz. Este desejo singular está dentro de nós,
oculto como um mínimo ponto no coração, no nosso desejo de receber.
Quando o indivíduo já desenvolveu os seus desejos inanimados,
vegetativos, animados e humanos em um nível suficiente para sentir
este ponto, este vazio dentro de si, ele encontrará, em algum momento,
o chamado do Criador que o fará compreender esta Vontade superior.
Este chamado é denominado Despertar do Alto. Então, ele continuará
a ter e satisfazer seus níveis mundanos de desejos, mas estes serão de
uma importância inferior à Vontade que ele reconhecerá sempre acima,
como o seu maior desejo. Quando um indivíduo sente assim, ele deve
procurar manter esta Vontade sempre acima dos demais desejos
mundanos e, assim, dizemos que ele está a manter a fé acima da razão.
Por fé acima da razão, não se afirma uma crença cega no
incompreensível, ao contrário: se torna uma fé que aumenta na mesma
medida com que o indivíduo vai compreendendo mais da estrutura
espiritual, mais desta racionalidade que não pertence à razão humana:
a razão que deve permanecer abaixo da fé é aquela própria deste
mundo, que enxerga como seu objetivo o exclusivo bem-estar e a
satisfação de suas necessidades egoístas. Em termos deste mundo,
como poderia ser racional querer ser como o Criador que não é
13
percebido pela razão? Assim, trata-se de um desejo de fé, de que se
pode exercer a natureza doadora do Criador mesmo tendo sido criado
em uma razão que lhe é oposta.
Chamamos Keter a esta Sefirá ou Vaso que o indivíduo constituiu
como o ponto zero do seu Trabalho. Dizemos que quando essa Sefirá
da Vontade foi alcançada, encontra-se preenchida pela Luz. Além de
Keter, ele tem a si mesmo e aos seus desejos abaixo daquela Vontade
superior. Chamamos esses desejos egoístas, próprios da razão, de este
mundo, desejo de receber ou, usando a linguagem cabalista, Malchut.
Malchut ainda não realizada, não corrigida. Agora, o indivíduo percebe
duas Sefirot em sua vida, Keter e Malchut. Mas Keter está elevada e
Malchut aqui no chão. Se este indivíduo mantém Keter acima, ao
estudar a Cabalá ele descobrirá como constituir e preencher as Sefirot
que ligam Keter à Malchut. Este é o processo de retificação, o Despertar
de Baixo que constitui as Sefirot faltantes para que o Despertar do Alto
despeje a sua Luz, e esses despertares são realizados etapa por etapa,
até a Luz chegar à Malchut, unificando-a com Keter. Diz-se, então, que
uma Face foi unificada, equivalente à correção de um nível de desejo
correspondente àquela Face completada.
Quando o cabalista tem, assim, elevado a sua Vontade, a sua fé,
acima dos desejos deste mundo, acima da razão, ele percebe que traz
consigo diversos atributos maus. Ele percebe o egoísmo dentro de si,
nos seus desejos de diferentes níveis; passa a sentir-se em completa
oposição ao Criador e se descobre incapaz de qualquer desejo autêntico
de doar. Mesmo quando atinge o último nível de seu desejo humano
prévio à Vontade de adesão ao Criador, seu intuito de fazer bem ao
próximo é motivado pela necessidade de sentir-se bem com aquele
gesto “humano”. É só quando percebe que qualquer coisa que tente
doar não é uma doação, senão um ato para contentar seu próprio ego
como filantropo, e, ainda mais, que a totalidade de seus desejos são
maus, é que o cabalista está apto a trilhar o caminho dos justos. Pois
mesmo quando emerge sua Vontade de adesão ao Criador, ela ainda é
um dom recebido pelo Criador que o cabalista utiliza com o propósito
de receber. E aqui cabe um aviso importante: muitos estudantes
fracassam aqui, antes de iniciar o Trabalho, porque pensam que o
propósito de receber tem como recompensa a satisfação dos desejos
deste mundo. Na verdade, a Cabalá não se relaciona com quaisquer
14
objetivos deste mundo, mas unicamente à retificação da natureza
receptiva. O Despertar do Alto é recebido com um único propósito:
receber a Consciência do mal que se traz consigo em oposição à
bondade do Criador.
O caminho dos justos, o caminho da Consciência, é o de
Chochma, a próxima Sefirá a ser preenchida. Ela é emanada por Keter,
na medida em que o cabalista mantém Keter acima de sua Malchut.
Quando Chochma é constituída, torna-se apta a ser preenchida pela
Luz, e isto é percebido pelo cabalista como a revelação do mal que ele
traz consigo. O Trabalho do cabalista nesta etapa consiste em fazer
daquela revelação do mal um ato de doação com o propósito de receber;
ele não tem nada para dar, então passa a recusar que a Luz preencha
aqueles desejos maus que servem apenas para o seu contentamento
egoísta. Essa recusa se torna uma doação na medida em que seu prazer
com aqueles maus desejos revelados é descartado, a fim de dar
contentamento ao Criador. Mas esta doação tem um propósito de
receber, e o que há para ser recebido aqui é o Entendimento de como
pode corrigir aqueles maus desejos; isso é assim porque o Criador só
tem um propósito: conceder toda a sua bondade à criatura. Não há
bondade e, portanto, não há satisfação ao desejo de doar do Criador se
o indivíduo apenas fizer a restrição de seu desejo sem a recepção: por
isso, a doação do cabalista aqui corresponde ao desejo de querer
corrigir sua maldade, e esta doação receberá o Entendimento de como
exercer a correção. Trata-se de uma etapa crítica no Trabalho, pois este
querer corrigir a maldade, também chamado de oração, deve ser uma
aspiração verdadeira e profunda no cabalista; ele não apenas reconhece
sua oposição ao Criador, mas essa condição perturba-o de tal maneira
que não há mais nada maior e mais significativo do que resolvê-la. Se
o indivíduo apenas se reconhecer como oposto ao Criador, mas isso não
o incomodar, sua doação está incompleta e ele não poderá progredir.
Uma doação deve ser completa no sentido de reconhecer a
oposição ao Criador da parcela de maldade que foi revelada em seu
interior e da oração que faz sobre o reconhecimento do mal. E por
oração não se compreende aqui uma reza, mas sim um propósito firme
de receber o Entendimento para corrigir sua maldade, que pode ser
expresso por uma firme convicção acompanhada de uma ou de muitas
rezas, durante um dia ou durante um século; tudo depende da
15
intensidade do desejo.
Até aqui, tudo o que há é Malchut tentando alcançar Keter, isso
é, cumprir o seu propósito. Para que alcance, precisa estabelecer mais
um degrau nas alturas, o degrau da Consciência. Ora, Malchut a
Décima Esfera, é chamada por Rav Gikatilla, na sua monumental obra
Sha´Are Orah, O Primeiro Portão, e ali adverte o mestre, citando o
Eclesiastes 4:17, “Não se apresse para ir à casa de Deus”. Explica o Rav:
“Este versículo adverte a pessoa a se inspecionar e a ter cuidado quando
deseja orar diante de Deus. Deve-se ver se há ‘detratores’ que impedem
que a oração seja recebida.” Que não haja, pois, nenhum desejo maior
do que este de querer o Entendimento à correção, sem o que o
reconhecimento do mal permanece apenas como uma Consciência
constituída, mas não preenchida pela Luz.
Assim, eis que a doação da Consciência tem por propósito uma
recepção, mas uma recepção diferente daquela própria a este mundo;
é o receber para doar, e o que o cabalista recebe é o Entendimento para
dar aos seus desejos a correção necessária. Este Entendimento, ou o
preenchimento da Sefirá Biná, dá ao cabalista a capacidade de
compreender como os seus desejos podem ser corrigidos, de forma que
aquela oposição antes existente torne-se objeto de conciliação: para que
a oposição se torne objeto de alcance na forma de atributos desejáveis
à direita e objeto de juízo, de julgamento das qualidades egoístas à
esquerda como prejudiciais e carentes da correta Intenção. Quando o
cabalista entende que não pode fugir de sua natureza receptiva, mas
que pode mudar a intenção de sua recepção, abandonando a roupagem
da satisfação do ego pela vestimenta da Misericórdia com que deve
vestir a Luz, ele saberá como exercer a correta Intenção e tudo o que
precisará é escolhê-la, tal como está escrito: “Hoje invoco os céus e a
terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês
a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para
que vocês e os seus filhos vivam” (Deuteronômio 30:19).
O exercício da correta Intenção é o preenchimento da Luz em
Zeir Anpin, uma doação com o propósito de doar. É o estado resultante
das etapas superiores da Emanação e da Criação. Neste estado, o
cabalista identificará os atributos à direita não mais como
características inalcançáveis próprias à expressão do Criador apartado
de si, mas como o horizonte de bondade que se aproxima dos atributos
16
da esquerda, para orientá-los e corrigi-los. Assim como a Direita, agora,
se torna alcançável à natureza receptiva, também a sua esquerda não é
mais o mal absoluto em oposição irreconciliável, mas a matéria de toda
a sua correção para elevar o desejo de receber a uma forma de doar
com o propósito de doar.
Eis que quando o cabalista consegue então doar de forma
autêntica, à revelia do seu ego, e não mais sente seu egoísmo no grau
de desejos sobre o qual pode agora exercer a correta Intenção, ele revela
o desejo autêntico do Criador, e por ser apto a exercê-lo naquele grau
corrigido, ele se torna semelhante ao Criador em um determinado
grau.
Preenchidas as cinco primeiras Sefirot, completa-se o primeiro
Partzuf, Nucva. Outras cinco Sefirot, para ser preenchido Zachar. E
assim sucessivamente, cincos vezes cinco Sefirot, totalizando cinco
Partzufim (Nucva, Zachar, Ima, Aba, Arich Anpin, em ordem
ascendente) do primeiro mundo de correção. Cada Partzuf corresponde
a um nível de desejo: Nucva, ao inanimado; Zachar, ao vegetativo; Ima,
ao animado; Aba, ao falante; Arich Anpin, ao divino. O que se
compreende por cada um desses níveis dependerá do mundo ao qual
pertencem.
Há cinco Olamot (mundos), com seus cinco Partzufim de cinco
Sefirot cada, do mais baixo ao mais elevado: Assiá (Mundo da Ação),
Yetzirá (Mundo da Formação), Beriá (Mundo da Criação), Atzilut
(Mundo da Emanação), Adam Kadmon (Mundo da Unificação). Cada
mundo corresponde a um estado de percepção da criatura em relação
ao Criador, em outras palavras, um nível de realidade. Não pense
nestes níveis de realidade como lugares, pois não estão em parte
alguma, mas sim como estados do teu interior. Tenha isso em mente e
não cairás em confusão. Estes Mundos estão relacionados ao propósito
do teu desejo: o que age na realidade? O desejo de receber para si
(Mundo da Ação). O que forma a realidade? O que posso dar a ela com
a finalidade de receber (Mundo da Formação). O que cria a realidade?
O que recebo para dar a ela (Mundo da Criação). O que emana a
realidade? O desejo de doar de si (Mundo da Emanação). O que revela
a realidade? A unidade de toda a criação com o seu Criador (Mundo da
Unificação).
Há várias formas de imaginar a estrutura da criação. Proponho
17
ao leitor a seguinte: 125 círculos concêntricos, com a Luz Infinita ao
redor. Quanto mais os círculos se internalizam no seu centro, menor e
mais escuro se tornam. Aquele que está em Malchut de Nucva de Assia
está no menor dos mundos, mas, ao mesmo tempo, no centro deles:
daí porque os cabalistas nos dizem que todos os mundos foram criados
para o homem, e por causa dele, a fim de que possa sair de um estado
de baixeza por seus próprios méritos e por livre escolha. Quando
daquela razão central consegue elevar sua fé sobre seu próprio estado,
situando-a na vontade de adesão ao Criador, Keter, Keter recebe a Luz
Superior, eis sua primeira Sefirá iluminando sua escuridão abaixo.
Sendo bem-sucedido, em breve a Luz poderá formar a Sefirá imediata,
Chochma, e mais Luz é trazida do Mundo Superior a Keter, e a primeira
Luz dali descende para Chochma. E assim o é com Biná e Zeir Anpin,
quando pode, enfim, preencher Malchut, completando um Partzuf e
deleitar-se com a Luz corretamente recebida que torna o cabalista apto
a continuar o seu Trabalho de correção pelo Partzuf seguinte, assim o
fazendo de mundo em mundo.
Embora os graus superiores e mais próximos à Luz Infinita
sejam mais transparentes, receber neles a Luz exige correções cada vez
maiores de desejos, o que torna o Trabalho mais difícil. A primeira Luz
recebida em Keter é sentida mais fraca, como se as Sefirot fossem filtros
de iluminação que vão contendo maior potência na medida em que vão
se tornando mais tangíveis os propósitos de correção. A ordem das
Luzes da menor para a maior, ingressa em ordem invertida no Partzuf:
primeiro em Keter, depois descendo até chegar a Malchut, como se a
mais potente fosse empurrando a menor, conforme as Luzes vão
ingressando: Nefesh (satisfação pela recepção para si), Ruach
(satisfação da recepção pela doação), Neshama (satisfação da doação
pela recepção), Chaia (satisfação da doação pela doação), Yechida
(satisfação da revelação).

Subindo os degraus da Escada

Na ausência da espiritualidade, nos encontramos em Malchut de


Nukva de Assia vazia. Neste estado, as 125 Sefirot são como lâmpadas
ausentes, salvo por esta Malchut que, no entanto, está sempre apagada
18
de Luz espiritual. Nesta lâmpada, há um filamento que eventualmente
brilha: é o nosso interior, no qual há um ponto no coração, algo mínimo
no nosso desejo, mas que por ser tão estranho à escuridão à volta,
chama a atenção mesmo brilhando tão timidamente. Este brilho
corresponde às nossas inquietações mais duras, que nos acometem
justamente no fundo de escuridão em que nos encontramos: quem
somos? Com que propósito existimos? O que devemos fazer com
nossas vidas? Por que sofremos? Estas são perguntas que motivaram
os cabalistas há séculos, e quando elas vêm acompanhadas de uma
sensação de que respondê-las se torna mais urgente do que a satisfação
de qualquer outro desejo deste mundo, é um pronto sinal de que o
ponto no coração foi despertado, de que esta Sefirá mais baixa da
estrutura da criação quer receber a Luz. Neste querer, normalmente já
temos despertado os níveis de nossos desejos deste mundo – físicos,
prosperidade material, poder e honra, conhecimento – e eles nada nos
trazem de contentamento ou de esquecimento daquelas perguntas
cruciais sobre a existência.
Na ânsia de preencher o vazio de nossa existência – perceba o
leitor que, inconscientemente, neste estado, já sentimos que somos
existência a partir da inexistência – é comum buscarmos respostas nos
mais variados sistemas religiosos e esotéricos com que nos deparamos.
Podem se passar anos até sermos trazidos pelo Criador ante a Cabalá
autêntica. Daí começa o nosso Tempo de Preparação, em que a busca
das respostas sobre nossa existência nos trazem novas perguntas, mas
também uma compreensão da Sabedoria do nosso retorno ao Criador,
como se O construíssemos em nossas vidas e nos tornássemos
partícipes da única existência, ainda neste mundo; na verdade, estamos
construindo a nós mesmos, a uma grande estrutura de 125 lâmpadas,
para a qual erguemos a mão o mais alto ao nosso alcance e acendemos
Keter, a partir da Luz Circundante que nos inspira a adesão ao Criador.
Toda a vez que abrimos o Zohar, permitimos que não apenas sua
mensagem seja lida, mas que todo o sentimento e desejo de fazer o
bem, pelos quais o Zohar foi escrito, possam se manifestar sobre nossa
alma: é a Luz Circundante, a Luz que não pode nos preencher ainda,
pela nossa falta de vasos apropriados para sua recepção, mas que nos
envolve num novo desejo de alcance espiritual e logo se faz sentir.
Gradativamente, pequenas falhas em nosso caráter, defeitos em nossa
19
natureza, na nossa forma de querer, pensar, sentir e agir, vão
desaparecendo e dando lugar a uma vontade de santificação. Essa
vontade não é forçada, não é artificial; ela surge em nosso âmago e
despertamos de súbito, com uma nova disposição em nosso desejo: o
querer para si ainda está presente, mas foi redirecionado para um
outro objetivo, não saciado nos prazeres deste mundo. É Keter (a
vontade) de Nukva (de corrigir o nível inanimado dos desejos) de Assiá
(do mundo da ação): quando este grau é preenchido pela Luz de Nefesh,
a Luz da recepção, esta vontade é firmemente estabelecida sobre os
demais desejos próprios à Malchut ainda vazia. O primeiro degrau foi
pisado! A partir do primeiro degrau, devem ser corrigidos Mundo após
Mundo.
O primeiro Mundo a ser corrigido, Assiá, é o Mundo da Ação. É
o Mundo dos desejos concretos que temos, também chamado “Este
Mundo”. Cada Partzuf (Face) deste Mundo corresponde a um nível de
desejo dele. Nukva (desejos inanimados ligados às necessidades físicas:
sexo, alimentação, abrigo, etc.), Zachar (desejos vegetativos próprios
ao crescimento material: bens, propriedades), Ima (desejos animados
próprios à expressão de poder: prestígio social, títulos e cargos), Aba
(desejos falantes peculiares à palavra, ao conhecimento), Arich Anpin
(desejo de ser humano, de fazer o bem ao próximo para contentar sua
própia necessidade de sentir-se bem com aquele gesto “humano”).
Cada uma dessas Faces necessita ter suas Sefirot constituídas e
preenchidas pela Luz: Keter (a Vontade de adesão ao Criador),
Chochma (a Consciência de como aquela Face deveria ser na forma de
doação e como ela é de fato imperfeita), Biná (o Entendimento do que
deve fazer para corrigir a imperfeição, de forma a aproximar o seu
desejo imperfeito daquela forma de doação que deveria ser), Zeir Anpin
(o exercício da correta Intenção compreendida em Biná) e Malchut (a
natureza receptiva em sua forma retificada).
Uma vez corrigido o Mundo da Ação, nós temos corrigido todo o
propósito de recepção para si que é inerente à Assiá. Os próximos
degraus da espiritualidade percorrerão os Mundos da Formação, da
Criação, da Emanação e da Unificação – Yetzirá, Beriá, Atzilut e Adam
Kadmon. Sobre estes mundos, não tenho, ainda, em meu grau de
alcance, a necessária compreensão. Percorro, hoje, os caminhos de
Assiá, e a mínima retificação de que eu me mostrar digno de alcançar
20
já me fará um pouco mais semelhante ao Criador. Meu desejo sincero
é de que com o Hakdamá e estas notas, possa você também, leitor,
trilhar a senda da correção em sua vida.

O Hakdamá e notas

Rabi Chiya abriu: Está escrito “Como a rosa entre os espinhos”. Quem
é a rosa? É a Congregação de Israel, já que existe uma rosa e existe
uma rosa.
A rosa ou a Congregação de Israel é o estado corrigido em que as almas
estão aderidas na regra ama ao próximo como a ti mesmo. Esse estado
está presente entre os muitos desejos ainda não corrigidos - os espinhos.
E é por existirem rosas e espinhos que se distinguem os estados de
perfeição e de imperfeição, e em vários graus, já que há uma rosa e uma
rosa, sempre em adição: na espiritualidade não há transformação, mas
estados em adição, numa cadeia de causas e consequências que não
anulam estados, mas os colocam em concatenação das raízes até os ramos.

Assim como a rosa entre os espinhos possui o vermelho e o branco,


também a Congregação de Israel possui juízo e misericórdia.
O estado corrigido compreende o equilíbrio entre juízo e misericórdia,
entre a restrição e a ausência de limites; uma Consciência de temor e amor
21
ao Criador. Chegar a este estado requer a direita e a esquerda, a fé e a
razão: esta para que se reconheça o mal a ser corrigido, sobre o qual se
elevará a fé, a intenção de outorgar, de fazer o bem.

Assim como a rosa possui treze pétalas, também a Congregação de


Israel possui Treze medidas de misericórdia que a rodeiam por todos
os lados.
O estado corrigido da alma, que possui temor e amor, está imerso em pura
doação: porque é o centro dos Treze Atributos de Misericórdia, é a própria
revelação do amor. Este estado perfeito está cercado pela Misericórdia, o
que significa que todas as camadas mais externas da alma foram
corrigidas. Os Treze Atributos de Misericórdia, ou treze palavras,
consistem dos estados sentidos pelo cabalista depois que reconhece seu
desejo de receber como distinto da Vontade de adesão ao Criador, faz o
reconhecimento do mal que há em si e recebe o Entendimento do que deve
corrigir para exercer a correta Intenção.

Assim também Elohim, uma vez que é enunciado, daqui faz surgir
treze palavras para rodear a Congregação de Israel e protegê-la.
O estado corrigido e sua permanência são protegidos pela Luz da
Misericórdia na qual se reveste a Luz Direta, vestimenta que impede o uso
egoísta dos desejos. Isso ocorre depois que Elohim é enunciado, ou seja,
depois que o desejo pela adesão ao Criador é elevado acima dos nossos
desejos egoístas e que reconhecemos o mal em nós; a esses estados, segue-
se a enunciação de Elohim, o Entendimento de como retificar os desejos
carentes de correção que percebemos dentro de nós, os Entendimentos
que recebemos acerca de nossos desejos para doar, para exercer a correta
Intenção, nosso exercício das treze palavras ou as treze pétalas que
despontam na rosa que cultivamos. Elohim é o primeiro título para Deus
nos textos da Torah, ou seja, é a primeira compreensão de Deus no interior
do desejo de receber. A partir desse momento, nos tornamos a proteção
das almas dedicadas à correção, ascendendo ao compromisso de executar
22
a correta Intenção de nossos desejos.

E logo é enunciado outra vez. Por que é enunciado novamente? Para


fazer surgir cinco folhas fortes que rodeiam a rosa. E estas cinco se
denominam “salvações” e são cinco pórticos. E sobre este mistério
está escrito: “o cálice das salvações elevarei”, o qual se refere ao cálice
da bendição. O cálice da bendição deve repousar sobre cinco dedos e
não mais, tal como a rosa se assenta sobre suas cinco folhas fortes
semelhantes a cinco dedos. E esta rosa é o cálice da bendição.
As cinco folhas da rosa são os cinco Mundos do estado corrigido, cada um
deles, portanto, deve ser retificado, salvo: Assiá, Yetzirá, Beriá, Atzlut e
Adam Kadmon. Cada um deles reporta a um estado distinto de
espiritualidade que ordena a ação, formação, criação, emanação e
unificação da realidade, que cada um de nós deve corrigir em si mesmo.
Cada mundo corrigido equivale ao "cálice da salvação elevado", até que o
cálice da bendição, a rosa, o estado corrigido, esteja completo. Cada
Mundo se divide em cinco Faces, ou Partzufim (Nucva, Zachar, Ima, Aba,
Arich Anpin) e cada Partzufim em dez Sefirot (Malchut, Zeir Anpin –
correspondente a seis Sefirot internas: Yesod, Hod, Netzach, Tiferet,
Gevurá, Chesed –, Biná, Chochma e Keter). Biná, o atributo de Elohim,
deve ser enunciado a cada Partzuf corrigido, permitindo o Entendimento
do respectivo grau de correção a cada momento.

Entre o segundo Elohim e o terceiro, há cinco palavras. Daqui em


diante, a luz que foi criada e guardada foi incluída no Pacto que
penetra na rosa e a insemina. E é denominada “Árvore que dá fruto,
cuja semente está nele”. E esta semente existe no Sinal do Pacto
concretamente.
As cinco palavras no texto hebraico de Gênesis, entre a segunda e a
terceira menção a Elohim são: “paira”, “sobre”, “a superfície”, “das águas”,
“e disse” (disse “Haja Luz”, criando-A). As águas constituem a Luz da
Misericórdia com a qual é revestida a Luz do Criador. Há Luz quando há
23
Ohr Pnimi, quando o Vaso pode receber para o bem do Criador as cinco
palavras, cinco partes da Luz que criam as Sefirot iniciais e as preenchem,
sendo guardadas nelas cada porção de luzes NaRaNChay que formará o
Partzuf inicial. E todo aquele que assim principia na espiritualidade se
inclui no Pacto pelo alcance do estado corrigido e o insemina, quer dizer,
coloca sua porção da alma comum no estado geral de correção, como que
dispondo ali sua semente para participar daquela mesma árvore que dá
fruto.

E como a forma do Pacto é fecundada com as quarenta e duas cópulas


por essa semente, assim foi fecundado o Nome gravado e explícito
pelas quarenta e duas letras da obra da Criação.
A fecundação do Pacto pela semente é similar à do Nome pelas letras no
ato da Criação; é uma via de mão dupla: corrijo em mim os aspectos
particulares da humanidade e contribuo com a minha semente de alma
para o florescimento da Rosa, retornando pelo mesmo caminho pelo qual
parti de um estado de unidade para a dispersão, na inscrição do Nome, o
Tetragrama, ou as Quatro Fases da Luz Direta que culminaram com a
criação independente e sua fragmentação.

“No princípio”. Rabi Shimón abriu: “Os brotos aparecem sobre a


Terra”.
No princípio refere-se a Keter, a Vontade de adesão ao Criador. Quando
emerge esta Vontade, ela deve ser trabalhada até que apareçam os brotos,
os primeiros esforços de correta Intenção sobre o desejo de receber
inanimado, a recepção para si.

“Os brotos” se refere à obra da Criação.


É dito que estes brotos são a obra da Criação, ou seja, a correta Intenção
trabalhada em cada Sefirá de Zeir Anpin (os seis dias da obra da Criação)
até o surgimento do desejo de doar como manifestação independente
24
surgida na e pela criatura.

“Aparecem sobre a Terra”. Quando? No terceiro dia, tal como está


escrito: “A Terra fez surgir”, e, então, “aparecem sobre a Terra”.
Os brotos “aparecem sobre a Terra”, ou seja, crescem sobre a qualidade
de recepção, utilizam esta recepção para crescerem sobre ela; fazem-no
no terceiro dia, o estado de Zeir Anpin, no qual a Terra surge, a qualidade
de recepção surge como meio para que os brotos apareçam sobre a Terra,
para que a correta Intenção dos desejos sobressaia-se à sua satisfação sem
critérios.

“O tempo do canto tem chegado” se refere ao quarto dia, que foi o


canto dos tiranos, carente de Luz.
O quarto dia, o canto dos tiranos, é Malchut, quando a criatura quer
receber toda a Luz sem limites, ao passo que deseja ser como o Criador
que doa sem limites. O conflito entre os desejos é sentido pelo cabalista.

“A voz da pomba” se refere ao quinto dia, tal como está escrito: “que
proliferem as águas para produzir criaturas”.
O quinto dia vem em seu socorro: seres vivos surgem na água, e aves sobre
a terra, ou seja, desejos de doação na Luz da Misericórdia enquanto uma
tela regula a entrada da Luz sobre o desejo de receber.

“Ouve-se” se refere ao sexto dia, tal como está escrito: “façamos um


homem”, o qual num futuro agiria de modo que o “fazer” precedesse
o “escutar”, tal como está escrito (1b) aqui, “façamos um homem”, e
está escrito ali “faremos e ouviremos”.
No sexto dia, já é possível haver o Homem, ou seja, completar aquele grau
de espiritualidade, que surge antes mesmo que seja compreendido:
"faremos e ouviremos", responderão os israelitas às vésperas da Aliança.
A Vontade de correção e adesão ao Criador precede a Consciência, o
Entendimento e o exercício da correta Intenção, com as Sefirot
25
correspondentes nessa ordem: Keter, Chochma, Biná, Zeir Anpin.
Concluído este fazer, será possível à Malchut ouvir.

“Em nossa Terra” se refere ao dia de Shabat, o qual é o paradigma da


Terra da Vida.
E todo esse desenvolvimento do desejo de receber tem por culminância o
Shabat, a correção final, estado em que o Homem tem solucionado o
dilema do quarto dia, não mais tendo restrições para receber, porque
estará num nível em que "Ele e Seu Nome são Um", um estado
denominado de Terra da Vida ou Mundo Vindouro.

Outra interpretação: “os brotos” se refere aos Patriarcas ao ascender


ao Pensamento e ao ascender ao Mundo Vindouro e serem guardados
ali. E dali saíram em segredo e se ocultaram dentro dos profetas
verdadeiros. José nasceu e eles se ocultaram nele. Quando José
entrou na Terra Santa, estabeleceu-os ali, e então “aparecem sobre a
Terra” e ali revelam. E em que momento são vistos? Quando se
descobre o arco-íris ante o mundo, pois no momento em que se
descobre o arco-íris, então eles se revelam e nesse momento “o tempo
do canto tem chegado”, no tempo de podar os malvados do mundo. E
por que são malvados? Porque os “brotos aparecem sobre a terra”.
Pois, se não houvessem aparecido, não teriam vindo ao mundo e o
mundo não existiria.
Os brotos decorrem da Vontade de desenvolver um recebimento
espiritual, distinto de todos os recebimentos inanimados anteriores,
porque materiais. Essa Vontade é uma referência a todos os estados
representados pelos Patriarcas que passarão ao Pensamento que salva o
homem do mundo material inanimado. É dito que sairão do secreto e se
ocultarão nos verdadeiros profetas, quer dizer, essa Vontade é cultivada
como os brotos, quando nos expomos à Luz, mas é a Luz que corrige
nossos defeitos, nós apenas expomos a terra infértil, nossos desejos
inferiores e ela vai elevando um desejo diferente sobre a terra, a partir
26
desse próprio desejo de receber que agora se torna digno de dar à Luz um
novo recebimento, num estado profético, daquele que fala pelo Criador e
que inicia como José, o estado do Justo, daquele que justifica o Criador,
pois só aquele que nos estágios iniciais justifica o Criador poderá nos graus
superiores falar pelo Criador, ou seja, doar. Se você não tem fé na bondade
do Criador, como espera fazer o bem por si só? Quando os brotos da
espiritualidade aparecem, já é tempo de podar os malvados, os maus
desejos que são ceifados pela Luz por si só, sem que precisemos
desprender outros esforços que não os revelar! Mas para que a Luz faça
este trabalho, é preciso mantê-la sobre nossa terra e nossos brotos, a fim
de que cresçam sobre a aridez primitiva de nossa paisagem interior.

E quem sustenta o Mundo e faz com que os Patriarcas se revelem? A


voz das crianças ocupadas da Torá, pois graças a estas crianças do
mundo, o mundo é salvo.
As crianças que permitem a manifestação dos Patriarcas é o estado de
Katnut, precedente a que sejam experimentados estados superiores de
correção. Tudo começa quando Vontade e Consciência da Luz preenchem
e corrigem os vasos, elevando Malchut e preparando vasos adequados à
recepção - Luzes de Nefesh-Ruach formando e preenchendo as primeiras
Sefirot do Partzuf (Keter e Chochma).

Em paralelo a eles: “Faremos para ti colares de ouro” Estes são as


crianças, os jovens, os adolescentes, tal como está escrito: “farás dois
querubins de ouro”.
Os colares de ouro são os níveis da tela, na resistência à Luz Direta, aptos
a refletirem a Luz em prol do Criador. Dois querubins de ouro: hitlabshut
e aviut da masach.

27
“No princípio”. Abriu Rabi Elazar: “Erga os olhos até o Alto e veja
Quem criou isto”. Até que lugar? Até o lugar do qual todos os olhos
estão suspensos. E qual é? “A Porta dos Olhos”. E ali aprendereis que
aquele Oculto, Antigo, O que está exposto à pergunta, “criou isto”. E
quem é? Mi - Quem? – O que é denominado “do limite do Céu”. Acima,
porque tudo existe com Sua permissão.
Venha e veja, ou erga os olhos até o Alto: trata-se da Luz refletida pela tela,
que vai iluminando cada Sefirot acima do vaso e revelando em seu interior
a mesma proporção com que ilumina fora de si. A Porta dos Olhos, onde
todos os olhos estão suspensos, são os graus de revelação do Criador na
espiritualidade, onde ver e avançar se fundem, na medida em que se
percebem semelhanças entre a Luz e o Vaso. Quem é a Luz? É aquele que
é denominado do limite do Céu, ou seja, a partir do grau de revelação que
o Vaso percebe pelo preenchimento das Sefirot superiores Keter
(Vontade), Chochma (Consciência) e Biná (Entendimento), já que Quem?
é denominado pelo ponto de vista da criatura, não de sua Essência, que
não alcançamos. Tudo foi criado por Quem?, vem do Alto: percebemos a
realidade na proporção com que sentimos o Criador, compreendendo as
retificações a serem realizadas.

E existe em forma de pergunta, e é Oculto e Irrevelável, é


denominado Mi – Quem? – porque acima não há mais perguntas. E
este limite do Céu se denomina Mi – Quem? –. E existe outro, Abaixo,
denominado Ma – Que? -.
Quem?, ou seja, a revelação do Criador, é a suprema pergunta, e a resposta
é sempre o grau alcançado, o limite do Céu, até que se revele o próximo;
essa revelação se dá pela fé acima da razão, e por isso Que?, que requer
uma resposta de conhecimento, uma resposta da razão, está abaixo da fé
e não serve para avançar, porque a razão está a serviço do ego. Quem?,
em sua essência, não é alcançado, não pode ser conhecido, senão segundo
o grau atingido na perspectiva daquele que quer aderir a Quem?. Em
termos do ego, da razão, de Que?, o Criador permanece oculto à criatura
28
como antes de ter sido alcançado em uma de suas denominações e
atributos. Que?, então, deve ser submisso a Quem?: só podemos realizar
a correta Intenção quando tivermos formadas e preenchidas as Sefirot
superiores. Agir sem elas nos leva à intenção equivocada deste mundo.

Que diferença há entre um e outro? É que o primeiro é oculto, e é


chamado Mi e existe em forma de pergunta. E quando um homem
pergunta, tentando observar e conhecer etapa por etapa, até a última
de todas as etapas, quando chega ali, que sabe? O que observou? É
aqui que tudo continua oculto como no princípio.
Quais são os males que caracterizam o desejo de receber que há em mim?
Que intenções posso reunir, que desejos de receber poderei por meio da
correta Intenção tornar semelhantes ao atributo de doação que percebo
na Luz Superior? O que e como posso receber mantendo a intenção
correta? E após todas estas perguntas, o que posso dizer sobre a Vontade,
pois se o próprio conhecimento que adquiri – Daat – provém Dela? Como
conhecer o que é prévio ao conhecimento?

E sobre este segredo está escrito: “Que testemunho trarei, que


poderei assemelhar a Ti?”
Mesmo que o Conhecimento (Daat) provenha da Vontade (Keter), o objeto
desta Vontade, a adesão ao Criador, permanece oculto ainda que o
cabalista reúna um vasto conhecimento sobre a Sabedoria. Mas a
Sabedoria, de fato, só pode se tornar acessível quando a Vontade prover o
querer que seu desejo seja como o do Criador.

Quando o Templo foi destruído, surgiu uma voz e disse: “que


testemunho trarei, que poderei assemelhar a ti? ”. Com esse Ma, eu
atestarei, dia após dia desde antanho, como está escrito: “Os Céus e
a Terra chamo por testemunhas hoje contra vós”.
Quando caímos no mundo material, somos convocados a trazer a correta
Intenção, visando assemelhar nossos desejos aos do Criador. É uma
29
pergunta que vem de baixo, do limite inferior, um despertar de baixo, que
deve ser invocado dia após dia, qual seja, degrau por degrau, desde outras
encarnações, pois a correção de nossos desejos é colocada contra o pano
de fundo das intenções do Céu e da Terra, dos mandamentos e das
proibições, do que fizemos em amor e do que ignoramos deixar de fazer
em razão do temor.

“Que poderei assemelhar a Ti?”. Da mesma forma concreta, te


adornarei com Santas Coroas e te farei governador do mundo, como
está escrito: “Esta é a cidade que diziam de perfeita formosura...?”.
Nomeei-te “Jerusalém, edificada como cidade unida”. “Com o que te
compararei?”. Assim como te encontras assentada, assim se pode
dizer que se sucede no Alto. Assim como o povo santo não entra em
ti agora, de acordo com ordens santas, assim jurei a ti que não
ingressarei no Alto até que teus habitantes em ti ingressem aqui
Abaixo. E este é teu consolo, já que neste nível Eu te comparo a tudo.
As santas Coroas são as Sefirot Keter de cada Partzuf que é permitido ao
Homem constituir e preencher dentro de si. Depois de conquistadas as
coroas de cada Partzuf, é dada a alma o poder sobre o mundo que
compõem - Assiá, Yetzirá, Beriá, Atzlut, Adam Kadmon. Vinte e cinco
coroas, no total, cinco por mundo, com que a alma é adornada, ou seja,
recebe um acréscimo ao que possui naturalmente e traz ao longo de suas
encarnações. Aquele que corrige seus mundos interiores, retifica também
a espiritualidade, porque em seu crescimento, retifica cada fração do
desejo de receber humano que está em si. É por estar aberto a que toda a
humanidade possa encontrar um lugar em sua alma, que esta alma poderá
ingressar no Alto, ser objeto de ingresso pela Luz do Criador e também
encontrar sua raiz no Mundo Superior. É neste mundo que somos
comparados com a realidade absoluta, porque nós nos percebemos como
parte da unificação.

30
E agora que estás aqui, “grande como o mar é tua perda”. E se dizes
que não tens existência nem cura, Mi – Quem? – te curará. Com
efeito, o último grau oculto, que tudo existe Nele, te curará e te dará
existência.
A fragmentação da Alma comum e a imensidão de sua carência encontrará
a cura apenas no Ser, não em algo para ter. É no último grau de ocultação
revelado que a criação poderá retornar à unidade, como cura do pão da
vergonha, da insatisfação no preenchimento de seus desejos finitos e, em
última instância, de sua inexistência - de sua existência a partir da
ausência.

Quem?: é o limite superior do Céu. Que?: é o limite inferior do Céu.


E isto herdou Jacó, que uniu de um limite ao outro, de um limite
inicial que é o Quem? ao limite final que é Que? Porque se mantém
no meio, e sobre isto: “Quem criou Estes”.
O que nos conduz à espiritualidade é movido pelo que?, pela busca do
sentido da vida: para onde devemos ir e o que devemos fazer, até
conseguirmos ver e ouvir Quem nos escolheu para despertar. E a linha do
meio é mantida por elevar Quem? sobre Que?, no esforço de revelar em
graus cada vez superiores o Criador a Quem se conhece por suas obras, o
Que, que sinto com necessidade egoísta de submeter à minha razão e que
passo a entender como algo criado para rejeição da esquerda e acréscimo
à direita. Jacó é o estado em que meu egoísmo me impulsiona a ascender
a um nível superior, pois Quem é elevado sobre um Que cada vez mais
crescente, a ponto de não haver outra saída senão elevar cada vez mais a
importância do Criador sobre meus desejos de receber egoístas: o
reconhecimento do meu mal e de superá-lo com o bem cada vez maior,
usando a esquerda como trampolim, é do que necessito para ascender
continuamente à revelação.

31
Rabi Shimón disse: Elazar, meu filho, interrompe tua fala para que
se revele o oculto segredo supremo que os homens ignoram. Rabi
Elazar se calou. Rabi Shimón chorou, se deteve um instante. Disse
Rabi Shimón: Elazar, o que é “Estes”? Se dizes as estrelas e os astros,
é aqui que os vemos permanentemente e foram criados por Que?,
como está dito: “Pela palavra do Eterno, os Céus foram feitos”.
Quanto às palavras ocultas, não se escreve “Estes”, porque aqui se
refere a algo revelado. Mas este segredo não foi revelado, exceto num
dia em que me encontrava na beira do mar, veio Elias e me disse:
Rabi, sabes o que significa “Quem criou Estes”? Disse-lhe: são o Céu
e suas hostes, obra do Santo, Bendito Seja, que o homem deve
contemplar e bendizer, como está escrito: “Quando vejo os Céus, obra
de Teus dedos...oh, Eterno, Senhor nosso, que glorioso é Teu Nome
em toda a Terra!”.
O homem se reconhece como desejo de receber insatisfeito, infeliz e
imperfeito neste mundo. Quando seu próprio mal lhe é revelado e sente
que se não pelo Criador nada poderá mudar sua condição, que há graus
superiores a serem percorridos, um grande segredo, o de que o infinito
pode ser visto, porque há um convite de vir à sua obra, de bendizê-la, é
revelado. O desejo pela retificação, o Que, o limite inferior do céu, é o
limiar da revelação de que Quem criou todo o sistema de ocultação para
ser alcançado e dar ao homem o senso de mérito. A ocultação que sentimos
como noite é necessária para que o exercício da retificação (o Que) a povoe
de estrelas e astros, corpos celestes, vasos preenchidos de Luz no céu, Zeir
Anpin, o exercício da correta Intenção, portanto, desejos corrigidos. São
estes desejos corrigidos que iluminam este mundo com a Luz do Criador
e são vistos contra o fundo escuro da noite, da ocultação de Sua presença.

32
Disse-me: Rabi, aqui está o que era oculto ante o Santo, Bendito Seja,
revelado na Academia do Alto: quando o Oculto de todos os ocultos
quis se revelar, fez no princípio um ponto e este ascendeu e se
transformou em Pensamento; desenhou todas as figuras e gravou
todos os signos, e gravou na santa chama oculta o signo de uma figura
oculta, o Santo dos Santos, edifício profundo que surge do
Pensamento e que é denominado Quem?, iniciador do edifício,
existente e inexistente, profundo e oculto, por seu nome não é
denominado senão Quem?
A sabedoria da Academia do Alto, ou a Luz Circundante, desenvolve o
despertar do Criador em nós, nosso ponto no coração, um desejo por
espiritualidade crescente na medida em que aquela Luz reforma o nosso
desejo de receber para si até tornar-se desejo de revelar o Criador: nosso
ponto no coração se torna um edifício, o Santo dos Santos, a Vontade de
adesão, o estado em que partimos para revelar o Criador oculto em nosso
mundo.

Quis revelar-se e ser chamado por um nome. Revestiu-se com a


roupagem preciosa que ilumina e criou a Estes, fazendo-Os ascender
a seu nome. Se uniram as letras, umas com as outras, e completaram
o Nome Elohim. E antes de haver criado Estes, não aparecia com o
Nome Elohim.
O desejo de doar inclui o desejo de receber em si (Seu Nome, o Tetragrama
correspondendo a cada fase da Luz Direta que adiciona o desejo
independente do desejo do Criador). Ele se reveste, abaixa-se ao alcance
das criaturas para que elas ascendam, letra por letra, grau após grau, no
reconhecimento do Oculto como o Criador. Este reconhecimento é
possível porque foi criada a possibilidade de correção do desejo de receber,
fazendo com que este desejo de receber ascenda à condição de seu Nome.
Quando o cabalista entende esta possibilidade, completa o Nome Elohim.

33
E aqueles que pecaram com o bezerro, sobre este segredo disseram:
“Estes são teus deuses, Israel”. E como Quem? se associou a Estes,
assim o Nome se mantém associado de modo permanente e por este
segredo perdura o mundo. Elias voou e não o avistei. E dele soube
esta palavra misteriosa e oculta.
Aqueles que pecaram com o bezerro de ouro, adoradores de falsos ídolos,
que vem nos acontecimentos motivo de desejo de receber para si e não da
revelação de correções, também não têm Vontade de aderir ao Criador:
são os que atentam contra a unidade de "Ele e Seu Nome", sem a qual não
há realidade possível, pois separaria para sempre o Criador e a criatura,
tornando-os irreconciliáveis e cada vez mais díspares, até que a existência
do criado fosse condenada à completa inexistência, sem possibilidade de
adesão à Luz. No entanto, Quem? (Mi) – o Criador – se uniu a Estes (Ele)
– os desejos corrigidos, formando o Nome Elohim, correspondente ao
Entendimento de como retificar o desejo de receber para a adesão ao
Criador. Por este segredo perdura o mundo: o mundo não existe para
buscarmos a satisfação do desejo de receber, mas para corrigir este desejo
e possibilitar a adesão ao Criador.

Veio Rabi Elazar e todos os seus companheiros e se prostraram ante


ele. Disseram chorando: se não houvéssemos vindo ao mundo mais
que para escutar estas palavras, teria sido suficiente.
As palavras de Rabi Shimón são a Luz que ingressa no Vaso Espiritual de
seus companheiros, distintos Partzufim a serem retificados, e há nisso
suficiência para avançarem nos mundos superiores.

34
Rabi Shimón disse sobre isso: Os Céus e suas hostes foram criados
por Que? (Ma) tal como está escrito: “quando vejo os Céus, obra de
Teus dedos...”. E está escrito: “Oh, Eterno, Senhor nosso, que
glorioso é Teu Nome em toda a Terra! Tua majestade se eleva sobre
os Céus”. “Sobre os Céus” se refere a ascender em seu Nome, por
criar Luz à sua Luz, uma vestindo a outra, e ascendendo em seu Nome
superior.
Que?, afinal, é a perspectiva do criado, que sente o progresso por uma
estrutura espiritual como necessária para a conquista do mérito de
receber toda a Luz que o Criador lhe destinou. O Nome é glorificado
quando todo o desejo de receber pode vestir a Luz da Sabedoria em Luz
da Misericórdia. Do ponto de vista de Quem?, a realidade perfeita já existe
completamente; apenas a criatura não a sente e por isso os cabalistas nos
dizem que todos os mundos foram criados apenas para o Homem.

E sobre isto: “No princípio criou Elohim”, é o Elohim do Alto, porque


Quem? não estava aqui nem se havia formado senão até o momento
em que as letras de Estes foram atraídas de Acima até Abaixo, e a Mãe
empresta suas vestimentas à sua Filha e a agracia com seus adornos.
E quando a agracia com adornos como corresponde? No momento
em que são vistos ante ela todo o masculino, tal como está escrito:
“...ante o Senhor, O Eterno”. E este é chamado “Senhor”, como está
dito: “Eis aqui a arca da aliança, Senhor de toda a Terra”; E então sai
a Hei e entra a Iud, e se adorna com roupagem masculina, em
concordância com “todos os varões de Israel”. E outras letras são
atraídas até Israel do Alto, até esse lugar.
Quem?, o desejo de doar, está oculto da criação, até que a criatura o atrai
de cima, o deseja, expande o seu ponto no coração. Biná pode então ceder
a esta Malchut uma vestimenta, a Luz da Misericórdia, para recobrir este
espaço e adorná-la, proporcionar-lhe uma Intenção correta que não se
encontra em seu estado natural de recepção. O adorno, a tela, já permite
que a letra Iud, alusão à Luz da Sabedoria, ingresse na Luz da Misericórdia,
35
porque o Vaso poderá receber seu tanto de Luz em prol do Criador,
concedendo-lhe vestes masculinas, próprias do atributo de doação. É
possível, então, chamar ao Criador de “Senhor de toda a Terra”, de todo o
desejo de receber que se tornou varão de Israel, aquele que outorga ao seu
Criador e que guarda e apresenta a Arca da Aliança, a Intenção em prol da
doação. Outras letras são atraídas do Alto, ou seja, outras Sefirot vão sendo
preenchidas na medida em que a Luz de retorno do Vaso ilumina cada vez
mais acima de sua tela.

“Recordo a estes”: menciono-os com a minha boca e verto lágrimas


com todo o meu ser para atrair a estas letras, e então “eu as faço
avançar”, as faço avançar desde o Alto “até a casa de Elohim”, para
ser semelhante a Ele. Como? “Com vozes de alegria e de louvor do
povo em festa”.
Ao realizar a vestimenta masculina, reshimot de aviut e hitlabshut refinam
o Partzuf, adicionando um a um os estados próprios das Sefirot que o
compõem. Esse processo é aludido pelo "mencionar com a boca", refletir
a Luz com a tela que ali se encontra, atraída pelas lágrimas vertidas, a
correta Intenção para que novos discernimentos de correção surjam,
permitindo-me o reconhecimento do grau em que me encontro; este
trabalho alimenta o fluxo de completude do Partzuf com as luzes
NaRaNChaY que vem do Alto até a Casa de Elohim (a Sefirá Biná, onde
Elohim é enunciado, onde a Sabedoria, Chochma, é entendida), para
tornar os desejos ali manifestados "com vozes de alegria e louvor" - com
a intenção de doar e de reconhecer este estado como perfeito - "do povo
em festa" - a partir do Entendimento para que haja desejos corrigidos.

36
Rabi Elazar disse: Meu silêncio edificou o Templo no Alto e edificou
o Templo no Baixo. “Se a palavra vale um sela, o silêncio vale dois”.
“A palavra vale um sela” pelo que disse e despertei, mas “o silêncio
vale dois” porque graças ao meu silêncio foram criados e construídos
dois mundos como um.
A palavra dita, Luz Refletida, vale um sela, por despertar as Sefirot. Já a
escuta, interiorização da Luz, vale dois: um pela construção do Templo de
Cima, restringindo a entrada de Luz no Partzuf e, outro pelo Templo de
Baixo, por resistir ao golpe da Luz de retorno no tabur. Dois mundos são
criados como um: o desejo de doar semelhante ao Criador é expresso pelo
desejo de receber que restringe sua natureza por meio da correta Intenção.

37
Disse Rabi Shimón: Daqui em diante, podemos completar o versículo,
tal como está escrito: “o que faz sair os seus exércitos pelo
número...”. Existem dois graus que devem ser demarcados: um sobre
o qual está dito Que? E outro Quem? Este é superior e este inferior.
Este superior está demarcado e diz: “o que faz sair seus exércitos pelo
número”. Aquele que faz, que é conhecido e não há como Ele. Do
mesmo modo: “o que faz sair pão da terra”. Aquele que faz sair que é
conhecido, é o grau inferior, e tudo é um. “Por número”: são
seiscentos mil que são como um e produzem guerreiros segundo suas
espécies, inumeráveis. “A todos”, a estes seiscentos, a todos estes
guerreiros, “os chama pelo nome”. Que significa que os chama pelo
nome: se dizes que os chama pelos seus nomes, não é assim, porque
então teria sido escrito “por seu nome”. Senão quando este grau não
ascende por um nome e se denomina Quem?, não dá a luz nem tira
as coisas ocultas segundo suas espécies, embora todas estejam
presentes em seu seio. Devido a que criou a Estes, e ascendeu com
seu Nome e foi chamado Elohim, então pelo poder deste Nome os fez
sair em sua forma perfeita. Isso é, “os chama pelo Nome”, pelo Seu
próprio Nome chamou e fez emergir toda espécie para uma existência
íntegra. De igual modo: “veja, chamei pelo nome”: mencionei Meu
Nome para que Betzalel exista plenamente.
"Sair a seus exércitos por número" é a criação dos desejos limitados das
criaturas, que herdamos do superior e que ao serem corrigidos neste
mundo conduzem à gradual revelação do Criador. Já o pão da terra é o
desejo de doar tirado da vasta extensão do egoísmo, um milagre inferior
porque é realizado a partir deste mundo em direção ao superior. Este
sistema se mostra como dois graus distintos - superior e inferior - para
Quem você realiza o Que?, mas apenas do ponto de vista da criatura, pois
trata-se de uma mesma realidade, e que, além disso, nos aparece
multiplicada. Os desejos não possuem distintos nomes, mas um único,
expresso pelo Tetragrama. Toda a realidade com seus desejos corresponde
ao desenvolvimento da Luz direta e as quebras experimentadas pela sua
38
quarta fase, Malchut de Einsof, e tudo foi proporcionado para que nos
encontremos no estado de Betzalel, ‫בצלאל‬, "Debaixo da sombra de D'us."
A sombra em Kedushá, em Santidade, um discernimento no qual, como
diz Baal HaSulam, "(...) todas as ocultações e aflições que sente são porque
o Criador lhe enviou estas situações para que pudesse dar espaço ao
trabalho acima da razão", e este estado abaixo da sombra possa vir à
existência, Àquele de Quem por enquanto estamos apenas sob a sombra.

“Da grandeza de seus poderes”. Que é “da grandeza de seus


poderes”? É o grau superior até o qual sobem todas as Vontades e
sobem ali de modo oculto. “E o poder de sua força” designa o segredo
do Mundo do Alto que ascende ao Nome Elohim, como temos dito.
“Ninguém falta” desses seiscentos mil que emergem pelo poder do
Nome. E já que “ninguém falta”, cada vez que morreram Israel e
foram castigados por seus pecados, ao serem contados não falta
nenhum dos seiscentos mil, para que todos estejam em uma mesma
forma: da mesma maneira que nenhum indivíduo falta no Alto,
nenhum falta Abaixo.
No estado de Gadlut (Grandeza), as cinco luzes NaRaNChaY preencheram
o Partzuf. "E o poder de sua força" consiste numa adição de luzes que
formarão e preencherão as Sefirot de um novo Partzuf superior. As
sucessivas correções não anulam os desejos, mas trazem-nos de forma que
nenhum falta: aos já corrigidos, abaixo, precipitam-se do Alto mais desejos
que ainda não haviam se manifestado, num grau de dificuldade e exigência
proporcional ao grau no qual nos encontramos.

39
“No princípio”. Rav Amnuna, o Ancião, disse: encontramos uma
inversão das letras: primeiro uma Bet e depois Bet em Bereshit bará
(No princípio criou), e depois Alef em Elohim et (...Deus a...). Mas
quando O Santo, Bendito Seja, quis fazer o mundo, todas as letras
estavam fechadas. E durante os dois mil anos até que criou o mundo,
O Santo Bendito Seja as contemplava e se regozijava com elas.
Durante o tempo de preparação prévio ao ingresso na espiritualidade, o
estudante se entusiasma e se regozija com seus estudos, contempla a
estrutura da criação... mas a estrutura lhe parece inversa ao objetivo, de
Bet à Alef, quando deveria ser o contrário. Ele não entende, mas se expõe
à Luz Circundante, até que sente que em seus estudos sua intenção deve
ser a de encontrar instruções para a correção, e então ele está apto a criar
seu mundo interior, onde não havia Vontade, Consciência, Entendimento,
correta Intenção e Revelação dos mundos superiores, eis que surgem,
gradualmente, permitindo uma relação correta com a Luz.

Quando quis criar o mundo, todas essas letras se apresentaram ante


Ele, da última à primeira.
A ordem inversa das letras representa uma sequência de atitudes e
sentimentos que não são a raiz do ingresso na espiritualidade, mas
consequências deste ingresso, e que devem ser evitados de serem
utilizados como instrumentos de estímulo à espiritualidade, porque dessa
forma seriam artifícios que não se sustentariam apenas com a força da
criatura, já que a espiritualidade resulta da intenção de correção e
contínua exposição à Luz Circundante.

A primeira a ingressar foi a letra Tav. Disse: Senhor dos Mundos, que
te agrades criar o mundo através de mim, porque eu sou o selo de
Teu anel, que é a Verdade. E Tu mesmo és chamado Verdade. É digno
do Rei começar pela letra da Verdade e criar o mundo através de mim.
(Tav): A letra Tav é a última letra da palavra Emet – Verdade.

40
O Santo, Bendito seja, disse: tu és digna e merecedora. Mas não és
apropriada para que Eu crie o mundo através de ti, porque estás
destinada a marcar a fronte dos homens de fé, que cumprem a Torá
desde a Alef até a Tav, e que morrerão sob teu sinal. Além disso, és o
selo da morte. E por seres assim, és inadequada para que através de
ti se crie o mundo. Imediatamente saiu.
(Tav): No tempo de preparação, tentamos nos convencer de que cruzar a
barreira da espiritualidade é um processo que se dá pelo cumprimento da
Torá, especialmente por meio físico, do cumprimento literal dos
mandamentos e proibições. Mas a verdade é também morte, egoísmo, na
medida em que esta verdade é encarada como meio para a ascensão
espiritual, e não o fim em si: o cumprimento da Torá, ou seja, a recepção
correta da Luz em nossos vasos - Ohr Pnimi, Luz Interior - deve ser o
resultado que almejamos, não um instrumento para outro fim. A Luz
Interior é o que recebemos para trazer contentamento ao Criador.

Ingressou a letra Shin ante O Criador. Disse diante Dele: Senhor dos
Mundos, que te agrades criar o mundo através de mim, porque
através de mim se pronuncia Teu Nome Shaddai – Todo-Poderoso, e
é adequado criar o mundo com um Nome santo.
O Nome Shaddai está associado a Keter, a Vontade, quando percebemos
que há um doador Todo-Poderoso acima dos desejos do nosso ego. Mas
este Nome é conhecido depois do ingresso na espiritualidade, pois
qualquer pretensão de adesão prévia a este ingresso se dá apenas no limite
da recepção que serve ao egoísmo, sem conseguir elevar a Vontade
superior.

Disse-lhe: és digna, és boa e és verdadeira. Mas sendo que as letras


de farsa – ziuf - te tomaram por companhia, não quero criar o mundo
através de ti, já que a mentira não poderia existir se não te tomam
com elas. Daqui, que aquele que queira mentir deve antes utilizar
uma base de verdade para tão logo situar a mentira. Pois a letra Shin
41
é uma letra de verdade, uma letra da verdade pela qual se uniram os
Patriarcas; a kuf e a Reish são letras que aparecem ao lado do mal e
para existir tomam a letra Shin entre elas, formando uma
confabulação. Ao observar isso, retirou-se de Sua presença.
(Shin): A adesão ao Criador tampouco é construída na pretensão de estar
acima de outras pessoas, numa condição espiritual mais elevada e,
portanto, superior às demais. Se, certamente, a maior proximidade com o
Criador a torna melhor como ser humano, não deve, justamente por isso,
querer ser o maior de sua geração, mas buscar elevar os amigos.
Tampouco deverá buscar a espiritualidade por motivos de satisfação do
seu ego, em detrimento à Vontade de adesão como a maior aspiração de
sua recepção.

Ingressou a letra Tzadik e disse ante Ele: Senhor do mundo, que Te


agrades criar o mundo através de mim porque eu ponho meu selo
sobre os justos – Tzadikim – e Tu mesmo que és chamado “Justo” –
Tzadik – através de mim estás assinalado, tal como está escrito: “O
Eterno é justo e ao justo ama”, de modo que é adequado criar o
mundo através de mim.
O Justo, conforme ensina Rav Laitman, é aquele que está consciente de
que é pecador, em seu grau de Consciência. Ele terá este discernimento no
âmbito da espiritualidade, quando tiver reconhecido o seu mal,
constituído e preenchido a Sefirá Chochma.

42
Disse-lhe: Tzadik, és Tzadik, és justa, mas deves permanecer oculta
e não deves revelar-te tanto para não proporcionar um argumento
contra o mundo. Que significa? Eras uma Nun, sobre a qual veio a Iud
do Pacto Sagrado, se assentou e uniu-se a ela. Conforme este
mistério, quando o Santo, Bendito Seja, criou o Primeiro Homem,
criou-o com duas Faces. E por isso, a Face da Iud está voltado para
trás, como esta, e não giram se colocando face a face, nem observa
até acima, nem observa até abaixo. Disse-lhe o Santo, Bendito Seja:
ademais, algum dia te dividirei para que te situes face a face, mas em
outra parte te elevarás. Saiu de Sua presença e foi embora.
(Tzadik): A qualidade do Tzadik deve ser vista como possível num mundo
deficiente, mas não é possível adquiri-la previamente à espiritualidade,
pois qual seria o seu fundamento? Sua base é, de fato, o atributo superior
de doação, sem o qual, permaneceria em pecado como todo o desejo de
receber para si. Uma pessoa é, inicialmente, parte da criatura caída,
referida pela letra Nun; quando se descobre desejo de receber, de costas
ao Criador, assentasse-lhe a “Iud do Pacto Sagrado”. A face só será
revelada na progressão de outra ordem de letras; não é possível mudar
sua natureza por si só, mas há a promessa Divina de que o Primeiro
Homem, o grau inicial, será dividido de forma que sua Pequena Face possa
voltar-se e ver a Grande Face. Novamente aqui, a alusão da progressão
dos Estados de Katnut para Gadlut, assim como da construção de um vaso
superior ao seu desejo de receber mundano.

Ingressou a letra Pe, e disse ante Ele: Senhor dos Mundos, que Te
agrade criar o mundo através de mim, porque a Redenção – Purkana
– que Tu haverás de fazer no mundo está inscrita em mim, e é Pdut
(Liberação) e é adequado criar o mundo através de mim.
A Redenção é o estado em que a Shechina sai do exílio, isto é, em que a
Alma Comum volta a integrar e a sentir todas as suas partes antes
dispersas, suas porções de desejo de receber antes individualizadas nas
encarnações deste mundo. Para que haja a Redenção, é necessário o exílio.
43
Conforme ensina Rav Laitman: “Na medida em que fazemos um esforço
para atrair a ajuda de cima, nós avançamos. Este é o trabalho no exílio
egípcio. Se não pedimos, não oramos, não tentamos nos conectar, o que
nos leva à oração, então não trabalhamos através do exílio e não
avançamos rumo à redenção. Isto porque na espiritualidade o tempo é o
número de operações ou mudanças que estamos tentando fazer”.

Disse-lhe: tu és digna, mas o pecado – pesha – em ti se oculta como a


forma de uma serpente que ataca e logo oculta sua cabeça entre seu
corpo. Da mesma maneira, quem pecou inclina sua cabeça até
embaixo e estende suas mãos.
(Pe): Tampouco é válida qualquer tentativa de se redimir e de se ver livre
de quaisquer desejos de receber para si, quer porque não se pode nem
mudar sua natureza de receber, quer porque não se pode cessar de buscar
aquilo que de mais valioso seu desejo identifica. Assim, o que se deve é
elevar o desejo pela espiritualidade, sem o que os desejos egoístas
continuarão a manifestar-se e a manter o mal não revelado dentro de si.

E o mesmo se sucede com a Ain, avón (afronta). E apesar de dizer que


havia nela a humildade – anavá – disse-lhe o Santo, Bendito Seja: não
criarei o mundo através de ti. Então retirou-se de Sua presença.
(Ain): Também pode ser dito: os mundos superiores não se destinam a
ser mundos de recepção para si, e reconhecer o próprio mal e sua
inferioridade não tem por propósito ser recompensado.

44
Ingressou a Samech, disse ante Ele: Senhor dos mundos, que te
agrades criar o mundo através de mim, porque em mim se encontra
o apoio para aqueles que caem, conforme escrito: “O Eterno sustenta
a todos os que caem”.
A queda, ou egoísmo, é sentida cada vez maior pelo cabalista, na medida
com que novas camadas do mal em si são identificadas pela Consciência.
A fim de ascender acima delas, a Vontade, o Eterno, deve ser elevada.

Disse-lhe: justamente por isso deves permanecer em teu lugar, sem


mover-te do mesmo, porque se abandonares teu lugar, que será
daqueles que caem, considerando que eles se apoiam em ti?
Imediatamente, saiu de Sua presença.
O apoio para os que caem é dado para quem está sob a sombra da
Santidade, que não permanece na revelação do mal e se entrega ao
desespero, mas que eleva sua fé acima da razão. Antes do ingresso nos
mundos superiores há apenas a sombra de sitra achra, o Criador está em
dupla ocultação para a criatura e não pode, portanto, haver qualquer
reconhecimento de ajuda do Criador por parte do ser criado para ele
erguer-se do pó. Ao contrário, seu desejo está ali fixado, junto às cascas.

A letra Nun ingressou e disse ante Ele: Senhor do mundo, que te


agrades criar o mundo através de mim porque comigo se escreve
“Temível – norá – em louvores, e “Agradável – navá – é o louvor para
os justos”.
O Criador é Temível, ou seja, é potencialmente objeto pela criatura de seu
temor, isto é, de sua Vontade e Consciência. Aquele que teme, então, é um
justo, e em seu temor está louvando ao Criador.

Disse-lhe: Nun, volta ao teu lugar porque por tua causa a Samech
voltou ao seu lugar para que possas apoiar-te nela. Sem demora
voltou ao seu lugar e saiu de Sua presença.
Nun é a inicial de nefilá – caída – e compete à Samech apoiar os caídos.
45
Nun também é a inicial de temível e agradável. Ao justo, é agradável temer
ao Criador, na medida em que já pode justificá-Lo e tem seu prazer em
reconhecer a bondade do Criador e no desejo de alcançá-la. Mas aquele
que ainda não ingressou na espiritualidade encontra-se caído em seu
desejo de receber para si, e só poderá receber o apoio necessário sendo
justo após atingir os mundos superiores.

Ingressou a letra Mem e disse ante Ele: Senhor do mundo, que Te


agrade criar o mundo através de mim, já que pelo meu intermédio és
chamado Rei (Melech).
(Mem): Este mundo se caracteriza pela separação entre a Coroa e o Reino.
É necessário devolver a Coroa, Keter, a Vontade, ao Rei e trazê-lo ao seu
Reino, Malchut, onde possa ser revelado.

Disse-lhe: assim é, efetivamente, mas não criarei o mundo através de


ti porque o mundo necessita de um rei. Regressa a teu lugar, tu,
Lamed e a Kaf final, porque não é adequado para o mundo existir sem
um rei.
(Mem): A criação não foi realizada como obra perfeita, com o Rei visível,
mas foi atirada num mundo de retificação, a fim de que possa sentir na
extensão de sua carência a necessidade da abundância em graus cada vez
maiores.

46
Nesse mesmo momento desceu a letra Kaf ante o Criador, sobre o
Trono de Sua glória, tremeu e disse ante Ele: Senhor do mundo, que
Te agrades criar o mundo através de mim, porque sou Tua glória
(kavod). E quando a Kaf desceu do Trono de Sua glória, duzentos mil
mundos tremeram e o Trono tremeu. Todos os mundos tremeram,
ameaçando caírem.
(Kaf): A glória do Criador só pode estar presente se há um mundo em que
ela se ausenta, ocasião para que haja a retificação e a restauração da glória
em toda a extensão do criado.

O Santo, Bendito Seja, disse-lhe: Kaf, Kaf, que fazes aqui? Eu não
criarei o mundo através de ti, regressa ao teu lugar, porque a
Exterminação (Klaia) reside em ti e por ti se faz escutar: “Extermínio
e assassinato”. Volta ao teu Trono e permaneça ali! Nesse momento
partiu de diante de Sua presença e regressou ao seu lugar.
(Kaf): Keter, a Vontade de adesão, é iluminada pelo desejo de receber para
si. É o início de um Partzuf, mas também o primeiro degrau quando se
fala na criação do "seu" mundo espiritual, um degrau frágil já que é o início
de um Partzuf do mundo de Assia, perigosamente rodeado pela sitra
achra. Quando essa Vontade se manifesta, ela evoluirá para a Consciência
do mal e sua necessidade de retificação. Mas para formar essa Vontade
muito particular de glorificar seu Criador, é necessária a exposição
contínua à Luz Circundante, sem o que Keter não será formada e, em seu
lugar, a criatura permanece ou endurece ações contra a intenção de doar
– o extermínio.

Ingressou a letra Iud e disse ante Ele: Senhor do mundo, que te


agrades criar o mundo através de mim, porque sou o começo do
Nome santo, e é adequado para Ti criar o mundo através de mim.
A letra Iud é a inicial do Tetragrama, Iud, Hei, Vav, Hei.

47
O Criador lhe disse: deve bastar para ti estar inscrita no Meu Nome,
e estás gravada em Mim, e toda a Minha Vontade através de ti se
eleva. Não é adequado que sejas arrancada do meu Nome.
(Iud): Aprendemos que a criação se inicia com a Luz da Sabedoria que cria
um vaso e o preenche. Entretanto, o mundo que aqui se vai criar não é
outro que o mundo da retificação em nosso interior. A diferença está que
o primeiro caso se torna objeto do desejo único do Criador, enquanto
agora, no mundo da retificação, há a oportunidade de escolha pela
criatura. Além disso, quando se fala em retificar os mundos superiores,
fala-se da criação, do pós-tzimtzum. Arrancar a Sabedoria do Nome
equivale a tornar o Nome incompleto, e para inscrevê-Lo corretamente é
preciso possuir a vestimenta adequada para que a Sabedoria seja recebida
sem causar danos ao Nome: a Luz da Misericórdia.

Ingressou a letra Tet e disse ante Ele: Senhor do mundo, que te


agrades criar o mundo através de mim, porque Tu, por meu
intermédio, és chamado Bom (Tov) e Reto.
(Tet): Bom, porque é percebido pelo atributo do bem, da doação; e Reto,
porque para percebê-lo como Bom, devemos revelar o oposto e, assim,
equilibrar as manifestações de doação e recepção sentindo-O no equilíbrio
central que desce até o nosso mundo.

48
Disse-lhe: não criarei o mundo através de ti porque tua bondade está
oculta em teu seio e guardada em teu seio, isso é o que está escrito:
“Quão grande é Tua bondade que guardaste para os que te temem!”.
Como a bondade está guardada em ti, não forma parte desse mundo
que eu quero criar, senão do Mundo Vindouro. Mais ainda: devido a
que tua bondade está guardada em teu seio, as portas do Heijal (o
Templo) serão fundidas, e isso é o que está escrito: “Suas portas
serão fundidas pela terra”. Ademais, a Jet está diante de ti, quando se
juntam formam o Pecado. Por isso estas letras não constam nas
tribos santas. Sem demora, saiu de Sua presença.
(Tet): O objetivo da criação dos mundos superiores é proporcionar uma
ascensão gradativa de mudanças de estado, da imersão no mal, o desejo
de receber para si, ao desejo de doar, a bondade absoluta. Assim, não se
pode esperar que com atos de bondade alcancemos a espiritualidade: é o
contrário, adentrando os mundos superiores, vamos nos tornando
gradativamente melhores em bondade. A aquisição desta bondade, ou
linha direita, se dá sempre em relação à superação da esquerda como
parâmetro para a correção: dessa forma se constrói um estado de
equilíbrio entre a bondade sem limites e o juízo que restringe.
Conhecendo-se apenas o bem, não haveria como desejar um estado de
bondade, não haveria um dia após o outro, pois não haveria noite, mas
apenas um longo dia contínuo no trabalho e a consequente diminuição no
desejo de receber estados espirituais: não haveria avanço. O pecado se
apresentaria adiante deste estado de recepção passiva: o pão da vergonha.
Tais sentimentos não acompanham as Doze Tribos, os caminhos que
ligam as Sefirot de Zeir Anpin entre si e desta a Malchut.

Ingressou a letra Zain. Disse-lhe: Senhor do mundo, que Te agrades


criar o mundo através de mim, porque por minha causa Teus filhos
guardam o Shabat, tal como está escrito: “Lembra (zajor) o dia do
Shabat para santificá-lo”.
(Zain): Zain também é a sétima letra do alfabeto hebraico, associada ao
49
sétimo dia, o Shabat.

Disse-lhe: não criarei o mundo através de ti porque em teu seio


moram a guerra, a espada afiada e a lança de combate (ziun),
semelhante à Nun. Sem demora, saiu de Sua presença.
(Zain): Se, por um lado, não se pode adentrar a espiritualidade numa
condição exclusiva face às instâncias do mundo, por outro, não se pode
mantê-la no mesmo nível de disputa dos demais desejos deste mundo. O
cabalista vive simultaneamente neste mundo e num grau dos mundos
superiores, e mantém o seu desejo pelos mundos superiores - sua fé -
acima do desejo de receber da razão.

Ingressou a letra Vav e disse ante Ele: Senhor do mundo, que te


agrades criar o mundo através de mim, porque sou uma letra de Teu
nome.
(Vav): Correspondente a Zeir Anpin, o propósito de doar pela criatura.

Disse-lhe: Vav! A ti e à Hei, deve bastar serem letras do Meu Nome.


Pertenceis ao segredo de Meu Nome, gravadas e inscritas em Meu
Nome. Não é através de vocês que criarei o mundo.
(Vav): O ingresso na espiritualidade ou a percepção do grau adquirido na
encarnação passada surge no indivíduo na medida em que é exposto à Luz
Circundante. Neste sentido, o Partzuf de Zeir Anpin (Zachar) é alcançado
ou manifestado de forma natural, não se deve pretender tal grau sem que
se tenha retificado Nukva. E não se retifica Nukva se não houver
previamente ingressado em algum dos Mundos Superiores.

50
Ingressou a letra Dalet e a letra Guimel e também falaram.
(Guimel/Dalet): Guimel vem de gamol, bondade, e Dalet vem de dalim,
pobres.

Também disse a elas: que lhes seja suficiente permanecerem unidas


uma com a outra, porque os pobres nunca desaparecerão do mundo
e é necessário prover-lhes bondade. A letra Dalet representa o
necessitado, Guimel provê-lhe bondade. Não devem se seperar uma
da outra e deve bastar-lhes sustentarem-se mutuamente.
(Guimel/Dalet): Ele e Seu Nome são Um, o desejo de doar é emanado de
forma a manifestar adições de ausência – criação - à Luz, para que ela
tenha algo a preencher. De outra parte, o desejo de receber criado traz
consigo a memória do seu preenchimento pela Luz - há nela um desejo de
doar, de aderir ao Criador, sem o que estariam doação e recepção em
distanciamento inconciliável.

Ingressou a letra Bet e disse: senhor do mundo, que te agrades criar


o mundo através de mim, porque através de mim Tu és bendito
(Baruch) no Alto e Abaixo.
(Bet): A letra é a inicial de Bereshit, No princípio, equivalente à Vontade
de adesão ao Criador.

Disse-lhe O Santo, Bendito Seja: certamente, através de ti haverei de


criar o mundo, e tu serás o começo da criação do mundo.
(Bet): O mundo espiritual é anunciado quando a força de doação - o
Criador - o Bom que faz o Bem - é bendito no Alto e Abaixo, nos mundos
superiores e neste mundo, na doação e na recepção, quando desejamos
que a nossa intenção seja voltada para Ele, quando desejamos escrever
Seu Nome em nossos atos, fazer de nossas realizações Ele. Bendizer
Abaixo: estar disposto a receber a Luz Interna para o bem Dele; bendizer
Acima: colocar a correção de seus Partzufim como o bem maior que seu
desejo de receber pode alcançar. Assim se revelam os Mundos Superiores.
51
O discernimento Bet, então, é o desejo de ser um vaso perfeito para a
correta recepção da Luz.

A letra Alef se deteve e não ingressou. O Santo, Bendito Seja, disse-


lhe: Alef, Alef, por que não ingressas ante Mim como todas as demais
letras? Disse ante Ele: Senhor do mundo, já que vi a todas as outras
letras saírem diante de Ti sem resultado, que posso fazer aí? Ainda
mais: outorgaste este grande obséquio à letra Bet, e não é digno do
Rei supremo quitar um obséquio que entregou a seu servo para
outorgá-lo a outro.
(Alef): é preciso haver o despertar abaixo, a possibilidade de Bet, para que
Alef, possa ser o princípio de todos as letras empregadas na
espiritualidade, de todos cálculos do desejo superior.

O Santo, Bendito Seja, disse-lhe: Alef, Alef, apesar de ter decidido


criar o mundo através da letra Bet, tu serás a primeira de todas as
letras. Eu não terei unidade senão em ti, tu serás o princípio de todos
os cálculos e de todas as obras do mundo. Toda unificação não
existirá senão a partir da letra Alef.
(Alef): Alef é a Masach criada pela Luz que reforma. E, embora o mundo
espiritual seja alcançado pelo exercício de Bet, de um despertar abaixo, é
a tela sobre este desejo que unifica o vaso e a Luz, mantendo o recipiente
no propósito adquirido por Bet.

E o Santo, Bendito Seja, fez letras superiores grandes e letras


inferiores pequenas. Por esta razão Bet, Bet: Bereshit (No princípio),
Bará (criou); Alef, Alef: Elohim et (Deus a...), as letras do Alto e as
letras Abaixo, e todas se unificam, as do Mundo Superior e as do
Mundo Inferior.
(Alef): Bet é o discernimento com que é possível a constituição das
primeiras Sefirot, Keter e Chochma, Trabalho durante o qual ainda há o
propósito de receber, para que Alef seja escrita como Entendimento e
52
correta Intenção, durante a emanação de Biná e a criação de Zeir Anpin. E
todos esses discernimentos, Acima e Abaixo, se unificam para a correção
do Partzuf. O desejo de doar e de receber se unificam, pois não há doador
sem um receptor, nem quem receba se não há alguém com o propósito de
doar. E tal como o vaso já está incluído na Luz, o vaso é completo e apto a
receber plenamente a Luz por conter nele este desejo de ser como a Luz,
sem o que estaria irreconciliavelmente distante dela e jamais a alcançaria.

“No princípio” (Bereshit). Rabi Iudai disse: o que significa “No


princípio”? “Com Sabedoria” (Chochma). É a Sabedoria sobre a qual
o mundo se sustenta e que permite aceder ao coração dos supremos
segredos fechados. E aqui foram gravados os Seis grandes extremos
supremos dos quais tudo provêm e dos quais foram feitos seis
mananciais e seis rios que desembocam no Grande Mar. E por isso
está escrito “No princípio” (Bereshit) como “Criou seis” (Bará shit).
E quem os criou? Esse que não é mencionado, Esse que é inacessível
e incognoscível.
O desejo de doar cria um desejo de receber ausente em si a fim de que
possa cumprir seu propósito. Esse discernimento já está na
espiritualidade, Keter do Partzuf já foi fornada, e agora forma-se
Chochma, a Consciência de que corrigir aqueles aspectos do Partzuf
agradará ao Criador, sendo a Sefirá preenchida com a Luz de Ruach, o
desejo de doar para receber. De tal forma, este desejo de receber é
imperfeito e demandará correções nas Sefirot que formarão Zeir Anpin
(ZA). ZA desembocará em Malchut, permitindo que um Partzuf seja
completado com a Luz que desce do Alto. Mas entre Chochma e ZA, falta
Biná, sem o que a criação das seis Sefirot inferiores é creditada ao
inacessível e ao incognoscível do ponto de vista de Malchut.

53
Rabi Chiya e Rabi Iosei estavam andando pelo caminho. Quando
chegaram a um campo, disse Rabi Chiya a Rabi Iosei: disseram “Criou
seis”, certamente que é assim, já que os seis dias supremos existem
para a Torá e não mais, e os outros permanecem ocultos. No entanto,
vimos os segredos do princípio, assim ditos: o Santo inacessível
inscreveu um signo no covil de um termo dissimulado marcado com
um ponto fixo. Inscreveu e escondeu este signo como quem o esconde
inteiramente sob uma única chave, e esta chave o encerra
completamente num Palácio, o essencial está nesta chave, ela é a que
fecha e abre. Nesse Palácio há tesouros ocultos, uns maiores que
outros, e nesse Palácio há portas destinadas a ocultar, cinquenta em
número. Foram gravadas em seus quatro flancos e são quarenta e
nove. Uma porta não tem um lado e ignora-se se está no Alto ou
Abaixo, e por isso essa porta está fechada.
O caminho é a espiritualidade, especialmente onde se vai de um ponto a
outro, pelas Sefirot superiores Keter, Chochma e Biná sendo preenchidas
pelas luzes de NaRaN, até que se chega ao campo, onde é necessário
trabalhar com aquilo que foi plantado inicialmente. Aqui, surgem os
discernimentos de Zeir Anpin, que existem para que a Torá, Ohr Pnimi,
desça das Sefirot superiores à Malchut, seja recebida plenamente no
Partzuf. Embora outras Sefirot de Partzufim mais elevados permaneçam
ocultas, é pelo preenchimento de um Partzuf inferior que a primeira Sefirá
de um superior estará acessível, revelando novas necessidades de
correção, e assim é mundo após mundo. Todos estes graus, aposentos do
Palácio, existem potencialmente para nós em nossos pontos no coração
que, uma vez despertados, nos permite redescobrir os mundos superiores.
Há cinquenta portas, ou dez Sefirot por mundo, de Malchut de Assia até
Keter de Adam Kadmon. Todos esses estágios passam pelas quatro fases
da Luz, pela relação entre Luz e vaso nas correções. Uma das portas não
tem lado, e por isso permanece fechada, é a porta do ingresso na
espiritualidade, que não se sabe como abrir com a razão e nem onde está,
se é neste ou noutro mundo, até que compreendemos a nos portar com a
54
fé acima da razão: então descobrimos que aquela porta já foi atravessada
e que restam quarenta e nove, já dentro do mundo espiritual. A chave que
abre e fecha todas as portas é o desejo: ela abre quando doa e fecha quando
recebe.

Cada uma dessas portas têm uma fechadura com um lugar estreito
que permite a introdução dessa chave, marcada somente com a
impressão da chave, que é a única reconhecível. E sobre este mistério:
“No princípio criou Deus”. Bereshit é a chave na qual tudo está oculto,
é a que abre e fecha, e seis portas estão incluídas nessa chave que
abre e fecha. Quando fecha essas portas, incluindo-as em seu seio,
então obviamente está escrito “No princípio” (Bereshit), uma palavra
que revela seis (Shit) em uma palavra que oculta, criar (Bará). E em
todo lugar Bará é uma palavra inacessível, fechada e não aberta.
As portas são os distintos graus que são abertos ou fechados na medida
em que a chave se adapta à fechadura e a gira. A chave é o nosso desejo de
espiritualidade que deve abrir tudo aquilo que embaraça nosso ingresso
num determinado grau, tentando nos convencer a desistir de abri-lo. A
chave é ZA, que se forma quando a Luz do desejo de doar por doar - Chaiá
- ingressa em Keter do Partzuf, a Vontade. As portas são abertas quando
a nossa fé supera a razão e são fechadas quando nosso desejo de
espiritualidade, de outorgamento, diminui. O próximo grau parece então
inacessível, fechado e não aberto.

55
Rabi Iosei disse: claro que é assim. Eu ouvi a Chama Santa (o Rashbi)
dizer o mesmo, que a palavra “criou” é inacessível, fechada e não
aberta. Todo o tempo em que estava fechado na palavra “criar”, o
mundo não tinha ser nem existência e o caos (Tohu) o cobria inteiro.
E enquanto dominava esse caos, o mundo não tinha nem ser nem
existência. Quando essa chave abriu as portas e se predispôs a atuar
e a gerar descendência? Quando chegou Abraão, tal como está
escrito: “Estas são as crônicas dos Céus e da Terra quando foram
criados”. E aprendemos: deve ler-se “beabraham”, “com Abraão”.
Sendo nossa natureza o desejo de receber, a doação está inacessível,
fechada e não aberta. O desejo maior de espiritualidade que conduz à alma
pelos mundos superiores e gera descendentes, ou seja, estados elevados,
começa a partir do grau de Abraão, quando se desfaz dos ídolos e sente
que não há outro além Dele.

E pelo fato de estar tudo oculto na palavra “criou” (bará), as letras


voltaram a fecundar-se e surgiu a coluna que gera descendência, o
“Membro” (ever), santo fundamento sobre o qual descansa o mundo.
Quando este “Membro” foi inscrito com a palavra “criou”, então o
Supremo Oculto traçou pelo Seu Nome e Sua Glória outra inscrição,
e esta é “Quem?” e “criou estes”.
Depois de criado, ou seja, depois de aberta a espiritualidade, surgem os
discernimentos representados pelas letras, que conduzem aquele que
discerne pela superação dos caminhos da esquerda com os da direita,
estabelecendo uma coluna central, o Equilíbrio, que é o alicerce do mundo
superior, baseado em Yesod, ou Fundação, pela qual se aprende a justificar
o Criador. À esquerda se inscreve "criou estes", as Sefirot de restrição,
julgamento, e, à direita, se inscreve "Quem", o ilimitado, a bondade. O
Justo, ou José, é o estado em que sua força de doação não se deixa tentar
pelos desejos de receber estranhos à sua espiritualidade. O Justo está
ciente de seus desejos de receber, não condena o Criador por tê-los, e
mantém-se firme no propósito de utilizá-los corretamente.
56
E também o Nome santo que foi bendito, que é o “Que?”, foi inscrito
e fez sair de “criou” o Membro. E ele está inscrito em Estes por este
lado, e Membro por este lado Oculto Sagrado, Estes existe, o Membro
existe: quando um se completa, o outro se completa. Grava neste
Membro a letra Hei, grava em Estes a letra Iud, quando as letras são
incitadas desta maneira a aprimorar ambos os lados, então surge a
letra Mem, uma é tomada desde um lado, outra pelo outro, completa-
se o Nome santo e surge Elohim.
"Que", a perspectiva do criado, é inscrita no mundo superior e faz sair do
desejo de receber Yesod, escrita de um lado, e a linha esquerda do outro,
a fim de que haja uma ascensão a partir de um estado restritivo. Yesod é
o menor senso de equilíbrio na espiritualidade, e ele está completo quando
a restrição se completa, e vice-versa, pois a restrição é a limitação que
precisa ser superada rumo a um senso de equilíbrio superior. Neste
estágio, a criatura não tem nada a doar ao Criador, deve perceber a
restrição como sombra de Kedushá até estar apta a receber um grau maior
de correção e revelação do Nome Elohim, reconhecendo que há um mundo
superior dependente de sua conduta e recebendo o Entendimento do que
deve corrigir em si. Em nome desta dependência, deve buscar ver em tudo
que se lhe sucede o bem, mesmo o que percebe como mal lhe é bom na
medida em que dá o Entendimento daquilo que deve ser corrigido.

Também acerca do nome de Abraão: quando se completou um,


completou-se o outro, e então houve descendência e emergiu o Nome
completo, o que não se sucedeu antes disso, tal como está escrito:
“Estas são as crônicas dos Céus e da Terra quando foram criados”.
Tudo estava em suspenso até que foi criado o nome de Abraão, e uma
vez que se completou este nome, o Nome sagrado Elohim se
completou. Tal como está escrito: “o dia em que O Eterno, Deus
(Elohim), fez a Terra e os Céus”.
O ingresso nos mundos superiores é alcançado ao mesmo tempo em que
57
o estado de Abraão é experimentado: neste estado todos os ídolos foram
banidos e é possível admitir conscientemente que não há outro além Dele.
A recepção deixa de fazer sentido em si e passa a ser medida segundo a
intenção de doar.

Rabi Chiya prostrou-se sobre a terra, beijou o pó e disse chorando:


“Pó, pó, quão duro és, quão presunçoso és, que todas as delícias aos
olhos corróis, todos os pilares luminosos do mundo devoras e
pulveriza. Quão presunçoso és! A Chama Santa que iluminava o
mundo, o grande e encarregado, por cujo mérito o mundo existe, será
corroído por ti. “Rabi Shimón, luz da chama, luz dos mundos, tu te
corróis no pó e tu existes e diriges o mundo”. Calou-se um instante,
disse: “Pó, pó, não te orgulhes, pois os pilares do mundo não serão
entregues a ti, já que Rabi Shimón não foi corroído em ti”. Rabi Chiya
se levantou e chorava. Partiu acompanhado de Rabi Iosei.
Ainda que alcançado este estado de Abraão, há momentos em que o desejo
de receber trará o cabalista em direção ao egoísmo mais fragmentado de
que sua natureza é feita neste mundo, e é sentido como um impeditivo
para a visão de maravilhas, para o preenchimento das Sefirot com a Luz
Refletida pela Masach. E tal parece ser impossível de ser superado que se
tem a impressão de que até mesmo aquele estado pelo qual adentrar o
mundo superior foi possível será devorado pelo desejo de receber para si,
perdendo-se os discernimentos de julgamento, bondade e misericórdia
com que se avança na espiritualidade. É preciso reagir a isso, sentir que
foi a Luz Superior que o trouxe aos mundos espirituais, que permitiu-lhe
cruzar a barreira, e que ela jamais será suplantada pelo ego: se o desejo de
avançar na espiritualidade for depositado na razão, será devorado pela
terra, será mantido prostrado junto ao pó e não se erguerá. Mas se este
desejo for elevado na firme convicção de que não há nada mais desejável
na terra do que a Vontade de doar, então é possível cessar as lamentações
de que a espiritualidade está sujeita ao desejo de receber para si e erguer
a santidade da poeira. Este estado de prostrar-se ao pó permite reconhecer
58
as formas do egoísmo a serem corrigidas; tal Entendimento equivale à
formação de Biná sendo preenchida pela Luz de Nefesh no Partzuf
trabalhado. Ciente do que é necessário corrigir, já é possível afastar-se da
imersão no mal, partindo dali.

A partir daquele dia jejuou quarenta dias para ver Rabi Shimón.
Disseram-lhe: "Não és digno de vê-lo” Chorou e jejuou outros
quarenta dias. Então mostraram-lhe em uma visão Rabi Shimón e
seu filho Elazar, ocupados em algo que havia dito Rabi Iosei,
enquanto milhares atendiam a suas palavras. Entretanto, observou
asas imensas, supremas, subiam sobre elas Rabi Shimón e seu filho,
e ascenderam à Academia Celestial. Todas aquelas asas
permaneceram esperando-os. Viu que regressavam, que seu
esplendor se renovava e que sua luz era mais radiante que a do
resplendor do Sol.
A partir da decisão de não permanecer no ego que impede de ver uma
fração maior da Luz, jejua-se quarenta dias, quer dizer, faz-se uma
restrição sobre os desejos que impedem de implementar o próximo nível
de correção. É um estado em que se faz tudo ao alcance para realizar as
correções, até se conscientizar de que elas não são suficientes para refletir
a Luz, de que são necessários outros quarenta dias, ou seja, outra
intervenção, desta vez a da Luz: esta é a intervenção que forma e reforça
a tela forte o bastante para refletir. A correção só é possível quando se
deseja efetivamente que os defeitos sejam corrigidos, que a qualidade que
os fundamenta não seja utilizada ou que haja um redirecionamento de sua
intenção em prol de outorgamento. Expõe-se à Luz Circundante e ela, por
si só, vai trabalhando no Vaso de tal maneira que seus desejos neste
mundo vão sendo modificados na raiz de sua realidade, em consonância
com o avanço nos mundos superiores. Quando os desejos relacionados ao
Partzuf em que o cabalista está trabalhando são corrigidos, ele é
recompensado com a visão dos próximos graus, das forças que o elevam
e de como a Luz preenche seu estado superior enquanto permite a Ohr
59
Pnimi.

Abriu Rabi Shimón e disse: que Rabi Chiya entre e que contemple
quanto O Santo, Bendito Seja, renovará os rostos dos justos no
futuro. Meritório é quem entra aqui sem vergonha e meritório é
quem se ergue nesse mundo como um pilar firme em tudo. E
observou que entrava, e que Rabi Elazar e o resto dos pilares que se
encontravam sentados ali se punham de pé. Ele se envergonhou,
retrocedeu e entrou, sentou-se aos pés de Rabi Shimón. Saiu uma voz
que disse: “Baixa teus olhos, não levantes tua cabeça e não olhes”.
Baixou seus olhos e viu uma luz brilhando ao longe. A voz voltou
como antes e disse: “Superiores, ocultos e inacessíveis, com os olhos
abertos, estes que sobrevoam todo o mundo: observai e vede!
Inferiores fechados em vosso sonho, despertai! Quem de vós
converteu a escuridão em luz e o sabor amargo em doçura antes de
chegar aqui? Quem de vós espera a cada dia o brilho da luz quando o
Rei recorda a corsa, é glorificado e proclamado como o Rei dos reis
do mundo? Quem não aguarda isto, dia a dia nesse mundo, não tem
porção aqui”.
Que possamos ver os novos Partzufim iluminados - é a promessa à
persistência na recusa ao pão da vergonha e à natureza má do desejo de
receber. Nessa persistência, a tela ergue-se no Partzuf para não mais
receber a Luz, mas refleti-la, de forma que nossa Consciência alcance o
fundamento da nova Sefirá adquirida no Alto. Mas é necessário baixar os
olhos, nossa AHP, para manter elevada a GE. É com os olhos abertos no
desejo de doação que se deve observar o próprio ego, de onde somos
convidados a ascender aos mundos superiores onde só ali somos capazes
de sentir as nossas imperfeições como indicadores dos trabalhos de
correção que necessitam ser realizados, transformando a escuridão em
Luz. Neste mundo, tudo o que temos em mente é evitarmos as
imperfeições do que desejamos sem as correções que somente na
espiritualidade são possíveis. Quem alcança os mundos superiores
60
trabalha dia após dia, de realização em realização, com as noites indicando
as imperfeições à espera da Luz, para aceitá-la na justa medida que
permite progredir à espera do Messias, do último grau de correção
expresso no desejo de revelar o Criador.

Entretanto, viu muitos de seus companheiros que se congregavam ao


seu redor, todos os pilares existentes. Viu-os ascender à Academia
Celestial. Uns subiam e outros baixavam, e, acima de todos, viu o
Senhor entre os seres alados, que veio e lhe jurou ter escutado detrás
da Cortina que a cada dia o Rei leva em conta a corsa que jaz no pó, e
nesse instante Ele golpeia os trezentos e noventa firmamentos
(rakiim), e todos tremeram e estremeceram (4b) ante Ele. Deixa
correr lágrimas por isso, e estas lágrimas ardentes caem como fogo
no Grande Mar, e destas lágrimas o encarregado do mar se ergue,
emerge e santifica o Nome do Santo Rei, e assume tragar as águas do
Princípio e juntá-las em seu seio quando todos os povos se unirem
contra o Povo Santo. E as águas secarão e eles poderão atravessá-las
secas.
Todos os estados pelos quais alguém passa na espiritualidade não são
perdidos, mas corrigidos, e neste processo, há ascensões e descidas, não
do grau em que se encontra, mas dentro do próprio nível que possui sua
inerente Bondade, Julgamento e Misericórdia. A cortina é a tela sobre o
Vaso e é sabido que o desejo do Criador é fazer o bem, e que este exílio de
sua santidade neste mundo, desprezada em meio aos fragmentos da Alma
comum, quando conscientizada por um destes fragmentos que é tomado
pelo desejo de retificar-se, faz com que surja no Vaso a Luz da
Misericórdia, pela qual revestirá a Luz Superior que sente como um golpe
sobre a sua tela. E tanto quanto a Luz de Hassadim envolve a de Chochma,
sente-se a descida da Luz, assim como a qualidade da ascensão da Luz a
partir da Tela. No interior do Vaso, terra, ou porções de egoísmo a serem
corrigidas, vão sendo reveladas e a intenção ao Criador precisa atravessá-
las.
61
Entretanto, escutou uma voz que disse: “Abram caminho, abram
caminho, porque o Rei Messias chega à Academia de Rabi Shimón! ”.
Porque os justos que ali estavam haviam sido Diretores de
Academias, e essas Academias eram conhecidas, e todos os
companheiros de estudo de todas as academias acendiam depois
desta Academia, à Academia Celestial. E o Messias vem de todas essas
Academias e põe seu selo na Torá sobre a boca dos Sábios. Nesse
momento, o Messias vem à Academia de Rabi Shimón, coroado pelos
diretores das academias com coroas supremas.
O Diretor de Academia é o grau alcançado por um justo em sua encarnação
e este grau está disponível para se associar à alma daquele que em seu
caminho se esforça nos passos percorridos por tal justo. E tal encarnação
ainda em vida habilita o cabalista a elevar-se na retificação dos seus
Partzufim. Trata-se de um Ibur, como o Santo ARI discorre em seu Sha'ar
Haguilgulim. E ao receber esta ajuda vinda de cima, é como se o cabalista
houvesse dado caminho para que a revelação do Criador se manifeste e
seja honrada pelo Justo que também é beneficiado na medida em que o
cabalista mantêm as qualidades de outorga que abrigam o Ibur e
permitem àquele Justo prosseguir sua obra rumo à Coroa, ao ápice
sefirótico da correção.

Nesse momento levantaram-se todos os companheiros e se levantou


Rabi Shimón, e sua luz ascendia até o extremo do Firmamento. Disse-
lhe: Rabi, és merecedor de que tua Torá se eleve em forma de
trezentas e setenta luzes, cada luz e luz subdividida em seiscentos e
treze significados que ascendem e se banham em rios de bálsamo
puro. O mesmo Santo, Bendito Seja, pousa seu selo sobre os
ensinamentos da Torá de tua academia e aos da academia de
Ezequias, rei da Judéia, e aos da academia de Achiya, o Silonita.
Quanto a mim, não vim para pôr meu selo sobre os ensinamentos de
tua academia, porque o ser alado é quem virá aqui, porque eu sei que
62
ele não entrará em nenhuma academia, senão na tua.
Quando o grau de um Justo se ergue na alma que o concebeu, esta alma é
elevada e as ascensões que fará trarão mérito também ao Justo do qual o
grau foi concedido. Quando chegar à correção das 613 Mitzvot executadas,
isso é, de todos os desejos, poderá receber toda a Luz do Criador, pois tanto
o pilar do Julgamento quanto da Bondade terá atingido o grau do Messias,
restando apenas que em seu lugar ao centro, toda sua recepção da Luz
revele os mundos superiores.

Nesse momento, Rabi Shimón começou a comunicar-lhe o juramento


solene proferido pelo Ser alado. Então o messias tremeu, elevou sua
voz e os firmamentos estremeceram e o Grande Mar estremeceu, o
Leviatã estremeceu e o mundo pareceu colapsar.
O juramento solene é o compromisso assumido pelo Vaso de não aceitar
o prazer que não seja aquele destinado a agradar ao Criador. Quando a
criatura experimenta a Luz Interna, há um desejo interior por mais Luz -
o Grande Mar se agita, e o Leviatã, nosso egoísmo nele, se manifesta, assim
como os firmamentos e o Messias, os graus e estados da força de doação
elevam sua voz e cabe ao vaso o livre arbítrio de escolher sabiamente no
revestimento da Misericórdia: Rabi Shimón dirige-se ao Messias, a Luz da
Misericórdia que se dirige à Luz de Chochma no grau da Revelação.

Entretanto, observou a Rabi Chiya aos pés de Rabi Shimón. Disse:


“Quem permitiu a um homem vestido com roupas desse mundo?”
Aquele que busca a Luz Superior, irá recebê-la ainda neste mundo físico,
a partir do menor grau de correção.

Rabi Shimón disse: “Este é Rabia Chiya, flamejante luz da Torá”.


Disse-lhe: “Que se reúnam ele e seus filhos e pertençam à tua
academia”. Disse Rabi Shimón: “Que se lhe dê mais um tempo”, e lhe
outorgaram tempo.
O grau superior certifica que a Luz Interna ingressou da forma correta no
63
Partzuf inferior e este pode, agora, assim como os estados superiores a
que vierem alcançar, em nome da Revelação do poder de doação,
alimentar a Luz Circundante com seu discernimento. Tempo na
espiritualidade equivale ao número de mudanças de estado em relação à
Luz, e o discernimento superior (Hassadim, poder de doação) lhe pediu
mais tempo, ou seja, mais mudanças que lhe permitam atingir maiores
correções. Mais tempo, neste mundo, equivaleria à prorrogação; na
espiritualidade, ao contrário, trata-se de uma aceleração, já que mais
estados lhe serão adicionados ainda na mesma encarnação.

O Messias saiu dali trêmulo, seus olhos banhados em lágrimas.


Estremeceu Rabi Chiya, e soluçando, disse: “Meritória é a porção dos
justos nesse mundo, e meritória é a porção de Bar Iochai que a
mereceu. Sobre ele está escrito: “Para fazer com que os que me amam
tenham sua herança, e que Eu encha seus tesouros”.
A Luz de Chochma revestida em Hassadim produz lágrimas, frações de
Luz Refletida que se tornam Luz Circundante, afetando a Luz Interna que
reconhece sua recepção como meritória porque justa, assim como
meritória é a doação realizada ao Criador, atraindo as almas dos sábios e
justos que amam aquele que busca sua retificação e que têm a
possibilidade de deixar suas vestimentas superiores como herança ao
cabalista que as recebe com mérito e as utiliza em adição aos méritos
daqueles que já as portavam.

“No princípio”. Rabi Shimón abriu: “Em tua boca, porei Minhas
palavras”. Quanto o homem deve se esforçar na Torá dia e noite!
Porque o Santo, Bendito Seja, atende a voz daqueles que estão
ocupados da Torá, e com cada palavra que se inova da Torá; através
do que este se esforça na Torá, faz um firmamento.
A Luz está destinada ao Partzuf e quando este recebe corretamente a Luz
Interna, seja durante os estados de fé acima da razão, seja naqueles em
que a razão se manifesta para revelar o mal, novos discernimentos são
64
revelados, e o desejo de doar é concedido pelo Criador, de tal maneira que
se produz a retificação do vaso e sua transformação num ser capaz de criar
e revelar o amor neste mundo.

Aprendemos que no momento em que uma palavra da Torá é inovada


pela boca de um homem, essa palavra se eleva e comparece ante o
Santo, Bendito Seja. E o Santo, Bendito Seja, toma essa palavra e a
beija, e a adorna com setenta coroas inscritas e gravadas. E a palavra
de Sabedoria que se inovou ascende sobre a cabeça do Justo Vivente
dos Mundos. E dali voa e atravessa setenta mil mundos até ascender
ao Ancião dos Dias. E todas as palavras do Ancião dos Dias são
palavras de Sabedoria, mistérios inacessíveis e supremos.
A palavra da Torá inovada pela boca de um homem é a Luz Interna que
eleva a tela de volta à boca do Partzuf elevando a Luz Refletida que
formará uma Sefirá inscrita acima e gravada pelas luzes de NaRaNChaY.
A Luz da Sabedoria refletida forma sempre o grau superior a que aspira o
justo, e na medida em que se eleva a Luz de Chochma, ela chega ao Criador,
cujas Sefirot descendem numa ordem de encadeamento da raiz até o ramo
mais longínquo, nosso mundo, num convite a subirmos os degraus até os
mistérios inacessíveis ao desejo de receber, mas não ao puro poder de
doação.

65
E essa palavra inacessível de Sabedoria que se inovou aqui, quando
se eleva, se une às palavras do Ancião dos Dias, ascende e descende
entre elas e ascende aos Dezoito mundos guardados que “nenhum
olho vira fora de ti, Deus”.
A União das palavras descrita é a transição de Katnut para Gadlut, quando
o GE do superior atrai GE e AHP do inferior e os une num Partzuf de dez
Sefirot. Como Partzuf completo, pode receber a Luz sobre seus desejos
corrigidos e toda a Luz Refletida passa a ser não apenas um olhar da
criatura, mas um olhar em D'us.

Sai dali, sobrevoa e chega repleta e completa, e se apresenta ante o


Ancião dos Dias. Nesse momento, o Ancião dos Dias cheira o aroma
dessa palavra que lhe resulta o mais agradável possível.
A Luz Refletida se eleva em seu maior grau no estado de Lishma, quando
há a intenção completa de agradar ao Criador.

Toma essa palavra e lhe cinge trezentas e setenta mil coroas. Essa
palavra volta a voar, ascende, descende, e se transforma num
Firmamento. E assim, cada palavra de Sabedoria se transforma em
firmamentos firmemente estabelecidos ante o Ancião dos Dias e Ele
os denomina “Novos Céus”, “Céus renovados”, os mistérios ocultos
da Sabedoria suprema.
A Luz Refletida retorna como reforço da Tela, permitindo ao Partzuf
tornar-se cada vez mais forte contra o egoísmo e mais aderido aos graus
superiores. Novos céus, novos graus de doação são alcançados,
renovando-se a força de outorgamento pelo estudo da Torá, que atrai a
Luz que reforma e permite a interiorização da Torá - Ohr Pnimi.

66
E todo o restante das palavras da Torá que se inovam se apresentam
ante O Santo, Bendito Seja, se elevam e resultam em “Terras de
viventes”, e descendem, são bem-vindos em uma Terra que se renova
toda e se transforma numa Terra nova, a partir da palavra renovada
da Torá.
As novas Sefirot formadas no trabalho de correção são elevadas, formando
vasos retificados a parte do desejo de receber original. Quando estas
Sefirot superiores são preenchidas pela Luz, o desejo de receber é
renovado por um propósito além do seu egoísmo, graças a palavra
renovada da Torá.

Sobre isto está escrito: “Porque como os Céus novos e a nova Terra
que faço permanecerão ante Mim...” Não está escrito “fiz”, mas
“faço”, que faz constantemente a partir dessas inovações e segredos
da Torá.
As estruturas espirituais surgidas pela interação entre a Luz e o Vaso,
assim como o desejo de receber o poder de doar permanecem, porque são
constantemente realizados. O grau de correção alcançado por esta fração
do desejo de receber encarnada neste mundo retornará na próxima
encarnação no mesmo ponto em que nesta foi interrompido.

Sobre isto está escrito: “E em tua boca pus Minhas palavras e com a
sombra de Minha mão te cobri, plantando Céus e estabelecendo uma
Terra”. Não está escrito “os Céus”, mas “Céus”.
O Criador deu condições para que a criatura possa doar usando seu desejo
de receber inexistente no Criador; mais, encobriu sua presença, criando
mundos superiores e este mundo de onde parte a Consciência do ser
fragmentado e de forma que a criatura possa, por si só, trabalhar pela
correção.

67
Rabi Elazar disse: o que significa “com a sombra da Minha mão te
cobri”? Disse-lhe: quando a Torá foi entregue a Moisés, vieram
milhares de anjos superiores para consumi-lo com as chamas de suas
bocas, mas o próprio Santo, Bendito Seja, protegeu-o. E agora,
quando essa palavra se eleva, é coroada e comparece ante O Santo,
Bendito Seja, Ele protege esta palavra e cobre o homem para que não
o conheçam, senão O Santo, Bendito Seja, e não tenham ciúmes dele,
até que se faça da dita palavra novos Céus e uma nova Terra. Tal como
está escrito: com a sombra da Minha mão, te cobri, plantando Céus e
estabelecendo uma Terra”.
Quando a porção de Luz da Sabedoria que corretamente adentra o Vaso
tornando-se Ohr Pnimi está presente, o Partzuf em formação é tentado de
dentro e de fora a experimentar mais Luz, o que deve ser detido pela
intenção de doar que remove a Luz para o exterior: a tela é a sombra da
mão do Criador que cobre o Partzuf e o protege de ser consumido pelo
desejo de receber. A Luz Refletida pela tela é palavra elevada, Sefirot, vasos
com a intenção de doar que são, cada um, uma correção, novos céus para
aquela terra, aquele desejo de receber que é protegido pela correta
Intenção.

Daqui todo aquele oculto ao olhar se eleva e se converte em algo


supremo, tal como está escrito: “com a sombra de Minha mão te
cobri”. E por que é protegido e coberto do olhar? Para que se converta
em algo supremo. Tal como está escrito: “plantando Céus e
estabelecendo uma Terra”, tal o mencionado.
A intenção está oculta, não pode ser vista como ocorre com a manifestação
do desejo. Mas é a intenção que se eleva e se converte em vasos de doação;
a intenção é protegida do desejo de receber para si, podendo, assim,
converter-se em níveis de doação sobre o desejo de receber, níveis de fé
acima da razão que são constantemente realizados.

68
“E diga a Sión: tu és Meu povo”. Para dizer a esses portais e a essas
palavras de excelência, uns sobre os outros: “tu és Meu povo”. Não se
deve ler “Meu povo” (amí), mas Comigo (imí), sendo sócio comigo,
assim como com a minha palavra fiz Céus e Terra, como está escrito:
“pela palavra do Eterno, foram feitos os Céus”, tu deves fazer o
mesmo. Meritórios aqueles que se esforçam na Torá!
Ser como o Criador significa manifestar uma intenção semelhante ao Seu
desejo de doar, tornando-se parceiro na criação, tendo a oportunidade de
fazer algo dedicado ao Criador, por meio da criação de seus próprios
firmamentos, do seu alcance de graus superiores na intenção de
outorgamento, corrigindo a sua terra, a sua fração deste mundo. Esse
esforço trará méritos àquele que se dedica.

E se dizes que toda palavra de todo homem, ainda que ignorante, atua
deste modo, venha e veja: aquele que não está acostumado aos
segredos da Torá e que inova palavras que não conhece como
corresponde, esta palavra se eleva, mas sai ao encontro desta palavra
o “ser da perversidade”, de linguagem mentirosa. Emerge das
cavernosas profundidades do grande abismo e dá um salto de
quinhentas parsaot para receber essa palavra de Torá. Aprisiona-a e
voa à sua caverna. Ali faz com ela um firmamento vão denominado
Tohu.
A recepção dos ensinamentos da Torá sem a exata correspondência pode
levar a uma compreensão equivocada das palavras, não reformando o
Vaso, mas criando um ambiente de caos, tal como a recepção de Luz sem
a ação da Masach. Então, como posso diferenciar discernimentos
ensinados pela alma, que cria novos Céus e nova Terra, de realizações
imaginárias que geram o caos? Sabendo que os discernimentos devem
gerar ou inspirar correções.

69
Esse “Ser da perversidade voa nesse firmamento, seis mil parsaot de
uma só vez. Depois que o firmamento vão já existe, imediatamente
surge “a prostituta” que se fortifica nesse firmamento vão e se
associa a ele. E dali sai e assassina a milhares e miríades, já que
enquanto se encontra nesse firmamento tem a autoridade e o poder
de voar por todo mundo em um instante. E sobre isso foi escrito: “Ai
dessas que trazem a iniquidade com cordas vãs. A iniquidade é o
masculino, e quem é o pecado? É o feminino. Ele tira-o com essas
cordas vãs, e depois ao pecado, como com roldanas, a esse ser
feminino denominado “pecado”, porque ali se reforça voando a
assassinar pessoas. Sobre isso: “Porque causou a queda de
numerosas vítimas”. Quem causou a queda? Esse pecado, que
assassina os homens. E quem causou isso? Um erudito da Torá que
não alcançou o nível de ensinar e ensina. Que o Misericordioso nos
salve!
É preciso prevenir que o desejo de receber para si agarre as palavras da
Torá e faça delas uma interpretação para quaisquer relações deste mundo,
fundamentadas na razão e, ainda pior, faça dela um ensinamento
equivocado que coloque a perder o desejo de doar em si e nos amigos. O
egoísmo é ampliado por uma inadequada relação com a Torá, e neste
ambiente de caos surge o desejo de receber para si ligado a este mundo. O
desejo de receber corrompido deixa de ser utilizado para a criação, quando
se associa ao egoísmo, e passa a impedir o surgimento de bons
discernimentos. A erudição tomada da Torá descomprometida com o
propósito da criação é uma erudição de caos, ela não permite adentrar e
sair em paz do pomar.

70
Rabi Shimón disse aos seus companheiros: suplico-vos que jamais
façais sair de vossas bocas uma palavra de Torá que não hajas
compreendido ou que não haveis escutado como é devido de uma
“grande árvore” para não provocar que esse pecado assassine os
homens gratuitamente. Abriram todos e disseram: “Que o
Misericordioso nos salve! Que o Misericordioso nos salve”.
Toda a Luz Refletida é precedida pelo cálculo da porção que pode ser
interiorizada em prol do Criador, portanto, principia com do que se deve
abster-se, compreendendo bem o que será interiorizado, o que será
associado ao Partzuf em preenchimento e o que não. Deste discernimento
de misericórdia alimenta-se a Luz Circundante. Portanto, "que o
Misericordioso nos salve", "que o Misericordioso nos salve", que Ele
permita recebermos a Luz de Chochma revestida na Luz de Hassadim,
para sua maior Glória, à elevação da Sua presença divina neste mundo.

Venha e veja: O Santo, Bendito Seja, criou o mundo mediante a Torá.


E é aqui que o estabeleceram tal como está escrito: “Eu era então Seu
artesão, e era Sua delícia dia-a-dia”. Ele a observou uma, duas, três,
quatro vezes, e depois a disse e com ela fez a Sua obra. Para ensinar
aos homens a não se confundir com ela, tal como escrito: “Então ele
a viu e a enunciou, estabeleceu seus limites e a revelou ao homem”.
E em correspondência a estas quatro vezes que aparecem no escrito
– Então ele a olhou, a enunciou, estabeleceu seus limites e a revelou
– criou O Santo, Bendito Seja, o que criou. E antes de iniciar Sua obra,
introduziu de antemão quatro palavras, tal como escrito: “No
princípio”, “criou”, “Deus”, “os”, quatro, e depois “os Céus”. Estas
em correspondência às quatro vezes que O Santo, Bendito Seja,
observou a Torá antes de realizar Sua obra.
O desejo de receber foi criado como uma forma de interiorização da Luz.
A fase Shoresh, o pensamento da criação, contém em si a Luz e o Vaso de
forma indistinta. Keter é o Artesão e Sua delícia, Sua obra, aquilo que é
fruto de seu desejo de doar e que é, por extensão, caro à Sua Vontade. A
71
seguir, ocorre as quatro fases da Luz Direta, culminando com a diferença
de forma entre o Criador e a criatura: Ele a viu (como Vaso a ser
preenchido), a enunciou (dando-lhe a conhecer sua condição de recepção
e um desejo de ser como o Criador de Quem recebe), estabeleceu seus
limites (de aceitar receber na medida de sua doação) e a revelou (como
Ohr Pnimi decorrente de um correto processo de recepção que permitirá
à quarta fase, Malchut, receber sem limites). Por meio destas quatro fases
conhecemos o Criador, "criamo-Lo" neste mundo, pelo motivo associado
às quatro palavras: No princípio, criou os (céus, os graus do desejo de
doar, para que possamos sermos capazes de receber todo o bem que Ele
nos reservou, incluindo a possibilidade de sermos como Ele,
doadores/criadores). A Torá, é, pois, a Luz Interna e seu objetivo é nos
aderir a Ele, ao atributo de Doação que nos corrige. Somente deste
discernimento podemos criar; qualquer outra recepção da Torá realizará
o caos e manterá a Divindade no pó.

Rabi Elazar foi ver Rabi Iosei, filho de Rabi Shimón bar Lekonia, seu
sogro, e Rabi Aba estava com ele. Atrás deles caminhava um homem
que guiava seus animais. Rabi Aba disse: abramos as portas da Torá,
porque é a hora e o momento de nos corrigirmos em nosso caminho.
Quando em um determinado grau se vislumbra a possibilidade de
ascender, há junto a si o discernimento de que uma correção é necessária
e a Torá é aberta com esta intenção. Isso é particularmente notável quando
se hesitou durante algum tempo em ler determinada obra, até que
finalmente a correta Intenção se manifesta e a obra cabalista é lida com o
fundamento da retificação. A possibilidade de ascender e o discernimento
da correção precedem o desejo de doar que guia os seus desejos animais
para a intenção espiritual.

72
Abriu Rabi Elazar e disse: está escrito “guardarás meus Shabat”.
Venha e veja: em seis dias O Santo, Bendito Seja, criou o mundo e em
cada dia revelou Sua obra e comunicou Sua força em cada dia.
Quando revelou Sua obra e comunicou Sua força? No quarto dia,
porque os três primeiros dias permaneceram fechados e não
revelados, e quando chegou o quarto dia fez emergir a obra e a força
de todos, já que o fogo, a água e o ar, se bem que sejam os três
elementos superiores, permaneceram em suspenso e sua ação não se
revelou até que a Terra os revelou. Somente então a ação de cada um
deles foi conhecida.
Shabat, o sétimo dia, é uma referência à Malchut corrigida. Trata-se de
manter a restrição, não profanando os vasos de doação com o uso
indiscriminado dos vasos de recepção. Este estado é alcançado depois da
criação de seis Sefirot em doação, Zeir Anpin. Em cada dia Zeir Anpin
revelou sua obra e comunicou sua força, mas, diz a seguir, que o fez no
quarto dia: trata-se de dois pontos de vista, o do Criador e o da criatura;
para a criatura, os três primeiros dias permaneceram ocultos. No primeiro
dia, revelou a Consciência (fogo), sentida abaixo como Misericórdia; no
segundo dia, o Entendimento (água), sentida abaixo como Juízo; no
terceiro dia, a Correta Intenção (ar), trabalhada como o pilar central que
equilibra o acréscimo e a rejeição. Mas esses dias só fazem sentido quando
revelados no quarto dia, ou seja, pelo desejo de receber carente dessa
retificação (terra), carente desses elementos. A tríade superior e a
possibilidade de executá-la em Zeir Anpin existe, mas está oculta até que
o desejo de receber do cabalista as revele em sua vida.

E se diz que isto se sucedeu no terceiro dia porque está escrito:


“Produza a Terra erva verde” e está escrito: “Produziu, pois, a
Terra”. Mas bem, isto, ainda que esteja escrito no terceiro dia, se
sucedeu durante o quarto, e foi incluído no terceiro para que sejam
um, sem divisão. E depois do quarto dia revelou Sua obra, ao
produzir ao artífice que dá forma a cada dia, porque o quarto dia é o
73
quarto pé do Trono supremo. E todos os atos de todos, tanto os dos
primeiros dias como os dos últimos, dependem do Shabat, tal como
está escrito: “E Deus concluiu no sétimo dia”. Este é o Shabat, e este
é o quarto pé do Trono.
O terceiro dia, Zeir Anpin, é aquele no qual o desejo de receber produz vida
acima do nível inanimado, mas só se sucede no quarto dia, porque Zeir
Anpin é a intenção, e Malchut, o quarto dia, é o desejo de receber em si,
então o trabalho revelado ocorre no desejo de receber mas é incluído na
intenção, para que sejam um. É depois do quarto dia, da criação da Sefirá
Malchut, em que está completo o Partzuf, a Luz de Yechida ingressa em
Keter e descende as luzes ao longo dos dias anteriores. Malchut é a base
da espiritualidade, criada para tornar possível ao homem receber e
outorgar ao Criador. E tanto as três fases da Luz Direta que a antecedem
como os demais dias que a sucedem: sua descida, este mundo e sua
ascensão em retorno, dependem apenas do Shabat, do estado corrigido
das almas, e este sétimo dia corresponde à Malchut retificada. O quarto
dia está para o primeiro, o quinto dia para o segundo, o sexto dia para o
terceiro, e o sétimo dia para o quarto, na realização dos propósitos de
correção dos Partzufim superiores, até o tikun final.

E se diz, então, o que significa “guardarás meus dias de Shabat”,


dois? Senão a noite de Shabat e o dia de Shabat, não há entre eles
divisão.
A noite do Shabat é o recebimento da Luz em Malchut: não há mais
correção aqui, mas um esclarecimento de que o trabalho de retificação em
cada Sefirot do Partzuf foi realizada, enquanto o dia do Shabat é o advento
da Vontade de corrigir um novo Partzuf; mas não são aspectos distintos,
senão que um mesmo processo: quando todas as Sefirot de um Partzuf
foram preenchidas com a Luz, se está apto a reiniciar o trabalho num grau
mais elevado, que culminará com o Shabat consecutivo, e assim por
diante.

74
Disse aquele homem que guiava seus animais detrás deles - e que
significa: “E Meu santuário temereis”? Disse-lhe: refere-se à
Santidade do Shabat. Disse-lhe: e o que é a “Santidade do Shabat”?
Disse-lhe: é a Santidade conferida desde o Alto. Disse-lhe: então
transformas o Shabat em algo propriamente carente de Santidade, já
que a Santidade lhe foi conferida desde o Alto.
A correta Intenção que submete seu desejo de receber e o conduz faz do
Partzuf um santuário onde o temor por preenchê-lo indignamente se faz
recordar. É a Santidade da retificação, Santidade que não é inerente à
correção, ao trabalho do cabalista, mas é conferida pelo Alto: é a Luz do
Criador que cria os vasos de doação, a começar pela Vontade de outorgar;
devemos por ela pedir, pois é contrária à nossa natureza. A tentativa de
correção, por si, carece de Santidade, pois é trabalhada pelo desejo de
receber em seu próprio desejo de receber que é egoísta e sem Santidade
inerente.

Disse Rabi Aba: e assim é, “e chamarás delícia o dia de Shabat, pela


Santidade do Eterno glorificado”. É mencionado por uma parte o
Shabat e por outra a Santidade do Eterno.
É o Criador que santifica o Shabat, não fosse assim, a retificação seria uma
ação moral sem resultados além daqueles propostos no âmbito deste
mundo, e com todas as limitações inerentes ao desejo de receber.

Disse-lhe: sendo assim, o que é a “Santidade do Eterno”? Disse-lhe:


é a Santidade que descendo do Alto pousa sobre ele. Disse-lhe: se é a
Santidade que procede do Alto a que se chama “glorificada”, resulta
que o Shabat mesmo não possui glória, e é aqui que está escrito: “e
vós o glorificareis”.
No trabalho, há o despertar do Alto e o despertar de baixo. A Santidade
desce do Alto sobre o trabalho da correção, que lhe é oferecido como um
sacrifício. Para que o Alto realize a retificação de nosso desejo de receber,
criando os vasos de doação apropriados, é preciso que nos esforcemos
75
para desejar esta realização, que começamos em lo Lishma e desta para
Lishma. O trabalho, por si, não possui glória, mas é glorificado pela
intenção de realizá-lo em prol do Criador, em prol do desejo de doar, não
no desejo de sentir-se bem ou ser melhor, ou alcançar qualquer bem para
si mesmo.

Rabi Elazar disse a Rabi Aba: deixe esse homem, porque possui
palavras de sabedoria que nós não conhecemos.
Seja receptivo ao grau superior que revelará reshimot ainda
desconhecidas. Exponha-se à Luz Circundante com a correta Intenção, a
de se corrigir.

Disseram-lhe: Falas tu!


O estado de realização próprio ao condutor de burros agora pode ser
sentido, ouvido, pelos desejos retificados significados em Rabi Elazar e
Rabi Aba.

Abriu e disse: “Meus dias de Shabat” (et shabtotai). A palavra et


[designando o plural] inclui o limite do Shabat, que é de dois mil
amot em cada direção. E por isso agregou shabtotai, o qual refere ao
Shabat do Alto e ao Shabat de Baixo, que são dois e estão unidos como
um, e são ocultos como um.
O estado de Shabat contêm três discernimentos: a Noite do Shabat, ou
Primeira Refeição; a Manhã do Shabat, Shabat do Alto, ou Segunda
Refeição; a Tarde do Shabat, Shabat de Baixo, ou Terceira Refeição. Todo
o trabalho foi realizado durante os seis dias nos quais são criadas as Sefirot
e preenchidas com a Luz, até que a última Sefirá, Malchut, é preenchida,
completando um Partzuf.

Surgiu outro Shabat que não havia sido mencionado, e estava


envergonhado. Disse diante do Senhor do mundo: desde o dia em que
me fizeste fui chamado Shabat e não há dia sem noite. Disse-lhe o
76
Criador: “Filha Minha, tu és Shabat e Shabat te chamarei. Mas eu te
porei uma coroa mais suprema”. Um arauto passou e disse: “Meu
santuário temereis”, fazendo referência ao Shabat da noite de
Shabat, que é o temor e sobre o qual descansa o temor.
Para que haja o Shabat, Malchut corrigida, deve haver uma Malchut a ser
retificada durante os seis dias nos quais são criadas e preenchidas as
Sefirot. Na noite do Shabat, a Sefirá Malchut é preenchida, a que se refere
"e o meu Santuário temereis", isto é, não corrompemos o desejo de
receber com algo fora da correta Intenção, mantivemos as restrições
necessárias para Malchut ser corrigida. Malchut, chamada de filha, alude
ao desejo de receber em Nukva, que receberá a coroa, ou seja, a elevação
à Keter, de onde vêm a Vontade da espiritualidade, da correção, do desejo
de doar. A noite do Shabat é a Consciência do pleno preenchimento do
Partzuf corrigido, e o dia equivale à recepção de Keter de um novo nível.

E quem é? O Santo, Bendito Seja, o incluiu e disse: “Eu sou O Eterno”.


O Eterno se manifesta como atributo do Ser unificado como princípio e
fim do desejo, e o Shabat permite este reconhecimento integrando
Malchut.

E eu escutei meu pai dizer assim, e especificou que et inclui o limite


de Shabat. “Meus Shabat” é um círculo no interior do qual se
encontra um quadrado, e são dois, e em correspondência com estes
há duas Santidades que devemos mencionar: um Vaiejulu, e outro o
Kidush. O Vaiejulu tem trinta e cinco palavras, e no Kidush que
santificamos também há trinta e cinco palavras, e tudo soma como os
setenta Nomes do Santo, Bendito Seja, e a congregação de Israel é
coroada com eles.
Escutar corresponde a um despertar do Alto, enquanto fazer é um
despertar de baixo, um trabalho de refletir a Luz (o convite "venha"), para
ver a obra Divina, a Luz que cria e preenche os vasos de doação (veja, como
resultado do convite proposto e aceito). E por vir e ver ("faremos"), nós
77
"ouviremos", sentiremos aquele estado de realização em nós. Na noite de
Shabat veremos, como resultado de vir ao Criador durante os seis dias;
durante a tarde do dia, ouviremos. "Meus dias de Shabat", então, alude à
continuidade de fazer e ouvir, realizações que são como um quadrado
dentro de um círculo: o fazer do cabalista está limitado pelo quanto de
intenção de doar consegue sobrepor ao desejo de receber - o quanto de fé
acima da razão pode manifestar, e esta limitação, o quadrado, a correção
que ele alcançou, foi inscrita dentro de um círculo, de um sem fim, para
que possa haver o trabalho que justifique ao cabalista ouvir, uma audição
infinita dentro dos limites do seu quadrado, do que seu próprio desejo de
receber imponha. E assim como Vaiejulu e Kidush se equivalem no
número de palavras, assim o fazer e o ouvir correspondem entre si, o
despertar do Alto sendo proporcional ao de baixo, e vice-versa, e esta
proporção adiciona entre si, é soma, pois na espiritualidade não há
mudança, mas adições. Esta soma, os Setenta Nomes do Santo, coroa a
Congregação de Israel, as almas corrigidas: concede Keter de um novo
grau ao Partzuf corrigido.

E como este círculo e este quadrado são “Meus Shabat”, ambos estão
incluídos em “guarda”, tal como está escrito: “guardai-os”, já que o
Shabat do Alto não está incluído em “guarda”, mas em “recorda”, e
por isso é denominado “O Rei que possui a paz”. Sua paz é o
“recorda”, e por isso não há disputa no Alto, já que Abaixo há duas
“pazes”: uma de Jacó e uma de José, e por isso está escrito duas vezes:
“Paz, paz, para o distante e para o próximo”. “Para o distante” é Jacó,
e “para o próximo” é José.
No Shabat, não há trabalho, compete à criatura guardar seus sentidos
espirituais próprios ao primeiro e terceiro discernimentos, e a recordar no
segundo. Na Noite de Shabat vê-se a Luz já posta contra a escuridão que
chega: contempla-se o desejo de doar contra o fundo de egoísmo que
aparece e a outorga parece mais prazerosa. Corresponde ao "Veja", que foi
precedido pelo convite ao trabalho "Venha" executado durante os seis dias
78
de correção. Na manhã de Shabat, recordar significa sentir a revelação de
reshimot para receber a Luz de Nefesh do próximo grau. A Tarde do
Shabat é a Vontade de receber novas correções, de adentrar o grau
superior. "Ouviremos", como resultado do "Faremos" já executado
durante a semana. É a Sefirá Keter e seu preenchimento inicial pela Luz
de Nefesh no grau superior ao do Partzuf corrigido previamente. Enfim, a
Noite do Shabat é a Consciência de ter efetuado a correção, o
conhecimento do egoísmo corrigido e o temor que mantém a intenção
correta; a Manhã do Shabat é a ação da Luz Superior na revelação em
tempo acelerado de um novo grau de correções que devem ser realizadas;
a Tarde do Shabat é a Vontade de efetuar as novas correções do grau
superior, a aquisição de um novo Nome (uma nova revelação) do Criador,
por amor a Ele, manifestado no desejo de doar que pretendemos adquirir
num nível cada vez maior. Do temor ao amor: a noite de Shabat anuncia
a unidade do dia de Shabat, na manhã que é Ele e na tarde que é Seu
Nome. Na unidade está a paz, e é para esta paz que é dito "recorda", pois
há frações do desejo de receber em diferentes graus, das mais leves, mais
próximas, às mais densas, mais afastadas, a serem corrigidas. Na tarde do
Shabat, as duas formas de paz para que não haja conflito no Alto (reshimot
não corrigidas) são esclarecidas: a das qualidades mais próximas
pertencem a José, Yesod, Sefirá que liga as qualidades superiores à
Malchut; as mais afastadas são de Jacó, Tiferet, que liga o triângulo
superior das Sefirot ao inferior. Juntas, as qualidades dos patriarcas
formam Zeir Anpin.

“Para o distante”, tal como está escrito: “O Eterno apareceu diante


de mim à distância” e “sua irmã estava ao longe”. “Para o próximo”,
tal como escrito: “Novamente se aproximaram”.
A distância, na espiritualidade, diz respeito à equivalência de forma com
as qualidades de doação do Criador. Quanto mais semelhantes, maior
proximidade, até se tornarem a mesma entidade; quanto mais diferentes,
maior distância e uma entidade totalmente independente. Na bondade do
79
Criador, é possível vê-lo, mesmo que distantes (imersos em maior
egoísmo), assim como a possibilidade de retornarmos a Ele (retificar
nosso desejo de receber neste mundo).

“De longe” é o ponto supremo que reside em Seu Palácio e sobre isso
está escrito: “Guardareis”, porque está incluído no “guardar”. “E
meu Santuário temereis”, é o ponto que se encontra no centro e que
se deve temer acima de tudo, porque seu castigo é a morte, tal como
está escrito: “Quem o profane, morrerá”. Quem é o que o profana?
Quem penetra ao interior do círculo e do quadrado, ao lugar no qual
reside o ponto, e atente contra ele, morrerá. Sobre isso está escrito:
“temereis”. E esse ponto se denomina “eu” e sobre ele descansa o
segredo supremo e inacessível que é O Eterno, e tudo é Um.
O ponto supremo é Keter; a Vontade de correção deve ser guardada,
protegida ante os desejos de receber deste mundo. O Santuário é o Partzuf,
que não deve ser profanado pelo desejo de receber para si, o que resultará
em morte, em ação egoísta que coloca a perder sua alma. Este que o faz, o
profanador, atenta contra a correção já realizada (o quadrado) e contra o
círculo (as correções que estariam por vir). A morte ocorre porque o ponto
interno às correções é Eu, a unidade de sua alma com o Criador.

Rabi Elazar e Rabi Aba desceram e o beijaram. Disseram: “Que


sabedoria há sob tua mão e conduzes os animais detrás de nós!”
Disseram-lhe: “Quem és?” O homem lhes respondeu: “Não
pergunteis quem sou. Antes, eu e vocês caminhemos juntos e nos
ocupemos da Torá. E cada um dirá palavras de Sabedoria para
iluminar o caminho”.
Os atributos dedicados à doação deixam seu ego animal e se dirigem à
Sabedoria com a qualidade de Misericórdia, mas querem, também,
compreendê-la e são aconselhados a não inquirir isso, mas a ocuparem-se
do caminho da correção: cada atributo corrigido acenderá as Sefirot que
permitirão reconhecer e prosseguir com segurança na retificação.
80
Disseram-lhe: “Quem te pôs a andar aqui e a guiar animais?” O
homem lhes disse: “a letra Iud iniciou uma batalha contra duas
letras, a Kaf e a Samech para que se unissem comigo. A Kaf não quis
abandonar seu posto e unir-se, já que não podia estar nem em um
instante senão ali. A Samech não quis abandonar seu posto porque
devia servir de apoio aos que caem, os que sem a Samech não podem
existir. Só a Iud veio até mim, me beijou e me abraçou, chorou comigo
e me disse: “Filho meu, que posso fazer por ti? Mas partirei e me
encherei de inumeráveis coisas boas e de letras supremas, secretas e
valiosas, e depois disso voltarei a ti, te ajudarei e te darei o legado de
duas letras ainda mais eminentes que as que se foram, que são a Iud
e a Shin, a Iud superior e a Shin superior, e serão para ti tesouros
recheados de tudo. E por isso, filho meu, vê e conduz os animais. E
por isso viajo desta maneira”.
A pergunta inicial faz compreender que o condutor de burros é a Luz
Circundante. E ela responde que está presente pela Vontade do Criador,
recordando ainda que é necessária à Luz de Misericórdia para receber a
Sabedoria com vestimenta adequada (indicada por Iud), lutando contra as
forças de Sitra achra que mantêm o foco no desejo de recompensa para si
(indicada por Kaf) e na dupla ocultação (indicada por Samech). Dessa
forma, essa Sabedoria pode ser recebida pelo Justo que constitui seu
Partzuf e alimenta a Ohr Makif que se reveste de Iud (a Sabedoria que cria
um vaso e o preenche) e Shin (O desejo de elevar aqueles que se expõem
a esta Luz). É pela Luz Circundante que adquirimos a Vontade inicial de
nos corrigirmos (ou continuarmos a correção de encarnações anteriores)
e podermos constituir um Partzuf apto a receber a Luz, dotado de uma
tela apropriada.

Rabi Elazar e Rabi Aba se alegraram e choraram. Disseram-lhe: “Vê,


monta e nós guiaremos os animais atrás de ti”. Disse-lhes: “Não disse
que o Rei me ordenou continuar assim até que apareça aquele que
81
virá montado em um asno?” Disseram-lhe: “Não nos disseste teu
nome. Teu lugar de residência, qual é?” Disse-lhes: “Meu lugar de
residência é bom e de alto valor para mim, e é uma Torre que voa
pelos ares, grande e querida. E os que habitam nesta Torre são O
Santo, Bendito Seja, e um pobre. Esse é meu lugar de residência.
Exilei-me dali e sou condutor de animais. Rabi Elazar e Rabi Aba
contemplaram-no, degustando suas palavras, que eram doces como
o maná e o mel.
Sob a Luz Circundante, os discernimentos superiores desejam guiar seu
ego seguindo sua revelação. Mas a Luz tem por finalidade não guiar, mas
fortalecer a correta Intenção para que o discernimento do Messias surja já
subjugando o ego; que cada um de nós seja um condutor de asno, que
sejamos parte da Luz Circundante para com nossas realizações
iluminarmos outros buscadores no Caminho. Nos discernimentos, surge
o desejo de saber que estado e em que grau a Luz Circundante habita (tal
como se fosse uma força que pudesse ser invocada quando num estado de
ocultação). Em resposta, é dito que esta Luz habita uma Torre que voa
pelos ares: um estado de onisciência elevado, acima da realidade deste
mundo, da razão, do ego, e que não se ergue da terra, não é fundada no
desejo de receber, mas se manifesta no próprio ar, no desejo de outorga.
E é a residência do Criador e de um pobre (do desejo de doar e do desejo
de receber carente de Luz, restrito), da qual a Luz Circundante se exilou
por Vontade própria - permanecendo disponível neste mundo para
aqueles que se expõem a ela, conduzindo os egos para o desenvolvimento
da correta Intenção. Assim, quem estuda a Torá no nível Sod, está apto a
se deliciar com suas palavras: a experimentar os estados descritos.

Disseram-lhe: “Se nos disseres o nome de teu pai, beijaremos o pó de


teus pés”. Disse-lhes: “Para que? Não é meu hábito me vangloriar da
Torá. Mas meu pai habitava no Grande Mar, era um peixe que
rodeava o Grande Mar de um extremo ao outro. Era grande,
inestimável e ancião em dias, que poderia tragar ao resto dos peixes
82
do mar e devolvê-los vivos e repletos de toda a bondade do mundo.
Atravessava o mar num só instante com sua força, e disparou-me
como uma flecha em mãos de um guerreiro poderoso, ocultando-me
naquele lugar de que vos falei, e ele regressou ao seu lugar, e
permaneceu oculto naquele mar”.
Em outras palavras, perguntam que estado dá origem à iluminação, e o
condutor responde que não se deve gabar-se disso, mas que o estado que
lhe deu origem é aquele que contém Malchut dentro de si e que pode
atravessar rapidamente todos os desejos de que necessita corrigir num
menor número de encarnações possíveis, e que pode reunir em si a
realização dos sábios, tanto quanto pode dar-lhes em Malchut o bem. E
este estado anterior, ou pai, é o nível da Alma alcançado que pode elevar
a sua fração de Luz e lançá-la à Luz Circundante, enquanto o pai mesmo,
regressa à Malchut, reencarnando e permitindo que o seu grau superior
na última encarnação ou mesmo nesta vida possa iluminar ou associar-se
por Ibur a outra fração da Alma que procura sua correção neste mundo.

Rabi Elazar contemplou suas palavras. Disse: “Tu és o filho da Chama


Santa! És o filho de Rabi Amnuna, o Ancião! És o filho da Luz da Torá
e caminhas detrás de nós conduzindo animais!”. Choraram junto,
beijaram-no e seguiram andando. Disseram-lhe: talvez agrade a
nosso mestre nos revelar seu nome”.
Rabi Amnuna, Chama Santa ou Luz da Torá é Ohr Pnimi, Luz Interior. O
condutor de animais, ou Luz Circundante, decorre da Ohr Pnimi, como
fagulhas que permanecem fora do Partzuf e que podem iluminar outros
vasos em busca de correção. Por isso é admirável que o condutor esteja
por trás de toda a iluminação, e uma forma de ser grato ao Criador e dar-
Lhe contentamento é revelar Seu Nome, quer dizer, de estudar a Torá com
o objetivo de que outras frações da Alma sejam beneficiadas com a sua
realização como contribuição para a Luz Circundante. Que este estudo e
estas revelações recebidas sejam em mérito aos sábios que nos
proporcionam ascensão e para o mérito de todos que buscam a Luz no
83
Caminho!

Abriu e disse: Benaiahu, filho de Iehodiadá, filho do homem vivo,


grande em proezas, de KaBetzel, castigou a dois leões de Moab e ele
mesmo desceu e castigou o leão no meio do fosso em um dia de neve.
E ele castigou o homem egípcio, homem de aparência, e tinha o
egípcio uma lança em sua mão, mas desceu até ele com um cajado e
arrancou a lança da mão do egípcio e o matou com sua própria lança.
Foi o mais glorioso dos trinta, mas a três não alcançou; Davi admitiu-
o em seu conselho”. “Este versículo já foi explicado e bem, mas este
versículo vem a ensinar supremos segredos da Torá”.
Pela Luz Circundante, alimentada pelas fagulhas da Luz Interior expelida
de cada alma em retificação, se alcança a raiz espiritual comum com os
Sábios Justos que chegaram a grandes graus de correção. A natureza
destas correções será explicada pela Luz.

“Benaiahu, filho de Iehodiadá” alude ao segredo da Sabedoria, é uma


palavra fechada e seu nome influi.
Neshamá de Yechida, equivalente em Gematria a Benaiahu (filho de)
Iehodiadá. Filho do Homem Vivo, ou seja, Adam Kadmon. Trata-se, então,
do grau de Neshamá de Yechida de Adam Kadmon, o pensamento que
retifica o desejo de revelar na unificação das Almas que buscam o
propósito da correção. Alude ao segredo da Sabedoria, aquele que é
conhecido pelos cabalistas desse grau, ou seja, o nível de correção que eles
necessitam implementar com o grupo em que estão presentes, e que conta
com almas em diferentes níveis de realização, inclusive aqueles iniciais
que se dedicam às correções individuais de suas almas e que, portanto,
desconhecem o segredo da Sabedoria no grau superior referido, que é o
antepenúltimo, o 123º degrau. É uma palavra fechada: pertence a Torá
oculta; e seu nome influi: este grau pode iluminar as almas do Grupo ou
do Caminho comum por Ibur, ou por sua contribuição à Luz Circundante.

84
“Filho do homem vivo” designa ao Justo vivente dos mundos.
“Grande em proezas”: mestre de todas as ações e de todas as hostes
do Alto, porque todos procedem dele; é “O Eterno das hostes”. O
signo de todas as Suas hostes, é considerável e exaltado acima de
tudo. É “grande em proezas”.
As almas iniciam como o Justo vivente dos mundos, o grau de Yesod, até
alcançar o de Grande em proezas, ou Gadlut, sob o Eterno das Hostes, o
discernimento de que o Criador está acima de todos os desejos.

“De KaBetzel”, esta árvore grande e proeminente. Maior que tudo; de


onde procede? De que grau provem? Retornou ao versículo e disse:
“De KaBetzel”, o grau supremo e inacessível que “nenhum olho
viu...”. Um grau que possui tudo, que reúne em seu seio a Luz
Suprema e do qual tudo emerge. Ele é o Palácio santo e oculto de onde
todos os graus se reúnem e são confinados, e dentro do corpo deste
Palácio moram todos os mundos e todas as santas hostes se
sustentam e mantem sua existência graças a Ele.
KaBetzel é Malchut de Einsof, o grau supremo e inacessível que nenhum
olho viu, porque neste estado não há restrição, ocultação ou retificação;
portanto, não há Luz Refletida. É a criatura completa, de onde vêm todos
os mundos e ocultações que por este Palácio existem. Um Palácio, uma
habitação digna da Luz que nele reside.

Ele castigou a dois leões de Moab: dois Templos existiam por Seu
intermédio, e se sustentavam graças a ele, o Primeiro Templo e o
Segundo templo. Devido a que ele se retirou, o fluxo que se
derramava desde o Alto foi interrompido. É como se Ele os tivesse
castigado, destruído e aniquilado. E o santo Trono caiu, como está
escrito: “estando eu em meio ao exílio...” Esse grau denominado “Eu”
está em exílio. Por que “junto ao rio Kvar”? Junto ao rio que corria e
fluía, e cujas águas foram interrompidas e já não corre como antes.
Tal como está escrito: “o rio está esgotado e seco”, “esgotado” pelo
85
Primeiro Templo e seco pelo Segundo. Por esta razão, “castigou aos
leões de Moab”. “Moab”, que eram do Pai (Ab) que está no Céu, e
foram destruídos e aniquilados por Ele, e todas as luzes que
iluminavam Israel escureceram.
Neshamá de Yechida de Adam Kadmon, o pensamento que retifica o
desejo de revelar na unificação das Almas que buscam o propósito da
correção, sustenta dois Templos: o Primeiro (Luz de Chaiá, que está sendo
construído a partir de seu nível) e o Segundo (Luz de Neshamá, o próprio
grau em que se encontra). Se o pensamento for retirado do desejo pelo
cabalista, interrompe-se o fluxo de Luz Superior, tal como as águas do rio
Kvar - Chaiá não desce para Keter - o rio é exaurido - e Keter é esvaziada
da Luz de Neshamá - o rio tornando-se seco -, destruindo-se os dois
Templos. Eu, a unidade das Sefirot inferiores com as superiores no último
mundo de adesão ao Criador é exilado; e porque o pensamento foi retirado
do desejo, não há também a intenção de retificar o desejo de revelar na
unificação das Almas, o próprio grau de Aba a quem Biná sustentava como
antecedente. E, assim, não há mais luzes iluminando o desejo de revelar o
Criador - Israel no mundo de Adam Kadmon.

Ademais, “desceu e castigou o leão”: em tempos antigos, quando esse


rio derramava suas águas Abaixo, os filhos de Israel existiam com
integridade, ofereciam sacrifícios e oblações para expiar sua alma, e,
então, do Alto, descia a figura de um leão. Todos podiam vê-lo sobre
o altar, debruçado sobre sua presa, devorando os sacrifícios como um
homem poderoso. E todos os cães se escondiam dele, e não saíam
para fora.
O Leão é o desejo de doar, que com o fluxo sefirótico interrompido, é
prejudicado. Antes da criação dos mundos de BYA, o fluxo de Luz
convergia de Adam Kadmon para Atzlut sem a possibilidade de
interrupção; havia o desejo de aderir ao Criador com integridade, e os
discernimentos de restrição (sacrifício) e intenção (ao Criador) estavam
presentes para a correção da Alma. Este é um estado que deve ser
86
recuperado. A figura do Leão descia do Alto (Luz Direta), postava-se sobre
o Altar (Partzuf), agachado sobre a presa (submetendo o desejo de receber
oferecido) e devorava o sacrifício (penetrava o Partzuf com a necessária
restrição). Devorava como um Homem Poderoso (como uma criatura
independente que resolve de livre arbítrio aderir ao Criador). Todos os
cães (os desejos de receber para si) se escondiam ante o Leão (não eram
expostos para receber a Luz).

Mas quando prevaleceram os pecados, Ele desceu aos graus


inferiores e matou esse leão, porque ao não lhe dar sua presa como
antes, é como se o houvesse morto. Ele “castigou o leão”, certamente.
Quando prevalece o desejo de receber, a Alma cai para graus inferiores e
o desejo de outorgar desaparece, porque o receber para si não é mais
restrito.

“Em meio ao fosso”, à vista do “Outro Lado mau”. Vendo isso, o Outro
Lado ganhou forças e enviou um cão para consumir as oferendas.
Qual era o nome desse leão? Oriel, porque seu rosto é o de um leão.
E qual é o nome desse cão? Baladón é seu nome, porque nada é para
um homem, senão um cão, e o seu rosto é o de um cão. “Em um dia
de neve”: quando os pecados influíram e o juízo foi pronunciado
sobre o tribunal do Alto, e sobre isso está escrito: “não temerá sua
casa pela neve”; é o juízo supremo. E por que? Porque “toda sua casa
está coberta de carmesim”, e pode suportar um fogo poderoso.
Em meio ao fosso, quer dizer, tomado pelo egoísmo; neste estado, o desejo
de receber para si ganhou força e quebrou a restrição. Isso ocorre num dia
de neve, quando fazendo uso do livre arbítrio, o cabalista escolhe o pecado,
abrindo mão da restrição ao desejo de receber para si. Tal não ocorreria
se a sua casa, seu Partzuf, estivesse coberta (pela masach) de forma a
resistir à Luz Direta. Até aqui, o mistério do versículo. Que está escrito
depois? “E ele castigou o homem egípcio, homem de aparência”. Aqui o
segredo do versículo vem a nos ensinar que cada vez que os filhos de Israel
87
pecaram, ele se afastou e os privou de todo o bem e de todas as luzes que
os iluminavam. Quando pecamos, quando caímos no receber para si, o
próprio ego (homem egípcio) é castigado, porque todo o bem que vem do
prazer de doar deixa de ser experimentado. Além disso, da mesma forma
como o homem espiritual, altruísta, deixa de preencher as Sefirot com as
luzes, na materialidade o homem corporal experimenta o sofrimento
neste mundo, em sua encarnação ou numa posterior.

E ele castigou um homem egípcio”: era a Luz, porque essa Luz os


iluminava, a Israel. E quem é? Moisés, porque está escrito: “E
disseram: um homem egípcio nos salvou”, porque ali nasceu, ali
cresceu, e ali ascendeu até a Luz Suprema.
O homem egípcio, o desejo de receber para si, é a origem do grau de
Moisés. Ele nasce, cresce e ascende deste desejo de receber para si, que é
a Luz de Nefesh preenchendo a Sefirá Keter.

“Homem de aparência”, tal como está dito: “em clara aparência, e


não em enigmas”.
O Homem de Aparência é o desejo de receber independente do Criador.
Não está em enigmas, não está num estado de formação como ocorre
antes de Bechina Dalet. Neste estado, está em completa oposição ao
Criador.

“Homem”, tal como está dito: “um homem de Deus”. É como se fosse
o esposo dessa Glória do Eterno, pois mereceu conduzir esse nível
sobre a Terra à sua Vontade, o que nenhum outro homem mereceu.
Diz-se que o Homem é o estado humano que mereceu esse título, a partir
do momento em que reconhece o desejo de aderir ao Criador e esforça-se
em colocar esta fé acima da razão.

“E tinha o egípcio uma lança em sua mão” é o cajado de Deus que lhe
foi entregue em sua mão, tal como está escrito: “o cajado de Deus está
88
em suas mãos”. Este é o cajado que foi criado na véspera do Shabat,
entre o dia e a noite, no qual está inscrito o Nome santo, a santa
inscrição. E com este pecou na rocha, tal como está dito: “Ele golpeou
a rocha com seu cajado em duas ocasiões”. O Santo, Bendito Seja, lhe
disse: “Moisés! Não te dei Meu cajado para isso. Por tua vida, daqui
em diante não estará em tuas mãos. Imediatamente “desceu até ele
com um cajado”, com um duro juízo e “arrancou a lança da mão do
egípcio”. Desde esse momento foi privado do mesmo, e não esteve
mais em sua mão.
O desejo de receber tinha uma lança em suas mãos, um cajado entregue
na véspera do Shabat: é o sentimento de adesão ao Criador a partir do
Partzuf completo, que serve de sustento para a aquisição dos próximos
graus. Porém, se não houver a correta Intenção, o sentimento na véspera
não se realiza, e o desejo de adesão ao Criador, de retificação, é retirado
de sua vida. O ponto no coração adormece, por ter sido mal utilizado.

“E matou-o com sua própria lança”: por esse pecado que golpeou com
o cajado, morreu e não entrou na Terra Santa, e se privou esta Luz
de Israel.
Com a própria realização que não foi empregada para a espiritualidade,
caiu no ego e não entrou no estado de desejar permanentemente a adesão
com o Criador.

“O mais glorioso dos trinta”: são os trinta anos supremos dos que ele
tomou deles para levá-los Abaixo. E deles ele tomava e se aproximou.
Os trinta anos supremos seriam os vinte e cinco degraus de Adam Kadmon
e os últimos cinco degraus de Atzlut (Arich Anpin de Atzlut). Então, o
cabalista deve prevenir-se de cair em desgraça a partir do último Partzuf
de Atzlut e se ver privado da Luz de Israel pelo mau uso do cajado em suas
mãos.

“Mas a três não alcançou”: eles chegavam a ele e lhe davam com todo
89
seu coração, enquanto que ele não chegava a eles. E ainda que não o
tenha considerado, “Davi o admitiu em seu conselho”, pois nunca o
afastou de seu coração, e não existe jamais separação entre eles. Davi
voltou seu coração até ele, mas ele não o fazia a Davi, porque a Lua
dirige seus louvores, cânticos e ações de graça ao Sol para atraí-lo a
ela e estabelecer sua residência junto a ele. E isto é: “Davi o admitiu
em seu conselho”.
Os três últimos degraus de adesão ao Criador na satisfação, intenção e
Entendimento do desejo de revelar na unificação das Almas, para o bem
do Criador; a partir deste último, se diz que Davi admitiu-o em seu
conselho: o cabalista, no seu desejo de receber (para doar) atrai a Luz que
doa para doar e por fim revelar na unificação. Para que se ascenda nestes
três últimos degraus, a Vontade e a Consciência final da Revelação já se
manifestaram, não havendo impedimento para a ascensão final.

Rabi Elazar e Rabi Aba caíram ante ele, mas não o viram. Puseram-
se de pé e olharam em todas as direções e não o viram. Sentaram-se
chorando e não puderam falar um com o outro. Passado um tempo,
disse Rabi Aba: “É certo o aprendizado de que em todos os caminhos
pelos quais percorrem os justos e nos quais há palavras de Torá, estes
se tornam merecedores que justos deste Mundo saiam ao seu
encontro. É claro que era Rabi Amnuna, o Ancião, que veio a nós
daquele Mundo para nos revelar estas palavras, e antes de podermos
reconhecê-lo, partiu e se escondeu de nós.
Rabi Elazar e Rabi Aba são a Vontade e a Consciência - Keter e Chochma -
que iluminados pelas luzes iniciais puderam receber Biná, preenchida pela
Luz de Neshamá. Quando a Luz do Entendimento fez sentido, já não
dialogam as Sefirot iniciais da mesma forma, mas sente-se que foram
aprendidos discernimentos para a correção. O fluxo de luzes agora pode
"conversar" no sentido de converter o Entendimento em Intenção, não por
Vontade própria, mas por dedicação à Torá no mesmo grau dos justos que
alimentaram a Luz Circundante que se manifestou e permitiu o
90
preenchimento de Biná.

Levantaram-se e tentaram fazer com que os animais caminhassem,


mas eles não se moveram. Tentaram novamente, mas não se
moveram, se atemorizaram, e deixaram ali os asnos. E até hoje
denominam a este lugar “o lugar dos asnos”.
À aquisição de Biná e seu preenchimento, os desejos animais próprios
àquele Partzuf em correção e que atuavam nos discernimentos de receber
para si e doar para receber são naturalmente tolhidos a moverem-se e
deixados ali.

Rabi Elazar abriu e disse: “Quão grande é Tua bondade que guardaste
para aqueles que te temem”. Quanta é a bondade suprema e valiosa
que O Santo, Bendito Seja, fará com os homens, com os merecedores
supremos que temem o pecado dedicando-se ao estudo da Torá,
quando entrem Nesse Mundo. Não está escrito “Tua bondade”, mas
“grande é Tua bondade”. E qual é? “A memória de Tua grande
bondade proclamaram”. Esta é o prazer da vida que se derrama desde
o Mundo Vindouro sobre o Vivente dos mundos que é “a memória de
Tua grande bondade” e certamente é “a grande bondade para a casa
de Israel”.
Por temor de quebrar as leis da espiritualidade, o cabalista dedica-se ao
estudo de como pode desenvolver a correta recepção da Torá, a Luz
Interna, e, nesse esforço contrário à razão, ele espera a grande bondade, a
fé elevada sobre a razão. Esta fé não é o meio, mas a recompensa. "A
memória de tua grande bondade proclamaram": para cada uma das
reshimot cabe uma medida de bondade, de fé, a ser elevada. A elevação da
fé, também dita como "a grande bondade para a casa de Israel", é
concedida pelo Alto, derrama-se deste mundo vindouro, da criação
corrigida, por todos os mundos, na medida em que a memória é revelada
aos indivíduos e a fé é elevada sobre sua razão.

91
Outra: “quão grande é Tua bondade” é a luz criada no primeiro dia,
“que guardaste para aqueles que te temem”, porque a guardou para
os justos Nesse Mundo, “que tu fizeste” refere-se ao Jardim do Éden
superior, tal como está escrito: “O lugar, o Eterno, que Tu fizeste
como Tua morada”. E isto: “fizeste para aqueles que confiam em Ti”.
“Ante os filhos do homem” se refere ao Jardim do Éden inferior.
A Luz da Sabedoria, de Chochma, que ao primeiro dia cria e preenche um
vaso. Esta Luz está guardada aos Justos, aos que temem, àqueles que
pertencem ao mundo vindouro, porque no primeiro dia não há temor ou
justiça pela criatura, que apenas cumpre a Vontade do Criador pelo desejo
Dele, mas não pelo seu tácito e independente desejo. Assim, o mundo
vindouro se estabelece na unificação do Éden Superior e Inferior. A Luz, a
morada do Criador, ou sua manifestação, é o Jardim do Éden Superior,
enquanto o Jardim do Éden Inferior é o Partzuf, e a Luz nele se manifesta,
ou "ante aos filhos do Homem", ou seja, ante os graus que atinge na
espiritualidade, em mundos que precisam ser alcançados pela correção. E
com a Luz o Homem constrói vasos retificados, vasos de doação onde o
Criador pode morar, a fim de que Nele confiem, a fim de que elevem cada
vez mais a fé, que ascendam a graus cada vez maiores.

Porque todos os justos ali existem como espíritos vestidos de glória,


semelhantes a formas deste mundo. A isto se refere “Ante os filhos
do homem”, com a mesma forma dos homens deste mundo.
Permanecem ali e voam pelos ares e ascendem à Academia Celestial
que se encontra no Jardim do Éden superior. Voam e vão se banhar
em orvalho de bálsamo puro, descem e permanecem Abaixo.
Todo aquele que justifica o Criador ao final de algum Partzuf corrigido,
tem sua alma preenchida com a Luz correspondente, enquanto ainda vive
neste mundo. Seu espírito ascende ao Éden Superior, à criação e
preenchimento de seus vasos de doação corrigidos na Luz Superior, bem
como à Academia Celestial (Luz Circundante) que se encontra fora de si.
Aprende os segredos da Torá e os trazem para baixo, aplicando-os neste
92
mundo, onde vive a vida material.

E às vezes se manifestam “ante os filhos do homem” para fazer-lhes


milagres como anjos superiores, como vimos agora a luz da Chama
suprema, mas não merecemos observar e conhecer mais os segredos
da Sabedoria.
A Luz Interna de um cabalista que alcançou determinado grau se
manifesta no Caminho de outros justos que retificam desejos semelhantes,
que possuem raiz espiritual comum ou estão ligados de alguma forma.
Esta Luz é compreendida e preservada em conformidade com o alcance e
a integridade de suas realizações.

Rabi Aba abriu e disse: “Disse Manoach à sua esposa: certamente


morreremos, porque vimos Deus”. Ainda que Manoach
desconhecesse o sentido deste fato, disse: considerando que está
escrito “porque nenhum homem Me verá e viverá”, e nós certamente
observamos, portanto, morreremos. E nós, que vimos e merecemos
essa Luz que nos acompanhou, continuaremos existindo no mundo,
porque o Santo, Bendito Seja, enviou-a a nós para dar-nos a conhecer
os segredos da Sabedoria que nos revelou. Bem-aventurados somos
pela porção que recebemos!
Manoach é o ego que diz ao seu desejo de receber que ambos morrerão ao
verem o Criador, ao refletirem a Luz por meio de uma tela. Se o ego é
direcionado ao Criador, certamente não subsistirá. Nós, que merecemos
essa Luz, continuaremos a existir neste mundo - como desejo de receber
retificado a cada grau, dignos da porção que nos é revelada a cada etapa
do Trabalho.

Seguiram seu caminho e chegaram a uma montanha, e o Sol


começava a declinar. Começaram os ramos da árvore da montanha a
golpearem-se uns com os outros e pronunciaram um cântico.
Durante a ascensão espiritual, sente-se graus de ocultação do Criador, do
93
desejo de outorgar. Sente-se o conflito entre receber e doar, entre a
unidade da árvore e a multiplicidade de seus ramos, a humanidade em
conflito. Mas é desse estado dividido de razão que bloqueia o caminho e
dificulta a ascensão que se pronuncia um cântico para o Criador, para que
mude esta natureza interior - porque toda esta paisagem a ser modificada
não está nos outros, mas apenas num único indivíduo responsável por sua
retificação.

Ainda caminhavam quando escutaram uma voz poderosa que dizia


“Santos filhos de Deus, que foram dispersos entre os viventes deste
mundo. Estas chamas da Academia: reúna-as em vossos lugares e
regozijai-vos com a Torá com vosso mestre”.
Aqueles que persistem no Caminho são os chamados pelo Criador a partir
de seus pontos no coração dispersos em cada alma. São convocados a
conhecer e a compartilhar com a Luz Circundante e a experimentar a Luz
Interna.

Eles temeram, se detiveram em seu lugar e se sentaram. Entretanto,


saiu uma voz como a anterior e disse: “rochas poderosas, maças
elevadas, eis aqui onde o mestre das Cores, tramado em formas,
encontra-se em seu estrado. Entrai e reuni-vos”.
Durante o caminho, o desejo de receber para si - a razão - desafia a fé: os
graus já corrigidos se satisfazem, ou não acreditam ser possível avançar;
temem seguir adiante, param e sentam-se. Mas o chamado para avançar
é ouvido novamente, é sentido como um mestre que chama de seu estrado
para ser ouvido pelo grau mais abaixo. É chamado "Mestre das Cores" pois
reúne todas as qualidades distintas da Luz para chegar à Biná, à doação:
este Mestre é Zeir Anpin. Biná já foi constituída e preenchida, os
discernimentos a serem doados já foram recebidos em Entendimento,
mas é preciso implementar este Entendimento com a correta Intenção que
Zeir Anpin traduz em diferentes cores - qualidades – ao qual Malchut se
unificará no sétimo dia.
94
Nesse instante, escutaram a voz dos ramos das árvores, forte e
poderosa, dizendo: “A voz do Eterno quebra os cedros”. Rabi Elazar
e Rabi Aba lançaram-se de rosto à terra, e um grande temor caiu
sobre eles. Levantaram-se rapidamente e se foram, e não escutaram
nada mais. Afastaram-se da montanha e prosseguiram sua viagem.
Quando se houve o chamado de Zeir Anpin, todos os desejos dispersos
passam a ter uma única voz, dada pela intenção de corrigi-los, de utilizá-
los corretamente, e essa voz afirma que até o mais poderoso ego é
quebrado pela Luz, pelo desejo de doar. Cai-se com o rosto à terra, aos
desejos mais egoístas que são percebidos e repudiados, sentidos como o
que atrasa a correção dos outros fragmentos da Alma. E o temor de
prejudicar a correção geral faz com que o cabalista se apresse, retomando
o caminho.

Ao chegarem à casa de Rabi Iosei, filho de Rabi Shimón ben Lekonia,


viram ali o Rabi Shimón ben Iochai, e se alegraram. Rabi Shimón
alegrou-se, disse-lhes: “seguramente, haveis atravessado um
caminho de milagres e sinais supremos, porque no momento de cair
no sono os vi junto com Benaiahu filho de Iehoiadá, que os enviava
duas coroas por intermédio de um ancião para vos coroar.
Certamente o Santo, Bendito Seja, estava nesse caminho. Além disso,
vejo que vossos rostos se transfiguraram”.
Ao chegar ao Shabat, a sensação de ter atravessado um caminho de
correções para o Partzuf é concluída com o envio de duas coroas: Keter,
preenchida com a Luz de Yechida (o Ancião), na véspera do Shabat; Keter
de um novo Partzuf (os rostos transfigurados), inicialmente preenchida
com a Luz de Nefesh, após o Shabat.

Rabi Iosei disse: bem disseram que um Sábio é preferível a um


Profeta”. Rabi Elazar se aproximou, apoiou a cabeça sobre os joelhos
de seu pai e contou-lhe o sucedido. Rabi Shimón temeu, chorou e
95
disse: “Eterno, ouvi tua palavra e temi”. Este versículo foi enunciado
por Habakuk quando viu sua morte e foi ressuscitado por Eliseu. Por
que se chamava Habakuk? Porque está escrito: “Nesta época, no
próximo ano, abraçarás (jobeket) um filho”, e ele era o filho da
Sunamita.
O Sábio é preferível ao Profeta porque corresponde a um estado sucessivo
no Caminho: o Profeta é o Entendimento, o estado que recebeu a
mensagem do Alto e deve transmiti-la para que seja cumprida como
intenção, intenção esta que o Sábio consegue manter porque se aplica nela.
Quando Rabi Elazar (Biná preenchida pela Luz de Nefesh) conta a Rabi
Shimón (Zeir Anpin preenchida pela Luz de Nefesh), há a passagem do
fluxo de Luz no Partzuf prestes a se completar, e na intenção aplicada, a
sabedoria do cabalista, sabe-se que a profecia é verdadeira quando o seu
Entendimento gera correções a serem realizadas: "ó, Eterno, ouvi tua
palavra e temi". Estas são palavras de Habacuque (a Intenção), filho de
uma mulher estéril (que vem de Ima, o Entendimento), pensamento
estéril até gerar a intenção de correção, Habacuque, que passa pela morte
- os desejos egoístas - e é ressuscitado - os desejos egoístas corrigidos.

E houve dois abraços: um de sua mãe, e outro de Eliseu, tal como está
escrito: “Pousou sua boca sobre a sua”.
Dois abraços, ou duas pressões, uma de dentro e outra de fora: uma de
preencher o Partzuf abaixo do Tabur e outra Luz que bate na linha do
Tabur pelo lado de fora. No primeiro caso, o abraço da mãe, de Biná, é o
Entendimento recebido no Partzuf: o seu preenchimento do que pode
doar; no segundo caso, um segundo abraço, o da Intenção que mantém a
Luz do que não pode ser recebido para ser doado fora do Partzuf. Mais do
que abraço, união boca a boca: a da Intenção correta sobre a recepção.

Encontrei no Livro do rei Salomão que o Nome gravado de setenta e


dois nomes foi gravado sobre ele com suas letras, porque as letras do
alfabeto que seu pai havia inscrito sobre ele, de início, voaram dele
96
quando morreu. E quando Eliseu o abraçou, gravou sobre ele todas
as letras dos setenta e dois nomes.
O desejo de adesão ao Criador é gravado no Partzuf, porque o que havia
antes da pessoa neste mundo, o Vaso de recepção com os desejos gerados
no âmbito deste mundo, finda. A intenção grava sobre a alma em
retificação cada qualidade do Criador, grau após grau.

E as letras destes setenta e dois nomes são duzentas e dezesseis


letras. E todas essas letras dos setenta e dois nomes gravou-as Eliseu
em seu espírito, para ressuscitá-lo com as letras dos setenta e dois
nomes. E chamou-o Habakuk, nome completo por todos os lados:
completa aos dois abraços, tal como foi dito, e completa o segredo das
duzentas e dezesseis letras do Nome sagrado. Graças às palavras, lhe
foi devolvido seu espírito, e graças às letras, retomou existência seu
corpo, e por ele a criança foi chamada Habakuk.
As qualidades do Criador constituem uma nova vestimenta para o desejo
de receber, antes vestido na materialidade deste mundo. Esta vestimenta
é o Partzuf, que recebe dois abraços: o desejo de receber para doar - a Luz
de Neshamá em Keter - e o Entendimento do que deve doar - a Luz de
Nefesh em Biná; o desejo de doar para doar - a Luz de Chaiá em Keter - e
a intenção de doar em prol do Criador- a Luz de Nefesh em Zeir Anpin.
Graças ao preenchimento pela Luz, a existência (o desejo de outorgar)
retoma o corpo (do Partzuf).

E ele disse: “Eterno, ouvi tua palavra e temi”. “Ouvi o que me


sucedeu, que provei Aquele Mundo e estou amedrontado”. Começou
a pedir piedade por sua alma e disse: “Oh, Eterno, que tua obra”, o
que fizeste por mim “durante os anos” seja cumprido, “ou seja, com
vida, porque a vida se apega a quem adere aos anos anteriores.
“Durante os anos” manifesta-a no nível no qual não há vida alguma.
Na espiritualidade, a pessoa compreende que antes do despertar do ponto
no coração vivia uma não existência, desperdiçando sua centelha divina
97
num mundo criado não para o desfrute egoísta, mas para a sua retificação.
Compreende o mal em que incorreu, reconhece-o e tem medo de não
receber a correção. Então, quando é capaz de pedir ao Criador que a Sua
obra feita durante anos seja cumprida, está pedindo que o despertar do
ponto no coração ou as retificações que já tenha realizado anteriormente
prossigam até a conclusão, e que seja com vida, com a finalidade de aderir
ao Criador. "A vida se adere a quem se apega aos anos anteriores", ou seja,
à continuidade das retificações já realizadas, desde o nível em que não
havia vida alguma, ou seja, desde o receber para si que, se dirigido para o
ponto no coração, volta o egoísmo para a correta Intenção: esta é a Luz de
Nefesh preenchendo Keter de cada Partzuf.

Rabi Shimón chorou e disse: “Eu também, pelo que escutei, sinto
temor ante o Santo, Bendito Seja”. Levantou os braços sobre sua
cabeça e disse: “Rabi Amnuna, o Ancião, luz da Torá! Tivestes o
mérito de vê-lo face a face e eu não tive este mérito”. Caiu sobre sua
face e o viu desenraizando montanhas e acendendo as chamas no
Palácio do Rei Messias. Disse-lhe: “Rabi, Neste Mundo dali os
diretores de Academias serão vizinhos dos Sábios que estudam
diante do Santo, Bendito Seja”. Desde esse dia, chamava Rabi Elazar,
seu filho, e a Rabi Aba de “Peniel” (rosto do divino), tal como está
escrito: “Porque vi Deus face a face”.
O temor que mantém a correta Intenção permanece nos graus mais
elevados, na mesma medida em que cresce o desejo de revelar o Criador,
até que se vê capaz de mover as montanhas, transcender as ascensões e
acender as chamas no Palácio do Messias, ou seja, receber a Luz no mundo
de Adam Kadmon: o grau alcançado pelos Diretores das Academias, os
grandes sábios e justos. Porque viu o rosto transfigurado dos discípulos,
anunciando Keter de um novo Partzuf; Arich Anpin, a Grande Face, o
Rosto Divino, foi completada, e é como se se visse Deus face a face, naquele
Partzuf corrigido, qualquer que seja o mundo. E a cada Partzuf corrigido,
mais elevada é a visão da face do Criador.
98
“No Princípio”, Rabi Chiya abriu. “O princípio da Sabedoria é o temor
ao Eterno, é a boa compreensão de todos os que o praticam. Seu
louvor subsiste sempre”. “O princípio da Sabedoria”? Este versículo
deveria ser assim: “O fim da Sabedoria é o temor ao Eterno”, porque
o temor ao Eterno é a finalidade da Sabedoria. Mas ele é a entrada
inicial que conduz ao grau da Sabedoria suprema, tal como está
escrito: “Abri-me as portas da justiça...esta é a porta até o Eterno”,
certamente. Sem atravessar essa porta não é possível entrar jamais
ante o Rei supremo, que é supremo, secreto e oculto, e fez uma porta
após outra, e ao final de todas as portas fez uma porta com
inumeráveis fechaduras e inumeráveis aberturas para muitos
palácios, um sobre outro. Disse: “Quem deseja entrar a mim deve
antes franquear essa primeira porta. Quem entra por essa porta,
ingressará”. Também aqui, a primeira porta de acesso à Sabedoria
suprema é o “temor ao Eterno”. E este é o princípio (reshit).
O temor ao Eterno é o princípio e o fim da Sabedoria, e requer a
compreensão de sua prática. O temor é a unificação da Vontade de adesão
ao Criador (Keter) e a Consciência do mal que se traz consigo em oposição
à adesão (Chochma, Sabedoria); para que haja a Sabedoria, Luz de
Chochma, deve-se temer não conseguir desenvolver a adesão: neste
sentido, o temor é o princípio; por outro lado, a Luz de Sabedoria é enviada
para desenvolver o temor em graus cada vez maiores, portas atrás de
portas, correspondentes ao reconhecimento cada vez maior dos desejos de
receber carentes de correção que a Sabedoria revela. Mas a primeira porta,
a da Vontade de adesão no grau mais imediato a este mundo, possui
muitas aberturas e fechaduras, quer dizer, ensinamentos a serem
assimilados com a correta Intenção e correções a serem reveladas e
implementadas.

A Bet são duas que se unem como se fossem um, e são dois pontos,
um guardado e oculto, e um que existe revelado. E como não há
99
separação alguma entre ambos, se denominam princípio (reshit) –
um, e não dois. Quem consegue agarrar um, consegue agarrar o
outro, e tudo é um, porque Ele e Seu Nome são um, tal como está
escrito: “Eles saberão que Tu, Teu Nome, O Eterno, é único”.
Bet, como visto, corresponde ao desejo de ser um vaso perfeito para a
correta recepção da Luz. São dois que se unem como se fossem um, Luz e
Vaso, trabalhando num campo de ocultação e revelação em distintos
graus. E neste trabalho, são, pela convergência de ambas as Vontades, Um:
Ele e Seu Nome, o trabalho de unificação a partir do alcance de cada
degrau de Keter a Malchut, nas Sefirot, Partzufim e Olamot. A criatura
escreve o nome do Criador em suas revelações, fazendo delas Ele visível,
alcançado, até à equivalência de forma e, portanto, à fusão num só Ser, o
Ser único em existência, a Existência que procede da Existência.

Por que é denominada “O temor ao Eterno”? Porque ela é a Árvore


do Bem e do Mal. Se o homem a merece, isso é o “bem”; e se não o
merece, isso é o “mal”. Portanto, o temor reina nesse lugar, e essa
porta é a entrada a tudo que há de bom no mundo.
Ainda sobre a primeira porta, é chamada temor, ou Árvore do Bem e do
Mal, porque o temor, a Vontade e a Consciência, é o que a abre, o estado
de bem, do desejo de aderir ao Criador; mas se o indivíduo permanece no
mal, no egoísmo, sua razão se sobrepondo à fé, a porta permanece
fechada. É uma e mesma porta (Árvore), em dois discernimentos: aberta
(do Bem) e fechada (do Mal). É o que se faz com a Luz de Nefesh (o receber
para si): se constitui Keter (Vontade de espiritualidade) e depois Chochma
(Consciência do seu mal distanciando do Criador) ou se a emprega
egoisticamente.

Sejel e Tov são duas portas que são como uma. Rabi Iosei disse: Sejel
Tov é a Árvore da Vida que é a compreensão sem mal algum, e sendo
que o mal está excluído, é Sejel Tov, sem mal algum.
Aquele que tem despertado o dom do temor, reconhece a Sabedoria, sabe
100
como recebê-la, compreende-a bem. A compreensão do que corrigir - Biná
iluminada e o bem que pratica quem trabalha com o temor, com a tela,
são duas portas como uma, porque a compreensão é destinada ao bem, à
correção para a adesão, não à satisfação do seu próprio desejo, que é deste
mundo. E a esta unicidade da compreensão e do Bem é chamada Árvore
da Vida, nela não há nenhum mal, não há receber para si, mas o doar para
doar que precede a revelação do Criador no grau corrigido.

“De todos os que o praticam”. Estes são “os atos bondosos de Davi e
fiéis”, os que sustentam a Torá. E aqueles que sustentam a Torá é
como se a houvessem feito. Todos os que se ocupam da Torá,
enquanto estudam, “não fazem”. Os que apóiam, se considera que
“fazem”, e sobre este poder encontramos escrito: “seu louvor
subsiste sempre” e o Trono se reafirma sobre sua base, como
corresponde.
A boa compreensão é o Entendimento da prática do temor aplicado, ou
seja, a intenção em uso, Zeir Anpin preenchida com a Luz recebida de Biná,
ou ainda os "atos bondosos e fiéis de Davi". Estes sustentam a Torá:
permitem que o Partzuf seja preenchido com a Luz Interna. Os que assim
o fazem, é como se tivessem feito a própria Luz, pois permitiram a sua
entrada dentro de si. Mas os que se ocupam da Luz Interna enquanto
estudam, não o fazem, pois, o estudo permite a criação e o preenchimento
das Sefirot KChB, mas só ZA é que constitui um sistema de qualidades com
correções a serem realizadas. À intenção executada no grau de ZA é o que
apoia a Luz Interna. É a base na qual o Trono se assenta em Malchut.

Estava Rabi Shimón sentado e ocupado da Torá durante a noite em


que a Noiva se une ao seu Esposo. Porque estudamos que todos os
integrantes do Palácio da Noiva devem, durante a noite em que a
Noiva se prepara para unir-se ao seu Esposo, sob o palio nupcial no
dia seguinte, acompanhá-la durante toda a noite e regozijar-se com
ela em todos os seus preparativos, ocupando-se da Torá, do
101
Pentateuco aos Profetas, e dos Profetas aos Hagiógrafos, dos
midrashim dos versículos aos segredos da Sabedoria, já que estes
constituem seus preparativos e ornamentos.
Sentado e ocupado com a Torá pressupõe que não há avanço, mas nesta
aparente imobilidade se está ocupado da Luz Interna, de como permiti-la.
Estes são os discernimentos de Vontade, Consciência e Entendimento
(KChB) na noite em que a Noiva se une a seu Esposo, ou seja, na noite em
que o desejo de receber é destinado para doar. É noite porque não há ainda
a Intenção que permite a interiorização da Luz no Partzuf: a intenção de
doar para doar, que só pode ser feita quando receber para doar é
esclarecido, quando se sabe o que se recebeu para doar. Os integrantes do
Palácio da Noiva - Vontade, Consciência e Entendimento dos desejos a
serem corrigidos - devem estar presentes durante toda a noite com a
Noiva, e regozijarem-se com ela nos preparativos: devem ter formado
cada Sefirá e as preenchido com a Luz - do Pentateuco (da Vontade) aos
Profetas (à Consciência), e dos Profetas (da Consciência) aos Hagiógrafos
(ao Entendimento); e dos midrashin (da Luz de Misericórdia) aos segredos
da Sabedoria (a elevação da Luz de Misericórdia para formação da Tela, a
Masach). Tudo isso é preparativo e ornamento, ou seja, acréscimos à
Noiva, ao desejo de receber, para que seja conduzida ao esposo, o Desejo
de Doar.

Ela, com suas donzelas, chega e permanece sobre suas cabeças, se


adorna graças a eles e se regozija com eles toda essa noite.
Biná e as sete Sefirot (Zeir Anpin e Malchut) constituem vasos corrigidos
para serem preenchidos de Luz, preenchimento correspondente aos
ornamentos e regozijos próprios aos preparativos prévios (KChB, Luz da
Misericórdia e Tela).

No dia seguinte, ela não entra no palio nupcial senão em sua


companhia, e eles são chamados “filhos de seu palio nupcial”, e, uma
vez que entrou sob o palio, o Santo, Bendito Seja, pergunta por eles,
102
os bendiz, e cinge-lhes com as coroas da Noiva. Felizes são eles!
No dia em que a Luz da Sabedoria é retida pela Masach e entra na
vestimenta de Misericórdia do Partzuf, a partir do qual a intenção sempre
estará presente na satisfação do desejo de doar para doar e posteriormente
revelar o Criador naquele grau de correção. O desejo de receber é entregue
ao desejo de doar para doar, no dia seguinte, acompanhado pelos
discernimentos que estiveram presentes consigo até então - KChB,
Masach e Ohr Hassadim - sob o palio nupcial, isto é, o Partzuf que recebeu
as luzes de Nefesh, Ruach, Neshamá e, agora, Chaiá em suas Sefirot. Uma
vez que o desejo de receber tem esses acompanhantes consigo, eles são
benditos pelo Santíssimo, ou seja, pode receber a Luz de Chaiá, a Luz do
palio nupcial, o desejo de doar para doar, a execução da correta Intenção.

Rabi Shimón e todos os seus companheiros estudavam exaltados a


Torá e inovavam um após o outro as palavras da Torá. Rabi Shimón
estava alegre como o resto de seus companheiros. Disse-lhes Rabi
Shimón: “Meus filhos, bem-aventurados sois, pois amanhã a Noiva
não entrará no palio nupcial senão em vossa companhia! Porque
todos aqueles que durante esta noite se consagram aos preparativos
da Noiva e se regozijam com ela, todos serão inscritos e anotados no
Livro da Memória. O Santo, Bendito Seja, lhes prodigará as setenta
bênçãos e coroas do Mundo Supremo”.
O Zohar salienta que as Sefirot prévias, a Tela e a Luz da Misericórdia
devem ter sido formadas e preenchidas, em sua ordem, sem o que não se
pode receber a Luz de Chaiá. E todos esses preparativos serão registrados
como Reshimot, não serão perdidos, portanto. Nisso está a promessa de
que mesmo passando por diversas vidas neste mundo, o caminho já
percorrido permanece registrado, aguardando a sua revelação. Esta
estrutura espiritual, uma vez desenvolvida, receberá as "setenta bendições
e coroas do Mundo Supremo", ou seja, terá grau após grau preenchido até
o final da correção.

103
Rabi Shimón abriu e disse: “Os Céus relatam a Glória de Deus”. Já
comentamos este versículo, mas neste momento em que a Noiva está
desperta para amanhã entrar sob o palio nupcial, ela se prepara e se
ilumina com seus ornamentos junto com os companheiros que a
regozijaram durante toda essa noite, e ela se alegrará com eles. E no
dia seguinte, uma quantidade de tropas, guerreiros e acampamentos
se juntarão ao redor dela, ela e todos esperam a cada um dos que se
prepararam nessa noite.
A extensão da Vontade (Keter) determina o grau alcançado do desejo de
doar, e em cada um destes é revelado o Criador, até a sua adesão completa
com Ele. Quando o desejo de receber tem despertado em si esta Vontade
e todos os recipientes e estruturas espirituais com a finalidade de doação,
a Luz pode preenchê-los, e, ao fazê-lo, o desejo de receber reconhece à sua
volta situações que serão empregadas para manter e alcançar objetivos de
doar. E este desejo e as situações ficam à espera de que toda estrutura
espiritual anunciada esteja disponível, ou seja, não são utilizadas até que
a correta Intenção possa dirigi-las como doações em prol de doar.

Quando se unem e Ela observa a seu esposo, que está escrito? “Os
Céus relatam a Glória de Deus”. Os “Céus” se referem ao Esposo, que
adentra o palio nupcial. “Relatam”, iluminam com o esplendor da
safira que projeta sua luz deslumbrante de um extremo do mundo ao
outro. “A Glória de Deus” é a glória da Noiva denominada “Deus”
(Kel) tal como está escrito: “Kel está zangado todos os dias”. Todos
os dias do ano, ela é chamada “Kel”, mas agora, que entra sob o palio
nupcial, é chamada “Glória”. E é chamada Kel como uma glória
agregada a outra glória, uma luz a outra luz, um domínio a outro
domínio.
Quando o desejo de receber está acompanhado das estruturas espirituais
para receber corretamente a Luz no Partzuf, diz-se que os graus de doação
que ingressam no Partzuf o iluminam, da mesma forma como é refletida
a Luz para revelar as Sefirot, de Keter à Malchut. Nisso se revela a glória
104
de Deus, primeiro como doação para doação, recebendo a Luz Interna, a
seguir como glória atrelada a outra glória, uma Luz a outra Luz, um
Domínio a outro Domínio: a satisfação do desejo de revelar o Criador em
adesão a Ele.

Então, nesse momento, quando o Céu adentra o palio nupcial e o


ilumina, todos esses companheiros que a prepararam, todos são
mencionados por seus nomes, tal como está escrito: “E a obra de Suas
mãos relata o Firmamento”. “A obra de Suas mãos” são os
possuidores do sinal do pacto, acompanhantes da Noiva, e estes
possuidores do sinal do pacto são chamados “obra de Suas mãos”, tal
como está escrito: “Faz prosperar a obra de nossas mãos”, que é o
pacto selado na carne do homem.
A Luz Direta é refletida na tela e seu reflexo ilumina as Sefirot prévias, ao
mesmo tempo que sua parte permitida ingressa no Partzuf. É um convite
para Chaiá preencher Keter, e as luzes precedentes descerem até Zeir
Anpin, seguida pela entrada da Luz permitida no Partzuf, e esta é como o
noivo nomeando os acompanhantes da noiva e, agora no interior do palio
nupcial (o Partzuf) torna-se Luz Interna. Os acompanhantes, agora, nesse
estado, são chamados "obra de Suas mãos", possuidores do sinal do pacto
(de adesão ao Criador) gravado na carne do homem, ou seja, em seu
desejo de receber, esta obra de nossas mãos que o Criador faz prosperar
na correta Intenção.

Rabi Amnuna, o Ancião, disse assim: “Não permitas que a tua boca
faça pecar a tua carne”. O homem não deve permitir que a sua boca o
leva a maus pensamentos e que lhe leve a pecar com a carne santa
sobre o que está selado no Pacto de Santidade. Porque se assim o
fizer, será arrastado ao inferno. E aquele encarregado do Inferno se
denomina Duma. E muitas miríades de anjos destruidores o
acompanham e se posicionam à porta do Inferno. E todos aqueles que
guardaram o pacto sagrado neste mundo, ele não tem permissão de
105
aproximar-se deles.
Sob a influência da Luz Circundante, somos levados a impedir que a Luz
Direta ingresse no vaso de recepção sem uma tela, ou que destrua a tela,
o que faria o desejo de receber manter uma intenção para si; não havendo
Vontade superior, também estaria ausente a Consciência e maus
pensamentos levariam à má intenção, sabotando o trabalho espiritual.
Este estado conduz ao inferno, ao domínio do egoísmo cujo desejo de
receber para si que o guarda, aquele que foi utilizado sem que houvesse
intenção correta, é acompanhado por miríades de tentações que impedem
a saída daquele estado. Mas aqueles que guardam o pacto, que mantém a
correta Intenção, fortalecendo sua tela, a estes os maus desejos não têm
permissão de se aproximarem e os prejudicarem.

O Rei Davi, quando lhe sucedeu aquele assunto, estava temeroso.


Nesse momento, Duma ascendeu ante o Santo, Bendito Seja, e lhe
disse: “Senhor do mundo, está escrito na Torá: “um homem que
comete adultério com a esposa de outro...” e está escrito: “não te
aproximarás da mulher de teu próximo”. Davi corrompeu o pacto
com impudência, o que será dele? O Santo, Bendito Seja, lhe disse:
“Davi é inocente, e o pacto de Santidade permanece inviolado, porque
é revelado ante mim que Batsheva lhe estava destinada desde os dias
da criação do mundo. Disse-lhe: “se diante de Ti estava revelado,
diante dele não estava revelado”. Disse-lhe: “Ademais, é lícito o que
fez, porque cada um que partia à guerra, não saía até outorgar à sua
esposa uma ata de divórcio”.
O temor de transgredir o pacto acompanha o cabalista mesmo num grau
elevado, pois tudo o que é realizado em um dos mundos repercute sobre
os demais. Quando o ego ascende, ele traz consigo a comunicação de sua
mácula ao Mundo Superior, acusando a quebra de uma mitzvá. O desejo
de doar não deve ser utilizado com o propósito egoísta, não se deve fazer
uso do desejo de receber estranho ao seu grau de correção. Será uma
transgressão, de fato, quando cometida no exercício do livre arbítrio
106
adquirido na espiritualidade, mas não se deve imaginar que o desejo de
receber em si seja suprimido: o que é suprimida é a má intenção (o para
si), seja não a utilizando ou redirecionando-a. Este é o divórcio concedido
pelo ego ao desejo de receber quando ele parte para o conflito consigo;
assim, não há transgressão quando o desejo de doar toma do ego o desejo
de receber com a correta Intenção, o que constitui o plano de correção
desde que os mundos superiores foram criados, isto é, desde que
passaram a ser percebidos em sua vida. É por ter ciência deste divórcio
que o cabalista no grau de Davi pode tranquilizar-se de não ter
transgredido alguma mitzvá.

Disse-lhe: “Nesse caso, teria que esperar três meses e não o fez”.
Disse-lhe: “A que caso nos referimos? Quando se suspeita que a
mulher está grávida, mas foi revelado ante Mim que Uriá jamais se
aproximou dela, já que Meu nome está selado nele como um
testemunho: está escrito Uriá e está escrito Uriahu, Meu nome está
selado nele, o que indica que jamais teve relações conjugais com ela.
Três meses significa as três luzes superiores recebidas: Nefesh, Ruach e
Nechama, sem as quais não se pode fazer uso de um desejo de receber que
poderia gerar uma intenção incorreta a partir de sua união com o ego.
Entretanto, se o ego não se uniu a este desejo, então o desejo de receber
não pertencia à Uriá, mas a Uriahu, à Malchut (mesmo número em
Gematria), que quer ser como o Criador. Então, este desejo de receber
para aderir ao Criador não incorre em pecado, mas assinala que as letras
Iud e Hei foram gravadas, isto é, já há Consciência e Entendimento, e,
portanto, o desejo já estava inicialmente ligado não ao ego, mas a Keter, a
Vontade de adesão ao Criador.

Disse-lhe: “Senhor do mundo, é o que disse: Se diante de Ti te foi


revelado que Uriá não manteve relações com ela, diante de quem foi
revelado? Devia esperar três meses! Ademais, se sabia que Uriá
nunca se aproximou de sua mulher, por que lhe deu a ordem de partir
107
e ter relações conjugais com sua mulher, tal como está escrito: ‘vá a
tua casa e lava teus pés’”. Disse-lhe: “É certo que não o sabia, mas
esperou mais de três meses, eis que transcorreram quatro meses”.
O desejo de receber para si contesta o Criador quanto a licitude de um
estado superior que não possui a Sua onisciência, e usa isso como
argumento para mantê-lo cativo no egoísmo; afinal, o próprio grau
superior havia dito ao inferior que tomasse o desejo de receber. No
entanto, isso quer dizer que não é a natureza receptiva que deve se abster
de algo, ela deve procurar satisfazer seus desejos até ser iluminado pela
Luz a ponto de desejar a espiritualidade acima das coisas deste mundo,
então dali até o correto uso do desejo de receber terão se passado mais do
que três, mas quatro meses: o preenchimento das luzes de Nefesh, Ruach,
Neshamá e Chaiá nas Sefirot que antecedem a vinda da última Luz e do
preenchimento de Malchut, completando um Partzuf.

Porque assim aprendemos: no vinte e cinco de Nissan, Davi convocou


a todo Israel; e estiveram com Ioav no sete de Sivan, foram e
arrasaram a terra dos Filhos de Amon. Sivan, Tamuz, Av e Elul,
aguardaram ali, e no 24 de Elul sucedeu o que sucedeu com Batsheva.
No dia de Yom Kipur, o Santo, Bendito seja, perdoou esse pecado.
A intenção para o Criador é convocada num grau superior e prevalece
sobre os desejos egoístas que são arrasados, desaparecem. Isso é precedido
por quatro meses, ou luzes, que anunciam o perdão, a retificação completa
do Partzuf pela Luz de Yechida. O desejo de receber é associado ao grau
superior sem que haja mácula nesta união.

E há quem diga: no 7 de Adar convocou e se reuniram no 15 de Iar e


o 15 de Elul sucedeu o que sucedeu com Batsheva e o dia de Yom Kipur
se anunciou: “Também o Eterno redimiu teu pecado, não morrerás”.
Que significa “não morrerás”? “Não morrerás em mãos de Duma”.
O tempo é o número de alterações de estados espirituais pelos quais um
indivíduo atravessa, e certas correções parecem mais ou menos intensas
108
(conforme conota a frase "e há quem diga"), mas todas passam pelos
mesmos degraus, divididos em cinco mundos, cinco faces, cinco Sefirot. E
a cada correção vem o Dia do Perdão, em que Malchut é redimida e lhe é
dito "não morrerás nas mãos de Duma" (Não cairás em meio ao egoísmo).

Duma disse: Senhor do mundo, uma palavra tenho sobre ele, já que
ele abriu sua boca e disse: “Pelo Eterno vivente, o homem que fez isso
merece a morte”; julgou a si mesmo, e tenho acusações contra ele. O
Santo, Bendito Seja, lhe disse: “Tu não tens permissão, pois eis que
admitiu ante mim e disse: ‘Eu pequei ante o Eterno’, e apesar não
haver pecado. Quanto ao que pecou contra Uriá, prescrevi um castigo
sobre ele e o recebeu”.
O ego usa de vários argumentos para manter a pessoa no desejo de receber
para si, inclusive os morais, acusando a falha no grau superior, quando
seu cometimento corresponde à sua própria ciência de que a transgressão
cometida merece o egoísmo deste mundo. No entanto, faz-se o
reconhecimento do mal, e se este é sentido como pecado contra o Criador,
é possível dele se arrepender e receber o Entendimento das correções
necessárias; quanto ao uso que faz do que é próprio ao ego à revelia da
Consciência de retificação, as Reshimot ditarão os caminhos pelos quais
terá de corrigir-se.

Imediatamente, Duma regressou a seu lugar, decepcionado. E sobre


isto disse Davi: “Se não me ajudasse o Eterno, pouco faltaria para que
a minha alma fosse entregue a Duma”. “Se não me ajudasse o
Eterno”, que foi meu Advogado, “pouco faltou...”: que significa
“pouco”? Como uma fina linha, como a medida que me separa do
“Outro Lado”. Como essa medida foi para que minha alma não “fosse
entregada a Duma”.
O desejo de receber para si atua contra o Trabalho de doação, a fim de
submetê-lo ao egoísmo, pois o cabalista sabe a regra da restrição e não
deve transgredi-la; se o fizer, deve lutar contra o estado de ocultação do
109
Criador, fazendo de sua escuridão uma doação para receber a Luz: o
reconhecimento do mal e a Consciência (Ruach) de que precisa superar o
receber para si. Assim, a acusação de transgredir se torna o desejo de
receber para doar, e porque deseja com esta finalidade, há nisso temor e
um convite para a Luz de Neshamá, o Entendimento das retificações
necessárias. Mas na ocultação, o descarte de Uriá, os prazeres deste
mundo, pelo grau superior, Davi, a fim de redirecionar o desejo de receber
para doar, não tem êxito porque está comprometido com doar algo que
ainda não foi retificado, e, assim não gera um grau subsistente. Apenas
quando retorna à sua primeira esposa, para o desejo de receber o
Entendimento do que deve corrigir em si, é que a Luz de Neshamá poderá
se manifestar. Não se trata de deslocar o desejo de receber para si das
coisas materiais deste mundo para as espirituais dos mundos superiores,
pois isso seria apenas deslocar a razão sem mover a fé, e é esta que deve
ser movida acima da razão; do contrário, a busca dos mundos superiores
será sempre para a própria recepção e, desta forma, embora não haja
adultério, há pecado contra Uriá, pecado contra este mundo, que foi criado
apenas para que façamos nossas correções, não para buscarmos
permanecer na razão, no receber para si, nem mantendo este mundo na
ilusão de que seria possível gerar um discernimento espiritual com um
desejo de receber na ausência da razão: é vivendo nos limites e
imperfeições deste mundo que o desejo de receber é redirecionado para a
correta Intenção.

Portanto, o homem deve se guardar de pronunciar palavra


semelhante tal como Davi, porque não poderá dizer “Foi por
inadvertência”, tal como sucedeu com Davi, e, no caso, que o Santo,
Bendito Seja, triunfou em seu juízo. “Por que irritar a Deus com tua
voz, pela voz mesma, que ele disse. “Destruir a obra de tuas mãos” se
refere à carne sagrada do pacto de Santidade que atenta e é arrastado
por isso ao inferno por Duma.
Não tendo êxito sobre o Trabalho de doação, o desejo de receber para si
110
desaparece naturalmente ante a Luz, cuja ação impede o cabalista de se
entregar ao egoísmo. Mas para que a Luz o salve, é preciso persistir na
Vontade, na Consciência e no Entendimento em prol da retificação, para
que a correta Intenção e a concepção de um grau superior possam ser
realizados. A diferença entre a salvação e a sitra achra é como uma fina
linha, pois somente quando se percebe-se num estado de que ambas as
escolhas são possíveis, um estado de livre-arbítrio faz sentido, passa-se a
assumir as rédeas pelas decisões de como cumprir o Plano da Criação,
numa parceria com a Luz ou num caminho de sofrimento. Mas não se
deve tentar doar o que não foi retificado, não se deve tentar realizações
superiores àquelas ainda não corrigidas; o fracasso dessas tentativas de
um nível superior ante o seu desejo de receber para si não pode ser
justificado com um "eu não sabia" ou "não estava preparado". Por que
fazer o egoísmo prevalecer e destruir o próprio Trabalho, iniciado por uma
restrição proposta por si próprio para a adesão ao Criador, indo ao
encontro do receber para si e ser confinado ao egoísmo de onde não
poderá escapar?

Devido a isto: “O Firmamento relata a obra de Suas mãos”: estes são


os companheiros que se uniram com esta Noiva, guardiões do pacto
dela; “relata” e inscreve a cada um por um. De que Firmamento se
trata? É o Firmamento no qual se encontram o Sol, a Lua, as estrelas
e as constelações, e que é o Livro da Memória. Ele relata e os inscreve
para que eles se tornem Habitantes do Palácio e para que suas
Vontades sejam sempre cumpridas.
Diferente da mulher de Uriá, o desejo de receber que Davi toma para si, a
Noiva é o desejo de receber carente da correta Intenção, com os devidos
acompanhantes que guardam o pacto: as Sefirot, a Luz da Misericórdia e
a Tela, destinada a concepção de graus superiores. São relatados e
inscritos um por um, estados e discernimentos a cada vez, até estarem
todos reunidos, obra dos corpos celestes no céu (Rakia): o sol (a doação),
a lua (recepção), as estrelas (os desejos), as constelações (as conexões
111
entre os desejos). Estas forças, por sua vez, constituem as Reshimot
reveladas segundo o grau de correção do indivíduo, e este céu com seus
corpos celestes corretamente alinhados torna os acompanhantes
Habitantes do Palácio, torna-os aptos ao Trabalho Real e que sua Vontade
seja cumprida: o desejo de adesão ao Criador que se renova e cresce a cada
Partzuf corrigido.

“Um dia instrui ao outro dia”. Um dia santo, entre os dias supremos
do Rei, louva aos companheiros e dizem essa palavra dita por cada
um ao seu companheiro. Um dia instrui ao outro o que foi dito e o
louva. “De uma noite a outra noite”: todo grau que se completou na
noite louva um ao outro o saber de cada um dos companheiros e com
grande amor se transformam em amigos e amantes. “Não há ditado
nem palavras” no resto de palavras mundanas que não sejam
escutadas pelo Rei santo. E não deseja escutá-las.
O alcance de um grau é preparatório para o seguinte. E é considerado um
dia Santo, entre os dias supremos, aquele em que é percebido o alcance de
sua santidade, da Luz que preenche aquele dia, aquele estado, aquela
Sefirá que se torna alcançada, sentida internamente. A Vontade de adesão
ao Criador (Keter) no Partzuf em correção recebe Luzes cada vez mais
intensas, na medida em que novas Sefirot são criadas, e a Luz anterior flui
de uma Sefirá à outra. Entre cada recepção, entre cada preenchimento,
chamamos a lacuna de noite, são os discernimentos ainda não esclarecidos
que, uma vez o sendo, conduzirão de um estado a outro. O sentimento
desta lacuna, desta noite, não deve ser percebido como castigo, mas como
um caminho disponível para que a Luz anteriormente sentida e que parece
ausente possa passar por ali e acender a próxima Sefirá cuja criação é
trabalhada durante aquela noite. Esta cadeia de vasos comunicantes é
entendida como "companheiros que com grande amor se tornam amigos
e amantes". Neste trabalho, a comunicação entre as Sefirot vai refinando
os desejos ("palavras"), que não são deste mundo, separando-os do
receber para si, os quais não servem à adesão ao Criador.
112
Mas estas palavras, “sua ressonância recorre toda a Terra” fazem
suas palavras as medidas dos residentes no Alto e dos residentes
Abaixo. De uns se formam os firmamentos, dos outros a Terra, deste
louvor.
Cada palavra dita, cada passagem de luz, destina-se ao preenchimento de
uma Sefirá, ressoando pela Terra, pelo desejo de receber, que experimenta
uma correção no nível em que a palavra ressoa. Esta palavra é
proporcional ao Despertar do Alto (Man de Ima) e o de Baixo (Man de
Nukva). Pelo despertar de Baixo, eleva a fé acima da razão e sente alegria
com isso. Torna-se consciente de sua baixeza, de que o mal (receber para
si) deve ser superado. É recompensado, então, com o Despertar do Alto,
que é o Entendimento do que necessita corrigir em seu nível. Sempre
destes despertares se reconhece os graus superiores a serem alcançados,
e, daqueles, uma purificação do desejo de receber que se enche de louvores
ao Criador, porque revela os mundos superiores como sua Raiz.

Diz-se que estas palavras sobrevoam o mundo em seu único lugar:


“até o extremo do mundo, suas palavras”.
O despertar de baixo aumenta conforme à sua exposição à Luz
Circundante, e na medida em que constitui Sefirot para receber a Luz, a
receberá de Keter à Malchut, o extremo de seu Mundo em correção.

Considerando que se fizeram firmamentos a partir deles, quem


habita neles? Retorna e diz: “Neles, pus tabernáculos para o Sol”:
esse santo Sol estabelece sua morada e sua residência neles, e se
adorna com eles. Devido a que estabelece sua morada nesses
firmamentos e se adorna com eles, então “assemelha-se a um noivo
que sai do palio nupcial”, alegre e correndo por esses firmamentos.
Sai deles, entra e corre em outra Torre, noutro lugar. “De um
extremo do Céu sai”, certamente do Mundo do Alto sai, que é a
extremidade superior do Céu. “Seu curso”: Quem é “seu curso”? É a
113
extremidade inferior do Céu que é o curso do ano que faz um circuito
completo e se une desde o Céu até este firmamento. “Nada há que se
esconda de seu calor”. Desse circuito e do circuito do Sol que gira em
todas as direções. “Nada há que se esconda”: não há quem se esconda
dele, de todos os graus superiores que giravam e retornavam a ele, e
cada um após outro, ninguém pode se ocultar dele. “De seu calor”:
quando volta a aquecer-se e volta até eles depois com um desejo
completo.
Os graus superiores são alcançados pelo trabalho do despertar do Alto e
de baixo, para que o desejo de doar neles se desenvolva e seja cada vez
maior, iluminado pela Luz Refletida na tela do Partzuf, como o noivo saído
do palio nupcial. E de grau em grau no desejo de doar ascende a Luz
Refletida, percorrendo de um extremo a outro, preparando em cada
Partzuf a ser corrigido, como uma Torre, as Sefirot apropriadas à recepção
das luzes de NaRaNChaY, da Vontade de adesão no cimo da Torre até a
revelação em sua base, completando um circuito que será reiniciado num
Partzuf superior. Na medida em que se ascende os firmamentos, a
Revelação é mais elevada; o completo preenchimento de Luz prepara a
Vontade de receber o grau maior de correção: de Keter à Malchut em cada
Partzuf, um desejo completo que volta a aquecer-se para um despertar do
Alto e de baixo, em céus cada vez mais elevados.

E todo esse louvor e toda a elevação estão destinadas à Torá, tal como
está escrito: “A Torá do Eterno é íntegra”.
O louvor é a altura com que a Tela consegue refletir a Luz para formar as
Torres no Céu. Maiores são os louvores tanto quanto mais elevadas são as
correções. E tanto o louvor quanto a elevação se destinam a fazer com que
o cabalista experimente a Luz Interna, em sensações cada vez mais
intensas da correta recepção para o objetivo final de revelar o Criador.
Esta Luz é íntegra, quer dizer ela não muda, o que muda são nossas
qualidades e sensações em sua recepção, desde um vaso grosseiro até um
recipiente corrigido.
114
Seis vezes está escrito aqui o Tetragrama, e seis versículos desde “os
Céus relatam” até “a Torá é íntegra”. E sobre este mistério está
escrito “Bereshit”, que tem seis letras: “Criou Deus o Céu e a Terra”,
eis aqui seis palavras. Os versículos finais correspondem com os seis
Nomes do Tetragrama. Os seis Nomes correspondem com as seis
palavras daqui.
Seis vezes, seis Sefirot, ou Zeir Anpin, a Intenção, quando a criatura já pode
trabalhar no nível de Chaiá, experimenta doar para doar, sem o desejo de
receber. O Tetragrama é escrito pela Intenção, pois as Sefirot que a
precedem ("os céus o relatam") o fazem por ela, e o que se sucede, a
revelação do Criador ("a Torá é íntegra"), vem por ela. E esta intenção que
é oculta do desejo de receber deste mundo marca o sentimento de doação
pura (o céu) para quem antes só o conhecia em combinação com o desejo
de receber (a terra), e esse sentimento é chamado de "no princípio", pois
agora fica muito claro para si que foi criado o céu e a terra, o desejo de
doar e o de receber, e estes dois desejos correspondem às seis palavras, ou
seis dias da Criação, o Trabalho de correção antecedendo ao Shabat. Os
seis nomes do Tetragrama, ou as seis vezes com que é inscrito - a Intenção
- corresponde às seis palavras, ou toda a semana do Trabalho de correção:
é para sentir esta Intenção que todos os seus antecedentes são preparados;
é sentindo esta Intenção que a revelação do Criador é possível.

Enquanto estavam sentados, entraram Rabi Elazar, seu filho, e Rabi


Aba. Disse-lhes: “Certamente, os rostos da Presença divina
chegaram, e por isso os chamei Peniel, já que vistes o rosto da
Presença divina face a face!
Após a semana de Trabalho, os discernimentos estão sentados: é Shabat,
até que emerge Keter de um novo Partzuf, pois este só é possível se o
Partzuf anterior foi completado, ou seja, se Keter, equivalente à Arich
Anpin, a Grande Face, o Rosto Divino, foi completada com a Luz de
Yechida: já foi visto Deus face a face, naquele Partzuf corrigido, qualquer
115
que seja o mundo. E a cada Partzuf corrigido, a promessa de uma nova
face a ser vista há de chegar e Sua revelação será trabalhada nos seis dias
seguintes.

Agora que conheceis e lhes foi revelado o versículo acerca de


Benaiahu filho de Iehoiadá, certamente que é algo do Santo Ancião, e
o versículo seguinte, e esse é o mais oculto de todos, lhes foi dito, e
este versículo em outro lugar é como este. Abriu e disse: “ele castigou
ao homem egípcio, homem de cinco côvados de altura”. Tudo é um
mesmo segredo: esse “egípcio” é o conhecido “enorme na Terra do
Egito aos olhos dos servos...”. Era grande e honorável, como o
revelou esse Ancião. E esse versículo foi dito na Academia do Alto: “O
homem grande”, é tudo um, porque é o Shabat e seus limites, tal
como está escrito: “e suas medidas fora da cidade”, e está escrito:
“vós não cometereis iniquidade nem em juízos, nem em medidas”. E
sobre isto: “o homem grande”. E é, certamente, o “homem de
medida”: sua extensão do final do mundo e até o final do mundo. O
Primeiro Homem era assim.
Ou seja, depois de adquirido o grau de Neshamá de Yechida de Adam
Kadmon, o pensamento que retifica o desejo de revelar na unificação das
Almas que buscam o propósito da correção, o próximo versículo é o
degrau seguinte, correspondendo a "e ele castigou ao homem egípcio,
homem de cinco côvados de altura", e trata-se do mesmo segredo, isto é,
do mesmo Mundo e Partzuf referidos anteriormente, mas outro versículo,
qual seja, uma nova Luz a ser experimentada: Chaiá de Yechida de Adam
Kadmon, o exercício da correta Intenção de doar para contentar ao
Criador no desejo de revelar na unificação das Almas. No grau anterior, o
desejo de receber do quinto mundo alcançou o Entendimento do que deve
ser corrigido ("castigado"), e agora, na aplicação da correção, o cabalista
experimenta a doação pela doação. O castigo do egípcio de cinco côvados,
o exercício da correta Intenção superando os desejos revelados no grau
anterior, equivale ao grau de Moisés, o "egípcio" grande e honorável, que
116
pode exercer a correta Intenção para revelar o Criador no último degrau
da Escada. O exercício da Intenção será concluído quando a Luz de
Yechida, a Academia Superior percebida neste grau, preenche Keter de
Arich Anpin de Adam Kadmon, trazendo o discernimento de que o
Homem Grande é um, de que todos os Partzufim estão retificados. Assim,
o Homem Grande e o Homem de Aparência, o Homem completamente
corrigido no qual o Criador é completamente revelado e seu desejo de
receber independente do Criador são unificados, pois se não fosse assim,
a adesão seria forçada e a criatura jamais saberia nem desejaria de
Vontade própria ser como o Criador. E esta unificação é o Shabat e seus
limites, ou seja, a correção que adveio e que prepara cada grau alcançado,
as suas medidas, fora da cidade, fora do Partzuf, como Luz Refletida em
prol de revelação após revelação. Isso inclui a ordem de não ser iníquo
nem com os juízos- as intenções - nem com as medidas - com as Sefirot
que deve elevar para a correta recepção das Luzes. Este é o Homem
Grande, o Homem de Medidas, o Homem Sefirótico - sua extensão vai do
final do mundo ao final do mundo, ou seja, ocupa toda a realidade criada,
é a realidade: assim é o Homem Primordial, a Alma Comum.

E se dizes: é aqui que está escrito “cinco côvados”, esses cinco


côvados eram do final do mundo até o final do mundo.
Aquele que sente os cinco Mundos retificados, sente toda a realidade
criada.

“Na mão do egípcio, uma lança”, como está dito: “Como o tecelão”, é
o cajado de Deus que estava em sua mão, e sobre ele estava gravado
o Nome explícito, trazido pela luz da fusão das letras que foram
gravadas por Betzalel e sua academia, chamado “tecelão”, como está
escrito: “encheu-os...para bordar e tecer...”. E esse cajado irradiava o
Nome gravado em todas as direções graças à luz dos Sábios que
haviam gravado o Nome explícito com quarenta e duas tonalidades.
O versículo daqui em diante é como ele disse. Que sorte a sua!
117
O desejo de receber dispõe da intenção como uma lança, para jogá-la longe
de si, ou como um cajado, para sustentá-lo na correção. Se é como um
cajado, já não é mais lança, mas uma lançadeira de tecelagem, como é
comparado no versículo comentado no Zohar ("uma lança na mão, como
o órgão do tecelão"), não para ser arremessada, mas para permanecer
consigo, nela gravadas letras, sentimentos e discernimentos que
qualificam seu portador como um tecelão, como aquele que conhece cada
ponto por trás da realidade aparente e trama a sua correção. A intenção
irradia o Nome em todas as direções, realiza a retificação em cada uso que
faz da recepção e da doação, graças a Luz da Sabedoria que gravou o Nome
na correta Intenção: o Cabalista, porque sabe direcionar a Luz, tem esta
Luz gravando cada Sefirá que é preenchida. Feliz é o seu destino, que foi
escolhido por si!

Sentem-se, queridos, sentem-se, e renovaremos a preparação da


Noiva nesta noite, porque quem quer que se associe a ela nessa noite
será protegido Acima e Abaixo durante todo esse ano, e transcorrerá
este ano em paz. Sobre eles, está escrito: “O Anjo do Eterno acampa
ao redor dos que lhe temem e os salva. Prova e veja quão bom é O
Eterno!”
Aqui, três convites: duas vezes para sentar - para que as luzes de Nefesh e
Ruach desçam - e para renovar a preparação da noiva - o recebimento
para doar, equivalente à vinda de Neshamá, o Entendimento durante a
noite, uma Luz que revela as correções para o nosso mal. Aqui é dito que
as correções que se associarem ao desejo de receber durante esta revelação
estarão protegidas acima e abaixo, serão instrumentos para criar as
Sefirot com a Luz de Retorno e preservar o Partzuf de receber além da
restrição, de preservá-lo do que o impediria de sentir o grau superior. Essa
proteção abrange todo o ano, toda a face em correção, de Keter à Malchut.
Nesse estado, a Luz Circundante permanece ao redor do cabalista que
mantém a Tela e o livra do egoísmo. Prove e veja quão bom é o Eterno:
que a boca do Partzuf deixe entrar a Luz com a correta Intenção e as Luzes
118
Superiores serão sentidas até a revelação do Criador como bondade
naquele grau corrigido.

Rabi Shimón abriu e disse: “No princípio, criou Deus”. Este versículo
deve ser observado. Porque quem quer que diga que existe outra
divindade, será arrancado dos mundos, tal como está dito: “Dizei-
lhes assim: os deuses que não fizeram os Céus nem a Terra serão
excluídos da Terra e de baixo destes Céus”. Porque não há outro Deus
fora do Santo, Bendito Seja, somente.
Vem do Criador o sentimento de que há terra e há céus, e um trabalho de
livre-escolha com a intenção que permite movê-la dos desejos inferiores
aos superiores, e esta criação dicotômica é assim para que todo o bem
possa ser alcançado pela criatura - o bem da terra - que é o que o Criador
deseja lhe dar e a criatura quer receber - e o bem do céu - ser como o
Criador que doa, e que a criatura deve querer alcançar, e reluta porque a
sua natureza é receber, e, portanto, ela é incompleta e imperfeita. Esta é a
diferença entre o tesouro da terra e o tesouro do céu: o primeiro, sozinho,
conduz ao pão da vergonha, à dependência do Criador ao mesmo tempo
em que há um afastamento gradual Dele; o segundo, promove a
reaproximação, numa adesão em que a Criatura conscientemente alcança
os atributos da Doação. Então, "no princípio, criou Deus", promovendo
um desejo de receber independente que queira ser como Ele, uma criatura
consciente do céu e da terra, que aprende como valer-se de uma e de outra
para subir os degraus da criação. Na medida em que deve se reaproximar
do Criador, está distante e sente esta distância na forma de imperfeições,
limites e sofrimentos neste mundo. Toda esta distância vem do Criador, é
parte do Plano da Criação que nos permite agir cegamente num falso livre-
arbítrio até nos darmos conta de que só agíamos, até então, com o desejo
de receber para si. Agora, há o verdadeiro livre-arbítrio com a
responsabilidade da escolha, da correta Intenção, do despertar do ponto
no coração até o último degrau da Escada espiritual, que nos coloca mais
próximos da Face do Criador. Tudo o que precede o alcance final constitui
119
o criado, assim, não há outra divindade além Dele, pois esta precedência
procede Dele. Ao reconhecer que existe uma única raiz para os tesouros
do céu e da terra, e que toda a criação compreende o bom e mau uso em
diferentes graus destes tesouros dos quais a criatura mesma é feita,
reconhecemos que tudo provêm do Criador, mas nem tudo pode ser
utilizado para retornar a Ele. Aquele que reconhece outra divindade, que
usa o desejo de receber para si, tira o seu foco do Criador como único, e
joga a Sua divindade na criação, permanecendo fora dos mundos
superiores: ela lançou a divindade ao pó, e junto ao pó a criatura
permanecerá até que se dê conta deste erro; até que as falsas divindades
(as intenções para si) sejam removidas da Terra (de seu desejo de receber)
e sob os Céus (não constituam os fundamentos da espiritualidade, porque
as falsas divindades são as coisas para si, imbuídas de uma intenção
incorreta que não constitui os mundos superiores). Não há outra
divindade além Dele: somente Nele a criação poderá fazer de seu desejo
de receber, sua natureza, um Tesouro confiado por seu Rei.

Este versículo está em arameu, salvo a última palavra do final do


versículo. E é dito que isso se deve a que os santos anjos não atendem
o arameu e não o compreendem. Isto deveria ter sido enunciado na
língua sagrada, para que os santos anjos atendessem e
reconhecessem por isso. Mas por isso mesmo foi escrito em arameu:
para que os santos anjos não o atendessem, não invejassem o homem
e o prejudicassem, devido a que o versículo incluiu a estes anjos, os
quais são denominados Elohim e formam parte de Elohim, mas não
criaram nem o Céu nem a Terra.
"No princípio criou Deus": o início da espiritualidade na vida de alguém
está quando a pessoa se reconhece como um ser criado a parte do Criador
e é, portanto, imperfeita e não encontra perfeição, satisfação e divindade
nas coisas deste mundo; não fosse assim, seria mais uma pessoa imersa
na realidade deste mundo - no desejo de receber para si, na razão que só
percebe o que seus sentidos lhe trazem - e estaria fora dos mundos
120
superiores: estes que assim o fazem descem a Divindade ao pó, pois
almejam objetos e objetivos transitórios, que serão excluídos da terra, do
seu desejo de receber cuja natureza é insaciável, bem como serão excluídos
abaixo dos céus - não formam a base para alcançar a espiritualidade, os
mundos superiores, o desejo de doar. Não há outra perfeição, completa
satisfação, Divindade a ser alcançada, senão no Criador, e, portanto, em
almejar aderir a Ele e nesse esforço empenhar-se. O discernimento do seu
único desejo pelo qual este mundo foi criado vem, então, quando a pessoa
compreende que "No princípio criou Deus". Compreende em aramaico:
em "No princípio criou Deus", apenas a palavra final (Deus) está em
hebraico. O aramaico era utilizado como língua cotidiana, para as coisas
deste mundo, enquanto o hebraico era utilizado no templo. Assim, o
aramaico corresponde ao desejo de receber para si, e o hebraico ao desejo
de doar para doar. A busca da espiritualidade é realizada com o desejo de
receber sendo direcionado ao desejo de doar. A busca é refinada com a
retirada de outros deuses que não contribuem com este objetivo, até que
não haja outro Deus, outra revelação fora desta qualidade de doação,
conforme o trecho anterior do Zohar nos ensina. Mas por que usamos o
desejo de receber para si, o aramaico incompreendido e não atendido
pelos santos anjos (as luzes refletidas ou recebidas que atuam em função
da doação) e não na língua sagrada, no hebraico, no desejo de doar para
doar? Justamente porque se possuíssemos de imediato esta propriedade
de Atzlut, não conheceríamos a carência da nossa real necessidade pelo
Criador e a adesão seria incompleta porque não reconheceríamos que "no
princípio criou Deus". Assim, com o uso do desejo de receber para si, as
luzes não o atendem, porque embora sejam atributos do Criador tal como
as denominamos e as percebemos, não são elas o Criador em si, não são
as luzes que criam o desejo de receber e de doar: os anjos, ou luzes,
correspondem ao cumprimento das etapas do trabalho de refinar o desejo
de receber para si com o qual o Criador nos fez até o desejo de doar, o
atributo que identificamos Nele como sua perfeição revelada.

121
No lugar de vearka, deveria estar escrito veara. Mas assim foi devido
a que Arka é uma das sete Terras inferiores. Nesse lugar habitam os
descendentes de Caim depois de ele ter sido expulso da face da Terra,
desceu àquele lugar, teve descendência, enlouqueceu ali e não soube
mais nada. É uma Terra dobrada, duplicada em escuridão e em luz.
No trabalho de direcionar o desejo de receber, há discernimentos a serem
feitos com relação a este desejo. Assim como a terra possui quatro nomes
em hebraico, o desejo de receber possui quatro níveis de desejos, nesta
ordem: arka, inanimado, receber para receber; eretz, vegetativo, doar
para receber; adamá, animado, receber para doar; tevel, humano, doar
para doar. Arka é uma das sete terras inferiores, ou seja, o inanimado
dentre as sete Sefirot inferiores, portanto, Malchut, que apenas quer
receber, e que por ser inanimada, não permite vida, não dá frutos (desejos
de receber que pudessem ser direcionados com a correta Intenção). Aqui
habita Caim, exilado da Terra, do desejo de receber: é o mal que retiramos
do nosso desejo de receber, um estado de egoísmo que não deseja corrigir-
se, e que ali tem descendentes e enlouquece (incorre no receber para si,
coloca a fé abaixo da razão) e nada mais sabe (não possui misericórdia
para vestir a Luz da Sabedoria). É uma terra duplicada, em zonas de
escuridão e de luz: trata-se de um estado de reconhecimento do mal, dos
descendentes de Caim, daqueles desejos que não podemos utilizar em
contato com a Luz para deles desenvolver a progressão no alcance de
mundos superiores.

Ali há dois encarregados governantes, um sobre a escuridão e outro


sobre a luz. E ali se acusam um ao outro, e ao descender ali Caim, se
associaram um ao outro e se complementaram como se fossem um
só. E todos veem que são a descendência de Caim, por isso têm duas
cabeças como de serpentes, exceto quando a luz reina; um vence ao
outro, e por isso se fundiram este na luz e aquele na escuridão para
ser um só.
As Vontades de receber e a de doar se opõem e são irreconciliáveis, até que
122
ali descende Caim: quando são identificados os desejos que não podem ser
utilizados com a correta Intenção. Então os desejos são como se fossem
um, e aqueles descendentes de Caim, que não podem ser utilizados,
tornam-se reconhecidos quando vêm à tona. O vir à tona, o governante da
escuridão, o expõe como serpente de duas cabeças, até ser vencido pelo
governante da Luz. A seguir, nova governança das trevas e da Luz,
revelando mal após mal a descendência de Caim, como se Luz e trevas se
complementassem num só: são opostos, mas não mais irreconciliáveis,
pois necessitam sucederem-se para mostrarem-se distintos e haver um
exercício de livre-arbítrio. Este livre-arbítrio é a fusão da Luz e da
escuridão para ser um só.

Esses dois encarregados – Afrira e Kastimon - possuem um aspecto


similar a dos santos anjos, com seis asas. Um deles tem o aspecto de
um boi, e outro tem o aspecto de uma águia, e ao unirem-se,
assumem o aspecto de um homem. Quando estão na escuridão,
assumem o aspecto de uma serpente de duas cabeças, se arrastam
como uma serpente, sobrevoam o abismo e nadam no Grande Mar.
Ao chegarem às cadeias de Aza e Azael, os provocam e os despertam.
E estes saltam nas montanhas da escuridão pensando que O Santo,
Bendito Seja, os reclama para julgá-los. E esses dois encarregados
sobrevoam o Grande Mar, voam dali e, ao chegar a noite, encontram
Naamá, a mãe dos demônios que confundiu as primeiras divindades.
E quando pensam em aproximar-se dela, esta dá um salto de seis mil
parsaot e se transforma em várias representações diante dos
homens, para que eles se confundam seguindo-a. E estes dois
encarregados voam e sobrevoam todo o mundo, regressam a seus
lugares e estes despertam a procriar esses descendentes de Caim com
o espírito das más paixões.
Afrira e Kastimon possuem seis asas, qual seja, são Zeir Anpin, o esforço
pela intenção correta. Neste estado, um tem o aspecto de um boi, um
animal da terra, o desejo de receber, o outro de águia, um animal do céu,
123
o desejo de doar. Quando esses desejos estão reunidos, tem-se o homem,
aquele que exerce o livre arbítrio entre dois estados que coexistem em si.
Na escuridão, quando o egoísmo se faz sentir, torna-se o homem uma
serpente de duas cabeças, animal rastejante - absoluto egoísmo - que
sobrevoa o abismo, ou seja, acha-se superior nos graus de egoísmo, numa
paródia do verdadeiro vôo que deve sobrevoar a terra, o desejo de receber,
e não as suas profundezas. Também nadam no grande mar, isto é, em
Malchut, imersos na razão deste mundo. Chegando às montanhas da
escuridão, um estado de sombras, provocam e despertam Aza e Azael, até
que estes demônios se jogam ante a ideia de que serão julgados: até que o
indivíduo vença as sombras da dupla ocultação, quando então sobrevoa
Malchut, realiza uma pequena elevação, até a noite, quando encontram
Naamá, mãe dos demônios, outra etapa do reconhecimento do mal, no
qual se busca compreender cada desejo incorreto que outrora ocupavam
a aspiração do indivíduo. Mas quando se imagina que Naamá possa ser
tocada, ela assume diferentes formas de desejo neste mundo,
confundindo-o no reconhecimento da autoridade única do Criador e em
como esta forma pode ser reconhecida. E depois de voar e sobrevoar por
todo o mundo, por dedicar-se a reconhecer seus desejos não corrigidos no
Partzuf, voltam ao seu estado mais baixo, no qual se procriam
descendentes de Caim, ou seja, são revelados novos desejos que não
podem ser utilizados com a correta Intenção.

Os Céus que governam ali não são como estes, e não gera a Terra com
seu vigor semente nem colheita como esta, e não voltam a iniciar
senão ao cabo de muitos anos e tempos. E sobre estes: “deuses que
não fizeram os Céus nem a Terra”, serão destruídos da mais Alta das
Terras do universo, não imporão seu reino nela, não a sobrevoarão e
não poderão fazer com que os homens pequem com incidentes
noturnos: por isso “serão destruídos da Terra e debaixo dos Céus”,
porque foram gestados pelo nome Ele, tal como foi dito. Por essa
razão o versículo mencionado é uma tradução de modo que os anjos
124
superiores não pensem que foi enunciado sobre eles, e não nos
acusem. E por isso o mistério Ele, tal como dito, é uma palavra
sagrada que não pode ser substituída pela tradução.
Os céus que governam ali são falsos céus, são aspirações de espiritualidade
que tem por fundamento a recepção para recepção, que é a natureza desta
terra inferior, Arka. Um reconhecimento do mal que visa o
autoconhecimento para melhorar o uso de seu desejo de receber para si é
um exemplo disso, seu praticante não obterá êxito nisso, é como uma terra
na qual a semente plantada não vinga, pois não há chuva (misericórdia) e
não haverá colheita. Os objetos celestes realizam ciclos extensos, porque
trata-se de um aprendizado demorado no caminho do sofrimento, não no
da Cabalá, no caminho de deuses que não fizeram os Céus nem a Terra,
não tem o propósito de doar nem o da correção do desejo de receber. Por
isso este estado será destruído pela Terra Superior, o desejo de receber
com a correta Intenção, esta Terra na qual o ego não se sobrepõe e cuja
noite será utilizada para o correto reconhecimento do mal, não para
entregar-se à confusa profusão de desejos. E este estado inferior será
removido do desejo de receber e da base dos mundos superiores, porque
trata-se de uma geração ilusória do desejo de receber que quer para si. O
versículo referente a esta terra inferior está em arameu, portanto, para
que os anjos não acusem o homem, está dado do ponto de vista do
receptor, para que ele compreenda seu estado inferior e não receba desta
forma a Luz Direta que lhe impedirá de transcender seu mal. E se este
estado confuso de coisas existe, é porque também foi permitido pelo
Criador que deseja que a Sua criação o transcenda para reconhecer-se
digna de receber corretamente a Luz, cumprindo o Plano do Criador para
com as suas criaturas.

Rabi Elazar perguntou: este versículo no qual está escrito “Quem não
te temerá, Rei dos Povos? Porque a ti te corresponde”. Que louvor é
este?
A partir do discernimento de desejos de receber inferior e superior,
125
questiona-se o versículo de Jeremias: se o Criador é o Senhor de todos os
desejos, todos seriam satisfeitos em temor a Ele, porque seriam
correspondentes. Entretanto, que louvor é este, pois assim sendo, onde
estaria a necessidade de correção, neste caso? E mais: como podem todos
os desejos servirem ao Criador?

Disse-lhe: Elazar, meu filho, esse versículo foi interpretado em vários


lugares, mas não é de fato assim, pois está escrito: “Porque entre
todos os sábios dos povos e em todos os seus reinos” Porque este vem
a abrir a boca aos pecadores que pensam que O Santo, Bendito Seja,
não conhece suas reflexões e pensamentos, e, portanto, cabe dar a
conhecer sua estupidez.
As relações entre os desejos de doar e de receber são realizadas de acordo
com os diferentes graus de discernimento correspondentes ao
preenchimento da Luz nos vasos corrigidos. Assim, não se trata de
satisfazer todos os desejos, o que tornaria a criatura irreconciliavelmente
distinta e, portanto, afastada de seu Criador, mas condicionar à sua
satisfação à satisfação do Criador, mediante a intenção correta.
Entretanto, não há intenção semelhante a do Criador em todos os
mundos; isso porque Sua intenção corresponde ao Seu desejo sempre. Ele
sempre será para nós o Ser revelado, enquanto para Ele nós nunca
estivemos ocultos. A estupidez do pecador consiste em acreditar que
porque não vê o Criador, também por Ele não seria visto. A criatura é vista
pelo Criador por contraste: ela é existência a partir da inexistência
(qualidades limitadas e imperfeitas ausentes no Criador), como uma
mancha na Luz, enquanto a existência a partir da existência é uma Luz
única, um manto infinito.

Em certa ocasião, se apresentou diante de mim um filósofo das


nações do mundo e me disse: “Vocês dizem que vosso Deus rege todas
as alturas dos Céus, e todos os exércitos e acampamentos não podem
apreender nem conhecer Seu lugar. Este versículo não exalta tanto a
126
Sua Glória, porque está escrito: “Porque entre todos os sábios dos
povos e em todos os seus reinos não há semelhante a Ti”. Que
comparação é esta com homens desprovidos de existência? Além
disso, vocês dizem: “não surgiu em Israel outro como Moisés”, que
em Israel não surgiu, mas que nas nações do mundo surgiu. Aqui
também digo “entre todos os Sábios dos povos” não há semelhante a
Ele, mas há entre os Sábios de Israel. Sendo assim, uma divindade
que tivesse um igual entre os Sábios de Israel não seria um soberano
supremo. Examina o versículo e encontrarás que é precisamente
como corresponde”.
O filósofo das nações do mundo é a intenção no ápice do desejo de receber,
a máxima razão que quer contestar o caminho da Fé a partir de Sua
própria trilha. Para tanto, pergunta se no ato de comparar que não há
intenção que possa ser como a do Criador não estaria um menosprezo em
medi-Lo, já que é imensurável comparar a existência com a não existência.
E mais, em dizer que Ele é ímpar ante os sábios das nações, estaria dizendo
que em Israel haveria aqueles que a Ele se equivalem? Como pode ser isso?
E que outro sábio em Israel como Moisés não surgiu: mas então o teria
nas nações do mundo? Ora, a comparação é necessária, não o fosse, o
desejo de receber se contentaria em si e não seria capaz de reconhecer-se
como mal, pois não haveria o Criador com que medir-se; não a Ele se
destina a comparação, mas consigo, reconhecendo seus limites e
imperfeições. Sobre os sábios de Israel, as intenções em prol de revelar o
Criador: cada um deles corresponde a um grau que possui certa
semelhança com Ele, é o que Dele se pode alcançar naquele grau atingido,
portanto se equivalem em atributos ao Criador num determinado grau de
equivalência de forma até que se revele-O mais por outra intenção
superior. Moisés, não obstante, é o grau de intenção que conduz os desejos
à espiritualidade: a partir de Moisés, aqueles que pretendem aderir ao
Criador não mais precisam habitar nas nações do mundo, e, por isso, é
desnecessário falar de seus sábios (suas intenções), pois Moisés é a correta
e única intenção que permite a entrada em Israel, onde há seus próprios
127
sábios: estas são portas reveladas por Moisés, a porta oculta no meio das
nações do mundo, que vence seus sábios para elevar o grau da fé sobre a
razão do mundo.

Disse-lhe: certamente, bem disseste. Quem ressuscita os mortos


senão O Santo, Bendito Seja, apenas? Vieram Elias e Eliseu e fizeram
reviverem os mortos. Quem faz chover senão O Santo, Bendito Seja,
apenas? Veio Elias e as deteve, e depois as fez cair através de sua
oração. Quem fez os Céus e a Terra senão O Santo, Bendito Seja,
apenas? Veio Abraão, e os Céus e a Terra vieram a existir por ele.
Quem conduz o Sol senão O Santo, Bendito Seja, apenas? Veio Josué,
parou-o e lhe ordenou permanecer em seu lugar, e se interrompeu
tal como está escrito: “O Sol parou e a Lua se deteve”. O Santo,
Bendito Seja, decreta justiça e também assim Moisés decretou justiça
que foi executada. Além disso, O Santo, Bendito Seja, decreta juízos e
os justos de Israel os anulam, tal como está escrito: “O justo governa
em temor de Deus”. Ademais, Ele prescreveu-lhes caminharem
concretamente por Seus caminhos e parecerem-se a Ele em tudo”.
Para surpresa da razão, a fé não a contradiz, mas confirma suas palavras
(o desejo de receber não deve ser calado, contestado, mas direcionado para
a correta Intenção). Do desejo de receber mais egoísta (morto), o Criador
o ressuscita (o reintegra como parte de si, trazendo-o à vida, ao desejo de
doar de onde provêm como vaso de receber), e o cabalista no grau de Elias
ou Eliseu deve fazê-lo; O Criador faz chover (concede misericórdia para
que o desejo de receber possa ser cultivado com a correta Intenção), e eis
que o grau de Elias por vezes detém a chuva, cultivando seu desejo de
receber, e por vezes ora pela misericórdia para que seu desejo de receber
dê bons frutos; Deus criou os céus e a terra, e é no grau de Abraão que se
pode percebê-los como unidade e vencer a confusão dos sentidos; o
Criador conduz o sol, o desejo de doar, e Josué, o grau sucessor de Moisés,
pôde manter este estado de doação até vencer os desejos egoístas em seu
nível, impedindo a lua de aparecer (uma nova manifestação do desejo de
128
receber); tal como Deus decreta justiça (revela reshimot para correções),
Moisés as decreta (as revela no âmbito específico da Sabedoria Cabalística)
e as faz ser executada (corrige-as valendo-se da correta Intenção); o Santo
também decreta juízos (o desejo de receber pré-determinado) e os justos
de Israel os anulam (com o livre-arbítrio alcançado na espiritualidade, pela
escolha da correta Intenção, que é feita com temor de não manter seu
pacto de restrição para aderir ao Criador e cumprir com o propósito da
criação; por isso é dito que o justo governa em temor de Deus). E todos
esses exemplos vem do Seu desejo de doar, que a Sua criação aprenda Seus
caminhos (de como desenvolver a correta Intenção para a adesão) e se
pareça a Ele em tudo (torne-se semelhante até fundir-se em Sua Luz).

Partiu aquele filósofo e se converteu no povo de Shechalim, e


chamaram-no Iosei Katina, e estudou tanta Torá que foi um dos
Sábios e justos desse lugar.
Quanto maior for a razão que cede à fé, tanto maior será a Vontade para
que a Torá ocupe, tornando aquele que nela se empenha um dos sábios
(que se dedica a executar os desejos com a correta Intenção) e justos (que
em sua força de doação não se deixa tentar pelos desejos de receber
estranhos à sua espiritualidade em seu grau).

Agora devemos contemplar o versículo. Eis aqui que está escrito:


“Todos os povos são como nada ante Ele”. Que agrega isto? Senão:
“Quem não te temerá, Rei dos povos?”. É Ele o Rei dos gentios sem
ser o Rei de Israel? Senão que em todas as partes O Santo, Bendito
Seja, quis glorificar-se por Israel, e não foi chamado senão somente
através de Israel, tal como está escrito: “o Deus de Israel”, “o Deus
dos hebreus”, e está escrito: “Assim disse o Eterno, rei de Israel”.
Certamente Rei de Israel.
Todos os desejos são como nada ante a Luz, pois o desejo é sempre uma
carência, é sempre o inexistente perante a Luz que o preenche, e esta Luz
é infinita, apenas nossos vasos de receber a limitam; vasos não corrigidos
129
são fechados, e por não comunicarem seu conteúdo, estão sempre
limitados, sem poderem experimentar um fluxo contínuo que passe por si
e deixe fluir livremente sem preocupar-se com perdas, pois a Luz é
infinita. Quando contemplamos a carência do vaso e sua imperfeição ante
o Criador, chamamo-Lo de Rei dos povos, Aquele que pode preencher
nossos desejos; mas o Criador quer em todos os desejos ser glorificado por
aqueles que escolhem aderir a Ele. Assim, o Criador não poderia ser Rei
dos povos se não o fosse de Israel, doar para doar, um estado superior
àquele do temor ao Rei dos povos (doar para receber). O temor ao Rei dos
povos encontra o limite da recepção a partir do quanto doa, mas o temor
ao Rei de Israel faz com que se doe continuamente, porque o Rei permite
que a Luz preencha aquele vaso assim preparado neste temor. Entende-
se, assim, o versículo segundo o qual não há sábio maior entre os povos,
não há intenção maior entre os desejos de receber do que aquela Sabedoria
própria do Criador, a intenção de doar, com todo o discernimento que nela
há e que o Rei de Israel quer vê-la manifestada por seus súditos: esta
manifestação do discernimento de como direcionar seus desejos de
receber com a correta Intenção é a glorificação do Criador, o louvor a Ele,
ao Rei de Israel, ao desejo de aderir ao Criador.

Disseram as nações do mundo: nós temos outro protetor nos Céus,


porque vosso rei não domina senão sobre vós, exclusivamente,
enquanto que sobre nós não domina. Conforme o versículo o diz:
“Quem não te temerá, Rei das nações”? Rei supremo que os submete,
castiga-os e lhes impõem Sua Vontade.
O desejo de receber tem o falso discernimento de que o Criador como
desejo de doar, como Luz, não é o seu mesmo Deus, e assim trabalha
contra a unificação. O Rei de Israel – o propósito do desejo de doar - não
lhes é sentido. As nações devem trabalhar primeiro o desejo de doar para
receber - temendo e reconhecendo-O como um protetor nos Céus -
enquanto são submetidos e castigados pelo desejo de receber que se lhes
parece uma finalidade inescapável. No entanto, este estado é importante
130
para se perceber o que e como se deve doar e o que e como se deve receber.

“Porque a ti te corresponde...” que se tema a Ti tanto no Alto como


Abaixo.
O temor ao Criador deve ser sentido no desejo de doar como no desejo de
receber: no Alto, para que se evite as quedas, abaixo, para que se possa
avançar no Trabalho. Assim como é recebido como Torá, Luz Interior,
abaixo, no Partzuf, também o é de Sefirot em Sefirot que forma com a
reflexão da Luz, para que sejam preenchidas.

“Porque entre todos os Sábios das nações...” se refere aos grandes


governantes encarregados sobre eles.
Todos os Sábios das nações, todas as intenções corretas encarregadas de
cada desejo de receber, governam, ou seja, corrigem tais nações, desejos.

“E em todos os seus reinos”: naquele Reino Supremo. Pois aqui


existem quatro reinos governantes no Alto que governam de acordo
com Sua Vontade a todo o restante dos povos. E com tudo isto não há
quem faça uma mínima ação senão como se lhe foi ordenado, tal
como está escrito: “que atua segundo Sua Vontade com os poderes
dos Céus e os habitantes da Terra”.
"E em todos os seus reinos" significa em todas as suas intenções; "naquele
Reino Supremo": na maior de todas as intenções, a de revelar o Criador.
Nela existem quatro reinos governantes desde o Alto, quais sejam, quatro
intenções que se desenvolvem desde a Raiz Superior, doar para doar,
receber para doar, doar para receber, receber para receber; e, de acordo
com a intenção, todos os desejos na vida de uma pessoa se condicionam
àquela. Assim, ninguém realiza outra ação senão aquela condicionada à
intenção pela qual desenvolve a sua correção: atua segundo a Vontade do
Criador com os poderes dos Céus e com os habitantes da Terra - atua em
conformidade ao bem que o Criador quer lhe prover (atua conforme o
grau que o Criador lhe permitiu alcançar) com a sua intenção de doar e
131
com aquilo que o seu desejo de receber abriga.

“Os Sábios das nações” são os encarregados e os ministros do Alto,


de quem os povos extraem sua sabedoria.
Os Sábios das nações, as intenções corretas encarregadas de cada desejo
de receber, pelos quais os desejos extraem sabedoria, ou seja, recebem a
Luz de Chochma corretamente vestida em Luz de Misericórdia a cada grau
de correção. Os Sábios das nações concedem sabedoria, poder de doar
para o povo que somente exercia o seu desejo inerente à sua natureza de
recepção, até serem aptos a doar para doar, quando reconhecerão o Rei de
Israel como seu Rei.

“E em todos os seus reinos” se refere ao Reino que governa, tal como


foi dito. E este é o versículo de acordo com sua explicação clara.
Todos os estados, reinos, são, na realidade um só. Assiah, está incluída em
Yetzirah, que por sua vez está em Beriah, o qual se encontra em Atzilut, e
este no mundo de Adam Kadmon, nele em que a revelação é completada
até a adesão ao Criador. Os mundos são como filtros para ocultação da Luz
e todos eles existem, são governados, para a revelação do Criador.

No entanto, “em todos os Sábios das nações e em todos os seus


reinos”, encontrei nos livros antigos que se referem aos
acampamentos e às hostes, que apesar de terem sido postas a cargo
dos assuntos do mundo e a cada um o Eterno ter ordenado cumprir
sua função, quem é que agirá contra Tua Vontade, inclusive um deles,
como o Oculto Sagrado, como Tu? Porque tu és assinalado por Tua
superioridade e Tu és assinalado por Tuas obras acima de todos. E
isto é “O Eterno, nada é similar a Ti”. Quem é o Oculto Sagrado que
agirá e será como Tu, no Alto e Abaixo, e será semelhante a Ti, em
todo ato do Rei Santo, nos Céus e na Terra? Mas eles são “Caos, e o
mais belo deles é inservível”. Sobre O Santo, Bendito Seja, está
escrito: “No princípio criou Deus”, e, de seus reinos, está escrito: “E
132
a Terra era caos e vazio”.
O advento da intenção correta sobre o desejo de receber pressupõe que
todo e cada desejo de receber está subordinado à correção como
predeterminação do Criador, mas, neste caso, como falar de oposição
exercida num livre-arbítrio, já que mesmo tal oposição estaria
subordinada Àquele que está acima de tudo, O que tudo agrega Consigo?
Como alguém poderá assemelhar-se a Ele que é Criador, portanto,
perfeito doador sem carências, enquanto sua criação consiste de quatro
Mundos de correções do desejo de receber, que é, a princípio, caos
(incoerente e conflituoso em sua forma de recepção) e vazio (de Luz)?
Como a criatura oposta ao Criador pode ser fruto de sua Vontade? Além
de colocar todas essas reflexões, o texto afirma que tal oposição não pode
existir: dela não há criação possível, pois opor-se à Existência é findar-se
na inexistência. A inexistência só é possível para nós como forma de
ocultação do Criador, e, portanto, numa oposição que está sempre em
falso. O livre-arbítrio está, então, em escolher manter-se na ocultação que
é ilusória ou em sentir a revelação que é a verdade. A oposição ao Criador
não está em uma criatura que se iguale a Ele em suas obras, isso é a
similaridade de forma com o objetivo de adesão ao Criador. A oposição, ao
contrário, está na condição caótica do desejo de receber para si que, por
mais belo que seja, é inservível; sequer pode constituir uma oposição ao
Criador, porque não foi feito com este objetivo, mas apenas como meio
para que se alcance a adesão mediante a sua correção.

Rabi Shimón disse a seus companheiros, participantes nesta boda,


“cada um de vós adorne com um ornamento a Noiva”. Disse a Rabi
Elazar, seu filho: “Elazar, ofereça um presente à Noiva, porque
amanhã observará, quando entrar no palio nupcial, aqueles cânticos
e louvores que lhe dirigirem os membros do Palácio e que agora se
encontram ante Ele”.
A Vontade de adesão ao Criador é o princípio que pede às demais Sefirot
que adornem o desejo de receber com as luzes necessárias à sua união com
133
o desejo de doar. O Entendimento do que deve ser corrigido em seu grau
é o melhor presente que pode ser oferecido ao desejo de receber que se
voltará ao desejo de doar, quando este poder entrar no Partzuf
previamente preparado com os ornamentos - a Luz de Misericórdia e a
Tela - dados pelos acompanhantes da noiva, membros do Palácio que
cantam louvores à noiva (que declararam-na digna do noivo) e agora se
encontram ante Ele: o estado de doar para doar.

Rabi Elazar abriu e disse: “Quem (Mi) é esta (Zot) que sobe (ola) do
deserto?” Mi e Zot são a soma de duas Santidades, de dois mundos
com uma só união e um só enlace, “sobe” concretamente para ser o
Santo dos Santos, porque o Santo dos Santos é Mi e se une a Zot, para
ser ola, que é o Santo de Santos, já que Mi é o Santo dos Santos.
"Quem é esta que ascende do deserto?" Não se espera que no deserto, no
estado de um desejo de receber vazio e árido, se possa doar algo, até que
se possa sair dali, ascender a um outro estado. Essa ascensão ("Santo de
Santos") é o enlace com um novo desejo, um mundo de doação que é uma
santidade, e por cuja ascensão o desejo de receber também é considerado
uma Santidade, mesmo antes de unificar-se com a Santidade da outorga:
isso porque o trabalho de elevar-se (a fé sobre a sua razão) santifica a
Vontade de receber, que se torna diferente de sua natureza, levando não
só a pergunta " Quem é esta?", como também à afirmação de que
"Quem"(Santo dos Santos, O Oculto) é esta (Vontade de receber
santificada), tornada possível pelo trabalho de unificação.

“Do deserto”: porque do deserto herdou de ser noiva e entrar ao palio


nupcial. E ademais: “do deserto”, ela sobre, tal como está escrito: “e
tua palavra é formosa”, desse deserto de palavras murmuradas por
seus lábios, ela “sobe”. E aprendemos: que significa estes deuses
poderosos? Estes são os deuses poderosos que golpeiam o Egito com
toda praga no deserto. E tudo o que lhes fez O Santo, Bendito Seja,
foi no deserto? Mas eis aqui que foi em um lugar habitado. Senão que
134
“no deserto” se refere a “pela palavra”, tal como está escrito: “e tua
palavra é formosa”, e está escrito: “Pela palavra, as montanhas”.
Também aqui: “Ela sobe do deserto”, certamente do deserto, ela se
eleva com essa palavra emitida pela boca e se introduz entre as asas
da Mãe. Depois, com a palavra ela desce e pousa sobre as cabeças do
povo santo.
"Do deserto", de um estado vazio do desejo de receber que não tem o que
doar, herda a Noiva, como Entendimento recebido do que pode doar. A
Noiva é um estado de Entendimento do desejo de receber que agora pode
sair do deserto, do vazio de não poder receber corretamente e de nada ter
para doar. O desejo de receber sai do estado "deserto" e ingressa no palio
nupcial, ou seja, se torna um Partzuf pronto para receber o Noivo, a Luz
de Sabedoria. E a Noiva sobe, ascende a um novo estado do qual é dito "A
tua palavra é formosa", ou seja, bela, qualificando o atributo de Tiferet ou
o advento de Zeir Anpin, no qual já há a intenção correta sendo aplicada.
"Deste deserto de palavras murmuradas, ela sobe": enquanto louvores são
entoados em alto som, porque são as intenções aplicadas, aqui há
murmúrios, porque são o produto do Entendimento de cada desejo que
deve ser corrigido naquele grau, e só estes murmúrios já são suficientes
para elevar daquele estado o desejo de receber. O estado de deserto é
golpeado por deuses poderosos com toda sorte de pragas, isto é, são
tentativas de descaminho que o ego tenta impor para retirar o desejo de
receber dali, trazendo-o de volta a este mundo. Mas o Criador também
aflige o desejo de receber neste mundo, "num lugar habitado", ou seja,
escapar do deserto para as cidades deste mundo não é uma opção. É
necessário ascender dali. O estado de deserto apenas há em função das
palavras, das retificações a serem compreendidas, e a correção é a
intenção aplicada, a "palavra formosa". Também é dito: "Pela palavra, as
montanhas crescem", quer dizer, pela correção, novos graus de ascensão
se tornam visíveis no horizonte antes dominado pelo deserto. "Também
aqui: Ela sobe do deserto"; o desejo de receber ascende de um estado em
que não sabia como receber nem o que doar, compreendendo que o que
135
doa naquele momento são as correções que identifica como necessárias
naquele grau, essa identificação sendo o que recebeu, e "se introduz entre
as asas da Mãe", Biná, o Entendimento do receber para doar. "E depois,
com a palavra ela descende, pousando nas cabeças do povo santo": a Luz
que preenchia Biná desce para Zeir Anpin, com o Entendimento da
intenção correta, ela aplica-o, o faz sobre a cabeça do Partzuf, como cálculo
da correta Intenção provido pela Tela que agora possui.

Como se eleva pela palavra? Pois no princípio, quando o homem se


levanta pela manhã, deve bendizer a seu Senhor tão logo abra os seus
olhos. Como bendiz? Isto é o que faziam os piedosos de antanho:
punham ante eles um recipiente com água e quando despertavam à
noite, lavavam as mãos, se levantavam para ocuparem-se da Torá e
pronunciavam a benção por seu estudo. Canta o galo e é precisamente
meia-noite, então O Santo, Bendito Seja, se encontra em companhia
dos justos, no Jardim do Éden. E está proibido pronunciar uma
benção com as mãos impuras e sujas, e assim em cada momento.
Porque quando um homem dorme, seu espírito o abandona, e quando
seu espírito o abandona, um espirito de impureza já está disposto e
pousa sobre suas mãos e as impurifica. E está proibido pronunciar
uma benção sem realizar a ablução.
Como se ascende pela correção? Quando uma Sefirá é preenchida pela
Luz, ou seja, quando um dos níveis de correção é sentido (levantar-se pela
manhã), deve realizar o trabalho daquele grau revelado (deve bendizer o
Senhor tão logo abra os olhos). E como se dá este trabalho? Colocando
ante o seu desejo de receber o atributo de Misericórdia (recipiente com
água), e quando sentir a necessidade de avançar rompendo o estado de
vazio de Luz numa Sefirá já formada, de incompletude, de fluxo de Luz
bloqueado em que se encontra (despertar à noite), dirige-se toda a
intenção para a realização do grau em que se encontra (o ato de lavar as
mãos) - recebendo e/ou doando corretamente. Então pode-se refletir a
Luz Direta, receber a Luz Interna e receber na mesma proporção uma das
136
cinco luzes de NaRaNChaY acima (levantar-se, ocupar-se da Torá e
bendizer o estudo). Quando se levanta, saindo de seu estado inerte,
escolhendo a intenção correta do seu grau em correção, faz-se a passagem
de Luz onde antes não havia para o preenchimento de uma Sefirá, como
nova realização superior (quando levanta à meia-noite como escolha ao
ouvir o galo cantar, momento em que há a presença do Santo em
companhia dos justos no Jardim do Eden). Não há como haver uma
realização, uma recepção das Luzes acima se não houver a correta
Intenção abaixo, neste grau praticado (a proibição de bendizer com as
mãos impuras). Porque imerso na razão deste mundo, não há a correta
Intenção (quando dorme, o espírito o abandona), e sem esta intenção, o
ego previamente recebido se apossa de suas intenções e as desvia (um
espírito impuro já disposto, que pousa sobre as suas mãos e as impurifica).
Por isso, não há a recepção de uma das Luzes Superiores e a consequente
passagem da anterior pelas Sefirot com a intenção desviada pelo ego (a
proibição de bendizer com as mãos impuras).

Mas então, como durante o dia não dorme, e seu espírito não o
abandona, o espirito de impureza não pousa sobre ele, por que
quando adentra o banheiro não pode pronunciar uma benção nem ler
palavra alguma da Torá sem haver realizado a ablução de suas mãos?
Se dizes que é porque estão sujas, não é assim, pois com o que se
sujaram? Entretanto, ai dos homens que não atendem e que não
conhecem a Glória de seu Senhor, e não conhecem sobre o que se
mantém o mundo! Um espírito existe em todos os banheiros do
mundo, que mora ali e goza dessa sujidade e contaminação, e
imediatamente pousa nos dedos da mão da pessoa.
Durante o trabalho de preenchimento da Luz Superior, não se está imerso
na razão deste mundo. A correção não o abandona nem o ego se apossa
sobre si. Imerso num desejo próprio à razão deste mundo, não se pode
refletir a Luz Direta nem receber a Luz Interna, pois está sem a correta
Intenção. Isso porque a sua intenção está maculada, e com o que foi sujada
137
(senão com a razão deste mundo)? Ai do desejo de receber que não atende
nem conhece a realização dos graus dos mundos superiores, nem sabe em
que a espiritualidade se fundamenta. O ego se faz presente em cada desejo
mundano, ali residindo e gozando de suas regras egoístas e da razão que
se alastra consentida por todos, imediatamente se apossando das
intenções de uma pessoa.

Rabi Shimón abriu e disse: todo aquele que se regozija nas


festividades, sem outorgar ao Santo, Bendito Seja, a parte que lhe
corresponde, esse avaro, o Satã o odeia, o acusa e o expulsa do
mundo, e inumeráveis desgraças o perseguem.
Todo aquele que se alegra com seu próprio sucesso na realização dos atos
espirituais (as festividades, entre um Partzuf e outro) sem neles incluir a
reflexão sobre sua realização, suas falhas ao longo do caminho e o desejo
de progredir não para seu próprio bem, não para seu desejo de receber,
mas para o bem dos outros, é como se não outorgasse ao Santo, sendo um
avaro, seu próprio oponente que se odeia, acusa e se expulsa da
espiritualidade, não mais sentindo prazer em servir ao Criador e se
dispondo ao caminho do sofrimento em grau correspondente ao seu mal
não corrigido.

A parte que corresponde ao Santo, Bendito Seja, é a alegria que se


busca pelos pobres de acordo com suas possibilidades. Porque nestes
dias festivos, O Santo, Bendito Seja, vem a observar seus recipientes
rotos e neles ingressa e constata que não tem por que se alegrarem,
chora por eles e ascende ao Alto para destruir o mundo. Os membros
da Academia comparecem diante Dele e dizem: “Senhor do mundo,
Tu que és chamado de Compassivo e Clemente, concede Tua
compaixão aos teus filhos”. Responde-lhes: Por ventura não fiz o
mundo por bondade? Tal como está escrito: “Disse: o mundo será
edificado pela bondade”, e o mundo por isso subsiste. Dizem ante Ele
os anjos do Alto: “Senhor do mundo, eis aqui que alguém que comeu
138
e bebeu o suficiente, e que poderia ter feito o bem aos pobres, não
lhes deu nada”. Vem esse Acusador, pede permissão e se lança em
perseguição deste homem.
O que devemos ao Criador é o desejo de doar segundo o que o grau de
nossa correção permite. Quando um Partzuf está corrigido e refletimos
sobre nossos esforços no Trabalho, vemos que ainda há muito a ser
realizado, que nossos vasos estão rotos em comparação com a Luz que
pode preenchê-los. No entanto, se não se encontra ali satisfação no
Trabalho, então o horizonte de realização é retirado, até que por exposição
à Luz Circundante se sinta novamente o Criador como compassivo e
clemente, e a criação como a realização da bondade inerente, pela qual
também subsiste. Quando não há esforço nesse sentido, é como se
comesse e bebesse e não desse aos pobres, apenas satisfazendo o ego e
ignorando a carência do desejo de doar dentro de si, e por isso acusam-no
os anjos: o vaso não compreende seu estado inferior e recebe a Luz Direta
sem a necessária reflexão para que as Sefirot acima sejam preenchidas.
Estes mesmos anjos, as Luzes, tomam o papel de acusadores, pondo-se em
perseguição aos homens, quer dizer, apresentando-se como desafios a
serem superados na correção da intenção.

Quem neste mundo é para nós maior que Abraão, que fazia o bem a
todas as criaturas. Sobre o dia em que fez um banquete, diz o texto:
“Cresceu o menino e foi desmamado; e fez Abraão um grande
banquete no dia em que foi desmamado Isaac”. Abraão fez um
banquete, comida a que convidou a todos os grandes homens da
geração. E aprendemos que em cada comida de alegria o Acusador se
aproxima e observa. Se essa pessoa se antecipou e fez o bem aos
pobres e há pobres em sua casa, aquele Acusador se afasta da casa e
não entra ali. Se não, se introduz, contempla a multidão que se
regozija sem os indigentes, e sem que se tenha antecipado a fazer o
bem aos pobres, ascende ao Alto e os acusa.
Abraão é o despertar da Vontade de doar que se torna objeto do desejo de
139
receber, em contraste com todos os demais objetos aos quais até então o
desejo de receber focava para si. Quando esta Vontade se torna
Consciência de que deve doar para receber, eis Isaac, desmamado, e no ato
espiritual de alegrar-se e refletir sobre seu êxito, são reunidos os mais
notórios desejos que há em si e que podem ser corrigidos. Há aqui a
necessidade de não deixar passar algum desejo que possa escapar desta
reflexão, sob pena de que o "Acusador" à espreita, uma reshimo, se
perpetue, atrasando o progresso do Trabalho espiritual. Se os desejos
carentes de correção (pobres) estão em sua casa (em seu interior) e fez-se
lhes o bem (aplicasse-lhes o propósito de doação), não haverá reshimot
relativa àquela necessidade de correção: é o Acusador partindo dali. Mas
se encontra ali a multidão de desejos sem que os "indigentes” sejam
corrigidos quando há a oportunidade de fazê-lo, sem que seu portador
tenha por iniciativa própria o reconhecido, o acusador ascende e no Alto o
acusa, ou seja, impede-o de receber a Luz Superior nas Sefirot do Partzuf
trabalhado; e porque não foram os desejos corrigidos de Vontade própria,
o serão pelo caminho do sofrimento, até que estas reshimot sejam
corrigidas.

Abraão convidou os grandes da geração, o Acusador desceu e se


colocou à porta como um indigente, mas ninguém lhe prestou
atenção. Abraão estava atendendo aos reis e aos grandes homens da
geração. Sara amamentava os filhos de todos os que não haviam
acreditado que ela havia dado a luz, senão que diziam que era uma
criança encontrada, que o haviam trazido do mercado. Por isso
quando os seus filhos foram trazidos com eles ao banquete, Sara os
tomou e os amamentava diante deles. Tal como está escrito: “Quem
dissera a Abraão que Sara haveria de dar de mamar a filhos? ”.
Certamente “filhos”. O Acusador estava à porta e ela disse: “Deus me
fez objeto de risos”. Ao escutá-la, o Acusador ascendeu ante O Santo,
Bendito Seja, e lhe disse: “Senhor do mundo, Tu disseste: ‘Abraão,
meu bem amado’, e eis aqui que Abraão fez uma comida sem me dar
140
nada, e sem dar nada aos indigentes, e não sacrificou diante de Ti
sequer uma pomba, e, ademais, Sara disse que Te riste dela”. O
Santo, Bendito Seja, lhe disse: “Quem no mundo é como Abraão?”,
mas o Acusador não se moveu dali até que conseguiu gerar confusão
em toda essa alegria. O Santo, Bendito Seja, ordenou Isaac por
sacrifício, e decretou que Sara morresse de aflição por causa de seu
filho.
Quando o desejo de receber ascende à Vontade de doar, as reshimot
emergem à espera de serem vistas e resolvidas; embora se dê atenção aos
grandes da geração, ao GE - à Vontade e à Consciência de corrigir-se - é
da sua Vontade de receber que se alimentam os graus seguintes - seus
filhos -, assim como os objetivos deste mundo - os filhos dos que não
acreditavam no seu poder de procriar um grau superior, notadamente
desta Vontade de receber que se julgava não ser capaz de superar os
objetivos deste mundo e não dar à luz, portanto, a graus superiores à
razão. Mas neste grau de receber para si, as reshimot manifestam-se para
que haja atenção na resolução correta dos desejos que escapam do
propósito superior - os indigentes - e ante um desejo de receber titubeante,
que não crê na sua capacidade de servir a um propósito superior. E
embora não haja razão neste mundo comparável à Vontade de
espiritualidade, as reshimot emergem neste momento e provocam o
sentimento de que na progressão do Trabalho ter-se-á que sacrificar o
recém adquirido grau de doar para receber, pois a intenção não é
compreendida ("Agora que me dedico aos mundos superiores, parece que
piorei como pessoa") e o seu desejo de receber se aflige pela possibilidade
de perda do grau o qual chegara a duvidar ser possível alcançar: doar,
ainda que para receber, mas o que doar, o que receber?

Toda esta aflição foi causada porque não deu nada ao indigente.
Todas estas dúvidas, questionamentos e dificuldades no Trabalho
aparecem quando se mira os mundos superiores sem que se atente ao que
realizar com aqueles desejos egoístas mais imediatos. Primeiro,
141
esclarecemos o que desejamos receber: a Vontade de doar, e ao adquiri-la
(o grau de Abraão), preparamos a Consciência do que doar para receber
(o grau de Isaac, o que devemos abrir mão em nós e o que de melhor
podemos oferecer a fim de recebermos o que ainda não sabemos o que é).
As reshimot despertam em ritmo acelerado quando Isaac recém foi
alcançado, são necessárias justamente para que façamos os
discernimentos do que temos a corrigir, de qual é o campo no qual temos
que trabalhar. É o preparo necessário para recebermos o Entendimento
do que corrigir, e de que este é o recebimento corretamente direcionado
para os nossos atos de doação: é abrindo mão do que há de mal em nós e
oferecendo o que há de bom que entendemos o que temos de corrigir.

Rabi Shimón abriu e disse: Que significa o escrito: “então voltou


Ezequias seu rosto à parede e rezou ao Eterno”? Venha e veja quão
forte é o poder da Torá, e quão superior é a tudo. Porque todo aquele
que se esforça na Torá não teme o Alto nem o Baixo, nem teme as
más enfermidades do mundo, porque está unido à Árvore da Vida e
aprende dela a cada dia, já que é aqui que a Torá ensina o homem a
seguir o caminho da verdade, e lhe ensina o conselho de como
regressar ante seu Senhor para anular o decreto. Porque mesmo se
fosse decretado que não se pudesse anular esse decreto,
imediatamente seria anulado e se afastaria dele, não pousando sobre
este homem neste mundo. Portanto, o homem deve esforçar-se na
Torá dia e noite, e não se desviar dela, tal como está escrito: “e
meditarás nela dia e noite”. E se ele se desviar da Torá ou se afastar
dela, equivale isso a se separar da Árvore da Vida.
Voltar o rosto à parede e orar a Deus é o reconhecimento de que todas as
aberturas ao nosso redor conduzem à inexistência, que a existência só há
quando reconhecemos nosso desejo de receber limitado e nos dirigimos
ao Doador Eterno, levando a Ele nossa Vontade, Consciência,
Entendimento, intenção e revelação, de grau em grau; e assim
procedendo, recebemos a Luz Interna e sentimo-la como a maior de todas
142
as realizações. Neste esforço, não tememos obstáculos nem no desejo de
doar nem no desejo de receber, tampouco tememos sermos afetados pelo
egoísmo neste mundo. Aquele que vêm e vê, está unido à Árvore da Vida,
à compreensão destinada ao bem, à correção para a adesão, não à
satisfação do seu próprio desejo como razão deste mundo. E a cada dia -
de Sefirá em Sefirá preenchida - ele aprende, sente, o degrau em que se
encontra e o que precisa fazer, sinal de que a Luz Interna o preenche num
certo grau que lhe mostra o caminho da verdade, os passos que deve dar
para a (verdadeira) existência, que não é aquela que conduz às coisas deste
mundo, mas em retorno consciente ao seu Criador, anulando o desejo de
receber. E mesmo que esse desejo de receber tenha sido decretado como
irrevogável, ainda assim, porque o desejo de receber é vestido pela correta
Intenção, torna-se semelhante ao desejo de doar, e a falsa intenção para si
é removida de seu desejo e não retornará. Para tanto, é necessário
esforçar-se no Trabalho dia e noite: tanto quanto a espiritualidade lhe está
clara, enquanto uma Sefirá é preenchida, quanto à noite, quando deve
constituir canais entre as Sefirot num estado em que não há passagem de
Luz e parecemos nos afastar do sentimento anterior de iluminação. Não
devemos nos desviar nem nos separar da Torá, ou seja, não devemos
desviar da intenção própria ao grau que estamos corrigindo nem abrirmos
mão da Luz Interna recebendo sem a tela adequada, tentando corrigir algo
maior do que pudermos, porque isso equivale a separar-se da Árvore da
Vida, não mais podendo aprender para corrigir-se, e afastando-se do
caminho.

Venha e veja um conselho que se dá ao homem: quando chegada a


noite e se prepara para deitar-se, deve aceitar sobre si mesmo o reino
do Alto com o coração íntegro e começar por entregar o cuidado de
sua alma. E imediatamente será salvo de toda má enfermidade e de
todos os maus espíritos que não exercerão domínio sobre ele. E pela
manhã, ao levantar-se do leito, deve bendizer ao seu Senhor, entrar
em Sua Morada e prostrar-se com grande temor, e logo pronunciar
143
sua reza e tomar conselho dos santos patriarcas, tal como está
escrito: “Mas eu, pela abundância de Tua bondade, entrarei em Tua
casa, e me prostrarei em Teu santuário temeroso de Ti”. Assim foi
estabelecido: uma pessoa não deve entrar em uma sinagoga sem ter
antes se encomendado a Abraão, Isaac e Jacó, porque eles são aqueles
que instituíram a oração diante do Santo, Bendito Seja. Tal como está
escrito: “Mas eu, pela abundância de Tua bondade” refere a Abraão;
“entrarei em Tua casa” refere a Jacó; e “temeroso de Ti” refere a
Isaac. Portanto, deve ligar-se a eles no início, depois entrar na
sinagoga e pronunciar sua reza. Assim está escrito: “Ele me disse:
Israel, tu és Meu servo e em ti Me glorificarei”.
"Venha e veja" convida a manter a correta Intenção, refletindo a Luz e
formando uma Sefirá acima que será preenchida; trata-se de um trabalho
diurno, e os dias são sucedidos pelo estado de noite, um conflito entre a
sensação de distanciamento desde o preenchimento anterior da Luz e a
expectativa de preenchimento de uma nova Sefirá. A noite pode ser
angustiante porque coloca em dúvida a validade do alcance anterior e à
possibilidade de alcançar o próximo grau. Ao preparar para deitar-se, um
estado passivo, de recepção, é preciso, antes "aceitar o Reino do Alto com
o coração íntegro": receber a Vontade de doar com todo o seu desejo de
receber submisso a este propósito (Keter preenchido com a Luz de
Nefesh); e "entregar ao Criador o cuidado de sua alma": doar para receber
- empregar seus desejos na intenção de compreender o que deve ser
retificado em si no grau em que se encontra - (Keter e Chochma
preenchidas com as luzes de Ruach e Nefesh, respectivamente). A
aceitação e a entrega formam o GE, desejo de doar, Vontade e Consciência
que salvam de todo propósito egoísta (enfermidades maléficas) e as más
intenções (maus espíritos) não exercerão seu domínio ali. A manhã que
vem com o novo dia corresponde à posse da GE e à correção da AHP, o
Trabalho com o desejo de receber, descrita pelas etapas "bendizer a Deus",
"entrar em Sua Morada" e "prostrar-se ante Seu Santuário com grande
temor". "Não se pode adentrar a Sinagoga sem antes recomendar-se aos
144
patriarcas": só se pode trabalhar AHP após ter preenchido GE. Então,
novas Luzes Superiores ingressam em GE, de forma a que a Luz dos
Patriarcas desça à AHP. "Bendizer a Deus", ou reconhecer a "abundância
da bondade", propriedade de Abraão, é comparar contra o fundo de Luz
do GE preenchido a escuridão do meu AHP e ali entender os desejos
carentes de correção. Só então é possível "entrar em Sua Morada", frase
relacionada a Jacó, tendo a correta Intenção em vista. Finalmente,
"prostrar-se no Santuário com temor ao Criador", atributo de Isaac, na
recepção da Luz Interna que abaixa a tela no Partzuf até sua adequada
recepção. Foram os Patriarcas que instituíram a oração diante do Santo,
ou seja, é o preenchimento de GE que permite ao AHP elevar MAN, num
trabalho em três partes: Entendimento das retificações (Biná), exercício
da correta Intenção sobre aqueles desejos que devem ser corrigidos (Zeir
Anpin), revelação do Criador naquele Partzuf (Malchut). No início, une-se
aos Patriarcas (preenche GE - Vontade e Consciência do desejo de doar),
depois adentra-se à Sinagoga (AHP - o desejo de receber) e ali se
pronuncia a oração (elevação de MAN - recepção do Entendimento,
exercício da intenção, revelação do Criador naquele Partzuf). Disso resulta
que "Israel é meu servo, e em ti Me glorificarei". Aquele que aceita o Reino
do Alto com o coração íntegro e entrega a sua alma aos cuidados do
Criador já está a Seu serviço e por isso mesmo à noite pode manter sua
expectativa de correção, de trazer os Patriarcas ao seu desejo de receber
não corrigido.

Rabi Pinchas costumava se apresentar diante de Rabi Rechumai na


costa do mar de Guinosar. Tratava-se de um grande homem, ancião,
cujos olhos já não viam. Disse ele a Rabi Pinchas: “Certamente, ouvi
dizer que Iochai, nosso companheiro, possui uma gema, uma pedra
preciosa, e eu consegui ver o brilho de sua luminosidade que se
expande como os raios do Sol quando sai de seu leito e ilumina todo
o mundo. E essa luminosidade se estende dos Céus à Terra, e ilumina
o mundo inteiro, até que o Ancião dos Dias venha e se sente sobre o
145
Trono como corresponde.
O grau inferior alcança o superior tendo diante de si o atributo da
Misericórdia. Este inferior quer manter a correta Intenção e poder
alcançar Arich Anpin no Partzuf: é o ancião, grande homem, que já não vê
porque a Sefirá Chochma (os olhos) já recebeu a Luz de Chaiá, e agora,
com a Luz de Yechida, completa a Revelação no Partzuf. O grau de Rabi
Pinchas quer ver a realização pela correta Intenção; já ouviu, conforme o
compromisso "faremos (a Vontade de correção e adesão ao Criador) e
ouviremos (a Consciência e o Entendimento) - com as Sefirot
correspondentes nessa ordem: Keter, Chochma, Biná. Agora, recebe Zeir
Anpin e a Luz de Chaiá em Keter. Para alcançar o grau de Rabi Rechumai,
Rabi Pinchas deve passar pelo de Rabi Yochai, que possui um Partzuf
como uma jóia, cuja proteção, a Tela, reflete a Luz e ilumina todo o mundo
que constrói acima. E essa luminosidade se estende do desejo de doar (Luz
Direta) até o desejo de receber (o Partzuf) e ilumina o mundo inteiro (GE
e AHP) até que o Ancião dos Dias venha e sente-se sobre o trono como lhe
corresponde (O Criador se revele naquele Partzuf corrigido).

Esta luz está toda contida em tua casa, e da luminosidade contida em


tua casa surge uma luz fina e tênue, que irradia para fora e ilumina
o mundo inteiro. Bem-aventurada é tua porção: Vê filho meu, vê por
detrás desta joia que ilumina o mundo, porque tua hora chegou. Saiu
diante dele e se preparava para subir a esse barco, e dois homens
estavam com ele. Viu duas aves que chegaram e sobrevoavam o mar.
Elevou sua voz e disse: “Aves, aves que voais acima do mar! Haveis
visto o lugar onde se encontra o filho de Iochai?” Deteram-se um
instante e ele disse: “Aves, aves, ide e trazei-me uma resposta”. As
aves voaram e se afastaram, sobrevoaram o mar e se foram. Antes
que partisse, as aves regressaram e no bico de uma delas havia uma
nota na qual estava escrito que Bar Iochai havia saído da caverna com
Rabi Elazar, seu filho. Saiu ao seu encontro, mas o encontrou
transfigurado, com o corpo coberto de feridas. Chorou com ele e
146
disse: “Ai de mim que te vi deste modo!”. Disse: Bem-aventurada é
minha porção, já que me viste deste modo, porque se não me
houvesse encontrado assim, não seria o que sou.
Quando a Luz de Chaiá alcança Keter, as luzes precedentes descem às
Sefirot anteriores e Zeir Anpin está preenchida com a Luz de Nefesh, a Luz
do Receber para si que será filtrada pela correta Intenção em ZA. Dessa
forma, com esse filtro, toda sua casa, o Partzuf, pode ser corretamente
preenchido de Luz. Desta Luz, surge um fio tênue dirigido para o exterior
da casa: é a Luz Refletida para o bem do Criador. Bem-aventurados são
aqueles que assim corrigem sua porção, seu fragmento da Alma Comum,
convidados a enxergar a realidade por trás da joia, tendo a intenção
correta por filtro. Quando este convite chega de GE para AHP, este está
pronto para se unir ao superior. Ele é ainda Entendimento, acompanhado
de Vontade e Consciência, e embarcam tendo a misericórdia como
caminho, vendo Chaiá e Yechida acima, para a qual se pergunta onde está
em relação ao grau alcançado. Não há resposta, porque do seu ponto de
vista os graus não foram ainda alcançados, e, assim, deixa sua questão
partir porque está confiante de que estes graus retornarão para si. De fato,
ainda não parte para efetuar a correta Intenção que não lhe está clara,
retorna a si os graus como objetivos, um deles, Chaiá, com o sentimento
de que a intenção não está mais oculta (Chaiá preencheu Keter). Saindo
ao seu encontro, executando a correta Intenção, percebe seu corpo, seu
desejo de receber, coberto de feridas, isto é, de más intenções que devem
ser corrigidas nesta etapa do Trabalho. Ver seu desejo de receber assim
maculado traz tristeza porque contraria a Vontade do Alto, mas também
gratidão porque ao reconhecer cada falha e imperfeição que lhe constitui
tal como é, sabe o que fazer para corrigi-las.

Rabi Shimón abriu sobre os preceitos da Torá e disse: “os preceitos


da Torá que o Santo, Bendito Seja, outorgou a Israel estão escritos
todos na Torá, de modo geral”.
O grau de realização de Rabi Shimón, no correto preenchimento do
147
Partzuf com a Luz Interna, inclui nela as Mitzvot que são dadas à Israel, à
intenção voltada ao Criador, desde o início do Trabalho até aquele grau
alcançado. Esses preceitos são pré-requisitos que se vai descobrindo em
si, a cada grau, não são instruções prévias, são como tesouros que se
adquirem no Trabalho e que devem ser guardados porque pertencem ao
Rei. Os preceitos, as Mitzvot, não são instruções do que se deve ou não
fazer para avançar, mas estados de relacionar recebimento e doação que,
quando surgem e são corretamente trabalhados, permitem avançar.

Primeiro Preceito

“No princípio criou Deus”. Este é o primeiro de todos os preceitos e


se denomina esse preceito “o temor ao Eterno”, devido a que é
chamado “O princípio”, tal como está escrito: “O temor ao Eterno é o
princípio da sabedoria”. “O temor ao Eterno é o princípio do
conhecimento”. Sendo que esta palavra é denominada “princípio”,
certamente constitui o portal de acesso à fé e sobre este preceito se
sustenta o mundo inteiro.
O temor ao Eterno, ou "O princípio". "No princípio criou Deus" equivale a
No temor ao Eterno criou Deus, temor este que é o princípio da Sabedoria
(Chochma) e do Conhecimento, ou Entendimento (Biná). Assim, a partir
de Keter, a Vontade, se alcança o temor de estar afastado do Criador, em
oposição a Ele, e nesta Consciência se inicia o seu retorno pelos Mundos
Superiores. É pelo temor que se alcança a fé (e se a eleva acima da razão),
e neste temor se fundamenta o Trabalho de retificação. Este é o temor de
raiz, necessário ao Trabalho, o temor pelo temor, reconhecendo-se como
uma imperfeição, como um nada, que não enaltece em si a
incomensurabilidade do Criador.

O temor se divide em três modos. Dois deles carecem de uma raiz


adequada, e um é a raiz do temor. Há homens que temem o Santo,
Bendito Seja, para que sobrevivam seus filhos e não morram. Ou que
148
temem os castigos corporais e pecuniários. E por isso O temem
permanentemente. Resulta que o temor ao Santo, Bendito Seja, que
experimentam, não é o principal. E há pessoas que temem o Santo,
Bendito Seja, porque temem o castigo naquele mundo, o castigo do
Inferno. Estes dois não são o principal temor e sua raiz. O temor que
é o principal é o temor do homem que teme ao seu Senhor porque Ele
é Grande e Soberano, o Principal e a Raiz de todos os mundos, e todos
ante Eles são com nada, tal como está dito: “todos os habitantes da
Terra são como nada”. E deve colocar toda a sua Vontade nesse lugar
denominado “temor”.
Há três temores ao Criador, porém dois deles sem a raiz correta, que são
motivados pelo medo de adversidades neste mundo, para si ou seus filhos
(o que pode supor outras pessoas, também), ou pelo medo de sofrer
castigos num mundo vindouro. Ambas formas de temor carecem de raiz
adequada.

Rabi Shimón chorou e disse: “Ai de mim se falo, ai de mim se não


falo! Se falo, os pecadores saberão como servir a seu Senhor. Se não
falo, os companheiros se perderão nisso”.
No grau de Rabi Shimón, se falarmos - utilizarmos a Vontade de doar para
doar, a correta Intenção que alimentamos desde Chaiá em Keter, Nefesh
em Zeir Anpin não será usada indevidamente com a intenção de receber
para si. Mas porque Nefesh está em Zeir Anpin, várias situações e desejos
não manifestados irão aflorar para serem objeto de escolha pela correta
Intenção, podendo ser superados ou não, já que o cabalista tem a
permissão concedida na realidade pré-determinada. Ai deste grau, pois,
cuja grandeza do recipiente de doação corresponderá à grandeza da
superação do seu desejo de receber para si. Mas se não mantivermos a
Vontade, "se não falarmos", toda a cadeia Sefirótica será prejudicada e não
iluminaremos a Sefirá de Malchut, realizando o fluxo de Luz e revelando
o Criador naquele Partzuf. Uma Vontade fraca não alimentará uma
grande intenção, sendo insuficiente para a correção de desejos egoístas
149
maiores.

Sob o lugar em que mora o “santo temor” está o “temor maligno” que
castiga, golpeia e acusa, é o açoite que flagela os réprobos. Quem
teme o castigo de ser flagelado e acusado, tal como dito, não tem
sobre si o “temor ao Eterno” denominado “temor que traz a vida”.
Quem, então habita sobre ele? Esse temor maligno, encontramos
sobre ele esse açoite, o temor maligno, e não o “temor ao Eterno”.
É dito que o santo temor está acima do temor maligno: trata-se da fé acima
da razão. Sob a razão se encontram aqueles que temem o castigo de serem
flagelados e acusados, por conta de serem culpados de fato por
perseguirem objetivos egoístas, ou por não confiarem na bondade da
Providência. Sobre estes não está o temor ao Eterno, "temor que traz a
vida": porque se temer não cumprir as Mitzvot, este temor lhe trará o
desejo de doar. Se não sob este "temor que traz a vida", se está sob o temor
maligno, o temor que coloca o ego como objetivo no lugar da vida.

Por isso o lugar denominado “temor ao Eterno” é chamado o


“princípio do conhecimento”. E devido a isso está incluído aqui este
preceito, e é a raiz e o fundamento de todos os outros preceitos da
Torá. Quem guarda o temor, guarda tudo. Quem não guarda, não
guarda os preceitos da Torá, já que é o portal de tudo. Por isso está
escrito: “no princípio”, que é o temor, “criou Deus os Céus e a Terra”.
Quem quer que transgrida isso, transgride os preceitos da Torá, e o
castigo de quem transgride isso é que esse açoite maligno o flagela.
O temor ao Eterno é o princípio do conhecimento, porque a outra forma
de temor mantém os seres limitados ao nível da razão, não da fé. Pelo
temor, se vai da Vontade ao Entendimento do que é necessário corrigir.
Assim, o temor é a primeira das Mitzvot, todas as demais decorrendo dela.
Quem o guarda, eleva a fé acima da razão, e cumprirá tudo o que for
necessário a cada etapa do Trabalho, enquanto quem se dedica ao temor
maligno mantém a razão no lugar do divino e se afasta do Criador, pois
150
está em oposição desde a Vontade, e na medida em que persista neste
caminho, cairá cada vez mais na razão e será incapaz de receber a Luz
Interna. O temor verdadeiro, chamado "no princípio" cria o desejo de doar
e o desejo de receber corretamente relacionados. Quem quer que
transgrida o temor que é a porta para os mundos superiores, transgride
todas as etapas restantes e permanecerá no temor da razão, que lhe
impede de adentrar os mundos superiores.

E isto é “A Terra era Tohu e Bohu, a escuridão estava sobre a face do


abismo e o espírito de Deus...” Eis aqui que tens os quatro castigos,
para castigar aos culpados. O Tohu é a estrangulação, tal como está
escrito: “o cordel de Tohu”, que é a “corda de medida”. O Bohu é a
lapidação, as pedras que se submergem no grande abismo para o
castigo dos malvados. A escuridão é a queima, tal como está escrito:
“e aconteceu que quando ouvistes a voz em meio à escuridão, e vistes
o monte que ardia em meio ao fogo”. Refere ao fogo poderoso sobre
a cabeça dos pecadores para consumi-los. O espírito é a morte por
decapitação, que é um vento tempestuoso, uma espada afiada
girando, tal como está escrito: “a chama da espada giratória” que é
denominada “vento”.
O desejo de receber apartado do desejo de doar é caos (incoerente e
conflituoso em sua forma de recepção) e vazio (de Luz). Em seu abismo,
no mais profundo egoísmo, a escuridão (a incorreta Intenção) está sobre
a sua face, enquanto o Espírito de Deus é a doação (que pairava sobre as
águas, movia-se sobre a qualidade da Misericórdia concedida a este desejo
de receber). No fragmento, destacam-se quatro conceitos associados a
castigos (estados de recepção insatisfeita): caos, vazio, escuridão e
espírito. O Zohar os descreve respectivamente como estrangulamento,
lapidação, queima e decapitação. O estrangulamento, referido como
"corda de medida", corresponde à ausência da correta Intenção, quando
não há esforço por adquirir e manter uma tela apropriada à densidade dos
desejos: sente-se uma passagem cada vez menor de Luz, porque míngua
151
o desejo de doar, até a criatura sufocar no seu desejo de receber, no qual
não mais se satisfaz. Ali o laço estrangula, porque não há mais o que
receber nos níveis pré-humanos que o retirem do caos em que se
encontra. A lapidação por meio das "pedras submersas no grande abismo
em castigo aos malvados" diz respeito à ausência do desejo de doar, pela
qual sequer se conhece o Doador e se deseja ser como Ele; neste estado,
tudo o que se percebe é a aflição dos sentidos num nível mineral (bem-
estar corporal) onde mantém o seu eu prisioneiro. Aquele que vê e vem
(eleva GE sobre AHP) também ouvirá (entenderá as correções necessárias
para seu AHP inferior). Mas sem a correta Intenção, sua correção não
resulta da elevação de GE, mas da realização pelo caminho do sofrimento
("ouvindo a voz em meio à escuridão"): a correção ali decorre da
percepção de seu desejo de receber ser consumido pela queima, devido às
experiências adversas a si ("viste o monte que ardia em meio ao fogo").
Porque não há Luz da Misericórdia naqueles que não preservam a correta
Intenção, sua cabeça (sua capacidade espiritual de calcular quanto pode
receber e doar corretamente) é separada de seu desejo de receber, que
passa a não ter critério algum. Este é o vento tempestuoso que promove a
decapitação como vinda de uma espada afiada girando. Insatisfação com
seu desejo de receber (estrangulamento), recorrência de desejos
insatisfeitos (lapidação), desejos de receber que desaparecem devido a
experiências de sofrimento (queima), vivências egoístas sem critério
algum separando da Santidade (decapitação), são os estados de recepção
imperfeita (castigos) de quem não mantém a correta Intenção na relação
entre os desejos de doar e de receber ("de quem transgride os preceitos da
Torá").

Tal é o castigo destinado àqueles que transgredem os preceitos da


Torá, e está escrito depois do temor, o “princípio”, porque inclui a
todos. Daqui em diante, o restante dos preceitos da Torá.
E estes castigos foram escritos depois de "Princípio", de temor, que inclui
todos os preceitos (todas as intenções corretas), ou seja, referem-se
152
aqueles já ingressos na espiritualidade e que não trabalham para guardá-
la. "Adiante, o restante dos preceitos", para os quais, se não mantidos,
aplicam-se os castigos referidos (os estados adversos à espiritualidade,
sentidos como sofrimentos para si). Mesmo aquele que cai sob algum
destes castigos pode, reconhecendo a raiz destes castigos, buscar na raiz
sua quitação.

Segundo Preceito

É um preceito o qual se une o preceito do temor e não o abandona


jamais: é o amor. Que o homem ame ao seu Senhor com um amor
íntegro. Que é o amor íntegro? É o grande amor, tal como está
escrito: “Anda diante de mim e seja íntegro”, quer dizer, íntegro em
seu amor. Assim está escrito: “e disse Deus: faça-se a luz”, o qual se
refere ao amor íntegro denominado “o grande amor”. Eis o preceito:
que o homem ame a seu Senhor como corresponde.
O temor como sentimento de que não deve por sua imperfeição atentar
contra a ordem perfeita se une ao de amor, pois temendo é possível
perceber a perfeição e desejá-la sempre bem. Mas que temor é este de
prejudicar a santidade, sendo o Criador a perfeição infinita, como seria
prejudicado? É o temor de não permitir a manifestação de Sua santidade
neste mundo, negando o Seu amor, a Sua providência. Aquele que
mantém este temor com o objetivo de que por seus atos o amor do Criador
seja percebido neste mundo, age com amor íntegro, com "o grande amor".
Ele anda diante do Criador e é íntegro, sabe que está sob a supervisão do
Criador ao mesmo tempo em que a permissão lhe foi concedida e buscará
corresponder em temor e amor à Sua manifestação de amor, a fim de doar
ao Criador, sendo-Lhe semelhante em algum grau, como ordenado: "Faça-
se a Luz". Assim, "que o homem ame ao seu Senhor como corresponde",
que busque igualar sua intenção com a do Criador.

Rabi Elazar disse: “Pai, o amor íntegro, eu ouvi a seu respeito”. Disse-
153
lhe: “Fala, filho meu, diante de Rabi Pinchas, porque ele se encontra
nesse nível”. Rabi Elazar disse: “O grande amor é o amor íntegro, ou
seja, que completou os dois aspectos, e se não estivesse integrado por
esses dois aspectos, não seria um amor como corresponde à
integridade. Sobre isso aprendemos que em dois aspectos se divide o
amor ao Santo, Bendito Seja. Alguns o amam porque têm riquezas,
vida longa, filhos a seu redor, dominam seus inimigos e seus
caminhos lhes são favoráveis. E por tudo isso o amam. Mas se for ao
revés, se o Santo, Bendito Seja, inverter a roda do duro rigor contra
eles, então o odiarão e não o amarão em absoluto. Portanto, este
amor não é o amor principal.
Rabi Elazar é o grau que já ouviu, já entendeu as correções necessárias
para o amor íntegro e as realizou. Rabi Pinchas está neste grau de intenção
ao amor íntegro e compreende-o a partir do grau superior buscado: este
amor íntegro deve completar dois aspectos, o do rigor e o da bondade. Se
o amor a Deus fosse apenas baseado naquilo que o indivíduo percebe como
bom, seria um amor incompleto, porque numa ausência desta percepção
de bondade do ponto de vista particular do receptor, caluniaria a Deus e o
odiaria, ou atribuiria o mal percebido a outro ser, o que constitui idolatria,
reconhecendo erroneamente poderes que não provêm Dele. Então, o
temor íntegro pode ser compreendido como o reconhecimento de que
tudo o que sentimos como bem e mal provêm do Criador e o amor íntegro
é aquele que independente do que sentirmos, deve sempre nos conduzir
em retorno ao Criador. Assim, temor é a (Luz da) Sabedoria que vêm à
criatura, e Amor é a (Luz da) Misericórdia com que vestimos o temor
recebido. Por isso foi dito no Zohar que estes preceitos se unem, sendo o
Temor a elevação da GE e o amor a correta recepção na correção de AHP.
Trabalhamos na recepção com a correta Intenção (amor) do mal que
desejamos corrigir em nossas vidas (temor).

“O amor denominado íntegro é aquele que contém os dois aspectos,


tanto no rigor quanto no bem, e a retificação de seu caminho é amar
154
ao Senhor, como aprendemos, “mesmo que tomasse tua alma de ti”.
Esse é o amor íntegro que consta de dois aspectos. E por esta razão a
luz da obra da Criação surgiu e depois foi guardada. Quando foi
guardada surgiu o duro rigor, e se integraram ambos aspectos em
um para alcançar o amor íntegro correspondente”.
O amor íntegro é constituído pelo bem e pelo rigor. Sua retificação deve
se dar por amar ao Senhor mesmo que Ele tire nossa alma, mesmo
percebendo apenas o rigor deste mundo. Por isso, "a Luz da obra da
criação surgiu e depois foi guardada": quando ingressamos na
espiritualidade, descobrimo-la com a satisfação do maior desejo que
tínhamos até então; depois, sente-se como que ela desaparecesse: na
verdade só foi "guardada", está oculta, e esta ocultação, o rigor, se destina
apenas a mantermos o amor íntegro, como uma caixa com seu conteúdo.
Nesta ocultação, emergem desejos mais egoístas antes não percebidos,
como se estivéssemos retrocedendo; este é o rigor, estado que exige
esforço maior em amar ao Senhor, como o amamos quando sentimos o
bem, e, assim, praticamos o amor íntegro.

Rabi Shimón tomou-o e beijou-o. Rabi Pinchas se aproximou, o beijou


e o bendizeu. Disse: “Certamente que o Santo, Bendito Seja, me
enviou até aqui! Esta é a sutil luz que, segundo me disseram, se
encontra em minha casa e se expande iluminando o mundo inteiro”.
A união das três gerações são o AHP corrigido. Em Rabi Elazar, a
retificação em Malchut, encontra-se a Luz que vem da correta Intenção
(Rabi Shimón) e do Entendimento do que é preciso corrigir (Rabi
Pinchas). O Entendimento, além de beijar (permitir a passagem de Luz de
uma Sefirá à outra), bendiz, isto é, manifesta como seu objetivo o estado
de revelação do Criador que passa pela correta Intenção para seus desejos.
Quando alcança o grau de Elazar, o cabalista reconhece que foi o Criador
quem o despertou até aquele estado, onde reconhece a Luz Interna, sente
júbilo por esta visão que lhe fôra prometida quando ainda no grau de Rabi
Pinchas, e pela qual vê que ilumina as Sefirot acima.
155
Disse Rabi Elazar: Certamente não deve esquecer-se o temor em
nenhum dos preceitos, e com mais razão neste preceito deve o temor
apegar-se a ele. Como se apega? O amor é bom, segundo um de seus
aspectos, como foi dito, porque lhe outorga riqueza e bem, longos
dias, filhos e prosperidade, e então deve despertar o temor para não
pecar. Assim está escrito: “Bem-aventurado o homem que sempre
teme”. Porque o temor está incluído no amor.
O temor (a manifestação de Keter e Chochma), deve estar presente como
o ponto inicial de correção em todos os preceitos, em todas as correções a
serem realizadas. É de suma importância que esteja ligado ao amor (Biná,
ZA e Malchut). Pois se o Entendimento e a intenção tiverem por
fundamento apenas a bondade absoluta, sem restrição, o amor é
incompleto e a demonstração disso está na equivocada realização que
reconhece apenas o bem para si, e, portanto, o desejo de receber, não o de
revelar o Criador. Por isso, deve trabalhar suas Sefirot prévias (GE) com
as Luzes de Nefesh e Ruach, até estar apto a trabalhar com AHP. "Bem-
aventurado o homem que sempre teme", que mantém a Vontade e a
Consciência em progressiva passagem das luzes até a sua realização em
Malchut, "porque o temor está incluído no amor", porque esta Vontade e
Consciência previamente preenchidas permitem o surgimento gradual
dos próximos discernimentos (do Entendimento das retificações, da
correta Intenção e da Revelação do Criador), e sua inclusão nas Sefirot que
provêm pela passagem de Luz entre si: AHP retificado, porque unido ao
GE, ao propósito superior de doação, não um AHP que sem GE incluído
seria apenas voltado para si.

Da mesma maneira, convém despertar o temor no outro aspecto do


rigor implacável e quando vê o duro rigor que se lhe impõe, deve
despertar-se nele o temor, e temer a seu Senhor como corresponde,
sem endurecer seu coração. Tal como está escrito: “quem endurece
seu coração, cairá no mal”, nesse outro aspecto denominado “mal”.
156
Resulta um temor unido aos dois aspectos, e se inclui neles, e
constitui o amor íntegro correspondente.
Mesmo num estado em que o rigor se faz sentir, também é preciso manter
o temor, a Vontade e a Consciência de que o desejo de receber deverá ser
corrigido e que o mal para si sentido é um estado necessário para superar
seu próprio egoísmo. Nesse despertar do seu GE mesmo num estado
sentido como adverso, não deve endurecer seu coração: não deve tornar o
seu desejo de receber inacessível aos mundos superiores, ou cairá no mal,
no egoísmo que lhe tira os méritos do caminho. O temor, então, deve unir
em si a bondade e o rigor estando presente em ambos os estados, a fim de
que haja também o amor íntegro.

Terceiro Preceito

É conhecer que há um Deus grande e que governa o mundo, e


declarar Sua unidade diariamente, a unidade como corresponde nas
seis direções supremas e transformá-las em uma só unidade nas seis
palavras do Shemá Israel e concentrar-se na Vontade Suprema
através delas. Por esta razão devemos prolongar nela todo o tempo
que leva dizer as seis palavras. Tal como está escrito: “Juntem-se as
águas que estão debaixo dos Céus em um lugar”. Que os níveis que
estão sob os Céus se reúnam nele, para que ele acesse integramente
às seis direções como corresponde. De todo o modo, a essa unificação
é preciso unir o temor pelo qual se deve prolongar a Dalet na Echad,
e, por isso, a Dalet de Um é grande. Tal como está escrito: “descubra-
se o seco”, que seja posta em evidência e conectada a Dalet que é “o
seco” nessa unificação. E uma vez que tenha sido conectada ao Alto,
deve voltar a conectá-la ao Baixo, às outras seis direções inferiores:
“Bendito Seja o Nome da Glória de Seu Reino para todo o sempre”, a
qual contém as outras seis palavras de unificação. Então o que era
“seco” resulta em uma terra capaz de produzir frutas, verduras e
plantar árvores. É o que está escrito: “E chamou Deus ao seco Terra”.
157
Ou seja, que graças à unificação de Baixo aparece a Terra e se
preenche com a Vontade íntegra como corresponde. Por isso “que é
bom” aparece duas vezes: uma vez é a unificação do Alto, e a outra a
unificação de Baixo. Uma vez conduzida a unidade nos dois aspectos,
daqui em diante: “Que a Terra produza erva”, que se disponha a
produzir frutas e verduras como corresponde.
Reconhecer o domínio de Deus sobre sua própria vida, buscando que toda
a sua intenção seja voltada para Ele, preenchendo as seis Sefirot de Zeir
Anpin de forma correta, como requer a unidade proclamada em Shema
Israel; não pode existir a própria Vontade independente do Criador. A
intenção deve estar sempre permeada dessa unidade, e equivale a juntar
toda a misericórdia sob o desejo de doar num só lugar, no interior do
Partzuf, e adicionar o GE, a Vontade e a Consciência da correção, com o
que se consegue prolongar Dalet da unidade, ou seja, o desejo de receber
que traz consigo a memória da Luz da qual provém, nela permanecendo
o desejo de doar, de aderir ao Criador, superando sua natureza de
distanciar-se da raiz, e por isso torna-se grande. Esse desejo de receber
que se percebe carente do Criador é o elemento seco a ser descoberto, e
uma vez conectado ao Alto (ativando GE), deve voltar a conectar abaixo
(corrigindo AHP), Sefirá por Sefirá em Zeir Anpin, até que o elemento
seco, carente do Criador, se torne Terra apta a produzir frutos, desejo de
receber dotado da correta Intenção. Graças a esta unificação abaixo, esta
correção de AHP, o desejo de receber se torna pleno da Vontade íntegra
(Keter recebe todas as luzes). E a isto se diz "que é bom" duas vezes, em
alusão à unificação do Alto - GE ativada - com a unificação abaixo - AHP
corrigida (Entendimento, as seis Sefirot da intenção correta cumpridas e
a revelação do Criador naquele grau corrigido). Então, que o desejo de
receber produza erva, ou seja, que permita crescer vida, que receba em
prol do Criador, que receba sempre com a correta Intenção.

Quarto Preceito

158
É conhecer que O Eterno é Deus, tal como está escrito: “Conhecerás
hoje e assentarás em teu coração que O Eterno é Deus”, e integrar o
nome Deus com o de O Eterno para conhecer que são Um e
indivisíveis. Este é o mistério do que está escrito: “sejam postas
luminárias no firmamento dos Céus para iluminar a Terra”, ou seja,
que esses dois Nomes são um, sem divisão, integrando a palavra
“luminária”, carente, com o nome “Céus”, porque são um e não há
entre eles divisão alguma. A luz negra na luz branca, não há divisão
e tudo é um.
Sentir o atributo perene de doação como o maior de seus desejos, o único
permanente e real, e assentá-lo como ordenador em seus desejos
transitórios, e associar estes atributos como indivisíveis; são como
luminárias sobre a terra, o sol - o poder de doar, o Eterno - e a lua - o
desejo de receber, que não possui Luz própria mas pode refleti-la e, assim,
iluminar pela presença da correta Intenção, revelando Deus em seu
Trabalho. E ambos são uma única luminária, porque a doação permitiu
espaço à carência específica de ser como ela, e é neste espaço que a Luz se
revela, então não há divisão entre elas, porque a escuridão é necessária
para que a Luz se manifeste e seja ali apreendida, compreendida, desejada:
nesta condição, se é possível reconhecer como uma a Luz Negra na Luz
Branca: a Consciência da dissemelhança com o Criador na Vontade de
aderir a Ele.

Isto é como a “nuvem branca do dia” e a “nuvem de fogo à noite”, a


dimensão diurna e a dimensão noturna, as quais devem ser unidas
uma a outra para iluminar, tal como está escrito: “...para iluminar a
Terra”.
E a unidade que deve haver entre o desejo de doar e o desejo de receber
por meio da correta Intenção é como o amor e o temor na realização do
trabalho - tanto num estado em que se é guiado por nuvem branca - amor
e temor durante o preenchimento das Sefirot - quanto num estado em que
se é guiado pela nuvem de fogo - amor e temor que também são mantidos
159
durante as etapas em que não há realização e nos quais se prepara a
passagem de Luz entre uma Sefirá e outra, iluminando o caminho em
meio à escuridão, à ausência de Luz do desejo de receber: ele se sente vazio
de espiritualidade, mas a nuvem de fogo o impede de tentar preencher seu
vazio com escuridão; então, também esta dimensão noturna se ajusta à
diurna para iluminar o desejo de receber.

E este é o pecado da serpente primordial, que gerou unificação


Abaixo mas dividiu ao Alto, e causou o que causou ao mundo, já que
se deve separar Abaixo e unir no Alto, a luz negra deve unir-se no
Alto e unificar-se depois com suas forças e separá-la do mal.
O pecado da Serpente original é a primeira transgressão que se comete na
espiritualidade, atentar contra o temor íntegro, o que leva a faltar em
amor ao Criador: separar no alto e unificar abaixo, isto é, reconhecer-se
mau, oposto ao Criador, e usar isso não para corrigir a diferença, mas para
fortalecer seu ego. A unificação abaixo compreende em AHP, no desejo de
receber, no Entendimento, intenção e realização erroneamente unificados
no preenchimento da natureza insaciável do desejo de receber para si, mas
não no Alto, não em GE, com a Vontade de adesão ao Criador e a
Consciência da dissemelhança com Ele em conflito: um estado em que a
Vontade não mais permite a passagem de Luz para esta Consciência, no
intuito de permitir o trabalho abaixo para que Luz após Luz aumente a
Vontade de adesão e dê conta das dissemelhanças a serem corrigidas
abaixo; ao invés disso, há um estado em que a Vontade míngua, por que
não mais recebe Luzes Superiores - já que não transmite à Sefirá seguinte,
pela qual também não há fluxo de Luz - apenas conduz ao desespero de
que não há Trabalho possível a ser realizado abaixo, tal sua dissemelhança
com o Criador, provocando a desistência de alcançar os mundos
superiores. O que deve ocorrer é a unidade no Alto, com GE permitindo
fluir a Luz para as Sefirot de AHP, e nesta, abaixo, ocorrendo a separação
do que pode ou não ser recebido com a correta Intenção. A Luz negra "deve
unir-se no Alto": em Chochma, na Consciência de ser oposto ao Criador e
160
mesmo assim, e por causa disto, buscar a adesão ao Criador, "depois, com
suas forças, separá-la do mal", isto é, não se deixar ficar na Consciência de
ser oposição e usar isso como lei para beneficiar o ego, mas superar o mal,
o receber para si, no esforço do Trabalho.

Com tudo isso, é necessário saber que Elohim e O Eterno são


totalmente Um, sem separação alguma. O Eterno é Elohim. Quando
o homem conhecer que tudo é Um e não colocar separação alguma,
inclusive aquele “Outro Lado” se retirará do mundo e não
influenciará Abaixo. E este é o mistério “Sejam postas luminárias”. A
casca vai atrás do cérebro, o cérebro é luz, o “Outro Lado” é morte.
As letras de “luz” estão unidas, “morte” estão separadas. Mas quando
a luz sai dali, se unem as letras que estavam separadas, morte.
O Eterno, Deus como o Todo, Luz Simples, é o mesmo Criador que
manifesta seu desejo de doar, apenas percebido como atributo distinto
pela criatura. São manifestações de Sua Essência, Esta incompreensível.
Há uma única Luz, que percebemos em diferentes graus e do nosso ponto
de vista, situando-a como dentro ou fora de nós, e assim nomeando-a de
muitos nomes, conforme a alcancemos. O alcance da espiritualidade
principia pelo GE, que é Vontade - Keter - e Consciência - Chochma. Keter
corresponde ao Eterno, enquanto Chochma à Elohim, ao Criador assim
qualificado porque criou um vaso que recebe a Luz e sente que recebe
tanto quanto há um Criador de Quem recebe, percebendo-se diferente
deste Criador. Mas se esta percepção de sua deficiência ou imperfeição, o
"outro lado" do benefício de ser preenchido pela Luz, de receber, for
unificada à Vontade de adesão ao Criador, não influenciará abaixo, no
AHP, no seu desejo de receber, não irá maculá-lo com o sentimento de que
deve permanecer imperfeito e em oposição ao Criador. Assim, Keter (Luz
Branca) e Chochma (Luz Negra) podem ser luminárias no céu, quando
unificadas, ou morte, raiz de egoísmo no desejo de receber, abaixo, quando
separadas. A klipá, a força do egoísmo, vai atrás do cérebro, persegue a
GE, e encontramos ali Luz ou morte, conforme trabalhamos a unidade
161
daquelas Sefirot em oposição à casca. Separar no Alto equivale a unir
letras de morte, enquanto unificar no Alto impede a morte, impede que o
desejo de receber permaneça em oposição ao Criador.

Com estas letras começou Eva e provocou mal ao mundo, tal como
está escrito: “e viu a mulher que era bom”. Inverteu a ordem das
letras, para trás. Permaneceram as letras Mem e Vav, elas foram e
tomaram a letra Tav com elas, e provocou a morte no mundo, tal
como está escrito: “vatere”.
As letras corretamente formadas inscrevem a Luz da Sabedoria na forma
de vida, na Consciência de GE, em comum objetivo com Keter. Mas
invertendo a ordem, isso é, inscrevendo a palavra de morte, foi o que o
desejo de receber viu como bom para si, levando a sua espiritualidade ao
egoísmo. Caíram as letras Mem - o discernimento de que este é um mundo
de correção, não de deleite egoísta para os sentidos - e Vav - a retificação
de Nukva iniciada pela exposição à Luz Circundante; a queda destes
discernimentos levou junto a letra Tav - a possibilidade de receber a Luz
Interna. Assim, o egoísmo é trazido para o mundo interior, mantendo o
desejo de receber neste mundo: viu o bem, mas não o vê mais porque o
inverteu, tornando-o morte.

Disse Rabi Elazar: “Pai, eis aqui que aprendi que só restou a letra
Mem, e a Vav, que se refere sempre à vida, se inverteu, partiu e tomou
a Tav, tal como está escrito: ‘Tomou e deu’. Completou-se esta
palavra e se uniram as letras”. Disse-lhe: “Bendito sejas, filho meu,
eis aqui que temos explicado”.
O grau de Rabi Elazar, a realização no Partzuf, diz o que aprendeu sobre
a queda e inversão das letras, isto é, sobre o erro cometido pelo desejo de
receber: apenas caiu a letra Mem, o discernimento deste mundo como
mundo da correção, necessário para a retificação dos 125 graus de
distanciamento do Criador. Pela queda deste discernimento, inverteu-se
Vav, discernimento sempre referente à vida, de ingresso à espiritualidade,
162
que se torna uma busca do ego neste mundo; esta busca equivocada toma
a Luz que deveria ser recebida para contentamento do Criador e a dá para
a satisfação de si. A queda de um discernimento inverteu outro e cedeu ao
ego um terceiro: assim se completou a palavra de morte da
espiritualidade, unindo-se discernimentos de uma forma equivocada.
Bendita pela correta Intenção é a realização que mantêm os
discernimentos prévios corretamente inscritos!

Quinto Preceito

Está escrito: “que pululem nas águas numerosos seres viventes”.


Neste versículo se encontram três preceitos: um, ocupar-se da Torá;
dois, procriar e multiplicar-se; e três, circuncidar o oitavo dia e tirar
o prepúcio dali.
Que na Luz da Misericórdia, numerosos discernimentos de doação possam
emergir, no que há três preceitos: ser preenchido pela Luz Interna
(ocupar-se da Torá); trabalhar a conexão entre as luzes e as Sefirot acima,
preenchendo-as e permitindo novos graus (procriar e multiplicar-se);
elevar a Vontade de adesão ao Criador sobre os desejos relacionados a cada
novo Partzuf a ser corrigido, e retirar dali o que impede a Vontade
superior de conectar-se à Consciência de que precisa corrigir seu desejo
de receber (circuncidar no oitavo dia e retirar o prepúcio dali. O oitavo dia
é como a continuação da semana anterior, a correção de um novo Partzuf).

Ocupar-se da Torá, esforçar-se nela e inovar cada dia para corrigir


sua alma e seu espírito. Porque quando o homem se ocupa da Torá
estabelece uma alma santa suplementar, tal como está escrito:
“numerosos Nefesh viventes”, quer dizer, um Nefesh dessa força vital
sagrada. Mas se um homem não se ocupa da Torá, não tem esse
Nefesh santo e a Santidade suprema não repousa nele. Enquanto que
quando se esforça na Torá, com o mesmo murmulho de seus lábios
se faz merecedor desse Nefesh Chaiá e passa a ser como os santos
163
anjos, tal como está escrito: “Bendizei ao Eterno, Seus anjos”. Estes
são os que se ocupam da Torá, que são denominados Seus anjos sobre
a Terra. Isto é o que está escrito: “aves que voam sobre a Terra”. Isto
é neste mundo, e sobre o Mundo Vindouro aprendemos que o Santo,
Bendito Seja, lhes fará em tempos futuros asas semelhantes às de
águia para sobrevoar através de todo o mundo, tal como está escrito:
“mas os que aspiram ao Eterno terão novas forças, levantarão voo
como águias”.
"Ocupar-se da Torá e esforçar-se nela": receber a Luz Interna, somente o
que é permitido, enquanto a Luz Refletida acima permite a criação de
Sefirá após Sefirá, a "inovação a cada dia", para corrigir sua Nefesh (desejo
de receber para receber) e Ruach (desejo de doar para receber), suas
intenções espirituais iniciais de recepção em sua Vontade e Consciência,
que vão descendo até completar-se a correção do Partzuf. Ao receber a Luz
Interna, recebe-se uma "alma santa suplementar", ou "numerosos Nefesh
viventes", isto é, novas Luzes em GE, compreendida como "um Nefesh da
força vital sagrada" (Nefesh em Chochma, e, portanto, Ruach em Keter, ou
seja, GE inicial completo, a partir do qual várias correções do grau de
receber para receber vão sendo realizadas de Sefirá em Sefirá descendida).
Mas se a pessoa não se esforça na recepção da Luz Interna, não corrige
sua Nefesh e não recebe as Luzes. Já aquele que se esforça na Luz Interna,
com um "murmúrio dos lábios", refletindo a mínima Luz, se torna
merecedor de GE, tornando-se como os santos anjos, uma força de ligação
entre o superior (desejo de doar) e o inferior (desejo de receber), que
bendizem o Eterno (elevam GE sobre este mundo). Assim, os que se
esforçam na Luz Interna "são denominados como Seus anjos sobre a
Terra": aqueles que servem ao Eterno e são seus elos de ligação acima do
desejo de receber deste mundo. A isso se refere o versículo "e aves que
voam sobre a terra": Nefesh e Ruach, propósitos de recepção que foram
elevados, porque visam à Vontade e Consciência superiores. Isso se refere
a este mundo, ou seja, até estes graus alcançados, enquanto no Mundo
Vindouro, nos graus superiores, "O Santo lhes fará asas semelhantes às de
164
águia, para sobrevoar por todo o mundo": o Santo permitirá que o
cabalista descubra níveis cada vez maiores de correção, para cujo esforço
deverá reunir discernimentos compatíveis ao alcance maior - "Mas os que
anseiam ao Eterno terão novas forças, levantarão vôo como águias" (na
medida de sua Vontade de adesão, alcançarão maior proximidade ao
Eterno).

E isto é o que está escrito: “aves que voam sobre a Terra”, o qual
refere-se à Torá chamada “águas”, da qual fecunda e sai o murmúrio
do Nefesh Chaiá. Do lugar dessa vitalidade é levada até Abaixo, tal
com foi dito.
A intenção elevada do desejo de receber permite a manifestação de GE
acima, que se completa ao mínimo grau de Luz Refletida, graças ao
atributo de Misericórdia que reúne abaixo. E da Consciência assim
preenchida e sem contradição à Vontade com que se uniu, vão descendo
as luzes para o preenchimento das Sefirot em AHP, até a correção do
Partzuf. Chaiá em Keter desce Nefesh até Zeir Anpin, ligando à Vontade à
correta Intenção.

Sobre isto disse Davi: “Deus criou para mim um coração puro” para
ocupar-me da Torá, e então “Ele renovou um espírito firme em mim”.
O grau de David é aquele em que a Vontade está corrigida, dela está apta
a descer a Luz sem obstrução ali. Sua Vontade permanece no objetivo de
receber a Luz Interna, e uma vez alcançada a correção do Partzuf, seu
espírito é renovado, isto é, alcança nova Vontade e Consciência íntegras
para a continuação das retificações nos degraus seguintes.

Sexto Preceito

É ocupar-se de crescer e multiplicar-se. Porque todo aquele que se


ocupa de crescer e multiplicar-se provoca que essa corrente flua
constantemente e que suas águas não se interrompam, e o mar se
165
preencha em todas as direções. Almas novas se renovam e saem
daquela Árvore, e inumeráveis guerreiros se multiplicam no Alto
junto a essas almas. E isto é o que está escrito: “que pululem nas
águas numerosos seres viventes – Nefesh Chaiá”. Refere-se ao pacto
sagrado, uma corrente que flui e sai, cujas águas se multiplicam e
aumentam, e o aumento e a multiplicidade das almas são para esta
força vital.
Crescer - Trabalhar para que as cinco luzes NaRaNChaY preencham o
Partzuf, até atingir o estado de Gadlut. Multiplicar-se - corrigir os
Partzufim de mundo em mundo. Aquele que se dedica a isso é um
cabalista, alguém que provoca a descida contínua de luzes pelas Sefirot
que lhe são providas à medida em que progride no seu Trabalho. Este
fluxo cresce e assim se multiplica, retificando o desejo de receber em todos
os seus propósitos, tornando-o uma Árvore Sefirótica da qual saem e se
renovam os graus alcançados, de forma que o cabalista os veste como
almas distintas correspondentes às correções que experimenta, e
inumeráveis desejos corrigidos se multiplicam nos mundos superiores em
cada grau alcançado. É sobre isto que se diz "Que pululem nas águas
numerosos seres viventes", que nas Luzes se distingam os desejos com a
correta Intenção: refere-se ao Pacto Sagrado, a criação das Sefirot que se
multiplica e aumenta (da mais etérea para a maior densidade), e o
aumento e multiplicidade dos graus espirituais para esta força vital (a
recepção das Luzes, de menor para maior intensidade).

Com essas almas que ingressam na força vital, saem numerosos seres
alados e voam por todo o mundo, e quando uma alma parte até este
mundo, esse ser alado que voou e surgiu com essa alma desde aquela
Árvore, sai com ela.
E com estes graus espirituais nos quais ingressam as Luzes, a intenção
cada vez mais elevada percorre todo o seu desejo de receber. Quando se
alcança um determinado grau e com ele se vai a corrigir determinada
porção do desejo de receber, essa intenção que se elevou e surgiu com esse
166
grau desde aquela Árvore, desde aquele sistema ramificado de Mundos,
Partzufim e Sefirot já alcançados, flui com as Luzes.

Quantos saem com cada alma? Dois, um à sua direita, e um à sua


esquerda. Se o merece, eles o protegerão, tal como está escrito: “Ele
deu a Seus anjos a ordem”. E se não, eles o acusarão.
Quantos desejos emergem a cada grau alcançado? Dois, um à sua direita
(um desejo com a correta Intenção), outro à sua esquerda (um desejo que
tem o ego como seu objetivo). Se o Trabalho for corretamente
desenvolvido, ambos os desejos protegerão a ascensão espiritual: o da
direita pela bondade adquirida, o da esquerda pela restrição que deve
manter. "Aos Seus anjos, ordenou proteger-te": o cabalista é protegido
pela Luz Interna e pela Luz Refletida. E se o Trabalho não for corretamente
desenvolvido, ambos os desejos o acusarão: o da correta Intenção não
exercida e o da restrição não mantida.

Rabi Pinchas disse: três são estes que estão encarregados sobre o
homem se o merece, tal como está escrito: “Mas se houvesse sobre
ele um anjo intercessor, um entre mil que indique ao homem o
caminho a seguir”: “se houvesse sobre ele um anjo”, eis aqui um;
“intercessor”, dois; “um entre mil que indique ao homem o caminho
a seguir”, eis aqui três.
Rabi Pinchas, o grau de Biná, identifica três anjos, ou três luzes, uma para
cada parte do versículo de Jó 33:23 - Nefesh ("Se houvesse sobre ele um
anjo"), Ruach ("intercessor") e Neshamá ("um entre mil que indique ao
homem o caminho a seguir") para aquele que procede corretamente no
Trabalho.

Rabi Shimón disse: cinco, porque está escrito, ademais, “que o


agraciou e que diga”; “que o agraciou”, um; “que diga”, dois. Disse-
lhe: “Não é assim, porque “que o agraciou” se refere ao Santo,
Bendito Seja, unicamente. Nisto não tem permissão, senão Ele. Disse-
167
lhe: bem disseste.
É no grau da correta Intenção que se compreende que são cinco Luzes
encarregadas do homem empenhado no Trabalho de correção: as três que
são reveladas no grau de Rabi Pinchas, mais duas, equivalentes à
continuação do versículo "que o agraciou" (Yechida) e "que diga" (Chaiá).
Mas responde o Entendimento de que não é assim em relação a Yechida,
pois o preenchimento do maior grau da Vontade, o desejo de revelar, em
Keter, pertence ao Santo, tão somente. É Ele que se revela a partir do
Trabalho do cabalista.

Quem se abstém da procriação é como se reduzisse a Forma que


inclui todas as formas e impede esta corrente de que suas águas
fluam. Atenta contra o Pacto sagrado em todos os seus aspectos.
Sobre isto, está escrito: “Sairão e verão os cadáveres dos homens que
se rebelaram contra Mim”. Certamente “contra Mim” se refere ao
corpo. Quanto à alma, não entrará pela “cortina celestial” e será
excluída Daquele mundo.
Quem se abstém de corrigir seus Partzufim e assim alcançar graus
superiores (se abstém de criar versões mais elevadas de si mesmo) é como
se reduzisse a Forma Divina, e interrompe assim o fluxo da Luz, o que
atenta contra o Pacto Sagrado (a criação de Sefirot e a recepção das Luzes
nelas, na medida das retificações realizadas no Trabalho), sobre o que está
escrito: "E sairão, e verão os cadáveres dos homens que se rebelaram
contra mim". Os cadáveres são os desejos egoístas que tomaram o lugar
das intenções corretas, "contra Mim", permanecendo no desejo de receber
oposto ao Criador, enquanto o seu desejo de doar não poderá atingir graus
superiores, não poderá atravessar os graus de ocultação, sendo excluído
da espiritualidade.

Sétimo Preceito

É circuncidar ao oitavo dia e extirpar a contaminação do prepúcio.


168
Porque essa força vital é o oitavo grau de todos os graus e essa alma
que voa a partir dela deverá comparecer perante ela no oitavo dia, tal
como ela pertence ao oitavo grau. Então, se verá certamente que é
um Nefesh Chaiá, um Nefesh de dita Força vital sagrada e não do
“Outro Lado”.
O prepúcio é uma klipá, uma casca que recobre a intenção correta
impedindo-a de unir-se ao desejo de receber. A cada semana de Trabalho,
correspondente à correção de um Partzuf, segue-se o oitavo dia, a
extirpação daquele prepúcio, para a ascensão às novas correções; é o
oitavo grau, a força vital para a recepção de Luzes em uma nova semana.
Keter do novo Partzuf (a Vontade, Seu Nome) já foi concedida na tarde do
Shabat, em equivalência com a revelação de novas correções da manhã do
Shabat (A Luz Direta, Ele). Agora, vem a Luz para preencher a Vontade, e
dela de Sefirá em Sefirá, devendo comparecer a ela no oitavo dia, isto é
como Partzuf completo, rompendo a casca que o impedia de corrigir o
próximo Partzuf. E a primeira Luz a preencher Keter, a Vontade, é a Luz
de menor intensidade, a de Nefesh, o que significa que o cabalista sente a
Vontade de adesão como um desejo de receber, ao invés de desejar receber
outras coisas deste mundo: e assim percebe que trata-se de um desejo de
receber santificado ("Nefesh Chaiá") da Força Vital (Luz Refletida), e não
do outro lado, do egoísmo em oposição Àquela Força Vital.

Isto é “que as águas pululem”. No Livro de Enoch: que as águas da


santa semente sejam marcadas pela impressão de Nefesh Chaiá. Esta
é a marca da letra Iud impressa na carne sagrada, mais que todo
outro signo do mundo.
A Luz pode preencher Keter porque o Partzuf já contém a Luz da
Misericórdia ("águas da santa semente"), o desejo de receber a adesão ao
Criador em equivalência à Luz que preenche sua Vontade: suas águas são
marcadas pela Luz Superior; isso equivale ao vaso inicial formado pela Luz
e preenchido por ela, de forma que este vaso de Vontade tem Consciência
deste preenchimento e deseja ser como esta Luz que o preenche mais do
169
que obter a satisfação de quaisquer outros desejos deste mundo, e este é
um desejo de receber santificado ("Iud impressa na carne sagrada mais
que todo outro signo do mundo").

“Aves que voam sobre a Terra” se refere a Elias, que sobrevoa o


mundo em quatro voos, para estar ali durante o corte sagrado. Deve
ser-lhe preparado um assento, e proclamar em voz alta: “Este é o
assento de Elias”. Do contrário, ele não se encontra ali.
A espiritualidade é mantida acima do desejo de receber para si até que se
alcance o grau de Eliahu, provido por quatro estágios de elevação do
desejo correspondente à descida das Luzes para a Consciência,
Entendimento, intenção e realização. Chegando ao oitavo grau, ali
corrigido o Partzuf, deve-se manter o firme propósito de que permaneça
assim, como o "assento de Elias". O profeta testemunha a quebra da casca
que oculta novos desejos imperfeitos carentes de correção. O firme
propósito deve ser mantido, ou Elias não estará ali, novos desejos
imperfeitos não serão revelados e não haverá, portanto, correções nem
avanços.

“Criou Deus os grandes peixes”. Estas são as duas: a orlá e a priá.


Corta-se a orlá e depois se leva a cabo a priá, e são o masculino e o
feminino.
Deus criou o desejo de receber em sua forma gradual de dois estágios (dois
grandes peixes): o receber para si neste mundo, o receber coberto por uma
casca, como um prepúcio (Orlá) indicando que aquele fruto não deve ser
consumido dessa forma; equivale ao princípio feminino, o desejo de
receber para si, cuja casca deve ser descartada. Quando a casca é
removida, revela-se um desejo de receber que pode ser utilizado para a
adesão ao Criador (Priá); é o princípio masculino, o desejo de doar. A
criação de Orlá e Priá corresponde à circuncisão do oitavo dia, realizada
ciclicamente quando novos Partzufim são revelados.

170
“E todo o ser vivente que se move” refere-se ao sinal do Pacto
Sagrado, que é a Força vital, tal como dito.
"Todo ser vivente que se move" é a possibilidade de ascender para desejos
superiores, compreendendo esta ascensão ao exercício da Luz Refletida (a
Força Vital) no Trabalho de correção dos Partzufim (O Pacto Sagrado).

“Que as águas pululem”, as águas superiores que são atraídas até este
sinal, e pela qual os filhos de Israel são marcados por dita impressão
santa e pura Abaixo. Da mesma forma com que estas marcas santas
permitem distinguir o “Lado Santo” do “Outro Lado”, também o sinal
que marca Israel permite distinguir sua Santidade dos povos que
procedem do “Outro Lado”, tal como foi dito. Assim como marcou-os,
também marcou seus animais e suas aves dos animais e as aves dos
povos. Feliz é a porção de Israel!
Que as Luzes deem vida: que as Luzes Superiores desçam para preencher
as Sefirot, na medida em que a Luz Direta é atraída pelo desejo de receber
santificado nos graus da alma que busca a adesão ao Criador. Da mesma
forma que as marcas deste desejo de receber santificado permitem
distinguir entre a intenção correta e as cascas no exercício do Trabalho de
correção, também permite reconhecer sua santidade em comparação
àqueles que procedem do egoísmo. Estas marcas de adesão associam-se
também aos desejos animados e de elevação de seus possuidores,
diferenciando-os dos desejos animados e de elevação daqueles limitados a
este mundo. "Feliz é a porção de Israel": bem-aventurados os que desejam
aderir ao Criador pela alma que retificam!

Oitavo Preceito

É amar o prosélito que vem a ser circuncidado para entrar sob as asas
da divina Presença. E ela o acolhe sob suas asas, a estes que se
apartaram do “Outro Lado” impuro e se aproximaram Dela. Tal como
está escrito: “Produza a Terra seres viventes segundo a sua espécie”.
171
Se dizes que esta “alma vivente” que constitui Israel está destinada a
todos, volta e diz: “segundo sua espécie”.
Utilizar com a correta Intenção aquele desejo de receber circuncidado,
aquele desejo que pode ser redirecionado para o propósito elevado de
revelar o Criador neste mundo. E esse desejo apartado do egoísmo é aceito
pelo Superior, como Luz Refletida, como ser vivente produzido pelo desejo
de receber segundo a espécie de Luz discernida nas Sefirot que deve
preencher acima. Esta Luz que ascende, desejo de receber santificado,
preenche a Vontade de aderir ao Criador e está destinada a descer a todas
as Sefirot que seguem, na medida em que descem Luzes Superiores
segundo o grau de retificação refletido.

Vários corredores e compartimentos, uns dentro de outros, possui


essa “Terra” denominada “Força vital” sob suas asas. A asa direita
possui dois corredores, e dessa asa se desprendem duas nações
estrangeiras, especialmente próximas a Israel, para fazê-las entrar
nesses corredores. E sob a asa esquerda, há outros dois corredores e
se desprendem outras duas nações que são Amón e Moab. E todas são
denominadas “alma vivente”.
A manifestação da Presença Divina no desejo de receber que pode refletir
a Luz exige a correção de quatro Mundos por onde a Vontade de adesão
ao Criador é levada a transitar. São dois Mundos sob cada asa, direita e
esquerda, dois Mundos de doação e dois de recepção, associados aos
propósitos corrigidos: receber, doar para receber (corredores da
esquerda) receber para doar, doar para doar (corredores da direita). Cada
Mundo (corredor) é formado por vários Partzufim e Sefirot (corredores e
compartimentos) uns dentro dos outros. Iniciamos pela camada mais
externa e avançamos até a completa correção interior, a correção dos
quatro corredores, que se tornam o desejo santificado como “alma
vivente”. O quinto Mundo, Adam Kadmon, não é propriamente uma
correção do egoísmo, mas a iluminação do desejo de receber santificado
para a total revelação.
172
Existem outros vários compartimentos fechados e outros palácios em
cada asa, e deles saem os espíritos destinados a que se dividam em
todos os prosélitos que se convertem. São denominados “alma
vivente” mas “segundo sua espécie”.
"Os vários compartimentos fechados e outros palácios em cada asa" são
os Partzufim e mundos ainda não alcançados. Deles saem os espíritos, isto
é, os propósitos específicos segundo o grau em que os prosélitos se
convertam, conforme refinam os aspectos do desejo de receber voltado
para a adesão ao Criador em sua elevação. Trata-se de um desejo de
receber santificado segundo sua espécie, seu propósito (doar para receber,
receber para doar, etc.).

E todas podem entrar sob as asas da Shechina, mas não mais além.
Porém a alma de Israel provém do próprio corpo dessa Árvore e dali
as almas voam até essa “Terra” para entrar no mais profundo de suas
entranhas. Este mistério: “Porque vós sereis uma Terra desejável”.
Por isso Israel é o filho amado que surge das entranhas Dela e são
denominados “levados desde a matriz”, e não das asas de fora.
A Vontade de aderir ao Criador pode alcançar os mundos superiores pelo
desejo de receber santificado, o que requer correções, não pelo desejo de
receber neste mundo, não utilizando uma intenção para si. A Vontade de
adesão ao Criador tem sua raiz nesta Árvore, ou seja, no reconhecimento
do desejo de receber que é estruturado como graus de retificação da alma
(não como uma realidade de satisfação do ego). Deste reconhecimento, a
Vontade de adesão ao Criador santifica o desejo de receber e se faz como
desejável sobre os desejos do ego: para isso, deve corrigir da camada mais
externa aos mais profundos egoísmos. Assim, esta Vontade de adesão é
um filho amado, é um desejo de receber aceito pelo Criador, um desejo
que surge do mais profundo da presença divina, o ponto no coração,
cercado de egoísmo, que será desenvolvido nessa estrutura de retificação
sob as asas da Presença Divina, não pelos desejos deste mundo, não pelo
173
ego fora Dela.

Ademais, os prosélitos não têm parte na árvore suprema, certamente


tampouco de seu tronco, senão que sua parte está nas asas e não
mais. E o prosélito se situa sob as asas da Shechina, e não mais.
As asas da Shechina estão à esquerda e à direita, correspondendo aos
caminhos do juízo e da bondade com que os desejos vão sendo trabalhados
segundo o preceito de "a esquerda rejeita e a direita acrescenta", nas
palavras de Baal HaSulam. Os desejos santificados o são pelo trabalho sob
as asas, não no tronco, não no meio, que é o ponto de equilíbrio atingido
entre o preenchimento de uma Sefirá e outra. Tampouco é na Árvore
Suprema, ou seja, o desejo é santificado no esforço de elevação, nos quatro
mundos de retificação, mas não no desejo supremo, o de revelar,
equivalente a Adam Kadmon, onde os propósitos de recepção e doação
estão corrigidos.

Os justos convertidos são aqueles que ali se encontram e se aferram,


mas não no mais profundo, tal como foi dito. Por isso: “produza a
Terra uma alma vivente segundo sua espécie”. E a quem? Às “bestas,
os répteis, os animais terrestres segundo sua espécie”, já que todos
tomam sua alma desta Força vital, mas cada um segundo sua espécie,
como é apropriado para ela.
O desejo de receber que pode ser utilizado com a correta Intenção
encontra o seu ponto de partida corrigindo o propósito de receber para si,
que é o propósito mais superficial, enquanto em profundidade maior há
outros propósitos: doar para receber, receber para doar, doar para doar,
revelar. Cada desejo que é manifestado com a correta Intenção é como
uma alma vivente produzida pela sua qualidade de recepção ajustada,
segundo sua espécie e ao que lhe é apropriado corrigir.

Nono preceito

174
É ser compassivo com os pobres e dar-lhes comida, tal como está
escrito: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa
semelhança”. “Façamos o homem” conjuntamente, compreendendo
o masculino e o feminino. “À nossa imagem”, ricos, “conforme a
nossa semelhança”, pobres. Segundo o aspecto masculino, ricos, e
segundo o aspecto feminino, pobres. Assim como eles se associam em
uma unidade, são compassivos um com o outro, dão um ao outro, e
fazem o bem, assim deve ser o homem de Baixo, que ricos e pobres
se associem, dando uns aos outros, e fazendo o bem uns aos outros.
Ser compassivo com os pobres e alimentá-los refere-se a não suprimir o
desejo de receber, não evitá-lo, mas preenchê-lo com o alimento espiritual,
com a Luz Superior. O homem, ou seja, o desejo de adesão da Criatura ao
seu Criador, é constituído do princípio masculino, a imagem, o desejo de
doar, que é rico, e do princípio feminino, a semelhança, o desejo de
receber, que é pobre. Esses princípios, no homem, devem estar associados
em unidade, apoiando-se mutuamente: o desejo de receber não é
ignorado, mas alimentado pelo desejo de doar com a intenção que o
corrija, permitindo que a sua riqueza, sua bondade, se manifeste a partir
da correta saciedade de seu desejo. Que ricos e pobres se associem e façam
o bem uns aos outros: que a Vontade e a Consciência em GE possam
descer as Luzes para o Entendimento, a correta Intenção e a Realização
em AHP, e que este preenchimento de AHP permita o desenvolvimento de
GE de um grau superior.

“Que dominem os peixes do mar”. Este segredo vimos no livro do rei


Salomão, que todo aquele que se apieda do pobre com todo seu
coração, sua figura nunca diferirá da figura de Adão. E como a figura
de Adão está inscrita nele, domina todas as criaturas desse mundo
com essa figura, tal como está escrito: “O temor e o medo de vocês
estarão sobre todo animal da Terra”. Todas experimentam temor e
tremem ante dita forma inscrita nele devido a que este preceito
supremo eleva o homem à figura de Adão mais que o resto dos
175
preceitos.
Os peixes do mar são as intenções de Misericórdia que devem dominar
sobre os desejos carentes de Luz. Esse domínio deve ser piedoso de todo
coração, isto é, todo seu desejo deve estar voltado para reconhecer seu
próprio egoísmo como um pedido de socorro que não deve ser ignorado
por si mesmo. Dessa forma, sua figura, seu fragmento da Alma Comum,
não difere do Adão completo e, porque tal figura está impressa em si,
domina a todo o desejo deste mundo; por este preceito supremo, o de
permitir que a sua riqueza, sua bondade, se manifeste a partir da correta
saciedade de seu desejo, eleva-se a figura do homem à de Adão mais do
que por qualquer outro preceito.

De onde aprendemos? De Nabucodonosor, porque ainda tendo um


sonho terrível, durante todo o tempo em que se apiedou dos pobres
não se lhe cumpriu aquele sonho. Quando pôs mau-olhado a ponto de
não se ocupar dos pobres, que está escrito? “Todavia, a palavra
estava na boca do rei”, e imediatamente sua figura foi alterada e foi
desterrada dos humanos.
Aprendemos que retificar nossos desejos inferiores eleva a figura de Adão.
O desejo de receber egoísta teme perder suas posses ilusórias desse
mundo, mas não percebe que está colocando a perder a elevação,
ignorando o verdadeiro tesouro que lhe é confiado, o que não ocorre
enquanto o desejo de receber se esforça no Trabalho de sua superação,
elevando Adão. Mas quando se volta para sua autossatisfação, tentando
abarcar o exterior em si ao invés de crescer seu interior na exterioridade,
este mal de olho ignora a necessidade de retificação dos seus desejos, e
tudo quanto lhe sucede está em sua boca para ser interiorizado sem a
correta Intenção, e isso leva este desejo de receber a ser desterrado dos
humanos, desterrado da Vontade de aderir ao Criador.

E por isso está escrito: “Façamos o homem”. Está escrito aqui “fazer”
e está escrito ali: “o nome do homem com quem trabalhei hoje é
176
Boaz”
É por este preceito que somos chamados a realizarmos a Vontade de
adesão ao Criador, em parceria com Boaz, equivalente em Gematria à
instrução "Seis dias você deve trabalhar e fazer todo o seu trabalho", ou
seja, com a retificação de cada Partzuf.

Décimo preceito

É pôr os tefilin e completar em si mesmo uma forma suprema, tal


como está escrito: “criou Deus o homem à Sua imagem”. Abriu e
disse: “tua cabeça sobre ti, como o Carmelo”. Este versículo foi
mencionado e explicado. Mas “tua cabeça sobre ti, como o Carmelo”
se refere à cabeça suprema, a filactéria da cabeça, o Nome do Rei
superior e sagrado: o Tetragrama. Está escrito segundo suas letras,
cada letra uma seção. O Nome sagrado está gravado segundo a
ordem, tal como corresponde.
Colocar os tefilin, como ensina Rav Laitman, significa realizar correções
específicas, a fim de "completar em si mesmo uma forma suprema", tal
como escrito "criou Deus o homem à Sua imagem", ou seja, alcançar um
grau superior na adesão ao Criador, tendo "tua cabeça sobre ti", isto é,
tendo o desejo superior acima do próprio ego, desejo que é como o
Carmelo, cheio de vida. Esse desejo superior sobre nosso ego é o
Tetragrama inscrito, e essa inscrição corresponde ao Trabalho de corrigir
cada grau na ordem correta, "segundo suas letras, a cada uma sua seção,
na ordem correta". Começamos com os cinco níveis (Partzufim) do desejo
de Assia, equivalente a inscrever a ponta de Yod, depois corrigindo os
demais mundos - Yetzira, Beria, Atzlut, Adam Kadmon -, cada um
correspondendo à inscrição das demais letras do Tetragrama - Yod, Hey,
Vav, Hey final.

E aprendemos que “o Nome do Eterno é invocado sobre ti e te


temerão” refere-se à filactéria da cabeça, que possui o Nome sagrado
177
na ordem de suas letras.
A filactéria da cabeça é o desejo superior acima do ego, que possui os níveis
de correção segundo a ordem das Sefirot, Partzufim e Mundos. Quem
assim se dedica ao Trabalho de correção (põe sobre sua cabeça o Tefilin),
invoca o nome do Eterno sobre si, coloca GE acima e submete seu AHP à
correta Intenção: nisso a alma se fortalece, e os desejos falhos temem não
servir à correta Intenção, eles já não perturbam mais, uma vez corrigidos.

A primeira seção “consagra-me todo primogênito” se refere à letra


Iud, que é sagrada, primícia de todas as Santidades do Alto. “O que
abre toda matriz” com esse caminho estreito que descende da Iud. É
ela quem abre a matriz para produzir frutas e verduras, tal como
corresponde, e é a Santidade suprema.
A ordem dos níveis de correção inicia com a frase "consagra-me todo
primogênito", isto é, elevar o desejo superior de adesão ao Criador sobre
todo desejo imediato, referente à letra Iud, correspondendo a Keter e
Chochma, Vontade e Consciência, o temor. Na sequência, "o que abre toda
a matriz com esse caminho estreito que descende da Iud" é a Vontade e
Consciência firmemente estabelecidas, preenchidas pelas Luzes de Nefesh
e Ruach, permitindo a passagem de GE para AHP, permitindo "Bendizer a
Deus", reconhecer a "abundância da bondade", propriedade de Abraão,
comparando contra o fundo de Luz estabelecido a escuridão dos desejos
carentes de correção. Iud inscrita permite que se acesse a matriz, que se
conheça os desejos corrigíveis, para a produção de frutas e verduras, isto
é, para usá-los com a correta Intenção, tal como corresponde (tornando
AHP ativa em função da GE elevada como referência para o Trabalho).
Isso faz de Iud a Santidade Suprema, o temor pelo qual se desenvolverá o
amor e com o qual haverá uma perfeita unificação e ordem.

A segunda seção é “E será quando te trouxer...”, referente à Hei,


Palácio no qual a matriz foi aberta pela Iud, nas cinquenta portas,
corredores e câmaras fechadas deste, entreabertos pela Iud, para
178
escutar a voz que surge deste Shofar. Porque este Shofar está fechado
em todos os seus lados, e vem a Iud que o abre para que sua voz
emerja. Uma vez que o abriu, o faz ressoar e tira dele uma voz para
resgatar os escravos à liberdade.
A segunda seção, equivalente à primeira letra Hei, associada à Biná,
corresponde à frase "E será quando te trouxer", alusão a receber para
doar. Também este estado é chamado "Shofar", um "chamado para a
redenção", que "evoca misericórdia", na explicação de Rav Laitman. Esta
seção é o Palácio em que a matriz (os desejos para corrigir) foram abertos
por Iud: aqui o cabalista experimenta o princípio da correção de AHP
devido à elevação de GE, ou Iud. Esta abertura deixou todas as 50 portas
(entrada e saída de cada uma das 25 Sefirot que compõem o mundo, seus
corredores (a passagem de Luz de uma Sefirá para outra) e câmaras (as
Sefirot) entreabertas, ou seja, é possível escutar o Shofar (receber o
Entendimento), antes fechado, quando ainda não aberto pela Iud: agora
que tem Vontade e Consciência preenchidas, há a emergência do
Entendimento para o cabalista, como uma voz que ressoa no seu interior
para resgatar a liberdade aos escravos (o Entendimento do que deve ser
corrigido para livrar a pessoa do egoísmo que a mantém prisioneira neste
mundo).

Com o som deste Shofar, saiu Israel do Egito. Assim será outra vez ao
final dos dias. Toda redenção procede deste Shofar. Por isso a saída
do Egito é mencionada nesta seção porque provém deste Shofar cuja
matriz foi aberta graças ao vigor da Iud e permitiu que sua voz emerja
para libertar os escravos. Esta é a letra do Nome sagrado.
Com o Entendimento das correções necessárias, a Vontade de adesão ao
Criador saiu de sua condição egoísta, superou os graus de recepção com
que até então tinha como seus propósitos. E assim se repetirá a cada
Partzuf, novos graus de correção implementados a partir de novos
Entendimentos. Toda redenção procede deste Entendimento que permite
a AHP ser retificada, em outras palavras, que o amor ao Criador se
179
manifeste, e, assim, escapar ao foco do egoísmo. É por isso que essa seção
se refere a sair do Egito (do egoísmo), porque provém deste Entendimento
cujo conhecimento dos desejos a serem corrigidos foram abertos pelo
vigor do temor precedente, Iud, compreendendo a recepção da Vontade
de adesão ao Criador e Consciência de doar para receber corretamente.
Com a inscrição prévia de Iud, o Entendimento já pode se fazer
instrumento para a libertação do aprisionamento egoísta da recepção. Este
é o estado alcançado por quem inscreveu a Hei, a segunda letra do nome
sagrado.

A terceira seção é o segredo da unicidade de Shemá Israel, a Vav que


inclui tudo, nela se realiza a unicidade total e ela recolhe tudo.
A terceira seção corresponde à Vav, que é relacionada à correta Intenção,
doar para doar. É o segredo da unicidade, porque faz com que AHP tenha
o mesmo propósito de GE, que é doar. Shemá Israel: A Vontade de adesão
ao Criador pode ouvir, pois fez tudo o que lhe foi requerido, no Alto e
Abaixo. Ao inscrever este estado, se inclui tudo e se recorre a tudo que a
criatura precisa executar para que alcance a revelação da quarta letra e
complete o Tetragrama.

A quarta seção “será, se obedeceres...” é a que inclui os dois aspectos


mediante os quais se unifica a Congregação de Israel: o Rigor de
Baixo. É a última Hei que as toma e se constitui a partir delas.
A quarta seção corresponde à frase "e será se obedeceres..."; frase
condicional, alusiva à revelação do Criador se executadas as instruções
precedentes: a Vontade de adesão superior aos desejos deste mundo, a
Consciência de seu alcance e de sua necessidade, o Entendimento das
retificações necessárias aos desejos que traz em si, a execução da correta
Intenção para cada desejo identificado como passível de correção. Esta
seção inclui os dois aspectos mediante os quais se unificam as almas
corrigidas: o Rigor de Baixo, ou seja, o desejo de receber manifestado
segundo o Temor acima, aqui por Amor. A revelação é a última Hei, que
180
toma para si as realizações das letras prévias e que é constituída pelas
inscrições anteriores.

Os tefilin são, certamente, as letras do Nome santo. Portanto: “tua


cabeça sobre ti, como o Carmelo” designa a filactéria da cabeça, e os
“cachos de tua cabeça” designa a filactéria da mão que é pobre em
comparação à superior, e, apesar disso, alcança uma perfeição
semelhante a superior.
Os tefilin compreendem as correções necessárias, constituem o
Tetragrama, portanto, cada Partzuf que deve ser vestido, retificado. A
filactéria da cabeça é GE, demandando o temor, enquanto os cachos da
cabeça ("dalat") designam a filactéria da mão que é pobre ("Dalet") em
relação ao superior, o AHP, demandando o amor, e que, apesar de sua
condição de desejo de receber, alcança uma perfeição semelhante ao
Superior porque ambas as correções, acima e abaixo, foram efetuadas, as
inferiores por causa das superiores.

“O rei é prisioneiro de tuas tranças”: está atado e ligado pelos


compartimentos dos tefilin, com o fim de unir-se com esse Nome
sagrado em forma adequada. Por isso, o que se adorna com elas adota
a “imagem de Deus”. Assim como Deus está unido ao santo Nome,
também nele se unifica o santo Nome como corresponde.
A satisfação do desejo superior depende das ligações entre as Sefirot com
a finalidade de unir-se de forma adequada ao Nome Sagrado, ao Partzuf
corrigido. Por isso, "aquele que se adorna com as filacterias", aquele que
preenche corretamente as Sefirot de GE e AHP corrigidas, adota a
"Imagem de Deus": Deus está unido ao Santo Nome (O desejo de doar e o
desejo de receber são Um - devem ser Um, não podem se contradizer),
também no cabalista se unifica o Santo Nome como lhe corresponde, ou
seja, retifica o desejo de receber segundo o grau alcançado.

“Homem e mulher os criou” refere-se aos tefilin da cabeça e aos do


181
braço, e tudo é um.
"Homem e mulher os criou": tefilin da cabeça e do braço, desejo de doar e
desejo de receber, ou seja, os dois propósitos do desejo concedidos à
criação para que a criatura com eles trabalhe na sua retificação. "E tudo é
um", o desejo só se manifesta se há um princípio doador e uma finalidade
de recepção; não podem existir como entidades autônomas: não pode
existir como criatura sem uma natureza imperfeita e limitada
caracterizada pela recepção, nem pode alcançar o Criador sem a correta
Intenção que a possibilite experimentar o propósito de doação.

Décimo primeiro preceito

É separar o dízimo da Terra. Aqui há dois preceitos: um é separar o


dízimo da Terra e outro as primícias do fruto da árvore. Tal como
está escrito: “eis aqui que dei toda erva que dá semente, que está
sobre a Terra”. Está escrito aqui “eis aqui que dei”, e está escrito ali:
“eis aqui que dei aos filhos de Levi todo dízimo em Israel”. Está
escrito: “o dízimo da terra, da semente da terra, do fruto das árvores,
é do Eterno”.
A partir do desejo de receber, separar o dízimo, ou seja, abrir mão
daqueles desejos que não deve utilizar, pelo bem do Criador. Esse preceito
também inclui dar ao Criador as primícias do fruto da árvore, ou seja,
diante de todo desejo de receber, utilizá-lo com a correta Intenção: dessa
forma, os primeiros frutos são Luz Refletida. "Eis que dei toda erva que dá
semente sobre a terra": o desejo de receber foi dotado da possibilidade de
ser preenchido, e um grau especial do desejo de receber, o dos filhos de
Levi, o desejo de receber superior, recebeu todo o dízimo em Israel, toda
a Luz Interna na Vontade de adesão ao Criador. E todo o dízimo, tudo de
que se abre mão no desejo de receber que está colocado, dos planos para
si e dos resultados de satisfação do ego, pertence ao Eterno, ou seja, é
realizado para o bem do Criador.

182
Décimo segundo preceito

É trazer as primícias da árvore, tal como está dito: “toda árvore na


qual há fruto e que dá semente”: tudo o que corresponde a Mim, a
vocês está proibido comer. Permitiu-lhes e deu-lhes todo Seu dízimo
e as primícias das árvores. A vocês vos dou, e não às gerações
posteriores.
A árvore em que há fruto e que dá semente é o propósito do desejo. Neste
propósito, cada fruto é um desejo que dá semente, origem a um novo
propósito. Levar as primícias da árvore ao Criador, significa levar-Lhe um
desejo tão logo surja, não o realizando em proveito próprio. As primícias,
portanto, são a correta Intenção, tudo o que corresponde a Ele. Esta
intenção não deve ser voltada para si, as primícias não podem ser comidas,
tal como era feito antes, quando a criatura apenas recebia; ao deixar de
contentar-se com a pura recepção tornada egoísta porque imperfeita, e
desejando ser como o Criador, a criatura passa a desenvolver às gerações
posteriores a entrega da Torá, da Luz Interna, que exige uma tela formada
pela Luz da Misericórdia apta a revestir a Luz da Sabedoria que antes
recebia como Luz Direta.

Décimo terceiro preceito

É redimir o seu filho para ligá-lo à vida. Porque existem dois


encarregados: um da vida, outro da morte, e se encontram sobre a
pessoa. Quando um homem redime a seu filho, o redime das mãos do
encarregado da morte e já não tem domínio sobre ele. Este mistério:
“E viu Deus tudo o que havia feito”, em geral, “era bom”, se refere ao
Anjo da vida; “em grande parte”, refere-se ao Anjo da morte. Por isso,
através desta redenção se mantém a vida e se debilita a morte.
Através desta redenção, adquire para ele a vida, tal como dito, e esse
“Lado Mau” o libera e não se aferra mais a ele.
O filho é Zeir Anpin, estado no qual há o exercício da correta Intenção, a
183
ação de redimi-lo, para atá-lo à vida, à doação. Há dois encarregados sobre
uma pessoa, dois propósitos que a pessoa têm que relacionar
corretamente: um da vida, da qualidade de outorgamento, um da morte,
da qualidade de recepção egoísta. Ao compreender o encarregado da
morte como um indicador para as correções necessárias em si, é possível
escolher o encarregado da vida: é isso que se entende como redimir seu
filho, exercer a correta Intenção livrando-nos do egoísmo que perde o
poder sobre nossas decisões. Este é o mistério sugerido pelo versículo "E
viu Deus tudo o que havia feito", em geral, "e viu que era bom" se refere
ao Anjo da Vida, à Luz Refletida; "em grande parte" se refere ao Anjo da
Morte, à Luz Direta recepcionada sem uma Tela. "E por isso, por meio
desta redenção, se mantém a vida e se debilita a morte", se mantém a
qualidade de outorgamento e se corrige o egoísmo, como explica o próprio
Zohar: "por esta redenção, adquire ele a vida, tal como dito, e este Lado
Mau o libera e não se aferra mais a ele"; o cabalista já não sente mais
aquela intenção egoísta na satisfação daquele grau de desejo que passou à
correção. Ao "redimir seu filho", o cabalista age como se fosse o Criador
redimindo a sua parcela do desejo de receber criado, filho (criação) de seu
Pai, que é Um consigo.

Décimo quarto preceito

É guardar o dia do Shabat, que é o dia de descanso de todas as obras


do Princípio. Aqui estão incluídos dois preceitos: um é guardar o dia
do Shabat e outro é santificar esse dia com sua Santidade. Guardar o
Shabat, tal como o mencionei e destaquei acerca dele, porque é o
tempo de descanso dos mundos, todas as obras se completaram nele.
Todos foram realizados antes que fosse santificado o dia.
O Shabat é o estado em que todas as correções do Partzuf trabalhado
durante a semana (durante cada preenchimento das Sefirot daquela Face)
foram completados e se anuncia uma nova semana. Este estado deve ser
guardado, as correções já feitas não podem ser quebradas, nem pode ser
184
ignorada a Vontade de corrigir o próximo Partzuf. É um dia de descanso
na medida em que não há mais correções a fazer no grau atingido e ainda
não se revelaram as próximas. Não há Trabalho, mas ainda assim, há que
se manter o temor a ponto de preservar os resultados do Trabalho já
realizado e amor para prosseguir com o advento de uma nova Vontade de
correção. Há, portanto, dois preceitos incluídos, o primeiro, guardar o
Shabat, manter o grau alcançado sem a necessidade de trabalhar, de
exercer esforços para corrigir quaisquer aspectos daquele Partzuf, pois é
Shabat, a menos que não estejam totalmente corrigidos; e sendo Shabat,
a quebra de uma das retificações já realizadas seria uma violação. O
segundo preceito incluído é o de santificar o Shabat, porque se toda a
criação foi completada nos seis dias anteriores, toda a retificação do
Partzuf foi completada, tudo foi realizado antes que se santificasse o
sétimo dia cuja santificação se traduz na recepção de um vaso maior de
Vontade na adesão ao Criador para o preenchimento da Luz que lhe
elevará o temor, preparando o Trabalho da semana seguinte.

Devido a que o dia foi santificado, procedeu a criação de espíritos


cujos corpos não puderam ser criados. Acaso o Santo, Bendito, não
sabia como atrasar a santificação do dia até que fossem criados
corpos para estes espíritos? Senão que a Árvore do Conhecimento do
Bem e do Mal incitou ao Outro Lado do mal e quis exercer seu poder
sobre o mundo, e saíram uma proliferação de espíritos armados para
apoderarem-se dos corpos do mundo. Ao ver o Santo, Bendito Seja,
isso incitou a que soprasse um vento da Árvore da Vida que golpeou
a outra árvore, levantou-se o Outro Lado do Bem e santificou o dia.
O Shabat, ou Dia Santificado, é aquele estado em que uma nova Sefirá
Keter é formada para ser preenchida pela Vontade de adesão ao Criador.
Neste estado, não há mais desejos (espíritos) próprios ao egoísmo para
serem manifestados no grau já corrigido, e o cabalista está pronto para
corrigir um novo nível. Mas o Zohar propõe e explica a seguinte questão:
não seria melhor postergar a santificação do Dia de Shabat até que todos
185
os desejos egoístas já estivessem manifestados? Ora para que o temor ao
Criador (Árvore do Bem e do Mal) se manifeste, precisa haver uma porção
egoísta ainda não revelada e desejosa de exercer seu poder sobre o mundo
já criado, isto é, sobre as retificações já concluídas, para que a Vontade de
adesão ao Criador e sua Consciência se sobreponham e impeçam-na de
tomar o desejo de receber, realizando esta oposição ao mal até vencê-lo e,
assim, haver um Dia de Shabat para coroar a retificação. Esta Vontade e
Consciência se erguem porque o Santo providencia que o Entendimento e
a correta Intenção venham ao encontro, dêem sentido, à Vontade e à
Consciência, e assim converjam à santificação do Dia. Se a santificação do
Shabat fosse postergada, uma grande carga de egoísmo maior do que
aquela com que o cabalista poderia trabalhar viria a ele, como o foi com
Adão, que esperava ser possível manter sua Vontade e Consciência de
adesão ao Criador sobreposta ao seu desejo de receber, mas fracassou
(comeu do fruto da Árvore do Bem e do Mal) e dividiu-se em muitas
parcelas de egoísmo (almas) a serem retificada nos mundos. Ao comer do
fruto da Árvore do Bem e do Mal , o desejo de receber perde esta Vontade
e Consciência (temor). Mas não comeu o fruto da Árvore da Vida
(Entendimento e intenção, ou amor), portanto, está este fruto garantido a
quem reparar a primeira Árvore, replantando-a a partir deste mundo.
Aquele que teme (corrige GE) poderá chegar ao amor (à correção de AHP)
e ter o seu Shabat, revelando novos desejos carentes de correção e
aumentando continuamente seu temor e amor ao Criador.

Porque a criação dos corpos e o despertar dos espíritos provêm nessa


noite do Lado do Bem e não do Outro Lado. E se naquela noite o
“Outro Lado” se houvesse antecipado, antes que o Lado do Bem se
antecipasse, o mundo não poderia ter existido diante deles nem
sequer por um instante. Mas o Santo, Bendito Seja, antecipou o
remédio: adiantou a santificação do dia e se antecipou ao Outro Lado,
e assim o mundo pôde existir.
A convicção quanto à criação de corpos (emergência de desejos) e o
186
despertar de espíritos (o preenchimento dos desejos) na noite de Shabat
provêm do Lado do Bem, não do Outro Lado. Trata-se, então, de sentir
uma pré-disposição à revelação de novas correções e à recepção da
Vontade de corrigir um novo grau. Este estado de noite de Shabat se
caracteriza, então, pelo sentimento de certeza de que a revelação do
Criador obtida naquele Partzuf garantirá que situações já corrigidas não
serão reincidentes nem haverá quaisquer tropeços ou retornos para tais
situações. Se fossem desejos e preenchimentos suscitados pelo Outro
Lado, os estados de manhã e tarde de Shabat não seriam sentidos e a
correção de mais um Partzuf não seria possível. Mas o Santo se antecipou,
concedendo à criatura que não se satisfaça com o grau alcançado, mas
deu-lhe a Santificação do Shabat, a confiança de que tornará a obter
Entendimento e correta Intenção a partir do advento de um novo grau de
Vontade e Consciência na adesão ao Criador, antecipando-se ao Outro
Lado, antecipando-se ao novo grau de egoísmo que lhe será revelado no
Trabalho da próxima semana (da correção do próximo Partzuf). Se não se
antecipasse, o Outro Lado se revelaria imediatamente e seria tentador
para satisfazer o ego, não para ser experimentado como um indicador de
retificações, já que não haveria Santificação, não haveria prévia
expectativa e desejo por novos Entendimentos e corretas intenções.

Pensou o “Outro Lado” em estabelecer-se e fortalecer-se no mundo,


mas se estabeleceu naquela noite o “lado bom” e se fortaleceu. Foram
gerados corpos e espíritos sagrados nessa noite a partir do Lado do
Bem, e por isso o tempo de união íntima dos Sábios que sabem disso
é o de Shabat a Shabat. Porque então o “Outro Lado” viu que o que
pensou em fazer, o fez o lado da Santidade. Daí marcha e sobrevoa
em companhia de seus guerreiros e seus aspectos, e observa a tudo o
que mantém relações com seu corpo descoberto à luz da vela. E todos
estes filhos surgidos dali serão epilépticos, porque habitam neles os
espíritos provenientes do “Outro Lado”. E estes são os espíritos
desnudos dos pecadores denominados “demônios” e Lilith habita
187
neles e os mata.
A mesma estratégia do fortalecimento da Vontade de adesão ao Criador é
utilizada pelo egoísmo, isto é, estabelecer seu propósito por meio do desejo
de receber. Porém, quando há a Santificação, prevalece o Bem na noite de
Shabat, são gerados corpos e espíritos sagrados, quer dizer, desejo de
receber superior e propósitos corretos para o seu preenchimento. De
Shabat a Shabat há a união íntima dos Sábios, a dinâmica que permite que
a correção de um Partzuf inicie a correção de outro, até a retificação de
um mundo, e deste para o outro. No entanto, mesmo que o egoísmo não
sabote a noite do Shabat e não impeça a continuidade das retificações, o
mal continua a tentar durante a semana do Trabalho, em cada aspecto do
desejo de receber que é revelado à luz de vela, ou seja, de pouco esforço
no Trabalho em contrapartida à grande tentação de entregar-se aos novos
aspectos revelados do desejo de receber, que despontam nus, sem a
vestimenta adequada para serem corrigidos. Se não se resistir a eles, estes
aspectos não permitem um grau de correção, mas um grau epiléptico,
defeituoso, preenchido pelo propósito de satisfação egoísta, não pela
Vontade de adesão ao Criador. São demônios, espíritos dos pecadores: a
desistência e o trabalho contra a correção, culminando na realização do
mal, a posse por Lilith, o estado de recusa da correção e morte do desejo
de permanecer na espiritualidade.

Uma vez que o dia foi santificado e a Santidade domina sobre o


mundo, esse “Outro Lado” se reduz a si mesmo e se oculta durante
toda a noite do Shabat e o dia do Shabat, à exceção de Asimon e de
todo o seu secto, que se aproximam em segredo sob a luz de velas
para espiar as relações a descoberto, e depois se escondem na caverna
do grande abismo.
Uma vez que se continua a sentir o desejo de receber superior e os
propósitos corretos para o seu preenchimento após a retificação de um
Partzuf, assim como a confiança de que se tornará a obter Entendimento
e correta Intenção a partir do advento de um novo grau de Vontade e
188
Consciência na adesão ao Criador, o egoísmo não se manifesta no Shabat,
"reduz-se a si mesmo", é identificado como o receber para si que não se
confunde com a qualidade de outorgamento, à exceção de Asimon, o mal
que se percebe como novo, próprio ao próximo grau de correção.
Aproxima-se em segredo e discretamente, à luz de velas, isto é, um novo
nível de egoísmo que o cabalista ainda não havia sentido agora se insinua
conforme a tônica do próximo Partzuf a ser corrigido, e que depois se
esconde no grande abismo, nas camadas ainda não reveladas e que serão
retificadas durante a semana de Trabalho.

Quando sai o Shabat, um grupo de guerreiros e combatentes voam e


sobrevoam o mundo, e por isso se estabeleceu o Cântico contra as
calamidades, com o fim de impedi-los de dominar o povo santo.
Ao término do Shabat, emerge um novo grupo de desejos que necessitam
de correção, é o estado em que Keter de um novo Partzuf é concedida para
o preenchimento da primeira Luz sobre a Vontade de adesão ao Criador
num novo nível, e esta é a Luz de Nefesh, associada ao propósito de
recepção para si. A fim de que esta recepção não sucumba ante os novos
desejos, foi estabelecido o cântico contra as calamidades, a possibilidade
que o desejo de receber tem de constituir-se à semelhança de Deus, usando
seu propósito de recepção para fortalecer sua fé acima da razão, desejando
a retificação dos mundos superiores sugeridos pela fé sobre a satisfação
dos desejos deste mundo exigidos pela razão. Esse cântico, identificado
com o Salmo 91, esse fortalecimento da confiança, impede o mal de
dominar sobre o Povo Santo - a Vontade de adesão ao Criador.

A que sítio voam durante essa noite? Quando partem


precipitadamente e querem dominar no mundo o povo santo, ao vê-
los em sua oração e recitando esse cântico, e que ao começo fazem a
Havdalá na oração e fazem a Havdalá sobre a taça, eles voam dali,
marcham, sobrevoam e chegam ao deserto. Que o Misericordioso nos
livre deles e do “Lado Mau”!
189
Aonde, exatamente, se encontra o mal dentro de si quando termina o
Shabat e o anoitecer anuncia o primeiro dia da semana do Trabalho de
correção? Entre o final do Shabat e o primeiro dia o cabalista deve se
manter em oração (apelo ao Criador para corrigir sua inclinação egoísta a
partir do sentimento dela como uma deficiência em si), cântico (elevação
da fé acima da razão) e Havdala (o correto uso dos sentidos neste mundo,
separando-os do mal. Cerimonialmente, consiste de provar o vinho,
cheirar as especiarias, ver a chama da vela e sentir seu calor, e ouvir as
bênçãos. Havdala significa "separação" e marca o final do Shabat e dos
dias sagrados, iniciando uma nova semana). Realizar Havdala sobre a
oração é sentir o seu egoísmo como algo a ser separado, e realizar Havdala
sobre o copo de vinho equivale a receber corretamente à Luz da Sabedoria,
a perceber o novo mal não como oportunidade de recepção, mas como
uma visão daquilo que devemos evitar, afastando o mal para o deserto. É
no deserto, diz o Zohar, num estado em que se abandona a condição do
egoísmo, mas não se encontra realização na primeira Luz da Vontade. Este
vazio é perigoso, porque ali se é tentado a capitular ao Outro Lado que ali
se fixou porque não pode subjugar a formação e o preenchimento da
Vontade de adesão. "Que o Misericordioso nos livre deles e do Lado Mau!",
pede o Zohar, e para que assim seja, devemos às vésperas de iniciar a
correção do novo Partzuf nos mantermos em oração, cântico e Havdala,
pois é um momento em que emergem novos desejos a tentar subjugar
nossa espiritualidade.

Três são os que trazem o mal sobre si mesmos. Um, quem maldiz a si
mesmo. Dois, quem joga pão ou migalhas que tem o tamanho de uma
azeitona. Três, quem acende uma vela ao final do Shabat, antes que
Israel tenha concluído a recitação da Kedushá, porque provoca que o
fogo do Guehenom se acenda com esta vela antes do tempo.
São três aqueles que trazem o mal sobre si próprios, que caem no egoísmo
por sua própria culpa. O primeiro é aquele que se maldiz, é o estado de
quem sente prazer com sua manifestação de egoísmo, vangloriando-se de
190
sentir prazer às custas do outro. Seu próprio egoísmo lhe acusa por suas
más ações. O segundo é quem desperdiça a chance de aprender e realizar
as menores ações que sejam em prol de sua retificação, especialmente
quem joga fora o pão, quem prescinde da fé sobre a razão. O Terceiro é
aquele que às vésperas de iniciar um novo Trabalho de correção acende
uma vela, faz uso de uma fraca Luz em meio à escuridão, antes de recitar
a Kedushá, afirmar a sua espiritualidade como um vaso para a
manifestação da Glória do Senhor, de bendizê-La ali e comprometer-se à
prosseguir com as retificações de grau em grau (geração após geração):
esta Luz da vela é fraca para submeter a escuridão à sua volta sem a
afirmação, a bênção e o compromisso de santificação, revelando uma
grande escuridão que lhe tenta, e a vela acesa sem Kedushá prévia, sem
santificar-se - sem tomar a iniciativa e trabalhar para se tornar santo - e
sem ser santo - sem fortalecer-se para manter seu nível de santidade -
acende o fogo do inferno, do usufruto egoísta.

Porque existe um lugar no Guehenom reservado para aqueles que


transgrediram os dias de Shabat, e os que são castigados no
Guehenom maldizem os que acenderam sua vela antes do tempo e
lhes dizem: “Eis aqui que O Eterno te assará com vigor...te lançará a
rodar com ímpeto, como a bola por terra extensa”.
Na sequência, o Zohar destaca o terceiro tipo de mal sobre si mesmo,
enfatizando que também na espiritualidade, entre uma semana de
Trabalho na correção de um Partzuf e outra, o cabalista pode cometer
erros que o levam a um estado particular de egoísmo, decorrente de sua
transgressão ao Shabat, caracterizado por um sentimento de
arrependimento por ter revelado uma nova porção de mal com uma
pequena Luz antes de ter fortalecido a sua santificação. Neste estado, o
egoísmo parece um obstáculo intransponível lançado num desejo de
receber viciado cuja extensão parece não ter fim. Sente-se esta
intransponibilidade como um castigo do Eterno e porque, de fato, é um
estado em que o indivíduo é lançado ao pó sem controle, reforça-se o
191
cuidado de ver o mal em pequenas doses como indicador de retificações,
não o revelando num grau superior à sua capacidade de permanecer na
santificação do Shabat.

Devido a isso, não se deve acender o fogo ao final do Shabat antes que
Israel tenha pronunciado a Havdalá durante suas orações, e
pronunciado a Havdalá sobre a taça, porque até este momento ainda
é Shabat e a Santidade do Shabat nos domina. No momento em que
se pronuncia a Havdalá sobre a taça, todos esses guerreiros e todos
esses combatentes encarregados dos dias da semana, um por um
retoma o seu lugar e as funções pelas quais é responsável.
Não devemos procurar retificar desejos de um grau superior revelados na
manhã do sétimo dia até que tenha sido concluído o Shabat, estado no
qual a Vontade de adesão ao Criador concluiu a restrição sobre os seus
desejos e sobre o recebimento da Luz da Sabedoria. Até este momento é
Shabat, é a conclusão da retificação de um Partzuf e a santidade deste dia
nos domina, a santidade do já corrigido, estado que se não estiver
completo pode ser sabotado pela precipitação em receber o que ainda não
pode ser corrigido. Tendo manifestado a restrição sobre o recebimento da
Luz da Sabedoria própria às correções efetuadas durante o Trabalho
semanal, se está pronto para uma nova semana: todos os desejos e
satisfações de um novo Partzuf que, se houvessem sido precipitados,
lançariam o cabalista num estado de egoísmo, agora se convertem em
vasos aptos ao preenchimento das Luzes de NaRaNChaY - "cada um
retoma seu lugar e as funções de que é responsável", isto é, as Sefirot
próprias a cada dia.

Porque quando o Shabat faz sua entrada e é santificado o dia, a


Santidade desperta e domina o mundo, e o profano se aparta de seu
poder, e até a hora em que termina o Shabat não retornam a seus
lugares. E mesmo quando terminou o Shabat, não regressam a seus
lugares até o momento em que Israel diz: “Bendito és Tu, O Eterno,
192
O que distingue o sagrado do profano”. Então, a Santidade se retira
e os combatentes encarregados dos dias da semana despertam e
regressam a seus lugares, um a um à guarda que lhes foi
encarregada. Contudo, não exercem seu domínio até que haja luzes
do mistério da vela. E todas são denominadas “as iluminações do
fogo”, porque do mistério da Coluna de fogo e do Fundamento do
fogo provêm, e dominam sobre o Mundo de Baixo.
O estado de Shabat, de santificação, se inicia quando a correção do Partzuf
está concluída. Neste estado específico, o cabalista sente sua santidade
desperta, e não há mais os desejos anteriores a tentá-lo; este estado
permanece até que a Vontade de adesão ao Criador dentro da pessoa pode
distinguir naturalmente o que é próprio à unificação e à separação, ao Bem
e ao mal, à qualidade de doação e ao egoísmo com tudo o que realizou
naquela semana: é a distinção do Eterno, bendito pelo cabalista por meio
da correta Intenção. Só então está pronto para retificar um novo grau de
desejos, com suas respectivas etapas a serem trabalhadas na próxima
semana, segundo cada Sefirá a que pertence: Vontade (Keter), Consciência
(Chochma), Entendimento (Biná), Intenção (Zeir Anpin), Realização
(Malchut). Para que essas etapas exerçam um domínio santo de correção,
necessitam ser preenchidas com as Luzes vindas da vela acesa durante a
resolução de manter a correta Intenção sobre seus desejos e a recepção da
Luz da Sabedoria celebradas no Shabat. São as Luzes de NaRaNChaY ou
as "iluminações do fogo", porque provêm do mistério da coluna de fogo (a
descida das Luzes) e o fundamento do fogo (as Sefirot a serem
preenchidas), e assim dominam sobre os desejos deste mundo.

E tudo isso quando um homem acende uma vela antes de que Israel
conclua a Kedushá. Mas se espera até que concluam a Kedushá,
aqueles pecadores do Guehenom aceitam sobre eles o juízo do Santo,
Bendito Seja, e eles confirmam para dito homem todas as bênçãos
pronunciadas pela congregação: “Deus te dará do orvalho do Céu”.
“Bendito Sejas na cidade e Bendito Sejas no campo”.
193
Tentar corrigir um grau superior de egoísmo quando não se tem a
santificação sobre os desejos corrigidos resulta num mal contra si, um tipo
particular de estado em que o cabalista pode se sentir preso, conforme
descrito. Entretanto, se a santificação for plenamente vivida, de modo que
a correta Intenção recebida do Eterno distinga o sagrado do profano na
sua natureza de recepção, os seus desejos egoístas serão submetidos ao
juízo do Santo, Bendito Seja, e este estado de permanência no sagrado faz
com que estes desejos sirvam para sinalizar novas correções pela escolha
contrária à razão do ego, confirmando o desenvolvimento da correta
Intenção, conforme escrito: "Deus te dará do orvalho do Céu" - Deus te
concederá a Luz Refletida (O orvalho é Ohr Hozer, segundo Rav Laitman)
- e "Bendito Sejas na cidade e Bendito Sejas no campo" - que a correta
Intenção prevaleça nos desejos de receber e de doar.

“Bem-aventurado o que pensa no pobre, no dia do mal o salvará O


Eterno”. “No dia do mal” deveria estar dito. Que é “o dia do mal”? O
dia no qual domina essa Malvada para levar a alma.
Bem-aventurado é quem se preocupa com relação aos seus desejos de
receber carentes de retificação, no estado de egoísmo o salvará o Eterno.
Mas por que esse estado é denominado no feminino, como o dia do desejo
de receber? Não deveria a salvação se manifestar no masculino: no dia dos
atributos de doação sendo executados, o salvará o Eterno? O que é este
"dia do mal"? É o estado em que o desejo egoísta procura arrebatar o
cabalista de sua Vontade de adesão ao Criador. Mas por que trabalhou
corretamente, o cabalista recebeu o Entendimento do que deve corrigir
em si, de modo que quando o ego se manifesta, a Vontade de adesão será
forte para mantê-lo no bom caminho.

“Bem-aventurado o que pensa no pobre”, alude ao enfermo grave,


quando vem este a curá-lo do pecado ante o Santo, Bendito Seja.
"Bem-aventurado o que pensa no desejo de receber carente de retificação"
alude ao que é tentado pelo seu egoísmo, mas que por ter se preocupado
194
com a carência de correção e nela ter atuado, recebe a correção para sua
falha ante o Santo, Bendito Seja, e aquela falha não volta a atentar contra
sua santidade.

Outra explicação: se refere ao dia em que a Justiça é conhecida no


mundo, e será salvo dela tal como está dito: “No dia do mal, o salvará
O Eterno”, o dia em que a Justiça é entregue a esta Malvada para que
domine o mundo.
Outra explicação: "bem-aventurado é aquele que pensa no desejo de
receber carente de retificação", se refere ao estado em que sentir o rigor,
a coluna à esquerda da Árvore, e neste estado manterá sua fé acima da
razão magoada pelo rigor, "um dia do mal", em que o egoísmo fala mais
alto na tentativa de esquivar-se da correção, e deste estado o Eterno o
salvará. O dia em que a Justiça é entregue à Malvada é o estado em que as
propriedades de rigor, de restrição, são sentidas pela pessoa em seu desejo
de receber para si que conhece apenas o sofrimento pela sua carência
insaciável. Que o Eterno não o permita, e neste sentido nos exorta o Zohar,
ao final da Hakdamá, para que conheçamos nosso desejo de receber
carente de correção e nela nos ocupemos.

195
A despeito do nome, o Prólogo ao Zohar não
é uma introdução convencional como a
conhecemos nas obras deste mundo. O
Hakdamá talvez seja uma das mais
importantes partes do Zohar por explicar a
dinâmica do ingresso à espiritualidade, aos
Mundos Superiores, mapeando o caminho,
aconselhando sobre o que deve ser evitado e
sugerindo um norte diante de sensações que
todos os cabalistas passam durante o
Trabalho e que poderiam vir a desorientá-
los, não fosse a misericordiosa intervenção
das palavras do Hakdamá.

intervenção das palavras do Hakdamá. 196