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Gregory Bateson – Bali: The Value System of a Steady State (1949)

Segundo Bateson, seria uma simplificação, e até uma falsidade, dizer que a ciência avança a
partir da construção e verificação empírica de sucessivas hipóteses de trabalho. Isso não
ocorre nas chamadas ciências sociais, onde nossos conceitos são vagamente definidos e
nossas hipóteses tão vagas que raramente podemos imaginar algum caso específico que as
verifique.

É com isso em mente que o autor vai retornar a uma ideia já presente em Naven e torna-la
mais precisa: de que a ideia de ethos provou ser uma ferramenta conceitual útil para ele
compreender a cultura Iatmul, mas que essa experiência não mostra de maneira alguma que
essa ferramenta deve ser útil em outras mãos ou para o estudo de outras culturas. Ou seja: o
pesquisador tem um processo mental específico, com certas características; as falas, ações e
organizações Iatmul tem também tem características específicas; assim, a abstração “ethos”
desempenha certa função (catalisadora) ao facilitar a relação entre essas duas especificidades:
a mente do pesquisador e os dados que ele mesmo reuniu.

Depois de terminar de escrever Naven, Bateson vai para Bali a fim de utilizar as mesmas
ferramentas conceituais, mas, ali, percebe que isso não seria possível. Isso não queria dizer
que o conceito era “descartável” mas que, naquele contexto, ele não se fazia útil.

Assim, com os dados de Bali ele vai mostrar como as peculiaridades da cultura o
influenciaram a se distanciar da análise etológica

A análise dos dados entre os Iatmul levou-o a conceituar o ethos como “a expressão de um
sistema culturalmente estandardizado de organização dos instintos e emoções dos indivíduos.
O ethos Iatmul o levou ao reconhecimento da schismogenesis, que são círculos regenerativos
ou viciosos de sequências de interações sociais (açãoà reação), de duas classes distintas e
aliadas: (a) schismogenesis simétricas (competição, rivalidade) e (b) schismogenesis
complementares (dominação-submissão; auxílio-dependência; etc). Enquanto os estudos de
Richardson de relações simétricas e complementares pressupunham uma curva exponencial
de intensificação da relação, Bateson vai, inspirados nos estudos psicológicos sobre zonas
erógenas e orgasmo, falar que há um “clímax” do qual a curva atinge que, depois, tende a cair
(ex: guerra e orgasmo como liberação da tensão inicial).

Em Bali, porém, Bateson não encontrou sequências schismogênicas. Para provar isso, ele
parte então para a descrição da formação do caráter balinês.

O Caráter Balinês

A partir da pergunta fundamental: “Por que os balineses não possuem processos de


schismogenesis?”, Bateson vai citar uma série de “instituições” que inibem, modificam ou
descondicionam o processo de interação acumulativa (schismogenesis) a que todos os seres
humanos em interação estão sujeitos. Para isso, possuem um conjunto de práticas, como: (a)
inibir a sexualidade da criança com a mãe; (b) diminuir as tendências da criança com a
competividade e rivalidade; (c) a falta de clímax nas artes e na múscia, que trabalham com um
progressão formal; (d) técnicas precisas para manejar as disputas e as brigas locais, como
dívidas e fazer com que as pessoas não se falem; (e) táticas e construções arquitetônicas
(fossos) que inibem a guerra; (f) a ausência de técnicas formalizadas de influência social,
oratória e outras; e (g) a rigidez das estruturas hierárquicas. Respondendo a essas “perguntas
negativas”, Bateson parte agora para a dinâmica positiva da sociedade balinesa.

O ethos balinês

Qual seria, então, o ethos balinês, ou seja, qual os valores e motivos que fazem com que os
balineses efetivem os elaborados padrões que regem suas vidas?

Primeiro, Bateson vai falar que a economia de Bali é de abundância, há muitos alimentos e
muito consumo, e eles não voltam toda sua vida para a subsistência, dedicando muito tempo
para atividades “improdutivas”. Também não “poupam” dinheiro a longo prazo, gastando
altas quantias em rituais e não acumulando demais. Eles dependem muito das orientações
espaciais (horizontais) e sociais (verticais, hierárquicas). As atividades não são teleológicas.
Eles têm prazer em fazer as coisas coletivamente e suas ações são mais coerentes em termos
de grupo do que em valores individuais. A natureza social possui uma existência peculiar,
onde tudo deve ser feito porque “é assim que se faz”. Não há “lei” ou “etiqueta” em Bali, ao
menos não nesse nosso sentido de uma regra institucionalizada por um humano. Qualquer
rompimento da ordem é, antes, um rompimento da “estrutura natural do universo”, ou seja,
não é personificada. Há assim uma metáfora do equilíbrio que é expresso nas próprias
corporalidades dos balineses, como o andar, e elevar-se, etc. O equilíbrio, corporificado nos
gestos, torna-se então uma problemática central para os balineses, que se relaciona com o
próprio equilíbrio do social (natural). Os brancos desequilibraram a cultiura balinesa, antes do
contato, eles se referem ao período “quando o mundo estava firme).

Aplicações do jogo de Von Neumann

Enquanto as teorias sociológicas em geral pressupõem um uso máximo dos recursos (teoria
econômica, schimogênica, etc), os Balineses não cultivam ao máximo nenhuma variável, ou
seja, não é um sistema fundado na competividade, na rivalidade, ou mesmo na submissão.

O jogo de Von Neumann, por exemplo, tem uma série de premissas fundadas na
competividade entre os participantes. Suas premissas, se aplicadas em Bali, deveriam ser
radicalmente transformadas.

O jogo se difere das sociedades humanas em:

- O jogo pressupõe, por exemplo, um sistema de coalizões ocorridas entre os participantes em


interação, tratando os jogadores, desde o início, como seres “inteligentes”, ao invés de
pressupor, como ocorre nas sociedades humanas, que o humano está sempre em processo de
aprendizagem.
- Neumann também simplifica a escala de valores entre os mamíferos, ao passo que Bateson
lembra que, por vezes, a máxima renderização (de alimento, por exemplo), pode ser
extremamente nociva.

- Ele também pressupõe que o número de jogadas dentre de uma partida é “finito”. O número
de panoramas e possibilidades entre os humanos, ao contrário, aumenta exponencialmente.

- Os jogadores de Von Neumann não são passíveis de morte ou cansaço, ou não desejam
“retirar-se do jogo”.

Bateson foca na diferença de escalas de valor e na possibilidade de “morte”. Os contextos


competitivos, vai dizer Bateson, simplificam a escala de valores e não consideram a
“aprendizagem” como o fator formativo do caráter da sociedade. Em Bali, ao contrário, o que
eles parecem maximizar é a própria estabilidade do sistema. Consideremos um jogo, então,
onde o objetivo seria manter a estabilidade entre os membros. As possibilidades do jogo,
assim, agiriam contra os próprios jogadores e suas variáveis simples. Aí, haveriam
mecanismos de impedimento das variáveis simples, num sistema de interações complexas.
Esse sistema deve ser passível de alterações auto-correlativas.

Resumindo parte de suas conclusões, ele vai falar:

En nuestro análisis de por qué la sociedad de Bali no es esquismogénica


observamos que el niño balines aprende a evitar la interacción acumulativa, es
decir, la maximización de ciertas variables, y que la vida social y los contextos de
la vida cotidiana están construidos de manera de excluir la interacción competitiva.
Luego, al analizar el ethos balines, notamos una valuación recurrente: a) de la
definición clara y estática del status social y de la orientación espacial, y b) del
equilibrio y los movimientos que llevan a él.

En suma, pareciera que los balineses transfieren a las relaciones humanas actitudes
basadas sobre el equilibrio corporal, y que generalizan la idea de que el
movimiento es esencial para el equilibrio.

Sistema schismogênico e estado de estabilidade

Foram esboçados, assim, sois sistemas que diferem-se radicalmente, apesar de ambos
buscarem a estabilidade, diferem-se na maneira em que se regula esse estado.

O sistema Iatmul seria enquadrado, assim, como schismogênico, incluindo vários circuitos
regenerativos causais ou circuitos viciosos, onde dois ou mais indivíduos participam em uma
interação potencialmente acumulativa. Ao descrever estes sistemas, o antropólogo deve
atentar-se para uma série de procedimentos (que Bateson enumera) para lidar com a
schismogenesis.

Em contraste com este sistema schismogênico, há o sistema balinês, que requer ao


antropólogo procedimentos inteiramente diferentes para lidar. Como esse sistema está
definido em termos negativos, não é possível formular um conjunto de regras para seu trato,
mas Bateson cita o caso balinês falando de uma via possível, cuja análise dependeria
contextualmente dos casos em questão.