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O Atlântico Negro, de Paul Gilroy (1993)

Prefácio à edição brasileira



No prefácio à edição brasileira, tentando estabilizar alguns conceitos presentes no livro,
respondendo de antemão à algumas críticas e relacionando o livro ao contexto brasileiro,
Gilroy vai se voltar ao conceito de diáspora, e suas potencialidades teóricas e metodológicas.
Nesse sentido, ele fala que a noção de diáspora que ele usa é um conceito aberto, não
ancorado nas identidades fixas, mas supra-nacional e transformativo – “A contaminaçãoo
líquida do mar envolveu tanto mistura quanto movimento” (p.15). É nesse sentido que, ao
falar do sincretismo, ele diz:

“Esta versão da diáspora é distinta, porque ela enxerga a relação como algo mais do que
uma via de mão única. Ela nunca ofereceu apenas uma resposta aos interesses, tanto
acadêmicos como políticos, que tentaram negar as sobrevivências africanas, seus contágios
e as influências da escravidão e para além dela. Esta abordagem das relações diaspóricas
surge depois que a lógica cultural da combinação, do tangenciamento e da
suplementaridade foi estabelecida por escritores entre os quais os historiadores e
antropólogos do “sincretismo” brasileiro foram extremamente proeminentes. Seus insights
sugerem que os preciosos fragmentos que celebramos e veneramos sob o nome de
“sobrevivência” nunca serão intactos ou completos, e mais que isso: que numa decisiva
divergência em relação à agenda política e à limitada economia moral do nacionalismo
africano-americano, aquelas mesmas sobrevivências podem se tornar mais interessantes,
estimulantes, prazeirosas e profundas através dos profanos processos que os amalgamam
com elementos imprevisíveis e não planejados, vindo das fontes mais diversas.” (p.21)

No entanto, já adiantando alguns dos desdobramentos da ideia de diáspora (e da noção de
culturas viajantes, que ele mesmo utilizou), Gilroy diz que é preciso impedir que a diáspora
se torne apenas um sinônimo de movimento. O autor conclui o prefácio realizando outro
alerta, da maneira como a “perspectiva de mercado” africano-americana – baseada na
univocidade da raça – tende a monopolizar as discussão sobre raça e diáspora, deixando do
lado de fora outras formas trans-locais de pensar a questão.

Prefácio

No final do prefácio, o autor alerta que sua esperança é que “o conteúdo deste livro seja
unificado por uma preocupação de repudiar as perigosas obsessões com a pureza ‘racial’ que
se encontram em circulação dentro e fora da política negra. Afinal, este livro é,
essencialmente, um ensaio sobre a inevitável hibridez e mistura de ideias” (p.30)


Cap 1. O Atlântico Negro como contracultura da modernidade

Nesse capítulo, Gilroy chama a atenção para o tema do livro: pensar os processos de
crioulização, métissage, mestizaje e hibridez, contra concepções que ele chama de
“absolutistas étnicas” que veem a identidade como algo fixo e exclusivo. Embora reconhecça
que “esses termos são maneiras um tanto insatisfatórias de nomear processos de mutaçãoo
cultural e inquieta (des)continuidade que ultrapassam o discurso racial e evitam a captura
por seus agentes” (p.35).

A imagem escolhida por Gilroy como símbolo organizador do livro é a de navios em
movimento pelos espaços entre a Europa, América, África e o Caribe. O navio como um
sistema vivo, microcultural e micropolítico em movimento.

O Atlântico Negro, segundo o autor, comporta uma estrutura rizomórfica e fractal da
formação transcultural e internacional, que nada tem a ver com teorias de foco nacionalista
ou absolutistas étnicos.

[é interessante como o autor utiliza diversos pioneiros escritores negros norte-americanos,
como Frederick Douglass, Martin Delany e Du Bois]

Gilroy faz uma crítica ao recente crescimento dos chamados estudos culturais, e a forma em
que ele subjaz uma noção de etnocentrismo e nacionalismo. O intento do autor é ultrapassar
perspectivas nacionais e nacionalistas, por duas razões: a primeira é que é preciso reavaliar
o significado do estado-nação moderno (e suas fronteiras) como unidade pol´tiica, econômica
e cultural; a segunda diz respeito à popularidade trágica de ideias sobre a integridade e a
pureza das culturas.

Realizando uma longa digressão sobre a formação do pensamento estético, o raciscmo e os
intelectuais que formaram o pensamento ocidental e, consequentemente, a ideia de nação
europeia, Gilroy vai mostrar como a cultura europeia (ou ocidental) foi constituída tendo
como seu alicerce um absolutismo étnico (a angilicidade, por exemplo) que colocava o branco
como superior ao negro. De certo modo, diz o autor, os chamados “estudos culturais” são
herdeiros dessa tradição.

Ao propor uma reavaliação do papel dos escravos e seus descendentes na história radical da
Inglaterra, Gilroy vai destacar nomes como Oluadah Equiano; o anarquista Robert
Wedderburn; Willian Davidson e o militante sufragista William Cuffay, dentre outros que
poderiam ser “reabilitados”. Ele destaca, destes, a biografia de Wedderburn, filho de um
traficante de escravos com uma escrava, criado por uma praticante de vodu em Kingston,
Jamaica, que depois foi à Inglaterra para lutar contra a escravidão e a opressão de classes. Ele
destaca que ele, assim como Davidson, eram ambos marinheiros, portanto se deslocavam e
cruzavam fronteiras em “máquinas modernas que eram em si mesmas microssistemas de
hibridez linguística e política” (p.52).

Ele vai destacar a importância do movimento e da translocalização entre os militantes negros
antirracistas do século XVIII e XIX na Inglaterra, EUA e Caribe, como fRederick Douglass,
Wedderburn, Davidson, Crispus Attucks e os piratas do Caribe, além do próprio Marcus
Garvey, George Padmore e Langston Hughes. O envolvimento de todos eles com navios e
marinheiros não é mero acaso, vai dizer Gilroy, e corrobora a tese de Linebaugh, que dizia
que “o navio continua a ser talvez o mais importante canal de comunicação pan-africana
antes do aparecimento do disco long-play” (p.54).

Refletindo sobre a pintura de William Turner sobre um navio negreiro (slaveship), Gilroy vai
dizer: “Uma preocupação com o Atlântico como sistema cultural e político tem sido imposta
à historiografia e à história intelectual negra pela matriz histórica e econômica na qual a
escravidão da plantation – “o capitalismo sem suas roupas” – foi um momento especial. Os
padrões fractais de troca e transformação cultural e política, que procuramos manifestar por
termos teóricos manifestamente inadequados como crioulização e sincretismo, indicam
como as etnias e ao mesmo tempo as culturas políticas têm sido renovadas de maneiras que
são significativas não só para os povos do Caribe mas, também, para a Europa, para a África,
especialmente Libéria e Serra Leoa, e, naturalmente, para a América Negra” (p.58).

Um dos argumentos centrais de Gilroy é que os fenômenos recentes do Atlântico Negro de
circulação e transnacionalização não são tão “novos” assim; de algum modo – e a figura do
navio novamente é fundamental – esses fenômenos são a base da constituição do que ele
chama de Atlântico Negro. Ele lembra, por exemplo, que o piloto de Colombo, Pedro Nino, era
africano. Assim, “a história do Atlântico Negro, constantemente ziguezagueado pelos
movimentos de povos negros – não só como mercadorias mas engajados em várias lutas de
emancipação, autonomia e cidadania –, propicia um meio para reexaminar os problemas da
nacionalidade, posicionamento, identidade e memória histórica” (p.59).

• Fico pensado se, por um lado, Gilroy aloca esse movimento, circulação e
transformação como constitutivas do Atlântico Negro, outros autores vão ressaltar
que tais características também já estavam presentes desde antes do período
histórico da escravidão...

Gilroy intenta repensar a modernidade (e seu suposto “início”) por meio da história do
Atlântico Negro e da diáspora africana no hemisfério ocidental. É nesse sentido que o navio
é tomado por ele como o primeiro dos cronótopos modernos. A partir daí seguiram uma série
de intelectuais e “notáveis viajantes negros americanos” que perseguiam esses movimentos
transatlânticos – movimentos esses fundamentais para a elaboração das muitas políticas
negras modernas (como o garveyismo, o pan-africanismo e o Poder Negro, tratados por
Gilroy como fenômenos globais, transatlânticos).

Na segunda parte do capítulo, Gilroy vai se deter na vida e pensamento de Martin Delany,
nascido em 1812, em Charlestown, Virgínia, filho de pai escravo e mãe liberta. Delany foi um
abolicionista atuante, além de escritor, poeta, médico, jornalista, juiz, dentre outro. Foi um
dos primeiros, junto com Frederick Douglass, a sustentar a ideia de que os negros americanos
(tal qual outras minorias europeias, como os judeus) deveriam ter seu próprio território, sua
pátria, apesar de ser contra a criação da Libéria como esse território prometido (ainda que
ele tenha ido à Libéria em 1859. Delany, ao mesmo tempo que é considerado um dos pais
fundadores do pan-africanismo, é também um dos criadores do nacionalismo negro (depois
que voltou da África, ele novamente abraçou o patriostismo americano. Ao mesmo tempo,
Gilroy o coloca como o “progenitor do patriarcado do Atlântico Negro”, ressaltando a
importância do patriarcado para o pensamento de Delany.

+ DELANY, Martin. Blake, or the Huts of America, 1970.
+ DELANY, M. Principia of Ethnology, 1879
+ DELANY, M. The condition, 1852.

Na terceira parte do capítulo, intitulada “a política negra e a modernidade, Gilroy diz que vai
analisar as posições do estado-nação e da ideia de nacionalidade nos relatos de oposição
negra e na música que expressa sua cultura. Nesse sentido, o conceito de “dupla consciência”,
elaborado por Du Bois, vai ganhar aqui destaque, pois o autor vai se interessar em como essa
duplicidade, ou seja, essa situaçãoo de ser interno e ao mesmo tempo externo ao Ocidente,
afetava a conduta dos movimentos políticos contra a opressão racial e rumo à autonomia
negra (p.84).

O que Gilroy vai se opor, ou analisar, é o legado de Delany e da política negra de aspirar
adquirir uma identidade “enraizada” supostamente autêntica, natural e estável. O autor, na
verdade, proõe um deslocamento: from roots to routes, ou seja, para os movimentos possíveis
entre as comunidades (imaginadas?) negras.

Gilroy vai desvelar um conflito, aparentemente inconciliável, entre o que ele chama de duas
perspectivas distintas, mas simbióticas: uma essencialista (representada por um “pan-
africanismo bruto”, que possui uma concepção absolutista das culturas étnicas) e uma
pluralista (que afirmaria a negritude como um significante aberto, onde não haveria
nenhuma ideia unitária de comunidade negra). Para Gilroy, no entanto, ambas perspectivas
são variantes de um essencialismo: um ontológico e outro estratégico. A primeira é fácil
imaginar o porquê; já sobre a segunda (representada por autores como Stuart Hall), ele diz:
“A dificuldade com esta segunda tendência é que, ao deixar para trás o essencialismo racial
por ver a ‘raça’ em si mesma como uma construção social e cultural, ela tem sido
insuficientemente consciente do poder de resistência de formas especificamente racializadas
de poder e subordinação” (p.87).

Numa crítica ainda mais radical, Gliroy diz: “Não menos do que seu predecessor Martin
Delany, os intelectuais negros de hoje têm constantemente sucumbido ao engodo dessas
concepções românticas de ‘raça’, ‘povo’ e ‘nação’, encarregando a si mesmos, em lugar do
povo que supostamente representam, das estratégias de construção da nação, formação do
estado e elevação racial” (p.91).

Falando sobre a expressão musical negra, em especial o hip hop, Gilroy vai dizer que ele
desempenha um papel na reprodução de uma contracultura distintiva da modernidade.



Comentários, resenhas e críticas

“The Black Diaspora” – Gilroy Black Atlantic’s review – Dale Tomich (trechos)

“Indeed, the force and originality of Gilroy's approach derive in large measure from his
decisive and systematic break with the nation-state as the organizing focus for understanding
history, politics, and culture. In its place, he substitutes the Black Atlantic as the starting point
of and framework for the critical analysis of the politics of race, ethnicity, culture and
nationality. Through the concept of diaspora he attempts to specify simultaneously identity
and difference outside of the restrictive binary frameworks of essentialism and pluralism”

“Gilroy views race as the historical product of multiple and complex cultural and political
encounters between Europeans and Africans through- out the Black Atlantic and emphasizes
a transnational and intercultural perspective that calls attention to the compound 'syncretic'
or 'creole' cultures of the diaspora.”

“By reinterpreting the relation of traditional and modern, Gilroy delineates a zone of cultural
and political engagement in which race is formed. Tradition can no longer be seen as a
repository for fixed racial and cultural identities. Gilroy emphasizes, instead, the historical
discontinuity represented by slavery and the diaspora. Elements of traditional African
culture are irrevocably cut off from their origins. The surviving fragments must be actively
recovered by social memory and mobilized through the formation of communities of
interpretation and sentiment. Thus, Gilroy treats tradition as an active response to
modernity. Tradition and identity are continuously constructed and reconstructed by
movements of black peoples for emancipation, citizenship, and autonomy that develop
within and against modern structures of economic exploitation, political domination, and
racial subjugation. Ethnic and 'racial' identities no longer appear as absolute and fixed, but
become unstable and shifting outcomes of historical and political process”

“The Black Atlantic emerges from Gilroy's analysis as polymorphous, hybrid, and compound,
at once a 'non-traditional tradition' and 'irreducibly modern'. Within this 'ex-centric,
unstable, and asymmetrical' ensemble, Black cultures of.the diaspora bear a complex and
problematic relationship to modernity. Inherently part of the West, they are at the same time
excluded by racial identity from its universal categories.”

“Gilroy argues that this inside and outside position is best understood through a logic of
'both-and', rather than 'either-or'. It creates a 'double-consciousness' that gives the cultural
production of the diaspora its distinctive character.”


Enduring Fortresses – A review of The Black Atlantic – Alasdair Pettinger

“First and foremost, perhaps, the "black Atlantic" is a slogan, a call for a strategic realignment
that will encourage scholars to move away from what Gilroy sees as narrowly national -or
ethnically exclusive- frames of reference. Because even when they do cross borders and
broaden their perspective, there remains a tendency to think of black expressive cultures in
terms of a single narrative trajectory that runs either back to Africa (the pull of the ancient
homeland, if you like) or forwards to (nowadays, usually) North America (the promise -
however distant- of full participation in modernity).”

Sobre o que definira a experiência do Atlântico Negro, Pettinger diz que Gilroy:
“So he believes there is something distinctive about the "black Atlantic," and that we can -and
indeed must- define it in some way. But the problem is, the more he molds the "black Atlantic"
into a substantive entity, the more exclusive and limiting a concept it becomes.
He tackles this question in at least two different ways. One argument, which is not really
developed in any detail, rests on the notion that the "black Atlantic" is grounded in memory.
He thinks the unity of the "black Atlantic" is to be found in memory rather than a shared
history. He does so, I think, because history does not leave enough room for agency. The
"black Atlantic" is not simply a product of circumstances, but a creative response to them; it
is an articulation of the past rather than a legacy one inherits.
But I think his argument only works to the extent that memory is understood in strictly
cultural terms.”

“A second argument he makes in his attempt to define the "black Atlantic -spelled
out in some detail- centers on the claim that it is what he calls a "counterculture of
modernity."

“if the "memory" argument tends to lead to an exclusion of Afrocentric texts and their
worship of the "premodern," the "counterculture" argument shows a certain impatience with
the Eurocentrics, and their uncritical espousal of the "modern."”.

“The "black Atlantic" promises to open up the field –breaking down the opposition between
"authentic" (rooted) black cultural expressions and supposedly "inauthentic" hybrid forms,
and insisting they are all equally worthy of our attention. As such it would function as little
more than a kind of regulatory principle, rather than to designate a new object.”


Beyond the Black Atlantic – Paul Zeleza (2005)

Zeleza tece uma série de críticas à perspectiva de Gilroy. Primeiro, chama a atenção que a
abordagem de Gilroy sobre o Atlântico Negro (que, ele diz, privilegia o ramo americano-
anglófano da diáspora, deixando de lado outras diásporas negras-africanas) acaba sobre-
simplificando a experiência afro-americana e o papel das conexões da África e da América no
pensamento, imaginação e memória coletiva. Acusa Gilroy também de uma perspectiva
androcêntrica, que privilegiaria as figuras masculinas na construção da negritude atlântica e
da modernidade; e, também, de universalizar a experiência “minoritária” racializada de afro-
americanos (lembrando que em boa parte do das ilhas do Caribe as populações afro-
descendentes constituem maiorias). Também de encerrar (foreclosing) as relações e
conexões entre culturas diaspóricas negras entre si para além do mundo anglo-saxão, e entre
elas e as culturas africanas. Por suas “fobias pós-modernas” contra essencialismos, ao mesmo
tempo em que vê um Atlântico Negro (e não branco ou multi cultural) [?]; pelo seu desdém
da África e, por fim, por mistificar a modernidade como objeto primeiro da crítica do Atlântico
Negro, barrando questões sobre o imperialismo e o capitalismo...

Ele lembra que o termo “diáspora” um modelo americano-inglês de identidade negra no
complexo de experiências das populações afro-descendentes. Assim, lembra o autor, embora
o termo “diáspora africana” só tenha surgido nos anos 50 e 60, muito antes disso tais
diásporas existiam em diferentes partes do mundo, e as populações africanas estavam
mobilizadas nessas questões utilizando outros termos, como pan-africanismo.


Para além do Atlântico Negro – Silvya e Trapp (2012)

Todavia, é importante confrontarmos esse conceito e problematizá-lo para pensar o
movimento antirracismo no Brasil contemporâneo. É bom lembrar que o Brasil recebeu mais
do que o dobro de africanos durante o período da diáspora e constituiu-se como a segunda
nação em população negra do mundo. Teve o sistema escravista estruturalmente articulado
por mais de três séculos e foi, ainda, um importante ponto de articulação do ocidente com o
oriente, sobretudo se considerarmos as relações de Portugal com a Índia e China durante os
séculos XVI e XVII. Por tudo isso, considerando ainda a história recente dos movimentos
abolicionistas e, durante os anos 1930 em diante, a articulação da miscigenação como
sustentáculo de um arranjo identitário não-racista no país, o Brasil deveria, necessariamente,
ser considerado na constituição do que Gilroy chamou de Atlântico Negro. Negar o Brasil no
Atlântico Negro implica limitações importantes nas análises do autor, como bem nota
Johnson (2009). Para a autora, o Atlântico Negro limita seu potencial ao considerar a priori
que todos os escravos e seus descendentes, vítimas da Diáspora Africana — ocorrida com o
tráfico negreiro no Atlântico —, tiveram experiências semelhantes, independentemente do
país para o qual foram enviados. Além disso, o conceito de Gilroy também é limitado pela
omissão, na obra, das experiências dos afrodescendentes brasileiros (2009, p. 78).

Essa omissão conceitual e historiográfica concorre, portanto, para um entendimento
incompleto da experiência brasileira no circuito do Atlântico Negro. Paul Gilroy procurou
suprir parcialmente essa lacuna no prefácio escrito à edição brasileira da obra, de 2001. Fica
muito patente o distanciamento que o autor procura estabelecer de noções essencialistas e
afrocentristas de raça e cultura negras, e de como o conceito do Atlântico Negro pode ter um
caráter dinâmico, criativo e mesmo subversivo. Para o autor, ainda que marginalizada, ―a
longa e específica história do Brasil sobre os contínuos contatos com a África deveria também
ser produtivamente acrescentada às narrativas fundamentais da história do ̳Atlântico
Negro‘‖ (GILROY, 2001, p. 12).

+ JOHNSON, Jacquelyn. O Atlântico Negro de Paul Gilroy: um conceito incompleto. In:
JOHNSON, Jacquelyn; VIEIRA, Vinicius Rodrigues (Orgs). Retratos e espelhos: raça e
etnicidade no Brasil e nos Estados Unidos. São Paulo: UDUSP, 2009. pp. 76-91.

+ SANSONE, Livio. Negritude sem etnicidade: o local e o global nas relações raciais e na
produção cultural negra do Brasil. Salvador: EDUFBA, 2007.


O hibridismo no Atlâ ntico Negro do Sul – Martı́nez-Echazá bal

“Exploremos rapidamente o conceito apresentado por Gilroy, que é uma das mais recentes
inovações teóricas de hibridismo no discurso póss-colonial. A formação transnacional e
intercultural que Gilroy denomina Atlântico Negro é não só uma híbrida resultante da de
África, Europa e Caribe, como também o locus a partir do qual se articu1a uma resposta
nitidamente negra (ainda que híbrida) à modernidade; isto e, uma resposta baseada numa
"consciência dupla" (termo tornado de empréstimo a Du Bois) de estar ao mesmo tempo
dentro (como europeu) e fora (como negro). Além disso, a medida em que Gilroy critica o
nacionalismo negro e as tendências afrocêntricas atuais por recorrerem a raízes africanas
"puras", e convida o leitor a imaginar o Atlântico Negro como uma formação desenvolvida
nas várias rotas onde os povos africanos foram inicialmente dispersos pelo sistema da
escravidão, ele está, a meu ver, redefinindo hibridismo como diasporização, como forma de
disjunção que desestabiliza o hibridismo ,tanto como síntese- evidente no próprio processo de
conceitualização da formação diaspórica que ele denominou Atlântico Negro - quanto como
simhiose - constatada na “consciência dupla" de ser ambos ao mesmo tempo.”

“Até onde sei, apenas um crítico escreveu chamando atenção para o anglocentrismo de The
Black Atlantic, de Gilroy, ou, em outras palavras, para o "posicionamento norte-
atlântico/europeu" do sujeito que escreve.
Eu também discordo de Gilroy nesse sentido. Insisto que ele deveria ter intitulado seu
livro o Atlântico Negro do Norte [The Black North Atlantic, já que não leva em consideração a
maioria dos territórios ao sui do Tr6pico de Câncer (a maior parte do Caribe, a
América Central e a do Sul), ou seja, precisamente as áreas que, segundo historiadores e
cartógrafos da diáspora africana, receberam a maior porcentagem de africanos nas américas
e que são absolutamente ignoradas”

“O primeiro problema que vejo na poetica do Atlantico Negro elaborada por Gilroy e a
ausencia de nuances num livro cujos alegados principios norteadores seriam exatamente as
figuras da da itinerancia e do hibridismo.”.

“Ao registrar tal migração, Chombo põe em relevo um fator muito importante: ao se falar da
diáspora negra nas Américas deve-se usar o plural (diásporas), como forma de reconhecer
não só as várias rotas pelas quais os povos africanos foram originalmente dispersos, mas
também movimentos de diáspora subsequentes por todo o Caribe e pelas Américas Central e
do Sul. Se a travessia do Atlântico em navios negreiros define o primeiro momento (ou
diasporização) transcontinental em massa da África para as Américas, o segundo momento
estaria nessa tentativa palimpséstica de sobrepor um verniz de modernidade as ruínas do
Plantation.”