Você está na página 1de 70

MARIA FIRMINA DOS REIS

Pasta no OneDrive com mais de 100 artigos para baixar:

https://1drv.ms/u/s!Aj6kOBkyV630khcEvKdfnFl6K5aP?e=hcoacK

Autor: Sérgio Barcellos Ximenes.

Artigos no Medium | Blog literário | Scribd | Twitter | Livros na Amazon

Outros artigos sobre Maria Firmina disponíveis no OneDrive, subpasta Maria


Firmina dos Reis

. O ano da primeira divulgação do romance “Úrsula”, de Maria Firmina dos Reis.

. “Úrsula”, o romance de Maria Firmina dos Reis.

. "A Escrava", o conto de Maria Firmina dos Reis.

. A história do romance “Úrsula”.

. A primeira publicação online da novela “Gupeva”.

. O “Álbum” (o diário) de Maria Firmina dos Reis.

. A educadora Maria Firmina dos Reis.

. O retrato falso de Maria Firmina dos Reis.

. O erro histórico do Google sobre Maria Firmina dos Reis e as datas de nascimento e
morte de três pioneiros da ficção brasileira.

. Seis novos poemas de Maria Firmina dos Reis (1863-1901).

. A homenagem simbólica a Maria Firmina dos Reis no dia do falecimento.

. Dezesseis novas menções a Maria Firmina dos Reis em jornais do século


XX (1906-1995).

______________________

"Cantos à Beira-Mar", o livro de poemas de Maria Firmina dos Reis

Resumo
Tema: o livro "Cantos à Beira-Mar", a única obra poética de Maria Firmina dos
Reis, publicada em 1871.

Descoberta do único exemplar conhecido da primeira edição (1976): José


Nascimento Morais Filho, autor de "Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida" (1975),
livro lido por uma senhora maranhense conhecida como "Jesus Braga", que entrou em
contato com o pesquisador para informá-lo sobre a posse do exemplar.

Menções a "Cantos à Beira-Mar" em 1871:

. "Publicador Maranhense", 2/1.

. "(A) Esperança" (MA), ?.

. "O Espírito-Santense", 4/11.

Observação: as três menções são anteriores ao lançamento da obra.

Outras menções ao livro no século XX:

1874

. "Pantheon Maranhense ─ Ensaios biográficos dos maranhenses ilustres já


falecidos", Tomo III, página 386, Antônio Henriques Leal, Lisboa (Portugal), 1874.

1876

. "Diário do Maranhão", 22/6.

1900

. "Dicionário Bibliográfico Brasileiro", página 232, Augusto Victorino Alves


Sacramento Blake, Sexto volume, Rio de Janeiro.

Importância histórica de "Cantos à Beira-Mar":

. Primeiro livro lançado por uma mulher maranhense.

. Primeiro livro de poesia de uma maranhense.

. Livro que fez de Maria Firmina a décima segunda mulher a lançar um livro de
poesia no Brasil.

Edições de "Cantos à Beira-Mar":

1871

. Edição autoral, Tipografia do País, São Luís (Maranhão).

1976
. Edição fac-similar, organização e prefácio de José Nascimento Morais Filho,
Editora Granada (Rio).

2017

. "Cantos à Beira-Mar e Gupeva", Academia Ludovicense de Letras, São Luís (MA).

Observação: primeira edição atualizada.

2018

. "Úrsula e Outras Obras", Edições Câmara (dos Deputados), Brasília (DF).

Observação: Única edição digital (gratuita).

Exemplares disponíveis da segunda edição: Biblioteca Pública Benedito Leite (São


Luís, MA), Real Gabinete Português de Leitura e Biblioteca Nacional (ambas as
instituições no Rio).

Estudos sobre "Cantos à Beira-Mar":

2007

. "O Livro de Poesia de Maria Firmina dos Reis", Juliano Carrupt do Nascimento,
Boletim Informativo do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura
(NIELM em Foco), ano V, número 5, página 5, outubro de 2007.

2015

"Luz e Sombra na obra de Maria Firmina dos Reis", Luiza Lobo, páginas 107 a 121
de "Sobre Maria Firmina", organização de Leopoldo Gil Dulcio Vaz e Dilercy Aragão
Adler, Academia Ludovicense de Letras (ALL), São Luís.

Títulos dos poemas de "Cantos à Beira-Mar", na ordem original:

1. Uma lágrima ─ Sobre o sepulcro de minha carinhosa mãe.

2. Minha terra ─ Oferecida ao distinto literato, o Sr. Francisco Sotero dos Reis.

3. A lua brasileira ─ Oferecida ao Ilmo. Sr. Dr. Adriano Manoel Soares.

4. Uma Tarde em Cumã.

5. Súplica

6. À minha carinhosa amiga, a Exma. Sra. D. Ignez Estelina Cordeiro.

7. O meu desejo ─ A um jovem poeta guimarense.

8. Dirceu ─ À memória do infeliz poeta Thomaz Antônio Gonzaga.

9. O Meu Segredo.
10. Ah! Não Posso!

11. Tributo de Amizade ─ Ao Ilmo. Sr. Dr. José Mariano da Costa.

12. Sonho ou Visão?

13. Vai-te!

14. Por Ocasião da Passagem de Humaitá ─ Dedicada ao ilustre literato maranhense,


o Sr. Dr. João Clímaco Lobato.

15. Por ocasião da Tomada de Villeta e Ocupação da Assunção.

16. Melancolia.

17. No Álbum de Uma Amiga.

18. Ela!

19. Seu Nome.

20. Meus Amores.

21. Esquece-a.

22. Recordação.

23. Confissão.

24. Poesia ─ Dedicada aos bravos da Campanha do Paraguai, especialmente ao


invicto tenente-coronel Francisco Manoel da Cunha Júnior.

25. A Recepção dos Voluntários de Guimarães.

26. Poesias ─ Recitadas no dia dez de agosto de 1870 por ocasião do desembarque
do tenente-coronel Cunha Júnior e alguns bravos de volta da Campanha do Paraguai.

27. Poesia ─ Oferecida ao tenente-coronel Cunha Júnior pela própria poetisa, no dia
em que regressou aos lares de volta da Campanha do Paraguai.

28. Te-Deum ─ Oferecido ao sonoro e mavioso poeta Ilmo. Sr. Dr. Gentil Homem de
Almeida Braga.

29. Visão.

30. A Mendiga ─ Oferecida ao Ilmo. Sr. Dr. Henrique Leal como prova de profunda
e sincera gratidão.

31. O Volúvel.

32. O Lazarento.
33. Um Bouquet.

34. Não, Oh! Não.

35. O Proscrito.

36. A Dor que Não Tem Cura.

37. O Dia de Finados.

38. Queixas.

39. Hosana! ─ Dedicada ao Ilmo. Sr. Dr. Gama Logo, distinto literato.

40. Canto ─ Ao feliz aniversário do nosso prezado amigo ─ o jovem poeta ─ o Sr.
Raimundo Marcos Cordeiro.

41. O Pedido.

42. Amor.

43. Cismar ─ À minha querida prima Balduína N. B.

44. Itaculumim.

45. À Minha Extremosa Amiga D. Anna Francisca Cordeiro.

46. Meditação ─ À minha querida irmã ─ Amália Augusta dos Reis.

47. Nas Praias do Cumã ─ Solidão.

48. Embora Eu Goste.

49. Não Quero Amar Mais Ninguém.

50. Minha Alma.

51. Desilusão.

52. A Vida é Sonho ─ Oferecida ao Ilmo. Sr. Raimundo Marcos Cordeiro.

53. Nênia ─ À memória do mavioso e infeliz poeta A. G. Dias.

54. À Partida dos Voluntários da Pátria do Maranhão.

55. Uns Olhos.

56. A uma Amiga.

__________________________________________

Apresentação
Há um descompasso histórico interessante na imagem pública de Maria Firmina dos
Reis: em sua época, ela era mais conhecida como poeta; atualmente, é mais conhecida
como romancista.

Em todas as menções jornalísticas da época em que se usava uma classificação


literária da autora, "poetisa" era o substantivo escolhido. Não há uma menção sequer de
Maria Firmina como "romancista". Atualmente, dá-se o contrário, quando se tem de
escolher um adjetivo para classificá-la.

Isso se explica porque o romance "Úrsula", lançado em 1860, teve repercussão


limitada e passageira, ao passo que Maria Firmina continuou a carreira literária
publicando poemas em jornais maranhenses, de 1860 a 1908.

Curiosamente, porém, o seu livro de poemas, "Cantos à Beira-Mar", lançado em


1871, teve ainda menos repercussão do que "Úrsula". Encontram-se na imprensa
maranhense apenas duas notas sobre a obra, e assim mesmo antes de ela ser publicada:
uma em janeiro de 1871 e outra em novembro daquele ano.

Três anos depois, em 1874, o livro de poemas foi mencionado em um livro de


poesias. E em 1876 ele voltou a aparecer em jornal maranhense, por conta da doação de
um de seus exemplares a uma sociedade literária.

Depois disso, só em 1900 o título do livro recebeu atenção, em um dicionário


bibliográfico.

Não se tem notícias de anúncios pagos de "Cantos à Beira-Mar" em jornais do


Maranhão, situação que contrasta com os 50 anúncios conhecidos de "Úrsula",
publicados durante dois anos e meio.

E também não se tem notícias de resenhas da obra. "Úrsula" teve cinco resenhas,
quatro delas escritas depois do lançamento do romance.

A história da descoberta de um exemplar do livro

José Nascimento Morais Filho, poeta, escritor e pesquisador maranhense responsável


pela divulgação nacional do nome e da obra de Maria Firmina, assim como pela maioria
das informações que hoje temos sobre a nossa primeira romancista, conta, no livro
"Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida" (1975), uma longa história de sua busca
frustrada por um exemplar do livro de poemas.

Nascimento Morais soube de "Cantos à Beira-Mar", primeiramente, ao ler o verbete


escrito por Sacramento Blake no "Dicionário Bibliográfico Brasileiro".
"Dicionário Bibliográfico Brasileiro", página 232, Augusto Victorino Alves
Sacramento Blake, sexto volume, Rio de Janeiro, 1900.

http://bd.camara.gov.br/bd/handle/bdcamara/14856

Durante a pesquisa nos jornais maranhenses, veio a confirmação da existência da


obra: o título do livro fazia parte de um conjunto de obras doadas à Sociedade
Recreação Literária em 1876.
"Diário do Maranhão", 22/6/1876, ano VII, número 864, página 3, primeira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/720011/5986

Depois veio-lhe a ideia de verificar se Maria Firmina havia composto algum poema
em homenagem a Gonçalves Dias, por ocasião da morte do poeta maranhense.
Folheando o livro "Pantheon Maranhense", encontrou o registro de uma nênia em
homenagem a Gonçalves Dias no tomo III da obra. Informava o registro: "Vem na pág.
197 de seus Cantos à beira-mar.".
"Pantheon Maranhense ─ Ensaios biográficos dos maranhenses ilustres já falecidos",
Tomo III, página 386, Antônio Henriques Leal, Lisboa (Portugal), 1874.

http://www2.senado.leg.br/bdsf/item/id/518661

Procurando nos exemplares do jornal "Publicador Maranhense", nova confirmação:


uma nota sobre a futura publicação da obra, na seção "Gazetilha", em 2 de janeiro de
1871.

"CANTO À BEIRA MAR ― É este o formoso título debaixo do qual vão ser
impressas as poesias da talentosa D. Maria Firmina dos Reis, digna professora pública
do ensino primário da freguesia de Guimarães. São bem conhecidos muitos dos seus
mimosos versos; e por eles, sem dúvida, o público acolherá muito agradavelmente a
coleção que se lhe promete. Se são dignos de animação os frutos da inteligência e da
aplicação, quando é um homem que com eles vem enriquecer as letras pátrias, mas
[mais] o é, sem dúvida, se partem do talento de uma senhora. Nem só mais raros são os
triunfos que neste gênero conquista em nosso país o belo sexo, como também importam
eles mais vigor de talento e sentimento, e maior esforço para vencer os obstáculos que
ainda dificultam entre nós, ao sexo feminino, uma instrução mais sólida e
desenvolvida."

"Publicador Maranhense", 2/1/1871, ano XXX, número 1, página 2, segunda coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/720089/21341

De posse dessas informações, Nascimento Morais mobilizou sua equipe de


colaboradores e conhecidos, mas não conseguiu encontrar um exemplar da obra, nem no
Maranhão, nem em outros estados. Num trecho de "Maria Firmina ─ Fragmentos de
uma Vida", o pesquisador reconheceu a frustração:

"Mas o não haver encontrado o seu livro de poesias, embora, de certo, algumas
[estejam] reunidas neste volume, com o nome de 'Cantos à Beira-Mar', numa alusão ao
título do livro, é sofrimento..."

Frustrado com a situação, Nascimento Morais decidiu intitular a seção de poemas do


seu livro como "Cantos à Beira-Mar", destacando que não se tratava do conteúdo
publicado no livro homônimo.
E completou, desanimado:

"Quem sabe os seus cantos não foram levados para sempre, é uma pergunta dolorosa,
pelas vagas dos tempos? Ou quem sabe navegam no mar morto de alguma biblioteca?...
É uma esperança!..."

E assim aconteceu.

Após a publicação da biografia da autora, uma senhora maranhense, chamada Jesus


Braga, entrou em contato com Nascimento Morais para informar que possuía um
exemplar da obra. E esse exemplar permitiu a publicação dos poemas originais, em fac-
símile, no livro lançado em 1976.

"Gênero e etnicidade no romance 'Úrsula', de Maria Firmina dos Reis", página 17,
Adriana Barbosa de Oliveira, dissertação de pós-graduação em Letras, Faculdade de
Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Belo Horizonte, 2007.

http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/ECAP-
73WGED/disserta__o___revis_o.pdf

Há uma informação disponível na Web cuja validade é questionável:

Maria Firmina dos Reis ─ Fontes de Consulta, site Literafro.

http://150.164.100.248/literafro/data1/autores/102/MariaFirminaFontesnova.pdf

Nascimento Morais não poderia ter falado, em 1973, sobre uma descoberta que ele
ainda não havia reconhecido em 1975.
A importância histórica de "Cantos à Beira-Mar"

O livro de Maria Firmina dos Reis é o primeiro lançado por uma mulher maranhense.
É também o livro que fez dela a primeira poeta maranhense.

Nascimento Morais afirma, na biografia da autora, que Maria Firmina foi "uma das
10 (dez) primeiros poetisas a publicar livro de poesia". Na verdade, foi a décima
segunda, precedida por estes nomes:

"Uma Anônima e Ilustre Senhora da Cidade de São Paulo" (autora da peça teatral
"Tristes Efeitos do Amor, Drama em que falam Pauliceia, a Prudência e a Desesperação
na figura de uma Fúria") ─ 1777.

Maria Clemência da Silveira Sampaio ─ 1823.

Delfina Benigna da Cunha ─ 1834.

Ildefonsa Laura César ─ 1844.

Nísia Floresta ─ 1849.

Rita Barém de Mello ─ 1855.

Beatriz Francisca de Assis Brandão ─ 1856.

Rosa Paulina da Fonseca ─ 1865.

Adélia Josefina de Castro Fonseca ─ 1866.

Júlia Maria da Costa ─ 1867.

Clarinda da Costa Siqueira ─ 1868.


A repercussão de "Cantos à Beira-Mar"

De 1871 a 1900 houve apenas seis menções ao livro Cantos à Beira-Mar, em


periódicos e livros.

A primeira menção - 2 de janeiro de 1871

Trata-se da nota, já mostrada, no "Publicador Maranhense" em 2 de janeiro de 1871.

A segunda menção - 4 de novembro de 1871

Este autor encontrou, em 2017, uma segunda menção ao livro de poemas.


Curiosamente, essa informação saiu em um jornal do Espírito Santo, O Espírito-
Santense, em 4 de novembro de 1871.

Segue-se o texto.

"Publicação. — Lê-se na Esperança do Maranhão:

"Com o título de Cantos à beira mar, vai publicar um volume de poesias a exmª sra
d. Maria Firmina dos Reis, inteligente professora pública da Vila de Guimarães, nesta
província.

"Esta distinta poetisa é já muito conhecida pelos seus trabalhos literários, que têm
corrido impressos, nos nossos jornais e no Parnaso maranhense; é também a autora do
romance original brasileiro Úrsula.

"D. Maria Firmina emprega as poucas horas, que sobram do seu elevado e afanoso
mister, na grandiosa missão do cultivo das musas.

"Nós a cumprimentamos."
O Espírito-Santense, 4 de novembro de 1871, ano II, número 78, página 2, primeira
coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/217611/270

Observação importante: esta é a única menção a livros de Maria Firmina dos Reis já
encontrada na mídia situada fora dos limites do Estado do Maranhão, no século XIX.

A terceira menção - ?/?/1871

Portanto, houve um terceiro registro da obra, no periódico maranhense Esperança


(ou A Esperança), em data anterior ao da notícia de O Espírito-Santense, e com o
mesmo texto (o qual seria, na verdade, a segunda menção em ordem cronológica). O
periódico maranhense não pôde ser encontrado nas fontes disponíveis na Web.

A quarta menção - 1874

O registro já mostrado da "Nênia" no tomo terceiro do "Pantheon Maranhense".

A quinta menção - 1876

A nota sobre a doação de um exemplar de "Cantos à Beira-Mar" à Sociedade


Recreação Literária, publicada no "Diário do Maranhão" em 22 de junho de 1876.

Em seu livro Maria Firmina, fragmentos de uma vida, Nascimento informa a data de
26/6/1876, dia em que o jornal não circulou.
João Clímaco Lobato é considerado o primeiro romancista maranhense. Veremos em
futuro artigo que esse escritor dedicou o seu romance "A Virgem da Tapera" (1861) a
Maria Firmina dos Reis. Essa doação do livro de poemas à sociedade literária revela
que, quinze anos depois, ele ainda tinha a escritora maranhense em alta conta. Maria
Firmina também dedicou um de seus poemas de "Cantos à Beira-Mar" ("Por Ocasião da
Passagem de Humaitá") a Clímaco Lobato.

A sexta e última menção

O registro do livro de poemas no verbete "Maria Firmina dos Reis", no "Dicionário


Bibliográfico Brasileiro" de Sacramento Blake, já mostrado acima.
As edições de "Cantos à Beira-Mar"

Primeira edição

Não há imagens de algum exemplar da edição lançada em 1871.

O livro, com 208 páginas, foi lançado pela Tipografia do País, de São Luís
(Maranhão).

https://books.google.com.br/books/about/Cantos_%C3%A2a_Beira_Mar.html?id=gP
HjjwEACAAJ&redir_esc=y

Segunda edição

A edição fac-similar, com organização e prefácio de José Nascimento Morais Filho,


e financiamento pelo Governo do Maranhão, foi publicada pela Editora Granada, do
Rio, em 1976.

Terceira edição

A primeira edição atualizada, organizada pela Academia Ludovicense de Letras


(ALL), saiu em novembro de 2017.
"Cantos à Beira-Mar e Gupeva", Maria Firmina dos Reis, Academia Ludovicense de
Letras, São Luís (MA), 2017.

Essa obra pode ser adquirida por meio de solicitação à Livraria AMEI, de São Luís,
usando-se o e-mail amei.osfl@gmail.com. O exemplar custa R$25,00, e o envio por
encomenda normal, R$10,00.

Quarta edição
"Úrsula e Outras Obras", Edições Câmara (dos Deputados), Brasília (DF), 2018.

O livro pode ser baixado gratuitamente desta página:

https://livraria.camara.leg.br/ursula-e-outras-obras

"Poemas Avulsos"

Há ainda um livro digital de 24 páginas publicado por Daiane de Ascenção Cardoso


no site brasileiro da Amazon, e composto de alguns poemas de Maria Firmina coletados
na Web.

https://www.amazon.com/Poemas-Avulsos-Portuguese-Maria-Firmina-
ebook/dp/B0107FKUQ6/

Exemplares disponíveis da segunda edição

No Brasil, somente três instituições literárias possuem um exemplar da segunda


edição do livro: a Biblioteca Pública Benedito Leite, em São Luís (Maranhão), o Real
Gabinete Português de Leitura, no Rio, e a Biblioteca Nacional, também no Rio.
Registro do exemplar do Real Gabinete.

http://www.realgabinete.com.br/

Registro do exemplar da Biblioteca Nacional.

http://acervo.bn.br/sophia_web/info.asp?c=816367
Estudos sobre "Cantos à Beira-Mar"

A dificuldade de acesso a um exemplar do livro teve consequências na área


acadêmica: só há dois estudos conhecidos sobre o livro de poesia de Maria Firmina:

Outubro de 2007

"O Livro de Poesia de Maria Firmina dos Reis" é um breve estudo de uma página, de
autoria de Juliano Carrupt do Nascimento, publicado no "NIELM em Foco", Boletim
informativo do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura.

"O Livro de Poesia de Maria Firmina dos Reis", Juliano Carrupt do Nascimento,
Boletim Informativo do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Mulher na Literatura
(NIELM em Foco), ano V, número 5, página 5, outubro de 2007.

2015

No estudo "Luz e Sombra na obra de Maria Firmina dos Reis", publicado no livro
"Sobre Maria Firmina", Luiza Lobo analisa os poemas da autora nas páginas 117, 118 e
119.
"Luz e Sombra na obra de Maria Firmina dos Reis", Luiza Lobo, páginas 107 a 121
de "Sobre Maria Firmina", organização de Leopoldo Gil Dulcio Vaz e Dilercy Aragão
Adler, Academia Ludovicense de Letras (ALL), São Luís, 2015.
Títulos dos poemas

Os títulos abaixo seguem a ordem original dos poemas em "Cantos à Beira-Mar".

1. Uma lágrima ─ Sobre o sepulcro de minha carinhosa mãe.

2. Minha terra ─ Oferecida ao distinto literato, o Sr. Francisco Sotero dos Reis.

3. A lua brasileira ─ Oferecida ao Ilmo. Sr. Dr. Adriano Manoel Soares.

4. Uma Tarde em Cumã.

5. Súplica

6. À minha carinhosa amiga, a Exma. Sra. D. Ignez Estelina Cordeiro.

7. O meu desejo ─ A um jovem poeta guimarense.

8. Dirceu ─ À memória do infeliz poeta Thomaz Antônio Gonzaga.

9. O Meu Segredo.

10. Ah! Não Posso!

11. Tributo de Amizade ─ Ao Ilmo. Sr. Dr. José Mariano da Costa.

12. Sonho ou Visão?

13. Vai-te!

14. Por Ocasião da Passagem de Humaitá ─ Dedicada ao ilustre literato maranhense,


o Sr. Dr. João Clímaco Lobato.

15. Por ocasião da Tomada de Villeta e Ocupação da Assunção.

16. Melancolia.

17. No Álbum de Uma Amiga.

18. Ela!

19. Seu Nome.

20. Meus Amores.

21. Esquece-a.

22. Recordação.

23. Confissão.

24. Poesia ─ Dedicada aos bravos da Campanha do Paraguai, especialmente ao


invicto tenente-coronel Francisco Manoel da Cunha Júnior.
25. A Recepção dos Voluntários de Guimarães.

26. Poesias ─ Recitadas no dia dez de agosto de 1870 por ocasião do desembarque
do tenente-coronel Cunha Júnior e alguns bravos de volta da Campanha do Paraguai.

27. Poesia ─ Oferecida ao tenente-coronel Cunha Júnior pela própria poetisa, no dia
em que regressou aos lares de volta da Campanha do Paraguai.

28. Te-Deum ─ Oferecido ao sonoro e mavioso poeta Ilmo. Sr. Dr. Gentil Homem de
Almeida Braga.

29. Visão.

30. A Mendiga ─ Oferecida ao Ilmo. Sr. Dr. Henrique Leal como prova de profunda
e sincera gratidão.

31. O Volúvel.

32. O Lazarento.

33. Um Bouquet.

34. Não, Oh! Não.

35. O Proscrito.

36. A Dor que Não Tem Cura.

37. O Dia de Finados.

38. Queixas.

39. Hosana! ─ Dedicada ao Ilmo. Sr. Dr. Gama Logo, distinto literato.

40. Canto ─ Ao feliz aniversário do nosso prezado amigo ─ o jovem poeta ─ o Sr.
Raimundo Marcos Cordeiro.

41. O Pedido.

42. Amor.

43. Cismar ─ À minha querida prima Balduína N. B.

44. Itaculumim.

45. À Minha Extremosa Amiga D. Anna Francisca Cordeiro.

46. Meditação ─ À minha querida irmã ─ Amália Augusta dos Reis.

47. Nas Praias do Cumã ─ Solidão.

48. Embora Eu Goste.


49. Não Quero Amar Mais Ninguém.

50. Minha Alma.

51. Desilusão.

52. A Vida é Sonho ─ Oferecida ao Ilmo. Sr. Raimundo Marcos Cordeiro.

53. Nênia ─ À memória do mavioso e infeliz poeta A. G. Dias.

54. À Partida dos Voluntários da Pátria do Maranhão.

55. Uns Olhos.

56. A uma Amiga.

Fonte

"Cantos à Beira-Mar e Gupeva", Maria Firmina dos Reis, Academia Ludovicense de


Letras, São Luís (MA), 2017.
SELEÇÃO DE POEMAS

A seguir, alguns poemas do livro "Cantos à Beira-Mar". Onze deles já foram


mostrados na Web, em várias páginas. São estes:

. "Uma tarde no Cumã".

. "O meu desejo".

. "Ah! não posso".

. "No Álbum de Uma Amiga".

. "Ela!".

. "Seu nome".

. "Confissão".

. "À minha extremosa amiga D. Ana Francisca Cordeiro".

. "Meditação".

. "Nas praias do Cumã / Solidão".

. "A Uma Amiga".

Todos foram enviados ao site "Jornal da Poesia" por Marlene Andrade Martins.

Outro poema ("Sonho ou Visão?") faz parte do verbete sobre a autora na obra
"Escritoras Brasileiras do Século XIX", da Editora Mulheres.

Quatro poemas presentes em "Cantos à Beira-Mar" foram apresentados no artigo "A


produção avulsa de Maria Firmina dos Reis", por terem sido publicados em jornais da
época no Maranhão. São estes:

. "A lua brasileira".

. "Hosana!".

. "Melancolia".

. "Uns Olhos".

Do livro recentemente lançado pela Academia Ludovicense de Letras, "Cantos à


Beira-Mar e Gupeva", selecionei cinco breves poemas, jamais divulgados na Web.

. "Vai-te!".

. "O Pedido".

. "Amor".
. "Cismar".

. "Esquece-a".

Portanto, além dos 20 poemas reproduzidos abaixo, há ainda 36 outros, inéditos, na


obra mencionada acima (assim como o conto "Gupeva", oferecido pela primeira em
livro, em texto atualizado).

Para comprar um exemplar de "Cantos à Beira-mar e Gupeva", entre em contato com


a Livraria AMEI, de São Luís (MA), usando o e-mail amei.osfl@gmail.com. O
exemplar custa R$25,00, e o envio por encomenda normal, R$10,00.
UMA TARDE EM CUMÃ

Aqui minh'alma expande-se, e de amor

Eu sinto transportado o peito meu;

Aqui murmura o vento apaixonado,

Ali sobre uma rocha o mar gemeu.

E sobre a branca areia ─ mansamente

A onda enfraquecida exausta morre;

Além, na linha azul dos horizontes,

Ligeirinho baixel nas águas corre.

Quanta doce poesia, que me inspira

O mago encanto destas praias nuas!

Esta brisa, que afaga os meus cabelos,

Semelha o acento dessas frases tuas.

Aqui se ameigam de meu peito as dores,

Menos ardente me goteja o pranto;

Aqui, na lira maviosa e doce

Minha alma trina melodioso canto.

A mente vaga em solidões longínquas,

Pulsa meu peito, e de paixão se exalta;

Delírio vago, sedutor quebranto,

Qual belo íris, meu desejo esmalta.


Vem comigo gozar destas delícias,

Deste amor, que me inspira poesia;

Vem provar-me a ternura de tu'alma,

Ao som desta poética harmonia.

Sentirás ao ruído destas águas,

Ao doce suspirar da viração,

Quanto é grato o amor aqui jurado,

Nas ribas deste mar, ─ na solidão.

Vem comigo gozar um só momento,

Tanta beleza a me inspirar poesia!

Ah! vem provar-me teu singelo amor

Ao som das vagas, no cair do dia.

NB - Cumã - praias de Guimarães

Páginas 25 e 26 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina01.html
O MEU DESEJO

A um jovem poeta guimaraense

Na hora em que vibrou a mais sensível

Corda de tu'alma ─ a da saudade,

Deus mandou-te, poeta, um alaúde,

E disse: Canta amor na soledade.

Escuta a voz do céu, ─ eia, cantor,

Desfere um canto de infinito amor.

Canta os extremos d'uma mãe querida,

Que te idolatra, que te adora tanto!

Canta das meigas, das gentis irmãs,

O ledo riso de celeste encanto;

E ao velho pai, que tanto amor te deu,

Grato oferece-lhe o alaúde teu.

E a liberdade, ─ oh! poeta, ─ canta,

Que fora o mundo a continuar nas trevas?

Sem ela as letras não teriam vida,

Menos seriam que no chão as relvas:

Toma por timbre liberdade, e glória,

Teu nome um dia viverá na história.

Canta, poeta, no alaúde teu,

Ternos suspiros da chorosa amante;

Canta teu berço de saudade infinda,


Funda lembrança de quem está distante:

Afina as cordas de gentis primores,

Dá-nos teus cantos trescalando odores.

Canta do exílio com melífluo acento,

Como Davi a recordar saudade;

Embora ao riso se misture o pranto;

Embora gemas em cruel saudade...

Canta, poeta, ─ teu cantar assim,

Há de ser belo, enlevador, enfim.

Nos teus harpejos, juvenil poeta,

Canta as grandezas que se encerram em Deus,

Do sol o disco, ─ a merencória lua,

Mimosos astros a fulgir nos céus;

Canta o Cordeiro, que gemeu na Cruz,

Raio infinito de esplendente luz.

Canta, poeta, teu cantar singelo,

Meigo, sereno como um riso d'anjos;

Canta a natura, a primavera, as flores,

Canta a mulher a semelhar arcanjos,

Que Deus envia à desolada terra,

Bálsamo santo, que em seu seio encerra.

Canta, poeta, a liberdade, ─ canta.

Que fora o mundo sem fanal tão grato...


Anjo baixado da celeste altura,

Que espanca as trevas deste mundo ingrato.

Oh! sim, poeta, liberdade, e glória

Toma por timbre, e viverás na história.

Eu não te ordeno, te peço,

Não é querer, é desejo;

São estes meus votos ─ sim.

Nem outra coisa eu almejo.

E que mais posso eu querer?

Ver-te Camões, Dante ou Milton,

Ver-te poeta ─ e morrer.

Páginas 33, 34 e 35 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina02.html

O poema faz parte da antologia "Poemas brasileiros sobre trabalhadores ─ Uma


antologia de domínio público", às páginas 53, 54 e 55.

http://www.letras.ufmg.br/site/e-livros/poemastrabalhadores-site.pdf

Uma tradução do poema para o espanhol pode ser lida nesta página da Web

http://rincondepoetasmajo.blogspot.com.br/2014/06/maria-firmina-dos-reis.html
AH! NÃO POSSO

Se uma frase se pudesse

Do meu peito destacar;

Uma frase misteriosa

Como o gemido do mar,

Em noite erma, e saudosa,

De meigo, e doce luar;

Ah! se pudesse!... mas muda

Sou, por lei, que me impõe Deus!

Essa frase maga encerra,

Resume os afetos meus;

Exprime o gozo dos anjos,

Extremos puros dos céus.

Entretanto, ela é meu sonho,

Meu ideal inda é ela;

Menos a vida eu amara

Embora fosse ela bela.

Como rubro diamante,

Sob finíssima tela.

Se dizê-la é meu empenho,

Reprimi-la é meu dever:

Se se escapar dos meus lábios,

Oh! Deus, ─ fazei-me morrer!


Que eu pronunciando-a não posso

Mais ─ sobre a terra viver.

Páginas 45 e 46 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina03.html
NO ÁLBUM DE UMA AMIGA

D'amiga a existência tão triste, e cansada,

De dor tão eivada, não queiras provar;

Se a custo um sorriso desliza aparente,

Que mágoas não sente, que busca ocultar!?...

Os crus dissabores que eu sofro são tantos,

São tantos os prantos, que vivo a chorar,

É tanta a agonia, tão lenta e sentida,

Que rouba-me a vida, sem nunca acabar.

D'amiga a existência

Não queiras provar,

Há nelas tais dores,

Que podem matar.

O pranto é ventura,

Que almejo gozar;

A dor é tão funda,

Que estanca o chorar.

Se intento um sorriso,

Que duro penar!

Que chagas não sinto

No peito sangrar!...
Não queiras a vida

Que eu sofro ─ levar,

Resume tais dores

Que podem matar.

E eu as sofro todas, e nem sei

Como posso existir!

Vaga sombra entre os vivos, ─ mal podendo

Meus pesares sentir.

Talvez assim Deus queira o meu viver

Tão cheio de amargura.

P'ra que não ame a vida, e não me aterre

A fria sepultura.

Páginas 67 e 68 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina04.html
ELA!

(A pedido)

Ela! Quanto é bela, essa donzela,

A quem tenho rendido o coração!

A quem votei minh'alma, a quem meu peito

Num êxtase de amor vive sujeito...

Seu nome!... não ─ meus lábios não dirão!

Ela! minha estrela, viva e bela,

Que ameiga meu sofrer, minha aflição;

Que transmuda meu pranto em mago riso.

Que da terra me eleva ao paraíso...

Seu nome!... Oh! meus lábios não dirão!

Ela! virgem bela, tão singela

Como os anjos de Deus. Ela... oh! não,

Jamais o saberá na terra alguém,

De meus lábios, o nome que ela tem...

Que esse nome meus lábios não dirão.

Páginas 69 e 70 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina05.html
SEU NOME

Seu nome! em repeti-lo a planta, a erva,

A fonte, a solidão, o mar, a brisa

Meu peito se extasia!

Seu nome é meu alento, é-me deleite;

Seu nome, se o repito, é dúlia nota

De infinda melodia.

Seu nome! vejo-o escrito em letras d'ouro

No azul sideral à noite quando

Medito à beira-mar;

E sobre as mansas águas debruçada,

Melancólica, e bela eu vejo a lua,

Na praia a se mirar.

Seu nome! é minha glória, é meu porvir,

Minha esperança, e ambição é ele,

Meu sonho, meu amor!

Seu nome afina as cordas de minh'harpa,

Exalta a minha mente, e a embriaga

De poético odor.

Seu nome! embora vague esta minha alma

Em páramos desertos, ─ ou medite

Em bronca solidão:

Seu nome é minha ideia ─ em vão tentara


Roubar-mo alguém do peito ─ em vão ─ repito,

Seu nome é meu condão.

Quando baixar benéfico a meu leito,

Esse anjo de deus, pálido, e triste

Amigo derradeiro.

No seu último arcar, no extremo alento,

Há de seu nome pronunciar meus lábios,

Seu nome todo inteiro!...

Páginas 71 e 72 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina06.html

Uma tradução deste poema para o espanhol pode ser lida nesta página da Web

http://rincondepoetasmajo.blogspot.com.br/2014/06/maria-firmina-dos-reis.html
CONFISSÃO

Embalde, te juro, quisera fugir-te,

Negar-te os extremos de ardente paixão:

Embalde, quisera dizer-te: ─ não sinto

Prender-me à existência profunda afeição.

Embalde! é loucura. Se penso um momento,

Se juro ofendida meus ferros quebrar:

Rebelde meu peito, mais ama querer-te,

Meu peito mais ama de amor delirar.

E as longas vigílias, ─ e os negros fantasmas,

Que os sonhos povoam, se intento dormir,

Se ameigam aos encantos, que tu me despertas,

Se posso a teu lado venturas fruir.

E as dores no peito dormentes se acalmam.

E eu julgo teu riso credor de um favor:

E eu sinto minh'alma de novo exaltar-se,

Rendida aos sublimes mistérios do amor.

Não digas, é crime ─ que amar-te não sei,

Que fria te nego meus doces extremos...

Eu amo adorar-te melhor do que a vida,

Melhor que a existência que tanto queremos.


Deixara eu de amar-te, quisera um momento,

Que a vida eu deixara também de gozar!

Delírio, ou loucura ─ sou cega em querer-te,

Sou louca... perdida, só sei te adorar.

Páginas 79 e 80 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina07.html
À MINHA EXTREMOSA AMIGA D. ANA FRANCISCA CORDEIRO

Donzela, tu suspiras ─ esse pranto,

Que vem do coração banhar teu rosto,

Esse gemer de lânguido penar,

Revela amarga dor ─ imo desgosto:

Amiga... acaso cismas ao luar,

Terno segredo de ignoto amor?!...

Soltas madeixas desprendidas voam

Por sobre os ombros de nevada alvura;

Tua fronte pálida os pesares c'roam

Como auréola de martírio... pura,

Cândida virgem... que abandono o teu?

Sonhas acaso com o viver do céu!

Sentes saudades da morada d'anjos,

D'onde emanaste? enlangueces, gemes?

É nostalgia o teu sofrer? de arcanjos

Perder o afeto que te votam ─ temes?

Ou temes, virgem ─ de perder na terra,

Toda a pureza que tu'alma encerra!?...

Não, minha amiga ─ que a pureza tua

Jamais o mundo poderá manchar:

Límpida vaga a melindrosa lua,

Vencendo a nuvem, que se esvai no ar,


E mais amena, mais gentil, e grata

Despede às águas refulgir de prata.

Que cismas pois? porque suspiras, virgem?

Por que divagas solitária, e triste?

Delira a flor ─ e na voraz vertigem

Dum louco afeto, té morrer persiste...

Pálida flor! o teu perfume exalas

Nesses suspiros, que equivalem falas.

Cismas à noite... que cismar o teu?

Sonhas acaso misterioso amor?

Vês nos teus sonhos o que encerra o céu?

Aspiras d'anjos o fragrante olor!?

Porque, não creio que a esta terra impura

Prendas tua alma, divinal feitura.

Não. É resumo dos afetos santos

Que além se gozam ─ que uma vez somente

À terra descem, semelhando prantos.

Que chora a aurora sobre a flor olente:

Meigos, sem mancha, vaporosos, ledos,

Puros, ─ de arcanjos divinais segredos.

Sentes saudades da morada d'anjos!

Sentes saudade do viver dos céus?

Ouves os carmes de gentis arcanjos!


Soluças n'harpa teu louvor a Deus!...

Anjo! descanta sobre a terra ímpia

Místicas notas de eternal poesia.

Páginas 169, 170 e 171 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina08.html
MEDITAÇÃO

(À minha querida irmã ─ Amália Augusta dos Reis)

["Era a hora em que o homem estava recolhido nas mesquinhas moradas..." A.


Herculano]

Vejamos pois esta deserta praia,

Que a meiga lua a pratear começa,

Com seu silêncio se harmoniza esta alma,

Que verga ao peso de uma sorte avessa.

Oh! meditemos na soidão da terra,

Nas vastas ribas deste imenso mar;

Ao som do vento, que sussurra triste,

Por entre os leques do gentil palmar.

O sol nas trevas se envolveu, ─ mistérios

Encerra a noite, ─ ela compr'ende a dor;

Talvez o manto, que estendeu no bosque,

Encubra um peito que gemeu de amor.

E o mar na praia como liso ondeia,

gemendo triste, sem furor ─ com mágoas...

Também meditas, oh! salgado pego ─

Também partilhas desta vida as frágoas?...

E a branca lua a divagar no céu,

Como uma virgem nas soidões da terra;


Que doce encanto tem seu meigo aspecto,

E tanto enlevo sua tristeza encerra!

Sim, meditemos... quem gemeu no bosque,

Onde a florzinha a perfumar cativa?

Seria o vento? Ele passando ergueu

Do tronco a copa sobranceira, altiva.

Passou. E agora sufocando a custo

Meu peito o doce palpitar do amor,

Delícias bebe desterrando o susto,

Que a noite incute a semear pavor.

E um deleite inda melhor que a vida,

langor, quebranto, ou sofrimento ou dor;

Um quê de afetos meditando eu sinto,

Na erma noite, a me exaltar de amor.

Então a mente a divagar começa,

Criando afoita seu sonhado amor;

Zombando altiva de uma sorte avessa,

Que oprime a vida com fatal rigor.

E nessa hora a gotejar meu pranto,

Nas ermas ribas de saudoso mar,

Vagando a mente nesse doce encanto,

Dá vida ao ente, que criei p'ra amar.


E a doce imagem vaporosa, e bela,

Que a mente erguera, engrinaldou de amor,

Ergue-se vaga, melindrosa, e grata

Como fragrância de mimosa flor.

E o peito a envolve de extremoso afeto,

E dá-lhe a vida, que lhe dera Deus;

Ergue-lhe altares ─ lhe engrinalda a fronte,

Rende-lhe cultos, que só dera aos céus.

Colhe p'ra ela das roseiras belas,

Que aí cultiva ─ a mais singela flor:

E num suspiro vai depor-lhe as plantas,

Como oferenda ─ seu mimoso amor.

Mas, ah! somente a duração d'um ai

Tem esse breve devanear da mente.

Volve-se a vida, que é só pranto, e dor,

E cessa o encanto do amoroso ente.

Páginas 173, 174 e 175 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina09.html

Publicado originalmente sem dedicatória no "Semanário Maranhense", 3/11/1867,


ano I, número 10, página 7, segunda e terceira colunas.

http://memoria.bn.br/DocReader/720097/79
NAS PRAIAS DO CUMÃ

SOLIDÃO

Aqui na solidão minh'alma dorme;

Que letargo profundo!... Se no leito,

A horas mortas me revolvo em dores,

Nem ela acorda, nem me alenta o peito.

No matutino albor a nívea garça

Lá vai tão branca doudejando errante;

E o vento geme merencório ─ além

Como chorosa, abandonada amante.

E lá se arqueia em ondulação fagueira

O brando leque do gentil palmar;

E lá nas ribas pedregosas, ermas,

De noite ─ a onda vem de dor chorar.

Mas, eu não choro, lhe escutando o choro;

Nem sinto a brisa, que na praia corre:

Neste marasmo, neste lento sono,

Não tenho pena; ─ mas, meu peito morre.

Que displicência! não desperta um'hora!

Já não tem sonhos, nem já sofre dor...

Quem poderia despertá-lo agora?

Somente um ai que revelasse ─ amor.


Páginas 177 e 178 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina10.html
A UMA AMIGA

Eu a vi ─ gentil mimosa,

Os lábios da cor da rosa,

A voz um hino de amor!

Eu a vi, lânguida, e bela:

E ele a rever-se nela:

Ele colibri - ela flor.

Tinha a face reclinada

Sobre a débil mão nevada;

Era a flor à beira-rio.

A voz meiga, a voz fluente,

Era um arrulho cadente,

Era um vago murmúrio.

No langor dos olhos dela

Havia expressão tão bela,

Tão maga, tão sedutora,

Que eu mesmo julguei-a anjo,

Eloá, fada, ou arcanjo,

Ou nuvem núncia d'aurora.

Eu vi ─ o seio lhe arfava:

E ela... ela cismava,

Cismava no que lhe ouvia;

Não sei que frase era aquela:


Só ele falava a ela,

Só ela a frase entendia.

Eu tive tantos ciúmes!...

Teria dos próprios numes,

Se lhe falassem de amor.

Porque, querê-la ─ só eu.

Mas ela! ─ a outra ela deu

Meigo riso encantador...

Ela esqueceu-se de mim

Por ele... por ele, enfim.

Páginas 207 e 208 da edição original.

http://www.jornaldepoesia.jor.br/mfirmina11.html
SONHO OU VISÃO?

Tu vens rebuçado

Nas sombras da noite

Sentar-te em meu leito;

Eu sinto teus lábios

Roçar minhas faces

Roçar no meu peito.

Não sei bem se durmo,

Se velo ─ se é sonho,

Se é grato visão:

Só sei que arroubada

Deleita a minh'alma

Tão doce ilusão.

Depois, um suspiro

Que cala mais fundo

Que prantos de dor;

Que fala mais alto

Que juras ardentes,

Que votos de amor,

Vem lento ─ pausado

Do imo do peito

Nos lábios ─ morrer...

Eu amo de ouvi-lo,
Pois desses suspiros

Se anima o meu ser.

Mas, ah! não me falas...

Teus lábios, teu rosto

Só tem um sorriso.

Depois vaporoso

Vai todo fugindo

Teu corpo ─ teu riso.

Então eu desperto

Do sonho ─ ou visão,

Começo a cismar;

E ainda acordada

Invoco em delírio.

Falta o verso final desta estrofe, em todas as fontes.

Oh! Vem no meu sono

Imagem querida

Pousar no meu leito

Com lábios macios

Roçar minhas faces

Pousar no meu peito.

"Escritoras Brasileiras do Século XIX ─ Antologia", páginas 283 e 284, Zahidé


Lupinacci Muzart (organizadora), Editora Mulheres e Editora da Universidade de Santa
Cruz do Sul (EDUNISC), Florianópolis, SC, 1999.
A LUA BRASILEIRA

Oferecida ao Ilmo. Sr. Dr. Adriano Manoel Soares.

Tributo de amizade e gratidão.

É tão meiga, tão fagueira,

Minha lua brasileira;

É tão doce, e feiticeira,

Quando airosa vai nos céus;

Quando sobre almos palmares,

Ou sobre a face dos mares,

Fixa, nívea, seus olhares,

Qu'enfeitiçam os olhos meus;

Quando traça na campina

Larga fita diamantina;

Quando sobre a flor marina,

Esparge seu níveo albor;

Quando manda brandamente

Sobre a campina virente,

Seu fulgir alvinitente,

O seu mágico esplendor;

Quando sobre a fina areia,

Que a onda beijar anseia

Molemente ela passeia,

Desdobrando alvo lençol;


Quando ao fim da tarde amena

Ressurge pura e serena,

Disputando nessa cena,

Primores co'o rubro sol;

Oh! eu sinto então meu peito,

A tanto encanto sujeito,

Tão comovido, e desfeito,

Por um sublime sentir,

Que dos ares n'amplidão,

Vagueia a imaginação,

Qual se me fora condão,

Outros mundos descobrir!

Podem outros seus encantos

Ver também, beber seus prantos,

Por seus vales, e recantos,

Por suas veigas, em flor;

Podem vê-la sobre os montes,

Trepando nos horizontes,

A retratar-se nas fontes,

C'roada de níveo albor;

Lá n'outros mundos; ─ mas, bela

Assim branca, assim singela,

Como pálida donzela,

Que geme na solidão;


Assim pura, acetinada,

Como flor na madrugada

Pelo rocio beijada,

Com mimo, com devoção;

Assim virgem na frescura,

Com tão maga formosura,

Percorrendo essa planura

De nossos formosos céus,

Isso não: Assim ninguém

Mimosa, leda, inocente,

Assim formosa, indolente,

Permitiu-nos vê-la Deus!

Quem não ama vê-la assim,

C'a candidez do jasmim,

Espargindo amor sem fim,

Na terra de Santa Cruz!

Quem não ama entusiasmado

Da noite o astro nevado,

Que, co'o rosto prateado,

Tão meigamente seduz!?!

Quem não sente uma saudade,

Vendo a lua em fresca tarde,

Branca ─ em plena soledade,

Vagar nos campos dos céus!


Quem não gera com fervor,

No peito em que ergue a dor,

Um hino sacro de amor,

Um hino eterno ao seu Deus!?...

Eu por mim amo-te, oh bela,

Que semelhas a donzela,

Com roupas de branca tela,

Com traços de fino albor.

Que vai pura aos pés do altar

Por muito saber amar,

Ao terno amado jurar,

Lealdade ─ fé ─ e amor.

Amo ver-te assim fagueira,

Minha lua brasileira,

Qual menina lisonjeira,

Que promete, e foge e ri;

E depois, inda voltando,

Vem com beijinhos pagando,

Aquele a quem se furtando,

De novo a chamara a si.

Assim, lua, teus encantos

Inspiram mimosos cantos:

Chora sobre mim teus prantos,

Vertidos na solidão!
Tens em mim, lua querida,

Uma amiga enternecida,

Que aninha n'alma sentida

Muita dor ─ muita aflição.

Só teus raios prateados,

Teus inocentes agrados,

Teus suspiros magoados,

Modificam tanta dor.

Vem pois com tuas carícias

Infundir brandas delícias,

E com suaves blandícias

Entusiasmar-me de amor.

Publicado originalmente no "Semanário Maranhense", 1/3/1868, ano I, número 27,


páginas 7 (segunda e terceira colunas) e 8 (primeira coluna).

http://memoria.bn.br/docreader/720097/215

http://memoria.bn.br/docreader/720097/216
HOSANA!

DEDICADA AO ILMO. SR. DR. GAMA LOBO, DISTINTO LITERATO

Simpatia e gratidão.

Que diz o infante,

Se o rir d'um instante,

Se muda inconstante

Num meigo chorar?

Que diz a donzela,

Que cisma tão bela,

Que sente, que anela,

No seu meditar?...

Que dizem os palmares,

Que dóceis aos ares,

Nos ledos folgares,

Sorriem-se a gemer?

Que diz a rolinha,

Qu'à tarde sozinha,

Saudosa definha,

Se o par vê morrer?

Que dizem as flores,

Emblema de amores,

De infindos primores,

De infindo gozar?

Que diz meigamente,


D'orvalho nitente,

A gota cadente,

Qu'a flor vem beijar?

Se brame raivoso

O pélago iroso,

Se geme saudoso

Na praia, ─ o que diz?

Que dizem os cantos,

De magos encantos,

Que ensaia, sem prantos,

Mimosa perdiz?

Que diz a vaidosa

Gentil mariposa,

Qu'o suco da rosa

Fragrante libou?

A loura abelhinha,

Que diz quando asinha,

Beijando a florzinha,

Seu mel lhe roubou?

Que diz a erma fonte?

Que diz o horizonte?

E o cume do monte,

Que se ergue altaneiro?

Que diz ternamente


A lua nitente,

Se coroa indolente

O verde mangueiro?

Que diz todo o mundo,

Num voto profundo,

Eterno, e jucundo,

Erguendo-se aos céus?

Diz grato — amoroso

Hosana! e saudoso,

É tudo um formoso

Concerto ao seu DEUS.

Publicado originalmente no "Eco da Juventude", 15/1/1865, número 6, página 8


(página 48 do ano), primeira coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/48
MELANCOLIA

Oh! se eu morresse no cair da tarde,

De tarde amena, quando a lua vem

Chovendo prata sobre o liso mar,

Trajando as vestes, qu'a pureza tem.

Então talvez eu merecesse afetos,

Desses qu'apenas alcancei sonhando;

Talvez um pranto bem sentido, e triste,

Meu frio rosto rociasse brando.

A ti poeta ─ mais te vale a morte

Na flor da vida ─ a sepultura, os céus!

Quem sofre a terra te compreende as dores?

Teus sofrimentos, quem compreende? Deus!

Sim, venha a morte libertar-me, amiga

Da triste vida, qu'a ninguém comove...

Bem-vinda sejas ─ teu palor me agrada,

E a crua foice, que tua destra move.

E tu sepulcro, ─ tu gélido, e negro,

Eu te saúdo, oh! companheiro nu!

Talvez meus cantos te penetrem o seio,

Pálido afeto, me dispenses tu.


Não terá prantos sobre a lisa campa,

Quem peito humano a lhe gemer não tem;

Oh! não poeta: ─ se alvorada chora

Bebe esse pranto, qu'adoçar-te vem.

Inda me resta no correr da vida,

Essa esperança de morrer... a só.

Sentida ─ triste, qu'o sofrer ameiga,

Que segue o homem té fundir-se em pó.

Morra eu ao menos no cair da tarde,

A hora maga, que se pensa em Deus,

Em que se escuta misteriosos cantos,

Concertos sacros nos longínquos céus.

Então já queixas não farei da sorte,

Rirei da vida qu'amargar sentia;

Compensa as dores d'um viver sentido,

Morrer a hora do cair do dia.

Publicado originalmente no "Eco da Juventude", 14/5/1865, número 23, página 8


(página 184 do ano), segunda coluna.

http://memoria.bn.br/DocReader/738271/185
UNS OLHOS

Vi uns olhos... que olhos tão belos!

Esses olhos têm certo volver,

Que me obrigam a profundo cismar,

Que despertam-me um vago querer.

Esses olhos calam na alma,

Viva chama de ardente paixão,

Esses olhos me geram alegria,

Me desterram pungente aflição.

Esses olhos devera eu ter visto

Há mais tempo ─ talvez ao nascer,

Esses olhos me falam de amores.

Nesses olhos eu quero viver.

Nesses olhos eu bebo a existência

Nesses olhos de doce langor,

Nesses olhos, que fazem sem custo

Meigas juras eternas de amor.

Esses olhos que dizem n'uma'hora,

Num momento, num doce volver,

Tudo aquilo que os lábios nos dizem

E que os lábios não sabem dizer.


Esses olhos têm mago condão,

Esses olhos me excitam o viver!...

Só por eles eu amo a existência,

Só por eles, eu quero morrer!

Publicado originalmente em "A Verdadeira Marmota", 27/5/1861.

"Maria Firmina ─ Fragmentos de uma Vida", José Nascimento Morais Filho,


Governo do Maranhão, São Luís, 1976.
VAI-TE!

Entre tu, ─ que és tão sensível,

E eu, que te adoro tanto,

Colocou a sorte ─ o pranto,

Marcou Deus, ─ o impossível!

Ouviste! Deus! não intentes

Frustrar os decretos seus!

Sufoca as dores que sentes,

Esquece os transportes meus.

Vai longe, longe olvidar

Nossos protestos de amor!

Vai teu fado obedecer;

Vai... não voltes... trovador.

Sofre, embora, cruas dores,

Sinta eu lenta agonia;

Embora mil dissabores

Me envenene a noite, e o dia,

Vai-te! vai-te... Deus nos diz:

Impossível! Oh! que dor...

Vai-te... deixa-me infeliz,

Vai-te! Vai-te, oh trovador.


O PEDIDO

Oh! dessas flores que te adornam ─ virgem,

Embora esposa de um momento, ─ atende!

Uma somente, eu te suplico ─ dá ─ m'a;

Dos seios dela meu sossego pende.

Assim dizia adolescente belo,

Cuja afeição o conduzia a ela,

E com uma rosa perfumada, e leda

Brincava a jovem, festival donzela.

Ela fitou-o com um sorriso mago,

Cheio de encanto, de afeição singela,

E deu-lhe grata ─ desfolhando a rosa,

As meigas pétalas dessa flor tão bela!

Não sei, se a jovem estremeceu beijando-a;

Sei que guardou-as: ─ fraternal abraço!

Era essa rosa desfolhada ─ as notas

Últimas d'harpa, que se esvai no espaço.


AMOR

Ah! sim eu quero rever-te a medo

Terno segredo ─ que em minh'alma habita;

Mas, vês? Eu tremo... teu sorriso anima:

Vê, se o que digo, o teu dizer imita...

Um ai poderá traduzir ─ n'um ai

Tudo o que pedes que eu te diga agora;

Mas tu não queres!... teu querer respeito.

Eia... coragem! dir-te-ei n'uma hora.

Oh! não te esqueças meu rubor, meu pejo,

Vê que eu vacilo... que eu perdi a cor;

Embora... escuta. Tu me amas? ─ dize

Eu te confesso que te voto amor...


CISMAR

À MINHA QUERIDA PRIMA ― BALDUÍNA N. B.

Quando meus olhos lanço sobre o mar,

Augusto ─ o seu império contemplando;

Quer tranquilo murmure ─ ou rebramando,

Expande-se meu peito extasiado.

Corre minh'alma pelo céu vagando,

Sobre seres criados ─ Deus buscando...

E fundo, e deleitoso é meu cismar.

Se ronca a tempestade enegrecida,

Pavoroso trovão rouqueja incerto;

As nuvens se constrangem, o céu aberto

Elétrico clarão vomita escuro:

Ao Deus da criação, ao rei da vida

Elevo o pensamento, e o coração...

Cresce, avulta, e aumenta a cerração

E em meu vago cismar só Deus procuro;

Se plácida no céu correndo vejo

─ A lua ─ o mar, as serras prateando,

Qual áureo diadema cintilando

Em casta fronte de pudica virgem,

Em meu grato cismar só Deus almejo...

Bendiz minh'alma seu poder imenso!

Bendiz o Criador do Orbe extenso,


Que os outros rege ─ que seu trono cingem.

E bendigo depois a minha dor,

Meu duro sofrimento, ─ o meu viver...

Porque pode apagar, fundo sofrer

As feias culpas do existir da terra.

Oh! sim minh'alma te bendiz Senhor.

Quando cismando se recolher triste...

Bendiz o eterno amor, que em ti existe,

O imenso poder que em ti se encerra!!...


ESQUECE-A

Amor é gozo ligeiro,

Mas é grato e lisonjeiro

Como o sorriso infantil;

Promessa doce, e mentida,

Alenta, destrói a vida;

É um delírio febril.

Muito te amei... minha lira,

Que triste agora suspira,

Nesta erma solidão,

Bem sabes ─ ricas de flores,

Cantava os ternos amores,

Do meu terno coração.

Minha afeição era pura.

Não era engano, cordura,

Não era afeto mentido;

Se ela assim te não cativa,

Esquece-a, que sou altiva,

Esquece-a, sim ─ fementido.