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ANUÁRIO DO CURSO SUPERIOR DE TECNOLOGIA EM MECATRÔNICA

INDUSTRIAL

Compensação Angular Para Proteção Diferencial de Transformadores

Odirlei Hercillio Moser: Faculdade Anhanguera Jaraguá do Sul.


Bruno Gonçalves: WEG Equipamentos Elétricos S.A.

1 Introdução
O conceito básico da proteção diferencial é que a soma das correntes que entram no
equipamento protegido deve ser igual à soma das correntes que saem. Entretanto, quando o
objeto protegido é um transformador, sua ligação pode resultar num deslocamento angular e
interferir nesta soma. A solução para estes casos é aplicar uma compensação angular para
deixar as correntes dos dois lados do enrolamento com a mesma magnitude e em fase. Este
artigo irá abordar os métodos para identificar e corrigir o deslocamento angular, bem como
erros de conexão nos transformadores de corrente ou no relé de proteção.

2 Material e Métodos
2.1 Deslocamento angular
O deslocamento angular em transformadores trifásicos origina-se do seu tipo de ligação
e indica em quantos graus os fasores de tensão (consequentemente os de corrente) do
enrolamento secundário estão deslocados em relação ao enrolamento primário. A norma
brasileira ABNT NBR 5356-1:2007 nomeia os tipos de ligação para transformadores
trifásicos da seguinte forma:
Dy5
A primeira letra, que deve ser sempre maiúscula, é referente à ligação do enrolamento
primário (maior tensão), podendo ser D para ligações em delta, Y para ligações estrela, ou Z
para zig-zag. A letra seguinte é referente à ligação do enrolamento secundário (menor tensão),
podendo ser d para ligações em delta, y para ligações estrela, ou z para zig-zag, sempre
minúsculas. O número representa as horas do relógio, ou seja, cada hora representa 30°,
conforme pode ser visto na Figura 1.
Figura 1 - Deslocamento angular e diagrama de ligações Dy5

Fonte: ABNT (2007).

O enrolamento secundário (X2) está 5 horas deslocado do enrolamento primário (H2),


ou seja, 5 x 30° = 150°. Portanto, para determinar o deslocamento em graus a partir dessa
nomenclatura, deve-se calcular:
Deslocamento angular = número de horas x 30°
Além das duas letras principais e o número, a nomenclatura pode conter uma letra n
adicional, minúscula ou maiúscula, para indicar que o ponto neutro é acessível, ex: Dyn5.
Uma lista com os principais tipos de ligação para transformadores trifásicos é
encontrada na norma NBR 5356-1 (ABNT, 2007, p. 26 e 27).
a. Porque é necessário fazer a compensação angular?
Tomando como exemplo um transformador com conexão delta-estrela, com os TCs em
ambos os enrolamentos conectados em estrela e com rotação de fase ABC, como mostrado na
Figura 2, as correntes do enrolamento secundário estarão 30° atrasadas em relação às
correntes do enrolamento primário.
Figura 2 - Transformador Delta-Estrela, ABC, Dyn1.

Fonte: Lanier e Gregory (2010).

Neste caso, as correntes medidas pelo relé de proteção para o enrolamento do lado
primário serão:

Já para o enrolamento do lado secundário:

Observando as equações acima, é possível concluir que os valores medidos pelo relé
não serão os mesmos, provocando uma atuação indevida da proteção diferencial.
b. Métodos para compensação angular
Na era dos relés eletromecânicos, a compensação angular era feita fisicamente através
da ligação dos TCs. No caso do exemplo de um transformador Dyn1, os TCs do lado delta
eram conectados em estrela e os TCs do lado estrela em delta, conforme Figura 3.
Figura 3 - Compensação angular nos TCs, ABC, Dyn1

Fonte: Cardoso (2011).

Assim, as correntes medidas pelo relé de proteção para o enrolamento do lado primário
eram:

Enquanto para o enrolamento do lado secundário:

Observando as equações acima, conclui-se que os valores medidos pelo relé eram
exatamente os mesmos, pois a ligação dos TCs compensava o deslocamento angular do
transformador.
Atualmente com o uso dos relés digitais, este tipo de compensação não se faz mais
necessária, pois os mesmos possuem ferramentas para fazer a compensação matematicamente.
Apesar de cada fabricante possuir um algoritmo próprio para fazer a compensação angular
internamente no relé, neste artigo será mostrado o método utilizado pela fabricante SEL,
porém o conceito pode ser aplicado para qualquer outro relé, independente do fabricante, pois
todos são muito semelhantes.
Destaca-se o circuito mostrado na Figura 2, que pode ter o deslocamento angular
compensado matematicamente. Aplicando-se uma matriz de compensação no enrolamento
secundário, tem-se:

Com isso, obtêm-se o mesmo resultado que uma ligação delta nos TCs, como é possível
ver a seguir:

Além disso, é necessário dividir os termos por raiz de 3 para compensar a magnitude
das correntes, condição que nos relés eletromecânicos era corrigida através da relação dos
TCs.

2.2 Compensando o Deslocamento no Relé


a. Verificando os dados do transformador
O procedimento para fazer a compensação angular no relé se inicia coletando os dados do
transformador para a identificação do tipo de ligação, verificando a ligação dos TCs e o
sentido de rotação das fases.
A Figura 4 apresenta a placa de identificação de um transformador com ligação YNd1:
Figura 4 - Placa de identificação do transformador – Ydn1.

Caso o transformador não possua placa nem folha de dados, é possível descobrir qual o
deslocamento angular através das medições do relé, como demonstrado no diagrama fasorial
apresentado na Figura 5:
Figura 5 - Diagrama Fasorial Transformador – Ynd1.
Neste diagrama, observa-se que o vetor IAW1 está em 100° e o vetor IAW2 em 250°,
ou seja, estão defasados em 150°, conforme ilustrado na Figura 6:

Figura 6 - Deslocamento angular entre os fasores IAW1 e IAW2

Fonte: Laznier e Gregory (2010).

Porém, deve-se levar em consideração que a inversão de polaridade na ligação dos TCs
provoca um deslocamento de 180° no ângulo das correntes. A Figura 7 ilustra essa condição:

Figura 7 - Inversão de polaridade dos TCs .

Fonte: Cardoso (2011).

Sendo assim, o deslocamento real destes fasores é de 30°, conforme ilustrado na figura
8, e é este deslocamento que deve ser compensado.

Figura 8 - Deslocamento angular entre os fasores IAW1 e IAW2

Fonte: Lanier e Gregory (2010).


b. Escolhendo a Matriz de Compensação
Usando como exemplo o transformador da Figura 4, cujos TCs estão ligados ao relé
conforme o diagrama da Figura 7, é possível demonstrar o procedimento para escolher a
matriz de compensação.
Adotando o enrolamento primário como referência, escolhe-se a matriz 0 ou 12, que não
causam nenhum defasamento angular. Deve-se escolher a matriz 0 se a ligação do
transformador for delta, ou então se os TCs estiverem ligados em delta. Caso o transformador
e os TCs estiverem ligados em estrela, a matiz 12 será a escolhida, para eliminar a
componente de sequência 0. Para o exemplo, adota-se a matriz 12. A funcionalidade desta
matriz será discutida no posteriormente.
A compensação angular será feita no enrolamento secundário, que para o caso estudado
é de 30°. Para ele, deve-se escolher a matriz correspondente, de acordo com a Figura 9:

Figura 9 - Gráfico auxiliar para escolha das matrizes [2].

Fonte: Cardoso (2011).

Neste caso, escolhe-se a matriz 1. A Figura 10 mostra o resultado, com os vetores


rotacionando 30° no sentido anti-horário.
Figura 10 - Rotação dos vetores do enrolamento 2 [2].

Fonte: Cardoso (2011).

O equacionamento dessa configuração para o enrolamento 1 fica da seguinte forma:

Como esperado, não há nenhum deslocamento nas fases. Para o enrolamento 2, as


equações são as seguintes:
É possível ver através do equacionamento a seguir que as matrizes escolhidas
corrigiram o deslocamento.

2.3 Componente de Sequência Zero


Quando se aplica a proteção diferencial em um transformador, a componente de
sequência zero é um inconveniente que deve ser tratado, isso porque faltas à terra do lado da
conexão estrela de um transformador podem causar uma atuação indevida. A Figura 11 ilustra
essa situação.

Figura 11 - Falta à terra fora da zona de proteção

Fonte: IEEE (2008).

No lado do enrolamento do transformador conectado em delta, a componente de


sequência zero (Ia0) é filtrada dentro da ligação, como é possível observar a seguir ao analisar
a corrente Iac em termos de componentes simétricas.
A corrente trifásica decomposta em termos de componentes simétricas fica da seguinte
forma:

Colocando em termos da corrente Ic e aplicando o operador “a”, tem-se:


Onde,

A corrente de linha Iac numa conexão delta é a corrente da fase “a” menos a corrente da
fase “c”. Observa-se assim, nas equações a seguir, que a componente de sequência zero foi
removida, permanecendo somente correntes de sequência positiva e negativa.

Esta mesma condição não ocorre no enrolamento conectado em estrela. Entretanto, nos
relés digitais é possível fazer a remoção de sequência zero matematicamente, aplicando uma
matriz de compensação denominada “matriz 12”, conforme equações a seguir. Subtraindo a
componente de sequência zero da corrente da fase A, tem-se:

Sabe-se que . Portanto:

Fazendo isso para todas as fases, obtem-se esta matriz, conforme abaixo:

c. Exemplo de atuação indevida por sequência zero


Observe a oscilografia de um caso ocorrido com o transformador mostrado na figura 2.
Neste caso, o relé foi ajustado com a matriz 0 para o enrolamento de alta tensão e com a
matriz 1 com o enrolamento de baixa de tensão, ou seja, não foi anulado a componente de
sequência zero no enrolamento conectado em estrela.
As Figuras 12, 13 e 14, mostram as correntes dos enrolamentos e os fasores de uma das
fases na pré-falta. Como esperado, os fasores estão defasados em 150°.
Figura 12 - Correntes do enrolamento 1 – Pré-falta.

Figura 13 - Correntes do enrolamento 2 – Pré-falta.

Figura 14 - Fasores – Pré-falta.


As Figuras 15, 16 e 17, por sua vez, mostram as correntes dos enrolamentos e os fasores
de uma das fases durante a falta.

Figura 15 - Correntes do enrolamento 1 – Durante a falta

Figura 16 - Correntes do enrolamento 2 – Durante a falta.

Figura 17 - Fasores – Durante a falta.


Na Figura 18, observa-se a atuação da proteção 87 devido ao desbalanço das fases
provocado por um curto-circuito monofásico. Analisando os fasores da figura 17, constata-se
que as correntes estão defasadas de 180°, o que caracteriza uma falta fora da zona de
proteção.

Figura18 - Atuação da proteção 87.

Portanto, a atuação da proteção diferencial foi de maneira indevida. Isto ocorreu


justamente devido a não eliminação da componente de sequência zero.

2.4 Erros Comuns e Soluções


Quando se aplica uma proteção diferencial, é comum encontrar alguns erros na
concepção do projeto, na montagem do painel, seja na fiação ou mesmo na montagem dos
TCs, e erros na parametrização do relé. A seguir será apresentado alguns erros comuns e suas
soluções.
a. Sentido de Rotação das Fases
Quando se analisa os vetores do relé e encontra-se valores de sequência negativa como
mostrado na Figura 19, é um indicativo de que a rotação das fases está invertida.
Figura 19 - Fatores – Rotação das fases invertida.

As causas para este problema podem ser um erro na parametrização do relé, ou uma
inversão física dos cabos de medição de corrente ou tensão.
Neste caso, a sugestão é que primeiro seja verificado se o relé está parametrizado
corretamente, ou seja, com o sentido de rotação das fases conforme o sistema elétrico em
questão. Tendo feito essa verificação e o problema persistir, deverá ser feito a checagem dos
cabos de medição.
b. Fechamento Estrela dos TCs
Outro problema bastante comum é a inversão do fechamento estrela dos TCs. Os
manuais dos relés de proteção indicam que deve ser feita a inversão da polaridade dos TCs,
conforme mostrado anteriormente na figura 7, porém em muitos casos esse detalhe acaba
passando despercebido por quem elabora o projeto. Esse problema pode ser facilmente
identificado analisando o projeto.
Entretanto, também pode ocorrer a inversão do TCs durante o processo de montagem do
painel.
Uma boa maneira de identificar esse problema é através da analise das medições das
correntes diferencias. A Figura 20 apresenta um exemplo dessa medição num relé SEL-787.
Figura 20 - Medição das correntes diferenciais [5].

Fonte: Schweitzer Engineering Labortatories 2017).

Quando os TCs estão conectados com o fechamento estrela virados para o mesmo lado,
ou seja, os dois para a esquerda ou os dois para a direita, a corrente de operação estará com 2
pu da corrente passante pelo dispositivo protegido.

3 Resultados e Discussão
Quando se aplica a proteção diferencial em um transformador, é necessário atentar-se se
a ligação dos seus enrolamentos provoca algum defasamento angular. Este defasamento pode
ser tratado e compensado fisicamente ou matematicamente através de software nos relés
digitais.
A não compensação deste defasamento ou a configuração errônea do relé de proteção
ou ainda erros na concepção do projeto, tem como consequência a atuação indevida da
proteção diferencial.
Por fim, a maior parte dos problemas encontrados na aplicação da proteção diferencial
pode ser corrigida através da configuração do relé.
Referências
ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas. NBR 5356-1: Transformadores de
Potência - Parte 1: Generalidades. Rio de Janeiro, p. 25. 2007.

CARDOSO, R. Compensação angular e remoção da componente de sequência zero na


proteção diferencial. Guia de Aplicação SEL (AG2011-26-PT). 2011

IEEE Power Engineering Society. IEEE Std C37.91-2008: IEEE Guide for Protecting Power
Transformers. New York. 2008.

LANIER, M.; GREGORY, J. Determining the Correct TRCON Setting in the SEL-587 Relay
When Applied to Delta-Wye Power Transformers. Guia de Aplicação SEL (AG2000-01).
2010.

SCHWEITZER ENGINEERING LABORATORIES INC. SEL-787 - Transformer Protection


Relay Manual. 2017.