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INSTITUTO DE ESTUDOS ESTRATÉGICOS

GRADUAÇÃO EM RELAÇÕES INTERNACIONAIS


COMÉRCIO INTERNACIONAL II

P1 - QUESTÃO ÚNICA

(desenvolvimento em texto de no mínimo três laudas, mais a capa)

Explique a análise de André Gunder Frank do relacionamento bilateral EUA-China.

P2 – QUESTÃO ÚNICA

(desenvolvimento em texto de no mínimo três laudas, mais a capa)

De que maneira Bresser-Pereira e Eli Diniz analisam o comportamento dos empresários


brasileiros frente aos projetos de inserção internacional do Brasil?
Segunda Chamada - P1
Aluna: Ana Carolina Rodrigues de Almeida Azevedo

Folha de Resposta - Questão Única

Explique a análise de André Gunder Frank do relacionamento bilateral EUA-China.

Com o final da Guerra Fria, em 1989 e o declínio russo e japonês, as regiões que
emergiram foram os Estados Unidos, como um Tigre de Papel 1 e a Ásia Oriental,
especialmente a China, esta última como um Dragão de Fogo 2. Este acontecimento pode ser
visto como um movimento de mudança contínua do centro de gravidade do mundo.
O Tigre estadunidense, é o dólar - de Papel - , que sustenta esse Estado em uma via
de mão dupla com o Pentágono e “são também seu (sic) dois calcanhares de Aquiles”
(FRANK, 2005, p. 125), uma vez que “as operações do mercado financeiro na economia
mundial e pelas políticas imprudentes do próprio governo dos Estados Unidos” (Idem., p.
125). A Terceira Guerra Mundial3, é refletida na posição em que os EUA se encontram em
relação ao mundo, similar à da Grã-Bretanha no século XIX. O que diferencia essa posição é
que essa posição de superioridade possuem entre dois e três pilares, que inclui, além do dólar
e do Pentágono, anteriormente mencionados, “o governo, a alimentada Ideologia educacional
e dos meios de comunicação que oculta estes simples fatos da opinião pública” (Idem., p.
126). Porém estas forças podem ser as suas fraquezas, uma vez que, por estarem mutuamente
associadas, portanto, uma queda de confiança em qualquer um desses pilares, abalaria
imediatamente o(s) outro(s) (dois). Sendo os EUA uma economia que prospera com base na
decadência mundial, Souza menciona que, na análise de Gunder Frank:

[....] os EUA cobrem o seu défice comercial e orçamental com dinheiro barato. A
deflação / desvalorização no mundo actua (sic) como imã que atrai o capital
especulativo dos americanos e outros investidores, criando uma riqueza ilusória de
Wall Street e sustentando os seus altos níveis de consumo. Os EUA estão super-
endividados (sic) aos compradores dos seus “Treasury certificates” através dos
bancos centrais pelo mundo fora, especialmente na Europa e no Japão, cuja recessão
é em grande parte causada pela política financeira dos EUA. Não será fácil aos
americanos escaparem da armadilha que eles próprios montaram com este sistema
de auto-financiamento (sic) (SOUZA, 2004, p. 26).

1 Termo utilizado por André Gunder Frank para referir-se aos Estados Unidos.
2 Termo utilizado por André Gunder Frank para referir-se a China.
3 Termo utilizado por André Gunder Frank para referir-se a Nova Ordem Mundial, de Bush pai. Frank explica:
“[...] em primeiro lugar, porque isto aconteceu no Terceiro Mundo e, em segundo lugar, porque esta guerra
contra o Terceiro Mundo constitui uma Terceira Guerra Mundial” (FRANK, André G. 2005, p. 126).
Inclusive, essa “prosperidade” dos Estados Unidos também está associada a uma
“instável e enorme dívida dos associados e dos consumidores internos [cartão de crédito,
hipoteca e outros]” (FRANK, 2005, p. 129). Desta forma, qualquer tentativa dos EUA de
demonstrar a sua insolvência, causará a fuga de capitais estrangeiros no seu país, findando na
quebra do dólar. As estratégias encontradas para retirar os EUA da recessão nos anos de
1979-1982, são as mesmas “sob o pretexto de defesa contra o terrorismo internacional após 11
de Setembro (sic). Só que agora pode não haver dinheiro que continue a entrar nos EUA”
(SOUZA, 2004, p. 27).
A guerra estadunidense para o controle do petróleo e, também, para não dividi-lo
com a Rússia, é uma “alavanca econômica e geopolítica a ser manipulada contra os aliados
norte-americanos (sic) dependentes da importação de petróleo na Europa e no Japão, e
finalmente contra o seu inimigo estratégico, a China” (FRANK, 2005, p. 131), o que, na
análise de Frank, pode adicionar uma “posterior pressão deflacionária” (Idem., p. 132).
Desta forma, de acordo com Gunder Frank, o fator que determina a inclusão de
certos países como o “eixo do mal” 4, é a ameaça que esses países representam ao migrar a
base de negociação dos seus produtos do dólar para o euro ou outros produtos (como no caso
da Venezuela). E isso é algo que não é noticiado nos seus meios de comunicação.
Com o dólar enfraquecido pelos países desse “eixo”, a sua base ainda permanecia, no
ano do texto de Gunder Frank, pré crise de 2008, sustentada pelos outros dois eixos. O frágil
pilar militar é o que restou para o sustento da economia e da sociedade dos EUA e é o que
obriga outros países a aderir a nova ordem mundial, se não quiserem lidar com esse último
pilar estadunidense. Inclusive, esse tipo de política se aplica para os seus aliados,
principalmente para o Japão e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), ou seja,
os EUA apenas confiam no dólar e nos seus recursos político-militares, este último usado para
protegê-lo de um acordo entre Rússia e China na época em que o texto de Frank foi escrito. A
preocupação de Gunder Frank dentre outras, era que esse tipo de política estadunidense retro-
explodisse por conta deles serem um Tigre feito de Papel.
Por outro lado, André Gunder Frank analisa o Dragão de Fogo na Ásia Oriental. A
crise financeira e econômica na Ásia Oriental em 1997, que tranquilizou os analistas
ocidentais, não foi o suficiente para a opinião pública no longo prazo, uma vez que “nenhuma
forma institucional particular ou prática econômica política oferece ou dá conta do sucesso

4 A expressão “eixo do mal” foi primeiramente utilizada por Bush filho, quando presidente dos EUA, para se
referir a governos inimigos do seu país.
[ou do fracasso!] no competitivo ou sempre mutável mercado mundial (FRANK, 2005, p.
134). Isso quer dizer que, uma forma institucional não deve ser privilegiada em detrimento
das outras. Souza (2004) diz que Frank afirma que não se deve estudar as árvores e ignorar a
floresta; e ainda esclarece:

A ruptura da chamada “bolha asiática” em 1997, não é para André Gunder Frank
uma indicação do fracasso asiático a longo prazo. Bem pelo contrário, considera que
a extensão da recessão a partir da Ásia do Sudeste para o Ocidente, e não vice-versa,
representa uma consequência da capacidade hiper-produtiva dos asiáticos, e sintoma
do regresso à posição central que a Ásia ocupava antes do surgimento económico
“temporário” do Ocidente moderno (SOUZA, 2004, p. 20).

Gunder Frank ainda acreditou em seu texto que, não ter expectativas na Ásia
Oriental, em especial na China, é um erro da análise contemporânea, uma vez que isso seria
uma negligência da história.

Gunder Frank não se opõe apenas à visões amputadas porque limitadas e ao


estadocentrismo. Desafia-nos a acompanhar melhor a totalidade da experiência
humana e a analisá-la holisticamente. Aponta tanto para uma macro como para uma
micro-sociologia históricas como bases de qualquer teoria científica que pretenda
compreender e formular uma política para o mundo moderno. Faz apelo a uma
aproximação histórica do mundo, sem implicar que as actuais mudanças de
condições do sistema mundial sejam irrelevantes ou uma mera distracção. Defende
que o objectivo verdadeiro dessas aproximações é o de informar e enriquecer a nossa
compreensão e a ciência política para podermos orientar os processos socio-politicos
(sic) que existem hoje e que queremos para o futuro (SOUZA, 2004, p. 21).

Gunder Frank, por fim, concorda que a batalha oriental reside em:

“remodelar as instituições comerciais e financeiras mundiais, que estavam


destinadas pelos Estados Unidos a operar a seu favor. [...] Uma luta econômico-
política relacionada com isso é a concorrência entre os Estados Unidos e a China
para substituir o Japão, a Coréia e o Sudeste Asiático no mercado, tirando vantagem
de sua bancarrota.” (FRANK, 2005, p. 137).

Por fim, esclarece que não importa o tamanho da recessão japonesa, o seu poder
econômico não será eliminado, embora a China esteja tentando “reconstruir o comércio e o
sistema tributário da Ásia Oriental, em cujo centro ela estava no século XVIII e que as
potências coloniais desmantelaram no século XIX” (FRANK, 2005, p. 138). A China possui
graves problemas econômicos, no entanto, também possui estratégias para continuar capaz de
se manter forte e competitiva para superar os seus problemas. Gunder Frank finaliza, dizendo
que “é notável que as regiões mais dinâmicas economicamente da Ásia Oriental hoje também
são, ainda ou novamente, exatamente as mesmas de antes de 1800 e que sobreviveram no
século XIX” (Idem., p. 138). O autor enfatiza que a Ásia Oriental e principalmente a China
são peças chave do comércio mundial e da economia global e que o estudo das suas raízes
econômicas são fundamentais não só para compreender o desenvolvimento econômico dos
dias de hoje da região, mas para antever prováveis desenvolvimentos econômicos. Souza
(2004) conclui ainda de forma mais enfática o pensamento de André Gunder Frank:

Em conclusão, podemos dizer que temos em André Gunder Frank um economista e


um sociólogo macro-historicista, para quem existe um único sistema mundo e um
único processo histórico, que não podem ser reduzidos a (sic) últimos 500 anos.
Alteram ou alternam-se as fases hegemónicas (sic) e as categorias ideológicas.
Considera o surgimento de Europa e do Ocidente neste “sistema mundo” um
fenómeno relativamente recente, e talvez efémero (sic). Diz-nos que Europa
comprou o bilhete com a prata americana para entrar no comboio asiático. Desafia
assim o eurocentrismo e oferece uma alternativa humanocêntrica (sic). [...] André
Gunder Frank só acredita “francamente” numa história feita de uma só peça, que é
ecocêntrica e humanocêntrica (sic). Cita para nós o que disse Mikhail Gorbachev
num seu discurso para as Nações Unidas, “há muita unidade na diversidade”
(SOUZA, 2004, p. 28).

Referências Bibliográficas

FRANK, André G. Tigre de Papel, Dragão de Fogo. Aportes, Revista de la Facultad de


Economía, Puebla, ano. 10, n. 29, maio - agosto, 2005. Disponível em:
<http://www.eco.buap.mx/aportes/revista/29%20Ano%20X%20Numero%2029,%20Mayo-
Agosto%20de%202005/11%20Tigre%20de%20papel,%20dragao%20de%20fogo-Andre
%20Gunder%20Frank.pdf>. Acesso em: 04 dez.2020.

SOUZA, Teotónio R de. Gunder Frank revisitado: Um “sistema mundo” francamente único.
Revista Lusófona de Ciências Sociais, Lisboa, n.1, p. 19-29, 2004. Disponível em:
<https://revistas.ulusofona.pt/index.php/campussocial/article/view/176>. Acesso em: 04 dez.
2020.