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AULA ESPECIAL | FEV | 2019

INTRODU•°O ûS
12 CAMADAS DA
PERSONALIDADE
HUMANA

TRANSCRI•°O DAS LIVES @italomarsili

1
´NDICE

A ORIGEM DA TEORIA DAS 12 CAMADAS ______________ 3

UM CONCEITO VIVO, PULSANTE


E QUE SANGRA DEPESSOA _______________________ 4

O QUE ß PERSONALIDADE _______________________ 7

AS 12 MOTIVA•≥ES HUMANAS:
UMA ESCALADA ______________________________ 9

A 1a CAMADA DA PERSONALIDADE __________ 9

A 2a CAMADA DA PERSONALIDADE __________ 11

A 3a CAMADA DA PERSONALIDADE __________ 12

A 4a CAMADA DA PERSONALIDADE __________ 15

A 5a CAMADA DA PERSONALIDADE __________ 18

A 6a CAMADA DA PERSONALIDADE _________ 19

A 7a CAMADA DA PERSONALIDADE _________ 21

A 8a CAMADA DA PERSONALIDADE ___________ 22

A 9a E A 10a CAMADAS DA PERSONALIDADE ____ 23

A 11a CAMADA DA PERSONALIDADE _________ 24

A 12a CAMADA DA PERSONALIDADE _________ 25

2
A ORIGEM DA TEORIA DAS 12 CAMADAS
Sejam bem-vindos à nossa aula especial sobre a Introdução às Doze Cama-
das da Personalidade Humana. A idéia hoje é fazer uma introdução do as-
sunto. Será algo breve e direto, para que você possa entender do que se trata
as doze camadas. Você já deve ter me ouvido falar sobre isso nos stories e
nas lives e, se você fez parte do meu curso presencial para psicólogos, psi-
quiatras, coaches e intrometidos, aí sim, já me ouviu falar longamente sobre
isso; mesmo para você vai ser interessante, porque vou fazer um amarrado
mais direto, direcionado e resumido.

Se você digitar hoje no Google “As Doze Camadas da Personalidade Huma-


na”, encontrará um PDF de 19 páginas de autoria do Prof. Olavo de Carvalho,
cujo conteúdo é uma transcrição revisada de uma aula que ele deu há mais
de 20 anos.

Vamos começar pelo começo.

As Doze Camadas da Personalidade Humana é uma teoria do Prof. Olavo de


Carvalho na qual ele faz uma análise das motivações humanas e coloca os
elementos fundamentais para que possa ser uma psicologia geral. Mesmo
para uma pessoa que não seja técnica, que não seja um psicólogo ou peda-
gogo, tal assunto tem a máxima importância, porque é uma tipologia muito
específica para entender as motivações humanas. Ainda que você não seja
psicólogo ou pedagogo, o tema haverá de lhe interessar, pois permitirá que
você entenda suas próprias motivações, aquilo que o faz agir, e também as
pessoas com quem você convive no seu dia-a-dia — seus filhos, alunos, ma-
rido, esposa etc.

Como eu disse, se você digitar no Google, terá em mãos uma apostila do


Prof. Olavo cujo título é “As Doze Camadas da Personalidade Humana e as
formas próprias de sofrimento”. Nesse texto, o Prof. Olavo faz uma descrição
do que são as camadas e de como identificar a camada de uma pessoa a
partir do sofrimento que ela apresenta.

Hoje faremos um pouquinho diferente, afinal de contas o texto dele está dis-
ponível; se você quiser, pode procurá-lo e lê-lo. Antes de entrar propriamente
nas doze camadas, queria bater um papo e fazer uma reflexão mais profun-
da sobre o que é a personalidade humana.

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UM CONCEITO VIVO,
PULSANTE E QUE SANGRA
DEPESSOA

Se fizermos a pergunta “O que é personalidade?”, cada um provavelmente


terá sua própria definição. No linguajar comum, dizemos que determinadas
pessoas “têm muita personalidade” ou “pouca personalidade”. “Aquele ator
tem muita personalidade!” Ou então: “Nossa! Olha a personalidade desse
menino!”. Em geral, falamos de personalidade como uma marca de força: um
sujeito que tem muita personalidade é inabalável, tem idéias próprias. Essa é
uma definição muito pouco clara e pouco técnica. Tentaremos chegar a um
conceito de personalidade que sirva para todos nós, para que possamos nos
comunicar de modo mais direto.

Vamos começar a entender uma coisa que vem antes da personalidade, que
é o conceito de pessoa. E qual o motivo de aprender o conceito de pessoa an-
tes do conceito de personalidade? Porque pessoa é um conceito mais abran-
gente, e personalidade é aquilo que de próprio a pessoa tem.

Se tomarmos a história da Filosofia, da Psicologia, da Antropologia, veremos


dificultosas definições sobre o conceito de pessoa. Lá no início da Grécia,
vemos os filósofos gregos se interessando muito pelo mundo, pela physis,
pelo funcionamento do mundo; o interesse sobre o que é a pessoa ficava em
segundo plano. Existe um livro importante chamado Ética a Nicômaco, de
Aristóteles. Nele o filósofo escreve os princípios de funcionamento da pes-
soa, ou seja, se a pessoa age do modo descrito no livro, ela vai se aproximar
da felicidade.

Por outro lado, o sujeito que se afasta do que está descrito no livro vai tender
a ser triste e infeliz. É disso que se trata a ética: um tipo de operar, um tipo de
conhecimento, um tipo de conduta, de ação, de pensamento que aproxima o
sujeito da felicidade.

Mesmo nessa obra (Ética a Nicômaco) não existe uma definição clara do que
é a pessoa. Parte-se de uma intuição, eu sou uma pessoa, você é uma pessoa;
se eu me afasto desse agir, dessa conduta ética, eu vou me entristecer; se eu
me aproximo da conduta ética, eu vou me alegrar. Mesmo lá na Grécia, na
profunda Filosofia Grega, existe uma dificuldade de definir o que é pessoa.

Anos depois, 2.000 anos depois, perto do medievo, alguns filósofos voltaram

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a se interessar pelo conceito e definição de pessoa. Claro que havia aí um
intuito teológico, afinal de contas queriam definir o que eram as pessoas
divinas. Ora, se existe uma Trindade, são três pessoas; temos de entender
de fato do que se trata esse assunto para podermos definir o conceito teo-
lógico da Trindade, e dele deriva o conceito antropológico, também ainda
com certa impropriedade. No medievo, no século XII, define-se pessoa como
“substância individual de natureza racional”. No jargão técnico, em latim,
falava-se individua substantia rationalis naturae. Interessante, bonito! A gen-
te pode, entre uma cerveja e outra, lançar essa! Anote aí que essa vai servir
para um monte de coisa, você vai impressionar seus amigos. Porém, no fim
das contas, tal conceito não serve muito para a gente.

O primeiro problema: definir o que é substância. Em “substância individual”


há uma intuição. O que é uma pessoa? Definiram como “substância individu-
al”. É um indivíduo com uma natureza racional. O jeito dele, a natureza dele, o
mais próprio dele é ser racional, é conseguir usar a inteligência, o raciocínio.
Mas temos um problema aí. Muitos de nós conhecemos pessoas que não
agem quase nunca raciocinando, agem por impulso, pelo afeto ou não agem,
são passivas. Aí temos vários problemas para definir o que é pessoa.

Lógico que é uma definição muito técnica, muito objetiva, e a maior parte de
nós não é filósofa – só estamos interessados em conviver melhor com os nos-
sos amigos, com a nossa família, com os nossos filhos. Assim, o conceito de
pessoa para nós, que estamos operando no dia-a-dia com gente, com pessoa
de carne e osso e não só como questão de prova, precisa ser muito mais pró-
ximo. Ele tem de respirar, tem de ter carne, tem de sangrar se a gente passar
uma navalha no peito dele; tem de ser um conceito que a gente toque, que
conviva conosco, que sente à mesa e tome um café conosco. Não pode ser
um conceito distante, abstrato. Não é assim que eu trabalho, e vocês sabem
disso. Eu pego esses conceitos, essa erudição filosófica e trago aqui para a
mesa, para que a gente sinta, para que, chegando pertinho do conceito, a
gente sinta o bater do coração dele.

O conceito de pessoa é tal que precisaremos ir aos espanhóis do século


XX. Os filósofos espanhóis do século XX tinham uma idéia de pessoa muito
concreta, uma idéia de pessoa de carne e osso, e alguns deles são muito in-
teressantes para nós aqui. Alguns deles vocês já me ouviram mencionar: Ju-
lián Marías, filósofo espanhol que eu amo (ele está na minha assembléia de
vozes); também Ortega y Gasset, professor de Julián Marías. Ortega y Gasset
escreveu Rebelião das massas, um grande livro, vale a pena vocês darem uma

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olhada, é uma leitura que vai abrir a cabeça dos senhores. Coloque esse li-
vrinho debaixo do braço e, em vez de ficar jogando Candy Crush e perdendo
tempo, leia-o, trata-se de um livro excelente! Dica de amigo! Temos também
Pedro Laín Entralgo, um médico que escreveu um tratado sobre antropologia
fascinante. Esses espanhóis do século XX olharam para a pessoa não só num
conceito, mas para a pessoa de carne e osso.

Esse filósofos espanhóis, aperfeiçoados por Julián Marías, dizem o seguinte:


pessoa é instalação e projeto. Uma pessoa de carne e osso está instalada
num lugar e tem um projeto, tem uma projeção. “Veja, Italo, tudo é assim
na vida!” Não, meu amigo, claro que não. Pare para pensar no celular que
está aí na sua frente ou a telinha do seu computador. O objeto não tem uma
projeção; ele está fixo, estático na sua frente, está dado. Ele não tem um pro-
jeto, não tem uma intenção própria, nada disso. Você dispõe, você usa dele
conforme o seu interesse, e o objeto, via de regra, não opõe uma resistência
intencional. Com pessoa não é assim.

Quando você olha para um bebezinho, quando você olha para o seu filho,
para o seu sobrinho, para uma criancinha na praça, ela está instalada, ou
seja, tem um corpo, uma idade, uma altura, uma constituição física, possui
uma língua por meio da qual vai se manifestar e falar (é isso que são insta-
lações). Além dessas instalações, ela tem uma projeção, ou seja, essa criança
tende a ser alguém. Que bonito isso! Quer dizer, quando a gente olha para
uma criança, para um adulto, para uma pessoa humana, quer ela saiba, quer
ela queira ou não, ela tem um projeto, ela virá a ser. Ou seja, uma pessoa
humana não está perfeita, por assim dizer, ela não está feita por completo,
ela não está dada: ela tem de fazer a sua vida entre a sua instalação e os ele-
mentos que a constituem. Como diria Ortega y Gasset, “eu sou eu e minhas
circunstâncias”.

“Eu sou eu e minhas circunstâncias” significa o quê? Quando você olha para
alguém, quando você olha para um eu, ele não é apenas “eu”, ele é ele e
suas circunstâncias. Ou seja, aquela pessoa vai se fazendo consigo e com
o mundo. Isso é pessoa. A pessoa é instalação e vetor, instalação e projeto,
instalação e projeção.

Quando você olha para o rosto de alguém que você ama, quando está fitan-
do aquele rosto com certo amor, você não consegue saber exatamente o que
está dentro daquela pessoa a não ser que ela se manifeste, a não ser que ela
fale o que está por dentro dela. A pessoa humana tem um mundo interior ri-
quíssimo, que é um mundo de projeção, de tensão, de desejo e de frustração;
não é um mundo estático. É um mundo dinâmico, que tende ou à felicidade

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ou à infelicidade. Tende a se realizar ou tende a se frustrar, e isso é propria-
mente o que a gente chama de pessoa. Esse segundo conceito é menos téc-
nico, até mais confuso talvez; mas ele sangra, respira, está na nossa frente!

Ele é importante em todas as operações da nossa vida. Sempre que aborda-


mos alguém, um futuro amor, ou um atual amor, ou uma criança, ou um pai,
ou um parente, vamos abordar essa pessoa sempre pensando nisto: ela está
instalada num lugar, ela tem uma carga cultural, ela tem certa idade, ela tem
uma constituição física e tem um projeto, que eu posso de certo modo intuir
olhando para ela. Mas fica muito mais fácil de eu entender tal projeto se eu
conviver com essa pessoa! Se eu convivo com alguém, eu entro no projeto
vital dessa pessoa, porque ela vai me contar, porque eu vou ouvir, porque eu
vou ajudá-la, porque eu vou atrapalhá-la, porque eu vou estar ali na tensão
encarniçada do que é a convivência humana. ESSE é o conceito de pessoa
com o qual vamos trabalhar.

O QUE ß PERSONALIDADE
Isso tudo para a gente chegar, no fim das contas, ao que é a personalidade.
Dentro do palco de operações que é a pessoa, existe algo que é propriamen-
te seu e só seu: só você tem isso. “Eu sou eu e minha circunstância”, mas a
circunstância é igual para muitas pessoas. Estamos eu e minha irmã aqui;
ela está gravando este vídeo aqui na sala, temos uma circunstância espacial
muito parecida. Temos também uma circunstância etária semelhante, quer
dizer, a diferença de idade entre nós é pouca. Mesmo a nossa carga heredi-
tária, de família, é próxima. Claro que há determinações específicas, eu sou
eu e ela é ela; sou uma substância individual e ela é outra. Embora tenhamos
uma circunstância espacial muito semelhante, nós temos uma instalação
que difere, porque eu estou instalado em mim e ela está instalada nela.

O que quero dizer: aquilo que eu coloquei para dentro da minha pessoa de
modo próprio é o que chamo de personalidade. Eu queria que vocês fixas-
sem a imagem que vou criar aqui de tal modo que pudessem repetir isso
uma e outra vez e não se esquecer mais. O que é a personalidade? É aquilo
que de próprio você tem em você.

Vamos imaginar um tecido, um pano bonito, um pano castanho. Esse pano é a


sua pessoa. Imagine que estamos bordando uma imagem nesse pano; temos
uma agulha, atrás da qual passa uma linha, e ela vai costurando e enfiando
para dentro do pano uma linha. Não é assim? No final, temos o desenho, o

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bordado instalado, inscrito no pano. O pano é a sua pessoa; a agulha que vai
colocando para dentro a linha é a sua psique, esse elemento articulador; a
linha é o que vamos chamar de mundo. Temos o mundo passando pela gen-
te, o ambiente externo, a nossa circunstância, o que falam, o que nos dizem,
o que nos fazem sentir, enfim, e a nossa psique pega os elementos externos
do mundo e vai alinhavando, vai colocando para dentro. Então, temos uma
psique que costura o mundo, que alinha no pano (que é a nossa pessoa), que
vai deixando ali algo próprio, deixando uma marca absolutamente própria
que é o bordado; isso é o que a gente chama de personalidade. A personali-
dade é articulação entre mundo e pessoa feita pela psique.

Não esqueça disso. Com essa imagem, quando vocês estiverem olhando uma
pessoa, existe ali aquilo que é, por assim dizer, não personalizado; e aquilo
que é mais personalizado, aquele conjunto de crenças, de idéias, aquilo que
vai por dentro dela, o seu mundo espiritual, seu mundo psicológico, seu
mundo afetivo, aquilo vai por dentro, é aquilo que ela colocou em si; isso é
a personalidade, aquilo que ela tem de mais próprio. Aqui entramos, então,
nas doze camadas. Vamos entender as camadas como aquilo que motiva o
sujeito a agir, as motivações mais próprias daquele sujeito. Ou seja, o mundo
todo acontecendo, vários elementos passando por aquela pessoa, passando
por mim, passando por você, e eu escolho colocar para dentro de certo modo
ou escolho me manifestar de certo modo. Esse certo modo é a sua motivação.

Como você vai agir nessa circunstância em concreto? Não é de qualquer


modo que agimos. Se você já reparou que é assim ao longo da sua vida, se
você amadureceu, você nota que um monte gente diz: “Agora eu escolhi ser
feliz, não escolhi ter razão”. Que mudança esquisita é essa? “Antes eu só pen-
sava em dinheiro, agora eu penso em outras coisas, agora o que me motiva é
a boa convivência com os outros, é a religião, é o amor a Deus.” Não é assim
que funciona? As motivações não vão mudando? Aí reside o ponto!

Ao longo da vida o ideal é que fôssemos mudando as nossas motivações. No


total são 12 motivações (12 motivações autoconscientes) possíveis ao homem.
Ou seja, o sujeito pode agir, pode operar de 12 modos diferentes ou com 12
motivações diferentes. Essa é a teoria das 12 Camadas da Personalidade Hu-
mana. Se você ler a apostila do Prof. Olavo de Carvalho, você vai ver tudo
muito bem descrito ao longo das 19 páginas. Aqui a nossa idéia é deixar isso
um pouco mais próximo, um pouco mais presente para nossa vida cotidiana
e fazer um resumão amarrado com a pequena introdução anterior do que é
a personalidade.

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AS 12 MOTIVA•≥ES HUMANAS:
UMA ESCALADA

A 1a CAMADA DA PERSONALIDADE

Abordaremos aqui quais são as camadas. Vamos falar da 1.ª à 12.ª e como
elas funcionam. Vamos tentar particularizar a abordagem para o nosso inte-
resse pessoal, para que possamos operar bem, com maturidade etc.

Vamos entender como funciona a primeira camada da personalidade huma-


na. A primeira e a segunda camadas são um pouco diferentes, são um pouco
curiosas, porque as suas motivações não são conscientes. O Prof. Olavo colo-
ca a primeira camada da personalidade humana como Astrocaracterologia.
O que é isso? Aqui precisaremos fazer um mergulho profundo na meditação
sobre coisas do mundo e infelizmente não temos linguagem própria para
tratar sobre isso hoje. Imagine que você está com uma xícara de café, que
é um objeto, feita com um material específico. A gente tende a falar assim:
eu pego a xícara e bebo o que está dentro dela; eu uso esse objeto. Isso está
100% certo. Vamos olhar por outro ângulo.

Ao mesmo tempo em que eu desejo pegar a xícara com café e eu a coloco na


minha boca e bebo, podemos dizer também que a xícara deseja ser bebida.
Que interessante! Não paramos para pensar assim no nosso tempo. A gente
vive hoje num mundo utilitarista, num mundo prosaico, num mundo em que
a poesia, o lirismo de algum modo estão em falta. Ora, é disso que tratam
os poetas: eles olham para os desejos do mundo e fazem poesia, descrevem
exatamente esse movimento. Por que eu estou falando disso tudo? Porque,
assim como a xícara deseja ser bebida, ou seja, existe algo nela que deseja
aparecer no mundo, existe nela algo que faz com que ela seja realizada en-
quanto xícara, do mesmo modo nós temos características que antecedem a
própria aparição de um corpo que fazem com que nos manifestemos de um
jeito e não de outro. É exatamente assim que funciona.

Uma pessoa que tem uma constituição física, por exemplo, tem uma consti-
tuição moral, intelectual, vai se manifestar de certo modo, ou seja, ela tem ap-
tidões físicas, morais, intelectuais que tendem a aparecer. Quer dizer, o fato
de ela aparecer no mundo já faz com que apareça para ser usada ou para
funcionar de modo distinto de outro; isso não é exatamente a genética, é an-
terior à genética. O Prof. Olavo fala o seguinte: a ciência que daria conta de
explicar esse funcionamento anterior ou essa tensão interior, essa instalação
e projeção anterior a tudo é propriamente a Astrocaracterologia. Quer dizer,

9
talvez a comparação entre os astros e o caráter e a personalidade da pessoa
desse conta de dizer como ela tende a funcionar. Esse é um dos assuntos da
astrologia, a pretensão de relação entre as qualidades e características dos
astros e o funcionamento da pessoa, do sujeito.

Ora, se dá para prever, se não dá, se isso é validado ou não, é outra questão.
Mas o importante é entender o seguinte: existe um jeitão de a pessoa se ma-
nifestar que é anterior mesmo a ela, que é anterior à consciência, ou seja, a
pessoa tem mais facilidade de agir de certo modo do que de outro, e não há
nada capaz de mudar isso. Algumas pessoas são de um jeito; algumas pesso-
as são de outro. Isso é a primeira camada. A motivação da primeira camada
não é, por assim dizer, consciente, e sim própria do sujeito, uma motivação
que é anterior a tudo. Assim como se pode dizer que a xícara tem uma moti-
vação, uma motivação de ser pegada e bebida, ainda que não seja uma moti-
vação, porque ela sequer tem consciência, mas a própria forma da xícara faz
com que ela tenha um desejo de ser usada assim. A mesma coisa acontece
conosco: cada um tem um jeito de aparecimento, como se fosse um tipo de
motivação, um jeito de funcionar no mundo que vai ser assim e vai continuar
desse jeito até a morte, e não há nada que possa mudar esse assunto.

É bom dizer que isso em nada tira a nossa liberdade, já para matar eventuais
críticas. Isso aí é o que você é. É o mesmo que dizer o seguinte: “O fato de
você ter 1,76 m vai tirar a sua liberdade de ser jogador de basquete”. Meu fi-
lho, não é que “vai tirar a minha liberdade de ser jogador de basquete”, o fato
é que eu tenho 1,76 m! Essa é a minha constituição; eu não tenho 1,90 m, não
tenho 2,10 m! Eu não vou conseguir, pela minha altura, entrar na NBA, na liga
de basquetebol americano. Está lá, é pré-requisito, precisa ter mais de 2 m de
altura, senão você está fora do páreo. Claro! Eu também dificilmente vou ser
jóquei — o cara tem de ser baixinho para não pesar em cima do cavalo. Em
que isso tira a liberdade? Em nada! Pelo contrário, é isso que o inscreve na
realidade. Você é isso aí e não outra coisa. O fato de eu ser homem me tira a
liberdade de ter um filho no meu ventre, gestar por 9 meses um filho no meu
ventre? Não! É justamente isso que define o que sou; não sou uma mulher, eu
sou um homem. Isso não tira em nada a liberdade, isso apenas lhe dá certas
características de instalação a partir das quais você vai operar e construir a
sua personalidade.

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A 2a CAMADA DA PERSONALIDADE

A segunda camada é interessante como a primeira. É um tipo de motivação


quase que inconsciente. Ao passo que a motivação da primeira camada é
constitutiva, a segunda camada é um pouco diferente, porque é a camada
da hereditariedade; não a hereditariedade entendida como genética, não
a hereditariedade entendida como a questão dos cromossomos, como que
isso se manifesta etc. Não é bem isso.

Para entender bem a segunda camada da personalidade humana, recorrerei


a um conceito teórico de um psiquiatra húngaro chamado Lipot Szondi (ou
Leopold Szondi). Você dificilmente vai encontrar algum material de Szondi
traduzido para o português. Existe um livro dele traduzido e publicado pela
É Realizações chamado Introdução à Psicologia do Destino, no qual o autor
explicita a sua Teoria do Inconsciente Familiar.

Ao passo que o Dr. Freud fala do inconsciente pessoal e o Dr. Jung discorre
sobre o inconsciente coletivo, o Dr. Szondi diz ser possível explicar as mo-
tivações de uma pessoa se entendermos que os antepassados pedem para
que ela repita os seus sucessos e os seus fracassos. Essa é a teoria do Dr.
Szondi – não estou dizendo que acredito nela, nem que não acredito. Estou
explicando uma maneira de entender a segunda motivação, que é a forma
sugerida pelo próprio Prof. Olavo.

Indo ao Dr. Lipot Szondi, entendemos que existe na operação básica do su-
jeito uma certa tendência a repetir processos dos seus antepassados. Aqui
na introdução eu não vou falar da minha contribuição pessoal à segunda
camada, na qual eu ponho outra referência teórica, nem da Constelação Fa-
miliar, de Bert Hellinger — esse não é o meu referencial teórico. Falo de outro
referencial que eu não vou abordar aqui agora.

A segunda camada da personalidade humana é justamente a camada do


inconsciente familiar abordada teoricamente pelo Dr. Lipot Szondi. Ou seja,
uma parte das suas operações aparece através de um sucedâneo, quer dizer,
é como se fosse uma linha contínua dos seus antepassados que desembo-
ca em você e, quando você percebe, se pega agindo de um modo que você
nem sabe exatamente como ou por quê. Segundo Szondi, trata-se do palco
giratório, no qual cismam em reaparecerem os desejos e as tensões dos seus
antepassados. Você tem de alguma forma dar tratos a essa bola, para que
ordene ou coordene aqueles impulsos negativos e amplifique e cultive os
positivos. Existe certa psicodinâmica, certa abordagem psicoterapêutica que
tenderia a conhecer, a ver e a ordenar esses impulsos e tensões.

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Tanto a primeira como a segunda motivações (a primeira e a segunda cama-
das) estão fora do seu controle. Não estão na sua mão, quer dizer, você não
pode fazer muito sobre isso, você não coordena os seus antepassados, você
não coordena aquela sua constituição física que talvez tenha uma corres-
pondência com os astros ou não. Você não tem acesso a isso, mas você pre-
cisa lidar com isso até o fim da vida. É como se fossem duas camadas cujas
tensões estão sempre com você; você tem um corpo que vai se manifestar de
certo modo. A primeira e segunda motivação estão com você. As técnicas de
abordagem a essas camadas – a Astrocaracterologia e a Psicologia do Desti-
no – são muito mais diagnósticas do que terapêuticas, nós as usamos muito
mais para entender o material bruto de que dispomos, a nossa constituição
enquanto pessoa, para que possamos construir uma personalidade de fato
madura com aquilo que temos na mão. Quer dizer, a gente não tem acesso
direto a essa motivação, e sim um conhecimento possível dessa motivação
intrínseca e não consciente do sujeito.

A 3a CAMADA DA PERSONALIDADE

A história começa a ficar interessante agora, ao entrar na terceira camada.


Na terceira motivação começa, pela primeira vez, a aparecer o elemento pró-
prio de consciência. A motivação da terceira camada da personalidade hu-
mana já é consciente: é do aprendizado.

Alguém poderia dizer: “Italo, engraçado, eu adoro aprender, eu adoro estu-


dar, o que me motiva é aprender!” Mais ou menos, né, amigo! Você aprende
para ganhar dinheiro, para se mostrar para os seus amigos, para passar no
concurso público, por outros motivos, porque você é curioso e gosta de se
sentir bem. O aprendizado da criancinha não tem esse ganho secundário;
ele aparece justamente como uma motivação primária.

A criancinha aprende porque o que ela sabe fazer é só isso! É a grande fase
dos porquês. Para a criança, saber, aprender, é tudo numa certa fase do seu
desenvolvimento. Ela está relacionando tudo; é quando a criança se entre-
tém com aquele brinquedinho de encaixar o triângulo, o quadrado, o círculo
no buraquinho correspondente etc. Aquilo é o mundo da criança! Um adulto
normal olha para aquilo e se pergunta como a criança consegue ficar ali
tanto tempo. Imagine um adulto fazendo uma brincadeira dessa. Adulto gos-
ta de brincadeira elaborada. Os jogos educativos que criança tem hoje em
dia só servem para criança mesmo. Por quê? Porque aquilo ali é tudo para a
criança, você está dando ferramentas de cálculo – não cálculo matemático,

12
mas um cálculo de relacionamento –; ela está relacionando o mundo, está
lidando com o mundo, isso é tudo para ela! Para um adulto, isso seria um
teste de paciência. Para a criança, não! Ela acha o máximo! A criança está,
no mundo, motivada a calcular, a aprender. Esse é o tipo de motivação do
aprendizado — não o seu, mas o da criança.

Um adulto não tem mais essa motivação. A sua motivação é se sentir amado,
a sua motivação é ganhar dinheiro, é ter prazer com aquela comida que está
na sua frente. A criança, absolutamente, não! A motivação da terceira cama-
da é a do aprendizado pelo aprendizado, e ainda não é um aprendizado in-
telectual, mas o aprendizado mais básico, aprendizado de cálculo do mundo.
A criança está entendendo como o mundo funciona, qual o seu tamanho, o
que pode fazer nele. Por isso, é interessantíssimo para uma criancinha pegar
uma pirâmide e ficar tentando enfiar dentro do triângulo daquela casinha.

Uma pessoa, por mais infantil, mais imatura que seja, um sujeito que passou
dos 10, 12 anos, não consegue mais fazer um negócio desses. “E videogame?”,
poderiam perguntar. Videogame é outra história. Não é o mesmo cálculo. A
pessoa está ali inserida em toda uma dinâmica com uma série de elementos
de gosto, de desejo, a pessoa fica vibrando, quer ganhar, é outra coisa. Nes-
ses joguinhos educativos de criança pequena sequer entra o elemento de
disputa e de ganhar.

Uma pessoa que já passou dessa fase ou que não tenha uma lesão cerebral
grave não está mais presa na terceira camada. Alguns autistas graves e al-
gumas pessoas com retardo mental ou com lesão em alguns lugares especí-
ficos do cérebro podem estar presas ou voltar para a terceira camada. Tudo
para a pessoa volta a ser esse aprendizado mais básico da sua operação no
mundo. Como aprendo a articular a minha musculatura, o meu aparelho fo-
nador, como faço para poder falar, isso é elemento da terceira camada.

Um sujeito adulto não se põe essas questões de modo consciente, isso não
é mais a motivação dele. Um sujeito adulto fala, mesmo que de modo im-
preciso, já está falando, está se comunicando. Uma criancinha tem muita
dificuldade para conseguir se expressar, porque ainda não está madura, a
sua mãozinha não responde direito, a sua boquinha não responde direito,
então toda a história da motivação de uma criança até os 4, 5, 6 anos é a da
conquista desse lugar no mundo, que lhe dá o cálculo, mais ou menos, im-
preciso.

Uma criança que consegue se entreter passando círculos de um lado para


o outro num arame ainda tem essa motivação. A motivação não é outra ain-

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da. Então, ela não vai entender motivações como a de ganhar dinheiro. Por
exemplo, imagine que você está com uma criança pequena e está tentando
lhe dar comida. Você quer convencer o seu filho, o seu sobrinho ou o seu alu-
no a abrir a boquinha para ele comer. Você, muito esperto, pois é um adulto,
vira para esse sujeitinho e fala assim: “Que coisa horrível! Você está despre-
zando comida enquanto todas aquelas pessoas da África passam fome!”.

Pare para pensar. Essa criatura brinca com círculo de madeira que passa
num arame. Essa é a motivação! A criança não sabe o que é passar fome, não
sabe o que é África, não sabe o que é sofrimento. Esses não são os concei-
tos com os quais ela trabalha. Não adianta querer convencer uma criança a
abrir a boca porque os molequinhos na África passam fome, pois ela não se
motiva por isso, ela ainda não tem formados os conceitos intelectuais de mi-
séria, de sofrimento, de criancinha na África. Ela não sabe nem o que é Áfri-
ca! Ela nunca viu a África, ela não sabe o que é fome — você não deixa essa
criatura passar fome. Não há como convencer uma criança a comer fazendo
esse discurso louco. Isso só pode estar na cabeça de um adulto.

Daí você entende como é importante saber quais são as motivações do ser
humano. Se você não entende que existem etapas de motivação, você vai
querer motivar o sujeito de um modo que ele simplesmente não pode entre-
gar, porque ele não está entendendo o que você está falando. Uma criança
de 4 anos não entende o que é fome na África, meu Deus do céu! Você preci-
sa tomar outra atitude para ela comer.

A motivação básica de uma criança de 3 anos é organizar o mundo. Por isso,


em termos de educação de filho até os 5, 6 anos, você só tem de organizar
um mundo material para ele. Sono, higiene, alimentação e ordem, é só isso.
Quando você põe essas coisas em ordem, a criança fica organizada, porque
você limpa a sujeira. Você põe o mundo material organizado, de tal modo
que ela tenha calma para amadurecer esse cálculo. É assim que se educa
filho, até 5 ou 6 anos, isso é tudo. Quanto ao restante, não importa. “Ah, olhe
para a tia e diga obrigado!” A criança vai falar obrigado naquela hora e no
minuto seguinte dar um cuspe na cara da tia, está tudo desorganizado. Não
adianta ficar cismando com isso, porque a criança ainda não formou o con-
ceito da boa educação. Ela não tem isso. Tudo o que ela tem é o mundo ma-
terial e os seus músculos, os seus nervos tentando se localizar neste mundo.
Deixe a criança limpa, sem fome, sem sono, organize o mundo externo que a
coisa vai funcionar.

14
A 4a CAMADA DA PERSONALIDADE

Quanto à quarta camada, gravei uma aula só sobre ela, então não me es-
tenderei. O título da aula – “Como sair da quarta camada em um dia” – não
é figura de linguagem. Claro que o nome poderia parecer uma jogada de
marketing. Mas dá para sair e não é preciso nem um dia. Dá para sair num
instante da quarta camada.

Citando o Prof. Olavo, só se pode sair da quarta camada na vida adulta com
psicoterapia, e ele tem razão. O que eu estou fazendo aqui é um tipo de psi-
coterapia. Sozinho, o sujeito não sai. Você tem de ser conduzido. O que não
significa que você precise se sentar num divã para sair da quarta camada.
Aplique o exercício que eu passei na aula “Como sair da quarta camada em
um dia” e você sairá da quarta camada em um dia, se quiser. Lógico, tem de
fazer o exercício, não adianta somente ouvir a aula.

Na primeira camada você tem um corpo; na segunda é que se manifesta; na


terceira camada, aprende; agora que o sujeito já está mais ou menos orien-
tado no mundo, ele nota que aparece um negócio dentro dele. O que é?
Fome? Não. Não é uma sensação bruta; trata-se de uma sensação diferente,
é o mundo da afetividade que começa a aparecer dentro dele. Ele começa
a notar que existe ali certo tipo de sofrimento que vem de um afeto, de um
afeto não preenchido, de um afeto não recebido.

Ou seja, um sujeito que passou pela sua segunda infância – e aí já é uma


infância um pouquinho estendida, dos 6 até os 8, 12 anos, não há uma cor-
relação cronológica muito exata, depende do tempo, depende da família –
sem receber um tipo específico de afeto dos pais vai ter problemas na vida
adulta. Ele vai ter um tipo de sofrimento na adolescência e na vida adulta até
resolver esse problema. Que tipo de afeto é esse, ou que tipo de abordagem
é essa, que o sujeitinho deveria ter recebido quando criança e sem o qual vai
apresentar o sofrimento próprio da quarta camada, ficando aprisionado lá
até resolver a questão? Que tipo de abordagem é essa? O afeto mais próprio
que um pai e uma mãe têm de entregar para o seu filho é um afeto abnega-
do, constante, gratuito e benévolo. Essas são as características do afeto que
o pai precisa entregar para o seu filho.

O que isso significa? O pai e a mãe deveriam estar na vida do filho mais do
que para fazer que ele passe bons momentos, jogue bola, role na grama, dê
pirueta, mais do que isso. Isso aí criança faz com amigo. Um velho barbado,
uma mulher com pelanca, vão ficar rolando na grama? Não é isso o que im-
porta na relação de pai e filho. O próprio da relação de pai e filho, o que só

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você pode fazer pelo seu filho, é o seguinte: você tem de ser um solo seguro
no qual ele vai se movimentar para poder se desenvolver. Você tem de dar
sobretudo uma segurança estável para essa criatura, ou seja, não ficar mais
preocupado com vizinho do que com seu filho quando eles fizerem uma bes-
teira lá no parquinho. Digamos que o seu filho pegou o carrinho da mão do
amiguinho. Como você não quer que o seu vizinho ache que você é um mau
pai, você fala assim: “Pedrinho, devolve o carrinho para o seu amigo agora!”.
Você sabe se o correto é devolver? Você observou a cena? Vai que o seu fi-
lho estava esperando a vez para brincar com o carrinho, aí vem o Joãozinho,
aquele demônio do terceiro andar, e pega o carrinho. O que o seu filho fez?
Ele tomou o carrinho, pois era a sua vez! O seu filho está certo! É a vez dele!

Só que você, porque está mais preocupado com o vizinho do que com a edu-
cação do seu filho, ordena: “Devolva o carrinho”. Você foi injusto com o seu
filho. Você não é mais aquele solo seguro, você rompeu o elemento de pre-
visibilidade. O seu filho esperou pela sua vez, e você, por não querer passar
por um pai que não presta atenção, o mandou devolver o carrinho. Isso lesou
a educação do seu filho, ele não sabe se pode mais contar com você. Ele já
passou da terceira camada, ele já aprendeu a calcular, ele já sabe mais ou
menos do que o mundo é feito, ele sabe o que é um antes e depois, ele sabe
o que ele tem de esperar. Está entendendo? Ele já tem certa constância do
mundo, o mundo para ele já está mais ou menos fixo, está seguro. Ele já sabia
que o próximo a pegar o carrinho seria ele. Isso é o natural, é assim que a
ordem do mundo se desenrola. E aí vem uma interferência externa daquele
que devia garantir o amor, daquele que devia garantir a segurança, daquele
que devia garantir o afeto.

Essa interferência externa não só não garante como rouba, toma, abre, re-
parte, despedaça, tira a segurança da criatura. Todos nós no Brasil passamos
por pais desatentos que provavelmente não tinham esse amor constante,
abnegado e benévolo. Ou seja, provavelmente todos nós aqui, ou uma parte
de nós, de algum modo tivemos algum tipo de lesão no ambiente domiciliar,
familiar. Ou muitos de nós somos pais assim também. Então, você não sai da
quarta camada enquanto não experimentar esse tipo de afeto constante, ab-
negado, generoso, benévolo; enquanto não experimentar esse tipo de afeto,
você não fecha um contorno no seu coração, você tem ali um buraco aberto.
Você tem dúvida se o mundo é bom, você tem dúvida se dá para confiar,
você tem dúvida neste mundo. Você fica toda hora querendo validar o que
está sentindo ou o que está fazendo pelo sentimento do outro. Isso é a quarta
camada. Qual a motivação do sujeito que está na quarta camada? Ele vai va-
lidar as suas ações, os seus sentimentos pelo afeto do outro, pelo carinho do
outro. Tudo ele acha que é pessoal, que é auto-referente, ele acha que tudo

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diz respeito a ele. Ele não consegue entender que existe um mundo objetivo
que está acontecendo independentemente do que ele está sentindo.

Temos de querer sair desse lugar o quanto antes. A linha teórica que trata da
quarta camada é a psicanálise. A psicanálise freudiana está falando da quar-
ta camada. Aqui entra o conceito de transferência, tão usado e abusado. O
que é o conceito de transferência em terapia? Muita gente acha que transfe-
rência é quando o paciente se dá bem com o terapeuta; quando o terapeuta
gosta do paciente, a gente fez uma “contratransferência”. Isso é explicação
de botequim. Não é o conceito de transferência.

A terapia foi desenvolvida de um modo habilidoso e, no momento em que o


paciente coloca o terapeuta no lugar do seu pai ou da sua mãe, aconteceu
a transferência. Isso é ruim ou é bom? Isso é fundamental para o processo
se resolver. Se houver a transferência e o terapeuta conseguir controlar a
técnica, ele fecha esse circuito, ele consegue fechar esse contorno e o pa-
ciente pode sair da quarta camada. Claro que o conceito das Doze Camadas
é estrangeiro, estranho; a maior parte dos terapeutas nunca ouviu falar so-
bre isso e fica meio às cegas, não sabe exatamente o que fazer no momento
da transferência. O momento da transferência é aquele momento no qual o
terapeuta – sem medo – tem de ser benévolo, constante e dar segurança ao
paciente. Esse é o momento no qual vai acontecer o fechamento da quarta
camada. Fechou a quarta camada, o paciente vai para a próxima.

Como eu disse, descrevi aqui um processo no ambiente terapêutico, dentro


de consultório, no divã. Mas existe outra forma de fazer, sobre a qual falo na
aula “Como sair da quarta camada em um dia”. Ao sair da quarta camada, o
sujeito vai para a quinta.

Novamente, na primeira camada temos um corpo; a segunda camada é a


que se manifesta; a terceira camada, a que aprende; a quarta camada é a
que contorna o seu domínio de afeto interior, em que se ganha uma estabi-
lidade interior. A terceira é uma estabilidade da sua relação com o mundo; a
quarta camada é uma estabilidade interior. Você não precisa ficar toda hora
validando as suas ações pelo afeto do outro, porque há um afeto que ficou
estável por meio da benevolência e do amor. Quando esse afeto está con-
tornado, quando esse mundo interior está bem resolvido, pela primeira vez
ele desloca a sua motivação para o mundo externo, ele olha para o mundo
externo e fala: “há um mundo em que eu tenho de me autodeterminar”.

17
A 5a CAMADA DA PERSONALIDADE

A quinta camada é a motivação da autodeterminação do Ego.

Ou seja, o sujeito tem de levar a sua conduta, a sua força, até que ela esteja
identificada com os arquétipos superiores da manifestação do eu. Mas você
não precisa saber disso; o que precisamos saber é que, na quinta camada, o
sujeito está testando a sua força no mundo, ele virou um rebelde. É a camada
própria dos adolescentes. O que não significa que todo adolescente esteja
na quinta camada.

Vamos entender exatamente como funciona a quinta camada. Agora você


tem uma estabilidade interior e olha pela primeira vez para o mundo exter-
no, quer dizer, o mundo da objetividade aparece de certo modo pela primeira
vez quando você tem tal motivação. Qual a motivação em si da quinta cama-
da? É você validar não mais o seu afeto, mas a sua força; você vai encontrar
certos inimigos e vai se testar com eles; você vai se testar por meio de uma
discussão verbal, vai testar a vida pela força física, pela implicância. Testar
a sua força no mundo, essa é a quinta camada da personalidade humana,
a quinta motivação do sujeito. Isso deveria idealmente aparecer, como eu
disse, nos adolescentes. Mas nem todo adolescente está na quinta camada.

Muitos adolescentes ainda estão na quarta camada, ainda precisam validar


seus afetos, naquele mundo da interioridade mal resolvido, que não está
100% completo; trata-se de um sujeito que precisa de validação o tempo todo.
Se o sujeito está validando a sua força, está se testando no mundo, ficou meio
brigão, deslocou um pouco do seu pai, isso é saudável, ele está amadurecen-
do. A gente sabe que às vezes é mais chato conviver com alguém da quinta
camada do que da quarta, porque na quarta camada um beijinho resolve. Na
quinta camada, não! O sujeito precisa testar a força dele; ele estava sofrendo,
ele precisa vencer, senão continua sofrendo; ele precisa achar que é forte,
precisa testar sua força, ele valida sua força com o mundo.

Em muitos casos, um beijo na pessoa que está na quarta camada resolve a


questão; é mais fácil conviver com uma pessoa assim do que com uma que
está na quinta camada. Mas a pessoa da quinta camada está amadurecendo,
está no processo mesmo de amadurecimento, está saindo daquele processo
da auto-referência e indo para o mundo objetivo, que é o mundo no qual to-
dos nós estamos. Todos estamos no mesmo mundo, e é mais fácil conversar
com um quinta camada quando ele está calmo do que com um quarta cama-
da, pois este só tem as suas auto-referências; está tudo meio bagunçado na
cabecinha, ele ainda está se autovalidando. O quinta camada já está fazendo

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referência ao mundo exterior; a referência de um quinta camada ainda é ele,
mas é ele em relação ao mundo exterior.

Pense num adolescente e você vai entender bem a quinta camada. É chato,
mas você vê que ele já tem mais força, que está ganhando uma segurança.
“Em alguma coisa eu realmente sou forte, sou melhor, eu tenho essa força, eu
consigo”; por isso as artes marciais são importantes para o adolescente, para
a criança. Ali ela está se testando, se confrontando num ambiente seguro,
num ambiente controlado, num ambiente de academia, de ringue, existe re-
gra. Para ele não importa; ele está validando a sua força. Quando essa força é
validada, ao notar que de fato possui uma força, a sua motivação pode alçar
vôos mais mais maduros.

A 6a CAMADA DA PERSONALIDADE

Qual a motivação da sexta camada? O sujeito que está na sexta camada já


validou a sua força, já sabe que tem certa capacidade, certa força, mesmo
que ela seja inútil – “Ganhei uma discussão, ganhei um debate, ganhei um
campeonato de judô”. Ele já testou, ele tem uma segurança em certo domínio.
Ele vai agora colocar as suas capacidades a serviço da conquista de um bem
objetivo. É a camada do sujeito que vai trabalhar e o que ele quer é ganhar
dinheiro. Ele não quer mais que o patrão fale bem dele, ele não quer mais ser
o funcionário do mês, se isso não gerar algum lucro financeiro. E daí que sou
o funcionário do mês? Não quero nem que você me dê valor, só quero ga-
nhar dinheiro para poder botar comida em casa para o meu filho ficar bem,
para poder comprar meu carrinho, para pagar a prestação da minha casa.

Você entende a diferença? O cara não precisa mais da validação da foto. Fun-
cionário do mês é validação de força, mesmo que o cara não ganhe nada.
Isso aqui é trocar; você dá um biscoitinho para o cara poder se automotivar.
Um sujeito que está na sexta camada não precisa de biscoitinho de cachor-
ro para se motivar. “Dê-me dinheiro que é melhor, não precisa botar minha
cara aí não; eu troco a minha estampa ali por dinheiro, me dá cinquentão
que eu prefiro, porque com cinquentão eu pago a comidinha dos meus fi-
lhos.” Há uma diferença grande da quinta para a sexta camada, sobretudo
da quarta para a sexta. A sexta camada é a objetividade mesma, é o sujeito
lutando por conquistar capacidades, conquistar habilidades que o instalam
melhor na sua aptidão, na sua vocação.

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A sexta camada diz respeito ao mundo objetivo. Outro dia eu falava que no
Brasil a educação é um caos. Nossos alunos vão mal em todos os testes in-
ternacionais; no PISA, por exemplo, estamos sempre em penúltimo ou último
lugar. A maior parte dos professores universitários, dos sujeitos que se for-
mam como professores, é analfabeta funcional. O curso de Pedagogia atrai
os piores alunos do Ensino Médio. E, curiosamente, o Brasil é um dos países
que têm a maior porcentagem do PIB investido em educação. Ora, se tem
dinheiro entrando na educação, qual o problema, então?

O problema é que os professores não conseguem ensinar. E eles querem


transmitir esse problema para o aluno: “Meu aluno não consegue aprender”.
Meu filho, essa é a sua profissão! Qual o seu ofício? Tirar o sujeito da ignorân-
cia para a sabedoria, tirar o sujeito da burrice para a inteligência. É a mesma
coisa o médico dizer a um paciente “Mas a febre não melhora”. Meu amigo,
esse é o seu trabalho, é você que tem de dar o diagnóstico e fazer a febre
baixar. “Italo, você já entrou numa sala de aula de periferia, com 40 alunos?”
Por acaso já, várias vezes eu já entrei e dei aula. Apesar de ser médico, já en-
trei, já lidei com situação barra pesada. O trabalho do professor é justamente
pegar a massa ignorante, a massa mal educada e educá-la, levá-la para a
sabedoria. O professor diz: “eu não consigo!”. Pois eu digo que não consegue
porque não tem habilidade. Não consegue – quarta camada aqui! – porque
acha que o fato de você ser professor lhe dá imediatamente certa autoridade,
todo mundo deveria respeitá-lo e valorizá-lo só porque virou professor, só
porque virou médico, só porque virou advogado.

Isso é coisa de quarta camada: você está auto-referente ao extremo. As pes-


soas não estão se importando com o cursinho que você fez, seja de Medici-
na, seja de Direito. Um bacharelado qualquer coisa aí... E daí, cara? A gente
quer o seguinte: você sabe? Você tem as competências que desenvolvem
a sua vocação? Você luta por conquistar habilidades no dia-a-dia? Essa é
a pergunta da sexta camada. E daí que eu sou advogado, e daí que eu sou
médico, e daí que eu sou professor; estou olhando para o que estou fazendo
e tenho de fazer melhor, para poder ter mais resultado, para poder ganhar
mais dinheiro, para entregar melhor para os outros. A sexta camada é in-
teressantíssima! É a conquista das habilidades que me dão mais meios de
ação para desenvolver o negócio que eu estou fazendo. Magnífico!

Um professor maduro, quando houve a crítica que eu estou fazendo, diz: “É


mesmo, por isso estou aqui estudando pra caramba, estou me dedicando,
estou aqui para não reclamar, estou trabalhando para educar melhor esses
demônios que estão na minha mão naquela turma de 40 alunos de periferia”.
ISSO é sexta camada. O cara de quarta camada fica profundamente magoa-

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do, porque não estou validando um sentimento do qual ele se achou mere-
cedor. Ele acha que é merecedor de todo carinho, de toda atenção da comu-
nidade só por ser professor. Meu filho, você acha que é professor! Professor
é quem educa, é quem ensina, não é quem tem um diploma de bacharel. O
diploma de bacharel o habilita a exercer legalmente algumas funções do-
centes, só isso! Mas você estar habilitado legalmente não significa que esteja
habilitado na realidade. Você só está habilitado na realidade para exercer
certa função quando possuir as capacidades e habilidades para desenvolver
a função. Isso só alguém que está na sexta camada entende. Um sujeito que
está na quarta camada já ficou ofendido.

Um cara da quarta camada não sai da quarta camada recebendo carinho; ele
sai enfrentando desafios e vencendo. Aqui está o ponto. Eu não quero nin-
guém coitado, por isso que a gente fala essas coisas. Um sujeitinho coitado
não me interessa! É bom um sujeito que tenha capacidade, que tenha habili-
dade. O sujeito que luta por conquistar habilidades reais, luta por conquistar
capacidades reais está dentro da sexta camada. Ele nota que pode enfrentar
o mundo e luta por aprimorar tal enfrentamento por meio da conquista de
certas habilidades. Isso é a sexta camada da motivação, a sexta camada da
personalidade humana.

A 7a CAMADA DA PERSONALIDADE

Quando o sujeito está há um tempo lutando para conquistar habilidades, ele


começa de fato a ter aquelas qualidades, aquelas competências e capacida-
des, começa a ter aquilo mesmo. E fica natural para ele agir a partir desse lu-
gar. Quando um sujeito age a partir do lugar de muitas habilidades – muitas
são quatro ou cinco –, ele masterizou quatro ou cinco habilidades, ele sabe
entregar um valor para a comunidade. Então, o que começa a acontecer? A
comunidade começa a olhar para esse sujeito como aquele que pode entre-
gar algo, e a motivação dele passa a ser entregar algo para essa comunida-
de. Não é para se sentir amado, não é para ganhar dinheiro, não é para ser
o gostosão. Mas é por que, então? É porque ele pode e só ele pode entregar
aquilo para a comunidade. Isso é o que ele é, isso é o seu papel social. Papel
social entendido profundamente. Muita gente tem um papel social de políti-
co, de médico, de advogado, mas não tem as habilidades, ou seja, você não
pode contar com o sujeito como médico, não pode contar com ele como ad-
vogado, não pode contar como político. Ele, a toda hora, trai e defrauda, seja
por uma incapacidade moral, seja por uma incapacidade técnica.

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O sujeito que está na sétima camada, não. Ele já dominou aquele conjunto
de habilidades e se apresenta para a comunidade como aquele que sabe,
porque pode cumprir o seu dever. Ele sabe qual a expectativa daquela comu-
nidade, e a vida dele é entregar. Mas entenda: não é para se sentir bem, não
é só para ganhar dinheiro; é porque isso é o lugar dele no mundo. Quando
o sujeito fica um tempo agindo na sétima camada, pode aparecer para ele
uma determinada pergunta. O sujeito pensa: eu tenho uma força útil, eu con-
quistei várias forças úteis e estou entregando para aquela comunidade já faz
algum tempo (sétima camada). Diante dessa vida, estável de algum modo, eu
tenho meu papel social no mundo, eu sei quem eu sou no mundo. A pergunta
é: eu sei mesmo quem eu sou? Aqui já ficou um pouco mais profundo.

A 8a CAMADA DA PERSONALIDADE

Você está há um tempo trabalhando, entregando, cumprindo o seu dever,


você sabe quem você é no mundo, você sabe qual o seu papel social, e pode
ser que apareça a seguinte pergunta: quem eu sou diante da morte? Você,
para ser você diante da morte, quer retificar (precisará consertar as coisas
que tem feito até aqui) ou quer ratificar. “Esse sou eu mesmo. Isso sou eu mes-
mo e vou continuar fazendo o que eu tenho feito até meu último dia.” Essa é
a motivação da oitava camada. “Eu vou fazer as coisas que eu faço porque
elas têm sentido mesmo diante da minha morte.” Há técnicas para você estar
mais bem instalado na oitava camada.

As coisas que eu faço aqui continuam tendo valor mesmo diante da morte
ou, se eu soubesse que fosse morrer, ou na morte, eu faria outra coisa, de
outro modo, com uma outra qualidade, com outra intensidade. Mas aqui está
o pulo do gato, para você não achar que é fácil assim. “Italo, eu acho que
estou na oitava camada, porque eu estou doido para mudar de vida.” Preste
atenção, o sujeito que entra mesmo na oitava camada tem um drama, tem
um sofrimento específico. Se ele achar que precisa mudar, ele vai mudar de
vida sem largar a posição anterior.

Olha só a sétima camada: qual é a minha vida? É cumprir meu dever diante
de uma comunidade. E pode ser que apareça a seguinte pergunta: mas essas
coisas que você faz, isso é você mesmo diante da morte? Ele vai dizer “não”
e, então, vai precisar mudar. Só que ele não vai mudar, ele não pode mudar
jogando tudo para o alto. Ele vai precisar achar uma solução para que aque-
le seu dever anterior continue sendo cumprido. O sujeito que simplesmente
dá na telha e declara “agora vou vender minha arte na Argentina, vou lar-

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gar tudo que eu fiz aqui, minha família, minha mulher, porque quem sou eu
diante da morte?” é um fanfarrão de quarta camada que está querendo sentir
algo no seu peitinho que nunca sentiu. Sempre que na sua cabeça estiver
algo como “vou largar tudo o que estava fazendo para fazer outra coisa”, sem
medir as conseqüências, você não está na sétima camada ainda. A sétima
camada é: eu cumpro meu dever, eu não defraudo, eu vou ficar aqui até o fim,
eu vou tentar achar soluções. Se a solução que você acha é boa ou não, é
outro problema, porque você é falível. Essa é outra questão. Mas a sua luta é:
eu vou tentar achar uma solução para que as pessoas não se sintam defrau-
dadas. E aí sim eu dou essa resposta diante da morte. Não é assim: “quem
sou eu diante da morte, retifico ou ratifico e largo tudo”, abandono uma vida
para seguir essa nova. Isso é quarta camada, querendo se sentir o gostosão.

O sujeito maduro não abandona o seu posto, ele não deserta. Ele dá um jeito
de continuar cumprindo o seu dever mesmo sem estar ali, no caso de ele
precisar fazer uma mudança de trajetória. A oitava camada é muito séria, é
muito profunda, porque ele pode não conseguir achar uma solução prática
neste mundo. E ele vai ter de carregar aquela tensão, aquele conflito até a
sua morte.

Amadurecer dói! Porém a felicidade também se dá de um modo muito mais


pleno no amadurecimento. A motivação de uma oitava camada é muito supe-
rior à de uma quarta camada, por exemplo. Depois que você entrou na oitava
camada e se confrontou diante da morte, aparece, pela primeira vez para
você, a noção da verdade, ou seja, algumas coisas são de verdade! Diante da
morte, certas coisas relativas ganham determinado peso. Diante da morte,
você toca em coisas que são e não têm como deixar de ser, você apreende
a noção da verdade pela primeira vez e deseja conhecer a verdade. E então
você entra na motivação da nona camada, que é a camada da vida intelec-
tual.

A 9a E A 10a CAMADAS DA PERSONALIDADE

O que é a vida intelectual? É uma vida devotada à verdade. Não é uma vida
devotada ao estudo, porque existem analfabetos que podem estar na nona
camada. Como? Eles estão querendo conhecer e viver dentro da verdade
custe o que custar. Isso é a nona camada, camada do conhecimento da ver-
dade. É a camada intelectual. Você vai formar a sua personalidade intelectu-
al às custas de buscar a verdade doa a quem doer.

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Quando você entra na nona camada, quando você busca a verdade doa a
quem doer, você pode passar depois para a décima camada. A décima ca-
mada é a da vida moral. Que é a vida moral? Eu não só conheço a verdade,
mas eu vou agir diante da verdade, eu sei qual a verdade. Agora, para mim,
tudo na minha vida corresponde à verdade, à natureza humana, àquilo que
eu devia estar fazendo dentro da verdade? Essa é a pergunta do sujeito que
está na décima camada. A vida moral profunda, propriamente dita, só entra
nesse momento. Tudo que está lá para baixo tem peso relativo. Na décima
camada, essa luta pela conquista da personalidade moral entra verdadei-
ramente no sujeito. Ali o sofrimento é muito profundo, você vê que pode de
fato ser mau, pode não caminhar diante da verdade, pode não agir moral-
mente. Quando o sujeito comete maldades, na quarta ou na quinta camada,
é tudo auto-referente, é tudo relativo, tudo muda, um beijinho faz passar a
dor, um sorriso da mulher faz com que o cara fique bem.

Lá em cima, na décima camada, não é assim. O cara, quando age de modo


imoral, sabe que está agindo de modo imoral e essa dor aparece como que
rasgando a sua biografia.

A 11a CAMADA DA PERSONALIDADE

Uma vez que o sujeito age moralmente por muito tempo, ele pode conquistar
a décima primeira camada da personalidade humana, que é a camada do eu
histórico. O que é o eu histórico, o que é uma personalidade histórica? Aquele
sujeito que agiu de modo consistente diante da verdade por muito tempo
passa a ter um efeito histórico quase que naturalmente. Esse sujeito que age
diante da verdade há muito tempo, lutando por agir verdadeiramente, é só
essa ação que tem efeito histórico. As ações que são feitas neste mundo aca-
bam, porque elas são deste mundo. As ações feitas diante da verdade, essas
sim permanecem.

A motivação da décima primeira camada é construir uma personalidade his-


tórica, é agir diante da verdade, porque você sabe que essa ação tem um
efeito permanente e duradouro por cima dos tempos.

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A 12a CAMADA DA PERSONALIDADE

E, finalmente, a motivação do sujeito de décima segunda, fechando o ciclo


das doze camadas, é agir diante de Deus. Agora você tem uma personalidade
transcendental. A oitava camada é a motivação diante da morte; a décima
segunda é a motivação diante de um Deus, aquele sujeito que sabe, que co-
nhece o seu coração, que sabe qual o melhor e qual o pior. É você agir diante
de Deus. Você pode dizer: “Eu sou muito religioso, eu adoro Deus, eu quero
agir diante de Deus”. Eu sei, meu filho, mas isso é uma coisa que você quer;
eu estou falando que você faz. Muitos de nós gostam de Deus, têm religião,
mas estamos pensando no dinheiro no fim do mês, estamos pensando em
brigar com o amiguinho e ganhar o debate, estamos pensando na nossa
própria morte... Você pode gostar de Deus, você deve gostar de Deus em
qualquer camada. O problema não é esse.

Só que provavelmente, se você está numa camada de baixo, o que explica


melhor a sua motivação em cada ato não é a presença de Deus ainda. Isso
acontece quando o sujeito chega à décima segunda camada, ou seja, o que
tem peso para esse sujeito, o que importa para ele é dar uma resposta pes-
soal diante daquele que transcende, controla, prevê e o ama benevolamente,
de modo abnegado, de modo total e age na sua vida. Essa é a resposta do
sujeito que está na décima segunda camada. Ele dá tal resposta diante desse
agente, diante do ser em Ato Puro, conhecido também como Deus.

É dessa realidade que tratam algumas linhas de psicologia, como as psicolo-


gias místicas e a psicologia do Dr. Viktor Frankl, a Logoterapia, do sentido da
vida. Ele está falando desse sentido, o sentido do sujeito que caminha diante
de Deus, porque aceita o sofrimento inevitável, porque serve a um ideal e
ama a uma pessoa, o próprio Deus.

Assim a gente fecha o ciclo do sujeito que tem um corpo, que se manifesta,
que aprende, que contorna os seus afetos, que, uma vez estáveis, se confron-
ta com o mundo e o vence, conquista habilidades específicas, se estabiliza
diante de um papel social, que é confrontado com a morte, que apreende a
noção da verdade e deseja conhecê-la e, portanto, caminha diante dela. O
caminhar diante da verdade gera um efeito histórico que sobe para um mun-
do supra-histórico, que é o mundo da transcendência, no qual o sujeito final,
derradeiramente se confronta com o próprio autor de tudo: Deus.

Aqui foi só uma breve introdução às doze camadas da personalidade hu-


mana. Espero que vocês revejam esta aula e que ela tenha jogado algumas
luzes sobre a apostila de 19 páginas do Prof. Olavo de Carvalho.

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Se você ainda não leu, não perca tempo. Baixe o PDF na internet e aproveite.
As doze camadas são uma grande tipologia para que você possa compreen-
der o ser humano e se compreender na jornada rumo ao amadurecimento,
que é tudo o que a gente quer aqui em nosso Guerrilha Way.

Um abraço, até à próxima.

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