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MÓDDULOO IV
A técnica psica
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Atenção: O material deste módulo está dispo onível apenaas como parââmetro de estudos para
este Proggrama de Ed ducação Con ntinuada. É proibida qua
alquer forma
a de comerciialização do
mesmo. OsO créditos do conteúd do aqui contido são da ados aos seeus respectiv
vos autores
descritos na Bibliografia Consultad
da.
MÓDULO IV

I- Os princípios fundamentais da técnica psicanalítica

Tornar consciente o inconsciente ou a superação das resistências foi e


continua sendo o caminho e o fim de toda técnica analítica. Variam as formulações
deste princípio, os conteúdos e variam os métodos de apresentá-los, mas o princípio
continua sendo o mesmo. Freud formula a finalidade da análise, por exemplo,
também como restituição da unidade psíquica, pondo fim ao alheamento entre o ego
e a libido, ou mais adiante, em termos de estrutura: “Onde está o id, aí deverá estar
o ego” (Freud, 1933). Estas formulações dizem, em sua essência, o mesmo que às
anteriores, e este princípio é também a base que todos os analistas de ontem e de
hoje se encontram unidos.
Existem muitas variações e divergências em relação aos princípios técnicos
básicos. À primeira vista, podemos destacar alguns fatores que o determinam:
1- O procedimento técnico depende da extensão dos avanços psicológicos
gerais e especificamente técnicos. Esta extensão varia segundo a época
de psicanálise e as épocas de cada analista.
2-Novas descobertas e afirmações são acatadas por uns e rejeitadas por
outros, e diversos fatos são valorizados de forma diferente, o que conduz a
diferentes conceitos de ordem secundária, a diferentes princípios secundários, que
determinam aplicação diferente dos princípios básicos, comuns a todos, isto é,
diferentes técnicas.
3-O fator individual ou pessoal. A técnica depende obviamente, do diferente
caráter de compreensão, e das distintas contratransferências de cada analista. É
também claro que cada paciente “cria” um diferente analista (assim como cada filho
“cria” diferentes pais), sugerindo-lhe maiores e menores variações técnicas.

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4-O fator genealógico, quer dizer, a influência de diferentes “arquiavós” e
“pais” analíticos sobre a técnica de seus filhos, netos e bisnetos analíticos.
Devemos fazer referência também, ao que consideramos o fim do
tratamento analítico. Este também passou por diversas formulações. O conceito de
“cura” (que primeiro se referia aos sintomas e depois aos “complexos”) compartilhou
e compartilha seu lugar com outros conceitos. “Amadurecimento emocional”,
“adaptação à realidade”, “superação das perturbações evolutivas da personalidade”
são algumas destas formulações.
Mas, na essência, tanto o analista de ontem, como o de hoje, dirige sua
atenção às causas das perturbações (isto é, aos conflitos psíquicos), sabe que está
no caminho certo e confia, portanto, nas consequências positivas, sem inclinar-se
diretamente para elas.
Considerando-se o desenvolvimento da psicanálise desde sua origem, pode-
se dizer que começou como terapia, em seguida, dirigiu sua atenção ao homem
como totalidade e descobriu por este caminho as perturbações gerais e especiais da
evolução do homem, do ser humano em si, “doente” e “são”, e o tratamento
psicanalítico converteu-se em uma técnica de evolução ou transformação humana,
incluindo esta, como uma de suas possibilidades principais, a terapêutica.

II- A posição (ou atitude) interna básica do analista diante do paciente e


seu material.

Do princípio básico “tornar consciente o inconsciente” deduz-se a regra


fundamental para o paciente, que é chamada de método de livre associação. É
igualmente aceita por todos, embora existam algumas diferenças no modo de
introduzi-la na situação analítica.

- Método de associação livre - este método substitui o antigo método


catártico, tendo-se tornado, desde então, a regra fundamental do tratamento
psicanalítico: o meio privilegiado de investigação do inconsciente. O paciente deve

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exprimir todos os seus pensamentos, idéias, imagens e emoções, tais como se
apresentam a ele, sem seleção e restrição, mesmo que tais materiais lhe pareçam
incoerentes, impudicos, impertinentes ou desprovidos de interesse. Tais associações
podem ser induzidas por uma palavra, um elemento de sonho, ou qualquer outro
objeto de pensamento espontâneo.
O respeito a essa regra permite o aparecimento das representações
inconscientes e atualiza os mecanismos de resistência (Chemana, 1995).
Freud estabelece como equivalente da regra fundamental para o paciente-
uma regra fundamental para o analista, designando-a com o termo atenção
flutuante.
- Atenção flutuante – regra técnica à qual tenta se conformar o psicanalista,
ao não privilegiar em sua escuta, nenhum dos elementos particulares do discurso do
analisando.

A atenção flutuante é a contrapartida da associação livre, proposta ao


paciente. Freud formula essa técnica em 1912, da seguinte maneira: “Não devemos
atribuir uma importância particular a nada daquilo que escutamos, sendo
conveniente que prestemos a tudo a mesma atenção flutuante”. Igualmente,
determina que o inconsciente do analista se comporte, em relação ao inconsciente
do paciente, “como ouvinte telefônico em relação ao microfone”.

A atenção flutuante pressupõe, portanto, de parte do praticante, a supressão


momentânea de seus pré-julgamentos conscientes e de suas defesas inconscientes
(Chemana,!995).

Freud assinala que o analista chega com sua compreensão (que nasce da
atenção flutuante) só até onde lhe permitem seus próprios complexos e resistências,
e acentua a importância da contratransferência e, portanto, a da análise prévia do
próprio analista.

- Contratransferência - é o conjunto de reações afetivas conscientes ou


inconscientes do analista para com seu paciente, e mais particularmente à
transferência deste.

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Toda técnica analítica posterior baseia-se, neste aspecto, nestes mesmos
conceitos. Mas a respeito destes conceitos devem-se mencionar alguns progressos.

Os processos psicológicos do analista têm sido estudados, desde então,


detidamente. Enquanto Freud designa, como meta, o conhecer e dominar a
contratransferência, na atualidade, muitos analistas acrescentam a tarefa de utilizar
a contratransferência para a compreensão dos processos psicológicos do paciente,
pelos quais aquela, em parte, é originada. A importância fundamental de tal atitude
objetiva continua sendo valorizada por todos.

Podemos ilustrar este desenvolvimento com outro exemplo. Freud, ao expor


os motivos de seu costume de sentar-se detrás do paciente, diz que não queria que
as expressões de seu rosto dessem motivo ao paciente para fazer interpretações e
influíssem em suas comunicações.

Hoje, muitos de nós acrescentaríamos que estas expressões do analista


refletem, em geral, a resposta de um objeto interno do paciente ao seu próprio
material, e, em última instância, refletem a resposta de uma parte do ego do
paciente, “colocada para fora”, isto é, dissociada e projetada no analista. É
importante que o analista perceba suas expressões faciais, que as compreenda
como resposta contratransferencial à transferência e que – depois de descontar dela
o fator pessoal – reintegre no paciente mediante a interpretação, esta parte de sua
personalidade posta em um objeto interno-externo, o analista.

O processo analítico da transformação depende de quantidade e qualidade


de Eros que o analista pode mobilizar por seu paciente. É uma forma específica de
Eros, é o Eros que se chama compreensão, sendo, além disso, uma forma
específica de compreensão. É, antes de tudo, a compreensão do rejeitado, do
temido e odiado no ser humano, e isso graças a uma maior força de luta – uma
maior agressão – contra tudo o que encobre a verdade, contra a ilusão e a negação,
em uma palavra: contra o temor e ódio do homem para consigo mesmo e suas
consequências patológicas.

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Mas valem também para o analista as palavras daquele homem, São Paulo,
que dizem: “Ainda que eu fale todas as línguas dos homens, e a linguagem dos
anjos, porém sem amor, será como um metal que soa ou sino que toca”.

Isto pode soar a mística ou a romantismo, o que, entretanto, não impede que
seja verdade. Podemos ilustrar isso com um exemplo, embora antecipando ao
próximo capítulo.

Quando interpretamos para o paciente algo que ele rejeita de sua


consciência (por exemplo, um aspecto de sua agressividade), sem incluir nesta
interpretação a parte de seu ego que efetua a rejeição, temos, como consequência,
o paciente vendo em nós aquela parte que é rejeitável de seu ego.

Deste modo, corremos o perigo de dissociar mais o paciente em vez de


integrá-lo. Interpretamos daquela forma parcial, quando nos identificamos
simultaneamente com o paciente.

Mas o ego é em suas defesas – embora de modo equivocado – justamente o


defensor da vida, do amor pelo objeto ou pelo próprio ego. A compreensão da parte
afetiva provém do afeto, é vivenciada como afeto e mobiliza afeto. A ausência deste
aspecto na interpretação é sentida – com razão – como falta de afeto e tem
frequentemente consequências negativas.

Terminando, diremos que só se pode esperar do paciente que aceite


vivenciar novamente a infância, se o analista estiver disposto a aceitar plenamente
sua nova paternidade, a admitir plenamente o afeto pelos seus novos filhos e a lutar
por uma nova infância melhor, “mobilizando todas suas forças psíquicas
disponíveis”.

Sua tarefa consiste – idealmente – num interesse constantemente vivo e a


empatia continua com os processos psicológicos do paciente, numa micro e
macroanálise metapsicológica da toda expressão e de todo movimento mental,
sendo sua atenção e energia principais dirigidas a compreender a transferência (a

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“nova infância”, presente a todo o momento), e a superar seus aspectos patológicos
mediante as interpretações adequadas.

III – A interpretação

Novamente concordam os analistas de ontem e de hoje em relação ao


princípio básico: a interpretação é o instrumento terapêutico por excelência.

- Interpretação – Intervenção do analista, que procura fazer surgir um novo


sentido além do manifesto, apresentado por um sonho, um ato falho, ou até mesmo
alguma parte do discurso do sujeito.

Forjada principalmente em relação com a análise dos sonhos, a


interpretação é evidentemente aplicada a um material muito maior, inclusive aos
lapsos, atos falhos, esquecimentos e geralmente, tudo aquilo que traga a marca do
inconsciente. Desta forma, mesmo uma frase aparentemente sem sentido poderá se
revelar portadora de um sentido latente, se o contexto permitir que seja entendida de
outra forma (Chemana, 1995).

Primeiro, vamos nos referir ao problema da quantidade das interpretações.


As diferenças com relação à quantidade das interpretações dependem de alguns
fatores como:

- Da amplitude dos nossos conhecimentos psicológicos. Quanto mais


sabemos, mais poderemos interpretar.

- De princípios ou conceitos “secundários”. Por exemplo, alguns analistas,


atribuem um valor terapêutico ao silêncio do analista. A quantidade e interpretações
dependem, pois, do grau em que este silêncio é valorizado em comparação com o
valor terapêutico que se atribui a interpretação.

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- Do “fator individual”, ou seja, da capacidade individual do analista de
compreender, de seu caráter, de sua contratransferência (angústias, tendência a
reparar, significado inconsciente que para ele têm os atos: de analisar e de
interpretar, etc.).

Por exemplo, uma maior necessidade de reparar o induzirá, em geral, a


interpretar mais; sua dependência inconsciente ao analisado pode dispô-lo a
submeterem-se silenciosamente as resistências deste (“tolerância” mal-entendida)
como também pode dificultar-lhe frustrar o paciente com um silêncio prolongado.

- Do “fator genealógico”, ou seja, de quanto interpretavam seus analistas, o


grau de dissolução de sua transferência com estes, etc.
Freud estabelece também uma regra com respeito ao “timing”: é a regra que
indica quando se deve começar com as interpretações da transferência. Freud diz:
“Enquanto as comunicações e ocorrências do paciente fluir sem interrupção, devem-
se deixar intocável o tema da transferência” (Freud, 1923). Na atualidade, muitos de
nós, evidentemente, não obedecemos a esta regra.
O problema do “timing” foi, poucas vezes, objeto direto de investigação.
Também o “quando” das interpretações dependem daqueles quatro fatores, ou seja,
de quanto sabemos e compreendemos, de nossos “conceitos secundários”, de
fatores individuais (em especial da contratransferência) e do fator “genealógico”. As
diferentes posições diante da análise da resistência e da transferência
desempenham nisto novamente um papel importante. Os extremos são, também
aqui, por um lado, “o analista silencioso” que tende a “deixar correr” o paciente e
escolhe cuidadosamente o momento oportuno para a interpretação.
Por outro lado, temos o analista que considera que – em princípio e
potencialmente – todo momento é oportuno, já que todo momento contém um “ponto
patológico” (isto é, de angústia e defesa), formando todos estes “pontos” uma linha
que costuma chamar-se “o fio” da sessão. Para tais analistas a interpretação deve
ser feita quando o analista sabe o que o paciente não sabe, precisa saber e é capaz
de saber.

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Outro fator é o “que” da interpretação ou, mais precisamente, seu aspecto
dinâmico (enquanto a interpretação se refere às forças internas em luta), seu
aspecto econômico (referente ao que em dado momento é mais importante
interpretar) e seu aspecto estrutural (enquanto a interpretação se refere às diversas
instâncias da estrutura psicológica).
As regras clássicas a esse respeito são bem conhecidas, por exemplo, a
indicação de que a interpretação deve partir do que o paciente expressa, da
“superfície” do que está perto da consciência, e que só depois deve acentuar “o
profundo”, o que está mais longe da consciência. No aspecto estrutural, ressaltava-
se que a interpretação completa devia referir-se ao id, ego e superego, partindo do
ego e de seus mecanismos de defesa (como o mais perto da consciência).

IV- A dinâmica da transferência

- Transferência- Designa em psicanálise o processo pelo qual os desejos


inconscientes se atualizam sobre determinados objetos no quadro de certo tipo de
relação estabelecida com eles e, eminentemente, no quadro da relação analítica.
Trata-se aqui de uma repetição de protótipos infantis vivida com uma
sensação de atualidade acentuada.
A maior parte das vezes é a transferência no tratamento que os psicanalistas
chamam de transferência, sem qualquer outro qualitativo.
A transferência é classicamente reconhecida como o terreno em que se joga
a problemática de um tratamento psicanalítico, pois são a sua instalação, as suas
modalidades, a sua interpretação e a sua resolução que caracterizam este
(Laplanche, Pontalis, 1983).
Freud enfoca o problema da dinâmica da transferência sob dois pontos de
vista: primeiro, a transferência como problema geral e suas causas, e segundo, a
transferência no processo psicanalítico e as causas da especial intensidade que
adquire neste.

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Como causas gerais indicam:
- o fato de que toda pessoa adquire na infância determinadas características
de sua vida afetiva, do que resulta um clichê (ou vários), que no curso da vida é
regularmente repetido.
- a insatisfação libidinosa (devido às fixações inconscientes), que cria a
necessidade e a expectativa libidinosas dirigidas às pessoas que se vai conhecendo.
- o papel especial da transferência no processo psicanalítico explica-se
segundo Freud, por sua relação com a resistência. A transferência torna-se tão
intensa e duradoura porque serve a resistência; o paciente reproduz e repete para
não relembrar seus impulsos inconscientes.

- Transferência positiva e Transferência negativa - Ao falar da transferência,


distingue a transferência positiva e a transferência negativa. Foi levado a fazer essa
distinção, quando constatou que a transferência poderia se tornar a mais forte
resistência oposta ao tratamento e quando se perguntou o porquê.
Essa distinção se deve segundo Freud, à necessidade de tratar
diferentemente estes dois tipos de transferência.
A transferência positiva se compõe de sentimentos conscientes amigáveis e
ternos, e outros, cujos prolongamentos são encontrados no inconsciente e que,
constantemente, parecem ter um fundamento erótico.
Em, A dinâmica da transferência (1912), Freud coloca que “a transferência
sobre a pessoa do analista não representa o papel de uma resistência, a não ser
quando se tratar de uma transferência negativa, ou então de uma transferência
positiva composta de elementos eróticos recalcados”.
Por outro lado, a transferência positiva, em virtude da confiança do paciente,
permite que o paciente fale mais facilmente de coisas difíceis de serem abordadas
em outro contexto. Contudo, é evidente que toda transferência é constituída,
simultaneamente de elementos positivos e negativos.

Transferência e resistência – A transferência se apresenta como uma arma


de dois gumes: por um lado, é o que permite que o paciente se sinta confiante e

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queira falar, tentar descobrir e compreender o que está se passando com ele; por
outro, pode ser o local das mais obstinadas resistências ao progresso da análise. De
fato, assim como nos sonhos, o paciente em análise atribui aos afetos que é levado
a reviver um caráter de atualidade e de realidade, e isso contra toda a razão, sem
levar em conta o que realmente está acontecendo.
Em “A dinâmica da transferência”, Freud diz: “Nada é mais difícil, em
análise, do que vencer as resistências, mas não esqueçamos que são justamente
tais fenômenos que nos prestam o melhor serviço, ao nos permitir trazer à luz as
emoções amorosas secretas e esquecidas dos pacientes e ao conferir a essas
emoções um caráter de atualidade.
Por ser a transferência o lugar e a ocasião da reprodução de tais tendências,
é que Freud diz que a transferência nada mais é do que um fragmento de repetição
e que a repetição é a transferência do passado esquecido, não apenas pela pessoa
do médico, mas também por todas as outras áreas da situação presente.
É então que intervém o papel da resistência: quanto maior for à resistência a
essa lembrança, maior será a colocação em atos, isto é, a compulsão à repetição irá
se impor. É pelo caminho do manejo da transferência que essa compulsão à
repetição* irá se transformar, pouco a pouco, em uma razão de se lembrar,
permitindo assim, progressivamente, que o paciente se reaproprie de sua história.

Transferência e contratransferência - Um outro elemento indissociável da


transferência, da qual é uma espécie de acompanhamento obrigatório, é a
contratransferência do analista para com seu paciente. Como já dissemos, ela
consiste, no analista, em determinar quais afetos seu paciente suscita nele e em
saber o que levar em conta, em sua maneira de interpretar a transferência de seu
paciente.
Mais uma vez, isso pressupõe que o analista seja capaz de analisar aquilo
que constitui a contratransferência, para que esta não interfira no funcionamento da
análise do paciente, mas que, no entanto, permita que o analista se situe
convenientemente em relação ao desenvolvimento do tratamento.

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* ver glossário

V- Análise do conteúdo dos sonhos

O estudo dos sonhos ocupa um lugar especial na psicanálise.


Freud (1900) tinha razão em valorizar tanto o seu trabalho sobre os sonhos.
Em nenhum outro fenômeno da vida psíquica normal, os processos inconscientes da
mente são revelados de forma tão clara e acessível ao estudo. Os sonhos são
verdadeiramente, uma estrada real que leva aos recessos inconscientes da mente.
No entanto, isto não esgota as razões que os tornam importantes e valiosos para o
psicanalista.
O fato é que o estudo dos sonhos não proporciona simplesmente a
compreensão dos processos e conteúdos psíquicos inconscientes em geral. Revela
principalmente os conteúdos que foram reprimidos ou excluídos da consciência e de
sua descarga pelas atividades defensivas do ego.
Uma vez que a parte do id cujo acesso à consciência foi barrado que
originam as neuroses e as psicoses, é fácil compreender que esta característica dos
sonhos constitua mais uma razão importante para o lugar especial que o estudo dos
sonhos ocupa na psicanálise.
A teoria psicanalítica dos sonhos pode ser formulada da seguinte maneira. A
experiência subjetiva que aparece na consciência durante o sono e que, após o
despertar, chamamos de sonho, é apenas o resultado final de uma atividade
psíquica inconsciente durante esse processo fisiológico que, por sua natureza ou
intensidade, ameaça interferir no próprio sono. Ao invés de acordar a pessoa sonha.
Chamamos de sonho manifesto, a experiência consciente, durante o sono,
que a pessoa pode ou não recordar depois de despertar. Seus vários elementos são
chamados de conteúdo manifesto do sonho.
Os pensamentos e desejos inconscientes que ameaçam acordar a pessoa
são denominados conteúdo latente do sonho.

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Às operações psíquicas inconscientes por meio das quais o conteúdo latente
do sonho se transforma em sonho manifesto, damos o nome de elaboração do
sonho.
No sentido rigoroso da expressão, a palavra “sonho” (na terminologia
psicanalítica) deveria ser usada apenas para designar o fenômeno total, do qual são
parte integrantes o conteúdo latente do sonho, a elaboração do sonho e o sonho
manifesto.
Na prática, na literatura psicanalítica, “sonho” é frequentemente empregado
para designar o “sonho manifesto”. Em geral, quando isto acontece, não gerará
confusão se o leitor estiver bem familiarizado com a teoria psicanalítica dos sonhos.
Por exemplo, a afirmação de que “o paciente teve o seguinte sonho” quando
seguida pelo texto verbal do sonho manifesto, não deixa dúvida, para o leitor
informado, de que a palavra “sonho” significa “sonho manifesto”.
Conteúdo latente do sonho- este conteúdo divide-se em três categorias
principais:
- A primeira compreende as impressões sensoriais noturnas, as quais
invadem continuamente os órgãos sensoriais daquele que dorme; às vezes, algumas
participam da iniciação de um sonho e, neste caso, formam parte do conteúdo
latente desse sonho. Todos nós já experimentamos estas sensações.
O som de um despertador, sede, fome, urgência de urinar ou defecar, dor de
um ferimento ou de um processo mórbido em consequência da má posição de
alguma parte do corpo, calor ou frio desconfortável tudo que pode constituir parte do
conteúdo latente do sonho.
A esse respeito há dois fatos que é importante ter em mente. O primeiro é
que a maioria dos estímulos sensoriais noturnos não perturba o sono, nem mesmo a
ponto de participar da formação de um sonho. Pelo contrário, a grande maioria dos
impulsos de nosso aparelho sensorial não tem efeito discernível sobre o psiquismo
durante o sono. Isto é exato mesmo a respeito de sensações que, em estado de
vigília, consideraríamos intensas.
Há pessoas que podem dormir durante uma tempestade violenta sem
acordar ou sonhar, apesar do fato de que sua audição é normal.

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O segundo fato é que uma impressão sensorial perturbadora, durante o
sono, pode ter o efeito de acordar imediatamente a pessoa, sem nenhum sonho,
pelo menos tanto quanto o sabemos. Isso é principalmente evidente quando
dormimos “com um ouvido ligado” ou “com um olho aberto”, como acontece, por
exemplo, com os pais de uma criança doente. Em tais casos, quer o pai, quer a mãe,
muitas vezes acordará imediatamente, ao primeiro som perturbador produzido pela
criança, por mais leve que seja.
- A segunda categoria do conteúdo latente do sonho compreende
pensamentos e idéias relacionados às atividades e preocupações da vida normal,
em estado de vigília, daquele que sonha, e que permanecem inconscientemente
ativos em sua mente durante o sono. Por causa de sua atividade contínua, tendem a
acordar a pessoa, do mesmo modo que o fazem os estímulos sensoriais.
Se a pessoa sonha ao invés de acordar, esses pensamentos e idéias atuam
como parte do conteúdo latente do sonho. Os exemplos são inumeráveis. Incluem
toda a variedade de interesses e recordações, comumente acessíveis ao ego, com
todos os sentimentos de esperança ou medo, interesse ou repugnância que os
possam acompanhar. Podem ser pensamentos sobre uma festa da noite anterior,
preocupação com uma tarefa não concluída, antecipação de um evento feliz no
futuro, ou qualquer outra coisa que se possa imaginar, e que seja de interesse
corrente na vida daquele que dorme.
- A terceira categoria compreende um ou vários impulsos do id que, ao
menos em sua forma infantil original, são banidos, pelas defesas do ego, da
consciência ou da gratificação direta durante o estado de vigília. Esta é a parte do id
que Freud Chamou de “reprimida”.
Podemos dizer, que esta categoria do conteúdo latente do sonho, em um
sonho determinado, é um impulso, ou impulsos, da parte reprimida do id. Uma vez
que as defesas mais importantes e de maior alcance do ego contra o id são as que
se formam durante as fases: pré-edipianas e edipiana da infância, concluiu-se que
os impulsos do id nesses primeiros anos são o conteúdo principal do reprimido. Por
conseguinte, a parte do conteúdo latente do sonho que deriva da reprimida é
geralmente infantil, isto é, consiste em desejos oriundos da primeira infância.

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Assim, no que se refere aos sonhos da vida adulta, o conteúdo latente tem
duas origens, uma no presente e a outra no passado.
Qual a importância relativa das três partes do conteúdo latente?
Freud (1933) declarou, de modo inequívoco, que a parte essencial do
conteúdo latente é a que provém do id reprimido. Acreditava ser esta a parte que
contribui com maior parcela de energia psíquica necessária ao sonho e que, sem
essa participação, não pode haver um sonho.
Um estímulo sensorial noturno, por mais intenso que seja, como Freud o
descreveu, deve recrutar o auxílio de um ou mais desejos do id reprimido para que
possa originar um sonho, e o mesmo ocorre com as preocupações da vida em
estado de vigília, por mais exigentes que sejam suas reivindicações sobre a atenção
e o interesse daquele que dorme.
Qual a relação entre o conteúdo latente do sonho e o sonho manifesto?
Dependendo do sonho, esta relação pode ser muito simples ou muito
complexa; há, porém, um elemento constante. O conteúdo latente é inconsciente,
enquanto o conteúdo manifesto é consciente. A relação mais simples possível entre
os dois seria, portanto, que o conteúdo latente se tornasse consciente.
Os sonhos da primeira infância são os que fornecem a relação mais simples
entre conteúdo latente e conteúdo manifesto. Primeiro, porque em tais sonhos não
precisamos distinguir entre preocupações infantis e habituais; são exatamente a
mesma coisa. Segundo, porque não se pode ainda estabelecer uma distinção clara
entre a parte reprimida e o resto do id, uma vez que o ego da criança muito nova
ainda não se desenvolveu a ponto de haver criado defesas permanentes contra
qualquer impulso do id.
Tomemos como exemplo o sonho de uma criança de dois anos cuja mãe
acabava de voltar do hospital com um novo bebê. Na manhã seguinte à volta da
mãe, ela contou-lhe um sonho com o seguinte conteúdo manifesto: “Vi o bebê ir
embora”. Qual é o conteúdo latente deste sonho? Normalmente trata-se de algo que
só podemos determinar pelas associações daquele que sonha, isto é, aplicando o
método psicanalítico. Naturalmente, uma criança de dois anos não pode
compreender, nem cooperar conscientemente. Entretanto, neste caso, podemos

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perfeitamente considerar o comportamento conhecido da criança e sua atitude para
com o novo bebê, que eram de hostilidade e repulsa, como equivalente às
associações com o conteúdo manifesto do sonho. Agindo assim, podemos concluir
que o conteúdo latente do sonho é um impulso hostil para com o recém-nascido e
um desejo de destruí-lo ou de livrar-se dele.
Mas, qual a relação entre o conteúdo latente e o conteúdo manifesto do
sonho, em nosso exemplo?
Aparentemente a resposta é que o conteúdo manifesto difere do latente, nos
seguintes aspectos. Inicialmente, como já dissemos o primeiro é consciente e o
último inconsciente. Em segundo lugar, o conteúdo manifesto é uma imagem visual,
enquanto o conteúdo latente é algo semelhante a um desejo ou impulso.
Finalmente, o conteúdo manifesto é uma fantasia que simboliza o desejo ou
impulso latente já satisfeito, isto é, trata-se de uma fantasia que consiste
essencialmente na satisfação do desejo ou impulso latente. Podemos dizer então
que no caso que escolhemos como exemplo, a relação entre o conteúdo latente e o
manifesto do sonho é uma fantasia consciente, segundo a qual o desejo latente foi
ou está satisfeito, e que se expressa na forma de uma experiência ou imagem visual.
Consequentemente, a elaboração do sonho, neste exemplo, consiste na formação
ou seleção de uma fantasia de satisfação do desejo e na sua representação na
forma visual.
Esta é a relação que se estabelece entre o conteúdo latente e o manifesto
de todos os sonhos da primeira infância, tanto quanto sabemos. Além disso, constitui
o padrão básico que será seguido nos sonhos, mais tarde na infância e na idade
adulta, muito embora, nos sonhos mais complexos destes últimos estágios, o padrão
seja elaborado e complicado por fatores que comentaremos mais tarde.
Devemos registrar que o processo de sonhar é, em essência, um processo
de satisfação de um impulso do id com uma fantasia. Podemos compreender
melhor, agora, como um sonho pode fazer com que a pessoa continue dormindo e
não seja acordada por uma atividade psíquica inconsciente e perturbadora. É porque
o impulso ou desejo perturbador do id, que habitualmente forma uma parte do

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conteúdo latente do sonho, se gratifica com a fantasia, perdendo assim, pelo menos,
parte de sua urgência e, portanto, de seu poder de despertar a pessoa que dorme.
Inversamente, compreendemos que o fato de que sonho manifesto é
habitualmente a satisfação de um desejo, decorre da natureza do conteúdo latente
que é, afinal, o iniciador do sonho, bem como sua fonte principal de energia
psíquica. O elemento do id que desempenha este papel no conteúdo latente só pode
exercer pressão constante à procura de gratificação, uma vez que esta é a própria
natureza dos impulsos instintivos, dos quais é um derivativo.
No sonho ocorre uma gratificação parcial atingida por meio da fantasia já
que a gratificação completa, por meio de ações apropriadas, é impossibilitada pelo
sono. Visto que a mobilidade está bloqueada, usa-se a fantasia como substituto.
Se expressarmos a mesma idéia em termos de energia psíquica, diremos
que a catexia, associada ao elemento do id no conteúdo latente, ativa o aparelho
psíquico que passa a realizar a elaboração do sonho, conseguindo uma descarga
parcial por meio da imagem da fantasia que satisfaz o desejo e constitui o sonho
manifesto.
Neste ponto, devemos levar em consideração o fato evidente de que o
conteúdo manifesto da maioria dos sonhos da última infância e da vida adulta não é
absolutamente reconhecível como satisfação de desejos, quer à primeira, quer,
mesmo, à segunda vista. O conteúdo manifesto de certos sonhos consiste,
realmente, em imagens tristes ou mesmo apavorantes. Fato que tem sido
repetidamente citado nos últimos cinquenta anos como razão contra a asserção de
Freud de que todo o sonho manifesto é a satisfação de um desejo, na forma de uma
fantasia. Como explicar esta discrepância aparente entre nossa teoria e os fatos
evidentes?
A resposta a esta pergunta é muito simples. Como dissemos, no caso dos
sonhos da primeira infância, o conteúdo latente do sonho determina, por meio da
elaboração do sonho, um sonho manifesto, que é uma fantasia do impulso ou desejo
que constitui o conteúdo latente.

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Esta fantasia é experimentada pelo sonhador na forma de impressões
sensoriais. A mesma relação evidente entre o conteúdo latente e o conteúdo
manifesto do sonho revela-se, às vezes, em sonho da vida posterior. Estes se
assemelham muito aos sonhos simples da primeira infância. No entanto, ocorre mais
frequentemente que o conteúdo manifesto de um sonho nesses anos posteriores
seja a versão disfarçada e distorcida de uma fantasia de satisfação de desejos,
experimentada, predominantemente, como uma imagem visual, ou uma série de
imagens visuais.
O disfarce e a distorção são, às vezes, de tal monta, que o aspecto de
satisfação do desejo do sonho manifesto é por assim dizer, irreconhecível.
Realmente, como todos sabemos, o sonho manifesto é, por vezes, uma miscelânea
de fragmentos sem relação aparente que parece não ter qualquer sentido e muito
menos representar a realização de um desejo. Outras vezes, o disfarce e a distorção
se revelam tão intensamente, que o sonho manifesto torna-se a realidade
apavorante e importuna, ao invés de manter a forma agradável que deveríamos
esperar de uma fantasia de satisfação do desejo.
A elaboração do sonho cria o disfarce e a distorção, que são características
proeminentes dos sonhos manifestos da última infância e da vida adulta. Estamos
interessados em saber quais os processos envolvidos na elaboração do sonho e
como cada um deles contribui para disfarçar o conteúdo latente, a ponto de torná-lo
irreconhecível no sonho manifesto.
Freud conseguiu demonstrar que há dois fatores principais e um subsidiário
a considerar em relação à elaboração do sonho. O primeiro fator principal, que na
realidade é a própria essência da elaboração do sonho, é que se trata de uma
tradução, para a linguagem do processo primário, das partes do conteúdo latente
ainda não expressa nesta linguagem, seguida de uma condensação de todos os
elementos do conteúdo latente em uma fantasia de satisfação dos desejos.
O segundo fator principal consiste nas atividades defensivas do ego, que
exercem profunda influência no processo de tradução e formação da fantasia,
influencia esta que Freud comparou à de um censor de notícias com amplos poderes
para suprimir qualquer trecho contestável.

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O terceiro fator, subsidiário, é o que Freud designou como elaboração
secundária.
Consideraremos, agora, cada um destes fatores sucessivamente. Em
primeiro lugar, como dissemos, a elaboração do sonho consiste na tradução para o
pensamento de processo primário da parte do conteúdo latente do sonho que
originariamente se expressa de acordo com o processo secundário. Isto,
normalmente, incluiria o que denominamos preocupações e interesses da vida
diária. Além do mais, como Freud assinalou, esta tradução ocorre de determinada
maneira. Segundo ele o referiu, leva-se em consideração a possibilidade de
expressar o resultado da tradução na forma de imagens visuais, plásticas.
Esta preocupação por uma representabilidade plástica corresponde
naturalmente ao fato de que o conteúdo manifesto do sonho consiste principalmente
nessas imagens.
A mesma preocupação pela representabilidade plástica manifesta-se
conscientemente, em algumas atividades da vida normal em estado de vigília, como,
por exemplo, as charadas, as caricaturas.
Outra consideração que, sem dúvida, afeta esse processo de tradução, na
elaboração do sonho, é a natureza dos elementos latentes do sonho que já estão na
linguagem do processo primário, isto é, essencialmente, as lembranças, imagens e
fantasias associadas ao desejo ou impulso do reprimido.
Em outras palavras, a elaboração do sonho tenderá a traduzir as
preocupações diárias da vida em estado de vigília em termos ou em imagens tão
intimamente relacionadas quanto possível ao material que se liga ou se associa ao
reprimido.
Ao mesmo tempo, entre as várias, ou talvez, mesmo, entre as muitas
fantasias de gratificação associadas ao impulso reprimido, a elaboração do sonho
escolhe aquela que possa ser mais facilmente relacionada às preocupações diárias
traduzidas da vida em estado de vigília. Tudo isto é uma forma, necessariamente
desajeitada, de dizer que a elaboração do sonho efetua uma aproximação tão
estreita quanto possível entre os vários elementos latentes do sonho, ao traduzir
para a linguagem do processo primário as partes do conteúdo latente que precisam

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ser traduzidas, ao mesmo tempo criando ou selecionando uma fantasia que
representa a gratificação do impulso do reprimido que também é parte do conteúdo
latente.
Como dissemos anteriormente, tudo isto é feito em consideração à
representabilidade visual. Além disso, o processo de aproximação que acabamos de
descrever torna possível que uma única imagem represente, simultaneamente,
vários elementos latentes do sonho.
Em consequência, ocorre uma alta proporção do que Freud chamou de
“condensação”, o que significa que, pelo menos na vasta maioria dos casos, o sonho
manifesto é uma versão altamente condensada dos pensamentos, sensações e
desejos que compõem o conteúdo latente do sonho.
Devemos agora perguntar, se a parte da elaboração do sonho, já estudada,
tem alguma fração de responsabilidade pelo disfarce e a distorção que, segundo já
dissemos, caracterizam a maioria dos sonhos manifestos, e, caso o seja, que papel
desempenha neste sentido.
É compreensível que a expressão das preocupações quotidianas do estado
de vigília na linguagem do processo primário resulte em um alto grau de distorção do
seu significado e conteúdo. No entanto, o leitor poderá perfeitamente perguntar por
que esta operação psíquica precisa ter o efeito de tornar seu resultado final
incompreensível para aquele que sonha. Afinal, a pessoa que compõe uma
caricatura, uma charada, pode compreender o significado de suas imagens, apesar
do fato de que o mesmo foi expresso na linguagem do processo primário. Na
realidade, o significado dessas criações é compreendido por muita gente além do
próprio compositor.
Por que, então, deve um sonho manifesto ser ininteligível, simplesmente
porque contém idéias expressas por meio do processo primário?
Parte da resposta a esta pergunta parece ser a seguinte: as caricaturas, as
charadas, são todos compostos com uma condição especial, a de serem inteligíveis.
Devem comunicar um significado, se quiserem ser “bons”.

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Um sonho manifesto, por outro lado, não está sujeito a essa restrição. É
simplesmente o resultado final de um processo que visa à fantasia da satisfação de
um desejo, ou, expresso de outra maneira, a descarga de suficiente energia psíquica
associada ao conteúdo latente do sonho, de modo a evitar que este conteúdo
acorde a pessoa. Não é surpreendente, portanto, que o sonho manifesto não seja de
maneira imediatamente compreensível, mesmo para a própria pessoa que sonhou.
No entanto, o segundo fator principal, que afirmamos participar da
elaboração do sonho, representa um papel muito importante no disfarce do conteúdo
latente do sonho, bem como em tornar inteligível o sonho manifesto.
Este segundo fator, é a atuação das defesas do ego. Podemos notar, de
passagem, que a primeira descrição que Freud fez deste fator foi muito anterior à
sua formulação da hipótese estrutural referente ao aparelho psíquico, de que fazem
parte os termos “ego” e “defesas”.
Por esta razão teve de criar um nome para o fator em questão e o escolhido,
foi “censor onírico”, termo bastante apropriado e expressivo.
Para compreender como agem as defesas do ego no processo de formação
do sonho manifesto, devemos primeiramente reconhecer que ele afeta as diferentes
partes do conteúdo latente dos sonhos, em maior ou menor proporção.
A parte do conteúdo latente que consiste em sensações noturnas
geralmente não se sujeita a qualquer atuação defensiva do ego, a menos talvez que
consideremos que o ego procura negar todas essas sensações em razão ao seu
desejo de dormir. No entanto, não estamos realmente certos de que essa atitude da
pessoa que dorme, em relação às sensações noturnas, seja uma defesa do ego no
sentido comum do termo, e, assim, podemos perfeitamente excluí-lo de nossas
considerações em relação ao nosso presente estudo.
Em acentuado contraste com as sensações noturnas, a parte do conteúdo
latente do sonho que consiste nos desejos e impulsos do reprimido é diretamente
antagonizada pelas defesas do ego. Sabemos, na verdade, que esse antagonismo é
antigo e de natureza permanente, e que sua presença é a razão de falarmos do
“reprimido”.

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Assim, as defesas do ego tendem a se opor ao aparecimento desta parte do
conteúdo latente do sonho, no sonho manifesto, consciente, uma vez que estão em
constante antagonismo com o seu aparecimento na consciência, também durante o
estado de vigília.
A oposição das defesas do ego a esta parte do conteúdo latente do sonho é
o principal responsável pelo fato de ser o sonho manifesto, na maior parte das
vezes, incompreensível como tal, e praticamente irreconhecível como uma imagem
da fantasia de satisfação dos desejos.
A parte restante do conteúdo latente dos sonhos, isto é, a que se refere às
preocupações diárias do estado de vigília, ocupa, em relação às defesas do ego, um
lugar intermediário entre as duas partes que acabamos de examinar.
Muitas preocupações do estado de vigília não são rejeitadas pelo ego,
exceto, talvez, como possíveis perturbadores do sono. Algumas são mesmo
consideradas agradáveis e desejáveis pelo ego. No entanto, há preocupações
comuns que são diretamente desagradáveis para o ego por determinarem
ansiedade ou sentimento de culpa.
Durante o sono, portanto, os mecanismos de defesa do ego tentam barrar o
acesso à consciência a essas fontes de desprazer. É o desprazer, ou a perspectiva
do desprazer que, em geral, desencadeia as defesas do ego. No caso de elementos
latentes do sonho, como os que agora comentamos, acreditamos que a intensidade
da oposição inconsciente que lhes faz o ego é proporcional à intensidade da
ansiedade ou do sentimento de culpa, isto é, do desprazer a eles associado.
Vemos, então, que as defesas do ego se opõem vigorosamente a que a
parte do conteúdo latente do sonho que deriva do reprimido penetre na consciência,
como se opõe, com maior ou menor intensidade, conforme o caso, às diversas
preocupações do estado de vigília que são, também, uma parte de conteúdo latente.
Entretanto, por definição, os pensamentos, esforços e sensações
inconscientes, a que chamamos de conteúdo latente do sonho, conseguem,
realmente, penetrar na consciência, onde surgem na forma de sonho manifesto.

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O ego não pode impedi-lo, mas pode influir na atividade do sonho, e
realmente o faz, tornando o sonho manifesto distorcido de maneira irreconhecível e,
consequentemente ininteligível. Assim, a principal razão para que sejam
incompreensíveis é que as defesas do ego os fazem assim.
Em 1933, Freud denominou o sonho manifesto, “formação de compromisso”
com o que quis dizer que seus vários elementos poderiam ser considerados um
compromisso entre as forças opostas do conteúdo latente do sonho, de um lado, e
as defesas do ego, de outro.
Um exemplo pode ajudar a esclarecer este ponto, suponhamos que a
pessoa que sonha é uma mulher e que a parte do conteúdo latente do sonho
derivada do reprimido constitua um desejo, originário da fase edipiana, de ter
relações sexuais com o pai. Isto poderia ser representado no sonho manifesto,
conforme uma fantasia apropriada daquele período de vida, por uma imagem da
mulher e seu pai lutando um contra o outro, seguida de uma sensação de excitação
sexual.
Entretanto, se as defesas do ego se opõem a tal expressão indisfarçada
desse desejo edipiano, a excitação sexual pode ser barrada da consciência e em
consequência o elemento do sonho reduz-se simplesmente à imagem da luta com o
pai, sem a concomitante excitação sexual. Se isto for ainda demasiadamente
parecido com a fantasia original para que o ego possa tolerar sem ansiedade ou
sentimento de culpa, a imagem do pai pode deixar de aparecer, sendo substituída
por outra em que a mulher está lutando com outra pessoa, seu próprio filho talvez.
Se a imagem da luta ainda for muito parecida com a fantasia original, poderá ser
substituída por alguma outra atividade física como, por exemplo, a dança, de modo
que o elemento manifesto do sonho será o da mulher dançando com seu filho.
Mas ainda isto pode ser repelido pelo ego; então, em lugar do elemento
manifesto do sonho que acabamos de descrever, nele pode aparecer a imagem de
uma mulher desconhecida, com um rapaz que é seu filho, numa sala de assoalho
encerado.

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Deveríamos concluir esta série de exemplos com as palavras “e assim por
diante”, uma vez que as possibilidades de disfarçar a verdadeira natureza de
qualquer elemento do conteúdo latente do sonho são praticamente infinitas.
Na realidade, naturalmente, o equilíbrio entre a intensidade das defesas e a
do elemento latente do sonho é que determina se o sonho manisfesto está mais
próximo ou distantemente relacionado como o sonho latente, isto é, quantos
disfarces foram infringidos, durante a atividade do sonho, ao seu elemento latente.
No exemplo dado no parágrafo anterior, o leitor deve compreender que cada
uma das imagens manifestas do sonho ali descritas é uma possibilidade à parte que
pode aparecer em um determinado sonho em circunstâncias apropriadas. O
exemplo não pretende sugerir que em um sonho determinado o conteúdo manifesto
“A” seja experimentado primeiro e, se o ego não o tolerar, será substituído por “B”,
senão, por “C”, e assim por diante. Pelo contrário, dependendo do equilíbrio de
forças entre as defesas e o elemento latente do sonho, quer “A”, “B” ou “C”, etc.,
aparecerão no sonho manifesto.
Como seria de esperar, nosso exemplo não esgotou, ou sequer sugeriu, a
variedade de “formações de compromisso” possíveis entre a defesa e o conteúdo
latente. Qualquer coisa que se assemelhe a uma lista completa de tais
possibilidades se afastaria muito do nosso propósito.
Existem, porém, algumas, importantes ou típicas, que devem ser
mencionadas. Por um lado, elementos que fazem parte do conteúdo latente podem
surgir em partes, amplamente separadas, do conteúdo manifesto. Assim, a pessoa
do exemplo acima apresentado poderia ver-se lutando com alguém em uma parte do
sonho manifesto, enquanto o pai estava presente em outra parte completamente
diferente. Esses esfacelamentos das relações são consequências comuns da
atividade do sonho.
Outro fenômeno comum, de compromisso, é que parte, ou mesmo todo o
sonho manifesto, é muito vago. Como Freud assinalou isto, invariavelmente, indica
que é muito grande a oposição que fazem as defesas ao elemento ou elementos
correspondentes do sonho latente. É verdade que as defesas não foram
suficientemente fortes para impedir que a parte do sonho manifesto em questão

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aparecesse inteiramente no consciente; foram, porém, suficientemente fortes para
impedi-la de se tornar mais que meio, ou vagamente, consciente.
Os sentimentos ou emoções que fazem parte do conteúdo latente do sonho
são, também, sujeitos a uma variedade de vicissitudes pela elaboração do sonho. Já
mostramos a possibilidade de que tal emoção que, em nosso exemplo, foi à
excitação sexual, possa não aparecer, de modo nenhum no conteúdo manifesto.
Outra possibilidade é que a emoção possa aparecer com intensidade muito
reduzida ou algo alterada na forma. Assim, por exemplo, o que era cólera no
conteúdo latente pode surgir como aborrecimento, ou um leve desagrado, no
conteúdo manifesto, ou pode mesmo ser representado por uma sensação de não
estar aborrecido. Intimamente relacionada à última destas alternativas é a
possibilidade de que um sentimento pertencente ao conteúdo latente do sonho
possa ser representado sem conteúdo manifesto, pelo seu oposto. Um anseio
latente pode, assim, apresentar-se como uma repugnância manifesta, ou, vice-versa,
o ódio pode se manifestar como amor, a tristeza como alegria, e assim por diante.
Tais alterações, naturalmente, representam um “compromisso”, no sentido freudiano
da palavra, entre o ego e o conteúdo latente, e introduzem um enorme elemento de
disfarce no sonho manifesto.
Nenhuma consideração sobre as emoções seria completa sem a inclusão da
emoção particular da ansiedade. Como mencionamos anteriormente, certos críticos
de Freud tentaram contestar sua afirmação de que todo sonho manifesto é a
realização de um desejo, alegando que existe toda uma classe de sonhos em que a
ansiedade é um traço predominante do sonho manifesto.
Na literatura psicanalítica, estes sonhos são, em geral, chamados de sonhos
ansiosos. Na literatura não-analítica, os mais graves desses sonhos são os
chamados pesadelos.
Em geral, podemos dizer que os sonhos ansiosos assinalam uma falha nas
atividades defensivas do ego. O que realmente ocorre é que um elemento do
conteúdo latente do sonho consegue apesar dos esforços das defesas do ego,
penetrar no consciente, isto é, no conteúdo manifesto do sonho, de maneira

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demasiada direta ou evidente para que o ego a pudesse tolerar. Consequentemente
o ego reage com a ansiedade.
Existe outra classe de sonhos intimamente relacionada com os sonhos
ansiosos, geralmente chamados de sonhos de punição. Nestes sonhos, como em
muitos outros, o ego antecipa a culpa, isto é, a condenação do superego, se a parte
do conteúdo latente que deriva do reprimido encontrar uma expressão
demasiadamente direta no sonho manifesto.
Consequentemente, as defesas do ego se opõem à emersão desta parte do
conteúdo latente, o que tampouco difere do que ocorre na maioria dos outros
sonhos. No entanto, o resultado, no caso dos chamados sonhos de punição, é que o
sonho manifesto, em lugar de expressar uma fantasia mais ou menos disfarçada da
satisfação de um desejo reprimido, expressa uma fantasia mais ou menos disfarçada
de punição pelo desejo em questão – um “compromisso” certamente extraordinário
entre ego, id e superego.
Neste ponto deve ter surgido, para você, uma pergunta: Como pode o
reprimido aparecer na consciência em um sonho?
A resposta a esta pergunta pode estar na psicologia do sono. Durante o
sono, o caminho para a motilidade está efetivamente barrado. Assim, talvez, a
intensidade das defesas do ego esteja consideravelmente diminuída. É como se o
ego dissesse: “Não tenho que me preocupar com esses impulsos indesejáveis. Nada
podem fazer enquanto eu estiver dormindo e permanecer na cama”.
Por outro lado, Freud admitiu que as catexias dos impulsos à disposição do
reprimido, isto é, a intensidade com que lutam para se tornarem conscientes, não se
reduz, de modo significativo, durante o sono.
Assim, o sono tende a produzir um relativo enfraquecimento das defesas
contra o reprimido, e, em consequência, este tem maior probabilidade de se tornar
consciente durante o sono que durante o estado de vigília.
Devemos compreender que esta diferença entre o sono e o estado de vigília
é mais de grau que de espécie. É verdade que, durante o sono, um elemento do
reprimido tem mais probabilidade de se tornar consciente que durante o estado de
vigília, mas, como o vimos, em muitos sonhos as defesas do ego introduzem ou

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impõem tal quantidade de distorção e disfarce durante a atividade do sonho, que o
acesso do reprimido à consciência, dificilmente, é de forma muito direta nesses
casos.
Ao contrário, em certas circunstâncias, elementos do reprimido podem
conseguir penetrar diretamente no consciente durante o estado de vigília. Por
exemplo, no caso de um paciente que derrubou “acidentalmente” um velho com seu
carro, em um cruzamento movimentado, revela como um impulso edipiano do
reprimido pode, momentaneamente, controlar o comportamento e, assim, conseguir
uma expressão direta durante o estado de vigília. Como outros fenômenos que
confirmam o mesmo ponto não são absolutamente raros, é claro que não podemos
estabelecer um contraste direto entre o sono e a vigília a este respeito. Entretanto, o
fato permanece que, de modo geral, o reprimido surgirá em um sonho manifesto de
forma mais direta do que conseguirá fazê-lo no pensamento ou no comportamento
consciente de estado de vigília.
Como já dissemos, existe ainda outro processo, que contribui para a forma
final do sonho manifesto e que pode aumentar sua falta de inteligibilidade. Freud
(1933) chamou este processo final, de elaboração secundária. Com isto, queria se
referir às tentativas do ego de moldar o conteúdo manifesto do sonho em uma forma
de lógica e coerência.
O ego procura, por assim dizer, tornar “racional” o sonho manifesto, do
mesmo modo que procura “dar sentido” a quaisquer impressões que estejam sob
sua influência.
Vamos falar agora, de um aspecto do sonho manifesto. Trata-se do fato de
que um sonho manifesto quase sempre consiste, principalmente, em impressões
visuais; na realidade, não é raro que consista, exclusivamente, nessas impressões.
Entretanto, também outras sensações podem ser percebidas como parte do sonho
manifesto. Temos também as sensações auditivas.
Tampouco é raro que pensamentos, ou fragmentos de pensamentos, surjam
como partes de um sonho manifesto na vida adulta, como é o caso, por exemplo, da
pessoa que diz em sonho: “Vi um homem de barba e sabia que ele ia visitar um de
meus amigos”.

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Como todos sabem, por experiência própria, as impressões sensoriais de
um sonho manifesto merecem todo crédito enquanto estamos dormindo. Elas são
tão reais quanto nossas sensações em estado de vigília. A este respeito, tais
elementos do sonho manifesto são comparáveis às alucinações que frequentemente
se manifestam como sintomas em casos graves de doenças mentais.
Realmente Freud (1916) referiu-se aos sonhos como psicoses passageiras,
embora não haja dúvida de que os sonhos não são em si próprios fenômenos
patológicos. Surge, pois, o problema de como explicar o fato de que o resultado final
da elaboração do sonho, isto é, o sonho manifesto, seja essencialmente uma
alucinação, ainda que uma alucinação normal, típica do sono.
Nos termos da teoria psicanalítica atual sobre o aparelho psíquico – a
chamada hipótese estrutural – deveríamos formular nossa explicação de que o
sonho manifesto é, essencialmente, uma alucinação mais ou menos como segue.
Durante o sono, muitas funções do ego são interrompidas em maior ou
menor proporção. Como exemplo, mencionou-se a redução das defesas do ego e a
quase completa cessação da atividade motora voluntária. O que é importante para a
presente argumentação, é que durante o sono ocorre também, um acentuado
enfraquecimento da função do ego da prova da realidade, isto é, da sua capacidade
para diferenciar os estímulos de origem interna e externa. Além disto, também
ocorre durante o sono uma profunda regressão do funcionamento do ego a um nível
característico da infância muito remota.
Por exemplo, o pensamento se processa mais à maneira do processo
primário que do secundário e é mesmo, essencialmente, pré-verbal, isto é, consiste
em grande parte em imagens sensoriais que são primordialmente visuais. Talvez a
perda do critério de realidade seja também mera consequência da ampla regressão
do ego que ocorre durante o sono.
Então, de qualquer modo, há tanto uma tendência de o pensamento de
manifestar em imagens pré-verbais, principalmente visuais, e uma incapacidade do
ego de reconhecer que essas imagens surgem antes dos estímulos internos que dos
externos. Segundo cremos, é em consequência desses fatores que o sonho
manifesto constitui uma alucinação visual.

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Um fato facilmente evidenciado e que justifica a explicação apoiada na
hipótese estrutural, é que durante muitos sonhos, a capacidade de analisar a
realidade não se perde totalmente. A pessoa percebe, até certo ponto, mesmo
enquanto sonha que o que experimenta não é real, ou que é “apenas um sonho”.
Isto conclui o que temos a dizer sobre a teoria psicanalítica da natureza dos
sonhos. Estudamos as três partes de um sonho, isto é, o conteúdo latente, a
elaboração do sonho e o conteúdo manifesto, e procuramos indicar como age a
elaboração do sonho e que fatores a influenciam. Na prática naturalmente, quando
procuramos estudar um sonho em particular, deparamos com um conteúdo
manifesto nos vendo de braços com a tarefa de verificar de um modo ou de outro
qual poderia ser o conteúdo latente.
Quando a tarefa é coroada de êxito e conseguimos descobrir o conteúdo
latente do sonho, podemos dizer que interpretamos o sonho, ou que descobrimos
seu significado.

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GLOSSÁRIO

COMPULSÃO À REPETIÇÃO – ao nível da psicopatologia, processo


incoercível e de origem inconsciente, pelo qual o sujeito se coloca ativamente em
situações penosas, repetindo assim experiências antigas sem se recordar do
protótipo e pelo contrário a impressão muito viva do que se trata de algo plenamente
motivado na atualidade (Pontalis, 1983).

------------------- FIM DO MÓDULO IV -------------------

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