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Disciplina: Psicologia Histórico Cultural

Estudo Dirigido 1: Análise do filme O menino do Pijama Listrado

Acadêmicos: Luiz Gustavo Alves de Lara, Andiacy, Maria, Edilaine

Diferentemente dos demais animais, ainda que do mais próximos dos humanos, os primatas
antropoides, fomos capazes de construir um sistema de signos para mediar nossa interação e,
consequentemente, desenvolvemos a capacidade de transmitir significados a partir dele. Pouco a pouco
na evolução, nossa experiência deixou de ser uma relação apenas corpo e externalidades e passou a ser
uma relação mediada, senão condicionada, pelo uso de recursos simbólicos .

É pela linguagem, esse presente compulsório que nos é ofertado na inserção no mundo social,
que deixamos de ser meramente instintivos e passamos a ser seres que elaboram sua experiência de ser
no campo simbólico. Na condição de humanos, no sentido cultural agora, tornamos presente na
compreensão aquilo que estava ausente. Trazemos à compreensão quem somos, o que não somos,
quem é o outro e o que é externo ao nosso corpo.

O real, presumidamente acessado diretamente pela razão sob algumas perspectivas filosóficas e
resoluções metodológicas da ciência, é algo que não se apresenta senão pela mediação da linguagem,
ou seja, pelo sistema simbólico. Isso significa que, uma vez inseridos na cultura, uma vez humanizados,
jamais voltaremos a acessar o real senão tocando-o com as luvas da linguagem. O sistema simbólico,
nesse sentido é um instrumento: organiza o real e media nosso contato com o mundo. O pensamento,
que para uma criança é uma confusão entre eu e o outro se ordena por meio de linguagem e passa a
operá-lo. Nesse sentido, pode se dizer que o pensamento é linguagem. Para isso bastaria simples
provocação: pense sem linguagem! Não é possível, claro, pois toda vez que pensa, é linguagem
operando e organizando nossa experiência como mundo. Das formas mais abstratas, já assim designadas
simbolicamente, aos signos linguísticos mais primordiais, estamos condenados a significar.

O sistema simbólico é, portanto, a única coisa capaz de descrever a si mesma e de transformar-


se apenas por sua própria natureza movente - diacrônica e sincrônica – no desenvolvimento e na história
de uma cultura ou de uma sociedade. A linguagem constitui os sujeitos enquanto seres de compreensão
e, ao mesmo tempo deixa-se por eles ser transformada, como uma fábrica de tijolos cujos operários a
constroem interminavelmente a partir de seus próprios tijolos. É por isso que a aculturação, ou seja, a
subjetivação no campo simbólico determina tanto a experiência do ser em relação a si e ao mundo.
Recebemos um sistema de partida, que se transforma sem nunca romper seus laços históricos de
construção.

No filme o menino do pijama listrado temos vários sistemas simbólicos que estão em interação –
o que não significa que não sejam conflitantes. Em meio a esse movimento da linguagem e as lutas
sociais que se estabelecem para ter o domínio das significações legítimas temos o contexto trágico da
segunda guerra mundial onde países buscavam fixar uma visão de mundo muito própria, cada um à sua
maneira. Entre elas, uma das maiores cicatrizes do século XX, a relação entre os nazistas e os povos por
eles violentados no território europeu. Bruno, filho de um oficial da SS esta em processo de aculturação
intensa, seja pela idade de oito anos quando o ser humano adquire mais autonomia na articulação
simbólica, das funções superiores, e passa a melhor organizar suas atividades, seja porque naquele
contexto histórico existe um embate ideológico do qual ele, sem saber, faz parte.

Sua condição de aculturado nos primeiros anos em uma localidade de aparente menor violência
nazista fez com que Bruno não conseguisse elaborar uma clara organização da sua condição histórica:
ariano, filho de militar e que deveria hostilizar judeus. Sua inocência, aos poucos corrompida por meio
de catequização nazista, se apresenta quando ao olhar para um judeu uniformizado o compreende como
estranho, por parecer doentio e de pijama. Bruno não tem os signos necessários para significar um
Judeu sob a ideologia nazista e, por isso, o compreende com os recursos que dispõe. A cada encontro
com o inédito, como inesperado e com situações que o obrigam a significar algo, vemos que Bruno
compreende o mundo com os escassos recursos linguístico que domina – comparado à complexidade
simbólica de seu tempo. Sua época traduz a lei da dupla estimulação: quanto mais os nazistas criavam
sua visão de mundo, mais nazistas formados. Bruno estaria condenado a ser um nazista, salvo se alguma
Vicência o colocasse fora do círculo hermenêutico de sua família. Seria necessário que tivesse choques
de cultura para estabelecer novas significações e, tragicamente isso aconteceu.

Ao mudar para próximo de um campo de concentração seria improvável que uma criança ariana
conseguisse se aproximar de uma criança judia. Mas é justamente por ser condenado a significar e por
não ter todas as respostas, que Bruno segue uma trilha do desconhecido até chegar nos arames
farpados e encontrar uma outra criança, com a qual se identifica, embora seu nome seja muito
excêntrico para um alemão: Shmuel. Um judeu de idade próxima que em nada se diferencia de Bruno,
ou melhor, ele não tem elementos simbólicos suficientes para diferenciar Shmuel. E por isso, logo nos
primeiros diálogos, não sem estranheza em relação a tantas imagens inéditas (uniforme, cabelo raspado
e jeito estranho de se portar), se forma um laço de identificação.

O aceso de Bruno a um judeu de sua idade o transformou. Nesse sentido, vemos a linguagem
como mediadora do real, constituindo a realidade na instância da compreensão. A cada nova
significação o sujeito se transforma, é o movimento que fica retratado quando na escolarização
domiciliar, ao contrário de sua irmã, Bruno apresenta resistências para assimilar as significações de
inferioridade dos judeus. A esta altura bruno já está destinado a não ser igual a outra criança alemã, filha
de militar, alienada de sua realidade. Bruno, por ter tido contato com as bordas de seu sistema cultural e
ter fundido horizontes interpretativos com Shmuel, em uma relação muito própria, passa a ter recursos
interpretativos para questionar a visão de mundo de seus pais.

O trágico destino de Bruno e Shmuel na busca pelo seu pai desaparecido de constrói sob uma
intensa necessidade de significar e uma insuficiência de signos para elaborar. Da mesma forma, ao
deparar-se com o sumiço do filho, os pais de Bruno necessariamente foram transformados pelo choque
de cultura e seus efeitos. Tiveram que reconhecer o sofrimento dos judeus na morte do próprio filho.
Um ineditismo dessa natureza, inominável, não produz outro efeito senão novas significações e
interpretações. O drama provoca: os sujeitos imersos em bolhas de opiniões não conseguem acessar
suas bordas senão por um acaso ou por noção de que seus recursos simbólicos não darão conta, jamais,
de reduzir a verdade a um lugar simbólico universal.