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FUNDAÇÃO EDSON QUEIROZ

UNIVERSIDADE DE FORTALEZA – UNIFOR


CENTRO DE CIÊNCIAS JURÍDICAS – CCJ
Curso de Direito

LORENA MONTEIRO DE OLIVEIRA

O INSTITUTO DA TRANSAÇÃO PENAL E EXPERIÊNCIAS


NO BRASIL

FORTALEZA-2013
LORENA MONTEIRO DE OLIVEIRA

O INSTITUTO DA TRANSAÇÃO PENAL E EXPERIÊNCIAS


NO BRASIL

Projeto de Monografia apresentada à


Universidade de Fortaleza-UNIFOR, como
requisito parcial para obtenção do título de
Bacharel em Direito.

Orientador(a): Wagneriana Lima Temóteo


Camurça

FORTALEZA- 2013
RESUMO

A transação penal é definida como um instituto despenalizador. No qual, o Ministério


Público antes de oferecer a denúncia, percebendo que a infração é de menor potencial
ofensivo e que obedece aos requisitos do artigo 76 da Lei 9099/95, propõe ao autor do fato a
aplicação imediata de penas restritivas de direito ou multa, cujo cumprimento implicará a
extinção da punibilidade e atuará como substituto do processo.

A Lei n 9099/95 inovou como instrumento de aplicação do instituto da transação penal


no sistema do direito penal brasileiro, que gerou posicionamentos sobre várias óticas. A
princípio surgiram grandes discussões acerca da constitucionalidade, e posteriormente sobre
sua natureza jurídica, e sobre qual a natureza da sentença que homologa o acordo entre
Ministério Público e suposto autor do fato, bem como eventual descumprimento da transação
penal. De outra perspectiva a adoção dessas medidas despenalizadoras/alternativas justificou-
se pelo aumento da criminalidade, apresentando um grande número de processos, o
congestionamento da máquina judiciária, sem mencionar a ineficiência e o elevado custo do
sistema judiciário.

Palavras-chaves: Transação penal. Justiça Restaurativa. Aplicabilidade. Experiências.


TRANSAÇÃO PENAL

1.1 Contexto histórico e Conceito

As medidas despenalizadoras surgiram com a intenção de diminuir a pena de um delito


sem descriminalizá-lo. A despenalização não visa à perda do caráter delituoso, e sim evitar ou
dificultar a aplicação e a execução de penas, principalmente as privativas de liberdade.

Essas medidas despenalizadoras surgiram em virtude do fracasso do sistema penal e


prisional, que atualmente se mostra ineficaz, ineficiente e extremamente oneroso. Por isso, a
necessidade de buscar novas alternativas.

Os questionamentos sobre um novo modelo de justiça consensual foi introduzido pelo


enunciado do artigo 98, inciso I da CF, que diz:

Art. 98. A União, no Distrito Federal e nos Territórios, e os Estados criarão:

I-juizados especiais, providos por juízes togados, ou togados e leigos, competentes


para a conciliação, o julgamento e a execução de causas cíveis de menor
complexidade e infrações penais de menor potencial ofensivo, mediante os
procedimentos oral e sumaríssimo, permitidos, nas hipóteses previstas em lei, a
transação e o julgamento de recursos por turmas de juízes de primeiro grau;

Antes desse artigo 98 da CF, o procedimento para aplicação de pena era regido pelo
princípio “nulla poena sine judicio”, segundo o qual a pena somente seria aplicada através de
sentença condenatória, proferida por órgão judicial competente. Diante disso, podemos
perceber novo modelo de Estado Democrático de Direito sendo adotado pelo Brasil,
inaugurado pela o texto da nova Constituição Federal de 1988.

Já posteriormente, o advento da Lei n 9099/95 que institui e disciplinou as medidas


despenalizadoras tendentes a substituir à pena e o próprio processo criminal, definindo em:
composição civil, transação penal e suspensão condicional do processo, que devemos dar mais
atenção a transação penal. Essa lei tem o intuito de minimizar a intervenção do Poder Estatal,
e buscar agilizar e simplificar o procedimento e julgamento das infrações penais de menor
potencial ofensivo, (dá celeridade a resolução de conflitos sem necessariamente iniciar o
processo).

De forma clara e objetiva o conceito de transação penal se define nos artigos 75 e 76


da Lei n 9099/95, mais expressamente no artigo 76 que diz:
Art. 76. Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública
incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá
propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multas, a ser
especificada na proposta.

Transação significa negócio, mas no sentido jurídico significa o ato jurídico que
extingue as obrigações através de concessões recíprocas das partes interessadas. Segundo o
entendimento de Damásio de Jesus, a transação penal se configura por ser um instituto que
permite ao Juiz, de imediato, aplicar uma pena alternativa ao autuado, justa para a acusação e
defesa, encerrando o procedimento. Ou seja, um acordo de vontades entre o titular da ação
penal e o suposto autor do fato, um desiste de intentar a ação penal, caso o outro aceite
submeter-se a uma pena imediata não privativa de liberdade. Assim, com concessões
recíprocas terminam o litígio penal.

A transação penal que consiste na aplicação de pena restritiva de direitos ou multa pelo
Ministério Público para o infrator de crime de ação penal pública condicionada à
representação da vítima ou crime de ação penal pública incondicionada. Ou seja, a transação
ocorre quando obedecidas certas condições e requisitos, o Ministério Publico antes de oferecer
a denuncia e em substituição ao processo, propõe ao autor do fato a aplicação imediata de
penas restritivas de direito ou multa, e cujo seu cumprimento enseja a extinção da
punibilidade.

Portanto, a transação penal ocorrerá quando apurado o fato jurídico e se tratando de


crime de ação penal pública incondicionada, o promotor de justiça- membro do Ministério
Público, irá propor ao autor do fato a aplicação de pena restritiva de direitos ou multa. Assim,
se o autor e seu defensor aceitarem a proposta, o juiz homologa o acordo. No entanto, se a
proposta não foi aceita pelo acusado e seu defensor, seguirá então o rito tradicional com o
oferecimento da denúncia pelo MP. Para Sergio Turra Sobrane (2001. p. 75) o conceito de
transação penal é:

o ato jurídico através do qual o Ministério Publico e o autor do fato, atendidos os


requisitos legais , e na presença do magistrado, acordam em concessões recíprocas
para prevenir ou extinguir o conflito instaurado pela pratica de fato típico, mediante
o cumprimento de uma pena consensualmente ajustada.

O artigo 62 da Lei n 90999/95 elenca os princípios que norteiam os processos que


tramitam perante os Juizados Especiais podemos citar os critérios da oralidade, da
informalidade, simplicidade, da economia processual e celeridade, sempre que possível
objetivando a reparação de danos sofridos pela vitima e a aplicação da pena não privativa de
liberdade. Vale lembrar, da própria essência da lei se pode extrair outros princípios implícitos.

O princípio da oralidade veio em contrário à tradição do direito processual penal


brasileira, com o intuito de tornar o procedimento mais simples e célere. Algumas hipóteses
que representam esse princípio foram: a substituição do inquérito pelo termo circunstanciado;
aos atos realizados em audiência podem ser gravados em fita magnética, apresentação da
acusação e defesa de forma oral; apresentação de provas, debates e sentenças também podem
ser orais e depois reduzida a um termo com breve relato do ocorrido na audiência. Destarte, a
intenção do legislador não foi abolir os registros escritos, mas sim, agilizar o procedimento.

Os princípios da informalidade e da simplicidade que são decorrentes da interpretação


do artigo 77, parágrafo 2, da Lei n 9099/95, traduz seu objetivo nas hipóteses: dispensa de
relatório da sentença, nulidade de atos somente com a demonstração de prejuízos, dispensa de
exame de corpo delito para oferecimento da denúncia, informalidade da representação, que
pode ser verbal e reduzida a escrito. No entanto, não pode a ausência absoluta de formalidade,
pois afrontaria os princípios constitucionais maiores.

O princípio da economia processual decorre da otimização do processo, ou seja,


alcançar o objetivo com o mínimo de atos processuais, gerando uma considerável economia
de tempo e recursos humanos e materiais. Umas das circunstâncias que refletem esses
princípios são: imediato encaminhamento das partes ao Juizado Especial, a extinção do
processo com a composição civil ou transação, concentração de diversos atos processuais em
uma única audiência.

O princípio da celeridade consiste na rapidez com que as lides encaminhadas ao


sistema dos Juizados Especiais Criminais são, ou deveriam ser, solucionadas através de
conciliação ou transação penal, ou através de sentença de mérito. Com isso, o legislador
pretendeu que a lide penal submetida ao procedimento sumaríssimo dos Juizados Especiais
Criminais não levariam mais de 45 dias para ser solucionada.

Acrescenta-se ainda, os princípios da discricionariedade regrada e o da autonomia da


vontade que não foram contemplados no artigo 62 da Lei n 9099/95. O princípio da
discricionariedade regrada é o responsável pelo qual se fundamenta os poderes do Ministério
Público, para dispor da ação penal pública nos crimes da competência material dos Juizados
Especiais Criminais. Todavia, o poder discricionário do Ministério Público é limitado as
hipóteses previstas na lei, como os institutos da transação penal e da suspensão condicional do
processo.

O princípio da autonomia da vontade surgiu do novo modelo de justiça consensual,


baseada na busca da solução negociada do conflito penal, calcada na autonomia da vontade
das partes em litígio. Assim, a participação e a livre manifestação do infrator são de extrema
importância, porém, somente tem validade legal se dor voluntária, sem coação ou ameaça, e se
contar com a aprovação do advogado.

Outro princípio que vale lembrar é o da oportunidade, que em casos de ação pública
condicionada ou incondicionada traz a faculdade do Ministério Público de se abster de exercer
o processo criminal, podendo suspender ou renunciar, nos casos que estão previstos no
Código. Já se tratando de ação privada a legitimação ativa pertence à vítima, titular do direito
de agir, cabe a faculdade de propor ou não a ação penal.

A admissibilidade da proposta da transação penal está condicionada a determinados


requisitos, a condição mais indispensável é a existência de infração de menor potencial
ofensivo, aquelas contravenções penais e crimes que a lei comine pena máxima não superior a
2 anos, que pode ou não ser adicionada a multa. Daí surge o questionamento para casos de
agravantes ou marjorantes que causassem o aumento de pena, seria a transação penal
inviabilizada? Alguns doutrinadores como Tourinho Filho (2003) e Ada Pellegrini (2005)
defendem que essas circunstâncias agravantes não devem ser consideradas como impeditivas
da transação.

No entanto, a Segunda Turma do STF, nos autos do HC 85427/SP- SÃO PAULO,


relatado pela Ministra Ellen Gracie, decidiu, por unanimidade, que do concurso formal de
crimes é causa bastante para inviabilizar a transação penal (2007).

A aplicação da transação penal nos juizados especiais criminais ocorre quando


presentes os seguintes requisitos: não ter sido o autor da infração condenado, pela prática de
crime, à pena privativa de liberdade, por sentença definitiva; não ter sido o agente beneficiado
anteriormente, no prazo de cinco anos, pela aplicação de pena restritiva ou multa; se
indicarem os antecedentes- a conduta social e a personalidade do agente, bem como os
motivos e as circunstâncias judiciais- ser necessária e suficiente a adoção da medida; ser
formulada a proposta pelo Ministério Público e aceita por parte do autor da infração e seu
defensor e quando não se tratar de hipótese de arquivamento do procedimento.
A pena que será proposta pelo Ministério Público e aplicada ao autor do fato deve
obedecer sempre o artigo 68 do Código Penal Brasileiro, que determina que a sanção não
pode ser de livre arbítrio mas muito bem fundamentada, pois a mesma será analisada pelo juiz
com a finalidade de apreciar a legalidade da medida quanto ao preenchimentos de todos os
requisitos, e se é realmente pena não privativa de liberdade. Vale ressaltar que não é possível
a conversão da pena pelo Ministério Público, pois não há previsão legal que estabeleça a
constitucionalidade deste ato.

A proposta da aplicação da transação penal gerou um avanço significativo tanto do


ponto de vista do Estado, como do acusado do fato. Isso porque, os benefícios vão deste a sua
evolução em trazer para o Direito Penal e Processo Penal um caráter despenalizador e busca
uma solução consensual dos conflitos (sem o desgaste processual) celeridade processual que
diminui os gastos da justiça (tanto na manutenção do processo – que economiza os recursos
humanos e materiais, como também o alto gasto para garantir o efetivo sistema penitenciário e
sua falência na busca da solução de conflitos através da aplicação de penas privativas de
liberdade).

Já para o acusado, segundo os autores que defendem o instituto haveria três vantagens
básicas para aceitar a transação penal: a redução da possibilidade de uma pena de detenção
durante o processo em tribunal; o aumento das chances de obter uma sentença não
condenatória; e a redução dos custos financeiros com a constituição de advogado.

A transação penal é um instrumento que foi considerado semelhante ao plea


bargaining, do Direito Processual Criminal dos Estados Unidos. Diferente do nosso sistema o
plea bargaining se traduz pela negociação entre a acusação e a defesa, no qual o órgão de
acusação pode deixar de acusar em troca da confissão ou da colaboração do suspeito
delatando os outros envolvidos no ato infracional. Ou seja, não existe a busca pela verdade
real, e sim uma verdade negociada entre a acusação e a defesa, e assim negociam uma pena
que é considerada justa diante do ato que foi praticado pelo acusado.

1.2 Justiça Restaurativa

O novo modelo de gestão de crime que vem sendo discutido desde a década de setenta,
é a Justiça Restaurativa1, que surgiu diante da falência sistema penal convencional, que não

1
. Baseado nos textos de Lucas Nascimento Santos, Justiça Restaurativa (2009): Proposta de um novo modelo
de Justiça em resposta à crise do sistema penal; A justiça restaurativa como método de controle social sob o
enfoque do direito penal do cidadão.
está apto para resolver tantas demandas geradas por diversos fatores (como desigualdade
social, ausência efetiva de segurança, e lenta resposta do Estado).

O conceito inicial foi articulado por Zehr, quando por volta de 1985, publicou um livro
sobre a Justiça Restaurativa denominado Restributive Justice, Restorative Justice. Alternative
Justice paradigma. Para o professor de história e diretor do Comitê Central menonita sobre
Justiça Penal, Howard Zehr, entende que deve visualizar o delito como uma ofensa contra a
pessoa. Sua proposta é uma Justiça Restaurativa se fundamenta na busca da reparação da
vítima, ressaltando as necessidades e responsabilidades do infrator e da comunidade.

O professor britânico Martin Wright que também realizou estudos a respeito do


modelo de justiça restaurativa, acredita no efeito do integrativo que consiste na reparação
material ou simbólica. Os princípios básicos dessa idéia de reparação são: o infrator reparar a
vítima ou a comunidade e da vítima oferecer ajuda na reparação, segundo a mediação. Por
fim, define a Justiça Restaurativa como o processo que todas as partes afetadas pela infração
se reúnem para analisar a reação devida ao caso, e suas implicações futuras. Quanto aos
objetivos foram traçados três: reparação da vítima (material, emocional e social), reintegração
do infrator na comunidade (trabalho de prevenção da reincidência), e promoção da
comunidade com recursos para a prevenção do delito.

Aleksander Fatic defende a idéia que deve ser evitado à justiça e dor como instrumento
de controle social, e promover a educação e comunicação como meios de garantir o bem-estar
social e cultural. Para Marshall que entende o conceito de Justiça Restaurativa semelhante o
exposto por Zehr, esses sistema apresenta algumas deficiências, como: confusão ao explicar o
significado da justiça restaurativa; resquícios de valores religiosos que geram a idéia da não
punição; individualismo e falsa idéia de oposição a justiça, visto que não se opõe apenas tenta
solucionar os pontos negativos.

A Justiça Restaurativa se iniciou no princípio da dignidade humana, com isso propõem


a devolução da capacidade administrar determinados conflitos à própria comunidade,
envolvendo a vítima e o agressor para que haja uma efetiva consciência do dano causado, e
conseqüentemente uma responsabilização do autor na reparação, devolvendo a paz social.

Esse modelo de justiça consiste na mediação entre as partes envolvidas no conflito, na


tentativa de reparação do dano. Ou seja, o objetivo é encorajar as partes envolvidas a
protagonizarem o deslinde do conflito, assim as autoridades atuaram apenas como
facilitadores. Os princípios básicos da justiça restaurativa são: o da voluntariedade e da
confidencialidade.

Uma diferenciação importante ocorre entre os conceitos de Justiça Restaurativa e


Justiça Retributiva. Primeiramente, a Justiça Retributiva nasce no campo da culpabilidade e
tem como meta a pena, em sentido contrário, a Justiça Restaurativa tem seu caminho calcado
na análise dos danos causados a vítima e a justa reparação.

A respeito da definição de ambas, a Justiça Retributiva é baseada em valores que


definem a prática judicial de castigo que rege as sociedades ocidentais, ou seja, sua principal
atividade é fixar à pena e aplicar o dano em cada crime concreto. A Justiça Restaurativa busca
a restauração dos relacionamentos, em vez de ficar limitada a culpa. Desta forma, a reparação
não consiste só na reparação da vítima, mas também no arrependimento do autor e na
responsabilidade pelo fato cometido.

Destarte, a Justiça Restaurativa é um procedimento complementar do sistema que atua


na recomposição da ordem jurídica com outros modos, na finalidade de obter resultados
satisfatórios para a vítima e o infrator. Assim, consiste no exercício comunitário e público
adotando técnicas da mediação, conciliação e transação.

Conclui- se então, que há a necessidade de uma revolução na Política criminal,


buscando mais a prática de meios ressocializadores em substituição as penas privativas de
liberdade, que comprovadamente não tem sido medida eficaz na redução da delinqüência.

No próximo capítulo abordaremos a pesquisa sobre os fundamentos legais que regem a


transação penal, destacando-se a evolução da política criminal no Brasil, mas também
mencionaremos suas falhas ou omissões (questionamentos acerca do descumprimento das
medidas que foram acordadas, e da validade da transação nas ações privadas). Outro aspecto
primordial para a construção do segundo capítulo será a aplicabilidade real e seus efeitos,
resultados.

1.3 Transação penal nas ações privadas

O tema é polêmico e controverso, e causou muitos debates acadêmicos, artigos em


revistas jurídicas, etc. Tendo em vista que, o artigo 76 da Lei n 9099/95, é omisso em relação á
possibilidade ou não da transação penal dos delitos de ação privada, pois só há previsão
expressa quando se trata de ação pública condicionada ou incondicionada.

Não há previsão legal vedando ou admitindo a transação penal nos crimes de ação
privada. Desse modo, o entendimento doutrinário e jurisprudencial firmado sobre a matéria é
no sentido de admitir a transação penal nos crimes de ação privada por analogia ao artigo 76,
firmando o principio da isonomia no direito penal.

O artigo 76 da Lei n 9099/95 exclui a princípio, a possibilidade de aplicação da


transação penal proposta pelo querelante nos casos de delitos que são sujeito a queixa-crime.
Sendo assim, levando em conta o papel da vítima no processo penal em uma ótica mais
tradicional, concluímos que a vítima não possui interesse na pena, e sim na reparação de
danos. Portanto, sendo cabível apenas o exercício do direito da ação penal, ou se manter
inerte, gerando a decadência do direito em questão.

Alguns autores se posicionam contra a transação penal nas ações penais privadas,
alegando que a lei não permitiu o oferecimento de resposta por parte do querelante, pois este
não é detentor do jus puniendi estatal e também porque na ação penal privada prevalecem os
princípios da oportunidade e disponibilidade, ou seja, cabe somente ao ofendido o exame de
conveniência da propositura e prosseguimento da ação penal sem quaisquer limites. Diante, da
total disponibilidade da ação na responsabilidade apenas da vítima, que configura um
problema, pois o ofendido possui uma carga que impede a imparcialidade para transacionar a
respeito da aplicabilidade da pena. Em virtude disso, segundo entendimento do STJ, é
admissível a transação penal na ação privada, no entanto, a iniciativa da proposta é do
Ministério Público.

Sendo assim, vamos comparar os dois entendimentos para uma melhor análise.
Iniciando pelos doutrinadores que são contrários a transação penal nos crimes de ação privada.
Perseu Gentil (2001. p. 33) entende:

[...] Em uma interpretação literal do art. 76, caput, da Lei 9099/95, verifica-se que
não é possível a transação penal nos crimes de ação penal privada. De fato, no
aludido preceito o legislador utilizou as expressões: ‘havendo representação’ (crime
de ação publica condicionada); ‘ou tratando-se de crime de ação penal publica
incondicionada’; ‘o Ministério Publico poderá’. Assim, tudo leva a crer ser
impossível a transação penal [...].

Como fundamento dessa ideologia contra a possibilidade de transação penal em relação


aos crimes de ação exclusivamente privada, alega-se a falta de previsão legal. E também, que
o ofendido que tem a titularidade da ação penal, não pode ser substituído pelo Estado que tem
o direito de transacionar, em razão do direito pertencer ao ofendido e não ao Estado, sem
mencionar que a transação penal seria uma espécie de renuncia tácita ao direito de oferecer a
queixa. Outro argumento contrário é a ausência de interesse da vítima na sanção penal a ser
aplicada, em regra geral busca-se a reparação de danos.

Os doutrinadores que se posicionam a favor da transação na ação penal privada, como


Ismar Estulano Garcia (1996. pp. 168169) que leciona:

[...] Respeitando os entendimentos contrários, mas deles discordando, entendemos


ser perfeitamente cabível a transação na ação penal privada.[...] Na omissão, o
melhor entendimento, a nosso ver, é que caberá ao particular fazer proposta de pena,
na condição de titular da ação penal. Não seria lógico que o ofendido tivesse apenas
a opção de promover a queixa ou renunciar ao direito de promovê-la. A proposta de
pena não privativa de liberdade é uma alternativa intermediaria entre duas
opções[...].

Os adeptos desta tese que se manifesta a favor da transação penal nas ações privadas se
fundamenta que: primeiramente não podemos nos limitar a interpretação literal da lei, a
vitima possui interesse tanto na reparação do dano como também na punição do criminoso,
principio constitucional da igualdade e da razoabilidade que constituiria incoerência do
processo penal. Destarte, a admissão da transação penal para as infrações de menor potencial
ofensivo apuradas mediante ação penal de iniciativa privada, é a única tese em conformidade
com os princípios constitucionais da proporcionalidade, da igualdade e da dignidade da pessoa
humana.

Segundo o entendimento do Superior Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal Federal


é possível a transação penal nas infrações de menor potencial ofensivo que se processa
mediante queixa do ofendido. Segue alguns enunciados jurisprudenciais que demonstram esse
posicionamento:

[…] Ementa – HABEAS CORPUS. CRIME DE INJURIA. TRANCAMENTO DA


AÇÃO PENAL. ARGUIÇÃO DE ATIPICIDADE DA CONDUTA. AFERIÇÃO.
NECESSIDADE DE DILAÇÃO PROBATÓRIA. VIA INADEQUADA. CRIME
CONTRA A HONRA. APLICAÇÃO DA LEI DOS JUIZADOS ESPECIAIS
CRIMINAIS. TRANSAÇÃO PENAL. POSSIBILIDADE. [...] A Terceira Seção
desta Egrégia Corte firmou o entedimento no sentido de que, preenchidos os
requisitos autorizadores, a Lei dos Juizados Especiais Criminais aplica-se aos crimes
sujeitos a ritos especiais, inclusive àqueles apurados mediante ação penal
exclusivamente privada. Ressalte- se que tal aplicação se estende, até mesmo, aos
institutos da transação penal e da suspensão do processo 5. Ordem parcialmente
concedida para anular a decisão que recebeu queixa-crime a fim de que, antes, seja
observado o procedimento previsto no art. 76, da Lei n 9099/95. Processo HC
34085/SP. HABEAS CORPUS 2004/0028170-2. Relator(a) Ministra LAURITA VAZ
(1120). Órgão Julgador T5 – QUINTA TURMA. Data do Julgamento: 08/06/2004.
Data de Publicação/ Fonte DJ 02.08.2004 p. 457 [...].

Sendo assim, fica retificado o entendimento a favor da aplicação da transação penal


nas ações penais privadas, desde que obedeça aos requisitos descritos no artigo 76 da Lei n
9099/95.

[...] PENAL. PROCESSO PENAL. INFRAÇÃO DE MENOR POTENCIAL


OFENSIVO. CRIME CONTRA A HONRA. AÇÃO PENAL PRIVADA.
TRANSAÇÃO PENAL. POSSIBILIDADE. RESSLAVA DE VOTOS. CONCURSO
DE CRIMES. SOMATÓRIO DAS PENAS. INCOMPETÊNCIA DOS JUIZADOS.
APELAÇÃO PROVIDA. UNÂNIME.

1- Não havendo vedação legal na Lei n 9099/95, é de se admitir, por critério de


isonomia, a transação penal nos crimes de ação penal privada.

2- Tratando-se de concurso de crimes, se o somatório das penas extrapolar o limites


legal de 2 anos (art 2, parágrafo único, da Lei 10259/2001), refoge à competência
dos Juizados Especiais Criminais, atraindo a do juízo criminal comum.
(20020150088790 APR, Relator SERGIO ROCHA, 1 Turma Criminal, julgado em
22/05/2003, DJ 30/10/2003 p.24) [...]. (SANTOS, 2008, pp. 125-126).

Diante das controvérsias entre as correntes doutrinárias, devemos analisar qual a


interpretação mais apropriada para o caso em questão, e assim, conseguir definir a norma que
deve ser aplicada diante do caso concreto.

A interpretação buscaria retirar da norma tudo que ela contém, determinado o sentido e
o alcance das expressões de Direito. Ou seja, a interpretação dos fenômenos jurídicos é a
técnica que visa buscar o sentido do texto legal, e ao mesmo tempo busca aferir até que ponto
esse sentido possui alcance.

Um dos métodos de interpretação é a literal que consiste na apuração do significado


exato das palavras e da linguagem, rege-se somente pelas regras gramaticais. Esse método é
importante para a construção de uma linguagem clara e objetiva dentro do direito moderno, no
entanto, o interprete não deve se restringir apenas a literalidade da lei, mas também fazer uso
da interpretação lógica, teleológica, sistemática da lei, sempre respeitando os fundamentos da
Constituição. Em relação ao artigo 76 da Lei n 9099/95 se aplicada à interpretação literal da
lei, a simples omissão do texto do respectivo artigo será interpretada como proibição,
conclusão que pode induzir ao erro.

Já a interpretação teleológica busca reconstruir o pensamento ou a intenção do


legislador, determinando a precisa vontade da lei. Segundo essa interpretação, o artigo 76 da
Lei n 9099/95 não tem fundamentos suficientes que permita a vedação da transação nos
crimes de ação privada, que difere da interpretação literal que defende a idéia oposta.

A interpretação sistemática abrange o aspecto teleológico, levando em consideração o


sistema em que norma se encontra inserido, relacionando-se com outras normas que tenham o
mesmo objeto. Portanto, interpreta o artigo 76 não de forma isolada, mas relacionando com o
artigo 98 da CF/88, defendendo que não pode haver distinção, pois fere o princípio da
isonomia ou igualdade.

1.4 Descumprimento da transação

A Lei n 9099/95 possui mais de dez anos desde a sua edição, e apesar de mostra-se um
instituto bastante inovador, seus pressupostos objetivos e subjetivos de sua aplicabilidade
ainda não respondem os anseios da sociedade. Tendo em vista, que a transação penal ocorre, o
individuo aceita todas as condições impostas, mas não prever medidas para a conseqüência do
descumprimento injustificado do respectivo acordo.

O dispositivo legal que rege a transação penal prevê a possibilidade de um dever-ser,


mas não prever a sanção para o caso de descumprimento ou inexecução da medida que foi
estabelecida. O oferecimento da proposta de transação penal ocorre antes da própria ação
penal, portanto, pode-se dizer que há uma aplicação de pena, mesmo que não seja de pena
privativa de liberdade, considera-se um desrespeito ao princípio do nulla poena sine judicio
(esse princípio proíbe a aplicação de qualquer pena sem a prévia realização de um processo).

Diante desse princípio, o suspeito que cumpre injustificadamente a medida não pode ser
condenado ou ter sua “pena” convertida em privativa de liberdade, pois em nenhum momento
foi reconhecida a culpabilidade do acusado quando celebrado o acordo. Logo, não pode-se
mencionar a execução, pois segundo a lei de execuções penais e a própria Constituição
Federal, que não existe condenação nem muito menos culpa, se não houve a formação de um
juízo anterior de culpabilidade.

Sem o devido processo legal, a sentença que aplica pena restritiva de direitos ou multa,
com base no art. 76, não tem caráter nem condenatório nem absolutório, mas simplesmente
homologatório da transação penal. Não gerando reincidência, nem registro criminal e/ou nem
responsabilidade civil (art.76-§§ 4º e 6º). Sempre que as partes realizam a transação penal
mediante acordo, pondo fim à relação processual, a decisão judicial que legítima
jurisdicionalmente essa convergência de vontades, tem caráter homologatório, jamais
condenatório. 

Assim, em caso de extinção da punibilidade somente ocorre com o cumprimento da


pena aceita livremente pelo autor do fato, implicando o seu descumprimento a rescisão do
acordo penal, razão pela qual só resta ao Ministério Público iniciar a persecução penal, na
forma do art. 77 da Lei 9.099/95, oferecendo a denúncia, ou requisitando às diligências que
entender necessárias.

A ausência de previsão de conseqüência do descumprimento dos termos da transação


penal pelo beneficiário, caracteriza-se uma falha técnica e que são apontadas três hipóteses de
solução. A primeira hipótese seria a conversão da pena restritiva de direitos em privação de
liberdade, por aplicação do artigo 44, parágrafo 4 do Código Penal; a segunda seria a
revogação da transação e oferecimento da denúncia; e a terceira seria a transformação da
obrigação decorrente da transação penal em dívida de valor para execução fiscal.

Uma corrente defende a conversão da transação em pena de prisão em caso de


descumprimento. No entanto, essa conversão é incabível, visto que, afronta os princípios
constitucionais, como: ampla defesa, contraditório, e devido processo legal. Não se pode
aplicar pena alguma sem processo, muito menos privar o seu direito a liberdade, sem falar que
essas medidas cabíveis na transação não tem natureza de pena, segundo o princípio do nulla
poena sine judicio (Bitencourt, 2003, p. 578).

A conversão da pena restritiva de direitos em privativa de liberdade só ocorre quando


aquela tem natureza de pena mesmo, ou seja, quando no final do processo, o juiz julga
procedente a denuncia e condena o réu, fixando a pena privativa de liberdade de acordo com
os artigos 59 e 68 do Código Penal. E depois substitui por uma ou duas penas restritivas de
direito ou multa. Nesse caso, houve processo respeitando o contraditório e ampla defesa.
Assim, a pena privativa de liberdade pode ser substituída pela restritiva de direito, no entanto,
se caracterizar o descumprimento a restrição de direito que foi imposta será convertida em
privação de liberdade.

O Ministro Marco Aurélio de Mello, em decisão proferida no HC 79.572-GO/2001,


sustentou que:

Não há como aplicar, à espécie, a menos que sejam colocados em plano secundário
princípios constitucionais, o disposto no art.45 do Código Penal. Esta-se diante de
incompatibilidade reveladora de não ser o preceito nele contido fonte subsidiaria no
processo submetido ao juizado especial. Essa conclusão decorre do fato de a
conversão das penas restritivas de direitos em penas restritivas do exercício da
liberdade, tal como prevista no artigo 45 do Código Penal, pressupor, sempre, o
regular processo, a regular tramitação da ação penal, a persecução criminal,
viabilizando o direito da defesa, e a prolação de sentença condenatória, vindo a
ocorrer, ai sim, em passo seguinte, a conversão. Alias, o principio da razoabilidade, a
razão de ser das coisas, cuja força é insuplantavel, direciona no sentido de a
conversão pressupor algo já existente, e isso diz respeito à pena privativa do
exercício da liberdade.

Outra vertente sustentada consiste em proceder a execução forçada, da mesma maneira


que se executa as obrigações de fazer. O ministro Hamilton Carvalhido, do Superior Tribunal
de Justiça, determinou a execução, no RHC 10.369/SP:

Recurso em Habeas Corpus. Transação Penal. Lei 9099/95. Pena de Multa.


Descumprimento. Oferecimento de Denuncia. Impossibilidade. Coisa Julgada
Formal e Material. Ressalva de Entendimento Contrario. 1. “(...)1- A sentença
homologatória da transação penal, por ter natureza condenatória, gera a eficacia de
coisa julgada formal e material, impedindo, mesmo no caso de descumprimento do
acordo pelo autor do fato, a instauração da ação penal. 2- Não se apresentando o
infrator para prestar serviços à comunidade, como pactuado na transação(art.76, da
Lei n 9.099/95), cabe ao MP a execução da pena imposta, devendo prosseguir
perante o Juízo competente, nos termos do art.86 daquele diploma legal.
Precedentes” (REsp 203.583/SP, in DJ11/12/2000. 2. Ressalva de entendimento
contrário do Relator. 3. Recurso provido).

Essa tese se baseia que a medida aceita por ocasião da transação tem natureza
obrigacional. E o próprio ordenamento penal prevê que em caso de pena de multa, imposta em
decorrência do devido processo legal, o inadimplemento, por parte do condenado solvente faz
com que a multa seja considerada dívida de valor, para que seja executada pela Fazenda
Pública, artigo 51 do Código Penal. Tendo em vista o direito positivo, o caminho mais
plausível juridicamente é o da execução fiscal. Todavia, a perda da eficácia dessa medida é
esmagadora, tendo em vista que a maioria dos autores de delito de menor potencial, que
descumprem a medida são pobres, ou não possuem bens passíveis de constrição em eventual
ação de execução fiscal. Portanto, o processo executório seria ineficaz, e ainda representaria
uma ofensa ao princípio de proteção aos bens jurídicos, pois não alcançam a pacificação dos
conflitos sociais e proteção desses bens.

Os adeptos da corrente que sustenta o início da ação penal em caso de descumprimento


da transação penal alegam que a decisão homologatória não faz coisa julgada material e sim
perda de eficácia pelo descumprimento do acordo. Segundo Pontes de Miranda (1975):

Se os efeitos da declaração de vontade dependem do adimplemento da


contraprestação ou da declaração de vontade, prestada pelo Estado, não compôs o
negocio jurídico, por ser necessário que outra declaração de vontade ou algum ato de
credor seria emitido, ou a declaração de vontade só tem os efeitos obrigacionais ou
reais após contraprestação. Esses pormenores não importam no que concerne à
rescindibilidade da sentença que presta a declaração. (Se, depois, de ser
contraprestada a declaração que se fazia mister e o prazo para ser contraprestada
precluiu, tudo se passa com a respeito da oferta a que se não seguiu aceitação: o
negocio jurídico bilateral não se concluiu.

Essa tese determina que se presente todos os requisitos elencados no artigo 76 da Lei n
9099/95, o Estado através do Ministério Público é obrigado a não denunciar mediante a
aceitação do acusado da obrigação de cumprir as condições da proposta. Entretanto, se o
acusado descumpre a obrigação que assumiu, ele não tem mais o direito de exigir que o
Estado cumpra a sua, de não denunciar. Segundo o artigo 43, parágrafo único do Código de
Processo Penal que diz que satisfeita à condição exigida pela lei cuja ausência levou à rejeição
da denuncia, essa poderá ser reapresentada. Este dispositivo pode ser usado por analogia,
tendo em vista que não há previsão na Lei n 9099/95 que determine que em caso de
descumprimento da medida, o Ministério Público poderia com vistas dos autos promover
oferecimento da denuncia.

A perda da eficácia ocorre pelo descumprimento total ou parcial da transação, assim, a


decisão homologatória se torna ineficaz, e gera ao Ministério Público, a oportunidade de
oferecer a denúncia para inicio da ação. No entanto, o cumprimento parcial do objeto
estabelecido na transação (mesmo com o descumprimento da medida), e depois a condenação
pelo mesmo fato, fere o princípio non bis in idem (não pode haver dupla punição para o autor
do fato).

O Código Penal trouxe alguns dispositivos que adotam o princípio non bis in idem, que
visa impedir a dupla punição pelo Estado, e propõe a detração, que é a possibilidade de
descontar na pena o tempo que o condenado já cumpriu, a qualidade da sanção não importa
apenas a sua existência.

1.5 Casos Reais

No Brasil, desde o início do século XXI, surgiram algumas pesquisas e projetos voltados
para a pesquisa da transação penal e da justiça restaurativa. Alguns projetos serão objetos de
pesquisa neste trabalho, apresentados e analisados perante sua aplicabilidade em face do
processo penal. A maioria envolve questões como: violência doméstica, infrações cometidas
por crianças e adolescentes, conflitos entre familiares e vizinhos, etc.
1.5.1 Distrito Federal/ Localidade de Gama

O projeto foi proposta pelo Ministério Público do Distrito Federal, na circunscrição


jurisdicional da cidade-satélite de Gama, aplicado aos casos de violência doméstica o
obedecendo a Lei Maria da Penha. O projeto encaminhava os casais para serem separados em
grupos com história de casos semelhantes, daí se busca do histórico narrado pelos casais a
contextualização dentro de cada realidade. O autor é informado que não será acusado e nem
julgado.

O objetivo é restaurar vidas, independente se o casamento vai continuar existindo ou


não, mas sim ajudá-los a superar essa fase. Atuando com a prática de orientação, de
encaminhamento, de prevenção e outras medidas voltadas para ofendida, o agressor e demais
familiares. As medidas vão depender da realidade de cada casal, pois pode haver casos que
haja envolvimento com drogas ou bebidas, etc.

Os casos estudados foram coletados entre os meses de abril e junho de 2008, mais de
duzentos casais participantes, e mais da metade aceitaram, e todos que aceitaram conseguiram
resolver seus problemas de forma satisfatória.

1.5.2 Rio Grande do Sul/ Localidade de Porto Alegre

O projeto conhecido como “Justiça para o Século 21”, direcionado para a infância e
juventude na intenção de promover pacificação de situações de violência que envolve crianças
e adolescentes, foi implementado pela 3º Vara da Infância e Juventude da localidade de Porto
Alegre. Os casos encaminhados correspondiam aos crimes de furto, roubo, dano e lesão
corporal.

A atuação do projeto conta com o auxílio da Associação dos Juízes do Rio Grande do
Sul (AJURIS) e da respectiva Escola Superior da Magistratura, mas sua implementação
ocorreu na 3º Vara de Infância e Juventude que tem competência para executar as medidas
sócio-educativas aplicadas a adolescentes infratores. O processo de conscientização e
discussão foi fundamental para todos os envolvidos no projeto, principalmente visto a
necessidade de associação com programas que estimulem a educação.

O foco nessa experiência era passar para o menor infrator, em primeiro lugar, a idéia de
responsabilidade. Posteriormente, trabalhar a percepção das conseqüências do delito e requer
o compromisso com a sua reparação. Repassa não somente o olhar do infrator, mas da
comunidade, da vítima, dos operados envolvidos no atendimento (Ministério Público, Polícia,
Juiz, etc.).

No primeiro ano, em 2005, foram encaminhados cerca de 100 processos para avaliação
da possibilidade de instaurar a prática restaurativa. Deste total 33 procedimentos que foram
analisados não deram continuidade ao procedimento. As dificuldades ocorreram em virtude de
problemas como: não localização das partes, não aceitação das partes, problemas nas
condições de saúde dos convidados, o fato do adolescente não assumir a culpa pelo ato
praticado, e o temor da vitima em participar. Portanto, apenas oito casos foram praticados, sete
com acordos cumpridos e um acordo não cumprido.

No segundo ano de implementação, no ano de 2006, foram contabilizados até o mês de


outubro, 105 casos que foram encaminhados para a Central de Praticas Restaurativas. Do
total, 51 estão em fase preliminar, 22 resultaram em processos restaurativos já realizados, e
todos resultaram em acordos. Assim, fica comprovado o crescimento do projeto de um ano
para o outro, demonstrando que à medida que o projeto vai sendo difundido alcança uma
maior aceitabilidade perante a sociedade.

1.5.3 Casos recentes de aplicação do instituto da transação penal

Um caso recente de transação penal ocorreu com os jogadores do Arsenal- ARG, que
depois do jogo entre os times do Atlético- MG e Arsenal de Sarandi, desencadearam uma
briga entre os argentinos e a Policia Militar de Minas Gerais, os jogadores foram acusados de
provocar lesões a um jornalista e danos no vestuário.

Com a intenção de amenizar a situação foi realizada uma audiência para averiguar o que
aconteceu após o jogo e identificar os culpados. Posteriormente, ficou decidido que sete
jogadores hermanos foram indiciados por desacato de autoridade e lesão corporal, além de
danos de propriedade.

Durante cerca de 4 horas de depoimentos e avaliações no Juizado Especial do


Independência, as partes foram ouvidas pelo delegado da Polícia Civil mineira,  Felipe Dias
Falles, que explicou a conclusão do ocorrido. Ficou determinado o pagamento de 30 mil reais,
sendo que 26 mil serão repassados para uma instituição de caridade e os outros 4 mil serão
pagos ao jornalista que foi agredido por uma cadeira quando os argentinos se encaminhavam
ao vestuário. Após o pagamento, eles foram liberados e voltaram para Argentina.

Outro caso que podemos citar, foi de um homem detido por uso de drogas durante o
jogo entre Ceará e ASA de Arapiraca no Estádio Presidente Vargas (PV), na última quarta-
feira, dia 8, em Fortaleza. A ocorrência foi registrada pelo Juizado do Torcedor. 

De acordo com o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), o autuado realizou transação


penal, que é um acordo com o Ministério Público para aplicação de pena não privativa de
liberdade. 
Portanto, o infrator deve prestar serviços comunitários por quatro meses, durante oito
horas semanais, em um posto de saúde no bairro Castelo Encantado, em Fortaleza. Durante o
período, ele não poderá comparecer a jogos no PV e na Arena Castelão. 
METODOLÓGIA

No âmbito metodológico, o presente trabalho de monografia será feito mediante estudo


descritivo-analítico, vez que será devidamente exposto, analisado e discutido informações
publicadas.

Trata-se de uma pesquisa bibliográfica, de natureza exploratória, que será desenvolvida


através de doutrinas, revistas jurídicas, artigos científicos, publicações específicas e dados
oficiais publicados na internet sobre os temas abordados no presente trabalho.

Quanto à abordagem a pesquisa é qualitativa, à medida que buscará o aprofundamento e


a melhor compreensão do conceito e de sua aplicação real sobre o tema abordado, bem com
quantitativa que visa coletar dados de casos ocorridos ate a presente data e apontar os
resultados existentes.

Portanto, o resultado obtido através da pesquisa bibliográfica servirá como fundamento


para a investigação científica e possível conclusão de um determinado assunto, em suas
diversas fases e instâncias, devendo o pesquisador fazer o levantamento de dados, através de
dois processos: documentação direta, que consiste no levantamento de dados no mesmo lugar
em que ocorre o caso em estudo, sendo realizado por pesquisas de campo e de laboratório;
documentação indireta, que ocorre quando o estudioso utiliza dados coletados de outra pessoa,
na qual pesquisou através de pesquisa bibliográfica, fonte secundária, e de pesquisa
documental, fonte primária.
REFERENCIAL TEÓRICO

O artigo 76 da Lei N 9099/95 define a transação penal como aplicação imediata de


pena restritiva de direitos e multas:

Art. 76. Havendo representação ou tratando-se de crime de ação penal pública


incondicionada, não sendo caso de arquivamento, o Ministério Público poderá
propor a aplicação imediata de pena restritiva de direitos ou multas, a ser
especificada na proposta.

Já segundo Mario Antonio Lobato de Paiva (1999, p.49 apud SANTOS, 2008, p. 104-
105), a transação penal:

[..] possui natureza de negocio jurídico civil, firmado entre o Ministério Publico e o
autor do fato, e que as “penas” de multa e restritivas de direitos, estabelecidas por
força desse negocio jurídico nada mais são do que as prestações assumidas pelo
autor do fato. Quanto à sentença estabelecida pelo parágrafo 4 do artigo 76 da Lei n
9099/95, não é condenatória, não impõe pena, mas somente homologa o acordo
firmado entre as partes e forma o titulo executivo judicial da obrigação assumida
pelo autor do fato, tendo por conseqüência a exclusão do processo-crime e a
declaração da extinção da punibilidade, pela decadência do direito de propor a ação
penal.

Logo, a transação se caracteriza como o negócio jurídico entre o titular da ação penal e
o suposto autor do fato, e assim, o Ministério Público se absteria de intentar a ação penal e
conseqüentemente dar início ao processo criminal, caso o suposto autor aceite submeter-se a
uma pena imediata não privativa de liberdade.

Outro aspecto de extrema importância que deve ser analisado, o descumprimento


injustificado da transação penal, gera alguma conseqüência tendo em vista a lacuna da lei?
São vários os posicionamentos doutrinários e jurisprudenciais, que apontaremos no nosso
estudo os mais relevantes. Uma corrente defende a conversão da transação em pena de prisão
em caso de descumprimento. No entanto, essa conversão é incabível, visto que, afronta os
princípios constitucionais, como: ampla defesa, contraditório, e devido processo legal.
Todavia, a perda da eficácia dessa medida é esmagadora, tendo em vista que a maioria dos
autores de delito de menor potencial, que descumprem a medida é pobre.

Outra proposta que será analisada é o projeto de lei n 7006/2006, que visa à aplicação
de um novo modelo de justiça restaurativa, e que dá margem para a ampliação da competência
dos Juizados, aumentando para crimes com penas maiores ou iguais a dois anos, como uma
possível solução para uma justiça criminal mais eficiente, integrando a vítima o acusado e a
sociedade.
RESULTADOS

Diante dos argumentos expostos no presente trabalho, pode-se perceber a necessidade


de elaborar e pesquisar projetos que estimulem o conceito de uma justiça mais acessível e
pacificadora. Um dos projetos que foi criado na intenção de desburocratizar a Justiça
brasileira foi o Projeto de Lei Nº 7006/2006, o mesmo visa implantar a Justiça Restaurativa,
que é uma medida baseada na prática de mediação para resolução de conflitos.

Estes projetos pilotos já alcançaram grandes conquistas na legislação brasileira, como:


o instituto da transação penal aplicado as infrações de menor potencial ofensivo, a suspensão
condicional do processo e a remissão prevista na Lei 8069/90. No entanto, a justiça continua
lenta e ineficiente diante de tantas problemáticas, muitas vezes de caráter urgente.

Atualmente, existem vários estados que trabalham com a proposta da mediação na


tentativa de solucionar conflitos de menor potencial ofensivo, como no Distrito Federal que
atua nos casos de violência doméstica; no Rio Grande do Sul que abrange fatos envolvendo
delitos cometidos por menores de 18 anos, que também está presente nos Estados de São
Paulo e Santa Catarina; e na Bahia que atende crimes como lesão corporal, crimes contra a
honra e violência doméstica.

O estudo desses projetos permite a constatação de resultados ainda pequenos, no


entanto, quando os envolvidos aceitam participar o resultado final na resolução do conflito é
satisfatório. Ou seja, a maior dificuldade está em convencer as partes a aceitarem se incluir no
projeto, mas uma vez aceitando as partes se mostram satisfeitas com a proposta, assim
resolvendo de fato o conflito.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

O propósito deste trabalho foi apresentar o instituto da transação penal, expondo os


conceitos doutrinários, assim como suas divergências. Analisar suas omissões e avanços para
o sistema penal dentro do contexto da justiça brasileira, que apresenta índices de ineficiência
alarmantes, fruto de uma população carcerária que não se reabilita só se reproduz.

Muitos autores acreditam que a transação penal foi uma tradução do sistema americano
do plea bargainig sem a devida adaptação. Essa informação parece fazer sentido, tendo em
vista, que apesar de ser um avanço ainda precisa ser cultivada na cultura da sociedade, pois
muitos defendem que só há justiça quando um juiz decide a parte que vence (que tem razão)
no processo.

Entretanto, a disputa e o ressentimento continua presente na vida dessas pessoas, pois


o que se obteve foi uma punição para a parte condenada, que não garante um processo de
responsabilização e de arrependimento pelo cometimento do ato que prejudicou a vítima.
Além, da não resolução da origem da disputa ainda existe o alto custo para o Estado em
manter o sistema judiciário (recursos humanos e materiais), como também o sistema
penitenciário.

As razões para criação de projetos que estimulem a mediação, transação penal e a


justiça restaurativa são diversos. Vale salientar é a necessidade de promover a cultura de paz e
diálogo, articulando parceiros para atuar nas escolas, nas associações de bairros, nas empresas,
para que pouco a pouco a população não alimente a idéia de justiça através da reprodução de
processos, e sim procure resolver entre as partes sem interferência do Estado.
REFERÊNCIAS

BRASIL, Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília:


DF, Senado, 1988.

________, Decreto Lei nº 2848, de 07 de dezembro de 1940. Código Penal Brasileiro. Vade
Mecum. São Paulo: Saraiva, 2012.

________, Lei n 9099, de 26 de setembro de 1995. Dispõe sobre os Juizados Especiais Cíveis
e Criminais e dá outras providencias. DOU de 27 de setembro de 1995.

BRASIL, Projeto Lei 7006/2006, de 10 de maio de 2006. Propõe alterações no Decreto-Lei nº


2.848, de 7 de dezembro de 1940, do Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941, e da Lei
nº 9.099, de 26 de setembro de 1995, para facultar o uso de procedimentos de Justiça
Restaurativa no sistema de justiça criminal, em casos de crimes e contravenções penais.

Disponível em: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?


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HALBRITTER, Luciana de Oliveira Leal, Os princípios da Lei n 9099/95. Revista da


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HERSCHANDER, Hermann. Da natureza jurídica da sentença homologatória da transação


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JORGE, Mario Helton. Crimes de menor potencial ofensivo. Ações penais de competência
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