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A evolução conceitual da Ética

Para entender a história... (parte) ISSN 2179-4111. Ano 3, Vol. mar., Série 10/03, 2012, p.01-12.
Texto: Prof. Dr. Fábio Pestana Ramos.

A ética na antiguidade
A ética nasceu na Grécia, praticamente junto com a filosofia, embora seus preceitos fossem praticados
entre outros povos desde os primórdios da humanidade, mesclados ao contexto mítico e religioso, tentando
pautar regras de comportamento para permitir o convívio entre indivíduos agrupados no conjunto da
sociedade.
A rigor, os gregos foram os primeiros a racionalizar as relações entre as pessoas, repensando posturas
e sistematizando ações.
Momento em que surgiram discussões que até hoje fomentam reflexões éticas.
Apesar dos pré-socráticos se inserirem neste contexto, a maioria dos autores atribuem a tradição
socrática um olhar mais atento sobre problemáticas em torno da ética.
Para Sócrates, o verdadeiro objeto do conhecimento seria a alma humana, onde reside a verdade e a
possibilidade de alcançar a felicidade.
O grande problema é que o indivíduo não está preparado para encontrar a verdade dentro de seu
espírito. Tentando eliminar os próprios erros, ocultos em sentimentos confundidos com a felicidade, o sujeito
acaba buscando somente o prazer puramente hedonista. Por esta razão, seria missão do filósofo conduzir o
sujeito ao conhecimento, direcionando para eudaimonia, a verdadeira felicidade.
Um conceito importante para os gregos, tanto que a palavra eudeimon tem a mesma origem
etimológica, denotando riqueza e denominando um homem poderoso e com boa fortuna.
Para a tradição socrática, a felicidade só pode ser alcançada pela conduta reta, a verdade só pode ser
contemplada pelo conhecimento virtuoso do mundo, pelo comportamento orientado pela bondade.
A virtude é o centro da ética socrática, podendo ser definida como uma disposição para praticar o bem,
suprimir os desejos despertados pelos sentimentos, racionalizando as ações em benefício da coletividade.
O indivíduo virtuoso, bom, é aquele que se preocupa em aperfeiçoar a convivência comunitária, em
tornar-se o cidadão perfeito.
Neste sentido, devemos notar que a ética é uma busca pela felicidade coletiva, mas envolve apenas a
eudaimonia entre iguais. A preocupação ética abarca a comunidade, a Pólis, onde estrangeiros e escravos
estão excluídos em meio à hierarquização da sociedade.
Os sofistas, tendo um conceito relativizado de verdade, duvidaram da possibilidade da virtude poder
ser ensinada, contudo, admitiram que poderia ser desenvolvida pelo sujeito através do despertar da
consciência.
O conhecimento seria o meio do indivíduo se aperfeiçoar, tornando-se virtuoso pelo amadurecimento
intelectual; enquanto a ignorância representa o vício. Desta concepção decorreu a fundamentação da ética em
volta da liberdade, virtude e bondade. Parâmetros que nortearam o pensamento ético aristotélico, onde a
felicidade é definida como a própria virtude, garantia da liberdade.
Em outras palavras, a ética aristotélica propõe observar as necessidades do homem como indivíduo e
membro da coletividade, o que é possível estabelecer como norma em dado contexto, teorizar e refletir para
padronizar como correto.
A ética se constitui como Ciência normativa da conduta individual e coletiva em sentido amplo.
Ainda na antiguidade, os romanos tiveram que lidar com a oposição antagônica proposta por Platão e
Aristóteles, entre o padrão de comportamento da sociedade e de grupos inseridos nela.
O que originou a moral e sua distinção com relação à ética, o Direito e a justiça.
A conclusão foi que a existência coletiva precisa de regras para efetivar-se, percorrendo esferas
distintas que vão do privado ao convencionado para o conjunto, do indivíduo ao grupo e deste para o contexto
mais amplo; comportando paradoxos, distinções e segmentações.

A ética moderna.
Entre os séculos XVI e XVIII, as discussões éticas estiveram centralizadas no embate entre
racionalismo e empirismo.
A Idade Moderna foi à época da formação e consolidação dos Estados Nacionais europeus, precedendo
a Revolução Francesa e Industrial, quando a separação entre Estado e igreja tornou-se definitiva, com a
preponderância do antropocentrismo e a aceleração do avanço da Ciência.
Qualquer que seja a tendência teórica, a ética é voltada para a busca da felicidade coletiva, no sentido
original grego, vinculado com a política, compondo orientações para a realização plena do cidadão.
Diante de múltiplos caminhos para chegar a eudaimonia, a ética foi pensada como garantia de
condições para que o sujeito se aprimore por meios legítimos.
Onde entraria o Estado como fomentador e garantidor de condições de condições transformadoras,
providenciando educação, direitos individuais, justiça e subsistência.
O que tornou atributo da ética realizar uma reflexão sobre a construção dos valores que balizam a
moral, instituindo uma crítica sobre práticas e ações humanas no âmbito da axiologia e da teoria dos valores.
A ética moderna foi pensada como instrumento de sustentação do poder do Estado perante a vida
coletiva e individual.

A ética contemporânea.
Ao separar o conhecimento da religião, no século XVIII, o iluminismo inaugurou uma releitura da
ética, estabelecendo críticas que voltaram a centralizar o foco na razão, apostando na autonomia humana e na
crença otimista no progresso.
Foi estabelecida uma visão ética por um viés mais amplo, não só circunscrito ao grupo, mas sim ao
contexto do conjunto da humanidade.
É por isto que a Revolução Francesa pregou o ideal de liberdade, igualdade e fraternidade; tendo como
centro a questão da tolerância para com as diferenças e o estabelecimento de um pacto social.
O que deveria ser garantido pelo Estado para permitir uma igualdade efetivada pela restrição parcial
da liberdade.
Neste período, pela primeira vez, iniciou-se um diálogo em torno dos direitos humanos, culminando
com a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão” em 1789.
Representando o iluminismo alemão, Immanuel Kant exerceu forte influência na universalização dos
preceitos conceituais da ética humana. Segundo o qual, não é tarefa da ética normatizar, pois, sendo de caráter
puramente racional, é guiada apenas pela boa vontade.
Esta é relativa e fixada pela lei moral, porém deve se isentar da vontade emotiva, dos gostos e desejos
particulares. Assim, a ética segue os mesmos parâmetros da moral, mas ao racionalizar os atos, seleciona como
corretos apenas o que está em concordância com a razão.
A ética passa a se distinguir da moral por ser autônoma, enquanto os preceitos morais são fixados pela
heteronomia. O agir corretamente passa, não só pelo conceito de liberdade, mas também de responsabilidade
pelos próprios atos e intenções.
O problema é que o ato pode não corresponder à intenção, motivado pela inclinação moral, onde a
racionalização serve de parâmetro.
Reside neste ponto outro problema, já que o homem encontra-se na menoridade, sendo incapaz de
fazer uso do próprio entendimento.
Os ideais iluministas aparecem como início da maioridade humana, justamente por proporem o
conhecimento como base da racionalidade.
No entanto, pensando na natureza falha da razão humana, Kant propõe que imperativos passem a servir
de referência para o agir.
O imperativo é uma regra obrigatória que deve nortear a normatização da vida racional.
O imperativo categórico, aquele que deveria ser dever de toda pessoa, estando também vinculado com
a moral, é definido como agir pela vontade, de tal forma que a ação possa ser tomada como uma lei universal
da natureza.
Portanto, tornar padrão o comportamento que seria aprovado como correto em qualquer caso e por
qualquer pessoa.
Deste imperativo decorrem outros, todos baseados na fraternidade para com o outro, expresso na
máxima de desejar a todos o que se deseja para si mesmo, estreitando este conceito com o de liberdade,
responsabilidade e igualdade.
Entretanto, mesclada a esta concepção de ética, a tendência utilitarista, inaugurada pelo empirismo,
também ganhou força a partir do século XVIII, principalmente por conta dos avanços da Ciência.
A partir das leis da física de Isaac Newton, a sociedade passou a ser vista como máquina, onde a ética
atenderia e regularia seu funcionamento.
Enquanto a teoria evolucionista de Charles Darwin possibilitou conceber a moral como produto da
evolução do comportamento humano.
Tendências que transformaram a ética em Ciência do julgamento dos atos morais, alterando normas de
comportamento, pensadas em benefício da utilidade para a vida coletiva harmoniosa.
A rigor, o utilitarismo surgiu na Grã-Bretanha, representado por Jeremy Bentham e John Stuart Mill,
contrapondo-se a ética kantiana ao relativizar o conceito de eudaimonia, afirmando que o correto é aquilo que
traz felicidade para o maior número de pessoas.
Não é a intenção que importa, como no caso da ética kantiana, mas sim o resultado; relativizando
igualmente as regras, indo na contramão dos imperativos, condicionando os comportamentos a sua utilidade
aparente, extremamente vinculada ao Direito.
Destarte, Friedrich Nietzsche, na segunda metade do século XIX, tornou a ética definitivamente uma
Ciência, totalmente desvinculada da religião.
Para ele, a ética seria o centro, justificativa e fundamentação das ações humanas; constituindo o
elemento que torna possível a convivência, estabelecendo padrões de comportamento que reprime a natureza.
É neste contexto que se insere o conceito de além-do-homem - Übermensch -, erroneamente traduzido
como super-homem.
Trata-se da defesa do sujeito superar sua humanidade, sua natureza falha, para ir além do bem e do
mal, da moral estabelecida, racionalizando as ações para transformar-se de escravo em senhor, guiado pela
autonomia de pensamento.
Um processo ligado à ideia de “eterno retorno”, envolvendo tentar superar-se contínua e infinitamente
em busca do prazer dionisíaco.
No entender de Nietzsche, o único imperativo ético existente.
Esta conjuntura formou o conceito e ética como Ciência normativa, baseado na construção interna do
sujeito e externalizada na preocupação racional com o outro; a despeito de sua ramificação circunscrita a
contextos específicos, como a ética profissional.

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