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A INTERPRETAÇÃO DA LGPD SOB A ÓTICA DA LIBERDADE

ECONÔMICA: um equilíbrio entre a defesa de dados pessoais e sua


exploração comercial consentida

THE INTERPRETATION OF LGPD FROM THE POINT OF VIEW OF ECONOMIC


FREEDOM: a balance between the defense of personal data and its permitted commercial
exploitation

Patrícia Gasparro Sevilha Greco


Resumo
A Lei Geral da Proteção de Dados (LGPD) trouxe uma nova ótica em se falando da proteção
de dados pessoais, que eram, até muito recentemente, tratados supletivamente por legislações
consumeiristas, o que desnaturava sua característica primordial de direito fundamental da
pessoa humana. Com essa elevação de status no ordenamento jurídico, o arcabouço normativo
que se lança para sua proteção tende a limitar bastante a exploração comercial destes dados,
especialmente porque seus titulares nem sempre têm a ciência e consciência da extensão deste
uso, não podendo saber, deste modo, os limites de seu consentimento. Por outro lado, o
desenvolvimento das atividades econômicas não prescindem da utilização de dados, sendo
necessário que a liberdade econômica atinja um patamar ideal entre a proteção dos dados,
com a anuência consciente de seus titulares e, de outro lado, sua utilização pelos variados
setores econômicos, inclusive, para o desfrute dos próprios titulares. É do amálgama entre os
espíritos da Lei de Liberdade Econômica e da LGPD que se propõe uma leitura conciliatória
acerca de interesses que, de antagônicos, podem sir a ser simbiontes e lançar as luzes
necessárias para uma leitura correta da proteção de dados a partir de uma visão da liberdade
econômica. Para tanto, este estudo utilizará do método dedutivo e de levantamento
bibliográfico.
Palavras-chave: Anuência. Dados. Economia.
Abstract
The General Data Protection Law (LGPD) brought a new perspective in terms of the
protection of personal data, which were, until very recently, dealt with in a supplementary
manner by consumer legislation, which denatured its fundamental characteristic as a
fundamental human right. With this elevation of status in the legal system, the normative
framework that is launched for its protection tends to limit the commercial exploitation of this
data, especially because its holders do not always have the knowledge and awareness of the
extent of this use, and therefore cannot know , the limits of your consent. On the other hand,
the development of economic activities does not dispense with the use of data, making it
necessary for economic freedom to reach an ideal level between data protection, with the
conscious consent of its owners and, on the other hand, its use by various sectors. even for the
enjoyment of the owners themselves. It is from the amalgam between the spirits of the
Economic Freedom Law and the LGPD that a conciliatory reading is proposed about interests
that, antagonistic, can serve to be symbiotic and shed the necessary lights for a correct reading
of data protection from a vision of economic freedom. For this, this study will use the
deductive method and bibliographic survey.
Key-words: Consent. Data. Economy.


Aluna regular do mestrado em Direito Negocial da UEL, analista judiciário do TRE/PR,
patriciagreco@rwgreco.com.br.
INTRODUÇÃO

A Lei de Liberdade Econômica – Lei Federal de nº 13.974 de 20 de setembro de


2019, dita no §2º de seu artigo inaugural que “Interpretam-se em favor da liberdade
econômica, da boa-fé e do respeito aos contratos, aos investimentos e à propriedade todas as
normas de ordenação pública sobre atividades econômicas privadas” (BRASIL, 2019).
Tais dizeres, longe de serem recomendações, ditam o ritmo que a novel legislação
pretende ventilar no ordenamento jurídico pátrio, trazendo as normas de ordenação públicas –
e dentre elas a LGPD – interpretação em favor da liberdade.
Assim, o tônus da hermenêutica deve ser a liberdade econômica, mas,
indubitavelmente, chega-se ao impasse de como interpretar em favor da liberdade normas
públicas, mas que tratam de proteção de dados? Como permitir, então harmonia entre os
desideratos de ambos os diplomas normativos mantendo-se uma lógica? É neste sentido que
se propõe as seguintes reflexões.

A INTERPRETAÇÃO DA LGPD SOB A ÓTICA DA LIBERDADE


ECONÔMICA: um equilíbrio entre a defesa de dados pessoais e sua
exploração comercial consentida

Em que pese os dados serem emanações das esferas possíveis de existência do


indivíduo (mundo real e virtual), fato é que sua livre disposição, ou seja, seu consentimento
no uso deles ainda se reveste de certos cuidados na seara jurídica.

O consentimento do interessado para o tratamento de seus dados é um dos


pontos mais sensíveis de toda a disciplina de proteção de dados pessoais;
através do consentimento, o direito civil tem a oportunidade de estruturar, a
partir da consideração da autonomia da vontade, da circulação de dados e
dos direitos fundamentais, uma disciplina que ajuste os efeitos deste
consentimento à natureza dos interesses em questão. (DONEDA, 2006, p.
371):

Há de se refletir, porém, que a boa-fé preconizada tanto pela LGPD, quanto pela
própria lei de Liberdade Econômica, permite o chamado consentimento inequívoco, em que
seu titular saiba exatamente o alcance daquilo que se está transacionando e não fique
engessado a uma legislação tão protetiva que lhe tire a possibilidade de escolher o entende
melhor para si.
Deste modo, o consentimento, permitido a partir da leitura do espírito da liberdade
econômica lança uma visão contratualista nos negócios entabulados entre os detentores de
dados e os operadores e controladores destes.

Já utilizado nos meios contratuais, o instituto do consentimento, que até


então expressava uma declaração de vontade de negociar partindo de um
indivíduo a terceiro, ao ser aplicado para o ambiente da proteção de dados
pessoais, passa a designar a liberdade e autonomia dos usuários acerca da
ciência sobre o procedimentos que serão realizados com seus dados,
concordando com tais ações (CORRÊA, 2019, p. 29).

Assim, longe de se quedar como uma afronta à proteção de dados, a liberdade


econômica, desde que observadas as disposições principiológicas da LGPD (sobretudo
aquelas afetas à autodeterminação informativa, o desenvolvimento econômico e tecnológico,
a inovação, a livre iniciativa, a livre concorrência e a defesa do consumidor) pode servir de
mecanismo catalizador de ações de proteção aos dados, vez que empresas que respeitem os
direitos dos titulares despontarão à frente das demais, possuindo vantagens de concorrência.
Àquelas que, porventura, já tenham “abocanhado” boa parte do mercado e a
concorrência ainda se demonstra como um perigo tímido, o empoderamento do titular de
dados o coloca com mais armas para poder negociar no momento de realizar transações que
envolvam seus dados, aproximando este formato de negócio jurídico de uma base
eminentemente contratual.

Por se constituir um direito sobre as informações pessoais, a proteção de


dados pessoais tem um forte componente de autoconformação, tendo em
vista que somente o indivíduo pode determinar o âmbito da própria
privacidade, isto é, em que medida as suas informações pessoais podem ou
não ser coletadas, processadas e transferidas. Nesse aspecto, nota-se que a
proteção de dados pessoais é marcada por esse acentuado viés de
autocontrole e de liberdade pelo titular (MENDES, 2014, p. 60).

Logo, a ótica da liberdade econômica possibilita que a proteção de dados se revele


como uma possibilidade de um novo olhar acerca dos valores dos dados e de que forma seus
detentores podem ter voz mais ativa nas mesas de negociação no mundo virtual.
Não implica em dizer que será um descambo para um vale tudo entre particulares,
mas para uma defesa flexível e que mais empodere o titular dos dados para que este possa
negociar ou consentir em negócios jurídicos que envolvam tais dados.
CONCLUSÃO
A LGPD com sua base principiológica permite que haja o pressuposto da boa-fé
entre titulares de dados e operadores e controladores destes, o que leva a crer e acreditar na
possibilidade de que aqueles realizem negócios jurídicos com estes a partir de um
consentimento inequívoco.
O consentimento, por sua vez, e num processo dedutivo lógico, leva a crer que a
defesa dos dados pessoais não implica em um engessamento destes de modo que o titular não
possa deles dispor quando queira e saiba das reais implicações disto, bem como do
dimensionamento desta escolha.
É por esta razão que a LGPD deve primar, numa leitura que se alinhe ao espírito
da liberdade econômica, pela liberdade de pactuação entre as partes, mas favorecendo um
empoderamento do titular de dados e, aí sim, está seu papel protetivo primordial.

REFERÊNCIAS

BRASIL. [Lei Geral de Proteção de Dados]. Lei nº 13.709 de 14 de agosto de 2018.


Disponível em: < http://www.normaslegais.com.br/legislacao/lei-13709-2018.htm >. Acesso
em 08 mai. 2020.

BRASIL. [Lei da Liberdade Econômica]. Lei nº 13.874 de 20 de setembro de 2010.


Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-
2022/2019/lei/L13874.htm>. Acesso em 25 mai. 2020.

CORRÊA, Ana Carolina Mariano. Análise do consentimento na Lei de Proteção de Dados


Pessoais no Brasil e sua aplicação no mundo jurídico. Trabalho de Conclusão de Curso
(Bacharelado em Direito) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2019.

DONEDA, Danilo. Da privacidade à proteção de dados pessoais. Rio de Janeiro: Renovar,


2006.

MENDES, Laura Schertel. Transparência e privacidade: violação e proteção da


informação pessoal na sociedade de consumo. Dissertação (Mestrado) - Faculdade de
Direito da Universidade de Brasília. Brasília, 2008.